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Simbolos e Adolescentes - Ana Bock

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pré-adolescência para a idade adulta.

Cada vez menos podemos


identificar a idade adulta como a idade do conhecimento adquirido, pois a
rapidez da evolução científica e tecnológica impõe ao adulto ligado a
esse setor uma formação permanente.
Por tudo isso, podemos concluir que fica difícil estabelecer um
critério cronológico que defina a adolescência, ou um critério de
aquisição de determinadas habilidades, como ocorre com o
desenvolvimento infantil. Dá-se o nome de adolescência ou juventude à
fase caracterizada pela aquisição de conhecimentos necessários para o
ingresso do jovem no mundo do trabalho e de conhecimentos e valores
para que ele constitua sua própria família. A flexibilidade do critério, que
nos pode levar a categorizar alguém com vinte e cinco anos como
adolescente e alguém com quinze como adulto, levou-nos a evitar até
aqui o termo adolescência, que passaremos a usar agora cora as
restrições já apontadas.

JUVENTUDE E PSICOLOGIA
Apesar das dificuldades apontadas acima para definir a fase de
adolescência em nossa sociedade, o fato é que existe uma fase de
preparação para que se considere uma pessoa adulta. Mesmo que ela
tenha uma duração diferente de um setor social para outro (e mesmo
intra-setor), ela é razoavelmente longa. Esse fenômeno social cria um
correspondente psicológico que marca o período.
Os jovens de classe média, por exemplo, passam por um longo
período de preparação, quando escolhem uma carreira universitária. Tal
preparação pode mesmo ultrapassar essa fase de juventude. O jovem da
classe operária pode cursar uma escola técnica, onde aprende o
necessário para tornar-se um ferramenteiro, e esse aprendizado não
dura tanto tempo quanto o curso de Medicina, por exemplo. Outros
jovens, ainda, abandonam a escola muito cedo e já trabalham oito horas
diárias antes de completarem os catorze anos de idade — apesar de o
Estatuto da Criança e [pg. 294] do Adolescente3 garantir que nenhuma
criança poderá trabalhar antes dessa idade. Essa entrada prematura no
mercado de trabalho ocorre
porque a realidade
econômica brasileira não
fornece condições para
que as famílias empobre-
cidas mantenham seus
filhos na escola, obrigando
essas crianças e
adolescentes a con-
tribuírem com o orçamento O trabalho infantil é uma triste realidade em nosso País.

doméstico como forma de


garantir que toda a família e, particularmente, os irmãos menores, não
passem fome. Trata-se de uma injustiça social criada pela estrondosa
diferença de renda, constatada em nosso País, entre a população mais
rica e a mais pobre.
Para cada um desses
segmentos — a classe média, a
classe operária e o segmento
empobrecido da população — a
adolescência terá uma duração
peculiar. Um garoto que precise
enfrentar o mundo do trabalho muito
cedo e em condições bastante
adversas, terá um amadurecimento
acelerado. Um adolescente da classe
operária que se prepare para trabalhar
depois dos 16 anos, conseguirá uma
A superespecialização é uma forma de
condição de vida melhor em relação a
retardar o ingresso do jovem no mundo do
trabalho. este garoto, alcançando um tipo de

3
Lei que regulamenta deveres e direitos da criança e do adolescente e que tem, em termos gerais, uma
concepção relativamente avançada.
desenvolvimento mais próximo do padrão das classes abastadas. Um
jovem de família rica poderá se dar ao luxo de começar a trabalhar aos
28 anos, após concluir a pós-graduação, atrasando, assim, o seu
amadurecimento. Evidentemente, o ingresso no mundo do trabalho não é
o único critério para definir o tempo de adolescência dos jovens de nossa
sociedade — precisamos levar em consideração suas características
individuais. O padrão, contudo, é culturalmente construído (expectativa
de desempenho de papéis) e historicamente determinado. [pg. 295]
Mas isso não contradiz o que acabamos de afirmar? A resposta é
sim e não. Quando vimos o exemplo da cultura trobriandesa, pudemos
notar que lá existe um critério quase único para todos os jovens, e que
uma estrutura social relativamente simples não exige uma grande
preparação para o ingresso na fase adulta. Vimos também que a
passagem ocorre através de rituais e tabus (a saída do jovem da casa
dos pais e a proibição das relações sexuais com as irmãs).
No caso da nossa cultura, muito mais complexa, não é possível um
ritual único de passagem para a fase adulta. O critério básico é o
determinante econômico, e, assim, haverá condições diferentes de
desenvolvimento do jovem para diferentes classes sociais. Mas, ao
mesmo tempo, a cultura cria um critério mais geral, que atinge todos os
níveis socioeconômicos. Na nossa sociedade, tais critérios geralmente
estão baseados nas condições de vida das classes mais privilegiadas.
Desta forma, um rapaz operário, que se tenha casado aos dezesseis
anos e sustente a sua casa com seu trabalho, ouvirá muitas vezes
pessoas dizerem com espanto: “Nossa, mas tão jovem e já está
casado!”.
Esta expectativa social de que o jovem ainda não está preparado
para as responsabilidades da vida de adulto, apesar de não corresponder
à realidade de muitos jovens, acaba sendo um forte elemento de
identidade do adolescente. Psicologicamente o jovem vive a angústia
que representa a ambigüidade de não ser mais menino e ainda não ser
adulto. Assim, o jovem que assumiu responsabilidades de adulto aos
dezesseis anos irá imaginar-se como alguém que “perdeu” sua
juventude.
Há um paradoxo aqui. A sociedade obriga alguns jovens a se
tornarem adultos muito cedo e, ao mesmo tempo, considera esse jovem
adulto como adolescente. Então não temos a adolescência como uma
fase definida do desenvolvimento humano, mas como um período da
vida que apresenta suas características sociais e suas implicações na
personalidade e identidade do jovem. E um período de transição para a
fase adulta que, na sociedade contemporânea, prolongou-se bastante se
tomarmos, como parâmetro, as sociedades primitivas. Atualmente,
inclusive, é possível falar-se numa espécie de “adultescência”, que seria
o prolongamento da adolescência na fase adulta. Este fenômeno,
observado particularmente nos países ricos, também pode ser
constatado, com menor incidência, em nosso País. Muitos são os fatores
psicológicos, sociais e econômicos que determinam esse processo nos
países ricos, como a diminuição da oferta de emprego, uma certa
garantia social que possibilita a alguns indivíduos viverem relativamente
bem mesmo sem trabalhar; uma excessiva valorização da cultura jovem,
o que leva o adulto a desejar permanecer eternamente jovem.
Entretanto, podemos [pg. 296] dizer que esse fenômeno não leva à
ampliação do tempo de passagem para a fase adulta, mas demonstra
que precisamos repensar os critérios que definem o que é ser jovem e
adulto numa sociedade em constante transformação, na qual o trabalho
já não exerce mais o papel que exercia no início da industrial
Essa fase de preparação para o mundo adulto — a adolescência
ou juventude — coloca o jovem num certo estado de “suspensão” em
relação aos valores e normas que ele deve adquirir para entrar para o
mundo adulto.
O jovem até agora avaliou o mundo através dos valores da sua
família, mas, ao confrontá-los com os valores e normas dos novos
grupos que passa a freqüentar, verifica que os valores familiares não são
os únicos disponíveis e que, muitas vezes não se adaptam a funções que
são agora exigidas.
São muitos os exemplos de valores ou normas contraditórios, se
compararmos um grupo de jovens colegiais e suas famílias, mas muitos
também serão semelhantes. Quando temos uma norma ou valor muito
forte, tanto para a família quanto para o grupo juvenil, não se correrá o
risco de uma dissonância entre os dois grupos. Contudo, valores e
normas importantes e consonantes para esses grupos podem levar a
situações dissonantes e contraditórias.
A coragem, a luta para vencer na vida, a noção de construir-se a si
mesmo, ser independente, tomar suas próprias decisões e
responsabilizar-se por elas são valores presentes tanto no grupo familiar
quanto nos grupos juvenis. Já o uso da droga poderá ser uma norma
para determinados grupos juvenis, mas certamente será proibido pela
família. Entretanto, o jovem que respeite os valores familiares de tomar
suas próprias decisões e responsabilizar-se por elas (valores também do
grupo juvenil), poderá optar pelo uso de droga, como prática grupal,
apenas para demonstrar sua coragem e capacidade de decisão. Ele, ao
mesmo tempo que atendeu a um valor familiar (coragem, decisão,
independência), transgrediu uma norma do grupo familiar de não
utilização de drogas.
A tendência do jovem será no sentido de evitar a dissonância,
procurando adequar essas contradições, ora evitando a norma do grupo
juvenil, ora questionando os valores familiares. Como isso nem sempre é
possível, será submetido a um estado de angústia que representa a
ambigüidade de não ser mais menino e ainda não [pg. 297] ser adulto.
Ele quer tomar decisões por si mesmo e é incentivado para isso pela
família, pela escola, mas, quando procura o novo, o proibido, ele é
duramente criticado (e muitas vezes punido). Nesse plano, a busca de
experiências significativas causa-lhe medo. E o desejo do novo e o medo
do desconhecido.
A propósito, a droga e a AIDS representam dois fortes fatores de
risco à saúde dos jovens. Isto ocorre exatamente pelas características
sociais e psicológicas dessa fase da vida. Da iniciação sexual, que
ocorre cada vez mais cedo, à opção pelo casamento, que ocorre cada
vez mais tarde, há um período longo, no qual o compromisso
estabelecido por uma relação duradoura (como o noivado, há algum
tempo) ainda não está decididamente instalado. Como decorrência
destes fatores, os jovens decidem relacionar-se sexualmente e, com
mais freqüência, com diferentes parceiros, aumentando o risco de
contágio pelo HIV (vírus que pode provocar a AIDS). Apesar das
inúmeras campanhas públicas de prevenção à AIDS (a principal delas
incentiva o uso da camisinha), sabe-se que o comportamento do jovem
tende a ser negligente e que ele confia, basicamente, na sorte. Um dos
fatores psicológicos que o leva a essa negligência é a fantasia de
onipotência. Exemplo: “isto acontece com os outros, mas comigo não vai
acontecer!” Essa fantasia é positiva em muitos momentos, mas, neste
caso, torna-se, particularmente, muito perigosa.
O mesmo ocorre cora o uso de drogas. O mercado das drogas
profissionalizou-se. Isso significa dizer que este mercado é controlado
por cartéis que vivem na clandestinidade e no mundo do crime. A
comercialização das drogas transformou-se num negócio altamente
rentável. A droga perdeu o ar “alternativo” que lhe foi atribuído pelo
movimento de contracultura da década de 70, transformando-se numa
mercadoria de consumo como outra qualquer — com o agravante de ser
ilegal e altamente prejudicial à saúde. Pode-se dizer que, da mesma
forma que há o marketing do cigarro, do refrigerante etc., existe o
“marketing” da droga, que também utiliza as mesmas técnicas de
persuasão como fatores de alienação, diferenciando-se do primeiro por
ser feito na clandestinidade (veja capítulo 19, Meios de Comunicação de
Massa). Assim como as drogas legalizadas passam a representar
símbolos de auto-afirmação na adolescência — citamos como exemplos
o cigarro e a bebida alcoólica — a droga ilegal também ocupa seu
espaço nesse circuito. Bem, são muitos os símbolos de auto-afirmação
na adolescência e muitos deles são legítimos (vale ressaltar aqui que
outras culturas também utilizam esquemas para provar o valor do jovem).
Ocorre que, numa sociedade como a nossa, na qual impera a lei do
mercado, o jovem (e também o adulto e a criança) fica à mercê dos
esquemas [pg. 298] de convencimento do sistema comercial, que
explora muito bem esse campo psicológico da necessidade de símbolos
e, particularmente, de símbolos auto-afirmativos. Por tratar-se de
comércio, ao
“vendedor”
interessa
vender e
vender cada
vez mais.
Assim, o
mercado é
abastecido não
só com drogas
As drogas legalizadas, como o álcool e o tabaco, passam a representar
símbolos de auto-afirmação. sofisticadas e
caras, como os opiácios, mas com drogas baratas, acessíveis a qualquer
um, como o crack. O grande problema encontra-se, sem dúvida, no fator
de alienação produzido pelo esquema comercial, que captura o jovem (e
não somente ele) no seu ponto frágil — a moral. Como consumidor, ele
enfrentará o inevitável problema de saúde gerado pelo uso freqüente de
um produto que poderá levá-lo não só à dependência física e psicológica,
mas à morte.
Antes mesmo de perceber em seu corpo as conseqüências
orgânicas do consumo de drogas, o usuário entrará em um circuito no
qual a dose ou quantidade anteriormente consumida já não lhe propiciará
o efeito desejado, o que o levará a aumentar, cada vez mais, a
quantidade e a freqüência do consumo para satisfazer-se. Essa ciranda o
conduzirá a um estado de permanente letargia, impedindo-o de produzir
(estudar ou trabalhar) e tornando-o anti-social (perde os amigos e os
laços familiares).
É preciso mencionar aqui que não é necessário possuir um perfil
psicológico específico para se tornar um narcodependente. O
consumidor da droga não é alguém que está infeliz ou que precise da
droga para superar problemas de qualquer ordem. A droga (incluindo o
cigarro e o álcool) é um produto que fornece um prazer imediato e é esse
prazer que irá garantir o consumo (além de fatores desencadeados pelo
próprio grupo). Assim, não estão livres da dependência mesmo aqueles
que estão absolutamente seguros de que não têm o perfil [pg. 299] do
consumidor pesado (os que consomem com muita freqüência) e que só
consomem drogas moderadamente. Há fatores orgânicos que podem
estimular o consumo, levando o organismo a sentir “falta” do produto.
Assim, quando a pessoa se der conta, não terá como abandonar o
consumo. As neurociências estão avançando muito nos estudos dos
neurotransmissores e, provavelmente, não vai demorar muito tempo para
que seja elucidada a maneira como se dá a dependência. Tal avanço
certamente nos levará na direção da superação dessa dependência. O
prejuízo psicológico também é considerável e, no momento, a “vontade”
de abandonar o vício tanto do álcool, quanto das substâncias narcóticas
ou químicas, é o principal fator de cura.

SITUAÇÃO DO
JOVEM EM NOSSA SOCIEDADE
Em termos evolutivos, as bases para a cognição, de acordo com
Piaget, estão prontas por volta dos 11/12 anos de idade. Mas o jovem
não será considerado preparado, pela sociedade, para assumir a posição
de um adulto. No caso brasileiro, a maioridade civil é dada aos 21 anos,
e a maioridade penal aos 18.
Esse padrão obedece à lógica da sociedade de classes, onde a lei
geral é a da dominação. Neste caso, a dominação do adulto sobre o
jovem. O adulto determina o que devemos esperar do jovem; o problema
torna-se aqui uma questão política para a juventude. Frase como
“Jovem, você é o futuro da nação!” tem um conteúdo verdadeiro, mas

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