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Barroco No Brasil

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Professora Mestra Helena Beiter

O Barroco desenvolveu-se do século XVIII ao


início do século XIX, época em que na Europa
esse estilo já havia sido abandonado.
O Barroco no Brasil foi o estilo artístico dominante durante a
maior parte do período colonial, encontrando um terreno receptivo
para um rico florescimento. Fez sua aparição no país no início do
século XVII, introduzido por missionários católicos, especialmente
jesuítas, que para lá se dirigiram a fim de catequizar e aculturar os
povos indígenas nativos e auxiliar os portugueses no processo
colonizador [muito embora, sabe-se que boa parte do processo de
catequização indígena foi feita pelos franciscanos nas expedições
bandeirantes].

Ao longo do período colonial vigorou uma íntima associação entre a


Igreja e o Estado, PADROADO [pesquise sobre isso] mas como na
colônia não havia uma corte que servisse de mecenas, como as elites
não se preocuparam em construir palácios ou patrocinar as artes
profanas senão no fim do período, e como a religião exercia enorme
influência no cotidiano de todos, deste conjunto de fatores deriva que
a vasta maioria do legado barroco brasileiro esteja na arte sacra:

- estatuária,
- pintura e obra de talha para decoração de igrejas e conventos
ou para culto privado.
Características do
Barroco
As principais características do barroco brasileiro são:

● Linguagem dramática;
● Exagero e rebuscamento;
● Uso de figuras de linguagem;
● União do religioso e do profano;
BARROCO NO BRASIL O barroco brasileiro foi
● Arte dualista;
diretamente influenciado pelo barroco
português, porém, com o tempo, foi
● Jogo de contrastes; assumindo características próprias. A grande
produção artística barroca no Brasil ocorreu
● Valorização dos detalhes; nas cidade auríferas de Minas Gerais, no
chamado século do ouro (século XVIII). Estas
cidades eram ricas e possuíam um intensa
vida cultura e artística em pleno
desenvolvimento
As características mais típicas do Barroco, descrito usualmente como um estilo dinâmico, narrativo, ornamental,
dramático, cultivando os contrastes e uma plasticidade sedutora, veiculam um conteúdo programático
articulado com requintes de retórica e grande pragmatismo. A arte barroca foi uma arte em essência funcional, prestando-se
muito bem aos fins a que foi posta a servir: a absorção da doutrina católica e dos costumes tradicionais, sendo eficiente
instrumento pedagógico e catequético. Logo os índios pacificados mais habilidosos, e depois os negros importados
como escravos, expostos maciçamente à cultura portuguesa, de meros espectadores de suas expressões artísticas passaram a
agentes produtores, sendo responsáveis, principalmente os negros, por grande parte do acervo barroco produzido no país. Eles
e os artesãos populares, numa sociedade em processo de integração e estabilização, começaram a dar ao Barroco europeu
feições novas, originais, e por isso se considera que esta aclimatação constitua um dos primeiros testemunhos da formação de
uma cultura genuinamente brasileira.

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Aleijadinho - Cristo da Flagelação ou da Coluna, 1791-1812


Principais Artistas do Barroco no Brasil
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Leia sobre Valentim em: http://bndigital.bn.gov.br/mestre-valentim/


Aleijadinho
Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho, é o artista
brasileiro mais conhecido do Barroco brasileiro. Foi
escultor, arquiteto e entalhador, e sua vida é envolta de
mistérios.
Suas obras mais famosas são o conjunto do Santuário
de Bom Jesus de Matozinhos, em Congonhas do
Campo, um patrimônio histórico e artístico com 66
imagens esculpidas em madeira de cedro (1796-1799), e
os 12 profetas em pedra-sabão (1800-1805).

Muitos especialistas afirmam que foi Aleijadinho que fez


o projeto arquitetônico da Igreja de São Francisco de
Assis, além de todos os ornamentos em seu interior.
Santuário de Bom Jesus de Matozinhos, Congonhas do
Aos 40 anos, atacado por uma doença que o deixou Campo (MG)

deformado, sua obra ganhou contornos góticos, e sua


técnica tornou-se ainda mais diferenciada e única.
O Barroco surgiu no Brasil quando já se haviam Barroco foi um movimento cultural que penetrou em
passado cerca de cem anos da presença colonizadora todas as esferas e estratos sociais e desenhou todo
portuguesa no território. A população já se multiplicava um estilo de vida.
nas primeiras vilas e alguma cultura autóctone já
O Barroco, então, confunde-se com, e dá forma a, uma
lançava raízes, embora os colonizadores ainda lutassem larga porção da identidade e do passado nacionais.
por estabelecer uma infraestrutura essencial — contra Segundo Benedito Lima de Toledo,
uma natureza ainda selvagem e povos indígenas nem
"fica um fato fundamental: por mais de três séculos o
sempre amigáveis — até onde permitisse sua condição
Barroco traduziu as aspirações e as contradições da
de colônia pesadamente explorada pela metrópole.
sociedade brasileira, ávida de encontrar seus próprios
Nesta sociedade em fundação se instaurou a
caminhos. É a arte que dá expressão aos anseios da
escravatura como base da força produtiva.
nação em sua longa busca de autoafirmação",
Nasceu o Barroco, pois, num terreno de luta e
e não por acaso Affonso Romano de Sant'Anna o chamou
conquista, mas não menos de deslumbramento diante de "a alma do Brasil". Significativa parte desta herança
da paisagem magnífica, sentimento que foi declarado artística hoje é Patrimônio da Humanidade,e um grande
pelos colonizadores desde o início. Florescendo nos acervo foi tombado em nível nacional pelo IPHAN e por
longos séculos de construção de um novo e imenso instâncias estaduais e municipais.
país, e sendo uma corrente estética cuja essência e
vida está no contraste, no drama, no excesso e no
maravilhamento, talvez mesmo por isso pôde espelhar
a magnitude continental da empreitada colonizadora
deixando um conjunto de obras igualmente grandioso.
Porém, mais do que uma corrente estética, o
O Barroco no Brasil foi formado por uma
complexa teia de influências europeias e
adaptações locais, embora em geral coloridas
pela interpretação portuguesa do estilo. É preciso "Convém desde logo reconhecer que não são
lembrar que o contexto em que o Barroco se sempre as obras academicamente perfeitas [...]
desenvolveu na colônia era completamente diverso as que, de fato, maior valor plástico possuem. As
daquele que lhe dera origem na Europa. Aqui tudo obras de sabor popular, desfigurando a seu
ainda estava "por fazer". Por isso o Barroco modo as relações modulares do padrões
brasileiro, apesar de todo ouro nas igrejas eruditos, criam, muitas vezes, relações plásticas
novas e imprevistas, cheias de espontaneidade e
nacionais, já foi acusado de pobreza e
de espírito de invenção, o que eventualmente as
ingenuidade quando comparado com o Barroco coloca em plano artisticamente superior ao das
europeu, de caráter erudito, cortesão, sofisticado, obras muito bem comportadas, dentro das regras
muito mais rico e sobretudo branco, pois grande do estilo e do bom gosto, mas vazias de seiva
parte da produção local tem de fato uma técnica criadora e de sentido real".
rudimentar, criada por artesãos com pouco estudo,
incluindo escravos, mulatos forros e até índios. Mas
Lúcio Costa
essa feição mestiça, ingênua e inculta é um dos
elementos que lhe empresta originalidade e
tipicidade.
Além disso, a comunicação entre os primeiros
centros de povoação no litoral não era fácil,
muitas vezes era mais prático recorrer diretamente
a Lisboa para tudo. Natural que até o século XVII
os ensaios artísticos brasileiros se realizassem
muitas vezes em condições precárias onde
imperava o improviso e o amadorismo, e muito Anônimo: Êxtase de Santa
sem o conhecimento do que se passava em outros Teresa, Igreja do Convento do
Carmo, São Cristóvão. A
lugares da colônia, dando origem a interpretações espontaneidade naïf ou
idiossincráticas do estilo. ingênua é uma característica de
grande parte do barroco
brasileiro

No início do século XVIII, já existindo uma melhor


comunicação interna e melhores condições de
trabalho, começavam a circular nos ateliês do
país diversos tratados teóricos e manuais
práticos europeus sobre arte, e os artistas locais
buscavam avidamente reproduções em gravura de
obras europeias, antigas e coevas, que lhes
apresentavam uma iconografia muito heterogênea Êxtase de Santa Teresa
usada como modelo formal e adaptada em larga Bernini
escala nas criações nacionais.
A partir de 1760 observou-se a
penetração da influência francesa, originando
uma outra derivação, mais elegante, variada e
leve, o chamado Rococó, que floresceu mais
expressiva nas igrejas de Minas Gerais. Neste Um índio anônimo no século XVII
produziu este Cristo açoitado, hoje no
cadinho de influências diversificadas encontram-se Museu de Arte Sacra de Pernambuco,
até elementos de estilos já obsoletos como o gótico onde se percebe uma pletora de
influências estilísticas exóticas
e o renascentista. É do resultado de todos estes
entrecruzamentos que nasceu o original,
eclético e por vezes contraditório Barroco que
hoje se vê espalhado em praticamente todo o
litoral do país e em grande parte de seu interior.
A região Amazônica foi a menos afetada, pois foi a
última a ser povoada. O sul do Brasil, conquistado
basicamente a partir de meados do século XVIII,
também é relativamente pobre em herança barroca.
No fim do século XVIII o Barroco já estava
perfeitamente aclimatado ao contexto nacional,
tendo produzido inumeráveis frutos de alto valor.
Foi quando apareceram em Minas Gerais — um
dos principais polos culturais e econômicos do
Brasil naquela época — as duas figuras célebres
que o levaram a uma culminação e que também
iluminaram o seu fim como corrente estética
dominante: Aleijadinho na arquitetura e na
escultura, e na pintura, Mestre Ataíde. Eles
epitomizam uma arte que havia conseguido
amadurecer e se adaptar ao ambiente de um país
tropical e dependente da Metrópole, ligando-se aos
recursos e valores regionais e constituindo um dos
primeiros grandes momentos de originalidade
nativa, de brasilidade genuína.Porém, o chamado
"Barroco Mineiro" mais típico e que eles
representam tão bem, para muitos estudiosos já
não é mais propriamente Barroco e sim Rococó, o
que reflete as polêmicas ainda existentes a respeito
da identificação do Rococó como um estilo
independente. A tendência recente é de dar
autonomia ao Rococó.
O BARROCO MINEIRO Santos em relevo se espalham pelas capelas
da nave central, e o teto, representando
geralmente um céu em perspectiva, que
A grande produção artística barroca no aumenta a sensação de profundidade no
Brasil ocorreu nas cidade auríferas de Minas ambiente.
Gerais, no chamado século do ouro (século
XVIII). Estas cidades eram ricas e possuíam A vida cultural nas Minas Gerais
um intensa vida cultura e artística em pleno desenvolveu-se principalmente em torno das
desenvolvimento. As principais Igrejas e confrarias. Por essa razão, a
manifestações dessa arte foram as arquitetura, a escultura sacra e a música se
construções religiosas levantadas em desenvolveram na região e deixaram
Salvador e Recife. Mas, o auge do barroco, importantes registros do barroco brasileiro.
manifestou-se nas cidades mineiras do Ciclo
do Ouro, como Ouro Preto e Mariana. Na pintura, destacou-se Manuel da Costa
Ataíde. Ataíde criou seu próprio estilo,
A riqueza resultante da exploração do ouro na utilizando-se de cores vivas, tropicais. Pintou
região de Minas Gerais estimulou, em Ouro em suas obras figuras cordiais, mas um tanto
Preto, o surgimento do maior conjunto de irreverentes. Sua obra de maior destaque está
arquitetura barroca do mundo e justificou o no teto da nave da Igreja de São Francisco de
tombamento da cidade como patrimônio Assis, em Ouro Preto. Obra realizada entre
nacional, em 1933, e em patrimônio mundial, 1800 e 1809.
em 1980. A arte barroca evoca a religião em
cada detalhe: altares, geralmente em madeira, Na escultura, as obras eram feitas geralmente
expõe ricos ornamentos espirais ou florais e é em madeira ou pedra-sabão, estavam ligadas
todo entalhado com figuras de anjos e à religiosidade. Destaque para Aleijadinho, um
imagens revestidas de uma fina película de dos principais representantes do barroco
ouro. brasileiro. Escultor e arquiteto, Antônio
Francisco Lisboa, chamado de Aleijadinho .
Barroco
Mineiro
Na arquitetura, temos importantes Surgiram além das igrejas, edifícios públicos e
construções no estilo barroco, como a Igreja inúmeras moradias. As inovações artísticas
do Carmo, em São João Del Rei e a Igreja de pareciam acompanhar a vida econômica e
São Francisco de Assis, em Ouro Preto. A financeira de uma região ilusoriamente
arquitetura não-religiosa também foi próspera.
importante nessa época, um exemplo é a
cidade de Tiradentes.

Na pintura, destacou-se Manuel da Costa


Ataíde. Ataíde criou seu próprio estilo,
utilizando-se de cores vivas, tropicais. Pintou
em suas obras figuras cordiais, mas um tanto
irreverentes. Sua obra de maior destaque está
no teto da nave da Igreja de São Francisco de
Assis, em Ouro Preto. Obra realizada entre
1800 e 1809.

As primeiras capelas, erguidas nos arraiais


auríferos, seguiu-se a edificação de templos
com magníficos altares, tetos pintados e
imagens adornadas com ouro e pedras
preciosas
O Papel da
Igreja Católica
Detalhe da capela-mor da Igreja da
Ordem Terceira de São Francisco da
Penitência, cidade do Rio.
Na Europa, a Igreja Católica foi, ao lado das cortes, As instituições leigas começaram a ter um peso
a maior mecenas de arte neste período. Na imensa maior por volta do século XVIII, com a multiplicação
colônia do Brasil não havia corte, a administração de demandas e instâncias administrativas na
local era confusa e morosa, e assim um vasto colônia que se desenvolvia, mas não chegaram a
espaço social permanecia vago para a ação da constituir um grande mercado para os artistas, não
Igreja e seus empreendedores missionários, houve tempo. A administração civil só ganhou força
destacando-se entre eles os jesuítas, que com a chegada da corte portuguesa em 1808, que
administravam além dos ofícios divinos uma transformou o perfil institucional do território.
série de serviços civis como os registros de
nascimento e óbito, estavam na vanguarda da Basta uma entrada num dos templos principais do
conquista do interior do território servindo como Barroco brasileiro para os olhos de pronto se
pacificadores dos povos indígenas e fundadores de perderem numa explosão de formas e cores, onde
novas povoações, organizavam boa parte do as imagens dos santos são emolduradas por
espaço urbano no litoral e dominavam o ensino e a resplendores, cariátides, anjos, guirlandas, colunas
assistência social mantendo colégios e orfanatos, e entalhes em volume tal que em alguns casos não
hospitais e asilos. deixam um palmo quadrado de espaço à vista sem
intervenção decorativa, com ouro a cobrir paredes e
No Brasil, então, quase toda arte barroca é arte altares.
religiosa. A profusão de igrejas e a escassez de
palácios o prova. Lembre-se ainda que o templo
católico não era apenas um lugar de culto, mas era
o mais importante espaço de confraternização do
povo, um centro de transmissão de valores sociais
básicos e amiúde o único local relativamente
seguro na muitas vezes turbulenta e violenta vida
da colônia.
Apesar da denúncia protestante do excessivo luxo dos
templos católicos, e da recomendação de austeridade pelo
Concílio de Trento, o Catolicismo prático ignorou as
restrições. De fato, o próprio Concílio, convocado
essencialmente para planejar o combate ao avanço
protestante, orquestrou, principalmente através dos jesuítas,
uma agressiva campanha proselitista através da arte,
tornando-a mais atraente para o gosto popular satisfazendo
suas necessidades de compreensibilidade, tocando em suas
paixões, esperanças e temores mais básicos, adicionando um
caráter doutrinal sistemático, e introduzindo também novos
temas, novos modos representativos e um estilo todo novo.
Esses fatores criaram um projeto cultural que além de ter
requintes pedagógicos foi nas várias artes um divisor de
águas e promoveu o surgimento de uma cornucópia de
obras-primas, prevendo uma verdadeira imersão do público
em ambientes em que receberia um bombardeio maciço
de estímulos sensoriais, intelectuais e emocionais
variados, entre os quais estavam as narrativas sacras
pintadas nas telas, a música grandiosa e pungente, o
bruxulear das velas arrancando reflexos místicos do ouro
nas ricas talhas, as piedosas encenações de mistérios, as
estátuas "milagrosas" a prometer venturas aos crentes e
A arte barroca como "contadora de a intimidar os pecadores, o cheiro do incenso a criar
histórias" e doutrinadora: Jesus sugestiva atmosfera, as ladainhas em coro, as procissões
institui a Eucaristia, de José Teófilo festivas com foguetórios e as cerimônias suntuosas, os
de Jesus
sermões retóricos, tudo em sintonia, entendendo que a
arte "pode seduzir a alma, perturbá-la e encantá-la nas
profundezas não percebidas pela razão; que isso se faça em
benefício da fé"'.
Tal programa, fundamentado em um discurso de
forte sentido cenográfico e declamatório,
expressando-se cheio de alegorias e prolixas
descrições, e apelando para afetos intensos, se
traduziu plasticamente na extrema complexidade,
nos fortes contrastes e no dinamismo das formas
artísticas barrocas em todos os países onde o estilo
prosperou, pois era a expressão visível do
intrincado, paradoxal e dramático espírito da época.

No Brasil colônia a ameaça protestante não existia,


mas seu povo incluía uma maioria de pagãos — os
negros e índios — e por isso o modelo continuava
válido: precisava ser uma arte sedutora e
didática, para que os pagãos fossem atraídos e
convertidos, e os brancos parvos e infantes,
bem ilustrados; seria para todos um meio de
educação, impondo-lhes crenças, tradições e
modelos de virtude e conduta. Ao mesmo tempo,
fortaleceria a fé dos que já a tinham, estimulando
seu aperfeiçoamento.

Detalhe de um Cristo flagelado, estátua de roca em


tamanho natural, com cabelos reais e membros
articulados, na Matriz de Sabará
Além da beleza das formas e da riqueza dos "Nunca vi tantas lágrimas em Paixão como vi nesta,
materiais, durante o Barroco o Catolicismo se valeu porque desde o princípio até o cabo, foi uma contínua
enfaticamente do aspecto emocional do culto. O grita e não havia quem pudesse ouvir o que o padre
amor, a devoção e a compaixão eram dizia. E isso assim em homens como em mulheres, e
visualmente estimulados pela representação (referindo-se às autoflagelações) saíram umas cinco ou
dos momentos mais dramáticos da história seis pessoas quase mortas, as quais por muito espaço
sagrada, e assim abundam os Cristos não tornaram a si.... E houve pessoas que diziam
desejarem de se irem meter em parte onde não vissem
açoitados, as Virgens com o coração
gente e fazerem toda sua vida penitência de seus
trespassado de facas, os crucifixos
pecados"
sanguinolentos, e as imagens de roca,
verdadeiros marionetes articulados, com cabelos,
dentes e roupas reais, que se levavam em
procissões solenes e feéricas onde não faltavam as
lágrimas e as mortificações físicas e os pecados
eram confessados em alta voz.

As festividades religiosas constituíam, na


verdade, mais do que uma forma de expressão
piedosa, eram também os mais importantes
momentos de socialização coletiva na vida
colonial, frequentemente se estendendo para
dentro do ambiente privado. A intensidade desses
eventos ficou registrada em muitos relatos de
época, como o do padre Antônio Gonçalves, que
participou de uma procissão da Semana Santa em
Porto Seguro:
SANTOS DE ROCA
Arquitetura
Barroca
Os primeiros edifícios sacros de algum vulto do
Brasil foram erguidos a partir da segunda metade
do século XVI, quando algumas vilas já dispunham
de população que o justificasse. Foram os casos de
Olinda e Salvador. As mais simples empregaram a
técnica do pau-a-pique, sendo cobertas com
folhas de palmeira, mas desde logo os missionários
se preocuparam com a durabilidade e solidez dos Pau a pique
edifícios, preferindo sempre que possível edificar
em alvenaria, embora muitas vezes, por
circunstâncias várias, fossem obrigados a usar a
taipa ou o adobe.

As plantas buscavam antes de tudo a


funcionalidade, compondo basicamente um
quadrilátero sem divisão em naves e sem capelas
laterais, com uma fachada elementar que
implantava um frontão triangular sobre uma base
retangular, e pode-se dizer que não havia, nesse
período inaugural, maior preocupação com
ornamentos.
Considerada a primeira a exibir traços claramente
barrocos. Seu projetista, o frei Daniel de São
Francisco, criou a fachada num esquema de
triângulo escalonado, com volutas fantasiosas no Igreja de Santo Antônio de Cairu
frontão e nas laterais; foi uma completa novidade,
sem paralelos mesmo na Europa.
Durante a dominação holandesa no
nordeste muitas das edificações católicas
foram destruídas, e na segunda metade
do século XVII, após a expulsão dos
VOLUTAS invasores, o esforço principal se
concentrou na restauração e reforma das
CAMPANÁRIO - TORRE estruturas pré-existentes, com
DO SINO relativamente poucas fundações novas.

ALPENDRE
GALILÉ
, Recife
Com o tempo, as fachadas
adquiriam mais verticalidade e
movimento, com aberturas em
formas inusitadas - para,
losango, estrela, oval ou círculo
- e os frontões, mais curvas,
relevos em pedra e estatuária.
Exemplos são a Matriz de Santo
Antônio e a Concatedral de São
Pedro dos Clérigos, no Recife, e
em Salvador a Igreja de Nossa
Senhora do Rosário dos Pretos.

Igreja Matriz do Santíssimo Sacramento de


Santo Antônio

Concatedral São Pedro dos Clérigos

Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos


A partir de meados do século XVIII, sob influência
do Rococó francês, se percebe no exterior dos
edifícios um aligeiramento nas proporções,
tornando-os mais elegantes; as aberturas são mais
amplas, permitindo uma maior penetração da luz
externa, e o detalhamento nos relevos em pedra
chega a um alto nível.
O Rococó também deu importantes frutos no
nordeste, como o Convento e Igreja de São
Francisco em João Pessoa, considerado por Bazin
a mais perfeita em seu gênero naquela região. Mas
é de assinalar que, se por um lado as
ornamentações de fachada e interior se tornaram
cada vez mais suntuosas e movimentadas, as
plantas dos edifícios, ao longo de toda a trajetória
do Barroco no país, pouco se afastaram do que
determinava o estilo chão.

Convento e Igreja de São Francisco em João Pessoa


Deve-se ainda lembrar em todas as fases a
contribuição popular em muitos projetos de
comunidades mais pobres, em matrizes e
pequenas capelas que pontilham os sertões
brasileiros, contribuindo para a diversidade e
simplificando proporções, ornamentos, técnicas e
materiais muitas vezes em soluções criativas, de
grande plasticidade]Paralelamente à construção de
igrejas, os religiosos construíram muitos conventos,
mosteiros, colégios e hospitais, alguns deles de
avantajadas dimensões e que, nos dois primeiros
casos, podiam ser decorados com um luxo
comparável ao encontrado nas mais ricas igrejas.
Quanto aos outros, primam pela simplicidade e
Igreja de São Francisco, Salvador, Bahia
funcionalidade, despojados de ornamentos.

Igreja de Nossa Senhora dos Prazeres dos Montes


Guararapes, Jaboatão dos Guararapes, Pernambuco
Igreja de Nossa Senhora do Carmo, e ao lado
a Igreja dos Terceiros, João Pessoa, Paraíba Igreja da Candelária, cidade do Rio
de Janeiro.
Igreja de Santa Rita de Cássia, em Matriz de Viamão, Rio Grande do
Paraty, Rio de Janeiro Sul.
Matriz de Santana, Mato Grosso.

Igreja do Rosário, Serra Talhada,


Pernambuco.
Igreja de Nosso Senhor do Bonfim, Foto de 1855 Os sobrados coloniais da
Silvânia, Goiás. antiga Rua dos Judeus no Centro
Histórico do Recife
Na arquitetura civil, privada ou A residência, durante o período Barroco,
pública, o Barroco deixou relativamente caracterizou-se pela grande
poucos edifícios de maior vulto, sendo heterogeneidade de soluções estruturais
em linhas gerais bastante modestos. Por e no uso dos materiais, muitas vezes
outro lado, os conjuntos dos centros empregando técnicas aprendidas com os
históricos de algumas cidades índios, uma diversidade que se encontra
(Salvador, Ouro Preto, Olinda, entre ricos e pobres. Entretanto, no
Diamantina, São Luís e Goiás), ambiente urbano a fórmula que se tornou
declarados Patrimônio da Humanidade mais frequente, herdada da arquitetura
pela Unesco, ainda permanecem em boa portuguesa, foi de uma estrutura térrea,
parte intactos, apresentando uma com fachada abrindo direto para a rua e
paisagem ininterrupta extensa e pegada à das casas vizinhas, e com
valiosíssima de arquitetura civil do cômodos enfileirados, muitas vezes mal
barroco, com soluções urbanísticas ventilados, mal iluminados e de uso
muitas vezes originais e com farta múltiplo. Nessa estrutura simples, não
ilustração de todas as adaptações do raro ampliada em sobrados de dois ou
estilo aos diferentes estratos sociais e às até quatro andares, os traços distintivos
suas transformações ao longo dos anos. do Barroco podem ser mais facilmente
Muitas outras cidades também identificados em alguns detalhes, como
preservam agrupamentos significativos os telhados curvos com beirais
de casario colonial, como Paraty,] terminados em pontas arrebitadas,
Penedo, Marechal Deodoro, Cananéia e Rio
Pardo.]
Um sobrado é um tipo de edificação
constituída por dois ou mais andares e
com relativamente grande área
construída. Na época do Brasil colônia os
sobrados eram as residências dos
senhores nas cidades e marcaram o início
de uma tímida urbanização do Brasil. No
período anterior, o antagonismo existia
entre a casa-grande e a senzala, enquanto
aos sobrados se opunham os mucambos,
que eram residências das camadas mais
pobres da sociedade. A expressão surgiu
de forma natural a partir dos sobrados
construídos nas cidades mineiras Sobrados azulejados em São Luís
(especialmente durante o Ciclo do Ouro),
normalmente caracterizadas por uma
topografia tipicamente chamada de "mar
de morros": as construções eram No litoral nordestino são notáveis os
realizadas a partir do nível mais alto da sobrados azulejados, pelo seu rico efeito
rua, de forma que "sobrava" um espaço decorativo e pelas soluções criativas que
sob o piso principal da edificação. Com o encontraram para amenizar os efeitos do
tempo, este nível inferior passou a ser clima úmido e quente da região, havendo
considerado o piso térreo, vindo a uma grande concentração de exemplares no
caracterizar os "sobrados". Centro Histórico de São Luís.
O despojamento da arquitetura civil poderia causar
surpresa no caso dos casarões da elite, dada a
grande riqueza de muitas famílias radicadas na
terra, mas explica-se pelo fato de que o contexto da
vida colonial foi marcado pela dispersão, pela
instabilidade e mobilidade, com famílias fracamente
estruturadas, o que se refletiu no caráter provisório,
simplificado e improvisado de tantas edificações,
evitando-se gastos com o que seria, a princípio,
usado por pouco tempo. Na verdade, quanto menos
se gastasse na colônia, melhor, pois nos primeiros
séculos da colonização boa parte dos portugueses
se mudava para aqueles longínquos e ermos Brasis
imaginando ficar só por temporada, ansiando voltar
para Portugal tão pronto fizesse fortuna, deixando
para trás uma terra admitidamente bela e rica, mas
inóspita e selvagem, considerada de clima
insalubre, onde a sobrevivência exigia árduo
esforço e estava sempre em perigo — a vida na
Típico casario colonial em Paraty - RJ colônia era vista pela maioria dos portugueses
como um acabrunhante desterro.
Do reduzido número de exemplos significativos na
categoria dos palácios públicos se destacam
algumas antigas Casas de Câmara e Cadeia, como
a de Ouro Preto, talvez a mais célebre, com uma
rica e movimentada fachada onde há um pórtico
com colunas, escadaria monumental, torre e
estatuária; a de Mariana, e a de Salvador,] além dos
palácios de uso misto como residência oficial e
casa de despachos, como o Palácio dos
Governadores em Ouro Preto, o Palácio dos
Governadores do Pará e o Palácio dos
Vice-Reisno Rio, que foi uma das residências da
família reinante quando ela se transferiu para a
colônia em 1808. Outros sobrevivem, mas tiveram
A antiga Casa da Câmara e Cadeia suas características barrocas muito desfiguradas
por reformas posteriores, como ocorreu com os
de Ouro Preto, hoje o Museu da paços dos Governadores do Maranhão e da Bahia.
Inconfidência Embora pertencente à Igreja, deve ser incluso
nesta categoria o importante Palácio Arquiepiscopal
de Salvador.
O Paço Imperial, no Rio, antigo Paço Casa da Câmara e Cadeia de Goiás
dos Vice-Reis Velho
Casarões no Centro Histórico de O Palácio Arquiepiscopal de
Salvador, Bahia Salvador
Sede da Fazenda Engenho d'Água, Sede da Fazenda do Engenho
São Francisco do Conde, Bahia d'Água, em Jacarepaguá, Rio de
Janeiro
O grande colégio dos jesuítas em
O Casarão do Porto, Ubatuba
Belém, que hoje abriga o Museu de
Arte Sacra do Pará, tendo ao lado a
igreja
Sede da Fazenda Santa Clara, em
Santa Rita de Jacutinga, Minas Gerais

Casa de José Gomes de


Vasconcellos Jardim, Guaíba
Minas teve a peculiaridade de ser uma área de Várias das antigas cidades coloniais mineiras ainda
povoamento mais recente, e pôde-se construir em
estéticas mais atualizadas, no caso, o Rococó, e guardam rica arquitetura da época. Os centros
com mais liberdade, uma profusão de igrejas históricos de Ouro Preto e Diamantina são
novas, sem ter de adaptar ou reformar Patrimônio da Humanidade; muitas outras também
edificações mais antigas já estabelecidas e preservaram ricas igrejas e casarios.
ainda em uso, como era o caso no litoral, o que
as torna exemplares no que diz respeito à No início do século XVII as igrejas ainda derivaram
unidade estilística. O conjunto das igrejas de suas plantas da arquitetura chã, com desenho
Minas tem uma importância especial tanto por sua retangular, fachada austera e frontão triangular,
riqueza e variedade como por ser testemunho de modelo exemplificado na Catedral de Mariana (vide
uma fase bem específica na história brasileira, imagem no slide a seguir). Pedro Gomes Chaves
quando a região foi a "menina dos olhos" da
introduziu em 1733 inovações importantes na
Metrópole por suas grandes jazidas de ouro e
diamantes. Matriz do Pilar em Ouro Preto, com uma fachada
em planos disjuntos e uma planta retangular, mas
A arquitetura mineira é interessante por se realizar cuja talha redefinia o espaço interno na forma de
geralmente em um terreno acidentado, cheio de
um decágono.
morros e vales, dando uma forma atraente à
urbanização das cidades. Mas não é isso o que
torna Minas especial, já que a construção civil
segue modelos formais comuns a toda arquitetura
colonial brasileira. Entretanto, o caso mineiro tem
o atrativo de constituir o primeiro núcleo no
Brasil de uma sociedade eminentemente
urbana.
Catedral de Mariana Matriz de Nossa Senhora do Pilar,
Ouro Preto - Pedro Gomes Chaves
Santuário do Bom Jesus de
Matosinhos, Congonhas

Da década de 1750 é a fachada do Santuário de Bom


Jesus de Matosinhos. Seu frontispício lavrado em
pedra-sabão é tido como o primeiro exemplo brasileiro
dessa solução decorativa, obra possivelmente de
Jerônimo Félix Teixeira. Hoje um Patrimônio da
Humanidade, o santuário se distingue principalmente
pela sua implantação cenográfica e monumental,
abrigando ainda o maior e mais importante grupo de
esculturas de Aleijadinho.
Na segunda metade do século foi construída a
Igreja do Carmo de Ouro Preto, com uma
composição de fachada inovadora: o plano frontal
cedeu lugar a uma parede ondulada, com torres
de paredes curvas e óculo trilobado. Traçada por
Manuel Francisco Lisboa, o pai de Aleijadinho,
seu plano foi alterado em 1770 por Francisco de
Lima Cerqueira. Aleijadinho esculpiu a portada.
Aleijadinho, junto com Cerqueira, se tornariam os
arquitetos mais importantes do Barroco brasileiro,
e suas obras sintetizam a maioria das novidades
que distinguem o Barroco/Rococó de Minas
Gerais. Aliás, a contribuição de Cerqueira,
longamente obscurecida pela grande fama do
Igreja de Nossa Senhora do Carmo de Ouro Preto Aleijadinho, tem sido recentemente reavaliada,
concedendo-se a ele uma importância
possivelmente maior que a do outro no campo da
arquitetura.
Igreja do Rosário dos Pretos, Ouro Preto
A mais arrojada e sem precedentes diretos tanto
na arquitetura brasileira como na portuguesa é a
Igreja do Rosário dos Pretos em Ouro Preto,
Igreja São Francisco de Assis em atribuída a Antônio Pereira de Sousa Calheiros,
Ouro Preto com planta composta de três elipses
encadeadas, fachada em meio-cilindro com uma
galilé de três arcos, e torres cilíndricas. Segundo
o IPHAN, "a Igreja de Nossa Senhora do Rosário
é considerada pelos especialistas como a
expressão máxima do Barroco colonial mineiro".
Pintura
Barroca
Como ocorreu em todas as artes, a Igreja
Católica foi a maior patrona da pintura
colonial. Para a Igreja, a pintura tinha como
função básica auxiliar na catequese e
confirmar a fé dos devotos. A necessidade de
ser facilmente compreensível pelo povo inculto
significou que o desenho predominasse sobre
a cor. O desenho, na conceituação da época,
pertencia à esfera da razão e definia a ideia a
ser transmitida, e a cor fornecia a ênfase
emocional necessária à melhor eficiência
funcional do desenho. Desta forma, toda a
pintura barroca é figurativa, retórica e
moralizante. Cada cena trazia uma série de
elementos simbólicos que constituíam uma
linguagem visual, sendo usados como
palavras na construção de uma frase. O
significado de tais elementos era, na época,
de domínio público. As imagens dos santos
mostravam seus atributos típicos, como os
instrumentos do seu suplício, ou objetos que
estiveram ligados à sua carreira ou
ilustrassem suas virtudes. Por exemplo, São O hábito de inserir a pintura na talha é bem
exemplificado no teto da Igreja de São
Francisco podia aparecer rodeado de objetos Francisco, em Salvador
associados à penitência e à transitoriedade da
vida: o crânio, a ampulheta, o rosário, o livro, o
açoite e o cilício.
Desde o início foram comuns os ex-votos, e no século O século XVIII viu a pintura florir em quase todas as
XVIII se tornariam ainda mais disseminados. Eram em regiões do país, formando os germes de escolas regionais
regra de fatura rústica, encomendados pelos devotos a e sobrevivendo maior número de identidades individuais
artesãos populares, ou realizados pelo povo mesmo, em conhecidas. A esta altura já circulava uma vasta
paga por alguma graça recebida ou em penhor de alguma quantidade de gravuras europeias, que reproduziam obras
promessa. Os ex-votos tiveram um papel importante no de mestres célebres ou ofereciam outros modelos
primeiro desenvolvimento da pintura colonial por iconográficos. Essas gravuras foram a principal fonte de
constituírem uma prática frequente, o que se explica pelo inspiração para os pintores coloniais brasileiros, vários
cenário ainda selvagem onde as povoações se estudos já documentaram sua apropriação massiva de tais
organizavam, onde não faltavam perigos de várias ordens, modelos, adaptando-os às necessidades e possibilidades
contra os quais a invocação dos poderes celestes para a de cada local. Serviam-lhes mesmo de escola, uma vez
ajuda e proteção era uma constante. que não havia academias formais de arte e poucos eram
os artistas bem preparados.

Destes, quase só os missionários educados na Europa, os


primeiros professores de pintura do Brasil. Contudo, como
esse acervo iconográfico importado tinha um perfil muito
heterogêneo, composto de imagens de diferentes épocas e
estilos, decorre que a pintura barroca brasileira tem um
caráter igualmente dinâmico e multifacetado, não sendo
possível estudá-la sob um prisma de unidade e coerência
formal.

Anônimo: Ex-voto de invocação a São


Benedito, século XVIII. Museu da
Inconfidência, Ouro Preto
Teto da Igreja de Nossa Senhora da
Conceição da Praia - Salvador - Bahia,
obra-prima de José Joaquim da Rocha
Frei Ricardo do Pilar: Detalhe
do Senhor dos Martírios,
Mosteiro de São Bento, RJ

Mestre Ataíde: Detalhe da Ascensão de


Cristo, teto da Matriz de Santo Antônio em Anônimo: Jesus leva a
Santa Bárbara, uma composição central de
feições barrocas inserida em uma moldura
cruz às costas, século
nitidamente rococó, evidenciado as XVIII,
superposições estilísticas que caracterizaram Museu Histórico Nacional
tanto o Barroco brasileiro quando a obra deste
mestre
Nossa Senhora do Rosário, teto da capela-mor da Igreja do
Glorificação dos Santos Franciscanos, teto da Igreja de Santo Antônio, século
Rosário dos Pretos, século XVIII, Tiradentes
XVIII, João Pessoa
José Teófilo de Jesus: O Rapto de Helena,
século XVIII, Museu de Arte da Bahia, raro
João Nepomuceno exemplo de tema profano
Correia e Castro:
Imaculada
Conceição, Museu
da Inconfidência
José Leandro de Carvalho: Retrato de D. Maria I, um José Leandro de Carvalho: Retrato de D. Maria I, um
dos raros retratos oficiais no Brasil, Museu Histórico dos raros retratos oficiais no Brasil, Museu Histórico
Nacional Nacional
Esta seção não pode encerrar sem menção ao belo acervo
remanescente de azulejaria pintada, em geral importado de
Portugal, onde a técnica tinha grande aceitação, e que deu
uma nota característica a inúmeros conventos, igrejas e
casarios barrocos brasileiros. A partir do século XVII o
costume se enraizou no Brasil, com painéis decorados
principalmente com motivos vegetais e geométricos,
semelhantes aos adotados nos tapetes, com rica
policromia. Com a aproximação do fim do século, as cores
vão gradualmente perdendo espaço, e no século XVIII se
generalizou o painel pintado somente de azul, com peças
de menores dimensões mas com uma rica moldura
ornamental. Isso derivou da porcelana chinesa apreciada
pelos portugueses, também majoritariamente
monocrômica, e de inovações na técnica do cozimento, o
que também possibilitou a produção de azulejos em escala
industrial. Nesta fase os painéis se tornam narrativos, com
composições figurativas complexas e uma temática
diversificada, muitas vezes com cenas profanas, históricas,
paisagens e alegorias. Essa iconografia foi em geral
retirada de estampas e gravuras. No fim do século
Azulejos no Convento de São Francisco, Olinda XVIIIvoltam as cores, estabilizando-se em uma paleta de
quatro tons. Até meados do século XVIII os azulejos foram
criados por artesãos anônimos, mas depois começam a
surgir alguns nomes, na chamada "fase dos grandes
mestres", entre eles Bartolomeu Antunes, Valentim de
Almeida e sobretudo António de Oliveira Bernardes,
considerado o maior azulejista do Barroco português.
Estatuária
Barroca
O Barroco originou uma vasta produção de Os índios também deram sua colaboração
estatuária sacra. Parte integral da prática como santeiros, especialmente nas reduções
religiosa, a estatuária devocional encontrava do sul e em algumas do nordeste, e nesses
espaço tanto no templo como no domicílio casos muitas vezes traços étnicos índios são
privado. Cabral já trouxera uma estátua de encontrados no rosto das imagens, como se
Nossa Senhora dos Navegantes consigo, e as verifica em algumas esculturas dos Sete
primeiras peças deixadas do país foram de Povos das Missões.
importação portuguesa, vindas com os
missionários. Ao longo de todo o Barroco a Já os jesuítas deram preferência à madeira,
importação de obras continuou, e muitas das que a partir de fins do século XVII viria a
que ainda existem em igrejas e coleções predominar, determinando também
museais são de procedência européia. Mas modificações na conformação das peças. A
desde o século XVI começaram a se formar técnica da época exigia que as peças de barro
escolas locais de escultura, compostas fossem modeladas compactamente, com um
principalmente por religiosos franciscanos e relevo baixo e sem partes projetadas, que
beneditinos, mas com alguns artesãos laicos, poderiam facilmente romper durante o
que trabalhavam principalmente o barro. As cozimento. Já a madeira possibilitava a
primeiras imagens de barro cozido criadas no escultura com formas abertas, esvoaçantes e
Brasil de que se tem notícia segura são de dinâmicas, muito mais livres no espaço
autoria de João Gonçalo Fernandes, datadas tridimensional.
da década de 1560 e que por fortuna
sobreviveram ao tempo. Esta foi a técnica em A maior parte da estatuária barroca brasileira
que o indígena pôde contribuir mais acabou por ser criada em madeira policroma.
ativamente, ensinando ao branco técnicas de O barro foi usado principalmente no início,
pintura em cerâmica e conhecimentos sobre embora nunca fosse abandonado, e a pedra
pigmentos naturais como a tabatinga e o tauá foi ocorrência rara, mais reservada à
que dominava há milênios. decoração de fachadas e monumentos
públicos.
Criados no Brasil ou importados, dificilmente
haveria uma casa que não possuísse ao
menos algum santo de devoção esculpido: a
estatuária se tornou um bem de largo
consumo, quase onipresente, de longe mais
comum que a pintura, com exemplares de
grande porte, em tamanho natural ou mesmo
maior, até peças miniaturizadas para uso
prático em viagens. Salvador em especial
tornou-se um centro exportador de estatuária
para os mais distantes pontos do país, criando
uma escola regional de tanta força que não
conheceu solução continuidade senão no
século XX. Outra escola nordestina importante
foi a de Pernambuco, com produção de alta
qualidade mas ainda pouco estudada. A
maioria das obras que sobrevivem permanece
anônima; não costumavam ser assinadas e as
análises de estilo muitas vezes não são
suficientes para se determinar com precisão
sua origem, uma vez que a iconografia seguia
padrões convencionados que valiam por toda
parte e o intercâmbio de obras pelo país era Frei Agostinho de Jesus: Nossa
grande, mas alguns nomes foram preservados Senhora do Rosário, século XVII,
pela tradição oral ou através de recibos de barro.
pagamento de obras.
Com a sedimentação da cultura nacional por volta da
metade do século XVIII, e com a multiplicação de
artífices mais capazes, nota-se um crescente
refinamento nas formas e no acabamento das peças, e
aparecem imagens de grande expressividade.
Entretanto, a importação de estatuária diretamente de
Portugal continuou e mesmo cresceu com o
enriquecimento da colônia, uma vez que as classes
superiores preferiam exemplares mais bem acabados e
de mestres mais eruditos. Ao mesmo tempo se
multiplicaram as escolas regionais, com destaque para
as do Rio, São Paulo, Maranhão, Pará, e Minas, onde a
participação do negro e do mulato foi essencial e onde
se desenvolveram traços típicos regionais mais distintos,
que podiam incorporar elementos arcaizantes ou de
várias escolas em sínteses ecléticas.

Aleijadinho representa o coroamento e a derradeira


grande manifestação da escultura barroca brasileira,
com obra densa e magistral espalhada na região de
Ouro Preto, especialmente no Santuário do Bom Jesus
de Matosinhos, em Congonhas, que possui uma série
de grandes grupos escultóricos nas estações da Via
Crucis, em madeira policroma, e os célebres Doze Cristo ressurrecto, escola baiana, madeira,
Profetas, de pedra-sabão, no adro da igreja. século XVIII. Igreja de São Francisco, Salvador.
Por regra a estatuária era pintada com cores vivas A estatuária em posse privada muitas vezes era
e não raro recebia douramentos, sendo decorada entronizada em capelinhas ou oratórios, que à
com ornamentos acessórios como coroas e medida que subiam as posses de seus proprietários
resplendores em prata e ouro, que podiam ser podiam chegar a ser móveis luxuosos e muito
cravejados de pedras preciosas. Também podia ornamentados. Quando uma imagem se
receber olhos de vidro, dentes de marfim e vestidos deteriorava podia ser descartada, lançando-a ao
de tecido. As grandes estátuas de roca, mar, a um rio, enterrando-a numa igreja ou
principalmente os tipos do Senhor dos Passos e da depositando-a em algum oratório de beira de
Mater Dolorosa, que muito se levavam em estrada. Em festas solenes, ou como pagamento de
procissões, podiam ter até cabelos reais, a fim de alguma promessa, estatuária mais antiga podia ser
enfatizar seu aspecto ilusionístico, e membros reformada, talhando-se novos detalhes e realizando
articulados, para possibilitar seu uso em uma repintura. Ou podia ganhar vestidos bordados
representações teatrais sacras. com seda, ouro e pedrarias, e receber jóias como
coroas, resplendores e insígnias.
Para a pintura a imagem em material bruto recebia
uma camada de um preparo à base de argila e Um outro tipo de estatuária que se tornou muito
cola, conhecido como "bolo armênio", que popular foi o grupo do presépio, um conjunto de
preenchia os poros da madeira ou do barro e criava figuras que reconta o nascimento de Jesus e a
uma superfície lisa para o trabalho posterior. Se as visita dos Reis Magos, montado em casas e igrejas
vestes da figura fossem ter douramento, eram na época do Natal. A tradição foi inaugurada, ao
aplicadas sobre a camada do bolo armênio que parece, pelo padre José de Anchieta, que,
finíssimas folhas de ouro, que podiam ser polidas ajudado por índios, modelava pequenas figuras em
para realçar o brilho, ou não, criando um dourado barro para ensinar-lhes a doutrina cristã. Alguns
fosco. presépios brasileiros chegaram a possuir dezenas
de peças, com muitas cenas paralelas e um cenário
miniaturizado para contextualizá-las.
Nossa Senhora da
Conceição,
proveniente das
Frei Agostinho da Piedade: reduções guaranis,
Santo Amaro, século XVII, da século XVIII, Museu
antiga Matriz de Santana de Júlio de Castilhos
Parnaíba, Museu de Arte
Sacra de São Paulo
Cristo flagelado, século XVIII,
Museu de Arte Sacra de São
Paulo
Sant'Ana Mestra, século
XVIII, Museu de
Sant'Ana
Nossa Senhora da Conceição, século XVIII, Matriz de Nosso Senhor dos Passos, estátua de roca para
Sabará procissões, século XVIII, Igreja de São Francisco de
Assis, em Sabará
São Francisco recebendo
as chagas do Cristo
Seráfico, século XVIII. Santo Antônio, arte popular,
Museu de Arte Sacra de século XVIII, Museu de Arte
São Paulo Sacra de São Paulo
Paulistinha, século
XIX, Museu de Arte
Sacra de São Paulo

Em meados já do século XIX floresceu em


São Paulo uma escola de estatuária popular
em barro que conheceu enorme demanda,
produzindo os chamados "paulistinhas",
imagens muito singelas para o culto
Cristos em grandes dimensões de Dito Pituba, fim do século doméstico, mas que seguiam os moldes da
XIX, Museu de Arte Sacra de São Paulo tradição barroca. Um de seus mais
conhecidos artesãos foi Benedito Amaro de
Oliveira, o Dito Pituba.
Talha
Barroca
A talha dourada, uma modalidade de escultura Essa moldura, que tinha um caráter cenográfico e equivalia
essencialmente decorativa, deve ser abordada em em conceito e função aos arcos do triunfo da Antiguidade]
separado em vista da sua grande riqueza no Brasil e da criava um nicho, preenchido com um pedestal para a
sua extraordinária importância ao longo de todo o estátua de um santo. A base dos retábulos era uma caixa
desenvolvimento do Barroco, muitas vezes adquirindo ou mesa também decorada, que podia ser substituída por
proporções monumentais e modificando a percepção dos colunas de sustentação.
espaços arquitetônicos internos. Como os volumes
estruturais das igrejas permaneceram sempre bastante Nos tetos, se cristalizou na fórmula dos "caixotões" ou
simples e estáticos, atestando a longevidade e vigor da "cofres", um trabalho de talha com áreas poligonais
tradição da arquitetura chã, foi na decoração dos interiores, vazadas, onde se inseriam pinturas. Ilustrativas desta
nos retábulos e altares, onde a talha domina, que o etapa são a Capela Dourada no Recife, uma das primeiras
Barroco brasileiro pôde se expressar com sua força total e neste estilo, e a Igreja de São Francisco de Salvador, uma
ser mais "tipicamente Barroco": suntuoso, extravagante, das mais ricas do Brasil; sua luxuriante talha dourada
dinâmico e dramático. Foi no nordeste, primeiro em cobre inteiramente todas as superfícies internas, com
Salvador e no Recife, que deu seus primeiros frutos impactante efeito de conjunto.
importantes.
Na segunda metade do século XVIII passou a predominar
Os espaços entre esses elementos estruturais dos a influência francesa, gerando uma derivação rococó, mais
retábulos, bem como suas superfícies, foram entalhados leve e elegante, mais aberta e rarefeita, cujo maior
com profusa ornamentação policroma e folheada a ouro, florescimento ocorreu em Minas Gerais, se caracterizando
na forma de ramagens e guirlandas de flores, pelos retábulos com coroamento de grande composição
entremeadas, nos exemplos mais ricos, de anjos, brasões, escultórica e com elementos ornamentais na forma de
insígnias, pássaros, atlantes e cariátides, com grande conchas, laços, grinaldas e flores, com fundos brancos e
homogeneidade estilística. douramentos nas partes em relevo.
Detalhe da Capela Dourada no Recife, um exemplo típico
do Estilo Nacional Português
Igreja da Ordem Terceira de São Francisco da Penitência,
RJ, grande exemplo da talha joanina, obra dos portugueses
Manuel de Brito e Francisco Xavier de Brito
Detalhe do interior da Igreja de São Francisco de Salvador

Altar da antiga Matriz de Santo Amaro, com


reminiscências maneiristas, Museu de Arte Sacra de
São Paulo
Frontispício do altar-mor da Capela do Padre Faria em
Ouro Preto
Altar lateral e púlpito na Igreja Matriz de Nossa Senhora
do Pilar em Ouro Preto
Frontispício do altar-mor da Catedral Basílica de Nossa
Senhora do Pilarem São João del-Rei

Altar-mor da Igreja de São Bento em Olinda


Importante mobiliário entalhado no Convento de São Urna em madeira entalhada e dourada, século XVIII.
Francisco de Olinda
Também no nordeste o Rococó decorou ricamente
muitas igrejas, como a Matriz de Santo Antônio no
Recife, e no Rio são notáveis a Igreja dos Terceiros
do Carmo, Santa Cruz dos Militares e a de Santa
Rita, entre outras. Em grande número de casos em
todo o Brasil uma talha rococó substituiu a talha
barroca mais antiga, e ao longo dos séculos
seguintes se verificaram frequentes renovações e
reformas nas decorações internas, de modo que
uma significativa parte do aspecto primitivo das
igrejas barrocas brasileiras já foi desfigurado.

Merece nota, finalmente, a extensa produção de


outras formas de escultura ornamental, em
mobiliário entalhado e nas portadas e frontões
arquiteturais em pedra, que chegaram em muitos
casos a altos níveis de refinamento e
complexidade. Também sobrevive um rico acervo
de objetos litúrgicos de caráter escultórico
produzidos em metal, em geral a prata, tais como
tocheiros, lampadários, turíbulos, navetas,
tabernáculos, cruzes processionais e ostensórios.
Detalhe de lavabo em pedra na Igreja Matriz de Nossa
Senhora do Pilar em Ouro Preto

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