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Maquinas Termicas

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MÁQUINAS

TÉRMICAS

EAD
DIRIGENTES FICHA TÉCNICA
| PRESIDÊNCIA | AUTOR
Prof. Dr. Clèmerson Merlin Clève Prof. Me. Marciel Viapiana

| REITORIA | SUPERVISÃO DA PRODUÇÃO DE MATERIAIS EAD


Esp. Idamara Lobo Dias
Profª. Me. Albertina Nascimento

| PROJETO GRÁFICO
| DIRETORIA DE ENSINO Esp. Janaína de Sá Lorusso
Profª. Me. Daniela Ferreira Correa Esp. Cinthia Durigan

| DIRETORIA EXECUTIVA | DIAGRAMAÇÃO


Profª. Esp. Silmara Marchioretto Renata Arins

| COORDENAÇÃO PEDAGÓGICA DE GRADUAÇÃO EAD | REVISÃO


Prof. Me. João Marcos Roncari Mari Marilene Wojslaw Pereira Dias

| COORDENAÇÃO PEDAGÓGICA DE PÓS-GRADUAÇÃO EAD | PRODUÇÃO AUDIOVISUAL


Prof. Me. Marcus Vinícius Roncari Mari Esp. Dante Candal
Estúdio NEAD (Núcleo de Educação a Distância) -
UniBrasil

| ORGANIZAÇÃO
NEAD (Núcleo de Educação a Distância) -
UniBrasil

| IMAGENS
Shutterstock

EAD

EDIÇÃO: MAIO/2023
SUMÁRIO

UNIDADE 01 - MÁQUINAS TÉRMICAS E O CICLO RANKINE


OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM............................................................5
INTRODUÇÃO.........................................................................................6
1. O QUE SÃO MÁQUINAS TÉRMICAS...............................................6

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1.1 Eficiência térmica.............................................................................9
2. CICLO RANKINE............................................................................11
2.1 Balanço de energia no ciclo Rankine..............................................13
2.2 Ciclo Rankine ideal com reaquecimento.........................................17
2.3 Ciclo Rankine ideal regenerativo....................................................22
CONSIDERAÇÕES FINAIS.....................................................................27
UNIDADE 02 - REFRIGERADORES E BOMBAS DE CALOR
OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM..........................................................29
INTRODUÇÃO.......................................................................................30
1. APROVEITAMENTO NOS SISTEMAS DE POTÊNCIA A VAPOR .....30
1.1 Cogeração......................................................................................31
1.2 Eficiência das caldeiras?.................................................................36
2. CICLO DE REFRIGERAÇÃO............................................................38
2.1 Ciclo de Carnot reverso..................................................................38
2.2 Ciclo ideal e ciclo real de refrigeração............................................40
2.3 Seleção de fluido refrigerante........................................................45
2.4 Demais ciclos de refrigeração.........................................................46
3. BOMBAS DE CALOR......................................................................50
3.1 Coeficiente de performance da bomba de calor.............................51
CONSIDERAÇÕES FINAIS.....................................................................52
UNIDADE 03 - CICLOS A GÁS E MOTORES DE COMBUSTÃO INTERNA
OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM..........................................................53
INTRODUÇÃO.......................................................................................54
1. CICLOS DE POTÊNCIA A GÁS E O PADRÃO A AR..........................54
1.1 Ciclo Brayton.................................................................................56
SUMÁRIO

1.2 Ciclo padrão a ar para propulsão a jato..........................................65


2. MOTORES DE COMBUSTÃO INTERNA.........................................67
2.1 Terminologia e classificação...........................................................67
2.2 Ciclo Otto......................................................................................71

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2.3 Ciclo Diesel....................................................................................75
CONSIDERAÇÕES FINAIS.....................................................................79
UNIDADE 04 - COMBUSTÃO E MOTORES DE COMBUSTÃO INTERNA
OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM..........................................................80
INTRODUÇÃO.......................................................................................81
1. SISTEMAS REATIVOS....................................................................81
1.1 Combustíveis.................................................................................82
1.2 Combustão....................................................................................84
1.3 Entalpias de formação e combustão..............................................90
1.4 Poder calorífico.............................................................................92
2. CURVAS E ENSAIOS DE MOTORES DE COMBUSTÃO INTERNA....94
2.1 Dinamômetros...............................................................................96
2.2 Características e propriedades dos motores...................................98
2.3 Emissão de poluentes..................................................................102
CONSIDERAÇÕES FINAIS...................................................................103
REFERÊNCIAS.....................................................................................105
UNIDADE

01
MÁQUINAS TÉRMICAS
E O CICLO RANKINE

OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM

» Reconhecer a importância das máquinas térmicas e as circunstâncias de seu


surgimento.
» Identificar como ocorre a transformação de calor em trabalho por meio das má-
quinas térmicas.
» Caracterizar o ciclo de Rankine.
» Interpretar os limites da eficiência para máquinas térmicas.
» Descrever as variações comuns no ciclo de potência a vapor.

VÍDEOS DA UNIDADE

[Link] [Link] [Link]


INTRODUÇÃO
A aplicação de máquinas térmicas teve início no século XVIII e teve como foco principalmente
a propulsão de máquinas. Com a Revolução Industrial, as máquinas térmicas foram amplamente

UNIDADE 01
aplicadas no processo produtivo, aumentando a capacidade produtiva. Desde então, a aplicação
destes dispositivos teve sua escala aumentada, atualmente, são empregadas em diversas áreas,
como meios de transporte, processos de fabricação, máquinas industriais e geração de energia.
Com o aumento da aplicação das máquinas térmicas, surgiu a necessidade do desenvolvimen-
to das áreas de metalurgia, materiais e processos de fabricação, considerando, principalmente, a
sua aplicação e eficiência energética, que requerem propriedades cada vez melhores dos materiais

UNIBRASIL EAD | MÁQUINAS TÉRMICAS


empregados. Assim, as máquinas térmicas estão presentes em diversas áreas tecnológicas, sendo
extremamente necessário o seu entendimento.
Nesta Unidade você vai estudar o surgimento e a importância das máquinas térmicas, entender
como ocorre a transformação de calor em trabalho por meio das máquinas térmicas, além de se
aprofundar nas variações possíveis das instalações que operam no ciclo Rankine, o mais comumen-
te aplicado em processor que usam vapor como fluido de trabalho.

1. O QUE SÃO MÁQUINAS TÉRMICAS


Ao longo da história, o primeiro registro co- Figura 1 - Máquina a vapor
nhecido de uma máquina térmica é a Eolípila,
desenvolvida por Heron de Alexandria no sé-
culo I, é também conhecida como Máquina de
Heron, que consiste basicamente em uma tur-
bina a vapor. Tal dispositivo era preenchido ini-
cialmente com água e ao ser aquecido, devido
à pressão do vapor expelido pelos seus dutos
curvos, era forçado a rotacionar. Uma ilustra-
ção de uma Eolípila é apresentada na Figura 1
Diversos dispositivos passaram a ser desen-
volvidos a partir do princípio de funcionamento
dos motores a vapor, genericamente denomi-
nados máquinas térmicas. Estas passaram a ser
utilizadas como propulsão em veículos rebo-
cando grandes cargas e em sistemas de eleva-
ção, e com o passar do tempo chegaram aos
aviões, geradores termoelétricos e caldeiras.

6
VÍDEO

As primeiras máquinas térmicas não eram dispositivos de grande tecnologia, mas sim equipa-
mentos simples com o intuito de realizar atividades simples. O primeiro veículo movido a vapor

UNIDADE 01
foi construído em 1769 por Nicholas Josef Cugnot, dotado de uma caldeira alimentada a lenha,
usava vapor para deslocar êmbolos, que promoviam a rotação da roda dianteira por um sistema
mecânico de catracas. Uma réplica do mesmo foi construída e é apresentada em funcionamento
em raros desfiles históricos, veja o vídeo para mais detalhes do veículo.
Disponível em: [Link] Acesso em 25 out. 2022.

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Máquina térmica é, então, segundo Filho (2020), um equipamento que ao receber energia de
uma fonte é capaz de transformar parte desta energia em trabalho. O trabalho gerado por uma má-
quina térmica pode ser transformado mecanicamente em um sistema de transporte ou elevação,
ou ainda convertido em energia elétrica, de forma que possa ser facilmente utilizado distante do
ponto em que a máquina térmica se encontra. Existem ainda as máquinas térmicas denominadas
bombas de calor e refrigeradores, cujos objetivos são aquecer um ambiente frio ou refrigerar um
ambiente quente, respectivamente.
Segundo Çengel e Boles (2013), as máquinas tér- Figura 2 - Representação máquina térmica
micas diferem umas das outras consideravelmente,
mas mantêm algumas características em comum:
1. Recebem calor de uma fonte a alta tempera-
tura, que pode ser advinda de energia solar,
fornalha, combustão, reator nuclear etc.
2. Convertem parte do calor recebido em tra-
balho, geralmente através de eixo rotativo.
3. Descartam o restante do calor, não conver-
tido em trabalho, em um sumidouro à baixa
temperatura (ar ambiente, rios, lagos etc.)
4. Operam em ciclo.
Uma ilustração comum para máquinas térmicas
é aquela que mostra os reservatórios de alta e bai-
xa temperatura, entre os quais o calor flui sendo
Fonte: Çengel e Boles (2013).

parcialmente convertido em trabalho pela máquina


térmica, tal como na Figura 2.
Para a transferência de calor entre as fontes
quente e fria durante o ciclo termodinâmico, as má-
quinas térmicas utilizam de um fluido de trabalho.

7
Segundo Borgnakke e Sonntag (2018), o termo “máquina térmica” ou “motor térmico” é frequen-
temente utilizado para designar todos os dispositivos que produzem trabalho através da transferência
de calor ou combustão, mesmo que não opere em um ciclo termodinâmico. Os motores de combus-
tão interna e as turbinas a gás são exemplos de dispositivos que podem ser chamados de motores
térmicos, mas não operam em um ciclo termodinâmico, pois o fluido de trabalho não passa por um

UNIDADE 01
ciclo completo. Segundo Çengel e Boles (2013), estes dispositivos operam em um ciclo mecânico.
Para melhor compreensão do funcionamento de uma máquina térmica, utiliza-se a usina de
potência a vapor como exemplo, tal como ilustrado na Figura 3. A usina de potência a vapor apre-
sentada pode ser classificada como uma máquina de combustão externa, pois a queima ocorre fora
do ciclo, agindo apenas como fonte de calor para o vapor na região da caldeira.

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Figura 3 - Usina de potência a vapor

Fonte: Çengel e Boles (2013).

8
No diagrama esquemático apresentado podemos observar as grandezas de iteração de calor e
trabalho, cujos significados são:
• Qent = quantidade de calor fornecida ao fluido de trabalho na fonte de calor a alta tempera-
tura. No caso da caldeira, a combustão de lenha é responsável por tal fornecimento.

UNIDADE 01
• Qsai = Quantidade de calor descarregada na fonte fria, a baixa temperatura. No exemplo ilus-
trado isto ocorre em um condensador, que consiste em um trocador de calor onde o fluido
de trabalho é refrigerado pela passagem de ar ou água de rios ou lagos.
• Wsai = Trabalho realizado pelo vapor ao passar pela turbina, convertendo energia térmica do
fluido em energia mecânica de rotação.
• Went = trabalho necessário para que a bomba ou compressor eleve a pressão da água até a

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necessária para entrada na caldeira.
Geralmente, uma relação mecânica entre o eixo da turbina e da bomba pode ser representada,
de forma que parte do trabalho gerado pelo fluido durante sua expansão na turbina seja utilizada
para comprimir o fluido ao ser enviado novamente para a caldeira. Esta disposição facilita a com-
preensão do conceito de trabalho líquido, apresentada a seguir.
Observando a Figura 3, notamos que as iterações de calor e trabalho possuem os subíndices
“ent” e “sai”, relacionados a entradas e saídas de calor e trabalho. Sendo assim, tais grandezas se-
rão sempre positivas.
Trabalho deve ser fornecido à bomba, enquanto uma maior quantidade de trabalho é gerada
pela turbina, ou seja, a máquina térmica apresentará uma grandeza definida como trabalho líquido,
que consiste no disposto na Equação (1).

𝑊𝑙𝑖𝑞,𝑠𝑎𝑖 = 𝑊𝑠𝑎𝑖 − 𝑊𝑒𝑛𝑡 (1)

Considerando que a máquina térmica em análise opera em regime permanente, completando


um ciclo termodinâmico e em sistema fechado, ou seja, sem adição ou perda de massa, pode-se
afirmar que a variação de energia interna durante o ciclo é nula e, portanto, o trabalho líquido do
sistema é igual a transferência líquida de calor:

𝑊𝑙𝑖𝑞,𝑠𝑎𝑖 = 𝑄𝑒𝑛𝑡 − 𝑄𝑠𝑎𝑖 (2)

1.1 EFICIÊNCIA TÉRMICA


Segundo Borgnakke e Sonntag (2018), o conceito de eficiência consiste em uma razão entre o
que é produzido (energia pretendida) e o que é usado (energia consumida).
Para o caso de motores térmicos, a energia pretendida é o trabalho produzido no eixo da turbina,
enquanto a energia consumida para tal geração é aquela fornecida através do reservatório a alta
temperatura, que para o caso da usina de geração a vapor, consiste no calor fornecido pela caldeira.

9
A eficiência térmica é então definida por:

𝑊 𝑒𝑛𝑒𝑟𝑔𝑖𝑎 𝑝𝑟𝑒𝑡𝑒𝑛𝑑𝑖𝑑𝑎 𝑄𝑒𝑛𝑡 − 𝑄𝑠𝑎𝑖 𝑄𝑠𝑎𝑖


𝜂𝑡é𝑟𝑚𝑖𝑐𝑜 = = = 1− (3)
𝑄𝑒𝑛𝑡 𝑒𝑛𝑒𝑟𝑔𝑖𝑎 𝑔𝑎𝑠𝑡𝑎 𝑄𝑒𝑛𝑡 𝑄𝑒𝑛𝑡

UNIDADE 01
Da mesma maneira que as máquinas térmicas, as bombas de calor e os refrigeradores operam
entre dois meios, um a alta temperatura e outro a baixa temperatura. Para facilitar então a represen-
tação destes fluxos de calor, que dependendo do dispositivo pode estar se deslocando para o fluido
de trabalho ou do fluido de trabalho, utiliza-se QH para representar a magnitude do calor transferido
na fonte quente e QL para representar a magnitude do calor transferido na fonte fria, independente
do sentido em que ocorrem. As equações (2) e (3) podem ser escritas utilizando também QH e QL.

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Exemplo 1 (Çengel e Boles, 2013): Calor é transferido de uma fornalha para uma máquina tér-
mica a uma taxa de 80 MW. Considerando que a taxa na qual calor é rejeitado para um rio pró-
ximo é de 50 MW, determine a potência líquida produzida e a eficiência térmica da máquina.

Figura 4 - Exemplo 1

Fonte: Çengel e Boles (2013).

Solução: Inicialmente é necessário considerar que as perdas de calor pelas tubulações e


demais componentes sejam desprezíveis. De acordo com as informações disponíveis, a for-
nalha fornece calor ao sistema, então será o reservatório de alta temperatura, responsável
por fornecer Q̇ H = 80 MW ao sistema. Já o rio é o reservatório de baixa temperatura, res-
ponsável por remover Q̇ L = 50 MW do sistema.

10
De acordo com a equação (2), Wliq,sai = Qent – Qsai, logo:

𝑊̇𝑙𝑖𝑞,𝑠𝑎𝑖 = 𝑄𝐻̇ − 𝑄̇𝐿 = 80 − 50 = 𝟑𝟎 𝑴𝑾

De forma semelhante, aplicamos a equação (3) para obter a eficiência térmica:

UNIDADE 01
̇
𝑊𝑙𝑖𝑞,𝑠𝑎𝑖 30 𝑀𝑊
𝜂𝑡 = = = 0,375 ∴ 𝟑𝟕, 𝟓%
𝑄𝐻̇ 80 𝑀𝑊

Ou seja, apenas 37,5% do calor recebido pela máquina térmica é convertido em trabalho,
enquanto o restante é descartado em rios e lados.

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Quando se analisa a eficiência de sistemas térmicos, é natural o interesse em se elevar ao má-
ximo a eficiência dos sistemas reais, mas existe um limite termodinâmico para esta eficiência, que
é limitado pela temperatura dos ambientes quente e frio com os quais a máquina térmica troca
calor. Se definirmos a temperatura do ambiente quente como TH e a temperatura do ambiente frio
como TL, a máxima eficiência de uma máquina térmica que opera entre estes reservatórios será
definida pela equação:

𝑇𝐿
𝜂𝑚á𝑥 = 1 − (4)
𝑇𝐻

Vários são os dispositivos capazes de converter energia térmica em trabalho de eixo, e entre eles,
a aplicação de vapor como fluido de trabalho é a decisão mais amplamente utilizada.
Nos ciclos que operam com vapor, é necessário analisarmos as trocas de calor que ocorrem
em cada porção do sistema, desde o mecanismo de recebimento de energia na fonte quente, a
conversão de energia em trabalho, o descarte de energia em um sumidouro e a compressão para
reinício do ciclo.
É de conhecimento amplo na termodinâmica que o ciclo considerado genericamente ideal é
o ciclo de Carnot, porém para trabalhar continuamente com vapor em um sistema fechado, este
apresenta algumas complicações relacionadas à troca de temperatura, título da mistura durante a
expansão na turbina e elevadas pressões na etapa de compressão. Desta forma, a aproximação de
um sistema real pelo ciclo de Carnot não é realista, logo, inadequada.
Para isto, utilizaremos o ciclo de Rankine, considerado o ciclo ideal de potência utilizando vapor
como fluido de trabalho.

2. CICLO RANKINE
Citados os problemas do ciclo de Carnot ao trabalhar com vapor, segundo Çengel e Boles (2013),
podemos afirmar que muitos deles se resolvem no ciclo de Rankine ao se superaquecer o vapor de

11
água na caldeira e condensá-lo completamente no condensador, de acordo com o diagrama tem-
peratura-entropia da Figura 5 que resulta no denominado Ciclo de Rankine. Mas antes é prudente
descrever melhor em que consiste tal ciclo.
Segundo Borgnakke e Sonntag (2018), o Ciclo de Rankine ideal é composto por quatro proces-
sos internamente reversíveis:

UNIDADE 01
• 1 → 2: Compressão isentrópica pela bomba
• 2 → 3: Transferência de calor a pressão constante em uma caldeira
• 3 → 4: Expansão isentrópica em uma turbina
• 4 → 1: Transferência de calor a pressão constante no condensador

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Para o ciclo de potência a vapor, o recebimento de calor ocorre na etapa 3 → 4 através da cal-
deira, enquanto a rejeição de calor ocorre na etapa 4 → 1 através do condensador.
Uma ilustração do ciclo ideal de Rankine é apresentada na Figura 5, juntamente ao seu diagra-
ma temperatura-entropia.

Figura 5 - Ciclo ideal de Rankine

Fonte: Çengel e Boles (2013).

Para melhor compreender os quatro processos, as transformações e transferências são descritas


para suas respectivas análises de energia. Inicialmente a água entra na bomba (estado 1), como um
líquido saturado (líquido na eminência da mudança de estado), sendo então comprimido de forma
isentrópica até a pressão de trabalho da caldeira (estado 2).
Ao entrar na caldeira, que consiste em um grande trocador de calor, a água recebe energia e
evapora, em um processo isobárico, até o estado de vapor superaquecido (estado 3). Uma caldeira
pode ser alimentada de várias maneiras, seja pela queima de combustíveis ou a partir de reatores
nucleares. Por ser o dispositivo que promove a mudança de fase do fluido de trabalho, a caldeira é
comumente chamada de gerador de vapor.

12
O vapor superaquecido (estado 3) entra na turbina, onde se expande em um processo isentró-
pico e produz trabalho, geralmente através de um gerador acoplado em seu eixo. Após a passagem
pela turbina, devido à redução da pressão e da temperatura do fluido de trabalho, este se encontra
como uma mistura de líquido e vapor saturados, com título elevado (estado 4).
O condensador, por fim, recebe o fluido de trabalho como no estado 4 e promove sua condensa-

UNIDADE 01
ção a pressão constante, levando o fluido ao estado 1, onde há apenas líquido saturado novamente
e o ciclo se reinicia. O condensador, assim como a caldeira, é um grande trocador de calor, com a
diferença que sua responsabilidade é remover calor do fluido de trabalho e descarregar em meios
como rios, lagos ou atmosfera.
É de conhecimento que a área sobre uma curva temperatura-entropia representa o calor trans-
ferido em um processo internamente reversível. Portanto, a área sob a curva do processo 2 → 3

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representa o calor fornecido ao fluido de trabalho pela caldeira, enquanto a área sob a curva 4 → 1
representa o calor removido do fluido de trabalho pelo condensador. A subtração destas áreas re-
sulta na região compreendida pela curva do ciclo, que consiste, de acordo com a equação (2), no
trabalho líquido (Wlíq) produzido durante o ciclo.

2.1 BALANÇO DE ENERGIA NO CICLO RANKINE


Os componentes envolvidos no ciclo de Rankine já são conhecidos termodinamicamente, o ba-
lanço de energia com a relação de mudanças entre estados será brevemente reapresentado para
posterior análise com dados numéricos.
Os componentes do ciclo de Rankine (bomba, caldeira, turbina e condensador) operam com
escoamento em regime permanente ao longo do ciclo, por isso os quatro processos podem ser
analisados como tal.
Partindo da equação geral de energia para fluidos com escoamento em regime permanente, temos:

(𝑉𝑒2 − 𝑉𝑠2 )
0 = 𝑄̇𝑣𝑐 − 𝑊̇𝑣𝑐 + 𝑚̇ ℎ 𝑒 − ℎ 𝑠 + + 𝑔 𝑧𝑒 − 𝑧𝑠 (5)
2

onde:
Q̇ vc = Taxa de transferência de calor para o volume de controle.
Ẇvc =Trabalho realizado sobre o volume de controle.
ṁe = fluxo de massa do escoamento.
he e hs = entalpias na entrada e na saída do volume de controle, respectivamente.
Ve e Vs = velocidade do fluido na entrada e na saída do volume de controle, respectivamente.
z e e z s = posição vertical da entrada e da saída do escoamento no volume de controle,
respectivamente.

13
Sabe-se que as variações de energia cinética e potencial do vapor nos dispositivos do ciclo de
Rankine são muito pequenas quando comparadas as demais grandezas, por isso, são geralmente
desprezadas. Desta forma, a equação da energia a ser aplicada passa a ser a forma compacta, já
por unidade de massa de vapor:

UNIDADE 01
𝑞𝑒𝑛𝑡 − 𝑞𝑠𝑎𝑖 + 𝑤𝑒𝑛𝑡 − 𝑤𝑠𝑎𝑖 = ℎ 𝑠𝑎𝑖 − ℎ 𝑒𝑛𝑡 (6)

Esta equação utiliza apenas grandezas de energia por unidade de massa (kJ/kg).
Entre os dispositivos envolvidos no ciclo, o condensador e a caldeira não envolvem interações
de trabalho, sendo estes isentrópicos. A equação da conservação de energia para a caldeira é então

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simplificada para a equação (7), enquanto do condensador se torna a equação (8).
Já a turbina e a bomba realizam apenas interações de trabalho e são transições adiabáticas, en-
tão o balanço de energia para estes dispositivos pode ser simplificado para as equações (9) e (10)
respectivamente. Para o caso da bomba, onde o fluido de trabalho se encontra no estado líquido,
muitas vezes é conveniente utilizar a equação alternativa (15), onde opera-se a diferença de pres-
são entre os estados utilizando-se o volume específico do líquido saturado na pressão do estado
um: 𝜈 ≅ 𝜈1 = 𝜈𝑙@𝑃1.

𝑞𝑐𝑎𝑙𝑑,𝑒𝑛𝑡 = ℎ 3 − ℎ 2 (7)

𝑞𝑐𝑜𝑛𝑑,𝑠𝑎𝑖 = ℎ 4 − ℎ 1 (8)

𝑤𝑡𝑢𝑟𝑏,𝑠𝑎𝑖 = ℎ 3 − ℎ 4 (9)

𝑤𝑏𝑜𝑚𝑏𝑎,𝑒𝑛𝑡 = ℎ 2 − ℎ 1 (10)

𝑤𝑏𝑜𝑚𝑏𝑎,𝑒𝑛𝑡 = 𝜈 𝑃2 − 𝑃1 (11)

Exemplo 2 (Çengel e Boles, 2013): Considere uma usina de potência a vapor de água que
opera segundo o ciclo de Rankine simples ideal. O vapor entra na turbina a 3 MPa e 350 °C e é
condensado no condensador à pressão de 75 kPa. Determine a eficiência térmica desse ciclo.

14
Figura 6 - Exemplo 2

UNIDADE 01
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Fonte: Çengel e Boles (2013).

Solução: inicialmente observamos que a instalação opera de acordo com o ciclo ideal de
Rankine, então as equações (7) a (15) podem ser utilizadas para o balanço de energia em
cada dispositivo. Podemos considerar também que a bomba e a turbina operam de forma
isentrópica, enquanto o condensador e a caldeira operam a pressão constante.
A obtenção da eficiência térmica requer, segundo a equação (3), o cálculo das quantidades
de calor transferidas pelas fontes quente e fria, ou ao menos a energia fornecida pela fonte
quente e o trabalho líquido do ciclo. Para qualquer das opções, os estados 1 a 4 devem ter
suas propriedades conhecidas, para que os balanços de energia sejam aplicados.
Para determinar as propriedades dos fluidos, valores tabelados são necessários. Vários con-
juntos de tabelas de propriedades estão disponíveis na bibliografia, para este exercício, onde
vapor d’água é utilizado, Çengel e Boles (2013) disponibilizam as tabelas A-4 a A-8 em seus
anexos, das quais serão utilizadas A-4, A-5 e A-6, que representam as propriedades da mis-
tura saturada com entradas em temperatura e pressão, e as propriedades para o vapor su-
peraquecido, respectivamente.
Estado 1 - líquido saturado a 75 kPa. Pela tabela A-5:

ℎ 1 = ℎ 𝑙@75𝑘𝑃𝑎 = 𝟑𝟖𝟒, 𝟒𝟒 𝒌𝑱/𝒌𝒈

𝜈 = 𝜈𝑙@75𝑘𝑃𝑎 = 0,001037 𝑚3 /𝑘𝑔

Estado 2 - líquido a 3 MPa (P2 = P3, s2 = s1). Pelas equações (15) e (10):

𝑤𝑏𝑜𝑚𝑏𝑎,𝑒𝑛𝑡 = 𝑣 𝑃2 − 𝑃1 = 0,001037 3000 − 75 = 3,03 𝑘𝐽/𝑘𝑔

ℎ 2 = ℎ 1 + 𝑤𝑏𝑜𝑚𝑏𝑎,𝑒𝑛𝑡 = 384,44 + 3,03 = 𝟑𝟖𝟕, 𝟒𝟕 𝒌𝑱/𝒌𝒈

15
Estado 3 - Vapor superaquecido a 3 MPa e 350 °C: Pela tabela A-6

𝒉𝟑 = 𝟑𝟏𝟏𝟔, 𝟏 𝒌𝑱/𝒌𝒈

𝑠3 = 6,7450 𝑘𝐽/𝑘𝑔

UNIDADE 01
Estado 4 - Mistura saturada a 75 kPa. Por termos uma mistura, o título deve ser calculado
primeiramente, para a obtenção da entalpia da mistura. Pela tabela A-5, associando as in-
formações do estado 3, já que s4 = s3:

𝑠4 − 𝑠𝑙 6,7450 − 1,2132
𝑥4 = = = 0,8861
𝑠𝑙𝑣 6,2426

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ℎ 4 = ℎ 𝑙 − 𝑥 4ℎ𝑙𝑣 = 384,44 + 0,8861 2278,0 = 𝟐𝟒𝟎𝟑, 𝟎 𝒌𝑱/𝒌𝒈

Assim, conhecemos então a entalpia de todos os estados do sistema e podemos aplicar as


equações do balanço de energia previamente deduzidas para cada dispositivo. Primeiramente
obteremos todas as iterações de trabalho e energia, a fim de exercitar este procedimento,
posteriormente calcularemos a eficiência térmica, solicitada pelo enunciado deste problema.
O trabalho fornecido pela bomba já foi calculado no início deste exercício.

𝑤𝑏𝑜𝑚𝑏𝑎,𝑒𝑛𝑡 = 3,03 𝑘𝐽/𝑘𝑔

Para a turbina, a caldeira e o condensador, basta aplicarmos a diferença das entalpias do


fluido de trabalho na entrada e saída do dispositivo:

𝑞𝑐𝑎𝑙𝑑,𝑒𝑛𝑡 = ℎ 3 − ℎ 2 = 3116,1 − 387,47 = 2728,6 𝑘𝐽/𝑘𝑔

𝑞𝑐𝑜𝑛𝑑,𝑠𝑎𝑖 = ℎ 4 − ℎ 1 = 2403,0 − 384,44 = 2018,6 𝑘𝐽/𝑘𝑔

𝑤𝑡𝑢𝑟𝑏,𝑠𝑎𝑖 = ℎ 3 − ℎ 4 = 3116,1 − 2403,0 = 713,1 𝑘𝐽/𝑘𝑔

O cálculo da eficiência térmica pode agora ser realizado por duas formas da equação (3):
𝑞𝑠𝑎𝑖 𝑞𝑐𝑜𝑛𝑑,𝑠𝑎𝑖 2018,6
𝜂𝑡 = 1 − = 1− = 1− = 0,260 ∴ 𝟐𝟔%
𝑞𝑒𝑛𝑡 𝑞𝑐𝑎𝑙𝑑,𝑒𝑛𝑡 2728,6

Ou ainda, através do trabalho líquido:

𝑤𝑙í𝑞 = 𝑤𝑡𝑢𝑟𝑏,𝑠𝑎𝑖 − 𝑤𝑏𝑜𝑚𝑏𝑎,𝑒𝑛𝑡 = 713,1 − 3,03 = 710,1 𝑘𝐽/𝑘𝑔

De forma que:
𝑤𝑙í𝑞 710,1
𝜂𝑡 = = = 0,260 ∴ 𝟐𝟔%
𝑞𝑒𝑛𝑡 2728,6

Note que este sistema opera de acordo com o ciclo ideal de Rankine, em condições reais
devido às irreversibilidades existentes, a eficiência térmica será menor que este valor.

16
REFLITA

A instalação de geração de potência a partir de vapor apresentada no exercício 2 apresenta valor


de eficiência aparentemente baixo, ainda que operando em um ciclo ideal de Rankine. A pergunta

UNIDADE 01
que se faz é: esta eficiência poderia ser elevada?
Teoricamente sim, mas dentro de um limite. O ciclo de Rankine é o ideal para lidar com vapor,
maior eficiência seria possível se aplicássemos o ciclo de Carnot, mas este não é prático devido a
fenômenos já descritos.
O ciclo de Carnot apresentaria a maior eficiência térmica possível entre estes dois reservatórios,
valor que pode ser calculado a partir das temperaturas, tal como a equação (4) apresenta:

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𝑇𝐿 91,76 + 273
𝜂𝑚á𝑥 = 1 − = 1− = 0,415 ∴ 𝟒𝟏, 𝟓%
𝑇𝐻 350 + 273

Repare que a temperatura do ambiente frio (91,76 °C) pode ser obtida na tabela de proprieda-
des como a temperatura na qual o fluido de trabalho se encontra nas condições existentes no
condensador.

2.2 CICLO RANKINE IDEAL COM REAQUECIMENTO


Os sistemas de potência a vapor já têm sua importância e aplicabilidade demonstrada, resta
empenhar esforços em aumentar a eficiência destes sistemas.
Entre as possibilidades para que a eficiência do ciclo seja aumentada, a elevação da pressão na
caldeira é a principal. Tal elevação de pressão promove também a elevação da temperatura do fluido
de trabalho, permitindo transferir maior quantidade de energia para ele. O diagrama temperatura-
-entropia da Figura 7 apresenta uma situação hipotética na qual se fixa a temperatura máxima do
fluido e eleva-se a pressão de trabalho, demonstrando como o trabalho líquido do ciclo pode ser
aumentado pela elevação da pressão (processo 2' → 3', ante o processo 2 → 3).
Em contrapartida, o título da mistura saturada ao deixar a turbina é inferior ao caso sem eleva-
ção de pressão, isto passa a ser um problema prático devido às consequências da presença de mais
líquido na turbina, fenômeno que acelera seu desgaste devido à cavitação nas pás.
Tendo em vista a intenção em elevar a eficiência do ciclo Rankine pela elevação da pressão na
caldeira, sem as consequências negativas geradas pelo menor título na saída da turbina, desenvol-
veu-se o ciclo com reaquecimento, tema desta seção.

17
Figura 7 - Efeito da pressão na caldeira no ciclo Rankine

UNIDADE 01
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Fonte: Borgnakke e Sonntag (2018).

Segundo Moran (2018), o ciclo com reaquecimento objetiva tirar proveito do aumento de efi-
ciência promovido pela elevação da pressão na caldeira, enquanto evita um título baixo do vapor
na saída da turbina.
O ciclo com reaquecimento consiste basicamente em promover a expansão do fluido de traba-
lho em duas etapas, com nova passagem do fluido pela caldeira. A primeira etapa é realizada por
uma turbina de alta pressão, o fluido como vapor superaquecido se expande até um estado inter-
mediário entre a caldeira e o condensador, então retorna a caldeira (gerador de vapor), para um
novo aquecimento a pressão constante, para então passar pela segunda turbina, a de baixa pres-
são, onde a expansão ocorre até a pressão e temperatura do condensador.

Figura 8 - Ciclo Rankine com reaquecimento

Fonte: Çengel e Boles (2013).

O exemplo a seguir ilustra o procedimento de análise de sistemas com reaquecimento, assim


como evidencia a eficiência superior que se obtém neste tipo de ciclo de potência.

18
Exemplo 3 (Moran, 2018): O vapor d’água é o fluido de trabalho em um ciclo ideal de Ranki-
ne com reaquecimento. O vapor entra na turbina do primeiro estágio a 8,0 MPa e 480 °C, e
se expande até 0,7 MPa. Em seguida, é reaquecido até 440 °C antes de entrar na turbina do
segundo estágio, onde se expande até a pressão do condensador de 0,008 MPa. A potência

UNIDADE 01
líquida na saída é de 100 MW. Determine:
a) A eficiência térmica do ciclo;
b) A vazão mássica do vapor, em kg/h;
c) A taxa de transferência de calor do vapor que condensa quando passa pelo condensador,
em MW.

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Uma ilustração esquemática do ciclo e seu respectivo diagrama temperatura-entropia é
apresentado na Figura 9.

Figura 9 - Exemplo 3

Fonte: Moran (2018).

Solução: tal como já realizado no Exemplo 2, a análise de ciclos é baseada na mudança de


estados do fluido de trabalho, então a etapa principal consiste na definição por completo
de todos os estados. Neste exemplo, para fins de conhecimento, serão utilizadas as tabelas
disponíveis em Moran (2018), que para a água como fluido de trabalho são de A-2 a A-6. As
tabelas a serem utilizadas podem ser encontradas em várias bibliografias, a escolha é livre.
Estado 1: Vapor superaquecido a 480 °C e 8,0 MPa. Pela tabela A-4:

𝑘𝐽
ℎ 1 = 𝟑𝟑𝟒𝟖, 𝟒
𝑘𝑔

𝑘𝐽
𝑠1 = 6,6586
𝑘𝑔. 𝐾

19
Estado 2: Mistura saturada, p2 = 0,7 MPa e s2 = s1. Pode-se identificar o estado como uma
mistura (mesmo sem o diagrama fornecido), pois para esta pressão, a entropia está entre a
do líquido saturado (sf) e do vapor saturado (sg), então é necessário definir o título da mis-
tura. Pela tabela A-3:
𝑠2 − 𝑠𝑓 6,6586 − 1,9922

UNIDADE 01
𝑥2 = = = 0,9895
𝑠𝑔 − 𝑠𝑓 6,708 − 1,9922

De forma que a entalpia possa ser obtida:


𝑘𝐽
ℎ 2 = ℎ 𝑓 + 𝑥 2 ℎ𝑓𝑔 = 697,22 + 0,9895 ∙ 2066,3 = 𝟐𝟕𝟒𝟏, 𝟖
𝑘𝑔

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Estado 3: Vapor superaquecido a 440 °C e 0,7 MPa. Pela tabela A-4:

𝑘𝐽
ℎ 3 = 𝟑𝟑𝟓𝟑, 𝟑
𝑘𝑔

𝑘𝐽
𝑠3 = 7,7571
𝑘𝑔. 𝐾

Estado 4: Mistura saturada, p4 = 0,008 MPa e s4 = s3. Pela tabela A-3, iniciando-se pela ob-
tenção do título:
𝑠4 − 𝑠𝑓 7,7571 − 0,5926
𝑥4 = = = 0,9382
𝑠𝑔 − 𝑠𝑓 8,2287 − 0,5926

De forma que a entalpia seja:


𝑘𝐽
ℎ 4 = 173,88 + 0,9382 ∙ 2403,1 = 𝟐𝟒𝟐𝟖, 𝟓
𝑘𝑔

Estado 5: Líquido saturado a 0,008 MPa. Pela tabela A-3:

𝑘𝐽
ℎ 5 = 𝟏𝟕𝟑, 𝟖𝟖
𝑘𝑔

Estado 6: Líquido comprimido com s6 = s5. Como se trata de líquido comprimido, é conve-
niente analisar este estado pela soma do estado 5 (cujo volume específico é ν = 1,0084 ×
10-3 m3/kg) com o trabalho da bomba, utilizando então a tabela A-3:

ℎ 6 = ℎ 5 + 𝜈 𝑝6 − 𝑝5 = 173,88 + 1,0084 × 10 −3 8,0 − 0,008 = 𝟏𝟖𝟏, 𝟗𝟒 𝑘𝐽/𝑘𝑔

Agora que conhecemos todos os estados, podemos obter os valores solicitado pelo problema.
a) Para obter a eficiência térmica, precisamos da potência líquida do ciclo, assim como a
quantidade de calor recebido na fonte quente. A potência líquida desenvolvida pelo ciclo
consiste na soma das potências desenvolvidas nas turbinas subtraído da potência consumida

20
pela bomba. Até o momento os dados foram apresentados em termo de unidades de massa,
porém a potência requer uma análise completa, considerando o fluxo mássico. Desta forma:

𝑊̇𝑐𝑖𝑐𝑙𝑜 = 𝑊̇𝑡𝑢𝑟𝑏𝑖𝑛𝑎1 + 𝑊̇𝑡𝑢𝑟𝑏𝑖𝑛𝑎2 − 𝑊̇𝑏𝑜𝑚𝑏𝑎

Sendo a potência em cada dispositivo igual ao trabalho específico multiplicado pelo fluxo

UNIDADE 01
mássico. O trabalho específico em cada dispositivo foi apresentado anteriormente no balan-
ço de energia para cada dispositivo.

𝑊̇𝑐𝑖𝑐𝑙𝑜 = 𝑚̇ ℎ 1 − ℎ 2 + ℎ 3 − ℎ 4 − ℎ 6 − ℎ 5

Já a quantidade de calor recebido na caldeira será a soma das transferências obtidas nas

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duas passagens do fluido pela caldeira:

𝑄̇𝑒𝑛𝑡𝑟𝑎 = 𝑚̇ ℎ 1 − ℎ 6 + ℎ 3 − ℎ 2

O fluxo mássico ainda é desconhecido, mas devido à eficiência ser obtida pela razão entre o
trabalho líquido e o calor transferido, esta variável não influenciará na eficiência:

𝑊̇𝑐𝑖𝑐𝑙𝑜 ℎ1 − ℎ2 + ℎ3 − ℎ4 − ℎ6 − ℎ5
𝜂= = =
𝑄̇ 𝑒𝑛𝑡𝑟𝑎 ℎ1 − ℎ6 + ℎ3 − ℎ2

3348,4 − 2741,8 + 3353,3 − 2428,5 − 181,94 − 173,88 1523,3


= = 0,403 ∴ 𝟒𝟎, 𝟑%
3348,4− 181,94 + 3353,3 − 2741,8 3778

b) A vazão mássica pode ser obtida a partir do dado do problema que diz que a potência lí-
quida do ciclo é de 100 MW:

ℎ1 − ℎ2 + ℎ3 − ℎ4 − ℎ6 − ℎ5
𝑚̇ =
𝑊̇𝑐𝑖𝑐𝑙𝑜

3348,4 − 2741,8 + 3353,3 − 2428,5 − 181,94 − 173,88 𝑘𝐽/𝑘𝑔


𝑚̇ =
100 𝑀𝑊

Convertendo-se o fluxo mássico para kg/h obtém-se ṁ = 2,363 × 105 kg/h.


c) Por fim, a taxa de transferência de calor para o reservatório à baixa temperatura consis-
tirá em:
𝑘𝑔 𝑘𝐽
𝑄̇𝑠𝑎𝑖 = 𝑚̇ ℎ 4 − ℎ 5 = 2,363 × 105 ∙ 2428,5 − 173,88
ℎ 𝑘𝑔

O resultado deve ser convertido por o fluxo mássico ocorre por hora, sendo a taxa de trans-
ferência avaliada por segundo, resultando em Q̇ sai = 148 MW.

21
SAIBA MAIS

Os diagramas temperatura-entropia nem sempre estão disponíveis, cabe a nós saber desenvolvê-
-los, para isto, visite a seção 7.3 de Çengel e Boles (2013), disponível na Minha Biblioteca (https://

UNIDADE 01
[Link]/#/books/9788580552010/) para melhor compreender como
estes diagramas podem ser construídos, da mesma forma como as linhas de entalpia e pressão
constantes se expressam nestes diagramas.
ÇENGEL, Y.A.; BOLES, M.A. Termodinâmica. Grupo A, 2013.

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2.3 CICLO RANKINE IDEAL REGENERATIVO
Uma análise cuidadosa do diagrama temperatura-entropia do ciclo Rankine, tal como exposto
na Figura 10, nos permite observar que o líquido que entra na turbina para a etapa de recebimento
de energia (etapa 2 → 2'), o faz a uma temperatura bastante baixa, tornando o processo de troca
de energia menos eficiente.
Uma alteração no processo que permita a elevação da temperatura do fluido que sai da bomba
antes de entrar na caldeira proporcionaria uma maior temperatura média nesta interface, e conse-
quentemente uma maior eficiência na troca. A maneira mais simples de se efetuar este pré-aqueci-
mento é fazer com que o calor liberado pela expansão do fluido de trabalho na turbina seja transferido
para o fluido que sai da bomba (chamado de fluido de alimentação). Para isto, uma espécie de tro-
cador de calor é utilizado dentro da turbina, com fluxo em contracorrente, sendo este processo de-
nominado “regeneração”, pois utiliza energia do próprio ciclo para pré-aquecer o fluido de trabalho.

Figura 10 - Diagrama temperatura-entropia do ciclo Rankine

Fonte: Çengel e Boles (2013).

22
O uso de regenerados reduz a aeração do fluido de trabalho que sai do condensador para evitar
corrosão da caldeira, além de utilizar parte do vapor no final do processo de expansão na turbina
como fonte de energia para o aquecimento do fluido de alimentação. Este vapor na saída da turbina
possui elevada vazão volumétrica devido à expansão e redução da pressão, não sendo totalmente
aproveitado para geração de trabalho, motivo pelo qual o uso do regenerador é amplamente utili-

UNIDADE 01
zado também para reaproveitar parte da energia do fluido que seria perdida.
Dentre os tipos de trocador de calor possíveis para os sistemas regenerativos, existem os siste-
mas abertos e os sistemas fechados, que serão descritos a seguir.

2.3.1 AQUECEDORES DE ALIMENTAÇÃO ABERTOS

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Um aquecedor de água de alimentação aberto é basicamente uma câmara de mistura, onde o
vapor removido da turbina é misturado com a água de alimentação que sai da bomba, formando
uma corrente única. A Figura 11 ilustra um ciclo de potência a vapor regenerativo, juntamente ao
seu diagrama temperatura-entropia.

Figura 11 - Ciclo regenerativo com aquecedor de água de alimentação aberto

Fonte: Moran (2018).

Neste ciclo, o fluido de trabalho passa por processo isentrópico na turbina e nas bombas, e por
processo isobárico no gerador de vapor, no condensador e no aquecedor de água de alimentação.
Analisando o ciclo, vemos que o vapor entra na turbina de primeiro estágio no estado 1 e se
expande até o estado 2, onde uma fração é removida para o aquecedor, que opera a esta “pres-
são de extração”, o restante do vapor continua sua expansão na turbina de segundo estágio até o
estado 3. A porção que atingiu o estado 3 é condensada para líquido saturado no estado 4, para
então ser bombeada até a pressão de extração no estado 5, para ser introduzida no aquecedor de

23
alimentação. A partir do aquecedor, apenas uma corrente de fluido existe, caracterizando o estado
6. A vazão mássica de líquido saturado advinda da primeira bomba (a baixa temperatura) somada a
vazão mássica de vapor advinda da extração da turbina (a alta temperatura) devem resultar em uma
única vazão de líquido saturado no estado 6, à pressão de extração. O líquido é então novamente
bombeado (bomba 2) até a pressão de entrada no gerador de vapor (ou caldeira), estando então

UNIDADE 01
no estado 7. Por fim, o fluido de trabalho é aquecido até o estado 1 na saída do gerador de vapor.
A análise do ciclo regenerativo com aquecedor aberto requer a consideração de dois fluxos de
massa saindo da turbina (ṁ2 e ṁ3), de tal forma que somados resultem no fluxo mássico que entra
neste dispositivo (ṁ1). Destes fluxos de massa, um representa a extração que segue para o aque-
cedor (ṁ2), enquanto o outro retorna para o segundo estágio da turbina (ṁ3).
Desta forma a análise de energia deve considerar a fração de fluido que se mantém na turbina,

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e a fração que é extraída da turbina. A variável y é utilizada para designar a fração do escoamento
total extraída no estado 2 do ciclo, tal que:

𝑚̇2
𝑦= (12)
𝑚̇1

Desta forma, a fração do escoamento total que passa pelo segundo estágio da turbina será:

𝑚̇3
= 1 −𝑦 (13)
𝑚̇1

A Figura 11 tem, em várias posições do esquemático do sistema, a informação da fração do fluido


que passa pelo trajeto. É importante que esta fração seja compreendida, pois o balanço de ener-
gia dos dispositivos com escoamento fracionado dependerá do valor de y. Se o balanço de energia
for efetuado no aquecedor, pode-se explicitar uma relação entre as entalpias do fluido em alguns
estados e a fração y, quando estes estados forem conhecidos, pela relação:

ℎ6 − ℎ5
𝑦= (14)
ℎ2 − ℎ5

O trabalho gerado pelo primeiro e pelo segundo estágios da turbina, assim como as trocas de
energia no condensador estão relacionados ao parâmetro de fração extraída, portanto, deve-se
tomar cuidado ao considerá-lo no balanço de energia.

2.3.2 AQUECEDORES DE ALIMENTAÇÃO FECHADOS

Aquecedores de água de alimentação fechados também podem ser aplicados nos ciclos re-
generativos. Este tipo de aquecedor se difere do aberto por não promover a mistura dos fluidos,
tomando cada um deles um caminho distinto após passar pelo aquecedor. Os aquecedores fecha-
dos são basicamente trocadores de calor do tipo casca e tubos, nos quais a água de alimentação é
aquecida pela condensação de vapor nos tubos, sendo este extraído da turbina antes da entrada

24
no segundo estágio. O fato de os fluxos não se misturarem, permite diferentes pressões entre eles,
diferindo do que acontece nos aquecedores abertos, onde apenas uma câmara existe e logo, ape-
nas uma pressão é possível.
A Figura 12 apresenta uma representação esquemática de um ciclo de potência a vapor regene-
rativo que utiliza aquecedor de água de alimentação fechado, onde o vapor que se condensa pas-

UNIDADE 01
sa por um purgador (que permite apenas a passagem de líquido e impede a passagem de vapor)
e retorna para o condensador. A mesma figura apresenta o diagrama temperatura-entropia deste
ciclo para acompanhamento e compreensão.
Neste ciclo, ocorrem processos isentrópicos nas bombas e nos estágios da turbina, enquanto
processos isobáricos ocorrem no gerador de vapor, no condensador e no aquecedor.

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Figura 12 - Ciclo regenerativo com aquecedor de água de alimentação fechado

Fonte: Moran (2018).

Entre os estados 1 e 2 o fluido de trabalho passa pela turbina de primeiro estágio. A partir de
então, uma fração do escoamento é extraída para o aquecedor de água de alimentação fechado,
onde sofre condensação e sai do aquecedor como líquido saturado no estado 7. O fluido no estado
7 é purgado para o condensador no estado 8, onde é adicionado a fração total do escoamento, que
veio da turbina de segundo estágio e passou pela expansão completa até o estado 3. A expansão
entre os estados 7 e 8, passando pelo purgador, é um processo irreversível, por isso é representado
com uma linha tracejada no diagrama temperatura-entropia da Figura 12. Após a passagem pelo
condensador, tem-se líquido saturado no estado 4, sendo este bombeado até a pressão do gerador
de vapor para entrar no aquecedor de água de alimentação no estado 5. A temperatura da água
de alimentação é elevada ao passar pelo aquecedor, até o estado 6. O ciclo é completado quando
o fluido de trabalho entra no gerado de vapor no estado 6 e é aquecido a pressão constante até o
estado 1, onde o ciclo se reinicia.

25
A análise do ciclo com aquecedor fechado para a água de alimentação também requer, assim
como no caso do aquecedor aberto, a consideração de um parâmetro de fração y, que expressa a
parcela do fluido de trabalho que foi extraído entre as turbinas de estágio 1 e 2 para passar pelo
sistema de aquecimento. De forma análoga ao caso do aquecedor aberto, o balanço de energia
aplicado ao aquecedor de água de alimentação fechado permite obter uma relação entre a ental-

UNIDADE 01
pia dos estados do ciclo e a fração que é extraída:

ℎ6 − ℎ5
𝑦= (15)
ℎ2 − ℎ7

Novamente, as quantidades de energia transferidas no aquecedor e no condensador devem


considerar o parâmetro de fração y, assim como a potência produzida pela turbina de segundo es-

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tágio. Repare no diagrama esquemático apresentado na Figura 12 que a indicação “(1)” é utilizada
para indicar os trajetos por onde o escoamento completo ocorre, sendo eles a porção interna do
condensador (assim como a bomba), o gerador de vapor e a turbina de primeiro estágio
Sistemas reais utilizam da associação de sistemas de aquecimento de água de alimentação aber-
tos e fechados, inclusive com mais de um estágio, com o intuito de elevar a eficiência do processo,
reduzindo tantas perdas geradas por irreversibilidades quanto possível.
A Figura 13 ilustra um caso real de um arranjo típico dos principais componentes em uma central de
potência a vapor. Note que um dos aquecedores de água de alimentação é também desaerador, além
do fato que o líquido de uma trocador e purgado para o outro a menos pressão e assim por diante.

Figura 13 - Exemplo de arranjo real com múltiplos aquecedores em um ciclo regenerativo

Fonte: Borgnakke e Sonntag (2018).

26
Também é valido citar que a aplicação de vários aquecedores está associada também a vários es-
tágios de extração de vapor da turbina, de forma que as pressões sejam selecionadas de acordo com
o trocador de calor utilizado em cada aquecedor a fim de reduzir as irreversibilidades do processo.
Outro exemplo ilustrativo de um sistema com vários estágios de extração e aquecimento é apre-
sentado na Figura 14, juntamente ao diagrama temperatura-entropia associado ao ciclo.

UNIDADE 01
Este caso tem particular importância, pois expressa os diversos fatores de fração de escoamento,
repare que para cada extração de fluido executada na turbina, um novo índice de fração é utilizado,
e com isso o balanço de energia deve ser analisado com extrema cautela, identificando no diagrama
esquemático o fluxo mássico que é direcionado para cada percurso do ciclo.
Da mesma forma, o diagrama temperatura-entropia passa a ter maior número de estados e pro-

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cessos. Ao passo que os exemplos se tornam realistas de acordo com as instalações presentes nas
usinas de potência a vapor, maior nível de detalhes, componentes e elementos devem ser conside-
rados, lembrando que o objetivo de um maior particionamento do fluxo é justamente uma maior
otimização dos processos individualmente a fim de reduzir as irreversibilidades.

Figura 14 - Ciclo regenerativo com vários estágios de aquecimento e extração

Fonte: Çengel e Boles (2013).

CONSIDERAÇÕES FINAIS
Ao longo desta Unidade foram apresentados conceitos cruciais sobre máquinas térmicas, entre
os quais a máxima eficiência possível de se obter princípios necessários para operação, além de
características termodinâmicas necessárias para a execução de um ciclo.
Para a execução de tais ciclos, se mostrou necessário abordar ciclos ideais amplamente utilizados

27
para modelar instalações industriais de potência a vapor, visto que este é o fluido de trabalho mais
amplamente utilizado pela sua abundância, custo e facilidade de operação.
Ao final desta Unidade, você deve ser capaz de interpretar diagramas termodinâmicos de ciclos,
compreender os processos pelos quais o fluido de trabalho passa durante a execução de um ciclo,
estimar os fluxos de energia em cada dispositivo através do balanço de energias e, por fim, calcular

UNIDADE 01
a potência que uma instalação é capaz de fornecer.
Em busca de melhoria na eficiência dos ciclos termodinâmicos, variações de propriedades e dis-
posição de componentes no ciclo ideal Rankine foram apresentadas, permitindo melhor compre-
ensão dos fenômenos que geram irreversibilidades ao longo dos processos.
Sistemas de reaquecimento de vapor e ciclos regenerativos são amplamente utilizados em ins-

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talações industriais, como já descrito ao longo do texto, devido ao aumento do rendimento, que
fica na ordem de 6% de acordo com a bibliografia utilizada. Tais ganhos, em grandes instalações,
geram quantidades significativas de energia que deixam de ser despejadas em rios, lagos e na at-
mosfera, contribuindo para maior sustentabilidade, tema extremamente importante no contexto
dos sistemas de potência, devido a sua elevada aplicabilidade.

ANOTAÇÕES

28
UNIDADE

02
REFRIGERADORES E
BOMBAS DE CALOR

OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM

» Identificar e compreender as variações utilizadas para elevação de eficiência em


ciclos de potência a vapor;
» Definir a necessidade e a aplicação dos refrigeradores e bombas de calor;
» Caracterizar o ciclo reverso de Carnot;
» Compreender o significado do coeficiente de performance;
» Relacionar os ciclos ideais com suas limitações nos casos reais;
» Conhecer diferentes sistemas alternativos de refrigeração.

VÍDEOS DA UNIDADE

[Link] [Link] [Link]


INTRODUÇÃO
Grande parte das aplicações termodinâmicas envolvem geração ou uso de potência. Em ambos
os casos, é de grande interesse que os rendimentos e eficiências sejam maximizados, pois menores

UNIDADE 02
perdas representam menores custos e maior sustentabilidade.
Nesta unidade abordaremos um tema complementar dos ciclos de potência a vapor, que con-
siste no uso de cogeração nos ciclos de potência, que permite uma segunda aplicação para uma
energia que antes seria desperdiçada ao ambiente.
Estudaremos também maneiras de reduzir as irreversibilidades nos sistemas de aquecimento
do vapor, geralmente denominados caldeiras. Estes sistemas têm aplicação bastante diversa, não

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somente nos sistemas de geração de potência, mas como forma de aquecer água ou vapor para
aplicações diversas.
A sequência é dada ao abordar refrigeradores e bombas de calor. Em sua concepção básica, es-
tes equipamentos são os mesmos, diferindo apenas em sua aplicação.
Sabe-se que a refrigeração é amplamente aplicada em diversas circunstâncias, seja para con-
servar alimentos em câmaras frias, freezers, geladeiras, caminhões furgões, etc. ou para condicio-
namento de ambientes, seja para conforto térmico ou para manutenção de qualidade do ar onde
equipamentos sensíveis operam.
Basta imaginarmos em nossa proximidade, em nossa residência, em nosso local de trabalho,
quantos dispositivos utilizam ciclos de refrigeração? Aparelhos de ar-condicionado, geladeiras,
aquecedores para água de banho ou piscina, etc.
A pertinência da compreensão destes sistemas, suas variações e particularidades, está mais que
justificada, cabe então o esforço em avançar os conhecimentos nesta grande área de aplicação de
termodinâmica em máquinas térmicas.

1. APROVEITAMENTO NOS SISTEMAS


DE POTÊNCIA A VAPOR
Na Unidade anterior vimos que ciclos de potência a vapor são amplamente empregados devido
a sua simplicidade e alta capacidade de produção de potência. Um ciclo a vapor tem por finalidade
básica a produção de potência a partir da expansão de um fluido de trabalho que é previamente
aquecido por uma caldeira. Vimos também que para que o ciclo seja possível, calor deve ser rejeitado
em um ambiente à baixa temperatura, para que então o fluido de trabalho possa completar o ciclo.
Fato é que existem alternativas que modificam estes processos no intuito de reduzir as perdas
de energia para o meio externo ao ciclo.

30
1.1 COGERAÇÃO
O ciclo de potência a vapor, em seu modelo básico, descarrega energia em um reservatório à
baixa temperatura, sendo então perdida para este meio.
Fato é que grande parte dos sistemas de geração de potência a partir do vapor estão instalados

UNIDADE 02
em usinas e indústrias onde o calor é necessário em várias etapas da produção, o chamado calor
de processo.
Segundo Çengel e Boles (2013), algumas usinas dependem intensamente do calor de processo
para sua operação, sendo exemplo aquelas do setor químico, produção de celulose e papel, refi-
narias de petróleo, fabricação de aço, processadoras de alimento e as indústrias têxteis. Nestas in-
dústrias o calor de processo é geralmente fornecido por vapor d’água a temperaturas entre 150 °C

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e 200 °C, que são aquecidos, por sua vez, pela queima de combustíveis em fornalhas onde a tem-
peratura atinge facilmente 1400 °C.
Esta diferença de temperatura entre a fornalha e o vapor necessário para as instalações citadas,
faz com que o processo de aquecimento apresente irreversibilidades expressivas, algo que se de-
seja minimizar sempre que possível.
Como a grande maioria das instalações que necessitam de calor de processo, utilizam sistemas
de potência a vapor para geração de energia e trabalho, surge a ideia de aproveitar o calor, que
seria rejeitado em um ambiente à baixa temperatura durante um ciclo ideal a vapor, para aquecer
outros sistemas envolvidos no processo produtivo. Esta disposição caracteriza a cogeração, que
segundo Moran (2018), são sistemas integrados capazes de fornecer simultaneamente eletricidade
e vapor (ou água quente), a partir de um único combustível de entrada.
Dito isto, passa a ser necessário analisar formas Figura 1 - Usina de cogeração ideal
de instalação da cogeração nos ciclos de potência já
estudados e comumente encontrados em instala-
ções industriais. Uma disposição ideal seria aquela
na qual todo o calor que seria descarregado a um
meio à baixa temperatura fosse aproveitado para
uso como calor de processo, tal como exposto na
Fonte: Çengel e Boles (2013).
Figura 1.
Neste caso, demonstra-se a situação em que 20
kW de energia são gerados pela turbina do ciclo
(etapa 3 → 2), enquanto 100 kW são requisitados
como calor para outros processos (etapa 4 → 1).
Para que esta energia possa ser gerada ou trans-
ferida, a caldeira terá de fornecer energia a uma
taxa de 120 kW (etapa 2 → 3). Note que o trabalho
efetuado pela bomba pode ser desprezado pela sua
pequena magnitude (etapa 1 → 2).

31
No sistema apresentado na figura acima, uma característica importante é a ausência do conden-
sador, pois no caso ideal, nenhuma energia deve ser descarregada para o ambiente. Desta forma,
toda a energia fornecida ao vapor na caldeira é utilizada como calor de processo ou energia elétrica.
Uma razão pode ser estabelecida entre a energia utilizada no ciclo e a energia fornecida pela
caldeira, o denominado fator de utilização (ϵu) apresentado na Equação (1).

UNIDADE 02
𝑊̇𝑙í𝑞 + 𝑄̇𝑝
𝜖𝑢 = (1)
𝑄̇𝑒𝑛𝑡

Onde Ẇlíq representa a taxa de produção da turbina, Q̇ p a taxa de consumo de calor de processo
e Q̇ ent a taxa de calor fornecida pela caldeira.

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Observando a aplicação desta equação no ciclo com cogeração ideal, fica claro que o fator de
utilização para esta é de 100%, porém em instalações reais se obtém fatores na ordem de 80%.
Em situações reais ocorre um fenômeno que não pode ser simulado por um ciclo com cogeração
ideal, que consiste no caso no qual as demandas de energia e calor de processo variam ao longo
do período de operação do ciclo.
Para que o fluxo de calor e energia possam ser ajustados durante o processo, o ciclo apresenta-
do na Figura 2 é uma alternativa aceitável. Nesta disposição, parte do vapor é extraído da turbina
a uma pressão intermediária (estado 6), enquanto o restante se expande até a pressão do conden-
sador (estado 7), para então ser resfriado a pressão constante. Repare que aqui o condensador está
presente, onde parte da energia poderá ser descartada no ambiente, ou seja, desperdiçada.
Nesta disposição, pode-se ajustar a vazão mássica Figura 2 - Usina de cogeração ajustável
em cada trajetória de acordo com a necessidade. Por
exemplo, em períodos em que grande quantidade
de calor de processo é necessário, desvia-se o fluxo
para a unidade de processamento e nenhum calor
é desperdiçado através do condensador.
Caso ainda mais calor seja necessário, pode-se des-
viar o fluxo que passaria pela turbina através de uma Fonte: Çengel e Boles (2013).

válvula de expansão, levando o vapor que sai da cal-


deira diretamente à unidade de processamento térmi-
co (processo 4 → 5), condição esta que proporcionaria
a maior quantidade de calor de processo possível, en-
quanto nenhuma energia é produzida pela turbina.
Caso a demanda de calor de processo seja redu-
zida, todo o vapor é processado pela turbina para
geração de energia e posteriormente passa pelo con-
densador, operando como um ciclo convencional de
potência a vapor.

32
A aplicação do equilíbrio de energia para fluidos em regime permanente entre cada um dos
estados apresentados no esquemático, permite obter as taxas de transferência de energia, calor
e trabalho que ocorrem na caldeira, na turbina, na válvula de expansão, na unidade de processa-
mento de calor, no condensador e nas bombas.

UNIDADE 02
Exemplo 1 (Çengel e Boles, 2013): Considere a usina de cogeração mostrada na Figura 3.
Vapor de água entra na turbina a 7 MPa e 500 °C. Parte do vapor é extraído da turbina a
500 kPa para processamento térmico. O vapor restante continua se expandindo até 5 kPa.
Em seguida, o vapor é condensado a pressão constante e bombeado à pressão de caldei-
ra, equivalente a 7 MPa. Em épocas de alta demanda por calor de processo, parte do vapor
que sai da caldeira é estrangulada até 500 kPa e encaminhada para a unidade de processa-

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mento térmico. As frações de extração são ajustadas para que o vapor saia da unidade de
processamento térmico como líquido saturado a 500 kPa. Posteriormente, ele é bombeado
a 7 MPa. O fluxo de massa através da caldeira é de 15 kg/s. Desprezando as quedas de pres-
são e perdas de calor na tubulação e considerando que a turbina e as bombas são isentró-
picas, determine (a) a taxa máxima com a qual o calor de processo pode ser fornecido e (b)
a potência produzida e o fator de utilização quando nenhum calor de processo é fornecido.

Figura 3 - Exemplo 1

Fonte: Çengel e Boles (2013).

Solução: Tal como os problemas que envolvem ciclos de potência já analisados na unidade
anterior, resolver este problema de ciclo com cogeração consiste em definir com precisão
seus estados. Devido às diferentes ramificações presentes, estarão presentes maior número
de estados, sendo onze o total. As tabelas termodinâmicas disponíveis na bibliografia devem
ser consultadas, para este problema serão consideradas as tabelas de Çengel e Boles (2013).
Estado 1: Sabe-se que este vapor está a 500 °C e 7 MPa, de acordo com o enunciado, com
isso define-se a entalpia deste estado:

33
h1 = 3411,4 kJ/kg
Sabe-se que os estados 2 e 3 consistem no mesmo estado que 1, além de que a válvula de
expansão realiza processo isentrópico, portanto a entalpia destes estados será a mesma:
h1 = h2 = h3 = h4

UNIDADE 02
Estado 5: sendo a turbina isentrópica (a entropia é constante), basta procurarmos na tabe-
la de propriedades do vapor, sabendo que s5 = s6 = s3 e a pressão no estado 5 foi reduzida
para 500 kPa, que nos leva a entropia deste estado:
h5 = 2739,3 kJ/kg
Estado 6: semelhante ao estado 5, a entropia é mantida, porém a pressão é reduzida para
5 kPa, que pelas tabelas termodinâmicas nos permite obter a entalpia:

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h6 = 2073,0 kJ/kg
Estado 7: após a passagem pela unidade de processamento térmico, o fluido de trabalho
estará na condição de líquido saturado à mesma pressão e que entrou neste (condensação
isobárica), que consiste em 500 kPa, logo, temos a entalpia para este estado:
h7 = hl@500 kPa = 640,09 kJ/kg
Estado 8: de forma semelhante ao estado anterior, o fluido que passou pelo condensador
sofreu condensação isobárica, então no estado 7 estará como líquido saturado a 5 kPa, logo,
obtém-se sua entalpia:
h8 = hl@5 kPa = 137,75 kJ/kg
Estado 9: os processos 8 → 9 e 7 → 10 são compressões isotérmicas do líquido saturado,
então pode-se obter a variação da entalpia entre os estados como o trabalho aplicado pela
bomba, que consiste na multiplicação do volume específico do fluido pela variação de pres-
são, desta forma, obtém-se a entalpia do estado 9:
𝑊𝑏𝑜𝑚𝑏𝑎 𝐼 = 𝑣8 𝑃9 − 𝑃8 = 0,001005 𝑚3 /𝑘𝑔 7000 − 5 𝑘𝑃𝑎 = 7,03 𝑘𝐽/𝑘𝑔

ℎ9 = ℎ8 + 𝑊𝑏𝑜𝑚𝑏𝑎 𝐼 = 137,75 + 7,03 = 144,78 𝑘𝐽/𝑘𝑔

Estado 10: assim como no estado anterior, obtém se a entalpia como a soma da entalpia
anterior com o trabalho executado pela bomba, portanto:
𝑊𝑏𝑜𝑚𝑏𝑎 𝐼𝐼 = 𝑣7 𝑃10 − 𝑃7 = 0,001093 𝑚3 /𝑘𝑔 7000 − 500 𝑘𝑃𝑎 = 7,10 𝑘𝐽/𝑘𝑔

ℎ10 = ℎ7 + 𝑊𝑏𝑜𝑚𝑏𝑎 𝐼𝐼 = 640,09 + 7,10 = 647,19 𝑘𝐽/𝑘𝑔

a) Agora que conhecemos os estados do ciclo, podemos analisar as energias solicitadas. A


taxa máxima de calor de processo será fornecida quando todo o fluxo mássico for desviado
da turbina, de forma que ṁ4 = ṁ7 = ṁ1 = 15 kg/s, enquanto ṁ3 = ṁ5 = ṁ6 = 0. Sendo
assim, o máximo calor de processo pode ser obtido como:

𝑄̇𝑝 = 𝑚̇ 1 ℎ4 − ℎ7 = 15 𝑘𝑔/𝑠 3411,4 − 640,09 𝑘𝐽/𝑘𝑔 = 𝟒𝟏𝟓𝟕𝟎 𝒌𝑾

34
Nesta situação um fator de utilização de 100% seria observado, já que todo o calor fornecido
à caldeira é convertido em calor de processo.
b) Para o caso oposto, em que nenhum calor de processo é produzido, todo o fluxo mássico
é processado pela turbina para posterior passagem pelo condensador. Neste caso, teremos
ṁ3 = ṁ6 = ṁ1 = 15 kg/s, e ṁ2 = ṁ5 = 0. Desta maneira, a potência líquida produzida pelo

UNIDADE 02
ciclo será:

𝑊̇𝑡𝑢𝑟𝑏,𝑠𝑎𝑖 = 𝑚̇ ℎ3 − ℎ6 = 15[𝑘𝑔/𝑠]. (3411,4 − 144,78)[𝑘𝐽/𝑘𝑔] = 20076 𝑘𝑊

𝑊̇𝑏𝑜𝑚𝑏𝑎,𝑒𝑛𝑡 = (15)[𝑘𝑔/𝑠]. (7,03)[𝑘𝐽/𝑘𝑔] = 105 𝑘𝑊

𝑊̇𝑙𝑖𝑞,𝑠𝑎𝑖 = 𝑊̇𝑡𝑢𝑟𝑏,𝑠𝑎𝑖 − 𝑊̇𝑏𝑜𝑚𝑏𝑎,𝑒𝑛𝑡 = 20076 − 105 = 𝟏𝟗𝟗𝟕𝟏 𝒌𝑾

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Para o cálculo do fator de utilização, considera-se o cálculo da energia que entra na caldeira.
Para o caso em análise, todo o fluxo mássico da caldeira é fornecido pela bomba que traz lí-
quido comprimido do condensador, desta forma, h11 = h9 = 144,78 kJ/kg, logo:

𝑄̇𝑒𝑛𝑡 = 𝑚̇ 1 ℎ1 − ℎ11 = 15 3411,4 − 144,78 = 48999 𝑘𝑊

Portanto, o fator de utilização será, de acordo com a equação (1):

𝑊̇𝑙í𝑞 + 𝑄̇𝑝 19971 + 0


𝜖𝑢 = = = 0,408 ∴ 40,8%
𝑄̇𝑒𝑛𝑡 48999

Este valor significativamente menor que para o caso com cogeração se deve ao fato de que
grande parte da energia é descarregada (desperdiçada) para o ambiente no condensador.

REFLITA

Para o caso estudado no último exemplo, onde o circuito de cogeração do ciclo está “inativo”, a
equação do fator de utilização pode ser reduzida para:

𝑊̇𝑙í𝑞
𝜖𝑢 =
𝑄̇𝑒𝑛𝑡

Esta equação nos remete à eficiência térmica de um ciclo, estudada na Unidade anterior em ciclos
de potência a vapor. Esta equação nos comprova o fato de que, se removermos o ciclo de cogera-
ção do exercício anterior, teremos um simples e tradicional sistema de geração a vapor.
Esta discussão é válida para reforçar a importância da utilização de cogeração em instalações in-
dustriais, afinal, na pior das hipóteses (quando a demanda de calor de processo for nula) o sistema
operará como um ciclo de potência a vapor convencional. Enquanto em situações de uso de calor
de processo, a energia desperdiçada é reduzida significativamente.

35
1.2 EFICIÊNCIA DAS CALDEIRAS?
Entre as formas de elevação de aproveitamento de ciclos a vapor, pode-se citar também os es-
forços em elevar a eficiência das caldeiras.
Caldeiras são geralmente alimentadas pela chama de combustão de algum combustível, enquanto

UNIDADE 02
transferem esta energia para o fluido de trabalho do ciclo. Fato é que esta transferência de energia
não possui rendimento ideal, ou seja, a energia disponibilizada pelo combustível não é transferida
de forma integral ao fluido de trabalho, de tal forma que possamos escrever uma equação para o
rendimento de uma caldeira. Sabemos que rendimentos são razões entre a energia que pode ser
aproveitada e a energia que é fornecida. No caso da caldeira, a energia aproveitada consiste na-
quela que foi atribuída ao fluido de trabalho que circula em seu interior, enquanto a energia forne-

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cida é aquela originada da queima do combustível da fornalha. Assim, a equação (2) relaciona esta
característica de forma numérica.

𝑚̇ 𝑣𝑎𝑝𝑜𝑟 . ℎ𝑣𝑎𝑝𝑜𝑟 − ℎ𝑙í𝑞𝑢𝑖𝑑𝑜


𝜂𝑐𝑎𝑙𝑑𝑒𝑖𝑟𝑎 = (2)
𝑚̇ 𝑐𝑜𝑚𝑏. . 𝑃𝐶𝐼𝑐𝑜𝑚𝑏.

Na equação apresentada observamos os fluxos mássicos de vapor e combustível (ṁvapor e ṁcomb.),


as entalpias do fluido de trabalho ao sair e ao entrar na caldeira (hvapor e hlíquido) e o poder calorí-
fico inferior do combustível utilizado (PCIcomb.).

Exemplo 2 (Filho, 2020): Uma caldeira produz 15 t/h de vapor saturado a 26 barg (pressão
relativa), mediante a queima de gás natural. A temperatura da água de alimentação é de 70
°C. Calcule o consumo de gás natural sabendo que o rendimento da caldeira é de 88%. PCIgás =
36.960 kJ/kg, ρgás = 0,74 kg/m3.
Solução: Sabemos que a pressão absoluta para o caso estudado será pabs = prel + patm = 26 + 1
= 27 bar. Para este valor de pressão, através das tabelas termodinâmicas para vapor saturado,
temos que a temperatura de saturação é de T = 227 °C, e que para esta condição as entalpias
do líquido e do vapor saturados são hl = 978,6 kJ/kg e hv = 2814,0 kJ/kg, respectivamente.
A água deve ser aquecida pela caldeira de um estado de líquido comprimido a 70 °C até a
condição de vapor saturado a pressão de 27 bar. Serão necessários então dois estágios de
cálculo, primeiramente o aquecimento do líquido até a condição de saturação e posterior-
mente a vaporização. Portanto, a porção de aquecimento do líquido pode ser calculada por:
𝑞 = 𝑐𝑝 . Δ𝑇 = 4,2 𝑘𝐽⁄𝑘𝑔. 𝐾 . 227 − 70 𝐾 = 659,4 𝑘𝐽/𝑘𝑔

Pode-se estimar a entalpia da água na condição inicial como:

ℎá𝑔𝑢𝑎 = ℎ𝐿 − 𝑞 = 978,6 − 659,4 = 319,20 𝑘𝐽/𝑘𝑔

A partir da equação da eficiência da caldeira então, sabendo que o rendimento desta é de


88%, teremos:

36
𝑚̇ 𝑣𝑎𝑝𝑜𝑟 . ℎ𝑣𝑎𝑝𝑜𝑟 − ℎ𝑙í𝑞𝑢𝑖𝑑𝑜 15000. 2814 − 319,2
0,88 = = ∴ 𝑚̇ 𝑐𝑜𝑚𝑏. = 1150,6 𝑘𝑔/ℎ
𝑚̇ 𝑐𝑜𝑚𝑏. . 𝑃𝐶𝐼𝑐𝑜𝑚𝑏. 𝑚̇ 𝑐𝑜𝑚𝑏.. 36960

Como o combustível é um gás, é mais conveniente expressar este resultado como um volu-
me, então através da densidade do gás natural, têm-se:

UNIDADE 02
𝑚̇
𝑉̇ = = 𝟏𝟓𝟓𝟓 𝒎𝟑 /𝒉.
𝜌

Perdas em caldeiras são algo difícil de se eliminar, isto se deve a um conjunto de características
de funcionamento destes dispositivos, que operam geralmente pela queima de combustíveis. Ga-

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ses que são expelidos pela chaminé da fornalha, por exemplo, carregam significativa quantidade
de calor para o meio externo; a combustão frequentemente não ocorre de maneira estequiométri-
ca, levando a uma reação incompleta; o ambiente em torno da caldeira, mesmo que bem isolado,
proporcionará perdas de energia para o ar ambiente, assim como outras ineficiências menores.
Para melhor compreender o princípio de funcionamento de uma caldeira, observe a Figura 4,
onde os fluxos e fluido de trabalho e combustível da caldeira são representados.

Figura 4 - Esquemático de uma caldeira

Fonte: Filho (2020).

Segundo Filho (2020), rendimentos entre 80% e 92% são comuns para caldeiras, entre suas di-
ferentes disposições e combustíveis aplicados.
A operação da caldeira fora da faixa nominal pode levar também é uma redução do rendimento,
assim como interrompimentos de sua operação, dado o fato que durante a fase de aquecimento
muita energia é utilizada para aquecer o sistema, sem que haja produção de vapor.

37
2. CICLO DE REFRIGERAÇÃO
É de conhecimento amplo o princípio termodinâmico do fluxo de calor, sabe-se que o calor sai
naturalmente de um meio a alta temperatura para um meio à baixa temperatura. Um caso prático

UNIDADE 02
simples de se compreender é aquele em que se deixa uma xícara de café quente (80 °C) sobre uma
mesa em uma sala a 25 °C, ao passar do tempo, o café terá sua temperatura reduzida ao perder
calor para o ar ambiente, o contrário não ocorre naturalmente.
Meios de refrigeração são então necessários para que se possa controlar a temperatura de um
ambiente ou dispositivo, contrapondo o sentido natural do fluxo de calor.
Na Unidade anterior estudamos ciclos de potência a vapor, onde o calor era adicionado ao fluido

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para então produzir trabalho ao ser processado na turbina. O ciclo de Carnot é um exemplo de ciclo
(mesmo que com suas limitações à mistura líquido+ vapor) de potência a vapor, que será utilizado
para demonstrar o princípio de operação dos refrigeradores e posteriormente das bombas de calor.

2.1 CICLO DE CARNOT REVERSO


O ciclo de potência a vapor de Carnot recebe calor de uma fonte quente e descarrega em uma
fonte fria, seguindo o sentido natural do fluxo de calor. Para sistemas de refrigeração deseja-se cum-
prir a tarefa exatamente oposta, levar calor da fonte à baixa temperatura (ambiente refrigerado)
até o ambiente a alta temperatura. Para que isto seja possível, utiliza-se o ciclo de Carnot reverso,
que recebe este nome simplesmente porque o sentido de sua ocorrência é o oposto do ciclo de
potência a vapor, ou seja, ocorre no sentido anti-horário no diagrama temperatura-entropia. A Fi-
gura 5 apresenta um exemplo deste ciclo reverso.

Figura 5 - Esquemático do Ciclo reverso de Carnot

Fonte: Moran (2018).

38
Analisando o ciclo apresentado observamos que no estado 4 o fluido de trabalho se encontra
como uma mistura de líquido e vapor com título baixo, que ao passar pelo evaporador, recebe ca-
lor da fonte fria (TC), que promove a vaporização de parte do fluido de trabalho, sem que ocorram
variações de pressão e temperatura, até o estado 1 do ciclo.
O fluido de trabalho passa então pelo compressor (processo 1 → 2), onde é comprimido adia-

UNIDADE 02
baticamente até o estado 2, apresentando-se como vapor saturado. Durante a compressão a tem-
peratura é elevada de TC para TH, assim como a pressão também aumenta.
No processo 2 → 3 o fluido de trabalho passa pelo condensador, onde calor é removido até que
este seja convertido em líquido saturado. Este processo ocorre a temperatura TH constante e pres-
são também constante.

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O ciclo é completado no processo 3 → 4 quando o fluido de trabalho passa por expansão em
uma turbina adiabática, reduzindo sua temperatura de TH para TC enquanto a pressão também cai.

2.1.1 COEFICIENTE DE PERFORMANCE DO REFRIGERADOR

Para avaliar a eficácia com a qual um refrigerador executa sua função, utiliza-se o coeficiente
de desempenho (ou de performance), que nada mais é que a razão entre a energia removida do
ambiente à baixa temperatura (Qentra) e a energia necessária no compressor (WC). O coeficiente de
performance do refrigerador (βR) é expresso pela equação (3).

𝑄𝑒𝑛𝑡𝑟𝑎
𝛽𝑅 = (3)
𝑊𝐶

O coeficiente de performance de um refrigerador poderá apresentar diferentes valores, porém


uma limitação superior é definida pelo ciclo de refrigeração ideal de Carnot, que define que entre
dois reservatórios de temperatura TH e TC o máximo coeficiente de performance será obtido por:

𝑇𝐶
𝛽𝑚á𝑥 = (4)
𝑇𝐻 − 𝑇𝐶

Com isto, o ciclo reverso de Carnot é o mais eficiente que opera entre dois níveis especificados
de temperatura.

2.1.2 DESVIOS DO CICLO DE CARNOT

Embora consideremos o ciclo de Carnot como o modelo para estudo, devemos conhecer os mo-
tivos que fazem este não ser fiel ao que se observa nos sistemas reais.
Entre os três principais motivos da existência de desvios entre os ciclos ideais e os ciclos reais, o
primeiro que podemos citar consiste na diferença entre as temperaturas consideradas no ciclo (TH e
TC) e as temperaturas reais dos ambientes frio e quente em contato com o sistema de refrigeração.
Para compreensão, imaginemos um sistema de ar-condicionado como dispositivo de análise. Para

39
que o calor seja removido do ambiente interno, a temperatura do fluido de trabalho que passa pelo
evaporador deve ser inferior a temperatura do ambiente, para que o calor saia do ambiente para
o fluido, assim como no ambiente externo a temperatura do ar deve ser inferior à temperatura do
fluido de trabalho na condensadora, caso contrário o calor não será removido.
Estas diferenças entre as temperaturas promovem redução do coeficiente de performance, re-

UNIDADE 02
duzindo o potencial de refrigeração do ciclo.
Um segundo fator que gera complicações no ciclo ideal é a etapa de compressão, se observar-
mos novamente o diagrama temperatura-entropia da Figura 5, vemos que a compressão (1 → 2)
ocorre com uma mistura líquido-vapor, o que na práticas é difícil de se obter, pois compressores
não trabalham bem com líquidos, apenas com vapor. Este fator é que leva ao surgimento do ciclo
real, apresentado na seção seguinte.

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Como último fator de discrepância, cita-se que a turbina presente no ciclo reverso de Carnot tem
pouca capacidade de produção de energia, devido ao título da mistura líquido-vapor ali presente,
motivo pelo qual é substituída nos sistemas reais por uma simples válvula de expansão.

2.2 CICLO IDEAL E CICLO REAL DE REFRIGERAÇÃO


Com intuito de ter um sistema mais realista e contornar os problemas citados, é concebido o
ciclo de refrigeração por compressão de vapor, cuja disposição e diagrama temperatura-entropia
são apresentados na Figura 6.

Figura 6 - Refrigeração por compressão de vapor

Fonte: Borgnakke e Sonntag (2018).

40
Note que neste ciclo a compressão de vapor é deslocada para a região de vapor superaquecido
(1 → 2, ao invés de 1' → 2'), reduzindo suas irreversibilidades. Com o mesmo objetivo, a turbina
foi substituída por uma válvula de expansão, como já citado anteriormente. A válvula de expansão
realiza um processo não isoentrópico.
Um exemplo cotidiano de sistema de refrigeração que facilita nossa compreensão, é um simples

UNIDADE 02
refrigerador doméstico, tal como ilustrado na Figura 7. Note que existem duas serpentinas, uma
interna ao refrigerador responsável por remover calor do ambiente que se deseja refrigerar (aqui
representado por QL) e outra no ambiente externo, por onde o calor é descarregado para o am-
biente (aqui representado por QH). Observa-se ainda o compressor, responsável pela manutenção
do ciclo e, por fim, um tubo capilar, que executa função análoga a válvula de expansão.

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Figura 7 - Refrigerador doméstico e seu sistema de refrigeração

Fonte: Çengel e Boles (2013).

VÍDEO

Uma ilustração animada do funcionamento de um refrigerador está disponível no vídeo “Como


funciona um circuito de refrigeração?”, disponibilizado pelo fabricante Embraco, através do link:
[Link] Acesso em 25 jan. 2023.

2.2.1 TRABALHO E TRANSFERÊNCIAS DE CALOR

Ciclos termodinâmicos geralmente operam em regime permanente, sistemas de refrigeração


não são diferentes. Dito isto, sabe-se que as iterações de energia e trabalho são avaliadas em for-
ma de taxa, considerando um fluxo mássico.

41
Para os sistemas de refrigeração, o fluido de trabalho é geralmente referido como “Fluido
Refrigerante”.
Seguindo-se o fluxo de fluido refrigerante de acordo com a Figura 6, inicia-se pelo evaporador,
onde o calor recebido proporciona sua vaporização, elevando sua entalpia. A taxa de transferência
de calor para o fluido neste dispositivo consistirá em:

UNIDADE 02
𝑄̇𝑒𝑛𝑡𝑟𝑎 = 𝑚̇ (ℎ1 − ℎ4) (5)

Vale lembrar que Q̇ entra é o calor removido do meio à baixa temperatura, então caso seja neces-
sário aumentar a taxa de remoção de calor do meio, esta é a quantidade a se observar.

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Após a evaporação, o fluido refrigerante é comprimido até a pressão do condensador. Supondo
que o compressor seja adiabático, o trabalho necessário neste poderá ser obtido por:

𝑊̇𝐶 = 𝑚̇ (ℎ2 − ℎ1) (6)

Observe que ẆC é a energia necessária a se inserir no sistema para que o ciclo ocorra, então
para que se aumente a eficiência do ciclo de refrigeração, deve-se minimizar ẆC enquanto se ma-
ximiza Q̇ entra.
Após comprimido, o fluido refrigerante passa pelo condensador, onde libera calor para a vizi-
nhança (a alta temperatura) enquanto se condensa até o estado de líquido saturado, de forma que
a energia descarregada na fonte quente possa ser obtida por:

𝑄̇𝑠𝑎𝑖 = 𝑚̇ (ℎ2 − ℎ3) (7)

Por fim, o fluido refrigerante chega ao estado 3, onde passa pela válvula de expansão, que reduz
sua pressão até a encontrada no evaporador. Note que no diagrama da Figura 6 o processo 3 → 4
é representado por uma linha tracejada, isso se deve pelo fato de este ser um processo irreversível
onde a entalpia é constante, logo:

ℎ4 = ℎ3 (8)

As equações (5) a (9) nos mostram que os fluxos de calor e trabalho em cada interface do ciclo
podem ser obtidos através do conhecimento da entalpia em cada um dos estados, que também
nos permite obter o coeficiente de performance do refrigerador.

Exemplo 3 (Çengel e Boles, 2013): Um refrigerador utiliza refrigerante-134a como fluido de tra-
balho e opera em um ciclo de refrigeração por compressão de vapor entre 0,14 MPa e 0,8 MPa,
tal como ilustrado na Figura 8. Se a vazão mássica do refrigerante for de 0,05 kg/s, determine:

42
a) A taxa de remoção de calor do espaço refrigerado e a potência fornecida ao compressor;
b) A taxa de rejeição de calor para o ambiente;
c) O COP do refrigerador.

Figura 8 - Exemplo 3

UNIDADE 02
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Fonte: Çengel e Boles (2013).

Solução: sabemos que este é um ciclo de refrigeração por compressão de vapor, logo, o fluido
refrigerante entra no compressor como vapor saturado e sai do condensador como líquido
saturado. Ainda, o compressor é isentrópico e os processos no evaporador e no condensador
são isotérmicos e isobáricos, por fim, a válvula de expansão opera com entalpia constante.
O fluido refrigerante aqui é o R-134ª, amplamente utilizado e para o qual se tem várias ta-
belas de propriedades termodinâmicas.
A primeira etapa para resolução do problema consiste em definir os estados do ciclo.
Estado 1: Sabe-se que a pressão neste estado é de 0,14 MPa e que há apenas vapor satura-
do. Portanto, utilizando as tabelas de mistura saturada para R-134ª, temos:

ℎ1 = ℎ𝑣@0,14 𝑀𝑃𝑎 = 239,16 𝑘𝐽/𝑘𝑔

𝑠1 = 𝑠𝑣@0,14 𝑀𝑃𝑎 = 0,94456 𝑘𝐽/𝑘𝑔

A entropia deste estado é coletada, pois será mantida até o estado 2, onde esta informação
é necessária.
Estado 2: Sabendo que a entropia deste estado é a mesma que do estado 1 e que a pressão
agora, após a compressão, é de 0,80 MPa, obtemos a entalpia do estado:

ℎ2 = 275,39 𝑘𝐽/𝑘𝑔

43
Estado 3: neste estado temos a mesma pressão de 0,80 MPa, porém agora como líquido sa-
turado apenas, portanto, na mesma tabela de mistura saturada a pressão citada, obtém-se:

ℎ3 = ℎ𝑓@0,80 𝑀𝑃𝑎 = 95,47 𝑘𝐽/𝑘𝑔

Estado 4: Como já observado, o processo 3 → 4 de estrangulamento mantém a entalpia

UNIDADE 02
constante, logo:

ℎ4 = ℎ3 = 95,47 𝑘𝐽/𝑘𝑔

Agora que conhecemos os estados, podemos aplicar as equações do balanço de energia em


cada processo (equações (5) a (9)) para determinar os fluxos de energia e trabalho.

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a) a taxa de remoção de calor do espaço que se deseja refrigerar será obtida pela equação (5):

𝑄̇𝑒𝑛𝑡𝑟𝑎 = 𝑚̇ ℎ1 − ℎ4 = 0,05 𝑘𝑔 ⁄𝑠 . 239,16 − 95,47 𝑘𝐽⁄𝑘𝑔 = 𝟕, 𝟏𝟖 𝒌𝑾

Já a potência fornecida pelo compressor requer o uso da equação (6):

𝑊̇𝐶 = 𝑚̇ ℎ2 − ℎ1 = 0,05 𝑘𝑔 ⁄𝑠 . 275,39 − 239,16 𝑘𝐽⁄𝑘𝑔 = 𝟏, 𝟖𝟏 𝒌𝑾

b) a taxa de rejeição de calor no ambiente a alta temperatura será obtida pela equação (7):

𝑄̇𝑠𝑎𝑖 = 𝑚̇ ℎ2 − ℎ3 = 0,05 𝑘𝑔 ⁄𝑠 . 275,39 − 95,47 𝑘𝐽⁄𝑘𝑔 = 𝟗, 𝟎 𝒌𝑾

c) Por fim, o coeficiente de performance (denotado por COP ou , dependendo da bibliogra-


fia) pode ser obtido pela equação (3):

𝑄𝑒𝑛𝑡𝑟𝑎 𝑄̇𝑒𝑛𝑡𝑟𝑎 7,18


𝐶𝑂𝑃 = = = = 𝟑, 𝟗𝟕
𝑊𝐶 𝑊̇𝐶 1,81

Este valor nos permite concluir que aproximadamente 4 unidades de energia térmica são re-
movidas do ambiente refrigerado para cada unidade de energia consumida pelo compressor.

2.2.2 CICLO REAL DE REFRIGERAÇÃO POR COMPRESSÃO DE VAPOR

Sabe-se que os ciclos ideais e os ciclos reais apresentam algumas diferenças, especialmente de-
vido às irreversibilidades. Duas fontes de irreversibilidades mais comuns são o atrito entre o flui-
do e a tubulação, que em muitos casos é extensa o suficiente para causar quedas de pressão, e a
transferência de calor entre os componentes do ciclo e a vizinhança do sistema. Para melhor com-
preender as variações citadas, o diagrama temperatura-entropia da Figura 9 apresenta de forma
aproximada um ciclo real de refrigeração.
No ciclo ideal supomos que o fluido sai do evaporador e entra no compressor como vapor satu-
rado, porém o controle da fase no caso real nem sempre é possível, portanto, é habitual o projeto
do sistema para que o fluido seja ligeiramente superaquecido, para que não reste nada de fluido
na condição líquida.

44
Nas instalações reais ocorre também de a linha que leva o fluido do evaporador ao compressor
ser longa, causando queda de pressão (processo 8 → 1), tornando necessário uma margem de se-
gurança na evaporação, para que o fluido chegue efetivamente como vapor ao compressor.
Um processo real de compressão envolve atrito e consequente troca de calor com o fluido, que
pode aumentar ou diminuir a entropia do fluido, tal como os processos 1 → 2 ou 1 → 2'.

UNIDADE 02
De forma semelhante ao evaporador, o condensador não é, na realidade, capaz de realizar o pro-
cesso com tamanha precisão quanto no ciclo ideal. O atrito do fluido refrigerante com a tubulação
gera queda de pressão (processo 2 → 4), além de ser bastante complexo garantir que na saída do
condensador haverá líquido na condição de saturação, sendo mais provável haver líquido compri-
mido (estado 4). Em todas as tubulações que ligam os dispositivos, devido aos seus possíveis com-
primentos, o atrito gerará influência no sentido de aumentar as irreversibilidades, a exemplo dos

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intervalos 8 → 1, 2 → 3, 4 → 5 e 6 → 7.

Figura 9 - Ciclo real de refrigeração por compressão de vapor

Fonte: Çengel e Boles (2013).

2.3 SELEÇÃO DE FLUIDO REFRIGERANTE


Quando se projeta um sistema de refrigeração, deve-se observar as propriedades do fluido refri-
gerante a ser utilizado, pois isto caracterizará todo o processo quanto as pressões e temperaturas
que podem ou devem ser atingidas.
Segundo Moran (2018), três fatores devem ser considerados na seleção de fluidos refrigeran-
tes, são eles o desempenho, a segurança e o impacto ambiental. O desempenho está relacionado
a fornecer refrigeração necessária, ou capacidade de passar por aquecimento de forma econômica

45
e confiável. A segurança está associada à prevenção de riscos, como toxicidade e inflamabilidade.
Já o impacto ambiental é avaliado quanto à agressividade do refrigerante, especialmente a camada
estratosférica de ozônio, ou que contribuam para alterações climáticas globais.
Quando um sistema de refrigeração é dimensionado, tem-se como dado de entrada as tempe-
raturas entre as quais este irá operar, com isto, para um certo fluido refrigerante, deve-se ajustar a

UNIDADE 02
pressão em cada uma destas interfaces para que suas mudanças de fase ocorram de acordo com o
necessário para que o ciclo opere. É desejável, sempre que possível, evitar pressões excessivamente
altas no condensador e excessivamente baixas no evaporador. A estabilidade do fluido refrigerante,
assim como sua corrosividade devem ser consideradas juntamente ao seu custo.
Quando se observa o aspecto ambiental, existe um índice chamado Potencial de Aquecimento
Global (GWP) que, segundo Moran (2018), é utilizado para estimar a influência potencial futura

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no aquecimento global gerado por diferentes gases, comparando-os ao efeito gerado pelo dióxido
de carbono.
Historicamente, vários fluidos refrigerantes foram utilizados, sendo o principal motivo de seu
abandono a agressividade a camada de ozônio. A Tabela 1 apresenta alguns dos mais conhecidos,
entre os quais os mais recentes R-410a e R-407c.

Tabela 1 - Dados de fluidos refrigerantes

NÚMERO DO REFRIGERANTE TIPO FÓRMULA QUÍMICA GWP APROX.


R-12 CFC CCl2 F2 10900
R-22 HCFC CHClF2 1810
R-134a HFC CH2 FCF3 1430
R-410a Mistura HFC Mistura de R-32 e R-125, 1725
R-407C Mistura HFC Mistura de R-32, R-125 e R-134a 1526
R-744 (dióxido de carbono) Natural CO2 1

Fonte: adaptado de Moran (2018).

A coluna “Tipo” da tabela acima está relacionada à molécula base da composição, que acarreta
certa estabilidade molecular e efeitos adversos de longa duração.
Pode haver casos em que nenhum fluido refrigerante atenda aos requisitos de temperatura do
ciclo necessário, então mais de um ciclo precisará ser utilizado, cada um deles com um diferente
fluido refrigerante, acoplados em série, gerando a definição de sistema em cascata, que será ex-
posta na próxima seção.

2.4 DEMAIS CICLOS DE REFRIGERAÇÃO


Os ciclos de refrigeração por compressão de vapor atendem a grande maioria dos sistemas resi-
denciais ou de pequeno porte, as limitações quanto à capacidade surge em ambientes industriais,
onde a eficiência é prioridade devido à ordem de grandeza das energias envolvidas.

46
2.4.1 REFRIGERAÇÃO POR COMPRESSÃO DE VAPOR EM CASCATA

Como citado anteriormente, a primeira modificação no ciclo tradicional é a utilização de dois


estágios, devido a limitações de compressão do fluido refrigerante. Os sistemas também denomi-
nados em cascata nada mais são que a utilização em série de ciclos de refrigeração por compres-

UNIDADE 02
são de vapor, onde há um trocador de calor comum a ambos os ciclos, que age como condensador
para um dos ciclos e como evaporador para outro.
A Figura 10 apresenta a disposição de um sistema com dois ciclos em cascata juntamente ao seu
diagrama temperatura-entropia, onde pode-se observar o ganho em capacidade de refrigeração e
a redução do trabalho necessário para o compressor ao se utilizar um sistema em cascata ante a
possibilidade de se utilizar um único sistema com maior variação de pressão.

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Figura 10 - Sistema de refrigeração em cascata

Fonte: Çengel e Boles (2013).

2.4.2 REFRIGERAÇÃO POR COMPRESSÃO DE VAPOR EM MÚLTIPLOS ESTÁGIOS

De forma semelhante ao sistema em cascata, a compressão pode possuir duas etapas, porém
apenas um fluido de trabalho, que ao invés de passar por um trocador de calor entre as duas etapas
de compressão, passa por uma câmara de mistura. Este sistema é o denominado de compressão
por múltiplos estágios.

47
A vantagem deste sistema em relação ao sistema em cascata é que a câmara de mistura tem
melhores características de transferência de calor.
A Figura 11 apresenta um sistema de refrigeração por compressão em dois estágios, juntamente
ao seu diagrama temperatura-entropia, onde pode-se observar a grande semelhança com o caso
anterior, do sistema em cascata. Cuidado deve ser tomado com a análise de energia deste sistema,

UNIDADE 02
pois mesmo que interligado, os fluxos mássicos em cada subsistema têm valores diferentes.

Figura 11 - Sistema de refrigeração por compressão em dois estágios

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Fonte: Çengel e Boles (2013).

2.4.3 REFRIGERAÇÃO A GÁS

Foi abordado anteriormente que o ciclo de potência de Carnot, ao ser invertido, se torna um ci-
clo de refrigeração. Quando constatamos que o superaquecimento do vapor seria necessário para
aumentar a eficiência do ciclo de refrigeração, o ciclo resultante nada mais é que o ciclo de potên-
cia Rankine, também invertido. Com isto observamos que a inversão de ciclos de potência pode
resultar em ciclos de refrigeração. O mesmo acontece com o denominado ciclo de refrigeração a
gás, que nada mais é que a inversão do ciclo Brayton, amplamente conhecido como um ciclo de
potência a gás.
Embora os ciclos de potência a gás tenham sido pouco abordados até agora, um esquemático
de seu funcionamento e o diagrama temperatura-entropia do ciclo é apresentado na Figura 12,
juntamente a uma comparação deste com o ciclo reverso de Carnot.

48
Figura 12 - Ciclo de refrigeração a gás

UNIDADE 02
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Fonte: adaptado de Çengel e Boles (2013).

Repare no diagrama mais à direita da Figura 12, onde o ciclo de refrigeração a gás é comparado
ao ciclo reverso de Carnot, podemos observar que a área sob a linha B → 1 do ciclo Carnot reverso
é maior que a área sob a curva 4 → 1 do ciclo de refrigeração a gás, ou seja, a energia removida do
ambiente frio pelo ciclo reverso de Carnot é superior a do ciclo a gás, além de necessitar de uma
menor quantidade de energia para compressão do fluido refrigerante.

2.4.4 REFRIGERAÇÃO POR ABSORÇÃO

Os sistemas de refrigeração por absorção recebem este nome, pois a fonte de energia para o
fluido de trabalho é acessível e pode ser absorvida, tal como energia geotérmica, energia solar,
calor rejeitado por usinas de cogeração, gás natural, entre outros. Estas fontes de energia devem
proporcionar ao fluido o aquecimento até temperaturas na faixa de 100 °C a 200 °C.
O sistema de refrigeração por absorção mais conhecido e utilizado é o sistema de amônia e água,
ilustrado na Figura 13, onde a amônia age como refrigerante e a água como meio de transporte da
energia. Água pode ser utilizada como fluido refrigerante junto a outros componentes, porém sua
aplicação será restrita à refrigeração a temperaturas acima do ponto de congelamento da água.
O funcionamento deste tipo de sistema de refrigeração é baseado na solubilização da amônia
na água, de forma que ao receber calor por absorção esta amônia possa ser separada da água para
então completar o ciclo através do evaporador, da válvula de expansão e do condensador.

49
Figura 13 - Sistema amônia-água de refrigeração por absorção

UNIDADE 02
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Fonte: Moran (2018).

Quando comparados aos sistemas de refrigeração por compressão de vapor, os sistemas de re-
frigeração por absorção apresentam uma grande vantagem: a compressão é de líquido ao invés de
vapor, o que faz com que o trabalho necessário para compressão seja muito menor, sendo geral-
mente desprezado no balanço de energia.
Porém, várias desvantagens tornam os sistemas de refrigeração por absorção menos vantajo-
sos, como o grande espaço necessário e o elevado custo de instalação, de forma que este seja um
sistema que só se torna vantajoso quando o custo da energia de alimentação seja bastante baixo.

3. BOMBAS DE CALOR
Na seção anterior os sistemas de refrigeração foram detalhadamente abordados, como dispo-
sitivos responsáveis por remover calor de um ambiente à baixa temperatura e descarregá-la em
outro com temperatura superior. Note que este sistema realiza, na verdade, duas funções: a pri-
meira e principal para um refrigerador, é a remoção de calor do ambiente que se deseja refrigerar,
porém este também cumpre uma segunda função, que consiste em “aquecer” o ambiente onde a
temperatura é superior.

50
De fato, para um refrigerador isto não é de interesse, tampouco o aquecimento será percebido,
pois geralmente o ambiente a alta temperatura é o ar atmosférico. Porém, este mesmo tipo de
sistema pode ser utilizado quando se deseja aquecer um ambiente ao invés de refrigerá-lo, sendo
este equipamento então denominado bomba de calor.
Uma bomba de calor não difere em nada, quando ao princípio de funcionamento, de um já co-

UNIDADE 02
nhecido refrigerador, a única diferença é sua finalidade: aquecer um ambiente. A Figura 14 ilustra um
esquemático de uma bomba de calor utilizada para aquecer o ambiente interno de uma residência.

Figura 14 - Bomba de calor para aquecimento residencial

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Fonte: Moran (2018).

Note que ambos operam entre dois reservatórios a diferentes temperaturas, a diferença está
no fato de que o refrigerador descarrega na atmosfera o calor removido do ambiente refrigerado,
enquanto a bomba de calor rouba da atmosfera o calor necessário para aquecer o ambiente.

3.1 COEFICIENTE DE PERFORMANCE DA BOMBA DE CALOR


Vimos anteriormente que o coeficiente de performance de um refrigerador consiste na razão
entre a taxa de remoção de calor do meio refrigerado em função do trabalho consumido pelo com-
pressor, ou seja, o efeito desejado em função da energia necessária. Esta interpretação é também
aplicada para as bombas de calor, porém aqui o interesse consiste em aquecer um ambiente, por-
tanto a razão será entre a taxa de transferência de calor para o meio aquecido, em função da ener-
gia consumida pelo compressor para tal. A equação (9) ilustra esta relação.

51
𝑄𝑠𝑎𝑖
𝛽𝐵𝐶 = (9)
𝑊𝐶

UNIDADE 02
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Ao longo desta Unidade abordamos diversos pontos cruciais para o estudo das máquinas térmicas,
entre os quais alguns dos dispositivos termodinâmicos mais utilizados, que são os refrigeradores.
Através do estudo dos sistemas de refrigeração é possível compreendermos o dimensionamento

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e seleção destes dispositivos para diversas instalações.
Vários aspectos devem ser considerados, como a temperatura dos meios com os quais o siste-
ma estará em contato, sendo este um dos limitadores no cálculo do coeficiente de performance.
Para determinadas circunstâncias, vimos que um fluido refrigerante simples e convencional pode
não ser capaz de promover as trocas térmicas necessárias, ou ainda, tornar o sistema complexo
demais de ser utilizado. Limitações de utilização podem ainda estar associados a pressões e tem-
peraturas muito elevadas, que se tornam restrição devido às propriedades mecânicas dos materiais
empregados na fabricação dos sistemas de refrigeração.
Sistemas alternativos foram apresentados, entre os quais está o sistema de refrigeração por
absorção, para o qual a mistura amônia+água pode ser empregada, sistema este que tem origem
antiga e já foi amplamente empregado em sistemas de grande porte, porém devido à toxicidade
da amônia, teve sua aplicação reduzida com o passar dos anos.
De forma sucinta, os sistemas de refrigeração e bombas de calor tem particular importância na
vida cotidiana, tal como nas grandes instalações industriais, portanto seu adequado conhecimento
se torna fundamental.

ANOTAÇÕES

52
UNIDADE

03
CICLOS A GÁS E
MOTORES DE COM-
BUSTÃO INTERNA

OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM

» Definir ciclos de potência a gás;


» Compreender as aplicações dos ciclos a gás;
» Conhecer as variações de disposição possíveis para este tipo de fluido;
» Analisar equilíbrio de energia nos componentes de cada ciclo;
» Distinguir motores de combustão interna;
» Correlacionar dados termodinâmicos com casos reais observados.

VÍDEOS DA UNIDADE

[Link] [Link] [Link]


INTRODUÇÃO
Nas Unidades anteriores conhecemos o conceito de máquina térmica, que permite grande di-
versidade de aplicações de geração de energia ou trabalho através de fontes de calor, assim como

UNIDADE 03
tivemos contato com sistemas de potência a vapor, amplamente utilizados na indústria devido ao
seu alto potencial energético e eficiências possíveis.
Nesta Unidade falaremos sobre sistemas de geração de potência, porém agora usando fluidos
de trabalho no estado gasoso. Este tipo de dispositivo não consegue atingir a mesma escala de
rendimentos que sistemas a vapor, porém podem ser razoavelmente mais compactos e de simples
operação, pois a fonte de energia é predominantemente a combustão.

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A gama de aplicações para ciclos de potência a gás é muito diversificada, partindo de máquinas
de cortar grama, veículos, ônibus e caminhões até aeronaves.
Uma das maiores vantagens dos ciclos de potência a gás é que, por serem em maioria alimenta-
dos por combustível, podem ser transportados facilmente, afinal não é necessária uma instalação
de grande porte para fornecimento de energia térmica para o fluido de trabalho, afinal, a combus-
tão de um produto promove esta transferência de energia para o ciclo, combustível este que pode
ser levado dentro de galões, tanques e reservatórios.
Ao longo desta Unidade serão apresentados alguns ciclos a gás, assim como suas principais clas-
sificações e particularidades, proporcionado maior discernimento sobre as áreas de aplicação para
cada tipo de fluido de trabalho.

1. CICLOS DE POTÊNCIA A GÁS


E O PADRÃO A AR
Abordamos em Unidades anteriores a importância e a aplicação das máquinas térmicas e siste-
mas de geração de potência, porém o foco foi dado em ciclos nos quais o fluido de trabalho sofria
mudança de fase, transitando entre os estados líquido e vapor.
Nesta Unidade serão abordados ciclos nos quais o fluido de trabalho se mantém no estado de
gás em todo o processo, motivo pelo qual denomina-se estes como Ciclos de Potência a Gás. Além
do estado do fluido de trabalho durante o ciclo, pode-se descrever mais duas classificações para
os ciclos de potência, que geralmente independem do estado do fluido durante o ciclo. Estas clas-
sificações são mais pertinentes na análise de ciclos a gás que nos casos a vapor, por isso são apre-
sentadas a seguir.
Dentre os ciclos de potência a gás serão observados dois formatos de dispositivos de potência,
aqueles que operam em ciclo aberto e aqueles que operam em ciclos fechados. Ciclos fechados
são aqueles em que o fluido de trabalho não é renovado, pois circula em um circuito fechado no

54
sistema, cumprindo um ciclo termodinâmico completo. Já os ciclos abertos são aqueles em que o
fluido de trabalho é renovado após cada ciclo, ao invés de retornar para recirculação. Os motores
dos automóveis, por exemplo, promovem exaustão de gases de combustão enquanto aspiram no-
vos gases da atmosfera junto ao combustível, desta forma o fluido não executa um ciclo termodi-
nâmico, mas o motor realiza um ciclo mecânico.

UNIDADE 03
A Figura 1 ilustra um motor de automóvel em operação, onde o combustível entra no motor,
sofre a queima e é expelido pelo sistema de exaustão, caracterizando um ciclo aberto.

Figura 1 - Combustão em motor de automóvel

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Pode-se ainda classificar as máquinas térmicas de combustão como de queima interna ou exter-
na. Nas máquinas de combustão externa o calor é fornecido ao fluido de trabalho através de uma
fonte externa, tal como um reator nuclear, uma fonte geotérmica, uma fornalha ou a radiação solar.
Já nos sistemas com combustão interna, como o caso do motor de automóvel da Figura 1, a fonte
de calor é a queima do próprio combustível, dentro da fronteira do sistema em análise.
O motor de combustão interna é um dos dispositivos mais amplamente utilizado para geração
de trabalho e energia, motivo pelo qual é amplamente citado como exemplo de ciclo a gás. Por ser
um sistema que opera em ciclo aberto, o fluido de trabalho não completa um ciclo termodinâmico,
pois é expelido logo após a combustão. Entretanto, analisar motores de combustão interna é de
grande pertinência, sendo para isto definidos ciclos fechados que se aproximem de ciclos abertos,
facilitando a modelagem e análise destes dispositivos.
A aproximação mais utilizada é o denominado ciclo padrão a ar que, segundo Borgnakke e Son-
ntag (2018), considera as hipóteses:
• O fluido de trabalho é uma quantidade fixa de massa de ar durante todo o ciclo, sendo sem-
pre considerado como um gás ideal. Não há adição ou remoção de massa no sistema.

55
• A combustão é substituída por um processo de transferência de calor de uma fonte externa.
• Considera-se troca de calor com às vizinhanças para a execução do ciclo, diferentemente dos
processos de admissão e exaustão que aconteceriam nos motores reais.
• Os processos executados pelo ciclo padrão a ar são internamente reversíveis.

UNIDADE 03
• Embora não seja a opção mais precisa, considera-se que o ar como “ar frio” durante todo o
processo, tendo calor específico constante, determinado a temperatura ambiente, aproxi-
madamente 300 K.
As hipóteses idealizadoras citadas tornam a análise dos ciclos a gás significativamente mais sim-
ples, mesmo que informações se percam devido às considerações. A maior importância da aplica-
ção deste modelo de ciclo consiste na possibilidade de análise qualitativa do processo, permitindo

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analisar as principais influências no desempenho do ciclo.

1.1 CICLO BRAYTON


Nas Unidades anteriores foram apresentados os ciclos de potência como sendo compostos por
quatro processos básicos em regime permanente, sendo eles dois processos isobáricos e dois pro-
cessos isentrópicos. Entretanto, os ciclos já apresentados eram válidos para fluidos de trabalho que
passavam por mudança de fase.
Quando um ciclo semelhante é modelado sem mudança de fase, ou seja, totalmente no estado
gasoso, obtém-se o denominado ciclo Brayton. O ciclo padrão a ar Brayton é o ciclo ideal utilizado
para modelar turbinas a gás simples.
Na Figura 2 a seguir podemos observar um diagrama esquemático de uma turbina a gás simples
com ciclo aberto, onde a combustão interna dos gases é a fonte de calor e o fluido de trabalho é o
ar. Os gases produzidos na combustão são liberados para a atmosfera após a expansão na turbina,
desta forma o fluido de trabalho não completa um ciclo termodinâmico.
É comum que o ciclo padrão a ar seja também modelado como um ciclo fechado, para facilitar
a análise termodinâmica, visto que o fluido de trabalho passa a completar um ciclo termodinâmico
e suas propriedades podem ser melhor determinadas.
Para o caso do ciclo fechado, substitui-se a câmara de combustão (onde calor seria adicionado
no caso do ciclo aberto) e o processo de exaustão (onde calor seria rejeitado no caso do ciclo aber-
to) por dois processos de transferência de calor, um responsável por adicionar calor ao ciclo, outro
responsável por remover calor do ciclo. A Figura 3 ilustra esta disposição, que remete muito ao que
já vimos em Unidades anteriores.

56
Figura 2 - Ciclo aberto a ar Brayton Figura 3 - Ciclo fechado a ar Brayton

UNIDADE 03
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Fonte: Borgnakke e Sonntag (2018).

Para compreender os processos envolvidos no ciclo padrão a ar, façamos a análise das transfe-
rências de calor e trabalho principais deste ciclo. Para isto, a Figura 4 ilustra os diagramas tempe-
ratura – entropia e pressão – volume para o ciclo.

Figura 4 - Diagramas T–s e P–v para o ciclo Brayton

Fonte: Çengel e Boles (2013).

Podemos deduzir a partir dos diagramas e conhecendo os processos que ocorrem entre cada
etapa as equações de energia em cada dispositivo, sendo positiva aquela que ocorre no sentido
indicado pelas setas.
Iniciando pela turbina, considerando que esta opera adiabaticamente, e com efeitos desprezí-
veis de energia cinética e potencial, podemos modelar o trabalho produzido por unidade de massa
𝑊̇𝑡
através da diferença entre as entalpias na entrada e na saída deste dispositivo:
𝑚̇

57
𝑊̇𝑡
= ℎ3 − ℎ4 (1)
𝑚̇

Com hipóteses semelhantes, o trabalho realizado pelo compressor por unidade de massa do

UNIDADE 03
escoamento, será:

𝑊̇𝑐
= ℎ2 − ℎ1 (2)
𝑚̇

Note que a ordem dos termos na subtração assume que ambos os trabalhos tenham valores
positivos, mesmo que o do compressor necessite ser inserido no ciclo e o da turbina seja disponi-

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bilizado pelo ciclo.
O calor adicionado pela fonte quente e o calor rejeitado pela fonte fria, por unidade de massa,
são respectivamente:

𝑄̇𝑒𝑛𝑡𝑟𝑎
= ℎ3 − ℎ2 (3)
𝑚̇

𝑄̇𝑠𝑎𝑖
= ℎ4 − ℎ1 (4)
𝑚̇

Desta forma, podemos escrever a equação da eficiência também para os ciclos padrão a ar, como
a razão entre o trabalho líquido produzido e o calor fornecido ao sistema:

(5)

Se os dados das tabelas de ar puderem ser utilizados, então os processos isentrópicos podem ser
analisados através das relações de pressão e pressão normalizada (ou reduzida) para os processos:

𝑝2
𝑝𝑟2 = 𝑝𝑟1 (6)
𝑝1

𝑝4 𝑝1
𝑝𝑟4 = 𝑝𝑟3 = 𝑝𝑟3 (7)
𝑝3 𝑝2

𝑝2 𝑝4
Nestas equações, 𝑝1
é a relação de pressão do compressor, enquanto 𝑝3
é a relação de pressão
na turbina, que como pode ser observado no diagrama pressão – volume da Figura 4, apresenta-
rão mesmo valor de razão. Já as pressões normalizadas são valores tabelados para as respectivas

58
condições de temperatura. Entre as opções disponíveis de tabela para uso nestes casos está a Ta-
bela A-22, disponível como anexo em Moran (2018).
Se optarmos por considerar o ciclo Brayton com fluido de trabalho ar padrão frio, a variação dos
calores específicos será considerada nula. Para este caso, as equações (6) e (24) são substituídas,
respectivamente, pelas expressões para processo isentrópico de um gás ideal:

UNIDADE 03
𝑘−1⁄𝑘
𝑝2
𝑇2 = 𝑇1 (8)
𝑝1

𝑘−1 ⁄𝑘 𝑘−1⁄𝑘
𝑝4 𝑝1

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𝑇4 = 𝑇3 = 𝑇3 (9)
𝑝3 𝑝2

Em que k é a razão entre os calores específico a pressão constante e a volume constante, k = cp/cv.
O exemplo a seguir ilustra as discrepâncias encontradas ao se simplificar o fluido de trabalho
para ar frio.

Exemplo 1 (MORAN, 2018): Ar entra no compressor de um ciclo de ar padrão ideal Brayton


a 100 kPa, 300 K, com uma vazão volumétrica de 5 m3/s. A relação de pressão do compres-
sor é 10. A temperatura na entrada da turbina é 1400 K. Determine:
a) A eficiência térmica do ciclo;
b) A potência líquida produzida, em kW.

Figura 5 - Exemplo 1

Fonte: Moran (2018).

Solução: Cada dispositivo pode ser analisado separadamente como um volume de controle,
tal como as indicações tracejadas em torno destes. Sabe-se que os processos na turbina e

59
no compressor são isentrópicos, enquanto nos trocadores de calor são a pressão constan-
te. Para os pontos 1 e 3, é fornecido a temperatura e a pressão, bastando então consultar
as tabelas de propriedades. Já para os estados 2 e 4, as relações de processos isentrópicos
serão necessárias.
O cálculo da eficiência está associado à definição dos estados de energia de cada ponto dos

UNIDADE 03
diagramas, portanto, devem ser obtidos primeiramente.
Estado 1: Temperatura T1 = 300 K, pressão p1 = 100 kPa. Pela tabela de propriedades do
ar como gás ideal, temos que para esta temperatura:

ℎ1 = 300,19 𝑘𝐽/𝑘𝑔

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𝑝𝑟1 = 1,386

Estado 2: Como a compressão é isentrópica e a razão de pressões é fornecida (e igual a 10),


aplica-se a relação de pressões normalizadas:
𝑝2
𝑝𝑟2 = 𝑝𝑟1 = 1,386 ∙ 10 = 13,86
𝑝1

Com esta pressão normalizada, busca-se na Tabela de propriedades do ar como gás ideal,
que após interpolação identifica-se o estado após a compressão como:

ℎ2 = 579,9 𝑘𝐽/𝑘𝑔

Estado 3: Tem-se que T3 = 1400 K e pela razão de compressão p3 = 1000 kPa. Pela tabe-
la de propriedades, obtém-se diretamente a entalpia do estado, juntamente a sua pressão
normalizada:

ℎ3 = 1515,4 𝑘𝐽/𝑘𝑔

𝑝𝑟3 = 450,5

Estado 4: Através da relação isentrópica ao passar pela turbina:


𝑝4 1
𝑝𝑟4 = 𝑝𝑟3 = 450,5 ∙ = 45,05
𝑝3 10

Interpolando na tabela de propriedades identifica-se:

ℎ4 = 808,5 𝑘𝐽/𝑘𝑔

a) A eficiência térmica pode ser obtida de acordo com a equação (5):

ℎ3 − ℎ4 − ℎ2 − ℎ1 1515,4 − 808,5 − 579,9 − 300,18


𝜂= = = 0,457 ∴ 𝟒𝟓, 𝟕%
ℎ3 − ℎ2 1515,4 − 579,9

60
b) Para se definir a potência líquida desenvolvida, deve-se aplicar a relação:

𝑊̇𝑐𝑖𝑐𝑙𝑜 = 𝑚̇ ℎ3 − ℎ4 − ℎ2 − ℎ1

Porém a vazão mássica não é fornecida, apenas a vazão volumétrica. Sabendo que fluxo más-

UNIDADE 03
sico é a razão entre o fluxo volumétrico e o volume específico, juntamente a equação para
gases ideais, obtém-se então a vazão mássica:

𝑉1̇
𝑚̇ =
𝑣1

𝑅� 𝑅� 𝑇1
𝑝1 . 𝑣1 = 𝑇1 ∴ 𝑣1 =
𝑀 𝑀 𝑝1

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Onde v1 é o volume específico do ar, logo:

𝑉1̇ 5
𝑚̇ = = = 5,807 𝑘𝑔/𝑠
𝑅� 𝑇1 8314 300
.
𝑀 𝑝1 28,97 100

Por fim, aplica-se a equação para o trabalho líquido do ciclo:

𝑊̇𝑐𝑖𝑐𝑙𝑜 = 𝑚̇ ℎ3 − ℎ4 − ℎ2 − ℎ1 = 5,807. 1515,4 − 808,5 − 579,9 − 300,18 = 𝟐𝟒𝟖𝟏 𝒌𝑾

Caso o mesmo problema seja analisado sob a consideração de ar padrão frio, as equações
(8) e (24) poderiam ser aplicadas. Se isto for efetuado, utilizando-se uma razão entre calores
específicos k = 1,4, os resultados da tabela a seguir são obtidos.

Tabela 1 - Comparação Ar Padrão e Ar Padrão Frio (k = 1,4)

PARÂMETRO ANÁLISE DE AR PADRÃO ANÁLISE DE AR PADRÃO FRIO


T2 574,1 K 579,2 K
T4 787,7 K 725,1 K
η 0,457 0,482
Ẇciclo 2481 kW 2308 kW

Fonte: adaptado de Moran (2018)

Note que as variações dos resultados quando se compara a análise Ar Padrão e Ar Padrão
Frio são bastante pequenas, sendo geralmente de escolha livre o procedimento de resolução.

Segundo Çengel e Boles (2013), uma notação alternativa para a eficiência térmica de um ciclo
Brayton padrão a ar frio pode ser obtida, definida pela equação (24).

61
1
𝜂𝑡,𝐵𝑟𝑎𝑦𝑡𝑜𝑛 = 1 − (𝑘−1)⁄𝑘 (10)
𝑟𝑃

𝑃2
Onde 𝑟𝑃 =
𝑃1
é a “razão de pressão” entre a pressão máxima e mínima do ciclo.

UNIDADE 03
Analisando a equação (24) percebemos que sob a hipótese do padrão a ar frio, a eficiência tér-
mica de um ciclo Brayton ideal estará relacionada à razão de pressão das turbinas a gás e da razão
dos calores específicos do fluido de trabalho (fator k).
A elevação dos parâmetros rP e/ou k promovem maiores eficiências, o que condiz com as situações
reais das turbinas a gás. A variação da eficiência com a razão de pressão é ilustrada na Figura 6 para
um valor fixo k = 1,4, que consiste na razão dos calores específicos do ar a temperatura ambiente.

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Figura 6 - Eficiência térmica em função da razão de pressão

Fonte: Çengel e Boles (2013).

Quando se trata da temperatura, sabe-se que existe uma limitação metalúrgica, pois as pás das
turbinas são feitas de metal e não são capazes de suportar temperaturas extremas. Portanto, pas-
sa-se a considerar a relação de pressão para o aumento da eficiência térmica.
A Figura 7 apresenta um exemplo onde dois ciclos estão sobrepostos em um único diagrama
temperatura – entropia. Observe que ambos os ciclos possuem a mesma temperatura de entrada
na turbina, porém diferentes razões de pressão (distância entre os pontos 1-2 e 1-2’). O ciclo deno-
minado por “A” possui maior relação de pressão, logo, maior eficiência térmica, porém o ciclo “B”
possui área maior na curva do ciclo, que representa maior trabalho líquido produzido por escoa-
mento de fluido. Desta forma, para que o ciclo “A” desenvolva a mesma potência que o ciclo “B” é
capaz de desenvolver, seria necessária uma vazão mássica maior, e consequentemente um sistema
significativamente maior, algo que nem sempre é economicamente viável.
Análise semelhante é efetuada nas turbinas a gás destinadas ao uso em veículos, onde o peso
do motor deve ser mantido dentro de limites cabíveis. Nestes casos, o interesse é em operar o ciclo

62
próximo da relação de pressão do compressor que suporte o máximo trabalho por unidade de fluxo
de massa, ao invés da relação de pressão para a maior eficiência térmica.

Figura 7 - Comparação ciclos a mesmas temperaturas

UNIDADE 03
UNIBRASIL EAD | MÁQUINAS TÉRMICAS
Fonte: Moran (2018).

1.1.1 CICLO BRAYTON COM REGENERAÇÃO

Turbinas a gás, assim como os sistemas a vapor, podem receber componente regenerador, dado
o fato de que os gases de exaustão da turbina são consideravelmente mais quentes que aqueles que
entram no compressor. O ar a alta pressão que sai do compressor pode então ser aquecido pelos
gases de exaustão da turbina em um trocador de calor de correntes opostas.
Uma ilustração de um motor a gás que utiliza um regenerador é apresentada na Figura 8.

Figura 8 - Ciclo Brayton regenerativo

Fonte: Çengel e Boles (2013).

63
Repare que ao sair da turbina os gases de exaustão transferem calor para o ar comprimido no
trocador de calor, causando um pré-aquecimento deste antes de entrar na câmara de combustão.
Desta forma, menos energia é necessária na câmara de combustão, ou seja, menos combustível
será consumido.
Na Figura 9 o diagrama temperatura – entropia deste ciclo é apresentada. Note que caso não

UNIDADE 03
houvesse o sistema regenerativo, o combustível seria responsável por fornecer a energia necessá-
ria para a mudança do estado 2 para o estado 3. Com o sistema regenerativo, a combustão deverá
fornecer apenas o necessário para a mudança do estado 5 para o estado 3, pois a porção de ener-
gia entre os estados 2 e 5 foi fornecida pelo regenerador. Basicamente, calor é transferido de uma
etapa do ciclo para outra, reduzindo a descarga de energia no ambiente enquanto proporciona
menor consumo de combustível para o aquecimento.

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Figura 9 - Diagrama T–s ciclo Brayton regenerativo

Fonte: Çengel e Boles (2013).

Deve-se tomar cuidado com o fato de que o sistema de regeneração para os ciclos a gás só tem
aplicação para o caso de a temperatura na saída da turbina ser superior à temperatura da saída do
compressor (pelo diagrama da Figura 9, o estado 4 deve estar acima do estado 2), caso contrário o
calor fluirá para o sentido oposto.
Note que a temperatura de saída do ar comprimido do regenerador (estado 5) é inferior a tem-
peratura do fluido que sai da turbina para o regenerador (estado 4), isto ocorre, pois o calor apenas
fluirá de um fluido para outro caso haja diferença de temperatura. Em um sistema ideal, o fluido
aquecido pelo regenerador sairia a temperatura do estado 4, ou seja, sairia no estado 5’, porém,
esta consideração não é realista.
A quantidade de calor transferida para o fluido aquecido pelo regenerador pode ser estimada
para o caso real e para o caso máximo possível, pelas equações (11) e (24) respectivamente.

64
𝑞𝑟𝑒𝑔𝑒𝑛,𝑟𝑒𝑎𝑙 = ℎ5 − ℎ2 (11)

𝑞𝑟𝑒𝑔𝑒𝑛,𝑚á𝑥 = ℎ5′ − ℎ2 = ℎ4 − ℎ2 (12)

UNIDADE 03
1.2 CICLO PADRÃO A AR PARA PROPULSÃO A JATO
Uma das mais conhecidas aplicações dos motores a turbina a gás é na aviação, graças a sua alta
relação potência-peso. Este tipo de motor opera em um ciclo aberto denominado ciclo de propul-

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são a jato.
Diferentemente do ciclo Brayton ideal, a expansão dos gases no ciclo ideal de propulsão a jato
não atinge a pressão ambiente, ao invés disso, são expandidos até a pressão na qual a energia pro-
duzida na turbina seja suficiente para alimentar o compressor e demais dispositivos de controle do
sistema, ou seja, o trabalho líquido produzido em um ciclo de propulsão a jato é zero. Isto ocorre,
pois os gases que deixam a turbina a pressão relativamente alta são acelerados pela passagem em
um bocal, afim de fornecer empuxo e mover o avião, ou seja, o objetivo do motor a turbina de um
avião não é gerar energia, mas sim promover a propulsão do mesmo.

Figura 10 - Turbofan em um avião

65
A ilustração de um motor turbo jato e seu respectivo diagrama temperatura – entropia é apre-
sentada na Figura 11. Ao entrar pelo difusor do turbo jato (estado 1), o ar atmosférico é desace-
lerado enquanto sua pressão é ligeiramente elevada (estado 2), logo na sequência, ao passar pelo
compressor, sua pressão é elevada em maior quantidade (estado3). O combustível é então mistu-
rado ao ar para a combustão a pressão constante, adicionando calor ao fluido (estado 4). Os gases

UNIDADE 03
de combustão entram então a alta pressão e temperatura na turbina, onde se expandem parcial-
mente, produzindo potência suficiente para acionar o compressor e os dispositivos auxiliares (es-
tado 5). Por fim, os gases se expandem ao passar por um bocal até a pressão ambiente (estado 6),
deixando o sistema a alta velocidade.

Figura 11 - Motor turbo jato e seu diagrama temperatura - entropia

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Fonte: Çengel e Boles (2013).

Os processos que ocorrem no difusor, no compressor, na turbina e no bocal são considerados


isentrópicos. Em situações reais, sabe-se que as irreversibilidades ocorrem, porém a função da
turbina continuará sendo alimentar o compressor e demais dispositivos, então uma compensação
deverá ser feita, de forma que a consequência da presença das irreversibilidades será a redução do
empuxo produzido pelo turbo jato.
Empuxo é a força resultante da diferença entre as quantidades de movimento na entrada e na
saída do sistema. Como a pressão na entrada e na saída do ciclo é a mesma, o empuxo a ser de-
senvolvido passa a ser proporcional a diferença de velocidades, tal que:

𝐹 = 𝑚̇ . (𝑉𝑠𝑎𝑖 − 𝑉𝑒𝑛𝑡 ) (13)

Onde Vsai é a velocidade de saída dos gases de exaustão e Vent a velocidade em que os gases
entram no sistema, ambas avaliadas em relação ao avião. Note que na saída do turbo jato, o fluxo
mássico inclui o combustível adicionado no ciclo, porém devido à baixa quantidade quando com-
parado ao fluxo de ar, esta quantidade é desprezada.
Podemos definir também a potência de propulsão, que nada mais é que a força de empuxo ve-
zes a velocidade do deslocamento do avião:

66
𝑊̇𝑃 = 𝐹. 𝑉𝑎𝑣𝑖ã𝑜 = 𝑚̇ . (𝑉𝑠𝑎𝑖 − 𝑉𝑒𝑛𝑡 ). 𝑉𝑎𝑣𝑖ã𝑜 (14)

Como o trabalho líquido produzido por um turbo jato é nulo, a definição de sua eficiência não

UNIDADE 03
pode ser calculada a partir deste, devemos então aplicar o conceito base da eficiência, que consis-
te em medir a entrada necessária para se gerar um fenômeno de interesse, neste caso, deseja-se
obter uma potência de propulsão para o avião (ẆP), enquanto energia é adicionada em forma de
poder calorífico de combustível (Q̇ ent). Desta forma, a eficiência de propulsão será:

𝑊̇𝑃
𝜂𝑃 = (15)
𝑄̇𝑒𝑛𝑡

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Note então que a eficiência de propulsão é uma medida da eficiência de conversão da energia
térmica liberada pela queima do combustível em energia de propulsão. A energia que não se con-
verteu em propulsão estará nos gases de exaustão, que terão maior entalpia e energia cinética que
ao entrarem no dispositivo.

VÍDEO

Uma ilustração do funcionamento completo de um turbo jato é apresentada pelo autor Jacob
O’Neal através do canal “Animagraffs”. Este tipo de motor é de difícil acesso para que se possa co-
nhecer pessoalmente, portanto tal visualização é de extrema importância e proporciona contato
com diversos termos técnicos e subcomponentes deste tipo de propulsão.
Assista através do link: [Link] Acesso em 25 jan. 2023.

2. MOTORES DE COMBUSTÃO INTERNA


Embora a maioria das turbinas a gás também sejam de combustão interna, este termo é mais
amplamente empregado para os motores alternativos, aqueles comumente utilizados em automó-
veis, caminhões etc. A principal diferença entre os motores alternativos e as instalações de potência
apresentadas anteriormente está no fato de que o processo completo ocorre dentro de um arranjo
pistão-cilindro, com movimentos denominados alternativos, ao invés de ocorrer em uma série de
componentes diferentes interligados entre si.

2.1 TERMINOLOGIA E CLASSIFICAÇÃO


Existem dois tipos principais de motores quando se trata de combustão interna alternativa, são
eles o motor com ignição por centelha e o motor com ignição por compressão.

67
Os motores com ignição por centelha, uma vela de ignição faz com que uma mistura de ar e
combustível seja inflamada, enquanto no motor com ignição por compressão o ar é comprimido até
elevados valores de temperatura e pressão, suficientes para que no instante em que o combustível
é injetado na câmara de combustão, este sofra combustão espontânea. Os motores por centelha
têm construção mais leve e compacta, sendo adequados para valores de potência até a casa dos

UNIDADE 03
225 kW. Já os motores com ignição por compressão são significativamente mais robustos e pesa-
dos, motivo pelo qual são instalados geralmente em maquinários mais pesados como caminhões,
locomotivas, navios, geradores de eletricidade etc.
A construção dos motores de combustão interna se baseia em um pistão que se move dentro
de um cilindro dotado de ao menos duas válvulas. A Figura 12 ilustra esta disposição. Algumas de-
finições pertinentes, segundo Moran (2018):

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• Calibre: diâmetro do pistão;
• Curso: distância que o pistão se desloca durante a execução de um ciclo, contando apenas
uma direção;
• Ponto morto superior (PMS): posição do pistão que gera o menor volume do cilindro;
• Ponto morto inferior (PMI): posição do pistão que gera o máximo volume no cilindro;
• Volume de deslocamento: é o volume deslocado pelo pistão ao se mover entre o ponto mor-
to superior e o ponto morto inferior;
• Taxa de compressão (r): é a razão entre o volume do cilindro quando o pistão está no ponto
morto inferior e o volume do cilindro quando o pistão está no ponto morto superior;
O movimento vertical do pistão é convertido em rotação pelo mecanismo de manivela gerado
pela combinação do virabrequim com a biela.

VÍDEO

Uma ilustração do funcionamento completo de um motor veicular de combustão interna, que opera
de acordo com o ciclo Otto, é apresentada pelo autor Jacob O’Neal através do canal “Animagraffs”.
Embora este ciclo ainda não tenha sido apresentado, o vídeo citado deve clarear a imaginação e
facilitar a compreensão dos tópicos subsequentes.
Assista através do link: [Link] Acesso em 25 jan. 2023.

68
Figura 12 - Componentes e nomenclatura para motores alternativos cilindro-pistão

UNIDADE 03
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Fonte: Moran (2018).

Entre os motores de combustão interna, é comum a presença de quatro processos, conhecidos


como quatro tempos. Isto significa que o pistão precisará executar quatro cursos distintos dentro
do cilindro para conclusão do ciclo. Devido a sua geometria e ao mecanismo de manivela, duas ro-
tações completas do virabrequim são necessárias para a execução do ciclo.
Os quatro tempos de um motor a combustão interna são descritos:
1. Admissão: com a válvula de admissão aberta, o movimento vertical para baixo do pistão pro-
move a aspiração do ar ou da mistura ar + combustível para o interior da câmara de combustão.
2. Compressão: com ambas as válvulas fechadas, o pistão se desloca verticalmente para cima,
elevando a pressão e a temperatura do conteúdo da câmara. Nesta fase trabalho externo é
necessário para promover a compressão.
3. Expansão: também denominado curso de potência, inicia-se com o início da combustão da
mistura presente na câmara. Para motores com ignição por centelha, a combustão inicia com
a faísca gerada pela vela, enquanto para motores com ignição por compressão a combustão
se inicia quando o combustível é injetado na câmara a alta temperatura. A expansão da mis-
tura presente na câmara promove realização de trabalho de deslocamento sobre o pistão,
iniciando-se no ponto morto superior e se estendendo até o ponto morto inferior.
4. Escape: após a combustão, a válvula de escape se abre e o pistão se desloca verticalmente
para cima, expulsando os gases gerados pela combustão até o escapamento do motor. Esta
etapa se encerra quando o pistão atinge o ponto morto superior e a válvula de escape se fe-
cha, podendo então se iniciar outro ciclo.

69
Este ciclo é ilustrado através de um diagrama pressão – volume como apresentado na Figura 13, onde
pode-se observar os quatro tempos do ciclo, juntamente aos fenômenos inerentes a cada um deles.

Figura 13 - Diagrama pressão - volume para um motor de quatro tempos

UNIDADE 03
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Fonte: Moran (2018).

SAIBA MAIS

Motores de pequeno porte, como os encontrados em motosserras, cortadoras de grama, jet-ski,


bombas portáteis etc., quando movidos a Gasolina, frequentemente operam em um ciclo de dois
tempos, onde em apenas uma revolução do virabrequim todas as etapas do ciclo são executa-
das. Algumas vantagens podem ser citadas para estes motores, enquanto outras como eficiência
e nível de emissão de poluentes surgem como grandes desvantagens. Mais informações sobre o
ciclo podem ser obtidas no blog Educação Automotiva, acessando o site: [Link]
Acesso em 25 jan. 2023.

Um parâmetro importante para caracterizar o desempenho de motores alternativos a pistão é a


denominada pressão média efetiva (PME), que consiste na pressão constante que, se atuando so-
bre o pistão durante todo o curso de expansão, produziria o mesmo trabalho líquido que um certo
ciclo realmente produz. A equação (16) apresenta a relação que permite obter o PME.

𝑊𝑙í𝑞
𝑃𝑀𝐸 = (16)
𝑉𝑚á𝑥 − 𝑉𝑚í𝑛

70
Onde Vmáx e Vmin são os volumes máximo e mínimo do cilindro, quando o pistão está no ponto
morto inferior e superior, respectivamente.

2.2 CICLO OTTO

UNIDADE 03
Citou-se anteriormente que a centelha em um motor de combustão interna pode ser iniciada
através de dois métodos. O ciclo Otto é o ciclo ideal dos motores alternativos de ignição por cen-
telha. A Figura 14 ilustra os quatro tempos descritos na seção anterior, porém agora apresentando
uma comparação entre o fenômeno presente em um ciclo real e os fenômenos observados em um
ciclo ideal, agora denominado por ciclo Otto.

Figura 14 - Comparação entre ciclo real e ciclo Otto para motores de ignição

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por centelha e seus respectivos diagramas pressão - volume

Fonte: Çengel e Boles (2013).

Note que os processos do ciclo real, ao serem representados no ciclo Otto, são substituídos por
processor reversíveis em um ciclo fechado, em que o fluido de trabalho não é substituído. Os pro-
cessos passam então a ser:
• 1 → 2: Compressão isentrópica;
• 2 → 3: Fornecimento de calor a volume constante;
• 3 → 4: Expansão isentrópica;
• 4 → 1: Rejeição de calor a volume constante.

71
Atenção especial deve ser dada aos processos 2 → 3, e 4 → 1, pois a adição ou rejeição de calor
ocorrem a volume constante, ou seja, sem que o pistão se desloque e realize trabalho.
Por ser executado em um sistema fechado, a análise dos processos no ciclo Otto é executada
pelo balanço de energia da equação (17), onde as energias cinética e potencial são desprezadas.

UNIDADE 03
𝑞𝑒𝑛𝑡 − 𝑞𝑠𝑎𝑖 + 𝑤𝑒𝑛𝑡 − 𝑤𝑠𝑎𝑖 = Δ𝑢 (17)

Como os processos de transferência de calor ocorrem a volume constante, as iterações de traba-


lho serão nulas, portanto, as transferências de calor de entrada e saída do ciclo durante os processos
2 → 3 e 4 → 1 podem ser obtidas pela variação da energia interna, ou aplicando calor específico a

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volume constante, tal como exposto nas equações X e X.

𝑞𝑒𝑛𝑡 = 𝑢3 − 𝑢2 = 𝑐𝑣 (𝑇3 − 𝑇2) (18)

𝑞𝑠𝑎𝑖 = 𝑢4 − 𝑢1 = 𝑐𝑣 (𝑇4 − 𝑇1) (19)

Sob a hipótese do padrão a ar frio, a eficiência térmica do ciclo Otto pode ser escrita por:

𝑤𝑙í𝑞 𝑞𝑠𝑎𝑖 𝑇4 − 𝑇1
𝜂𝑡,𝑂𝑡𝑡𝑜 = =1− =1− (20)
𝑞𝑒𝑛𝑡 𝑞𝑒𝑛𝑡 𝑇3 − 𝑇2

Sabendo que os processos 1 → 2 e 3 → 4 são isentrópicos e o volume é constante entre os pro-


cessos 2 e 3, e entre os processos 4 e 1, pode-se escrever:

𝑘−1 𝑘−1
𝑇1 𝑣2 𝑣3 𝑇4
= = = (21)
𝑇2 𝑣1 𝑣4 𝑇3

Por fim, pode-se então reescrever a equação da eficiência térmica do ciclo de Otto para a hipó-
tese do padrão a ar frio.

1
𝜂𝑡,𝑂𝑡𝑡𝑜 = 1 − (22)
𝑟 𝑘−1

𝑉1 𝑐𝑝
Onde 𝑟=
𝑉2
é a razão de compressão e 𝑘=
𝑐𝑣
é a razão dos calores específicos.

Tal como os motores a turbina a gás, a eficiência térmica do ciclo Otto se eleva com o aumento
das razões de compressão e de calores específicos.

72
Exemplo 2 (Çengel e Boles, 2013): Um ciclo Otto ideal tem uma razão de compressão igual
a 8. No início do processo de compressão, o ar está a 100 kPa e 17 °C, e 800 kJ/kg de calor
são transferidos para o ar durante o processo de fornecimento de calor a volume constan-
te. Considerando a variação dos calores específicos do ar com a temperatura, determine:

UNIDADE 03
a) a temperatura e a pressão máximas que ocorrem durante o ciclo;
b) o trabalho líquido produzido;
c) a eficiência térmica;
d) a pressão média eficaz do ciclo.

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Figura 15 - Exemplo 2

Fonte: Çengel e Boles (2013).

Solução: Sabe-se que os maiores valores de pressão e temperatura em um ciclo Otto serão
observados ao final do processo de fornecimento de calor a volume constante, ou seja, no
estado 3 do ciclo. Para que possamos determinar este estado, é necessário definir o estado
2, após a compressão isentrópica.
a) Devemos consultar a tabela de propriedades de gás ideal do ar ao longo de nossa análise.
Estado 1: de acordo com a informação de pressão e temperatura para este estado, obte-
mos que para T = 290 K, a energia interna e o volume normalizado serão, respectivamente:

𝑢1 = 206,91 𝑘𝐽/𝑘𝑔

𝑣𝑟 = 676,1

Estado 2: sabe-se que o processo 1 → 2 é uma compressão isentrópica de gás ideal, portan-
to a relação de volumes normalizados pode ser aplicada:

73
𝑣𝑟1 676,1
𝑣𝑟2 = = = 84,51
𝑟 8
Para este volume reduzido, obtemos por interpolação a temperatura e energia interna do
estado 2:

UNIDADE 03
𝑇2 = 652,4 𝐾

𝑢2 = 475,11 𝑘𝐽/𝑘𝑔

Pela equação dos gases ideais, pode-se obter também a pressão para este estado:

𝑃2𝑣2 𝑃1𝑣1 𝑇2 𝑣1 652,4 𝐾


= ∴ 𝑃2 = 𝑃1. . = 100 𝑘𝑃𝑎 . . 8 = 1799,7 𝑘𝑃𝑎

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𝑇2 𝑇1 𝑇1 𝑣2 290 𝐾

Estado 3: como o processo 2 → 3 é uma adição de calor a volume constante e é conhecido o


montante de energia transferida nesta etapa (800 kJ/kg), basta a análise de energias internas:

𝑞𝑒𝑛𝑡 = 𝑢3 − 𝑢2 ∴ 𝑢3 = 800 𝑘𝐽⁄𝑘𝑔 + 475,11 𝑘𝐽⁄𝑘𝑔 = 1275,11 𝑘𝐽/𝑘𝑔

Este valor de energia interna está associado a uma temperatura e a um volume normalizado
de, respectivamente:

𝑻𝟑 = 𝟏𝟓𝟕𝟓, 𝟏 𝑲

𝑣𝑟3 = 6,108

Com a informação da temperatura, aplica-se a equação dos gases ideais para obter a pres-
são neste estado:
𝑇3 𝑣2 1575,1 𝐾
𝑷𝟑 = 𝑃2 . = 1799,7 𝑘𝑃𝑎 . . 1 = 𝟒, 𝟑𝟒𝟓 𝑴𝑷𝒂
𝑇2 𝑣3 652,4 𝐾

Sendo estas então as máximas pressão e temperatura do ciclo.


Estado 4: o processo 3 → 4 é uma expansão isentrópica, portanto:

𝑣𝑟4 = 𝑟. 𝑣𝑟3 = 8 . 6,108 = 48,864

Para este volume normalizado, obtém-se:

𝑇4 = 795,6 𝐾

𝑢4 = 588,74 𝑘𝐽/𝑘𝑔

b) Para se obter o trabalho líquido do ciclo, sabendo que 𝑤𝑙í𝑞 = 𝑞𝑒𝑛𝑡 − 𝑞𝑠𝑎𝑖 , temos de cal-
cular a quantidade de energia rejeitada, dado que a fornecida já e de conhecimento:

𝑞𝑠𝑎𝑖 = 𝑢4 − 𝑢1 = 588,74 − 206,91 = 381,83 𝑘𝐽/𝑘𝑔

74
Então:

𝒘𝒍í𝒒 = 800 − 381,83 = 𝟒𝟏𝟖, 𝟏𝟕 𝒌𝑱/𝒌𝒈

c) a eficiência térmica do ciclo pode então ser determinada:

UNIDADE 03
𝑤𝑙í𝑞 418,17
𝜼𝒕 = = = 0,523 ∴ 𝟓𝟐, 𝟑%
𝑞𝑒𝑛𝑡 800

d) para determinar a pressão média eficaz, aplicamos:


𝑤𝑙𝑖𝑞 𝑤𝑙𝑖𝑞 𝑤𝑙𝑖𝑞
𝑃𝑀𝐸 = = 𝑣 =
𝑣1 − 𝑣2 𝑣 − 1 1
1 𝑟 𝑣1 1 −

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𝑟
Portanto, é necessário conhecer o volume específico no estado 1, que pode ser determinado
através da equação dos gases ideais:

𝑅𝑇1 0,287 𝑘𝑃𝑎. 𝑚3 ⁄𝑘𝑔. 𝐾 . (290 𝐾)


𝑣1 = = = 0,832 𝑚3 /𝑘𝑔
𝑃1 100 𝑘𝑃𝑎

Substitui-se na equação do PME:


418,17 𝑘𝐽⁄𝑘𝑔
𝑷𝑴𝑬 = = 𝟓𝟕𝟒 𝒌𝑷𝒂
1
(0,832 𝑚3/𝑘𝑔) 1 −
8
Portanto, uma pressão constante de 574 kPa durante todo o deslocamento do pistão no ci-
lindro produziria o mesmo trabalho do caso em estudo.

2.3 CICLO DIESEL


Conhecemos anteriormente os ciclos utilizados em motores de combustão interna, classifican-
do-os quanto ao tipo de ignição. Na seção anterior o ciclo Otto foi apresentado como o ciclo ideal
para motores com ignição por centelha, nesta seção conheceremos o ciclo Diesel, que consiste no
ciclo ideal dos motores alternativos de ignição por compressão.
O ciclo Diesel apresenta os mesmos processos já apresentados para o caso geral de motores
alternativos e para o ciclo Otto, o diferencial está no fato de que a centelha não é utilizada para
iniciar a combustão. Para que a combustão se inicie pela simples compressão, dois fenômenos são
necessários: a ocorrência de pressões maiores na câmara de combustão, além de um combustível
com ponto de autoignição adequado às referidas pressões.
É característica do ciclo Diesel, portanto, que a pressão máxima na câmara de combustão seja
superior à pressão de autoignição do combustível, de forma que ao ser injetado a combustão se
inicie instantaneamente.
Em relação aos aspectos físicos, espera-se que os motores que operam de acordo com o ciclo

75
Diesel sejam mais robustos devido às elevadas pressões, além de possuir um bico injetor de com-
bustível ao invés de uma vela de ignição, tal como ilustrado na Figura 16.

Figura 16 - Diferença entre vela no ciclo Otto (a gasolina) e bico injetor no ciclo Diesel

UNIDADE 03
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Fonte: Çengel e Boles (2013).

A injeção de combustível no ciclo Diesel se inicia imediatamente antes do pistão atingir o PMS,
se mantendo até parte do processo de expansão, de forma que a combustão nestes motores ocorra
durante uma maior extensão de tempo. Este fenômeno faz com que no ciclo ideal a Diesel a etapa
de combustão seja modelada como um fornecimento de calor a pressão constante, sendo o único
processo que torna o ciclo ideal a Diesel diferente do ciclo Otto ideal. Os diagramas pressão – vo-
lume e temperatura – entropia são apresentados na Figura 17 para análise.

Figura 17 - Diagramas pressão - volume e temperatura - entropia para o ciclo Diesel ideal

Fonte: Çengel e Boles (2013).

76
Com isso, podemos definir as magnitudes das trocas de calor em cada processo do ciclo, em es-
pecial aqueles onde há adição ou remoção de calor de ou para o volume de controle.
Como o calor é transferido para o fluido de trabalho a pressão constante, haverá interação de
trabalho de fronteira enquanto calor é adicionado, desta forma podemos escrever:

UNIDADE 03
𝑞𝑒𝑛𝑡 − 𝑤𝑓,𝑠𝑎𝑖 = 𝑢3 − 𝑢2 → 𝑞𝑒𝑛𝑡 = 𝑃2 𝑣3 − 𝑣2 + 𝑢3 − 𝑢2 = ℎ3 − ℎ2 = 𝑐𝑃 (𝑇3 − 𝑇2) (23)

Enquanto para o caso da remoção de calor a pressão constante a equação se torna equivalente
àquela do ciclo Otto para este mesmo processo. Representada pela equação (19).
Podemos então descrever a eficiência térmica do ciclo Diesel ideal sob a hipótese do padrão a

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ar frio, de tal forma que:

𝑤𝑙í𝑞 𝑞𝑠𝑎𝑖 𝑇4 − 𝑇1
𝜂𝑡,𝐷𝑖𝑒𝑠𝑒𝑙 = =1− =1− (24)
𝑞𝑒𝑛𝑡 𝑞𝑒𝑛𝑡 𝑘 𝑇3 − 𝑇2

Onde k é a razão dos calores específicos.


Note que a equação da eficiência térmica do ciclo Diesel se assemelha muito com a equivalen-
te do ciclo Otto, com o diferencial de que para o ciclo Diesel há o termo k no quociente. Como o
termo da razão dos calores específicos será sempre maior que a unidade, podemos concluir que
a eficiência térmica do ciclo Diesel será sempre menor que a eficiência de um ciclo Otto para um
mesmo intervalo de temperaturas e razão de compressão. Esta informação parece contradizer o
fato já apresentado de que a eficiência dos motores a Diesel é em geral maior que aquela do ciclo
Otto, porém isto se mantém correto, pois as razões de compressão de um motor Diesel sempre
serão superiores as de um ciclo Otto, mantendo a afirmação anterior. Motores a Diesel de grande
porte apresentam valores de eficiência térmica na faixa de 35 a 40%.

Exemplo 3 (Borgnakke e Sonntag, 2018): Um ciclo padrão a ar Diesel apresenta relação de


compressão igual a 20 e o calor transferido ao fluido de trabalho, por ciclo, é 1800 kJ/kg.
Sabendo que no início do processo de compressão, a pressão é igual a 0,1 MPa e a tempe-
ratura é 15 °C, determine:
a) A pressão e a temperatura em cada ponto do ciclo.
b) O rendimento térmico.
c) A pressão média efetiva.
Solução: Devemos realizar aqui um procedimento semelhante ao observado no Exemplo 2,
definindo as propriedades em cada estado do ciclo.
Estado 1: sabemos que P1 = 0,1 MPa e que T1 = 288,2 K, pela equação dos gases ideais
definimos o volume específico para este estado:

77
0,287.288,2
𝑃𝑣 = 𝑅𝑇 → 𝑣1 = = 0,827 𝑚3 /𝑘𝑔
100
Estado 2: sabendo que a razão de compressão é igual a 20:
𝑣1 0,827
𝑣2 = = = 0,041 𝑚3 /𝑘𝑔

UNIDADE 03
20 20
Como o processo 1 → 2 é isentrópico, temos que:
𝑘−1
𝑇2 𝑉1
= = 200,4 = 3,3145 ∴ 𝑻𝟐 = 𝟗𝟓𝟓, 𝟐 𝑲
𝑇1 𝑉2

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𝑃2 𝑉1
= = 201,4 = 66,29 ∴ 𝑷𝟐 = 𝟔, 𝟔𝟐𝟗 𝑴𝑷𝒂
𝑃1 𝑉2

Estado 3: o processo 2 → 3 é a pressão constante, logo, P3 = 6,629 MPa. Conhecendo a


transferência de calor entre os processos 2 → 3 como qent = 1800 kJ/kg, obtemos que:
1800
𝑞𝑒𝑛𝑡 = 𝑐𝑝 𝑇3 − 𝑇2 = 1800 ∴ 𝑇3 − 𝑇2 = = 1793 ∴ 𝑻𝟑 = 𝟐𝟕𝟒𝟖 𝑲
1,004
𝑣3 𝑇3 2748
= = = 2,8769 ∴ 𝑣3 = 0,11896 𝑚3/𝑘𝑔
𝑣2 𝑇2 955,2

Estado 4: a partir da relação de expansão isentrópica:


𝑘−1 0,4
𝑇3 𝑉4 0,827
= = = 2,1719 ∴ 𝑻𝟒 = 𝟏𝟐𝟔𝟓 𝑲
𝑇4 𝑉3 0,11896

𝑘
𝑃3 𝑉4
= = 6,9521,4 = 15,099 ∴ 𝑷𝟒 = 𝟎, 𝟗𝟓𝟒 𝑴𝑷𝒂
𝑃4 𝑉3

Para o cálculo do rendimento térmico precisamos conhecer o calor descarregado pelo ciclo:

𝑞𝑠𝑎𝑖 = 𝑐𝑣 𝑇4 − 𝑇1 = 0,717 1265 − 288,2 = 700,4 𝑘𝐽/𝑘𝑔

𝑤𝑙í𝑞 = 𝑞𝑒𝑛𝑡 − 𝑞𝑠𝑎𝑖 = 1800 − 700,4 = 1099,6 𝑘𝐽/𝑘𝑔

Obtemos então o rendimento térmico:


𝑤𝑙í𝑞 1099,6
𝜼𝒕 = = = 0,616 ∴ 𝟔𝟏, 𝟔%
𝑞𝑒𝑛𝑡𝑟𝑎 1800

Por fim, obtém-se a pressão média efetiva:


𝑤𝑙𝑖𝑞 1,099,6
𝑷𝑴𝑬 = = = 𝟏𝟒𝟎𝟎 𝒌𝑷𝒂
𝑣1 − 𝑣2 0,827 − 0,04135

78
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Finalizada mais uma Unidade, nos resta analisar as principais informações discutidas ao longo do
texto. Esta Unidade apresentou diversos novos conceitos, muitos sobre sistemas menos habituais,

UNIDADE 03
outros sobre sistemas extremamente presentes em nosso cotidiano, em especial as características
dos motores de combustão interna, utilizados nos principais meios de transporte que utilizamos
em nosso dia a dia.
Ciclos de potência a gás se mostraram poderosos, capazes de gerar grandes quantidades de
energia e potência, porém ainda assim com eficiências térmicas menores que ciclos a vapor apre-
sentados nas Unidades de estudo anteriores.

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A hipótese do ar padrão foi aplicada para simplificação destes ciclos como fluido de trabalho
predominante entre eles, sendo esta uma ferramenta importante para definição dos estados e
análise de energia.
Vimos nesta Unidade os componentes principais que constituem motores de grande interesse
na engenharia, como motores a jato comumente aplicados em aviões, motores a diesel aplicados
em sistemas de grande porte como caminhões geradores, navios etc., além dos motores do ciclo
Otto, empregados na esmagadora maioria de nossos veículos de translado diário.
Com o conhecimento adquirido nestas páginas, a análise e dimensionamento de um sistema de
potência a gás será grandemente simplificada, tornando possível a escolha do modelo de motor e
ciclo que melhor se adequa a cada necessidade demandada.

ANOTAÇÕES

79
UNIDADE

04
COMBUSTÃO E
MOTORES DE COM-
BUSTÃO INTERNA

OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM

» Definir combustíveis e combustão;


» Caracterizar entalpia de formação e de combustão;
» Avaliar o equilíbrio de reações de combustão;
» Estimar o poder calorífico de combustíveis;
» Caracterizar as curvas de motores de combustão;
» Demonstrar os testes realizados em motores;
» Descrever a importância do controle dos poluentes.

VÍDEOS DA UNIDADE

[Link] [Link] [Link]


INTRODUÇÃO
Ao longo desta disciplina foram apresentados conceitos básicos e fundamentais para a compre-
ensão das máquinas térmicas, dentre os quais os dispositivos geradores de potência e sistemas de

UNIDADE 04
refrigeração.
Nesta Unidade o foco é dado em sistemas de geração de potência, porém com algumas parti-
cularidades em relação ao apresentado anteriormente. Nos casos já vistos, o fluido de trabalho se
mantinha ao longo do ciclo, ou seja, sua composição não era alterada. Nesta Unidade serão apre-
sentados os conceitos de combustão, que nada mais é que uma reação química onde se utiliza da
energia liberada por uma reação exotérmica para gerar trabalho útil, de diversas maneiras. Sendo

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assim, a reação de combustão promove a alteração da composição do fluido, de forma que a mis-
tura que entra no volume de controle é diferente daquela que sai.
Quanto a aspectos gerais, a abordagem da primeira parte desta Unidade é bastante química,
apresentando a composição e forma de fabricação dos combustíveis mais utilizados, além de ba-
lanço de reações químicas de combustão, portanto, conceitos sobre moléculas, massa molar, quan-
tidades molares e conversão de unidades serão extremamente necessários.
Ao final desta Unidade apresenta-se conceitos sobre funcionamento de motores de combustão
interna, amplamente utilizados em motocicletas, veículos de transporte de passageiros e cargas,
sistemas de geração de energia elétrica entre outros diversos. Estes motores, além de precisar ser
projetados, precisam ser avaliados quanto à adequação de seu funcionamento, por isso diversos
testes podem ser efetuados para se levantar as curvas características de certo motor.

1. SISTEMAS REATIVOS
Nas Unidades anteriores analisamos ciclos de potência onde o fluido de trabalho não era sub-
metido a qualquer reação química, as transferências de calor eram baseadas na mudança de fase e
condições de pressão e temperatura do fluido de trabalho, apenas. Também analisamos casos em
que estão presentes as câmaras de mistura, onde dois fluidos são misturados, porém ainda assim
sem que haja qualquer reação química.
Nesta Unidade inicia-se o estudo dos sistemas onde a composição química do fluido varia du-
rante o processo, ou seja, sistemas onde reações químicas ocorrem.
Ao analisarmos o balanço de energia dos sistemas onde a composição não é alterada, bastava
relacionarmos as variações de entalpia entre estados do ciclo para determinar as transferências de
calor e iterações de trabalho. Para os sistemas onde reações químicas estão presentes (também
denominados sistemas reativos), deve-se considerar também a energia química do processo, ou
seja, aquela associada à destruição e formação de ligações químicas entre os átomos das diferen-
tes substâncias envolvidas.

81
A reação química mais comum em ciclos de potência, que são a maioria em nossas análises, é
a reação de combustão. Portanto, devemos definir inicialmente com clareza os conceitos de com-
bustão e combustíveis.

1.1 COMBUSTÍVEIS

UNIDADE 04
Todo material que ao ser queimado libera energia térmica pode ser chamado de combustível.
A maioria dos combustíveis utilizados atualmente tem sua composição baseada em carbono e hi-
drogênio, motivo pelo qual são denominados combustíveis de hidrocarbonetos, possuindo fórmula
básica CnHm. São exemplos de combustíveis de hidrocarbonetos o carvão, a gasolina e o gás natural,
sendo encontrados, portanto, em todas as fases.

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Embora a composição básica dos referidos combustíveis seja carbono e hidrogênio, não pode-
mos afirmar que são os únicos constituintes. O carvão mineral, por exemplo, pode possuir ainda
quantidades variadas de oxigênio, hidrogênio, nitrogênio, enxofre, umidade e cinzas advindas de
pó vulcânico, dependendo da região de onde é extraído.
A maior parte dos combustíveis de hidrocarbonetos é composta por mistura de hidrocarbonetos
obtidos pela destilação do petróleo. Dentre estes, ao longo do processo de destilação, os mais volá-
teis vaporizam primeiro, tal como os constituintes da gasolina, enquanto os menos voláteis vapori-
zam posteriormente e geram o querosene, o óleo diesel e o óleo combustível. Antes de analisarmos
a sequência de destilação e os produtos oriundos do petróleo, note que as instalações necessárias
para seu refinamento são, geralmente, de grande porte, pois são necessários vários processos até
a purificação dos combustíveis. Estes fatores influenciam no custo final dos combustíveis, que ob-
servamos ao abastecer nossos veículos. A Figura 1 apresenta uma estação de refinamento de pe-
tróleo, onde pode-se observar as colunas de destilação e os reservatórios dos produtos obtidos.

Figura 1 - Planta de refinaria de petróleo

82
A Figura 2 apresenta os diversos produtos do refinamento do petróleo, juntamente aos tamanhos
das cadeias de carbono e suas respectivas temperaturas de ebulição aproximadas, de forma que
a destilação seja capaz de separá-los um a um. Note que entre as etapas do processamento, nada
é desperdiçado, o material com menor ponto de ebulição é um frequente consumível em nossas
cozinhas, enquanto os resíduos com maiores pontos de ebulição são empregados em rodovias por

UNIDADE 04
onde trafegamos diariamente.

Figura 2 - Etapas da destilação do petróleo nas refinarias

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Fonte: Borgnakke e Sonntag (2018).

83
Dentre os combustíveis mais comumente utilizados encontram-se a gasolina, o diesel e o gás
natural. A gasolina é predominantemente composta por octano (C8H18), motivo pelo qual surge o
termo “octanagem” quando se refere à capacidade de gerar energia de um combustível com com-
posição duvidosa. Já o diesel é composto predominantemente por duodecano (C12H26), enquanto
o gás natural tem em sua composição maioritariamente o gás metano (CH4).

UNIDADE 04
Outra classe de combustível amplamente utilizado atualmente é a dos álcoois. Álcoois são ca-
racterizados pela substituição de um dos átomos de hidrogênio da cadeia por um radical OH. Por
exemplo, o álcool metílico (também conhecido como metanol) tem fórmula CH3OH, enquanto o
etanol possui fórmula química C2H5OH.
Um grande diferencial dos álcoois está relacionado a sua fabricação, pois são considerados bio-
combustíveis por serem produzidos a partir cultivos agrícolas ou conversão química de matéria re-

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sidual. Esta característica se mostra uma importante alternativa aos combustíveis fósseis (derivados
do petróleo), cuja extração está associada a uma série de dificuldades e riscos ao meio ambiente.
Outro combustível, este mais recente, tem atraído grande atenção de pesquisadores: o Hidrogê-
nio. Hidrogênio vem sendo utilizado com sucesso como combustível de foguetes por muitos anos,
porém na forma líquida, uma situação não apropriada para o uso em veículos em especial pelo seu
elevado custo e complexidade de produção e transporte.
Como alternativa, bons resultados têm sido obtidos ao se armazenar o hidrogênio na forma gasosa
ou como hidreto metálico. Um dos maiores interesses na utilização de hidrogênio como combus-
tível está associado ao fato de que o produto da combustão é simplesmente água, tornando-o um
combustível limpo. O ‘porém’ desta iniciativa está ainda associado à produção do hidrogênio, que
demanda grande quantidade de energia, além do fato de sua chama ser incolor, o que traz grandes
riscos aos usuários ao serem incapazes de identificar algum acidente com vazamento deste gás.

1.2 COMBUSTÃO
Segundo Çengel e Boles (2013), define-se por combustão a reação química durante a qual um
combustível é oxidado e uma grande quantidade de energia é liberada. Como uma reação quími-
ca qualquer, a massa de cada elemento permanece a mesma, sendo este fato necessário para o
equilíbrio da reação. Sabendo disso, podemos identificar a quantidade de cada constituinte a ser
obtido após uma reação de combustão.
A título de exemplo, consideremos a reação do carbono com o oxigênio apresentada na equação
(32). Os constituintes a esquerda da seta representam os reagentes, enquanto os constituintes a
direita da seta são denominados produtos da reação.

𝐶 + 𝑂2 → 𝐶𝑂2 (1)

interpretação da equação (32) nos mostra que um kmol de carbono reage com um kmol de
oxigênio, gerando como produto um kmol de dióxido de carbono. Convertendo estes valores para

84
unidades de massa a partir das características químicas molares dos constituintes da reação, te-
mos que 12 kg de carbono reagem com 32 kg de oxigênio formando 44 kg de dióxido de carbono.
Hidrocarbonetos ao sofrerem combustão fazem com que o carbono e o hidrogênio que o cons-
tituem sejam oxidados. A equação (32) representa a combustão do metano.

UNIDADE 04
𝐶𝐻4 + 2𝑂2 → 𝐶𝑂2 + 2𝐻2 𝑂 (2)

A reação do metano gera como produto, além do dióxido de carbono, duas moléculas de água,
cujo estado dependerá das condições de pressão e temperatura dos produtos da combustão.
Uma análise mais aprofundada dos processos de combustão deve considerar os constituintes in-

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termediários da reação, aqueles que se formam durante o processo, mas desaparecem ao fim deste,
porém, este material simplificará esta análise se restringindo aos reagentes e produtos da reação.
Observe que a representação de oxigênio como uma substância pura nas reações anteriores é uma
idealização, afinal, este é utilizado puro apenas em algumas situações específicas onde os demais
constituintes do ar gerariam efeitos indesejados. Na grande maioria dos processos de combustão
ar é utilizado, de forma que outros constituintes do ar devam então ser também considerados para
o equilíbrio da reação. Segundo Borgnakke e Sonntag (2018), a composição do ar em base molar
é aproximadamente 21% oxigênio, 78% nitrogênio e 1% argônio. Embora geralmente considere-
mos que o nitrogênio e o argônio não participam das reações químicas, estes estarão presentes no
balanço e devem ser considerados como produtos, pois suas condições de pressão e temperatura
serão equivalentes as dos demais produtos da reação.
Vale citar que em motores de combustão interna é comum a reação entre o oxigênio e o nitro-
gênio durante a queima, gerando óxidos de nitrogênio que consistem em gases poluentes e são
descarregados junto aos gases de escapamento dos motores. Já o argônio, devido a sua baixa quan-
tidade, é geralmente desprezado na análise de combustão, sendo o ar então considerado como
uma mistura de 21% de oxigênio e 79% de nitrogênio em volume.
Partindo do princípio de que 1 mol de qualquer gás ideal ocupa o mesmo volume em condições
79%
normais de pressão e temperatura, podemos utilizar a razão de proporção 21% = 3,76 para dizer que
para cada mol de oxigênio necessário na reação, 3,76 mols de nitrogênio serão automaticamente
inseridos na reação.
Reescrevendo a equação de combustão do metano, agora com o ar como fonte de oxigênio para
a queima, obtemos:

𝐶𝐻4 + 2𝑂2 + 2 3,76 𝑁2 → 𝐶𝑂2 + 2𝐻2 𝑂 + 7,52𝑁2 (3)

85
REFLITA

Note que a reação de combustão apresenta como reagente apenas a quantidade de oxigênio ne-
cessária para a reação estequiométrica. A quantidade de ar necessária para a combustão estequio-

UNIDADE 04
métrica é denominada ar teórico, ou seja, quando ocorre a combustão completa com ar teórico,
não haverá gás oxigênio entre os produtos da reação.

De acordo com Borgnakke e Sonntag (2018), a equação geral para a combustão de um hidrocar-
boneto com ar terá a forma da equação (32):

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𝐶𝑥 𝐻𝑦 + 𝑣𝑂2 𝑂2 + 3,76𝑁2 → 𝑣𝐶𝑂2 𝐶𝑂2 + 𝑣𝐻2𝑂 𝐻2𝑂 + 𝑣𝑁2 𝑁2 (4)

Onde os coeficientes relativos à cada substância são denominados coeficientes estequiométricos.


O princípio da conservação de cada constituinte da reação nos fornece a quantidade de ar teórico,
assim como os demais índices:

𝐶: 𝑣𝐶𝑂2 = 𝑥 (5)

𝐻: 2𝑣𝐻2𝑂 = 𝑦 (6)

𝑁2 : 𝑣𝑁2 = 3,76 × 𝑣𝑂2 (7)

𝑣𝐻2𝑂 𝑦
𝑂2 : 𝑣𝑂2 = 𝑣𝐶𝑂2 + = 𝑥+ (8)
2 4

Como o ar é composto pela proporção de 1 mol de oxigênio para cada 3,76 moles de nitrogênio,
temos que o número de moles de ar para cada mol de combustível será:

𝑦
𝑛𝑎𝑟 = 𝑣𝑂2 × 4,76 = 4,76 𝑥 + (9)
4

Sendo, portanto, nar equivalente a 100% do ar teórico. Em ambientes e condições ideais a com-
bustão ocorreria por completo ao se utilizar ar teórico, porém sabe-se que a quantidade de ar a ser
fornecida para a combustão será sempre superior a quantidade teórica necessária.
Uma característica importante para a análise de combustão é a demanda de ar para cada uni-
dade de combustível, para isto, define-se dois parâmetros, a relação ar-combustível (denominada

86
AC) e sua recíproca, a relação combustível-ar (denominada CA). Estes parâmetros são representa-
dos tanto em unidades de massa quanto em unidades molares, como apresentado nas equações
(10) e (32) respectivamente.

𝑚 𝑎𝑟
𝐴𝐶𝑚á𝑠𝑠𝑖𝑐𝑎 =

UNIDADE 04
𝑚 𝑐𝑜𝑚𝑏 (10)

𝑛𝑎𝑟
𝐴𝐶𝑚𝑜𝑙𝑎𝑟 = (11)
𝑛𝑐𝑜𝑚𝑏

Onde mar e mcomb representam as massas de ar e de combustível a serem misturadas, enquanto

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nar e ncomb representam o número de mols de cada um dos reagentes a serem misturados.
Pode-se estabelecer uma relação entre as razões ar-combustível mássica e molar, consideran-
do-se a massa molar de cada substância, tal como apresentado na equação (12).

𝑚 𝑎𝑟 𝑛𝑎𝑟 𝑀𝑎𝑟 𝑀𝑎𝑟


𝐴𝐶𝑚á𝑠𝑠𝑖𝑐𝑎 = = = 𝐴𝐶𝑚𝑜𝑙𝑎𝑟 (12)
𝑚 𝑐𝑜𝑚𝑏 𝑛𝑐𝑜𝑚𝑏 𝑀𝑐𝑜𝑚𝑏 𝑀𝑐𝑜𝑚𝑏

Onde Mar e Mcomb são as massas molares do ar e do combustível, respectivamente.


Geralmente a mistura fornecida para a combustão não é estequiométrica, sempre estará com
quantidade de ar acima ou abaixo da teórica. Para isto, define-se uma razão de equivalência ϕ, que
consiste na divisão da razão combustível-ar realmente praticada pela razão combustível-ar teórica
(estequiométrica), representada pelo subscrito t, tal como a equação (32) apresenta.

𝐶𝐴
𝜙= (13)
𝐶𝐴𝑡

De acordo com Moran (2018), os reagentes formarão uma mistura pobre quando ϕ < 1 (menos
combustível que para o caso estequiométrico), enquanto a mistura será considerada rica para os
casos em que ϕ > 1 (mais combustível que para o caso estequiométrico). Note que para casos de
mistura pobre, sobrará oxigênio e este estará entre os produtos da combustão, enquanto para o
caso da mistura rica, faltará oxigênio para a combustão completa, de forma que hidrocarbonetos
serão encontrados entre os produtos da combustão.

Exemplo 1 (Çengel e Boles, 2013): Um kmol de octano C8H18 é queimado com ar que contém
20 kmol de O2, como mostra a Figura 3 - Exemplo 1. Admitindo que os produtos contenham
apenas CO2, H2O, O2 e N2, determine o número de mols de cada gás dos produtos e a razão
ar/combustível desse processo de combustão.

87
Figura 3 - Exemplo 1

UNIDADE 04
Fonte: Çengel e Boles (2013).

Solução: para a reação de combustão analisada conhecemos os reagentes e os produtos,

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podemos então escrever a reação de combustão:

𝐶8𝐻16 + 20 𝑂2 + 3,76𝑁2 → 𝑥𝐶𝑂2 + 𝑦𝐻2 𝑂 + 𝑧𝑂2 + 𝑤𝑁2

Sendo o termo (O2 + 3,76N2) referente à composição do ar seco que contém 20 kmol de
O2, enquanto x, y, z e w são os números de mols de cada um dos gases obtidos como pro-
duto da combustão.
Aplicando o balanço de massa para os elementos envolvidos, sabendo que as quantidades
de cada um deles é mantida durante a reação, temos:

𝐶: 𝒙 = 𝟖

𝐻: 18 = 2𝑦 ∴ 𝒚 = 𝟗

𝑂: 20 × 2 = 2𝑥 + 𝑦 + 2𝑧 ∴ 𝒛 = 𝟕, 𝟓

𝑁2: 20 3,76 = 𝑤 ∴ 𝒘 = 𝟕𝟓, 𝟐

Reescrevendo então a reação de combustão, agora com o balanço de energia:

𝐶8 𝐻16 + 20 𝑂2 + 3,76𝑁2 → 8𝐶𝑂2 + 9𝐻2 𝑂 + 7,5𝑂2 + 75,2𝑁2

Para a determinação da razão ar-combustível, precisamos antes determinar a massa de ar e


de combustível. A massa de ar é obtida por tabela, em Çengel e Boles (2013) esta informa-
ção é apresentada na Tabela A-1, sendo o valor de 28,97 kg/kmol. Porém, deve-se observar
que 20 mols é a quantidade de oxigênio utilizada, não a de ar, para definir a quantidade de
ar devemos multiplicar 20(1 + 3,76), de forma que o número de mols de nitrogênio contidos
no ar seja também considerado, portanto, a massa de ar pode ser obtida por:
𝑘𝑔
𝑚 𝑎𝑟 = (20 × 4,76 𝑘𝑚𝑜𝑙) × 28,97 = 2757,94 𝑘𝑔
𝑘𝑚𝑜𝑙
Já a massa de combustível pode ser obtida pela multiplicação do número de moles de com-
bustível pela sua massa molecular:

𝑚 𝑐𝑜𝑚𝑏 = 1 𝑘𝑚𝑜𝑙 × 8 × 12 𝑘𝑔/𝑘𝑚𝑜𝑙 + 18 × 1 𝑘𝑔/𝑘𝑚𝑜𝑙 = 114 𝑘𝑔

88
Com isso, podemos obter a razão ar-combustível:

𝑚 𝑎𝑟 2757,94 𝒌𝒈 𝒂𝒓
𝐴𝐶 = = = 𝟐𝟒, 𝟏𝟗
𝑚 𝑐𝑜𝑚𝑏 114 𝒌𝒈 𝒄𝒐𝒎𝒃𝒖𝒔𝒕í𝒗𝒆𝒍

Esta é então a quantidade de ar, em massa, necessária para queimar cada quilograma de

UNIDADE 04
combustível.

Dissemos anteriormente que é comum a ocorrência de excesso de oxigênio no equilíbrio da


equação de combustão, situação na qual oxigênio será encontrado entre os produtos da reação.
Além disto, reações intermediarias como a oxidação parcial do carbono podem gerar diferentes

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produtos da combustão, além do dióxido de carbono pode-se encontrar monóxido de carbono
dentre os produtos da combustão. O exemplo a seguir aborda uma combustão com excesso de ar,
servindo para melhor compreensão destes casos particulares.

Exemplo 2 (Moran, 2018): Metano (CH4), é queimado com ar seco. A análise molar dos pro-
dutos em uma base seca resulta em 9,7% de CO2, 0,5% de CO; 2,95% de O2; e 86,85% de
N2. Determine a razão ar–combustível nas bases molar e mássica, assim como o percentual
de ar teórico.
Solução: como os valores fornecidos consideram as quantidades de cada produto como
quantidades, é conveniente supor que os produtos somados resultam em uma base de 100
kmol de produtos secos. A equação da combustão será, desta forma:

𝑎𝐶𝐻4 + 𝑏 𝑂2 + 3,76𝑁2 → 9,7𝐶𝑂2 + 0,5𝐶𝑂 + 2,95𝑂2 + 86,85𝑁2 + 𝑐𝐻2 𝑂

Lembre-se que o volume percentual citado se refere aos produtos secos, deve-se adicionar
água aos produtos de combustão, pois a combustão gerará tal produto naturalmente.
Pela conservação de massa dos constituintes, podemos escrever para o carbono, hidrogê-
nio e oxigênio:

𝐶: 9,7 + 0,5 = 𝑎

𝐻: 2𝑐 = 4𝑎

𝑂: 9,7 2 + 0,5 + 2 2,95 + 𝑐 = 2𝑏

A solução destas equações leva a a = 10,2, b = 23,1 e c = 20,4. Desta forma, a equação cor-
retamente balanceada será:

10,2𝐶𝐻4 + 23,1 𝑂2 + 3,76𝑁2 → 9,7𝐶𝑂2 + 0,5𝐶𝑂 + 2,95𝑂2 + 86,85𝑁2 + 20,4𝐻2𝑂

A razão ar-combustível pode então ser determinada, inicialmente em base molar, teremos,
de acordo com a equação (11):

89
𝑛𝑎𝑟 23,1 × 4,76 𝒌𝒎𝒐𝒍 𝒂𝒓
𝑨𝑪𝒎𝒐𝒍𝒂𝒓 = = = 𝟏𝟎, 𝟕𝟖
𝑛𝑐𝑜𝑚𝑏 10,2 𝒌𝒎𝒐𝒍 𝒄𝒐𝒎𝒃.

Enquanto em base mássica necessitamos a massa molar do combustível e do oxigênio, que


de acordo com dados tabelados, representam Mar = 28,97 kg/kmol e Mcomb. = 16,04 kg/

UNIDADE 04
kmol, de acordo com a equação (12):
𝑀𝑎𝑟 28,97 𝒌𝒈 𝒂𝒓
𝑨𝑪𝒎á𝒔𝒔𝒊𝒄𝒂 = 𝐴𝐶𝑚𝑜𝑙𝑎𝑟 = 10,78 × = 𝟏𝟗, 𝟒𝟕
𝑀𝑐𝑜𝑚𝑏 16,04 𝒌𝒈 𝒄𝒐𝒎𝒃.

Para a determinação do percentual de ar teórico, precisamos utilizar a equação de combus-


tão estequiométrica, já apresentada pela equação (3) como:

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𝐶𝐻4 + 2𝑂2 + 2 3,76 𝑁2 → 𝐶𝑂2 + 2𝐻2 𝑂 + 7,52𝑁2

Com isso podemos determinar a razão ar-combustível teórica:


2 4,76 𝑘𝑚𝑜𝑙 𝑎𝑟
𝐴𝐶𝑡𝑚𝑜𝑙𝑎𝑟 = = 9,52
1 𝑘𝑚𝑜𝑙 𝑐𝑜𝑚𝑏.

Conhecida esta razão, o percentual de ar teórico pode ser definido pelo inverso da razão de
equivalência:
1 𝐴𝐶𝑚𝑜𝑙𝑎𝑟 10,78
= = = 1,13 ∴ 113% 𝑑𝑒 𝑎𝑟 𝑡𝑒ó𝑟𝑖𝑐𝑜
𝜙 𝐴𝐶𝑡𝑚𝑜𝑙𝑎𝑟 9,52

Isto significa que 13% do ar disponível como reagente não será utilizado na combustão, sen-
do então representado também como produto da mesma.

1.3 ENTALPIAS DE FORMAÇÃO E COMBUSTÃO


Nas análises termodinâmicas de reações químicas, o interesse geralmente está direcionado as
variações de energia que ocorre com cada substância durante processos de combustão, não há in-
teresse na energia disponível em um certo estado, tal como nos sistemas não reativos estudados
em Unidades anteriores.
Dito isto, é pertinente adotar um estado de referência para o qual a energia interna ou a ental-
pia das substâncias será considerada nula. Note que as reações de combustão geralmente termi-
nam em estados completamente diferentes dos iniciais, motivo pelo qual o estado de referência
deve ser o mesmo para todas as substâncias envolvidas. O estado a ser escolhido é a temperatura
de 25° C e 1 atm, também conhecido como estado de referência padrão. Todos os valores de pro-
priedades das substâncias expressos no estado de referência padrão, devem ser indicados por um
sobrescrito, como por exemplo h° e u°.
Não é necessário um novo conjunto de tabelas para as propriedades em relação ao estado de
referência padrão, basta subtrairmos a propriedade absoluta daquela propriedade para o estado

90
padrão. Por exemplo, para o gás ideal nitrogênio a 500 K, sua entalpia molar é h̅ 500 K = 14,581 kJ/
kmol, enquanto para o estado padrão a entalpia vale h̅ ° = 8,669 kJ/kmol, logo, se desejarmos saber
a entalpia relativa desta substância, basta realizarmos: h̅ 500 K – h̅ ° = 14,581 – 8,669 = 5912 kJ/kmol.
Para fim de análise, consideremos a formação do CO2 a partir de seus elementos carbono e oxigê-
nio durante sua combustão em regime permanente. Tanto o oxigênio quanto o carbono entram na

UNIDADE 04
câmara de combustão como reagentes no estado de referência padrão, tal como ilustrado na Figura 4.

Figura 4 - formação de CO2

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Fonte: Çengel e Boles (2013).

Note que na representação da combustão que gera o CO2, este sai da câmara de combustão
também no estado de referência padrão, mesmo a combustão sendo uma reação exotérmica (que
libera calor). Isto ocorre, pois 393,520 kJ/kmol de energia é fornecido ao longo do processo de
combustão, sendo que ao longo da combustão citada não há interações de trabalho, portanto, a
transferência de calor observada é originada da diferença entre a entalpia dos produtos e a ental-
pia dos reagentes, descrita pela equação (32).

𝑄 = 𝐻𝑝𝑟𝑜𝑑 − 𝐻𝑟𝑒𝑎𝑔 = −393,520 𝑘𝐽/𝑘𝑚𝑜𝑙 (14)

Como o estado dos reagentes e dos produtos é o mesmo, a variação de entalpia durante a com-
bustão ocorre devido às alterações da composição química do sistema. Cada reação química apre-
sentará uma variação de entalpia diferente, denominada entalpia da reação hR, que segundo Çengel
e Boles (2013) pode ser definida como a diferença entre a entalpia dos produtos e a entalpia dos
reagentes em um mesmo estado, para uma reação completa.
Para os casos específicos em que a reação química que ocorre é a combustão, esta entalpia é
convenientemente chamada de entalpia de combustão hC, que representa então a quantidade de
calor liberado durante uma combustão em regime permanente quando 1 kmol ou 1 kg de com-
bustível é queimado completamente a certa pressão e a certa temperatura. Temos então que:

ℎ𝑅 = ℎ𝐶 = 𝐻𝑝𝑟𝑜𝑑 − 𝐻𝑟𝑒𝑎𝑔 (15)

91
Note que ao mudar as condições em que a combustão ocorre, a entalpia de combustão será
também alterada.
Em situações gerais, a análise da energia liberada pela combustão pode se tornar complexa se
considerarmos uma entalpia de combustão para cada um dos muitos possíveis casos de reação de
combustão e sua respectiva proporção de mistura, além deste método não possibilitar a análise de

UNIDADE 04
combustão incompleta, tornando-se inconveniente o uso de tatos dados tabelados. Para lidar com
isso, utiliza-se uma propriedade mais fundamental para representar a energia química de um ele-
mento ou composto em um certo estado, a denominada entalpia de formação h̅ f, que representa
a entalpia de uma substância em um estado específico, graças a sua formulação química.
Como referência, a entalpia de formação dos elementos estáveis (tais como O2, N2, H2 e C) recebe
valor nulo no estado de referência padrão (25°C e 1 atm), ou seja, h̅ f = 0 para todos os elementos

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estáveis. Entenda que por estável se diz que tais elementos não requerem energia para existirem
nesta forma nestas condições.
Consideremos novamente a formação do CO2 abordada na Figura 4, agora por meio de seus
elementos C e O2 no estado de referência padrão, em regime permanente. Note que os reagentes
são estáveis nas condições da entrada, portanto Hreag = 0, consequentemente a entalpia de for-
mação do dióxido de carbono consiste na energia que foi liberada durante a combustão, ou seja,
no estado de referência padrão, teremos:

ℎ�°𝑓,𝐶𝑂2 = −393,52 𝑘𝐽/𝑘𝑚𝑜𝑙

O sinal negativo indica que a entalpia do dióxido de carbono é inferior àquela do oxigênio e do
carbono no estado de referência padrão, ou seja, esta quantidade de energia é liberada pelas subs-
tâncias ao se converterem para CO2. Um valor negativo de entalpia de formação indicará então a
liberação de energia para formação (reação exotérmica) enquanto um valor positivo indicará a neces-
sidade de calor para que a reação aconteça (reação endotérmica), este segundo em geral não gera
interesse para processos de combustão, onde se deseja liberar energia através de reação química.

1.4 PODER CALORÍFICO


Outro termo amplamente utilizado para descrever as características termodinâmicas de um
combustível é o poder calorífico, que consiste na quantidade de calor a ser liberado quando um
combustível passa pelo processo de combustão completa em regime permanente, de forma que
os produtos da reação voltem as condições iniciais tais como estavam os reagentes. O montante de
energia que representa o poder calorífico consiste no módulo da entalpia de combustão:

𝑃𝑜𝑑𝑒𝑟 𝑐𝑎𝑙𝑜𝑟í𝑓𝑖𝑐𝑜 = ℎ𝐶 (16)

O poder calorífico apresenta diferentes valores a depender da fase da água entre os produtos da
reação. Caso a água seja encontrada entre os produtos da reação na forma líquida, denomina-se

92
poder calorífico superior (PCS), enquanto para o caso de a água estar na forma gasosa denomina-se
poder calorífico inferior (PCI). Isto se deve pela necessidade de energia ser fornecida a água para a
mudança do estado líquido para o gasoso, motivo pelo qual a relação da equação (17) é estabelecida.

𝑃𝐶𝑆 = 𝑃𝐶𝐼 + 𝑚ℎ𝑙𝑣

UNIDADE 04
𝐻2 𝑂 (17)

Onde m é a massa de água presente nos produtos da reação e hlv é a entalpia de vaporização
da água na temperatura da saída dos produtos da combustão.

Exemplo 3 (Çengel e Boles, 2013): Determine a entalpia da combustão do octano líquido

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(C8H18) a 25 °C e 1 atm, usando dados de entalpia de formação da Tabela A–26 (ÇENGEL E
BOLES, 2013). Admita que a água dos produtos está na fase líquida.

Figura 5 - Exemplo 3

Fonte: Çengel e Boles (2013).

Solução: sabemos das análises efetuadas anteriormente que a combustão do octano líquido
envolve octano e ar (oxigênio e nitrogênio), para produzir água, dióxido de carbono e nitro-
gênio, portanto a entalpia de formação dos compostos que sofrem reação química deve ser
obtida. Considerando-se o estado padrão de referência, as entalpias de formação são obti-
das na tabela informada no enunciado:

𝑘𝐽
ℎ�°𝑓,𝐶𝑂2 = −393,52
𝑘𝑚𝑜𝑙

𝑘𝐽
ℎ�°𝑓,𝐻2𝑂 = −285,83
𝑘𝑚𝑜𝑙

𝑘𝐽
ℎ�°𝑓,𝐶8𝐻18 = −249,95
𝑘𝑚𝑜𝑙

A equação da reação química de combustão do octano é apresentada:

𝐶8𝐻16 + 𝑎𝑡 𝑂2 + 3,76𝑁2 → 8𝐶𝑂2 + 9𝐻2 𝑂 + 3,76 𝑎𝑡 𝑁2

93
Consideramos que tanto os reagentes quanto os produtos estão no estado de referência pa-
drão, assim como os gases nitrogênio e oxigênio são estáveis e, portanto, a entalpia de forma-
ção de ambos é nula. A entalpia de combustão do octano será então dada pela equação (15):

ℎ�𝐶 = 𝐻𝑝𝑟𝑜𝑑 − 𝐻𝑟𝑒𝑎𝑔 = ∑𝑁𝑝 ℎ�°𝑓,𝑝 − ∑𝑁𝑟 ℎ�°𝑓,𝑟 = 𝑁ℎ�°𝑓 + 𝑁ℎ� °𝑓 − 𝑁ℎ�°𝑓
𝐶𝑂2 𝐻2 𝑂 𝐶8 𝐻18

UNIDADE 04
Substituindo então o número de mols de cada reagente e produto, juntamente às suas en-
talpias de formação:

� 𝑘𝐽 𝑘𝐽 𝑘𝐽
𝒉𝑪 = 8 𝑘𝑚𝑜𝑙 −393 ,52 + 9 𝑘𝑚𝑜𝑙 −285,83 − 1 𝑘𝑚𝑜𝑙 −249 ,95 =
𝑘𝑚𝑜𝑙 𝑘𝑚𝑜𝑙 𝑘𝑚𝑜𝑙

−𝟓𝟒𝟕𝟏𝟎𝟎𝟎 𝒌𝑱/𝒌𝒎𝒐𝒍

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Como 1 kmol de octano equivale a aproximadamente 114,23 kg, este valor pode ser expresso
𝑘𝐽
também como −47891 𝑘𝑔 . Se observarmos a tabela A-27 em Çengel e Boles (2013) constata-
mos que este valor é praticamente idêntico ao valor listado para o octano na referida tabela.
Como assume-se que a água está na fase líquida, este valor equivalerá ao poder calorífico
superior (PCS) do butano líquido.

SAIBA MAIS

Nos motores a combustão em geral, as quantidades de energia e massa são quantificadas como
taxas, ou seja, por unidade de tempo. Esta análise nos leva a obtenção de potência (energia por
tempo), que é a grandeza mais amplamente utilizada para avaliação de dispositivos para diversas
circunstâncias, seja para propulsão de um veículo, ou para o acionamento de um maquinário pe-
sado. Busque na bibliografia disponível na Minha Biblioteca para melhor compreender a análise
de energia para sistemas com combustão em regime permanente.

2. CURVAS E ENSAIOS DE MOTORES


DE COMBUSTÃO INTERNA
Nas Unidades anteriores conhecemos os ciclos comumente empregados para motores de com-
bustão interna, comparando os quanto ao tipo de ignição e suas características subsequentes. No
início desta Unidade complementamos este conhecimento ao apresentar as reações de combustão
e os conceitos envolvidos com esta análise, que permite compreender os fenômenos que ali ocor-
rem, sendo estas máquinas térmicas as mais comuns na vida cotidiana.

94
Esta seção visa apresentar aspectos dos motores de combustão interna voltados para as carac-
terísticas construtivas e aspectos físicos destes, proporcionando melhor compreensão da metodo-
logia de projeto e seleção deste tipo de motor.
A Figura 6 apresenta uma disposição amplamente utilizada em motores alternativos de com-
bustão interna, denominado mecanismo pistão-biela-manivela, capaz de converter um movimento

UNIDADE 04
linear gerado pela expansão do fluido na câmara de combustão do motor em um movimento de
rotação em torno do eixo árvore deste.

Figura 6 - Geometria do mecanismo pistão-biela-manivela

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Fonte: Brunetti (2018).

Na Figura 6 podemos observar que a força de expansão F é transferida pela biela até a manive-
la, onde a componente Ftan age com braço de alavanca r para produzir o momento torsor Tα. Note
que a expansão do embolo do motor, em situações reais, não ocorre através de um movimento
com pressão constante, de forma que a própria componente de força F varie de acordo com a po-
sição do eixo de manivelas, fazendo com que o próprio torque Tα também varie de acordo com a
posição angular α do eixo de manivelas.
A força F aplicada no pistão é função da pressão gerada pela combustão, que por sua vez é função
da rotação e da massa de mistura combustível-ar inserida na câmara de combustão. Esta combinação é
que permite a variação do torque disponibilizado pelo motor com a rotação e a carga de alimentação.
Para que se possa avaliar o torque disponibilizado por um motor, é necessário que uma carga de
resistência seja imposta, caso contrário a rotação n do eixo tenderia a aumentar indefinidamente.
Estas cargas resistivas são geradas por dispositivos denominados dinamômetros.

95
2.1 DINAMÔMETROS
Para que se possa aplicar uma carga resistiva ao motor que se deseja avaliar, esta carga deverá
ser o mais constante possível. Entre os modelos, podemos citar o Freio de Prony, os Dinamômetros
hidráulicos e os Dinamômetros Elétricos.

UNIDADE 04
Freio de Prony é um dispositivo geralmente aplicado para fins didáticos que se baseia no atrito
gerado por uma cinta de freio em torno de um cilindro ou eixo girante, tal como ilustrado na Figura 7.

Figura 7 - Freio de Prony aplicado em motor elétrico

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Fonte: Brunetti (2018).

Quanto maior o esforço aplicado na cinta de frenagem, maior será a resistência a rotação e con-
sequentemente o motor terá de fornecer maior torque, o que proporciona que a força de resistên-
cia do dispositivo possa ser equalizada com o torque do motor de forma razoável. A maior limitação
do Freio de Prony está associada a dissipação do calor gerado pela fricção da cinta com o cilindro,
de tal forma que este seja aplicável apenas para motores pequenos em fins didáticos.
O princípio de funcionamento dos demais dinamômetros tem certa semelhança ao Freio de
Prony, o grande diferencial consiste no mecanismo de aplicação dos freios, sendo o cisalhamento
de água no sistema hidráulico e campo elétrico ou magnético nos sistemas elétricos.
Os dinamômetros hidráulicos possuem uma carcaça metálica vedada que se apoia em dois man-
cais coaxiais. Desta forma a carcaça fica livre para oscilar em torno de seu eixo, sendo equilibrada
pelo braço que se apoia na balança ou célula de carga.
Entre as principais vantagens deste tipo de sistema está a possibilidade de refrigeração do líqui-
do utilizado, através de um circuito secundário. A Figura 8 ilustra um exemplar de dinamômetro
hidráulico, note em sua lateral a haste onde uma célula de carga é instalada, para que se possa
mensurar a força a ser aplicada para manter o equilíbrio do sistema de freio.

96
Figura 8 - Dinamômetro hidráulico

UNIDADE 04
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Fonte: Brunetti (2018).

Os dinamômetros hidráulicos podem ser facilmente aplicados em motores de grande porte e


elevados valores de torque e potência.
Entre os modelos de dinamômetros elétricos, o mais empregado é o de correntes parasitas,
também conhecido como correntes de Foucault. Neste tipo de dinamômetro um rotor e fabricado
em formato de engrenagem e disposto para rotacionar próximo a um estator, onde uma bobina
elétrica é instalada. O acionamento da bobina no estator concentra campos magnéticos nos dentes
do rotor, onde surgem correntes parasitas e promovem resistência a rotação, de forma que esta
seja proporcional a intensidade da corrente de alimentação da bobina, ou seja, pode-se controlar
facilmente a força de resistência do dinamômetro através do acionamento da bobina.
A refrigeração do sistema é também necessária e efetuada por circulação de água refrigerada
em um circuito no estator. A Figura 9 ilustra um exemplar deste tipo de dinamômetro.

Figura 9 - Dinamômetro elétrico de correntes parasitas

Fonte: Brunetti (2018).

97
2.2 CARACTERÍSTICAS E PROPRIEDADES DOS MOTORES
Uma das especificações mais importantes quanto ao desempenho dos motores é o torque, cujo
significado e método de medição já foi apresentado na subseção anterior. Existem outras proprie-
dades que também descrevem o desempenho dos motores, além de sua eficiência.

UNIDADE 04
Quando relacionamos o torque (T) e a velocidade angular (ω) de um motor, podemos definir a
potência deste, mais especificamente, a potência efetiva Ne, considerada a potência na saída do
motor e obtida pela equação (32).

𝑁𝑒 = 𝑇 × 𝜔 = 𝑇 × 2𝜋 × 𝑛 (18)

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Onde n é o número de rotações por segundo e ω a velocidade angular em radianos por segundo.
A potência efetiva é geralmente expressa em CV, HP ou kW, sendo 1CV = 0,735 kW e 1HP =
1,014 CV.
Outra característica pertinente é a potência indicada (Ni), que consiste na potência desenvol-
vida pelo ciclo termodinâmico do fluido de trabalho, tal como analisado nas Unidades anteriores
desta disciplina. Como a potência é o trabalho realizado por unidade de tempo, dado o trabalho,
podemos determinar a potência através da relação:

𝑛
𝑁𝑖 = 𝑊𝑖 𝑧 (19)
𝑥

Onde n é a rotação do motor, x = 1 para motores com ciclo 2 tempos ou x = 2 para motores com
ciclo 4 tempos e z é o número de cilindros do motor.
Note que a potência indicada sempre será superior a potência efetiva, devido às perdas por atri-
to durante o processo, de tal forma que possamos equacionar uma potência de atrito Na, tal que:

𝑁𝑖 = 𝑁𝑒 + 𝑁𝑎 (20)

Sabendo que um motor nada mais é que uma máquina térmica, a potência desenvolvida provém
basicamente do calor proveniente de uma mistura ar-combustível. Isto pode ser representado, de
forma simplificada, por:

𝑄̇ = 𝑚̇ 𝑐 × 𝑃𝐶𝐼 (21)

Sendo Q̇ a taxa de fornecimento de calor da combustão, ṁc o fluxo mássico de combustível e


PCI o poder calorífico inferior. Esta operação proporciona uma maneira simplificada de determinar
a energia disponibilizada durante a combustão. Sabe-se que este é um valor teórico, fornecido por

98
propriedades termodinâmicas do ciclo, e que nem todo o calor fornecido pela combustão poderá
ser transformado em trabalho do ciclo. Devido a isto, podemos afirmar que a potência indicada do
ciclo será sempre inferior a taxa de fornecimento de calor, ou seja Ni < Q̇ .
Uma relação pode ser estabelecida para relacionar a taxa de fornecimento de calor e a potência
indicada, a denominada eficiência térmica ηt:

UNIDADE 04
𝑁𝑖
𝜂𝑡 = (22)
𝑄̇

Além da eficiência térmica da conversão de energia, podemos definir outras variáveis de eficiên-
cia, sendo elas a eficiência global (ηg) e a eficiência mecânica (ηm), tal como as seguintes relações:

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𝑁𝑒
𝜂𝑔 = (23)
𝑄̇

𝑁𝑒
𝜂𝑚 = (24)
𝑁𝑖

𝜂𝑔 = 𝜂𝑡 × 𝜂𝑚 (25)

Estas relações, quando associadas a equação (20) nos permitem afirmar que a potência efetiva
pode ser obtida por:

𝑁𝑒 = 𝑚̇ 𝑐 × 𝑃𝐶𝐼 × 𝜂𝑡 × 𝜂𝑚 (26)

Esta expressão tem grande significado, pois deixa claro que a potência efetiva possui relação
de proporcionalidade direta com a vazão mássica de combustível, com o poder calorífico e com os
rendimentos, então a elevação de qualquer um deles está associada a elevação da potência efetiva.
Definimos anteriormente a razão combustível-ar mássica, denominada CAmássica, para simplificar
sua representação e adequá-la a formulação matemática realizada por Brunetti (2018), esta razão
para o caso estequiométrico, ou seja, ar teórico, será representada por F, tal que:

𝑚 𝑐 𝑚̇ 𝑐
𝐹= = (27)
𝑚 𝑎 𝑚̇ 𝑎

Esta razão entre os fluxos de massa de combustível e de ar pode ser utilizada para reescrever a
equação (26) em função do fluxo de ar:

99
𝑁𝑒 = 𝑚̇ 𝑎 × 𝐹 × 𝑃𝐶𝐼 × 𝜂𝑡 × 𝜂𝑚 (28)

Como o ar que chega a câmara de combustão geralmente sofre aquecimento durante seu per-

UNIDADE 04
curso, devido a altas temperaturas dos motores a combustão e seu entorno, é válido representar
uma eficiência volumétrica ηv, tal que:

𝑚𝑎 𝑚̇
𝜂𝑣 = = 𝑎 (29)
𝑚 𝑎𝑐 𝑚̇ 𝑎𝑐

Eficiência volumétrica consiste na razão entre a massa de ar que é admitida pelo motor (ma) e

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a massa que seria admitida (mac) se o ar que chega ao motor estivesse nas condições do ambiente
externo (estado padrão de referência).
A equação (28) pode ser então reescrita adicionando-se esta componente de rendimento:

𝑁𝑒 = 𝑚̇ 𝑎𝑐 × 𝐹 × 𝑃𝐶𝐼 × 𝜂𝑡 × 𝜂𝑚 × 𝜂𝑣 (30)

Esta equação é utilizada pelo sistema de gerenciamento de potência dos motores de combus-
tão interna, com intuito de controlar a vazão de ar atmosférico que é admitido pelo sistema de
alimentação, considerando os demais parâmetros, que devem ser previamente conhecidos para
determinadas condições de temperatura e pressão.
Outro importante parâmetro a ser avaliado para motores de combustão, segundo Brunetti (2018),
é o consumo específico, denotado por Ce, que consiste na razão entre o fluxo mássico de combus-
tível e a potência efetiva:

𝑚̇ 𝑐
𝐶𝑒 = (31)
𝑁𝑒

De forma simplificada, pode-se aplicar o conceito de eficiência global, com a equação (26) para
reescrever:

1
𝐶𝑒 = (32)
𝑃𝐶𝐼 × 𝜂𝑔

O consumo específico representa então a quantidade de combustível necessária para efetiva-


mente produzir uma certa quantidade de potência no motor. O consumo específico é utilizado para
determinar o rendimento global, pois a potência efetiva é facilmente determinada através de di-
namômetros, e o fluxo mássico de combustível também pode ser facilmente determinado através
de frascos calibrados, medição gravimétrica, entre outros.

100
A Figura 10 apresenta uma curva de consumo de combustível para diferentes faixas de rotação
de um motor ciclo Diesel.

Figura 10 - Consumo de combustível em função da rotação em um motor ciclo Diesel

UNIDADE 04
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Fonte: Brunetti (2018).

Com o intuito de agrupar informações em um único gráfico, constrói-se os denominados mapas


do motor, devido ao seu aspecto que lembra curvas de nível em mapeamentos.
A Figura 11 apresenta o mapa de um motor ciclo Diesel com 6 cilindros a 4 tempos, cujo volu-
me deslocado é de 12761 cm3. As diferentes intensidades de cor representam diferentes valores
de Consumo específico.

101
Figura 11 - Exemplo de mapa de motor

UNIDADE 04
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Fonte: Brunetti (2018).

Estes diagramas permitem extensas interpretações sobre o comportamento dos motores, a mais
simples de se observar é que os menores valores de consumo específico (que devem ser deseja-
dos), estão voltados para as regiões de menor rotação do motor, região de trabalho no qual habi-
tualmente se obtém maior rendimento em motores alternativos.

2.3 EMISSÃO DE POLUENTES


Quando falamos de motores a combustão, não se pode deixar de citar suas consequências em
relação ao meio ambiente, pois estes possuem um inevitável efeito de poluição da atmosfera. A
composição típica dos gases de escape de um motor a gasolina, por exemplo, inclui uma série de
componentes, como o hidrogênio, monóxido de carbono, hidrocarbonetos não queimados, oxigê-
nio, óxidos de nitrogênio, dióxido de carbono, água, nitrogênio e partículas sólidas. Dentre estes,
os considerados mais agressores ao ambiente são o monóxido e o dióxido de carbono (CO e CO2),
os óxidos de nitrogênio (NOx), os hidrocarbonetos não queimados (HC) e as partículas sólidas.
Enquanto a eliminação do uso dos combustíveis fósseis é um desafio à humanidade, resta as or-
ganizações reguladoras impor restrições as emissões dos gases de escape. Em 1970 os Estados Uni-
dos da América iniciaram com a regulamentação destes gases, limitando as emissões para valores
equivalentes a 1% das emissões detectadas anteriormente, ou seja, uma mudança bastante rígida.

102
No Brasil, em 1986 foi criado o PROCONVE – Programa de Controle de Poluição do Ar por Veícu-
los Automotores, onde um plano de redução foi elaborado. Em 2002 um novo programa, denomi-
nado PROMOT – Programa de Controle da Poluição do Ar por Motocicletas e Veículos Similares foi
elaborado, onde algumas fases foram estabelecidas, baseando-se nas normas europeias EURO III.
Estes regulamentos devem ser respeitados pelos importadores e fabricantes de veículos às custas

UNIDADE 04
da proibição da venda em território nacional.
Estas regulamentações são responsáveis pela necessidade de readaptação de diversos modelos
de veículos mundiais para que possam ser comercializados no Brasil, sendo, portanto, considerado
exemplar no que tange a regulamentação para emissão de poluentes.

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VÍDEO

Na década de 60, a cidade de Los Angeles sofreu com um fenômeno chamado “smog”, causado
por excesso de partículas no ar, associada a uma condição geográfica única do local. Este fenômeno
causou a morte de muitos habitantes da cidade por problemas de pele e respiratórios, sendo mo-
tivador da elaboração de diversas regulamentações quanto à emissão de poluentes por indústrias,
aquecedores residenciais e especialmente veículos automotores. O vídeo “The Science of smog”
do canal TED-Ed aborda este tema, descrevendo detalhes do fenômeno e suas consequências.
Assista através do link: [Link] Acesso em 25 jan. 2023.

CONSIDERAÇÕES FINAIS
Esta Unidade encerra a disciplina de Máquinas Térmicas apresentando uma das máquinas mais
comuns e antigas da história, os motores a combustão.
Atualmente a humanidade ainda depende fortemente de combustíveis fósseis para deslocamen-
to, produção de energia elétrica e mecânica para indústrias e residências. Os esforços têm estado
fortemente direcionados para técnicas de elevação da eficiência destas máquinas térmicas, seja
através da utilização de combustíveis renováveis ou alternativos, ou através da mudança de carac-
terísticas no funcionamento dos dispositivos.
Na última década, um movimento intenso tem surgido por parte dos fabricantes de veículos
automotores pela utilização de motores sobrealimentados ou híbridos. O primeiro caso se refere
à instalação de sistema que proporciona maiores potências sendo geradas em motores de meno-
res dimensões, proporcionando maiores rendimentos gerais do veículo como um todo. Já no caso
dos veículos híbridos, motores a combustão são combinados com motores elétricos para propul-
são, de forma que o consumo de combustível seja drasticamente reduzido apenas para situações
específicas do uso do veículo, como a demanda por elevada potência ou por maiores autonomias.
Fato é que combustão e motores a combustão fazem parte intensamente de nossa realidade e
seu conhecimento é imprescindível.

103
Esta Unidade apresentou então conceitos sobre combustíveis, combustão e avaliação de moto-
res, de forma que estudos avançados nesta área possam ser subsidiados, com intuito de promover
avanço tecnológico e melhoria contínua destas máquinas térmicas.

UNIDADE 04
ANOTAÇÕES

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REFERÊNCIAS

BORGNAKKE, Claus; SONNTAG, Richard E. Fundamentos da termodinâmica. Editora Blucher, 2018.


Retirado de [Link]
BRUNETTI, Franco. Motores de combustão interna. 2ª edição, Editora Blucher, 2018. Retirado de
[Link]
ÇENGEL, Y.A.; BOLES, M.A. Termodinâmica. Grupo A, 2013. Retirado de [Link]
[Link]/#/books/9788580552010/
FILHO, Washington B. Termodinâmica para Engenheiros. Grupo GEN, 2020. Retirado de https://

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[Link]/#/books/9788521637196/
MORAN, Michael J. Princípios de Termodinâmica para Engenharia. 8ª edição. Grupo GEN, 2018.
Retirado de: [Link]

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EAD

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