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Prefácio: Língua e Realidade

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Prefácio

Se a língua cria a realidade e

a poesia cria a língua,

quem cria a poesia ?

Esta é a pergunta do leitor quando começa a ler a obra-


prima do filósofo Vilém Flusser, Língua e realidade, ora em
bela reedição comemorativa da editora Annablume. Há
quarenta e um anos atrás, em 1963, esse livro foi publicado,
em português, pela editora Herder. Desde então, nunca foi
reeditado, em português ou em outra língua, obrigando-
nos, leitores de Flusser, a procurá-lo em bibliotecas, em sebos
ou através de cópias xerográficas. O volume com que traba­
lhei, por exemplo, tomei-o várias vezes emprestado do
filósofo Leandro Konder, até que ele gentilmente (ou iro­
nicamente) resolveu me presentear com o próprio.
10 Língua e Realidade

Trata-se de uma obra-prima por ser o primeiro livro


desse pensador e, também, por ser um livro absolutamente
ímpar. Nunca antes e nem depois discutiu-se uma filosofia
da língua como neste trabalho, baseado não apenas na in­
formação de um erudito como também na vivência de um
poliglota exilado. Língua e realidade foi escrito em portu­
guês por um filósofo tcheco que usualmente escrevia em
alemão. A partir da sua redação, Flusser sentiu-se incorpo­
rando o português como uma terceira língua materna (por
estranho que isso possa parecer a um monoglota dos trópi­
cos que se esforça, no máximo, para tartamudear em inglês).
Um dos últimos episódios da sua vida demonstra o
que dizemos. Em 1991, recebeu convite para proferir con­
ferência no Instituto Goethe de Praga. Voltava a sua cidade
natal pela primeira vez, desde que fugira dos nazistas, em
1939. Na conferência, empolgou-se a ponto de alternar o
tcheco e o alemão, até que, sem perceber, começou a falar
em português, a língua dos seus filhos, a língua dos seus
afetos. Sua mulher, Edith, precisou avisá-lo que a platéia
não estava entendendo muita coisa.
No dia seguinte, ele e Edith fizeram um piquenique no
bosque em que costumavam ir quando crianças. Ao toma­
rem o carro no meio de forte neblina, são abalroados por
um caminhão branco. Edith sobrevive, mas Vilém Flusser
morre no acidente, na cidade em que nasceu, no dia 21 de
novembro de 1991. A sua pedra tumular, no cemitério ju­
daico de Praga, contém uma inscrição em três idiomas: em
hebraico, em tcheco, e em português.
Em carta para a pintora Mira Schendel, Vilém explica­
va porque sistematicamente traduzia a si mesmo. Escrevia
VlLÉM FLUSSER 11

tudo primeiro em alemão, “que é a língua que mais pulsa no


meu centro”. Traduzia depois para o português, “que é a
língua que mais articula a realidade social na qual me tenho
engajado”. Depois traduzia para o inglês, “que é a língua que
mais articula a nossa situação histórica e que dispõe de mai­
or riqueza de repertório e forma”. Finalmente, traduzia para
a língua na qual queria que o escrito fosse publicado - “por
exemplo, retraduzo para o alemão, ou tento traduzir para o
francês, ou reescrevo em inglês”. Procurava “penetrar as es­
truturas das várias línguas até um núcleo muito geral e
despersonalizado para poder, com tal núcleo pobre, articu­
lar a minha liberdade”. Não escrevia em tcheco, porque a
expressividade adocicada da língua materna não lhe agrada­
va, embora comentasse, galhofeiro: “eu falo tcheco em várias
línguas”. Antes de mais nada escritor, recorreu à sentença
latina scribere necesse est, vivere non est, que mais tarde usou
como epígrafe do livro Die Schrift.
No manuscrito inédito, “Retradução enquanto méto­
do de trabalho”, Flusser mostrou-se fascinado com os
acordos e os desacordos entre as várias línguas e seus “espíri­
tos”, como os chamava. O alemão desafiava a sua mente a
não se entregar ao convite sedutor da profundidade para,
então, buscar clareza. O francês, ao contrário, desafiava-o a
resistir ao virtuosismo verbal para obrigar a língua a tocar
em surdina. O português seria para ele a língua das digres­
sões, logo, da indisciplina, convidando-o a conter-se. O
inglês, língua síntese, contendo tanta ciência, técnica, filo­
sofia e kitsch quanto nenhuma outra, desafiava-o a podar a
profundidade alemã, o brilho francês e a genialidade portu­
guesa, de modo a reduzir o texto ao essencial.
12 Língua e Realidade

Flusser dramatizava, através das línguas, o seu estar no


mundo. Elogiando o fenômeno da migração de que foi
objeto e partícipe, afirmou, no livro Natural:mente: “es­
trangeiro (e estranho) é quem afirma seu próprio ser no
mundo que o cerca”. Ser estrangeiro, portanto, é necessário,
tanto quanto viajar, ou imigrar. Navegar é preciso, viver não
é preciso; escrever é preciso, viver não é preciso. E o filósofo
navegava e escrevia não apenas entre dois continentes, mas
também entre pelo menos quatro idiomas.
Em muitos momentos, Vilém se referiu à importância,
para o seu pensamento, de ter escolhido migrar e, em conse­
quência, de haver escolhido a língua portuguesa como sua
outra língua materna. No 10° Simpósio Vilém Flusser, na
Suíça, em 2001, a pesquisadora italiana Francesca Rigotti
observou que o filósofo teria elaborado uma conveniente e
romântica justificativa a posteriori, uma vez que tanto a
migração quanto a língua portuguesa lhe teriam sido im­
postas pelas circunstâncias, de resto nada agradáveis.
Na ocasião, discordei de Francesca. Argumentei, por
analogia, que eu não poderia ter escolhido a mulher que
vive a meu lado, uma vez que não teria tido a oportunidade
de conhecer e experimentar todas as mulheres do mundo.
Ao mesmo tempo, porém, eu precisava, como preciso, es­
colher a mulher que vive a meu lado todos os dias, para
viver uma vida realmente boa. Logo, não escolhemos libe­
ralmente entre muitas possibilidades, porque cada escolha
importante se dá em razão de uma possibilidade única.
Como diz o ditado estoico, “o destino guia quem con­
sente e arrasta quem recusa”. Ou, segundo Ortega Y Gasset:
VlLÉM FLUSSER 13

“eu sou eu e minhas circunstâncias” Formulando de outra


maneira: como não escolho as minhas circunstâncias, preci­
so escolhê-las cotidianamente. Por isso a língua, para Flusser,
é seu compromisso e sua forma de religiosidade, como co­
menta no trecho abaixo, que aparece em mais de um artigo:

Os contornos do meu futuro


pensamento começavam a delinear-se;
o problema central viria a ser a língua.
Em primeiro lugar, obviamente, porque
amo a língua. Amo sua beleza, sua
riqueza, seu mistério e seu encanto. Só
sou verdadeiramente quando falo,
escrevo, leio ou quando ela sussurra
dentro de mim, querendo articular-se.
Mas também porque ela é forma
simbólica, morada do Ser que vela e
revela, vereda pela qual me ligo aos
outros, campo de imortalidade aere
perennius, matéria e instrumento da arte.
Ela é meu compromisso, através dela
concebo minha realidade e por ela
deslizo rumo ao seu horizonte e
fundamento, o silêncio do indizível. Ela
é minha forma de religiosidade. É, quiçá,
também a forma pela qual me perco.

Esse judeu sem Deus, à semelhança de Freud, é religio­


so a seu modo. No sentido radical e não paternal do termo,
a língua é a sua dimensão religiosa, se implica o mistério por
onde ele também se perde. Nesse sentido mais amplo, sua
religiosidade procura não a Verdade mas sim a Procura.

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