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Sistemas Eleitorais
Sistema eleitoral é o conjunto de regras aplicadas na realização de eleições com o
objectivo de regular a contagem dos votos dos cidadãos na representação política, em
que o eleitor expressa, através do voto, o partido e o candidato que prefere, e os
converte em mandatos (Costa, 2017)
O sistema eleitoral diz respeito aos múltiplos aspectos da legislação eleitoral. O sistema
eleitoral é caracterizado pela estrutura do boletim do voto a qual determinando como os
votantes podem exprimir as suas escolhas, a barreira eleitoral ou o mínimo de votos
necessários por um partido para assegurar a representação, a fórmula eleitoral a qual
determina como os votos são convertidos em mandatos, e a magnitude do círculo
eleitoral a qual é determinada pelo número de assentos parlamentares por cada círculo
eleitoral.
Na maioria dos caso, a escolha de um sistema eleitoral em particular tem um profundo
efeito na futura vida política do país em questão, e os sistemas eleitorais, uma vez
escolhidos, frequentemente se mantêm relativa mente constantes enquanto os interesses
políticos se solidificam ao seu redor e respondem aos incentivos apresentados por eles.
As escolhas que são feitas podem ter consequências imprevistas, bem como efeitos
previsíveis (Costa, 2017).
1.1. Tipos de Sistema eleitoral
Existem três tipos de sistemas eleitorais a seguir discriminados
Maioritários – de maioria simples (o partido que obtém mais votos ganha todos os
mandatos); ou, maioria absoluta (os lugares são ganhos com 50% dos votos mais um).
Este sistema favorece a formação de maiorias parlamentares e a estabilidade
governamental; favorece os grandes partidos em detrimento dos mais pequenos e a
representação tende a ser personalizada e local.
De representação proporcional – os mandatos são basicamente atribuídos em função
da percentagem de votos obtida. Este tipo de sistema oferece aos eleitores maior
diversidade de escolha; favorece a representação dos pequenos partidos; pode apresentar
um certo risco de fragmentação (dificuldade de formação de 2 maiorias de governo); e a
representação tende a ser partidária.
Mistos – reúnem características dos dois anteriores (o objectivo é juntar os aspectos
mais positivos de cada um deles). Este sistema assegura as vantagens e a justiça da
representação proporcional, acrescentando a dimensão de representação local e
personalizada; ademais, estabelece um balanço entre os candidatos e os partidos (Costa,
2017).
1.2. O sistema eleitoral moçambicano
A independência do país foi proclamada pelo Comité Central da Frente de Libertação de
Moçambique (Frelimo), a 25 de Junho de 1975. Nesse mesmo ano, foi promulgada a
constituição que definia o Estado como de Democracia Popular sob a orientação política
da Frelimo. Era o sistema de partido único que vigorou durante 15 anos (Brito, 2007).
Esta constituição seria substituída em 30 de Novembro de 1990, por uma nova que
introduziu mudanças radicais no sistema político constitucional.
O ano de 1990 trouxe profundas alterações em praticamente todos os
campos da vida de Moçambique, sendo aprovada uma nova Constituição
que introduziu um sistema multipartidário e a economia de mercado. O
Acordo Geral de Paz entre a Frelimo e a RENAMO foi assinado em
1992, realizando-se, em 1994, as primeiras eleições legislativas e
presidenciais com sufrágio directo e voto secreto. No parlamento que, de
«Assembleia Nacional Popular», passou a designar-se Assembleia da
República, a Renamo passou a ocupar 117 lugares e a Frelimo 133. As
eleições presidenciais do mesmo ano deram a vitória ao presidente
Joaquim Chissano, que foi reconduzido no cargo. Vencendo, de novo, nas
eleições de 1999. A designação oficial do país foi, entretanto, também
alterada de República Popular de Moçambique para, simplesmente,
República de Moçambique (Brito, 2007).
Nesta constituição, o Estado é definido como o Estado Democrático que garante a
justiça social (art. I); é permitida a liberdade de associação e a criação de partidos
políticos; eleição democrática dos governantes do país, o que significa que devem ser
realizadas eleições gerais e livres; os cidadãos passam a gozar de um conjunto de
direitos, liberdades e garantias que garantem a sua autonomia e liberdade e que o Estado
deve observar, implementar e promover
Assim, estavam determinados os princípios básicos que orientariam o país na transição
de um sistema de partido único para um sistema multipartidário.
Em julho de 1990, reuniram-se os dois movimentos beligerantes, a Frelimo (tendo como
representante Armando Emílio Guebuza) e a RENAMO (tendo como representante Raul
Domingos), em Roma, tendo a comunidade de Santo Egídio, através do Monsenhor
Matteo Zuppi e do Arcebispo da Beira, Dom Jaime Pedro Gonçalves (em memória),
como observadores do processo do Acordo Geral de Paz (AAVV, 1993).
Assume-se, nesse encontro, o compromisso de se introduzir um sistema multipartidário,
com eleições regulares com base no sufrágio universal, garantindo ainda a liberdade de
expressão, de culto e de imprensa, bem como a Independência do sistema judicial. As
negociações decorreram em outubro de 1990 em Roma, e factores internos tiveram uma
grande contribuição (dimensão que o conflito tomava só estava levando o país à ruína,
sem contar que tanto a Renamo como a Frelimo estavam perdendo os apoios que
provinham das grandes potências).
O AGP era composto por diversos documentos, entre os quais se destacavam sete
protocolos que tratavam de assuntos diversos. Um desses documentos foi o Protocolo II,
que tratava dos princípios do direito eleitoral. Neste documento era definido que o
governo deveria elaborar uma lei eleitoral durante a qual a Renamo (então movimento
rebelde) bem como outros partidos políticos deveriam ser consultados (AAVV, 1993).
A Comissão Nacional de Eleições como Órgão administrativo Central e
independente do Esta desempenha um papel fundamental na consolidação
do Estado de Direito Democrático na medida em que garante a
supervisão do recenseamento e de todos actos eleitorais. Trata se do
processo eleitoral que por via de regra legitima o poder politico, a
ferramenta principal para a garantia da estabilidade do corpo social
(AAVV, 1993).
Tendo referência a sua génese, denota-se claramente que a sua criação estava
directamente ligado ao Acordo Geral da Paz de Roma de 4 de Outubro de 1992, através
do Protocolo III que estabelece que, para “organizar o processo eleitoral, o Governo
constituirá uma Comissão Nacional de Eleições composta por pessoas que, pelas suas
características profissionais e pessoais, dêem garantias de equilíbrio, objectividade e
independência em relação a todos Partidos Políticos. Um terço dos membros a designar
na referida Comissão será apresentada pela Renamo”.
Assim, em Abril de 1993, teve início o processo de consulta pública, que posteriormente
resultou na aprovação da lei eleitoral número 4/93, de 28 de Dezembro, pela
Assembleia da República, no âmbito de suas competências definidas pelo artigo 135.º,
número 2, parágrafo c. A lei eleitoral nº.4/93, 28 de Dezembro, quanto a composição da
CNE, prevê 21 membros provenientes dos partidos políticos, dos quais, 10 membros
provinham do partido Frelimo; 7 membros provinham do partido da oposição Renamo;
3 membros provinham dos pequenos partidos da oposição.
Esse processo culminou com a indicação consensual de Brazão como figura para chefiar
essa comissão. A respeito disso, o próprio Brazão (2022), diz o seguinte:
Enquanto isto foi abordado em três momentos diferentes pelos partidos
que compunham a Comissão Nacional de Eleições que era: a FRELIMO,
a RENAMO e os Partidos da Oposição Não Armada, que eram uma
coligação de partidos não armados. Então cada um abordou em algum
momento para eu candidatar-me por exemplo, como candidato deles
porque havia candidaturas da Comissão Nacional de Eleições, para ser
Presidente depois aqueles 20 membros iriam votar, quem seria o
presidente da CNE. Então, a FRELIMO mandou um delegado para me
contactar e eu disse, “não está nos meus planos, mas aceito candidatura se
bem que há-de haver mais candidatos que são conhecidos no País e que
serão eleitos”. Isso foi na parte da manhã, a tarde veio um delegado da
RENAMO a pedirem para que eu fosse candidato, isto foi no sábado. No
domingo, eu fui a Missa em Malhangalene, logo estavam também os
delegados do Partido Não Armado a dizer que queriam falar comigo em
uma reunião que decorria no clube militar. Fui lá e vi uma sala cheia,
então me disseram “olha nós estámos a pedir o senhor para ser o nosso
candidato para Presidente da CNE”. Eu ouvi aquilo, mas “como é que
esses três combinaram, não combinaram”. Então dei o meu nome para lá,
tinha a certeza que não ia passar porque eu acabava de chegar, não tinha
15 dias no País, portanto, não fazia diferença dar o meu nome para
candidato. Primeiro, tinham dito que havia outros candidatos, então foi
assim, dei meu nome, acho que passados três dias soube que fui eleito por
unanimidade para a presidência de CNE, que todos os partidos me
escolheram para presidente da CNE (Brazão, 2022).
Após a implementação do multipartidarismo em Moçambique, na sequência das
primeiras eleições realizadas em 1994, apoiadas pela Constituição da República de 1990
e pelo Acordo Geral de Paz de 1992, Moçambique adoptou o sistema de representação
proporcional.
Em teoria, a escolha deste tipo de sistema pretendia incluir partidos com pouca
expressão política no sistema eleitoral moçambicano, apesar da imposição da barreira
dos 5%, o que se tornou um desafio para os pequenos partidos atingi-la. A lei eleitoral
moçambicana estabelecia que para um partido ter representação parlamentar devia obter
no mínimo 5% do total dos votos nacionais.
Até à data, o parlamento moçambicano nunca ultrapassou os 3 partidos com assento na
Assembleia da República, admitindo a possibilidade de os 5% de assinaturas exigidas
aos partidos políticos serem a razão pela qual os partidos pequenos não têm mais
expressão.
Nos Princípios gerais, afirmava-se que a Lei Eleitoral estabelece um sistema eleitoral
que respeite os princípios de voto directo, igual, secreto e pessoal. Esta lei estabelece as
regras jurídicas que deviam ser respeitadas na inscrição dos cidadãos nas listas
eleitorais, na eleição do futuro Presidente da República, bem como dos novos deputados
à Assembleia da República, pois esta seria a primeira vez que haveria eleições
multipartidárias em Moçambique. A lei eleitoral regulamentou a organização do
processo eleitoral, em etapas:
As eleições da Assembleia da República e do Presidente da República são realizadas em
simultâneo e terão lugar um ano após o dia da assinatura do Acordo Geral de Paz,
conforme previsto no Protocolo;
O Governo elaborar a Lei Eleitoral em consulta com a RENAMO e com os outros
partidos no período máximo de 2 (dois) meses a partir da adopção, pela Assembleia da
República, dos instrumentos legais que incorporam na Lei moçambicana os Protocolos e
as garantias, assim como o Acordo Geral de Paz.
A aprovação e publicação desta lei eleitoral ocorrerão num prazo não superior a um mês
após a conclusão da sua elaboração;
Até 60 dias após a assinatura do Acordo Geral de Paz, o Governo e a RENAMO
acordarão nos observadores a convidar para o processo eleitoral. O Governo formulará
os respectivos convites;
A campanha eleitoral iniciar-se-á 45 dias antes da data das eleições;
Até à data do início da campanha eleitoral todos os partidos concorrentes deverão estar
já registados, e deverão já ter apresentado as suas listas de candidatos bem como os
respectivos símbolos;
Até à data do início da campanha eleitoral os candidatos à Presidência da República
deverão ter apresentado as suas candidaturas em conformidade com os requisitos
previstos na lei;
A campanha eleitoral termina 48 horas antes do início da votação;
A Assembleia da República eleita toma posse 15 (quinze) dias após a publicação dos
mapas dos resultados eleitorais. Os mapas dos resultados eleitorais serão publicados no
prazo máximo de 8 (oito) dias após o encerramento da votação; j) O Presidente da
República eleito será investido no cargo uma semana depois da tomada de posse da
Assembleia da República eleita.
A definição, organização e funcionamento dos órgãos responsáveis pela direcção do
processo censitário e do processo eleitoral, bem como a resolução de quaisquer
irregularidades e infraçcões que pudessem surgir ao longo do processo, eram questões
regulamentadas detalhadamente nesta lei. Estava também prevista criação da CNE.
Explicitamente, dizia-se que:
Para organizar e dirigir o processo eleitoral o Governo constituirá uma
Comissão Nacional de Eleições composta por pessoas que, pelas suas
características profissionais e pessoais, dêem garantias de equilíbrio,
objectividade e independência em relação a todos os partidos políticos.
Um terço dos membros a designar na referida Comissão será apresentado
pela RENAMO. A Comissão terá as seguintes competências: Elaborar em
consulta com os partidos políticos o Regulamento para a disciplina da
propaganda eleitoral, o Regulamento sobre a distribuição do tempo de
antena, bem como o Regulamento sobre a utilização de lugares e
instalações públicas e privadas durante a campanha eleitoral.
Refira-se que com a publicação desta lei foi revogada toda a legislação eleitoral
anterior, ou seja, todas as leis existentes no país que regulavam as matérias relacionadas
com as eleições. O recenseamento eleitoral foi um dos elementos fundamentais do
processo eleitoral. Graças ao censo eleitoral, seria criada uma lista de cidadãos com
direito de voto, ou seja, eleitores, garantindo-lhes assim o direito de escolher os seus
representantes, que é uma das bases dos regimes democráticos.
Do recenseamento eleitoral realizado resultou a reunião de toda a informação sobre os
eleitores: a lista eleitoral, que incluía o nome, número e local de recenseamento), e as
listas eleitorais que continham informações relativas aos eleitores de cada assembleia de
voto e se destinavam a ser utilizadas no momento da votação.
O recenseamento eleitoral tinha diversas funções. Serviria para: garantir aos cidadãos
elegíveis o direito de voto e impedir que aqueles que não tinham esse direito, o
exercessem; evitar votos múltiplos do mesmo eleitor; facilitar as operações de votação;
ajudar a prevenir actos de fraude, como, por exemplo, o preenchimento ilegal de votos.
Finalmente, nos sistemas de representação proporcional, como foi o caso de
Moçambique, o recenseamento eleitoral seria utilizado para determinar o número de
mandatos por distrito eleitoral.
Além disso, quando os dados foram devidamente divulgados, o recenseamento eleitoral
também permitiu que os partidos e candidatos conduzissem de forma mais eficaz as
suas campanhas de mobilização eleitoral, ou que as próprias organizações da sociedade
civil, mas também os próprios órgãos de gestão eleitoral, preparassem melhor as suas
intervenções de educação cívica.