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Coerente com essa procura, o filósofo esboça já no seu pri
meiro livro uma filosofia da língua, sabendo que essa filosofia
não pode ser senão nebulosa. Esse caráter da filosofia não a
tornava niilista, se não partia da suposição de que toda a verda
de seria tão-somente uma ilusão linguística. Ao contrário
disso, assumia já um filosofar resistente e insistente.
Flusser afirmava que universo, conhecimento, verdade
e realidade são aspectos linguísticos. Aquilo que nos vem
por meio dos sentidos e que chamamos “realidade” é dado
bruto, que se torna real apenas no contexto da língua, única
criadora de realidade. No entanto, como as línguas, plurais,
divergem na sua estrutura, divergem também as realidades
criadas por elas.
Anatol Rosenfeld, ao resenhar Língua e realidade em
1964, discordou das teses de Flusser mas, ao mesmo tempo,
recomendou a leitura do seu livro, que considerou “magis
tral”. Reconheceu no trabalho intuições profundas e
percebeu nas análises modelos de argúcia. Pela originalida
de, considerou-o um livro poético, formulando talvez o
elogio mais perseguido pelo próprio filósofo. No entanto,
ele não considerou válidas, no campo da ontologia, as teses
de Flusser, porque elas borrariam os limites dos vários tipos
de ser, impedindo que se entendesse bem a diferença entre o
centauro, ser imaginário, o triângulo matemático, ser ideal,
e a árvore, ser real. Tudo se nivelaria na noite dos gatos par
dos, a língua produzindo sua própria realidade, espécie de
divina causa de si mesma.
Anatol admitiu haver alguma verdade na afirmação de
que a língua determina a nossa visão da realidade, mas essa
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verdade seria apenas parcial. Para ele, teria sido melhor se
Flusser se tivesse limitado ao exame cuidadoso dessa verda
de parcial, “em vez de pregar logo um mito e arrancar dos
seus diversos nadas toda uma mística” Todavia, admitiu o
conselho como “filisteu” ante esta filosofia lúdica, chegan
do a considerar preferível que Flusser continuasse escrevendo
livros como aquele, “esplêndidos, conquanto errados”, até
porque certos erros podiam ser mais fecundos do que tan
tas verdades.
Este é o interlocutor que Flusser sempre procurou: aque
le que, quaisquer que fossem as suas convicções, aceitasse
participar da “grande conversação geral”. Este tipo de
interlocutor vê erro, mas admite que o erro que vê possa ser
“esplêndido”.
Vilém replicou a Anatol no mesmo jornal, O Estado de
São Paulo, afirmando que a primeira motivação do seu li
vro havia sido responder ao desafio que lhe fora lançado
pela língua portuguesa, entendendo que a literatura brasi
leira de filosofia seria uma literatura alienada de sua própria
língua. Do seu ponto de vista de imigrante, tratava-se de
uma literatura de erudição que parasitava obras inglesas, ale
mãs e francesas. Para se contrapor, tomou a língua
portuguesa como personalidade autêntica, sujeitando-se aos
seus mandamentos e tentando formular pensamentos por
ela ditados. Deixou-se arrastar pela beleza dos verbos “ser” e
“estar”, saboreou o misterioso “há”, esforçou-se por desven
dar o segredo do futuro formado por “haver” e “ir”, mas
procurou não perder o contato com a conversação filosófi
ca geral, apelando sempre para as três línguas que então lhe
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eram íntimas: o alemão, o inglês e o tcheco. Aos poucos, a
língua portuguesa tornava-se o seu laboratório, as outras
três passando a constituir um sistema de controle.
A segunda motivação do seu livro era o desespero no
qual a leitura de Wittgenstein, provando que a língua gira
em circuito fechado, o tinha mergulhado. A língua espelha
o comportamento das coisas entre si, o qual, por sua vez,
espelha a língua, como dois espelhos pendurados em pa
redes opostas num quarto vazio. Se um juízo reflete uma
situação, é certo, mas vazio. Se não o reflete, é mero ruído.
As situações consistem de conceitos que são as sombras
das palavras, como as palavras são as sombras dos concei
tos. Em suma, a realidade, para além das situações, para
além do comportamento das coisas umas em relação às
outras, seria intelectualmente inatingível.
A terceira motivação do seu livro residia na inquieta
ção que lhe causava a fluidez da realidade. Semelhante
fluidez não estaria contemplada pela rigidez dos sistemas
ontológicos fornecidos pela tradição filosófica. A partir
dessa constatação, Flusser tomou os exemplos levantados
por Rosenfeld e os procurou demolir. Com que direito,
perguntou, posso afirmar não ser uma árvore um ser imagi
nário para o ecólogo - que só reconhece a floresta como
real? Com que direito, insistiu, posso afirmar a idealidade
do triângulo, se não estiver mergulhado numa camada geo
métrica de conversação? Com que direito, concluiu, posso
afirmar ser um centauro de fato imaginário para o grego do
século IX AC, a não ser com o direito da minha própria
superioridade auto-designada?
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Sistemas ontológicos que dividem as coisas em imagi
nárias, reais e ideais náo servem, porque não refletem, de
modo algum, a fluidez da realidade. É preciso permitir ao
centauro condição de idealidade, em determinado nível de
conversação, como é preciso permitir à árvore o status ima
ginário e ao triângulo a chance de realizar-se. Rosenfeld não
estaria aperceber o conceito de “realização”, que aparece me
lhor na língua inglesa: “do you realize it?\ isto é, “você
compreende ?” Logo, algo se “realiza”, algo se torna real den
tro do processo linguístico, quando esse algo é
compreendido pelos intelectos em conversação autêntica.
Encerrando a réplica, Vilém aplaudiu a crítica que rece
bera de Anatol. A publicação do desacordo, no seu entender,
enriquecia a conversação e, portanto, ampliava a realidade.
Com a mesma elegância do resenhista, considerou a crítica
recebida da maior importância para a propagação do seu
próprio pensamento.
O húngaro Paulo Rónai - que, como Vilém Flusser,
Anatol Rosenfeld, Otto Maria Carpeaux e tantos outros, viera
para o Brasil fugindo da perseguição nazista aos judeus - rese
nhou Língua e realidade no mesmo ano e no mesmo jornal,
mas sua resenha foi francamente favorável ao livro. Puxando a
brasa para a sua sardinha de tradutor, entusiasmou-se com as
demonstrações de Vilém Flusser: “se cada língua é um mundo
diferente e, ao mesmo tempo, o mundo inteiro, o problema da
tradução e do poliglotismo reveste-se de importância desco
munal. Antes que uma conversão, a tradução é uma
comparação; mais do que isso, uma ressurreição”. Deslumbra-
se com a leitura de obra de horizontes tão vastos, assinalando o
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mérito de ser escrita por um forasteiro em português. A tradu
ção, forçando uma língua a dobrar-se, a acompanhar as curvas
de um pensamento estrangeiro, seria talvez o meio mais re
quintado de comunhão espiritual entre as nações.
Essa obra-prima de Vilém Flusser trata das questões pri
márias da filosofia, como aquela que persegue os filósofos desde
Platão: se o mundo pode ser pensado, pensar sobre o pensa
mento revelaria os traços essenciais da estrutura do mundo?
Responder hoje à essa pergunta exige repensar o cogito
cartesiano. Na relação entre o mundo e a perspectiva que
representa o mundo, não se pode isolar o sujeito: o sujeito
é o que na perspectiva se mostra, assim como o eu é a propri
edade interna do mundo. Se fala e ação constituem um jogo,
como jogador posso saber o que o outro pensa se aprender
a interpretar seus blefes, seus tiques, seus não-ditos, mas
não posso saber antes o que eu penso; pode ser correto dizer
“sei o que você pensa”, mas é provavelmente errado afirmar
“sei o que eu penso”. No momento em que tento falar, como
sublinhou Clarice Lispector no seu primeiro romance, “não
só não exprimo o que sinto como o que sinto se transforma
lentamente no que eu digo”.
Se o mundo é independente da vontade porque efeito
de linguagem, então “as minhas palavras me surpreendem a
mim mesmo e me ensinam o meu pensamento”, como queria
Merleau-Ponty. As consequências da palavra ultrapassam as
premissas. Quem fala não sabe necessariamente melhor o que
expressou do que quem o escutou. De “penso ergo sou” não
se deduz automaticamente “falo ergo sou este que falou”: se o
que digo tem sentido, serei para mim mesmo como um outro