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CASSIANO AMORIM - Geografia Escolar

Geografía escolar

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Instrumento

Geografia escolar e as experiências da


cartografia com crianças: construindo mapas
do Colégio de Aplicação João XXIII
Bruno Muniz Figueiredo Costa*
Cassiano Caon Amorim**

Resumo

O presente trabalho apresenta reflexões sobre uma experiência no ensino de Geografia desenvolvida durante
o ano de 2012 nos módulos de ensino especializado do Colégio de Aplicação João XXIII/UFJF, com
crianças do sexto ano do ensino fundamental. Como as vivências geográficas das crianças se tornam presentes
nas práticas escolares? As crianças são contempladas pela Geografia Escolar em sua condição de sujeitos situados
geograficamente? – são algumas inquietações que buscamos responder.

Palavras-chave: Mapas vivenciais. Cartografia com crianças. Geografia escolar. Ensino de Geografia.

Introdução
“A atividade foi muito interessante. E gostei do modo como os professores perceberam que a nossa visão do mundo, do relevo, do
lugar onde estamos, onde vivemos, também é importante, para a sociedade, ou pelo menos, para nossa formação
(…).”
M. F.1 – 12 anos

A Geografia escolar com crianças desperta o nosso interesse por toda a riqueza de expressões variadas dos
processos e dinâmicas espaciais que estes sujeitos, cotidianamente, nos apresentam em suas práticas na escola. A
utilização da expressão com crianças ao invés de para crianças resume o nosso olhar. A mudança de pronomes
nos ajuda a falar com e sobre sujeitos sociais ativos, cujas lógicas geográficas próprias interferem no movimento
do mundo.
Ao lermos o relato acima na epígrafe do texto, percebemos que o fato de ter a sua visão de mundo contemplada
por uma prática de ensino é para a estudante algo muito enriquecedor e marcante. Isso reafirma nossa intenção de
desenvolver propostas e metodologias de ensino em que as crianças e os outros estudantes sejam colaboradores, que
trabalhem junto, participando ativamente da condução de seus estudos e de seu desenvolvimento.
As reflexões que este texto traz referem-se à produção de mapas que foram construídos utilizando uma
metodologia denominada mapas vivenciais (Lopes, 2012b). Temos tentado criar, junto com elas, uma metodologia
de ensino em que a cartografia traga novas possibilidades de representação e leitura do espaço geográfico, além de
lhes garantir a autoria na produção dos seus mapas.

*
Doutor em Geografia Humana pela USP e professor do CAp. João XXIII/UFJF. E-mail: [email protected]
**
Doutor em Geografia Humana pela USP, professor da FACED e do PPGE/UFJF.

Instrumento: R. Est. Pesq. Educ., Juiz de Fora, v. 17, n. 2, jul./dez. 2015


Geografia escolar e as experiências da cartografia com crianças:
construindo mapas do Colégio de Aplicação João XXIII

1. C artografia escolar e as vivências De alguma maneira, o que as crianças nos dizem


das crianças é que essa concepção naturalista não se sustenta, ou,
pelo menos, para nós educadores, tal concepção não
“Para mim é muito importante o modulo de mapas deve ser mais reforçada. Afinal, ele se apresenta como
vivenciais, pois além de representar o nosso lugar e
mostra também as nossas historias de nossas vidas.” um sujeito situado no tempo e no espaço, com histórias
L. – 12 anos e lugares que chama de “nossos”.
Apoiados em James e James (2001, p. 1), e Jenks
A transcrição do comentário acima nos indica o (2002, p. 186), selecionamos três importantes aspectos
quanto a cartografia trabalhada na escola pode tornar- do que denominavam nos anos 1990 o novo paradigma
se especial ferramenta do processo de representação e, para a Sociologia da infância:
portanto, de significação do mundo. Nossas crianças • Infância como construção social – aquilo que
têm muito a dizer sobre o que vivem e onde vivem, se concebe como infância varia de acordo
ou seja, sobre a Geografia que constitui tais vivências. com o contexto sócio-histórico-cultural em
Acreditamos que seja possível uma representação que se insere. Portanto, não há um modelo
cartográfica das vivências, considerando em tais único de infância, o que nos possibilita falar
possibilidades representativas a autoria infantil. em crianças e suas infâncias.
Tradicionalmente, as crianças tiveram suas vozes • Criança variável de análise social – a criança
sufocadas por uma concepção hegemônica de infância é passível de análise por si mesma, e não pelo
tomada pelas ausências, pelo que lhes falta para atingir que há de ser, assim como outras categorias,
aquilo que se considera completo: a condição adulta. No como classe, gênero e etnia.
entanto, na clareza de suas palavras, o estudante afirma • Crianças sujeitos sociais ativos – crianças
a importância de representar seu lugar e história de suas participam ativamente na condução de suas
vivências, deixando pistas de que sua ação no mundo vidas e daqueles com os quais convivem,
ultrapassa a concepção simplificadora de que é preciso interferindo do sistema cultural ao qual se
crescer para virar gente. insere, produzindo, portanto, histórias e
Para Heywood (2004, p. 10), até a modernidade, a geografias.
criança no mundo ocidental era considerada meramente
um adulto imperfeito. Mesmo que o olhar sobre a Nas relações que a criança estabelece desde
criança tenha assumido algumas variações ao longo do o seu nascimento, o mundo lhe é apresentado pela
tempo, guardou como aspecto comum a importância mediação do outro – seja um adulto ou outra criança
atribuída à criança como ser em potencial, e não pela –, pelos sistemas simbólicos existentes na cultura.
criança em si. Através de tais relações, nossas crianças conduzem o
A infância, por sua vez, era tomada como etapa seu desenvolvimento, construindo e elaborando suas
fundamental de preparação para a vida adulta. Era interpretações do mundo. Dessa forma, colaboramos
necessário encontrar mecanismos para “(…) transformar com o desenvolvimento do outro ser humano através
a criança imatura, irracional, incompetente, associal e das vivências compartilhadas, mediadas pela cultura
acultural em um adulto maduro, racional, competente, (Prestes, 2010, p.129)2 .
social e autônomo” (idem, p. 11). Segundo Vigotski,

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Instrumento

A vivência é uma unidade na qual, por um pelo trabalho com a cartografia escolar, que nossas
lado, de modo indivisível, o meio, aquilo que se
vivencia está representado – a vivência sempre crianças passam a ter maior contato com a linguagem
se liga àquilo que está localizado fora da pessoa gráfica e com os mapas em uma perspectiva escolarizada.
– e, por outro lado, está representado como eu
vivencio isso, ou seja, todas as particularidades da Sabemos de vestígios de representações
personalidade e todas as particularidades do meio semelhantes a mapas que datam de milhares de anos,
são apresentadas na vivência, tanto aquilo que é
retirado do meio, todos os elementos que possuem presente, portanto, nas práticas das sociedades mais
relação com dada personalidade, como aquilo antigas. Segundo Santos (2002), é a partir do século XVI
que é retirado da personalidade, todos os traços
de seu caráter, traços constitutivos que possuem que a ocorre uma guinada na cartografia, por conta das
relação com dado acontecimento. Dessa forma, expansões marítimas europeias e do desenvolvimento
na vivência, nós sempre lidamos com a união
indivisível das particularidades da personalidade das técnicas cartográficas. Afinal, eram necessários aos
e das particularidades da situação representada na exploradores conhecimentos como medidas, distâncias
vivência (Vigotski, 2010, p. 686).
e demais características dos novos espaços desbravados.
Desenvolve-se uma concepção de representação
Vemos no conceito de vivência uma dimensão
geométrica do mundo como algo quantificável,
que também é geográfica. Essas são questões definidoras
mensurável e totalmente apresentada pelos mapas.
de uma perspectiva teórica e metodológica, que estão
Hegemônica até os dias atuais, a visão cartesiana do
expressas nas falas das crianças. Ao utilizar os termos
mundo alimenta a cartografia através de seus sistemas e
nosso lugar e nossas histórias de vida, elas explicitam
que a sua trajetória de vida não se dá isoladamente. projeções, que são de grande importância, apesar de sua
Ao contrário, é no lugar, ou num conjunto de lugares, quase exclusividade enquanto técnica de representação
que sua história de vida se faz, na vivência com as da superfície terrestre ofuscar outras formas possíveis
outras crianças, com os adultos e com outros sujeitos. de se representar cartograficamente os fenômenos
A potencialidade do espaço geográfico na constituição do espaço geográfico. No entanto, acreditamos que,
dos sujeitos está expressa, em nossa interpretação, nos apesar de ofuscar, não elimina a existência de outras
termos nosso lugar e nossas histórias de vida. possibilidades. As vivências e trajetórias dos sujeitos em
A escola é incluída nessa reflexão como um suas Geografias transbordam o discurso quase exclusivo
privilegiado espaço-tempo na esfera de mediações. da cartografia tradicional.
Afinal, nesse lugar, pensado intencionalmente para Quando tratamos da cartografia escolar,
promover o desenvolvimento das crianças, boa parte do percebemos que os mapas oferecidos às crianças na
patrimônio cultural humano lhes deve ser apresentado. escola geralmente já estão prontos e trazem a visão de
Além disso, ao mesmo tempo em que aproxima as suas um espaço ordenado, homogêneo, racional e cartesiano.
vivências, ajuda a produzir e promover o diálogo entre Essas oportunidades de aprendizagens sobre (das)
suas interpretações do mundo, possibilitando-lhes representações cartográficas são relevantes para um
construir novas, outras interpretações, (re)construindo, conjunto de saberes fundamentais aos estudantes. No
assim, o mundo e a si mesmas, dialeticamente. entanto, entendemos que elas não sejam as únicas
Dentre os diversos artefatos culturais que a escola possíveis de serem elaboradas, principalmente quando
apresenta às nossas crianças, está o mapa. Isto não quer consideramos que representar em mapas os fenômenos
dizer que as crianças tenham contato com o mapa apenas e, quiçá, as vivências geografizadas, requer muito mais
na escola, mas é nas aulas de Geografia, principalmente do que traçar ângulos, retas, linhas, círculos, etc; indo

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Geografia escolar e as experiências da cartografia com crianças:
construindo mapas do Colégio de Aplicação João XXIII

muito além de colocar em mapas os objetos que estão Federal de Juiz de Fora, contando com turmas de ensino
nos lugares. No âmbito escolar, acreditamos que essa fundamental (primeiro e segundo segmentos), ensino
possibilidade tem se configurado como um bom exercício médio e educação de jovens e adultos, além de diversos
para se pensar sobre os espaços geográficos e seus sujeitos. projetos voltados para a comunidade. Como um CAp.,
Daí, nessa experiência com os mapas vivenciais, tem como uma de suas funções o desenvolvimento de
consideramos o termo mapa para representações livres, novas metodologias de ensino, a serem trabalhadas com
que, como constatamos, incluem: visões verticais do estagiários e bolsistas das licenciaturas.
espaço geográfico, tentativas de redução proporcional Em sua grade curricular, o CAp. conta com os
do espaço cartografado, traçado dos elementos presentes módulos de ensino especializado. Trata-se de propostas
nos lugares, textos, transcrições de falas dos estudantes, alternativas e experimentais criadas pelos professores
desenhos livres, entre outras formas representativas. Isso que oferecem aos estudantes a oportunidade de
é o que nos tem feito refletir sobre outras possibilidades estudar temas específicos, com metodologias novas, de
de elaboração de mapas que contemplem as vivências acordo com o interesse de cada um. Cada turma cursa
das crianças em seus lugares, com suas histórias de vida. determinado módulo durante um trimestre, dividida
As observações de Pérez (2005), corroboram com em dois grupos de aproximadamente 15 crianças, cada
essa nossa abordagem um deles orientado por um professor, com um encontro
de cinquenta minutos por semana.
As feituras do espaço materializam-se nos mapas que Em 20114, oferecemos para as turmas do sexto
as crianças traçam. A descrição de seus percursos
é uma atividade conceitual – a produção do mapa
ano do ensino fundamental um módulo denominado
permite a criança colocar em diálogo os saberes (e Mapas Narrativos: olhares para o espaço vivido5. Essa
conceitos) cotidianos com os saberes (e conceitos)
já era uma tentativa de viabilizar um curso construído
científicos – de ampliação seus conhecimentos
sobre o espaço e sua leitura de mundo. (Grifo da com a colaboração das crianças. Essa atividade tem
autora. Pérez, 2005, p. 16)
inspiração na metodologia dos mapas narrativos, em que
as representações cartográficas e seus recursos visuais
Assumindo os riscos de se pensar e propor são complementados por narrativas biográficas através
alternativas ao trabalho de cartografia com crianças da fala e da produção textual (Lopes, 2012, p. 163).
é que, desde o ano de 2011, desenvolvemos um curso O curso desenvolvido ao longo de 2011 foi sofrendo
de cartografia escolar no qual temos insistido em uma uma série de modificações e reelaborações, de acordo
cartografia produzida pelos(as) estudantes, para que com as contribuições e sugestões trazidas pelas crianças,
nos aproximemos mais de suas vivências no espaço professores e demais participantes.
geográfico e que também lhes possibilite novos campos Embora fosse uma importante possibilidade,
de significação a partir da construção de cartografias a perspectiva dos mapas narrativos não dialogava
próprias. plenamente com os referenciais teóricos que
compartilhamos, especialmente a perspectiva histórico-
2. M apas vivenciais do Colégio de cultural de Vigotski. De base fenomenológica, o mapa
A plicação João XXIII/UFJF narrativo olha para a subjetivação. Porém, por meio dos
estudos implementados junto aos grupos de pesquisa
Situado em Juiz de Fora/MG, o CAp.3 João já mencionados, entendíamos que o mapa é uma
XXIII é uma unidade de ensino da Universidade representação inseparável do processo vivencial dos

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Instrumento

sujeitos. Portanto, permanece no “entre” do sujeito e seu se em um importante momento, no qual se tem
meio, na unidade de vivência. possibilitado às crianças ter acesso às representações
Em 2012, o módulo de aprendizagem foi diversas da superfície terrestre, reforçando sua
reelaborado, passando a ser chamado de módulo de importância e contribuição.
mapas vivenciais do CAp. João XXIII/UFJF. A partir
do entendimento de que as crianças produziam uma Reflexões sobre as vivências: o segundo
representação de suas vivências compartilhadas com momento é dedicado ao registro das vivências das
seus pares e adultos, reorganizamos as atividades crianças no espaço escolar, sendo uma oportunidade
para que privilegiasse suas cartografias a partir dessa para que elas reflitam sobre a importância do espaço em
concepção. Para contextualizarmos o leitor, é importante seu cotidiano e se reconheçam como sujeitos geográficos
lembrarmos que a atividade foi realizada com crianças de fato. São atividades propostas para que as crianças
do sexto ano do ensino fundamental, com idade media
possam levantar outros atributos de suas vivências que,
entre 11 e 12 anos. Além disso, o fato do ingresso no
geralmente, não são contemplados quando trabalhados
CAp. ser por sorteio, e garantir a vaga de cada criança
pela cartografia escolar. A seguir, apresentamos algumas
desde o primeiro ano do ensino fundamental até a
atividades que desenvolvemos no decorrer dessa etapa
conclusão do ensino médio, traz ao módulo crianças
do trabalho:
que já convivem no espaço do CAp. há, pelo menos, seis
• Fotografias do CAp. – a turma foi organizada
anos, em sua maioria. Estas são as características que
em pequenos grupos e a eles era proposta
nos fizeram manter a escola como espaço privilegiado
a elaboração de um roteiro de visitação no
pelas cartografias das crianças.
colégio. Era como se os estudantes criassem
As atividades envolvendo a construção dos
um guia da escola. Eles deveriam refletir
mapas do CAp. com as crianças foram organizadas
em três grandes eixos, os quais serão aqui brevemente sobre os lugares que um visitante precisaria
apresentados: conhecer, e que julgassem mais importantes
neste espaço. Posteriormente, produziram
História da Cartografia: nesse primeiro fotografias dos lugares e elaboraram
momento do trabalho, discutimos com os(as) estudantes argumentos que justificassem suas escolhas.
a importância da cartografia para a sistematização do • Visita guiada – os grupos da atividade
conhecimento humano sobre o mundo. Para tanto, anterior receberam visitantes (estudantes
realizamos um resgate de sua história, desde os primeiros do curso de licenciatura em Geografia,
registros até o desenvolvimento das tecnologias estagiários no CAp.) e, de posse do roteiro
mais contemporâneas de representação da superfície de visitas, elaborados anteriormente com as
terrestre. As crianças vão percebendo como a produção fotos impressas, guiaram os visitantes pelo
cartográfica está atrelada ao contexto sociocultural, às espaço do João XXIII, apresentando os
condições técnico-científicas disponíveis, bem como a lugares e suas justificativas para tais escolhas.
importância dos elementos que constituem um mapa. • Contação de histórias – as crianças foram
Para o desenvolvimento desse momento, convidadas a refletir sobre todo o período em
utilizamos imagens de mapas antigos, filmes, GPS e que estudaram no CAp. Esse momento serviu
animações disponíveis em sites da internet. Constitui- para que elas rememorassem vivências que

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Geografia escolar e as experiências da cartografia com crianças:
construindo mapas do Colégio de Aplicação João XXIII

considerassem interessantes e significativas visões, criando estratégias de representações e


nesse espaço. Solicitamos, também, que as trabalhando também em outros planos.
crianças falassem sobre o que recordaram. • Vegetal – com uma folha de papel vegetal
As narrativas poderiam ser sobre qualquer A4, as crianças deveriam criar simbologias e
assunto, desde episódios alegres, difíceis, estratégias para responder, representando no
tristes, de mudanças, entre outros que, mapa, as seguintes questões: Quais lugares
porventura, também se recordassem ou você gosta e quais você não gosta? Quais lugares
tiveram alguma participação. você acha bonito e quais você acha feio? Em
• O uso da planta do CAp. – as atividades quais lugares você pode ir sozinho e em quais
guardavam dois objetivos: compreender as não pode ir? Que lugares te causam medo?
transformações sofridas pelo espaço da escola; Quais são os lugares que você mais frequenta
e incluir na planta elementos das vivências que e quais são os que você menos frequenta?
as crianças consideravam importantes de serem Imagine transformações que você gostaria que
também cartografadas, ou seja, que deveriam acontecessem no espaço da escola e tente colocá-
estar presentes no mapa do CAp. Nessa tarefa, las no mapa.
solicitamos às crianças que caminhassem Estas questões foram definidas pelos professores
pelo espaço da escola, que fossem a lugares já no módulo de 2011 e foram reelaboradas de acordo
que gostariam de ver representados, que com as demandas apresentadas pelas crianças. A última
observassem os detalhes que não constavam questão, inclusive, trabalha uma possibilidade da
no mapa já conhecido da escola. cartografia em uma dimensão prospectiva, em que a
criança imagina o que poderia ser. Após o procedimento
Outras cartografias possíveis: neste terceiro vegetal, encerra-se o aspecto gráfico do mapa. A
momento, as crianças foram convidadas a repensar a produção encontra-se nas condições apresentadas pela
representação do espaço da escola pela planta e como figura a seguir:
seriam outras possibilidades de cartografia que não
estivessem necessariamente calcadas nos modelos
convencionais. Como sujeitos geográficos de fato, as
crianças puderam reconhecer-se como produtoras de
suas próprias cartografias. As atividades propostas
foram: Figura 1 – Mapas vivenciais de crianças do Colégio de
• Base – chamamos de base a delimitação que Aplicação João XXIII.
fizemos do Colégio de Aplicação a partir Fonte: Elaborada pelos autores.
de uma imagem de satélite em um plano
vertical, impressa em papel A4. Apesar do De posse da produção gráfica, as crianças
receio de limitar a representação das crianças continuam a produção de seus mapas em outras duas
à perspectiva de tal plano, percebemos que elas atividades:
não se restringiram, necessariamente, a isso. Ao • Entrevista – ao longo dos momentos da
contrário, ousaram extrapolar as delimitações e base e do vegetal, as falas das crianças

248 Instrumento: R. Est. Pesq. Educ., Juiz de Fora, v. 17, n. 2, jul./dez. 2015
Instrumento

durante as representações foram registradas


pelos professores, estagiários e bolsistas,
viabilizando a organização de entrevistas
semiestruturadas. Nosso objetivo era
contemplar a linguagem verbal das crianças
em seus mapas, reconhecendo em tais
falas aspectos geográficos de uma vivência
que nem sempre são cartografáveis. As
entrevistas eram personalizadas e as crianças,
organizadas em duplas, entrevistavam os
seus colegas e faziam os registros.
• Texto – além da produção, gráfica e oral, Figura 3 – Texto escrito do mapa vivencial 1.
contemplamos também a linguagem escrita, Fonte: Elaborado pelas crianças.
através da produção de textos, que foram
considerados como mais uma possibilidade
de representação do espaço geográfico.
As crianças deveriam refletir sobre suas
vivências a partir das representações gráficas
e das entrevistas que concederam e, então,
produzir os seus textos sobre tais vivências.
Entendemos que a sequencia metodológica
expressa por: base, vegetal, entrevista e texto, não possam
ser considerados separadamente. Afinal, constituem
conjuntamente os mapas vivenciais construídos pelas
crianças. A concepção final dos mapas vivenciais6
ocorre como no exemplo que compartilhamos a seguir: Figura 4 – Entrevista do mapa vivencial 1.
Fonte: Elaborada pelas crianças.

Para Vigotski (2010), sujeito e meio formam


uma unidade dialética. É a vivência das situações
sociais de desenvolvimento possibilitadas pelo meio que
conduz nossa humanização e faz com que os diferentes
lugares constituam nossa subjetividade. Tudo isso
leva à produção de uma cartografia em que a vivência
conduz não apenas à produção de novas estratégias de
representação do espaço geográfico, mas também do
conteúdo registrado no mapa.
Figura 2 – Representação gráfica do mapa vivencial 1.
A base entregue para as crianças traz o contorno
Fonte: Elaborada pelas crianças.
do espaço da escola em uma visão vertical, o que

Instrumento: R. Est. Pesq. Educ., Juiz de Fora, v. 17, n. 2, jul./dez. 2015 249
Geografia escolar e as experiências da cartografia com crianças:
construindo mapas do Colégio de Aplicação João XXIII

dificulta a representação dos prédios com mais de um cartográfica, promover com as crianças e outros sujeitos
andar. No entanto, no mapa em questão, a força do a construção de seus mapas, dos lugares de suas vivências
que é vivenciado, aliada a estratégias de representação reais e, por que não, também de lugares imaginários,
geográfica, possibilitou à criança autora a criação possibilitando lidar com aspectos, por exemplo, do
de mecanismos e simbologias que lhe permitiram ordenamento ou planejamento dos espaços, numa
representar edificações de dois andares em um mapa perspectiva de fomentar a ação dos sujeitos nos lugares.
plano, bidimensional. Tais experiências com a cartografia com crianças
De acordo com o título do texto escrito pela e a elaboração de mapas vivenciais tem configurado
criança, o mapa comporta “A vida e as emoções” de em uma experiência ímpar, que busca ampliar as
um estudante que vivencia o espaço escolar por suas possibilidades de usos de mapas e outros recursos visuais
intensidades, na relação com seus pares e nos embates, e gráficos com os estudantes, na Geografia escolar.
negociações e conformações com o cotidiano escolar.
Possivelmente, as condições adversas em um ano 3. Considerações finais
de greve e reposição de aulas tenham dado o tom de
inconformismo de suas palavras. Durante o desenvolvimento do módulo
Nesse sentido, um mapa que lhe possibilita refletir de aprendizagem, houve a preocupação com a
sobre diferentes aspectos e usos de um lugar tão presente aprendizagem cartográfica do mapa enquanto uma
em suas vivências também lhe possibilita conhecer produção processual. Aproximando as suas vivências dos
um pouco mais de si mesmo, e, para nós, leitores de elementos do mundo adulto, as crianças nos brindaram
mapas e outras representações do espaço geográfico, tais com cartografias outras, portadoras de suas vivências,
mapas das vivências possibilitam também um maior representativas das formas-conteúdos reconhecidas por
conhecimento dessas crianças, que se apresentam como elas ao estarem no mundo, nos lugares.
autoras das suas próprias cartografias. Um mapa é uma representação, e, como tal,
Além disso, as atividades de produção cartográfica nunca dá conta de representar toda a realidade. Os
também serviram como suporte à atividade imaginária. mapas vivenciais também não representam todas as
Em seu mapa, o estudante também partilhou alguns possibilidades de existência dos objetos e seres na
anseios e situações imaginárias de mudanças no espaço superfície terrestre. Porém, ao contemplar outras
escolar, tais como um heliporto, área de paintball7 e sala linguagens e maneiras de expressão (escrita, oral,
de videogame. fotografias), os mapas vivenciais ganham uma dinâmica
Podemos dizer que produzir mapas com (cheiros, sons, sentimentos, movimentos, entre outros)
crianças nos possibilita apresentar os métodos tão diferente dos mapas tradicionais. As estratégias de
bem fundamentados pela cartografia sistemática, representação utilizadas pelas crianças trazem consigo
desenvolvendo aspectos da alfabetização cartográfica um vasto repertório de possibilidades. Constatamos
(Passini, 2012), quando nos é possível desenvolver que, na produção de seus mapas vivenciais, as crianças
competências e habilidades de elaboração, leitura e repensam o espaço vivenciado e nos apresentam suas
interpretação de tais documentos. Acrescentamos que, interações, rearranjos espaciais, conflitos, negociações,
na metodologia que ora apresentamos, podemos, além subversões do espaço, enfim, suas maneiras de estar,
de trabalhar com as possibilidades da alfabetização sentir, ver e representar.

250 Instrumento: R. Est. Pesq. Educ., Juiz de Fora, v. 17, n. 2, jul./dez. 2015
Instrumento

Na continuidade do módulo ao longo dos Keywords: Experiential maps. Cartography


últimos anos, as crianças trouxeram contribuições with children. School Geography. Geography
decisivas, desde a proposição e sugestão de atividades teaching.
até a sua condução total (como no caso das entrevistas).
Certamente, não tentamos fazer uma transposição ou Geografía de la escuela y las
adaptação de uma metodologia de pesquisa. Apensas a experiencias de cartografia con
utilizamos como inspiração, pelo olhar que dispensam niños: haciendo mapas del Colegio
para a vivência dos sujeitos, para o desenvolvimento de de A plicación João XXIII/UFJF
uma nova metodologia de se ensinar e aprender sobre e
ao mesmo tempo, pelo espaço geográfico. Resumen
As atividades possibilitaram à criança ir além de
si, em um movimento revolucionário de apreensão da Este artículo presenta reflexiones sobre una
realidade. Ensinaram ainda aos adultos – professores experiencia en la enseñanza de la Geografía
e estudantes de licenciatura em Geografia – que são desarrollado durante el año 2012 en los Módulos
possíveis outras estratégias de se aprender coisas sobre de Educación Especializada del Colegio João
o mundo, de maneiras diferentes, sob outra perspectiva, XXIII / UFJF con niños de 6 años de la escuela
sob outros olhares, e, no dos mapas vivenciais, sob primaria. ¿Como las experiencias geográficas se
outras representações do espaço, do lugar. Construindo hacen presentes en las prácticas escolares? ¿Los
os seus mapas vivenciais, as crianças ressignificaram niños están cubiertos por la geografía de la escuela
as suas vivências, imaginaram, fizeram propostas. Em en su calidad de sujetos situados geográficamente?
última instância, produziram Geografias. Estas son algunas de las preocupaciones que
buscamos respuesta.
Schoolar Geography and
cartographic experiences with Palabras clave: Mapas experienciales.
children: building maps of João Cartografía con los niños. La geografía de la
XXIII A pplication College escuela. La educación geográfica.

Abstract Notas
1
Os nomes das crianças foram abreviados para preservar suas
This article presents reflections on an experience identidades.
in teaching Geography developed during 2012 2
Segundo Prestes (2010, p. 49), o termo russo perejivanie (vivência)
não indica uma perspectiva interacionista entre sujeito e ambiente
in Modules of Specialized Education in John social, mas sim de unidade dialética.
3
Colégio de Aplicação.
XXIII School/UFJF with 6th elementary 4
Sobre as atividades desenvolvidas por este módulo, consultar os
school students. How geographical experiences anais do III Seminário de Grupos de Pesquisa sobre Crianças e
Infâncias – GRUPECI, realizado em Aracaju/SE, em 2012.
of children become present in schoolar 5
Este trabalho foi realizado com a colaboração do GRUPEGE/
FACED/UFJF – Grupo de Pesquisas e Estudos em Geografia
practices? Children are covered by the Schoolar Escolar, coordenado pelo professor Dr. Cassiano Caon Amorim
e do GRUPEGI/UFF/UFJF – Grupo de Pesquisas e Estudos em
Geography in their capacity as subjects located Geografia da Infância, coordenado pelo professor Dr. Jader Janer
geographically? These are some concerns that we Moreira Lopes.
6
Para organizar e dar visibilidade aos trabalhos desenvolvidos,
seek to answer. elaboramos um Projeto de Treinamento Profissional para criação

Instrumento: R. Est. Pesq. Educ., Juiz de Fora, v. 17, n. 2, jul./dez. 2015 251
Geografia escolar e as experiências da cartografia com crianças:
construindo mapas do Colégio de Aplicação João XXIII

de um blog, onde fossem guardadas e exibidas as produções VIGOTSKI, L. S. Quarta aula: a questão do meio na
cartográficas das atividades. O blog de Mapas Vivenciais do pedologia. São Paulo: Psicologia USP, 2010.
Colégio de Aplicação João XXIII/UFJF foi desenvolvido pelo
bolsista Tacílio Gonçalves da Silva e pode ser acessado pelo link
<http://www.mapasvivenciaisdojoao23.blogspot.com.br>.
7
Jogo em que os participantes simulam uma guerra, armados com Enviado em 11 de março de 2015.
brinquedos que disparam balas de tinta.
Aprovado em 11 de abril de 2015.

R eferências

HEYWOOD, C. Uma história da infância: da idade Idade


Média à época contemporânea no Ocidente. Porto Alegre:
Artmed, 2004. 248 p.

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Academy of Political and Social Science, 575, p. 25-37, May
2001. 15 p.

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