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Entre Caboclos e Encantados

Entre caboclos e Encantados

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Kevin Ferreira
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ENIRE CABOCLOS E ENCÁNIADOS 3I9

se e permane ceu com a mesma idade cronológica que tinha quan_


do esse fâto se deu.
 encantaria do tambor-de-mina, aliás pouco identificável nou_
tros cultos afro-brasileiros, divide-se em:
ENIRE CABOCLOS E ÉNCqNIADOS
a) Encantaria gentil, que reúne as famílias de reis, rainhas, prín-
Mudonços recentes em ct)ltos de caboclo cipes, princesas e nobres;
no perspecüvo de um chefe de terreiro b) Encantaria cabocla, em que aparecem várias familias, sendo
21 as principais, entre elas: a do Lençol, da Turquia, do Codó, da Gama,
do Juncal, da Mata, dos Marinheiros, das Caravelas, das Cobras, dos
Surrupiras, dos Botos, da Bandeira, daBaía, do pará e de Caxias (de
Franceliro de S ltapanan*
Dom Pedro Angasso).
Da mesma forma que religlão 2fro-brasileirâ tomou flomes
a O que se manifesta na encantâria é, pois, o encantado. A palavra
diferentes nos diversos lugares do Brasil onde se fixou e se desenvol- caboclo, muito comum na eflcantaria, é um nome genérico usado na
veu, também as entidades náo africana5 tiveram denominações diver- mina paru quase todos os encantados e não tem no tambor-de-mina o
sas. De modo getal, contudo, usou-se para designá-las os nomes mesmo sentido dado na umbanda e nos demais cultos afro-brasileiros.
genéricos de caboclo e encantado, este Írais catactetístico do tambor- Não é necessariamente o índio. Pode ser uma entidade mestiça mas que
de-mina. Com o decorrer dos anos, a troca de informações e o grande nem sempre tem o mesmo conceito usado nos outfos cultos. Na umbanda
intercâmbio entre terreiros, com visitas, rnudanÇa de seus membros de e no candomblé queto, angola e jeje, as divindades voduns, orixás e
umâ casa para outfa e até mesmo de um estado Parâ outfo, o caboclo inquices são consideradas africanas, enquanto que o caboclo é brasilei-
nas suas dilerentes formas se misturou. ro. Na mina não é assim: o encantado não é necessariamente brasileiro.
cultuam-se na mina vâúas familias de caboclos-encantados que
Encantado é um termo genérico para designar entidades quc
não os são entidades que hoje carregam nomes brasileiros, enquanto outros
voduns, orixás ou inquices. §6 tambor-de-mina, são divin-
tlades que descem ao mundo dos vivos com o mesmo prestígir, abrasileiram-se, mas não são originários de nosso país. Têm muitas
(luc ()s dcuses africanos, tendo com estes grandes correlações, rc- outras origens: portuguesa, italiana, turca, austríaca, africana, embora
laçõcs de tespeito e culto quase que paralelos. Para o povo rl<, tenham aceitado o Brasil como sua terra.
trrtrrbor rle-mina, o encantado não é o cspírito de um humano c1 trr' Devido âo meu enrrosamento aqui no Sul com várias casas de
lr)()rrcLr, quc perdeu seu corpo físico, pão sendo por conscguin tt' rrnrbanda e candomblé (queto, jeie, nagô e angola), pude observâr que o
trrtl ctrtlnt. Ille se transformou, tomou outra feição, nova mancn:r r:rrlr.clo seria o mesmo, porém com concepções diferentes. Acredito que
tlc st'r-. I',ncrntou-se, tomou nova formo de vida, numa plantrr, nLrrr) ,r r-abocl"o-encantado é o ancestral de todos, pois
fá existia mesmo antes
:tt itlctt(c l'isic«r geográfico, num peixe, num animal, virrir-r vclr tí), tl, srrrgimento da umbanda, pelo menos desde uns cem aÍ1os atrás. Ele
Itttttrtç:t. Ilstá lrrcsente entre nós,6x5 pào o vem()s. -[']lc cttc;rnlorr
i:i cxistie c, depois de assumir várias formas, veio descendo para o sul e
:rr1rri, t:rrr face clas novas condições encontradas, tomou nova feição.
* Fundadorcdirigcntc da Casa das Minas deTóíaJarina, em Diadema, SP, c Abê-
Onokun do Ilô Axé Icmaniá, em São Luís, MA, é coordenador em São Paulo do
l)rirr«'ilralmcnte nâ r:mbanda, em que â presençâ kardecista é
Instituto Nacional da Iradição c Cultura f,f1q-Blasilcira Intecab presidcntc n):lr(',1n1(" () c:rlr()clo sc dcscncnntou, ficou tão-somente caboclo e to-
do Consclho dc Ética c Sccietário-Gctal da FcdcÍaÇão dc-Umbanda c-,Cultos Âfro- Ir)()ll ut)l:r n()\';l l)()slut':t, ntltis strltrrrissll, (-()nt:ttittrclcs mais prrras, tneis
Brasileiror dc Diadcmn.
l)ro\ttn:f, rl,r', rrlr'.ri'; ( ilsl;l()s (l( ( ()nrl)()l l:illl('nlo (1rrrtt.z:t t.xil,irl:r, .1rr,.
1.i
320 I NCÁN /AHiA 8RÁ.5/1 I /ITA I NIIIÉ: CA/]OCLOs E ENCAN]ÁDOs 321
sua postura ânterior erâ muito criticada), enquânt() no Nt»rtt. l)(.rrr.r Arrtigrrrrrcntc, nas casas de candomblé queto e jeje da Bahia, como
neceu como antes, sincretizado Sim, mâS sem c()piflr írs vil.rrr,1,.,,,,,, no xangô cle Pernambuco, não se cultuava caboclo. Sua presença esta-
quefef imitar o compoftamento dos santos católicos. va limitada ao candomblé de caboclo, a partir do qual pâssaram p^r^ as
casas de candomblé angola e congo, tendo também presença obrigató-
Lâno Norte, na minâ, ele é o caboclo-ancestral, aqrri ['r) r.:rl,r
ria nas casas de mina nagô do Maranhão. Depois foram âdentrândo as
clo-descendente, surgindo com novâ roupagem. Âqui se âl)rcs(.nr:r n ,

demais nações e hoje está presente em quase todos os cultos e até nas
casas de umbanda pregando uma visão meio católica-kardccisr:r, r ,,rr,
casas mais ortodoxas.
comportâmento diferenciado, quase não bebendo e nem fumanclo, rrrrrrr,,
embora, se analisâÍmos muitas de suas cantigas e outrâs cíu-:rct(.rr,rr Embora se fale indistintamente de encantado e caboclo, há dife-
cas, vamos remontar à sua origem primitiva. rençâs bem marcantes em suas maneiras e posturas, já que o encanta-
do não seria o mesmo caboclo da umbanda e do terreiro de candomblé.
Esse caboclo descendente também hoje tem mudado muit«r. N.r.,
O encantado tem uma postura muito própria. Na mina, ele é perfeita-
casas de mina e de umbanda, antigamente, quando desciam, os r::rl,,
mente individualizado, tem sua família, tem seu mito próprio, ele rem
clos obedeciam a determinados rituais, como: a) tirar sua doutrina (t.:rrr
uma descendência, ele tem história, enquanto na umbanda e no can-
tiga, ponto, dota); b) riscar seu "ponto" com pemba; c) dizer suâ onr,(.n r

domblé ele perdeu sua memória ancestral.


e significados.
Na umbanda do Sul, o caboclo não sabe contar sua história, ou,
Âí ele mostfava uma família, uma origem, toda trrr,., quando contâ, essa história nã,o é a mesma quando ele está na cabeça
ancestralidade. Ele não era simplesmente caboclo. Hoje vejo o us() (1,.
(incorporado) de um outro filho. Cada casa rem umâ história para essa
nomes de caboclos que nunca existiram e que quando muito são tlr.s
entidade, nada havendo em comum eritre âs diferentes versões. Já na
dobramentos de outros caboclos já existentes. Por exemplo: Cabor l,,
umbanda do Norte, especialmente pela proximidade com o tambor-
Sete Flechas da Mata e Caboclo Sete Flechas das Estrelas, QUe flurl;r
de-mina, os caboclos são praticamente os mesmos da mina, falam e
mais são que o Caboclo Sete Flechas. A justificativa p^ra essas n()v:r:, dançam nos mesmos moldes e conhecem os encantados gentis e os
aparições sefiam caboclos outros que trabalhariam na vibração de St'r,.
voduns.
Flechas. Mas, por que então não usarem seus próprios nomes? I l r,
mesmo com a CaboclaJurema da Mata e a CaboclaJurema da Caclr,, Pela constante presenÇa da Casa das Minas de Tóia Jarina e
eira, derivaçôes da propria Cabocla Jurema. de sua encantada Cabocla Mariana (que tem a atribuição ritual de
administÍar a Casa) junto a muitos terreiros de umbanda e candom-
Na mina, assim como nos candomblés de caboclo, ele só porlr bié da região metropolitana de São Paulo, observa-se grande influ-
estar atuado (incorporado) numa única pessoa e não em váúas pess()rr:j ência do tambor-de-mina em várias dessas casas no culto dos
ao mesmo tempo. Na mina, não admitimos essa possibilidade, ser.i.r caboclos. Muitos procedimentos rituais e concepções antes inexis-
considerada uma fraude. tentes hoje se verificam de maneira bem palpável, como canriges,
Aí começam-se â notar as múltiplas diferenças. posturas, conceitos.

Em muitos terreiros de umbanda, numa mesma festa pública orr Quando abri minha casâ em São Paulo hâ 22 anos, dificilmente
privada, o mesmo caboclo, usando o mesmo nome, pode incorporar se falava em encantado, enquanto hoje em muitas câsâs se diz "meu
simultaneameflte em vádos filhos, o que demonstra haver uma outr,r encantado", em vez de "meu caboclo". A figura do índio, ântes selva-
interpretação, outro conceito de caboclo, diferente daquele da mina. () gem, bravo, mudou, ganhando novâ roupagem e nova linhagem.
nome pode ser o mesmo, mas é diferente a concepção que se tem da Nos diversos cultos afro-brasileiros há uma inter-relação entre
entidade. Mas há também casas de umbanda em que cada entidade ó as entidâdes dos caboclos, encantados, mestres, boiadeiros etc., com
própria de cada filho-de-santo. diferenças bem marcadas que podem ser apontadas.
322 ENcAN/ÁÍiiA lltü\i/ I //ü t NIRI (.All(X-lo\ I lN(ANIADo5 12 l

O caboclo propriamente dito (.omo conta o caboclo Pedra Preta de Mãe Lindinalva, o cabo-
Caboclo é o índio civilizado que veio para a cidaclc, (prc sc nur. clo faz parte da própria história do Brasil:
turou com o branco e até mesmo com o africano. São deste grLrl)() irs Minba nãe é brasileira
entidades que mais baixam na umbanda. Âlguns usam expressircs orr meu Pai imPerador Oit)
tupi-guarani pârâ se identificar ou se comunicar. Quando manife st;rrlo, Eu soa do Brasil
o caboclo usa panos e faixas com laços, chapéu de palha, enxada. []srr brasileiro eu sou OiE.
rodilha e não torso. Fuma charuto. Trabalha para resolver problenrls,
Ele teria nascido e se encântado no Brasil, como umâ fefa, numa
vem briflcar e leva recados dos fiéis pata mata, depois trazendo :rs
^ pedra de raio que vem à tona §ete anos âpós ter caído e se eírterrado,
respostâs. É independeÍlte e, na maiotia das vezes, se apresenrâ com()
.rm, p.dra preta, brilhotu. É ít dio, mas se porta como caboclo-para o
grande guardião dos orixás, os donos do axé. No candomblé nào sc
porro.rra.rrd er. Diz que no candomblé náo há famílias de caboclos'
admite a incorporação de um mesmo caboclo simultaneamenre cnl
poi. o povo-de-santo só teria se preocupâdo corir os ofixás africanos,
vários filhos.
lrq.r...rrdo-se do lado caboclo, o que âcarretou o Íim da continuidade
Na mina, nã.ohâ a necessidade de oferendas de comidas secas c d^. .a.^s e das famílias de caboclos. Não se considera egum (espírito
"corte" (sacrifício de animais) para os orixás, especialmente Exu, Ogunr de morto), mas suâ "paielança" é como de egungum, dos índios mor-
e Odé, antes de toques e festas para caboclos, nem se faz um prévi<r tos que iâ foram grandes caciques, tuxauas, morubixabas' Teve que
xirê aos voduns e orixás, como ocorre nos candomblés que tocânr .n ri, no culto da iurema (sem contudo virar mestre) para poder se
para caboclos. tornar um verdadeiro chefe. Diz ser pai da cabocla Jandira, Cabocla
Lavínia, sendo a cabocla Iracema a máe deles. Tem filhos de seu sân-
No candomblé, o xirê preliminar aos orixás é justiÍicado por se
gue e filhos adotados, reconstiruindo-se todo um sentido de família,
crer que o orixá, poÍ ser o dono da casa, pode se aborrecer se não for
certamente por influência do tambot-de-mina'
lembrado. Mas o caboclo não se sente aí um intruso. Essa combinaçàcr
de orixás e caboclos pode ser entendida como uma espécie de união Pode-se verificaf em são Paulo que essas entidades brasileiras
das raças e dos povos, mas, mesmo assim, o caboclo não comparece acr classificadas como caboclos foram, com o passar do temPp, mudando
xirê dos orixás e estes também não se manifestam no toque dos cabo- e se adaptândo, perdendo um pouco das origens e características que
clos. Há um respeito aos limites e às diferenças, cada um na sua hora, as definiam.
rnas um respeitando e amando o outro. Existe certa ligação do caboclo Muitas câsas de umbanda mantêm a tadição do caboclo
1â não
com o orixá de cabeça do filho. No candomblé, o caboclo manifesta-se "riscar o ponto", "catrt?.r sua doutrina" e dizet o "que representa"'
ou como boiadeiro ou caboclo de pena, os quais rezam na chegada Gestos que o deÍinem, pois toda a sua história está ali contida, com
um ingorossi brasileiro e se identificâm como filhos dos orixás (em es- seu "ponto tiscado", que se rePete durante toda a vida' Na umbanda
pecial os donos da casa), mas não riscam ponto, usam faixas com la- tradicional, quando da "coroação" do médium, o caboclo usa cocar de
ços, bebem e fumam no salão e fazem quitanda de frutas. Bebem e penas, l"r^rrào arco e flechas na mão. É subordinado a Oxóssi, o
rei da
-macaia.
oferecem a todos sua bebida titual, a jurema de caboclo, que é diferen- Com o passat do tempo e dentro da sua evolução, o caboclo sc
te da jurema de mestre, própria do catimbó. torna chefe da macaia.

O caboclo na umbanda usa comer das comidas sólidas, verduras Penso que devemos estudâr o caboclo com o mesmo carinhcl
e frutâs, o que na mina se considera impróprio e incompatível com a que temos pelo orixá, vodum e inquice. Também não vemos nada dc
incorporação. Na umbanda do Norte o caboclo segue o mesmo padrão .rrrdo em cultuar orixá e caboclo numa mesma casa, desde quc crrr
da mina, com cantigas próprias, que ele canta na chegada, durante o separado e sem misturar os rituais. O ptoblema' me parece, é quc ccr
tambor e na despedida. ,r, .rru, de umbanda e candomblé adotam entidades da mina quc tri, r
324 I NL^N /^R/A t\tiA,,tl t iliA ENCANIADO5 32,5
ENTRE CAEOCIO5 E

e o cabo-
sabem cultuar, e então começam todo um proccss() cre in'r.rr\i. r-rrrr:rr, Vemos então â grande mistura do que seria o baiano
com muita criatividade. o o caboclo e o exu'
encantado tem cantigas aPr.1;ri,r,r:rs
Prrr:r clo, o caboclo e o marinheito, o caboclo e o cigano'
chegar, para dançar enquânto está em terta e para subir, arénr rl:rrlLrcr,s ocabocloeoboiadeiro.
que podem ser cantadas sem que esreja presente, mas fazer iss.
sc'r
conhecimento e sem fundamento, c^rrtar só por cântar, é muito preju-
dicial à continuidade da verdadeira encantaria. Índios
Ves-
É tradição na mina maranhense e parâense tef-se
num mesmo Índio é o caboclo de mata bruta, selvagem' da mata fechada'
(homens) e de flores (mu-
tambor a presença de voduns, gentis e caboclos-encantados. Na casa te pena, usâ cocât, penacho, rodilha de folhas
de Tóia Jaúna essa prática é condenada, pois enrendemos que Iheres). O chefe é o cacique, abaixo do qual estão
o tuxâuâ' depois o
são
energias diferentes, de origens e panteões distintos. sua mistura morubixaba , e o abaré-g,aç", abaré-mirim, abaté' F'
um caboclo em es-
deve- mestres da iurema'
se à falta de conhecimento, por deficiência na iniciação
dos dirigen- tado selvage:t^, é ao.igà do caboclo e a origem dos
da doutrinação do
tes, falta de uma sólida estruturação da casa, como se tucro fosse mas que pr..i., ser dãutrinado. o índio seria o início
entte terrei-
válido. Fazemos festas separadas até mesmo para âs diferentes famí- médium q.,^,'do está começando e que não sabe diferenciar
não se vê
Iias da encantaria, podendo uma visitar a outra, o que não
é regra to e m t;,por isso vem bravo, bruto, sem disciplina' Quase
vem evoluído' en-
geral' Para voduns canta-se em língua afticana e p^ra encantaria,
em
mais sua presença na umbanda, pois ultimamente iâ
quanto ná candomblé é nula "tn p""tç"' Na mina está se extinguindo'
português.
poirormineirosatuaisprefererntrabalharcomentidadesmaismoder-
.rr, . ,d^pt"das ao nosso modo de viver e entender'
Boiadeiros
Para a mina, os boiadeiros formam uma linhagem de caboclos,
Encantados
com maior presençâ nâs casâs de candombré angt la, onde se identifi-
cam como brasileiros e dizem ser originários da Hungria, talvez O legítimo encantado, além de não ftzet uso de comidas sóli-
uma
Hungria perdida na memória dos tempos. Assemelham-se a alguns das, não bÃ" . nem fuma no barracão' enquânto as demais entidades'
en_ usa toalha' às
cantados de mina da famiü,a do codó, também conhecida comã
família
nos outros cultos, sim. O encantado, como o vodum'
na mesma' Já os
de seu Légua Boji Buá ou família de Mata do codó, e misturam-se vezes com um ponto riscado desenhado ou pintado
com Limitam-se
os vaqueiros. Estes três grupos boiadeiros, vaqueiros ç ç6d6sn5ss índios, boiadeiros e caboclos (fora da mina) não o fazem'
feitos com faixas amar-
estariam muito próximos entre -si. Â maioria dos terreiros - ao uso de bandas de pano na cabeça com laços
de umbanda darpasse ou consulta' o que
moderna já. tem boiadeiros, mas transformados. Têm poucas cantigas rados ao corpo. Não é tegrao encantado
próprias e já usam botas em vez de ficar clescalçor, .àrno na angola. é praxe na umbanda e nos candomblés de
caboclos'
Âliás, a familia do codó não tolera ficar carçad,a. Boiadeiro é o coÍpo
o cabocro O encantado da mina teve vida mas não morreu' Perdeu
chefe dos vaqueiros, é o fazendeiro. usa roupa cle colrro, fuma
cigarro físico mas não houve morte, ele se transformou' Não é considerado
entidade que
de palha ou charuro. É um aliado de índios e caboclos.
egum e nem catiço. Na visão dos outros cultos' é uma
possívei
A umbanda também confunde os mestres da jurema (entidades viveu no nosso mundo e morreu' Está no nosso meio numa
missão' Não é essa
do catimbó), chamando-os de boiadeiros e até mesmo de exus. H evolução espiritual, no sentido de estar cumprindo

surge a figura conhecidíssima e polêmica do Seu Zé pelintra, a concepção do tambor-de-mina'
que tem
uma biografta real, verídica, é um grande mestre da jurema
pernam_ Na Casa de Tóia Jarina cultuamos várias famílias de encantados'
bucana e aqui em são Paulo transformou-se algumas vezes em baiano mas a principal é a do Rei Sebastião e da família
do Lençol' Esses
Àliás' algu-
e outfas em exu.
.rr.rr.,ndo, usam chinelos brancos e toaihas de Richelieu'

I
'326 \21
LN(AN/AR/A I]/IA\/I I //iA lN/R/ cAtio(-lo! I INLANIAÍ)o5
mas famílias de encantados usam chinclos, urna irrfrrrôrrr:iu tr,:. \.r,,rrrrr N4ctcc'c gratrcle destaque a familia da Bandeira'
chefiada por Ca
de origem
da Casa das Minas Jeje do Maranhão, onclc os vorluns, rrl t:1r,r r ,1, boclo João cla Mata, o Rei da Bandeira, Rei Boa Esperança'
nobres' chamados
Mãe Andressa, foram autorizados a usá,ros.'rambém a rer,ç;rr) (.r,.rrl por,,r[r'r"rn e italiana. É ,,rna famílio' de encantados
fevereiro e recebe
tado-vodum é muito mais forte e real do que encântâdo-.rixri. I,, ,1rr.r , de bandeirantes. Esta família é festeiada em 8 de
impossível no Maranhão se falar de encantado sem se reportâr a ela alguns cabo-
1r(, | .r rr I homenagem em todas as casâs de mina, iuntando-se
bor-de-mina, onde sua presenç a é marcante. clos de mata.
A segunda grande família daCasa é a da Mata do Cockr, t lJ,, Destaca-se também a farrrí\ia daBaia chefiada por
Baiano Gran-
de setembro' Os
destaque é para Zé Raimundo Bofi Buá sucena Trindade. sâ. :1.,,, de Constantino Chapéu de Couro, festeiada àia 21
melhados aos boiadeiros mâs em nenhum momento se confuntrr.r,, baianosdaminanãoadmitemserconfundidoscomosorigináriosdo
com estes. são chefiados por seu Légua Boji Buá. observam,s t|,,, baía e aí entenda-se
estado da Bahia, mas dizem vir simplesmente da
quando tocamos tambor para os codoenses e algum visitante enrr., umabaíaencantada,baíanosentidodeacidentefísico-geográfico.
em transe, jâ é o boiadeiro que se faz presente e não o cabocro .r,. muitos baianos com
Nessa famil\a,entretânto' identificam-se também
pena. Seriam boiadeiros de mata e não boiadeiros de câmpo. também mistu-
características umbandistas' ou seja, vindos da Bahia'
Na mina' as prin-
Vai uender, aai aender rados com entidades pernambucanas e paraibanas'
Baiana e Seu
uai uender boiada (tlir) cipais figuras míticas desta família são Dona Chica
-
do norte para o rertão Baianinho.
uai uender sua boiada, S'eu Legua Seguem as famílias da Mata deJurema, chefiada
por SeuJurema'
o Caboclo
Legaa do Maranbão OiO DonaJrrÃma e DonaJureminha, tendo grande importância
- Essa é uma famí-
Culrua-se, com grande destaque, na Casa de Tóia
Jarin a, a família
Ro-p" Mato, também chamado CachapâdaJurema'
dos Turcos, a grande familia de Turquia, sob o comarrdt d, legendária liadeíndios,característicadeumritodenominadotambor-de-borá'ou
cabocla Mariana, aBela Turca. Na nossa casa, dizemo, qr" o", turcos canietê.Antigamenteseustamboreseramrealizadosnomeiodamata'
cima de folhas de
são nagôs ou tapâs-nupes, chefiados por Dom onde se fazia umpequeno roçado, dançando-se em
João de Baiabaia, Rei cla
Turquia, de origem afúcana e não européia. seriam descendentes da fa- tucumanzeiro.
mília de Xangô. Muitos caboclos turcos estão na umbanda, usam nomes
Outra ê a Íamíha de Surrupira, chefiada por Velha Surrupira
e
em tupi-guarani e aparecem na mata de a civtlizaçáo'
Jurema (e não na jurema de composta de entidades selvagens e sem contâtos com
mestre) levados por caboclo verho. Essa família em nossâ casa tem com o Curupira e o Saci-Pererê'
três Àlgumas vezes se confunde Surrupira
dias de tambor com derrubada de boi e hasteamento de bandeira. Dona demandas' Quando
São entidades trabalhadoras e boas para desfazer
Mariana surge como a grande relações públicas, a responsável pelo grande folhas com mel e subiam nas pâre-
entrei na mina, há 38 anos, comiam
entrosamento de nossa casa com outros terreiros, a muitos dos quais e ali se ouve uma ou outra
des de costas. Perderam-se no tempo e aqui
chegou a impor seus gostos, costumes e tradições. Recebe visitas e vai
invocação sua.
visitar. Recebe homenagens e faz homenagens ao povo do santo, estudio-
por Boço
sos e políticos. Âssumiu a chefia da casa e colocou sua marca. A. mes- Também temos a familia dos Marinheiros, chefiados
de Iemanjá'
mo temp-o que é rígida, sabe enrender as falhas e problemas dos filhos. Marinheiro Jarlad,tta,que se apresentam como servidores
E a grande conselheira, confidente, farrista, coordenadora. Dona Mariana Chegam cambaleando, lembrando o balanço
do mar; não por estarem
impôs cantigas. Já é cosrume de algumas câsas de umbanda e canclom- bêba-dos, como muitos acreditam. É ,-,
linhagem nobre, muito gran-
de homens' numa
blé, nas grandes festas de caboclos, receber e tocâr tambor-de-mina, dando de. Comem frutos do mar' Embora formada só
Cabocla}'/.ariana'
o comando à cabocla Mariana. sua maior habiiidade social é saber tra- raríssima exceção têm uma mulher como membro:
considerada como a rainha da Mari-
tar, receber e prestigiar a todos, indistintamente. que é marinheira, e que no Parâ é
-l2lt tNcAN/^/(/A /iir^\// I //r^ INIRL cAt]oCl-os t LNCANIADos 129

nha Brasileira (Leacock e Leacock, 1975). lado com os


r)ocrcrl scr trc :'rt,rr:r s:rrr,:rrr.r l tl:urç:tvart tambor. Floie "baiam" (bailam, dançam) lado a
ou de água doce' E'sta famírja agreg^ a famíÜadas breu
caravcras, .,,ri,r,,,r, ,, ,ri,-r.i..r.. Fumam cigarros de tauari feito de tabaco de onça'
que descem (atuam) mudas, r"-pi. pulando,
branco socado, incenso, benf oim, alecrim, alfazema' pó de
e quc seriar_, 1.rcix.s rl,, craieru'
oceano' que na guma não faram. Recebem dando-se sete vol-
festas no -.rrrr., rri, rrt,s tuclo bem mistutado e enrolado com linha branca,
marinheiros, 13 de dezembro, e não têm
chefe. tas e sete nós.
I
 família nobre do Juncal, do Rei do I

 umbancla é bem posterior à encantaria de nobres e de cabo-


família dos Bastos, tem origem mítica Junco, também chantarlo
austríâca, que seriam nlrpcs clos e por isso vemos suas entidades como derivaçôes branquedas
abrasileirados' Dom Ântônio ãoJuncal ainda como encan-
é o chefe e pai de Dona Servana, daq.relas que são cultuadas no tambor-de-mina, ou
uma entidade guerreira parecida com éa
Iansã, o que mais fortifrca nossa tndà.-.^bà.los descendentes. Âcredito que a ençantaria da mina
afrrmativa. mantiveram
raiz, abase, a ancestralidade dessas entidades' Âlgumas se
dos anos'
Temos ainda a família da Gama chefiada mais originais, outras foram se modificando com o passar
por Dom Miguel da
Gama' com festa àia29 de setembro
e que seria uma família de voduns Baianos
de grande nobreza, mas muito distantes
do povo, pois não gostam de
tocâI nas pessoas e seus cumprimentos limitam-." Pataamina,osbaianosseriamumafamíIiadeencantariapouco
o i.r.rãações de difundida e com poucos membros conhecidos e que recebe
festa no
cabeça' Jamais usam vestes estampadas,
vestem-se de branco e verme- Constantino Cha-
lho e usam toalha branca de Ri.h.lieu, reforçando dia 27 de setembro, tendo na chefta Baiano Grande
assim suas se aproximam
vinculações ou descendência de Bad,ê Zorogama, vodum jeje, péu de Couro, dona Chica Baianae Baianinho' Às "ezes
muito outras são parentes da fa-
embora com feições brasileiras. Todos, ào, .odo.rrse§, sendo seus aparentados, em
com exceção da mãe Anadiê
(Rainha Isabel), têm nomes brasileiros. mília da Turquia.
Trazem ru, purn a fecunda-
ção das sementes e anunciam a primavera. ^
Regem o pri-"i.o decanato
Na umbanda, os baianos seriam um certo tipo' não bem defini-
sua origem
da balança, que também é seu s?mbolo.
Dom Migueié o Xangô d,alvz do, de caboclos nordestinos e que têm no estado da Bahia
e do fogo. principal, algumas vezes dizendo-se petnambucanos ou pareibanos'
Seguem-se a família dos Botos, liderada Essas entidades são bem definidas em São Paulo, mas desconhecidas
porJoão de Lima, o Rei surgiu'
clos Botos; a família do.pará, chefiada em outros estados, principalmente no Rio, onde a umbanda
por Rainha Madalena de origem
fulupe, a família das Cohr25, chefiacla jor
Rainha Dona Rosalina, famí_ Os baianos não recebem culto no candomblé e até os originários
lia do Rei de Nagô; e a família de Caúoclo daumbandaqueosc2ÍÍfegarf costumamdespachá_losquandosãoini-
Velho, que domina o povo
do Ceará. ciados para oúxâ"
observa-se que todas essas famílias de encantaria obaianodaumbandafalaum.,baianêS',estereotipado,gostade
^ e outras mais cocos secos
têm costumes próprios, sistemas familiares,
cant.igas e uma chefia que se batida de coco, come farofa com pimenta e faz magia em
os cangaceiros' Entre outros'
repere em rodos os rerreiros de mina
que têm ,rÃa verdadeira origem. com pólvora. Usa rouPas que lembram
,prr...- Lampião, Mesre Virgulino, Maria Bonita' Malandrinho'
Aparece acima de toda a encantariao vodum jeje
é.considerado o padrinho das encantarias,
Tói Verequete, brir.to Jerônimà, abaiana Glória, Carláo e Maria Redonda'
,que seja de cabocros de tam-
bor, da linha de cura, da pajelança etc. Na visão daBabâ Helena do caboclo Itatuité, do Rio de Janeiro,
descendente
Na pajelança existem variaçôes rituais, como com 78 anos de idade e 56 anos de casa aberta, o baiano seria
a denominada ,<pena
e maracâ", no Parâ, e a,,cura ou brinquedo dopreto-velhoenãodocaboclo.ErabemdesconhecidonosteÍreifosdo
de cura,,, no Maranhão. Âí Rio. Outrâs vezes seria um boiadeiro transformado' Ela
afrma que na
descem encanrados da água doce, da água e o exu'
salgada e da mata. Ântes não umbanda do Rio de Janeiro o forte é o caboclo, o Preto-velho
330 ENCAN IAR/Á /JÂÁ\// I /IIA

Mesttes da jurema
E'ssa linhagem de entidades espirituais não é curtr-rarra
r)() (irrrr)(,r
de-mina, a não ser flos casos de firhos originários do nagô-v.rrtrrrr
,,rr , r, ,

xambá, e que já os carregavam, sem que eres tenham sião clcspeclr,r,r,,.,


o mesmo acontece com os candombrés de cabocro e aí vai-sc rrirtrir,r,, EXUS NO CAND OMBLÉ DE CABOCLO
mais e mais o que seriam os mestres.

Estes aparecem nâ umbanda completamente confundidos c,r,


baianos (mas de origem pernambucana, paraibana ou alagoana),
so
bretudo quando o terreiro começa a gene.rarizar enddades-que foge,r Carlos Caroso*
das classificações tradicionais. outras vezes são confundidos Núbia Rodrigaes*x
com exus
e pombagiras onde, me parece, o lado feminino tem
mais destaque. I,.
mais comum dizer que uma mesrra é pombagira do que
baiana. Assim 'â vitada Pàt^ a banda das esquetdas"
trans for maram- se em pombagiras Mestra Luziâria,Mestra paurina,
Me s -
tra Ritinha etc.
expansão dos cultos aos exus nas religiosidades afro-brasi-
Â
os mestres devidamente cultuados no catimbó formam um novo leiras em um município do litoral norte da Bahia é o tema que
abor-
culto religioso e são grandes curaclores, usando muito a fumaça
damos neste trabalho, no qual buscamos uma explicação parâ
o
de
s-eus cachimbos para suas magias. É ,rma fumaça
que vai buscar o fenômeno. Em nosso modo de compreender, o culto a essas entida-
destinatário, levando recados, curas ou malefícios. No catimbó, na com-
usa-se des pode ser explicado como resultado da recente escalada
a jurema como bebida, sendo jurema também o nome
do próprio cul_ p"tiiao pelo mercado de bens simbólicos, entte os quais incluem
se
to' Dentro da iurema aparecem os cabocros e os mestres, com
divisões t, .i,r"À e as prâticas terapêuticas, representando tanto uma reação
profundas e complexas.
da tradição religiosa afro-brasileira ao âvanço de religiosidades
Este breve relato indica muitas linhas de transformações, influ- neopentecostais, quanto uma mârca da competição entre os terreiros'
ências e empréstimos por parte dos encantados nos diferentes Outrossim, o âssentâmento de exus nâs antigas casas de caboclos
curtos
afro-brasileiros. De toda sorte, tais mudanças merecem um pode ser compreendido como parte do processo de umbandização
estudo mais
pormenorizado, pois esse pfocesso está em permanente movimento pelo qual passam, que contribui para a renovação das religiosidades
e
jâ são muitas e muitas as alterações sofridas por essas
entidades nos
iradicionais e lhes fornece uma identidade urbanízaàa, ao tempo que
vários cultos afro-brasileiros em que se âpÍesentâm.
* Doutot em Antropologia pela universidade da czlifítnia em Los Angeles, é

Filosofra e ciências
professor do Departam..-ao à" Antropologia da Faculdade de
coletiva da universidacle
Referên ci a bibli ográfi c a Hr-r.r, e da Éós_Graduação do Instituto de saúde
autot de inúmetos trabalhos publica-
Federal da Bahia, Pesquisador do CNPq, é
científicos e livros e organizadot' com Jeferson Bacelat' dos
dos em periódicos
(Rio de Pallas,
LEACOCK, Seth e LEACOCI1 Ruth. Spiits 0í rbe Deep: a Studl o1l an Ay'o_Braqilian livros B)asil:rn país de negros? e Facet da tradição afro-brasihira Janeito,
Calt. Nova York, The American Museum oÊ Natutal Hisioiy, 197i. 19e9).
** Doutoranda em saúde Pública pela uni'r,'ersidade Federal da Bahia e Professota
Assistentedol)epattamentocleAntropologiadaFaculdadedeFilosofiaeCiências
Humanas dessa universidade. Publicou, com carlos Caroso,
"Exu na ttadição tera
pêuticareligiosaafto-btasileira,,,nolivroorganizadoporCarlosCarosoeJeferson
b^..l"r, Foies do tradição aJro-brasileira (Rio deJaneito' Pallas' 1999)'

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