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Centro Universitário Faveni: A Representação Da Identidade Cultural Na Arte Contemporânea Brasileira

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CENTRO UNIVERSITÁRIO FAVENI

A REPRESENTAÇÃO DA IDENTIDADE CULTURAL


NA ARTE CONTEMPORÂNEA BRASILEIRA

ACASSIANE DANIL ALMEIDA NASCIMENTO

PORTEIRINHA
2025
RESUMO
Este trabalho busca investigar como a arte contemporânea brasileira tem
representado e ressignificado a identidade cultural nacional. A pesquisa aborda
a produção de artistas que trabalham com símbolos, narrativas e estéticas
ligadas à diversidade étnica, social e regional do Brasil. Com base em autores
como Néstor García Canclini e Nicolas Bourriaud, o estudo analisa como as
práticas artísticas dialogam com questões de pertencimento, memória coletiva
e hibridismo cultural. O objetivo é compreender de que forma a arte visual se
torna um espaço de disputa simbólica e reconstrução de identidades no
contexto da globalização e das políticas de representação.

INTRODUÇÃO
A arte sempre desempenhou um papel fundamental na formação de
imaginários sociais, sendo um campo onde identidades são representadas,
disputadas e (re)construídas. Em um país como o Brasil, cuja história é
marcada por processos de colonização, mestiçagem cultural, exclusão social e
resistência popular, a arte visual assume uma função política e simbólica
central. No contexto contemporâneo, essa função se intensifica, à medida que
artistas se voltam para temas ligados à memória, à ancestralidade, ao
pertencimento e à diversidade cultural.

A identidade cultural não é um dado estático, mas um processo dinâmico e


relacional. Stuart Hall (2003) destaca que as identidades não são “essências”
herdadas do passado, mas sim posicionamentos que se formam em relação à
cultura e à história. “Em vez de pensar na identidade como algo que já está lá,
fixado no passado, devemos pensar na identidade como algo que nunca é
completo, sempre em processo, e sempre constituído dentro, não fora, da
representação” (HALL, 2003, p. 47). Nesse sentido, as artes visuais se
configuram como um meio expressivo capaz de refletir, problematizar e
reconfigurar essas identidades em constante movimento.

No Brasil, a arte contemporânea tem sido um terreno fértil para o debate sobre
as múltiplas formas de pertencimento que atravessam questões de raça,
gênero, território, classe e etnia. Em meio às disputas simbólicas que compõem
o campo da arte, surgem vozes historicamente silenciadas que utilizam a
produção artística como forma de resistência, denúncia e afirmação. Artistas
como Rosana Paulino, Paulo Nazareth, Jaider Esbell, entre outros, incorporam
elementos autobiográficos, sociais e políticos para explorar o que significa ser
brasileiro em um país atravessado por desigualdades e exclusões.

Autores como Néstor García Canclini (2006) e Nicolas Bourriaud (2009) ajudam
a compreender o papel da arte em contextos marcados por hibridismos
culturais e relações interculturais. Canclini aponta que as culturas latino-
americanas são fruto de um constante diálogo entre tradições e modernidades,
sendo a arte um espaço onde essas tensões são simbolicamente negociadas.
Já Bourriaud introduz a noção de “estética relacional”, em que o artista atua
como um mediador social, criando situações e experiências que promovem o
encontro entre diferentes subjetividades.

Neste trabalho, propomos uma investigação teórica e analítica sobre a


representação da identidade cultural na arte contemporânea brasileira. Partindo
da análise de produções visuais de artistas que abordam temáticas identitárias,
buscamos compreender como a arte pode se constituir como ferramenta de
construção de memórias, crítica social e resistência simbólica. Pretende-se,
assim, refletir sobre o papel do artista como agente cultural e sobre a arte como
linguagem viva, capaz de provocar questionamentos e transformações na
forma como percebemos a nós mesmos e ao outro.
1. IDENTIDADE CULTURAL E HIBRIDISMO NA ARTE
BRASILEIRA

O Brasil é um país caracterizado por intensos processos históricos de


colonização, escravidão, migração e mestiçagem. Essa complexidade resultou
em uma formação cultural híbrida, que se reflete de forma contundente nas
manifestações artísticas contemporâneas. Com base nas ideias de Néstor
García Canclini (2006), é possível compreender a cultura brasileira como uma
constante negociação entre o tradicional e o moderno, entre o local e o global.
Segundo ele, “a hibridez cultural não é apenas uma condição, mas uma
estratégia de sobrevivência simbólica em contextos de dominação e exclusão”
(CANCLINI, 2006, p. 24).

A arte visual contemporânea tem incorporado essa multiplicidade como uma


linguagem crítica e poética. Artistas mobilizam elementos de diversas matrizes
culturais – indígenas, africanas, europeias e populares – para problematizar a
noção de identidade nacional, muitas vezes construída sob a ótica do discurso
hegemônico. A ideia de uma identidade homogênea dá lugar a representações
fragmentadas, conflitantes e polifônicas, que desafiam os estereótipos
estabelecidos ao longo da história da arte no Brasil.

Um exemplo representativo desse processo pode ser encontrado na obra de


Adriana Varejão, que trabalha intensamente com o conceito de mestiçagem.
Em suas séries de azulejos e “carneficinas”, a artista tensiona a relação entre o
belo e o grotesco, evocando a violência colonial e suas marcas sobre os corpos
racializados. Para Varejão, “o corpo brasileiro é um palimpsesto” (apud
FERRAZ, 2012), ou seja, um espaço de sobreposição de culturas,
apagamentos e resistências.

Outro artista relevante é Efrain Almeida, cujas esculturas e pinturas fazem


referência ao sertão nordestino, à religiosidade popular e às questões de
sexualidade e masculinidade. Ao representar corpos fragilizados, híbridos e
deslocados, o artista promove uma ressignificação simbólica das identidades
regionais e das subjetividades dissidentes.

A hibridez também aparece como linguagem visual nos trabalhos de Beatriz


Milhazes, cujas composições misturam elementos da estética barroca, da arte
decorativa, do carnaval e do design gráfico. Suas obras evidenciam como o
Brasil é atravessado por códigos culturais diversos, muitas vezes
marginalizados ou desvalorizados pela crítica tradicional.

Dessa forma, a arte contemporânea torna-se um território de reinvenção


identitária, onde os artistas exploram a riqueza e a contradição do Brasil plural.
Como destaca Hall (2003), “as identidades são formadas e transformadas
continuamente em relação à maneira como somos representados ou
interpelados nos sistemas culturais que nos cercam” (p. 13). Assim, a arte
brasileira não apenas reflete essa realidade, mas a reinscreve em novas
imagens e discursos.

2. A ARTE COMO RESISTÊNCIA: REPRESENTAÇÃO DE


IDENTIDADES MARGINALIZADAS

A arte tem sido, historicamente, um espaço de disputa por visibilidade. No


Brasil, a presença de artistas negros, indígenas, periféricos e LGBTQIA+ nos
principais circuitos da arte sempre foi reduzida, devido a estruturas coloniais e
racistas que marginalizaram essas vozes. No entanto, nas últimas décadas,
houve uma importante movimentação de artistas e coletivos que passaram a
reivindicar seu espaço por meio da arte como instrumento de resistência
política, cultural e subjetiva.

Rosana Paulino é uma das principais referências nesse campo. Sua produção
artística denuncia a invisibilidade das mulheres negras na história do Brasil e
na história da arte. Em obras como “Parede da Memória” (1994-2000), a artista
utiliza fotografias de mulheres negras do século XIX sobrepostas com costuras
e bordados, evidenciando a dor e a resistência dessas mulheres frente à
escravidão e ao apagamento histórico. Segundo Paulino (apud BUENO, 2016),
“a arte é uma forma de escrever a nossa história com nossas próprias mãos”.

Além de Paulino, artistas como Jaime Lauriano e Paulo Nazareth propõem uma
crítica ao racismo estrutural e ao legado colonial por meio de instalações,
vídeos e intervenções urbanas. Lauriano, por exemplo, questiona os símbolos
do poder estatal brasileiro (como brasões, hinos e mapas) e propõe uma
reinterpretação a partir da perspectiva da população negra e periférica.
Nazareth, por sua vez, percorre longos trajetos a pé por cidades latino-
americanas, registrando interações com o povo e refletindo sobre sua
identidade enquanto homem negro, migrante e artista.

O papel da arte como resistência também se estende às práticas artísticas


indígenas. A produção de Jaider Esbell, Ailton Krenak, Daiara Tukano, entre
outros, desloca a arte indígena do lugar de “artesanato” para o de arte
contemporânea engajada, com forte carga política e espiritual. Esbell, por
exemplo, afirmou em diversas entrevistas que “arte indígena não é folclore: é
pensamento, é cosmologia, é política” (ESBELL, 2020).

Judith Butler (2003), ao discutir a performatividade da identidade, propõe que


os sujeitos são formados através de atos repetidos que produzem e
reproduzem normas sociais. A arte, nesse sentido, atua como um espaço onde
essas normas podem ser desafiadas e subvertidas. Performances que colocam
o corpo racializado, trans ou periférico em destaque atuam como formas de
resistência contra o regime da normatividade hegemônica.
Portanto, a arte como resistência não se limita à denúncia: ela propõe novas
formas de ver, sentir e imaginar o mundo. Ao dar visibilidade a sujeitos
historicamente silenciados, a arte contribui para uma reconfiguração dos
espaços simbólicos e das narrativas históricas. Em um país como o Brasil,
onde as desigualdades estruturais ainda se fazem presentes, essa função
crítica e emancipatória da arte é fundamental para a construção de um
imaginário coletivo mais justo e plural.

3. TECNOLOGIAS DIGITAIS E NOVAS FORMAS DE


REPRESENTAÇÃO IDENTITÁRIA

A ascensão das tecnologias digitais nas últimas décadas provocou mudanças


profundas nas formas de produção, difusão e recepção da arte. Com a
ampliação do acesso à internet, redes sociais e ferramentas de criação digital,
novos espaços de visibilidade se abriram para artistas que historicamente
estiveram à margem do sistema artístico tradicional. Nesse contexto, as
práticas artísticas que abordam identidade cultural passaram a explorar o
ambiente digital não apenas como suporte, mas como território simbólico e
político.

As tecnologias digitais têm sido utilizadas como ferramentas de expressão e


resistência, principalmente por artistas racializados, LGBTQIA+, indígenas e
periféricos. O ambiente virtual oferece um espaço alternativo aos circuitos
tradicionais da arte — muitas vezes elitizados e excludentes — permitindo a
circulação de obras, discursos e performances de forma mais acessível,
colaborativa e interativa. Como aponta Lev Manovich (2001), a cultura digital
transforma não apenas os meios de produção artística, mas também os modos
de percepção e interação com a imagem.

Além disso, a arte digital contemporânea problematiza a própria ideia de


identidade como algo fixo ou binário. A partir da lógica da multiplicidade e da
fluidez — características inerentes ao ambiente online — artistas propõem
narrativas fragmentadas, híbridas e interseccionais. Donna Haraway (1991), ao
desenvolver o conceito de ciborgue como metáfora de identidades pós-
modernas, já antecipava essa fusão entre corpo, máquina e subjetividade como
forma de resistência a essencialismos.

Um exemplo notável desse tipo de produção é a artista digital Luiza Prado,


que explora temas como sexualidade, colonialismo e identidade de gênero em
suas criações audiovisuais e interativas. Outro caso relevante é o do artista
indígena Denilson Baniwa, que utiliza montagens digitais, memes e
plataformas online para reconstruir narrativas indígenas a partir de uma
perspectiva crítica e contemporânea. Em suas palavras, “a arte digital é uma
ferramenta de retomada” (BANIWA apud SCHWARTZ, 2021), pois permite
subverter as imagens estereotipadas do indígena promovidas pela cultura
dominante.

As redes sociais também se tornaram plataformas de ativismo visual.


Movimentos como #VidasNegrasImportam e #ArteIndígenaContemporânea têm
contribuído para a formação de comunidades virtuais engajadas, que utilizam
imagens, vídeos e performances como instrumentos de resistência política. A
performatividade da identidade, discutida por Judith Butler (2003), adquire uma
nova dimensão na esfera digital, onde o ato de se mostrar e se afirmar
visualmente também é uma forma de confrontar estruturas de exclusão e
apagamento.

Portanto, as tecnologias digitais não apenas ampliam o alcance da produção


artística identitária, mas também propiciam novas linguagens visuais e novas
formas de pertencimento. A representação da identidade, nesse novo contexto,
é construída de forma rizomática, conectada a múltiplos pontos de referência, e
em constante transformação — uma característica fundamental da cultura
contemporânea.

CONCLUSÃO

A pesquisa desenvolvida ao longo deste trabalho demonstrou que a arte


contemporânea brasileira desempenha um papel crucial na construção e
problematização das identidades culturais. Em um país marcado por profundas
desigualdades sociais, étnicas e territoriais, a produção artística se revela como
um espaço vital para a expressão de memórias, resistências e subjetividades
múltiplas. Ao se debruçar sobre a diversidade de vozes presentes no cenário
artístico atual, compreende-se que a arte não apenas representa a cultura
brasileira, mas também a (re)inventa a partir de múltiplas perspectivas.

O estudo evidenciou que artistas contemporâneos vêm mobilizando técnicas,


linguagens e narrativas que dialogam com a ancestralidade, com os saberes
populares, com as vivências periféricas e com os traumas históricos do país. A
obra de Rosana Paulino, por exemplo, contribui de maneira potente para a
visibilidade das mulheres negras na arte brasileira, rompendo com os padrões
eurocêntricos e elitistas que durante séculos predominaram nas artes visuais.
Da mesma forma, artistas indígenas como Jaider Esbell propuseram um
deslocamento epistemológico ao apresentar formas próprias de pensar e
representar o mundo.

A partir dos referenciais teóricos de Stuart Hall, Néstor García Canclini e


Nicolas Bourriaud, foi possível compreender a arte contemporânea como um
espaço de diálogo intercultural, de crítica social e de invenção simbólica. A
identidade cultural, como vimos, não é algo fixo ou natural, mas sim um campo
em disputa, atravessado por múltiplas narrativas e por relações de poder. A
arte, nesse contexto, atua como mediadora entre essas narrativas, oferecendo
novas possibilidades de pertencimento e representação.

Conclui-se, portanto, que a arte contemporânea brasileira tem contribuído


significativamente para ampliar os horizontes do debate sobre identidade,
diversidade e cultura. Ao mesmo tempo em que questiona estruturas históricas
de exclusão, ela propõe novas formas de imaginar e experienciar o Brasil.
Nesse sentido, este trabalho reforça a importância de se valorizar uma
produção artística plural, comprometida com a transformação social e com a
construção de um país mais justo, representativo e sensível às suas próprias
complexidades culturais.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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