EDP: PROBLEMAS DE CONTORNO
Sumário
1 Equações Diferenciais Parciais Separáveis 2
1.1 Equações Lineares . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 2
2 Classificação de Equações 6
3 Equações do Calor e da Onda 7
4 Problemas de Valores de Contorno 8
4.1 Equação do Calor . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 9
4.2 Equação da Onda . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 12
1
1 EQUAÇÕES DIFERENCIAIS PARCIAIS SEPARÁVEIS
1.1 Equações Lineares
1. A forma geral de uma equação diferencial parcial de segunda ordem linear (EDP) em duas variáveis inde-
pendentes x e y é
∂ 2u ∂ 2u ∂ 2u ∂u ∂u
A 2 +B +C 2 +D +E + F u = G, (1)
∂x ∂x∂y ∂y ∂x ∂y
onde A, B, C, ..., G são funções de x e y.
2. Quando G(x, y) = 0, a equação se diz homogênea.
∂ 2u ∂ 2u
+ = 0.
∂x2 ∂y 2
3. Quando G(x, y) ̸= 0 dizemos que a equação é não homogênea.
∂ 2u ∂ 2u
2
− = x2 .
∂x ∂y
4. Uma solução de uma EDP em duas variáveis independentes x e y é uma função u(x, y) que possui todas as
derivadas parciais que comparecem na equação e que satisfaz a equação em alguma região do plano xy.
Juliano G. Oler
5. Uma solução obtida através do método de separação das variáveis, consiste em procuramos uma solução
particular na forma do produto de duas funções, uma dependendo somente de x e outra dependendo somente
de y, isto é,
u(x, y) = X(x)Y (y),
às vezes é possível reduzir uma equação de derivadas parciais linear em duas variáveis a duas equações
diferenciais ordinárias. Para tanto, notamos que
∂u ∂u
= X ′ Y, = XY ′
∂x ∂y
e
∂ 2u ∂ 2u
2
= X ′′ Y, 2
= XY ′′
∂x ∂y
onde as "linhas" denotam diferenciação ordinária.
EXERCÍCIO 1.1. Ache soluções em forma de produto de
∂ 2u ∂u
= 4 . (2)
∂x2 ∂y
SOLUÇÃO. Se u(x, y) = X(x)Y (y), a equação se escreve
X ′′ Y = 4XY ′ .
Dividindo por 4XY , separamos as variáveis:
X ′′ Y′
= .
4X Y
Como o membro esquerdo da última equação é independente de y e é igual ao membro direito, que é independente
de x, concluímos que ambos os membros da equação são independentes de x e y. Em outras palavras, cada membro
Juliano G. Oler
da equação deve ser uma constante. Na prática, é conveniente escrever essa constante real de separação como λ2 .
Distinguimos os três casos seguintes:
Caso I: Se λ2 > 0, as duas igualdades
X ′′ Y′
= = λ2
4X Y
conduzem a
X ′′ − 4λ2 X = 0 e Y ′ − λ2 Y = 0.
Essas últimas equações admitem as soluções
2
X = c1 cosh(2λx) + c2 sinh(2λx) e Y = c3 eλ y ,
respectivamente. Assim, uma solução particular da equação de derivadas parciais é
2 2 2
u = XY = (c1 cosh(2λx) + c2 sinh(2λx))(c3 eλ y ) = A1 eλ y cosh(2λx) + B1 eλ y sinh(2λx),
onde λ, c1 , c2 , B1 , c3 , A1 = c1 c3 , B1 = c2 c3 .
Caso II: Se λ2 < 0, as duas igualdades
X ′′ Y′
= = −λ2
4X Y
dão
X ′′ − 4λ2 X = 0 e Y ′ − λ2 Y = 0.
Como as soluções dessas equações são
2
X = c1 cosh(2λx) + c2 sinh(2λx) e Y = c3 eλ y ,
respectivamente, outra solução particular é
2 2
u = A1 eλ y cosh(2λx) + B1 eλ y sinh(2λx). (3)
Juliano G. Oler
onde A1 = c1 c3 , B1 = c2 c3 .
Caso III: Se λ2 = 0, decorre que
X ′′ = 0 e Y ′ = 0.
Nesse caso,
X = c1 x + c2 e Y = c3 ,
de forma que
u = Ax + B (4)
onde A = c1 c3 , B = c2 c3 .
Deixamos como exercício verificar que (3), (4) e (4) satisfazem a equação dada. Veja o Problema 30.
A separação de variáveis não é um método geral para achar soluções particulares: algumas equações de derivadas
parciais lineares simplesmente não são separáveis. O leitor deve verificar que a hipótese u = XY não conduz a uma
2 2
solução de ∂∂xu2 − ∂∂yu2 = 1.
TEOREMA 1.1 (Princípio da Superposição). Se u1 , u2 , ..., uk são soluções de uma equação de derivadas parciais
linear homogênea, então a combinação linear
u = c1 u1 + c2 u2 + · · · + ck uk ,
onde os ci , i = 1, 2, ..., k são constantes, também é solução.
No decorrer deste capítulo, admitiremos que, sempre que tivermos um conjunto infinito de soluções de uma
equação linear homogênea, poderemos obter uma outra solução formando a série infinita
∞
u=
X
un .
n=1
Juliano G. Oler
2 CLASSIFICAÇÃO DE EQUAÇÕES
Uma equação diferencial parcial linear de segunda ordem em duas variáveis independentes com coeficientes con-
stantes pode ser classificada de uma dentre três tipos. Essa classificação depende apenas dos coeficientes das
derivadas de segunda ordem. Naturalmente, admitimos que ao menos um dos coeficientes A, B e C seja diferente
de zero.
DEFINIÇÃO 2.1. A equação de derivadas parciais linear de segunda ordem
∂ 2u ∂ 2u ∂ 2u ∂u ∂u
A 2 +B +C 2 +D +E + F u = 0,
∂x ∂x∂ y ∂y ∂x ∂y
onde A, B, C, D, E e F são constantes reais, é
• hiperbólica, se B 2 − 4AC > 0,
• parabólica, se B 2 − 4AC = 0,
• elíptica, se B 2 − 4AC < 0.
EXERCÍCIO 2.1. Classifique as equações
2
∂2u
1. 3 ∂∂xu2 − ∂y 2 = 0.
∂2u ∂2u
2. ∂x2 − ∂y 2 = u.
∂2u ∂2u
3. ∂x2 + ∂y 2 = 0.
SOLUÇÃO. 1. Escrevendo a equação dada como
∂ 2u ∂ 2u ∂ 2u
3 2 −0 − = 0,
∂x ∂x∂y ∂y 2
Juliano G. Oler
podemos identificar A = 3, B = 0 e C = −1. Como B 2 − 4AC = 0, a equação é parabólica.
2. Escrevendo a equação como
∂ 2u ∂ 2u
− − u = 0,
∂x2 ∂y 2
vemos que A = 1, B = 0, C = −1 e B 2 − 4AC = −4(1)(−1) > 0. A equação é hiperbólica.
3. Com A = 1, B = 0, C = 1, temos que B 2 − 4AC = −4(1)(1) < 0. A equação é elíptica.
3 EQUAÇÕES DO CALOR E DA ONDA
Nesta parte do curso, nosso objetivo principal será o de encontrar soluções em forma de produto para as EDPs do
calor e da onda unidimensinais dadas por
∂ 2 u ∂u
k 2= , k>0 (5)
∂x ∂t
2
2∂ u ∂ 2u
a = 2 (6)
∂x2 ∂t
ou ligeiras variantes dessas equações.
Essas equações clássicas da física matemática são conhecidas, respectivamente, como equação unidimensional
do calor, equação unidimensional da onda
A expressão unidimensional se refere ao fato de que x denota uma dimensão espacial, enquanto t representa
o tempo.
Note que a equação do calor (5) é parabólica e a equação da onda (6) é hiperbólica.
Juliano G. Oler
4 PROBLEMAS DE VALORES DE CONTORNO
Problemas como
2
2∂ u ∂ 2u
resolver: = 2 , 0 < x < L, t > 0
a
∂x2
∂t
sujeito a:
(7)
(CC) : u(0, t) = 0, u(L, t) = 0, t > 0
∂u
(CI) : u(x, 0) = f (x), (x, 0) = g(x), 0 < x < L
∂t
∂ 2u ∂ 2u
resolver: + = 0, 0 < x < a, 0 < y < b
∂x2 ∂y 2
sujeito a:
(8)
∂u ∂u
(CC) : (0, y) = 0, (a, y) = 0, 0 < y < b
∂x ∂x
(CC) : u(x, 0) = 0, u(x, b) = f (x), 0 < x < a
são chamados problemas de valores de contorno.
Juliano G. Oler
4.1 Equação do Calor
Consideremos uma haste delgada de comprimento L com temperatura inicial f (x) em toda ela e com as extremidades
mantidas à temperatura zero para todo tempo t > 0. A temperatura u(x, t) na haste é determinada pela seguinte
equação do calor:
∂ 2 u ∂u
k = , 0 < x < L, t > 0, (9)
∂x2 ∂t
sujeita a:
(CC) : u(0, t) = 0 e u(L, t) = 0, (10)
(CI) : u(0, t)u(x, 0) = f (x). (11)
SOLUÇÃO. Utilizando o produto u(x, t) = X(x)T (t) como constante de separação, temos:
X ′′ (x) T ′ (t)
= = −λ2 . (12)
X(x) kT (t)
Resolvendo as equações diferenciais ordinárias resultantes, obtemos:
X ′′ (x) + λ2 X(x) = 0, (13)
T ′ (t) + kλ2 T (t) = 0. (14)
As soluções gerais para essas equações são dadas por:
X(x) = c1 cos(λx) + c2 sin(λx), (15)
2
T (t) = c3 e−kλ t . (16)
Juliano G. Oler
Mas como u(0, t) = X(0)T (t) = 0 e u(L, t) = X(L)T (t) = 0, devemos ter X(0) = 0 e X(L) = 0. Essas
condições de contorno, juntamente com a equação (13), levam a que c1 = 0. Portanto,
X(x) = c2 sin(λx).
A segunda condição de contorno implica X(L) = c2 sin(λL) = 0. Se c2 = 0, a última equação é satisfeita quando
λ = 0. Para obter uma solução não-trivial u, devemos ter c2 ̸= 0 e, assim, a última equação de forma que quando
nπ
sin(λL) = 0 =⇒ λL = nπ =⇒ λn = , n = 1, 2, 3, . . . .
L
Os valores
nπ
λn = , n = 1, 2, 3, . . . ,
L
e as soluções correspondentes
nπx
!
Xn (x) = c2 sin , n = 1, 2, 3, . . . ,
L
são, respectivamente, os autovalores e as autofunções do problema.
De (16) temos T (t) = c3 e−kλ t e assim
2
nπx −( nπ
e L ) kt ,
2
!
un (x, t) = Xn (x)T (t) = An sin
L
onde substituímos c2 c3 por An , uma constante. Os produtos un (x, t) satisfazem a equação de derivadas parciais (9)
e as condições de contorno (2) para cada valor do inteiro positivo n. Todavia, para que tais funções dadas em (10)
satisfaçam a condição inicial (3), teríamos de escolher o coeficiente An de tal forma que
nπx
!
un (x, 0) = f (x) = An sin .
L
Juliano G. Oler
Em geral, não esperamos que a condição (11) seja satisfeita para uma escolha arbitrária, porém razoável, de
f (x). Somos, pois, forçados a admitir que un (x, t) não é a solução do problema dado. Mas, pelo princípio da
superposição, a função
∞ nπx −( nπ )
! 2
u(x, t) = An sin kt
X
e L ,
n=1 L
deve também, ainda que formalmente, satisfazer (1) e (2). Fazendo t = 0 em (12) temos
∞ nπx
!
u(x, 0) = f (x) = An sin
X
.
n=1 L
Reconhecemos nessa última expressão o desenvolvimento em série de senos de f no intervalo (0, L). Assim,
identificando An = bn , n = 1, 2, 3, . . ., decorre de (5), Seção 11.3, que
2ZL nπx
!
An = f (x) sin dx.
L 0 L
Concluímos que uma solução do problema de contorno descrito em (1), (2) e (3) é dada pela série infinita
2 X∞ nπx nπx
dx e−k( L ) t sin
"Z ! # !
L nπ 2
u(x, t) = f (x) sin .
L n=1 0 L L
No caso especial u(x, 0) = 100, L = π, k = 1, verificamos que os coeficientes An são dados por
200 Z π 200 1 − (−1)n
An = sin(nx)dx = .
π 0 π n
e assim
200 X
∞ 1 − (−1)n 2
u(x, t) = e−n t sin(nx).
π n=1 n
Juliano G. Oler
4.2 Equação da Onda
Estamos agora em condições de resolver o problema de contorno (1) da Seção 12.2. O deslocamento vertical de
u(x, t) da corda vibrante de comprimento L da Figura 12.2(a) é determinado por
∂ 2u 2
2∂ u
= a , 0 < x < L, t > 0, (17)
∂t2 ∂x2
sujeito a:
(C.C) :u(0, t) = 0, u(L, t) = 0 e t > 0; (18)
∂u
(C.I) :u(x, 0) = f (x), (x, 0) = g(x) e 0 < x < L. (19)
∂t
SOLUÇÃO. Separando variáveis em (17), vem
X ′′ (x) T ′′ (t)
= 2 = −λ2 , (20)
X(x) a T (t)
de forma que
X ′′ (x) + λ2 X(x) = 0, (21)
T ′′ (t) + a2 λ2 T (t) = 0, (22)
e, por conseguinte,
X(x) = c1 cos(λx) + c2 sin(λx), (23)
T (t) = c3 cos(aλt) + c4 sin(aλt). (24)
Juliano G. Oler
Como anteriormente, as condições de contorno (2) se traduzem em X(0) = 0 e X(L) = 0. Por outro lado, temos
c1 = 0, c2 sin(λL) = 0.
Esta última equação dá os autovalores λn = L,
nπ
com n = 1, 2, 3, . . .. As autofunções correspondentes são
nπx
!
Xn (x) = c2 sin , n = 1, 2, 3, . . . .
L
Assim, as soluções da equação (1) que satisfazem as condições de contorno (2) são
nπat nπat nπx
" ! !# !
un (x, t) = An cos + Bn sin sin .
L L L
E fazendo t = 0 em (5), temos
∞ nπx
!
u(x, 0) = f (x) = An sin
X
,
n=1 L
que é um desenvolvimento de meio-intervalo de f em uma série de senos. Tal como na discussão da equação do
calor, podemos escrever
2ZL nπx
!
An = f (x) sin dx.
L 0 L
Para determinar Bn , diferenciamos (5) em relação a t e fazemos t = 0
∂u ∞ nπa
"
nπx nπa
!
nπx
!#
(x, 0) = g(x) = An sin + Bn cos
X
.
∂t n=1 L L L L
Para que essa última série seja um desenvolvimento de meio-intervalo de g em senos no intervalo, o coeficiente total
L deve ser dado pela forma de (5) na Seção 11.3, isto é,
Bn nπa
nπa 2ZL nπx
!
Bn = g(x) sin dx,
L L 0 L
Juliano G. Oler
de onde obtemos
2 ZL nπx
!
Bn = g(x) sin dx.
nπa 0 L
A solução do problema consiste da série (5) com An e Bn definidos por (6) e (7), respectivamente. Note que, quando
a corda é liberada do repouso, g(x) = 0 para todo x ∈ [0, L] e consequentemente, Bn = 0.
Juliano G. Oler