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Geoecologia da Paisagem na Floresta Ombrófila Mista do Parque Nacional de São Joaquim,

Santa Catarina.

Geoecologia da Paisagem na Floresta Ombrófila Mista do


Parque Nacional de São Joaquim, Santa Catarina.

Yan Ewald Zechner 1


Orlando Ferretti2

Resumo: Esta pesquisa tem como objetivo a análise da geoecologia da paisagem de modo
a conhecer a dinâmica e as características próprias da fitofisionomia da Floresta Ombrófila
Mista, pertencente ao bioma Mata Atlântica, que se desenvolve no Parque Nacional de São
Joaquim a partir de formações de sucessão vegetal secundária. A revisão bibliográfica
enfatizou, além da geoecologia da paisagem, as características da Floresta Ombrófila Mista,
também conhecida popularmente como Mata com Araucária e sobre as características e
outros levantamentos já realizados no Parque Nacional de São Joaquim. As unidades da
paisagem foram segmentadas a partir da geoecologia da paisagem, utilizando características
físicas e dados sobre o uso do solo para delimitar as áreas, resultando em um mapa com seis
unidades geoecológicas na área de estudo. Estes resultados fornecem subsídios científicos
para a gestão da unidade de conservação e comprovam a aplicação da geoecologia da
paisagem para a caracterização de áreas.
Palavras-chave: Mata com Araucárias; Áreas Protegidas; Paisagem.

LANDSCAPE GEOECOLOGY IN THE MIXED OMBROPHILOUS FOREST AT SÃO


JOAQUIM NATIONAL PARK, SANTA CATARINA.

Abstract: This research seeks to analyze the landscape geoecology to understand the
dynamics and singular characteristics of the mixed ombrophilous forest’s phytophysiognomy,
that belongs to the Atlantic Forest biome, which develops in São Joaquim National Park
through secondary succession. The literature review emphasized both landscape geoecology
concepts and mixed ombrophilous forest traits, popularly known as Araucaria Forest, while
also reviewing the National Park’s characteristics and other surveys performed in it. The
landscape units were segmented in line with landscape geoecology methods, utilizing physical
characteristics and data over the land use to enclose different areas, resulting in a map with
six geoecological units in the study area. These results provide scientific support for the
protected area’s management decisions and prove that landscape geoecology may be
successfully used for area characterization.
Keywords: Araucaria Forest; Protected Areas; Landscape.

INTRODUÇÃO
Nas últimas décadas os esforços para conservação da biodiversidade têm
aumentado, conforme avança também a extração de benefícios dos ecossistemas
naturais em prol da produção econômica. Apesar do interesse e da tomada de
decisões sobre a conservação serem baseados em demandas sociais (Whittaker et
al, 2005; Cox; Moore; Silva, 2019), o embasamento das ações que buscam preservar

1
Mestre em Geografia pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).
2
Professor Associado no Departamento de Geociências da Universidade Federal de Santa Catarina
(UFSC).

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Geoecologia da Paisagem na Floresta Ombrófila Mista do Parque Nacional de São Joaquim,
Santa Catarina.

os ambientes vem das ciências voltadas à proteção da biodiversidade, como a


Biogeografia da Conservação.
Este campo da pesquisa científica busca analisar os processos físicos e
biológicos que impactam na conservação da biodiversidade, utilizando das teorias e
práticas biogeográficas (Whittaker et al, 2005; Cox; Moore; Silva, 2019). Um dos focos
é o planejamento da conservação (Richardson; Whittaker apud COX; Moore; Silva,
2019), isso é, o desenvolvimento de análises que justifiquem a distribuição dos
esforços para conservar a partir de verificações da efetividade de unidades de
conservação ou a classificação de serviços ecossistêmicos, por exemplo.
Nesse contexto, tem relevância a Geoecologia da Paisagem, com
metodologias que auxiliam no conhecimento da base natural das paisagens e na
interação entre sociedade e natureza, que ocorre através de uma abordagem
sistêmica (Rodriguez; Silva; Cavalcanti, 2022). A paisagem, conforme os autores, é o
meio de vida e do fazer humano, compondo um sistema dotado de diversas
características naturais, ou não, que se reproduzem, mas que também podem ser
alteradas, geralmente pela atividade antrópica.
É através dele que os órgãos do meio ambiente nas esferas do poder público
realizam a conservação in situ, possibilitando a proteção de ecossistemas
considerados importantes e/ou ameaçados, além de proteger, em certos casos, as
atividades de populações tradicionais (Brasil, 2000). No entanto, em Santa Catarina
por exemplo, apesar de o estado conter 153 Unidades de Conservação - UC
regularizadas dentre as 3 esferas do poder público e as de patrimônio privado,
conforme dados do Cadastro Nacional de Unidades de Conservação – CNUC,
somente cerca de 5,75% do território continental de SC é protegido, equivalendo a
4.750km².
Uma das causas para a pouca proteção dos ecossistemas é de que há, pelo
menos, dois séculos as formações vegetais de Santa Catarina, como outras áreas do
bioma de mata atlântica no Brasil, têm sido apropriadas e sistematicamente
exploradas insustentavelmente pelos colonizadores europeus. Após a exploração do
litoral, suas incursões nos séculos XIX e XX na Serra e nos planaltos do oeste do
estado levaram à extração predatória de grandes concentrações do pinheiro Araucaria
angustifolia e outras espécies associadas, significando um declínio acentuado da
ocorrência dessa espécie arbórea até a década de 80 (Carvalho, 2010).

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Geoecologia da Paisagem na Floresta Ombrófila Mista do Parque Nacional de São Joaquim,
Santa Catarina.

A Floresta Ombrófila Mista – FOM, uma das fitofisionomias do bioma Mata


Atântica presente no estado de Santa Catarina, onde ocorrem as formações de
Araucaria angustifolia, conhecida comumente como Mata com Araucárias, foi
amplamente devastada. Sua área de ocorrência se estende ao longo de cerca de 160
mil km² no Planalto Meridional Brasileiro, porém hoje a floresta se resume às áreas de
maior altitude ou de acesso restrito, como é o caso das áreas protegidas (IBGE, 2012).
Portanto o Parque Nacional de São Joaquim, uma das UC federais em Santa Catarina
localizada na Serra Geral, meio oeste catarinense, desempenha um papel
fundamental, concentrando importantes fragmentos remanescentes da Floresta
Ombrófila Mista de característica Montana e Alto-Montana, cujos benefícios são
obtidos não só por quem está no parque, mas pela região do seu entorno.
Como forma de destacar a necessidade de conservação dos ambientes
naturais, a descrição desses benefícios relacionados aos serviços que os
ecossistemas prestam aos humanos pode servir como estratégia para enfatizar a
relevância das áreas protegidas e sua manutenção, como exemplo o Parque Nacional
de São Joaquim - PNSJ. A UC tem sido alvo de tentativas de desafetação, mais
recentemente pelo PLS 208/2018 que propõe a redução dos limites, mas que deixou
de tramitar no Senado Federal e se encontra arquivado.
A Floresta Ombrófila Mista, que ocupa pouco mais de um terço do Parque
Nacional de São Joaquim, é uma das maiores formações em área no Estado de Santa
Catarina, com uma área de ocorrência de 44,5 mil km², ou seja, aproximadamente
46% do estado. Sua distribuição em diferentes porções do estado, onde se encontram
uma variedade de atividades econômicas no meio rural, com mais proximidade das
áreas naturais, faz necessária uma investigação acerca dos serviços prestados nesse
ecossistema, visto que as pressões que têm sofrido resultaram numa área de
vegetação remanescente em diversos estágios de conservação estimada pelo IBGE
em 2021 de cerca de 4511 km² ou 10% da original.
Além disso, o Plano de Manejo do PNSJ, um instrumento utilizado pelo SNUC
para normatizar as atividades em uma UC, destaca a demanda por pesquisas
científicas inclusive de caráter biogeográfico, ressaltando dados de
geoprocessamento, informações sobre as áreas vegetadas, integração dos dados já
disponíveis sobre a unidade e investigação sobre as áreas de vegetação e corredores
ecológicos (Ferreira et al, 2018).

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Geoecologia da Paisagem na Floresta Ombrófila Mista do Parque Nacional de São Joaquim,
Santa Catarina.

REFERENCIAL TEÓRICO

Atualmente, predominam as paisagens antrópicas, onde o ser humano já


modificou o meio natural extensamente e nas quais a Geoecologia se destaca por
considerar os elementos antropizados como parte da paisagem, não como agentes
externos. O uso da Geoecologia para as pesquisas ambientais é fundamental, pois
contribui para entender os elementos naturais, socioeconômicos e culturais (e suas
inter-relações), permitindo análises que incluam a modificação do meio natural e qual
o valor e uso que o meio socioeconômico atribui a ele. A análise geoecológica da
paisagem serve, então, como ferramenta útil aos estudos ambientais, trazendo, a
partir de sua interpretação, os potenciais e o estado presente de todos os segmentos
identificados na paisagem, definidos como unidades geoecológicas (Teixeira; Silva;
Farias, 2017).
A Geoecologia da Paisagem, proposta inicialmente pelo Prof. Rodriguez,
consiste em um estudo integrado da paisagem, considerando a paisagem natural, a
social e a cultural de maneira conjunta, revelando as relações entre Sociedade e
Natureza e é apontada pelos autores como a mais recente dentro do estudo da
paisagem (Rodriguez; Silva; Cavalcanti, 2022).
Rodriguez, Silva e Cavalcanti (2022, p.15-17) definem como principal para seu
trabalho “o conceito de paisagem como formação antroponatural”, que consiste,
dentro dos níveis de interpretação da paisagem, de elementos naturais cujas
propriedades originais são modificadas pelo meio técnico, que carrega uma estrutura
social, referidos pelos autores como “elementos antropotecnogênicos condicionados
socialmente”. Dentro desse conceito os autores trazem as paisagens naturais,
antroponaturais e as antrópicas.
Para a aplicação da geoecologia de paisagens é essencial a pesquisa
cartográfica da área de estudo, complementada por trabalhos de campo para obter
dados que corroborem as observações. Com a análise destes dados é possível
produzir mapas que possibilitam a compreensão da paisagem (Teixeira, Silva e
Farias, 2017), o que pode ser realizado através de diferentes metodologias.
Uma delas. a cartografia da paisagem, é exemplificada na pesquisa de Oliveira
(2019), ela permite a integração dos elementos da paisagem descritos anteriormente,
neste caso, tratando de unidades locais da paisagem na escala 1:6.000. O autor
consegue relacionar, através da álgebra de mapas, os elementos estruturais e físicos

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Geoecologia da Paisagem na Floresta Ombrófila Mista do Parque Nacional de São Joaquim,
Santa Catarina.

(relevo, pedologia, vegetação e microclima) e os antrópicos (áreas edificadas, vias e


trilhas) resultando em uma segmentação em unidades geoecológicas homogêneas,
que representam as condições ambientais e como essa área foi apropriada pela
sociedade.
Cavalcanti (2018), que descreve a metodologia da cartografia de paisagens
utilizada por Oliveira, aponta que levantamentos semidetalhados, para escalas entre
1:25.000 e 1:250.000, tendem a agrupar feições da paisagem que seriam visíveis em
escalas maiores, representando o princípio do gradualismo.
Por fim, a análise das unidades de paisagem (Rodriguez, Silva e Cavalcanti,
2022) ou da fisionomia da paisagem (Cavalcanti, 2018) é um processo fundamental
para a compreensão dos potenciais naturais desta e da relação entre suas diferentes
partes. Guedes (2018, p.50) destaca o uso do mapeamento das unidades de
paisagem, pela autora chamadas de unidades geoambientais, para “[...]compreender
os usos e ofertas dos Serviços Ecossistêmicos”, indo de encontro a Syrbe et al (2017,
p. 150), que apontam as propriedades dos ecossistemas como solo, declividade, clima
e hidrografia “essencialmente controladores do suprimento de muitos SE”.
Em suma, o mapeamento sintético da paisagem (Rodriguez; Silva; Cavalcanti,
2022), demonstra a paisagem delimitada em unidades e representando os seus
componentes na escala adequada, também pode revelar as propriedades dos
ecossistemas. Estas abarcam a funcionalidade de um ecossistema, incluindo sua
estrutura, processos e características (Syrbe et al, 2017), tornando o uso dos
princípios da Geoecologia da Paisagem e de recursos da Cartografia de Paisagens
uma proposta relevante na descrição e classificação de serviços ecossistêmicos.
A vegetação presente no Parque Nacional de São Joaquim, predominante nos
planaltos da Região Sul do Brasil, é contrastante com as florestas tropicais que
ocupam a maior parte do território brasileiro. De fato, é uma formação que remete ao
período das glaciações do Quaternário, quando o clima mais seco e frio, sem forte
presença das massas equatoriais, impunha condições duras à flora da região, onde
sobressaiu-se o pinheiro-brasileiro, Araucaria angustifolia (Ab’Sáber, 2003).
Considera-se essa vegetação como Floresta Ombrófila Mista (IBGE, 2012), ou
popularmente, Floresta com Araucária ou Mata com Araucárias, referenciando a
espécie com caráter dominante (Longhi, 1980; Nascimento, Longhi, Brena, 2001) da
formação vegetal. A Araucaria angustifolia (Pinheiro-brasileiro), e o Podocarpus
lambertii (Pinheiro-bravo), são as únicas espécies nativas de coníferas do Brasil, se

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Geoecologia da Paisagem na Floresta Ombrófila Mista do Parque Nacional de São Joaquim,
Santa Catarina.

diferenciando principalmente por suas folhas aciculadas, com formato de agulha e a


reprodução sem formação do fruto, com sua semente nua, característica das
gimnospermas.
Embora as araucárias dominem a fitofisionomia, predominante no estrato
superior e emergindo do dossel da floresta (Figura 1), elas se encontram em um
processo de substituição, com o avanço das espécies da Floresta Ombrófila Densa
presente nas áreas abaixo e no declive da Serra Geral até se encontrar com os
ecossistemas da planície litorânea, sendo conhecida também como floresta de
encosta. O avanço a novas altitudes se deve às alterações climáticas do quaternário,
isto é, da trajetória de aquecimento desde o último período glacial (Hueck, 1953;
Longhi, 1980; Leite; Klein, 1990), que move o ótimo climático da araucária para
altitudes maiores, dificultando seu desenvolvimento e oportunizando o avanço da
ombrófila densa.

Figura 1 - Floresta Ombrófila Mista, com destaque para a Araucaria angustifolia


emergindo em meio ao dossel.

Fonte: Dos autores, 2024.

Por se tratar de uma heliófita (dependente da luz solar para o desenvolvimento)


e ser uma gimnosperma (um clado de plantas vasculares com a semente “nua”, sem
fruto), a espécie tem dificuldade de se desenvolver com ritmo semelhante às

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Geoecologia da Paisagem na Floresta Ombrófila Mista do Parque Nacional de São Joaquim,
Santa Catarina.

angiospermas após a formação do dossel, este composto num momento inicial


justamente pela Araucaria angustifolia.
As principais angiospermas encontradas nessas matas, com destaque para
Santa Catarina (Hueck, 1953), são o Cedrela fissilis (Cedro rosa) e a Ocotea porosa
(Imbuia). Também ocorrem outras espécies da família Lauraceae, algumas
Myrtaceae, a Mimosa scabrella (Bracatinga) e comumente no sub-bosque a Ilex
paraguariensis (Erva-mate) e a Dicksonia sellowiana (Xaxim) (Hueck, 1953; Longhi,
1980; Leite; Klein, 1990; IBGE, 2012; Scipioni; Longhi, 2014a; Scipioni; Longhi,
2014b), sendo a maioria de grande importância comercial no século XX, quando foram
exploradas à exaustão pelas companhias colonizadoras no oeste e meio-oeste
catarinense e levadas à ameaça de extinção 3 (Leite; Klein, 1990; Carvalho, 2010),
algo já apontado por Hueck na década de 50.
De acordo com o IBGE (2012), existem quatro formações principais da Floresta
Ombrófila Mista que se distribuem em diferentes altitudes, sendo elas a Floresta
Ombrófila Mista Aluvial (nas planícies aluviais), Submontana (abaixo de 400 m),
Montana (entre 400 e 1000 m) e Alto-Montana (acima de 1000 m). Neste trabalho a
principal formação observada é a Alto-Montana, que alcança seu limite nas áreas em
torno de 1600m.
Ab’Sáber (2003) detalha que com o desenvolvimento dos pinheiros há uma
maior homogeneidade e espaçamento na mata representando uma tendência
gregária (Nascimento; Longhi; Brena, 2001), com agrupamento significativo de
indivíduos do pinheiro-brasileiro. Por outro lado, o sub-bosque detém maior
diversidade com o Podocarpus, Drymis e diversas espécies de Lauraceae e
Aquifoliaceae (Hueck, 1953; Longhi, 1980; Nascimento; Longhi; Brena, 2001).
Hueck (1953) e Ab’Sáber (2003) destacam uma conjugação da floresta mista
com as estepes, isto é, nas altitudes maiores as condições climáticas reduzem a
vegetação a campos permeados de turfeiras. Cria-se um mosaico entre os Campos
de Altitude e a Mata com Araucária, esta última sempre se desenvolvendo onde as
condições permitem, com a araucária atuando como colonizadora e ampliando o
alcance da Floresta Ombrófila Mista. Os campos são compostos por espécies
predominantemente herbáceas, além da presença de arbustivas como as Baccharis
(Vassouras), sendo naturalmente aptos ao uso pela pecuária (Assis et al, 1994).

3 Conforme a Portaria MMA 148/2022, estão ameaçadas, dentre as espécies citadas: Cedrela
fissilis, Ocotea porosa, Dicksonia sellowiana, Araucaria angustifolia.

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Geoecologia da Paisagem na Floresta Ombrófila Mista do Parque Nacional de São Joaquim,
Santa Catarina.

A dispersão e manutenção da Mata com Araucárias, incluindo uma boa


variabilidade genética, depende da presença e atividade da fauna que habita esse
ecossistema. Espécies de roedores, como a cutia e de aves, como a gralha-azul, são
responsáveis pela dispersão das sementes longe da árvore-mãe (Assis et al, 1994).
Sem a dispersão pela fauna as sementes desenvolvem-se exclusivamente perto da
progenitora, acarretando uma pobreza genética para a população afetada, que se
reproduz somente entre si, acelerando o processo de substituição pelas
angiospermas, cujas vantagens evolutivas se exacerbam em um ambiente sob
pressão antrópica.

ÁREA DE ESTUDO
As paisagens antropo-naturais para Rodriguez, Silva e Cavalcanti (2022), que
contém elementos naturais, mas que já passam por processos de modificação com
intensidades variadas, descrevem bem a Serra Catarinense. De fato, todo o domínio
paisagístico do Planalto das Araucárias, conforme descrito por Ab’Saber (2003), foi
amplamente modificado através da extração da madeira, restando, conforme
estimativa de Leite e Klein (1990), 20.000 km² dos 175.000 km² (11%) de FOM original.
Esta compõe diversas áreas protegidas, visto que os principais fragmentos de
remanescentes são encontrados dentro delas, como é o caso do Parque Nacional de
São Joaquim.
Antes da criação do PNSJ, de maneira geral para todo o planalto, a presença
das madeireiras como a Southern Brazil Lumber & Colonization Company expandiu o
uso que se fazia das áreas do Planalto das Araucárias. Após a extração da madeira
como atividade econômica, acentuava-se o povoamento da região (Carvalho, 2010),
que passava a ter muito mais uso para os campos do que para as florestas, que
serviam para a subsistência como combustível e construção.
Atualmente o PNSJ abrange o território de cinco municípios: Urubici e Bom
Jardim da Serra em sua porção serrana, onde há ocorrência da Floresta Ombrófila
Mista e dos Campos de Altitude, portanto a área de estudo desta pesquisa (Figura 2).
Ao passo que em Lauro Müller, Orleans e Grão-Pará na porção das encostas e das
terras abaixo da Serra Geral, onde se encontra a Floresta Ombrófila Densa.

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Geoecologia da Paisagem na Floresta Ombrófila Mista do Parque Nacional de São Joaquim,
Santa Catarina.

Figura 2 - Mapa da Área de Estudo no Parque Nacional de São Joaquim

Fonte: Elaborado pelos autores, 2024.

Portanto, composta por formações das Florestas Ombrófilas Densa e Mista,


além dos Campos de Altitude e da Mata Nebular 4 a elas associados, a unidade de
conservação tem uma área de 49.800ha (498 km²) que abarca terras devolutas da
União, terras de posse do ICMBio – Instituto Chico Mendes de Conservação da
Biodiversidade e propriedades privadas ainda em processo de desapropriação,
representando cerca de 12% das UC terrestres em SC de acordo com dados do
Cadastro Nacional de Unidades de Conservação - CNUC. Isso a torna a terceira maior
UC terrestre no estado e a maior dentro da Floresta Ombrófila Mista. O PNSJ
representa, deste modo, uma área de grande importância para a manutenção da
biodiversidade, protegendo significativas populações de flora e fauna.

4
Conforme Leite e Klein (1990, p.120), a Mata Nebular é uma vegetação arbórea densa com dossel
baixo e uniforme, com indivíduos geralmente recobertos por musgos e epífitas. Trata-se de uma
floresta nuvígena, que se desenvolve em áreas onde há uma umidade do ar muito alta geralmente
por conta do efeito orográfico, que é o caso da Serra Geral em Santa Catarina.

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Geoecologia da Paisagem na Floresta Ombrófila Mista do Parque Nacional de São Joaquim,
Santa Catarina.

METODOLOGIA
As imagens utilizadas nessa pesquisa são dos satélites Landsat 8, com o
sensor OLI (Operational Land Imager) trazendo 30m de resolução espacial (15m na
banda pancromática) e o Sentinel-2 com o sensor MSI (Multi-spectral instrument) com
as bandas Azul, Verde, Vermelho e Infravermelho-próximo tendo 10 m de resolução
espacial.
Outros dados, de mapeamentos temáticos, utilizados em SIG provém do Instituto
Brasileiro de Geografia e Estatística - IBGE, com informações sobre relevo, solos,
geologia e vegetação disponíveis na escala 1:250.000, que coincide com a escala da
pesquisa. O IBGE disponibiliza esses no Banco de Dados de Informações Ambientais
– BDIA, concentrando informações próprias e de outros, como os mapas de pedologia
da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária – EMBRAPA.
Todas as atividades relacionadas ao SIG foram realizadas no software QGis
versão 3.22 e na plataforma Google Earth Engine - GEE, que permite rodar scripts em
linguagem java diretamente nos servidores Google, permitindo o download dos
resultados.
A observação e pesquisa em campo se deu por meio de parceria com o ICMBio,
que através do cadastro no Sistema de Autorização e Informação em Biodiversidade
– SISBIO dá acesso e auxílio aos pesquisadores nas UC Federais. No PNSJ há
disponibilidade de alojamento na Fazenda Santa Bárbara, na divisa entre Urubici e
Bom Jardim da Serra, que possibilita o acesso às áreas de Campos de Altitude no
interior do parque e às áreas com Mata com Araucária, em diversos estados de
preservação.
Para a realização do campo foram utilizados equipamentos de localização:
bússola e dispositivo GPS; altímetro calibrado no nível do mar para verificar a altitude
exata; clinômetro digital para mensurar alturas.

Cartografia de Paisagens
Para a análise da paisagem com a perspectiva geoecológica, a partir de um
levantamento semi-detalhado (Cavalcanti, 2018), foram utilizados fatores qualitativos
baseados nos utilizados por Oliveira (2019) e indicados por Rodriguez, Silva e
Cavalcanti (2022) como forma de diferenciar as diferentes unidades geoecológicas da
área de estudo.

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Geoecologia da Paisagem na Floresta Ombrófila Mista do Parque Nacional de São Joaquim,
Santa Catarina.

Isto se deve à importância atribuída ao processo histórico de ocupação da


paisagem do PNSJ, que condicionou os aspectos naturais às atividades
antropogênicas. Áreas hoje fartamente ocupadas pela vegetação secundária não
seriam devidamente identificadas por índices de vegetação, por exemplo, pois a
diferença se trata muito mais da pobreza de espécies do que da área coberta pelas
folhas. Naturalmente, também é necessário considerar a dinâmica dos ambientes, que
apresentam grandes variações devido aos extremos que chegam as características
morfológicas do terreno.
Em um contexto que leva em conta a importância da fauna, em especial para a
dispersão das espécies características da FOM, é necessária principalmente a
diferenciação das áreas com presença de atividades antrópicas e das áreas que são
exclusivamente destinadas para a proteção da biodiversidade. Assim, foram
selecionados os fatores qualitativos, para melhor caracterização da dinâmica e das
diferenças da paisagem.
O processo de divisão da paisagem em diferentes Unidades Geoecológicas da
Paisagem – UG constituiu de duas etapas: Inicialmente conjugando os dados
levantados para criação das camadas intermediárias e em seguida combinando-as
para alcançar uma interpretação final, com base nas sobreposições de atributos
observadas.
Subdividiram-se em dois segmentos (Figura 3), os voltados à “camada”
GEOHTOPO, que inclui a estrutura geológica, topografia e hidrografia; os voltados à
“camada” VEGCAR, com uma fotointerpretação identificando os fragmentos de
vegetação no PNSJ através do Google Earth Pro e o uso de dados do Cadastro
Ambiental Rural – CAR, especificamente as áreas declaradas consolidadas, que
caracterizam o processo de antropização ou até mesmo áreas totalmente antrópicas.

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Geoecologia da Paisagem na Floresta Ombrófila Mista do Parque Nacional de São Joaquim,
Santa Catarina.

Figura 3 - Processo da cartografia de paisagens utilizado no trabalho

Fonte: Elaborado pelos autores, 2024 com base em Oliveira (2019).

Para a obtenção das informações referentes à ocupação da terra no PNSJ foi


inicialmente definida a base de dados raster do Mapbiomas, com resolução espacial
de 30m, gerada a partir dos satélites Landsat. A base, no entanto, não se mostrou
adequada às particularidades da vegetação, impossibilitando a diferenciação das
áreas de campo ou pastagem, além de não realizar uma discrição satisfatória das
áreas com presença de silvicultura e FOM.
Descartando os levantamentos de uso e cobertura da terra, outra fonte de
dados com melhor resolução espacial também poderia identificar a vegetação, com
destaque para a divisão entre campo e floresta. Neste caso o NDVI, através de
imagens da missão Sentinel-2, retrata, pelas médias anuais, áreas de vegetação
arbórea, transição com arbustivas e de campo. O NDVI, entretanto, é incapaz de
discernir os tipos de vegetação, identificando somente a resposta espectral da cor
verde, de modo que as áreas de silvicultura se misturavam à FOM, inclusive
compreendendo valores tão bons quanto as áreas mais vegetadas.
Divergindo para outras bases de dados, os relacionados à vegetação do BDIA, com
escala igual à das informações sobre a geologia, não se mostraram refinados o

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Geoecologia da Paisagem na Floresta Ombrófila Mista do Parque Nacional de São Joaquim,
Santa Catarina.

suficiente para uso na pesquisa, uma vez que havia grosseiras imperfeições nas áreas
de floresta e, novamente, não havia uma indicação das áreas de plantio de exóticas,
algo observado como significativo já nas composições coloridas do imageamento por
satélite. Optou-se, em última instância, por gerar as divisões entre campo, floresta e
silvicultura por meio da análise de imagens, propiciando os aspectos de vegetação da
camada VEGCAR.

RESULTADOS
Para a análise da paisagem com a perspectiva geoecológica, foram utilizados
fatores qualitativos como forma de diferenciar as diferentes unidades geoecológicas
da área de estudo. Isto se deve à importância atribuída ao processo histórico de
ocupação da paisagem do PNSJ, que condicionou os aspectos naturais às atividades
antropogênicas.
Áreas hoje fartamente ocupadas pela vegetação secundária não seriam
devidamente identificadas por índices de vegetação, por exemplo, pois a diferença se
trata muito mais da pobreza de espécies do que da área coberta pelas folhas, uma
vez que os índices não atestam a qualidade da biodiversidade presente.
Naturalmente, também é necessário considerar a dinâmica dos ambientes, que
apresentam grandes variações devido aos extremos que chegam as características
morfológicas do terreno. Além do mais, em um contexto que leva em conta a
importância da fauna, em especial para a dispersão das espécies características da
FOM. A diferenciação das áreas com presença de atividades antroponaturais e das
áreas que são exclusivamente destinadas para a proteção da biodiversidade é a
chave para a interpretação dessa paisagem.
A primeira subdivisão compreende as características geológicas e morfológicas
do terreno. No PNSJ predomina o embasamento basáltico da Formação Serra Geral,
encontrando sua zona limítrofe dentro do parque, uma vez que a UC se estende
abaixo da escarpa. Também se encontram na área arenitos da Formação Botucatu,
resultado da completa intemperização da camada basáltica por alguns dos fluxos
hídricos. Junto à topografia e hidrografia, caracterizadas por alternâncias de vales e
topos de morro, definem-se três compartimentos: A, B e C (Apêndice B).
No Compartimento A estão os basaltos da Formação Serra Geral, que
ocupam a maior extensão da área de estudo. O compartimento apresenta uma
sequência de vales dissecados pelos fluxos d’água provenientes da constante recarga

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Geoecologia da Paisagem na Floresta Ombrófila Mista do Parque Nacional de São Joaquim,
Santa Catarina.

hídrica resultante do efeito orográfico da Serra Geral. As altitudes variam desde os


1800m na porção norte (Urubici) até os 1300m na porção sul (B. Jardim da Serra),
sendo que dentro desses vales a variação entre os topos de morro e o fundo sempre
se mantém dentro de 200m.
O processo de erosão dos fundos de vale se intensifica no Compartimento B,
que tem substrato rochoso de arenito da Formação Botucatu. Aqui as vertentes se
aprofundam, partindo de 1500m e alcançando, no fundo do vale, 1000m de altitude
ou abaixo. Dentro do PNSJ se encontram nessa condição diversos afluentes do Rio
Canoas, inclusive o Rio Urubici, que abastece o município homônimo.
Em contraste aos demais compartimentos, o Compartimento C traz as áreas
morfologicamente mais estáveis do parque. Com embasamento de rochas também
da Formação Serra Geral, da fácies Caxias (Riolitos) e relevo mais planificado,
apresentando pouca ação de intemperismo físico até ocorrer o mergulho nas vertentes
do Compartimento B. Está na faixa dos 1700 a 1600m de altitude na porção norte e
1500m na porção sul e apresenta a menor área dentre os três.
De maneira geral os aspectos geológicos e morfológicos observados
condicionam a potencialidade do desenvolvimento vegetacional, ou seja, através da
identificação das áreas onde já ocorreu maior erosão e formação de solos é possível
inferir sobre as áreas onde se desenvolverão melhor as fisionomias de campo ou de
floresta.
Esta segunda subdivisão não decorre da primeira, realizando-se de maneira
paralela, com outro conjunto de dados, a diferenciação das áreas. Nela se destaca
um dos principais temas desta pesquisa, a Floresta Ombrófila Mista e outras
formações que se associam a ela no PNSJ, bem como seus usos e exploração.
A identificação dos fragmentos de vegetação através da fotointerpretação no
Google Earth definiu a dualidade das formações que dominam essa parte do parque,
as matas com araucária e os Campos de Altitude, com suas qualidades determinadas
por outro fator importante, o uso e a ocupação humana. Estes, especializados pelos
dados do CAR, caracterizam as formações naturais que sobrepõem como
antropizadas, ou, que ainda sofrem processo de antropização. Estas diferenças estão
expostas nas diferentes Feições desta subdivisão (Apêndice C).
Na Feição 1 está compreendida a Floresta Ombrófila Mista com Alteração, ou
seja, nela se encontram os fragmentos de mata que não são terras devolutas do PNSJ
e estão declaradas como áreas de uso consolidado no CAR, logo, há presença de uso

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Geoecologia da Paisagem na Floresta Ombrófila Mista do Parque Nacional de São Joaquim,
Santa Catarina.

antrópico, mesmo que regulado pela UC. Ela é complementada pela Feição 2,
composta pelos outros fragmentos da FOM, onde já se possibilita a Recuperação da
Mata. Nestes fragmentos de vegetação, o contexto de proteção integral permite
considerar a floresta tanto mais conservada quanto com possibilidades de
desenvolver sua sucessão vegetal.
As demais Feições também compreendem áreas com atividades
antroponaturais. Na Feição 3 estão os Campos de Altitude, considerados num todo
como de Uso Extensivo. Neles se localizam diversas estradas, incluindo uma rodovia
intermunicipal, que interligam propriedades e os municípios de Urubici e Bom Jardim
da Serra. Em geral também há presença da pecuária extensiva, intercalando áreas
que são de pasto com as de estepe. Além disso, a maior parte das áreas de Campo
estão inclusas no CAR como áreas consolidadas.
Por fim, na Feição 4 estão contidas áreas completamente antropizadas, as
áreas de Silvicultura, onde há plantio de exóticas como os Pinus e Eucalyptus,
descaracterizando em um todo a mata original. Com exceção desta Feição, as demais
todas compreendem áreas de maior ou menor grau de conservação e características
naturais. Como os usos antroponaturais não podem ser identificados individualmente
nesta escala, só se pode considerar que há algum grau de alteração.
Assim, com a identificação das Feições 1 e 3 não significa que não há um
processo de conservação, que abrange todo PNSJ, mas sim que é na Feição 2 onde
ele encontra maior potencial, em outras palavras, é nela que se concentram as
menores intervenções e se desenvolve o potencial de restauração da mata. Dessa
forma, não é impossível que áreas da Feição 1 apresentem matas com maior
preservação de espécies, mas serão as da Feição 2 que detêm as melhores
possibilidades.

Unidades Geoecológicas da Paisagem


O cruzamento das informações das camadas GEOHTOPO, as informações
sobre as formas de relevo e VEGCAR, as informações da ocupação do terreno pela
Floresta Ombrófila Mista e formações associadas, cuja distribuição é intrínseca aos
processos antroponaturais de ocupação e exploração da região, conduz a um
entendimento de síntese da paisagem da área de estudo.
A Figura 4 apresenta a divisão da paisagem desta porção do PNSJ em seis
Unidades Geoecológicas – UG, que em um todo ressaltam mais as diferenças dentre

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Geoecologia da Paisagem na Floresta Ombrófila Mista do Parque Nacional de São Joaquim,
Santa Catarina.

os fragmentos de mata, mas também consideram os outros ambientes presentes no


parque. Metade (3) das UG se caracterizam pela presença da FOM, duas delas pela
presença dos Campos de Altitude e uma ressaltando atividades de silvicultura.

Figura 4 - Mapa de Unidades Geoecológicas da Paisagem na Floresta Ombrófila


Mista do Parque Nacional de São Joaquim

Fonte: Elaborado pelos autores, 2024.

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Geoecologia da Paisagem na Floresta Ombrófila Mista do Parque Nacional de São Joaquim,
Santa Catarina.

Os Campos de Altitude em Ambiente sob Dissecação (UG1) se definem


pelas áreas estépicas com uso antrópico não discriminado e que pode incluir pecuária
extensiva, posicionadas nos topos de morros dos ambientes de dissecação do
embasamento basáltico da Formação Serra Geral. Eles se diferem dos Campos de
Altitude em Ambiente Estável (UG2) pelo substrato rochoso, que dá características
distintas quanto à morfologia do terreno desta outra UG, onde se encontram os riolitos
da fácies Caxias da Formação Serra Geral, apresentando terreno planificado que tem
sofrido pouca ação do intemperismo em relação às áreas vizinhas.
Seguindo para as áreas abaixo dos Campos de Altitude, afinal estes ocorrem
em altitudes onde a mata já não se desenvolve, encontram-se as Floresta
Conservada em Vales Profundos (UG3), caracterizadas pela FOM Alto-Montana
que não apresenta consolidação da atividade antrópica, ao menos no presente. Elas
preenchem os vales mais dissecados, com substrato rochoso arenítico da Formação
Botucatu, contando com maior intensidade do processo erosivo.
A essas se assemelham as Floresta Conservada em Vertentes (UG4), cuja
diferenciação vem, de maneira similar aos Campos de Altitude, do substrato rochoso.
Nestas há embasamento basáltico da Formação Serra Geral, indicando menor
intensidade da dissecação do terreno, não tendo alcançado ainda as camadas
inferiores de arenito. Isso não significa que não há intemperismo ou outras mudanças
no terreno, mas que em relação às áreas vizinhas o processo se encontra em estágios
menos avançados, com menor profundidade dos vales e há solos menos profundos
para desenvolvimento da vegetação.
Contrapondo as Florestas em Conservação, as Floresta Antropizada em
Vertentes (UG5) abrangem ambos os substratos rochosos vistos anteriormente,
destacando neste caso a atividade antroponatural consolidada, mas sem uso
discriminado. Em geral as matas de FOM aqui ocupam tanto as vertentes e até alguns
fundos de vale, mas não alcançam terreno plano.
Por fim, a Silvicultura (UG6) se diferencia por ser a única UG com predomínio
exclusivo das atividades antrópicas. Uma vez que as demais apresentam diversos
níveis de influência do homem, mas não um uso explícito que altera em um todo as
características naturais como é o caso dessas áreas. Nestes ambientes a FOM foi
substituída pelo cultivo de espécies exóticas de pinheiros, comumente dos gêneros
Pinus e Eucalyptus, como atividade econômica, dispondo-se em áreas mais
planificadas na porção sul do PNSJ.

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Geoecologia da Paisagem na Floresta Ombrófila Mista do Parque Nacional de São Joaquim,
Santa Catarina.

Dos 300 km² que compreendem a área de estudo, há uma semelhança de área
entre os Campos, a Floresta Conservada e a Floresta em Alteração, conforme a
Tabela 1. Entretanto, é importante destacar que a menor dentre estas três é
justamente a de Floresta Conservada, onde há maior condição de regeneração da
vegetação.
Se forem consideradas todas as áreas com maior influência da atividade
antrópica, há um desequilíbrio incompatível com os objetivos de conservação da UC,
sendo somente cerca de 26% da área de fato voltada para a proteção integral. Isso
se deve ao fato de o PNSJ ainda não ter efetivado em sua extensão total a
regularização fundiária, aspecto constatado em seu Plano de Manejo, publicado em
2018.

Tabela 1 - Dados de área da Segmentação da Paisagem no Parque Nacional de


São Joaquim por Unidade Geoecológica.
Unidade Geoecológica Área (km²) Área (%)
Campos A. Dissecação 90,82 29,97
Campos A. Estável 23,63 7,8
Floresta C. Vales Profundos 18,64 6,15
Floresta C. Vertentes 59,98 19,79
Floresta A. Vertentes 103 33,99
Silvicultura 6,97 2,3
Total 303,04 100
Fonte: Elaborado pelos autores, 2024.

Essa diferença não representa, necessariamente, que só se cumprem os


objetivos da conservação naquela porção da área, visto que a gestão do parque ainda
pode regular as atividades permitidas dentro dele. O que pode ser observado,
portanto, é que não há um favorecimento ideal da proteção ao ambiente em 74% da
área, sendo que em cerca de 2% destes há uma inversão das atividades de
conservação na forma da Silvicultura.
De maneira geral, observa-se que as áreas de Floresta Conservada se
concentram em uma mesma porção do PNSJ, que também é onde se encontram as
maiores altitudes, incluindo o Morro da Igreja com 1822m. Isso pode ser explicado
pela dificuldade de ocupação devido ao relevo fortemente inclinado e ao fato de
algumas das terras já serem devolutas da União.
O posicionamento dessa UG é fundamental para a proteção dos fluxos hídricos,
uma vez que as nascentes de diversos rios do Planalto do Rio Uruguai e do Planalto
de Lages estão localizadas nesse segmento, cujo estado de conservação favorece a

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Geoecologia da Paisagem na Floresta Ombrófila Mista do Parque Nacional de São Joaquim,
Santa Catarina.

perenidade das bacias hidrográficas como as do Rio Canoas, do seu afluente Rio
Urubici (que abastece a cidade de Urubici) e do Rio Pelotas.
Oposta a essa situação, a área de Silvicultura no sul do PNSJ promove a
fragilidade tanto dos campos quanto dos fragmentos de mata, devido à facilidade de
dispersão das espécies exóticas e a interrupção dos fluxos normais de matéria e
energia, afetando também à fauna. A competição das espécies exóticas com os
pinheiros nativos (Araucaria angustifolia), que têm uma característica colonizadora
dentro da sucessão vegetal (Hueck, 1953), pode cercear o avanço natural da FOM
sobre as formações campestres, gerando efeitos contrários à conservação das
principais espécies presentes no PNSJ.
Assim, constata-se que no Parque Nacional de São Joaquim há margem para
uma proteção mais efetiva dos aspectos naturais ligados à presença da Floresta
Ombrófila Mista. A paisagem se encontra permeada pelos processos antrópicos,
apesar de apresentar um núcleo consistente de fragmentos de vegetação onde se
limita essa presença ao máximo permitido pela própria UC.
A diferenciação entre as áreas mais conservadas, ou, com potencial de
conservação e as com atividades antroponaturais é importante para a identificação e
localização de serviços ecossistêmicos. A manutenção e/ou o uso de funções
ecossistêmicas estão ligados diretamente à presença e ação antrópica nos ambientes
em questão.
As unidades geoecológicas com essas características antrópicas são as
predominantes neste levantamento, mas é importante considerar que elas estão
inseridas em um processo de desapropriação e mesmo sendo de posse particular já
estão atadas à legislação do PNSJ. Logo, a heterogeneidade dos usos não permitiu,
no atual nível de detalhamento, segmentar de maneira mais precisas as áreas que já
teriam mais semelhança com a UG de Florestas em Conservação, ou, até mesmo,
com alteração total dos aspectos naturais igual ou semelhante à Silvicultura.
Nesse sentido, a definição das UG pode delimitar as áreas prioritárias para
desapropriação, a depender da estratégia da gestão do PNSJ. As áreas com maior
contato com a UG de Florestas em Conservação podem ser progressivamente
integradas à posse pública, aumentando de maneira contínua as áreas sob manejo
com objetivo de conservação. Também podem ser priorizadas as áreas com maior
alteração, a exemplo da UG Silvicultura, um obstáculo para os objetivos do parque,

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Geoecologia da Paisagem na Floresta Ombrófila Mista do Parque Nacional de São Joaquim,
Santa Catarina.

por representar uma população de espécies exóticas cuja dispersão para áreas
vizinhas dificultaria a recuperação das formações vegetais nativas.

CONCLUSÕES
O Parque Nacional de São Joaquim possui uma diversidade de paisagens,
dentre Campos de Altitude, Matas com Araucárias e áreas antropizadas, distribuídas
em um arranjo complexo. Quanto à Floresta Ombrófila Mista, o recorte desta pesquisa
é preciso levar em conta os Campos de Altitude e a Mata Nebular, necessitando uma
análise criteriosa, mas que dê abrangência aos ambientes que se associam à Mata
com Araucárias.
A geoecologia da paisagem demonstrou a distribuição de um fenômeno no
meio natural fundamental, as atividades antroponaturais. É a partir das interações
entre o ser humano e natureza que podem ser identificados muitas das alterações nos
ambientes naturais.
Por outro lado, também há um foco dedicado à FOM, que pode ser mais bem
identificada em seu estágio sucessional através de um estudo fitopaisagístico,
importante diagnóstico para basear a presença de um conjunto de serviços ligados à
permanência da floresta em vez de seu uso com viés mais exploratório.
A pesquisa demonstra a viabilidade do uso da geoecologia da paisagem como
fundamental para a descrição de uma determinada área com o fim de classificação de
serviços ecossistêmicos; além de enfatizar a importância da deliberação entre fatores
quantitativos e qualitativos que serão usados para tal análise.
Esse diagnóstico pode ser útil à gestão do PNSJ, que tem seu zoneamento
mapeado no plano de manejo, possibilitando o cruzamento de informações e o
entendimento de características da UC que podem se tornar prioritárias nos esforços
de conservação.

REFERÊNCIAS
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Recebido em 07 de julho de 2024


Aceito em 24 de setembro de 2024

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