Teoria do Conhecimento em Kant
Teoria do
Conhecimento em
Kant
A Teoria do Conhecimento
("Erkenntnistheorie") de Immanuel Kant,
exposta na Crítica da Razão Pura (1781/1787),
busca responder à questão "Como são
possíveis juízos universais e necessários?".
Kant propõe uma síntese entre o racionalismo
(que enfatiza conceitos inatos) e o empirismo
(que sustenta que todo conhecimento advém
da experiência).
Nesta apresentação, exploraremos os
conceitos centrais dessa teoria:
conhecimento a priori e a posteriori,
fenômeno e númeno, conceito
transcendental e a classificação dos juízos,
compreendendo como Kant revolucionou
nossa compreensão sobre a formação do
conhecimento humano.
por Professor José Guilherme
Pessoa Trindade
Última edição 2 meses atrás
:
Conhecimento a
priori e a
posteriori
Conhecimento a priori
São proposições cujo valor de verdade
independe de qualquer experiência empírica.
São universais (válidos para todos os casos) e
necessários (não poderiam ser de outro
modo).
Exemplos: "Todo triângulo possui três lados" e
"7 + 5 = 12".
Os juízos sintéticos a priori são
particularmente relevantes para Kant, pois
sustentam a possibilidade de ciências exatas
e da Física enquanto ciência.
Conhecimento a posteriori
São proposições fundamentadas em
experiências sensoriais. Seu valor de verdade
depende de dados empíricos e, portanto, é
contingente (poderia não ser verdadeiro em
outro contexto).
Exemplos: "A neve é branca" e "Está chovendo
neste exato momento".
São sintéticas no sentido de que o predicado
acrescenta algo novo ao sujeito, mas não são
universais nem necessários.
:
Fenômeno: O
Mundo Como
Percebemos
Definição
Tudo aquilo que aparece a nós por meio
das formas sensíveis e das categorias do
entendimento. Em outras palavras,
fenômeno é o objeto tal como é
percebido e organizado pela nossa
mente.
Formas de Intuição
Espaço e tempo são as formas puras de
intuição que estruturam todas as
percepções sensoriais. Qualquer dado
sensível já chega a nós "atulhado" nessas
molduras.
Categorias do Entendimento
São conceitos puros (sem conteúdo
empírico) que organizam as intuições
sensoriais em objetos cognoscíveis (por
exemplo, causalidade, substância,
totalidade).
A consequência fundamental desta
concepção é que não temos acesso a um
"mundo em si" (das Dinge an sich), mas
apenas ao mundo tal como se manifesta
condicionado pelas nossas faculdades
cognitivas.
:
Númeno: O
Objeto em Si
Mesmo
Definição
É o "objeto em si mesmo", livre das
condições subjetivas de espaço,
tempo e das categorias do
entendimento. Ou seja, a realidade
como existe independentemente de
nossa percepção.
Distinção Fundamental
Enquanto o fenômeno é o objeto tal
como aparece a um sujeito
cognoscente, o númeno é aquilo que o
objeto efetivamente é, sem estar
condicionado pela nossa sensibilidade
e intelecto.
Implicações
O acesso ao númeno é impossível para
a razão humana; podemos falar em
númeno apenas como um limite
conceitual, como uma indicação de
que há sempre um "algo" além das
nossas determinações fenomênicas.
:
Conceito
Transcendental
Sentido de "Transcendental"
Condições a priori do conhecimento
Intuições Puras
Espaço e tempo como formas da
sensibilidade
Categorias do Entendimento
Conceitos puros que organizam a
experiência
Kant usa o termo "transcendental" para
designar aquilo que diz respeito à forma
como o sujeito cognoscente deve estar
estruturado para que o conhecimento seja
possível. Trata-se de estudar as condições a
priori de possibilidade do conhecimento.
Diferencia-se do "metafísico" (que trataria do
ser em si), pois o método transcendental
volta-se para a análise dos próprios meios de
conhecimento. Um conceito transcendental
não provém da experiência, mas possui
validade sobre todo tipo de experiência.
:
Juízos Analíticos
e Sintéticos
Juízos Analíticos
O predicado está contido no conceito
do sujeito; o juízo apenas explicita o
que já está implicitamente presente no
sujeito.
Exemplo Analítico
"Todos os solteiros são não casados."
Aqui, "não casados" já está contido na
definição de "solteiro".
Juízos Sintéticos
O predicado acrescenta algo que não
está contido no sujeito; há ampliação
de conhecimento.
Exemplo Sintético
"O sol nasce todos os dias." Aqui "nasce
todos os dias" não está implicitamente
contido em "sol".
Os juízos analíticos são verdades de definição
e não ampliam nosso conhecimento. Já os
juízos sintéticos acrescentam informação
nova e podem ser a posteriori (dependentes
da experiência) ou a priori (independentes da
experiência).
:
Juízos a priori e a
posteriori
Juízos a priori
Independem da experiência para serem
verdadeiros
Juízos a posteriori
Dependem diretamente da experiência
sensível
Juízos sintéticos a priori
Ampliam conhecimento sem depender
da experiência
Os juízos a priori não precisam de experiência
para serem reconhecidos como verdadeiros;
sua validade é anterior a qualquer particular
experiência. Já os juízos a posteriori têm sua
validade dependente diretamente da
experiência sensível.
Kant identifica as bases do conhecimento
matemático como contendo juízos sintéticos
a priori, pois eles ampliam nossos conceitos
(ex.: "7 + 5 = 12" não está contido apenas nos
conceitos de "7" e "5") e não provêm da
experiência direta.
:
Importância dos
Juízos Sintéticos a
priori
Matemática
A aritmética e a geometria
contêm juízos sintéticos a priori,
pois ampliam nossos conceitos
sem depender da experiência
direta.
Física
A lei da causalidade ("Todo
evento tem uma causa") é
considerada um juízo sintético a
priori, essencial para organizar
empiricamente nossa
experiência.
Ciência Universal
Estes juízos permitem que a
experiência empírica seja
organizada em ciências
universais (por exemplo, leis
naturais).
Conhecimento Objetivo
Fundamentam a possibilidade
de conhecimento científico
universal e necessário, sem ser
puramente tautológico.
:
Integração das
Noções Kantianas
Percepção Sensorial
Os dados sensoriais são recebidos
e já organizados pelas intuições
puras de espaço e tempo.
Categorias do Entendimento
As percepções são processadas
pelas categorias (conceitos puros)
como causalidade, substância e
totalidade.
Fenômeno
Surge o objeto já moldado por
espaço, tempo e categorias, sobre
o qual podemos formular juízos.
Conhecimento
Os juízos sintéticos a priori
aplicam-se ao mundo dos
fenômenos, permitindo o
conhecimento científico.
Por meio da análise transcendental, Kant
demonstra que, sem as formas de intuição e
sem as categorias do entendimento, a
experiência não teria unidade nem coerência.
O conhecimento não resulta apenas da
recepção passiva de dados sensoriais, mas
de uma atividade estruturante da mente.
:
Considerações
Finais e Legado
1781
Publicação
Ano da primeira edição da Crítica da Razão
Pura
12
Categorias
Número de categorias puras do
entendimento
2
Intuições
Formas puras da sensibilidade: espaço e
tempo
Ao separar fenômeno e númeno, Kant mostra
que nossa razão tem limites: tudo o que
podemos conhecer pertence ao domínio
fenomenal. O domínio nouménico permanece
inatingível, mas é o "horizonte" que delimita a
validade do conhecimento.
A filosofia kantiana é, antes de tudo, uma
crítica — uma investigação do próprio poder
cognoscitivo da razão. Ela rompe com o
dogmatismo racionalista e com o empirismo
radical, estabelecendo uma síntese que
influenciou profundamente toda a filosofia
posterior, especialmente na questão de como
é possível haver conhecimento científico
rigoroso.
: