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Relatório Bombeiros

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UNIVERSIDADE FEDERAL DE SERGIPE

CENTRO DE CIÊNCIAS BIOLÓGICAS E DA SAÚDE


DEPARTAMENTO DE MEDICINA
SAÚDE DO TRABALHADOR

Antônio Félix Cardoso Júnior


Bruna Isabelle Santos Figueiredo
Clarissa Avancini
Gabriel Mota de Oliveira
José Emerson de Oliveira
Lívia Andrade Santos
Lucas Arruda Lima
Marcos César Dias dos Santos
Mariana Souza Monteiro

RELATÓRIO DA VISITA DO CORPO DE BOMBEIROS AO HOSPITAL


UNIVERSITÁRIO

ARACAJU, SERGIPE
2025
Antônio Félix Cardoso Júnior
Bruna Isabelle Santos Figueiredo
Clarissa Avancini
Gabriel Mota de Oliveira
José Emerson de Oliveira
Lívia Andrade Santos
Lucas Arruda Lima
Marcos César Dias dos Santos
Mariana Souza Monteiro

Relatório da visita realizada pelo Corpo de


Bombeiros ao Hospital Universitário (HU)
em 11 de agosto de 2025, para a disciplina
Saúde do Trabalhador, do curso de Medicina
da Universidade Federal de Sergipe.

Docente: Gilberto Andrade Tavares

ARACAJU, SERGIPE
2025
SUMÁRIO

1. INTRODUÇÃO ………………………………………………………………… 4

2. O CORPO DE BOMBEIROS MILITAR DO ESTADO DE SERGIPE …… 4


2.1 IDENTIFICAÇÃO DO SERVIÇO …………………………………………… 4
2.2 ROTINAS DO SERVIÇO, ESTRUTURA DE CARREIRA E DIVERSIDADE 5
3. ATENDIMENTO PRÉ-HOSPITALAR E PRIMEIROS SOCORROS …… 6
4. SERVIÇOS PRESTADOS À COMUNIDADE ……………………………… 9
5. PROJETOS COMUNITÁRIOS E EVENTOS ……………………………… 10
6. SAÚDE OCUPACIONAL E DESAFIOS …………………………………… 12
7. APRENDIZAGEM, AVALIAÇÃO E REFLEXÃO ………………………… 14
8. CONCLUSÃO: ………………………………………………………………… 15
9. REFERÊNCIAS: ……………………………………………………………… 17
1. INTRODUÇÃO

O cuidado com a saúde ocupacional é um eixo central para a qualidade de vida e para
a eficácia do trabalho em qualquer categoria profissional, mas ganha especial relevância
quando se trata de bombeiros militares. Esses profissionais estão diariamente expostos a
situações extremas que exigem preparo físico, estabilidade emocional e domínio técnico.
Incêndios, acidentes de trânsito, afogamentos, soterramentos, contato com produtos químicos
e risco iminente de morte compõem sua rotina, exigindo que a gestão da saúde do trabalhador
seja constante e eficiente.

Garantir o bem-estar físico e mental não é apenas uma preocupação assistencial: é


uma estratégia essencial de preservação da força de trabalho. A promoção da saúde, a
prevenção de agravos e a vigilância ocupacional devem caminhar lado a lado com a
capacitação técnica e a disponibilidade de equipamentos adequados. Nesse sentido, a atuação
do Corpo de Bombeiros Militar de Sergipe (CBMSE) revela uma combinação de
intervenções voltadas tanto ao atendimento da população quanto à proteção integral de seus
próprios profissionais.

A visita ao Hospital Universitário permitiu vivenciar, de forma prática e didática, esse


universo. Foram demonstradas manobras de primeiros socorros, simulações de atendimento
pré-hospitalar e discutidas estratégias de cuidado ocupacional, mostrando como teoria e
prática se entrelaçam no dia a dia da corporação.

2. O CORPO DE BOMBEIROS MILITAR DO ESTADO DE SERGIPE:

2.1 IDENTIFICAÇÃO DO SERVIÇO:

O Corpo de Bombeiros Militar do Estado de Sergipe é uma instituição centenária,


com atuação consolidada em diferentes frentes. A corporação é responsável não apenas pelo
enfrentamento de incêndios, mas também pela resposta a acidentes de trânsito, desastres
naturais, afogamentos, ocorrências com produtos químicos e situações de resgate em altura.
A amplitude de atuação exige que seus profissionais possuam preparo físico, técnico e
psicológico, aliados a uma disciplina rígida e a uma cultura organizacional voltada para o
serviço à coletividade.

Durante a visita, ficou evidente o compromisso do CBMSE com a formação contínua


de seus integrantes. O ingresso na carreira pode se dar em diferentes níveis, desde o quadro
de praças até o de oficiais, sendo exigidos cursos específicos de formação e atualização
periódica. A preparação engloba não apenas técnicas operacionais, mas também
conhecimentos em atendimento de urgência, uso de equipamentos modernos e participação
em simulações realísticas. Esse constante aprimoramento assegura que, diante de qualquer
ocorrência, a resposta seja rápida e tecnicamente correta.

Outro aspecto relevante refere-se à estrutura de apoio interno. O Núcleo de Saúde


Ocupacional (NSO) tem papel central no cuidado com os bombeiros, oferecendo avaliações
médicas periódicas, suporte psicológico, acompanhamento de casos de adoecimento físico ou
mental e programas de promoção da saúde. A existência desse núcleo demonstra a
consciência institucional acerca do desgaste que a atividade impõe e da necessidade de
preservar a integridade do profissional, que, em última instância, é o recurso mais valioso da
corporação.

2.2 ROTINAS DO SERVIÇO, ESTRUTURA DE CARREIRA E DIVERSIDADE:

O cotidiano do bombeiro militar combina a imprevisibilidade inerente ao chamado de


emergência com uma rotina interna extremamente disciplinada: ao mesmo tempo em que a
corporação exige prontidão imediata para atender ocorrências a qualquer hora do dia ou da
noite, mantém agendas rígidas de treinamento, manutenção e atualização técnica que
sustentam essa prontidão. A sequência típica de uma escala começa muito antes do
acionamento: inspeção e preparo da viatura e dos equipamentos, checagem de comunicações
e materiais de proteção individual, além de breve alinhamento da equipe sobre tarefas e
responsabilidades — medidas que reduzem o risco de falhas em situações críticas. Ao ser
acionada, a equipe deve agir de maneira organizada e rápida; nos minutos iniciais, a avaliação
da cena (segurança) e a priorização de intervenções (por exemplo, controle de hemorragia
imediata) definem o desfecho clínico potencial da ocorrência.

A rotina operacional pauta-se por múltiplos níveis de atividade: exercícios físicos e


condicionamento regular para manter capacidade de esforço extremo; treinamentos técnicos
diários ou periódicos — que incluem atualização de protocolos, prática de técnicas de APH e
exercícios de resgate —; simulações integradas que reproduzem cenários complexos
(colisões, incêndios estruturais, exposição química, salvamentos aquáticos); e atividades
administrativas relacionadas à manutenção de equipamentos e documentação. Essas práticas
não são apenas exercícios formais: funcionam como preparação prática que torna automáticas
decisões críticas sob estresse. Ao mesmo tempo, há turnos de espera em que o tempo pode
parecer ocioso, alternados por picos intensos de trabalho, o que acentua a necessidade de
gerir fadiga e manter vigilância contínua.

Do ponto de vista do atendimento pré-hospitalar (APH), que é um pilar da atuação, as


rotinas incorporam fluxos bem definidos: chegada e avaliação da cena, proteção do
socorrista, triagem rápida do(s) ferido(s), execução das intervenções prioritárias (XABCDE),
estabilização provisória e comunicação e transferência para serviços hospitalares. Esse fluxo
exige divisão clara de funções dentro da equipe — quem segura a cena, quem faz a avaliação
primária, quem controla hemorragias, quem prepara para transporte — e exige também
protocolos de comunicação com SAMU e unidades receptoras. A prática reiterada desses
passos, em condições controladas e em simulações, permite que a equipe responda de forma
coordenada quando o incidente real ocorre.

A estrutura de carreira articula-se diretamente com essas rotinas. Existem diferentes


portas de entrada — praças e oficiais — e a progressão profissional combina tempo de
serviço com a qualificação em cursos específicos. Com o aumento do nível de
responsabilidade vêm atribuições que mesclam atividade operacional e funções de liderança,
planejamento e formação dentro da corporação. A experiência adquirida em campo é
valorizada e transforma o modo como o profissional organiza a sua rotina: bombeiros com
mais tempo de serviço tendem a assumir papel de comando em ocorrências complexas, além
de participar de instrução e supervisão das equipes mais jovens.

Algumas regras formais influenciam a composição do efetivo e, por consequência, as


rotinas: limites de idade para ingresso (tradicionalmente em torno de 35 anos, sujeitos a
revisão), exigências físicas e acadêmicas para certas funções, e requisitos de reciclagem
periódica para habilitação em procedimentos específicos. Há também perfis especializados —
por exemplo, operadores de salvamento aquático, equipes de prevenção e inspeção, ou
profissionais que assumem funções de saúde dentro da corporação (bombeiro-médico) —
cujo treinamento e rotina diferem em intensidade e foco. Essas especializações permitem
respostas mais precisas em contextos variados, mas demandam cronogramas de treinamento
específicos e investimento em formação continuada.

A diversidade no efetivo tem mudado a face das rotinas: embora historicamente a


corporação tenha sido predominantemente masculina, houve crescimento consistente da
participação feminina, o que altera dinâmicas de equipe, amplia perspectivas e contribui para
práticas de atendimento mais humanizadas. A presença de diferentes biotipos e perfis nas
equipes também tem impacto prático — a realização de tarefas que exigem força bruta é
compatibilizada com a adoção de técnicas e equipamentos que reduzem sobrecarga física
(alavancas, talhas, técnicas de levantamento em equipe) — permitindo que o desempenho
operacional não dependa exclusivamente do fator físico individual. Essa pluralidade reforça o
papel do treinamento técnico e da padronização de procedimentos como elemento nivelador
da eficácia.

Nem tudo, porém, é apenas técnica: fatores logísticos e contextuais influenciam o dia
a dia da corporação. Chamadas indevidas e trotes constituem um problema recorrente,
consumindo tempo de resposta e recursos, e em relatos da visita foram citados casos de
deslocamentos desnecessários a localidades distantes, o que sobrecarrega escalas e aumenta
exposição ao risco. Além disso, a eventual carência de profissionais de saúde dedicados
internamente (médicos do trabalho, psicólogos, fisioterapeutas) faz com que parte da gestão
de saúde ocupacional — prevenção, triagem e reabilitação — seja realizada de forma
suplementar ao trabalho operacional, implicando em sobrecarga administrativa e em
necessidade de articulação externa para garantia de cuidados. Essas tensões logísticas e
estruturais modificam a rotina cotidiana e tornam imprescindível a capacidade de adaptação
institucional.

Finalmente, a natureza cíclica da profissão — alternância entre alta demanda,


treinamento intenso, períodos de espera e recuperação — impõe desafios ao equilíbrio entre
vida profissional e pessoal. A corporação reconhece isso por meio de programas de
acompanhamento e do Núcleo de Saúde Ocupacional, mas a efetividade dessas medidas
depende de recursos e de continuidade das políticas. Em termos práticos, rotinas saudáveis
incluem periodização do esforço físico, pausas para descanso após ocorrências extenuantes,
turnos que respeitem limites de fadiga e protocolos de suporte psicológico após eventos
críticos. Esses elementos são tão parte da rotina quanto os cheques de equipamentos antes da
saída da viatura, porque sustentam a capacidade continuada de resposta da corporação.

3. ATENDIMENTO PRÉ-HOSPITALAR E PRIMEIROS SOCORROS:

O atendimento pré-hospitalar (APH) apresentado durante a visita revelou-se como


uma sequência lógica e ininterrupta de decisões e ações destinadas a manter a vítima viva e
transferi-la em melhores condições ao ambiente hospitalar. No cerne dessa sequência esteve o
protocolo XABCDE, que organiza as prioridades no trauma com ênfase explícita naquilo que
mata mais rápido: o controle de hemorragias graves (X) como primeira intervenção, seguido
pela manutenção da via aérea (A), avaliação da respiração (B), suporte da circulação (C),
avaliação neurológica imediata (D) e, por fim, exposição completa para identificação de
lesões associada à proteção térmica (E). A experiência prática — especialmente a simulação
do motociclista projetado a vários metros — tornou evidente que esse encadeamento não é
um formalismo, mas um roteiro operacional cuja ordem altera profundamente o prognóstico.

No item X — Exsanguination, a prioridade é identificar e controlar sangramentos


que são, por si só, causas imediatas de morte. Na simulação, a equipe demonstrou técnicas
básicas e eficientes: compressão direta sobre o foco hemorrágico, compressão sustentada com
curativo compressivo e, quando indicado, a aplicação de torniquete proximal em membros
com sangramento arterial de alta vazão. Esses gestos têm por objetivo reduzir rapidamente a
perda de volume sanguíneo e ganhar tempo para outras intervenções. A escolha técnica
(curativo compressivo versus torniquete) foi contextualizada pelo tipo de lesão e pela
resposta hemodinâmica da vítima — nuances que o observador pode perceber apenas em
cenários dinâmicos.

A etapa A — Airway destacou a preocupação permanente com a via aérea: manter a


permeabilidade das vias aéreas e, ao mesmo tempo, proteger a coluna cervical quando há
mecanismo de trauma cervico-encefálico suspeito (colisão com projeção do motociclista). Na
prática observada, a equipe usou técnicas de proteção (imobilização cervical e manobra de
elevação de mandibular quando necessário), monitorou a ventilação espontânea e considerou
o uso de dispositivos de despejo de vias (quando apropriado para o nível de capacitação da
equipe). A prioridade é sempre garantir que o paciente consiga ventilar; vias aéreas
comprometidas exigem ações imediatas porque levam rapidamente à hipóxia e à deterioração
neurológica.

Em B — Breathing, a atenção se volta à eficiência ventilatória e à identificação de


problemas torácicos críticos, em particular ao pneumotórax hipertensivo. Durante a
simulação do politrauma, sinais como respiração assimétrica, dessaturação e desconforto
respiratório orientaram a suspeita de lesão torácica intrínseca. As medidas demonstradas
incluíram avaliação clínica rápida (inspeção, palpação, ausculta quando possível),
administração de oxigênio suplementar e decisões sobre necessidade de descompressão
torácica em cenários de suspeita de tensão — sempre integradas à segurança da cena e ao
nível de competência e recursos disponíveis no local. Essas ações exemplificam como, no
APH, pequenas intervenções imediatas podem reverter uma trajetória rapidamente letal.

O componente C — Circulation envolve não apenas a verificação do pulso e da


pressão periférica, mas também o manejo do choque: controle de hemorragias já iniciado,
estabelecimento de acesso venoso (ou intraósseo, quando indicado), reposição volêmica
inicial e monitorização contínua dos sinais vitais. Na simulação do HU, a equipe demonstrou
a importância da tríade “parar a perda — suportar a perfusão — preparar transporte” — isto
é, estancar sangramentos, administrar medidas para manter perfusão tecidual e organizar
transferência rápida para local com capacidade cirúrgica se necessário. A noção de “tempo-
vida” aparece aqui de forma prática: reanimações e reposição agressiva sem controle da fonte
sangrante tendem a ser infra-efetivas; por isso, a coordenação técnica entre os membros da
equipe é central.

No que tange a D — Disability, a avaliação neurológica rápida (nível de consciência,


resposta pupilar, respostas motoras) permite identificar déficits que alteram prioridades —
por exemplo, rebaixamento do nível de consciência que exige proteção de via aérea ou sinais
de lesão focal que demandem atenção neurológica precoce. A avaliação usada na simulação
foi sucinta, focada em elementos que orientam decisões imediatas, não em escalas
demoradas; o objetivo é detectar alterações que modifiquem o plano de manejo imediato.
Por fim, E — Exposure, além de expor a vítima para procurar outras lesões,
incorpora uma medida que muitas vezes é subvalorizada: a prevenção da hipotermia. No
cenário de trauma, a perda térmica agrava coagulopatia e piora prognóstico; por isso, após a
exposição controlada para inspeção, a proteção térmica com mantas ou cobertores foi
prontamente aplicada, ilustrando que cuidados aparentemente simples têm impacto direto no
curso clínico da vítima.

Ao lado do XABCDE, a visita evidenciou a presença de um conjunto de técnicas de


primeiros socorros de uso mais amplo no cotidiano, cujas demonstrações reforçaram a ideia
de que intervenções relativamente simples podem salvar vidas antes da chegada da equipe
especializada. A manobra de Heimlich foi exemplificada em suas variantes: compressões
abdominais em adultos e crianças maiores e técnica adaptada em lactentes (sequência de
cinco pancadas dorsais intercaladas com cinco compressões torácicas), mostrando como a
biomecânica da manobra muda conforme o tamanho e a fragilidade do corpo. A execução
correta dessas manobras reduz rapidamente o risco de asfixia e é um dos conhecimentos de
maior impacto para a população leiga.

A ressuscitação cardiopulmonar (RCP) também foi demonstrada com atenção aos


aspectos essenciais observáveis: ritmo de compressões vigorosas e contínuas, intercaladas
com ventilações quando indicadas, e a importância da continuidade até a chegada de suporte
avançado. No mesmo bloco, o uso do Desfibrilador Externo Automático (DEA) foi
discutido como recurso decisivo em paradas cardiorrespiratórias de origem cardíaca: a
orientação prática observada foi sobre a disponibilidade do aparelho em locais públicos, a
necessidade de acionamento precoce e a integração do DEA ao fluxo de RCP — fatores que
aumentam significativamente a sobrevida quando combinados com compressões de boa
qualidade.

Além das técnicas específicas, a visita ressaltou princípios transversais do APH: a


avaliação contínua (repetir a A–B–C periodicamente), comunicação clara entre a equipe e
com a unidade receptora, registro sucinto das intervenções realizadas e priorização do
transporte definido (scoop and run versus stay and play) de acordo com o quadro da vítima e
da capacidade de recursos locais. A simulação deixou claro que o APH é tanto um conjunto
de gestos técnicos quanto um sistema complexo de tomada de decisão em cadeia, em que
cada ação (do controle de sangramento à proteção térmica) prepara a vítima para a próxima
etapa do cuidado hospitalar.

Em suma, a parte prática da visita expôs com nitidez que o APH e os primeiros
socorros são uma rede de decisões com impacto temporal imediato: o domínio do XABCDE
e das técnicas básicas (Heimlich, RCP, uso de DEA, controle de hemorragia, proteção
térmica) não é apenas conhecimento técnico — é a base do esforço para transformar eventos
potencialmente letais em casos com chance real de recuperação. A combinação entre
raciocínio clínico, organização de equipe e execução técnica foi o principal aprendizado
observado, reforçando a natureza decisiva do atendimento inicial no desfecho das vítimas.

4. SERVIÇOS PRESTADOS À COMUNIDADE:

A atuação do Corpo de Bombeiros Militar de Sergipe vai muito além das situações de
emergência e das ocorrências que exigem deslocamento imediato de viaturas. Há um eixo
fundamental de sua missão que se concentra na prevenção de acidentes, na educação
comunitária e na promoção da saúde e da segurança no ambiente coletivo e laboral.
Essas ações formam uma rede silenciosa, mas extremamente eficaz, que evita tragédias antes
mesmo que elas aconteçam.

Um dos pilares dessa atuação preventiva são as inspeções em empresas, instituições


públicas e estabelecimentos comerciais. Nessas visitas, os bombeiros verificam de forma
criteriosa a presença, a validade e a adequação dos extintores de incêndio, a sinalização das
rotas de fuga, o funcionamento de alarmes e iluminação de emergência, bem como a
existência de brigadas internas devidamente treinadas. Esse trabalho, que pode parecer
burocrático à primeira vista, é vital para a segurança de centenas de trabalhadores e
frequentadores desses espaços. Em situações de pânico, como em um incêndio ou vazamento
químico, o simples fato de existir uma rota de fuga sinalizada e um extintor em condições
adequadas pode significar a diferença entre uma evacuação tranquila e uma tragédia coletiva.

Outro campo de atuação relevante é a capacitação e o treinamento em primeiros


socorros e brigadas de incêndio. Os bombeiros realizam periodicamente cursos destinados a
funcionários de empresas, professores de escolas, líderes comunitários e até mesmo grupos de
escoteiros. Nesses treinamentos, são ensinadas desde técnicas básicas, como a contenção de
hemorragias e manobras para engasgo, até procedimentos mais avançados de combate a
incêndios e evacuação organizada de ambientes. A ideia é criar multiplicadores de
conhecimento, pessoas que, em diferentes contextos, possam agir de forma inicial e correta
até a chegada das equipes especializadas. Essa disseminação de habilidades fortalece a rede
de proteção social e amplia a autonomia da população diante de imprevistos.

De forma complementar, são realizados simulados de evacuação, com destaque para


aqueles promovidos em indústrias químicas, petroquímicas e ambientes de grande risco.
Nessas atividades, os trabalhadores vivenciam na prática como devem se comportar diante de
uma explosão, de um vazamento tóxico ou de um incêndio de grandes proporções. O
treinamento inclui desde o acionamento de alarmes até o deslocamento ordeiro pelas rotas de
fuga, passando pela concentração em pontos de encontro previamente determinados. Esses
simulados têm grande impacto pedagógico, pois mostram aos participantes a importância da
disciplina, da calma e do cumprimento dos protocolos de segurança em momentos de crise.

Além da prevenção, há também o aspecto da resposta rápida a acidentes de


trabalho. O Corpo de Bombeiros de Sergipe possui equipes treinadas para atuar em cenários
de grande complexidade, como desabamentos em obras, explosões em fábricas,
soterramentos em construções civis e acidentes envolvendo eletricidade. Nessas situações, a
prontidão e a experiência acumulada pelos militares fazem a diferença, reduzindo danos
físicos, preservando vidas e minimizando os efeitos colaterais do acidente. É comum que a
atuação do CBMSE nessas ocorrências vá além do resgate, incluindo também a estabilização
pré-hospitalar das vítimas e o apoio técnico às perícias posteriores.

A dimensão educativa também merece destaque. O Corpo de Bombeiros investe


continuamente em palestras e campanhas de conscientização, voltadas a diferentes
públicos. Em escolas, fala-se sobre a importância da prevenção de acidentes domésticos, do
uso correto da energia elétrica e da necessidade de cautela no manuseio de fogos de artifício,
especialmente durante os festejos juninos. Em empresas, as palestras abordam o uso
adequado dos equipamentos de proteção individual (EPIs), a importância da ergonomia no
ambiente de trabalho e os cuidados específicos em setores de risco elevado. Para a população
em geral, campanhas em redes sociais e na imprensa local alertam para o perigo dos trotes
telefônicos às centrais de emergência, que consomem tempo e recursos que poderiam estar
sendo utilizados em situações reais de risco de vida.

Esse conjunto de ações insere o Corpo de Bombeiros de Sergipe de forma constante


no cotidiano da sociedade, não apenas como uma instituição de resposta a desastres, mas
como educadora em saúde, promotora de prevenção e parceira da comunidade. A cada
inspeção, palestra ou simulado, fortalece-se o elo entre a corporação e a população, criando
uma cultura coletiva de segurança e responsabilidade. Essa atuação preventiva, muitas vezes
invisível aos olhos do público, é responsável por evitar acidentes de grandes proporções e
salvar vidas antes mesmo que o perigo se manifeste.

5. PROJETOS COMUNITÁRIOS E EVENTOS:

A corporação desenvolve uma gama de projetos que articulam prevenção, educação e


promoção da segurança em distintos segmentos da população, desde crianças em idade
escolar até trabalhadores de setores de risco. Essas ações são pensadas para reduzir a
ocorrência de acidentes, capacitar multiplicadores e fortalecer a cultura de segurança na
comunidade. Um dos eventos de maior visibilidade é a Corrida do Fogo, que funciona tanto
como atividade esportiva quanto como ação de integração social. A corrida reúne
participantes de todas as idades — crianças, adolescentes, adultos, idosos e pessoas com
deficiência — e traz à tona a imagem do bombeiro como agente comunitário. Ela serve como
plataforma para campanhas de vacinação, doações e divulgação de materiais educativos;
durante o evento são realizadas demonstrações de técnicas de primeiros socorros, pequenas
oficinas para o público e pontos de orientação sobre prevenção de incêndios e segurança
domiciliar. A lógica é transformar uma competição saudável em um dispositivo pedagógico,
aproveitando a grande circulação de público para atingir grupos que, de outra forma,
poderiam não participar de cursos formais.

No período junino, o Projeto São João Seguro utiliza estratégias lúdicas para
comunicar riscos associados ao uso indevido de fogos de artifício. A apresentação do
“Bombeiro Marinho” por meio de teatro de fantoches é um exemplo de recurso didático
capaz de sensibilizar crianças sem causar pânico — a linguagem lúdica permite explicar
perigos (queimaduras, incêndios, perda auditiva, lesões oculares) e práticas seguras com
simplicidade e memorização. Essa abordagem pedagógica inclui atividades práticas
orientadas para professores e equipes pedagógicas, distribuição de folhetos ilustrados e
demonstração de procedimentos de primeiros socorros para queimaduras leves. A estratégia é
dupla: proteger as crianças durante festas tradicionais e capacitar adultos responsáveis
(professores, pais, organizadores de festa) para agir corretamente caso ocorra um acidente.

Durante o verão a presença do Corpo de Bombeiros nas áreas de lazer costeiras é


constante por meio do Projeto Verão Seguro, que articula ações presenciais e campanhas
digitais. Nas praias, a atuação inclui a explicação do significado das bandeiras de sinalização
(condições de banho e risco), a orientação sobre pontos de correnteza e áreas de risco, e a
distribuição de pulseiras de identificação infantil para evitar perdas de crianças. A
comunicação em redes sociais (ex.: posts e vídeos no perfil “Praias de Aracaju”) amplia o
alcance das mensagens, introduzindo conteúdos curtos e de fácil assimilação, como “água no
umbigo é sinal de perigo” — uma regra prática para alertar pais e banhistas sobre
profundidade e risco. Além disso, os militares realizam demonstrações de salvamento
aquático e orientam sobre o uso adequado de boias e demais dispositivos de flutuação,
buscando reduzir a incidência de afogamentos e acidentes por imprudência ou consumo de
álcool. Nas ações de verão há também a integração com guardas municipais e com o serviço
de atendimento pré-hospitalar local para agilizar fluxos de resgate em caso de necessidade.

A Operação Alerta Vermelho é uma iniciativa de maior abrangência operacional e


normativa que prevê a intensificação de vistorias técnicas, a realização de palestras
educativas e ações de fiscalização em edificações comerciais e eventos. Essa operação
mobiliza equipes para verificar o cumprimento de normas, identificar riscos estruturais,
checar rotas de fuga e avaliar a disponibilidade e manutenção de extintores e outros
equipamentos de combate a incêndio. No âmbito dessas operações, o trabalho não é apenas
punitivo: há forte componente educativo — os responsáveis pelos locais vistoriados recebem
orientações sobre melhorias simples e orientações de emergência, além de um cronograma de
adequações. A ação conjuga prevenção com a responsabilização do gestor do espaço,
reduzindo a probabilidade de incidentes em ambientes com grande aglomeração de público.

O Projeto Salve merece atenção especial por sua ênfase em capacitação de leigos e
pela articulação para disponibilização de Desfibriladores Externos Automáticos (DEA) em
espaços públicos. Com duração e desenvolvimento mencionados ao longo de três anos em
trabalhos de campo, o projeto objetiva criar pontos de maior segurança na cidade, treinando
prepostos de estabelecimentos públicos e privados para reconhecer parada cardiorrespiratória
e usar o DEA rapidamente. A experiência do projeto demonstra que, para ser efetivo, é
necessário mais do que doar equipamentos: exige treinamento continuado, manutenção dos
aparelhos (verificação periódica de baterias e eletrodos), rotulagem clara dos pontos com
DEA e campanhas de informação que orientem o público sobre como agir. A
operacionalização prática do projeto envolve parcerias com empresas locais e poder público
para custear a aquisição e a manutenção dos aparelhos — a sustentabilidade dessas iniciativas
depende, portanto, de modelos de financiamento e responsabilidades bem definidas.

Além das ações formais, há estratégias transversais que potencializam o impacto dos
projetos: a formação de multiplicadores (estudantes de medicina, agentes comunitários e
vigilantes que replicam a capacitação), a utilização de mídias locais e redes sociais para
reforçar campanhas sazonais (verão, festas juninas) e a articulação com instituições
educacionais e empresas para criação de cronogramas regulares de reciclagem. A
mensuração de resultados costuma incluir indicadores simples, porém úteis: número de
pessoas treinadas, número de eventos realizados, quantidade de simulados promovidos,
número de DEAs instalados e efetuadas manutenções, e relatos de salvamentos em que a
intervenção comunitária foi decisiva. Esses indicadores permitem avaliar retorno social e
calibrar prioridades de ação.

Por fim, há desafios e recomendações claros para ampliar o alcance e a efetividade


desses projetos. Entre os desafios, destacam-se a necessidade de garantir manutenção
contínua de equipamentos (inclusive DEAs), a criação de registros formais de capacitações
para monitoramento longitudinal, o estabelecimento de protocolos de reposição imediata de
materiais utilizados em treinamentos e a busca de fontes de financiamento estáveis.
Recomenda-se também incorporar avaliação de impacto com pré e pós-testes de
conhecimentos nas capacitações, criar parcerias acadêmicas para gerar pesquisas de processo
e desfecho (por exemplo, estudar as áreas com DEAs e multiplicadores treinados apresentam
maior taxa de sobrevivência em PCR fora do hospital) e ampliar a inclusão de grupos
vulneráveis, promovendo acessibilidade e linguagens educativas adaptadas. Essas medidas
tornam os projetos mais resilientes e capazes de transformar intervenções pontuais em
políticas públicas sustentáveis de prevenção e promoção da saúde.
6. SAÚDE OCUPACIONAL E DESAFIOS:

A atividade do bombeiro militar expõe o trabalhador a um conjunto complexo de


riscos que se interrelacionam: agentes físicos como calor extremo, radiação térmica e ruído;
agentes químicos presentes em fumaças, solventes e vapores; agentes biológicos decorrentes
do contato com sangue e fluidos corporais; além de fatores ergonômicos associados ao
transporte de cargas pesadas e posturas forçadas durante resgates. Esses riscos operacionais
têm repercussões clínicas previsíveis — lesões musculoesqueléticas por sobrecarga, doenças
respiratórias crônicas por inalação repetida de aerossóis tóxicos, problemas dermatológicos
por contato com irritantes e sensibilizantes, e perda auditiva relacionada a exposições
contínuas a ruído de sirenes e equipamentos. No mesmo plano físico, a exposição contínua a
eventos traumáticos e ao luto por vítimas agrava a carga psicossocial sobre o profissional,
favorecendo quadros de ansiedade, depressão, transtorno de estresse pós-traumático (TEPT) e
síndrome de burnout.

Para enfrentar essa realidade, o Núcleo de Saúde Ocupacional (NSO) surge como eixo
articulador das ações de vigilância e promoção da saúde dentro da corporação. O NSO
organiza e operacionaliza exames admissionais, periódicos e demissionais, conduz
campanhas vacinais, coordena protocolos de retorno ao trabalho e estrutura fluxos de
reabilitação quando há afastamentos. Além disso, o núcleo atua como interface entre a rotina
operacional e a prática médica do trabalho: realiza mapeamento de riscos, orienta sobre uso e
manutenção de equipamentos de proteção individual (EPIs) e promove capacitações sobre
prevenção de agravos ocupacionais. A existência de um núcleo dedicado permite, também,
sistematizar dados (ausências, causas de afastamento, queixas prevalentes) que alimentam
políticas de prevenção direcionadas e possibilitam intervenções mais custo-efetivas.

No campo da saúde mental, a corporação dedica esforços a programas de acolhimento


e acompanhamento psicológico, reconhecendo que o cuidado preventivo e o tratamento
precoce reduzem a progressão para quadros incapacitantes. A oferta de atendimento
psicológico individual, grupos de descompressão e programas de preparação para a reserva
(“Reformação”) são práticas que têm duplo efeito: preservam a capacidade operacional do
efetivo e facilitam a transição do profissional para a vida civil quando necessário. Porém, a
efetividade dessas ações depende de fatores que vão além da boa vontade institucional —
requerem equipes multidisciplinares, confidencialidade garantida e rotinas de triagem que
identifiquem precocemente sinais de sofrimento mental; sem isso, muitos casos permanecem
ocultos até o ponto de demanda por afastamento.

Há desafios operacionais concretos que atrapalham a plena execução das políticas de


saúde ocupacional. A insuficiência de pessoal de saúde dentro da corporação — médicos do
trabalho, fisioterapeutas, psicólogos e enfermeiros ocupacionais — limita a frequência e a
profundidade dos monitoramentos; a manutenção orçamentária de programas de reabilitação
e a aquisição/manutenção de EPIs e equipamentos (incluindo itens para treinamentos) ainda é
insuficiente; e a sobrecarga por chamadas indevidas (trotes) consome tempo e recursos que
poderiam ser alocados à vigilância e ao cuidado. Um relato citado durante as atividades
mencionou deslocamentos operacionais para localidades distantes sem demanda real,
ilustrando como trotes e acionamentos inadequados comprometem a eficácia do serviço e
aumentam a exposição física e psicológica dos militares. Essas questões logísticas e de
recursos tornam urgente a priorização administrativa de investimentos em saúde ocupacional.
Do ponto de vista preventivo, a combinação de medidas individuais e coletivas
oferece maior retorno. Individualmente, a promoção de programas de condicionamento físico
orientados, ergonomia aplicada ao manuseio de cargas, fit-for-duty (avaliações de aptidão)
regulares e vacinação dirigida (por exemplo, tetano, hepatites e influenza, conforme risco de
exposição) reduz riscos imediatos e a ocorrência de agravos evitáveis. Coletivamente, ações
como manutenção preventiva dos equipamentos, verificação periódica e treinamento para uso
correto de EPIs, protocolos padronizados de descontaminação após exposições químicas ou
biológicas, e sistemas de revezamento que mitigam fadiga acumulada impactam diretamente
na redução de lesões e acidentes. A articulação com a CIPA, com serviços de proteção
ambiental no âmbito estadual e com universidades para programas de pesquisa e avaliação
também amplia a robustez das ações.

No campo da avaliação e do monitoramento, recomenda-se que o NSO implemente


indicadores simples e acionáveis, capazes de guiar intervenções: taxa de afastamentos por
causa ocupacional; prevalência de queixas musculoesqueléticas em exames periódicos;
número de atendimentos de urgência por exposição química; número de sessões psicológicas
ofertadas e percentuais de adesão ao acompanhamento; e tempo médio entre o diagnóstico de
agravo e a reabilitação ocupacional. Esses indicadores permitem priorizar áreas de
investimento e demonstrar resultados para instâncias financiadoras, além de suportar
processos de melhoria contínua. A incorporação de instrumentos de triagem validados (por
exemplo, escalas de rastreio de depressão e de TEPT) na rotina de exames periódicos ajuda a
identificar precocemente problemas psicossociais e a encaminhar para intervenções
direcionadas.

Por fim, a resposta aos desafios exige estratégia de governança e continuidade:


ampliar a equipe do NSO com profissionais de referência em saúde ocupacional, estabelecer
fluxos formais de reabilitação e readaptação funcional, criar parcerias com universidades para
projetos de pesquisa e avaliação de impacto, e institucionalizar programas regulares de
capacitação (inclusive para gestores) sobre prevenção de trotes e gestão de crise. Do ponto de
vista prático, é recomendável a elaboração de um plano plurianual de saúde ocupacional que
contemple provisão orçamentária para EPIs e equipamentos, calendário de exames
periódicos, política de manutenção de equipamentos e metas quantitativas de redução de
afastamentos — ações que, além de proteger o trabalhador, aumentam a resiliência
institucional e a capacidade de resposta do Corpo de Bombeiros.

7. APRENDIZAGEM, AVALIAÇÃO E REFLEXÃO:

A visita proporcionou um choque produtivo entre teoria e prática: aquilo que, em


aula, muitas vezes permanece como conjunto de regras e siglas, ganhou corpo e urgência. Ver
o atendimento pré-hospitalar em ação — especialmente a simulação do politrauma do
motociclista projetado a vários metros e ainda com capacete — fez com que os princípios do
manejo do trauma deixassem de ser abstrações para se tornarem decisões concretas tomadas
sob pressão, com consequências imediatas para a vida da vítima. A noção de prioridade
ganhou sentido prático; entender por que certas ações são feitas primeiro tornou-se tão
importante quanto saber executá-las.

Uma lição técnica repetida e imediatamente assimilada foi a centralidade do controle


de hemorragia como medida de salvação imediata: observar profissionais interromperem
fluxos sanguíneos volumosos antes de qualquer outra intervenção mostrou que, em contextos
reais, pequenas diferenças na sequência de procedimentos determinam sobrevida. Do mesmo
modo, a aplicação do protocolo XABCDE — com a ênfase explícita no X inicial para
exsanguinação — clarificou por que os algoritmos clínicos evoluem para priorizar problemas
mortais mais imediatos e como isso altera a tomada de decisão no ápice do estresse.

As demonstrações práticas de manobras de suporte básico também deixaram


impressões duradouras. A manobra de Heimlich, em suas variações para adultos, crianças e
lactentes (as alternâncias entre tapotagens dorsais e compressões torácicas em menores de um
ano), e as condutas de RCP expostas in loco, trouxeram o senso de que técnicas simples,
quando bem executadas, são capazes de reverter cenários críticos. Essa percepção alimentou
não só a confiança técnica, mas a responsabilidade ética: a de que o conhecimento adquirido
pode e deve ser acionado por quem estiver presente no momento do acidente.

A visita deixou lições claras também sobre a segurança do socorrista: a detecção e


neutralização de riscos na cena antes da intervenção, o uso de EPIs simples (luvas, máscaras)
e a priorização da autoproteção foram elementos constantemente reforçados. Aprender que o
socorrista descuidado pode transformar-se em mais uma vítima foi um ponto que
ressignificou a urgência de medidas preventivas já na avaliação inicial da ocorrência. Essa
compreensão amplia o olhar do estudante para além do paciente, incluindo o contexto e as
limitações do ambiente como fatores decisivos no manejo.

No âmbito humano e emocional, a experiência teve impacto profundo. Assistir à


encenação de ferimentos graves, ouvir relatos de profissionais que convivem com morte,
perdas e cenas traumáticas e perceber o esforço físico e mental exigido para manter a eficácia
operacional trouxe à tona a fragilidade do profissional diante de eventos extremos. Muitos
estudantes relataram maior proximidade com sentimento de impotência, com a necessidade
de controlar emoções e com a importância do trabalho em equipe para repartir
responsabilidades — aprendizados que não constam em protocolos, mas moldam atitudes
clínicas futuras.

A visita também ampliou a compreensão sobre o caráter dual da profissão de


bombeiro: são simultaneamente agentes salvadores e trabalhadores vulneráveis. Tomar
contato com as funções do Núcleo de Saúde Ocupacional, com os programas de
acompanhamento médico e psicológico e com as dificuldades logísticas relatadas (por
exemplo, rotinas sobrecarregadas, insuficiência de equipe de saúde interna e o impacto dos
trotes) permitiu perceber que a capacidade de salvar vidas depende, em última instância, da
preservação da saúde do próprio socorrista. Esse aprender significou enxergar a cadeia da
proteção como bidirecional — protege-se a população, mas é preciso proteger quem protege.

Além do aspecto clínico e ocupacional, houve aprendizagem de natureza sistêmica: os


projetos comunitários (Corrida do Fogo, Projeto São João Seguro, Projeto Verão Seguro,
Projeto Salve e cursos de primeiros socorros/Lei Lucas) mostraram que a atuação preventiva
e educativa amplia significativamente o alcance do serviço de resgate. Percebeu-se que
capacitar a população e instalar dispositivos como DEAs em pontos estratégicos não substitui
o trabalho técnico, mas modifica o cenário de emergência, promovendo intervenções iniciais
que aumentam a chance de sucesso do atendimento profissional subsequente. Essa visão
ampliada conecta a prática clínica com políticas de prevenção e com responsabilidade social
institucional.

Por fim, a visita revelou lições sobre comunicação interinstitucional e limitação de


recursos. A integração entre bombeiros, SAMU, hospitais e órgãos reguladores apareceu
como requisito para fluxo assistencial eficiente; a experiência deixou claro que falhas de
comunicação, episódios de acionamento inadequado (trotes) e restrições materiais degradam
a operação e afetam resultados clínicos. Aprender isso in loco é diferente de ler sobre fluxos
em manuais: torna evidente que, além da técnica, a saúde pública depende de coordenação,
logística e responsabilização.

Em síntese, o aprendizado extraído da visita foi multifacetado: técnico (sequência do


XABCDE, controle de hemorragia, RCP, manobra de Heimlich), contextual (segurança da
cena, uso de EPIs), humano (resiliência, gestão emocional, trabalho em equipe), ocupacional
(vulnerabilidades físicas e psíquicas do bombeiro, papel do NSO) e sistêmico (prevenção
comunitária, integração entre serviços, limitações operacionais). Esses elementos, somados,
transformaram a percepção dos estudantes: não apenas aumentaram sua competência para
ações imediatas de socorro, mas também ampliaram sua compreensão do que significa
proteger vidas dentro de um sistema complexo — e do papel que médicos e cidadãos podem
ter nesse esforço coletivo.

8. CONCLUSÃO:

A visita ao Hospital Universitário confirmou, de forma inequívoca, que o trabalho do


Corpo de Bombeiros Militar de Sergipe articula competências técnicas, exigência física e um
compromisso ético profundo com a preservação da vida. A corporação atua simultaneamente
em frentes reativas — atendimento emergencial e resgate — e proativas — prevenção,
inspeção e educação comunitária —, e essa dupla função é condição necessária para que o
sistema de proteção à vida funcione de modo eficiente. Ao observar a integração entre
procedimentos de APH, rotinas operacionais e projetos de extensão, ficou evidente que salvar
vidas não é apenas uma questão de técnica isolada, mas de um arranjo organizacional que
combina prontidão, formação continuada, logística e articulação com a rede de saúde pública.

No plano clínico-operacional, a ênfase no XABCDE e nas manobras básicas (controle


de hemorragia, manutenção da via aérea, suporte ventilatório, RCP e uso de DEA)
demonstrou que intervenções imediatas e bem sequenciadas alteram drasticamente o
prognóstico das vítimas. A simulação do politrauma e as demonstrações práticas mostraram
como decisões rápidas, comunicação clara e divisão de tarefas entre os membros da equipe
reduzem o tempo até a intervenção efetiva — e, consequentemente, a mortalidade e a
morbidade. Ao mesmo tempo, a constante lembrança da segurança do socorrista e do uso
adequado de EPIs ressaltou que a proteção do profissional é componente inseparável da
qualidade do atendimento.
Em termos de saúde ocupacional, a visita expôs as múltiplas vulnerabilidades a que o
bombeiro está submetido — físicas, químicas, biológicas e psíquicas — e a
imprescindibilidade de um Núcleo de Saúde Ocupacional atuante. A existência de programas
de vigilância, seguimento psicológico e reabilitação demonstrou sensibilidade institucional às
demandas da profissão; contudo, também deixou patente a necessidade de continuidade,
qualificação de recursos humanos e garantias orçamentárias para que tais medidas tenham
impacto duradouro. A proteção da força de trabalho é, enfim, condição para a própria
sustentabilidade da capacidade de resposta da corporação.

A dimensão comunitária da atuação dos bombeiros (inspeções, simulados, Corrida do


Fogo, São João Seguro, Verão Seguro, Projeto Salve e cursos de primeiros socorros/Lei
Lucas) revelou-se um elemento transformador: ações educativas e preventivas reconfiguram
o cenário de emergência ao promover intervenções iniciais por leigos bem orientados e ao
instalar equipamentos críticos em pontos estratégicos. Essa estratégia amplia a resiliência
social e reduz a carga sobre os serviços de resgate, mostrando que políticas de saúde pública
eficazes combinam resposta técnica com mobilização e educação da população.

Por fim, a experiência foi uma lição sobre a complexidade sistêmica da segurança e
da saúde: eficácia operacional exige coordenação interinstitucional, fluxos de comunicação
claros, capacidade logística e registros que possibilitem avaliação contínua. A visita reforçou
a noção de que proteger vidas é uma tarefa coletiva que envolve profissionais capacitados,
instituições comprometidas e uma sociedade informada e preparada. Em termos práticos, o
aprendizado obtido por estudantes e profissionais convergiu para uma convicção central:
fortalecer as capacidades técnicas e ocupacionais do Corpo de Bombeiros, ao mesmo tempo
em que se desenvolvem ações preventivas e educativas na comunidade, constitui o caminho
mais seguro para aumentar a proteção da vida e garantir a saúde daqueles que se dedicam a
protegê-la.

9. REFERÊNCIAS:

1. DOS, C. Corpo de Bombeiros Militar do Estado de Sergipe. Disponível em:


<[Link]
Acesso em: 8 set. 2025.

2. MENEZES, D. Núcleo de Saúde Ocupacional do CBMSE completa um ano - CBM.


Disponível em: <[Link]
ano/?utm_source>. Acesso em: 8 set. 2025.

3. LEI N� 8.979, DE 03 DE FEVEREIRO DE 2022. Disponível em:


<[Link]
utm_source>. Acesso em: 8 set. 2025.
4. Unidades do CBMSE - CBM. Disponível em: <[Link]
utm_source>. Acesso em: 8 set. 2025.

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