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A Gênese Do Mito

vhjkkkkkkhjkkkkkk hjkkkkkk ETEWRT

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Wladen Iglesias
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Prezados profissionais da segurança pública,

É com grande satisfação que os recebo hoje para abordarmos um tema de suma importância e, infelizmente,
ainda rodeado por mitos: o "Poder de Parada" (Stopping Power). Este seminário tem como objetivo
desmistificar esse conceito, apresentando fatos, estudos científicos e a evolução do entendimento sobre
balística terminal, especialmente no contexto das armas curtas e seu impacto na atuação policial e na
segurança como um todo. Tenho certeza de que, ao final, a sua compreensão sobre o assunto será
profundamente enriquecida, evitando equívocos em futuras discussões.

1. A Gênese do Mito: O "Poder de Parada" na História


A ideia do "Poder de Parada" surgiu em meados do século XIX, entre 1856 e 1860, durante a Guerra do
Ópio. A essência desse conceito era a busca por um calibre capaz de paralisar total e imediatamente um
agressor com um único disparo. Naquela época, acreditava-se que isso era possível.
Para tentar validar essa teoria, foram realizados "estudos bizarros" no início do século XX, como disparos
em cadáveres pendurados para observar a oscilação, ou em animais. A ideia de que um projétil arremessaria o
alvo para trás também era comum, baseada em uma interpretação errônea da energia cinética. No entanto,
fisicamente, é impossível que um disparo, mesmo de um calibre como o .50 BMG ou .40 S&W, arremesse
uma pessoa para trás, dado o desequilíbrio entre a massa do projétil e a massa do corpo humano. Um choque
elástico, como o de uma bola de sinuca, transfere energia cinética, mas a perfuração de tecido humano
envolve calor, atrito e outras variáveis que não resultam em um "impulso" significativo.

2. O Incidente de Miami (1986) e a Influência do FBI


Um evento que marcou profundamente a discussão sobre o poder de parada foi o tiroteio de Miami, em 11
de abril de 1986. Dois assaltantes de banco, mesmo após serem alvejados por vários disparos de oito agentes
do FBI, continuaram a agressão, matando dois agentes e ferindo outros dois, antes de serem atingidos
mortalmente quase à queima-roupa.
Após o incidente, o FBI concluiu que o problema residia na ineficácia dos calibres utilizados pelos agentes
para paralisar rapidamente os agressores. Essa conclusão, porém, foi considerada tendenciosa. Havia uma
grande variedade de calibres em uso (9mm, .45, .38, 12 GA), e o relatório não abordou a possível falta de
técnica, ineficiência tática ou ausência de um protocolo entre os agentes. O foco foi exclusivamente nos
calibres.
A empresa Smith & Wesson, que possuía contrato com o FBI, foi encarregada de encontrar o "calibre ideal"
que se encaixasse nesse conceito de "poder de parada". Inicialmente, desenvolveram o 10mm Auto, um
calibre "extremamente potente". Contudo, os próprios agentes reclamaram do tamanho da arma e do forte
recuo, que dificultava a recuperação e a realização de disparos subsequentes.
Em resposta, a Smith & Wesson lançou o .40 S&W, que era uma versão mais curta do 10mm Auto, mantendo
uma "grande potência" (superior ao 9mm e .45 na época) e atendendo aos parâmetros do FBI.
Consequentemente, o FBI adotou o .40 S&W como seu calibre padrão para armas curtas. A grande
visibilidade do FBI nos EUA e no mundo fez com que muitas polícias (estaduais, municipais, de condado)
adotassem o .40 S&W nos anos 90, e essa tendência se espalhou globalmente, chegando ao Brasil. No Brasil,
o .40 S&W se tornou um calibre "xodó" para as forças de segurança, impulsionado pela ideia do "poder de
parada", sem uma avaliação ou questionamento técnico aprofundado.
3. O "Estudo Definitivo" e sua Desqualificação
Em 1992, um estudo de Evan Marshall e Edwin Sanow, intitulado "Estudo Definitivo do Poder de
Parada", deu grande visibilidade ao conceito. Esse estudo considerava confrontos reais onde agressores
caíam paralisados imediatamente ou percorriam no máximo três metros após serem atingidos por um único
disparo de .40 S&W. A credibilidade dos autores, instrutores de agências federais e autores de livros,
contribuiu para a aceitação do estudo. Contudo, os próprios criadores do estudo, anos depois, admitiram que
foram "15 anos jogados no lixo".

4. A Desconstrução Científica: O Retorno do FBI ao 9mm (2017)


Em 2017, o FBI anunciou o retorno ao calibre 9mm Parabellum para as armas de porte de seus agentes,
uma decisão tomada com fundamentação e grande base científica, diferente da forma de marketing como
o .40 S&W foi adotado. Essa decisão se baseou em três fatores principais:
a) Fator Psicológico
 Qualquer análise sobre a neutralização de um agressor armado deve incluir o estado psicológico do
agressor.
 Nunca se deve contar com o fator psicológico para que ele pare, pois a agressão é consciente e
voluntária. Agressores que param após serem atingidos o fazem por vontade própria ou medo de
morrer, e não por um efeito intrínseco da bala.
 Os efeitos da dor são frequentemente inibidos por padrões de sobrevivência (luta ou fuga), uso de
drogas, álcool, medicamentos, raiva ou agressividade extrema, permitindo a continuidade da agressão
mesmo após ser atingido.
b) Realidade Tática
 Em confrontos reais com armas curtas, agentes da lei conseguem conectar disparos no agressor em
apenas 17% a 20% das vezes.
 A concentração de disparos em um único local (shot placement) é crucial para a incapacitação do
agressor.
 É fundamental que o calibre utilizado maximize a penetração suficiente para atingir órgãos ou
tecidos vitais. A capacidade de fazer múltiplos tiros precisos (rápida recuperação entre disparos) é
primordial para aumentar a concentração de disparos.
c) Realidade Médica
Esta base científica se divide em quatro sub-fatores:
 Penetração: É o fator mais importante. O FBI adota um padrão de 12 a 18 polegadas de penetração
em gelatina balística a 10%. Isso garante que o projétil atinja órgãos e tecidos vitais como coração,
pulmão, pâncreas, baço, fígado, rim, aorta e veia cava. É importante notar que a pele humana é um
tecido bastante resistente à perfuração.
 Cavidade Permanente: É a lesão real e duradoura causada nos tecidos pela passagem do projétil.
Médicos legistas são categóricos em relatar que a cavidade permanente gerada por projéteis entre .380
e .45 são extremamente semelhantes, não sendo possível distinguir as diferenças em uma necrópsia.
 Cavidade Temporária: É a lesão causada pelo esticamento do tecido ao redor da passagem do
projétil. Em armas curtas, com velocidades inferiores a 2.000 pés por segundo, os projéteis não são
capazes de romper a força tênsil (elasticidade) do tecido para causar lesão permanente. O tecido
tende a retornar à sua configuração original, tornando a cavidade temporária irrelevante para o dano
permanente. Somente em projéteis de alta energia (armas longas), a cavidade temporária pode se
tornar permanente.
 Fragmentação: Define-se pelos pedaços secundários dos projéteis ou ossos lançados para fora da
cavidade permanente. A baixa velocidade dos projéteis de armas curtas é um fator negativo, tornando a
fragmentação irrelevante para a incapacitação.
A comunidade médico-legista que apoiou o estudo do FBI foi unânime em descrever que os disparos que
atingem o tronco encefálico ou a medula cervical (entre C1 e C7) são os únicos locais de incapacitação
imediata, através da paraplegia ou tetraplegia do agressor, independentemente do calibre. Fora dessa
região, a concentração de impactos em órgãos vitais (coração, fígado, pâncreas, baço, rim, artéria aorta
cava) é crucial para causar hemorragia interna e perda de consciência devido à diminuição do volume
sanguíneo. Uma pessoa precisa perder cerca de 30% do seu volume sanguíneo (aprox. 1,7 litros de 5,5 litros)
para começar a perder a consciência. Isso levaria de 15 a 20 segundos em um agressor em movimento, um
tempo crucial em que ele pode continuar a agressão.

5. Conclusões Finais e o Fim do Mito


Com base nesse vasto estudo científico, o FBI e a comunidade balística chegaram a conclusões claras:
 Qualquer arma de porte só será eficaz para incapacitação imediata se atingir o tronco encefálico ou a
medula cervical (C1-C7), independentemente do calibre.
 Fora dessa região, é necessária a concentração de disparos (shot placement) no tronco ou abdômen
para causar hemorragia interna e rápida perda de consciência.
 A penetração do projétil é muito mais importante do que qualquer fragmentação para armas
curtas, devido à sua velocidade significativamente menor em comparação a fuzis.
 A rápida recuperação entre disparos (capacidade de fazer múltiplos tiros precisos) é primordial para
aumentar a concentração de disparos.
 Não há diferença de lesão entre calibres 9mm e .40 S&W ao avaliar o mesmo tipo de projeto.
 Armas de calibre .40 S&W apresentaram maior desgaste e menor capacidade de fogo, além de
maior recuo entre os tiros em relação ao calibre 9mm.
 "O poder de parada não existe". Acreditar nesse conceito da forma como foi concebido no passado
é, hoje, como "acreditar em coelhinho da páscoa".

6. Implicações para a Segurança Pública e Recomendações


A persistência do mito do "poder de parada" tem implicações significativas para a segurança pública e
privada:
 Influência da Indústria e Mídia: O conceito foi, em grande parte, impulsionado pela indústria bélica
e pela mídia, visando vender cartuchos mais caros e criar a ilusão de um "calibre salvador".
 Interpretações Jurídicas Equivocadas: A falta de conhecimento técnico sobre balística por parte de
juízes e operadores do direito pode levar a decisões equivocadas, como a acusação de "excesso no uso
da força" ao se realizar múltiplos disparos, sem compreender a ausência de incapacitação imediata em
muitos casos. O livro "Armas de Fogo em Legítima Defesa: Desconstrução de Oito Mitos" tem sido
fundamental para quebrar esses paradigmas, informando magistrados e outros profissionais.
 O que Realmente Importa: Não existe "soco que derruba" ou "bala mágica". O que realmente faz a
diferença em um confronto é a habilidade do atirador, a topografia corporal (o local exato onde o
disparo atinge) e a quantidade de disparos efetuados no alvo.
 Treinamento vs. Calibre: O treinamento constante e de qualidade é infinitamente mais importante
do que o calibre da arma. Um atirador bem treinado com um calibre "menor" terá um desempenho
superior a um atirador mal treinado com um calibre "potente".
Recomendações para a Escolha de Munição:
Dadas as considerações científicas, as recomendações para as forças de segurança e cidadãos em legítima
defesa são:
 Munição Encamisada Total Ogival (+P ou +P+): Para calibres como o 9mm Parabellum, essa
munição oferece uma penetração adequada no corpo humano, um fator crucial para atingir órgãos
vitais. Ela tende a ser mais barata e mais confiável, com menor potencial de causar panes. O 9mm +P
possui excelente comportamento balístico.
 Evitar Pontas Ocas (Hollow Point) Nacionais Atualmente: As munições de ponta oca disponíveis
no mercado nacional, testadas, mostraram-se erráticas e imprevisíveis em seu comportamento, não
cumprindo seu papel de expansão de forma adequada em diversos cenários. Não há base científica
sólida que comprove sua superioridade em relação a ogivais de boa qualidade.
 Calibres de Entrada (ex: .380 ACP): O .380 ACP cumpre seu papel de forma mínima, mas às vezes
não penetra o suficiente. Para o .38 SPL, a munição ponta oca de chumbo (SP+L) é preferível à ogival
de chumbo devido ao comportamento terminal errático desta última.
 Gelatina Balística: É um meio padronizado para testes, mas seus resultados não podem ser
comparados diretamente ao corpo humano devido às variações de densidade de tecidos. Serve para
testar o comportamento padronizado do projétil.
 Mitos a serem desconstruídos: O livro "Armas de Fogo em Legítima Defesa: Desconstrução de Oito
Mitos" aborda, além do poder de parada, outros mitos como o disparo de advertência, o "double tap",
o "atirou na perna", tiros nas costas e o conceito de excesso, todos com embasamento científico.

Conclusão
É imperativo que os profissionais da segurança pública se desvinculem das antigas crenças e marketing da
indústria para abraçar uma compreensão científica e tática da balística terminal. O foco deve estar no
treinamento rigoroso, na precisão dos disparos em áreas vitais do agressor, e na escolha de munições que
garantam penetração adequada e comportamento previsível. O verdadeiro "poder de parada" reside na
habilidade do operador, não em um calibre "mágico".
Agradeço a atenção de todos e estou aberto a comentários e questionamentos.

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