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? Caderno Do Espora

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📕 Caderno do Espora

(encadernado em couro gasto, letras feias, garranchadas, com riscos e manchas de


barro)

[14 de abril de 1844] — 8 ano


hóji pai mi ensino a planta feijao. falô qui tem que tratá a terra como muié: com jeito.
desenhei a roça prum dia lembra. o sol tar rachano tudo.

(Desenho simples: fileiras de planta e uma enxada torta.)

[19 dezembru 1847] — 11 ano


a cobra pegô pai. num deu tempo nem de chama ajuda. morreu no chão da mata. mãe
ficou muda. fiz o disenho da bicha e cortei a cabeça dela com carvão.

(Desenho de jararaca com a cabeça toda riscada.)

[3 julho 1849] — 13 ano


mãe morreu tamém. só ficou eu e esse caderno. vô saí desse lugar. levo a faca do pai e
minha gaitinha. é tudo qui tenho.

[21 janeiro 1854] — 18 ano


matei um homi pela primeira veis. foi ele ou eu. tentô me passá pa trás num jogo de
dado. dormi mal. ainda escuto o tiro na cabeça dele.

[15 agosto 1854]


entrei pros jararaca de sangue. mestre velho falo que eu era ligeiro. disse qui pareço
espora: cutuca e já some. gostei do nome. fico espora mesmo.

[29 de março de 1855] — 19 ano


roubamo um comboio de mula vindo com ouro e sal. matei um véio que num quis
entrega as coisa. acertei ele no ouvido. caiu igual saco de milho. dei risada. pinto me
deu um tapa nas costa e disse "bom de mira esse fi duma égua."
diferente a sensação. sangue quente. dinheiro no bolso. puta na cama.
[4 de novembro de 1857] — 21 ano
invasão numa fazenda de algodão. povo tava dormino. prendemo tudo num galpão e
fizemo eles entrega as arma. maria lobo pegô a filha do dono e sumiu. ninguem fala do
que ela fez.
eu botei fogo no pai dela depois de fazé ele conta onde tava o cofre.
a fumaça subiu bonita. fizemos churrasco com a boiada deles.

[10 outubro 1859] — 23 ano


roubo da fazenda das palmeira. entrei de roupa limpa, falei igual gente fina. roubei
dinheiro e papel. fugi num cavalo qui nem era meu. desenhei a casa prum dia qui eu
quisé lembrá.

(Mapa rabiscado e um cavalo em fuga.)

[11 de janeiro de 1860] — 24 ano


peguei um sujeito que traiu a gente com os capanga do coroné paçoca. cortei a mão dele e
mandei ele cavá a própria cova com o toco. pinto me ajudô. deixamo ele vivo enterrado até o
pescoço e voltamo três dias depois. só o urubu tinha voltado antes da gente.

[3 de julho de 1862] — 26 ano


roubamo a carroça de imposto de uma cidade rica. o povo gritava, mulher chorava, criança
corria. eu tirei a bota, subi pelado na carroça e gritei "é nois, os jararaca!".
essa foi boa. rir até cansa.

[28 maio 1863] — 27 ano


salão de santa queimada. zé memo olhô torto. joguei copo nele, depois um banquinho na
cara dum. saiu tiro pa todo canto. matei três. fugi pulano a janela. povo gritô “é o
espora!”

[16 de maio de 1865] — 29 ano


matei um homem por esporte. tava bêbado. joguei moeda pro alto e falei “se cair coroa,
cê morre.” caiu coroa. tirei a pistola e acertei no meio dos zói.
ninguém falou nada. só fiquei quieto depois. senti um vazio esquisito.

[21 de setembro de 1870] — 34 ano


mestre velho queria dá um recado forte pra uns fazendeiro que num pagaram. tacamo
fogo na fazenda dum deles.
amarremo a família dentro da casa.
eu mesmo botei fogo no rancho com lampião.
escutei o grito da menina de uns seis ano.
fiquei parado vendo a casa pega brasa.
tudo tava claro, bonito, quente.
depois da fumaça...
me deu ânsia.
vomitei atrás do celeiro.
[23 de setembro de 1870]
num falei nada pra ninguém.
ninguém perguntou.
só o silêncio.
desenhei a cara dela, ou tentei.

(Rabisco tremido, de um rosto infantil com fogo atrás.)

[5 de fevereiro de 1871] — 35 ano


tenho pensado muito. num durmo direito.
pinto me chama de frouxo agora.
tô cansado de vê sangue de gente que num fez nada.
às veiz parece que o queimação da casa num saiu de dentro do meu nariz.

[4 fevereiro 1873] — 37 ano


pinto matou um piazim. disse qui era só pa dá recado. quis matá ele mas me segurei.
Desde aquele dia, penso se sou igual a esse povo.

[8 de agosto de 1874] — 38 ano


salvei um moleque de ser morto por maria lobo. ele só tinha pego pão na carroça.
dei um soco nela e fui embora antes que ela puxasse a faca.
tô perdendo o gosto disso tudo.

[12 outubro 1878] — 42 ano


mestre velho queré matá uma família inteira por causa de traissom. falei qui não. briguei
com pinto. num dormi junto deles. sinto qui tou de saida.

[17 de dezembro de 1878] — 43 ano


vi o mestre velho rindo enquanto matava um velho cego a coronhada.
achei feio.
achei coisa de bicho.
achei que aquilo já era eu também.

[7 de março de 1879] — 43 ano


fugi. levei dois tiro. coxeei três dias.
num levo mais orgulho desse nome.
mas também num vou esquecer o que fiz.
ainda tenho o caderno. ainda tenho as mão suja.
talvez um dia eu ache um jeito de limpá ela.
ou pelo menos deixá uma coisa boa nesse mundo antes de fechá os zói pra sempre.

(Página termina com um desenho malfeito de uma estrada longa, cercada de crânios
pequenos no chão.)

Nota de rodapé abaixo do desenho: “Talvez seja minha sina carregar os mortos junto comigo.”
📕 sem data – folha véia, meio rasgada

faz é muito tempo q não escrevo nesse cadernin


eu ate tentei para de lembra
mas tem coisa q fika na cabeça igual ferrugem em lamina d’agua parada

larguei a vida
larguei os home
larguei os tiro… ou pelo menos tentei

mas hoje eu pensei…


talvez eu precise deixa umas coisa escrita
vai que um dia alguem ache
ou vai que eu só queira ver com os olho o q o coração anda gritando

voltei a escrevê aqui pq conheci um sujeito.


grande feito burro bravo, fala pouco, bate forte.
nome dele é Zeca Tijolo

parece que tem mais coisa esperando nóis adiante

[16 de julho de 1886]


(Desenho de um homem forte e com bigode sentado em um balcão, na frente de um
velho gordinho servindo uma dose de pinga)
Legenda: “zeca e eu no almoso. o home come igual cavalo, mas é firme.”

[16 de julho de 1886]


Chuva grossa e estrada ruim. Eu e Zeca, só nóis e a raiva.

fomo atrás dos urucum. zeca disse que sabia d’uns falatório, e pegamo estrada no mei
do mato.
chuvona caiu sem dó. lama até na alma.
mas quando o cabra tem motivo, nem trovão segura os pé.

achamo o acampamento deles perto dum matagal, um rancho improvisado com barril
de rum numa carroça que eles tinha roubado. rum velho, daqueles que dá três nó na
língua e sete no juízo.

a coisa descambô.
começô com berro, virô soco, e de repente era bala pra todo lado.

zeca tava descendo o cacete num dos cabra, eu cobri com tiro.
tinha muito vidro, barril, fogo.
o barril explodiu com um tiro perdido.
vidro voô que nem asa de morcego.
pegô na gente.
zeca levou nas costa, eu nus braço.
o lider dos urucum foi estourado na hora, despedaçado igual cabaça de feira.

os dois outro correram.


fugiçaram no mato feito tatu com medo.
deixaro tudo: arma, sangue e o cheiro podre de rum e morte.

[16 de julho de 1886]


Silêncio doido na cidade. Só o sino da igrejinha tocando miúdo.

matamo um, ferimo nóis, e os outro fugi.


voltamo pra cidade de noite, moído de dor e cansaço,
e dormimo na pousada de um conhecido do zeca, que olha torto pra ele por causa de
mulher.
não é assunto meu.

hoje cedo, logo depois do café com pão duro e café aguado, vimo o povo reunido na
rua.
o Tião foi assassinado.

pus o chapéu no peito e chorei quieto, por dentro.


zeca carregô o caixão com outros dois.
fiz prece calada.
o mundo perdeu mais um homem bom. e eu, mais um pedaço de mim.

tamos indo embora.


zeca quer ir pra Belo Horizonte, descobrir quem financia essas aposta suja de luta.
eu falei que vou com ele.

se ele me ajudar, eu ajudo ele.


mas no fundo...
talvez seja eu que precise dele mais do que ele de mim.

17 de jurrio de 1886 – de manhã cedo


chegamo em belo horizonte ontem de tardinha.
não é mais lugar pra home que nem eu não. cidade tá cheia de luz, carruage ki anda sem
boi nem cavalo, povo engravatado.
tem prédio grande que sobe igual pé de buriti no cerrado.
fiquei só calado olhando.
o oeste selvagem não é mais tão selvage.
e talvez não tenha mais lugar pra mim.

17 de jurrio de 1886 – de noitinha


hoje arrumamo uma briga pro zeca. luta embaixo dum galpão de zinco, nus fundo do
espinha de peixe, cheio de gente rica gritando e apostando.
jogaram ele contra um bruto, parecia um boi de duas perna.
mas o zeca... ô bicho teimoso. apanhou até dobra o joelho, mas levantô.
e quando batia, parecia pata de burro. o outro caiu que nem saco de milho.
zeca é igual enxurrada de enchente — devagar pra começar, mas quando vem, arrasta
tudo.

🖉 desenho na lateral da folha:


traços tortos de dois homens lutando, com um monte de cabecinha olhando.
acima está escrito:

“zeca contra o armário”

20 de jurrio de 1886 – de manhãzinha


ficamo três dia parado pra zeca sarar. o homem tava tudo roxo e cuspindo sangue,
parecia que ia abotoá o paletó.
mas tá firme.
saímo do hotel hoje cedim, era umas nove.
foi ali na esquina que nóis topô com o tal do toninho.
tem olho de gente que já perdeu muito. me lembra eu memo, mas talvez ele dê mais
jeito que eu.
vou tentá puxá ele pro caminho que presta... ou pelo menos pra um que não mate tudo
dentro.

21 de jurrio de 1886 – di tarde


o roubo do trem foi um inferno.
o plano era certo, mas toninho se atrapalho e explodiu os vagão tudo — até os do povo
simples.
morreu gente demais.
e o zeca… zeca caiu.
as bala dos boina branca pegaro nele quando corria.
tentei dar cobertura pa ele, gritava, mas ele já tava caindo devagar.
matei tudo os boina branca, pegamo o corpo do zeca e enterramo, tampei com terra com
a mão.
botei o potinho de pimenta que ele roubô do tião do lado.
sô um home qubrado, e acho que não conserta mais não.

🖉 desenho simples:
uma árvore torta, um montinho de terra embaixo dela, e do lado um frasco desenhado
com o nome:

“pimenta do tião – onde zeca dorme

Zeca caiu. Eu fiquei em pé.


Ele salvô minha vida e eu num pude salvar a dele.
Talvez eu tenha puxado ele pra essa vida ruim.

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