Instituto Superior Mutasa
Nome:
Licenciatura em Administração Pública
O Estado Moçambicano
Nome do docente:
Dondo, aos 09 de Setembro de 2025
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O Estado Moçambicano
Introdução
Apresentação geral do tema
O Estado Moçambicano é uma entidade política soberana situada no sudeste de África,
cuja formação resulta de um longo processo histórico marcado pelo colonialismo, pela
luta de libertação nacional e pela consolidação democrática. A compreensão do Estado
Moçambicano requer uma análise abrangente de sua trajetória histórica, estruturas
institucionais e desafios contemporâneos. De acordo com Bobbio (2007), o Estado pode
ser definido como a organização política que exerce autoridade sobre um território e
população, dotada de instituições que asseguram a ordem, a justiça e a soberania. Em
Moçambique, essa definição assume contornos específicos, uma vez que o país passou
por profundas transformações sociais, políticas e econômicas desde a independência em
1975.
Estudar o Estado Moçambicano é essencial para compreender os processos de
construção nacional, consolidação da democracia e promoção do desenvolvimento
socioeconômico. O país enfrenta desafios como desigualdades regionais, corrupção,
conflitos armados intermitentes e fragilidades institucionais. Além disso, a análise do
Estado permite compreender as reformas políticas, as mudanças constitucionais e os
mecanismos de descentralização que visam aproximar o governo das comunidades
(Chichava & Pohl, 2010). Em um contexto global em constante transformação, o estudo
do Estado de Moçambique contribui para a valorização do sistema democrático, do
Estado de Direito e do fortalecimento da cidadania.
Objetivo do trabalho
O presente trabalho tem como objetivo analisar criticamente a formação histórica e a
estrutura do Estado Moçambicano, abordando desde o período colonial até os dias
atuais. Além disso, busca-se identificar seus principais desafios e propor perspectivas
para o fortalecimento das instituições, a promoção do desenvolvimento sustentável e a
consolidação da democraci
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Desenvolvimento
Evolução Histórica do Estado Moçambicano
Legado Colonial
A formação do Estado Moçambicano moderno está profundamente vinculada ao
colonialismo português, que se consolidou no final do século XIX, após a Conferência
de Berlim (1884-1885), que formalizou a partilha de África entre as potências europeias
(Newitt, 1995). O domínio colonial português caracterizou-se pela exploração
econômica, marginalização da população local e ausência de investimentos
significativos em infraestrutura social. As estruturas administrativas criadas pelos
portugueses eram centralizadas, hierárquicas e orientadas para a extração de recursos.
Esse modelo deixou um legado de desigualdades regionais e institucionais que continua
a impactar a governança moçambicana.
Luta pela Independência e Estado Socialista (1975–1992)
A luta pela independência foi liderada pela Frente de Libertação de Moçambique
(FRELIMO), fundada em 1962. A independência foi proclamada em 25 de junho de
1975, com Samora Machel como primeiro presidente. O novo Estado adotou uma
orientação socialista, com nacionalizações, reforma agrária e centralização do poder
político (Machel, 1977). Entretanto, essa fase foi marcada por desafios, como a guerra
civil (1977-1992) entre a FRELIMO e a Resistência Nacional Moçambicana
(RENAMO), conflitos que resultaram em mais de um milhão de mortes e uma grave
crise humanitária (Vines, 1991).
Transição para a Democracia e Estado de Direito (desde 1992)
Com a assinatura do Acordo Geral de Paz em Roma (1992), Moçambique iniciou a
transição para um sistema multipartidário e um Estado de Direito. A Constituição de
1990 estabeleceu o princípio da separação de poderes, a descentralização administrativa
e o respeito aos direitos fundamentais (República de Moçambique, 2004). Desde então,
o país tem realizado eleições regulares, apesar de tensões políticas e episódios de
violência. A consolidação democrática ainda é um processo em construção, enfrentando
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desafios como a baixa participação cidadã e a necessidade de reformas eleitorais
(Hanlon, 2010).
Estrutura Institucional do Estado Moçambicano
Poder Executivo
O Poder Executivo é chefiado pelo Presidente da República, eleito por sufrágio
universal para mandatos de cinco anos, com possibilidade de reeleição. O Presidente
exerce funções de Chefe de Estado e de Governo, nomeando ministros e governadores
provinciais. O Conselho de Ministros auxilia na formulação de políticas públicas,
enquanto o poder executivo centraliza muitas decisões estratégicas (República de
Moçambique, 2004).
Poder Legislativo
A Assembleia da República é o órgão legislativo unicameral, composta por deputados
eleitos por voto popular. Ela tem competências para legislar, fiscalizar o Governo e
aprovar o Orçamento do Estado. Apesar de ser um espaço plural, críticos apontam que o
Legislativo ainda carece de maior independência em relação ao Executivo (Forquilha,
2019).
Poder Judiciário
O Judiciário é responsável pela administração da justiça e pela defesa da legalidade. O
Conselho Superior da Magistratura Judicial e o Tribunal Supremo exercem papéis
fundamentais na organização judicial. Contudo, a morosidade processual e a falta de
recursos comprometem a eficiência do sistema, prejudicando o acesso à justiça,
principalmente em áreas rurais (Sitoe, 2020).
Administração Descentralizada
Moçambique tem avançado na descentralização administrativa, criando autarquias
locais com competências próprias. A descentralização visa fortalecer a governança local
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e promover a participação comunitária, mas enfrenta entraves devido à falta de recursos
financeiros e capacitação técnica das administrações locais (Chichava & Pohl, 2010).
Funções e Papel do Estado
O Estado Moçambicano tem a responsabilidade de garantir a segurança, o
desenvolvimento socioeconômico, a defesa da soberania e a prestação de serviços
públicos. Segundo Bobbio (2007), o papel do Estado contemporâneo deve incluir a
promoção do bem-estar social, assegurando educação, saúde e justiça para todos os
cidadãos. Em Moçambique, as funções do Estado incluem:
Garantia da ordem e segurança: Forças Armadas e Polícia da República de Moçambique
desempenham papel central.
Promoção do desenvolvimento: Investimentos em infraestrutura, agricultura e energia
têm sido estratégicos para crescimento econômico.
Proteção social: Programas de combate à pobreza e de acesso a serviços básicos são
essenciais, especialmente em zonas rurais.
Principais Desafios do Estado Moçambicano
O Estado enfrenta múltiplos desafios, como:
Corrupção sistêmica: A corrupção mina a confiança nas instituições, limitando a
eficácia das políticas públicas (Hanlon, 2010).
Conflitos armados e terrorismo: A insurgência em Cabo Delgado desde 2017 tem
provocado deslocamentos em massa e instabilidade (Morier-Genoud, 2020).
Desigualdades sociais: As disparidades entre áreas urbanas e rurais persistem, com
acesso limitado a serviços essenciais em regiões remotas.
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Fragilidade econômica: Apesar do crescimento recente impulsionado pelo gás natural,
o país depende fortemente de ajuda internacional e enfrenta altos índices de pobreza.
Perspectivas para o Fortalecimento do Estado
Para fortalecer o Estado Moçambicano, é necessário investir na modernização das
instituições, na transparência governamental e na descentralização. Reformas eleitorais,
combate à corrupção e promoção da justiça social são medidas prioritárias. Além disso,
a exploração sustentável dos recursos naturais e o fortalecimento da sociedade civil são
estratégias-chave para consolidar a democracia e garantir desenvolvimento inclusivo
(Forquilha, 2019).
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Conclusão
Este trabalho apresentou uma análise histórica e institucional do Estado Moçambicano,
destacando seu percurso desde o colonialismo até a atualidade. O país construiu avanços
significativos na democratização e na modernização do Estado, mas ainda enfrenta
desafios complexos relacionados à instabilidade política, desigualdade social e
fragilidades institucionais. Para o futuro, é fundamental que Moçambique continue a
investir no fortalecimento das instituições, no combate à corrupção e na promoção da
paz e segurança. Somente assim o Estado poderá cumprir seu papel de garantir direitos,
promover justiça e assegurar o desenvolvimento sustentável.
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Referências Bibliográficas
Bobbio, N. (2007). Estado, governo e sociedade: Para uma teoria geral da política. Rio
de Janeiro: Paz e Terra.
Chichava, S., & Pohl, B. (2010). A descentralização em Moçambique: Desafios e
perspectivas. Maputo: IESE.
Forquilha, S. (2019). Desafios da governação democrática em Moçambique. Cadernos
IESE, 16, 3-18.
Hanlon, J. (2010). Do Banda à democracia: Moçambique 1975-2010. Maputo: Ndjira.
Machel, S. (1977). Educar o homem para vencer a guerra, criar uma sociedade nova.
Maputo: FRELIMO.
Morier-Genoud, E. (2020). The jihadi insurgency in Mozambique: Origins, nature and
beginning. Journal of Eastern African Studies, 14(3), 396–412.
Newitt, M. (1995). A history of Mozambique. Bloomington: Indiana University Press.
República de Moçambique. (2004). Constituição da República de Moçambique.
Maputo: Assembleia da República.
Sitoe, E. (2020). O sistema judicial moçambicano e o acesso à justiça. Revista Jurídica
Moçambicana, 12(1), 45-60.
Vines, A. (1991). RENAMO: Terrorism in Mozambique. London: Centre for Southern
African Studies.