AO JUÍZO DA XX VARA CRIMINAL DA COMARCA DE PINHEIROS-
SÂO PAULO
AUTOS DE Nº XXXXXXXXXX
AMÂNCIO, estado civil XXX, profissão XXX, inscrito no CPF/NF nº
XXX, endereço eletrônico XXX, residente e domiciliado no endereço
XXX, por sua advogada adiante assinada, legalmente constituída, nos
termos do instrumento de mandato em anexo, comparece o acusado,
tempestivamente para apresentar, com fulcro nos artigos 396 caput e
396 - A do Código de Processo Penal, a presente
RESPOSTA Á ACUSAÇÃO,
evidenciando fundamentos defensivos em razão da presente Ação
Penal movida contra o mesmo, consoante abaixo delineado.
I – SÍNTESE DOS FATOS:
Segundo consta no relatório fático contido na peça acusatória movida
pelo Ministério Público contra o denunciado foi realizado inquérito
policial para apuração do crime de roubo de joias com o valor
estimado em R$ 30. 000, 00, ocorrido no inicio do mês de setembro de
2024, no bairro de Rosas, cidade de Pinheiros e que em 20 de
setembro de 2024, teria chegado ao conhecimento das autoridades
policiais do local que o denunciado estaria sobre posse de produtos
que supostamente seriam fruto de roubo.
Os policiais se dirigiram até a residência do acusado que foi
surpreendido ao se deparar com os agentes pulando o muro de seu
imóvel, pois não receberam autorização do mesmo para entrarem no
local.
Após o ingresso não autorizado ao local, foram encontradas diversas
joias que estavam em caixas próprias e que conforme consta no
depoimento do acusado pertenceriam ao seu irmão Celso que é
comerciante e que não estava presente no momento do ocorrido.
Amâncio não questionou a origem dos produtos, pois já havia
guardado outros pertences para o irmão e que sempre se tratavam de
objetos lícitos agindo assim de boa-fé.
Diante disto, após ser liberado da audiência de custódia, Amâncio foi
acusado pela prática do crime de Receptação Qualificada, previsto
no artigo 180, § 1º, do Código Penal.
II – DA NECESSÁRIA ABSOLVIÇÃO
a) Da alegação de consumação do crime de receptação
qualificada.
Estabelece o artigo 180, §1º, do Código Penal:
(...)
§ 1º - Adquirir, receber, transportar, conduzir, ocultar, ter
em depósito, desmontar, montar, remontar, vender,
expor à venda, ou de qualquer forma utilizar, em proveito
próprio ou alheio, no exercício de atividade comercial ou
industrial, coisa que deve saber ser produto de crime.
Pena - reclusão, de três a oito anos, e multa.
Portanto, é elementar do delito ora imputado ao acusado que o objeto
material seja oriundo da prática de crime, bem como que o autor tenha
consciência da origem ilícita do bem e que esteja no exercício de
atividade comercial ou industrial.
Conforme exposição dos fatos nota-se que o cidadão acusado não
praticou nenhuma das condutas tipificadas no artigo descrito, visto
que, conforme consta nos autos, Amâncio não questionou sobre a
origem dos objetos ao seu irmão devido a relação de confiança que
ambos possuíam, agindo assim de boa-fé, sem a intenção de praticar
o delito de receptação, o que desqualifica o dolo, requisito essencial
do crime em questão.
Quando ao dolo, registra Julio Fabrini Mirabete que:
“ O tipo objetivo é o dolo, ou seja, a vontade dirigida à prática
de uma das condutas previstas no tipo. É indispensável,
porém, o elemento subjetivo do tipo registrado na expressão
‘deve saber ser produto de crime’, que não significa a
necessidade a necessidade de que o agente ‘saiba’ dessa
circunstância (caso contrário a lei teria repetido a expressão
contida no caput do art. 180). Basta, portanto, para a
caracterização do ilícito, a comprovação de que o agente,
em decorrência das circunstâncias do fato, tinha todas as
condições para proceder saber da procedência ilícita da res
adquirida, recebida, etc. A expressão trata, na verdade, de
uma regra probatória, de uma presunção legal, de que o
agente, diante das circunstâncias do fato, não poderia
desconhecer a origem espúria da coisa, tendo agido com
dolo. Se não se entender, inscrevendo-se no artigo também
a forma culposa, deve-se o princípio da redução teleológica
da pena, aplicando-se apenamento previsto para o tipo
descrito no caput do art. 180. “(( Ob. aut., cits., pág. 327).
Outrossim, é imperioso ressaltar que, segundo entendimento do
SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL, (RT - 599/434; TJDF, Ap. 11.303,
DJU 3.2.93, p. 2015, in RBCCr 2/241), para a configuração do crime
de receptação, é imprescindível que o agente tenha certeza da origem
criminosa da coisa, devendo a prova a respeito ser certa e irrefutável.
É necessária a identificação do delito antecedente, definindo-se com
clareza em que consistiria a origem ilícita da coisa.
Nesse contexto, verifica-se um requisito imprescindível para a
concretização da conduta tipificada imputada ao cidadão acusado,
qual seja, o dolo.
Assim, resta evidenciado a não caracterização de conduta criminosa
de receptação por parte do cidadão acusado, uma vez que, frisa-se
repetidamente, desconhecia a origem dos objetos.
b) Ausência de nexo entre as atividades evidenciadas.
Não ficou, pois, devidamente comprovado que o acusado exercia
qualquer atividade comercial ou industrial e que os objetos
encontrados eram para tais fins. Não existindo assim nexo de
casualidade com a ilicitude em comento, sendo esse outro requisito
essencial para qualificação do tipo penal em tese.
Quando ao dolo e a habitualidade na prática do referido delito (qualificado),
assim disserta Cleber Masson:
“ A receptação qualificada do § 1º do art. 180 do Código
Penal, por seu turno, é crime próprio, ou especial, pois o tipo
penal reclama uma situação diferenciada em relação ao
sujeito ativo. Com efeito, o delito somente pode ser cometido
pela pessoa que se encontra no exercício de atividade
comercial ou industrial.
(...)
Cumpre destacar, porém, que a incidência da qualificadora
reclama habitualidade no desempenho do comércio ou da
indústria pelo sujeito ativo, pois é sabido que a atividade
comercial (em sentido amplo) não se aperfeiçoa com um
único ato, sem continuidade no tempo. “( Ob. aut., cits., pág.
643).
Veja que o Acusado não exerce qualquer atividade comercial compatível
com a venda dos produtos apreendidos no auto de apreensão, acima
descritos. Não existe nexo de causalidade com a ilicitude em comento.
Neste contexto:
APELAÇÃO CRIMINAL. RECEPTAÇÃO QUALIFICADA.
AGENTE QUE ADQUIRE VEÍCULO FURTADO COM VISÍVEIS
RASURAS EM TODOS OS SEUS SINAIS IDENTIFICADORES.
CONFISSÃO JUDICIAL DE SUA HABITUALIDADE NA
AQUISIÇÃO DE CARROS DE ORIGEM DUVIDOSA PARA
POSTERIOR REVENDA. DESCLASSIFICAÇÃO PARA O
CAPUT DO ART. 180 DO CÓDIGO PENAL.
INADMISSIBILIDADE. RECURSO NÃO PROVIDO. I - Nas
hipóteses previstas no vigente § 1º do art. 180, há crime próprio,
pois o sujeito ativo deve ser comerciante ou industrial. Entretanto,
não se exige um ato de comércio regular, pois a própria Lei
prevê, no § 2º do mesmo artigo, que está equiparada qualquer
forma de comércio irregular ou clandestino, inclusive o exercício
em residência. Não se dispensa, porém, a exigência de que, para
a caracterização do crime qualificado, haja continuidade ou
habitualidade na atividade comercial por parte do sujeito ativo,
não bastando ato único, isolado. II - Recurso não provido. (TJMG
- APCR 1.0686.06.179659-1/0011; Teófilo Otôni; Quarta Câmara
Criminal; Rel. Des. Eduardo Brum; Julg. 17/03/2010; DJEMG
14/04/2010).
c) Da ausência de Justa Causa
Douto julgador, importante frisarmos que a conduta do denunciante é legal,
pois agiu em conformidade com os preceitos que regulamentam o
ordenamento jurídico brasileiro.
Além do mais, o inquérito policial é peça meramente informativa, sendo no
presente caso, a denúncia do acusado totalmente descabida, logo fica
evidenciada a atipicidade da conduta e a ausência de justa causa, com
fulcro no art. 395, III, do Código de Processo Penal, in verbis;
Art. 395. A denúncia ou queixa será rejeitada quando:
(...)
III - faltar justa causa para o exercício da ação penal.
Por todo o exposto, conclui-se que em matéria de condenação
criminal, não bastam meros indícios. Aprova da autoria deve ser lógica
e livre de dúvida, pois só a certeza autoriza a condenação no juízo
criminal.
Destarte, a consequência da fragilidade da prova acusatória é a
aplicação direta do princípio in dubio pro reo.
Nesse sentido, a jurisprudência:
APELAÇÃO CRIMINAL CRIMES CONTRA O PATRIMÔNIO.
RECEPTAÇÃO. AUSÊNCIA DE COMPROVAÇÃO DO
DOLO. PRINCÍPIO PRO-LIBERTADE. ABSOLVIÇÃO
MANTIDA. Tendo em vista a dificuldade de aferição do dolo
nos crimes de receptação, as circunstâncias do fato tomam
especial relevo de avaliação da conduta do agente. A
probatória, todavia, tem de expor elementos seguros que
autorizem visualizar a ponte fática entre a subtração e a
conduta prevista no artigo 180 do Código Penal. No caso dos
autos, não há qualquer indicativo seguro, produzido à luz do
contraditório, que indique que o réu soubesse da origem
ilícita dos animais que adquiriu do corréu L. F. Ao acusado no
processo penal não compete comprovar sua inocência, que é
sempre presumida, mas, sim, incumbe à acusação a
demonstração da correspondência fático-probatória com a
denúncia. Sentença absolutória mantida. APELAÇÃO
DESPROVIDA. (Apelação Crime N° 70059041624, Sétima
Câmara Criminal, Tribunal de Justiça do RS, Relator: José
Conrado Kurtz de Souza, Julgado em 07/08/2014).
Assim, restando comprovada a fragilidade da acusação, face às
provas de conduta atípica, bem como a falta de materialidade e autoria
do delito não há se falar em crime cometido pelo cidadão acusado.
III - DOS PEDIDOS
Diante de todo o exposto, requer a Vossa Excelência que se digne de:
a) Rejeitar a inicial acusatória do Douto Representante do
Ministério Público, em razão da ausência de justa causa para o
exercício da ação penal, com fulcro no artigo 395, III, do Código
de Processo Penal;
b) Seja declarada a absolvição sumária do acusado, com fulcro no
artigo 397, III, do Código de Processo Penal;
c) Subsidiariamente, caso não acolhida a preliminar suscitada,
seja, no mérito, julgado improcedente o pedido condenatório,
absolvendo-se o acusado da imputação que lhe foi feita na
denúncia, em atenção ao princípio do in dubio pro reo, nos
termos do art. 386, incisos VII, do Código de Processo Penal;
d) Caso haja condenação, requer:
i. A fixação da pena-base seja no mínimo legal, uma vez que
nenhuma das circunstâncias judiciais do art. 59 Código
Penal lhe são desfavoráveis;
ii. A fixação do regime inicial aberto para cumprimento;
iii. A substituição da pena privativa de liberdade por medida
restritiva de direitos.
Nestes Termos,
Pede Deferimento.
Pinheiros, 27 de fevereiro de 2025.
Advogada XXX
OAB/UF nº XXX