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Ecologia, Manejo E Conservação Ecologia, Manejo E Conservação

Enviado por

Marissol Santos
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ECOLOGIA,

E c o l o g i a , m a n e j o e c o n s e r va ç ã o
MANEJO E
CONSERVAÇÃO
Código Logístico Leila Teresinha Maranho
I0 0 0 4 3 7

ISBN 978-65-5821-102-0

9 786558 211020

Leila Teresinha Maranho


Ecologia, manejo e
conservação

Leila Teresinha Maranho

IESDE BRASIL
2022
© 2022 – IESDE BRASIL S/A.
É proibida a reprodução, mesmo parcial, por qualquer processo, sem autorização por escrito da autora e do
detentor dos direitos autorais.
Projeto de capa: IESDE BRASIL S/A.
Imagem da capa: elxeneize/Edwin_Butter/Nataljusja/ADDICTIVE_STOCK/twenty20photos/Grigory_bruev/mblach/
WildMediaSK/ Envato

CIP-BRASIL. CATALOGAÇÃO NA PUBLICAÇÃO


SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ
M26e

Maranho, Leila Teresinha


Ecologia, manejo e conservação / Leila Teresinha Maranho. - 1. ed. -
Curitiba [PR] : IESDE, 2022.
154 p. : il.
Inclui bibliografia
ISBN 978-65-5821-102-0

1. Ecologia. 2. Biodiversidade - Conservação. 3. Ecossistemas. I. Título.


CDD: 577
21-75207
CDU: 574

Todos os direitos reservados.

IESDE BRASIL S/A.


Al. Dr. Carlos de Carvalho, 1.482. CEP: 80730-200
Batel – Curitiba – PR
0800 708 88 88 – www.iesde.com.br
Leila Teresinha Doutora em Engenharia Florestal com ênfase em
Conservação da Natureza e mestra em Ciências
Maranho Biológicas com ênfase em Botânica (Plantas Medicinais)
pela Universidade Federal do Paraná (UFPR). Graduada
em Biologia pela Pontifícia Universidade Católica do
Paraná (PUCPR). Atua há mais de 25 anos no Ensino
Superior, como docente e orientadora de Iniciação
Científica, Iniciação Tecnológica e Trabalhos de Conclusão
de Curso (TCC), nos cursos de Agronomia, Ciências
Biológicas, Engenharia Florestal, Farmácia, Engenharia de
Bioprocessos e Biotecnologia e em diversos cursos de
especialização e MBA. Orienta a produção de dissertações
e teses no Programa de Mestrado e Doutorado em
Gestão Ambiental e em Biotecnologia.
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SUMÁRIO
1 Introdução à ecologia: histórico e estrutura 9
1.1 Histórico 10
1.2 Conceitos fundamentais em ecologia 12
1.3 Ecologia e evolução 17
1.4 Métodos de estudo 19
1.5 Áreas de estudo 21

2 Organismos e meio ambiente 25


2.1 História de vida 26
2.2 Condições ambientais 30
2.3 Recursos ambientais 34
2.4 Interações 37
2.5 Migração e dispersão 41

3 Interações ecológicas 48
3.1 Competição interespecífica 49
3.2 Predação e herbivoria 52
3.3 Decomposição e detritívoros 55
3.4 Parasitismo e doenças infecciosas 57
3.5 Simbiose e mutualismo 60

4 Comunidades e ecossistemas 68
4.1 Estrutura e dinâmica da comunidade 69
4.2 Fluxo de energia nos ecossistemas 74
4.3 Interações populacionais 85

5 Ecologia global 90
5.1 Ecologia da paisagem 90
5.2 Biodiversidade global 93
5.3 Biodiversidade do Brasil 100

6 Conservação e manejo da biodiversidade 118


6.1 Valor da biodiversidade e sua conservação 119
6.2 Ameaças à conservação da biodiversidade 123
6.3 Conservação de comunidades e ecossistemas 128
6.4 Desafios para conservação da biodiversidade 136

Resolução das atividades 145


Vídeo
APRESENTAÇÃO
Esta obra é uma contribuição, no sentido de estimular a
discussão dos conhecimentos de ecologia aplicados à compreensão
do mundo, isto é, do funcionamento da natureza, das modificações
advindas das ações/intervenções humanas no ambiente e de como
o ser humano pode promover a sustentabilidade.
Os ecossistemas devem ser entendidos como a grande fonte
de condições e recursos naturais, sendo essencial a reflexão sobre
os diversos processos naturais e sua complexidade, de modo
que se possa promover a continuidade das condições atuais que
sustentam a vida no planeta Terra. A ecologia, como ciência pura,
propicia essa visão integrada do planeta, e como ciência aplicada,
possibilita aos indivíduos interagir com o mundo natural.
No primeiro capítulo, apresenta-se um breve histórico
da ecologia, enfatizando, principalmente, a sua origem e
evolução como ciência aplicada. Ainda, conceitos ecológicos
fundamentais são discutidos, anteriormente à exposição
dos principais métodos e das áreas de estudo da ecologia. A
compreensão desses conceitos, assim como a realização de
estudos considerando a organização ecológica em níveis, é
fundamental para o aprofundamento dos conhecimentos
ecológicos abordados nos capítulos seguintes.
No segundo capítulo, trata-se da história de vida das espécies
como um reflexo da seleção natural, da otimização do seu
desempenho biológico e do efeito das condições e dos recursos
ambientais sobre a presença, distribuição e abundância das
espécies. São discutidas também as influências das interações
intraespecíficas sobre o tamanho populacional e a capacidade
dos organismos de escapar de ambientes desfavoráveis e
colonizar e/ou explorar ambientes propícios. Diversos assuntos
discutidos nesse capítulo são essenciais para a compreensão dos
mencionados nos capítulos posteriores.
No terceiro capítulo, enfoca-se as interações ecológicas
interespecíficas. Inicialmente, examina-se o resultado da
competição por exploração ou interferência, a natureza da
predação e a dinâmica das populações de presas e predadores. Verifica-se,
ainda, a decomposição e a detritivoria, processos que envolvem interações
entre diversos organismos. Em seguida, discute-se o parasitismo, enfatizando
que ele tem sido excluído da categoria de simbiose, uma vez que não há
indícios de mutualismo. Finalmente, chega-se às interações em que ambas
as espécies que interagem têm benefício líquido, a simbiose e o mutualismo.
No quarto capítulo, aborda-se os principais elementos que compõem
as comunidades, bem como os fatores que influenciam a dinâmica e a
estrutura de comunidades. Debate-se como ocorre o fluxo de energia nos
ecossistemas, sendo fundamental para seu funcionamento e manutenção,
e analisa-se a influência das interações populacionais na estrutura de
comunidades e padrões de riqueza nas relações de interdependência dos
organismos e destes com o ambiente.
No quinto capítulo, relacionam-se os conceitos fundamentais de ecologia
por meio da contextualização de condições ambientais regionais e globais.
Discute-se o significado de biodiversidade biológica, padrões de distribuição
de espécies no tempo e espaço e processos responsáveis pela distribuição
das espécies. Por fim, diante da importância da biodiversidade brasileira,
apresentam-se números e principais características dos biomas brasileiros.
No sexto capítulo, chega-se à aplicação da ecologia na conservação e
no manejo da biodiversidade. Reflete-se sobre a importância e o valor da
biodiversidade com base em fundamentos éticos, econômicos, sociais
e ecológicos. Analisam-se os efeitos das atividades humanas sobre a
biodiversidade do planeta e debate-se acerca dos esforços para a redução
e reversão de perdas de biodiversidade. Finaliza-se demonstrando a
importância da sociedade para reverter a atual crise da biodiversidade e o
papel das instituições governamentais na formulação de políticas e leis que
visam à conservação biológica e ao desenvolvimento sustentável.
Os conhecimentos apresentados nesta obra são fundamentais para a
formação de cidadãos alinhados ao contexto ambiental contemporâneo,
conscientes de que fazem parte da natureza e de que qualquer intervenção
ambiental só pode ter consistência se estiver baseada em princípios ecológicos.
Bons estudos!

8 Ecologia, manejo e conservação


1
Introdução à ecologia:
histórico e estrutura
No decorrer dos anos, a ecologia passou a ter um papel de destaque
como uma ciência aplicada e fundamental, uma vez que ela permite a
compreensão das relações de causa e efeito de problemas ambientais
atuais e a busca de soluções para esses problemas. Os ecólogos procu-
ram explicações para os fenômenos e, com base nelas, estabelecem mé-
todos e técnicas de prevenção, controle e manejo, e por isso a ecologia é
essencial para o futuro do planeta.
Neste capítulo, inicialmente, é apresentado um breve histórico da eco-
logia, com o intuito de demonstrar a evolução do conceito e a sua origem
como ciência aplicada ao contexto atual da humanidade. Em seguida,
você será conduzido à compreensão dos conceitos fundamentais e níveis
de organização, como uma forma de facilitar os estudos em ecologia.
É importante salientar que essa representação da natureza em ní-
veis de organização hierárquicos foi criada para auxiliar o entendimento
das interações entre os organismos e destes com o ambiente. Nesse
processo, os organismos são afetados pelo ambiente em que se encon-
tram e, por meio da seleção natural, aqueles que possuem a capacidade
de se “ajustar” aos seus ambientes sobrevivem, mas aqueles que não
se “ajustam” são eliminados. Dessa forma, essa seleção não garante a
evolução de organismos perfeitos, porém assegura a sobrevivência dos
mais aptos entre os disponíveis. Esses organismos mudam no decorrer
do tempo e acumulam informações genéticas herdáveis ao longo das
gerações. Ainda, neste capítulo são apresentados os principais métodos
e as áreas de estudo da ecologia.

Introdução à ecologia: histórico e estrutura 9


1.1
Vídeo
Histórico
A história da ecologia remonta à Antiguidade, quando os primeiros
humanos, por meio da observação do comportamento de animais e da
natureza, adquiriram conhecimento acerca do meio ambiente e o trans-
mitiram aos seus descendentes. Com o passar do tempo, o ser humano
se adaptou ao meio ambiente, e a sua relação com a natureza mudou,
Objetivo de aprendizagem uma vez que a humanidade começou a dominá-la e a explorá-la.
Conhecer o histórico da
origem da ciência até os
É possível reconhecer o emprego de princípios ecológicos em alguns
dias atuais. registros da história natural; por exemplo, as obras de Hipócrates,
Aristóteles e outros filósofos da Grécia Antiga têm evidentes referências
a temas que envolvem a ecologia. Acredita-se que o pensamento ecoló-
gico tem origem por volta do ano 400 a.C., nos primeiros ensinamentos
de ética, filosofia e política. Aristóteles e Teofrasto, que se dedicaram
ao estudo de plantas e animais, são considerados os primeiros eco-
Biografia logistas. Teofrasto descreveu várias inter-relações existentes entre os
organismos vivos e o seu ambiente.
Everett Collection/Shuterstock

Os estudos de biologia, até o século XIX, eram pautados na morfo-


logia (forma) – apenas caracteres morfológicos eram usados para
compreender as funções que os órgãos e organismos exerciam no meio.
As interações entre os seres vivos e o meio começaram a ser discutidas
apenas no final do século XIX por muitos estudiosos, mas foi a partir da
obra A origem das espécies, de Charles Darwin, em 1859, que o estudo
Charles Darwin nasceu
dessas interações ganha destaque. De acordo com a teoria, plantas e
em 12 de fevereiro de
1809, em Shrewsbury, animais estão ligados por uma rede de relações complexas, interagindo
na Inglaterra. Naturalista,
de diferentes maneiras e sendo afetados pela seleção natural.
desenvolveu a teoria
da evolução apoiada na Em 1869, o termo ecologia foi proposto pelo biólogo alemão Ernst
seleção natural, que se
tornou a base dos estudos Haeckel, na obra Generelle Morphologie der Organismen, por meio da
evolutivos atuais, uma vez junção das palavras gregas oikos (casa) e logos (estudo). Nessa obra, a
que é a melhor explicação,
baseada em evidências, ecologia foi definida como o estudo científico das interações entre os
para a diversidade e organismos e o seu ambiente (HAECKEL, 1866).
complexidade da vida
na Terra. Darwin foi um A ecologia foi reconhecida em 1900 como ciência distinta de outras
revolucionário, que alterou
profundamente a visão áreas do conhecimento e, embora seja um termo um tanto anti-
sobre o mundo natural, go, passou a ser difundida a partir da segunda metade do século XX,
assim como sobre o
lugar que o ser humano quando diversos problemas ambientais provocaram um movimento
ocupa nele. mundial de consciência ambiental.

10 Ecologia, manejo e conservação


Figura 1

Aleksandr Bryliaev/Shutterstock
Linha do tempo dos principais Primeiros
eventos e movimentos históricos humanos
relacionados à ecologia.
2,4 a 1,5 milhões de anos.
Observação do comportamento de animais e da natureza.

Antigui-
dade

4.000 a 3.500 a.C.


Busca pela unidade entre homem e natureza.

Grécia
Antiga

1.300 a 146 a.C.


Obras de Hipócrates e Aristóteles fazem menção a temas
que envolvem a ecologia.

1859

Obra A origem das espécies.


Destaque ao estudo das interações.

1869

Leitura
Termo ecologia, proposto por Ernst Haeckel. No site da Khan Academy,
Final do você poderá acessar o
século conteúdo de um texto
XIX com informações bastante
claras e objetivas sobre as
Foco nas interações entre seres vivos e ideias de Darwin, sobretu-
destes com o meio. do aquelas relacionadas
à definição de evolução
1900 e à teoria da seleção na-
tural. Durante a leitura, é
possível, ainda, acessar
Ecologia reconhecida como ciência. rapidamente links que
Segunda trazem explicações sobre
metade do alguns conceitos-chave
século XX e permitem a melhor
compreensão do
Conhecimentos de ecologia conteúdo. Reflita sobre
difundidos mundialmente. o quanto as ideias de
Darwin influenciam
Fonte: Elaborada pela autora. os estudos sobre a
evolução atualmente.
As pesquisas em ecologia atualmente são realizadas, princi-
Disponível em: https://
palmente, com os objetivos de conservação e restauração do planeta.
pt.khanacademy.org/science/
Apesar dos consideráveis avanços, muitas perguntas relativas a dife- biology/her/evolution-and-natural-
rentes fenômenos biológicos permanecem sem resposta, por isso é selection/a/darwin-evolution-
natural-selection. Acesso em: 27
evidente a importância das pesquisas e dos avanços tecnológicos para out. 2021.
o aprimoramento de hipóteses, bem como para as suas confirmações.

Introdução à ecologia: histórico e estrutura 11


1.2
Vídeo
Conceitos fundamentais em ecologia
A compreensão de alguns conceitos ecológicos é fundamental
antes do aprofundamento do conhecimento sobre métodos e áreas
de estudo da ecologia. Esses conceitos são aplicados nos níveis indi-
vidual e populacional das interações entre populações e no nível das

Objetivo de aprendizagem
comunidades e ecossistemas, sob vários aspectos, como: evolução e
distribuição de plantas e animais; extinção de espécies; consumo e
Compreender conceitos
fundamentais da área. transferência de energia em diferentes compartimentos ambientais;
ciclagem e reciclagem de substâncias orgânicas e inorgânicas; e intera-
ções e inter-relações entre os organismos e entre estes e o ambiente
físico. Dessa maneira, a seguir são apresentados alguns conceitos bási-
cos em ecologia, os quais são fundamentais para a sua compreensão.

1.2.1 Componentes dos ecossistemas


Os componentes (ou fatores) bióticos se relacionam aos seres vivos,
isto é, às comunidades de plantas, animais e micro-organismos, que, por
sua vez, possuem diferentes funções em um ecossistema. Já os com-
ponentes (ou fatores) abióticos são todas as influências sobre os seres,
sendo fundamentais para a sua sobrevivência; eles envolvem aspectos
físicos, químicos e físico-químicos do ambiente.

Figura 2
Fatores bióticos (seres vivos) e abióticos

VectorMine/Shutterstock
Fatores bióticos Fatores abióticos

Bactérias Fungos Ar Salinidade Sol

Plantas Arquea Temperatura Luz Água

Animais Protistas Minerais pH Umidade

12 Ecologia, manejo e conservação


A ecologia envolve o estudo da distribuição e abundância dos
organismos e das interações que determinam essa distribuição e
abundância. Isso significa que os organismos e o ambiente formam um
sistema recíproco, em que é possível identificar três níveis principais de
integração: individual, população-comunidade e ecossistema. Esses ní-
veis são considerados as unidades básicas da ecologia, especialmente
dos ecossistemas, como será visto a seguir.

1.2.2 Níveis de integração em ecologia


A palavra indivíduo se refere ao organismo, e o tipo de um orga-
nismo é denominado espécie. Assim, a espécie envolve um grupo de
organismos que possuem semelhanças estruturais e funcionais, as
quais resultam da partilha de um cariótipo idêntico. Esses organismos
são capazes de se reproduzir uns com os outros em condições naturais
e de produzir descendentes férteis.

Com relação ao nível individual de integração em ecologia, devem


ser considerados o habitat e o nicho ecológico de um organismo.

O habitat é um local específico, com um conjunto particular de


condições nas quais os organismos vivem, podendo ser terrestre (terra)
e aquático (água). Já o nicho ecológico compreende a posição que um
organismo ocupa em um habitat, incluindo o espaço físico e o seu papel
nesse habitat, em termos de relações alimentares e demais interações
com as outras espécies.

Considera-se população o número total de organismos da mesma


espécie que vivem juntos em determinada área. Por exemplo, o núme-
ro total de peixes de certa espécie em um tanque constitui uma popu-
lação naquele habitat. O conceito difere de comunidade, que consiste
no conjunto das populações de diferentes tipos de organismos que vi-
vem juntos em uma área ou habitat – isto é, são subsistemas dentro
dos ecossistemas.

Já ecossistema se refere à unidade que inclui todos os organismos


(comunidades) em determinada área, os quais atuam em reciprocida-
de entre si e com os fatores não vivos do meio (físicos e químicos).

Introdução à ecologia: histórico e estrutura 13


Figura 3
Representação dos principais níveis de integração em ecologia

VectorMine/Shutterstock
Organismo População Comunidade Ecossistema

Níveis de integração em ecologia: individual (organismo), população-comunidade e ecossistema


(componentes bióticos e abióticos).

Finalmente, há a biosfera, que compreende o conjunto de todos os


ecossistemas da Terra, de todas as partes do planeta onde existe vida.
O termo biosfera se relaciona aos seres vivos, no entanto foi ampliado
e usado para incluir as regiões do planeta Terra: litosfera, hidrosfera e
atmosfera. Observe a Figura 4.

Figura 4
Esferas do planeta

Atmosfera
De

Biosfera
s
ign
ua

(seres vivos)
/S h
utte
rsto
ck

Hidrosfera

Litosfera

Biosfera ou zona de vida na Terra, incluindo a litosfera (rochas e minerais), hidrosfera (água) e
atmosfera (ar).

14 Ecologia, manejo e conservação


A litosfera constitui a parte sólida e mais externa da crosta terrestre,
formada por rochas e minerais. Hidrosfera é a parte líquida ou aquáti-
ca da Terra, a qual contém água de várias formas – sólida, líquida e ga-
sosa; alguns exemplos são: lago, nascente, oceano ou mar, rio e riacho.
Já a atmosfera é a camada de gases que envolve a Terra.

1.2.3 Subdivisões da ecologia


A ecologia normalmente é dividida em animal e vegetal. A ecologia
animal compreende os estudos de biologia reprodutiva, biogeografia
e taxonomia de diferentes grupos animais e da sua relação com os fa-
tores ambientais. Já a ecologia vegetal aborda as relações das plantas
entre si e com o seu meio ambiente.

Três subdivisões artificiais, entretanto, são usadas preferencialmente


pelos ecologistas: autoecologia, dinâmica de populações e sinecologia.

A autoecologia envolve o estudo de um organismo individualmente


ou de uma única espécie e o seu ambiente. Por meio da autoecologia,
podem ser definidos limites de tolerância e preferências das espécies,
conforme diversos fatores ecológicos, e examinada a influência do meio
sobre a morfologia, a fisiologia e o comportamento de um organismo.
A autoecologia tem uma forte relação com a morfologia e a fisiologia e
inclui o estudo da distribuição geográfica, da taxonomia, dos caracteres
morfológicos, da reprodução, do ciclo de vida e comportamento e de
como os fatores ecológicos (elementos do ambiente) podem impactar
essas atividades. Um exemplo é a análise da influência da temperatura
sobre uma espécie, que permite explicar sua distribuição geográfica,
abundância e atividade.

Já a dinâmica de populações descreve as variações da abundância


de indivíduos da mesma espécie (população) e determina as causas
dessas variações por meio da observação de algumas variáveis (migra-
ções, nascimento, emigrações e mortes).

Por sua vez, a sinecologia envolve o estudo das inter-relações entre


grupos de organismos ou espécies que coabitam em uma mesma área.
Essa subdivisão envolve a ecologia de populações, a ecologia de comu-
nidades e o estudo dos ecossistemas. Nela podem ser adotados dois
pontos de vista:

Introdução à ecologia: histórico e estrutura 15


1. Estático (sinecologia descritiva): descreve os grupos de
organismos presentes em determinado meio, obtendo-se, assim,
conhecimento sobre a composição dos grupos, a abundância, a
frequência, a constância e a distribuição espacial das espécies.
Saiba mais 2. Dinâmico (sinecologia funcional): apresenta a evolução dos grupos
No site da Khan Academy, e determina as influências responsáveis por essa evolução ou
você poderá acessar de
maneira bem fácil os envolve o estudo de fluxo de matéria e energia entre constituintes
seguintes conteúdos de dos ecossistemas, conduzindo à determinação da cadeia
ecologia: introdução à
ecologia; o que é ecologia;
alimentar, das pirâmides de número, de biomassa e de energia, da
níveis ecológicos; e produtividade e do rendimento (envolve a sinecologia quantitativa).
prática de introdução à
ecologia. Os conteúdos Pelo exposto, fica evidente que cada uma dessas subdivisões da
são apresentados de uma
forma bastante didática,
ecologia está relacionada ao estudo de diferentes níveis de organiza-
tanto em textos quanto ção dos seres vivos.
em vídeos, usando, para
tanto, uma linguagem
simples, objetiva, direta e
precisa. Anote os princi-
1.2.4 Níveis de organização
pais pontos e faça um
mapa mental para fixação
Os seres vivos podem ser organizados em diferentes níveis estrutu-
dos conteúdos. rais, de acordo com o grau de complexidade; dessa forma, desde o nível
Disponível em: https:// de maior especificidade até o mais amplo, tem-se: genes, células, tecidos,
pt.khanacademy.org/science/
biology/ecology/intro-to-
órgãos e sistemas. Esses níveis auxiliam a compreensão dos sistemas
ecology/v/ecology-introduction. biológicos. Já a ecologia trata especialmente dos níveis de um sistema
Acesso em: 27 out. 2021.
além daquele do organismo (do mais específico para o mais amplo): po-
pulação, comunidade, ecossistema e biosfera. Observe a figura a seguir.

Figura 5
Níveis estruturais de organização dos seres vivos
Biologia Ecologia

Genes Células Tecidos Órgãos Sistemas Organismo


Níveis de um sistema

População
Genética Biologia Histologia Anatomia Fisiologia
Celular
Biologia Patologia Comunidade
Molecular
Morfologia
Ecossistema

Níveis de organização biológica dos seres vivos Biosfera

Organização dos seres vivos de acordo com o grau de complexidade e as suas respectivas áreas do conhecimento.

Fonte: Odum; Barrett, 2015, p. 4-5

16 Ecologia, manejo e conservação


O esquema demonstra que o estudo da ecologia se baseia em cinco
níveis principais de organização, os quais estão arranjados hierarquica-
mente, agrupando dos sistemas mais simples até os mais complexos:
organismo → população → comunidade → ecossistema → biosfera.

1.3
Vídeo
Ecologia e evolução
A evolução se refere às modificações que ocorrem em um orga-
nismo e que facilitam a sua adaptação ao ambiente, de tal forma que
novas espécies surgem; ou seja, os organismos mais aptos às condições
ambientais sobrevivem e se reproduzem, sendo as suas características
propagadas às gerações futuras. Dessa maneira, é possível concluir
Objetivo de aprendizagem que os ambientes existentes no passado selecionaram as característi-
Entender como a cas dos indivíduos das populações atuais.
evolução auxilia na
compreensão da ecologia. Artigo

https://biologiadaconservacao.com.br/cienciaemacao-ecologia-e-evolucao

O artigo Ecologia e evolução no tempo e espaço: uma breve apreciação, de Rogério


Parentoni Martins, faz uma reflexão sobre os atuais estudos de ecologia. Alguns
ecólogos procuram compreender padrões de distribuição e abundância dos seres
vivos com base nos efeitos das condições abióticas e da densidade populacional,
enquanto outros procuram compreender esses mesmos padrões que se baseiam
em eventos evolutivos. Aproveite o artigo para observar o quanto a inter-relação
entre ecologia e evolução permite entender os problemas ambientais atuais.
Acesso em: 27 out. 2021.

A teoria da evolução por seleção natural é ecológica. Essa teoria foi


postulada por Charles Darwin, em 1859; no entanto, a sua essência foi
fundamentada por Alfred Russel Wallace, correspondente e contempo-
râneo de Darwin. Ela se baseia nas premissas apresentadas, de modo
resumido, na figura a seguir.

Figura 6
Premissas da teoria da evolução por seleção natural

Indivíduos não Potencialidade


idênticos Capacidade dos Hereditariedade
Indivíduos de uma indivíduos de povoar Parte da variação é
população não são toda a Terra, se cada hereditária. Características
exatamente iguais; podem indivíduo sobrevivesse dos indivíduos são
variar em tamanho, taxa e produzisse um determinadas, em parte,
de desenvolvimento, número máximo de pela sua genética.
temperatura etc. descendentes.

(Continua)

Introdução à ecologia: histórico e estrutura 17


Interação entre indivíduo e
seu ambiente Números diferentes de descendentes
Número de descendentes deixados Ancestrais diferentes deixam um número
por indivíduos depende, de maneira diferente de descendentes. É importante
decisiva, da interação entre as a sobrevivência da prole até a idade
características do indivíduo e o reprodutiva, bem como a sobrevivência e
seu ambiente. reprodução de seus descendentes.

Fonte: Elaborada pela autora com base em Begon et al., 2007.

Pelo exposto, é possível constatar que a teoria da evolução por se-


leção natural parte da seguinte premissa: os indivíduos das populações
não são idênticos, as suas particularidades podem ser desenvolvidas
por meio das interações com o ambiente, a fim de torná-los mais aptos
para a sobrevivência e reprodução, e essas variações, mesmo que pe-
quenas, podem ser passadas aos seus descendentes. A predominância
dessas particularidades é proporcional ao número de descendentes.
Quando todos esses aspectos interferem de uma a outra geração,
considera-se a evolução por seleção natural. Por isso, a evolução
conduz as populações a se adaptarem ao ambiente, o que induz a mo-
dificações em suas características. As populações móveis são mais afe-
tadas pela evolução, já as populações fixas pela seleção natural.

Seleção natural x evolução


A seleção natural se relaciona à seleção de organismos que possuem
uma probabilidade maior de sobrevivência no ambiente em que vivem. Esse
ajuste entre os organismos e o ambiente expressa a maneira como o ambiente
constitui as forças da seleção natural, as quais modificam a vida de organismos
ancestrais. Aqueles que não se “ajustam” ao ambiente são eliminados.
A evolução está ligada à bagagem evolutiva, ou seja, ao conjunto de ca-
racterísticas transmitidas geneticamente por organismos antepassados.

A ecologia e a evolução são vistas como assuntos indissociáveis na


biologia. Devido à importante integração entre ecologia e biologia evo-
lutiva, surgiu a ecologia evolutiva, uma área da biologia que repre-
senta essa interação, considerando a história evolutiva das espécies e as
suas diversas interações. A teoria da seleção natural, a história de vida,
o desenvolvimento e a adaptação de um organismo estão presentes
tanto nas teorias ecológicas quanto nas evolutivas. Métodos analíticos
usados por ecólogos e evolucionistas se sobrepõem com o objetivo de
organizar, classificar e investigar a vida por meio dos mesmos princí-
pios sistemáticos, taxonômicos e filogenéticos. Ecólogos estudam fato-
res bióticos e abióticos e seus efeitos no processo evolutivo.

18 Ecologia, manejo e conservação


1.4 Métodos de estudo
Vídeo Como qualquer outra ciência, os estudos em ecologia devem incorpo-
rar o método hipotético-científico, no qual são usados as observações e
os experimentos para testar e explicar os fenômenos ecológicos. Toda
pesquisa científica segue procedimentos criteriosos que permitem a
coleta e o processamento de informações, com a finalidade de buscar a
Objetivo de aprendizagem resolução de problemas e/ou as respostas às questões de investigação.
Os métodos científicos seguem quatro etapas principais: observação
Conhecer os principais
métodos de estudo de um problema, formulação de uma hipótese, realização de experi-
em ecologia.
mentos e obtenção das conclusões.

Figura 7
Método de construção do conhecimento

VectorMine/Shutterstock
Resultado Observação

Pesquisa em
ecologia

Conclusão Questão

Experimentação Hipótese

Os ecólogos enfrentam grandes desafios, porque, como o escopo


dos estudos ecológicos é a compreensão do funcionamento da natu-
reza, as perguntas são muito complexas, há uma diversidade de temas
a ser abordada, e o espaço e o tempo que precisam ser avaliados são
grandes. Uma característica marcante dos estudos ecológicos é a “pre-
visão”, por exemplo: os ecólogos tentam prever o que pode acontecer
com uma população sob determinadas circunstâncias e, com base
nessas previsões, tentam controlar e explorar os fenômenos estudados.

Introdução à ecologia: histórico e estrutura 19


Figura 8
Exemplos de métodos de estudo em ecologia

Experimentos
Isolar porções
(amostras), limitar
fatores e manipular
Métodos de
condições.
estudo em
ecologia
M ary/Shutterstock
se-
Ro

Observação
Explorar ambientes
naturais e
observar e analisar Previsões e
mudanças. projeções futuras
Monitoramento Usar simulações
Avaliar e registrar em modelos
em longa duração computacionais.
e em larga escala
espacial.

Fonte: Elaborada pela autora com base em Townsend; Begon; Harper, 2010.

A ecologia é uma ciência que não se baseia simplesmente em fatos


e especulações, mas em resultados obtidos por meio de investigação
rigorosamente planejada e da análise cuidadosa dos dados obtidos,
fazendo uso da matemática e da estatística – ferramentas que sinteti-
zam e contribuem para a interpretação das medições de distribuição e
abundância na natureza, alvos dos estudos em ecologia. Os testes esta-
Atenção
tísticos servem para dar significância aos dados que foram observados
Cuidado: números só têm
e coletados, sendo esse um procedimento metodológico extremamente
validade se corresponde-
rem às devidas interpreta- útil, porque permite comparações e conclusões importantes. Ainda, é
ções ecológicas.
possível empregar os modelos matemáticos durante o seu desenvolvi-
mento, pois eles permitirão fazer previsões e projeções.

Glossário Os estudos em ecologia consideram a natureza do meio e


ecologia límnica
correspondem geralmente aos três grandes conjuntos da biosfera:
(limnologia): estudo dos ecologia terrestre, ecologia límnica (limnologia) e ecologia marítima.
ecossistemas aquáticos,
das águas interiores
Os métodos de estudo e natureza dos organismos são normalmente
(água doce). diferentes quando nesses três meios; no entanto, os princípios gerais
são os mesmos.

20 Ecologia, manejo e conservação


1.5 Áreas de estudo
Vídeo A ecologia é considerada uma das ciências mais amplas e comple-
xas, pois tem como foco a compreensão do funcionamento da na-
tureza. É uma ciência integrativa e multidisciplinar, uma vez que
agrega a compreensão de aspectos básicos de: biologia das células,
histologia, anatomia, fisiologia, genética, evolução, zoologia, botânica,
microbiologia, etologia (estudo do comportamento), pedologia, geolo-
Objetivo de aprendizagem
gia, física, química e matemática.
Conhecer as princi-
pais áreas de estudo
Figura 9
em ecologia.
Interação da ecologia com outras áreas de estudo

Biologia da
célula
Matemática Histologia

Química Anatomia

Fisiologia
Física

Ecologia
Geologia Genética

Evolução
Pedologia

Etologia
Zoologia

Microbiologia Botânica

Interação com outras ciências cujo conhecimento é fundamental para o desenvolvimento teórico e aplicado
da ecologia.
Fonte: Elaborada pela autora.

Introdução à ecologia: histórico e estrutura 21


Na maioria das vezes, é difícil determinar a fronteira entre ecologia
e qualquer uma dessas áreas do conhecimento, podendo ocorrer so-
breposições entre a ecologia e as seguintes áreas:
• áreas definidas pelo estudo dos grupos de organismos: zoologia,
botânica e microbiologia;
• ciências naturais básicas: geologia, pedologia, geografia física,
química e oceanografia;
• ciências naturais aplicadas: ciências agrárias e florestais e
química ambiental;
• ciências sociais: geografia humana, demografia, economia,
sociologia e história.

A ecologia tem forte interação, também, com:


• ciências que fornecem ferramentas de trabalho ou novas aborda-
gens metodológicas: informática, estatística;
Livro • ciências aplicadas, nas quais o conhecimento ecológico pode ser
aplicado para a compreensão dos fenômenos: economia, medici-
na, direito, ciências sociais e engenharias.

Devido à interação com várias áreas do conhecimento, no decorrer


da evolução da ecologia como ciência distinta das demais, vários ramos
de estudo derivaram dela. Dessa forma, a seguir são apresentados al-
guns de seus ramos:

UPgraphic/Shutterstock
A introdução do livro Ecologia de populações: é o estudo dos
Ecologia de conservação: envolve o
Ecologia: de indivíduos aspectos relacionados ao crescimento,
estudo da preservação e o manejo dos
a ecossistemas faz uma à estrutura trófica, ao metabolismo e à
recursos naturais.
abordagem bastante regulação de uma população.
importante e resumida
da evolução da ecologia
como ciência, da sua de-
Ecologia de comunidades: envolve Ecologia taxonômica: abrange o estudo
finição e de seu escopo,
o estudo de diferentes populações de diferentes grupos taxonômicos,
além de como a ecologia
no mesmo habitat e nas mesmas como ecologia microbiana, ecologia de
permite explicar, descre-
condições ambientais. mamíferos, ecologia de insetos etc.
ver, prever e controlar os
fenômenos e a evolução
da ecologia de uma
ciência pura à aplicada. Ecologia do habitat: é o estudo de
Reflita sobre as aplicações animais e plantas em diferentes habitats.
Ecologia de ecossistemas: é o estudo
da ecologia atualmente. Conforme o habitat, ela pode ser dividida
da estrutura e do funcionamento
em: ecologia de ambientes de água doce,
BEGON, M. et al. 4. ed. Porto Alegre: dos ecossistemas.
ecologia marinha, ecologia terrestre,
Artmed, 2007. ecologia florestal etc.

(Continua)

22 Ecologia, manejo e conservação


Glossário
Ecologia aplicada: é a aplicação de
Ecologia humana: relaciona-se aos efeitos conceitos ecológicos às necessidades silvicultura: envolve o
das atividades humanas no meio ambiente humanas no manejo da vida selvagem, no aproveitamento, a explo-
e vice-versa. controle biológico, na silvicultura e na ração e a manutenção
conservação dos recursos naturais. racional das florestas,
bem como a criação e o
desenvolvimento de po-
Ecologia química: envolve o estudo das Ecologia da produção: trata do fluxo voamentos florestais com
funções das interações químicas entre os de energia e dos ciclos de nutrientes nos finalidades comerciais.
organismos e os seus ambientes. sistemas vivos.

Demoecologia: envolve o estudo da


Paleoecologia: trata dos organismos
dinâmica das populações, isto é, permite a
antigos ou organismos do passado e do
análise da variação da riqueza de espécies
seu ambiente.
e das suas causas.

Ecologia histórica: compreende o estudo


Ecologia energética: é o estudo do fluxo
de fenômenos responsáveis pela formação
de energia por meio dos ecossistemas.
de paisagens e comunidades.

Ecofisiologia: é o estudo das interações e/ou dos organismos em relação ao meio, diante
das condições ambientais, e de como isso influencia os processos bioquímicos, fisiológicos
e comportamentais.

Atualmente, ainda é possível constatar o surgimento de novas áreas


e campos de estudos derivados da ecologia.

CONSIDERAÇÕES
FINAIS
A ecologia é o estudo científico das interações bióticas e abióticas que
determinam a distribuição e a abundância dos organismos, incluindo o
homem. Essa ciência busca entender o funcionamento da natureza.
A compreensão dos conhecimentos das inúmeras áreas que intera-
gem com a ecologia, da variedade de escalas (temporal, espacial e bioló-
gica), da variedade de fontes e evidências científicas e da aplicação de
análises estatísticas e métodos computacionais fornece informações para
melhorar o entendimento sobre o mundo ao redor.
Essas informações podem nos ajudar a proteger o meio ambiente,
gerenciar os recursos naturais, proteger a saúde humana e aprimorar
ou desenvolver soluções que minimizem os desequilíbrios gerados pelos
impactos do homem sobre o meio ambiente, assim como a sua recuperação.

Introdução à ecologia: histórico e estrutura 23


ATIVIDADES
Atividade 1
Os estudos de ecologia têm como objetivo medir a distribuição
e a abundância dos organismos na natureza, o que torna ne-
cessário o uso da matemática e da estatística. Com base no que
foi apresentado neste capítulo, responda: o que envolve a ciência
da ecologia?

Atividade 2
Neste capítulo foi destacada a importância da realização de
estudos considerando os níveis de organização ecológica. Dessa
forma, responda: qual é a diferença entre uma população, uma
comunidade e um ecossistema?

Atividade 3
Uma espécie qualquer pode sofrer uma diferenciação e, com o
passar do tempo, originar duas. Esse processo pode se repetir
inúmeras vezes ao longo do tempo, dando origem a novas espé-
cies. Com base nesse pressuposto, responda:
a. Qual é a diferença entre evolução e seleção natural?
b. Como evolução e seleção natural se complementam?

REFERÊNCIAS
BEGON, M. et al. Ecologia: de indivíduos a ecossistemas. 4. ed. Porto Alegre: Artmed, 2007.
HAECKEL, E. P. Generelle morphologie der organismen. Berlin: Druck und Verlag von Georg
Reimer, 1866.
ODUM, E. P.; BARRETT, G. W. Fundamentos de ecologia. São Paulo: Cengage Learning, 2015.
TOWNSEND, C. R.; BEGON, M.; HARPER, J. L. Fundamentos em ecologia. 3. ed. Porto Alegre:
Artmed, 2010.

24 Ecologia, manejo e conservação


2
Organismos e meio ambiente
As espécies se distribuem em um determinado local por razões de
sua história de vida, que é um reflexo da seleção natural e representa
uma otimização do seu desempenho biológico (crescimento, sobrevi-
vência e reprodução). As condições e os recursos ambientais são fatores
determinantes da distribuição geográfica de uma espécie, visto que cada
uma responde de modo variado a eles. Essa variação representa uma di-
ferenciação fenotípica entre as espécies e uma adaptação às condições
locais e aos recursos disponíveis.
Com relação à dinâmica populacional, a interação intraespecífica
atua no controle do tamanho populacional à medida que a densidade
aumenta, por isso sua tendência é manter a densidade populacional
quando um recurso ambiental é limitado, antes que ele se esgote, pois
todos os indivíduos de uma espécie consomem esse recurso. Quando
os recursos começam a se tornar escassos, podem ocorrer a migração
e a dispersão, movimentos que têm efeitos sobre a densidade popula-
cional, uma vez que acontece o deslocamento do animal ou de plantas de
um local com baixas quantidades de recursos para outro onde estes são
mais abundantes.
As forças que provocam a migração e a dispersão de espécies estão
relacionadas à intensa competição em uma população, à alta densida-
de e à interferência direta entre os indivíduos. Estímulos ambientais e
fisiológicos influenciam os movimentos migratórios e de dispersão, e os
animais e as plantas possuem diversas adaptações morfológicas, fisiológi-
cas e comportamentais.

Organismos e meio ambiente 25


2.1 História de vida
Vídeo Para explicar a diversidade de histórias de vida entre as espécies, é
necessário entender como a evolução molda os organismos para otimi-
zar seu sucesso reprodutivo.

Mas o que é a evolução da história de vida? Por exemplo, uma fê-


mea de polvo gigante (Enteroctopus dofleini) do Pacífico Norte vive
de três a quatro anos, põe milhares de ovos uma única vez e depois
morre (Figura 1A). Em compensação, uma sequoia adulta (Sequoia
sempervirens) vive por centenas de anos e produz milhões de sementes
a cada ano (Figura 1B).

Figura 1
Organismos com diferentes histórias de vida

A B
Konstantin Novikov/Shutterstock

urosr/Shutterstock
A) Polvo gigante (Enteroctopus dofleini). B) Sequoia gigante (Sequoia sempervirens).

Objetivo de aprendizagem
Observe que esses exemplos ilustram dois organismos que diferem
Compreender os pro- drasticamente em relação à maneira como crescem e se desenvolvem,
cessos de evolução e
adaptação dos orga- ao tempo que levam para crescer e se tornar maduros, ao número de
nismos, a sua história de descendentes que podem produzir e ao tempo que vivem. Os padrões
vida, as estratégias repro-
dutivas e os comporta- de crescimento, desenvolvimento, maturação, reprodução, sobrevi-
mentos sociais. vência e tempo de vida específicos definem o ciclo de vida de um orga-
nismo e, consequentemente, a sua história de vida.

A teoria da história de vida busca explicar como a seleção natural e


outras forças evolutivas modelam os organismos, de modo a otimizar
sua sobrevivência e sua reprodução, de acordo com os desafios ecoló-
gicos impostos pelo meio ambiente. Para tanto, é realizada uma análi-
se da evolução dos atributos dos organismos, ou seja, dos chamados
traços da história de vida e de como eles interagem entre si: tamanho ao

26 Ecologia, manejo e conservação


nascer; padrão de crescimento; idade em que a reprodução começa e
número de vezes que um indivíduo se reproduz durante a sua vida; nú-
mero de descendentes produzido em cada episódio reprodutivo (por
exemplo, tamanho da ninhada) e proporção de descendentes machos
para fêmeas produzida; se a reprodução é sexuada ou assexuada; e o
tempo de vida útil.

As diferenças nas características relacionadas à história de vida dos


organismos podem ter efeitos profundos no sucesso reprodutivo, na
dinâmica, na ecologia e na evolução das populações.

2.1.1 Padrões de história de vida


É comum ocorrer no ambiente uma quantidade limitada de energia
ou de qualquer outro recurso disponível para que um organismo possa
crescer e se reproduzir. Esse fator pode acarretar custos adicionais
para a sua reprodução, mas existem organismos que têm a capacidade
de se reproduzir cedo quando considerado o seu ciclo de vida e, por
isso, as suas populações podem crescer extremamente rápido em nú-
mero de indivíduos.

O potencial de algumas espécies de se multiplicar rapidamente é


favorecido pela seleção natural em ambientes efêmeros. Esse processo
capacita os organismos para a rápida colonização de novos habitats e
para a exploração de novos recursos. As espécies com essas caracte-
rísticas são chamadas de r estrategistas. Elas desenvolveram meca-
nismos para a sua sobrevivência e rápida perpetuação e, geralmente,
são organismos pequenos, de vida curta e com prole numerosa. Os
descendentes não dependem dos pais por muito tempo, pois crescem
e se reproduzem rapidamente.

Em contrapartida, há alguns organismos que vivem perto da capa-


cidade de suporte (refere-se ao número de indivíduos que o ambiente
pode suportar) em condições ambientais estáveis. Eles têm recursos
limitados, sua população atinge um tamanho específico e qualquer
crescimento descontrolado resultará na morte de toda essa população.
As espécies com essas características são chamadas de k estrategistas
e, geralmente, são organismos grandes, de vida longa e prole peque-
na. No Quadro 1, você poderá observar as principais diferenças entre
esses padrões.

Organismos e meio ambiente 27


Quadro 1
Padrões de história de vida das espécies: seleção em r ou k.

Seleção r estrategista k estrategista

Com relação ao habitat


Características Efêmero ou imprevisível. Constante.
Colonização Alta. Pequena (alta competição).
Custo reprodutivo Baixo. Alto.

Com relação ao organismo


Tamanho do corpo Pequeno. Grande.
Ciclo de vida Curto. Longo.
Maturidade Precoce. Tardia.
Investem mais em reprodução e menos Investem menos em reprodução e mais
Estratégia reprodutiva
em sobrevivência. em sobrevivência.
Descendentes Tamanho menor e maior número. Tamanho maior e menor número.
Mortalidade Geralmente alta, independe da densidade. Geralmente baixa, depende da densidade.
Fonte: Elaborado pela autora com base em Begon et al., 2007.

Esses padrões de história de vida, posicionando as espécies em r ou


k estrategistas, foram criados dentro de um espectro que se baseia em
extremos de alocação de recursos para a reprodução. Na Figura 2 são
apresentados exemplos de organismos animais (Figura 2A) e plantas
(Figura 2B) r estrategistas, bem como de organismos animais (Figura
2C) e plantas (Figura 2D) k estrategistas.

Figura 2
Guy J. Sagi/Shutterstock

Keikona/Shutterstock
Exemplos de A B
padrões de vida
Kris Wiktor/Shutterstock

suprabhat/Shutterstock

Organismos r C D
estrategistas: A) libélula
(Odonata); B) dente-
-de-leão (Taraxacum
officinale). Organismos
k estrategistas:
C) onça-pintada
(Panthera onca);
D) coqueiro (Cocos
nucifera).

28 Ecologia, manejo e conservação


O conceito de r e k estrategista é adequado para a interpretação e
comparação entre organismos muito diferentes em forma e comporta-
mento; entretanto, não pode ser usado em todas as situações ecológicas.

2.1.2 Restrições impostas pela história evolutiva Vídeo


O vídeo Estratégias de histó-
As restrições são limitações ou vieses decorrentes da evolução ria de vida e fecundidade |
Ecologia | Biologia | Khan
adaptativa. Restrição é um termo usado para descrever os fatores que Academy, publicado pelo
limitam ou canalizam os efeitos da seleção natural. canal Khan Academy Bra-
sil, aborda de maneira bas-
A seleção natural atua sobre a variação, por isso a estrutura e a tante breve e por meio de
exemplos as estratégias
disponibilidade de uma variação podem restringir os seus efeitos. de história de vida e fecun-
didade de vários organis-
Essa limitação é chamada de restrições do desenvolvimento em evolu-
mos, como estes utilizam
ção. Restrições ocorrem quando um aspecto da história da vida de um as diferentes estratégias
de vida para otimizar a
organismo é limitado em seu alcance ou desviado de uma otimização, sua aptidão e alocação de
pois são expressas por características presentes no DNA das espécies, energia e outros recursos
para o crescimento, a
independentemente do ambiente. manutenção/sobrevivên-
cia e a reprodução. Os
O pensamento de restrição considera a hipótese de que a evolu- exemplos usados no vídeo
são de animais, mas as
ção é conduzida para direções específicas por forças internas especí-
informações abordadas
ficas; ou seja, a linhagem de um indivíduo limita os tipos de fenótipos podem ser aplicadas
a outros organismos,
que ela pode desenvolver, não sofrendo influência das interações do desvendando como seria
ambiente. Isso pode explicar por que, em algumas situações, mesmo a estratégia de história de
vida e fecundidade de uma
que aparentemente mais vantajosas, coisas não ocorreram com a evo- árvore, por exemplo.
lução. Por exemplo, por que não aconteceu a evolução dos olhos das Disponível em: https://www.you-
tube.com/watch?v=dc9-PgHd6IQ.
lagartas (Figura 3A), para que elas apresentassem os olhos compostos Acesso em: 1 nov. 2021.
(Figura 3B e 3C), similares aos das borboletas?
Oakland Images/Shutterstock

RealNoi/Shutterstock
Figura 3 A B
Exemplo de
restrições do
desenvolvimento
em evolução
A) Lagarta que
apresenta na cabeça
três pares de olhos
simples. B) Borboleta
Cherdchai Chaivimol/Shutterstock

com olhos grandes. C) C


Olho grande e composto
de uma borboleta,
formado por várias
lentes pequenas.

Organismos e meio ambiente 29


Mesmo sendo difícil comprovar, muito provavelmente a resposta
para essa pergunta está relacionada ao processo de desenvolvimento
das borboletas – isto é, a evolução dos olhos das lagartas em olhos
compostos, como os de borboletas, poderia interromper considera-
velmente outros aspectos do desenvolvimento do organismo.

2.2 Condições ambientais


Vídeo As condições ambientais são fatores abióticos, características físi-
cas e químicas que influenciam o funcionamento dos organismos e
podem ser alterados por eles, mas não consumidos. Muitos fatores
podem influenciar, incluindo temperatura, umidade, condições do solo
(química e física), pH, salinidade, níveis de oxigênio, pressão osmóti-
ca, entre outros. A compreensão da influência desses fatores sobre os
Objetivo de aprendizagem
organismos permite inferir como se dá a distribuição, a abundância e o
Entender o efeito das
condições ambientais comportamento das espécies.
sobre a distribuição
das espécies.
As condições ambientais podem ser descritas como favoráveis e
extremas (Figura 4), sendo os organismos selecionados pelo ambiente,
de acordo com essas condições.

Figura 4
Categorias de condições ambientais e respostas metabólicas possíveis

Favoráveis Extremas

Entre dois extremos (mínimo e máximo). Condições fatais para a maioria dos organismos.

Letais apenas quando extremas. Letais apenas em altas intensidades.

Fonte: Elaborada pela autora com base em Townsend; Begon; Harper, 2010.

É importante destacar que essas descrições correspondem às sensa-


ções dos seres humanos, isto é, ao que o homem sente a respeito delas.
Por exemplo, para os cactos que evoluíram em condições desérticas e
para os pinguins que suportam o frio do inverno da Antártica, não há
nada de extremo. Uma floresta tropical seria um ambiente com condi-
ções extremas para um pinguim, mas não para uma arara. Um lago
seria um ambiente com condições severas para o cacto, porém não
para o aguapé (FIgura 5).

30 Ecologia, manejo e conservação


Figura 5
Comparação entre as condições ambientais para diferentes organismos

robert mcgillivray/Shutterstock

Petr Salinger/Shutterstock
A B

Tona Morales/Shutterstock

Vinicius Bacarin/Shutterstock
C D

A) Pinguins-imperador (Aptenodytes forsteri) no inverno da Antártica. B) Arara (Ara macao) em uma floresta tropical da Costa
Rica. C) Cacto peiote (Lophophora williamsii) no deserto mexicano. D) Aguapé (Eichhornia crassipes) no Pantanal.

O conhecimento da influência das condições ambientais sobre os


organismos é fundamental para entender quais são as tolerâncias e
necessidades quanto ao seu nicho ecológico.

2.2.1 Variações no tempo e no espaço


As condições ambientais não podem ser consumidas pelos orga-
nismos, como é caso dos recursos ambientais, mas podem ser alte-
radas ao longo do tempo e espaço. Por exemplo, uma proliferação de
macrófitas aquáticas, com crescimento muito rápido e sem controle
na superfície de um meio aquático, devido à elevada quantidade de
nutrientes presentes (eutrofização), muda as condições ambientais
na coluna da água abaixo, uma vez que ocorre menor penetração de
luz proveniente do sol. Como consequência, haverá a diminuição da
temperatura e a alteração de outros fatores que influenciam a sobrevi-
vência dos demais organismos presentes nas camadas mais profundas,
como pH, concentração de oxigênio dissolvido etc.

Organismos e meio ambiente 31


Glossário Outro exemplo de influência dos organismos nas condições ambientais
atividades antrópicas: é a poluição proveniente das atividades antrópicas ao longo do tempo,
atividades humanas.
que limita a distribuição de organismos em qualquer compartimento am-
biental (ar, água e solo). Frequentemente, poucos organismos toleram
essas alterações, por isso se tem uma maior densidade de indivíduos e
menor diversidade de espécies em ambientes poluídos. Os organismos
tolerantes se tornam resistentes, reproduzem-se e passam aos seus des-
cendentes os genes de “tolerância” dessas condições.

As condições ambientais modificam onde, quando e como os organis-


mos habitam e como eles se distribuem no tempo e no espaço. Por exem-
plo, as aves migratórias deslocam-se por longas distâncias para escapar do
clima que estava quente, mas que, em função do início do inverno, tornou-
-se frio, para se reproduzir e buscar novas fontes de alimentação.

Outro exemplo bastante conhecido se refere à migração dos


salmões, que podem nadar até 5.500 km do oceano, onde se ali-
mentam, até a cabeceira de um lago ou rio, onde desovam. Esses
animais, quando iniciam o percurso nos ambientes de água doce,
cessam a sua alimentação, usando somente as suas reservas energéti-
cas, e, quando chegam à nascente do rio, depositam os seus ovos. Na
maioria dos casos, o desgaste é tão grande para os animais que algu-
mas espécies morrem depois da desova, como o salmão do Pacífico
(Oncorhynchus tshawytscha).

As condições também atuam como estímulos, ao regular os pro-


cessos fisiológicos, sendo fundamentais para o crescimento e de-
senvolvimento de alguns organismos. Um dos sinais ambientais mais
conhecido é o fotoperíodo, que consiste no comprimento do dia.
Alguns organismos da flora e fauna estão adaptados à diminuição do
comprimento do dia para a chegada do inverno. Por exemplo, muitas
sementes devem passar por um período de resfriamento antes de
quebrarem a dormência, assim é evitada a germinação precoce após o
amadurecimento, o que garante a sua sobrevivência durante o inverno.

2.2.2 Limites à distribuição das espécies


A distribuição das espécies pode ser limitada por diversos fatores
bióticos e abióticos; entretanto, a influência de variáveis abióticas é, na
maioria dos casos, limitante para a distribuição geográfica das espé-
cies. Um fator limitante é qualquer parâmetro ambiental que afeta o
desempenho biológico de um organismo, isto é, a sua sobrevivência,
32 Ecologia, manejo e conservação
o seu crescimento, o seu desenvolvimento e o seu sucesso reprodu-
tivo; dessa forma, esses fatores estão relacionados às condições, aos 1
recursos ambientais e às interações ecológicas. Espécies que possuem A diferenciação
fenotípica se refere ao
variação nos limites fisiológicos ou limites fisiológicos mais amplos, nor- aumento da complexi-
malmente, são aquelas que apresentam ampla distribuição geográfica. dade (especialização)
de um sistema, ou
O estudo da correlação entre distribuição geográfica e variáveis seja, das característi-
cas morfofisiológicas e
ambientais ao longo do tempo e do espaço permite determinar quais comportamentais de
fatores limitam a distribuição geográfica de uma espécie, uma vez que um organismo.

cada espécie responde de modo variado a eles. Essa variação pode


1
acarretar uma diferenciação fenotípica entre populações, bem como a Biografia
otimização do valor adaptativo às condições locais e aos recursos dispo-
níveis. Uma das formas como os organismos enfrentam essa variação
ao longo de sua distribuição é pela sua plasticidade fenotípica, ou seja,
pela sua capacidade de manifestar respostas adaptativas funcionais em
relação às condições ambientais, por meio da flexibilidade de fenótipos.

Conforme a lei da tolerância, de Victor Ernest Shelford, entre os


limites mínimo e máximo de valores que compõem a amplitude de
tolerância para cada fator ambiental há uma faixa ótima, na qual o de- Victor Ernest Shelford
nasceu em Chemung,
sempenho biológico dos indivíduos da espécie é máximo. Na Figura 6, Nova York, em 22 de se-
esses aspectos são apresentados de maneira esquematizada. tembro de 1877. Zoólogo
e ecólogo, contribuiu para
Figura 6 o estabelecimento da
ecologia como uma área
Influência dos fatores limitantes sobre o desempenho biológico dos organismos
distinta. Foi o primeiro
Amplitude de tolerância
presidente da Sociedade
Americana de Ecologia,
desenvolveu a lei da tole-
Estresse Estresse rância e ajudou a fundar a
Faixa ótima
The Nature Conservancy,
uma organização
Desempenho biológico

ambiental global.

Intolerância Abundância de organismos Intolerância

Limite mínimo Ótimo Limite máximo

Gradiente ambiental
Fonte: Elaborada pela autora com base em Begon et al., 2007; Townsend; Begon; Harper, 2010.

Organismos e meio ambiente 33


Ainda, conforme a lei da tolerância, todos os organismos possuem
limites mínimo e máximo para cada variável ambiental, isto é, uma
amplitude de tolerância e uma faixa ótima para o seu máximo desempe-
nho biológico. Fora de uma faixa ambiental ótima, os organismos estão
sujeitos ao estresse, e, abaixo ou acima da amplitude de tolerância, eles
não sobrevivem (BUFFINGTON, 1969).

2.3 Recursos ambientais


Vídeo Os recursos são atributos do ambiente consumidos pelos orga-
nismos durante o seu crescimento e a sua manutenção e, assim como
as condições ambientais, têm grande influência sobre seu desempe-
nho biológico. Por isso, parte dos recursos que é utilizada não está
mais disponível para os demais organismos. Por exemplo: quando uma
lagarta se alimenta de uma folha, restará menor material foliar para as
Objetivo de aprendizagem outras larvas.
Entender o efeito dos re- Alguns recursos ambientais são: o alimento (animais, plantas, ma-
cursos ambientais sobre a
presença e abundância de téria orgânica morta, sangue etc.), a luz (influencia o crescimento, a
uma espécie. sobrevivência e a reprodução das plantas), a água, os nutrientes (nitro-
gênio, fósforo, carbono etc.), alguns gases (oxigênio, dióxido de carbo-
no etc.) e o habitat (espaço).

2.3.1 Consumo dos recursos ambientais


As plantas são organismos autotróficos, ou seja, produzem mo-
léculas orgânicas por meio do processo fotossíntese. Nesse processo
ocorre a captação da energia proveniente do sol e sua transformação
em energia química. Os principais recursos ambientais para as plantas
são aqueles que têm relação direta com o processo de fotossíntese: a
radiação proveniente do sol; a água e os sais minerais, que são absorvi-
dos do solo pelas suas raízes; e o dióxido de carbono, que é absorvido
pelos estômatos presentes, principalmente, em suas folhas. Na Figura 7,
você poderá observar os principais recursos ambientais que são funda-
mentais à realização do processo de fotossíntese das plantas.

34 Ecologia, manejo e conservação


Figura 7
Principais recursos ambientais fundamentais ao processo de fotossíntese

Água Sais minerais

Absorvida pela raiz Absorvidos do solo pela


A taxa de absorção é menor raiz da planta
do que a de liberação.

Radiação solar Dióxido de carbono

Intimamente relacionada Absorvido pelos


com a fotossíntese estômatos

Fonte: Elaborada pela autora.

A radiação solar que atinge as folhas das plantas está sempre mu-
dando. Quando uma folha intercepta a luz solar, impede que outras
folhas abaixo dela possam usar esse recurso; por esse motivo, uma
planta soma as diversas exposições de suas folhas para manter sua
eficiência fotossintética.

Toda a energia produzida pelas plantas é depositada em seus tecidos


e órgãos (biomassa). Esses depósitos formam os recursos alimentares
para todos os outros organismos, denominados heterotróficos, uma vez
que as plantas constituem a base de uma cadeia alimentar. A biomassa
vegetal poderá ser consumida, decomposta e reconstituída em uma
cadeia de eventos, em que cada consumidor se torna um recurso para
outros consumidores. No Quadro 2, você poderá observar os diferen-
tes organismos heterotróficos, bem como os recursos vegetais ou ani-
mais de que se alimentam.

Organismos e meio ambiente 35


Quadro 2
Diferentes organismos heterotróficos e recursos vegetais/animais usados na alimentação.

Recursos utilizados
Organismos Exemplos
na alimentação

Decompositores Alimentam-se de animais e vegetais mortos. Bactérias e fungos.


Alimentam-se pouco dos vegetais, sendo os
Ectoparasitas: piolhos, carrapatos e pulgas.
Parasitas animais os seus principais hospedeiros de
Endoparasitas: vermes.
onde obtêm a alimentação.
Consomem as suas presas, em muitos casos,
Predadores Carnívoros: jacarés, cobras, onças e sapos.
matando-as.
Consomem partes de suas presas, porém não Herbívoros: formigas, lagartas, gafanhotos
Pastejadores
as matam, pelo menos não imediatamente. e ruminantes.

Fonte: Elaborado pela autora com base em Townsend; Begon; Harper, 2010.

As diferentes partes do corpo de uma planta têm composição


bastante variada, por isso as plantas podem fornecer aos animais re-
cursos completamente diferentes, o que resultou no desenvolvimento,
ao longo da história de vida, de uma diversificação de peças bucais e
tratos digestórios para o consumo.

2.3.2 Natureza das interações com


os recursos ambientais
Como os recursos são consumidos, pode não haver quantidade su-
ficiente para outros indivíduos de uma população, ocasionando uma
competição intraespecífica (aquela que ocorre entre indivíduos da
mesma espécie) por um recurso limitado.

Quando o recurso é limitado, os indivíduos de uma população po-


dem competir de duas formas:
• Indiretamente: via recurso compartilhado, pela exploração. Os indi-
víduos de uma população esgotam mutuamente os recursos dispo-
níveis para ambos. Exemplo: à medida que a densidade de algas
de uma população aumenta, ao longo do tempo, em um lago, a
concentração de nutrientes decresce, tornando-se menos disponível.
• Diretamente: pela interferência. Exemplo: uma ostra que co-
loniza uma rocha tira o espaço disponível para uma outra ostra,
tornando-o indisponível.

O efeito final da competição intraespecífica é na sobrevivência, no


crescimento e na reprodução dos indivíduos. Quanto maior é a densi-

36 Ecologia, manejo e conservação


dade de competidores em uma população, maiores serão os efeitos da
competição. Além disso, quanto maior for a quantidade de recursos
limitantes em um ambiente, maior será a diversidade de espécies. É
importante salientar que a competição intraespecífica depende da den-
sidade da população.

2.3.3 Presença, abundância e valor ecológico


Tomando como base as ideias expostas anteriormente acerca das
condições e dos recursos ambientais, surge o conceito de nicho ecoló-
gico. Ele é o conjunto de tolerâncias e exigências de um organismo e,
dessa forma, envolve faixas de tolerância fisiológicas (individuais) ou
ecológicas (do ambiente natural).

Se duas espécies possuem nichos fundamentais que se sobrepõem,


principalmente em relação aos mesmos recursos, surge a possibilidade
de ocorrer a competição entre elas.

A distribuição, a diversidade e o tamanho populacional das espécies


estão diretamente relacionados aos seus nichos ecológicos, ou seja,
espécies diferentes podem se excluir ou coexistir. Quanto maior for a
heterogeneidade do ambiente, maior será a possibilidade de diversos
nichos ecológicos. Caso tenham nichos ecológicos muito semelhantes,
as espécies irão competir, alterando a sua distribuição, mas, se eles
forem diferentes, elas poderão coexistir em um mesmo ambiente.

2.4 Interações
Vídeo As atividades de um indivíduo causam alterações no ambiente em
que ele vive. Ele pode alterar as condições ou, ainda, adicionar ou utilizar
os recursos do ambiente. Além dessas interações dos organismos com
o ambiente (interações abióticas), eles interagem entre si e influenciam
a vida uns dos outros (interações bióticas). Nessas interações ocorre
algum tipo de dependência entre os organismos, podendo: a) ser be-
Objetivo de aprendizagem
neficiados ambos os organismos; b) ser beneficiado somente um dos
Compreender como
interações intraespecíficas organismos; c) não ser nem beneficiado nem prejudicado qualquer
influenciam o tamanho organismo; e d) ser beneficiado somente um dos organismos, e o outro
populacional.
ser prejudicado.

As interações existentes entre organismos podem ser:

Organismos e meio ambiente 37


• Intraespecíficas ou homotípicas: ocorrem entre indivíduos de
uma mesma espécie.
• Interespecíficas ou heterotípicas: acontecem entre indivíduos
de espécies diferentes.

Independentemente de a interação ocorrer entre organismos


da mesma espécie ou de espécies diferentes, ela é importantíssima,
junto a fatores abióticos, para a construção, formação e manutenção
dos ecossistemas.

2.4.1 Intraespecíficas
Nesta subseção serão examinados os aspectos das interações intraes-
pecíficas com benefícios para ambos os indivíduos que interagem, as so-
ciedades e as colônias, e das interações intraespecíficas em que somente
um dos organismos é beneficiado e o outro é prejudicado.

Primeiramente, é importante definir e diferenciar os conceitos de


sociedade e colônia. Na sociedade, há o agrupamento de indivíduos da
mesma espécie que possuem um elevado grau de interdependência,
ocorrendo uma divisão de trabalho na qual os indivíduos trabalham de
modo cooperativo – por exemplo, abelhas (Figura 8A) e cupins (Figura
8B). Nas colônias, os organismos da mesma espécie estão associados
anatomicamente, podendo ou não ocorrer divisão de trabalho – como
algas (Figura 8C), bactérias e fungos (Figura 8D).

Witsawat.S/Shutterstock
Kuttelvaserova Stuchelova/Shutterstock

Figura 8 A B
Interações
intraespecíficas

A) Sociedade de abelhas
– no centro, é possível
observar a presença
da abelha rainha. B)
artapol/Shutterstock

Rattiya Thongdumhyu/Shutterstock

C D
Sociedade de cupins.
C) Colônia de algas,
em que cada segmento
corresponde a um
indivíduo. D) Diferentes
colônias de bactérias e
fungos (bolores).

38 Ecologia, manejo e conservação


A competição intraespecífica ocorre entre indivíduos da mesma
espécie e pode ser ativa ou passiva. São dois os principais resultados
decorrentes dessa interação: o recurso é limitado e todos os indivíduos
de uma espécie consomem quantidades iguais até que esse recurso se
esgote, podendo ocorrer a morte de todos os indivíduos; ou um indi-
víduo sobrevive, compete, ganha e continua explorando esse recurso.
Esse último é o resultado mais comum desse tipo de interação.

São dois os tipos básicos de competição intraespecífica: interferência


e exploração. No Quadro 3 são apresentadas as principais característi-
cas diferenciais entre esses dois tipos de competição.

Quadro 3
Principais diferenças entre os tipos de competição intraespecífica

Competição intraespecífica
Características
Interferência Exploração

Competição Direta e ativa. Indireta e passiva.


Estabelecimento de hierarquia Sim. Não.
Comportamento agressivo Sim. Não.
Indivíduos defendem
Indivíduos exploram os
Aspectos principais recursos por meio de
mesmos recursos.
comportamentos hostis.
Gafanhotos competem
Beija-flores defendem
por alimento, mas um
ativamente e agressiva-
Exemplos não é afetado pelo
mente seus territórios
outro diretamente
(Figura 9A).
(Figura 9B).

Fonte: Elaborado pela autora com base em Begon et al., 2007.

A competição por interferência ocorre com as espécies que esta-


belecem hierarquias, por meio do comportamento agressivo, quando
um ou mais indivíduos da população detêm a condição de dominante
sobre os demais. O indivíduo dominante impede ativamente a utiliza-
ção de um recurso pelos demais. Nesse tipo de competição, apenas os
que dominam ou detêm territórios terão sucesso reprodutivo.

Já a exploração acontece quando os indivíduos da mesma popula-


ção exploram os mesmos recursos e, como consequência, há a redu-
ção ou o esgotamento desse recurso para os demais indivíduos, isto é,
um deixa um recurso menos disponível para os outros.

Organismos e meio ambiente 39


Figura 9
Interações intraespecíficas

Holger Kirk/Shutterstock
Ondrej Prosicky/Shutterstock
A B

A) Competição por interferência (território). B) Competição por exploração (alimento).

Do ponto de vista prático, muitos casos de competição podem incluir


tanto elementos de interferência quanto de exploração. A competição
intraespecífica é importante para regular o tamanho da população,
uma vez que é dependente da densidade desta, que se refere ao tama-
nho da população em relação ao espaço. Quando a densidade popu-
lacional é baixa, não existe competição intraespecífica e a competição
por recursos não desempenha papel na sobrevivência; mas, conforme
a densidade populacional aumenta, um limite é alcançado e a densi-
dade começa a influenciar a mortalidade por meio da disponibilidade
de recursos.

Ao considerar o crescimento de uma população, dois tipos básicos


podem ser observados: o exponencial (ou em J) e o logístico (ou em S).
No crescimento exponencial, a densidade de indivíduos de uma popu-
lação aumenta rapidamente (Figura 10A), podendo ser interrompida
somente quando houver um fator limitante, que aparece repentina-
mente. Já no crescimento logístico, a densidade populacional aumenta
devagar no início e depois rapidamente, porém, quando uma resistência
ambiental surge, ocorre a desaceleração e, em seguida, a estabilização
da curva (Figura 10B).

40 Ecologia, manejo e conservação


Figura 10
Tipos básicos de crescimento populacional

Capacidade de suporte do ambiente Capacidade de suporte do ambiente


K K
dN/dt = rN dN/dt = rN (K – N)/K
Densidade

Densidade
Tempo A Tempo B
A) Crescimento exponencial (curva em J). B) Crescimento logístico (curva em S).

Fonte: Elaborada pela autora.

Na equação que representa o crescimento exponencial, dN/dt


representam a taxa real de crescimento populacional em qualquer
instante; r representa a taxa instantânea (intrínseca) de crescimento
(potencial biótico); e N representa o tamanho (número de indivíduos)
da população. Observe que, na equação que representa o crescimento
logístico, é acrescentada a variável K, que representa a capacidade de
suporte (densidade máxima prevista).

2.5 Migração e dispersão


Vídeo Migração e dispersão são termos relacionados ao movimento de
indivíduos. A migração se refere ao deslocamento em massa unidi-
recional de um local para o outro, geralmente indo de regiões com
baixa quantidade de recursos para regiões onde os recursos são
mais abundantes. Os movimentos migratórios normalmente são
Objetivo de aprendizagem decorrentes de estímulos ambientais e fisiológicos – por exemplo, as
Entender a capacidade andorinhas que migram sazonalmente de regiões onde insetos voado-
dos organismos de res começam a se tornar mais escassos para regiões onde suas presas
escapar de ambientes
desfavoráveis e co- passam a se tornar mais abundantes.
lonizar e/ou explorar
ambientes propícios.

Organismos e meio ambiente 41


Uma migração pode ser: temporária, quando uma população re-
torna ao seu local de origem; ou permanente, quando uma população
se instala definitivamente no novo local.

Os animais migratórios possuem uma série de adaptações para se


deslocar: adaptações morfológicas (nadadeiras), fisiológicas (energia
acumulada) e comportamentais, bem como mecanismos de orientação
(sol, padrões estelares e campo magnético).

Já a dispersão se refere à forma como os organismos se distanciam


uns dos outros, por exemplo: larvas de estrela-do-mar e sementes
que se distanciam de seus genitores; ratos silvestres que se deslocam
de um lugar para o outro em várias direções; e aves terrestres que se
movem entre as ilhas de um arquipélago. A força fundamental para
que ocorra a dispersão é a intensa competição em uma população que
apresenta alta densidade e a interferência direta dos indivíduos.

A dispersão pode ser de dois tipos:


• Ativa: envolve o movimento de todo o organismo pela sua pró-
pria capacidade. É comum em animais adultos e jovens; por
exemplo: larvas de muitos invertebrados presentes em rios usam
o fluxo de água para se dispersar dos locais onde houve a eclosão
dos ovos para habitats mais apropriados.
• Passiva: abrange animais e plantas que não conseguem se
mover, mas que usam unidades de dispersão, por exemplo:
sementes dispersas pelo vento ou pela água.

O movimento de indivíduos pode influenciar o padrão espacial de


sua distribuição, por isso são reconhecidos três tipos de dispersão:
• Ao acaso: quando há igual probabilidade de um indivíduo ocupar
qualquer lugar no espaço.
• Regular: quando um indivíduo tende a evitar os outros indivíduos.
• Agregada: quando os indivíduos tendem a ser atraídos.

A migração e a dispersão são processos de grande relevância para


a manutenção da biodiversidade nos ecossistemas, uma vez que re-
gulam o tamanho, a densidade e a abundância em uma população,
interferindo diretamente na variabilidade genética.

42 Ecologia, manejo e conservação


2.5.1 Imigração e emigração
Esses termos se referem ao deslocamento de indivíduos em massa,
sendo a emigração relacionada à saída de indivíduos e a imigração
referente à chegada de indivíduos.

A emigração normalmente causa o declínio da densidade de popu-


lações locais, enquanto a imigração geralmente permite a formação de
novas populações de uma espécie. Esses processos de entrada e saída
de indivíduos são de grande relevância, pois contribuem com a regula-
ção do tamanho das populações, assim como com a manutenção e/ou
o aumento da sua variabilidade genética.

2.5.2 Dispersão animal e vegetal


Algumas espécies de pássaros, morcegos, grandes insetos,
animais aquáticos e alguns animais terrestres são as mais eficientes
na dispersão ativa. Esses animais têm a capacidade de dispersão em
longas distâncias, mas é óbvio que a extensão da dispersão está ligada
às restrições impostas pelo habitat.

No que se refere à eficácia de dispersão, os animais voadores so-


frem menos as influências das mudanças de habitat, porque podem
contornar barreiras, voando acima ou ao redor delas; os animais aquá-
ticos podem dispersar a grandes distâncias, pois no oceano existem me-
nos barreiras do que na terra; e os animais terrestres são, geralmente,
menos eficazes, uma vez que precisam se deslocar para habitats desfa-
voráveis ​​e enfrentar potenciais barreiras geográficas.

A dispersão passiva envolve plantas e animais que não se movem, Glossário


porém usam unidades de dispersão, chamadas de diásporos, para aju-
animais sésseis: que não
dar na reprodução ou exploração de novos habitats. Muitos diásporos se locomovem; ficam fixos
em um substrato.
são adaptados para a dispersão por agentes ambientais específicos,
como vento, água e animais. Entre os animais sésseis que utilizam
dispersão passiva estão os invertebrados marinhos, como as esponjas e
os corais. Por exemplo, a maioria dos corais se reproduz sexuadamente,
liberando gametas diretamente na água; os gametas masculinos são
móveis e os ovos são movidos passivamente pelas correntes oceânicas.

Nas plantas, os diásporos incluem sementes, esporos e frutos –


todos possuem adaptações para o afastamento da planta-mãe. O

Organismos e meio ambiente 43


vento, as correntes de água e alguns animais são exemplos de agentes
de dispersão passiva a longa distância, por isso os frutos e as sementes
apresentam uma grande diversidade.

Os animais frugívoros, ou seja, aqueles que consomem os frutos, são


os principais agentes dispersores de sementes (agentes bióticos). Ao
ingerir os frutos, não danificam as sementes e, por meio de suas fezes,
realizam a dispersão das sementes (Figura 11A). Existem, ainda, frutos e
sementes que se fixam nos pelos de animais (Figuras 11B, 11C e 11D) e
são carregados por longas distâncias. Essas sementes, uma vez no solo,
germinam, originando novas plantas em locais diferentes de sua origem.
Os animais são responsáveis por 90% da dispersão de sementes.

Figura 11
Sementes e frutos com adaptações especiais para a dispersão

guentermanaus/Shutterstock

Holly Guerrio/Shutterstock
A B
Alta Oosthuizen/Shutterstock

Gerry Bishop/Shutterstock
C D

A) Fruto e semente de maracujá (Passiflora edulis). B) Fruto de pega-pega (Desmodium incanum). C) Frutos
de picão-preto (Bidens pilosa). D) Detalhe dos ganchos no fruto de picão-preto (B. pilosa).

Há frutos e sementes que são dispersos pelo vento ou pela água


(agentes abióticos). Essas sementes possuem asas (Figuras 12A e 12B) e
pelos (Figura 12C). Esse tipo de dispersão ocorre em menor frequência,
porém tem um grande impacto na natureza.

44 Ecologia, manejo e conservação


Figura 12
Diásporos com adaptações especiais para a dispersão

James Garland Holmes/Shutterstock


HHelene/Shutterstock
AlessandroZocc/Shutterstock
A B C

A) Fruto com expansão alar (asa). B) Semente com asa. C) Sementes com pelos. Livro

Os diásporos com adaptações especiais propiciam a disseminação


das sementes pelo vento, afastadas da planta-mãe, as quais irão germi-
nar e formar uma nova planta que não precisa competir por luz, água
e nutrientes.

2.5.3 Colonização e/ou exploração O livro Fundamentos em


Cada espécie animal ou de planta possui uma habilidade bem caracte- ecologia, especialmente
o quadro da página 115,
rística para se dispersar, e esse fato determinará a taxa de organismos ressalta, por meio de
que escapam dos ambientes que são ou se tornam desfavoráveis e
​​ a informações atualizadas
obtidas de órgãos e
velocidade com que buscam áreas para colonização e exploração. documentos oficiais, um
problema atual e aplicado
A colonização se refere à ocupação de um ambiente não habitado
à ecologia: o aquecimen-
por uma espécie ou por um grupo de organismos; por exemplo, a co- to global. Aproveite os
questionamentos ao final
lonização por espécies de plantas intolerantes à sombra em clareiras
do quadro para pensar
florestais naturais – um mecanismo de manutenção da diversidade sobre como os conhe-
cimentos abordados
em florestas tropicais.
neste capítulo podem ser
aplicados.
A abundância ou raridade de uma espécie é determinada pela sua
capacidade de dispersar (ou migrar) para regiões desocupadas. TOWNSEND, C. R.; BEGON, M.;
HARPER, J. L. 3. ed. Porto Alegre:
Artmed, 2010.

CONSIDERAÇÕES
FINAIS
Os seres vivos estão em constante processo de evolução e adaptação,
o qual permite a compreensão da história de vida deles. A história de
vida de uma espécie explica como ela se distribui em um determinado
local e a sua abundância, de acordo com as condições e a disponibilidade
de recursos ambientais. Dessa forma, é possível entender a ocupação de

Organismos e meio ambiente 45


alguns ambientes – por exemplo, os efêmeros, que são facilmente ocupa-
dos por espécies que se reproduzem rapidamente, as chamadas espécies
r estrategistas, as quais possuem a capacidade de se multiplicar de modo
ágil no tempo, gerando vários descendentes. Por outro lado, os ambientes
mais desenvolvidos são ocupados pelas denominadas espécies k estrate-
gistas, que conseguem sobreviver com alta competição e investem mais
tempo no seu desenvolvimento; entretanto, essas se reproduzem menos,
gerando um menor número de descendentes.
A competição intraespecífica tem impacto direto sobre as popula-
ções, uma vez que quanto maior for a densidade de uma população, me-
nor será a quantidade de recursos disponível para cada indivíduo. Seus
efeitos se tornam cada vez maiores à medida que os recursos vão dimi-
nuindo. É possível dizer, então, que a competição intraespecífica tem um
papel fundamental para evitar a extinção de espécies, pois permite a ma-
nutenção do crescimento populacional restrito, impedindo o seu declínio
até a sua eliminação.
Essa competição pode forçar, ainda, a dispersão ou migração de indiví-
duos – processos que têm efeitos na composição e dinâmica populacional.
Diferentes fatores influenciam a migração e a dispersão, mas, normalmente,
as sementes são dispersas e os animais se locomovem em busca de ali-
mento e abrigo. Isso pode agregar populações ou espalhar indivíduos,
aumentando ou diminuindo a densidade populacional. O adensamento
ou a dispersão de indivíduos contribui para a regulação do tamanho da
população e para a manutenção ou o aumento da variabilidade genética.

ATIVIDADES
Atividade 1
Com base no que foi apresentado e discutido, diferencie os
seguintes termos:
a) Condições x recursos ambientais.
b) Interação intraespecífica x interação interespecífica.
c) Competição por interferência x competição por exploração.
d) Crescimento exponencial x crescimento logístico.
e) Migração x dispersão.

Atividade 2
A história de vida dos organismos pode explicar a sua taxa de
crescimento e sua taxa de reprodução, as quais são dependentes
da disponibilidade de recursos. Pautando-se na história de vida dos
organismos, responda:
a) Quais são os padrões na história da vida dos organismos?
b) Quais são as principais restrições impostas pela história evolutiva?

46 Ecologia, manejo e conservação


Atividade 3
A dinâmica populacional envolve o estudo da variação na quantidade
dos indivíduos de uma determinada população. Com base nesse
conceito, responda:
a) Quais são os impactos da competição intraespecífica sobre
as populações?
b) Quais são os efeitos da dispersão e da migração na composição e
dinâmica populacional?

REFERÊNCIAS
BEGON, M.; HARPER, J. L.; TOWNSEND, C. R. Ecologia: de indivíduos a ecossistemas. 4. ed.
Porto Alegre: Artmed, 2007.
BUFFINGTON, J. D. Victor Ernest Shelford (1877–1968). Annals of the Entomological Society of
America, v. 62, n. 1, p. 347, 1969.
TOWNSEND, C. R.; BEGON, M.; HARPER, J. L. Fundamentos em ecologia. 3. ed. Porto Alegre:
Artmed, 2010.

Organismos e meio ambiente 47


3
Interações ecológicas
Os estudos em ecologia procuram entender como ocorrem os pa-
drões de coexistência, abundância e distribuição das espécies, e as intera-
ções entre as diferentes espécies são determinantes desses padrões. De
modo mais abrangente, neste capítulo as interações entre espécies foram
agrupadas em cinco categorias: competição interespecífica, predação, de-
composição, parasitismo, e simbiose e mutualismo.
Serão vistos, inicialmente, os aspectos principais de interações nega-
tivas, também denominadas desarmônicas, uma vez que um dos orga-
nismos envolvidos é prejudicado. Dentro desse contexto, a competição
interespecífica influencia a dinâmica das populações das espécies com-
petidoras, sua distribuição e evolução. Nesse tipo de interação, a espécie
impactada negativamente sofre redução de fecundidade, crescimento ou
sobrevivência. Já a predação envolve o consumo de parte ou do todo de
um organismo vivo (presa) quando o predador ataca pela primeira vez. A
dinâmica presa-predador interfere diretamente na distribuição e abun-
dância desses organismos. A herbivoria é tratada como um caso especial
de predação, porque há o consumo de parte de uma planta.
Em seguida, serão abordados aspectos sobre a decomposição e os
organismos detritívoros, pois, quando animais e plantas morrem, seus
corpos ou parte deles, ou suas excretas, tornam-se recursos para ou-
tros organismos.
Finalmente, serão apresentadas as interações positivas, também
chamadas de harmônicas, em que pelo menos um dos organismos que
interage é beneficiado. O parasitismo envolve uma interação de longo
prazo entre um parasito e seu hospedeiro, sendo o primeiro beneficia-
do, e o segundo prejudicado, por isso, essa interação é excluída da ca-
tegoria simbiótica, porque não são identificados indícios de mutualismo.
Simbiose, mutualismo e comensalismo serão expostos fazendo uma
distinção entre essas interações, com ênfase no mutualismo, que é tido
como uma exploração recíproca.

48 Ecologia, manejo e conservação


3.1
Vídeo
Competição interespecífica
A competição interespecífica se refere à competição entre dife-
rentes espécies por recursos compartilhados: espaço, alimento (Figura
1), luz, nutrientes, locais de nidificação (durante períodos reproduti-
vos) e locais para utilização como dormitórios (durante períodos não
reprodutivos). Para a existência da competição interespecífica em
Objetivo de aprendizagem uma comunidade, um ou mais desses recursos estão em oferta limi-
Compreender o resul- tada, dessa forma, o uso de recursos entre espécies potencialmente
tado da exploração dos
competidoras se sobrepõe.
recursos ou da interfe-
rência entre indivíduos de Figura 1
espécies diferentes.
Competição interespecífica

Martin Prochazkacz/Shutterstock
Chacal-dourado (Canis aureus) compete com abutres-fouveiros (Gyps fulvus) por comida.

Essa competição pode influenciar a distribuição de uma população


em um ambiente, aumentar ou reduzir o tamanho de determinada
população, promover a dispersão e migração de espécies, aumentar
ou diminuir a densidade populacional. A distribuição, a diversidade e o
tamanho populacional estão diretamente relacionados aos nichos eco-
lógicos, ou seja, espécies diferentes podem coexistir (Figura 2A) ou se
excluir (Figura 2B), alterando sua distribuição: se os indivíduos competi-
dores possuírem nichos ecológicos muito semelhantes, irão competir e
podem se excluir mutuamente, entretanto, caso desempenhem nichos
ecológicos diferentes, podem coexistir.

Interações ecológicas 49
Figura 2
Competição interespecífica

A) Coexistência competitiva B) Exclusão de uma das espécies


3,0 3,0
Populações competitivas

Populações competitivas
2,5 2,5

2,0 A 2,0 A

1,5 1,5

1,0 1,0

0,5 0,5
B B
0,0 0,0
0 10 20 30 40 50 60 70 0 10 20 30 40 50 60 70
Tempo Tempo
As letras A (em azul) e B (em vermelho) representam duas diferentes espécies.
Fonte: Elaborada pela autora.
Espécies que vivem isoladas podem apresentar características mor-
fológicas ou comportamentais diferentes se comparadas às espécies
que coexistem em um mesmo local. Essas espécies foram sendo se-
lecionadas ao longo do tempo e a partir de seus ancestrais para não
competir por recursos, assim podem conviver.

3.1.1 Exploração ou interferência


A competição entre diferentes espécies também pode acontecer por
exploração ou interferência. A competição por exploração ocorre quan-
do indivíduos de diferentes espécies competem indiretamente por meio
de efeitos mútuos sobre o recurso que é dividido. Por exemplo, a competi-
ção entre cracas e mariscos por espaço em uma rocha: o espaço ocupado
por uma das espécies não estará mais disponível para a outra espécie e
vice-versa (Figura 3). Esse tipo de competição é muito comum na natureza,
mas seus efeitos são difíceis de serem identificados.
Brian Mausdley/Shutterstock

Figura 3
Competição por exploração

Mexilhões (Mytilus
galloprovincialis) e cracas
(Balanus balanoides) ocupando
uma rocha: o espaço ocupado
por um dos indivíduos não
estará mais disponível.
50 Ecologia, manejo e conservação
Já a competição por interferência ocorre quando indivíduos de
uma espécie impedem que indivíduos de outra espécie tenham acesso
aos recursos, geralmente por meio de comportamentos agressivos.
Por exemplo, hienas que formam grupos para competirem com uma
leoa; elas aguardam que esta cace uma presa e, em seguida, entram
em confronto com a finalidade de obter a carcaça (Figura 4).
Figura 4
Competição por interferência

Mark Sheridan-Johnson/Shutterstock

Confronto entre um grupo de hienas e uma leoa por uma carcaça.

A competição por interferência tem sido observada em espécies


aquáticas e terrestres e, muitas vezes, é mediada pela produção e
liberação de substâncias químicas com a finalidade de inibir um dos
competidores, por exemplo, a alelopatia, que consiste na capacidade
que algumas plantas têm de produzir e liberar substâncias químicas
no ambiente, influenciando de maneira desfavorável o crescimento e
o desenvolvimento de outras plantas. Salvia leucophylla (Figura 5A) e
Artemisia californica (Figura 5B), duas plantas arbustivas típicas da ve-
getação do bioma Chaparral, que se desenvolvem especialmente no
Chile e na Califórnia, são exemplos clássicos de plantas que produ-
zem e liberam substâncias voláteis do grupo dos terpenos (os mo-
noterpenos cânfora e cineol, compostos voláteis com propriedades
aleloquímicas) e inibem o crescimento de quaisquer outras plantas
em um raio de 1 a 2 metros.

Interações ecológicas 51
Figura 5
Plantas que inibem o crescimento de outras plantas por meio da produção e liberação de compostos aleloquímicos voláteis (terpenos).

bonandbon/Shutterstock
Sundry Photography/Shutterstock
A B

A) Salvia leucophylla; B) Artemisia californica.

A competição interespecífica é um fator limitante da biodiversidade,


uma vez que promove a diferenciação de nichos, processo em que as
diferentes espécies competem e são forçadas a explorar o ambiente
de maneiras diferentes para que possam coexistir, o que culmina na
especiação (uma linhagem origina duas ou mais espécies diferentes) e
na diversificação ecológica.

3.2 Predação e herbivoria


Vídeo
Predação é uma interação ecológica na qual um indivíduo, deno-
minado predador, captura, mata e come parte do ou todo o corpo
de outro indivíduo vivo ou recentemente morto, chamado de presa
(Figura 6A). Nesse processo, a energia contida nas presas é transferi-
da para os predadores que, normalmente, ocupam os níveis superio-
Objetivo de aprendizagem res das cadeias alimentares.

Entender a natureza da A herbivoria é uma forma específica de predação, em que um ani-


predação e a dinâmica
mal, denominado herbívoro, alimenta-se da presa – uma alga ou uma
de populações de presa
e predador. planta viva ou parte dela (Figura 6B). Os herbívoros ocupam o segundo
nível trófico das cadeias alimentares, uma vez que se alimentam dos
produtores (algas ou plantas).

52 Ecologia, manejo e conservação


Figura 6
Interações ecológicas

Rafael Goes/Shutterstock

K Hanley CHDPhoto/Shutterstock
A B

A) Predação: uma coruja com sua presa – uma serpente verde – recém-caçada. B) Herbivoria: uma lagarta da borboleta-monarca
comendo uma folha verde.

A pressão exercida pelos herbívoros ao longo da evolução pro-


vocou a seleção e o surgimento de uma diversidade de defesas
químicas e físicas das plantas com a finalidade de resistirem à her-
bivoria. Entre as defesas químicas estão incluídas diversas subs-
tâncias tóxicas (taninos, flavonoides, alcaloides etc.), repelentes
(terpenos) e aquelas que dificultam a digestão do tecido vegetal
pelos herbívoros (presença de cristais de oxalato de cálcio); e entre
as defesas físicas podem ser citadas aquelas relacionadas à super-
fície foliar, em especial, a presença de tricomas, espinhos, acúleos
e cutículas.

3.2.1 Dinâmica presa-predador


A dinâmica presa-predador provoca oscilações nas populações,
pois elas não se mantêm constantes ao longo do tempo (Figura 7).
As populações dos predadores e das presas têm influência mútua
na dinâmica umas das outras, ou seja, existe uma associação dos
tamanhos populacionais de ambas, tanto com relação ao aumento
quanto à redução.

Interações ecológicas 53
Figura 7
Equilíbrio oscilatório cíclico das populações de presas e predadores

Populações presa predador

Densidade

Vídeo
O vídeo intitulado Fish
feeding interactions on the
benthos / Interação ali-
mentar dos peixes sobre o
bentos, publicado pelo ca-
nal LBMM, aborda de que
forma as interações ecoló-
gicas, como predação e Tempo
Fonte: Elaborada pela autora.
herbivoria, são fundamen-
tais para o funcionamento Para descrever a dinâmica presa-predador, é utilizado o mo-
dos ecossistemas e para
a conservação da biodi- delo Lotka-Volterra, publicado pela primeira vez por Vito Volterra
versidade em ambiente (1860-1940), um matemático que, em 1925, elaborou um modelo de
marinho. Infelizmente,
as atividades humanas, equações para explicar o acréscimo da população de tubarões e o de-
como a sobrepesca, créscimo das populações de outros peixes no Mar Adriático, na Itália.
refletem a perda de bio-
diversidade, e conhecer o Esse modelo é caracterizado pelas oscilações que ocorrem nos ta-
comportamento de espé-
cies-chave pode auxiliar o manhos das populações de predadores e presas e permite fazer as se-
manejo dos ecossistemas guintes suposições:

1
e manter a saúde de
ambientes marinhos.
Esse vídeo derivou de a população de presas cresce exponencialmente na
uma pesquisa que avaliou ausência do predador;
interações de alimentação
de peixes, como predação

2
e herbivoria, em 15 locais
entre a Carolina do Norte
a população de predadores morre de fome na ausência de presas
(EUA) e Santa Catarina
(Brasil), um trabalho que
(se não consumir outro tipo de presa);
exigiu a análise de mais

3
de mil vídeos captados ao
longo de três anos.

os predadores podem consumir quantidades infinitas de presas.


Disponível em: https://youtu.be/
V5B3WKe-3Ug. Acesso em: 17
nov. 2021.

Essas suposições são fundamentadas, obviamente, em ambientes


sem complexidade (homogêneos).

54 Ecologia, manejo e conservação


A predação eficiente requererá adaptações estruturais, funcionais
e comportamentais do predador, ou seja, dependerá do tamanho do
predador, do tipo de estratégia predatória empregada, das condições
ambientais de onde ocorre a predação e das estratégias defensivas
das presas. Importante destacar que a complexidade estrutural do
ambiente nas escalas de paisagem, habitat e micro-habitat e em sua
sazonalidade influencia diretamente o comportamento e a eficiência
do predador. Os predadores têm potencial para regular a distribuição
e abundância de suas presas.

A remoção de espécies-chave em uma comunidade pode desestabilizar


fortemente sua estrutura e, eventualmente, causar extinções locais, com
efeito em cascata.

3.3
Vídeo
Decomposição e detritívoros
Decomposição é o processo de desintegração gradual de molécu-
las orgânicas complexas, ricas em energia, provenientes dos corpos de
plantas e animais mortos, ou de suas partes e dejetos ou de outras
excreções, em partículas menores ou nutrientes, tornando-se recursos
para outros organismos. Esse processo de reciclagem da matéria orgâ-
nica é mediado por agentes físicos e biológicos.
Objetivo de aprendizagem Os agentes biológicos envolvem os organismos saprótrofos: os
Compreender como decompositores (bactérias e fungos) e os detritívoros (animais consu-
ocorre a interação
midores de matéria orgânica morta, por exemplo, urubus, hienas, be-
entre decomposição e
detritívoros. souros e camarões). Os detritívoros promovem o início do processo de
reciclagem e facilitam o processo de decomposição. Mas, se os orga-
nismos detritívoros não consumirem um recurso imediatamente após
a morte, o processo de decomposição se inicia com a colonização por
bactérias e fungos, pois seus esporos estão, normalmente, presentes
no ar e na água, no interior ou sobre o material morto (antes mesmo
de sua morte).

No processo de decomposição ocorre uma sucessão de colonização


por diferentes decompositores, sendo, ao final, as moléculas comple-
xas decompostas em dióxido de carbono (CO2, água e nutrientes inor-
gânicos (mineralização). Além da ação de bactérias e fungos, enzimas
presentes nos tecidos mortos podem iniciar um processo de autólise e

Interações ecológicas 55
decompor proteínas e carboidratos em formas mais simples e solúveis.
Esse processo inicial é bem importante, porque os primeiros coloniza-
dores tendem a utilizar os materiais solúveis.

A decomposição, muitas vezes, envolve a ação de especialistas mi-


crobianos, fungos e bactérias que irão decompor alguns carboidratos
estruturais, como celulose e lignina (Figura 8A e 8B); e outras substân-
cias complexas, como a suberina presente no súber de plantas (Figura
8A) e a quitina dos insetos.
Figura 8
Fungos decompositores sobre madeira em decomposição

godi photo/Shutterstock

Wondering Green Man/Shutterstock


A B

A) Cogumelo orelha-de-pau (Auricularia auricula-judae); B) Cogumelo venenoso (Mycena fagetorum).

Os detritívoros são em sua maioria consumidores generalistas. São


os animais vertebrados e invertebrados, com esses últimos formando
um grupo taxonômico bastante heterogêneo. Em geral, nos ambien-
tes terrestres, especialmente nos solos, os organismos decomposito-
res e detritívoros são classificados de acordo com seu tamanho em:
microrganismos, microfauna, mesofauna e macrofauna (Quadro 1). As
bactérias e os fungos representam cerca de 80% dos organismos vi-
vos presentes no solo.
Quadro 1
Organismos decompositores e detritívoros presentes no solo

Organismos Tamanho Exemplos


Microrganismos 1 a 10 µm Bactérias, actinomicetos, fungos e leveduras.
Microfauna < 0,2 mm Nematoides, protozoários e rotíferos.
Mesofauna 0,2 a 4 mm Ácaros, colêmbolas e enquitreídeos.
Macrofauna > 4 mm Aranhas, besouros, cupins, formigas e minhocas.

Fonte: Adaptado de Correia; Oliveira, 2000, p. 6.

56 Ecologia, manejo e conservação


Nos ambientes aquáticos a decomposição ocorre em três etapas:
lixiviação, condicionamento e fragmentação. Na lixiviação ocorre
a liberação de compostos hidrossolúveis, como proteínas, aminoá-
cidos e carboidratos, seguida pela mudança inicial dos detritos. O
condicionamento é o período em que se dá a colonização de mi-
crorganismos e se intensificam as modificações químicas e físicas
devido à colonização microbiana, o que proporciona um aumento
de palatabilidade e qualidade nutricional para os invertebrados, res-
ponsáveis pela fragmentação.

3.4 Parasitismo e doenças infecciosas


Vídeo O parasitismo constitui um ramo da ecologia, devendo, portan-
to, ser estudado como um fenômeno da natureza. Trata-se de uma
relação em que um organismo, o parasito, obtém os nutrientes para
sua sobrevivência de outro organismo, o hospedeiro – uma planta
(Figura 9A) ou um animal (Figura 9B) –, normalmente o prejudicando
Objetivo de aprendizagem
sem causar morte imediata, algumas vezes sem matar o organismo
Entender a interação do
parasitismo e sua conse-
hospedeiro.
quência no surgimento de
doenças infecciosas.
Figura 9
Parasitismo: parasitos e hospedeiros

Henrik Larsson/Shutterstock
ThePremise/Shutterstock

A B

A) Doença infecciosa em frutos de damasco; B) Carrapato cravado na pele de um gato.

O parasito pode viver sobre o corpo do hospedeiro, como os pio-


lhos, as pulgas, as cracas, os carrapatos; ou no interior do corpo do
hospedeiro, como as tênias, as lombrigas, as amebas, as giárdias.

Se os parasitos colonizam um hospedeiro, tem-se uma infecção;


caso essa infecção ocasione sintomas danosos ao hospedeiro, tem-se

Interações ecológicas 57
uma doença. Ao parasito que provoca uma doença, é dado o nome de
patógeno. Por exemplo, sarampo e tuberculose são doenças infeccio-
sas; o sarampo resulta de uma infecção viral (Measles morbillivirus), e a
tuberculose, de uma infecção bacteriana (Mycobacterium tuberculosis).
O vírus do sarampo e a bactéria da tuberculose são os patógenos
(BEGON; HARPER; TOWNSEND, 2007).

O parasito, o hospedeiro e o ambiente compõem um complexo sis-


tema, em que cada um desses componentes depende dos demais. Essa
interdependência pode levar ao surgimento de uma diversificação de
fenótipos para cada situação. O ambiente tem forte influência sobre o
comportamento das infecções e as manifestações ou a desaparição de
doenças parasitárias.

Há uma grande diversidade de parasitos, entretanto, eles são agru-


pados em microparasitos e macroparasitos. Os microparasitos são
organismos microscópicos, numerosos, multiplicam-se e finalizam seu
estágio infeccioso dentro do hospedeiro. Nesse grupo estão os vírus,
as bactérias, os fungos e muitos protozoários. Esses parasitos causam
doença de curta duração e limitada, em que o hospedeiro normalmen-
te desenvolve imunidade ao patógeno. Já os macroparasitos são, na
maioria, visíveis ao olho nu. Nesse grupo estão os platelmintos, os ne-
matoides e artrópodes ectoparasitas. Apenas crescem no hospedeiro
e, em geral, seu estágio infeccioso envolve um ciclo fora dele (ovos e
larvas) e não induzem imunidade, por isso o hospedeiro pode sofrer
uma reinfestação toda vez que for exposto ao parasito.

Diferentes são as formas como plantas e animais servem como


habitat. Em seguida, serão explanadas duas formas de parasitismo que
exemplificam essa situação.
a. Parasitismo social: envolve uma coexistência no mesmo
ninho de duas espécies de insetos sociais e ocorre quando um
reprodutor invasor usa as operárias de um ninho que ela não
construiu para criar sua prole. Esse processo também ocorre com
as aves e está relacionado à postura de ovos no ninho de outro
indivíduo. Essa relação, na maioria das vezes, é interespecífica,
podendo também ser intraespecífica. A ave invasora coloca o ovo
no ninho hospedeiro (Figura 10A), e seu filhote, em geral, sai do
ovo antes dos filhotes do hospedeiro, monopolizando o cuidado
parental (Figura 10B). Essa relação ecológica tem reflexos no
sucesso reprodutivo do hospedeiro e, consequentemente, em
sua dinâmica populacional.
58 Ecologia, manejo e conservação
Figura 10
Parasitismo social

peacejewel/Shutterstock
Melissa Rice/Shutterstock
A B

A) Dois ovos de tico-tico (Zonotrichia capensis) e um ovo de chupim (Molothrus bonariensis), em destaque, no ninho do
tico-tico. B) Chupim jovem sendo alimentado por um tico-tico.

b. Galhas: consistem em alterações morfológicas nos tecidos de


uma planta que ocasionam um crescimento anormal em folhas,
ramos, raízes ou flores. A maioria das galhas é causada por
insetos, como pulgões, mosquitos, vespas ou ácaros. Algumas
galhas resultam de infecções causadas por bactérias, fungos ou
nematoides (vermes microscópios), sendo difíceis de distinguir
das galhas causadas por insetos.

Figura 11
Galhas em diferentes partes das plantas
Zigmar Stein/Shutterstock

Gigoliver/Shutterstock
A B

A) Inúmeras galhas nas folhas de nogueira (Juglans nigra); B) Galha grande em um ramo de carvalho (Quercus sp.).

As adaptações ao parasitismo estão relacionadas ao processo


de evolução, incluindo mutações e seleção natural. Pressões sele-
tivas em parasitos e hospedeiros favorecem a otimização do ajuste

Interações ecológicas 59
individual, entretanto, eles constituem um conjunto integrado, sen-
do a evolução do parasito associada a modificações do hospedeiro,
e o hospedeiro evoluindo para formas mais adaptadas para resistir
e/ou tolerar o parasitismo. Em termos de seleção, os interesses são
comuns, e não antagônicos, o êxito do parasito depende da sobre-
vivência do hospedeiro. De acordo com Ricklefs (2021), apesar de o
parasitismo aumentar as chances de morte do hospedeiro por vá-
rios motivos ou reduzir sua fecundidade, por si mesmo o parasito
não remove um organismo hospedeiro de uma população-recurso.

3.5 Simbiose e mutualismo


Vídeo
A simbiose se refere a uma interação entre dois organismos de
diferentes espécies, em que pelo menos um deles é beneficiado.
Com base nessa definição, existem três principais tipos de relações
simbiônticas: parasitismo, mutualismo e comensalismo. O parasi-
tismo, entretanto, tem sido excluído da categoria de simbiose por-
que não há indícios de mutualismo, isto é, uma relação em que os
Objetivo de aprendizagem
organismos de espécies diferentes interagem em benefício mútuo.
Compreender as intera-
ções quando ambas as Mais especificamente, a simbiose consiste em uma associação
espécies que interagem
têm benefício líquido.
física fechada entre dois organismos de diferentes espécies, em
que o simbionte ocupa um habitat fornecido por um hospedei-
ro, por exemplo, as bactérias fixadoras de nitrogênio que vivem
em nódulos presentes nas raízes das leguminosas (soja, ervilha
e feijão). Já o mutualismo se refere às interações mutuamen-
te benéficas entre membros de espécies diferentes e não impli-
ca necessariamente uma associação física fechada, dessa forma,
mutualistas não precisam ser simbiontes (TOWNSEND; BEGON;
HARPER, 2010). O mutualismo pode ser obrigatório ou facultativo
(Quadro 2). O termo mutualismo facultativo era anteriormente cha-
mado de protocooperação.
Quadro 2
Características diferenciais entre mutualismo obrigatório e facultativo

Mutualismo Obrigatório Facultativo


Interação Obrigatória Não obrigatória
Espécies sobrevivem individualmente quan-
Sobrevivência Espécies não sobrevivem sem essa associação.
do separadas, mas sem sucesso.

(Continua)

60 Ecologia, manejo e conservação


Mutualismo Obrigatório Facultativo
Algumas espécies de formigas cuidam dos pul- Fungos micorrízicos nas raízes, mas essa
gões e os protegem de predadores (aranhas e relação pode se tornar parasitária em solo
joaninhas), alimentando-se das gotículas açuca- rico em nutrientes, já a planta não fornece
radas excretadas como excesso pelos pulgões. benefícios aos fungos.
Exemplos Relação entre aves e mamíferos, ambos
Líquen (associação entre alga ou cianobactéria e
são beneficiados quando aves comem
fungo). As primeiras fornecem compostos orgâ-
parasitos dos animais, como bois, cavalos,
nicos, e o fungo propicia ambiente favorável ao
capivaras. Os mamíferos se livram dos pa-
crescimento da alga ou cianobactéria.
rasitos e as aves comem.

Fonte: Elaborado pela autora.

Na Figura 12 são ilustrados os exemplos de interações mutualísticas


obrigatórias e facultativas que foram citados no Quadro 2. Esses cons-
tituem alguns exemplos, mas é importante destacar que a maior parte
das interações que ocorrem na natureza são mutualísticas.
Figura 12
Interações mutualísticas
Fawwaz Media/Shutterstock

KYTan/Shutterstock
A C

PULGÕES

FUNGOS
MICORRÍZICOS
TalyaPhoto/Shutterstock

Kanokratnok/Shutterstock
B D

Mutualismo obrigatório: A) Formigas e pulgões; B) Líquens. Mutualismo facultativo: C) Fungos micorrízicos; D) Ave e capivara.

Interações ecológicas 61
O mutualismo também varia em relação aos benefícios que os or-
ganismos obtêm da interação. Dessa maneira, pode ser classificado
como: defensivo, trófico e dispersivo, ou uma combinação deles.

Mutualismo defensivo: envolve uma interação de proteção. Um


dos organismos envolvidos na interação promove a defesa do outro
e, em troca, recebe alimento. Por exemplo, algumas plantas oferecem
alimento em nectários extraflorais e recebem a proteção das formigas
contra herbívoros (Figura 13).
Figura 13
Formiga vermelha (Pseudomyrmex sp.) comendo no nectário extrafloral

Vinicius R. Souza /Shutterstock


• Mutualismo trófico: envolve uma interação em que ambas as
espécies obtêm recursos, alimentos, nutrientes etc. Um exem-
plo são as bactérias dos gêneros Rhizobium e Bradyrhizobium,
que são organismos fixadores de nitrogênio atmosférico. Essas
bactérias formam nódulos nas raízes de leguminosas (Figura 14)
e disponibilizam maiores quantidades de nitrogênio para a plan-
ta, e as plantas fornecem nutrientes oriundos do processo de fo-
tossíntese para as bactérias.

Figura 14
Nódulos na raiz de ervilha (Pisum sativum)
Worachat Tokaew/Shutterstock

nódulo

As bactérias Rhizobium
sp. colonizam as células
dentro dos nódulos e fixam
nitrogênio atmosférico.

62 Ecologia, manejo e conservação


• Mutualismo dispersivo: esse tipo de mutualismo é represen-
tado pela dispersão de sementes e polinização (dispersão de
pólen). Por exemplo, plantas com flores que possuem adapta-
ções para atração de polinizadores (Figuras 15A e 15B). Estes
fazem o transporte de pólen e promovem a polinização, e as
plantas, por sua vez, fornecem o néctar, pólen etc. para a ali-
mentação do polinizador.

Figura 15
Flores com adaptações para o pouso de polinizadores e polinização

studio f22 ricardo rocha/Shutterstock

Ronald Wilfred Jansen/Shutterstock


A B

A) Polinização por abelhas (melitofilia); B) Polinização por borboletas (psicofilia).

Os organismos em uma relação mutualística evoluíram simultanea-


mente em resposta à seleção natural (coevolução). Cada um fazia parte
do ambiente do outro e, à medida que se adaptavam a esse ambiente,
começaram a explorá-lo de maneira recíproca, em que cada organismo
é beneficiário dessa interação.

Os mutualismos constituem a maior parte da biomassa mundial


e por muito tempo foram negligenciados em comparação aos outros
tipos de interação.

A teoria da evolução, em sua concepção original, baseia-se na luta, mas a


competição nem sempre é a regra na natureza, espécies diferentes podem se
associar para aumentar as chances de sobrevivência, uma ajudando a outra.

As interações mutualísticas são tão importantes para a estrutura-


ção de comunidades biológicas quanto as relações antagônicas (com-
petição). Algumas dessas interações formam os elementos básicos de
muitas comunidades.

Interações ecológicas 63
As relações mutualísticas exercem papel extremamente importante na evolu-
ção da vida em nosso planeta.

Em uma comunidade, quando duas populações cooperam entre si,


elas crescem, prevalecem e atingem níveis de equilíbrio mutuamente
benéficos. Essa é uma tendência ecológica em ecossistemas maduros,
aqueles que possuem grande diversidade são ricos em nutrientes, ar-
mazenam grandes quantidades de matéria orgânica e possuem uma
teia complexa de interações entre os seres vivos.

3.5.1 Comensalismo e inquilinismo


É difícil demonstrar com dados que cada um dos participantes em
uma relação mutualística se beneficia. De maneira geral, é muito prová-
vel que, em muitos tipos de interações ecológicas, apenas um dos orga-
nismos obtenha benefício, sem prejuízo para o outro. Essas interações
em que um parceiro ganha e o outro não é prejudicado e nem bene-
ficiado são denominadas comensais. No comensalismo, uma espécie
está em busca de alimento e se aproveita de outra para conseguir esse
recurso. Essa espécie, no entanto, não causa prejuízos à outra, uma vez
que se alimenta somente dos restos alimentares deixados pela primei-
ra. A espécie que é beneficiada na relação, ou seja, a que se alimenta,
é chamada de comensal; e a espécie que provê o alimento é chamada
de hospedeira.

Veja alguns exemplos de comensalismo: a) interação entre o ho-


mem e Entamoeba coli, um protozoário que habita o intestino grosso
humano e se alimenta de restos digestivos sem causar doença ao ho-
mem; b) as hienas, que aguardam os leões terminarem sua alimenta-
ção e aproveitam as sobras da caça; c) a interação entre a rêmora e o
tubarão, que é o exemplo mais clássico de comensalismo. A rêmora
possui ventosas na região dorsal, que são usadas para se fixar no tuba-
rão, dessa forma, ela é transportada e se alimenta de restos alimenta-
res do tubarão (Figura 16).

64 Ecologia, manejo e conservação


Figura 16
Comensalismo

John Back/Shutterstock
Os pequenos peixes são rêmoras, que se fixam no tubarão com ventosas dorsais, sendo
transportadas e alimentadas com os restos alimentares.

O comensalismo normalmente está relacionado à obtenção de ali-


Vídeo
mento por uma das espécies que interage, mas é muito comum ele ser re-
O vídeo Bio é vida – a
lacionado, ainda, às interações que envolvem a disponibilização de habitat
diversidade de seres vivos
e proteção. Esse caso é chamado de inquilinismo, quando apenas uma (vídeo UNICAMP) foi pro-
duzido pela Universidade
das espécies obtém benefício, sem prejuízo à outra. Uma espécie propor-
de Campinas (Unicamp)
ciona habitat ou abrigo para a outra, por exemplo, árvores que propiciam e aborda, de maneira
clara, objetiva e didática, a
habitat para animais (aves, morcegos) e para plantas epífitas (bromélias
interação entre seres vivos
(Figura 17), orquídeas, cactos, samambaias, musgos etc.). e o ambiente e entre si.
O vídeo contribui para o
Figura 17 conhecimento de espécies
Inquilinismo: bromélias epífitas (Tillandsia stricta) sobre o tronco de uma árvore do mundo animal e para
frisar a importância de
mspoli/Shutterstock

aspectos como tamanho,


forma, hábitos e cores
para a sobrevivência e a
perpetuação das espécies.
Aproveite o vídeo para
compreender como as
condições ambientais
influenciam os hábitos
dos animais e, ao longo
dos anos, influenciaram
o desenvolvimento das
adaptações.

Disponível em: https://


www.youtube.com/
watch?app=desktop&v=mr45_
Elas não são plantas parasitas, somente usam as árvores como suporte para obter luz, Yu2xos. Acesso em: 17 nov. 2021.
umidade e nutrição.

Interações ecológicas 65
CONSIDERAÇÕES
FINAIS
As interações entre os organismos ocorrem de diferentes formas,
como: as relações antagônicas, em que os organismos competem por re-
cursos ou consomem uns aos outros; as associações simbióticas ou mu-
tualísticas, em que um organismo pode abrigar o outro, dois organismos
podem trocar recursos ou se desenvolverem em ambientes mais restri-
tos; ou as relações de coevolução, por exemplo, entre diversos polinizado-
res especializados e flores também especializadas.
A análise dessas interações ecológicas tem impacto direto na con-
servação e no manejo da biodiversidade, e o entendimento delas é uma
tendência atual em ecologia. Um olhar atento à biodiversidade, pautado
não somente em números, abundância e distribuição de espécies, mas
no conjunto de interações entre seres vivos, permite avaliar as conse-
quências das perturbações ambientais no nível de uma comunidade ou
um ecossistema.
A compreensão do real valor das interações ecológicas sobre a bio-
diversidade e sua conservação e manejo é fundamental para o desen-
volvimento de soluções para os principais problemas ambientais atuais,
por exemplo, a extinção de espécies, o controle biológico de pragas, o
controle de espécies exóticas invasoras e o manejo dos recursos naturais.

ATIVIDADES
Atividade 1
Preencha o quadro a seguir com o resumo dos principais
aspectos diferenciais entre as interações interespecíficas apre-
sentadas neste capítulo.

Interação Breve definição Efeito


Competição
Predação
Herbivoria
Parasitismo
Mutualismo
Comensalismo

O efeito pode ser: +/- (positivo para uma espécie e negativo para
a outra espécie); +/+ (positivo para ambas as espécies); ou +/0
(positivo para uma espécie e neutro para a outra espécie).

66 Ecologia, manejo e conservação


Atividade 2
A competição interespecífica pode acontecer tanto por explo-
ração como por interferência. Cite um exemplo de cada tipo
de competição e compare as consequências sobre as espécies
que competem.

Atividade 3
As bromélias e as orquídeas epífitas vivem normalmente sobre as
árvores. Com base nessa informação, responda:
a) as bromélias e as orquídeas epífitas são beneficiadas nessa
relação que estabelecem com as árvores? Por quê?
b) Como é denominada essa interação entre bromélias e orquí-
deas epífitas e as árvores que lhes dão suporte?
c) As árvores são prejudicadas nesse tipo de interação? Explique.

Atividade 4
Os líquens possuem ampla distribuição e habitam diferentes
regiões. São organismos constituídos por uma associação entre
uma alga ou uma cianobactéria e um fungo. Ainda sobre os
líquens, responda:
a) Como é chamada a interação ecológica que ocorre entre os
organismos que compõem um líquen?
b) Em linhas gerais, explique essa interação. Qual é o benefício
para cada um dos organismos que a compõem?

REFERÊNCIAS
BEGON, M.; HARPER, J. L.; TOWNSEND, C. R. Ecologia: de indivíduos a ecossistemas. 4. ed.
Porto Alegre: Artmed, 2007.
CORREIA, M. E. F.; OLIVEIRA, L. C. M. Fauna de solo: Aspectos gerais e metodológicos.
Seropédica: Embrapa Agrobiologia, 2000. Disponível em: https://www.infoteca.cnptia.
embrapa.br/bitstream/doc/597278/1/doc112.pdf. Acesso em: 16 nov. 2021.
RICKLEFS, R. E. A economia da natureza. 8. ed. Rio de Janeiro: Guanabara-Koogan, 2021.
TOWNSEND, C. R.; BEGON, M.; HARPER, J. L. Fundamentos em Ecologia. 3. ed. Porto Alegre:
Artmed, 2010.

Interações ecológicas 67
4
Comunidades e ecossistemas
O Sol é a fonte de energia para manutenção da vida nos ecossistemas,
pois sem a radiação solar os seres vivos não conseguem se manter. A
energia solar penetra nos ecossistemas por meio da absorção dos orga-
nismos autotróficos (produtores) para a realização do processo de fotos-
síntese, no qual são produzidos os compostos orgânicos.
Os açúcares sintetizados pelos organismos produtores serão utilizados
para a produção de substâncias que constituirão parte da sua estrutura,
como as proteínas e os lipídeos. Esses compostos constituirão a sua bio-
massa, que será disponibilizada aos organismos consumidores. Estes, por
sua vez, utilizarão os compostos orgânicos produzidos pelos produtores,
alimentando-se da sua biomassa. É estabelecido, então, um fluxo de energia
nos ecossistemas dos produtores em direção aos consumidores e decompo-
sitores, mas parte da quantidade de energia diminui à medida que ocorre a
transferência de um nível trófico ao outro. A energia usada por um organismo
não pode ser reaproveitada, entretanto a matéria produzida durante esse
processo tem um comportamento cíclico, voltando aos organismos produto-
res e sendo reaproveitada por meio da ciclagem de nutrientes.
Os ecossistemas funcionam graças a esse fluxo de energia e ciclagem
de nutrientes e devido aos seus processos e às suas relações energéticas.
Um equilíbrio natural entre produtores (algas e plantas), consumidores
(herbívoros e carnívoros) e decompositores (bactérias e fungos) é bem
representado por meio das teias alimentares, que demonstram toda a
complexidade de interações existentes em uma comunidade. Os ecossis-
temas passam de um estado menos complexo para um mais complexo e
assim se estabilizam, tornando-se maduros e estáveis ao longo do tempo
pelo processo de sucessão ecológica.
A compreensão de todos esses fatores, que influenciam a composição, a
distribuição de espécies e a estabilidade de uma comunidade, permite inferir
sobre a sua estrutura e a dinâmica e pode contribuir para a minimização e
compensação dos impactos nos ecossistemas, bem como para o gerencia-
mento das comunidades ecológicas das quais o homem se beneficia.

68 Ecologia, manejo e conservação


4.1 Estrutura e dinâmica da comunidade
Vídeo Uma comunidade inclui todos os indivíduos e populações que
habitam uma área em particular – por exemplo, uma comunidade
florestal inclui todas as árvores e demais plantas, todos os animais
e microrganismos e todos os componentes abióticos, o solo, um rio
etc. As comunidades consistem em sistemas complexos caracteriza-
Objetivo de aprendizagem dos por sua estrutura (número e tamanho das populações e suas in-
Conhecer os principais terações) e pela sua dinâmica (como os membros e suas interações
elementos que compõem mudam ao longo do tempo). Em termos gerais, a reunião das dife-
as comunidades, assim
como os fatores que rentes espécies em uma comunidade é determinada pela dispersão,
influenciam a dinâ- pelas restrições ambientais e pela dinâmica interna (Figura 1).
mica e a estrutura de
comunidades. Figura 1
Compartilhamentos existentes em uma região

COMPARTILHAMENTO TOTAL DE ESPÉCIES

Restrições Restrições
ambientais à dispersão

Compartilhamento
ecológico
Compartilhamento Compartilhamento
de habitat Dinâmica interna geográfico

Comunidade

Compartilhamento de habitat (espécies que persistem nas condições abióticas locais),


ecológico (representado pela sobreposição das imagens), geográfico (espécies presentes em
determinado local) e comunidade (inclui as interações bióticas).
Fonte: Adaptada de Begon; Harper; Townsend, 2007, p. 469.

A dinâmica de uma comunidade está relacionada às mudanças


em sua estrutura e composição ao longo do tempo – em geral, após
os distúrbios ambientais, como vulcões, terremotos, tempestades,

Comunidades e ecossistemas 69
incêndios e mudanças climáticas. Comunidades com número cons-
tante de espécies estão em equilíbrio. Após uma perturbação, a co-
munidade pode ou não retornar ao estado de equilíbrio.

4.1.1 Padrões no espaço e no tempo


Os padrões de uma comunidade consistem em repetições con-
sistentes, como a do agrupamento de formas de crescimento simi-
lares em diferentes locais ou da abundância de espécies ao longo
dos gradientes ambientais (variações espaciais contínuas de espé-
cies). A definição de padrões auxilia a construção de hipóteses ou o
estabelecimento de tendências em uma comunidade.

Como vimos na Figura 1, a ocorrência de uma espécie é definida


por sua capacidade de chegar a um local onde ocorrem condições
e recursos adequados à sua sobrevivência e onde um competidor,
predador ou parasito não dificulte o seu sucesso biológico (sobrevi-
vência e reprodução). Um padrão temporal no surgimento e desa-
parecimento de uma espécie necessitará ainda que as condições, os
recursos ou a influência de competidores, predadores ou parasitos
variem com o tempo. Esses padrões nas comunidades podem ser
observados após uma perturbação ou degradação, sendo na maio-
ria das vezes bastante previsíveis, por exemplo: a sucessão ecológica
em uma comunidade.

4.1.2 Sucessão da comunidade


A sucessão ecológica compreende as mudanças que acontecem
ao longo do tempo em uma comunidade, na estrutura das popula-
ções e dos processos, especialmente pela influência da vegetação
sobre o ambiente, levando à introdução de novas espécies. Envol-
ve um processo contínuo, direcional e não sazonal de colonização
e extinção de espécies na comunidade. Interações de competição e
coexistência controlam o processo de sucessão, além do ambiente
físico, que também determinará o padrão e a velocidade da mudan-
ça. O esquema da figura a seguir apresenta as mudanças que ocor-
rem em uma comunidade ao longo do tempo.

70 Ecologia, manejo e conservação


Figura 2
Etapas do processo de sucessão primária

VectorMine/Shutterstock
Espécies pioneiras Espécies intermediárias Comunidade clímax

Rocha Líquens Pequenas Gramíneas e Gramíneas, arbustos Estabelecimento de


nua plantas anuais ervas perenes e árvores intolerantes árvores tolerantes à
e líquens à sombra sombra

Centenas de anos

No estágio inicial, as espécies pioneiras se estabelecem; em seguida, no estágio intermediário,


há o estabelecimento das espécies intermediárias; finalmente, no estágio mais avançado, há a
estabilização do ecossistema (clímax).

Quanto às forças que conduzem o seu desenvolvimento, a sucessão


ecológica pode ser caracterizada do seguinte modo: sucessão
autogênica, relacionada às mudanças causadas por interações inter-
nas e processos biológicos internos, por exemplo, uma competição; e
sucessão alogênica, relacionada às forças externas que afetam e con-
trolam as mudanças, como tempestades, queimadas, desmatamento,
mudanças climáticas etc.

A sucessão pode ser caracterizada ainda quanto à natureza do


substrato onde ela se instala. A sucessão primária é aquela que se
inicia em zonas nunca ocupadas por outras comunidades, ou seja, em
áreas virgens – por exemplo, quando, após uma erupção vulcânica, o
substrato é colonizado (Figura 2). Nesse tipo de sucessão, o ambiente
exerce uma forte pressão sobre as espécies que o colonizam. É im-
portante destacar que, no meio terrestre, ela pode durar milhares de
anos, pois demanda a formação do solo. A sucessão secundária é
aquela que ocorre posteriormente à perturbação ambiental, em uma
comunidade que sofreu uma alteração no seu equilíbrio – por exem-

Comunidades e ecossistemas 71
plo, uma comunidade que sofreu o corte da floresta (Figura 3). A área
que sofreu esse tipo de perturbação contém os meios bióticos para
a recuperação, o solo não foi destruído, conserva raízes e gemas que
podem rebrotar e sementes que podem germinar.
Figura 3
Sucessão secundária após corte de floresta

khlongwangchao/Shutterstock

khlongwangchao/Shutterstock
A B

A) Área desmatada. B) Área com a sucessão secundária instalada.

A vegetação de uma área é composta por elementos reais, isto é, as


plantas presentes, e elementos potenciais, representados por semen-
tes ou propágulos existentes no solo. As espécies vegetais variam de
acordo com o estágio de sucessão, dividindo-se em três grupos ecoló-
gicos principais:
• Pioneiras: as primeiras a se estabelecer no ambiente.
• Secundárias – subdividem-se em:

◦ iniciais: desenvolvem-se em clareiras ou no sub-bosque,


possuem crescimento rápido e ciclo de vida curto;
◦ tardias: intermediárias na sucessão, desenvolvem-se em sub-
-bosque permanentemente sombreado, possuem crescimento
médio e ciclo de vida longo.
• Climácicas: desenvolvem-se na sombra, possuem crescimento
lento ou muito lento e ciclo de vida longo.

No quadro a seguir são apresentadas as principais tendências ecofi-


siológicas das espécies que ocupam dois diferentes estágios extremos
em uma sucessão (pioneiro ou inicial e clímax).

72 Ecologia, manejo e conservação


Quadro 1
Principais tendências das espécies em dois estágios da sucessão

GRUPOS ECOLÓGICOS
Tendências ecofisiológicas
Espécies pioneiras Espécies climácicas
Amplitude geográfica Grande Limitada

Banco de sementes
Presente Ausente
(armazenamento)
Indefinido, gemas não Definido, gemas possuem
Crescimento
possuem dormência dormência
Crescimento raízes Pequeno Grande

Defesas químicas contra


Pequena Grande
herbivoria

Diversas formas: vento,


Dispersão das sementes Vento
água, diferentes animais

Dormência nas sementes Normalmente presente Normalmente ausente


Permanecem por Permanecem por muito
Folhas (responsáveis pela
pouco tempo na planta tempo na planta (baixa
fotossíntese)
(alta renovação) renovação)
Vídeo
Plasticidade fenotípica* Grande Pequena
O vídeo Sucessão,
Normalmente publicado pelo canal
Raízes Normalmente profundas
superficiais Lizanete Medeiros, é
uma animação que
São pequenas,
São grandes, pouco apresenta, de maneira
numerosas
Sementes numerosas e produzidas bastante didática, o que
e produzidas é o processo de sucessão
anualmente
continuamente ecológica e as diferenças
entre sucessão ecológica
Vulnerabilidade das folhas primária e secundária.
Grande Pequena
à herbivoria (predação) Após assistir ao vídeo,
elabore um mapa mental
Taxa de fotossíntese Alta Baixa do que aconteceria com a
Rapidez no crescimento Alta Baixa estrutura das comu-
nidades logo após um
* Alteração da morfofisiologia dos organismos em relação às características do ambiente. desmatamento em que
foi realizado o corte raso
Fonte: Elaborado pela autora.
da vegetação, deixando a
Com o avanço da sucessão ecológica, as paisagens mudam ao longo área abandonada.

do tempo, à medida que as estações passam e o sistema amadurece. Disponível em: https://
www.youtube.com/
Na figura a seguir são apresentadas as principais tendências ecológicas
watch?v=do9CnV4BPEU. Acesso
durante um processo de sucessão no que se refere à estrutura de uma em: 23 nov. 2021.
comunidade.

Comunidades e ecossistemas 73
Figura 4
Principais tendências ecológicas durante processo de sucessão

Nasky/Shutterstock
Aumento na composição de espécies na diversidade,
no tamanho dos organismos e nas interações mutualísticas

A natureza funciona a partir de ciclos e fluxos, e o conhecimento


das mudanças que ocorrem durante um processo de sucessão auxilia o
adequado planejamento, assim como o estabelecimento de condições
favoráveis para acelerar a regeneração de áreas perturbadas ou a recu-
peração de áreas degradadas.

4.2 Fluxo de energia nos ecossistemas


Vídeo Um ecossistema é formado pela comunidade (ou biocenose) mais
os fatores abióticos que interagem em reciprocidade. Essa interação
origina a permuta de matéria (energia) entre as porções vivas e não
vivas do meio (fatores físicos e químicos).

Os ecossistemas são caracterizados, além da diversidade de espé-


Objetivo de aprendizagem
cies, pela presença de organismos que representam os três grupos me-
Compreender o fluxo de
tabólicos: produtores, consumidores e decompositores, o que origina
energia nos ecossistemas
como fundamental para o fluxo de energia.
seu funcionamento e sua
manutenção. Os produtores são autotróficos, ou seja, sintetizam o seu próprio
alimento a partir de fontes inorgânicas, como sol, água, sais minerais
e dióxido de carbono (CO2) por meio do processo de fotossíntese. Os
consumidores são heterotróficos, obtêm seu alimento por meio do
consumo de produtores e consumidores, por isso podem ser caracte-

74 Ecologia, manejo e conservação


rizados como primários, secundários e terciários. Os decompositores
são heterotróficos, obtêm a energia a partir da matéria que se decom-
põe. Na figura a seguir podem ser observados os três grupos metabóli-
cos e como eles se relacionam.
Figura 5
Grupos metabólicos presentes nos ecossistemas

desdemona72/Shutterstock
Ecossistema florestal – cadeia alimentar

Sol
Consumidor Consumidor Consumidor Consumidor
primário secundário terciário terciário

Herbívoro Onívoro Carnívoro Carnívoro


Produtor

Água Decompositor

Produtores, consumidores e decompositores.

O fluxo de energia nos ecossistemas será responsável pela con-


dução da organização trófica, da biodiversidade e da ciclagem de nu-
trientes. Essa energia é obtida, inicialmente, da radiação solar, que
incide sobre os ecossistemas e propicia as condições favoráveis para
a conversão da energia do Sol em energia química. A produção nos
ecossistemas, que corresponde a essa conversão, é realizada por algas
e plantas (seres autotróficos) por meio do processo de fotossíntese.
Durante a fotossíntese, ocorre a fixação do dióxido de carbono (CO2)
disponível na atmosfera para a produção de energia e acumulação na
biomassa dos produtores.

A quantidade de energia produzida (biomassa vegetal) em uma


determinada área (espaço) durante um intervalo de tempo é deno-
minada produtividade primária. A produtividade secundária depende
da primária e se refere à produção de biomassa pelos organismos
heterotróficos.

Comunidades e ecossistemas 75
Os animais, os fungos e a maioria das bactérias são seres hetero-
tróficos, isto é, obtêm a energia consumindo material vegetal ou pelo
consumo de outros organismos heterotróficos. As algas e as plantas
são os produtores primários e estão no primeiro nível trófico em uma
comunidade; os consumidores primários estão no segundo nível; os
consumidores secundários estão no terceiro nível trófico, e assim por
diante.

4.2.1 Produtividade primária e fatores que a limitam


Os principais fatores que limitam a produtividade primária são: ra-
diação solar (intensidade de luz), concentração de CO2 e temperatura.
A disponibilidade de água e de nutrientes também é um importante
fator, no entanto seus efeitos são mais indiretos sobre o processo de
fotossíntese.

Segundo Raven, Evert e Eichhorn (2014), considerando o total de ra-


diação solar que atinge os ecossistemas na superfície do planeta Terra,
somente 5% são aproveitados no processo de fotossíntese por órgãos
fotossintetizantes – principalmente as folhas – para a conversão de
matéria inorgânica em carboidratos, que constituirão a biomassa das
plantas. Os outros 95% dessa energia compreendem: 19% de radiação
empregada durante o metabolismo das plantas; 8% de radiação perdi-
da em forma de calor; 8% de radiação que é refletida ou transmitida;
e 60% de radiação em comprimento de onda não absorvido (Figura 6).
Figura 6
Utilização da energia solar que chega até a superfície terrestre

Conversão em
biomassa 5%
Usada no
metabolismo 19%

Dissipada como
calor 8%

Refletida 8%

Não absorvida
60%

Fonte: Elaborada pela autora com base em Raven; Evert; Eichhorn, 2014.
76 Ecologia, manejo e conservação
À medida que a intensidade luminosa aumenta, há uma elevação da
taxa de fotossíntese (produtividade primária) até o denominado ponto
de saturação luminosa, quando a curva permanece inalterada. A partir
desse ponto, mesmo que ocorra um aumento da intensidade luminosa,
não haverá alteração na taxa de fotossíntese (Figura 7). O comprimento
de onda também interfere na taxa de fotossíntese, sendo máxima aos
400 e 700 nm (nanômetros), que são os comprimentos de onda absor-
vidos pelas clorofilas presentes nas plantas.
35
Figura 7
Relação entre a 30
intensidade luminosa
e a taxa de
Taxa de fotossíntese

25
fotossíntese
20 Ponto de saturação luminosa

15

10

0
Intensidade de luz
Fonte: Elaborada pela autora.

Quanto à sua exigência de intensidade luminosa, as plantas são clas-


sificadas como plantas de sol e plantas de sombra. As plantas de sol são
mais eficientes no uso da luz, respondem melhor aos incrementos da
radiação; já as plantas de sombra, apesar de se saturarem com baixos
níveis de radiação, são mais efetivas no seu uso, porque começam a
fotossintetizar mesmo com pouca intensidade de luz (LARCHER, 2000).

No que diz respeito à concentração de CO2, à medida que ela au-


menta, a taxa fotossintética também é ampliada até o denominado
ponto de compensação de CO2 (Figura 8).
35
Figura 8
Relação entre a 30
concentração de
Taxa de fotossíntese

CO2 e a taxa de 25
fotossíntese
20 Ponto de compensação de CO2

15

10

0
Concentração de CO2
Fonte: Elaborada pela autora.
Comunidades e ecossistemas 77
O processo de fotossíntese é fundamental para a produtividade pri-
mária e, com relação à emissão de altas concentrações de CO2 na at-
mosfera, esse processo pode ser estimulado, incrementando a fixação
de CO2 na biomassa nas plantas.

As plantas são capazes de sequestrar o excesso de CO2 presente na atmosfera


e minimizar os efeitos das mudanças climáticas.

As plantas estão expostas a determinadas temperaturas – ideais,


abaixo ou acima das ideais. A temperatura é uma condição ambien-
tal capaz de limitar as reações que ocorrem durante o processo de
fotossíntese. Temperaturas elevadas podem desnaturar enzimas res-
ponsáveis pelo processo fotossintético e, por consequência, alterar as
reações; já em temperaturas mais baixas, a energia cinética de molécu-
las reagentes, como CO2 e H2O, é insuficiente para a obtenção de bom
rendimento químico, e, consequentemente, o processo fotossintético
também é alterado. A figura a seguir demonstra a relação entre tempe-
ratura e taxa de fotossíntese.
Figura 9
Relação entre temperatura e taxa de fotossíntese

35

30
Taxa de fotossíntese

25

20
Temperatura ideal
15

10

0
Temperatura

Fonte: Elaborada pela autora.

Sob condições ambientais ideais de temperatura e concentração de


CO2, a taxa de produtividade primária aumenta gradualmente à medi-
da que ocorre o aumento da intensidade luminosa.

78 Ecologia, manejo e conservação


4.2.2 Produtividade primária terrestre e aquática
Nas comunidades terrestres, a produtividade é limitada por uma
sucessão de fatores, como qualidade e quantidade de intensida-
de luminosa (radiação solar), disponibilidade de água e nutrientes
– principalmente o nitrogênio – e condições ambientais, em especial
a temperatura. Interferem na produtividade de sistemas terrestres,
ainda, a textura e a drenagem do solo.

Nas comunidades aquáticas, o aumento da produtividade primária


é proporcional às maiores concentrações de nutrientes (em particular
o fosfato), e a intensidade luminosa não constitui um fator limitan-
te, porque a fotossíntese ocorre fundamentalmente na zona fótica
(Figura 10), que recebe intensidade luminosa suficiente para realização
da fotossíntese.
Figura 10
Zonação em lagos e lagoas

Zona litorânea Zona limnética

VectorMine/Shutterstock
Zona fótica
Zo
na
be

Zonação em
nt

Zona afótica profunda


ôn

lagos e lagoas
ica

Zona litorânea: região próxima às margens, onde a luz incide até o fundo. Zona limnética: região
tracejada até onde a luz penetra. Zona fótica: região superficial, até onde a luz consegue penetrar. Zona
afótica: região profunda, onde a luz não consegue penetrar. Zona bentônica: região situada no fundo.

Comunidades e ecossistemas 79
O aporte de nutrientes em lagos provém do intemperismo de ro-
chas e solos ou é resultado das atividades humanas (esgotos domés-
tico e industrial, fertilizantes etc.). Os lagos variam bastante quanto à
disponibilidade de nutrientes. Nos oceanos, o aporte de nutrientes é
oriundo de regiões estuarinas ou de ressurgências de águas profundas
que são ricas em nutrientes (TOWNSEND; BEGON; HARPER, 2010).

O excessivo aporte de nutrientes em ecossistemas aquáticos acarreta a eutro-


fização (aumento da concentração de nutrientes), que leva à excessiva multipli-
cação de algas e macrófitas aquáticas.

A compreensão do processo de eutrofização, suas causas e conse-


quências é fundamental para o estabelecimento de estratégias de ges-
tão de ambientes aquáticos como forma de mitigar a extensão desse
problema, principalmente em áreas ecologicamente mais sensíveis.

4.2.3 Fluxo de energia e ciclagem de nutrientes


A fonte de toda energia que flui pela Terra vem do Sol. Todos os
seres vivos usam essa energia nos seus processos celulares. A energia
passa pelos ecossistemas quando os organismos autotróficos (produ-
tores) a absorvem e convertem em energia química por meio do pro-
cesso de fotossíntese; em seguida, os heterótrofos (consumidores)
obtêm essa energia consumindo autótrofos e outros heterótrofos e a
liberam por meio da respiração celular; e finalmente os detritívoros se
alimentam de restos de plantas e animais e outras matérias mortas,
e os decompositores decompõem a matéria orgânica morta, transfor-
mando-a em moléculas inorgânicas, devolvendo os nutrientes ao am-
biente (ciclagem de nutrientes).

Essa sequência de eventos que ocorre nos ecossistemas é denomi-


nada cadeia trófica ou alimentar (Figura 11), e nela a energia e a matéria
fluem em uma única direção de um nível trófico para o outro. A cada
passagem de nível trófico ocorre perda de uma parte dessa energia,
por exemplo: as plantas convertem a energia proveniente do Sol em
energia química, porém usam uma porção dessa energia química no
processo de respiração, disponibilizando apenas uma parte dela para
o próximo nível trófico.

80 Ecologia, manejo e conservação


Figura 11
Cadeia trófica ou alimentar: fluxo de energia em uma comunidade

alinabel/Shutterstock
Cadeia
trófica
simplificada

Plantas 1º nível
verdes Produtor
trófico

Herbívoro
Consumidor 2º nível
primário trófico

Consumidor 3º nível
secundário trófico

Consumidor 4º nível
Carnívoros terciário trófico

Consumidor 5º nível
quaternário trófico

Uma cadeia alimentar dá a ideia de fluxo de energia unidirecional,


em que um organismo serve de alimento para outro, mas a melhor
representação do funcionamento dos ecossistemas é por meio de uma
teia alimentar (Figura 12), a qual não é unidirecional e demonstra as
relações alimentares interligadas, ou seja, a conexão de várias cadeias
alimentares, uma vez que um mesmo animal pode fazer parte de ca-
deias distintas.

A extinção de uma espécie leva ao desequilíbrio ambiental devido à nítida inter-


dependência entre seres vivos em uma teia alimentar.

Comunidades e ecossistemas 81
Figura 12
Teia trófica ou alimentar

BlueRingMedia/Shutterstock
Serpente

Raposa
Falcão

Coruja

Pássaro

Sapo

Gafanhoto
Coelho

Rato
Capim

As setas indicam todas as relações alimentares e o fluxo de energia.

O fluxo de energia entre os níveis tróficos pode ser representado da


seguinte maneira:
• Pirâmide de números: representa o número de organismos em
cada nível trófico, que é proporcional ao número necessário para
a sua dieta. Por exemplo, 10 mil plantas (produtores), 200 gafa-
nhotos (consumidores primários), cinco pássaros (consumidores
secundários) e uma serpente (consumidor terciário).
• Pirâmide de biomassa: representa a quantidade de biomassa
(em g/m²) em cada nível trófico.
• Pirâmide de energia: representa a quantidade de energia (em
joule) acumulada por área (espaço) e por unidade de tempo.

82 Ecologia, manejo e conservação


É importante salientar que, em alguns casos, a quantidade de bio-
massa e o número dos produtores de uma cadeia trófica podem ser
menores quando comparados aos outros níveis. Por exemplo, no am-
biente aquático, em alguns momentos, a biomassa de fitoplâncton
pode ser menor do que a biomassa do zooplâncton, com 3 g/m2 de
fitoplâncton (produtores) para 15 g/m2 de zooplâncton (consumidores
primários). Nesse caso, tanto a pirâmide de biomassa quanto a de nú-
meros são invertidas. Já a pirâmide de energia nunca será invertida,
porque os produtores sempre armazenam a maior quantidade, assim
o fluxo de energia sempre diminui na direção dos consumidores de
primeiro nível ao demais níveis tróficos.

Os nutrientes são essenciais para todos os seres vivos, que gastam


energia para absorvê-los do ambiente, aprisioná-los por um período e,
posteriormente, perdê-los novamente. Dessa forma, as atividades dos
seres vivos interferem nos fluxos de matéria na biosfera. A biota arma-
zena, converte e transfere a matéria entre as componentes vivas e não
vivas nos ecossistemas. Na figura a seguir são apresentados os com-
partimentos abióticos com os principais nutrientes presentes neles.
Figura 13
Compartimentos abióticos e os principais nutrientes minerais

Designua/Shutterstock
Atmosfera (ar)
Carbono como CO2 e
nitrogênio como N2 (gasoso)

Biosfera (seres vivos)

Hidrosfera
(rios, lagos e oceanos):
Nitrogênio na forma de nitrato
Litosfera (rochas): e fósforo como fosfato
Cálcio, potássio, enxofre e fósforo

Comunidades e ecossistemas 83
Esses nutrientes estão disponíveis para as plantas como compostos
inorgânicos ou íons e são incorporados na biomassa como compostos
orgânicos complexos. Um elemento nutriente pode passar várias vezes
por uma cadeia alimentar. Os nutrientes são transferidos, transforma-
dos quimicamente e reciclados continuamente, processo este chamado
de ciclagem de nutrientes. Os microrganismos decompositores atuam
nessa ciclagem, pois, por meio do processo de decomposição, liberam
os elementos químicos que estão incorporados na biomassa dos seres
vivos, permitindo o seu retorno ao meio abiótico (Figura 14).

Figura 14
Ciclagem de nutrientes

Saravanakumar Devaraj/Shutterstock
CO2
CO2
Entrada de nutrientes
Absorção

Carbono
Respiração

Decomposição

Microrganismos

Cálcio Nitrogênio Matéria


Perda de
orgânica
nutrientes

Rocha matriz

Os nutrientes são incorporados à biomassa dos seres vivos e, por meio do processo de decomposição (realizado por microrganismos),
retornam ao meio abiótico.

A ciclagem de nutrientes constitui uma parte biologicamente ativa


dos ecossistemas, e as bactérias e os fungos são os agentes principais
na regeneração dos nutrientes. Esses microrganismos decomposito-

84 Ecologia, manejo e conservação


res podem crescer em muitos ambientes, porque são microscópicos,
dispersam-se facilmente, necessitam de pequenas quantidades de nu-
trientes e suas necessidades nutricionais são bem diversificadas.

4.3
Vídeo
Interações populacionais
As interações populacionais são a base de várias propriedades e
vários processos dentro dos ecossistemas, como as teias tróficas e a
ciclagem de nutrientes. A natureza das interações pode mudar depen-
dendo do contexto evolutivo, das condições ambientais e dos recursos
disponíveis.
Objetivo de aprendizagem

Entender como as Existem vários tipos de interações entre os organismos, nos mais
interações populacionais variados habitats e ecossistemas. Conhecer a forma como os diferentes
influenciam na estrutura
de comunidades e nos tipos de interações estruturam uma comunidade permite compreen-
padrões de riqueza, nas der como os processos ocorrem naturalmente e prever como as inter-
relações de interdepen-
dência dos organismos e ferências humanas no ambiente podem afetar as propriedades e os
destes com os compo- processos dos ecossistemas.
nentes do meio.

Leitura 4.3.1 Influência na estrutura de comunidades


A reportagem do portal
G1, Mudança climática
De modo bem abrangente, as interações ecológicas podem ser in-
pode ser fator em morte de traespecíficas ou interespecíficas, entretanto, como a maioria das espé-
estrelas-do-mar, aborda
como a mudança do clima cies vive em comunidade, as interações entre elas podem ser afetadas
pode ser a responsável
pela morte, nos últimos
ou elas podem influenciar indiretamente outras espécies e as suas
anos, de milhões de es- interações.
trelas-do-mar da espécie
Pisaster ochraceus, no ex- A competição interespecífica, a predação e as diversas formas de
tremo oeste dos Estados
Unidos. O aquecimento simbiose são interações com grande potencial de moldar uma comu-
das águas dos oceanos
pode ter acentuado a nidade. Por exemplo, se duas espécies competem entre si e são inca-
atividade de um vírus que pazes de coexistir em uma mesma comunidade, a espécie com maior
as deteriora. Imagine o
que pode acontecer com efeito eliminará o seu competidor, forçando-o à mudança de habitat
a estrutura das comunida-
des dos costões rochosos (exclusão competitiva).
do Pacífico da América do
Norte se essa espécie- Há, ainda, algumas espécies que possuem papel relevante na estru-
-chave for completamente
turação e integridade de uma comunidade: as espécies fundadoras e
removida devido ao
aquecimento global! as espécies-chave.
Disponível em: http://g1.globo. As espécies fundadoras possuem uma única e importante função
com/natureza/noticia/2015/09/
mudanca-climatica-pode-ser-fator- na criação e estruturação de uma comunidade. Normalmente modifi-
em-morte-de-estrelas-do-mar. cam o ambiente para que, posteriormente, outras espécies possam se
html. Acesso em: 23 nov. 2021.
estabelecer.

Comunidades e ecossistemas 85
As espécies-chave auxiliam na manutenção da biodiversidade den-
tro de uma comunidade ao controlar as populações de outras espécies
que, de alguma forma, poderiam dominar a comunidade ou ao forne-
cer recursos essenciais para uma variedade de espécies.

A estrela-do-mar (Pisaster ochraceus, Figura 15A) é um dos exemplos


mais conhecidos de espécie-chave ocorrente nos costões rochosos
do Pacífico da América do Norte. Ela preda uma espécie de mexilhão
(Mytilus californianus, Figura 15B).
Figura 15
Espécies que interagem e auxiliam a manutenção e a diversidade de uma comunidade marinha.

Paula Cobleigh/Shutterstock

Natalia Leen/Shutterstock
A B

A) A espécie-chave predadora Pisaster ochraceus. B) Grupo de mexilhões Mytilus californianus, as presas.

Quando as estrelas-do-mar foram removidas experimentalmente, a


população de mexilhões se expandiu rapidamente e cobriu os costões
rochosos entre marés, impedindo que outras espécies pudessem se
estabelecer (BEGON; HARPER; TOWNSEND, 2007).

A interação entre Pisaster ochraceus e Mytilus californianus exemplifi-


ca o papel fundamental das interações populacionais sobre a estrutura
e a diversidade de espécies em uma comunidade. O conjunto das po-
pulações de diferentes espécies regula estruturalmente a comunidade
por meio das interações ecológicas.

4.3.2 Padrões na riqueza em espécies


A estrutura de uma comunidade é definida por sua composição,
riqueza e abundância de espécies. Em ecologia, a riqueza está rela-
cionada ao número de espécies em uma comunidade – neste caso,

86 Ecologia, manejo e conservação


Leitura
ignorando completamente se uma espécie é comum ou rara. A de-
As páginas 397 e 398 do
terminação da riqueza de espécies é uma medida fundamental da di- livro Fundamentos em Ecolo-
versidade. Já a diversidade é representada por um índice, o índice de gia enfatizam a problemá-
tica atual da invasão de
diversidade, que se refere à combinação da riqueza de espécies e à espécies exóticas, que pro-
voca a descaracterização
equitabilidade (padrão) na distribuição de indivíduos entre essas espé- dos padrões de riqueza em
cies. A abundância está relacionada ao número de organismos de uma diversos ecossistemas. A
introdução dessas espécies
determinada espécie em uma comunidade. O diagrama de abundância pode ocorrer acidental-
mente ou intencional-
relativa das espécies pode proporcionar uma descrição mais completa mente pelo ser humano.
da complexidade estrutural de uma comunidade. Depois, pesquise quais são
os principais motivos que
Uma comunidade apresentará maior quantidade de espécies quan- levam alguém a introduzir
espécies exóticas e as
to maior forem a quantidade e a variação de recursos ambientais dis- opções disponíveis para o
controle e a remoção das
poníveis. No quadro a seguir são apresentados os principais fatores e espécies invasoras.
como eles influenciam a riqueza de espécies em uma comunidade. TOWNSEND, C. R.; BEGON, M.;
HARPER, J. L. 3. ed. Porto Alegre:
Quadro 2 Artmed, 2010.
Fatores que influenciam a riqueza de espécies em uma comunidade.

Fatores Influência na riqueza de espécies


A alta produtividade está relacionada à maior variedade de recursos disponíveis. A
Produtividade primária e
riqueza de espécies é proporcional à riqueza de recursos disponíveis e à alta produ-
riqueza de recursos
tividade.
A predação pode contribuir para a exclusão de algumas espécies de presas e reduzir a
Intensidade de predação riqueza, ou permitir a sobreposição de nichos, ou, ainda, aumentar a riqueza quando
houver coexistência mediada pelo predador.
Ambientes mais heterogêneos possuem maior riqueza, pois possibilitam a variação de
Heterogeneidade espacial
micro-habitat, a variação de microclimas, além de mais refúgios para as presas.
Ambientes que apresentam um fator climático extremo, denominados ambientes
Severidade ambiental
severos, possuem poucas espécies.
Ambientes previsíveis e sazonais suportam maior número de espécies, porque elas po-
Variação climática dem encontrar condições adequadas em diferentes épocas do ano. Ambientes menos
estáveis, por outro lado, oportunizam a especialização.
Ambientes com distúrbios muito frequentes mantêm manchas em estágios iniciais de
sucessão, onde ocorre menor riqueza de espécies. Porém, em ambientes com distúr-
Distúrbio
bios mais raros também pode ocorrer a dominância de espécies fortemente competi-
tivas, o que culmina na menor riqueza.
As comunidades podem diferir na riqueza de espécies quanto aos seus estágios. Por
Idade ambiental: tempo exemplo, as comunidades de regiões tropicais apresentam maior riqueza de espécies
evolutivo porque possuem um período de existência mais longo e com período evolutivo con-
tínuo.
A riqueza de espécies é proporcional ao tamanho de uma ilha, ou seja, o número de
Área do habitat e
espécies diminui com a diminuição do tamanho de uma ilha. Áreas maiores podem
isolamento: biogeografia
acomodar uma maior riqueza de espécies. A teoria da biogeografia de ilhas explica que
de ilhas
a associação da imigração e da extinção representa o grau de isolamento de uma ilha.

Fonte: Townsend; Begon; Harper, 2010.

Comunidades e ecossistemas 87
É possível, ainda, observar gradientes de riqueza de espécies, pois
ela aumenta dos polos para as regiões tropicais. A explicação para essa
situação, conforme apresentado no Quadro 2, está relacionada às ca-
racterísticas de predação, produtividade, variação climática e idade
evolutiva dos trópicos. No que diz respeito às comunidades terrestres,
a riqueza de espécies diminui com a altitude; já nas comunidades aquá-
ticas, a riqueza de espécies diminui com a profundidade (TOWNSEND;
BEGON; HARPER, 2010).

CONSIDERAÇÕES
FINAIS
Os ecossistemas naturais têm sido cada vez mais ameaçados pelas
atividades humanas, e a sua conservação depende do conhecimento eco-
lógico para que os problemas ambientais sejam solucionados.
Em um mundo sustentável ideal, um ecossistema degradado deve-
ria recuperar-se tão rapidamente quanto foi degradado. Com base nos
conhecimentos de sucessão ecológica, do fluxo de energia nos ecos-
sistemas e das interações populacionais, técnicas de remediação e re-
cuperação ambiental podem ser desenvolvidas e/ou aprimoradas e,
posteriormente, aplicadas com o objetivo de acelerar processos de re-
generação que naturalmente poderiam levar de centenas a milhares de
anos para se completarem.
A compreensão ecológica responsavelmente adquirida e aplicada, no
que concerne à dinâmica e estrutura das comunidades e ao funciona-
mento dos ecossistemas, permite assegurar as condições ideais para a
conservação e manutenção da biodiversidade, assim como para a susten-
tabilidade das atividades humanas.

ATIVIDADES
Atividade 1
A sucessão ecológica corresponde ao processo em que um
ecossistema passa de um estado menos complexo para um
mais complexo ao longo do tempo e assim se estabiliza,
tornando-se maduro e estável. Nesse contexto, descreva resu-
midamente as fases de uma sucessão ecológica e diferencie a
sucessão primária da sucessão secundária.

88 Ecologia, manejo e conservação


Atividade 2
Com relação ao fluxo de energia e ciclagem de nutrientes nos
ecossistemas, defina: nível trófico, pirâmide ecológica e biomassa.

Atividade 3
A estrutura de uma comunidade dentro dos ecossistemas é
definida por sua composição, riqueza e abundância de espécies.
Com base nessa afirmativa, responda:
a) Quais são as características de um ecossistema maduro quan-
to à diversidade e à dominância? Explique.
b) Quais são as características do fluxo de energia, das relações
ecológicas e das teias alimentares em um ecossistema madu-
ro? Explique.

REFERÊNCIAS
BEGON, M.; HARPER, J. L.; TOWNSEND, C. R. Ecologia: de indivíduos a ecossistemas. 4. ed.
Porto Alegre: Artmed, 2007.
LARCHER, W. Ecofisiologia vegetal. São Carlos: RiMa, 2000.
RAVEN, P. H.; EVERT, R.; EICHHORN, S. E. Biologia vegetal. 8. ed. Rio de Janeiro: Guanabara
Koogan, 2014.
TOWNSEND, C. R.; BEGON, M.; HARPER, J. L. Fundamentos em ecologia. 3. ed. Porto Alegre:
Artmed, 2010.

Comunidades e ecossistemas 89
5
Ecologia global
A ecologia global busca compreender a biosfera ou ecosfera como um
sistema integrado e com numerosos processos ecológicos que descrevem
as características e propriedades dos distintos ecossistemas da Terra. Ela
permite a compreensão das interações em grande escala e como elas
influenciam o comportamento do planeta como um todo, o que possibilita
a obtenção de respostas às mudanças passadas, atuais e futuras da Terra.
A ecologia da paisagem é uma área da ecologia global que con-
centra seus esforços na compreensão da extensão, origem e conse-
quência ecológica da heterogeneidade espacial em diferentes escalas
espaços-temporais e de como os agrupamentos específicos de organis-
mos, populações e paisagens influenciam a dinâmica ecológica.
Uma das abordagens mais importantes dentro da ecologia global se
refere à biodiversidade, que inclui todas as espécies, toda a diversidade
genética e de ecossistemas do nosso planeta (organismos, suas interações
e fatores abióticos característicos). Ainda, é preciso destacar a enorme
biodiversidade presente em território brasileiro, mais de 20% do número
total de espécies da Terra, distribuídas em seis biomas.
Neste capítulo são abordados inicialmente conceitos fundamentais de
ecologia com base nos contextos regional e global. Em seguida, o enfoque
é dado à biodiversidade, aos padrões de distribuição de espécies no tem-
po e espaço e a como os processos influenciam a distribuição das espé-
cies. Finalmente, a biodiversidade brasileira é apresentada em números, e
os biomas brasileiros são conhecidos e caracterizados.

5.1 Ecologia da paisagem


Vídeo Uma paisagem tem relação direta com o ambiente, por isso o seu es-
tudo deve envolver obrigatoriamente os princípios ecológicos que são
fundamentais para o adequado planejamento territorial. Por meio da
ecologia da paisagem, busca-se a melhoria dos processos ecológicos.

A palavra paisagem é empregada quando a pretensão é se referir


ao conjunto de elementos existentes em um determinado local. Esses

90 Ecologia, manejo e conservação


Objetivo de aprendizagem
elementos podem ser naturais, como plantas e animais, ou significar
uma descrição de símbolos ou objetos encontrados em um ambiente, Relacionar os conceitos
fundamentais de ecologia
compreendendo, dessa forma, a paisagem e representação de um es- por meio da contextua-
paço que é visível. lização de condições
ambientais regionais e
A ecologia da paisagem constitui uma área de conhecimento dentro globais.

da ecologia que integra duas ênfases:


1. Geográfica: relacionada às análises das interferências das
intervenções humanas sobre a paisagem e sobre a gestão e o
manejo de um território.
2. Ecológica: refere-se às análises da importância do contexto
espacial sobre os processos ecológicos e da importância das
relações ecológicas para a conservação da natureza.

Compreende uma área de conhecimento emergente dentro da eco-


logia que procura a construção e a aplicação de conceitos teóricos e
sólidos na gestão e no planejamento ambiental, abrangendo paisagens
culturais e paisagens naturais, no manejo dos recursos naturais e na
manutenção e conservação da biodiversidade.

Os seres humanos provocam mudanças no planeta, por isso todo


e qualquer esforço de planejamento de uma paisagem deve incluir a
espécie humana, considerando toda a sua complexidade, além de bus-
car compreender os padrões espaciais de organização da natureza. A
ecologia da paisagem busca esta abordagem: o homem como parte
integrante da natureza, interagindo com os demais elementos, sejam
eles bióticos ou abióticos, e respeitando as transformações ambientais,
que se relacionam diretamente com os processos ecológicos.

Os avanços tecnológicos ocorridos nas últimas décadas possibilitam


coletar, armazenar, manipular, visualizar e analisar dados espaciais
que alavancaram a produção científica e tecnológica em ecologia da
paisagem. Esses conhecimentos têm sido amplamente aplicados em
diversas situações, tais como:
• planejamento do uso e da conservação do solo e da água;
• manejo sustentável dos recursos naturais;
• implementação de áreas protegidas, com o objetivo de proteger
a natureza;
• acompanhamento em diferentes escalas de eventos ambientais,
como queimadas e incêndios florestais, mudanças climáticas etc.

Ecologia global 91
• estabelecimento de padrões e processos ecológicos em comuni-
dades aquáticas, com foco na proteção dos ecossistemas aquáti-
cos continentais costeiros e oceânicos.

A ecologia da paisagem tem importância fundamental para o ade-


quado planejamento da ocupação territorial, devendo incluir tanto
paisagens naturais quanto culturais (humanizadas), para o manejo de
recursos naturais e a conservação da diversidade biológica, de tal for-
ma que a proteção da natureza seja efetivamente assegurada.

5.1.1 Padrões e processos ecológicos


Os processos ecológicos são influenciados por padrões espaciais
das paisagens, por isso é fundamental compreender a relação exis-
tente entre padrões de paisagem e esses processos. Nesse contexto,
é possível inferir que os mesmos indicadores de paisagens que são
usados para descrever os padrões espaciais podem ser usados como
indicadores para a avaliação da biodiversidade, sendo necessário, en-
tretanto, um diagnóstico biológico detalhado.

O padrão de uma paisagem se relaciona ao número, ao tamanho


e à sobreposição de elementos responsáveis pela formação de uma
paisagem global e pela interpretação de processos ecológicos. Esses
padrões são resultado de complexas interações entre componentes
bióticos e abióticos. Já um processo ecológico está relacionado à su-
cessão ecológica, à ciclagem de nutrientes, a interações ecológicas, à
dispersão e à migração de espécies.

5.1.2 Escalas espaciais regionais e globais


A definição de escalas é fundamental para a compreensão das in-
terações padrão-processo em análises de uma paisagem, tornando-se
essencial na ecologia da paisagem.

Ações como as citadas anteriormente, que envolvem o planejamen-


to do uso e a conservação do solo e da água, o manejo sustentável
de recursos naturais, a implementação de áreas protegidas, o acompa-
nhamento em diferentes escalas de eventos ambientais e o estabeleci-
mento de padrões e processos ecológicos em comunidades aquáticas,
dificilmente podem ser tomadas com base apenas no conhecimento
da diversidade local, sendo essencial a análise em escalas geográficas
mais amplas.

92 Ecologia, manejo e conservação


A macroecologia tem como objetivo investigar padrões e proces-
sos em escalas de tempo e de espaço mais amplas e constitui uma ten-
dência atual em ecologia. Em algumas regiões, a inexistência de dados
sistematizados representa a principal barreira para aplicação de con-
ceitos ecológicos na gestão e no planejamento ambiental, por exem-
plo, para a definição de espaços prioritários para o estabelecimento de
áreas protegidas e, consequentemente, conservação da biodiversida-
de, bem como para a definição de esforços que permitam a mitigação e
adaptação às mudanças climáticas, sendo fundamental o diálogo entre
escalas regionais e globais.

5.2
Vídeo
Biodiversidade global
A biodiversidade está presente em todos os lugares do mundo, nas
regiões polares, nas tundras congeladas, na taiga, em elevadas altitu-
des, nas florestas tropicais e temperadas, nos desertos etc. A biodiver-
sidade global está representada em 10 principais biomas (Figura 1).
Figura 1
Principais biomas do mundo

Designua/Shutterstock
Oceano Ártico Oceano Ártico

Oceano Atlântico
Oceano Pacífico

Equador
Equador

Oceano Índico

Oceano Pacífico

Oceano do Sul

Oceano do Sul

Região polar Floresta temperada Savana


Taiga Floresta tropical Deserto
Tundra Estepe Vegetação mediterrânea
Vegetação de altitude

Ecologia global 93
Objetivo de aprendizagem
Cada bioma representa um conjunto de vários ecossistemas inter-
Entender o significado de ligados no qual as características fitogeográficas são relativamente
biodiversidade biológica,
padrões de distribuição homogêneas. A existência desses diferentes tipos de agrupamentos
de espécies no tempo também está relacionada ao clima de cada região.
e espaço, e processos
responsáveis pela distri-
buição das espécies.
5.2.1 Definição e convenção sobre
a diversidade biológica
Na maioria das vezes, o termo biodiversidade é usado para ex-
pressar somente a riqueza de espécies, mas a biodiversidade não
deve se limitar apenas à diversidade de espécies, deve incluir tam-
bém a diversidade genética e a diversidade de ecossistemas (orga-
nismos e fatores abióticos que caracterizam cada região).

A biodiversidade deve considerar três escalas: uma escala me-


nor do que espécie, que inclui a diversidade genética entre as po-
pulações de uma mesma espécie; a escala espécie, que inclui todos
os organismos existentes na Terra; e uma escala maior do que es-
pécie, que inclui toda a diversidade de comunidades e ecossistemas
e de interações ecológicas (TOWNSEND; BEGON; HARPER, 2010;
PRIMACK; RODRIGUES, 2019).

Não há dúvidas de que os seres humanos estão destruindo a bio-


diversidade em taxas alarmantes e insustentáveis, por isso em 1992
foi realizada, no Rio de Janeiro, a Conferência Rio-92, com o principal
objetivo de encontrar meios de conciliar o desenvolvimento econô-
mico e a conservação dos ecossistemas. Os principais produtos des-
sa conferência foram: a Declaração do Rio sobre Meio Ambiente e
Desenvolvimento, a Agenda 21, os Princípios para a Administração
Sustentável das Florestas, a Convenção sobre a Diversidade Biológi-
ca (CDB) e a Convenção sobre Mudança do Clima (CBD, 2021).

A CDB é um tratado internacional da Organização das Nações


Unidas (ONU) e um dos mais importantes instrumentos relacio-
nados ao meio ambiente, mais especificamente à conservação da
biodiversidade. A sua concepção foi inspirada na necessidade e
no compromisso da comunidade mundial para o desenvolvimento
sustentável.

Constituem os principais objetivos da CDB (2021):


• a conservação da diversidade biológica (biodiversidade);

94 Ecologia, manejo e conservação


• a utilização sustentável dos componentes da diversidade bio- Vídeo
lógica; e O vídeo #NossoPlaneta
O que é biodiversida-
• a distribuição justa e equitativa dos benefícios decorrentes da de? foi produzido pela
WWF-Brasil e trata da
utilização dos recursos genéticos.
importância da biodi-
versidade e de como ela
Nos objetivos da CDB estão implícitos o adequado acesso aos
permite que o mundo
recursos genéticos e a transferência adequada de tecnologias per- funcione sem proble-
mas. A biodiversidade se
tinentes, levando em conta todos os direitos sobre esses recursos e
resume à diversidade de
tecnologias. espécies, de comunida-
des e ecossistemas e de
O Brasil ratificou a Convenção em 1992, sendo o primeiro país a interações ecológicas na
assinar a CDB. É considerada a nação com a maior diversidade de Terra. A sigla WWF signifi-
ca World Wildlife Fund, que
espécies. Abriga cerca de 20% da biodiversidade do planeta, possui foi traduzido como Fundo
seis biomas terrestres e diversos ecossistemas marinhos e continen- Mundial da Natureza em
português. Aproveite o
tais associados (CBD, 2021). vídeo para compreen-
der o significado da
Apesar de vários anos de pesquisas e estudos realizados, não se biodiversidade e refletir
conhece a totalidade da biodiversidade existente no mundo. De acordo sobre a importância da
diversidade biológica para
com Luypaert et al. (2020), o conhecimento da diversidade de espécies os seres humanos.
marinhas é bem incompleto, com apenas 11% de espécies descritas. Disponível em: https://www.
Esse exemplo demonstra o quanto ainda não se sabe acerca da biodi- youtube.com/watch?v=Whj_n_O-
gr0. Acesso em: 18 nov. 2021.
versidade do planeta que habitamos.

5.2.2 Teoria de equilíbrio de biogeografia de ilhas


Em uma das obras mais importantes da ecologia, A teoria da bio-
geografia de ilhas, MacArthur e Wilson (1967) fizeram a seguinte pro-
posição: a distribuição geográfica da diversidade biológica advém do
resultado do balanço entre extinções e migrações, e diferentes proces-
sos ecológicos atuam sobre as espécies, influenciando a sua distribui-
ção no tempo e no espaço.

As ilhas são estudadas como experimentos naturais porque repre-


sentam, em menor escala, fenômenos biológicos que ocorrem nos
continentes, e as suas comunidades possuem estrutura fixa no tempo
ecológico. Além disso, possuem espaço geográfico bem definido e me-
nor variação de ambientes quando comparadas aos continentes, além
disso são isoladas e numerosas. Desde os estudos de Darwin, as ilhas
foram utilizadas como laboratórios para o estudo de diversos aspectos
da evolução. Por exemplo, a flora e fauna do Arquipélago de Galápagos
constituíram inspiração para Darwin elaborar a teoria da evolução.

Ecologia global 95
Leitura Ainda, são considerados espaços ideais para o estudo da área de
Os textos intitulados “Mar- um habitat e isolamento (biogeografia de ilhas) os lagos, que consti-
cos históricos: a gênese
da teoria das metapo- tuem ilhas cercadas de terra, e os cumes das montanhas, que são ilhas
pulações” e “A teoria do em altas altitudes cercadas por terras com altitudes menores.
equilíbrio da biogeografia
de ilhas de MacArthur e A riqueza é diretamente proporcional ao tamanho de uma ilha, ou
Wilson”, presentes no livro
Fundamentos em Ecologia,
seja, o número de espécies decresce com a redução da área de uma
abordam, de modo bas- ilha. MacArthur e Wilson (1967) sugerem que a combinação de migra-
tante didático e breve, um
histórico sobre a teoria
ção e extinção reflete o grau de isolamento de uma ilha e fazem uma
da biogeografia de ilhas série de previsões, como:
e a teoria de metapopu-
lações. Observe como • o número de espécies em uma ilha tende a se tornar constante
elas se complementam.
ao longo do tempo;
Importante salientar que
essas duas teorias têm • essa constante reflete a contínua substituição de espécies, por
grande influência sobre a
ecologia atualmente, e a meio da migração e extinção;
compreensão delas está
• as ilhas grandes têm maior riqueza, quando comparadas às ilhas
fundamentando as deci-
sões sobre a conservação menores;
e o manejo de ecossiste-
mas. Aproveite a leitura
• o número de espécies tende a diminuir à medida que aumenta o
desse texto e pesquise grau de isolamento de uma ilha.
sobre as aplicações prá-
ticas das duas teorias na Dois anos mais tarde, Levins (1969) publicou a teoria de
conservação e no manejo
de ecossistemas.
metapopulações, que complementou a teoria de biogeografia de ilhas.
TOWNSEND, C. R.; Essa teoria postula que diferentes processos, como migração, coloni-
BEGON, M.; HARPER, J. L. zação e extinção, influenciam a dinâmica de populações que habitam
3. ed. Porto Alegre: Art-
med, 2010. uma mesma área, e que essas populações possuem dinâmica similar a
uma “população de populações” ou metapopulação. O conhecimento
da dinâmica das metapopulações é fundamental para a conservação
de várias espécies que habitam espaços menores, por exemplo, uma
pequena ilha, o cume de uma montanha, um lago etc.

O reconhecimento, cada vez maior, da importância e da manuten-


ção da biodiversidade do planeta torna essencial entender os padrões
de distribuição das espécies. A biogeografia estuda a distribuição das
espécies sobre a superfície da Terra, considerando o contexto espacial
e temporal. Ela procura analisar e explicar os padrões de distribuição
conforme mudanças ocorridas no passado e mudanças que ocorrem
ainda nos dias atuais.

96 Ecologia, manejo e conservação


5.2.3 Padrões de distribuição de espécies
A riqueza de espécies em uma comunidade está relacionada,
principalmente, às condições ambientais e à quantidade e à va-
riação de recursos disponíveis, mas outros fatores também po-
dem exercer forte influência sobre o número de espécies, como
intensidade da predação, heterogeneidade espacial, severidade
ambiental (presença de um fator abiótico extremo), variação cli-
mática, frequência de distúrbios e idade ambiental (estágio de
equilíbrio).

Os principais padrões de distribuição da riqueza de espécies


são: tamanho da área e grau de isolamento, gradiente latitudinal,
gradiente altitudinal, gradiente de profundidade e gradiente de su-
cessão ecológica (TOWNSEND; BEGON; HARPER, 2010).

Tamanho da área e grau de isolamento

A riqueza de espécies é menor quanto menor for o tamanho de


uma área e maior for o seu grau de isolamento. Esse padrão é ob-
servado quando é feita a comparação da riqueza de espécies entre
ilhas e continentes, o que já foi abordado na Seção 5.2.2. Os pro-
cessos de migração, colonização e extinção influenciam fortemente
a dinâmica das populações que habitam áreas menores e isoladas,
reduzindo a riqueza de espécies.

Gradiente latitudinal

A riqueza de espécies é maior nos trópicos do que nos polos,


formando um gradiente latitudinal de distribuição de espécies. Os
trópicos estão localizados na área onde ocorre maior incidência de
radiação solar, o que favorece uma maior produtividade, predação
e variação climática. As regiões tropicais se caracterizam pela he-
terogeneidade ambiental. O clima é instável, por isso os distúrbios
são mais frequentes. Esses fatores favorecem a formação de uma
grande diversidade de micro-habitat e de microclimas.

Ecologia global 97
Gradiente altitudinal

Nos ambientes terrestres, normalmente a riqueza de espécies


diminui à medida que aumenta a altitude, com algumas exceções.
À medida que a altitude aumenta, ocorre o decréscimo da produ-
tividade, pois as temperaturas são mais baixas e os intervalos de
tempo das estações de crescimento são mais curtos. Importante
destacar que os cumes de montanhas têm áreas menores e são
cercados por terras com menores altitudes (ilhas), sendo a riqueza
de espécies influenciada pelo tamanho e grau de isolamento des-
sas áreas.

Gradiente de profundidade

Esse gradiente é observado em ambientes aquáticos, onde a ri-


queza de espécies decresce com a profundidade, comportamento
similar ao que ocorre com o gradiente altitudinal. Os fatores que
influenciam a riqueza de espécies em relação à profundidade nos
ambientes aquáticos são: a intensidade luminosa (raramente se es-
tende por mais de 30 m), a variação de temperatura e a quantidade
de oxigênio dissolvido. Exceção ocorre em áreas costeiras, onde há
1 um pico na riqueza de espécies bentônicas
1
em torno de mil me-
Organismos que vivem tros de profundidade, provavelmente onde as condições ambien-
associados ao substrato
de ambientes aquáticos
tais são mais favoráveis para esse grupo de animais.
(sedimento, rochas,
folhas, galhos etc.). Gradiente de sucessão ecológica

Esse gradiente é observado durante o processo de sucessão


ecológica, pois, à medida que ocorrem mudanças nos ecossiste-
mas em direção aos estágios sucessionais mais avançados, tam-
bém ocorre o aumento na riqueza de espécies. Essa é a tendência
ecológica durante o processo de sucessão, a não ser que ocorra
algum distúrbio.

As primeiras espécies a se instalarem nos ecossistemas durante


os processos de sucessão são as colonizadoras, que provêm condi-
ções favoráveis e os recursos necessários ao estabelecimento das
espécies subsequentes.

98 Ecologia, manejo e conservação


5.2.4 Processos de distribuição das espécies
A relação entre dois processos espaços-temporais influencia o
padrão de distribuição da riqueza de espécies no mundo. Como a
própria denominação indica, esses processos atuam dentro de um
contexto espacial e temporal. Conforme a Figura 2, os dois princi-
pais processos são: espaço-temporal biótico, que tem relação com
os seres vivos, e espaço-temporal abiótico (TOWNSEND; BEGON;
HARPER, 2010).
Figura 2
Processos espaços-temporais que influenciam o padrão de distribuição da riqueza de espécies
no mundo.
Processos de
distribuição das
espécies

Espaço-temporal Espaço-temporal
biótico abiótico

Fenômenos da
Dispersão Extinção Vicariância
natureza

Fonte: Elaborada pela autora.

A dispersão está relacionada à capacidade de os indivíduos de


uma população transporem barreiras biogeográficas quando a sua
distribuição se encontra limitada, estabelecendo novas popula-
ções; a extinção tem relação com o desaparecimento de espécies;
e a vicariância tem relação com o surgimento de uma barreira
biogeográfica que segrega a distribuição de uma população, o que
contribui para a ocorrência de processos evolutivos distintos.

Já os fenômenos da natureza correspondem aos processos


ambientais que ocorrem sem influência direta dos seres vivos, que
vão desde uma simples chuva a uma tempestade, ao movimento
de placas tectônicas, aos ciclos glaciais, às variações climáticas etc.

Nesse contexto, a biogeografia procura explicar os padrões


de distribuição de espécies e das populações em breves escalas
espaços-temporais e associar esses padrões aos processos bióti-

Ecologia global 99
cos e abióticos. Além disso, é possível inferir como processos histó-
ricos que ocorreram por longos períodos foram responsáveis pelos
padrões biogeográficos atuais.

Algumas espécies são endêmicas, ou seja, a sua distribuição se


restringe a uma única região biogeográfica (Figura 3). A biogeogra-
fia busca razões históricas, ecológicas ou fisiológicas que restrin-
gem as espécies endêmicas a uma área em particular.

Figura 3
Espécies endêmicas do Brasil, do bioma Mata Atlântica

Lucas.Barros/Shutterstock

Fernando Coelho/Shutterstock
A B

A) Mico-leão-dourado (Leontopithecus rosalia). B) Pau-brasil (Paubrasilia echinata).

Outras espécies são consideradas cosmopolitas, isto é, apre-


sentam uma ampla distribuição biogeográfica, podendo ser en-
contradas em praticamente todas as partes da Terra, por exemplo,
algumas espécies de algas, bactérias, fungos, protozoários etc.

5.3
Vídeo
Biodiversidade do Brasil
O território brasileiro concentra, aproximadamente, um terço
das florestas tropicais do mundo e o maior sistema fluvial do nosso
planeta. Estimativas indicam que cerca de 1,8 milhão de espécies
vivem em seis biomas brasileiros (IBGE, 2017). Segundo o Ministério
do Meio Ambiente (MMA, 2021a), mais de 20% do número total de
Objetivo de aprendizagem
espécies do planeta Terra está presente em território brasileiro.
Conhecer a biodiver-
sidade brasileira e as
principais características
dos biomas brasileiros.

100 Ecologia, manejo e conservação


5.3.1 Biodiversidade em números
Até 2020 foram registradas no Brasil 49.979 espécies de plan-
tas (nativas, cultivadas e naturalizadas), algas e fungos. Desse to-
tal, 4.993 são algas, 35.539 pertencem ao grupo de angiospermas,
1.610 são briófitas, 6.320 são fungos, 114 pertencem ao grupo de
gimnospermas e 1.403 estão entre samambaias e licófitas. Entre-
tanto, mais de 2.300 espécies de plantas estão ameaçadas de extin-
ção no Brasil (FLORA DO BRASIL, 2020).

Já em relação à fauna, dados do ICMBio mostram que o Brasil


detém o maior patrimônio de biodiversidade mundial. Esses dados
demonstram que são mais de 120 mil espécies de invertebrados e
cerca de 8.930 espécies de vertebrados, assim distribuídos: 973 an-
fíbios, 1.982 aves, 734 mamíferos, 3.150 peixes continentais, 1.358
peixes marinhos e 732 répteis. No entanto, mais de 1.173 espécies
de animais estão listadas como ameaçadas de extinção no Brasil
(ICMBIO, 2021).

O Brasil possui proporções continentais, por isso grande é a sua


diversidade climática. Essa diversidade de climas proporciona uma
variedade ecológica que é responsável pela formação de diferentes
territórios biogeográficos, chamados biomas.

5.3.2 Biomas
Um bioma compreende, segundo o Instituto Brasileiro de Geo-
grafia e Estatística (IBGE, 2019, p. 11): “um conjunto de vida (vegetal
e animal) constituído pelo agrupamento de tipos de vegetação con-
tíguos e identificáveis em escala regional, com condições geoclimá-
ticas similares e história compartilhada de mudanças, resultando
em uma diversidade biológica própria”.

De acordo com esse conceito, existem no Brasil, conforme o


IBGE (2019), seis biomas terrestres: Amazônia, Caatinga, Cerrado,
Mata Atlântica, Pantanal e Pampa; e o ambiente introduzido recen-
temente, o sistema Costeiro-Marinho (Figura 4).

Ecologia global 101


Figura 4
Localização dos seis biomas brasileiros e do sistema Costeiro-Marinho

¯
-70° -60° -50° -40°
10° 10°
Trinidade
e Tobago
Venezuela

Guiana
Guiana
Suriname Francesa

Colômbia RR
AP

0° 0°

AM PA

MA CE
RN

PB
PI
PE
AC
AL
-10° RO TO -10°
SE

BA

Perú MT

DF
GO

Bolivia
MG

ES
MS
-20° -20°
SP
RJ
OCEANO Paraguai
PA C Í F I C O Chile PR

SC
OCEANO
ATLÂNTICO
RS

-30°
Uruguai -30°
A rgentina

Biomas LIMITES
Estadual
A mazônia
Fronteira Nacional
Caatinga Fronteira Internacional

Cerrado Linha Costa


Mar Territorial (12 milhas)
Mata Atlântica
-40°
Pampa Esc. 1:12.000. 000 -40°
0 200 400 600 800 1.000
Pantanal Km
Projeção Policônica
Sistema Datum SIRGA S 2000
Meridiano de Referência: 54° W. Gr.
Costeiro-Marinho Paralelo de Referência: 0 °

-80° -70° -60° -50° -40° -30°

Fonte: Adaptada de IBGE, 2019.

102 Ecologia, manejo e conservação


O maior bioma do Brasil é a Amazônia, que compreende cerca
de 49% do território brasileiro, e o menor é o Pantanal, com 1,7%.
Juntos, esses dois biomas ocupam mais da metade do território do
país. No Quadro 1 são apresentadas as áreas correspondentes a
cada bioma em km2 e em porcentagem de área.
Quadro 1
Biomas brasileiros, áreas aproximadas e porcentagem de área no Brasil

Área total no Brasil


Biomas brasileiros Área aproximada (km2)
(%)
Amazônia 4.196.943 49,29

Cerrado 2.036.448 23,92

Mata Atlântica 1.110.182 13,04

Caatinga 844.453 9,92

Pampa 176.496 2,07

Pantanal 150.355 1,76

Área total do Brasil 8.514.877 100,00


Fonte: IBGE, 2004.

As formações vegetacionais compreendem importantes compo-


nentes bióticos, por isso seu status de conservação é fundamental
para a existência de habitats, manutenção de serviços e bens am-
bientais essenciais à sobrevivência humana.

5.3.2.1 Amazônia
A Amazônia compreende a maior floresta tropical do planeta,
sendo o maior e o mais diversificado bioma terrestre do mundo.
O rio Amazonas e seus afluentes formam, no bioma Amazônia, a
maior bacia hidrográfica do mundo. A Amazônia é encontrada em
nove países da América Latina: Brasil, Bolívia, Peru, Equador, Colôm-
bia, Venezuela, Guiana Francesa, Suriname e Guiana. No Brasil, o
seu território é de 4.196.943 km2, incluindo os estados do Acre, Ama-
pá, Amazonas, Pará, Rondônia e Roraima, e uma parte dos estados
do Maranhão, Mato Grosso e Tocantins (IBGE, 2004). As principais
características do bioma Amazônia são apresentadas no Quadro 2.

Ecologia global 103


Quadro 2
Principais características bióticas e abióticas do bioma Amazônia

Equatorial, com temperaturas médias muito altas e chuvas abun-


Clima dantes durante todo o ano.
Possuem baixa retenção de nutrientes, devido à grande intensi-
dade de chuvas, que provocam sua lixiviação. A fertilidade se deve
à camada de nutrientes que se forma devido à decomposição de
Solos serapilheira (folhas, ramos, frutos e demais partes das plantas) e
de excretas de animais e animais mortos. Essa fertilidade é essen-
cial para o crescimento e desenvolvimento das plantas.

Ciclagem de Nutrientes presentes no solo são absorvidos rapidamente pelas


nutrientes árvores e disponibilizados novamente pela rápida decomposição.

Dividida em três principais: mata de terra firme, mata de igapó e


Fitofisionomia mata de várzea. A fitofisionomia é determinada pelo volume de
água.
Muito rica, sendo representada por inúmeras espécies de insetos
(especialmente borboletas), peixes, anfíbios, répteis, aves e ma-
Fauna míferos (especialmente macacos e felinos). Diversas serpentes,
jacarés, tucanos, ariranhas, onças e macacos representam os
principais animais do bioma Amazônia.

Fonte: Elaborado pela autora.

As principais características das três fisionomias principais presen-


tes no bioma Amazônia são as seguintes: a mata de terra firme ocupa
cerca de 96% do bioma, nunca é inundada, mas sua umidade é alta. Ca-
racteriza-se pela riqueza de árvores de grande porte, aproximadamente
3 mil/ha (Figura 5), que determinam a fitofisionomia desse ambiente.
Ainda, merece destaque a elevada quantidade de palmeiras, plantas
herbáceas e epífitas, cipós, musgos e líquens.
Figura 5
Mata de terra firme, a principal fitofisionomia do bioma Amazônia

Thiago Orsi Laranjeiras/Shutterstock

104 Ecologia, manejo e conservação


A mata de várzea se caracteriza pela inundação nos períodos de
cheia dos rios, porque está localizada em terras mais baixas. Os solos
são bem férteis devido ao depósito de nutrientes durante a inundação
(Figura 6). Tem composição vegetacional bastante variável, as árvores
toleram inundações por poucos meses.
Figura 6
Encontro de águas da Amazônia

Thiago Orsi Laranjeiras/Shutterstock


Águas pretas e brancas se encontram (Rio Canumã e Paranã do Urariá), no estado do Amazonas,
criando matas de várzea.

A Mata de Igapó é totalmente submersa, uma vez que permanece inun-


dada o tempo todo, sendo comum a presença de macrófitas aquáticas e
árvores nas margens, que são adaptadas ao ambiente alagado (Figura 7).
Figura 7
Mata de igapó
Sinval Silva Junior/Shutterstock

Uma das fitofisionomias do bioma Amazônia.


Ecologia global 105
As matas de várzea e as matas de igapó representam apenas 4% de
toda a região amazônica. Pouco se sabe acerca da fauna e flora dessa
região, sendo o conhecimento incipiente. Estimativas indicam que não
conhecemos nem a metade das espécies que habitam as suas matas e
rios amazônicos.

5.3.2.2 Cerrado
Conhecido como savana brasileira, compreende o segundo maior
bioma brasileiro, com cerca de 2.036.448 km², que representam 23,92%
do território brasileiro. Localizado, principalmente, na região Central do
Brasil, desde o litoral do Maranhão até sul do Mato Grosso do Sul, in-
cluindo Rondônia, São Paulo e uma pequena porção no Paraná (IBGE,
2004). As principais características do bioma Cerrado são apresentadas
no Quadro 3.
Quadro 3
Principais características bióticas e abióticas do bioma Cerrado

Tropical estacional com período chuvoso de outubro a março,


Clima seguido por um período seco de abril a setembro. Precipitação
média anual de 1.500 mm e temperaturas entre 22 e 27 °C.
Possuem baixa fertilidade e alta acidez, são antigos, profundos e
Solos com ótima drenagem.

Ciclagem de Lenta ciclagem de nutrientes, devido à decomposição, que tam-


nutrientes bém é lenta.

Nesse bioma são identificadas cinco diferentes fitofisionomias:


Fitofisionomia cerradão, cerrado sensu stricto, campos rupestres, campos sujos
e campos limpos.
Representada especialmente pelo tatu-canastra, que é encontra-
do no Cerrado, em matas e campos úmidos; tamanduá-bandei-
ra, que habita diferentes tipos de ambientes além do Cerrado,
como campos e florestas; morceguinho-do-cerrado, importante
polinizador de plantas características do Cerrado, com distribui-
Fauna ção restrita a esse bioma; lobo-guará, que é típico do Cerrado,
mas pode ser encontrado no Pantanal e em regiões de transi-
ção Cerrado-Caatinga; onça-parda, que é encontrada tanto no
Cerrado quanto na Mata Atlântica; codorna-buraqueira, espécie
endêmica que habita Campos Sujo e Limpo; ema e seriema.

Fonte: Elaborado pela autora.

A paisagem abriga grande biodiversidade e heterogeneidade. A ve-


getação é caracterizada pela presença de árvores com galhos e troncos
retorcidos, raízes profundas e caules muito resistentes. A flora é bas-

106 Ecologia, manejo e conservação


tante diversificada e possui elevada riqueza de espécies. Na Figura 8 é
possível observar a fitofisionomia característica do bioma Cerrado.
Figura 8
Fitofisionomia característica do bioma Cerrado

Jonas Cintra/Shutterstock
No cerradão, as árvores possuem 12 m de altura ou mais; o cerra-
do stricto sensu apresenta dois estratos: um mais ou menos rasteiro e
outro arbóreo-arbustivo, em que as plantas possuem de 6 a 7 m de al-
tura; nos campos rupestres é visível um estrato arbóreo-arbustivo mais
aberto; nos campos sujos o estrato herbáceo-gramíneo é dominante; e
nos campos limpos as gramíneas são as dominantes.

5.3.2.3 Mata Atlântica


O bioma Mata Atlântica apresenta 1.110.182 km², representando
13,04% do território brasileiro. A área original desse bioma ocupava
mais de 1,3 milhão de km² em 17 estados brasileiros: Piauí, Ceará, Rio
Grande do Norte, Paraíba, Pernambuco, Alagoas, Sergipe, Bahia, Espí-
rito Santo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Goiás, Mato Grosso do Sul, São
Paulo, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul, estendendo-se, es-
pecialmente, na parte da costa leste do Brasil (IBGE, 2004).

Atualmente sua área ocupa apenas de 6 a 8% do original, segun-


do o MMA (2021b), devido à ocupação urbana e às atividades hu-
manas que ocorrem na região. O MMA (2021b) estima a ocorrência

Ecologia global 107


nesse bioma de 20 mil espécies de plantas (35% do total brasileiro),
incluindo várias espécies endêmicas e ameaçadas de extinção. As
principais características do bioma Mata Atlântica são apresentadas
no Quadro 4.
Quadro 4
Principais características bióticas e abióticas do bioma Mata Atlântica

Possui temperaturas elevadas, em média de 25°C, e alta preci-


pitação bem distribuída durante o ano inteiro. O clima varia de
Clima quente e úmido a moderadamente frio, sendo comum a presen-
ça de nevoeiros em algumas áreas.

Solos Rasos e com baixa fertilidade.

Rápida ciclagem de nutrientes, devido à rápida decomposição,


Ciclagem de que disponibiliza nutrientes rapidamente para o crescimento e
nutrientes desenvolvimento das plantas.

As formações vegetacionais típicas desse bioma são: floresta


ombrófila densa, floresta ombrófila mista (também conhecida
como floresta com araucária), floresta ombrófila aberta, flores-
Fitofisionomia ta estacional semidecidual e floresta estacional decidual. Ainda,
são encontrados ecossistemas associados, como manguezais,
restingas e campos de altitude (cume das montanhas).

Esse bioma abriga, aproximadamente, 850 espécies de aves,


370 espécies de anfíbios, 200 espécies de répteis, 270 espécies
de mamíferos e 350 espécies de peixes. A fauna é muito rica,
e alguns animais, como a anta, cateto, algumas corujas, onça
Fauna pintada, onça parda, papagaios e queixadas, estão amplamente
distribuídos na Mata Atlântica, mas podem ser encontrados em
outros biomas. Muitos animais desse bioma constituem espé-
cies endêmicas e ameaçadas de extinção.

Fonte: Elaborado pela autora com base em MMA, 2021b.

As florestas nesse bioma possuem estratificação: o estrato supe-


rior é formado por árvores mais altas, como canelas, imbuia, cedro,
jequitibá e araucária. O estrato médio é formado por espécies arbó-
reas de menor porte, como jabuticabeira, pitangueira, araçá, guabiro-
beira, erva-mate e palmito-juçara, plantas sombreadas pelas árvores
mais altas. O estrato inferior é formado por ervas de pequeno porte,
como musgos, samambaias, avencas, begônias e gramíneas, e plantas
jovens que fazem parte da regeneração da floresta. Lianas e epífitas
(como bromélias e orquídeas) são bem comuns nos estratos superior
e médio (Figura 9).

108 Ecologia, manejo e conservação


Figura 9
Fitofisionomia característica do bioma Mata Atlântica

Tjasa Janovljak/Shutterstock
Estimativas do MMA (2010) indicam que na Mata Atlântica há
9 mil espécies de plantas com sementes, incluindo gimnospermas
e angiospermas (16% do total existente no Brasil, e cerca de 3,6%
do total existente no mundo). No caso de pteridófitas (samambaias
e avencas), existem no bioma de 800 a 950 espécies, cerca de 73%
do total existente no Brasil e 8% no mundo.

5.3.2.4 Caatinga
Único bioma que é exclusivo do território brasileiro, constitui
uma área de 844.453 km2, que representa 9,92%. Está presen-
te principalmente no nordeste do Brasil, Ceará inteiramente, em
pouco mais da metade da Bahia, Paraíba, Pernambuco, Piauí e Rio
Grande do Norte, em pouco menos da metade de Alagoas e Sergipe
e em pequenas porções de Minas Gerais e Maranhão (IBGE, 2004).
No Quadro 5 são apresentadas as principais características do bio-
ma Caatinga.

Ecologia global 109


Quadro 5
Principais características bióticas e abióticas do bioma Caatinga

Semiárido, caracterizado por temperaturas altas, com médias


anuais entre 25 e 30 °C. As chuvas são irregulares e acontecem
Clima em poucos meses; anos mais chuvosos são alternados com anos
mais áridos. Serras e chapadas recebem mais chuva, e as águas
dessas regiões escoam e originam rios e lagos temporários.
Ricos em minerais, por isso são férteis. Os solos são de dois tipos
Solos principais: argilosos e arenosos. Uma característica é a presença
de rochas, o que resulta no aspecto pedregoso do solo.

Ciclagem de Como a decomposição é lenta, a ciclagem de nutrientes também


nutrientes é lenta.

Quando chove, as regiões secas se modificam rapidamente, uma


vez que surgem gramíneas, e as árvores ficam com uma cober-
tura de folhas. Por isso, há grande diversidade nos ambientes de
Fitofisionomia Caatinga, que é constituída por árvores com até 15 a 20 m de
altura, formando a Caatinga arbórea, por arbustos baixos e es-
palhados. Bromélias e cactos são encontrados, principalmente,
nos afloramentos rochosos.
Muito diversificada, constituída por diversas espécies de anfí-
bios, aves, peixes, répteis e mamíferos. Lagarto (teiú), serpentes
Fauna (jararaca e cascavel) e aves (siriema) são animais característicos
deste bioma.

Fonte: Elaborado pela autora.

As plantas da Caatinga são chamadas de xerófitas. Apresentam di-


versas estruturas especiais (adaptações) para sobreviver em ambiente
semiárido e características desérticas (Figura 10), por exemplo, cactos.
Figura 10
Fitofisionomia característica do bioma Caatinga

Tjasa Janovljak/Shutterstock

110 Ecologia, manejo e conservação


As principais adaptações são: folhas reduzidas a espinhos (redução
da transpiração excessiva); queda de folhas em estação desfavorável,
ou seja, na seca (plantas decíduas); raízes bastante profundas, que ab-
sorvem a água do solo em grandes profundidades; raízes, caules e fo-
lhas suculentas (presença de tecidos para o armazenamento de água).

5.3.2.5 Pampa
Esse bioma ocupa 2,07% do território brasileiro, cerca de 176.496 km².
Está presente em um único estado, o Rio Grande do Sul, mas se esten-
de por territórios uruguaios e argentinos (IBGE, 2004). As principais ca-
racterísticas do bioma Pampa são apresentadas no Quadro 6.
Quadro 6
Principais características bióticas e abióticas do bioma Pampa

Subtropical, com temperaturas entre 13 e 17 °C. As chuvas não


Clima variam muito durante o ano.
Bastante fértil, por isso é muito explorado na região nas ativida-
Solos des de agropecuária.

Ciclagem de Rápida ciclagem de nutrientes devido à rápida decomposição


nutrientes de serapilheira.

Predomínio de gramíneas e plantas herbáceas de 10 a 50 cm de


Fitofisionomia altura. Alguns arbustos e árvores se fazem presentes próximo
aos cursos d’água.
São registradas diversas aves e mamíferos. Alguns deles estão
Fauna ameaçados de extinção.

Fonte: Elaborado pela autora.

A fitofisionomia predominantemente é a campestre (Figura 11), por


isso esse bioma pode ser conhecido, ainda, como Campos Sulinos e
Campos do Sul.
Figura 11
Fitofisionomia característica do bioma Pampa
Helissa Grundermann

Ecologia global 111


A paisagem do bioma Pampa é plana e homogênea. É comum ain-
da nesse bioma a presença de formações geográficas como grutas e
cavernas.

5.3.2.6 Pantanal
O Pantanal em território brasileiro ocupa uma área de 150.355 km2,
representando 1,76% do território nacional. Quando incluídas as áreas
presentes em outros países da América do Sul, esse bioma consti-
tui a maior planície inundável do mundo com, aproximadamente,
250 mil km². Destes, 62% são encontrados no Brasil, no Mato Gros-
so e Mato Grosso do Sul, e 38% estendem-se por Bolívia e Paraguai,
pois esse bioma se insere na parte central da bacia hidrográfica do Alto
Paraguai, que é influenciado pelo rio Paraguai e seus afluentes (IBGE,
2004), onde são formadas extensas áreas alagadiças (Figura 12).
Figura 12
Vista aérea das áreas naturais (alagadiças) no Pantanal brasileiro

Lucas Leuzinger/Shutterstock

As áreas alagadiças são formadas durante as enchentes provoca-


das pelo aumento dos níveis dos rios e lagoas. Durante o período de
seca, a água fica restrita aos leitos de rios, às lagoas e aos banhados.
As principais características do bioma Pantanal são apresentadas no
Quadro 7.

112 Ecologia, manejo e conservação


Quadro 7
Principais características bióticas e abióticas do bioma Pantanal

Períodos com muita chuva (outubro a março) são intercalados por


Clima períodos de seca (abril a setembro).
Sujeitos ao alagamento devido aos vários rios presentes na região,
Solos mas predominam os solos arenosos e argilosos.

Ciclagem de Rápida ciclagem de nutrientes, devido à rápida decomposição de


nutrientes serapilheira.

Diversificada e heterogênea, formada por uma mistura de espécies


da Floresta Amazônica, do Cerrado e da Mata Atlântica. São distin-
Fitofisiono- guíveis três regiões: alagadas, onde há o predomínio de gramíneas;
mia intermediárias, onde são comuns pequenos arbustos e vegetação
rasteira; e mais altas, onde a fitofisionomia é constituída por árvo-
res com até 15-20 m de altura (similar à Caatinga).
Muito diversificada. Caracteriza-se pela presença de muitas espé-
Fauna cies de anfíbios, aves, peixes, répteis e mamíferos. Os principais
animais são: o tuiuiú, os jacarés, as capivaras e a arara-azul.

Fonte: Elaborado pela autora.

A dinâmica do Pantanal é diretamente influenciada pela flu-


tuação dos níveis de água, sendo esse um fator essencial para
o seu funcionamento. Nos períodos de seca, a matéria orgânica
se decompõe no solo e, quando chegam os períodos de cheias, a
água é enriquecida com nutrientes originados pela decomposi-
ção. Quando as águas recuam, forma-se uma camada fértil sobre
o solo, o que favorece o rápido crescimento e desenvolvimento
da vegetação.

5.3.2.7 Sistema Costeiro-Marinho


Essa unidade foi recentemente introduzida ao mapa de biomas
brasileiros. Segundo o IBGE (2019), devido à importância dos diver-
sos ambientes que formam esse sistema e às suas especificidades,
é adequado o seu tratamento como uma unidade ambiental.
Assim, a presença e/ou o contato com o mar/oceano – logo com
os processos marinhos e costeiros inerentes – justificam seu
tratamento como uma unidade ambiental, em que ocorrem
sedimentos, vegetação, fauna e feições geomorfológicas parti-
culares, que compõem paisagens litorâneas e marinhas caracte-
rísticas. (IBGE, 2019, p. 91)

Ecologia global 113


Do ponto de vista fitogeográfico, esse sistema inclui as formações
vegetacionais com influência: marinha (dunas e restingas), fluviomari-
Glossário
nha (manguezais e várzeas) e fluvial (comunidades aluviais).
Florística: número de
espécies da flora de uma As comunidades herbáceas de dunas e restingas sofrem influência
região.
tanto marinha quanto eólica, por isso apresentam florística simplifi-
Hidromórfico: solo
encharcado ou inun- cada (Figura 13). O solo apresenta-se constituído principalmente por
dado (com excesso de areia (80%); próximo à praia caracteriza-se como não hidromórfico, e
umidade).
do lado do continente caracteriza-se como hidromórfico.
Figura 13
Comunidades vegetais de dunas com florística simplificada

Vitor Dutra/Shutterstock
Comunidades herbáceas de pequeno porte e rasteiras presentes nas regiões sob influência direta
das águas do mar. Do mar em direção ao continente são observados: ervas de maior porte, pequenos
arbustos e árvores de pequeno porte.

As comunidades vegetais de manguezais também possuem florís-


tica simplificada (Figura 14), porque poucas espécies são adaptadas à
salinidade das águas. As principais espécies que crescem no manguezal
são: Rhizophora mangle, Avicennia spp. (as espécies variam de acordo
com latitude norte e sul) e Laguncularia racemosa (cresce somente em
locais mais altos).

114 Ecologia, manejo e conservação


Figura 14
Comunidade vegetais de manguezais com florística simplificada, solo iodoso, raízes escoras e
raízes respiratórias (pneumatóforos)

David Fadul/Shutterstock
RAÍZES ESCORAS

PNEUMATÓFOROS

SOLO LODOSO

Já as comunidades vegetais em uma formação pioneira de influên-


cia fluvial exibem maior riqueza de espécies, que se estabelecem em
regiões pantanosas e regiões temporariamente alagáveis (Figura 15).
Vídeo
Dessa forma, as comunidades vegetais de planícies aluviais refletem os
O vídeo #NossoPlaneta
efeitos das cheias dos rios ou das depressões alagáveis.
Será o fim da Amazô-
Figura 15 nia? foi produzido pela
WWF-Brasil e aborda o
Vegetação em formação pioneira de influência fluvial
perigo da maior floresta
alex rodrigo brondani/Shutterstock

do planeta, a Amazô-
nia, secar. Ele trata dos
impactos negativos das
ações humanas sobre a
floresta e como a adoção
de melhores práticas
podem contribuir para a
sua conservação. Apro-
veite o vídeo para refletir
sobre como a adoção
de práticas sustentáveis
pode contribuir para a
conservação da Floresta
Amazônia e da diversida-
de biológica.

Disponível em: https://www.


youtube.com/watch?v=Dc9966Ol
zqo&list=PLFfXasjdYEpI_5Es4Huu
Ga2sYlOuCirB0&index=5. Acesso
Destaque para Mimosa bimucronata, conhecida como maricá, espécie comum em solos úmidos e em: 19 nov. 2021.
pantanosos.

Ecologia global 115


Importante ressaltar que essas formações vegetacionais muitas ve-
zes estão associadas umas às outras, sendo difícil a sua delimitação. O
sistema Costeiro-Marinho, conforme o IBGE (2019), é determinado por
regiões com influência marinha e influência fluviomarinha em direção
ao continente.

CONSIDERAÇÕES
FINAIS
A humanidade é predominantemente urbana. Sua existência e sobre-
vivência dependem fundamentalmente da biodiversidade, que sustenta
todas as suas necessidades. Vejamos alguns exemplos: a produção de
água em quantidade e qualidade ao consumo humano, a fonte primária
de diversos recursos naturais, a fonte de alimentos, a purificação do ar, a
regulação climática, a formação do solo etc.
Pelo exposto, a nossa compreensão e conscientização acerca da impor-
tância da biodiversidade e sua conservação é essencial para subsistência e
sobrevivência do homem na Terra. É cada vez mais nítida a interdependência
dos sistemas naturais com os sistemas socioeconômicos humanos.
A conservação da biodiversidade deve envolver aspectos globais, inde-
pendentemente de sua localização ou domínio político, uma vez que, com o
crescente aumento populacional e a exploração dos recursos naturais, são
preocupantes os sinais de degradação e extinção de espécies no nosso planeta.

ATIVIDADES
Atividade 1
Preencha o quadro a seguir com os principais aspectos e as
características que possibilitam diferenciar os seis biomas
brasileiros.

Porcen- Região onde Característica


Bioma tagem de a ocorrência
área predomina exclusiva

Amazônia
Cerrado
Mata Atlântica
Caatinga
Pampa
Pantanal

116 Ecologia, manejo e conservação


Atividade 2
A riqueza de espécies em uma comunidade tem relação com a
quantidade e a variação das condições e dos recursos disponíveis
nos ecossistemas. Com base nessa informação, responda: por
que existem mais espécies nos trópicos do que nos polos?

Atividade 3
Na maioria das vezes, o termo biodiversidade é empregado de ma-
neira simplificada e equivocada, referindo-se somente ao número
de espécies. Apresente a definição de biodiversidade, incluindo
todas as suas escalas.

REFERÊNCIAS
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convention. Acesso em: 15 nov. 2021.
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compatível com a escala 1:250 000/IBGE. Coordenação de Recursos Naturais e Estudos
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Artmed, 2010.
Ecologia global 117
6
Conservação e manejo
da biodiversidade
A biodiversidade possui um valor intrínseco, independentemente do
seu valor para o ser humano, uma vez que é essencial para a manutenção
da vida no planeta. Sua conservação e seu manejo devem constituir uma
prioridade.
Nas últimas décadas, passou-se a valorá-la, considerando os bens e
serviços prestados, como o valor da biodiversidade, uma vez que a per-
cepção de escassez fica cada vez mais evidente à medida que são consi-
derados os fatores: crescimento populacional humano e sua distribuição
desuniforme sobre os ecossistemas da Terra, assim como sistemas eco-
nômicos convencionais vigentes na maioria dos países, sejam eles desen-
volvidos ou subdesenvolvidos.
Somam-se a esse quadro preocupante as crescentes ameaças à con-
servação da biodiversidade, como a perda e fragmentação de habitat, as
bioinvasões, a superexploração dos recursos naturais, a poluição e as
mudanças climáticas. O Brasil apresenta uma megadiversidade e vários
desafios para sua conservação.
Nesse sentido, diversas estratégias para a conservação, especialmen-
te a criação de áreas protegidas, o planejamento e o manejo adequados
dessas áreas, a restauração ecológica de diversos ecossistemas da Terra
e o uso sustentável dos recursos naturais, têm sido desenvolvidas e im-
plementadas com o intuito de garantir a sobrevivência de todas as formas
de vida, incluindo a população humana.
As diversas tendências atuais, como sustentabilidade, desenvolvimen-
to, conhecimento e participação ativa de diversos setores da sociedade
em prol da conservação da biodiversidade, são condições fundamentais
a serem estabelecidas nos modelos que norteiam as sociedades contem-
porâneas. Nesse contexto, é indiscutível o papel da mudança de compor-
tamento humano para aquisição de hábitos sustentáveis. É importante
ressaltar essa mudança, que pode constituir a principal estratégia para a
transformação da realidade.

118 Ecologia, manejo e conservação


6.1 Valor da biodiversidade e sua conservação
Vídeo
A conservação da biodiversidade, que remete à variação da vida
na Terra, é o princípio mais importante para a resiliência da nature-
za (tempo necessário para que um sistema volte ao equilíbrio após
um distúrbio). Os ecossistemas saudáveis, as teias interdependen-
tes dos organismos vivos e seu ambiente físico são vitais para toda
a vida no planeta.

Em um ecossistema que mantém a integridade de sua biodiversida-


de, se o ambiente sofrer alterações e alguns organismos não consegui-
Objetivo de aprendizagem rem mais prosperar, outros podem ocupar os seus lugares e cumprir

Refletir sobre a importância


as funções essenciais. Normalmente, as espécies mais negligenciadas
e o valor da biodiversidade pelo homem são aquelas que possuem maior importância para a ma-
com base em fundamentos
éticos, econômicos, sociais
nutenção de ecossistemas saudáveis. Por exemplo, os insetos são fun-
e ecológicos. damentais na polinização das flores de diversas plantas (Figura 1) e,
consequentemente, responsáveis pela produção de aproximadamente
um terço do alimento disponibilizado ao homem.
Figura 1
Abelha (Apis mellifera) polinizando flor de pepino (Cucumis sativus).

Janis Smits/Shutterstock

A polinização de muitas flores para a produção de alimentos depende da ação desses animais.

Segundo o Secretário Geral da Organização das Nações Unidas


(ONU) Ban Ki-moon (2010, p. 5), em prefácio ao Panorama da biodi-
versidade global 3:
a biodiversidade sustenta o funcionamento dos ecossistemas
dos quais dependemos para alimentação e água potável, saúde

Conservação e manejo da biodiversidade 119


e lazer, além de proteção contra desastres naturais. Sua perda
também nos afeta cultural e espiritualmente – o que pode ser
mais difícil de quantificar, mas é, de qualquer forma, essencial
para o nosso bem-estar.

Sendo assim, a biodiversidade tem papel fundamental na manu-


tenção dos processos ecológicos, oriundos das interações bióticas e
abióticas nos ecossistemas, resultando em funções ecológicas que
beneficiam direta ou indiretamente a humanidade ao oferecerem
uma ampla gama de bens e serviços.

6.1.1 Valores econômicos diretos e indiretos


Os valores econômicos diretos são os benefícios obtidos por meio
de “bens” fornecidos pela biodiversidade, enquanto os indiretos estão
relacionados aos “serviços” obtidos pela biodiversidade, sendo esses
bens e serviços fundamentais à sociedade (pessoas ou empresas).

Alguns benefícios econômicos diretos da biodiversidade incluem: ali-


mentos, energia, medicamentos, vestuário, abrigo etc. Esses bens podem
ser usados ​​pelos seres humanos para o próprio consumo ou para a gera-
ção de receita por meio de sua comercialização. Já alguns exemplos de be-
nefícios indiretos incluem: polinização por insetos, manutenção dos ciclos
hidrológico e do oxigênio pelas plantas, decomposição efetuada principal-
mente por fungos e bactérias, beleza estética, controle de erosão e en-
chentes, sequestro de carbono e estabilização do clima na Terra (Figura 2).

VectorMine/Shutterstock
Figura 2
Exemplos de bens e
serviços fornecidos
ao homem pela
biodiversidade.

Suprimento de Alimentos Criação de Recreação


água animais

Polinização Madeira Biocombustíveis Controle de


erosão

Estabilização Ciclagem de Sequestro de Controle de


climática nutrientes carbono enchentes
120 Ecologia, manejo e conservação
O patrimônio natural, que inclui todas as espécies, comunidades
e ecossistemas da Terra, está sob risco iminente, devido às diversas
ameaças que as atividades humanas vêm provocando à sua conser-
vação. Uma vez extintas as espécies e alterados os ecossistemas e as
comunidades, os benefícios advindos da biodiversidade, como bens e
serviços ao homem, são diretamente afetados.

6.1.2 Fundamentos da biologia da conservação


A biologia da conservação é uma ciência multidisciplinar que tem a
finalidade de produzir conhecimentos com vistas à proteção da diver-
sidade biológica, por isso agrega conhecimentos de diferentes áreas,
como ecologia, botânica, zoologia, genética, agronomia, geologia, geo-
grafia, fisiologia, etologia, biogeografia etc. Conforme explicam Primack
e Rodrigues (2019), a biologia da conservação tem como foco principal
a preservação, em longo prazo, de comunidades biológicas e ecossis-
temas e, em segundo plano, considera os fatores econômicos, uma vez
que são dependentes dos bens e serviços oriundos da natureza.

A conservação da natureza, de acordo com o Sistema Nacional de


Unidades de Conservação – SNUC (BRASIL, 2000):
é o manejo do uso humano da natureza, compreendendo a
preservação, a manutenção, a utilização sustentável, a restau-
ração e a recuperação do ambiente natural, para que possa
produzir o maior benefício, em bases sustentáveis, às atuais
gerações, mantendo seu potencial de satisfazer as necessida-
des e aspirações das gerações futuras, e garantindo a sobrevi-
vência dos seres vivos em geral.

É importante salientar que, apesar de os termos preservação e


conservação serem amplamente empregados como sinônimos, com-
preendem conceitos distintos: a preservação remete à intocabilidade
da natureza e a conservação, à conciliação da proteção ambiental com
o uso sustentável dos recursos naturais, ou seja, de modo responsável.
Esse conceito do SNUC possui duas peculiaridades: a primeira ao incor-
porar o termo preservação ao conceito de conservação, e a segunda ao
adicionar o termo utilização sustentável, uma vez que são antagônicos,
pois preservação remete à intocabilidade da natureza, e utilização sus-
tentável é justamente o oposto.

Conservação e manejo da biodiversidade 121


A biologia da conservação procura fornecer uma abordagem mais
ampla para a proteção da natureza, considerando todas as suas
vertentes. Diante desse fato, Metzger e Casatti (2006) conceituam
conservação como o manejo humano da natureza, incluindo desde

Glossário a proteção integral, por exemplo, em áreas protegidas, até o uso sus-
tentável dos recursos naturais e a restauração ecológica, com vistas à
antropocêntrico:
refere-se ao antropo- perpetuação das espécies e seus processos ecológicos.
centrismo, uma teoria
ou ideologia, na qual o Cinco são os pressupostos da biologia da conservação, os quais re-
ser humano constitui o
presentam pontos de vista antropocêntricos, por isso estão revestidos
centro do Universo.
de argumentos éticos e ideológicos. Segundo Rodrigues (2002), são eles:

1 A diversidade biológica é positiva: fornece os recursos naturais


usados, como alimentos, medicamentos, abrigo, energia, vestimenta etc.

2
A extinção prematura de populações e espécies é negativa:
constitui um processo natural, entretanto, as atividades humanas têm
o acelerado. Considerando o primeiro pressuposto, qualquer perda
prematura de populações e espécies é extremamente negativa.

3
A complexidade ecológica é positiva: na maioria das vezes é observa-
da somente em ambientes naturais. Uma das propriedades mais interes-
santes da diversidade biológica é que ela move os processos evolutivos e,
ao mesmo tempo, pode ser o resultado deles, além de induzir ao surgi-
mento de novas espécies.

4
A evolução é positiva: produto que resulta das interações ecológicas
e, eventualmente, leva ao surgimento de novas espécies. Como
consequência, há um aumento da complexidade e da diversidade
biológica.

5
O valor da diversidade biológica é intrínseco: as espécies possuem
um valor próprio, independentemente do seu valor para o homem. Sua
história evolutiva e suas funções ecológicas únicas são responsáveis pelo
valor intrínseco de cada espécie.

A biologia da conservação fornece as estratégias e ferramentas


fundamentais para que empresas, governos e sociedade possam
orientar e tomar decisões importantes que garantam o bem-estar da
humanidade de uma forma sustentável.

122 Ecologia, manejo e conservação


6.2 Ameaças à conservação da biodiversidade
Vídeo
As cinco principais ameaças à conservação da biodiversidade, con-
forme a Convenção sobre Diversidade Biológica (THE CONVENTION...,
2021), são: perda e alteração de habitat, invasões por espécies exóticas,
exploração exacerbada (superexploração) dos recursos naturais, polui-
ção e mudanças climáticas (Figura 3).
Figura 3
Principais ameaças à conservação da biodiversidade
Objetivo de aprendizagem

VectorMine/Shutterstock
Compreender os efeitos
das atividades humanas na
biodiversidade do planeta.
Perda de
biodiversidade

Perda de Espécies
habitat invasoras

Superexploração Mudanças climáticas associadas ao Poluição


aquecimento global

A União Internacional para a Conservação da Natureza e dos Recur-


sos Naturais – IUCN (PRELIMINARY..., 1964) criou um inventário global
do status de conservação global de espécies vegetais e animais, a Lista
Vermelha de Espécies Ameaçadas (IUCN red list ou Red data list). Esse
catálogo, elaborado com base científica, tem a finalidade de fornecer
informações do status de conservação de espécies e subespécies em
nível global; conscientizar o público em geral da magnitude e da im-
portância da biodiversidade ameaçada; influenciar o desenvolvimento
e/ou ajuste das legislações e políticas nacionais e internacionais com o
objetivo de conservar a natureza; e oferecer informações com vistas ao
desenvolvimento de ações para conservar a biodiversidade.

Conservação e manejo da biodiversidade 123


A lista revela que mais de 38.500 espécies estão ameaçadas de
extinção, valor correspondente a 28% de todas as espécies ava-
liadas (IUCN, 2021). Atualmente, constam na lista: anfíbios (41%),
mamíferos (26%), coníferas (34%), aves (14%), tubarões e raias (37%),
recifes de corais (33%) e crustáceos (28%).

A seguir, será abordado com mais detalhes como se dá cada uma


dessas ameaças à conservação da biodiversidade.

Perda e degradação de habitat

A perda e a degradação de habitat constituem a principal ameaça à


conservação da biodiversidade (BIODIVERSITY..., 2021). As atividades hu-
manas podem ter efeitos negativos ao habitat de três formas: destruição
direta, como desmatamento (Figura 4); degradação por poluição, como
despejo de esgoto, tornando-o poluído; ou perturbação, como revolvi-
mento do sedimento de um corpo hídrico.
Figura 4
Vista aérea de área desmatada na Floresta Amazônica, em Manaus (AM)

Cavan-Images/Shutterstock

A perda de habitat resulta não somente na redução da área, mas


na sua fragmentação (redução do tamanho dos fragmentos), dividindo
populações que habitam essas áreas em subpopulações. A fragmenta-

124 Ecologia, manejo e conservação


ção de habitat influencia diretamente a variabilidade genética, isto é, as
variedades de genes dentro de uma população.

Invasões provocadas por espécies exóticas

A propagação de espécies exóticas invasoras (invasões biológicas)


constitui uma das principais e mais crescentes ameaças à conser-
vação da biodiversidade (IUCN DEFINITIONS, 2021). Essas espécies
podem ser aquáticas ou terrestres, plantas, animais ou microrganis-
mos, que estão fora da área natural e ameaçam a conservação da
biodiversidade de determinada região.

A introdução de espécies exóticas pelo homem pode ocorrer de modo


acidental ou intencional. A seguir, são apresentados dois exemplos
considerados espécies exóticas invasoras pela IUCN definitions (2021):
Acridotheres tristis, o mainá-indiano (Figura 5), e Pinus spp., diversas es-
pécies de pínus ou pino (Figura 6).
Figura 5
Mainá-indiano (Acridotheres tristis)

Satheesh_Madh/Shutterstock

A Comissão de Sobrevivência de Espécies da IUCN declarou


a Acridotheres tristis uma das espécies mais invasivas do mundo,
que representa grande ameaça para a biodiversidade e agricultura
(GLOBAL..., 2011).

Conservação e manejo da biodiversidade 125


Figura 6
Pínus ou pino (Pinus spp.)

Helissa Grundemann/Shutterstock

Helissa Grundemann/Shutterstock
A B

A) Pinus spp. invadindo dunas de areia em Florianópolis (SC). Pinus elliottii, espécie exótica invasora nas dunas do Parque
Estadual do Rio Vermelho, Florianópolis (SC).

Em muitas áreas do mundo, diferentes espécies de pínus (Pinus


Leitura
spp.) invadiram a vegetação natural adjacente e agora estão entre as
O texto Pesca excessiva e
ameaças de pesca destrutiva
árvores exóticas invasoras mais difundidas e prejudiciais do mundo
relaciona informações (GLOBAL..., 2006).
acerca da pesca insus-
tentável (sobrepesca ou
pesca destrutiva), que
é atualmente uma das
maiores ameaças à Os efeitos das invasões biológicas são mais preocupantes em comunida-
biodiversidade dos recifes des ricas em espécies ameaçadas de extinção, raras ou endêmicas (distri-
de corais. São abordados
os principais impactos
buição restrita).
dessa atividade. Os direitos
autorais são da The Nature
Conservancy, organiza-
ção não governamental As espécies ameaçadas de extinção, raras ou endêmicas apresen-
(ONG) que trabalha com
a conservação do meio tam grande probabilidade de extinção, por isso, mesmo que as suas
ambiente em escala global.
Reflita sobre os impactos populações sejam pequenas, estratégias especiais para a sua conser-
da superexploração à bio- vação devem ser previstas e implementadas.
diversidade e os impactos
ecológicos de uma única
atividade humana. Imagine, Superexploração (sobre-exploração)
quando somadas todas as
atividades humanas em
diferentes escalas (local, A superexploração acontece quando a população humana explora
regional e global), qual é a
magnitude dos impactos outra população ou recurso em uma taxa que não é sustentável. Por
sobre os ecossistemas. exemplo, quando a exploração é maior do que a sua taxa natural de
Disponível em: https://reefresilience. capacidade reprodutiva. Se a taxa natural de mortalidade de uma po-
org/pt/stressors/local-stressors/
overfishing-and-destructive-fishing- pulação for alta, os efeitos da superexploração são ainda maiores, o
threats/. Acesso em: 10 dez. 2021.
que a coloca sob risco de extinção.

126 Ecologia, manejo e conservação


Poluição ambiental

A poluição está relacionada à mudança na qualidade de alguma par-


te da biosfera (ar, água ou solo) ou em aspectos da vida. Por exemplo, o
despejo de água residuária (esgoto) em corpos hídricos (Figura 7).
Figura 7
Esgoto despejado no ambiente poluindo a água de um lago.

A poluição constitui uma ameaça à biodiversidade devido às alte- Haiduchyk Aliaksei/Shutterstock

rações que provoca no habitat, causando a perturbação ou degrada-


ção ambiental e tornando-o impróprio para populações adaptadas
às condições naturais.

Mudanças climáticas

O efeito estufa é fundamental para a existência de vida na Terra,


entretanto, as atividades humanas, como o consumo de combustíveis
fósseis, as queimadas, o desmatamento de áreas naturais etc., vêm in-
tensificando esse efeito ao liberarem um excesso de gases do efeito
estufa (GEEs), responsáveis pelo aumento da temperatura média glo-
bal ou aquecimento global, que promove as mudanças climáticas.

Eventos climáticos extremos, como tempestades ou secas intensas


e mudanças nos padrões de chuva, têm sido cada vez mais comuns.
Como consequência, vários fenômenos foram constatados nos últi-

Conservação e manejo da biodiversidade 127


mos anos, como o derretimento de geleiras, o aumento do nível dos
mares e as alterações no equilíbrio ecológico e na formação das pai-
sagens. Esses fenômenos atuam diretamente na distribuição e no de-
senvolvimento dos seres vivos, alteram ambientes naturais e forçam
espécies animais e vegetais a se comportarem de maneira diferente,
procurando novos ambientes e mudando padrões de alimentação e
reprodução, o que pode alterar os fluxos de energia na teia alimentar
e desequilibrar os ecossistemas (MASSON-DELMOTTE et al., 2019).

O Brasil tem uma contribuição significativa na emissão de GEEs,


devido, principalmente, às atividades que alteram o uso do solo e ao
desmatamento de florestas, que reduz as áreas naturais, contribui
para a perda de biodiversidade e aumenta a liberação dos gases na
atmosfera. A conservação de florestas é essencial para a proteção
da biodiversidade e mitigação das mudanças climáticas, uma vez
que ecossistemas florestais possuem um elevado número de espé-
cies e são considerados sumidouros de carbono, por estocá-lo na
biomassa das plantas e no solo.

6.3 Conservação de comunidades e ecossistemas


Vídeo
As comunidades e os ecossistemas do mundo inteiro, originados
há milhões de anos, têm sido devastados pelas ações antrópicas,
o que os coloca sob ameaça à sobrevivência e risco de extinção de
diversas espécies, mesmo as desconhecidas pela ciência, que têm
principalmente o seu habitat extremamente alterado, sendo impos-
sível a manutenção de populações viáveis (PRIMACK; RODRIGUES,
2019), o que torna fundamental a adoção de práticas com base na
Objetivo de aprendizagem
conservação da natureza.
Refletir sobre os esfor-
ços para a redução e A IUCN (BIODIVERSITY..., 2021) cita que a conservação envolve
reversão de perdas de
proteção, cuidado, gestão e manutenção de ecossistemas, habitat,
biodiversidade.
espécies e populações de vida selvagem, dentro ou fora de seu am-
biente natural.

É fundamental ainda que, para a conservação efetiva da natureza, se-


jam incluídos: a complexidade dos ecossistemas naturais, a diversidade
genética e os processos ecológicos e evolutivos (THE CONVENTION...,
2021). A Figura 8 sintetiza toda a complexidade da diversidade biológi-
ca que deve ser mensurada em uma região.

128 Ecologia, manejo e conservação


Figura 8
Complexidade da diversidade biológica de uma região
Diversidade de

VectorMine/Shutterstock
Ecossistemas únicos: não ecossistemas: número total
ocorrem em nenhum outro de ecossistemas na região
lugar do mundo

Diversidade genética:
Espécies endêmicas: não
variedade de genes dentro de
ocorrem em nenhum outro
uma única espécie
lugar do mundo

Riqueza de espécies (toda a região): número total de


espécies dentro de uma área
Espécies

Ecossistemas únicos

A conservação da natureza deve estar pautada em um planeja-


mento sistemático, que inclui a mensuração da biodiversidade, como
riqueza de espécies, presença de espécies endêmicas e ecossistemas
únicos, diversidade genética e diversidade de ecossistemas. Em tem-
pos difíceis, decisões precisam ser tomadas considerando as priorida-
des para a sua conservação.

6.3.1 Prioridades para a conservação


Diante da velocidade de degradação dos ecossistemas naturais e do
esgotamento dos recursos naturais, é cada vez mais urgente o estabe-
lecimento de prioridades para a conservação.

Pelo menos três questionamentos são essenciais para definir as prioridades de


conservação: o que precisa ser protegido? Onde deve ser protegido? Como deve
ser protegido? (PRIMACK; RODRIGUES, 2019).

Conservação e manejo da biodiversidade 129


Primack e Rodrigues (2019) sugerem a adoção de três critérios
para o estabelecimento das prioridades para a conservação: (i) dife-
renciação, com maior prioridade à comunidade biológica composta
de espécies mais raras; (ii) perigo, com maior prioridade a espécies
em risco de extinção; e (iii) utilidade, com maior prioridade às espé-
cies que têm valor atual ou potencial para os seres humanos.

6.3.2 Planejamento de áreas protegidas


A conservação de comunidades e ecossistemas intactos, por

Glossário meio da conservação in situ, compreende a forma mais eficaz de


preservação da diversidade biológica, podendo ocorrer por meio do
in situ: expressão latina
que significa que está “no estabelecimento de áreas protegidas, que no Brasil são chamadas
lugar” ou “no local”.
de unidades de conservação (UCs).

A conservação in situ requer uma transformação de áreas prote-


gidas, uma vez que a sua principal função é separar os elementos
da biodiversidade de outros elementos ou fenômenos que possam
ameaçar a sua proteção, possibilitando a manutenção dos proces-
sos naturais e as populações viáveis (MARGULES; PRESSEY, 2000).

Na prática, é difícil estabelecer um planejamento sistemático de


áreas protegidas. Conforme Margules e Pressey (2000), os recursos
para essas áreas são, normalmente, limitados e ainda competem
com outros usos, por isso é fundamental que, em um planejamento,
sejam estabelecidas conexões das áreas existentes com as novas
áreas a serem criadas, o que pode maximizar os esforços para a
manutenção da área e da biodiversidade que se deseja conservar.
Primack e Rodrigues (2019) defendem que, quando isoladas, as áreas
protegidas têm pouca função biológica e, mesmo que possuam um
manejo adequado, nelas pode ocorrer o declínio da biodiversidade.

De acordo com Dudley (2008), as áreas protegidas devem possuir:

1 Representatividade, abrangência e equilíbrio: englobar o maior


número possível de espécies do ecossistema.

2 Proporcionalidade: ter tamanho suficiente para manter populações


viáveis.

(Continua)

130 Ecologia, manejo e conservação


3 Complementaridade: complementar outra dentro de um mesmo sis-
tema.

4 Consistência: estabelecer o manejo adequado, conforme os seus


objetivos.

5 Eficiência: ser considerada a adequada relação custo-benefício ao que


se deseja conservar.

De acordo com a ONG The Nature Conservancy (1999), que tra-


balha com a conservação da natureza em escala global, são seis os
elementos fundamentais a serem considerados no planejamento de
áreas protegidas:

1
Os elementos-alvo da biodiversidade de determinado ecossistema e
todos os processos naturais responsáveis pela sua manutenção. O
conhecimento ecológico desses elementos é o foco do planejamento e
do desenvolvimento de estratégias. Importante identificar as espécies,
as comunidades e os sistemas ecológicos, ou seja, toda a biodiversidade
que será protegida na área.

2 Identificação dos principais aspectos do contexto humano, como


restrições, possibilidades e oportunidades sociais, culturais, políticas e
econômicas da população local e seu potencial para a participação.

3 Levantamento dos tipos de degradação e alteração que influenciam a


área protegida.

4 Levantamento das causas imediatas responsáveis pela degradação e/ou


perturbação da área protegida.

5 Definição de estratégias de conservação que podem ser empregadas


para a mitigação das causas dos impactos ambientais.

6 Avaliação do sucesso e monitoramento de indicadores de integridade da


biodiversidade e da redução das ameaças na área protegida.

Conservação e manejo da biodiversidade 131


A Figura 9 ilustra, de modo esquematizado, um modelo que pode
auxiliar no planejamento de áreas protegidas, visando à considera-
ção de todos os seis elementos, fundamentais à efetiva conservação
da natureza.
Figura 9
Planejamento de áreas protegidas

VectorMine/Shutterstock
Sistemas Impactos e causas Estratégias Sucesso

Identificação dos Desenvolvimento de Medidas do sucesso


Coleta e avaliação das
elementos-alvo da estratégias
informações
conservação Diretas:
- Melhorar a integridade da
biodiversidade
- Reduzir as ameaças
Impactos Indiretas:
Monitoramento de
- Desenvolver capacidade
indicadores
Contexto ecológico/ - Envolver lideranças
- Viabilidade dos
integridade da elementos-alvo
biodiversidade - Redução de ameaças
e avaliação dos críticas
elementos-alvo Causas

Implementação de estratégias
- Mapeamento da zona de
conservação
- Desenvolvimento do plano de
Objetivos da Identificação de ação
conservação ameaças críticas - Ação participativa de conservação

Informação e análise Diagnóstico da


de lideranças situação

Lideranças

Fonte: Adaptada de The Nature Conservancy, 1999, p. 3.

Essas etapas deverão ser executadas na mesma sequência lógi-


ca apresentada, entretanto, a avaliação e o monitoramento poderão
acontecer de maneira parcial e paralela às demais etapas, uma vez que
permitirão o acompanhamento e a adequação do planejamento no de-
correr de sua implementação, principalmente o monitoramento, que
permitirá demonstrar as tendências ao longo do tempo.

As áreas protegidas são criadas considerando diferentes razões, por


isso a IUCN (DUDLEY, 2008) estabeleceu seis categorias, tomando como
base os principais objetivos de gestão (Quadro 1).

132 Ecologia, manejo e conservação


Quadro 1
Categorias de áreas protegidas: principais características e objetivos

Categoria Objetivos de gestão


Características: áreas estritamente protegidas.
Finalidade: preservação e conservação da biodiversidade e geologia/geomor-
Reserva natural estrita fologia.
Visitação e uso: limitados e controlados.
Referência: pesquisa científica e monitoramento.
Características: áreas grandes, não modificadas ou pouco modificadas, sem
habitação humana permanente ou significativa. Mantêm suas características na-
Área silvestre
turais.
Finalidade: proteção das condições naturais.
Características: grandes áreas naturais ou quase naturais.
Parque nacional (prote- Visitação: ambiental ou culturalmente compatível, podem ser desenvolvidas ati-
ção de ecossistemas; pro- vidades espirituais, científicas, educativas e recreativas.
teção de valores culturais) Finalidade: proteção dos processos ecológicos, espécies e ecossistemas
característicos.
Características: normalmente áreas pequenas, alto valor histórico ou cultural.
Visitação: alto valor de visitação.
Monumento natural
Finalidade: proteção de um monumento natural, como um relevo, uma monta-
nha submarina e uma caverna.
Características: precisam de intervenções de manejo regulares para cumprir
Área de manejo de
seus objetivos.
habitat/espécies
Finalidade: conservação de espécies ou habitat.
Características: área onde a interação entre pessoas e natureza produziu um
Paisagem terrestre/mari- caráter distinto e valores ecológicos, biológicos, culturais e estéticos importantes.
nha protegida Finalidade: salvaguardar a integridade da interação entre pessoas e natureza,
que é essencial para conservar a natureza e sustentar outros valores.
Características: grandes áreas, cuja maior parte detém as condições naturais e
Áreas protegidas, com
em outra parte há manejo sustentável de recursos naturais.
uso sustentável dos re-
Finalidade: conservação dos ecossistemas e habitat associados a valores cultu-
cursos naturais
rais e sistemas tradicionais de manejo de recursos naturais.

Fonte: Elaborado pela autora com base em Dudley, 2008.

Essas categorias são usadas como padrão global, no entanto, cada país
ou região utiliza diferentes formas para identificar e designar as áreas pro-
tegidas, em ambientes terrestres, de água doce, costeiros e marinhos.

6.3.3 Manejo de áreas protegidas


A criação de áreas protegidas consiste apenas na primeira etapa
na busca de conservar a biodiversidade. A manutenção dos processos

Conservação e manejo da biodiversidade 133


ecológicos e da integridade da biodiversidade é o grande desafio para
gestores, posteriormente à criação das áreas protegidas.

De acordo com o Instituto Chico Mendes de Conservação da Bio-


diversidade (ICMBIO, 2021), o manejo de uma área protegida consiste
na compreensão e elaboração de um conjunto de ações que orienta a
gestão e o uso sustentável dos recursos naturais, tanto no interior da
área protegida quanto em sua circunvizinhança, com a finalidade de
conciliar os diferentes tipos de uso e a conservação da biodiversidade
de maneira adequada e nos espaços apropriados.

O plano de manejo das UCs é, sem dúvida, o principal instrumento


legal para viabilizar a conservação da biodiversidade, indicando ações
prioritárias para o adequado manejo da área. O SNUC define o plano
de manejo como:
documento técnico mediante o qual, com fundamento nos obje-
tivos gerais de uma unidade de conservação, se estabelece o seu
zoneamento e as normas que devem presidir o uso da área e o
manejo dos recursos naturais, inclusive a implantação das estru-
turas físicas necessárias à gestão da unidade. (BRASIL, 2000)

Para a elaboração de um plano de manejo, segundo o ICMBIO (2021),


é necessário conhecer os ecossistemas, os processos ecológicos e a
influência das atividades antrópicas, sejam elas negativas ou positivas,
sobre as áreas protegidas.

O plano de manejo é um documento reconhecido internacional-


mente para a gestão de áreas protegidas. Para o ICMBIO (2022), de
maneira geral, a elaboração de um plano de manejo deverá:
• envolver um processo contínuo de consulta e tomada de decisão,
tomando como base a compreensão de questões ambientais,
socioeconômicas, históricas e culturais da área protegida e sua
circunvizinhança;
• ter um enfoque multidisciplinar, considerando as peculiaridades
de cada objeto de estudo;
• refletir um processo lógico de diagnóstico e planejamento;
• abordar informações de diferentes naturezas, como dados bióti-
cos e abióticos, socioeconômicos, históricos e culturais;
• definir os objetivos específicos do manejo;
• apresentar as zonas para os diferentes tipos de uso, normas ge-
rais e programas de manejo;

134 Ecologia, manejo e conservação


• contar com revisão contínua por meio do monitoramento, que
permitirá avaliar a necessidade de reestruturação do processo
de planejamento.

O conhecimento de todos os elementos presentes no interior e


na circunvizinhança de uma área protegida e, especialmente, a in-
terpretação da maneira como esses elementos se integram e inte-
ragem são fundamentais para o adequado manejo e a gestão de
uma área protegida, proporcionando que ela cumpra efetivamente
o objetivo de sua criação.

6.3.4 Conservação de áreas protegidas


As áreas protegidas constituem as medidas mais eficazes de prote-
ção e conservação da natureza, por isso a adoção delas é essencial para
que cumpram as suas funções.

As principais forças que oferecem riscos à conservação dessas áreas


são: degradação, destruição e fragmentação de habitat, bioinvasões
(provocadas principalmente por espécies exóticas), caça, disseminação
de doenças etc. Algumas medidas de proteção e conservação das áreas
protegidas podem ser:
• Controle das zonas de amortecimento, que são áreas no entorno
de uma área protegida com a função adicional de conservação,
por exemplo, controle do crescimento de espécies florestais de
rápido crescimento.
• Controle e fiscalização das atividades de caça e pesca.
• Controle e fiscalização de possíveis atividades poluentes ou con-
taminantes nas áreas protegidas e suas circunvizinhanças.
• Controle e prevenção de bioinvasões.
• Controle e prevenção de incêndios florestais.
• Em áreas protegidas, onde é previsto o uso sustentável dos re-
cursos naturais, devem ser mantidos os sistemas tradicionais
agrícolas.
• Proteção de zonas úmidas, como banhados e lagoas.
• Restauração de áreas florestais autóctones e do regime hidrológi-
co natural, por exemplo, dos cursos de rios.

Pressões oriundas de atividades antrópicas que ocorrem em áreas


adjacentes sobre as áreas protegidas podem afetar negativamente a

Conservação e manejo da biodiversidade 135


composição da flora e fauna, pois favorecem o crescimento e desenvol-
Vídeo vimento de espécies generalistas que utilizam os recursos das áreas ad-
O vídeo Modos de restaurar jacentes, tornando-as mais abundantes e até provocando bioinvasões.
as florestas, produzido pela
Fundação de Amparo à
Pesquisa do Estado de São
Paulo (Fapesp), aborda, tec-
6.3.5 Fundamentos da ecologia da restauração
nicamente, a restauração
de florestas com base nos
A restauração ecológica tem como principal objetivo promover e
conhecimentos de ecolo- acelerar a sucessão ecológica natural, resgatando as características
gia. Nele, os pesquisadores
expõem os erros mais
originais do ambiente que foi degradado. Entre os principais fatores
comuns quando se trata de degradação dos ecossistemas podem ser citados: o desmatamento
da restauração de uma
floresta – por exemplo,
para fins agropecuários, a urbanização e a mineração.
emprego de espécies exóti-
Em muitos casos, a degradação dos ecossistemas é tão intensa que
cas, número de plantas
insuficiente etc. – e, por impossibilita a restauração de sua condição. São fundamentais inter-
meio de uma animação,
venções humanas que visam estabelecer as condições mínimas para a
apresentam os processos
ecológicos envolvidos na recomposição da paisagem.
restauração ecológica. Ao
final, são apresentadas Para a efetiva restauração de áreas degradadas, há a necessi-
as aplicações práticas da
dade de entender a relação de equilíbrio entre homem e natureza.
ecologia da restauração.
Aproveite o vídeo para Essa restauração deve ser entendida como a recuperação total de
refletir sobre a restauração
um sistema e de suas interações, aliada à conservação dos sistemas
ecológica, que nesse caso
não consiste somente naturais existentes, por isso constitui importante estratégia para a
em “plantar árvores”, e
conservação da biodiversidade.
fique atento a todos os
conhecimentos de ecologia O incremento da biodiversidade em um ecossistema degradado,
aplicados na restauração
de uma floresta. por meio da restauração ecológica, melhora a capacidade de suporte
Disponível em: https://youtu.be/ da área (quando o ecossistema atinge a taxa de crescimento máxima)
a2ygqm4UOkI. Acesso em: 20 que está sendo recuperada, bem como recupera a estabilidade dinâmi-
dez. 2021.
ca, tornando-a autossustentável.

6.4 Desafios para conservação da biodiversidade


Vídeo As ameaças imediatas à conservação da biodiversidade são bem co-
nhecidas, como a perda e degradação de habitat, as mudanças climáti-
cas, a poluição, a exploração madeireira, a caça ilegal, as bioinvasões,
as doenças e a extinção de polinizadores.

No Brasil, entre as atividades mais comuns que oferecem ameaças à


biodiversidade brasileira estão: desmatamento, agropecuária, mineração,
desertificação, caça ilegal, pesca predatória, grandes obras de infraestru-

136 Ecologia, manejo e conservação


Objetivos de aprendizagem
tura (por exemplo, construção de hidrelétricas), queimadas, poucas áreas
destinadas à conservação da biodiversidade, mudanças climáticas etc. • Compreender a impor-
tância da sociedade
A acelerada destruição da biodiversidade, principalmente ao longo para reverter a atual
crise da biodiversidade.
das últimas décadas, tem resultado em diversos desafios para a sua
• Conhecer o papel das
conservação, entre eles: instituições governa-
mentais na formulação
• Diversidade: necessidade de investimento em estudos, com a fi- de políticas e leis que
nalidade de identificar e catalogar as espécies presentes nos dife- visam à conservação
biológica e ao desenvol-
rentes ecossistemas. Estima-se que diversas espécies de plantas, vimento sustentável.
animais e microrganismos ainda não foram identificadas. Além
disso, a maioria das suposições feitas acerca da interação entre a
biota e o meio ambiente é genérica. Dessa forma, a imensa bio-
diversidade do planeta é um grande desafio para a conservação.
• Crescimento populacional e necessidades crescentes: gran-
de desafio para a conservação da biodiversidade, pois os seres
humanos a utilizam para atender às necessidades e aos desejos
básicos. É muito difícil manter o equilíbrio e o uso adequado dos
recursos naturais com o crescimento da população.
• Mudanças climáticas: principais desafios para a conservação
da biodiversidade, uma vez que suas consequências levam à
destruição e à extinção de habitat. Essas mudanças são inevitá-
veis e não podem ser revertidas, porém a adoção de atividades
sustentáveis pode retardar o processo e contribuir para a con-
servação da biodiversidade.

Diversos eventos têm sido realizados no mundo envolvendo va-


riados setores, como a comunidade científica, o setor privado, as co-
munidades locais, os povos indígenas e as organizações da sociedade
civil, com a finalidade de definir estratégias para a conservação da
biodiversidade, emergências climáticas e acordos internacionais.

6.4.1 Desenvolvimento e sustentabilidade


Em 1987, foi publicado pela Comissão Mundial ou Comissão
Brundtland sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento o relatório
Nosso futuro comum (Our commom future). Essa comissão foi criada
pela ONU, com a finalidade de: reexaminar os principais problemas
do ambiente e desenvolvimento em nível mundial; elaborar propos-
tas efetivas para solucionar os principais problemas; e assegurar
que o progresso humano seja sustentável por meio do desenvolvi-

Conservação e manejo da biodiversidade 137


mento, mas sem comprometer os recursos naturais essenciais para
as futuras gerações (BRUNDTLAND, 1991).

O cerne dos problemas ambientais globais é o tamanho da popu-


lação humana, que cresce a uma taxa exponencial e usa os recursos
ambientais para atender às suas necessidades. Se o uso dos recursos
naturais puder ser continuado em um futuro previsível, é considerado
sustentável. A Comissão Brundtland reconheceu o desenvolvimento
sustentável como a nova proposição para a economia contemporânea,
constituindo-se, para a sociedade, na melhor possibilidade para evitar
o esgotamento dos recursos naturais.

No modelo de desenvolvimento vigente, o termo desenvolvimento é


encarado simplesmente como um sinônimo de crescimento econômico,
não sendo integradas à sustentabilidade as demais dimensões que ela
irá requerer (Figura 10). Essas dimensões devem estar integradas em
seu verdadeiro significado, sendo necessária principalmente a com-
preensão ecológica e a sua aplicação.
Figura 10
Dimensões da sustentabilidade: ambiental, social e econômica

Mari C/Shutterstock
Ambiental

Suportável Viável

Sustentabilidade
Social Econômico
Justo

As três dimensões devem estar integradas em seu verdadeiro significado.

A sustentabilidade não possui um único e simples significado, e


sim deve refletir um aprendizado constante entre o conjunto de várias
definições. Ela não pode ser caracterizada como um estado estático
de harmonia, mas um processo, em que constantes mudanças são
necessárias. Nesse sentido, a exploração de recursos, os investimen-

138 Ecologia, manejo e conservação


tos, as inovações tecnológicas e as orientações institucionais devem ser
feitas de maneira consciente e consistente, considerando as necessida-
des atuais e futuras da humanidade.

6.4.2 Economia ecológica e conservação


da biodiversidade
A biodiversidade não é uma reserva qualquer de bens e serviços,
também não pode ser substituída, nem aproximada. São inúmeras as
espécies desconhecidas pela ciência que ainda não foram catalogadas,
muito menos avaliadas quanto ao seu potencial uso.

Apesar de a biodiversidade prover diariamente bens e serviços,


eles não são devidamente reconhecidos e valorizados, especialmente
por aqueles que definem os rumos da economia e, consequentemen-
te, o uso dos recursos naturais, que constituem a base dos negócios.
Conforme a Sociedade Brasileira de Economia Ecológica – Ecoeco
(AMAZONAS, 2021), a economia ecológica surgiu do reconhecimento
da conexão existente entre o ambiente natural e o sistema econômico
Leitura
e da necessidade de integrar os componentes e processos do siste-
Esta reportagem, de
ma econômico aos do sistema ambiental, procurando compreender o
autoria de Paulo Couti-
seu funcionamento comum. nho, em 2001, aborda o
valor econômico e social
Para Cavalcanti (2010), a economia ecológica defende o uso susten- da biodiversidade. Um
tável dos recursos naturais e tem como propósito mensurar o uso da breve texto redigido
empregando linguagem
natureza de modo sustentável. Também busca a compreensão da rela- técnica com vocabulário
ção existente entre homem, natureza e economia, um modelo que está acessível, que, mesmo
depois de alguns anos de
constantemente mudando, devido à forma como os recursos naturais sua publicação, traz um
são usados e à dinâmica do crescimento econômico. conteúdo bastante atual
diante dos desafios para
conservar a biodiversi-
dade: a necessidade de
valorá-la com o intuito
“A economia ecológica atribui à natureza a condição de suporte insubstituível
de conscientizar sobre a
de tudo o que a sociedade pode fazer” (CAVALCANTI, 2010, p. 63). importância de sua con-
servação. Aproveite para
refletir sobre a impor-
tância da biodiversidade
para a manutenção da
A escolha entre desenvolvimento econômico e conservação da bio- vida e sobre o seu valor
diversidade não tem nenhuma semelhança com a escolha de roupas, econômico e social.

sapatos, aparelhos eletrônicos etc. O princípio que deve prevalecer é Disponível em: https://www.
comciencia.br/dossies-1-72/
de que existe uma relação direta entre negócios (economia) e disponi- reportagens/biodiversidade/bio12.
bilidade dos bens e serviços oriundos da biodiversidade. htm. Acesso em: 20 dez. 2021.

Conservação e manejo da biodiversidade 139


Desse modo, há um processo a ser seguido, o qual vai requerer
vários ajustes sequenciais nos sistemas econômicos, em âmbito tan-
to local quanto global. Essas mudanças demandarão: uma adaptação
dos sistemas econômicos à velocidade de produção de bens e serviços
dos sistemas ecológicos; a recuperação dos sistemas ecológicos para
aumentar a produção; e um ajuste da densidade da população huma-
na nos ecossistemas, pois a biodiversidade não é homogênea, cada
ecossistema é único e apenas parcialmente comparável.

6.4.3 Desafios para conservação da


biodiversidade brasileira
O Brasil apresenta uma megadiversidade, por isso tem uma respon-
sabilidade global enorme de proteger três grandes regiões naturais: a
1
1 Amazônia, o Pantanal e a Caatinga, bem como os dois hotspots de bio-
Hotspots de biodiversidade diversidade: a Mata Atlântica e o Cerrado (RYLANDS; BRANDON, 2005).
compreendem áreas que
possuem concentrações A conservação da biodiversidade no Brasil é recente e, mesmo com
excepcionais de espécies o pouco tempo de desenvolvimento, o seu avanço é considerado satis-
endêmicas e grande perda
e fragmentação de habitat fatório. Os primeiros parques brasileiros foram criados na década de
(MYERS et al., 2000). 1930, com o objetivo de proteger paisagens com grande beleza cênica,
como o Parque Itatiaia, criado em 1937, e os parques Iguaçu, Serra dos
Órgãos e Sete Quedas, criados em 1939 (MITTERMEIER et al., 2005).

Em 1961 foi criado o Parque Nacional da Tijuca, localizado na


cidade do Rio de Janeiro, que conserva uma das maiores florestas
urbanas do mundo (OLIVEIRA; SANTOS, 2004). Entretanto, a partir
das últimas duas décadas do século XX foi criado o maior número de
unidades de conservação (uma categoria de áreas protegidas). A ne-
cessidade de conservação da fauna e flora nativas foi percebida so-
mente nos anos 1970, quando foi efetuado o isolamento de algumas
áreas com representativa biodiversidade, a fim de evitar a ocupação
humana, uma estratégia de conservação da biodiversidade in situ
(RYLANDS; BRANDON, 2005). As áreas protegidas desempenham um
papel fundamental como estratégias de conservação da biodiversi-
dade, talvez as mais eficientes.

140 Ecologia, manejo e conservação


Apesar da intensa degradação ocorrida nas últimas décadas, o Brasil
possui uma grande extensão territorial, que ainda abriga uma grande
biodiversidade. Os principais desafios para a conservação brasileira são:
• Fortalecimento da interação entre ciência e governo, desafio pri-
mordial para a conservação da diversidade biológica.
• Manejo adequado das áreas protegidas.
• Ampliação dos recursos destinados à conservação da biodiversi-
dade, pois são muito limitados.
• Ampliação dos investimentos em pesquisa sobre a biodiversida-
de brasileira.
• Ampliação do corpo técnico especialista em biologia da
conservação.
Vídeo
• Controle e fiscalização para obtenção de resultados efetivos quan-
O vídeo intitulado O que é e
do empregadas as estratégias de conservação da biodiversidade. para que serve o Sistema de
Informação sobre a Biodi-
• Proteção e restauração das áreas de preservação permanentes
versidade Brasileira aborda
(APPs) e reservas florestais legais, recompondo, dessa forma, algumas questões gerais
significativamente as áreas de habitat florestal. sobre a biodiversidade
brasileira e explica a utili-
• Estabelecimento de políticas públicas e novas oportunidades dade e o funcionamento
do Sistema de Informação
para a conservação da biodiversidade.
sobre a Biodiversidade
• Integração de documentos regulatórios com vistas à conservação Brasileira (SiBBr), que tem
como objetivo integrar
da biodiversidade. e disponibilizar informa-
ções científicas sobre a
• Fortalecimento das redes de biodiversidade.
diversidade de espécies
e ecossistemas. Por meio
A criação de áreas protegidas com o intuito de conservação da
dessa ferramenta, você
biodiversidade, no Brasil, deve priorizar: a conectividade entre frag- poderá acessar dados de
biodiversidade do Brasil e
mentos florestais; áreas onde sejam constatadas espécies de fauna
do mundo, como coleções
ou flora ameaçadas de extinção, raras, endêmicas ou insubstituíveis; biológicas e pesquisas de
campo. Preste atenção no
áreas de fragilidade ambiental; áreas com existência de recursos hí-
conteúdo da produção,
dricos; áreas de floresta primária ou secundária nos estágios médio que trata de vários assun-
tos abordados neste ca-
e avançado de regeneração; áreas importantes para espécies con-
pítulo. Aproveite, ainda, a
gregatórias e migratórias; áreas adjacentes a mananciais; áreas com oportunidade para acessar
e conhecer a plataforma
maior integridade da vegetação e/ou com possibilidades de regene-
on-line do SiBBr.
ração (resiliência); áreas que fornecem serviços ambientais básicos
Disponível em: https://www.rnp.
em situações críticas e áreas próximas a outras áreas protegidas; e br/noticias/sibbr-biodiversidade-
brasileira-producao-cientifica-e-
áreas representativas e heterogêneas.
politicas-publicas-mais-assertivas.
Acesso em: 21 dez. 2021.

Conservação e manejo da biodiversidade 141


Ainda, devem ser considerados quando da criação de áreas pro-
tegidas: a solicitação da comunidade para a transformação de área
em área protegida; os atrativos turísticos, naturais ou arqueológi-
cos; as áreas indicadas pelo zoneamento ecológico-econômico (ZEE)
para a criação de área protegida; e as áreas onde sejam constata-
das espécies de fauna ou flora que, ainda que não se encontrem
em extinção, constituam um exemplar raro, por exemplo, uma ár-
vore centenária.

O maior desafio atual da conservação da biodiversidade bra-


sileira consiste na construção, por parte da ciência, de uma base
científica sólida para apoiar a tomada de decisão que incorpore os
valores dos bens e serviços oriundos da biodiversidade em deci-
sões políticas e quotidianas.

CONSIDERAÇÕES
FINAIS
A compreensão dos benefícios proporcionados pela biodiversida-
de, os quais são fundamentais à manutenção da vida no planeta, é
essencial para que a humanidade se conscientize da importância de
sua conservação. O aumento populacional e a exploração insustentá-
vel dos recursos naturais refletem-se em sinais alarmantes de degra-
dação dos ecossistemas e extinção de espécies.
Ações de conservação da biodiversidade devem explorar as opor-
tunidades de colaboração entre diferentes entidades e setores da
sociedade, com vistas à implantação de ações práticas que combinem
liderança, estabelecimento de prioridades para a conservação, ges-
tão das informações sobre a biodiversidade, fatores ambientais, eco-
nômicos, sociais e políticos e financiamento e incentivos econômicos
para alcance de resultados efetivos de conservação.
Embora iniciativas importantes estejam sendo executadas no
mundo todo com o objetivo de conservar a biodiversidade, tudo indi-
ca que possa haver um colapso nos próximos anos caso ações emer-
genciais não sejam tomadas para sua conservação, sendo necessário
aproveitar todos os meios disponíveis, como a implantação e o mane-
jo adequado de áreas protegidas, a restauração de áreas degradadas
e o uso sustentável dos recursos naturais.

142 Ecologia, manejo e conservação


ATIVIDADES
Atividade 1
As ameaças à conservação da biodiversidade mantêm-se constan-
tes ou agravando-se atualmente. Cite e explique, mencionando
exemplos, quais são as cinco principais ameaças à conservação da
biodiversidade mundial.

Ameaça Explicação

Atividade 2
A biodiversidade, que inclui todas as espécies, as comunidades
e os ecossistemas da Terra, proporciona diversos benefícios ao
ser humano, denominados valores econômicos diretos e indiretos.
Compare e diferencie esses valores da biodiversidade.

Atividade 3
Na maioria das vezes, o termo sustentabilidade é empregado de
modo simplificado, como um sinônimo de crescimento econômico,
não sendo integradas todas as dimensões que ele representa. Cite
e explique quais são essas dimensões e como elas se integram.

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Conservação e manejo da biodiversidade 143


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144 Ecologia, manejo e conservação


Resolução das atividades
1 Introdução à ecologia: histórico e estrutura
1. Os estudos de ecologia têm como objetivo medir a distribuição e
a abundância dos organismos na natureza, o que torna necessário
o uso da matemática e da estatística. Com base no que foi
apresentado neste capítulo, responda: o que envolve a ciência
da ecologia?
Envolve o estudo da distribuição e abundância dos organismos, bem
como das interações bióticas e abióticas (características químicas e
físicas do ambiente) que determinam essa distribuição e abundância;
ou seja, procura entender o funcionamento da natureza. Dessa forma,
a ecologia deve basear seus estudos em análises quantitativas dos
organismos, das populações, das comunidades ou dos ecossistemas.

2. Neste capítulo foi destacada a importância da realização de


estudos considerando os níveis de organização ecológica. Dessa
forma, responda: qual é a diferença entre uma população, uma
comunidade e um ecossistema?
População é um conjunto de organismos pertencentes a uma mesma
espécie, dentro de uma mesma área. Já comunidades compreendem
subsistemas espaciais dentro dos ecossistemas, onde ocorrem
interações, correspondendo às várias populações que vivem em um
mesmo espaço. Por fim, ecossistema é a unidade que inclui todos
os organismos (comunidades), em determinada área, que atuam em
reciprocidade entre si e o meio físico.

3. Uma espécie qualquer pode sofrer uma diferenciação e, com o


passar do tempo, originar duas. Esse processo pode se repetir
inúmeras vezes ao longo do tempo, dando origem a novas espécies.
Com base nesse pressuposto, responda:

a) Qual é a diferença entre evolução e seleção natural?


A seleção natural não garante a evolução de organismos
perfeitos, mas sim a sobrevivência dos mais aptos entre os
disponíveis. De acordo com a evolução, os organismos mudam
no decorrer do tempo e acumulam informações genéticas
herdáveis ao longo de gerações.

Resolução das atividades 145


b) Como evolução e seleção natural se complementam?
A evolução inclui a mutação, processo que dá origem a um
novo gene, causando a variação genética; ao longo do tempo,
a seleção vai atuar elegendo o mais apto em determinado
ambiente. Assim, a seleção natural é um importante mecanismo
de evolução.

2 Organismos e meio ambiente


1. Com base no que foi apresentado e discutido, diferencie os
seguintes termos:

a) Condições x recursos ambientais.


Condições correspondem às características físicas e químicas
do ambiente e podem ser alteradas, mas não consumidas –
por exemplo, temperatura, quantidade de oxigênio dissolvido,
umidade, salinidade etc. Já recursos são fatores necessários
aos organismos e aquilo que é consumido durante o seu
crescimento e a sua reprodução, por isso são reduzidos
durante as suas atividades – por exemplo, recursos vegetais
(néctar, folhas, frutos), presas etc.

b) Interação intraespecífica x interação interespecífica.


A interação intraespecífica ocorre entre indivíduos de uma
mesma espécie, enquanto a interespecífica acontece entre
indivíduos de espécies diferentes.

c) Competição por interferência x competição por exploração.


A competição por interferência ocorre quando um organismo
impede que um outro tenha acesso a recursos vitais. Já a
competição por exploração ocorre quando dois organismos
competem por um recurso vital e limitado.

d) Crescimento exponencial x crescimento logístico.


Crescimento exponencial é quando uma população cresce em
tamanho (número de indivíduos ou densidade populacional)
indefinidamente porque os recursos são ilimitados. Já o
crescimento logístico é quando a densidade populacional
aumenta vagarosamente no início e depois muito rapidamente;
ainda, quando surge uma resistência ambiental, ocorre a
desaceleração e, em seguida, a estabilização.

e) Migração x dispersão.

146 Ecologia, manejo e conservação


Migração corresponde ao movimento de um grupo de indivíduos que
se dirige de um local para outro – normalmente, de um local com
menores quantidades de recursos para um com maiores quantidades.
Dispersão se refere à forma como os organismos se distanciam uns
dos outros – por exemplo, as sementes, quando são dispersas,
distanciam-se da planta-mãe.

2. A história de vida dos organismos pode explicar a sua taxa de


crescimento e sua taxa de reprodução, as quais são dependentes
da disponibilidade de recursos. Pautando-se na história de vida
dos organismos, responda:

a) Quais são os padrões na história da vida dos organismos?


A história de vida explica as taxas de crescimento e reprodução
dos organismos, que são dependentes da disponibilidade
de recursos. Dentro desse contexto, são dois os padrões
na história da vida dos organismos, em função das suas
estratégias de sobrevivência: os organismos r estrategistas e
os k estrategistas. Os r estrategistas possuem a capacidade
de se multiplicar rapidamente no tempo, gerando vários
descendentes. Por outro lado, os k estrategistas investem
mais tempo no crescimento e desenvolvimento, e por isso se
reproduzem menos.

b) Quais são as principais restrições impostas pela


história evolutiva?
A seleção natural, importante mecanismo da evolução, e a
própria evolução. Elas conduzem as respostas dos organismos
para direções específicas, sendo comandadas por forças
internas específicas, isto é, pela linhagem de um indivíduo, que
limita os tipos de fenótipos que a evolução pode desenvolver,
não sofrendo interferência das interações ambientais.

3. A dinâmica populacional envolve o estudo da variação na


quantidade dos indivíduos de uma determinada população. Com
base nesse conceito, responda:

a) Quais são os impactos da competição intraespecífica sobre


as populações?
A busca por recursos está relacionada à densidade
populacional, pois quanto maior for a população, menor será
a quantidade de recursos disponível para cada organismo.
Dessa forma, os impactos da competição intraespecífica se

Resolução das atividades 147


tornam maiores à medida que os recursos vão diminuindo; por
isso, ela contribui para a manutenção do crescimento restrito
e impede o declínio até a extinção de espécies.

b) Quais são os efeitos da dispersão e da migração na


composição e dinâmica populacional?
A dispersão e a migração contribuem para a regulação do
tamanho da população (densidade populacional) e da sua
variabilidade genética. A densidade populacional determina o
nível da competição intraespecífica, que, por sua vez, interfere
na taxa de natalidade, de mortalidade e de dispersão dos
organismos. O aumento dessa densidade faz com que a
competição reduza a capacidade de reprodução e aumente as
possibilidades de morte, o que afeta diretamente a dinâmica
populacional.

3 Interações ecológicas
1. Preencha o quadro a seguir com o resumo dos principais aspectos
diferenciais entre as interações interespecíficas apresentadas
neste capítulo.
Interação Breve definição Efeito
Quando duas diferentes espécies competem pe-
+/-
Competição los mesmos recursos ambientais disponíveis.

Interação em que o organismo de uma espécie


(predador) se alimenta de parte ou de todo o
+/-
Predação corpo de um organismo de outra espécie (presa).
Essa interação envolve a caça.

Tipo especial de predação em que um organismo


+/-
Herbivoria animal se alimenta de uma planta viva.

Quando um organismo (parasito) se associa a outro


+/-
Parasitismo organismo (hospedeiro) e se nutre às suas custas.

Quando organismos pertencentes a diferentes


espécies se associam e ambos tiram benefícios
+/+
Mutualismo dessa interação, aumentam suas chances de so-
brevivência e sucesso reprodutivo.

Quando uma espécie se aproveita para se alimen-


+/0
Comensalismo tar dos restos deixados por uma outra espécie.

O efeito pode ser: +/- (positivo para uma espécie e negativo para a
outra espécie); +/+ (positivo para ambas as espécies); ou +/0 (positivo
para uma espécie e neutro para a outra espécie).

148 Ecologia, manejo e conservação


2. A competição interespecífica pode acontecer tanto por exploração
como por interferência. Cite um exemplo de cada tipo de competição
e compare as consequências sobre as espécies que competem.
• Competição por exploração: cracas e mariscos. Quando os
organismos de uma das duas espécies ocupam um espaço em
uma rocha, este não estará mais disponível para os organismos da
outra espécie.
• Competição por interferência: hienas e leoas. As primeiras formam
grupos e aguardam que uma leoa cace uma presa. Em seguida,
entram em confronto por meio de comportamentos agressivos,
com a finalidade de obter a carcaça da presa.
Na competição por exploração, os recursos – uma vez utilizados por
um organismo – não podem mais ser usados por outros organismos,
já na competição por interferência, um organismo impede que outros
organismos tenham acesso aos recursos.

3. As bromélias e as orquídeas epífitas vivem normalmente sobre as


árvores. Com base nessa informação, responda:
a) As bromélias e as orquídeas epífitas são beneficiadas nessa relação
que estabelecem com as árvores? Por quê?
Tanto as bromélias quanto as orquídeas epífitas são beneficiadas.
Essas plantas usam as árvores apenas como suporte, pois nas partes
mais altas, onde se instalam, conseguem obter maiores quantidades
de luz para a realização do processo de fotossíntese.

b) Como é denominada essa interação entre bromélias e orquídeas


epífitas e as árvores que lhes dão suporte?
Inquilinismo.

c) As árvores são prejudicadas nesse tipo de interação? Explique.


Não são prejudicadas, porque as bromélias e as orquídeas epífitas
usam as partes mais altas de uma árvore apenas como suporte, não
absorvendo nenhum nutriente delas.

4. Os líquens possuem ampla distribuição e habitam diferentes


regiões. São organismos constituídos de uma associação entre
uma alga ou uma cianobactéria e um fungo. Ainda sobre os
líquens, responda:
a) Como é chamada a interação ecológica que ocorre entre os
organismos que compõem um líquen?
Interação mutualística.

Resolução das atividades 149


b) Em linhas gerais, explique essa interação. Qual é o benefício para
cada um dos organismos que a compõem?
Essa interação envolve a associação entre uma alga (normalmente
cianofíceas) ou uma cianobactéria e um fungo (normalmente um
ascomiceto). Ambas as espécies que interagem são beneficiadas,
as algas disponibilizam carboidratos provenientes da fotossíntese
aos fungos, e estes, por sua vez, disponibilizam um microambiente
favorável ao crescimento das algas. É importante salientarmos que
essa interação é obrigatória, ou seja, tanto as algas quanto os fungos
não conseguem sobreviver se não estiverem associados.

4 Comunidades e ecossistemas
1. A sucessão ecológica corresponde ao processo em que um
ecossistema passa de um estado menos complexo para um mais
complexo ao longo do tempo e assim se estabiliza, tornando-se
maduro e estável. Nesse contexto, descreva resumidamente as
fases de uma sucessão ecológica e diferencie a sucessão primária
da sucessão secundária.
As mudanças que ocorrem em uma comunidade ao longo do
tempo são: no estágio inicial, as espécies pioneiras se estabelecem;
posteriormente, no estágio intermediário, ocorre o estabelecimento
das espécies intermediárias; e finalmente, no estágio mais avançado,
ocorre a estabilização do ecossistema (clímax).

• Sucessão primária: inicia-se em zonas nunca ocupadas por


outras comunidades, isto é, em áreas virgens. Esse tipo de
sucessão pode durar milhares de anos, pois demanda a
formação do solo no ambiente terrestre.

• Sucessão secundária: ocorre após uma perturbação ambiental,


em uma comunidade que sofreu uma alteração no seu
equilíbrio, mas que mantém os meios de regeneração biótica.

2. Com relação ao fluxo de energia e ciclagem de nutrientes nos


ecossistemas, defina: nível trófico, pirâmide ecológica e biomassa.

• Nível trófico: posição/lugar/estágio em que determinado


organismo está na cadeia/teia trófica/alimentar. Por exemplo:
o nível trófico mais basal em uma cadeia/teia é ocupado pelos
organismos autotróficos/fotossintetizantes (produtores); na
sequência, estão posicionados os consumidores primários,
os secundários e assim por diante. Os decompositores são

150 Ecologia, manejo e conservação


os organismos responsáveis pela ciclagem de nutrientes nos
ecossistemas.

• Pirâmide ecológica: representação esquemática da estrutura


e do fluxo de energia e nutrientes em um determinado
ecossistema, podendo indicar a biomassa ou energia de cada
nível trófico.

• Biomassa: quantidade de energia/matéria orgânica que


constitui o corpo dos seres vivos.

3. A estrutura de uma comunidade dentro dos ecossistemas é


definida por sua composição, riqueza e abundância de espécies.
Com base nessa afirmativa, responda:
a) Quais são as características de um ecossistema maduro quanto à
diversidade e à dominância? Explique.
Um ecossistema maduro apresenta alta diversidade de espécies
vegetais e pequena dominância.

b) Quais são as características do fluxo de energia, das relações


ecológicas e das teias alimentares em um ecossistema maduro?
Explique.
O ciclo de nutrientes, oxigênio e gás carbônico é bem estabelecido e
“fechado”, ou seja, o oxigênio produzido é consumido pelos vegetais
daquele ecossistema, não havendo grandes entradas externas. Além
disso, o fluxo de energia é equilibrado, pois as relações ecológicas e
teias alimentares estão bem estabelecidas.

5 Ecologia global
1. Preencha o quadro a seguir com os principais aspectos e as
características que possibilitam diferenciar os seis biomas
brasileiros.

Região onde sua Característica


Porcentagem
Bioma ocorrência
de área exclusiva
predomina
Maior floresta tropi-
cal do mundo, abriga
Amazônia 23,92 Norte
a maior bacia hidro-
gráfica do mundo.
(Continua)

Resolução das atividades 151


Região onde sua Característica
Porcentagem
Bioma ocorrência
de área exclusiva
predomina
Conhecido como sa-
vana brasileira, com
Cerrado 13,04 Região central
clima tropical esta-
cional (sazonal).
Fitofisionomia bas-
tante diversificada,
Mata Atlântica 9,92 Região costeira com vários tipos de
formações vegetacio-
nais.
Bioma exclusivo do
Caatinga 2,07 Nordeste
Brasil.
Vegetação dominan-
Pampa 1,76 Sul te de campestre uni-
forme.
Uma das maiores
Pantanal 23,92 Centro Oeste planícies alagáveis do
mundo.

2. A riqueza de espécies em uma comunidade tem relação com a


quantidade e a variação das condições e dos recursos disponíveis
nos ecossistemas. Com base nessa informação, responda: por que
existem mais espécies nos trópicos do que nos polos?
Porque no nosso planeta há a formação de um gradiente latidudinal
de distribuição de espécies. As regiões tropicais, por sua localização,
recebem maior incidência de sol, favorecendo a fotossíntese, portanto,
maior produtividade e, consequentemente, maior predação. As regiões
tropicais apresentam, ainda, uma heterogeneidade ambiental, onde
o clima é instável e distúrbios são bastante frequentes, favorecendo
a formação de numerosos micro-habitats e de microclimas, que
permitem maior riqueza de espécies.

3. Na maioria das vezes, o termo biodiversidade é empregado de


maneira simplificada e equivocada, referindo-se somente ao
número de espécies. Apresente a definição de biodiversidade
incluindo todas as suas escalas.
Biodiversidade se refere à diversidade de organismos em uma região,
incluindo a riqueza de espécies, a variabilidade genética (patrimônio
genético), as interações entre organismos e destes com o meio e os
diversos ecossistemas (aquáticos e terrestres).

152 Ecologia, manejo e conservação


6 Conservação e manejo da biodiversidade
1. As ameaças à conservação da biodiversidade mantêm-se
constantes ou agravando-se atualmente. Cite e explique,
mencionando exemplos, quais são as cinco principais ameaças à
conservação da biodiversidade mundial.

Ameaça Explicação
É a principal ameaça à conservação da biodiversidade
Perda e degradação e está relacionada às atividades humanas que têm efei-
de habitat tos negativos sobre o habitat de três formas: destruição
direta, degradação por poluição ou perturbação.
Referem-se à propagação de espécies exóticas invaso-
Bioinvasões ras e constituem uma das principais e mais crescentes
ameaças à conservação da biodiversidade.
Ocorre quando a população humana explora outra
Superexploração
população ou recurso em uma taxa não sustentável,
(sobre-exploração)
ou seja, maior do que a sua reprodução, podendo
colocá-la sob risco de extinção.
É uma ameaça à biodiversidade devido às alterações
que provoca no habitat, uma vez que causa perturba-
Poluição
ção ou degradação, tornando-o impróprio para popula-
ções adaptadas às condições naturais.
Eventos climáticos extremos têm sido constatados
com maior frequência nos últimos anos (derretimento
de geleiras, aumento do nível dos mares e alterações
no equilíbrio ecológico e na formação das paisagens).
Esses fenômenos afetam a distribuição e o desenvol-
Mudanças climáticas vimento dos seres vivos, alteram ambientes naturais e
forçam espécies animais e vegetais a se comportarem
de maneira diferente, procurando novos ambientes e
mudando padrões de alimentação e reprodução, o que
altera os fluxos de energia na teia alimentar e desequi-
libra os ecossistemas.

2. A biodiversidade, que inclui todas as espécies, as comunidades


e os ecossistemas da Terra, proporciona diversos benefícios ao
ser humano, denominados valores econômicos diretos e indiretos.
Compare e diferencie esses valores da biodiversidade.
Ambos os valores estão relacionados aos benefícios oriundos da
biodiversidade, bens e serviços fundamentais à sociedade.

Resolução das atividades 153


Valores diretos Valores indiretos
Benefícios diretos Benefícios indiretos
Correspondem aos bens Correspondem aos serviços
Ex.: polinização, manutenção dos ciclos
hidrológico e do oxigênio pelas plantas,
Ex.: alimentos, energia, medicamentos,
decomposição, beleza estética, controle
vestuário e abrigo.
de erosão e enchentes, sequestro de car-
bono e estabilização do clima.

3. Na maioria das vezes, o termo sustentabilidade é empregado


de modo simplificado, simplesmente como um sinônimo de
crescimento econômico, não sendo integradas todas as dimensões
que ele representa. Cite e explique quais são essas dimensões e
como elas se integram.
A busca da sustentabilidade deve estar amparada em três dimensões:
ambiental (ecológica), econômica e social. A dimensão ecológica
refere-se ao equilíbrio ambiental; a dimensão econômica relaciona-se à
lucratividade; e a dimensão social remete à igualdade na sociedade.
Quando essas três dimensões da sustentabilidade são aplicadas e
integram-se às situações do mundo real, todos ganham: o ambiente
é protegido, a economia não é prejudicada e a qualidade de vida é
melhorada ou mantida.

154 Ecologia, manejo e conservação


ECOLOGIA,

E c o l o g i a , m a n e j o e c o n s e r va ç ã o
MANEJO E
CONSERVAÇÃO
Código Logístico Leila Teresinha Maranho
I0 0 0 4 3 7

ISBN 978-65-5821-102-0

9 786558 211020

Leila Teresinha Maranho

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