2.
TEMPERATURA
2.1. Introdução
De entre todas as grandezas físicas, a temperatura é provavelmente aquela que é medida com
mais frequência. A medição de temperatura interessa aos mais variados ramos de actividade,
quer estes sejam industriais ou não. O próprio corpo humano constitui um exemplo, da
importância do conhecimento da temperatura. Também no nosso dia a dia somos confrontados
com o problema de espaços demasiado quentes ou demasiado frios, que nos comunicam uma
sensação de conforto ou de desconforto. Enfim, na indústria, o controlo da temperatura é
essencial para que as reacções químicas, as soldaduras, a destilação fraccionada, a secagem de
materiais etc. se efectuem de forma possível, segura e correcta. Citam-se como exemplo de
actividades onde é essencial a medição da temperatura: as indústrias químicas, siderúrgicas, de
plásticos e de papel, os sistemas de aquecimento e condicionamento de ar, as indústrias
alimentar, farmacêutica e automóvel, a aviação, a meteorologia e a medicina.
O tipo de termómetro utilizado em cada caso, a sua precisão e outras características, dependem
da aplicação particular, sendo suficiente para alguns casos o uso de um simples termómetro de
álcool, enquanto que para efectuar determinadas medidas de precisão poderá ser necessária a
utilização de dispositivos extraordinariamente complexos, e consequentemente muito caros.
Como se depreende, há variados métodos para efectuar a determinação da temperatura de um
corpo. Analisar-se-ão aqui os métodos mais vulgares.
Neste capítulo começa por se apresentar o conceito de temperatura, define-se a Escala
Internacional de Temperatura, indicam-se outras unidades em que esta se mede e qual a sua
equivalência. Em seguida estudam-se os principais tipos de elementos primários utilizados para
a obtenção da temperatura, dando-se particular ênfase às termo-resistências e aos termopares,
devido à sua larga divulgação na indústria. Aborda-se também a condução de calor através de
um corpo, para se compreender quais as possíveis fontes de erro ao utilizar termómetros de
contacto. São ainda estudados os métodos para a medição de temperatura sem contacto físico,
utilizando a radiação emitida pelos corpos. Para cada um dos tipos faz-se uma breve
apresentação do princípio físico utilizado, descrevem-se alguns detalhes construtivos, circuitos
utilizados e campo de aplicação. Apresentam-se os diversos aspectos da instalação dos sensores
de temperatura, da sua calibração e manutenção. Finalmente apresenta-se um sumário sobre a
selecção de sensores em função da aplicação e do seu custo. No fim do capítulo apresentam-se
alguns problemas de aplicação. As tabelas com interesse para o utilizador de termopares
encontram-se no fim do livro no Cap. 25, secção 25.10.
21
2. TEMPERATURA
2.2. Temperatura, termómetros, unidades
2.2.1 Conceito de temperatura. Termómetro.
O conceito de temperatura faz parte do nosso dia a dia, encontrando-se ligado à noção que
temos de quente e de frio, à quantidade de calor, ao aquecimento e arrefecimento. Quando um
corpo está quente diz-se que a sua temperatura é elevada, quando está frio, que a sua
temperatura é baixa. No entanto, a nossa percepção de quente e de frio pode ser enganadora:
Quem é que nunca teve a sensação de frio ao tocar num pedaço de metal que se encontra à
mesma temperatura que um bocado de madeira, que não parece tão frio?
As propriedades dos corpos alteram-se quando estes ficam mais quentes ou mais frios. Por
exemplo, uma barra metálica aumenta de comprimento quando é aquecida (quando lhe é
fornecido calor), pode também mudar de cor, fundir, etc. Estas alterações das propriedades
físico-químicas dos corpos têm a ver com a estrutura interna da matéria, em particular com o
estado de agitação molecular. A temperatura é proporcional à energia cinética molecular do
corpo, ou seja, é tanto maior quanto maior for a agitação molecular.
No caso de um gás perfeito, em que as moléculas se comportam como partículas pontuais em
movimento desordenado, que chocam entre si e com as paredes do reservatório onde o gás está
contido, a temperatura é proporcional à energia interna do gás.
Tratando-se de um sólido ou de um líquido o aumento da sua energia interna provoca o
enfraquecimento das ligações inter-atómicas, o que conduz ao aumento das distâncias entre os
átomos. Daí que os sólidos e líquidos se expandam com o aumento da temperatura.
Convém não confundir temperatura com calor. O calor é uma forma de energia: energia
térmica. Sempre que a um corpo se fornece calor a sua temperatura sobe; quando um corpo
perde calor a sua temperatura desce. A quantidade de calor ∆Q permutada entre a fonte de calor
e corpo está relacionada com a sua variação de temperatura ∆T pela expressão
∆Q = mc∆T (2.1)
em que
m – massa do corpo
c – calor específico do corpo.
À quantidade m×c dá-se o nome de capacidade calorífica do corpo.
Chama-se a atenção para os factos seguintes:
• O conceito de temperatura está associado à existência de matéria, não fazendo
portanto qualquer sentido falar-se da temperatura do vácuo.
• A temperatura é uma grandeza intensiva. Isto significa que o valor referente a um
todo não pode ser obtido pelo somatório dos valores associados às partes constituintes.
Para se quantificar o facto de um corpo se encontrar muito ou pouco quente, associam-se
determinadas propriedades típicas que certos corpos exibem quando se encontram mais ou
menos quentes, a uma escala numérica, que por convenção indicará a temperatura desse corpo.
Ao dispositivo utilizado para efectuar a medida de temperatura chama-se termómetro.
22
2. TEMPERATURA
Uma das convenções que foi seguida durante algum tempo para a fixação da escala numérica de
temperaturas consistiu em atribuir à temperatura de fusão do gelo o valor 0, e à temperatura de
ebulição da água à pressão atmosférica normal o valor 100. Como termómetro (ou indicador)
utilizou-se a variação do volume de um líquido (álcool, mercúrio), fazendo-se a leitura da altura
a que esse líquido termométrico sobe num tubo capilar. Marcando as referências 0 e 100 que se
acabam de indicar e dividindo a distância entre estes dois valores em 100 partes iguais, obtém-
-se a escala centígrada. Cada divisão da escala corresponde a 1 ºC (grau centígrado).
Esta escala satisfez as necessidades de medida de temperaturas durante muitos anos, até se
começarem a exigir melhores desempenhos. O problema da escala assim definida é que devido
à não linearidade das dilatações com a temperatura dos líquidos termométricos utilizados, os
valores intermédios indicados por cada tipo de termómetro não são exactamente iguais. Por esta
razão a escala centígrada foi abandonada e foi adoptada a Escala Internacional de Temperaturas,
que se apresenta a seguir.
2.2.2 A Escala Internacional de Temperaturas.
Escala Internacional de Temperaturas (ITS) é o resultado de sucessivas evoluções da escala de
temperaturas, datando a última definição do ano de 1990 (ITS-90).
Para o estabelecimento da, ITS-90, foi fixado o valor da temperatura em 17 pontos, cada um
deles definido pelo comportamento de determinados materiais em situações termodinâmicas
bem definidas. A ITS-90 foi fixada com referências dentro da gama de -270.15 ºC a 1082.62 ºC.
Cada um dos pontos corresponde a um estado de equilíbrio termodinâmico durante a fase de
transformação do material indicado. Na Fig. 2.1 apresentam-se os 17 pontos que definem a
Escala Internacional de Temperatura ITS-90 ou escala Celsius(1). À unidade desta escala chama-
-se grau Celsius e representa-se por ºC. Repare-se que o termómetro representado é apenas
simbólico, servindo para indicar a posição relativa das diversas temperaturas da ITS-90, não
havendo nenhum líquido termométrico que possa percorrer toda a gama indicada. Observe-se na
figura o número de casas decimais com que são definidos alguns dos pontos fixos, em alguns
dos casos até à décima milésima de ºC.
Chama-se ponto triplo ao ponto do diagrama de estados (p,T) em que é possível a coexistência
das três fases, sólida, líquida e gasosa. Os pontos triplos e de solidificação 5 a 17 são definidos à
pressão normal (1 atmosfera).
Entre pontos fixos da tabela a temperatura é definida pela resposta de sensores especificados na
norma, de forma a poder interpolar os pontos fixos: nas muito baixas temperaturas, junto do
zero absoluto, em torno do ponto 1 da tabela, utilizam-se termómetros de hélio gasoso. Para a
interpolação entre os pontos 2 e 15 usa-se um termómetro de resistência de platina e acima do
ponto 15 utilizam-se pirómetros ópticos.
A escala centígrada que se apresentou na secção anterior e que foi estabelecida por Celsius, é
quase igual à escala Celsius nos pontos 0 ºC e 100 ºC, podendo apresentar pequenas diferenças
em pontos intermédios, consoante o tipo de termómetro que se utilize na definição da escala
centígrada.
1
Anders Celsius - Físico, Astrónomo e Geodesista Sueco, 1701-1744.
23
2. TEMPERATURA
17. Ponto de Solidificação do Cobre (1084.62 ºC)
16. Ponto de Solidificação do Ouro (1064.18 ºC)
15. Ponto de Solidificação da Prata (961.78 ºC)
14. Ponto de Solidificação do Aluminio (660.323 ºC)
13. Ponto de Solidificação do Zinco (419.527 ºC)
12. Ponto de Solidificação do Estanho (231.928 ºC)
11. Ponto de Solidificação do Índio (156.5985 ºC)
10. Ponto de Fusão do Gálio (29.7646 ºC)
9. Ponto Triplo da Água (0.01 ºC)
8. Ponto Triplo do Mercúrio (-38.8344 ºC)
7. Ponto Triplo do Argon (-189.3442 ºC)
6. Ponto Triplo do Oxigénio (-218.7916 ºC)
5. Ponto Triplo do Neon (-248.5939 ºC)
4. Ponto de Ebulição do Hidrogénio (-252.85 ºC)
3. Fase Líquido/Vapor do Hidrogénio (-256.16 ºC)
2. Ponto Triplo do Hidrogénio (-259.3467 ºC)
1. Termómetro de Gás Hélio (-270.15 a -268.15 ºC)
Fig. 2.1 - Representação simbólica da ITS-90
24
2. TEMPERATURA
2.2.3 Unidades.
Muitas vezes, principalmente nos trabalhos de carácter científico, é importante definir uma outra
escala de temperaturas, a escala absoluta de temperaturas. A sua definição tem a ver com o
facto de não ser possível a existência de temperaturas inferiores a -273.16 ºC. Assim, define-se a
escala absoluta de temperaturas adicionando 273.15 à escala Celsius. À unidade utilizada para
exprimir a temperatura de um corpo na escala absoluta chama-se kelvin(2), sendo o seu símbolo
a letra K (não é grau kelvin, nem ºkelvin nem ºK; é apenas kelvin e K). A relação entre os
valores numéricos da temperatura expressa em graus Celsius e em kelvin é dada por
TK = TC + 273,15 (2.2)
em que
TK – temperatura do corpo expressa em kelvin, ou temperatura absoluta,
TC – temperatura do corpo expressa em graus Celsius.
O kelvin é a unidade de base de temperatura do Sistema Internacional de Unidades. No entanto
o SI permite a utilização do º Celsius para exprimir o valor da temperatura.
Nos países de cultura anglo-saxónica, em particular nos EUA, é frequente a utilização de uma
outra escala de temperatura, a escala Fahrenheit(3). Devido ao facto desta escala se encontrar
em uso corrente nos EUA, e aparecer com muita frequência nas especificações e características
dos equipamentos, é importante conhecê-la. A fixação da escala Fahrenheit, em 1715, é anterior
à definição da escala centígrada. É baseada nas mesmas referências que a escala centígrada,
apenas os valores numéricos atribuídos são diferentes. Assim, a escala Fahrenheit atribui ao
ponto de fusão do gelo o valor 32 ºF e ao ponto de ebulição da água, a 1 atmosfera, o valor
212 ºF. A diferença entre estes dois valores é de 180 ºF. A divisão da escala em 180 partes
seguiu um critério análogo ao da divisão da semicircunferência em graus. A relação entre os
valores numéricos da temperatura expressa em ºF e em ºC é dada por
(TF − 32) / 9 = TC / 5 (2.3)
em que
TF – temperatura do corpo expressa em graus Fahrenheit,
TC – temperatura do corpo expressa em graus Celsius.
A escala absoluta de temperaturas correspondente à escala Fahrenheit é designada por escala
Rankine(4). Tem-se
TR = TF + 459,67 (2.4)
onde
TR – temperatura do corpo expressa em graus Rankine, (temperatura absoluta),
TF – temperatura do corpo expressa em graus Fahrenheit.
2
William Thompson (Lord Kelvin) - Físico Britânico, 1824-1907.
3
Gabriel Fahrenheit - Físico Holandês, 1686-1736.
4
William J. Macquorn Rankine - Físico Inglês, 1820-1872.
25
2. TEMPERATURA
2.3. Termómetros de líquido, de pressão e bimetálicos
2.3.1 Dilatação linear e volumétrica.
Sempre que um material é sujeito a um aumento de temperatura, o aumento da sua energia
interna provoca o enfraquecimento das ligações interatómicas (e entre iões, no caso dos líquidos
e dos gases), o que conduz a um aumento de volume. É bem conhecido de todos o fenómeno
corrente de que os carris de caminho de ferro têm folgas, para compensar a expansão que ocorre
nos dias mais quentes.
Para um aumento de temperatura ∆T, a variação de comprimento de um sólido ∆A , segundo
uma dada direcção é dada por
∆A = α A ∆T (2.5)
em que A – comprimento segundo uma direcção, ∆T – variação de temperatura do corpo,
∆A – variação de comprimento devido a ∆T, α – coeficiente de dilatação linear.
Se o sólido for um cubo isotrópico tem-se, para o volume, V = A 3 e ∆V = 3A 2 ∆A , donde
∆V = β V ∆T (2.6)
onde V – volume do corpo, ∆T – variação de temperatura do corpo,
∆V – variação de volume devido a ∆T, β – coeficiente de dilatação volumétrica.
Verifica-se a relação β = 3α .
Para cada material o coeficiente de dilatação varia muito pouco com a temperatura. No entanto a
sua dependência com o material é bastante grande. Na tabela seguinte indicam-se os valores de
α e de β para diversos materiais.
Material T ( ºC ) α ( ºC -1 ) β ( ºC-1 )
Alumínio - 23 22.1 × 10 -6 6.6 × 10 -5
Alumínio 20 24 × 10 -6 7.2 × 10 -5
Diamante 20 1 × 10 -6 3.0 × 10 -6
Vidro 20 9 × 10 -6 2.7 × 10 -5
Pyrex 50 3.2 × 10 -6 9.6 × 10 -6
Gelo -5 50.7 × 10 -6 1.5 × 10 -4
Aço 20 11.7 × 10 -6 3.5 × 10 -5
Mercúrio 20 61.3 × 10 -6 1.84 × 10 -4
Tabela 2-1 – Coeficientes de dilatação de alguns materiais
O fenómeno que acaba de se expor, de existir uma dilatação dos materiais praticamente
proporcional à temperatura, tem muitas implicações na indústria e é aproveitado na construção
de vários tipos de termómetros.
26
2. TEMPERATURA
Segundo a ISA(5) estes termómetros classificam-se do seguinte modo:
• Classe I Bolbo contendo líquido que não seja mercúrio.
• Classe II Bolbo contendo vapor.
• Classe III Bolbo contendo gás.
• Classe V Bolbo contendo mercúrio.
2.3.2 Termómetro de líquido.
O termómetro de líquido baseia-se no fenómeno físico que se acaba de expor, dos corpos se
dilatarem com a temperatura. São constituídos por um pequeno recipiente metálico de vidro ou
de outros materiais, em forma de bolbo, cheio de líquido. O volume do bolbo é normalmente
inferior a 1 cm3. Como líquidos termométricos utilizam-se mercúrio (gama de -38 ºC a 350 ºC),
álcool (-100 ºC a 70 ºC) e outros líquidos. Como a expansão do líquido em função da
temperatura é maior do que a expansão do bolbo, há um aumento do volume aparente do
líquido. O acréscimo de volume de um corpo com a temperatura é quase linear, podendo
representar-se aproximadamente pela expressão (2.6) pelo que a dilatação do líquido com a
temperatura será dada por:
V = V0 (1 + β T ) (2.7)
em que
V – volume do líquido à temperatura T,
V0 – volume à temperatura de 0 ºC,
β – coeficiente de dilatação volumétrica aparente,
T – temperatura do líquido em ºC.
O aumento de volume do líquido termométrico é medido por um tubo capilar de vidro ligado
inferiormente ao bolbo que contem o líquido termométrico, e superiormente a uma câmara de
expansão contendo um gás rarefeito. Como o coeficiente de dilatação volumétrico do líquido é
maior do que o do bolbo, sempre que ocorre uma variação de temperatura há uma variação
diferencial no volume do líquido em relação ao do bolbo no mesmo sentido, pelo que o líquido
sobe no tubo capilar. O tubo está graduado directamente em temperatura.
A precisão de um termómetro de líquido varia de ± 0.2 ºC a ± 2 ºC . Este tipo de termómetro
tem a vantagem de ser prático. No entanto não é indicado para aplicações industriais, uma vez
que não permite com facilidade a transmissão à distância, exigindo um operador para efectuar
leituras. Actualmente os termómetros de mercúrio não estão autorizados para uso em medicina.
2.3.3 Termómetro de pressão de gás.
Estes termómetros baseiam-se no fenómeno físico de que no interior de um recinto fechado a
pressão de um gás é muito aproximadamente proporcional à sua temperatura. A equação dos
gases perfeitos representa com muito boa aproximação este fenómeno:
pV = nRT (2.8)
5
ISA – Instrumentation, Systems and Automation.
27
2. TEMPERATURA
em que p – pressão a que se encontra o gás, V – volume do gás,
T – temperatura absoluta do gás, n – número de moles de gás,
R – constante dos gases perfeitos, R = 8.3144 JK-1mol-1 .
Do ponto de vista construtivo este termómetro é constituído por um recipiente metálico fechado,
em forma de bolbo, contendo um gás inerte. Para que a sensibilidade seja apreciável o volume
do bolbo é substancialmente maior que o volume dos bolbos usados nos termómetros de líquido.
Como gases termométricos utilizam-se normalmente azoto, néon, crípton e ar. A pressão do gás
no interior do bolbo pode ser medida por exemplo por meio de um tubo de Bourdon. Para este
efeito o bolbo é ligado ao Bourdon por meio de um tubo capilar. A fim de diminuir os erros
devidos à exposição do tubo capilar à temperatura ambiente, projecta-se o volume do tubo
capilar muito menor do que o volume do bolbo. Utilizam-se tubos capilares com o comprimento
máximo de 30 m. Comparado com o termómetro de líquido, tem a vantagem de se poder colocar
o bolbo e o Bourdon em qualquer posição relativa, sem necessidade de efectuar quaisquer
correcções devido à diferença de cotas entre o bolbo de medida e o sensor de pressão.
2.3.4 Termómetro de tensão de vapor.
Estes termómetros são semelhantes aos anteriores, apenas o princípio físico em que se baseiam
é diferente. O elemento primário é constituído por um bolbo metálico parcialmente cheio com
um gás liquefeito. A pressão do gás é medida por meio de um Bourdon, de um fole ou outro
dispositivo que se ligada ao bolbo. A pressão do vapor saturado depende da temperatura a que
este se encontra. Quando num recipiente fechado se encontram em presença duas fases de um
mesmo fluido, por exemplo fase gasosa e fase líquida, a pressão a que se encontra o gás é dada
por
p = e A− BT (2.9)
em que A, B – constantes características do fluido, T – temperatura absoluta do fluido,
p – pressão absoluta da fase gasosa.
Para que um termómetro deste tipo funcione correctamente deverão coexistir sempre uma fase
líquida e a respectiva fase gasosa. Este termómetro tem uma sensibilidade superior à do
termómetro de gás, mas tem o inconveniente de não ser linear.
2.3.5 Termómetro bimetálico.
O termómetro bimetálico é constituído por duas ou mais lâminas com coeficientes de dilatação
diferentes, soldadas umas às outras, como se representa nas figuras seguintes. Ao dar-se uma
variação na temperatura os metais dilatam-se de forma desigual, obrigando o conjunto a
deformar-se e a actuar um contacto ou a posicionar um ponteiro indicador.
Ao dispositivo da Fig. 2.2, que apenas pode apresentar dois estados de saída (contacto aberto ou
fechado), chama-se termostato. Ao dispositivo da Fig. 2.3 dá-se o nome de termómetro
bimetálico. Qualquer deles tem grande difusão na indústria e nas aplicações domésticas: citem-
-se os termostatos da máquinas de lavar, dos aquecedores e dos frigoríficos.
28
2. TEMPERATURA
T = T0
T > T0
Fig. 2.2 – Termostato bimetálico Fig. 2.3 – Termómetro bimetálico
2.4. Termo-resistências
2.4.1 Princípio, Materiais, Características.
Chama-se termo-resistência ao dispositivo, utilizado para a medida de temperatura, cujo
princípio se baseia na variação da resistência eléctrica de um metal com a temperatura. Uma
termo-resistência é constituída por um núcleo de cerâmica, de vidro ou de outro material
isolante em volta do qual se encontra enrolada a resistência, que pode ser constituída por um fio
ou por um filme metálico, de acordo com a aplicação, e por uma protecção. Quando um material
se encontra formado em forma de fio ou de filme, a sua resistência eléctrica, R, é obtida pela
expressão
A
R=ρ (2.10)
S
em que:
A – comprimento do fio ou filme,
S – Secção transversal do fio ou filme,
ρ – resistividade do material.
A sigla inglesa para a termo-resistência, RTD (resistance temperature detector), é indicadora do
seu princípio de funcionamento.
De entre os diversos metais ou ligas metálicas utilizados para a construção de termo-resistências
industriais, são de salientar a platina, o níquel o cuproníquel e o tungsténio. As gamas de
temperaturas em que se aplicam termo-resistências vão desde - 270 a 850 ºC para as de platina,
níquel e cuproníquel, e de 0 a +2700 ºC para as de tungsténio. As termo-resistências têm a
vantagem da precisão, da simplicidade e da fiabilidade. São no entanto relativamente frágeis.
29
2. TEMPERATURA
Na Fig. 2.4 mostra-se o aspecto interno de uma termo-resistência de precisão, usada em
laboratório, e a Fig. 2.5 representa uma termo-resistência industrial, com a bainha de protecção.
Esta última termo-resistência encontra-se no interior da vareta, na extremidade (à esquerda). A
cabeça (à direita) contém os terminais de ligação.
Fig. 2.4 – Interior de uma termo-resistência.
Fig. 2.5 – Aspecto exterior de uma termo-resistência
A variação de resistência de uma termo-resistência com a temperatura não é linear. No entanto
para gamas de funcionamento restritas não se afaste muito da linearidade. A Fig. 2.6 representa
as curvas de variação da resistência em função da temperatura, para várias termo-resistências.
Para exprimir a resistência de uma RTD em função da temperatura utilizou-se, até há pouco
tempo, a equação de Callender-Van Dusen:
R = R0 {1 + α [T - δ (T /100 -1)(T /100) - β (T /100 -1)(T 3 /100)]} (2.11)
em que R – resistência do elemento à temperatura T (normalmente em ºC ),
R0 – resistência do elemento à temperatura de referência ( normalmente 0 ºC),
α – Coeficiente de temperatura(6) (ver Cap. 25.9),
δ – 1º coeficiente de correcção(7),
β – 2º coeficiente de correcção.
Esta equação foi substituída em 1968, para uma melhor aproximação, por uma aproximação
polinomial, de grau 20:
R = R0 (1 + γ 1T + γ 2T 2 + ... + γ nT n ) (2.12)
em que: γ1 , γ2 , ... , γn – coeficientes de temperatura da termo-resistência.
6
α = 0.00385 ºC-1 (normas BS 1904, DIN 43760 e IEC 751); α = 0.00392 ºC-1 (norma MIL-T-24388);
α = 0.003916 ºC-1 (norma JIS C 1604)
7
δ = 1.49 (para α=0.00392 ºC-1 ) β = 0, T > 0, β = 0.11, T < 0.
30
2. TEMPERATURA
8,0
7,0 níquel
6,0
cobre
Relação R/R0
5,0
4,0 platina
3,0
2,0
1,0
0,0
-400 -200 0 200 400 600 800 1000
Temperatura / ºC
Fig. 2.6 – Características de termo-resistências
O número mínimo de termos a considerar na prática na expressão (2.12) é bastante inferior a 20.
Depende do tipo de material (ao qual está associada uma maior ou menor linearidade), da gama
de medida, da precisão pretendida e da facilidade em efectuar processamento de cálculos. Para
muitas aplicações será suficiente a aproximação linear
R = R0 (1 + γ 1T ) (2.13)
Um valor muito comum para R0 é o de 100 Ω. As termo-resistências com R0=100 Ω são
designadas, se forem de platina por Pt-100 e se forem de níquel por Ni-100. A sigla Ni-500
indica uma termo-resistência de níquel com a resistência de 500 Ω à temperatura de 0 ºC.
As termo-resistências metálicas exibem um coeficiente de temperatura positivo e são bastante
estáveis no tempo. Podem ter constantes de tempo inferiores a 0.1 s, no caso em que as
resistências são de filme metálico directamente em contacto com o corpo sob medida.
Indicam-se a seguir valores característicos de algumas termo-resistências correntes:
Níquel Cobre Platina Tungsténio
Gama de medida (ºC) -100, 500 -100, 450 -260, 800 -70, 2700
Resistividade (Ωm) 5.91×10-8 1.529×10-8 9.81×10-8 4.99×10-8
Linearidade baixa alta alta média
Sensibilidade a 0 ºC (ºC-1) 0.0067 0.0042 0.003925 0.0045
Tabela 2-2 – Valores característicos de algumas termo-resistências
31
2. TEMPERATURA
2.4.2 Sensibilidade.
Chama-se sensibilidade de uma termo-resistência à variação relativa da resistência por unidade
de variação de temperatura:
S = ( ∆R / R ) / ∆T (2.14)
Esta expressão é definida pontualmente para cada temperatura, pelo que deverá escrever-se
1 dR
S= (2.15)
R dT
Na tabela anterior apresentam-se as sensibilidades de diversas termo-resistências à temperatura
de 0 ºC.
2.4.3 Linearização.
A variação da resistência de uma termo-resistência com a temperatura não é linear, como pode
observar-se pela Fig. 2.6. Para se obter uma variação linear com a temperatura, ou seja para
linearizar uma termo-resistência, há vários métodos:
• Restrição da gama de calibração, sempre que tal seja possível. Por exemplo, a termo-
-resistência de níquel, se calibrada para a gama [200, 400] ºC apresenta uma melhor
linearidade do que se for calibrada por exemplo para [100, 400] ºC.
• Utilização de duas ou mais termo-resistências em série, com não linearidades opostas, de
forma a reduzir os coeficientes γ2,..., γn. É um método utilizado quando é necessário
cobrir uma gama de temperaturas ampla.
• Utilização de uma resistência de valor fixo em paralelo com a termo-resistência. Este
método tem o inconveniente de causar uma diminuição da sensibilidade.
• Utilização de um transmissor com compensação electrónica das não linearidades. Este
método obriga a efectuar a configuração do transmissor para a termo-resistência em uso,
sendo utilizado recentemente com a instrumentação inteligente, que dispõe de
microprocessadores para efectuar este tipo de compensação.
• Em muitos sistemas de controlo distribuído, DCS, há cartas electrónicas dedicadas à
ligação directa às termo-resistências, que permitem normalmente a introdução de
parâmetros para linearizar a termo-resistência, e que são normalmente suficientes para as
aplicações industriais.
2.4.4 Considerações diversas.
Ao utilizar-se termo-resistências é preciso ter em conta alguns dos problemas que habitualmente
se encontram associados ao seu uso, e se indicam a seguir.
32
2. TEMPERATURA
[Link]. Auto-aquecimento
Ao incluir uma termo-resistência num circuito eléctrico, esta é percorrida por uma corrente, que,
pelo efeito de Joule, conduz à libertação de calor. É o chamado auto-aquecimento da termo-
-resistência. Para uma termo-resistência de valor igual a R0, inserida numa ponte de Wheatstone
alimentada com uma tensão us, a potência nela dissipada é dada por
us2
P0 = (2.16)
4 R0
Esta potência, ao ser dissipada no seu interior, produz um aumento de temperatura dado por
∆Ts = Fsh P0 (2.17)
onde Fsh é o factor de auto-aquecimento, fornecido pelo fabricante da termo-resistência, e que
vem expresso em ºC/mW. Na secção 2.10 aborda-se este assunto com mais detalhe.
A título de exemplo pode dizer-se que para uma termo-resistência de platina de 100 Ω exposta
ao ar, com Fsh = 0.5 ºC/mW, se é conduzido, para us=1V, a ∆Ts=1.25 ºC. Este valor é suficiente-
mente elevado para ter que ser compensado. Uma solução passa por projectar o circuito em que
se insere a termo-resistência de forma a diminuir a potência dissipada.
[Link]. Sensibilidade à deformação
Se a termo-resistência estiver fixa ao corpo do qual se quer medir a temperatura, uma vez que
uma variação de temperatura provoca uma deformação no material, a termo-resistência vai
deformar-se, como se fosse um extensómetro. Nestas condições, ter-se-á uma variação de
resistência devido à variação de temperatura e outra devida à deformação do material (grandeza
de influência). Para minimizar este efeito, a resistência é colocada no interior do seu invólucro
de modo a não ficar submetida a tensões mecânicas. Este aspecto é particularmente importante
na construção de termo-resistências de precisão.
[Link]. Comprimento das ligações
Os cabos de ligação entre a termo-resistência e o transmissor têm uma resistência eléctrica, que
é adicionada ao valor da termo-resistência. Esta resistência, de acordo com (2.10), é
proporcional ao comprimento do cabo e inversamente proporcional à sua secção. A resistência
destes cabos pode ser minimizada diminuindo o seu comprimento e aumentando a secção.
Normalmente, em instalações industriais, onde há centenas de termo-resistências e respectivos
transmissores, usam-se sempre os mesmos tipos de cabos, pelo que apenas se pode minimizar a
distância, através de uma escolha criteriosa do local para a instalação do transmissor.
A resistência dos cabos provoca um desvio de zero e uma diminuição da sensibilidade da
termo-resistência. Como regra prática para a indústria, pode dizer-se que a resistência dos cabos
deverá ser inferior a 1 % do valor da termo-resistência. Muitas vezes, para resolver este
problema, usam-se cabos de 3 ou 4 condutores, sendo utilizados dois condutores para levar a
corrente à termo-resistência e os restantes para medir a respectiva tensão. Minimiza-se assim a
queda de tensão nos condutores de medida. Na secção 2.4.5 indicam-se alguns circuitos a três e
quatro fios utilizados para este fim.
33
2. TEMPERATURA
[Link]. Estabilidade das leituras
As resistências utilizadas nos circuitos condicionadores das termo-resistências são resistências
de precisão (±0.1 % ou melhor) e previamente envelhecidas artificialmente por aquecimento
controlado em estufa. Se por algum motivo houver necessidade de substituir alguma destas
resistências, é importante que se efectue a sua substituição por outra equivalente. Nunca se
deverá substituir qualquer destas resistências por resistências de carvão ou de filme metálico
com menor precisão e não envelhecidas, sob pena de se terem leituras imprecisas e variações
nas indicações a longo prazo.
[Link]. Protecção mecânica e química
As termo-resistências utilizadas na indústria vêm normalmente protegidas com bainhas
metálicas, a fim de as proteger mecanicamente e ainda de as defender do ataque de produtos
químicos corrosivos. A utilização de bainhas faz aumentar a constante de tempo das leituras de
temperatura, uma vez que dificultam a propagação de calor para o seu interior. Estes fenómenos
de propagação de calor serão analisados na secção 2.10.
2.4.5 Circuitos de medida.
Para se poder ler num indicador, ou para permitir a transmissão à distância do valor da
temperatura obtido com a utilização de uma termo-resistência, é necessário transformar o valor
de R ou o de ∆R numa corrente eléctrica, ou numa tensão. Para este efeito utiliza-se um
transmissor de temperatura. Os terminais de entrada do transmissor, ou seja, aqueles aos quais é
ligada a termo-resistência, fazem normalmente parte de um circuito condicionador de sinal.
Descrevem-se a seguir alguns dos condicionadores mais usados com termo-resistências.
[Link]. Ponte de Wheatstone.
Em Electrotecnia, para a medida de resistências de 1 Ω a 1 MΩ utiliza-se frequentemente a
ponte de Wheatstone(8). Esta é pois a ponte de medida indicada para a utilização com termo-
-resistências, uma vez que a resistência destes dispositivos está habitualmente compreendida
entre 100 e 1000 Ω. Uma ponte de Wheatstone cujos braços têm resistências com valores R1, R2,
R3 e R4, e é alimentada por uma tensão us, apresenta uma tensão de desequilíbrio dada por
R1 R 3 - R 2 R 4
u0 = us (2.18)
( R1 + R 2 )( R 3 + R 4 )
Se na ponte for inserida em vez de R1 a termo-resistência de valor R=R0+∆R e se forem
R2=R3=R4=R0, obtém-se, e apenas para o caso em que ∆R << R0,
u ∆R
u0 = s (2.19)
4 R0
Da equação (2.12) tira-se
u
∆R = R0 (γ 1T + γ 2T 2 + ... + γ nT n ) s (2.20)
4
8
Sir Charles Wheatstone, Físico Inglês, 1802-1875.
34
2. TEMPERATURA
e substituindo (2.20) em (2.19) obtém-se
us
u0 = (γ 1T + γ 2T 2 + ... + γ nT n ) (2.21)
4
O erro com que uo é obtido depende da precisão de R2, R3, e R4, que se não forem exactamente
iguais a R0 darão origem a um desvio de zero e um erro multiplicativo constantes; o erro
depende também da estabilidade da tensão de alimentação us.
[Link]. Ponte de Wheatstone a três fios.
Para diminuir o efeito da resistência eléctrica dos cabos de ligação utiliza-se por vezes a
montagem a três fios, indicada na Fig. 2.7.
is
i2
i1 R0
u0
RT
us
R0 R0
Fig. 2.7 – Montagem de uma termo-resistência a três fios.
Se os condutores C1 e C2 da figura forem iguais, o efeito da sua resistência cancela-se, uma vez
que se encontram em braços adjacentes da ponte de medida. O terceiro condutor, C3, actua
apenas como sensor, não transportando corrente, além daquela que é pedida pelo aparelho de
medida.
[Link]. Gerador de corrente e medida da tensão.
Neste esquema, usado com quatro fios, injecta-se na termo-resistência uma corrente de valor
constante, e mede-se a queda de tensão originada. O método mais simples de produzir uma
corrente constante é utilizar um gerador de tensão constante com uma resistência de valor
elevado em série: as variações da carga não afectam assim a corrente de alimentação.
RT u0 i
Fig. 2.8 – Montagem de uma termo-resistência a quatro fios.
35
2. TEMPERATURA
2.5. Termistores
2.5.1 Constituição e características.
Os termistores são resistências sensíveis à temperatura, construídas em material semicondutor.
Enquanto as termo-resistência são constituídas por um fio ou filme metálicos, o termistor é feito
de material semicondutor. Como material semicondutor utilizam-se óxidos de níquel, de
cobalto e de manganês, e sulfatos de ferro, de alumínio e de cobre, e ainda, para aumentar a
estabilidade, misturas de outros óxidos.
Os semicondutores podem ser intrínsecos (não dopados) ou extrínsecos (tipo P ou tipo N). Os
termistores são semicondutores extrínsecos. Nos termistores obtidos a partir de óxidos, as
características P ou N obtêm-se durante o fabrico do óxido, que é feito em atmosfera oxidante
(termistor tipo P) ou em atmosfera redutora (tipo N).
Nos termistores obtidos a partir de óxidos a resistência eléctrica diminui com o aumento da
temperatura, como se indica na Fig. 2.9. A um termistor com estas características, isto é, com a
resistência a diminuir com o aumento de temperatura dá-se o nome de NTC (negative
temperature coefficient). São os mais utilizados para a medição de temperatura. Também há
termistores PTC (positive temperature coefficient).
A gama de medida de um termistor é mais reduzida do que a de uma termo-resistência, sendo
de, considerando toda a variedade de termistores correntes, de [-100, 300] ºC. Observe-se, na
Fig. 2.9, a grande variação, com a temperatura, que tem a resistência de um termistor. Note-se
também a sua forte não linearidade.
1000000
100000
Resistência (ohm)
10000
R0
1000
100
10
1
-100 -50 0 T0 50 100 150 200 250 300
Temperatura (ºC)
Fig. 2.9 – Variação da resistência de diversos termistores com a temperatura
A variação de resistência de um termistor NTC é dada pela expressão
1 1
β( − )
R = R0e T T0
(2.22)
36
2. TEMPERATURA
em que T – temperatura absoluta do termistor,
R – resistência do termistor à temperatura absoluta T,
R0 – resistência do termistor à temperatura de referência T0, geralmente 25 ºC
β – parâmetro característico do termistor, dependente da sua composição.
O parâmetro β toma valores compreendidos entre 3000 K e 5000 K. Para gamas de funciona-
mento restritas pode considerar-se constante.
2.5.2 Sensibilidade.
Como para as termo-resistências, a sensibilidade de um termistor é definida pela relação entre a
variação relativa da resistência e a correspondente variação de temperatura que lhe deu origem:
1 dR(T )
S= (2.23)
R dT
Efectuando este cálculo usando para R(T) o valor dado por (2.22) obtém-se
β
S=− (2.24)
T2
A título de exemplo, para um termistor com β = 4000 K e para T = 300 K (~26 ºC) a sensibi-
lidade tem o valor -0.044 K-1. Comparando este valor com a sensibilidade da termo-resistência
de platina (ver Cap. 25.9), constata-se que a sensibilidade de um termistor é em valor absoluto
cerca de 10 vezes maior do que a da termo-resistência. As grandes sensibilidades dos
termistores permitem a detecção de variações de temperatura da ordem de 0.0005 K.
2.5.3 Aspectos práticos.
[Link]. Obtenção da temperatura
A partir da medida da resistência de um termistor, que pode por exemplo ser efectuada com um
multímetro, determina-se o valor da temperatura a que este se encontra, T, ou resolvendo a
equação (2.22) em ordem a T, ou então consultando a tabela do respectivo termistor, fornecida
pelo fabricante. Este último procedimento não é no entanto indicado para a medição automática.
Com esta finalidade utilizam-se circuitos electrónicos que efectuam a linearização da equação
(2.22). Em sistemas DCS, ou com instrumentação inteligente, pode usar-se a equação de
Steinhart-Hart, que aproxima bastante bem a expressão (2.22):
1
= A + B ln RT + C ln 3 RT (2.25)
T
em que A, B e C são coeficientes de calibração. O valor de RT pode ser medido directamente
alimentando o termistor com um gerador de corrente constante e medindo a tensão aos terminais
do termistor. A expressão (2.25) é tanto mais exacta quanto mais se restringir, para efeitos de
calibração, a gama de medida do termistor. Para uma gama de medida de 50 ºC esta expressão
calcula a temperatura com um erro inferior a 0.01 ºC.
37
2. TEMPERATURA
[Link]. Auto-aquecimento
O termistor, quando incluído num circuito condicionador de sinal, é uma resistência que é
percorrida por uma corrente eléctrica, libertando, por efeito de Joule, uma potência
Po = RT I 2 (2.26)
A esta potência corresponderá um aumento de temperatura. A energia deverá ser dissipada pelo
termistor. Como para as termo-resistências tem-se
∆Ts = Fsh Po (2.27)
em que Fsh é o factor de auto-aquecimento do termistor. Como regra prática pode dizer-se que a
potência dissipada deverá ser tal que o auto-aquecimento daí resultante deve ser inferior à
precisão pretendida na medida.
A título de exemplo, num termistor com R0 = 5000 Ω e com Fsh = 1 ºC/mW, para efectuar a lei-
tura com uma precisão de 0.5 ºC deverá ser P0 < 0.5 mW, ou seja, I < (P0/R0)1/2, I < 316 µA.
Como margem de segurança deverá dimensionar-se o circuito para I = 100 µA.
[Link]. Construção
Na Fig. 2.10a) mostram-se alguns termistores correntes, podendo ver-se na Fig. 2.10b) dois
outros termistores em detalhe.
Os termistores obtêm-se misturando os óxidos semicondutores, atrás referidos, com um material
aglutinante. Forma-se uma pasta, da qual se deita uma gota sobre os fios condutores de ligação.
A gota é secada num forno com aquecimento controlado. Ao secar, os óxidos contraem-se,
efectuando uma ligação mecânica dos condutores, e também uma boa ligação eléctrica. Estas
gotas secas assim formadas são imediatamente encapsuladas com um banho de vidro, para
evitar a absorção de humidade e aumentar a estabilidade e a rigidez mecânica
a) b)
Fig. 2.10 – Aspecto e dimensões de alguns termistores correntes
38
2. TEMPERATURA
No que se refere à forma, há uma grande variedade, nomeadamente termistores com a forma de
bolacha, de disco, de tubo de bola, de cabeça de alfinete, etc. Devido à sua constituição os
termistores são dos elementos primários de medida de temperatura mais baratos do mercado.
[Link]. Comprimento das ligações
Uma vez que a resistência dos termistores é geralmente elevada, superior a 1 kΩ, o efeito da
resistência dos cabos e dos terminais de aperto é normalmente desprezável.
A gama de resistências dos termistores, à temperatura de referência, varia desde alguns ohm até
vários megaohm, consoante o termistor. Nos termistores com resistências baixas é preciso evitar
as sobrecorrentes que conduzam ao excessivo aquecimento e à possível destruição do termistor.
Os circuitos que os utilizam deverão ter sempre um limitador de corrente. Nos termistores com
R0 elevado da ordem dos MΩ, é essencial projectar os circuitos condicionadores de sinal de
forma a reduzir o ruído térmico gerado na resistência do termistor.
2.5.4 Precisão e estabilidade
A precisão de um determinado termistor, quando convenientemente utilizado, é bastante
elevada, podendo ser melhor que 0.01 ºC a 125 ºC.
A estabilidade a longo prazo também é boa, podendo ser melhor que 0.003 ºC/ano quando a
temperatura de medida varia entre 20 ºC e 125 ºC. No entanto, ao substituir-se um termistor por
outro é difícil garantir um erro inferior a 0.1 ºC, devido à dispersão das características.
Também não há garantia de estabilidade se o termistor for ocasionalmente utilizado fora da sua
gama de medida.
Devido ao valor da resistência de um termistor ser mais elevado do que o de uma termo-
-resistência, é preciso dar atenção a eventuais depósitos de substâncias que possam introduzir
resistências de fuga entre os condutores.
2.5.5 Linearização e circuitos condicionadores.
Para a linearização dos termistores utilizam-se procedimentos análogos aos que se usam com as
termo-resistências, nomeadamente
1. Restrição da gama de utilização, se possível,
2. Ligação de dois ou mais termistores em grupo,
3. Associação do termistor com resistências fixas,
4. Uso de amplificadores com características linearizantes,
5. Compensação digital.
Os circuitos condicionadores de sinal usados com os termistores são análogos aos utilizados
com as termo-resistências, não havendo aqui a necessidade de efectuar a compensação da
resistência dos cabos, não havendo portanto montagens com pontes a três e quatro fios.
Em circuitos de precisão, em que se utilizam tensões de alimentação baixas, é necessário evitar
as f.e.m. de contacto que se poderão gerar nas soldaduras e nos terminais de aperto. Para
diminuir este efeito é recomendado o uso de corrente alternada.
39
2. TEMPERATURA
2.6. Termopares
2.6.1 Constituição e princípio de funcionamento.
Um termopar é um sensor de temperatura formado pela junção de dois materiais condutores
ou semicondutores. O termopar utilizado na indústria, destinado a temperaturas elevadas, é
constituído por uma junção de dois metais.
A junção pode ser feita por vários métodos, sendo os mais importantes o aperto dos materiais e
a soldadura. Na Fig. 2.11 representa-se o detalhe da soldadura de um termopar.
Fig. 2.11 – Detalhe da soldadura de um termopar.
Na Fig. 2.12 representa-se esquematicamente um termopar: a) constituído por uma junção
simples, b) constituído por uma junção dupla.
O termopar é um sensor activo, isto é, ele próprio gera uma f.e.m., não sendo portanto
necessário alimentá-lo. O condicionador de sinal associado apenas deverá converter esta tensão
para um valor normalizado.
A operação de um termopar baseia-se em algumas leis da electricidade chamadas efeitos
termoeléctricos: efeito de Seebeck, efeito de Peltier e efeito de Thompsom, que se descrevem a
seguir.
Material A Material A
J1 J2
T T1 T2
Material B M N
Material B uo Material B
a) Junção simples b) Junção dupla
Fig. 2.12 – Representação esquemática de um termopar
40
2. TEMPERATURA
[Link]. Efeito de Seebeck (9)
Numa junção de dois materiais A e B, à temperatura uniforme T, desenvolve-se uma f.e.m.
(f.e.m. de Seebeck ou de contacto) cujo valor depende dos materiais e da sua temperatura:
uo = f (T , material A, material B ) (2.28)
A explicação deste fenómeno tem por base o modelo das ligações de valência e das bandas de
energia de um metal, transcendendo o âmbito desta exposição.
Uma vez que a dependência com T é quase linear, a expressão (2.28) pode escrever-se na forma
uo = eAB (T ) T (2.29)
[Link]. Efeito de Peltier (10)
Sempre que uma junção de dois materiais é percorrida por uma corrente eléctrica, desenvolve-se
nesta uma quantidade de calor proporcional à corrente que a atravessa:
QP = π AB I (2.30)
em que I – Intensidade da corrente eléctrica que atravessa a junção,
QP – Qde de calor gerada /absorvida na junção pela corrente I, devida a este efeito,
πAB – coeficiente de Peltier.
Note-se que a quantidade de calor em jogo devida ao efeito de Peltier depende do sentido da
corrente, podendo pois haver produção ou absorção de calor, como se representa esquemati-
camente na Fig. 2.13. Chama-se a atenção para o facto de que este efeito aparece adicionado ao
efeito de Joule, já conhecido da electricidade elementar, no qual a passagem de uma corrente
através de uma resistência, neste caso a junção, dá origem à produção de uma quantidade de
calor proporcional ao quadrado da corrente I. No caso dos metais vulgares, e para as
intensidades de corrente eléctrica normalmente usadas, a quantidade de calor devida ao efeito de
Peltier, QP, é muito menor do que a originada por efeito de Joule, QJ. O mesmo já não se passa
com a junção de determinados materiais semicondutores, para os quais poderá ser QP >> QJ.
O efeito de Peltier é utilizado em electrónica para o controlo de temperatura de componentes de
circuitos. Na indústria é utilizado em pequenos frigoríficos estáticos (sem compressor).
Material A i
J2
⇐
J1
Q sai ⇐ Q entra
us
Mat. B Mat. B
Fig. 2.13 – Permutação de calor por efeito de Peltier
9
Thomas Johann Seebeck - Físico Alemão, 1770-1831.
10
Jean Peltier - Físico Francês, 1785-1845.
41
2. TEMPERATURA
[Link]. Efeito de Thompson11
Sempre que um material condutor homogéneo sujeito a uma diferença de temperatura, ∆T, é
atravessado por uma corrente eléctrica I, é posta em jogo uma quantidade de calor, QT, dada por
QT = σ I ∆T (2.31)
em que ∆T – diferença de temperaturas,
I – corrente eléctrica que atravessa o material,
QT – quantidade de calor desenvolvida/absorvida devida a I e a ∆T,
σ – coeficiente de Thompson.
A Fig. 2.14 representa o troço de um condutor eléctrico rectilíneo, em que os pontos A e B se
encontram às temperaturas T1 e T2. Se for R a resistência eléctrica do troço AB e U1 e U2 os
potenciais dos pontos A e B, tem-se
I = (U1 - U 2 ) / R QT = σ I (T1 - T2 ) (2.32)
A
I ⇑ QT
B
T1 U 1 T2 U 2
Fig. 2.14 – Transferência de calor por efeito de Thompson
[Link]. Funcionamento dos termopares
Os efeitos termoeléctricos expostos estão interligados. O funcionamento de um termopar
envolve os três efeitos que se acabam de indicar: O efeito de Seebeck dá origem à f.e.m. a partir
da qual se podem medir temperaturas; os efeitos de Peltier e de Thompson dão origem ao
desenvolvimento ou absorção de calor que podem originar erros na medida dessa mesma
temperatura, e que será necessário minimizar.
Nos circuitos que empregam termopares para a medição de temperaturas, utilizam-se sempre
duas junções, como se indica na Fig. 2.12b). A temperatura T1 será a que se pretende medir, a
temperatura T2 será uma temperatura de referência, normalmente 0 ºC. A vantagem desta
configuração consiste em conduzir aos terminais M e N do elemento sensor (Fig. 2.12) dois
materiais iguais, o que dá origem ao cancelamento de quaisquer tensões de contacto que possam
aparecer ao ligar o sensor ao condicionador de sinal.
Para um termopar com a configuração da Fig. 2.12b), com duas junções, estando a junção de
referência a 0 ºC, a tensão aos terminais M N é dada pelos gráficos da Fig. 2.15. Os valores das
respectivas tensões estão tabelados, e são fornecidos pelo fabricante do termopar. Indicam-se no
Cap. 25.10 os valores para alguns termopares normalizados correntes, que são designados pelas
letras B, E, J, K, R, S, T, consoante a sua constituição.
11
William Thompson (Lord Kelvin) - Físico Britânico, 1824-1907.
42
2. TEMPERATURA
90
80 Tipo E
70
60 Tipo K
50
Tipo J
Tensão (mV)
40
30
Tipo R
20
Tipo T Tipo S
10 Tipo B
0
-10
-250 -20 0 250 500 750 1.000 1.250 1.500 1.750
Temperatura (ºC)
Fig. 2.15 – F.e.m. de diversos tipos de termopares
2.6.2 Leis de comportamento dos termopares.
O funcionamento dos termopares baseia-se nas seguintes leis, que se ilustram na Fig. 2.16:
[Link]. Dois metais, duas junções
Um circuito utilizando termopares deve conter pelo menos dois materiais distintos e pelo menos
duas junções (Fig. 2.16a).
[Link]. Independência da temperatura do percurso
A tensão de saída do termopar u0 depende apenas das temperaturas das junções, T1-T2, sendo
independente da forma como a temperatura se distribui pelos condutores, desde que nestes não
haja corrente eléctrica (Fig. 2.16b).
[Link]. Lei dos metais intermédios 1
Se um terceiro material homogéneo for inserido no condutor A ou no condutor B de um circuito
com termopares (Fig. 2.16c), a tensão de saída uo permanece inalterável, desde que as novas
junções estejam à mesma temperatura (Ti = Tj).
[Link]. Lei dos metais intermédios 2
A instalação de um material intermediário C numa junção AB (Fig. 2.16d) não afecta a tensão
de saída uo, desde que as novas junções assim criadas sejam mantidas à temperatura T3.
43
2. TEMPERATURA
Mat. A
Mat. A T4 T5
T3 T6
T1 i T2 T1 i T2
uo uo T7
Mat. B Mat. B Mat. B T
a) 8
b) Mat. B
Mat. C
Ti Tj Mat. A
Mat. A Mat. A
T2
T1 i T2 T1 i
Mat. B uo Mat. B uo T3
Mat. B Mat. B
c) d)
Mat. A Mat. A Mat. A
T1 i T3 = T1 i T2 + T2 i T3
Mat. B u1,3 Mat. B u1,2 u2,3 Mat. B
Mat. B Mat. B Mat. B
e)
Mat. A Mat. A Mat. C
T1 i T2 = T1 i T2 + T1 i T2
Mat. B uA,B Mat. C uA,C uC,B Mat. B
Mat. B Mat. C Mat. B
e)
Fig. 2.16 – Leis sobre o funcionamento dos termopares
[Link]. Lei das temperaturas sucessivas
Um circuito de termopares com temperaturas T1 e T2, (Fig. 2.16e), origina uma tensão de saída
u1,2 = f (T1,T2). O mesmo circuito exposto às temperaturas T2 e T3 produz uma tensão
u2,3 = f (T2,T3). Se o circuito for exposto às temperaturas T1 e T3 a tensão de saída será:
u1,3 = f (T1 , T3 ) = u1,2 + u2,3 (2.33)
[Link]. Lei dos metais sucessivos
Um termopar constituído pelos materiais A e C e com as junções expostas às temperaturas T1 e
T2 gera uma tensão uA,C (Fig. 2.16f). Um circuito semelhante construído de materiais C e B gera,
às mesmas temperaturas, uC,B. Se um 3º termopar for semelhante na configuração e fabricado
com os materiais A e B, gerará, às mesmas temperaturas
u A, B = u A,C + uC , B (2.34)
44
2. TEMPERATURA
[Link]. Considerações sobre as leis anteriores
1. A explicação da primeira lei é dada pelo efeito de Seebeck, equação (2.28), que para dois
materiais A e B pode escrever-se, somando as tensões geradas em cada junção:
uo = eB , AT1 + e A, BT2 (2.35)
Acontece porém que a linearidade da equação (2.35) é aparente, uma vez que eA,B não é
constante, depende de T embora de forma pouco acentuada. Para cada temperatura tem-se
eB,A = - eA,B, pelo que (2.35) se pode escrever
uo = eB , AT1 − eB , AT2 ≈ eB , A (T1 − T2 ) (2.36)
onde a última aproximação pressupõe que eB,A é igual para todas as temperaturas.
A fim de tornar a expressão (2.36) fácil de utilizar, convirá fixar a temperatura T2. É costume
usar T2 = 0 ºC e exprimir uo apenas em função de T1, ou seja da temperatura que se quer
medir. Esta relação pode ser apresentada de uma forma gráfica (Fig. 2.15), por meio de
tabelas (Cap. 25.10), ou ainda sob forma analítica, aproximada por um polinómio de grau n:
T1 = a0 + a1uo + a2u02 + " + an u0n (2.37)
No Cap. 25.11 indicam-se os valores destes coeficientes, até n=6, para 6 tipos de termopares.
2. A segunda lei é de bastante importância prática, pois é devido a ela que é possível instalar
despreocupadamente o caminho de cabos dos termopares, sem ter que atender às
temperaturas dos percursos.
3. A terceira lei permite inserir num braço de um termopar um aparelho de medida, com os
condutores feitos do mesmo material, sem que daí resulte nenhum erro na determinação da
temperatura. Tem no entanto, para este efeito, que se verificar a condição Ti = Tj.
4. A quarta lei tem importância no fabrico dos termopares, em que a introdução na junção de um
material estranho não afecta a tensão de saída.
5. A quinta lei é muito útil nos casos em que se pretenda utilizar uma temperatura de referência
diferente de zero graus Celsius. A título de exemplo suponha-se que se utiliza um termopar
para medir a temperatura da fornalha de uma caldeira. A junção de medida estará no interior
da fornalha, normalmente protegida por uma bainha, e relativamente perto da parede da
fornalha (30 a 50 cm). A junção de referência encontra-se normalmente numa sala com ar
condicionado (20ºC), onde também se encontra o sistema de controlo distribuído. Nestas
condições, a temperatura de saída do termopar, uT,20, virá mais baixa do que se a junção de
referência estivesse a 0 ºC:
uT ,0 = uT ,20 + u20,0 (2.38)
Ao valor medido, e antes de efectuar a entrada nas tabelas para a obtenção da temperatura,
será preciso acrescentar o valor constante u20,0 .
6. A sexta lei permite reduzir o número de tabelas de pares de materiais. Assim, para N
materiais, haverá um número de emparelhamentos igual a C202 = 20! / ( 2! X 18!) = 190
combinações. Se no entanto se referirem os materiais todos apenas a um material padrão,
ter-se-ão N-1 emparelhamentos, para o caso do exemplo dado, 19. Utiliza-se a platina como
material padrão (de referência).
45
2. TEMPERATURA
Lei de Volta Esta lei é semelhante à lei das malhas da electrotecnia:
Num circuito fechado, constituído por materiais diferentes todos à mesma
temperatura, a soma das f.e.m. de Seebeck é nula.
2.6.3 Sensibilidade.
A sensibilidade de um termopar é dada por
du0
ST = (2.39)
dT
O índice T em ST indica que a sensibilidade é referida à temperatura T, uma vez que é função da
temperatura. A Tabela 2-3 indica a sensibilidade de alguns materiais quando usados com a
platina, para uma temperatura de junção de 0 ºC. Note-se que existe uma grande variação nas
sensibilidades, consoante os materiais. Repare-se que as sensibilidades são baixas, da ordem dos
µV/ºC. Observe-se ainda que para os semicondutores (quatro últimos materiais da tabela) as
sensibilidades são bastante superiores às dos metais.
Para que a sensibilidade de um termopar seja elevada, convirá associar materiais com
sensibilidades altas em relação à platina (em módulo), e de sinais contrários. No entanto, para a
construção de termopares há outros critérios a ter em consideração. Assim, o par
Bismuto/Cromel, que tem uma sensibilidade, a 0 ºC, de 72+25.8 = 97.8 µV/ ºC não se utiliza
devido ao facto do Bismuto ser muito quebradiço e ter um ponto de fusão baixo (271 ºC).
Para se aumentar a sensibilidade dos termopares, estes podem ser associados em série, desde
que se garanta a existência de N junções à temperatura de medida e outras N+1 à temperatura de
referência.
Sensibilidade Sensibilidade
Material Material
( µV/ ºC ) ( µV/ ºC )
Bismuto - 72 Cobre + 6.5
Constantan - 35 Ouro + 6.5
Níquel - 15 Tungsténio + 7.5
Alumel - 13.6 Nicrosil + 15.4
Nisil - 10.7 Ferro + 18.5
Platina 0 Cromel + 25.8
Mercúrio + 0.6 Germânio + 300
Carbono +3 Silício + 440
Alumínio + 3.5 Telúrio + 500
Estanho +4 Selénio + 900
Prata + 6.5
Tabela 2-3 - Sensibilidade de alguns termopares.
46
2. TEMPERATURA
2.6.4 Aspectos diversos.
A selecção dos materiais a utilizar na construção de termopares deve obedecer aos seguintes
critérios, dentro da gama de temperaturas desejada:
1. Sensibilidade elevada. 2. Linearidade alta. 3. Estabilidade alta. 4. Custo baixo.
[Link]. Termopares “standard”
O estudo dos materiais utilizados nos termopares tem sido efectuado exaustivamente. Devido à
grande quantidade de possibilidades, foram escolhidos pela ANSI(12) e pela ISA(13) determi-
nados pares, e foi normalizada a sua designação. Assim, os termopares normalizados foram
designados pelas letras B, C, D, E, G, J, K, N, R, S, e T. A Tabela 2-4 indica a constituição
material de cada um destes termopares, indicando também a gama máxima de temperaturas de
utilização e a respectiva tensão de saída. Ao consultar-se um catálogo de um qualquer fabricante
poderá notar-se que a gama máxima depende do diâmetro dos condutores constituintes do
termopar. Termopares construídos com condutores delgados não suportam temperaturas tão
elevadas como os que são construídos com condutores grossos.
Na Fig. 2.15 indicam-se as tensões de saída de alguns destes termopares. Repare-se na figura na
não linearidade da resposta, um pouco mais acentuada nos termopares usados em temperaturas
elevadas, ou quando se usa um campo de medida muito amplo.
Gama máx. de Gama de tensão
Tipo Constituição
temperaturas (ºC) de saída (mV)
B Platina-30%Ródio/Platina 0 a 1820 0 a 13.820
C Tungsténio/5%Rénio-Tung/26%Rénio 0 a 2320 0 a 37.066
D Tungsténio/3%Rénio-Tung/25%Rénio 0 a 2320 0 a 39.506
E Cromel-Constantan -270 a 1000 -9.835 a 76.373
G Tungsténio-Tung/26%Rénio 0 a 2320 0 a 38.564
J Ferro-Constantan - 210 a 1200 - 8.095 a 69.550
K Cromel-Alumel - 270 a 1370 - 6.458 a 54.885
N Nicrosil-Nisil - 270 a 1300 - 4.345 a 47.513
R Platina-13%Ródio/Platina -50 a 1760 -0.226 a 21.100
S Platina-10%Ródio/Platina -50 a 1760 -0.236 a 18.692
T Cobre-Constantan - 270 a 400 - 6.258 a 20.872
Tabela 2-4 - Gamas de alguns termopares.
12
ANSI - American National Standards Institute, Standard MC96.1-1975, , 1976.
13
Instrumentation Systems and Automation Society.
47
2. TEMPERATURA
[Link]. Estabilidade
A estabilidade dos termopares é boa quando considerada a curto prazo. O problema coloca-se
em relação à estabilidade a longo prazo. Esta é caracterizada por uma deriva na tensão de saída,
que é devida à oxidação da junção, tanto externa como interna. Esta deriva pode dar origem a
erros de alguns graus Celsius ao fim de algumas centenas de horas de operação do termopar. De
uma forma geral, quanto maior é a secção do material constituinte do termopar, menor será a
deriva. Os termopares com Ferro e Cobre apresentam maior deriva do que os que são
constituídos por Platina, Ródio, Irídio e Tungsténio. Mesmo o termopar tipo N, que apresenta
uma boa estabilidade, tem uma deriva de 2 ºC após 1000 horas a 1200 ºC. Convirá pois, em
aplicações a temperaturas elevadas, e para medidas que se farão durante muito tempo
consecutivo, escolher criteriosamente o termopar no que respeita também à estabilidade a longo
prazo. A escolha do tipo de termopar deverá também ser feita tendo em conta o tipo de
atmosfera em que irá funcionar, nomeadamente se é atmosfera redutora ou oxidante.
Quando os termopares são sujeitos a radiações nucleares, convirá ver qual a sua estabilidade.
Assim, por exemplo, o cobre sofre uma transmutação quando sujeito a um bombardeamento de
neutrões, pelo que não deverá ser utilizado nesta aplicação.
Em muitos casos, deverá ser incorporado no programa de manutenção a substituição periódica
de determinados termopares.
[Link]. Precisão
A precisão dos termopares varia entre ±0.25 % e ±2 % do valor medido.
[Link]. Gamas de medida
Na tabela anterior indicam-se as gamas de medida dos termopares correntes. Saliente-se a
utilização de termopares tipo G para temperaturas elevadas, até ao máximo de 2320 ºC. Para
temperaturas baixas, até - 270 ºC, podem utilizar-se termopares E, K, N e T.
[Link]. Temperatura da junção de referência
Os valores das tensões de saída (ver tabelas e gráficos já apresentados), referem-se a termopares
com duas junções, em que a junção de referência se encontra a 0 ºC.
Para se poder efectuar a medida de temperatura na junção de medida, há pois que colocar a
junção de referência a 0 ºC (ou a outra temperatura conhecida). Se este procedimento pode ser
utilizado em laboratório, onde se pode colocar a junção de referência num banho de água com
gelo em fusão, não será o mais indicado em aplicações industriais. Nestas, o método corrente
consiste em deixar a junção de referência à temperatura ambiente e dispor de um circuito
electrónico que efectue a sua compensação. Esta faz-se adicionando à tensão proveniente da
junção de medida uma outra tensão equivalente à da temperatura de referência, que não se
encontra a 0 ºC. Normalmente usa-se um outro dispositivo para medir a temperatura da junção
de referência. A Fig. 2.17 representa esquematicamente um destes circuitos.
48
2. TEMPERATURA
Fig. 2.17 – Circuito para compensação da junção de referência
[Link]. Bainha e diâmetro dos condutores
Para cada termopar há que considerar os seguintes aspectos construtivos:
1. Bainha de protecção
A bainha de protecção deve ser utilizada para defender o termopar mecanicamente e do ataque
químico efectuado por agentes corrosivos. No entanto a sua utilização faz aumentar a constante
de tempo da resposta do sensor. De entre os termopares com bainha, há ainda a considerar
várias opções, como se indica na Fig. 2.18. A figura mostra no desenho a) uma junção exposta.
Este tipo de termopar não pode ser utilizado em fluídos corrosivos. A bainha oferece uma
protecção mecânica razoável e tem uma constante de tempo baixa. Das opções b) e c) utiliza-se
a junção soldada à bainha quando se pretende um termopar protegido com uma constante de
tempo relativamente baixa.
Fig. 2.18 – Colocação de bainhas em termopares
49
2. TEMPERATURA
*** IMPORTANTE *** Nas aplicações em que se mede a temperatura de água ou de vapor a
alta pressão, não é permitida apenas a utilização das bainhas apresentadas na Fig. 2.18 em
contacto directo com o fluído. Deverá usar-se uma bainha auxiliar de protecção, designada por
“thermowell”, dimensionada para as condições de operação, e que deve ser soldada ao processo.
Em muitas aplicações que não incluem alta pressão também se usam estas bainhas de reforço.
Citam-se a título de exemplo os casos em que os gases ou líquidos são corrosivos, quando os
líquidos estão imediatamente a jusante de bombas, em que há vibrações que podem partir uma
bainha normal. Nestes casos a bainha de reforço pode ser roscada.
2. Diâmetro dos condutores do termopar
Utilizam-se diâmetros pequenos sempre que se pretende uma constante de tempo baixa. No
entanto, os termopares com condutores de diâmetros pequenos têm uma estabilidade baixa,
associada a um tempo de vida mais curto, comparado com os que têm os condutores grossos. A
estabilidade depende também das temperaturas de operação habituais, pelo que ao fazer a
selecção dos termopares haverá que analisar cuidadosamente este aspecto.
[Link]. Cabos de ligação
Normalmente a junção de referência encontra-se afastada da junção de medida. Nesta situação
torna-se necessário efectuar a ligação da junção de medida à junção de referência através de
cabos de extensão, também chamados cabos de compensação. Estes cabos devem ser do
mesmo material que os condutores do termopar ou de material com propriedades
termoeléctricas equivalentes, para não serem introduzidas junções adicionais a temperaturas
desconhecidas. A Fig. 2.19 indica esquematicamente a utilização de cabos de extensão.
A interligação ao aparelho de medida é normalmente efectuada através de condutores de cobre.
Por esta razão, e para evitar o aparecimento de f.e.m. adicionais, os terminais de chegada dos
termopares devem estar à mesma temperatura. Utiliza-se para este efeito um bloco isotérmico,
que tem a propriedade de ser bom isolante eléctrico e bom condutor de calor.
Fig. 2.19 – Utilização de cabos de compensação
a)
50
2. TEMPERATURA
2.7. Termómetros de semicondutores
Uma das facetas dos materiais semicondutores é a dependência das suas características com a
temperatura. Nos circuitos electrónicos correntes (amplificadores, osciladores, transmissores, ...)
esta dependência é quase sempre indesejável e costuma mesmo ser compensada. Pode no entan-
to ser aproveitada vantajosamente na construção de sensores de temperatura. Estes sensores têm
a particularidade de possuir uma sensibilidade alta, boa linearidade e grande precisão. Têm no
entanto o inconveniente de não suportarem temperaturas elevadas. As suas gamas de medida
estão compreendidas entre 40 K e 400 K.
2.7.1 A junção P-N como sensor de temperatura.
Uma junção P-N (díodo), quando polarizada com uma tensão U, é percorrida por uma corrente I
dada por (2.40), e que se representa graficamente na Fig. 2.20.
I = I s [e ( qU / 2 KT ) -1] (2.40)
em que U - tensão aplicada à junção, I - corrente na junção,
Is - corrente inversa de saturação, q - carga do electrão: 1.602 x 10 -19 C,
K - Cte de Boltzmann: 1.381 x 10 -23 J/K, T - temperatura absoluta da junção, K.
Esta equação representa a característica típica de um díodo semicondutor. Observe-se, na figura
da direita, b), que a corrente directa, exceptuando a zona de disrupção, é várias ordens de
grandeza superior à corrente inversa.
Resolvendo a equação (2.40) em ordem a U obtém-se, para T expresso em ºC, uma equação
linear em T, com b < 0.
U = a + bT (2.41)
Fixada a corrente I por meio de um circuito de corrente constante, normalmente colocando uma
resistência de valor muito elevado em série com o díodo, os valores de a e b podem ser
determinados experimentalmente.
I I
mA
I0
U I0 U
UZ
µA
Fig. 2.20 – Característica tensão-corrente de um díodo de junção
51
2. TEMPERATURA
A Fig. 2.21 representa para alguns díodos vulgares a característica tensão directa/ temperatura.
U
(V)
T (ºC)
Fig. 2.21 – Característica tensão/temperatura de alguns díodos
2.7.2 O transístor de junção como sensor de temperatura
Sendo o transístor de junção constituído por duas junções P-N (PNP ou NPN), as suas
características também dependem da temperatura. Para o transístor de junção NPN em
montagem de emissor comum tem-se a seguinte equação:
I E = β R I B + I ECO [e( qU / 2 KT ) -1] (2.42)
Como para o caso do díodo, a resolução desta equação em ordem a U dá origem a uma relação
linear equivalente à equação (2.41). Um pequeno circuito com um amplificador operacional
permite obter uma relação directa entre U e T e calibrar esta relação.
2.7.3 Sensores de temperatura em circuito integrado
O sensor de temperatura em circuito integrado é um dispositivo electrónico para medida de
temperatura utilizando semicondutores. Normalmente são construídos como geradores de
corrente, e são calibrados de fábrica para terem uma sensibilidade de 1 µA/K, e fornecerem uma
corrente de 298.2 µA à temperatura de 298.2 K ( ~ 25 ºC ), com uma tensão de alimentação com
um valor qualquer entre 4 e 32 V. A Fig. 2.22 representa as características I (T) para três valores
de temperatura, correspondendo as curvas extremas aos limites da gama de funcionamento.
52
2. TEMPERATURA
423 K (150 ºC)
_
saída 400
/µA _ 298 K (25 ºC)
300
_ 218 K (-55 ºC)
200
100
_
0
_ | | | | |
0 2 4 6 8 10 entrada /V
Fig. 2.22 – Características I(U) de um sensor de temperatura em IC, para diversos valores de T
Este tipo de sensor não apresenta quaisquer tipos de problemas relacionados com a resistência
dos cabos ou com tensões de contacto, uma vez que se trata de um gerador de corrente.
Também não necessita de linearização. Para se obter uma tensão de saída proporcional a T pode
usar-se o circuito indicado na Fig. 2.23. Da figura conclui-se que:
uo = I Rs = Si Tk Rs = Su Tk (2.43)
onde uo - tensão de saída do circuito, I - corrente no sensor,
Rs - resistência de ajuste, Si - sensibilidade em corrente, µA/K,
Su - sensibilidade em tensão, µV/K, Tk - temperatura do sensor, em K.
A resistência Rs é ajustável e permite ter uma sensibilidade adaptada à instalação, normalmente
1 µV/K ou 10 µV/K.
A precisão destes dispositivos varia entre ± 0.5 ºC e ± 0.05 ºC. As constantes de tempo ao ar são
da ordem dos 60 segundos.
Há no mercado uma grande gama de sensores de temperatura em circuito integrado.
Us
U0
Fig. 2.23 – Esquema para uso com termómetro em circuito integrado
53
2. TEMPERATURA
2.8. Termómetros de quartzo
2.8.1 Princípio de funcionamento.
Determinados materiais, como por exemplo o quartzo o titanato de bário e outros, são
piezoeléctricos. A piezoelectricidade consiste no aparecimento de uma polarização eléctrica à
superfície do material, quando este é submetido a uma tensão mecânica e consequentemente a
uma deformação. O fenómeno é reversível, isto é, o material piezoeléctrico deforma-se quando
entre duas da suas superfícies é aplicada uma tensão eléctrica.
Se ao material piezoeléctrico for aplicada uma tensão alternada sinusoidal com uma frequência
próxima da frequência de ressonância mecânica, ele entra em vibração, havendo uma
transferência de energia eléctrica para mecânica, e vice-versa. O material piezoeléctrico é
equivalente, do ponto de vista eléctrico, a um circuito RLC série, em paralelo com um
condensador de capacidade Cp. São valores típicos para estes parâmetros, L :1 a 104 H, C: 0.01 a
0.1 pF, R: 5kΩ a 50 kΩ e Cp: 1 a 100 pF. O circuito exibe um factor de qualidade eléctrico
muito elevado, que para o quartzo, tem valores compreendidos entre 104 e 105. Isto quer dizer
que as perdas de energia são muito pequenas. Esta propriedade é largamente utilizada na
construção de osciladores com alta estabilidade de frequência, como por exemplo os que são
utilizados nos relógios de quartzo.
Como o oscilador constituído com material piezoeléctrico tem a componente mecânica deste
último, é de esperar que a sua frequência de oscilação dependa da temperatura, uma vez que a
vibração mecânica está associada ao módulo de elasticidade e este depende da temperatura. É
esta dependência com a temperatura que é aproveitada para a construção de termómetros.
Normalmente a piezoelectricidade manifesta-se em materiais cristalinos anisótropos, isto é, em
materiais em que as propriedades ópticas e eléctricas dependem da direcção espacial
considerada. Assim, uma determinada propriedade manifesta-se mais ou menos consoante a
direcção considerada. Por esta razão os cristais, em particular os piezoeléctricos, são cortados de
forma a realçar a propriedade que interessa ao utilizador. No corte de cristais destinados à
construção de osciladores é importante obter cristais com um factor de qualidade elevado e que
seja pouco dependente da temperatura. No entanto, quando se trata de obter cristais para a
construção de termómetros o corte do cristal é efectuado de modo a obter a maior dependência
possível da temperatura, e se possível uma boa linearidade. O cristal de quartzo destinado a um
oscilador não deve pois ser usado como termómetro.
2.8.2 Constituição.
O material piezoeléctrico utilizado nos termómetros é o quartzo, devido à sua grande
estabilidade mecânica e por poder suportar grandes variações de temperatura. O corte utilizado é
o chamado corte LC. Obtém-se uma lâmina com cerca de 0.1 mm de espessura. Os eléctrodos
são colocados sobre as faces da lâmina por meio de evaporação no vácuo de um material
metálico. O conjunto é colocado no interior de uma bainha de protecção metálica, de aço
inoxidável, que tem no seu interior uma atmosfera de um gás inerte, a fim de aumentar a
transferência de calor entre o exterior e o cristal de quartzo. O cristal de quartzo é inserido num
circuito oscilador.
54
2. TEMPERATURA
2.8.3 Frequência de oscilação.
No caso geral a frequência de oscilação de um oscilador de cristal varia com a temperatura da
forma seguinte:
f (T ) = f 0 (1 + α1T + α 2T 2 + α 3T 3 ) (2.44)
Para um cristal cortado para termómetro, por exemplo com o corte LC (linear coefficient), a
contribuição dos termos não lineares é insignificante, sendo o termo linear bastante
significativo, ficando assim
f (T ) = f 0 (1 + α1T ) (2.45)
Repare-se que o sinal de saída deste transdutor é em frequência, que pode ser facilmente lida
com uma grande precisão.
2.8.4 Sensibilidade.
A sensibilidade deste transdutor é dada por
df (T )
S= (2.46)
dT
Aplicando (2.46) à expressão (2.45) obtém-se
S = α1 f 0 (2.47)
2.8.5 Características.
São as seguintes as características típicas de um termómetro de quartzo:
– Gama de medida: [-80, 250] ºC
– Frequência de oscilação a 0 ºC: f0 = 28 208 kHz.
– Sensibilidade: 1000 Hz/ºC.
– Não linearidade: ±0.05 % do alcance.
– Histerese: ±0.05 ºC.
– Resolução: ±0.0001 ºC.
– Constante de tempo, com a bainha mergulhada em água a 2m/s: 2.5 s.
2.8.6 Aplicações.
Pelas características deste tipo de termómetro conclui-se que se trata de um termómetro de
precisão. Muitas vezes é utilizado como padrão em pequenos laboratórios de instrumentação.
55
2. TEMPERATURA
2.9. Termómetros por radiação e pirómetros
2.9.1 Introdução.
A necessidade de medir a temperatura de objectos nos quais não é possível colocar fisicamente
um sensor de temperatura conduziu ao desenvolvimento de métodos que utilizam a radiação
emitida por esses corpos. De entre os motivos pelos quais não é possível colocar um sensor em
contacto com o material do qual se pretende saber a temperatura salientam-se:
• Materiais a temperaturas elevadas, como os metais em fusão numa siderurgia.
• Materiais corrosivos, como por exemplo o “smelt” na fornalha de uma caldeira de
recuperação de lixívia negra (indústria da pasta de papel).
• Órgãos de máquinas em movimento, como é o caso dos cilindros secadores de uma
máquina de produção de papel.
• Produtos em movimento, numa linha de montagem.
Como a maior parte das utilizações foram originadas pela necessidade de medição de
temperaturas elevadas, aos dispositivos utilizados dá-se o nome de pirómetros(14). Há no entanto
dispositivos que utilizam a radiação para medir temperaturas da ordem da temperatura
ambiente, e que portanto devem ser chamados termómetros.
2.9.2 Fundamentos de Radiação.
É bem conhecido o facto de que os corpos, quando aquecidos a uma temperatura
suficientemente elevada, se tornam incandescentes, emitindo energia infravermelha, luminosa e
ultra-violeta. Mesmo à temperatura ambiente os corpos radiam energia em quantidade
apreciável, mas esta não se torna visível porque o seu comprimento de onda cai dentro da gama
dos infravermelhos. Chama-se radiação à energia emitida por um corpo, quer seja radiação
electromagnética ou radiação corpuscular.
Os corpos também absorvem a energia luminosa e infravermelha que sobre eles incide, e de um
modo geral, toda a energia electromagnética, reflectindo outra parte. Chama-se corpo negro
àquele que absorve toda a energia que sobre ele incide, não reflectindo nenhuma fracção desta.
O corpo negro é uma abstracção teórica. Na prática todos os corpos reflectem alguma da energia
que sobre eles incide, podendo no entanto essa reflexão ser quase nula para determinados
corpos. Um corpo negro, como qualquer outro corpo, também emite energia, não por reflexão,
mas devido à agitação molecular associada à sua energia interna, e que é tanto maior quanto
maior a temperatura.
Chama-se poder emissivo de um corpo, ou emissividade, à temperatura T, à quantidade de
energia radiante emitida por esse corpo, por unidade de tempo, por unidade de superfície e no
intervalo de frequências (f, f+df).
De um modo análogo, chama-se poder absorvente de um corpo, à temperatura T, à quantidade
de energia radiante absorvida por esse corpo, por unidade de tempo, por unidade de superfície e
no intervalo de frequências (f, f+df).
14
do grego Pyros, que significa fogo.
56
2. TEMPERATURA
Há algumas leis relativas aos espectros de radiação que importa mencionar:
1. Lei de Kirchhoff(15): A razão entre o poder emissivo e o poder absorvente de qualquer corpo é
independente da natureza do corpo, dependendo apenas da temperatura T e da frequência f :
e / a = E( f ,T ) (2.48)
A função E ( f , T ) tem o significado seguinte: é o poder emissivo de um corpo negro à
temperatura T e no intervalo de frequências (f, f+df). À quantidade E ( f , T ) também se
chama espectro da energia radiada por um corpo negro.
2. Espectro contínuo: O espectro da energia radiada por unidade de tempo por um corpo sólido
é contínuo. O seu valor depende apenas da temperatura e da frequência da radiação emitida.
3. Lei de Wien(16): O comprimento de onda a que corresponde a intensidade máxima radiada é
inversamente proporcional à temperatura
λmax = B / T (2.49)
-6
em que B = 2 898×10 K.
4. Lei de Stefan(17): A energia total radiada por uma superfície, na unidade de tempo, em toda a
gama de frequências é proporcional à quarta potência da temperatura absoluta:
Wrad = eσ AT 4 (2.50)
onde σ = 5.6696×10 Wm K , A - área da superfície, e - emissividade do corpo.
-8 -2 -4
A emissividade traduz a dependência na natureza da superfície. Para uma superfície comple-
tamente reflectora e = 0, para um corpo negro e = 1. Como se disse a emissividade depende
da frequência da energia radiada, ou o que é equivalente, depende do comprimento de onda.
5. Lei de Plank(18): O espectro de emissão de um corpo negro a seguinte expressão:
2π c 2 h C1
E (λ , T ) = hc
= C2
(2.51)
λ (e
5 K λT
− 1) λ (e
5 λT
− 1)
em que
c = 2.998×108 m s-1 - velocidade de propagação da luz no vácuo,
h = 6.626 ×10-34 J s - constante de Planck,
K = 1.381× 10-23 J K-1 - constante de Boltzmann,
C1 = 2 π c2 h = 3.75×10-16 W m2, C2 = h c /K = 1.44×10-2 m.K,
λ – comprimento de onda da radiação,
T – temperatura absoluta do corpo negro.
A Fig. 2.24 representa o espectro de emissão de um corpo negro para diversos valores da sua
temperatura.
15
Gustav Robert Kirchhoff - Físico Alemão, 1824-1887.
16
Wilhelm Wien - Físico Alemão, 1864-1928.
17
Joseph Stefan - Físico Austríaco, 1835-1893.
18
Max Karl E. L. Planck - Físico Alemão, 1858-1947.
57
2. TEMPERATURA
Fig. 2.24 – Espectro de emissão de um corpo negro
2.9.3 Pirómetros e termómetros por radiação.
O esquema de princípio de um termómetro que utilize como princípio de funcionamento a
radiação encontra-se indicado na Fig. 2.25. Há basicamente três tipos de dispositivos destes: O
pirómetro óptico, o pirómetro de infravermelhos e o sensor por detecção de fotões.
fonte de 2 3
calor 1
4
1. Objectiva e dispositivo de focagem,
2. Detector,
3. Amplificador / Transmissor
4. Indicador
Fig. 2.25 – Esquema de princípio de um pirómetro por radiação.
58
2. TEMPERATURA
[Link]. Pirómetros ópticos
Os pirómetros ópticos destinam-se à gama de temperaturas compreendidas entre 700 ºC e
4000 ºC. Neste tipo de pirómetro a energia radiante emitida pelo corpo é focada por meio de
uma objectiva sobre o filamento de uma lâmpada de incandescência, sendo a imagem do
conjunto, depois de filtrada, observada através de uma ocular, como se representa na Fig. 2.26.
O filtro de absorção colocado entre a objectiva e o filamento destina-se a estender a utilização
do pirómetro a temperaturas elevadas. O filtro vermelho tem por finalidade efectuar a análise
espectral numa banda de frequências estreita da zona do visível, onde é importante para o
espectro a radiação correspondente à gama de medida deste pirómetro.
Filtro de absorção Filtro
para T > 1300 C vermelho
2ª lente
Lâmpada do
pirómetro
objectiva
Lente
Corpo quente
ocular
Operador
Lente Lente
1ª lente
côncava côncava
objectiva
Fonte de tensão
(a) variável com amperímetro
Fig. 2.26 – Esquema de um pirómetro óptico
A imagem observada através da ocular contém o filamento e o objecto incandescente
sobrepostos, como se representa na Fig. 2.27 para três casos distintos: Tf < To, Tf = To e Tf > To,
em que Tf e To designam as temperaturas do filamento e do objecto, respectivamente.
Tf < To Tf = To Tf > To
Fig. 2.27 – Aspecto do filamento da lâmpada de um pirómetro óptico.
59
2. TEMPERATURA
O operador ajusta a corrente da lâmpada até que o filamento desapareça da imagem. Nesta
situação Tf = To. Estes pirómetros são calibrados visualmente comparando o brilho do filamento
de tungsténio da lâmpada com o brilho de um corpo negro, a diversas temperaturas conhecidas.
É de notar que a energia radiada depende da temperatura e da emissividade do material. No
entanto, a 1500 K, um erro de 20% no valor da emissividade introduz um erro na determinação
da temperatura de apenas 1.3%.
Na tabela seguinte indicam-se os valores das emissividades de alguns materiais.
Material Sólido Líquido Material Sólido Líquido
Berílio 0.61 0.61 Tântalo 0.49 -
Carbono 0.80-0.93 - Tório 0.36 0.40
Crómio 0.34 0.39 Titânio 0.63 0.65
Cobalto 0.36 0.37 Tungsténio 0.43 -
Colômbio 0.37 0.40 Urânio 0.54 0.34
Cobre 0.10 0.15 Vanádio 0.35 0.32
Ferro 0.35 0.37 Zircónio 0.32 0.30
Manganés 0.59 0.59 Aço 0.35 0.37
Molibdénio 0.37 0.40 Ferro fundido 0.37 0.40
Níquel 0.36 0.37 Constantan 0.35 -
Platina 0.30 0.38 Monel 0.37 -
Ródio 0.24 0.30 90 Ni - 10 Cr 0.35 -
Prata 0.07 0.07 80 Ni - 20 Cr 0.35 -
Tabela 2-5 - Emissividade de alguns materiais.
[Link]. Termómetros de infra-vermelhos
Estes termómetros utilizam a energia radiada na zona infravermelha mais afastada do visível do
que a anterior. Destinam-se pois à medição de temperaturas mais baixas, tipicamente entre - 20
ºC a 1000 ºC. O esquema deste termómetro encontra-se indicado na Fig. 2.28.
Fig. 2.28 – Pirómetro de Infravermelhos
60
2. TEMPERATURA
O feixe de infravermelhos é focado sobre um sensor de temperatura, através de uma lente e de
um espelho parabólico. Como sensor de temperatura é comum utilizarem-se termopares ou
então termistores. A temperatura de equilíbrio do sensor depende da energia absorvida e da
energia perdida por radiação, condução e convecção
Este pirómetro/termómetro dá um valor médio da temperatura dos corpos que se encontram
dentro do seu campo de visão, pelo que é importante conhecer a sua abertura.
Para se aumentar a sensibilidade destes dispositivos, o sensor de temperatura, quando construído
por termopares, utiliza estes ligados em série de forma a construir uma termopilha com a
configuração física de um disco, como se indica na Fig. 2.29.
Fig. 2.29 – Termopilha usada em pirómetro de infravermelhos
Estes pirómetros, como os anteriores, dão uma medição de temperatura que é influenciada pela
emissividade do objecto, tendo por isso um, ajuste para a compensação de emissividade. As
leituras são também afectadas pelos gases e vapores interpostos no caminho do feixe IV.
Também os vidros protectores alteram as leituras, chegando a comportar-se, dentro de certas
gamas de comprimentos de onda, como corpos opacos.
[Link]. Detector de fotões
Pela constituição do detector, estes termómetros são de resposta muito mais rápida do que os
anteriores, podendo efectuar algumas centenas de milhar de leituras por segundo. Usam-se para
medições na gama global, para todos os tipos, de -50 ºC a 2000 ºC. A sua resolução é elevada,
da ordem de 0.1 ºC à temperatura de 30 ºC.
Os primeiros detectores de fotões utilizavam tubos electrónicos de vazio e necessitavam do
arrefecimento do detector por meio de azoto líquido. Actualmente a sua constituição é baseada
em dispositivos semicondutores de manuseamento muito simples. Estes dispositivos continuam
a ter que ser arrefecidos, utilizando-se em muitos deles, o efeito de Peltier.
Estes dispositivos utilizam-se também como detectores em câmaras de infravermelhos.
61
2. TEMPERATURA
2.10. Propagação de calor, resposta dinâmica
2.10.1 Condutância e resistência térmicas.
A dissipação ou absorção do calor no interior de um elemento primário de temperatura (termo-
-resistência, termistor, semicondutor, ...), faz-se por radiação, por convecção ou por condução.
Como nestes dispositivos a condução tem um papel predominante, concentrar-se-á a atenção
sobre este último fenómeno físico.
Considere-se um meio material através do qual se está a efectuar uma determinada transferência
de calor. Sejam SA e SB duas superfícies às temperaturas TA e TB respectivamente, como se
indica na Fig. 2.30, e admita-se TA > TB
SB
SA
PAB TB
TA
Fig. 2.30 – Transferência de calor entre duas superfícies isotérmicas
Prova-se que a quantidade de calor transmitida, na unidade de tempo, da superfície SA para a
superfície SB, é dada por
PAB =Gθ AB (TA - TB ) (2.52)
em que o parâmetro Gθ AB é designado por condutância térmica do material, entre as superfícies
SA e SB; exprime-se em W/ºC. A expressão (2.52) tem o nome de lei de ohm térmica, que serviu
referência para a conhecida equação da electrotecnia. Aqui as temperaturas equivalem às
tensões e as potências térmicas às correntes eléctricas. Esta expressão pode ser escrita
TA - TB = Rθ AB PAB (2.53)
Ao parâmetro Rθ AB = 1/ Gθ AB dá-se o nome de resistência térmica do material e exprime-se em
ºC/W. A equação (2.53) pode representar-se simbolicamente como indicado na Fig. 2.31.
Rθ AB
Rθ AB
TA TB ou TA TB
PAB PAB
Fig. 2.31 – Representação de uma resistência térmica.
62
2. TEMPERATURA
Considere-se agora um sensor de temperatura. Este é constituído por um transdutor (termo-
resistência, termistor, ...) com uma capacidade calorífica K, e pelo seu invólucro protector. O
sensor é colocado num meio do qual se pretende medir a temperatura Tx. Como o transdutor se
encontra protegido pelo seu invólucro, há uma resistência térmica entre o meio do qual se
pretende medir a temperatura e o sensor. Por outro lado estando o sensor ligado ao exterior, em
particular pelos seus suportes e pelos cabos de ligação de sinal, há uma certa resistência térmica
entre o sensor e o exterior (ambiente). Esta situação está esquematizada na Fig. 2.32.
Rθ xs Rθas
Tx Ta
(a medir) (ambiente)
Ts (sensor)
Fig. 2.32 – A temperatura num sensor não é igual à que se quer medir.
A variação de temperatura do sensor é proporcional à quantidade de calor por ele recebida,
sendo a constante de proporcionalidade, por definição, a capacidade calorífica K,
∆Q = K ∆Ts (2.54)
Logo, a quantidade de calor recebida pelo sensor durante a unidade de tempo elementar é dada
por
dQ dT
=P=K s (2.55)
dt dt
e é resultante da soma das quantidades de calor provenientes do meio a medir e do meio
exterior:
dT
K s = Gθ xs (Tx - Ts ) + Gθas (Ta - Ts ) (2.56)
dt
A equação diferencial (2.56), de primeira ordem, admite uma solução do tipo
t
−
Ts (t ) = Tsf − (Tsf − Tsi )e τ
(2.57)
em que Tsf é a temperatura final do sensor, Tsi a sua temperatura inicial e τ a sua constante de
tempo, dada por
K K
τ= = (2.58)
Gθ xs + Gθas Gθ xs − Gθ sa
A evolução indicada pela equação (2.57) encontra-se representada na Fig. 2.33. Quando a sonda
se encontra inicialmente à temperatura Tsi, a sua temperatura evolui, só atingindo o valor Tsf ao
fim de um tempo teoricamente infinito. Ao fim de um tempo t1 há ainda um erro ∆Te. Mostra-se
que este erro é dado por, para t1=3τ
63
2. TEMPERATURA
Gθas
∆Te = Tx − Tsf = (Ta − Tx ) (2.59)
Gθ xs − Gθas
Tsf ∆Te
Tx temperatura /ºC
Tsi
0 τ 2τ 3τ 4τ tempo, t
t1
Fig. 2.33 – Evolução da temperatura no interior de um transdutor de temperatura.
Da expressão (2.59) conclui-se que este erro é tanto menor quanto mais se verificar a relação
Gθ xs >> Gθ as (2.60)
Para que isto aconteça deverá:
– Aumentar-se a permutação de calor entre o sensor e o meio em estudo,
– Diminuir as trocas de calor entre o sensor e o meio ambiente.
2.10.2 Auto-aquecimento.
Considere-se de novo a equação (2.56). Se o dispositivo sensor em estudo for atravessado por
uma corrente eléctrica I haverá dissipação de calor por efeito de Joule e para o valor da sua
temperatura haverá uma contribuição RsI 2, que deverá ser adicionada ao segundo membro da
equação. Se além disto se considerar apenas o regime estacionário, então o primeiro membro da
equação anula-se. Com estas duas condições pode escrever-se
Gθ xs (Tx - Ts ) + Gθ as (Ta - Ts ) + Rs I 2 = 0 (2.61)
que conduz a
Gθ xs Tx + Gθ as Ta Rs I 2
Ts = + (2.62)
Gθ xs + Gθ as Gθ xs + Gθ as
temperatura a que acréscimo de tempe-
temperatura a que
estabilizaria o sensor se ratura devido ao auto-
estabiliza o sensor
não houvesse corrente -aquecimento
64
2. TEMPERATURA
Quando Gθ as << Gθ xs (relação (2.60)) fica apenas
∆T = Rθ xs Rs I 2 = Fsh R0 I 2 = Fsh P0 (2.63)
em que Fsh = ( Rθ xs / R0 ) Rs é o factor de auto-aquecimento, e é, nestas condições, independente
da temperatura ambiente ou da temperatura do sensor.
2.11. Calibração
2.11.1 Introdução.
A calibração de um termómetro é feita colocando esse termómetro a diversas temperaturas bem
conhecidas e registando as indicações.
O grau de precisão exigido para a calibração determina o tipo de equipamento a utilizar. Assim,
se for exigida uma precisão elevada será necessário recorrer a padrões primários que
reproduzam os pontos da Escala Internacional de Temperaturas ITS-90, enquanto que para uma
calibração de rotina num laboratório de uma indústria será suficiente a utilização de
calibradores que utilizem banhos com controlo de temperatura. Em qualquer dos casos é
importante a elaboração de um documento que certifique qual o tipo de calibração efectuada e a
data em que foi feita.
2.11.2 Padrões primários.
Os padrões primários são constituídos por células que replicam os pontos fixos da ITS (ver
secção 2.2.2), banhos de calibração de temperatura controlada ou termómetros de precisão. A
calibração pode ser efectuada quer nos pontos fixos da ITS quer em pontos intermédios.
[Link]. Células para pontos fixos
De entre as diversas células que permitem replicar os pontos fixos da ITS são correntes no
mercado as que se indicam na tabela seguinte:
Ponto fixo Temperatura (ºC) Incerteza (ºC) Repetibilidade (ºC)
Triplo da água 0.01 0.0002 0.00005
Fusão do gálio 29.7946 0.0004 0.0001
Solidificação do índio 156.5985 0.001 0.0003
Solidificação do estanho 231.928 0.0014 0.0004
Solidificação do zinco 419.527 0.0016 0.0004
Solidificação do alumínio 660.323 0.005 0.001
Solidificação da prata 961.78 0.007 0.002
Solidificação do cobre 1084.62 0.015 0.004
Tabela 2-6 – Pontos fixos correntes da ITS-90.
Os materiais utilizados nestas células são de pureza muito elevada, devendo ser exactamente
conhecido o valor da pressão atmosférica a que se encontram. As estufas de controlo da tempe-
65
2. TEMPERATURA
ratura destas células devem ter um valor de perdas por radiação muito baixo e um sistema de
controlo de temperatura muito apertado.
A título de exemplo, as células que replicam os pontos fixos correspondentes à solidificação de
metais, oferecidas por um determinado fabricante, contêm o metal dentro de um tubo de quartzo
com comprimento de 290 mm, diâmetro de 48 mm e espessura de parede de 8 mm; A parte do
tubo contendo o metal é de 180 mm. As células dispõem de um orifício cilíndrico central
destinado à introdução do termómetro de precisão, concretamente de uma termo-resistência de
platina. As células são completamente seladas, feito o vácuo, e depois cheias com Argon, à
pressão de 101.325 kPa (1 atmosfera), à temperatura de solidificação do respectivo metal.
As células são equipamentos delicados; não podem ser manuseadas com as mãos, para que o
quartzo não seja atacado pelos ácidos existentes à superfície da pele. Para o seu manuseamento
devem ser utilizadas luvas. Cada célula deve ser armazenada em caixa própria para o efeito.
[Link]. Estufas
A manutenção da temperatura do metal é feita por meio de uma estufa como a que se mostra na
Fig. 2.34.
Fig. 2.34 – Esquema de uma estufa de calibração.
66
2. TEMPERATURA
A estufa dispõe de três controladores de temperatura, um geral, outro colocado na zona supe-
rior da estufa e um terceiro na zona inferior. A função dos controladores superior e inferior é de
manter em simultâneo as fases líquida e sólida, e consequentemente garantir a temperatura de
solidificação correspondente ao ponto fixo.
As características típicas de uma estufa como a apresentada na figura são:
- Gama de temperaturas: 100 ºC a 680 ºC,
- Estabilidade: ±0.03 ºC,
- Resolução do “set-point”: 0.01 ºC
Observe-se na figura, a célula com metal colocada dentro da estufa, e a termo-resistência de
precisão inserida no orifício interior da célula.
[Link]. Termómetros de precisão
Como termómetro utiliza-se uma termo-resistência de precisão. A Fig. 2.35 mostra o aspecto de
uma destas termo-resistências.
Fig. 2.35 – Termo-resistência de precisão.
As termo-resistências de precisão são designadas em inglês pela sigla SPRT (Standard Platinum
Resistance Thermometer). São constituídas por uma resistência eléctrica de platina, protegida
por um tubo de quartzo. Devem ser manuseadas com muito cuidado, devido à sua fragilidade, e
tal como acontece com as células, não se lhes deve tocar directamente com as mãos.
Consoante os fabricantes e as gamas de temperatura assim são apresentados diversos modelos
de termo-resistências. Os valores nominais de R0, são mais baixos do que para as termo-
resistências industriais. Para se ter uma ideia dos valores apresentam-se parâmetros caracte-
rísticos para as termo-resistências de precisão de alguns fabricantes.
67
2. TEMPERATURA
Fabricante Modelo Gama (K) R0 a 0 ºC (Ω) Corrente máxima Repetibilidade
Chino 5602 90 a 962 25.5 1 mA ± 1 mK
5604 90 a 1065 0.25 1 mA ± 1 mK
Hart 5681 84 a 934 25 1 mA -
5685 273 a 1343 2.5 3 mA
Leeds and Northrup YSI8163 73 a 923 25.5 - -
Rosemount 162D 13 a 523 25.55 1 mA -
162K 273 a 1373 0.20 a 0.25 10 mA -
Tabela 2.7 – Parâmetros característicos de termo-resistências de precisão
2.11.3 Calibradores.
Os calibradores são aparelhos que servem para comparar as indicações das termo-resistências a
calibrar com as indicações de um termómetro de precisão. O calibrador dispõe de uma termo-
resistência de precisão, de um controlador de temperatura e de um indicador digital. A precisão
destes dispositivos é da ordem de 0.1 ºC a 0.5 ºC, dependendo da gama de temperaturas. No
caso de se pretender aumentar a precisão da calibração poderá ser utilizada uma termo-
resistência externa de maior precisão do que a do calibrador, para termo de comparação, como
se mostra na Fig. 2.36.
Fig. 2.36 – Calibrador com termo-resistência externa
68
2. TEMPERATURA
Fig. 2.37 – Blocos para a calibração de termómetros
Como calibradores são correntemente utilizadas estufas secas. Estas dispõem de um bloco com
orifícios de diversos diâmetros, onde podem ser introduzidos os termómetros a calibrar, como se
mostra na Fig. 2.37.
2.12. Especificação e selecção
Para se efectuar a selecção do sensor de temperatura mais adequado a uma determinada
aplicação industrial é necessário tomar em consideração os seguintes factores:
1. Gama de temperaturas a medir;
2. Fiabilidade do sensor/transmissor;
3. Agressividade do meio em que será instalado, em particular vibrações mecânicas,
agentes químicos corrosivos, e pressões e temperaturas elevadas;
4. Facilidade de instalação e de manutenção;
5. Simplicidade na utilização;
6. Precisão, sensibilidade e linearidade;
7. Resposta dinâmica;
8. Preço de aquisição mais instalação;
9. Normalização na fábrica;
10. Experiência de instalações anteriores.
Embora alguns destes factores sejam independentes uns dos outros, eles por vezes encontram-se
intimamente relacionados. Assim se, por exemplo, se pretender ter um determinado sensor bem
protegido do ataque de agentes corrosivos, a sua gama dinâmica ficará reduzida. Também, a
extensão da gama dinâmica conduz a uma diminuição da linearidade. E como será de esperar,
uma grande fiabilidade ou uma grande precisão são incompatíveis com preços baixos.
Para se efectuar a especificação e a consequente selecção de sensores de temperatura é pois
preciso ponderar todos os factores intervenientes, estabelecendo um critério de selecção realista
e adequado ao processo em causa.
Na tabela seguinte indicam-se de uma forma resumida as principais características de cada um
dos tipos de sensores de temperatura utilizados na indústria.
69
2. TEMPERATURA
tipo de gama lineariade auto aque- precisão estabilidade robustez preço
termómetro global (ºC) cimento (ºC/ano)
Líquido -100, 650 Linear - 0.2 a 2 ºC Média Bxo/médio
Gás -75, 820 Linear - 0.2 a 1 ºC Média Bxo/médio
Tensão vapor -75, 300 Não linear - 0.2 a 1 ºC Média Bxo/médio
Bi-metálicos -30, 400 Linear - 0.2 a 1 ºC Grande Baixo
Termoresistência -260, 2700 R(T) sobe Sim 0.01 ºC 0.05 Média Médio/alto
Termistores NTC -100, 300 R(T) desce Sim 0.01 ºC 0.05 Baixa Baixo
Termistores PTC -100, 300 R(T) sobe Sim 0.01 ºC 0.05 Baixa Baixo
Termopares -270, 2700 v(T) sobe Não 0.5 a 2 % 1a2 Grande Médio
Semicondutor -230, 150 Linear Sim 0.05 ºC Baixa Baixo
Quartzo -80, 250 Linear Não 0.01 ºC 0.01 Média Alto
Pirómetros -50, 4000 Não linear Não 0.1 a 10 ºC Grande Alto
Tabela 2.8 – Comparação entre diversos sensores de temperatura.
2.13. Instalação e manutenção
2.13.1 Local de instalação dos elementos primários.
A localização do elemento primário deverá ser, dentro do possível, a exigida ou recomendada
pelo utilizador. É no entanto necessário ter em atenção que por vezes não é possível a colocação
do sensor no local ideal devido a vários factores:
• Inacessibilidade, quer para instalação como para manutenção,
• Possibilidade de danificação mecânica,
• Existência de agentes corrosivos,
• Acção de temperaturas elevadas, ...
sendo então necessário procurar, em conjunto com o utilizador, uma localização alternativa.
2.13.2 Ligação do sensor ao processo.
Há muitas formas de efectuar a ligação do elemento sensor ou elemento primário ao processo.
Os elementos primários de medida podem ser instalados com ou sem bainha de protecção
(“thermowell”), consoante a pressão, a temperatura e a agressividade do fluido sob medida. A
sua localização pode ser feita em plena tubagem, com colocação normal ou inclinada em relação
a esta, ou pode ser efectuada junto a um cotovelo da tubagem. Quando o elemento primário é
colocado no interior de uma tubagem, um dos parâmetros que é importante respeitar é o compri-
mento da sonda imerso no fluido, pois este afecta de um modo significativo o erro na
determinação da variável. Também, em determinadas circunstâncias, é importante ter um
comprimento mínimo fora da tubagem, em particular quando se trata de condutas muito
quentes. De uma forma geral poderá dizer-se que convirá mergulhar no fluido um comprimento
da bainha de protecção da ordem de 5 a10 vezes o diâmetro da mesma (consoante a velocidade
do fluido), sem no entanto exceder metade do diâmetro da tubagem. Se o fluido contiver
substâncias sólidas que possam aderir à bainha, esta deverá ser colocada inclinada em relação à
70
2. TEMPERATURA
tubagem, sendo corrente utilizar-se uma inclinação de 45 º, com a extremidade da sonda dirigida
segundo o movimento do fluido.
Quando se tratar de instalações de sensores destinados à indústria da alimentação, bebidas ou
farmácia, é de toda a importância que se sigam as normas próprias desses tipos de indústria, que
exigem de uma forma geral a colocação de flanges do tipo sanitário, destinadas e evitar a
criação de bactérias.
Em instalações em que haja risco de incêndio ou de explosão é também essencial que sejam
seguidas as normas de segurança próprias dessas instalações, em particular no que respeita à
utilização de instrumentação eléctrica, que deve ter características “intrinsecamente seguras”.
Indicam-se a seguir as montagens mais correntemente utilizadas na indústria.
[Link]. Ligação roscada
Neste tipo de ligação ao processo, o sensor é dotado, na sua bainha de protecção, de uma rosca
macho, sendo correntes as medidas R½", R ¾" e R1", e ainda NPT ½" (cónica). A Fig. 2.38
representa um diagrama de instalação de um sensor roscado.
Fig. 2.38 – Instalação de um sensor de temperatura roscado
[Link]. Ligação por aperto
É um tipo de ligação usado quando não convém ou não é permitido soldar ou perfurar o
processo. Usa-se por exemplo para instalar termopares em tubos de vapor de caldeiras. Na
Fig. 2.39 mostra-se um sensor apertado a um queimador.
71
2. TEMPERATURA
Fig. 2.39 – Instalação de um sensor de temperatura por aperto
[Link]. Ligação soldada
O sensor é dotado de uma bainha adicional de protecção (Thermowell) que é soldada ao
processo, como se indica na Fig. 2.40. Este tipo de ligação é obrigatório sempre que se trate de
ligações a processos de alta pressão, como por exemplo para a medida de pressão de vapor
numa caldeira. A bainha exterior deverá ser dimensionada para a pressão, temperatura e agentes
químicos do processo.
Fig. 2.40 – Instalação de um sensor de temperatura soldado
72
2. TEMPERATURA
[Link]. Ligação colada
Este tipo de instalação usa-se muito para medir a temperatura de tubagens, de carcassas de
motores, etc., quando as temperaturas não são muito elevadas, para não deteriorar a cola. É
muito corrente este tipo de ligação com termistores.
[Link]. Ligação flangeada
Neste tipo de ligação a bainha do sensor é soldada a uma flange que é apertada a uma outra
flange do processo, como se indica na Fig. 2.41. Usam-se flanges DN50 e DN80. Este tipo de
ligação é pouco corrente na instalação de sensores de temperatura.
Fig. 2.41 – Instalação de um sensor de temperatura flangeado
2.13.3 Local de instalação dos transmissores.
A localização dos transmissores de temperatura tem normalmente três opções, que se expõem a
seguir.
[Link]. Instalação à cabeça
O transmissor é colocado na cabeça do sensor. É uma montagem utilizada quando os sensores
estão em posições relativamente acessíveis e não há problemas de corrosão ou de temperaturas
extremas. Tem a vantagem de minimizar o comprimento dos cabos das termo-resistências ou
dos termopares, e evitar a colocação de caixas de protecção adicionais, minimizando assim os
custos da instalação.
73
2. TEMPERATURA
[Link]. Instalação em caixa de junção
O transmissor é colocado em caixa de protecção próxima do sensor. Este tipo de solução é
muito corrente em sensores ligados a sistemas de controlo distribuídos, em que a caixa de
protecção do transmissor, que contem vários transmissores, é ligada ao DCS por meio de um
multicabo. A caixa de protecção, que também faz de caixa de junção, deverá ser colocada de
modo a que a soma das distâncias aos seus sensores seja curta em média. Esta solução é
normalmente utilizada quando existem muitos sinais, mesmo provenientes de outros tipos de
sensores que não os de temperatura, e tem a vantagem de centralizar, num local acessível e junto
ao processo, as informações de vários sensores.
[Link]. Instalação centralizada
Nesta opção o transmissor é colocado junto do sistema central de aquisição de dados ou do
sistema de controlo distribuído. Esta solução tem o inconveniente de exigir um cabo por sensor,
e de poder introduzir resistências adicionais nas termo-resistências ou exigir cabos de
compensação compridos para os termopares. É mais susceptível de introduzir ruído do que as
soluções anteriores por se estar a transmitir sinais de nível baixo. É também uma solução cara,
pelo que deverá ser evitada.
2.13.4 Cabos de ligação.
Os cabos de ligação utilizados para efectuar as ligações dos sensores na indústria são normal-
mente dimensionados com critérios que têm mais a ver com a sua própria protecção do que com
o nível dos sinais que neles transitam. Em cada fábrica há normas internas que é preciso
conhecer, e que são orientadas no reforço da segurança da instalação.
Os cabos para termo-resistências deverão ter a secção mínima de 1.5 mm2 por condutor, a fim
de diminuir os erros introduzidos pela resistência do cabo. Quando instalados no campo deverão
ter os condutores de fio rígido, para minorar o ataque de agentes químicos, que têm mais
facilidade em introduzir-se em cabos multifilares.
No caso de termopares, os cabos deverão ser os recomendados pelo fabricante dos termopares,
para que não haja erros devido a forças electromotrizes de contacto adicionais. Os cabos de
instrumentação deverão sem sempre blindados electrostaticamente, quer se trate de cabos de
dois condutores quer de cabos multicondutores ou ainda de cabos multipares.
Chama-se também a atenção para o facto de que as blindagens dos cabos não deverem ser
ligadas à terra nos dois extremos do cabo, a fim de se evitarem correntes de circulação que
possam induzir ruído nos próprios cabos. Sempre que houver uma interrupção no cabo deverá
ser dada continuidade à sua bainha de protecção.
Finalmente, as esteiras que transportam os cabos de sinal deverão estar a uma distância da
esteiras que contêm cabos de energia superior a um mínimo. Nunca se devem colocar cabos de
sinal em esteiras de transporte de cabos de energia.
74
2. TEMPERATURA
2.13.5 Identificação do equipamento.
Todos os sensores transmissores e cabos de ligação que forem instalados num processo fabril
deverão ser identificados com uma gravação ou com uma placa de identificação indicando o
nome abreviado ou codificado do equipamento ("TAG NAME").
2.13.6 Diagramas e esquemas de ligações.
Toda a instrumentação colocada num processo fabril deverá ser acompanhada dos respectivos
diagramas típicos de instalação (hook-ups) e dos respectivos esquemas de ligações (loop
diagrams). Estes esquemas deverão indicar também se o sinal do sensor é utilizado em funções
exteriores à cadeia de controlo em que o sensor está inserido, como por exemplo encravamentos
com motores de accionamentos de bombas, de ventiladores ou outros.
2.13.7 Manutenção.
A manutenção dos sensores de temperatura industriais é muito reduzida.
No que respeita à manutenção correctiva esta é por vezes necessária devido à instalação ter
sido efectuada com pouco cuidado ou então à acção de agentes exteriores que acidentalmente
provocam danos nos sensores.
A manutenção preventiva deverá incluir a verificação periódica da calibração dos elementos
primários e dos transmissores. É de boa prática efectuar uma verificação anual.
75