UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DO SUL
FACULDADE DE CIÊNCIAS ECONÔMICAS
PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM DESENVOLVIMENTO RURAL
MILAGRE JACINTO ARMANDO
A POLÍTICA DE GESTÃO DOS RECURSOS HÍDRICOS E O
DESENVOLVIMENTO RURAL NO POSTO ADMINISTRATIVO DE XINAVANE
(DISTRITO DE MANHIÇA- MOÇAMBIQUE)
PORTO ALEGRE
2021
MILAGRE JACINTO ARMANDO
A POLÍTICA DE GESTÃO DOS RECURSOS HÍDRICOS E O
DESENVOLVIMENTO RURAL NO POSTO ADMINISTRATIVO DE XINAVANE
(DISTRITO DE MANHIÇA - MOÇAMBIQUE)
Tese submetida ao Programa de Pós-Graduação em
Desenvolvimento Rural da Faculdade de Ciências
Econômicas da UFRGS, como requisito parcial
para obtenção do título de Doutor em
Desenvolvimento Rural.
Linha de pesquisa: Políticas Públicas, Ação
Coletiva e Governança
Orientadora: Profª. Drª. Daniela Dias Kühn
PORTO ALEGRE
2021
MILAGRE JACINTO ARMANDO
A POLÍTICA DE GESTÃO DOS RECURSOS HÍDRICOS E O
DESENVOLVIMENTO RURAL NO POSTO ADMINISTRATIVO DE XINAVANE
(DISTRITO DE MANHIÇA- MOÇAMBIQUE)
Tese submetido ao Programa de Pós-
Graduação em Desenvolvimento Rural da
Faculdade de Ciências Econômicas da
UFRGS, como requisito parcial para
obtenção do título de Doutor em
Desenvolvimento Rural.
Porto Alegre, _____ de ________________de 2021.
BANCA AVALIADORA:
_____________________________________________
Profª. Drª. Daniela Dias Kühn – orientadora
Universidade Federal do Rio Grande do Sul – UFRGS, Brasil
_____________________________________________
Profª. Drª. Alessandra Matte
Universidade Federal do Rio Grande do Sul – UFRGS, Brasil
________________________________________________
Prof. Dr. Silvio Cezar Arend
Universidade Santa Cruz do Sul (UNISC)
________________________________________________
Profª. Drª. Cátia Grisa
Universidade Federal do Rio Grande do Sul – UFRGS, Brasil
_________________________________________________
Prof. Dr. Lovois de Andrade Miguel
Universidade Federal do Rio Grande do Sul – UFRGS, Brasil
Dedico esta pesquisa
A Júlia, Angélica, Elcina, Jumila e Nilsa.
A razão da minha formação.
AGRADECIMENTOS
Desde já agradeço a Deus, dador da vida, saúde e proteção.
Existe um receio de ser esquecido alguém e por isso agradeço a todos. Não deixo de
destacar aos que tornaram possível a materialização da presente tese. A elaboração da
presente tese foi repleta não só de momentos felizes, mas também de dificuldades e ao mesmo
tempo de superação. Ambos momentos foram de aprendizagem e conduziram a este
resultado.
De forma especial e profunda, os meus agradecimentos à minha orientadora Profª.
Drª. Daniela Dias Kühn que de forma sábia, profissional e humana, aceitou a orientação e
conduziu a concretização deste resultado. Em seguida, agradeço aos professores e
profissionais do Programa de Pós- Graduação em Desenvolvimento Rural e do Programa de
Pós- Graduação em Geografia e aos demais profissionais e acadêmicos da Universidade
Federal do Rio Grande do Sul e da Universidade Santa Cruz do Sul (UNISC) pela sua rica
contribuição na aquisição de conhecimento, aprendizagem, experiências únicas, amizades,
humilidade, etc. Bem hajam! A todos que contribuiram para a minha estadia e permanência
no Brasil durante o curso de doutorado, muito obrigado pelo bom acolhemento (pessoal da
saúde, alojamento , alimentação, companherismo, visitas às comunidades, em particular, as
Quilombolas, etc.).
Os meus agradecimentos são extensivos ao meu grupo de pesquisa GEPIES que
muito contribuiu para o alinhamento desta tese através de debates e discussões construtivos.
Os meus agradecimentos são ainda extensivos às individualidades ou instituições que muito
contribuiram como suporte para a realização do presente estudo, nomeadamente: Ministério
de Obras Públicas e Habitação e Recursos Hídricos (MOPHRH) na Direção Nacional de
Gestão de Recursos Hídricos, a Administração Regional de Águas de sul (ARASul),
Administração Estatal através do Governo do Distrito de Manhiça e de Posto Administrativo
de Xinavane e Serviços Distritais de Atividades Econômicas (SDAE) de Manhiça).
À Direção da Faculdade de Economia e da Universidade Eduardo Mondlane, aos
colegas docentes e amigos e suma à toda comunidade acadêmica, os meus profundos
agradecimentos.
Sincero agradecimento à minha família, a qual me privei do seu convívio nestes
últimos quatro (04) anos, nomeadamente, a minha esposa e filhas, e demais familiares, para
além dos amigos que assumiram a causa da minha formação com protidão.
Aos Prof. Doutor Inocêncio José Cossa e Prof. Doutor Raúl Balate Jr., pelo contributo
que deram para a materialização desta tese, vai a minha enorme gratidão.
A todos que direta ou indiretamente contribuiram para a realização deste estudo, o
meu agradecimento.
RESUMO
A tese retrata a Política de Gestão de Recursos Hídricos e Desenvolvimento Rural do Posto
Administrativo de Xinavane (PAX), distrito de Manhiça- Moçambique e estrutura-se em:
Introdução; Recursos Hídricos, Desenvolvimento (rural); Políticas Públicas; Metodologia da
Pesquisa; A Política de Gestão de Recursos Hídricos e Desenvolvimento Rural do PAX;
Considerações Finais e; Referências Bibliográficas). No geral, a tese analisa a contribuição
da Política de Gestão de Recursos Hídricos para o Desenvolvimento Rural em Moçambique.
Especificamente, a tese objetiva: Mapear as políticas públicas para a gestão hídrica e para a
promoção do desenvolvimento rural em Moçambique; Relacionar a governança hídrica e a
segurança hídrica com a vulnerabilidade das populações no Posto Administrativo de
Xinavane; Explicar como a governança hídrica e a segurança hídrica contribuem para o
desenvolvimento rural no PAX e; Verificar a congruência entre a Política de Gestão de
Recursos Hídricos e o Desenvolvimento Rural no PAX. Foi utilizada a seguinte metodologia:
Revisão da Literatura, Trabalho de Campo (Entrevistas e questionários), Análise dos Dados
de Campo e Elaboração dos Resultados. A revisão da literatura permitiu o alcance do
primeiro objectivo especifico e o trabalho de campo conduziu à concretização dos outros. A
abordagem quantitativa e qualitativa e os conceitos de governança da água, segurança
hídrica, vulnerabilidade e pobreza permitiram analisar o objecto da pesquisa com base em
dados de campo. Os resultados da pesquisa mostram que no local de estudo existem políticas
públicas que promovem a Gestão Hídrica e o Desenvolvimento Rural. Percebe-se que o uso
dos recursos hídricos por grandes setores produtivos pode influenciar o desenvolvimento da
região. O Rio Incomáti constitui um instrumento ou elemento estratégico para o
desenvolvimento no PAX. Os Megaprojetos de irrigação, produção de cana-de-açúcar,
agroindústrias importantes para gerar alimentos, empregos, renda e bem-estar para as pessoas
e para o país usam as águas do Rio Incomáti . Os Gestores e os moradores têm conhecimento
sobre a existência de processos e infraestruturas de Gestão da Água no PAX que permitem
regular e monitorizar o uso dos recursos hídricos. As políticas agrícolas estratégicas de
desenvolvimento rural voltadas para a promoção do uso dos recursos hídricos contribuem
para o desenvolvimento no PAX. No entanto, verifica-se que existem problemas de acesso à
água para famílias e setores produtivos e formas de gestão da água que não estão alinhadas
com o desenvolvimento rural. As dificuldades de acesso à educação, às existência de
precárias condições de habitação e saneamento, aos recursos hídricos, a insuficiência de
infraestruturas hídricas asssociadas à inconsistência entre as políticas de gestão de recursos
hídricos e as políticas de desenvolvimento (rural) limitam os processos de desenvolvimento,
reproduzindo as vulnerabilidades e pobreza e insegurança hídrica no PAX. A ação
governamental que se dá no momento de uma crise catastrófica mostra uma descontinuidade
das políticas, uma falta de coordenação das políticas de gestão da água integradas com a
redução da vulnerabilidade da comunidade aos eventos subsequentes. Nesse âmbito a tese
sugere que: o governo devia promover a expansão da rede escolar/educacional e tornar o
ensino superior (universidades) uma realidade, construir e expandir infraestruturas robustas
e eficientes ( serviços de saúde, educação, saneamento, habitação, água, informação, entre
outros) para reduzir a vulnerabilidade e pobreza, aumentar a resiliência e o desenvolvimento
(rural); Harmonizar a Política de Gestão da Água com as políticas agrícolas e outras para
combater a pobreza e aumentar a produção nacional; O governo deve organizar e divulgar
de modo eficiente o instrumento legal de enquadramento e regulação do uso da água para
fins agrícolas, industriais e hidroeléctricos nas comunidades, construção de infra-estruturas
(resistentes / robustas) de apoio ao sector dos recursos hídricos (estradas e pontes, caminhos-
de-ferro, eletrificação, estações de distribuição de combustível, telecomunicações,
instalações de comercialização, abastecimento e armazenamento de mercadorias, sistemas de
regularização de rios, armazenamento de água e irrigação, centros de pesquisa tecnológica e
treinamento técnico e profissional) e expandir o treinamento no nível comunitário sobre o
uso e consumo adequados de recursos hídricos integrados com o desenvolvimento rural e
melhoria da qualidade de vida do meio ambiente e do dia a dia da comunidade.
Palavras-chave: Vulnerabilidade. Pobreza. Governança da água. Segurança da água.
Desenvolvimento rural. PAX.
ABSTRACT
The thesis portrays the Water Resources Management and Rural Development Policy of the
Administrative Post of Xinavane (APX), Manhiça district, Mozambique and is structured in:
Introduction; Water Resources, Development (rural); Public policy; Research methodology;
The Xinavane Administrative Post's Water Resources Management and Rural Development
Policy (APX); Final Considerations and; Bibliographic references). Overall, the thesis
analyzes the contribution of the Water Resources Management Policy to Rural Development
in Mozambique. Specifically, the thesis aims to: Map public policies for water management
and for the promotion of rural development in Mozambique; Linking water governance and
water security with the vulnerability of populations in the APX; Explain how water
governance and water security contribute to rural development at the APX and; Check the
congruence between the Water Resources Management Policy and Rural Development in the
APX. The following methodology was used: Literature Review, Fieldwork (Interviews and
Questionnaires), Field Data Analysis and Preparation of Results. The literature review
allowed the achievement of the first specific objective and the field work led to the
achievement of the others. The quantitative and qualitative approach and the concepts of
water governance, water security, vulnerability and poverty allowed us to analyze the
research object based on field data. The survey results show that in the study site there are
public policies that promote Water Management and Rural Development. It is perceived that
the use of water resources by large productive sectors can influence the development of the
region. The Rio Incomati is an instrument or strategic element for the development of the
APX. Megaprojects of irrigation, sugarcane production, important agro-industries to generate
food, jobs, income and well-being for people and for the country use the waters of the
Incomáti River. Managers and residents are aware of the existence of Water Management
processes and infrastructures in the APX that allow to regulate and monitor the use of water
resources. Strategic agricultural policies for rural development aimed at promoting the use
of water resources contribute to the development of the APX. However, it appears that there
are problems of access to water for families and productive sectors and forms of water
management that are not aligned with rural development. Difficulties in accessing education,
the existence of precarious housing and sanitation conditions, water resources, the
insufficiency of water infrastructure associated with the inconsistency between water
resources management policies and (rural) development policies limit the development
processes , reproducing vulnerabilities and poverty and water insecurity in the APX.
Government action that takes place at the time of a catastrophic crisis shows a discontinuity
of policies, a lack of coordination of water management policies integrated with the reduction
of the community's vulnerability to subsequent events. In this context, the thesis suggests
that: the government should promote the expansion of the school/educational network and
make higher education (universities) a reality, build and expand robust and efficient
infrastructure (health services, education, sanitation, housing, water, information , among
others) to reduce vulnerability and poverty, increase resilience and (rural) development;
Harmonize the Water Management Policy with agricultural and other policies to fight
poverty and increase national production; The government must efficiently organize and
disseminate the legal instrument for framing and regulating the use of water for agricultural,
industrial and hydroelectric purposes in communities, construction of infrastructure (resistant
/ robust) to support the water resources sector (roads and bridges, railways, electrification,
fuel distribution stations, telecommunications, marketing facilities, supply and storage of
goods, river regularization systems, water storage and irrigation, technological research
centers and technical and professional training) and expand training at the community level
on the proper use and consumption of water resources integrated with rural development and
improving the quality of life of the environment and daily life in the community.
Keywords: Vulnerability. Poverty. Water Governance. Water Security. Rural
Development. APX.
RESUMEN
La tesis retrata la Política de Gestión de Recursos Hídricos y Desarrollo Rural del Puesto
Administrativo de Xinavane (PAX), distrito de Manhiça, Mozambique y está estructurada
en: Introducción; Recursos hídricos, desarrollo (rural); Políticas públicas; Metodología de
investigación; La Política de Gestión de Recursos Hídricos y Desarrollo Rural (PAX) del
Puesto Administrativo de Xinavane; Consideraciones finales y; Referencias bibliográficas).
En general, la tesis analiza la contribución de la Política de gestión de los recursos hídricos
al desarrollo rural en Mozambique. Específicamente, la tesis tiene como objetivo: Mapear
políticas públicas para la gestión del agua y para la promoción del desarrollo rural en
Mozambique; Vincular la gobernanza del agua y la seguridad del agua con la vulnerabilidad
de las poblaciones en el puesto administrativo de Xinavane; Explicar cómo la gobernanza
del agua y la seguridad del agua contribuyen al desarrollo rural en el puesto administrativo
de Xinavane y; Verificar la congruencia entre la Política de Gestión de Recursos Hídricos y
el Desarrollo Rural en el Puesto Administrativo de Xinavane. Se utilizó la siguiente
metodología: Revisión de Literatura, Trabajo de Campo (Entrevistas y Cuestionarios),
Análisis de Datos de Campo y Elaboración de Resultados. La revisión de la literatura
permitió la consecución del primer objetivo específico y el trabajo de campo condujo a la
consecución de los demás. El enfoque cuantitativo y cualitativo y los conceptos de
gobernanza del agua, seguridad hídrica, vulnerabilidad y pobreza nos permitieron analizar el
objeto de investigación a partir de datos de campo. Los resultados de la encuesta muestran
que en el sitio de estudio existen políticas públicas que promueven la Gestión del Agua y el
Desarrollo Rural. Se percibe que el uso de los recursos hídricos por parte de grandes sectores
productivos puede influir en el desarrollo de la región. El Rio Incomati es un instrumento o
elemento estratégico para el desarrollo de la PAX. Megaproyectos de riego, producción de
caña de azúcar, importantes agroindustrias para generar alimentos, empleo, ingresos y
bienestar para las personas y para el país utilizan las aguas del río Incomáti. Los gestores y
vecinos son conscientes de la existencia de procesos e infraestructuras de Gestión del Agua
en la PAX que permiten regular y controlar el uso de los recursos hídricos. Las políticas
agrícolas estratégicas para el desarrollo rural orientadas a promover el uso de los recursos
hídricos contribuyen al desarrollo de la PAX. Sin embargo, parece que existen problemas de
acceso al agua para las familias y sectores productivos y formas de gestión del agua que no
están alineadas con el desarrollo rural. Las dificultades para acceder a la educación, la
existencia de condiciones precarias de vivienda y saneamiento, los recursos hídricos, la
insuficiencia de infraestructura hídrica asociada a la inconsistencia entre las políticas de
gestión de recursos hídricos y las políticas de desarrollo (rural) limitan los procesos de
desarrollo, reproduciendo vulnerabilidades y pobreza e inseguridad hídrica el PAX. La
acción gubernamental que tiene lugar en el momento de una crisis catastrófica muestra una
discontinuidad de políticas, una falta de coordinación de las políticas de gestión del agua
integradas con la reducción de la vulnerabilidad de la comunidad a eventos posteriores. En
este contexto, la tesis sugiere que: el gobierno debe promover la expansión de la red escolar
/ educativa y hacer realidad la educación superior (universidades), construir y expandir
infraestructura robusta y eficiente (servicios de salud, educación, saneamiento, vivienda,
agua, información, entre otros) para reducir la vulnerabilidad y la pobreza, aumentar la
resiliencia y el desarrollo (rural); Armonizar la Política de Gestión del Agua con la
agricultura y otras políticas para combatir la pobreza y aumentar la producción nacional; El
gobierno debe organizar y difundir eficientemente el instrumento legal para enmarcar y
regular el uso del agua con fines agrícolas, industriales e hidroeléctricos en las comunidades,
construcción de infraestructura (resistente / robusta) para apoyar al sector de los recursos
hídricos (carreteras y puentes, ferrocarriles, electrificación). , estaciones de distribución de
combustible, telecomunicaciones, instalaciones de comercialización, suministro y
almacenamiento de mercancías, sistemas de regularización de ríos, almacenamiento de agua
y riego, centros de investigación tecnológica y capacitación técnica y profesional) y ampliar
la capacitación a nivel comunitario sobre el uso y consumo adecuado de los recursos hídricos.
integrado con el desarrollo rural y mejorando la calidad de vida del medio ambiente y la vida
cotidiana en la comunidad.
Palabras clave: Vulnerabilidad. Pobreza. Gobernanza del agua. Seguridad del agua.
Desarrollo rural. PAX.
LISTA DE ILUSTRAÇÕES
Figura 1 - Regiões macro ecológicas de Moçambique ......................................................... 65
Quadro 1 - Mudança na produção agrícola (em termos percentuais) no período de transição,
1973/1975 ............................................................................................................................. 78
Figura 2 - Organograma da DNGRH ................................................................................... 93
Figura 3 - Esquema Conceitual da Pesquisa ......................................................................... 95
Figura 4 - Relações entre (in)segurança hídrica, a vulnerabilidade e a pobreza a partir do
recurso hídrico compartilhado .............................................................................................. 96
Figura 5 - Rede Hidrográfica de Moçambique ..................................................................... 99
Figura 6 - Enquadramento Geográfico do Distrito de Manhiça e o Posto Administrativo de
Xinavane Fonte:INE (2002). .......................................................................................... 100
Quadro 2 - Síntese dos métodos e técnicas utilizados e finalidade ................................... 107
Quadro 3 - Variáveis de Gestão Hídrica por dimensões do Desenvolvimento Rural ........ 112
Gráfico 1 - Estado civil dos questionados .......................................................................... 132
Gráfico 2 - Ocupação principal do cônjuge ........................................................................ 133
Figura 7 - Identificação de exemplo de vulnerabilidade hídrica dos questionados ............ 137
Gráfico 3 - Participação dos encontros nos comitês de zona no PAX ............................... 142
Gráfico 4 - Avaliação da participação dos encontros nos comitês de zona (audiência) ..... 142
Gráfico 5 - Técnica identificada como adequada para a gestão do uso da água para o cultivo
de cana-de-açúcar e outros ................................................................................................. 149
Gráfico 6 - Tecnologia que pode contribuir para a economia de água na agricultura na
percepção dos inquiridos .................................................................................................... 150
Gráfico 7 - Principal fonte de Água em uso no PAX ......................................................... 151
Gráfico 8 - Fatores de Uso não eficiente dos Recursos Hídricos ....................................... 161
Figura 8 - Acumulação de materiais junto ao leito do Rio Incomáti .................................. 162
Figura 9 - Exemplo de utlização humana dos recursos hídricos ........................................ 164
Quadro 4 - Variáveis de vulnerabilidade e de disponibilidade e acesso aos recursos hídricos
............................................................................................................................................ 168
LISTA DE TABELAS
Tabela 1 - População abaixo da linha da pobreza (%) segundo os PARPAs I, II e III (PARP)
.............................................................................................................................................. 86
Tabela 2 - Gênero dos questionados ................................................................................... 128
Tabela 3 - Faixas etárias dos questionados ......................................................................... 129
Tabela 4 - Escolaridade dos questionados ......................................................................... 129
Tabela 5 - Nivel de escolaridade - quantidade e percentual dos questionados................... 130
Tabela 6 - Ocupações dos questionados – Frequência e Percentagem .............................. 132
Tabela 7 - Composição dos agregados familiares .............................................................. 133
Tabela 8 - Situação dos questionados quanto ao acesso às unidades de produção ............ 134
Tabela 9 - Localização das unidades de produção agrícola................................................ 134
Tabela 10 - Tamanho das propriedades agrícolas .............................................................. 135
Tabela 11 - Enfrentamento dos efeitos das secas ............................................................... 136
Tabela 12 - Alternativas utilizadas para o enfrentamento dos efeitos das cheias............... 136
Tabela 13 - Principais problemas com a água do Rio Incomáti ......................................... 138
Tabela 14 - Efeitos das inundações no PAX (percentagem de questionados).................... 139
Tabela 15 - Formas de ajuda do Governo no período das cheias e secas ........................... 139
Tabela 16 - Utilização de técnicas na captação de água de chuva ..................................... 140
Tabela 17 - Técnicas de captação de água de chuva no PAX ............................................ 140
Tabela 18 - Conhecimento sobre a existência dos comitês de gestão de águas no PAX ... 141
Tabela 19 - Existência de processos e infra-estruturas administrativas para questões de gestão
de água da bacia de Incomáti .............................................................................................. 143
Tabela 20 - Conhecimento da existência de um fundo de recursos hídricos entre os
questionados ....................................................................................................................... 145
Tabela 21 - Culturas agrícola produzidas no PAX ............................................................. 146
Tabela 22 - Destino de produção agrícola no PAX ............................................................ 146
Tabela 23 - Irrigação nas propriedades agrícolas ............................................................... 147
Tabela 24 - Tipos de irrigação utilizados pelos questionados ............................................ 147
Tabela 25 - Percepção sobre os efeitos das inundações ..................................................... 147
Tabela 26 - Efeitos das secas no PAX na percepção dos questionados ............................. 148
Tabela 27 - Atividades que utilizam as águas do Rio Incomáti para a subsistência .......... 148
Tabela 28 - Utilização da água do Rio Incomáti para o cultivo entre os questionados ...... 149
Tabela 29 - Percepções sobre a existência de um instrumento jurídico de gestão hídrica 151
Tabela 30 - Disponibilidade dos recursos hídricos (água do Incomáti) para todos ............ 152
Tabela 31 - Percepção dos questionados quanto à dificuldades de acesso à água potável. 152
Tabela 32 - Percepção sobre a existência das campanhas de formação, educaçãoe divulgação
em relação aos principais problemas de gestão das águas da bacia do Rio Incomáti ........ 153
Tabela 33 - Percepção sobre os promotores das campanhas de capacitação...................... 154
Tabela 34 - Tipo de campanha o Governo tem promovido com maior frequência ............ 154
Tabela 35 - Formas de acesso à informação sobre os casos de contaminação da água desta
bacia hidrográfica ............................................................................................................... 154
Tabela 36 - Efeitos das inundações e secas e a eclosão de doenças ................................... 155
Tabela 37 - Percepção sobre qualidade de água do rio para o uso e consumo doméstico . 155
Tabela 38 - Percepção sobre a política que mais contribui para o desenvolvimento neste posto
administrativo ..................................................................................................................... 156
Tabela 39 - Percepção sobre a política que mais contribuiria para o desenvolvimento dos
recursos hídricos no PAX ................................................................................................... 157
Tabela 40 - Satisfação dos inquiridos com relação a escolaridade dos seus membros ...... 157
Tabela 41 - Causas de insatisfação dos questionados pela escolaridade dos seus membros
............................................................................................................................................ 158
Tabela 42 - Ajuda do Governo no período das cheias e secas ........................................... 159
Tabela 43 - Existência de abastecimento em água potável contínuo e suficiente para a
satisfação das necessidades do seu cotidiano ..................................................................... 159
Tabela 44 - Percepção sobre a satisfação da intervenção do Estado/governo na política de
gestão de águas de Incomátie nas necessidades das populações e ações de desenvolvimento
da economia ........................................................................................................................ 160
Tabela 45 - Técnica utilizada para evitar eventuais desperdícios da mesma no cultivo .... 160
Tabela 46 - Conhecimento sobre a ocorrência de casos de contaminação da água do Rio
Incomáti entre os questionados........................................................................................... 162
Tabela 47 - Percepção dos questionados quanto ao principal agente poluidor das águas do
Rio Incomáti ....................................................................................................................... 163
Tabela 48 - Formas de denúncia em caso de descumprimento à legislação ambiental e de
recursos hídricos ................................................................................................................. 165
Tabela 49 - Conhecimento de casos de descumprimento à legislação ambiental e de recursos
hídricos do Incomáti ........................................................................................................... 165
LISTA DE ABREVIATURAS E SIGLAS
ARAs Administração Regional de Águas
BM Banco Mundial
DM Declaração do Milénio
DNA Direcção Nacional de Águas
DS Desenvolvimento Sustentável
EDR Estratégia de Desenvolvimento Rural
FAEF Faculdade de Agronomia e Engenharia Florestal
FAO Fundo das Nações Unidas para a Alimentação
FDD Fundo Distrital de Desenvolvimento
FIDA Fundo Internacional de Desenvolvimento da Agricultura
FLCS Faculdade de Letras e Ciências Sociais
IDH Índice de Desenvolvimento Humano
IIAM Instituto de Investigação Agronômica de Moçambique
GdM Governo de Moçambique
GDM Governo do Distrito de Manhiça
MADER Ministério de Agricultura e Desenvolvimento Rural
MAE Ministério de Administração Estatal
MEF Ministério de Economia e Finanças
MICOA Ministério para a Coordenação da Ação ambiental
MINAG Ministério da Agricultura
MOPHRH Ministério das Obras Públicas e Habitação e Recursos Hídricos
ODM Objetivos de Desenvolvimento do Milênio
ONGs Organizações Não Governamentais
ONU Organização das Nações Unidas
PARPA Plano de Ação para a Redução da Pobreza Absoluta
PAX Posto Administrativo de Xinavane
PEDSA Plano Estratégico para o Desenvolvimento do Sector Agrário
PES Plano Econômico e Social
PNUD Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento
PROAGRI Programa Nacional Integrado de Desenvolvimento Agrícola
PQG Programa Quinquenal do Governo
UEM Universidade Eduardo Mondlane
SADC Comunidade para o Desenvolvimento da África Austral
SUMÁRIO
1 INTRODUÇÃO....................................................................................................... 19
1.1 PROBLEMATIZAÇÃO E CONSTRUÇÃO DO PROBLEMA DA PESQUISA ... 26
1.2 OBJETIVOS DA PESQUISA .................................................................................. 30
1.2.1 OBJETIVO GERAL .............................................................................................. 30
1.2.2 OBJETIVOS ESPECÍFICOS ................................................................................ 30
1.3 HIPÓTESES ............................................................................................................. 30
1.4 JUSTIFICATIVA DO ESTUDO .............................................................................. 31
2 RECURSOS HÍDRICOS, DESENVOLVIMENTO E DESENVOLVIMENTO
RURAL: CONCEITOS E ABORDAGENS ......................................................... 36
2.1 VULNERABILIDADE (HÍDRICA) E POBREZA ................................................. 36
2.2 RESILIÊNCIA E EVENTOS HÍDRICOS EXTREMOS (CHEIAS/ INUNDAÇÕES,
SECAS E CICLONES)............................................................................................. 44
2.3 GOVERNANÇA E GOVERNANÇA HÍDRICA .................................................... 46
2.4 SEGURANÇA HÍDRICA ........................................................................................ 51
2.5 DESENVOLVIMENTO ........................................................................................... 55
2.6 DESENVOLVIMENTO RURAL (SUSTENTÁVEL) ............................................ 58
2.7 AGRICULTURA EM MOÇAMBIQUE: POTENCIALIDADE AGRO-
ECOLÓGICAS, CARACTERIZAÇÃO GERAL E PERSPECTIVAS DE
DESENVOLVIMENTO AGRÍCOLA À LUZ DA POLÍTICA DE GESTÃO DE
RECURSOS HÍDRICOS EM MOÇAMBIQUE ...................................................... 63
3 POLÍTICAS PÚBLICAS: A BUSCA PELA GESTÃO HÍDRICA E PELO
DESENVOLVIMENTO RURAL EM MOÇAMBIQUE .................................... 69
3.1 ABORDAGEM GERAL DE POLÍTICAS PÚBLICAS .......................................... 69
3.2 POLÍTICAS PÚBLICAS DE DESENVOLVIMENTO EM MOÇAMBIQUE ....... 72
3.2.1 Estratégia de desenvolvimento rural e a promoção de uso de recursos naturais
em Moçambique ...................................................................................................... 75
3.2.2 Política agrária: continuidades e descontinuidades da política agrária e
desenvolvimento (rural) em moçambique ............................................................ 76
3.2.3 Plano de ação para a redução da pobreza (parp, 2011 a 2014) e desenvolvimento
rural 82
3.3 A GESTÃO DE RECURSOS HÍDRICOS EM MOÇAMBIQUE: ORIENTAÇÕES
DE POLÍTICA DE GESTÃO DE RECURSOS HÍDRICOS, RELAÇÃO COM A
TEORIA DE OSTROM E PERSPECTIVAS DE DESENVOLVIMENTO RURAL .
............................................................................................................................... 87
4 METODOLOGIA DA PESQUISA ....................................................................... 96
4.1 ESCOLHA E DELIMITAÇÃO ESPACIAL DA PESQUISA ................................. 98
4.2 LOCALIZAÇÃO DO POSTO ADMINISTRATIVO DE XINAVANE ................. 98
4.3 CARACTERIZAÇÃO SÓCIO-ECONÔMICA DO DISTRITO DE MANHIÇA . 100
4.3.1 População, habitação e condições de vida .......................................................... 100
4.3.2 Economia ............................................................................................................... 101
4.3.3 Infraestruturas e serviços..................................................................................... 103
4.4 TIPOS DE PESQUISA ........................................................................................... 106
4.5 ETAPAS METODOLÓGICAS DA PESQUISA DE CAMPO ............................. 107
4.5.2 Etapa II: pré-campo ............................................................................................. 108
4.5.3 Etapa III: trabalho final de campo ..................................................................... 109
4.6 ANÁLISE DOS DADOS ....................................................................................... 111
4.7 VARIÁVEIS DA GESTÃO HÍDRICA POR DIMENSÕES DE
DESENVOLVIMENTO RURAL .......................................................................... 111
5 A POLÍTICA DE GESTÃO DOS RECURSOS HÍDRICOS E
DESENVOLVIMENTO RURAL NO POSTO ADMINISTRATIVO DE
XINAVANE ........................................................................................................... 115
5.1 APRESENTAÇÃO E ANÁLISE DOS RESULTADOS DE ENTREVISTAS AOS
GESTORES DE RECURSOS HÍDRICOS ............................................................ 115
5.2 APRESENTAÇÃO E ANÁLISE DOS RESULTADOS DE QUESTIONÁRIOS
AOS AGREGADOS FAMILIARES ...................................................................... 126
5.2.1 Gestão hídrica e planejamento territorial .......................................................... 134
5.2.2 Gestão hídrica e desenvolvimento de diferentes ramos de produção .............. 145
5.2.3 Gestão hídrica e redução das desigualdades ...................................................... 150
5.2.4 Gestão hídrica e melhoria da qualidade de vida ................................................ 155
5.2.5 Gestão hídrica e satisfação das necessidades básicas de toda a população ..... 157
5.2.6 Gestão hídrica, e garantia das liberdades e respeito pelos direitos humanos . 160
5.2.7 Gestão hídrica e respeito pelo ambiente e gerações futuras ............................. 160
5.3 RELAÇÃO DAS RESPOSTAS DOS GESTORES (STAKCHOLDERS) OU OS
ENTREVISTADOS COM A DOS MORADORES OU OS QUESTIONADOS .. 166
5.4 VARIÁVEIS DE VULNERABILIDADE E DE DISPONIBILIDADE DE
RECURSOS HÍDRICOS ........................................................................................ 167
6 CONSIDERAÇÕES FINAIS ............................................................................... 169
REFERÊNCIAS .................................................................................................... 182
APÊNDICE A - GUIA DE ENTREVISTA AOS GESTORES DE RECURSOS
HIDRICOS ............................................................................................................ 191
APÊNDICE B - GUIA DE PERGUNTAS AOS AGREGADOS FAMILIARES .
................................................................................................................................ 195
19
1 INTRODUÇÃO
A Política de Gestão dos Recursos Hídricos está estritamente relacionada com o
processo de Desenvolvimento. Ao nível mundial é sabido que a água não só constitui o ponto
fulcral da independência humana das nações, mas também constitui um recurso partilhado
de grande relevância para o desenvolvimento agrícola, industrial e socioambiental.
Wolkmer e Pimmel (2013) citando ONU vem alertando que, em 2025, quase dois
terços da população mundial enfrentará graves problemas de abastecimento de água daí a
relevância de uma nova governança global dos bens comuns, baseada em recomendações
práticas feitas desde a conferência do Rio-92, incluindo o aporte da sociedade civil e de
diferentes etnias e movimentos sociais, visando a continuidade da vida. Campos e Soares
(2008) investigaram que a distribuição desigual da água, as relações sociais e o poder
mundial, indiciam grandes conflitos para dominar este recurso.
A distribuição desigual das precipitações atmosféricas sobre os continentes e dentro
deles faz com que a disponibilidade de água varie muito com a localização geográfica e com
as concentrações populacionais. Pereira Júnior (2004) refere que, atualmente, o volume de
água retirado da natureza pelo homem é da ordem de 3.500 km³ por ano, quase o dobro da
média de vazão de todos os cursos de água da Terra. Isto só é possível em decorrência do
ciclo hidrológico, o qual renova por cerca de vinte vezes ao ano a água doce dos corpos
hídricos (rios, lagos, lençóis subterrâneos, etc.).
Em termos globais, a irrigação é responsável por cerca de 63% das retiradas ou
derivações de água, os usos industriais por 21% e o uso doméstico e em serviços urbanos por
cerca de 7,5%. Outros usos respondem pelos restantes 9,5%; o uso doméstico e urbano,
apesar de sua importância, é modesto, se comparado ao volume de água empregado pela
agricultura irrigada e pela indústria (PEREIRA JÚNIOR, 2004). A respeito deste cenário o
autor chama atenção sobre a necessidade dea gestão dos recursos hídricos garantir a
disponibilidade e o acesso à água em quantidade e qualidade para as atuais e as futuras
gerações.
Relativamente a África, estudos feitos referem que este continente é rico em recursos
hídricos. O continente africano conta comcerca de 325 bacias e sub-bacias hidrográficas
localizadas majoritariamente na África Subsariana, sessenta (60) dessas bacias hidrográficas
(rios e lagos) sãotransfronteiriças e ocupam 62% do território africano (WOLF et al.,1999).
As inúmeras especificidades climático-regionais, socioeconômicas e políticas do continente
tornam deficitária a equidade hídrica per capita nesse continente dada à densidade
20
populacional do mesmo e a irregulardade na distribuição destes recursos. Para ilustrar
algumas evidências, os dados do Banco Mundial - BM (2010) indicam que a África possui
maior densidade populacional (40.5 hab/km²) comparado com outros continentes: América
(21.40 hab/km²; Oceania (4.4hab/km²) e menor densidade populacional comparado com
Europa (72.8 hab/km² ) e Ásia (101. 86 hab/km²).A disponibilidade média de água em África
é de cerca de 3 5.000 m /habitante/ano, valor abaixo da disponibilidade média a nível
mundial, cerca de 7.000 m /habitante/ano, e menos de 25% da média sul-americana
(PNUMA, 2002, apud CAMPOS; SOARES, 2008).
A distribuição geográfica dos recursos hídricos em África mostra que nem todas as
regiões podem ser consideradas ricas em recursos hídricos. O continente africano é também
marcado por áreas desérticas e semidesérticas, tendo na região norte o deserto do Sara (o
maior deserto do mundo) e o Sahel, uma região semi-árida que estabelece a fronteira entre
as regiões desértica a norte e savana a sul. Outras regiões semidesérticas estão localizadas na
África Oriental e África Austral.
Sendo assim, a disponibilidade de recursos hídricos neste continente é também
bastante limitada e, é por conta dessa realidade que é imprescindível uma política de gestão
dos recursos hídricos integrada tendo em conta as especificidades referenciadas. (PACHECO
et al., 2017). Neste contexto, Moçambique não constitui exceção dessas especificidades, ou
seja, o país localiza-se na região da África Austral com variações climáticas características
da região.
Moçambique possui treze bacias hidrográficas principais, sendo de Sul a Norte, as
bacias dos rios Maputo, Umbeluzi, Incomati, Limpopo, Save, Buzi, Pungoé, Zambeze,
Licungo, Ligonha, Lúrio, Messalo e Rovuma. Moçambique é um país de jusante, partilhando
nove (9) das quinze (15) bacias hidrográficas internacionais da região da Southern Africa
Development Community - SADC (MOÇAMBIQUE-GdM, 2007). Por um lado, este
potencial não significa que o país seja rico em recursos hídricos para promover o
desenvolvimento visto que existem regiões com características climáticas adversas,
exemplos de regiões desérticas e semidesérticas no Sul de Tete, interior de Inhambane e
Gaza. Por outro lado, a existência de bacias hidrográficas partilhadas com outros países da
região da África Austral influencia a disponibilidade dos recursos hídricos nessas bacias
hidrográficas. Dos Muchangos (1999, p. 47) investigou que “ a disponibilidade de água é
fundamental para o desenvolvimento da agricultura nomeadamente na irrigação dos terrenos
marginais e adjacentes ao rio, na produção de energia elétrica e para o abastecimento de água
às populações”. No entanto, essa disponibilidade é influenciada pelas condições orográficas,
21
atmosféricas, climáticas, pedológicas e antrópicas, o que influencia no acesso dos recursos
hídricos no país.
As especificidades geográficas e climático-regionais do país e a partilha regional de
uma parte das bacias hidrográgicas pode não só influenciar a disponibilidade e o acesso aos
recursos hídricos, mas também pode gerar conflitos internos e externos. “A privação ao seu
acesso leva a uma crise silenciosa que condena parte considerável da humanidade a vidas de
pobreza, vulnerabilidade e insegurança” (CAMPOS; SOARES, 2008, p. 1).Por estas e outras
razões, percebe-se que a gestão de recursos hídricosdeve ser integrada à gestão de recursos
comuns, ou seja, de recursos partilhados para uma boa governança hídrica e promoção de
desenvolvimento.
Na perspectiva de gestão de recursos comuns e partilhados, Ostrom (1990) defendeu
que os recursos de bens comuns caracterizam-se pela sua subtratibilidade1 por um utilizador
em detrimento dos outros e pela utilização conjunta de um grupo de utilizadores. Na
perspectiva da autora, contornar este cenário passa pela construção de mecanismos de
governança, eficiente e cooperativa, de forma a evitar as tragédias de grande escala que se
antevêem. A formação de grupos de utilizadores de recursos comuns de grande escala é mais
fácil quando se parte da organização de grupos mais pequenos (OSTROM, 1990).
Neste contexto, o fato de muitas estratégias de governança de bens comuns locais
serem de cima para baixo e afastadas da realidade e de conhecimentos das condições locais,
resulta no insucesso das medidas de governança e na degradação dos recursos em questão. O
termo governança relaciona-se com a gestão, a administração, cooperação, articulação social,
política e institucional. Este termo é aprofundado ao longo do trabalho.
É de notar que as diferenças que se verificam entre regiões no que se refere à variação
da precipitação, período úmido e seco e de ano para ano, relacionam-se com as cheias e secas
no país. Dados disponíveis indicam que o escoamento superficial total é cerca de 216
km³/ano, dos quais cerca de 100 km³ (46%) são gerados no país. Os restantes 116 km³ são
gerados nos países vizinhos. Em termos de valores per capita, Moçambique dispõe de um
total de cerca de 11 500m³/pessoa/ano. (MOÇAMBIQUE - GdM, 2007). Moçambique é
vulnerável aos desastres causados pelas irregularidades climáticas (secas, cheias e ciclones)
com impactos desses eventos no desenvolvimento social e econômico (MOÇAMBIQUE -
GdM, 2007).
Estudo desenvolvido por Sitóe (2005, p. 1-2) indica que:
1
A retirada de recursos por um utilizador reduz a quantidade de recursos deixados para outros utilizadores.
(OSTROM, 1990).
22
Não se justifica que com tantos recursos hídricos, o país não possa explorar a
capacidade de explorar esses recursos em benefício da sua população e do País; o
efeito das calamidades naturais no País, ainda não está suficientemente entendido
como uma questão endógena do processo de desenvolvimento, que precisa de
soluções douradoras, de médio e longo prazos; não se pode continuamente andar a
correr com água atrás do fogo, como se bombeiros se tratasse (SITOE, 2005, p. 1-
2).
Neste cenário, torna-se necessário desenvolver planos detalhados relativos à política
de gestão de recursos hídricos para promoção dos serviços de abastecimento de água e
saneamento, desenvolvimento da agricultura, gestão de desastres e proteção dos
ecossistemas, incluindo a prevenção da intrusão salina nos estuários dos rios que para além
de salinizar os solos, por consequência, reduz as áreas cultiváveis e em cascata, a produção
e a produtividade agrícolas reduzem, etc. A falta de gestão influencia igualmente a produção
industrial e a produção de energia hidroelétrica.
O uso e alocação de água para diferentes finalidades deve ter em conta a utilização
racional, equitativa e sustentável dos recursos hídricos com prioridade para as necessidades
básicas humanas, mantendo ao mesmo tempo as reservas mínimas para a proteção dos
ecossistemas e permitindo um desenvolvimento sustentável2 do país (MOÇAMBIQUE -
GdM, 2007).
Um dado não menos importante é que a gestão de recursos hídricos em Moçambique
é norteada pela política nacional de águas e esta incorpora a partilha de recursos hídricos com
os países vizinhos, principalmente a África do Sul, o Zimbábwe, a Swazilândia e o Botswana,
situados a montante (gestão transfronteiriça) onde a maioria dos rios tem a sua origem.
A maneira como cada país se comporta mediante aos interesses antagônicos
associados à gestão partilhada dos recursos hídricos escassos a nível mundial, tem
incontáveis implicações nos índices de desenvolvimento humano, econômico e
socioambiental dentro das fronteiras desses países afetando assim a própria gestão.
Em Moçambique, a política nacional de águas prioriza a disponibilidade da água em
quantidade e qualidade adequadas para as gerações atuais e futuras, servindo para o
desenvolvimento sustentável, redução da pobreza e promoção do bem-estar e paz e a
minimização dos efeitos negativos das cheias e secas3.
2
Desenvolvimento que concilia o desenvolvimento econômico, a preservação do meio ambiente e a melhoria
da qualidade de vida, ou seja, um tripé de desenvolvimento (envolve a sociedade, o ambiente e a economia).
(MOÇAMBIQUE - GdM, 2007).
3
GDM (MOÇAMBIQUE, 2016), Boletim da República, 30 de Dezembro, I Série, nᵒ156.
23
Esta política tem sido influenciada pela demanda e oferta em recursos hídricos dos
países da montante e pela fragilidade financeira e estrutural do país para dar resposta aos
efeitos de secas, cheias cíclicas e ciclones. Essa influência incide nos processos de
desenvolvimento, refletindo-se especificamente em situações de vulnerabilidade hídrica,
fome e pobreza. Os recursos hídricos são de extrema importância para o desenvolvimento do
país.
Sendo a água um recurso escasso usado tanto para o uso e consumo humano como
também usado para várias atividades, a sua política de gestão é fundamental na garantia do
processo de Desenvolvimento. Bolson e Haonat (2016) referem que a ausência de água
compromete a saúde humana e a segurança alimentar, além de interferir no próprio ciclo
natural da vida, seja ela humana ou não humana.
Neste contexto, a Política de Gestão de Recursos Hídricos é fundamental para o
Desenvolvimento Rural. Campos e Soares (2008, p. 117) estudaram que “a água é um
recurso natural renovável, da qual depende a vida humana, a segurança alimentar e a saúde
dos ecossistemas,sendo vital para a diminuição da pobreza e para o
desenvolvimentosustentável”.
A água contribui não só para a saúde humana, mas também para o desenvolvimento
das atividades domésticas e produtivas características das áreas rurais, visto que participa no
uso e consumo humano e não humano, na expansão da agricultura e dos megaprojetos
agrícolas (irrigação e produção de alimentos) e agroindustriais. As atividades agropecuárias
são as que ocupam a maior parte da população do país que vive nas zonas rurais (cerca de
70%) para produção de alimentos e seguido pelo setores das plantações e produção de açúcar
no ambito dos megaprojetos para o desenvolvimento nacional. Isto elucida as demandas pelos
recursos hídricos por esses setores produtivos e a existência de diferentes utilizadores dos
mesmos recursos hídricos (Rio Incomáti) e a necessidade de alinhamentos entre a gestão
hídrica e o desenvolvimento rural. Os alinhamentos referenciados podem permitir essas
demandas não reproduzam situações de vulnerabilidades, fome e pobreza. Portanto, a água é
um dos fatores insubstituíveis nos processos de desenvolvimento, daí a necessidade de seu
uso e consumo mais [Link] rios constituem principais vias de transportes de vários
recursos e são um dos fatores da geopolítica4(GOMIDES; SILVA, 2009).
Entretanto,dada a importância vital da água, a sua crise pode gerar ou agravar
conflitos entre comunidades ou nações e a solução destes remete as autoridades nacionais,
4
A água é um dos fatores de soberania sobre os territórios e de expansão do controlo político-administrativo
sobre a população que habita nas zonas ribeirinhas.
24
locais e internacionais empenharem-se em práticas de boa governança. Gomides e
Silvaestudaram que:
Boa governança implica: processos de decisão claros em nível das autoridades
públicas, instituições transparentes, responsabilizáveis, eficazes e democráticas;
primado pelo Direito de gestão e na distribuição dos recursos; diálogo aberto com
intervinientes sociais e econômicos e outras organizações da sociedade civil;
elaboração e aplicação de medidas para combater a corrupção, promover a
segurança do Estado e de pessoas assim como o cumprimento dos direitos
humanos, colaboração efetiva entre os setores públicos e privados (GOMIDES;
SILVA, 2009, p. 191).
Portanto, a política de Gestão dos Recursos Hídricos pode contribuir para o combate
e prevenção à insegurança hídrica, a insegurança alimentar ao garantir a disponibilidade, o
acesso regular e permanente à agua para o desenvolvimento de várias atividades por parte de
famílias, especificamente no meio rural tendo em conta as diferenças dos contextos locais.
Um estudo desenvolvido por governo refere que:
Aproximadamente 70% da população depende da agricultura de subsistência para
ganhar a vida, [...] . As opções para ganhar a vida fora de agricultura são limitadas
para a grande maioria da população. A rede de comercialização é fraca e limitada
pelo acesso físico extremamente difícil em muitas áreas. Todos esses fatores
aumentam a vulnerabilidade da economia rural à variabilidade de precipitação e os
choques hídricos relacionados com secas e enchentes (MOÇAMBIQUE - GdM,
2007, p.10)
Esta referência mostra claramente que a base econômica de Moçambique é
essencialmente agrícola e se desenvolve no meio rural, isto é a maioria da população
moçambicana vive da agricultura como seu meio de subsistência. Em Moçambique, este tipo
de agricultura caracteriza-se por:
[...] produtores agrícolas de pequena escala, cuja produção é intensiva em mão-de-
obra, sobretudo familiar, pouco integrados no mercado de fatores (insumos,
máquinas e dinheiro – terra, trabalho assalariado e outras fontes de rendimento não-
agrícola), que produzem, essencialmente, para a reprodução da família, enquanto
unidade económica e social, que nem sempre possuem o mercado como a única e
mais importante referência nas suas opções produtivas, que não têm,
necessariamente, o lucro como o principal objetivo e, sempre que podem,
complementam os rendimentos agrícolas com outros, dentro ou fora do setor
(MOSCA, 2014, p. 3).
Vários estudiosos têm revelado que a agricultura constitui uma das atividades que
mais consome água em relação às demais atividades produtivas. Analisando que a maioria
da população do país vive no meio rural, cerca de 66.6% (18.587.925 habitantes) (INE, 2017)
25
e da agricultura tradicional, fica claro que os recursos hídricos constituem fator que
impulsiona a produção nas áreas rurais. A produção de alimentos pode ser afetada pela
quantidade e qualidade de água, diminuindo a oferta e reduzindo [Link], uma
Política de Gestão dos Recursos Hídricos baseada em eficiência, equitabilidade,
universalidade, capacidade de suporte e com foco nas diversidades locais é imprescindível
para a transformação das relações socioeconômicas do meio rural, ou seja, para o
desenvolvimento rural em Moçambique.
Neste contexto, a Política de Gestão de Recursos Hídricos para o desenvolvimento
rural em Moçambique passa necessariamente pelo planejamento dos recursos hídricos de
forma integrada, multi-setorial e no nível da bacia hidrográfica, envolve as partes
interessadas e destacando aspectos ambientais: biodiversidade e ecossistemas associados.
Inclui-se a cooperação regional e internacional na utilização sustentável e equitativa da água
no nível das bacias partilhadas, baseando-se nos princípios de gestão integrada dos recursos
hídricos e nos princípios e normas consagradas no direito internacional de águas (GdM,
2007).
Portanto, o GdM (MOÇAMBIQUE, 2007) reconhece que a pressão atual sobre os
recursos hídricos e a insuficiência de práticas de gestão da demanda e da oferta têm levado
ao surgimento de conflitos entre usos naturais e os usos antropogênicos, entre diferentes
setores econômicos e, entre os utilizadores à montante e à jusante. Igualmente, essa pressão
relaciona-se com os desperdícios e o uso ineficiente dos recursos hídricos, e ocupação das
redondezas das terras úmidas e dos ecossistemas sensíveis. Com base nestes cenários não há
dúvida que podem surgir situações de vulnerabilidade hídrica, insegurança hídrica e fome
caracterizada pela redução de quantidades produzidas de alimentos para autoconsumo e de
insegurança alimentar, daí a necessidade de uma boa governança hídirca. Ou seja, a
necessidade de uma Política de Gestão de Recursos Hídricos com perspectiva de
Desenvolvimento Sustentável e baseada na teoria de Ostrom (1990).
Assim sendo, a presente pesquisa versa sobre a contribuição da Política de Gestão dos
Recursos Hídricos para o Desenvolvimento Rural no Posto Administrativo de Xinavane
(Distrito de Manhiça- Moçambique).
O Posto Administraivo de Xinavane localiza-se no distrito de Manhiça, província5 de
Maputo, em Moçambique (vide a figura 05).
5
Província em Mocambique é análoga a um Estado no Brasil.
26
1.1 PROBLEMATIZAÇÃO E CONSTRUÇÃO DO PROBLEMA DA PESQUISA
Moçambique é um país rico em recursos naturais renováveis, de grande importância
econômica tais como águas, fauna, florestas e pescas. A devida exploração deste potencial
continua sendo um desafio pois é afetada por fatores tais como: a fraqueza de ordem
tecnológica, a falta de infraestruturas e mercados, a falta de recursos humanos a altura, a
necessidade da realização de reformas institucionais (fatores institucionais) entre outros.
Estes fatores não respondem a demanda das políticas de desenvolvimento rural do
país vistas a partir do potencial das políticas de gestão dos recursos hídricos. A demanda das
políticas de desenvolvimento rural preconizam, a partir de múltiplos usos da água, que a
política de gestão dos recursos hídricos satisfaça as necessidades humanas e assegure no geral
a sobrevivência, a civilização e o conforto da sociedade.
Em Moçambique, os rios são os maiores transportadores dos principais recursos
hídricos dos quais mais de 50% são originados nos países de montante (INAM, 2016). Os
recursos hídricos são utilizados na agricultura, nas pescas, na indústria, na mineração, na
saúde, entre outros setores de desenvolvimento.
Em contrapartida, o país é vulnerável aos desastres causados pelas irregularidades
climáticas, registrando com frequência secas, cheias e ciclones. As secas, cheias e ciclones
impactam negativamente o desenvolvimento social e econômico do país. Ou seja, o país é
sujeito a ciclos de abundância de água, associados a cheias, que alternam com períodos de
déficit, que conduzem a secas (GdM, 2007; INAM, 2016).
Num período de cheias intensas em que as águas não baixam rapidamente, as
populações podem ser obrigadas a utilizarem água contaminada proveniente de águas
estagnadas por ausência de abastecimento de água potável (MOÇAMBIQUE - MINISTÉRIO
PARA A COORDENAÇÃO DA AÇÃO AMBIENTAL – MICOA, 2005).
As secas prolongadas resultam na falta de água e redução da produção, dos pastos,
perda de gado e aves domésticas, reduzindo por consequência a receita das famílias mais
pobres e dependentes da venda de produtos naturais e agrícolas e aumento de doenças e
custos com cuidados sanitários (MOÇAMBIQUE - MICOA,2005).
Em casos de ocorrência de ciclones, os ventos fortes e as chuvas intensas causam
perda de vidas, destruição de bens das famílias, comunicações e infraestruturas
(MOÇAMBIQUE - MICOA, 2005).
A localização geográfica de Moçambique, para além de determinar a influência
climática que conduz à existência de zonas semiáridas, influencia o processo de gestão dos
27
recursos hídricos e os processos de desenvolvimento rural. As zonas com clima semiárido
em Moçambique são as do interior, em particular na faixa compreendida entre Chicualacuala
e Massingir, onde as médias de temperatura se mantêm a volta dos 24°-26°C e a pluviosidade
diminui até 300mm anuais (DOS MUCHANGOS, 1999).
Sob ponto de vista regional, Dos Muchangos (1999, p. 39) refere que “[...] as
características climáticas e meteorológicas de Moçambique permitem distinguir
fundamentalmente duas regiões climáticas separadas por uma zona de transição, mais ou
menos espessa na parte central do país.” Essas regiões climáticas são nomeadamente: região
climática Moçambique Norte e região climática Moçambique Sul.
A região climática Moçambique Norte abrange todo o território a Norte do paralelo
de 20ᵒ Sul, regista temperaturas médias anuais superiores a 25ᵒC e somas pluviométricas
anuais superiores a 800 mm. Os valores máximos de precipitação registam-se nas regiões de
elevadas altitudes com mais de 2000 mm e temperaturas médias inferiores a 18ᵒC e em alguns
lugares a precipitação total anual varia entre 600 e 800 mm. A região climática Moçambique
Sul, nitidamente tropical, as temperaturas médias anuais oscilam entre 22 e 26ᵒC e os valores
pluviométricos variam entre 800 e 1400 mm. Porém, algumas zonas do país mesmo
registando valores de temperatura média anual entre 22 e 26ᵒC, a pluviosidade diminui até
300 mm, valor considerado o mais baixo comparado a escala nacional e regional (DOS
MUCHANGOS, 1999).
Entretanto, a combinação entre altas temperaturas e baixa pluviosidade, entre baixas
temperaturas e alta pluviosidade e entre altas temperaturas e alta pluviosidade e a ação
antrópica influencia não só a disponibilidade e o acesso à água mas também a ação das
políticas públicas nessas regiões. A área estudada nesta pesquisa localiza-se na região
climática Moçambique Sul.
Portanto as restrições hídricas são antigas, o que significa que os agricultores
moçambicanos sempre adaptaram e ajustaram seus modos de produção ao clima semiárido.
Percebe-se que, os baixos coeficientes de escoamento, a grande intrusão salina, a
baixa capacidade de retenção de água no solo e a elevada taxa de evaporação, associado a
um padrão climático em mudança e à atividade humana aumentam o risco de vulnerabilidade
à fome e à pobreza em quase todo o país (MOÇAMBIQUE - GdM, 2007).
A vulnerabilidade relaciona-se com a exposição natural ou estruturalmente imposta
às pessoas perante eventos naturais, como por exemplo, frente às inundações, às secas, aos
ciclones, entre outros e sem capacidade pessoal ou institucional de resposta, bem como a
consequente inviabilização das atividades econômicas. No local de estudo esta exposição cria
28
cenários de fome e de pobreza e em perda de condições de bem-estar. Vários estudos apontam
que cerca de 70% da população vive no meio rural e 80% desta tem a agricultura familiar,
dependente das condições climáticas, como seu meio de sustento (SITOE, 2005; MADER,
2003; MOÇAMBIQUE - MINAG, 2011). A agricultura em Moçambique contribui para a
disponibilidade de alimentos, matéria-prima, exportação e captação de divisas, geração de
emprego entre outras funções.
O GdM (2007), através da Estratégia Nacional de Assistência para Recursos Hídricos,
refere que o desempenho econômico de Moçambique é altamente afetado por enchentes e
secas frequentes.
A sensibilidade da economia Moçambicana aos choques hídricos, medida pelas
flutuações no PIB e nas taxas de crescimento de produtos dos setores agrícola e não agrícola,
demonstra que grandes cheias e secas têm um impacto significante no desempenho
econômico do país, reduzindo o crescimento do PIB por uma média de pelo menos 1.1 pontos
percentuais por ano (MOÇAMBIQUE - GdM, 2007).
A extração significante de água desses rios nos países a montante, junto à alta variabilidade
do fluxo, reduz a disponibilidade de água nessas bacias e aumenta a vulnerabilidade hídrica
na região Sul. Para o Ministério das ObrasPúblicas e Habitação e Recursos Hídricos
(MOPHRH,2012), significa que quando aumenta a demanda pelos recursos hídricos nos
países do montante, a oferta dos mesmos no território nacional vai diminuir, caso contrário
resultará em excesso destes recursos em direção ao país resultando em inundações. Outro
aspecto de vital referência relaciona-se especificamente com a qualidade de água.
Portanto, Campos e Soares (2008, p. 118) investigaram que:
O uso intenso da água, principalmente na agricultura e na indústria,ocorre num
ritmo mais acelerado que a capacidade de reposiçãodo seu ciclo natural, associado
a que ao ser devolvida ao meio, elavai contaminada por agrotóxicos da agricultura
e químicos da indústria”.A falta de saneamento colabora também para esta
contaminação. (CAMPOS; SOARES, 2008, p. 118).
Em todos os casos, o país fica exposto à riscos de vulnerabilidade hídrica. Por conta
disso, a gestão das bacias hidrográficas e das reservas de água no território tem impacto direto
nos próprios riscos do país, particularmente em relação a enchentes e secas.
Desta forma, percebe-se que tanto as cheias intensas, como as secas prolongadas e os
ciclones, tornam as famílias incapazes de responder as suas necessidades básicas e lidarem-
se com a perda ou déficit da produção sem ajuda externa. Nestes casos, existe uma situação
de vulnerabilidade das famílias aos efeitos desses fenômenos naturais.
29
Por outro lado, a procura crescente e concorrida por água pelos grandes setores da
economia, e especificamente pela agricultura, pode também impor um sério constrangimento
nas perspectivas de crescimento no médio e longo prazos em termos de disponibilidade de
água em algumas bacias de rios. A Global Water Partnership (GWP, 2008) refere que em
geral, a forma como se gerem atualmente os recursos hídricos não é sustentável nem do ponto
de vista ambiental, nem em termos financeiros e sociais. O GdM (MOÇAMBIQUE , 2007)
defende que o desenvolvimento de infraestrutura hídrica é chave para atingir a segurança
hídrica em Moçambique. Contudo:
O nível de investimento no desenvolvimento de recursos hídricos em Moçambique
é atualmente insuficiente. A infraestrutura inadequada obstrui o desenvolvimento
dos principais setores dependentes de água. Somente 4% do potencial de irrigação
foi desenvolvido, mesmo com recursos hídricos disponíveis e uma economia
baseada em agricultura. (MOÇAMBIQUE - GdM, 2007, p. 26).
Esta situação conduziu à verificação da existência ou não da congruência entre a
política de gestão de recursos hídricos e as políticas de desenvolvimento de uma forma geral
e de desenvolvimento rural, em particular.
Os cenários apresentados configuram a percepção de que no local de estudo existem
elementos favoráveis e não favoráveis ao Desenvolvimento Rural a partir da Política de
Gestão de Recursos Hídricos, ou seja, determinadas formas de gestão de recursos hídricos
influenciadas por vários factores caracterizam a eficiência e/ou a ineficiência nos
alinhamentos entre a Política de Gestão dos Recursos Hídricos e Desenvolvimento Rural.
Neste contexto e aliado à necessidade de aprofundar os conhecimentos técnico-
científicos adquiridos e aplicáveis ao desenvolvimento rural, é oportuno analisar a
contribuição da Política de Gestão dos Recursos Hídricos para o Desenvolvimento Rural no
Posto Administrativo de Xinavane, distrito de Manhiça em Moçambique, e a pergunta de
pesquisa que se levanta é:
Como a Política de Gestão dos Recursos Hídricos contribui para o Desenvolvimento
Rural no Posto Administrativo de Xinavane (Distrito de Manhiça- Moçambique).
30
1.2 OBJETIVOS DA PESQUISA
1.2.1 Objetivo geral
Analisar a contribuição da Política de Gestão dos Recursos Hídricos para o
Desenvolvimento Rural em Moçambique.
1.2.2 Objetivos Específicos
a) mapear as políticas públicas para a gestão hídrica e para a promoção do
desenvolvimento rural em Moçambique;
b) relacionar a governança hídrica e a segurança hídrica com a vulnerabilidade das
populações no Posto Administrativo de Xinavane;
c) explicar como a governança hídrica e a segurança hídrica contribuem para o
desenvolvimento rural no Posto Administrativo de Xinavane;
d) verificar a congruência entre a Política de Gestão de Recursos Hídricos e o
Desenvolvimento Rural no Posto Administrativo de Xinavane.
1.3 HIPÓTESES
A Governança hídrica e a Segurança Hídrica contribuem para o desenvolvimento
rural no Posto Administrativo de Xinavane, distrito de Manhiça.
Uma das consequências da incongruência entre a (s) política (s) de gestão de recursos
hídricos entre si e com as políticas de desenvolvimento (rural) de uma forma integrada
consiste na vulnerabilidade e pobreza das pessoas. No caso em estudo, a vulnerabilidade e
pobreza das populações impulsionadas por determinada política de gestão de recursos
hídricos pode expor a população aos efeitos das inundações, secas (fenómenos cíclicos) e
ciclones, por exemplo: a redução da qualidade de água para uso e consumo doméstico, o
aumento do risco de extinção de elementos da fauna e flora, degradação e desaparecimento
de áreas cultivadas e não cultivadas, habitacionais e de muitas infraestruturas econômicas,
de saúde, educação, etc., e naturalmente surgirá uma situação de perda de condições para dar
resposta a esses mesmos efeitos e de bem-estar da população.
31
1.4 JUSTIFICATIVA DO ESTUDO
A justificativa deste estudo assenta sobre a importância da água como recurso
hídrico e a necessidade de sua gestão tendo em conta as especificidades dos contextos locais
das comunidades, especialmente nas zonas rurais, por se tratar de um estudo que se integra
na temática de desenvolvimento rural. A escassez de estudos similares em Moçambique, os
resultados da literatura relatando diversas experiências fora de Moçambique nesta temática e
as experiências pessoais do pesquisador, justificam adicionalmente a realização deste estudo.
A necessidade de contribuir para a viabilidade desta política e a produção de conhecimentos
entorno de desenvolvimento rural encerra, em geral, a justificativa deste estudo.
Neste contexto, nas áreas rurais, a água é utilizada não só diretamente para consumo
humano e de animais, como também, é usada como insumo, principalmente para a produção
de alimentos, via agricultura e pecuária, incluindo a criação de diversos animais (VILAS,
2003). Existe forte dependência econômica da população rural relativamente à água do rios,
ou seja, a água participa em todos setores produtivos.
Vários estudiosos investigaram sobre a oferta e a demanda por recursos hídricos e
constataram que no mundo, o crescimento populacional, industrial e agrícola tem provocado
um aumento cada vez maior da demanda por recursos hídricos. A água doce, quer seja
superficial ou subterrânea, vai se tornando um recurso natural mais valioso desse milênio. A
este fato se associam a escassez e o mau uso da água como fatores de grande e crescente risco
ao desenvolvimento sustentável e à proteção do meio ambiente.
No entanto, os problemas atuais relacionados à gestão de recursos hídricos são
desafiadores e urgentes. Em vários biomas, na agricultura e na indústria, a água é um insumo
estratégico e finito. Para aumentar a disponibilidade de alimentos e a consequente garantia
de segurança alimentar às populações, a água é fundamental, principalmente no
desenvolvimento crescente da agricultura irrigada, sendo um grande desafio o seu uso mais
adequado ao mesmo tempo em que se garante a disponibilidade de alimentos.
Igualmente, é atribuído à água um papel fundamental em várias fases da agricultura,
pecuária e agroindústria. O sistema de irrigação é o maior usuário de água a nível mundial e
as práticas de utilização da água na irrigação têm mostrado a ocorrência de desperdício na
captação, distribuição, uso e drenagem dos sistemas. O custo da irrigação é relativamente
elevado e uma parcela importante de terras produtivas não pode ser utilizada por falta de
água. A água é um requisito essencial para muitas atividades relacionadas ao crescimento e
desenvolvimento e à redução da pobreza.
32
Todavia, a água tem sido constantemente subvalorizada, o que resulta em seu uso
pouco eficiente. Não há dúvida que a situação cada vez mais deinsegurança hídrica, aliada a
governança hídrica, está afetando os sistemas alimentares e energéticos mundiais, com
maiores impactos sobre as regiões mais pobres e vulneráveis do planeta. Moçambique não é
um país que escapa destes cenários.
Embora de forma não detalhada,o Banco Mundial elaborou18 Estratégias de
Assistência aos Recursos Hídricos no país para dar resposta a diversas questões e aspectos
da gestão e do desenvolvimento dos mesmos e responder aos desafios específicos e ao
contexto de desenvolvimento (BM, 2007). Apesar disso, assistem-se no país cenários
negativos decorrentes de gestão dos recursos hídricos não eficiente. Aliado a isto, há ainda
poucos estudos sistematizados e acadêmicos no que concerne à ligação entre as políticas de
gestão de recursos hídricos e os processos de desenvolvimento em Moçambique e a sua
implementação.
O GdM (MOÇAMBIQUE, 2007) reconhece a importância da Gestão dos Recursos
Hídricos (GRH) nos processos de desenvolvimento em Moçambique. Tanto do lado do
governo assim como do lado dos críticos, poderia se entender que a maneira como a política
de gestão de recursos hídricos vai sendo implementada precisaria de informação científica
que ajude melhor perceber o que está acontecendo no terreno.
Neste caso, faz-se necessário uma reflexão sobre os estudos de Ostrom (1990), em
torno do que se refere à organização e gestão de recursos comuns. Esta reflexão pode
contribuir para a identificação dos princípios que devem reger um sistema de gestão de bens
comuns por parte de uma ou várias comunidades de utilizadores, caso de uso recursos
hídricos partilhados pelas comunidades no país ou entre países da SADC. A pesquisa não só
apresenta o estudo de caso para uma Gestão Integrada de Recursos Hídricos (GIRH) com
vista a um desenvolvimento rural sustentável em Moçambique no geral, como também
subsidia a implementação da Política de Gestão de Recursos Hídricos para o
Desenvolvimento Rural no Posto Administrativo de Xinavane, em particular.
Assim, tornou-se importante desenvolver um estudo que promove o desenvolvimento
de pesquisas e ações voltadas para o aumento da disponibilidade hídrica e uso adequado da
água na agricultura, baseadas no desenvolvimento de sistemas de captação e irrigação mais
eficientes, aprimorando os equipamentos mais eficientes e econômicos, apostas em práticas
agrícolas sustentáveis, maior conhecimento das relações água/solo/planta, reuso de águas
urbanas e industriais, dessalinização, climatologia, conhecimento dos processos de previsão
de chuvas, entre outros.
33
De forma mais específica e com relação a escolha de Posto Administrativo de
Xinavane (Distrito de Manhiça) como área em estudo deve-se ao fato de este lugar ser
atravessado pelo Rio Incomáti. Através desse rio são desenvolvidas diversas atividades
(agricultura, plantações de cana-de-açúcar, pecuária, indústria açucareira, entre outras) que
demandam a utilização da água como recurso para o desenvolvimento nacional e regional.
As demandas pela água do Rio Incomáti podem contribuir não só para o desenvolvimento
dessas atividades, mas também para o déficit e a contaminação da água e conflitos regionais
pelo fato deste Rio ser partilhado com os países da montante e a diversidade de atores ou
utilizadores do mesmo.
O Rio Incomáti constitui um forte potencial para o desenvolvimento no local de
estudo, configurando desse modo o Posto Administrativo de Xinavane como um dos pontos
de referência para o crescimento e desenvolvimento da região. Essa importância que se
atribui ao Rio Incomáti permite perceber a escolha deste local para o estudo realizado, ou
seja, se mostra adequada ao estudo da implementação das políticas públicas que promovem
o desenvolvimento. Os estudos realizados sobre o desenvolvimento nesse local ainda não
abordaram de forma específica a contribuição da Política de Gestão de Recursos Hídricos
para o Desenvolvimento Rural ou estudos similares. Pesquisas realizadas relacionam-se por
exemplo com estudos de análise do impacto da expansão da produçaão de açúcar no bem-
estar dos trabalhadores agrícolas em Xinavane desenvolvido por Ibraymo (2013); de
percepções sobre o sistema de produção por contrato na indústria açucareira de Xinavane
desenvolvido por Mabuie (2015); de impacto socioeconômico das empresas de agro-
processamento no desenvolvimento das comunidades rurais no distrito de Manhiça- o caso
da açucareira de Maragra realizado por Macamo (2016); entre outros. Os grandes projetos de
produção de açúcar (Xinavane e Maragra) e com impacto directo no crescimento e
desenvolvimento econômico do país, têm o Rio Incomáti como fonte de plantações de cana-
de-açúcar, principal matéria- prima utilizada.
Portanto, não existem estudos exaustivos que versam a contribuição do potencial que
o Rio Incomáti tem na melhoria de qualidade de vida das populações locais e no
desenvolvimento das atividades agrícolas e megaprojetos agrícolas (plantações de cana-de-
açúcar e a açucareira) que existem neste Posto Administrativo e no distrito de Manhiça no
geral.
Nesta senda, o trabalho se torna relevante e atual para a realidade de Moçambique,
pois parte significativa das bacias hidrográficas são compartilhadas com os países da região
e, muitas vezes, o uso deste recurso pelos países vizinhos tem criado alguns transtornos ao
34
país. Discutir a política de gestão dos recursos hídricos na perspectiva de Ostrom (1990),
tendo em conta a satisfação das necessidades hídricas das populações dos países que
compartilham a mesma bacia hidrográfica e relacionar com as ações de melhoria da qualidade
de vida das famílias para que se alcance o almejado desenvolvimento, configura a relevância
deste estudo. A participação e a atuação das comunidades rurais, muitas vezes vulneráveis
aos efeitos dos eventos naturais (cheias, secas e ciclones) pode permitir a melhor adequação
da Política de Gestão de Recursos Hídricos ao contexto de Desenvolvimento rural no país.
Para Ostrom (1990), a elaboração das regras tem maior sucesso se for combinada de uma
forma cooperativa entre os utilizadores.
Portanto, ainda na sua expressão mais alta, a pesquisa trabalho buscou trazer à
superficie o conhecimento e os fundamentos que balizam a Política Nacional de Recursos
Hídricos em Moçambique que promove a governança participativa, descentralizada,
democrática e partilhada e o bem-estar social das comunidades rurais. Nessa direção, é
necessário ampliar a discussão a partir de outras percepções para enriquecer o debate,
buscando novos paradigmas para a governança da água por meio do diálogo interdisciplinar,
revisão teórica, construindo as propostas de soluções necessárias para a sustentabilidade.
O estudo configura-se fundamental ao referenciar que os recursos hídricos são
elementos estratégicos em todas as interações das dimensões de desenvolvimento
(socioeconômica, política, ambiental, entre outras).
A presente pesquisa compreende os seguintes capítulos:
O capítulo 1 refere-se a Introdução. Neste capítulo foi apresentado o objeto da
pesquisa, a contextualização, os objetivos de pesquisa, a problematização e o problema, as
hipóteses e a justificativa do estudo.
O capítulo 2, baseando- se na revisão teórica foram apresentados os principais
conceitos e abordagens relativas ao tema da pesquisa. A vulnerabilidade hídrica e Pobreza, a
Resiliência, a Governança Hídrica, a Segurança hídrica, o Desenvolvimento e o
Desenvolvimento Rural constituem os conceitos elencados neste capítulo. Relativamente as
abordagens foi possível abordar a agricultura em Moçambique tendo em conta as
potencialidades agoecológicas, as caracteríticas e perspectivas de desenvolvimento agrícola
à luz da Política de Gestão de Recursos Hídricos.
No capítulo 3, focalizando-se no estudo das políticas públicas, foi possível de forma
sumária, trazer a discussão teórica do conceito, formulação e implementação dessas políticas
e, mapear as que tem como meta a Gestão Hídrica e promoção de Desenvolvimento Rural
em Moçambique. Desse modo, foram mapeadas as seguintes políticas públicas: a Estratégia
35
de Desenvolvimento Rural e a promoção do uso de recursos naturais, a política agrária-
(des)continuidades e Desenvolvimento Rural em Moçambique, o PARP-2011 a 2014, e no
fim, é apresentada a Gestão de Recursos Hídricos sob ponto de vista de Política de Gestão de
Recursos Hídricos, sua relação com a teoria de Ostrom e perspectivas de Desenvolvimento.
O capítulo 4, alicerçado na metodologia, ilustrou os principais métodos e têcnicas
utilizadas para a materialização da pesquisa, as categorias das variáveis e as limitações do
trabalho do campo. Foi apresentada a revisão teórica, a utilização de métodos quantitativos
(estatística descritiva) e qualitativos, questionários, entrevistas e registros fotográficos, que
permitiram chegar aos resultados apresentados .
O capítulo 5 corresponde aos resultados obtidos a partir da pesquisa de campo.
O capítulo 6 refere-se às considerações finais.
A pesquisa inclui, no fim, as referências e apêndices.
36
2 RECURSOS HÍDRICOS, DESENVOLVIMENTO E DESENVOLVIMENTO
RURAL: CONCEITOS E ABORDAGENS
Neste capítulo objetivou-se dar coerência e consistência a uma trajetória longa e
analítica de abordagens teóricas assimiladas, desconstruídas, reconstruídas nesta
problemática, a partir da interação entre realidades humanas e não humanas, no plano teórico
e no campo da observação.
São definidos e contextualizados os conceitos e as teorias relacionados com os
enfoques qualitativos e quantitativos da pesquisa, ou seja, a etapa em que o pesquisador
apresenta uma seleção de estudos e observações já feitas com relação à problemática em
investigação.
A despeito desta pesquisa são definidos e discutidos, entre vários conceitos e
abordagens, os seguintes: o conceito da vulnerabilidade (hídrica) e da pobreza enquanto
efeitos, estruturalmente, relacionados com a Política de Gestão de Recursos Hídricos; a
governança hídrica e a segurança hídrica, e a resiliência enquanto parte de instrumentos e/ou
pilares da Política de Gestão de Recursos Hídricos.
São igualmente apresentados e debatidos vários conceitos e abordagens sobre o
desenvolvimento enquanto um processo progressivo e de mudanças qualitativas dos sujeitos
de desenvolvimento, proporcionado pela Política de Gestão de Recursos Hídricos e pelo
desenvolvimento rural enquanto um processo específico de desenvolvimento com foco para
as zonas rurais.
Neste contexto e no subcapítulo que segue são apresentados os conceitos e
abordagens sobre a vulnerabilidade (hídrica) e a pobreza, enquanto efeitos, estruturalmente,
resultantes da forma como a Política de Gestão de Recursos Hídricos se articula e se relaciona
com outras políticas de desenvolvimento rural.
2.1 VULNERABILIDADE (HÍDRICA) E POBREZA
Existe diferença e polissemia entre os conceitos de vulnerabilidade e de pobreza, não
havendo desta forma consensos entre autores, conforme ilustram os próximos parágrafos. Há
mais de duas décadas, o conceito de vulnerabilidade goza de prestígio no campo da saúde
pública. Portanto:
37
Dado seu reconhecido valor heurístico, o conceito é usado, há mais tempo, em
outros campos afastados da área da saúde, o que aumenta sua polissemia. As
ciências jurídicas, a informática, as ciências econômicas, a geografia, a geologia
etc. empregam o conceito de vulnerabilidade para designar objetos e situações
diversas. No contexto da economia, por exemplo, vulnerabilidade significa
instabilidade financeira, crises, volatilidade de preços etc., ou seja, situações que
perturbam um curso desejado de eventos antes existentes. (OVIEDO;
CZERESNIA, 2014, p. 2).
Chambers (s/d) na sua obra intitulada “Fazer dos últimos os primeiros” refere que a
vulnerabilidade se relaciona com pobreza através de meios de produção, fraqueza física,
isolamentos familiar, social e espacial, dependência, etc., relativamente a outro polo, a dos
mais fortes/poderosos “ricos”.
Neste cenário em torno da compreensão do conceito de vulnerabilidade, o Programa
das Nações Unidas Para o Desenvolvimento- PNUD (2008) define vulnerabilidade como
sendo a propensão para sofrer transformações significativas como consequência da interação
com os processos externos e internos.
PNUD (2008) sublinha que a vulnerabilidade é aplicável para qualquer sistema que
interage com ambiente em particular com sistemas humanos (vila, grupo social), sistemas
naturais (ecossistema) e sistemas sócio ecológicos que incluem ambos comportamentos
humanos e biofísico.
Portanto, o conceito centra-se na sensibilidade do sistema e a capacidade de resposta,
ou seja:
a) na probabilidade de o evento ocorrer;
b) no tipo e magnitude, intensidade ou na velocidade do evento;
c) no nível de exposição do sistema do evento;
d) nas transformações sofridas por um sistema e seguindo o impacto do evento.
Conforme as mudanças climáticas e seus efeitos sobre territórios e seus habitantes,
pode-se entender o conceito vulnerabilidade como sendo extremamente vasto, devido à
imensidão de fatores que concorrem para o seu evento e a natureza do seu impacto. A
vulnerabilidade a mudanças climáticas compreende o risco de ocorrência dum evento (ex:
seca, ciclone, cheias) e a capacidade de adaptação das comunidades perante esse evento (tais
como recursos materiais, financeiros, implementação de estratégias de adaptação, etc.)
(MOÇAMBIQUE - MICOA, 2005).
Na perspectiva da pesquisa, considera-se vulnerabilidade a exposição das pessoas à
todos os impactos físicos-naturais e socioeconômicos consequentes da ocorrência de eventos
climáticos extremos, e a incapacidade de as populações adaptarem-se, e ainda agravados
38
pelos níveis de pobreza extrema que a população enfrenta. Logo, a pobreza é uma das causas
e consequências da vulnerabilidade hídrica em muitas regiões de bacias hidrográficas em
Moçambique.
Dessa forma, a ocorrência destes eventos agrava mais as condições que concorrem
para o bem-estar quando acompanhadas de fraca capacidade institucional, que conduz muitas
vezes à limitação das populações em aceder aos recursos básicos, intensificando assim a
pobreza crônica a que as populações estão sujeitas, além de provocar grandes prejuízos para
as famílias e as comunidades em risco, particularmente nas zonas com menor assistência e
isoladas, o exemplo de muitas zonas rurais do país.
A análise e discussão crítica do conceito de vulnerabilidade socioeconômica e
ambiental norteiam a presente pesquisa. De acordo com Bolson e Haonat (2016), pode-se
perceber que a vulnerabilidade hídrica se relaciona com a capacidade da (s) pessoa (s), grupo
social, empresa, etc., lidar-se com a qualidade e a quantidade de água disponível para o
consumo, saneamento, produção, etc. Isto significa que não se avalia somente a questão da
poluição e contaminação, mas também a quantidade de água que podem levar à insegurança
hídrica de um determinado espaço geográfico (em períodos de secas ou de cheias).
Por conseguinte, na presente pesquisa são analisadas, através de inquéritos,
entrevistas e observação, a vulnerabilidade hídrica e a pobreza estabelecendo sua relação com
as mudanças climáticas e, sobretudo, com governança hídrica e a segurança hídrica no local
de estudo. Reitera-se que o conceito de vulnerabilidade pode ser aplicado a uma pessoa ou a
um grupo social (crianças, as mulheres, idosos e outros) conforme a sua capacidade de
prevenir, de resistir e de contornar potenciais impactos e riscos.
Portanto, a partir deste conceito se associa efusivamene os conceitos vulnerabilidade
social6 e vulnerabilidade socioambiental7. A vulnerabilidade social:
[...] carateriza a condição dos grupos de indivíduos que estão a margem da
sociedade, ou seja, pessoas ou famílias que estão em processo de exclusão social,
principalmente por fatores sócioeconômicos, alguns exemplos: as condições
precárias de moradia e saneamento, os meios de subsistência inexistentes e a
ausência de um ambiente familiar. (OVIEDO; CZERESNIA, 2014, p. 2).
6
Vulnerabilidade social não é sinônimo de pobreza, mas sim uma condição que remete a fragilidade da situação
sócioeconômica de determinado grupo ou indivíduo. A vulnerabilidade social é medida através da linha de
pobreza, que é definida através dos hábitos de consumo das pessoas, o valor equivalente a meio salário
mínimo. Os grupos em vulnerabilidade social encontram-se em acentuado declínio do bem-estar básico e de
direito dos seres humanos. Uma das hipóteses mais eficazes para garantir, a médio e longo prazo, a diminuição
da vulnerabilidade social é o aumento da escolaridade, principalmente a qualidade da educação e da cultura.
7
Vulnerabilidade socioambiental definida como a coexistência ou sobreposição espacial entre grupos
populacionais muito pobres e com alta privação (vulnerabilidade social) e áreas de risco ou degradação
ambiental (vulnerabilidade ambiental).
39
O conceito vulnerabilidade socioambiental aprofunda o conceito de vulnerabilidade
social incorporando aspectos de natureza ambiental ou seja inclue a análise de áreas de riscos
ou degradação ambiental (ALVES, 2006). O autor refere que “no interior do grupo de setores
censitários de alta vulnerabilidade social, existem grandes diferenças nas condições
socioeconômicas e demográficas, relacionadas às diversas categorias de vulnerabilidade
ambiental”(ALVES, 2006, p. 43). Neste caso, existe uma combinação de duas dimensões, a
dimensão social e a dimensão ambiental. Como foi referido nos parágrafos anteriores, existe
uma visão difusa sobre o conceito de vulnerabilidade, ou seja, nele configuram aspectos
diversos (sociais, econômicos, ambientais, entre outros). Os efeitos dos eventos climáticos
(cheias, secas, ciclones) e antrópicos (atividades produtivas) impactam nesses aspectos.
Relativamente à vulnerabildade hídrica, existe um debate em torno do conceito,
conforme a literatura relata. Pese embora, se verifique a divergência no uso de termos para
se definir este conceito, os autores acabam desaguando na ideia de uma exposição natural ou
estruturalmente imposta às pessoas perante eventos naturais, como por exemplo, frente às
inundações, às secas, aos ciclones, entre outros e sem capacidade pessoal ou institucional de
resposta. Isto pode ser sintetizada na ideia de Bolson e Haonat (2016) ao relacionarem a
vulnerabilidade hídrica com a (in) capacidade da(s) pessoa(s), grupo social, empresa, etc.,
lidar-se com a qualidade e a quantidade de água disponível para o consumo, saneamento,
produção, etc.
No que diz respeito a abordagem do conceito pobreza, é importante ressaltar que, no
começo do século XX entendia-se a pobreza como um estado no qual os ganhos totais eram
insuficientes para obter o mínimo necessário para a manutenção da mera eficiência física ou
seja a nível de subsistência. No final do mesmo século, a pobreza passa a não ser definida
em termos absolutos, mas em termos de privação relativa (TOWNSEND, 1979 apud
THORPE et al., 2016).
Neste contexto, considerou-se que cada sociedade possui um nível médio de
condições de vida, dieta alimentar, moradia e tipo de atividades de que as pessoas podem
participar. Quando uma pessoa ou família carecessem de recursos para obtê-los eram
excluídos socialmente da vida normal e tinha privações materiais. Incluem-se ainda a questão
de pouca habilidade e saúde ruim. Nesta vertente, a presente pesquisa procurou captar
aspectos relacionados com as condições socioeconômicas para elencar, no terreno, as
características de habitação, saneamento, educação, reprodução social (condições
financeiras), entre outras.
40
Nesta discussão, Townsend (1979) apud Thorpe et al. (2016) traz outros elementos
da pobreza relacionando-a com a desigualdade na distribuição de renda entre os níveis mais
altos e os mais baixos da sociedade e concluiu que um país poderia se tornar rico, mas com
uma distribuição da renda ser claramente desigual, o número de pessoas na situação de
pobreza tenderia a aumentar. Thorpe et al., (2016), sobre a desigualdade na distribuição da
renda, reforça a ideia de Atkinson (2015) que dá ênfase na eliminação da pobreza e não na
melhoria da distribuição da renda. Ainda nesta questão de desigualdades, o Instituto de
Estudos Sociais e Econômicos- IESE investigou que:
Mais importante do que a questão da maior ou menor igualdade na distribuição, a
razão por que a questão da desigualdade capta tanta atenção é a ideia de injustiça a
que a concentração de recursos e oportunidades está associada. Ou seja, quando se
fala de injustiça geralmente significa que algo não acontece por razões naturais ou
mesmo divinas. A injustiça pode ser contraposta à justiça, o que implica que a
mudança de certas condições pode melhorar o estado e condições de vida (IESE,
2009, p. 1).
Portanto, IESE (2009) reitera que o que determina a diferença da renda é o perfil da
sua distribuição, ou seja, como a riqueza total que é produzida no país se distribui entre os
habitantes e a qualidade e acessibilidade a serviços sociais básicos como educação e saúde,
oportunidade de emprego, proteção dos direitos humanos e acesso ao processo decisório
(poder político e de representação). A pobreza e as desigualidades são explicadas através das
assimetrias regionais em termos de desenvolvimento.
No entanto, IESE (2009) ao analisar as estimativas a nível das grandes regiões de
Moçambique (Norte, Centro e Sul) no período de 1996 a 2006, constatou um aumento da
desigualdade econômica em todas regiões. Ou seja, “entre os dois anos, a região Centro foi
a região que registou o maior aumento (aumento em cerca de 391,4%) relativamente as
regiões Norte (aumento em cerca de 208,3%) e Sul (aumento em cerca de2,3%). A região
Norte, teve um maior aumento da concentração do PIB per capita em relação ao Sul.” (IESE,
2009, p. 21). Durante o período em consideração (1996-2006), houve uma mudança no grau
de distribuiçãodo PIB per capita. A concentração do PIB por pessoa diminuiu a nível
nacional e aumentou consideravelmente a nível das grandes regiões do país (Norte, Centro e
Sul) (IESE, 2009).
Os posicionamentos de Townsend (1979) apud Atkinson (2015) levam-nos a pensar,
primeiro, que a desigualdade na distribuição da renda varia de país para país, de região para
região, de estado para estado, etc., de acordo com os níveis de desenvolvimento; segundo,
mesmo eliminando a pobreza, se for o caso, o problema da distribuição da renda não será
41
resolvido e, ademais, se sabe que em nenhum lugar do mundo a pobreza foi eliminada na sua
totalidade.
Neste contexto, outro elemento que aparece à tona, relaciona-se com a questão da
concentração da renda em função de estratos da sociedade. Neste sentido, e na relação
inevitável entre esses estratos da sociedade, o que acontece no topo da concentração e
distribuição da renda afeta quem está na base, ou seja, pessoas abastadas conscientes chamam
de problema da pobreza e pessoas pobres consideram com igual justiça de problema da
riqueza.
Ademais, outros estudiosos integram a questão da renda aos outros indicadores para
definir e caracterizar a pobreza. No entanto, a pobreza pode-secaracterizar, em geral, por um
processo de exclusão social, principalmente por fatores socioeconômicos: pessoas ou
famílias em condições precárias de moradia e saneamento, os meios de subsistência
inexistentes e a ausência de um ambiente familiar digno, nível baixo de renda ou consumo,
vulnerabilidade e privação (MAXWELL, 1999).
A privação entrelaça-nos à idéia de Sen (1999) apud Crespo e Gurovitz (2002) de que
a pobreza pode ser uma privação das capacidades básicas de um indivíduo e não apenas como
uma renda inferior a um patamar pré-estabelecido. De acordo com Perondi (2014, p. 96) “a
relação entre renda, pobreza e a distribuição dos recursos entre populações permite a análise
sobre o papel das políticas públicas na redução da desigualdade ou pobreza, por relacionar a
pobreza com falta de bem-estar.” Compreende -se que a pobreza pode significar a
incapacidade de a pessoa perceber o seu potencial. Para Sen (2000) não basta a longividade,
há necessidade de bem-estar e, para tanto, necessita-se fomentar processos produtivos que
resultem em oportunidades reais para resolver as questões pessoais e sociais.
Todavia, para Asselin (2009, p. 33), pensar na pobreza significa “identificar uma
situação considerada inaceitável e injusta numa dada sociedade.” Entretanto, pode-se
perceber que o conceito de pobreza pressupõe considerações normativas do significado de
justiça numa visão multidimensional: renda, educação, saúde, alimentação ou nutrição,
acesso à água potável ou saneamento, trabalho ou emprego, habitação e ambiente onde vive,
acesso a ativos (crédito), acesso a mercados, participação na comunidade ou bem-estar social.
A inexistência ou a insuficiência do acesso a estes elementos implica expor as pessoas aos
efeitos de qualquer fenômeno adverso ou seja, exposição das famílias ou comunidades às
condições de vulnerabilidade e de pobreza.
Atualmente, a luta contra a pobreza encontra-se firme na agenda política, com
governos nacionais estabelecendo metas explícitas e, porque a pobreza, fortemente, se
42
relaciona principalmente com a distribuição da renda (renda entendida nas suas variadas
vertentes), o problema desta distribuição deve ser resolvido por se tratar de um mero produto
das forças ao nosso controle.
A pobreza inclue uma vasta terminologia, como por exemplo: nível baixo de renda
ou consumo, subdesenvolvimento humano, exclusão social, falta de recursos, necessidades
básicas não atingidas, privação e entre outra. As necessidades básicas relacionam-se com a
renda, a educação, a saúde, a alimentação ou a nutrição, o acesso à água potável ou
saneamento, o trabalho ou emprego, a habitação e o ambiente onde vive, o acesso a ativos
(crédito) e ao mercados, participação na comunidade ou bem estar social.
A vulnerabilidade relaciona-se com a exposição ou propensão do indivíduo ou grupos
sociais face a insatisfação das necessidades básicas. A vulnerabilidade hídrica incorpora a
vasta terminologia e a exposição referida tendo em conta os múltiplos usos da água. Assim
sendo, a falta de acesso aos recursos hídricos e de forma específica nas zonas rurais pode
impactar nos processos produtivos e nos serviços que promovem o desenvolvimento.
Portanto, a pobreza e a vulnerabilidade impactam sobre os processos de desenvolvimento. A
ausência do acesso às condições de desenvolvimento socioeconômico e ambiental (recursos
naturais, educação, saúde, saneamento, emprego, habitação, alimentação, entre outras)
configura a percepção sobre o conceito de pobreza e a consequente exposição aos efeitos dos
eventos extremos naturais e antrópicos, neste caso a vulnerabilidade.
Em Moçambique, “a pobreza tem a sua face mais visível nas zonas rurais, onde ela é
mais acentuada, representando 55%, comparativamente com as zonas urbanas, onde ela
representa 52%”. (CEMO8, 2010, p. 15). De acordo com o Plano Diretor de Extensão Rural,
a pobreza relaciona-se com o limitado desenvolvimento da atividade agrícola, dos mercados
e os baixos níveis de produtividade. O potencial agrícola não é devidamente convertido na
geração de receitas e na criação de emprego de modo tangível, o exemplo de potencial de
irrigação, o que exige da parte do Governo, das entidades privadas, associativas e dos
produtores singulares, nova forma de abordagem da Política de Gestão de Recursos Hídricos
no setor agrícola.
A pobreza e as desigualidades não podem ser explicadas somente e a partir dos
padrões anteriormente referidos, mas também por categoria gênero. Por isso, na presente
pesquisa inclui ainda aspectos relacionados com a questão do gênero, neste caso o gênero
feminino.
8
Centro de Estudos Moçambicanos e Internacionais,, Maputo, 2010.
43
A questão do fundo centra-se nas desigualdades funcionais e de dominação ou
subordinação da mulher nas relações sociais com impacto nos processos de desenvolvimento.
Outrora, as atividades foram apropriadas ao sexo masculino e ao feminino, dividindo as
tarefas relativas à produção e à reprodução social, o que de sobre maneira limitou a análise
de relações de gênero ligadas a pluriatividade e ao desenvolvimento rural no Basil, por
exemplo (CASTILHO; SILVA; SCHNEIDER, 2015).
O GdM (2007) reconhece o papel da mulher como sendo vital no fornecimento,
gestão esalvaguarda da água, e deverá por conseguinte, ser totalmente envolvida
nodesenvolvimento e implementação de políticas, processos e gestão de programasde
desenvolvimento à todos os níveis.
Para Martins (2015), a categoria gênero posiciona homens e mulheres no campo de
tomada de decisões. Nesse contexto, Pereira (2015) sublinha que a categoria gênero
configura uma importância crescente nos recentes modelos de desenvolvimento, visto que
nas sociedades rurais são as mulheres que produzem, tradicionalmente, produtos e serviços
alimentando deste forma debates e uma vasto campo de literatura.
Nos anos recentes, esta categoria se constitui em um tema-chave nas pesquisas sobre
o desenvolvimento rural sublinhando o papel da mulher nas relações sócioeconômicas ( nos
âmbitos reprodutivo, produtivo e comunitário).
A mulher tem vindo a contribuir para a geração de riqueza nas famílias via renda ou
via outras alternativas. O exemplo desta contribuição já foi referenciado nos estudos de
Staduto et al. (2015), na abordagem sobre desenvolvimento rural e gênero. Portanto, a maior
parte da renda da mulher é direcionada à educação, alimentação e cuidados de saúde dos
demais membros das famílias sem renda, reduzindo o risco social da família, sobretudo a
vulnerabilidade das famílias.
A literatura em torno da categoria do gênero busca superar a invisibilidade do papel
social da mulher nos processos de desenvolvimento.
Portanto, na vertente da pesquisa, a vulnerabilidade (hídrica) e a pobreza são
conceitos que se relacionam com agovernança hídrica, a segurança hídrica, com o
desenvolvimento, ou seja, com as políticas públicas, como se constata ao longo deste capítulo
e no propósito deste estudo. A governança hídrica e a segurança hídrica constituem uma parte
dos pilares da política de gestão dos recursos hídricos.
Arolados os conceitos sobre a vulnerabilidade e a pobreza, percebe-se que as
variáveis que explicam os níveis de pobreza explicam o grau de exposição (vulnerabilidade)
das pessoas ou comunidades aos efeitos dos eventos climáticos adversos.
44
O papel das políticas públicas neste aspecto é fundamental para providenciar
condições que concorram para a redução das desigualdades na distribuição da renda,
promoção de outras alternativas de acumulação reduzindo a vulnerabilidade das pessoas.
A conceitualização da Pobreza passa por uma forte discussão entre vários autores:
Maxwell (1999); Sen (1999) apud Crespo e Gurovitz (2002); Perondi (2014, p.96); entre
outros. O resultado desta discussão se constitui na visão multidimensional do conceito
pobreza que inclui um conjunto de variáveis: renda, educação, saúde, alimentação ou
nutrição, acesso à água potável ou saneamento, trabalho ou emprego, habitação e ambiente
onde a pessoa vive, acesso a ativos (crédito), acesso a mercados, participação na comunidade
ou bem-estar social.
A partir do aspecto de adaptação aos impactos gerados pela vulnerabilidade hídrica
remeteu-se a pensar na abordagem do conceito resiliência neste capítulo, visto que a pobreza,
a vulnerabilidade e a resiliência são características interrelacionadas.A pobreza é causa e
consequência da vulnerabilidade e, esta resulta de estruturas sociais e econômicasque
produzem condiçõesde vida precárias e deterioradas, expressando menor capacidade
deredução de riscos e baixa adaptação aos impactos (resiliência).
Por isso, na seção que se segue abordam-se a resiliência e eventos hídricos extremos
(cheias/inundações, secas e ciclones). Nessa abordagem inicia-se com a apresentação do
debate existente em torno do conceito de resiliência e no fim as implicações para a pesquisa.
2.2 RESILIÊNCIA E EVENTOS HÍDRICOS EXTREMOS (CHEIAS/ INUNDAÇÕES,
SECAS E CICLONES)
Neste ponto, pretende-se trazer uma abordagem sobre a resiliência das comunidades
aos efeitos das cheias, secas e ciclones. Vários estudos mostram que as inundações
constituem eventos cada vez mais frequentes e com enormes prejuízos, exemplo de estudos
realizados por MICOA (2005), GdM (2007), Maluf e Rosa (2011). Os eventos hídricos
extremos associados à abundância ou escassez hídricasão influenciados pelo clima e pela sua
dinâmica (variabilidade climática ealteração climática), e podem colocar em risco o
equilíbrio e funcionamento dos ecossistemas e das sociedades. Estudos desenvolvidos nesta
temática revelam que a responsabilidade da redução do risco de desastre é uma missão que
compete a todos, por ética e princípios de humanismo e solidariedade.
Considerando a conceitualização do termo resiliência, existem diferenças entre
alguns estudiosos. Para Saavedra e Budd (2009), a resiliência consiste na capacidade de a
45
pessoa, antecipar as alterações e dinâmicas futuras de forma a adaptar-se e estar preparado
para lhes fazer face, sendo o ordenamento do território uma das ferramentas quepermitem
reduzir perdas e danos. Segundo United Nations International Strategy for Disaster
Redution- UNISDR (2012), resiliência significa a habilidade de um sistema, comunidade
exposta a uma ameaça resistir, absorver, acomodar e se recuperar dos efeitos das ameaças de
maneira eficiente, incluindo a preservação e restauração das suas estruturas básicas e
funcionais. Buijn (2004) defende aresiliência como habilidade de o sistema manter seus
processos e características mais importantes quando sujeito a distúrbio, ou seja, capacidade
de um sistema em retornar para o equilibrio ou estágio de desenvolvimento anterior a uma
perturbação.
Os eventos hídricos extremos são conhecidos e dependem danatural variabilidade
climática, podendo a sua dinâmica e frequência serem alteradas por influência das alterações
climáticas e sendo o padrão e velocidadesdestas últimas condicionadas pelas atividades
humanas (DGOTDU, 2009).
Hoje, as medidas estruturais no combate aos eventos extremos vão sendo substituidas
por práticas de resiliência, ou seja, a preocupação dos diferentes atores desse combate
consiste em se adaptar àsas consequências e aos prejuizos destes eventos.
A adaptação às consequências e aos prejuízos pode ser influenciada por fatores como:
o evento natural causando o risco (ameaça), a probabilidade de o evento devido ao evento
natural (vulnerabildade), a quantidade de pessoas expostas (exposição), avaliação das
medidas de prevenção e preparação contra o evento e suas consequências (antes), medidas
de combate direto (durante) e medidas de reconstrução após o evento (depois).
Freitas (2012, p.1584-1585) refere que:
A questão de desenvolver habilidades e fortalecer as capacidades para tornar-se
resiliente envolve mudanças de padrões, desde os cognitivos (o modo como se
interpreta o mundo ao redor e seus eventos) até as políticas e ações que resultam
nos macro-determinantes sociais, econômicos e ambientais que resultam não só
nos aspectos básicos do viver (acesso ao trabalho, renda, alimentação, educação,
saúde, habitação,saneamento ambiental, entre outros), como também de onde se
vive e trabalha (uso e ocupação do solo, de gestão ambiental e apropriação dos
recursos naturais, entre outros) articulados e integrados com políticas sistêmicas
orientadas para a sustentabilidade ecológica e a justiça social como pilares do
desenvolvimento sustentável (FREITAS, 2012, p.1584-1585).
Para assegurar a resiliência de uma comunidade é fundamental existir uma
abordagem de envolvimento, de união, de partilha de informação e de implementação dos
diversos níveis do conhecimento e de formação. A resiliência exige profundas mudanças nos
46
padrões de desenvolvimento socioeconômico e ambiental como pilares de desenvolvimento
sustentável. Portanto, a expansão do acesso aos serviços de saúde, saneamento, habitação,
emprego, água, entre outros, configura a necessidade de infraestruturas eficientes que
respondam à satisfação das necessidades básicas de modo a reduzir os riscos à exposição das
famílias ou comunidades face aos efeitos dos eventos extremos adversos.
Dentre vários aspectos como a abordagem integrada e a exigência de mudanças nos
padrões de desenvolvimento socioeconômico e ambiental na percepção do conceito de
resiliência coloca-se uma série de desafios à governança em geral e à governança hídrica em
específico. Entretanto, as caraterísticas da governança e da governança hídrica podem
refletir-se na falta ou não das características de resiliência. A falta dessas características na
gestão dos recursos hídricos pode implicar falha da governança hídrica e com consequências
na capacidade de adaptação aos efeitos dos eventos extremos (resiliência).
Portanto, as dificuldades relacionadas com gestão compartilhada e descentralizada,
a interação e articulação de diferentes atores e utilizadores nas bacias hidrográficas, as
práticas insustentáveis no uso dos recursos hídricos e conflitos de interesse entre usuários,
constituem características das falhas da governança. Em contrapartida, investir não apenas
nesses aspectos, mas também em outros indispensáveis na governança, como por exemplo,
a recuperação e a construção de infraestruturas hídricas, a capacitação dos usuários, o papel
das mulheres na tomada de decisão, na clareza e na distinção das responsabilidades na
formulação de política pública e na sustentabilidade dos recursos financeiros da bacia, dentre
outros, pode reforçar a governança hídrica.
Contudo, a pobreza e a vulnerabilidade (hídrica) constituem um dos reflexos de uma
determinada forma, senão até uma das consequências das falhas da governança no geral e de
modo específico da governança hídrica. A literatura e ações correntes mostram que
resiliência se constitue em uma das formas de correção das falhas de governança e da
governança Hídrica. Por conta disso, oportuna-se na seção que segue fazer menção aos
conceitos de governança e governança hídrica.
2.3 GOVERNANÇA E GOVERNANÇA HÍDRICA
Quando se aborda esta temática, surge um conceito muito fundamental para
configurar o ponto de partida para percepção sobre a governança e a governança hídrica,
neste caso o governo. Gonçalves (2006, p. 5) citando Rosenau (2000, p. 15) refere que:
47
[...] governança não é o mesmo que governo. O governo sugere atividades
sustentadas por uma autoridade formal, pelo poder de polícia que garante a
implementação das políticas devidamente instituídas, enquanto governança refere-
se a atividades apoiadas em objetivos comuns, que podem ou não derivar de
responsabilidades legais e formalmente prescritas e não dependem,
necessariamente, do poder de polícia para que sejam aceitas e vençam resistências.
(GONÇALVES, 2006, p. 5 apud ROSENAU, 2000, p. 15).
A discussão sobre os conceitos governo e governança nesta pesquisa aponta que
houve uma evolução dos conceitos de centralização e hierarquia para uma nova forma mais
inclusiva e cooperativa de governar a sociedade. Para Bolson e Haonat (2016, p.229) “... é
necessária a cooperação entre os atores da bacia - em especial o governolocal; os
consumidores; os gestores; os eventuais empreendedores; asociedade civil -, para que se
criem e se implementem as políticas e osacordos indispensáveis à gestão da água.”
Percebe-se que a governança caracteriza-se fundamentalmente por
descentralização, participação, partilha e inclusão na tomada de decisão e nas funções dos
atores de desenvolvimento superando as limitações da centralização e hierarquia no governo.
Portanto, a governança é um conceito mais amplo que o de governo, visto que incorpora e
estravasa em si mesmo a dimensão governamental. Sendo um campo mais amplo, abrange
não só as instituições governamentais, mas também mecanismos informais, de caráter não-
governamental, que fazem com que as pessoas e as organizações dentro da sua área de
atuação tenham uma conduta determinada, satisfaçam suas necessidades e respondam às suas
demandas (GONÇALVES, 2006).
Diniz (1999, p. 163) apud Villar (2012, p. 2), também define a governança referindo
que:
A Governança diz respeito à capacidade governativa em sentido amplo,
envolvendo a capacidade de ação estatal na implementçãodas políticas e na
consecução das metas coletivas. Refere-se ao conjuntode mecanismos e
procedimento para lidar com a dimensão participativa eplural da sociedade, o que
implica em expandir e aperfeiçoar os meios deinterlocução e de administração do
jogo de interesses. [...] pressupõem umEstado dotado de maior flexibilidade, capaz
de descentralizar funções,transferir responsabilidades e alargar, em lugar de
restringir, o universo deatores participantes, sem abrir mão dos instrumentos de
controle esupervisão. (DINIZ, 1999, p. 163 apud VILLAR, 2012, p.2).
Percebe-se que a governança incorpora o envolvimento dos atores (incluindo não-
estatais) e capacidade do Estado descentralizar as funções e transferir sem tréguas as
responsabilidades aos [Link]çalves (2006) sublinha que a governança constitui
meio e processo capaz de produzir resultados eficazes, sem necessidade de coerção. A
governança inclue e envolve as dimensões estatal e não-estatal ou seja, configura a totalidade
das diversas maneiras para administrar problemas com a participação e ação do Estado e dos
48
setores privados. A dimensão não-estatal na governança destaca o papel das organizações
não-governamentais na formulação e implementação de políticas públicas.A governança
busca maiores espaços de participação e influência de todos atores e compreende a ação
conjunta de Estado e sociedade na busca de soluções e resultados para problemas comuns.
A ação conjunta (estatal e não-estatal) referida para esse objetivo conduz a inserção
do conceito governança na perspectiva de Ostrom. Ostrom (1990) aborda como a gestão de
recursos comuns pode ser organizada de uma maneira que evita consumo excessivo e custos
administrativos. A autora refere que os problemas resultantes da exploração de recurso
comum podem ser resolvido não por privatização ou execução imposta por força, mas
fundamentalmente por descentralização, participação e partilha no processo decisório.
Para uma governança efectiva, Ostrom (1990) advoga que a gestão de recursos
comuns sustenta-se através de interação de pequenos grupos de utilizadores segundo um
conjunto de regras comuns, respeitadas e aceitas por todos, envolvendo instituições em
distintas escalas. Os recursos são necessários para todos e constituem fontes de rendimento
ou meios produtivos para o bem-estar humano, daí a necessidade de serem geridos através
de um processo sustentável.
Portanto, os termos governança e governança hídrica embora sejam parecidos têm
significados diferentes e complementares e estão em processo de evolução. Ribeiro e
Johnsson (2018) elencam que o tema governança configura-se nas novas tendências da
administração pública e de gestão de políticas públicas e inclina-se a demandar sistemas para
complementar a autoridade formal.
Percebe-se que, em Gonçalves (2006), a governança refere-se a padrões de
articulação e cooperação entre atores sociais e políticos earranjos institucionais que
coordenam e regulam transações dentro e através das fronteiras do sistema econômico,
incluem-se os mecanismos tradicionais de agregação e articulação de interesses (os partidos
políticos e grupos de pressão), as redes sociais informais (de fornecedores, famílias,
gerentes), hierarquias e associações de diversos tipos. Ou seja, a governança opera num plano
mais amplo, considerando a sociedade como um [Link] que a governança relaciona-
se com o compartilhamento de propostas e responsabilidades, a governança hídrica inclui
estes aspectos na gestão dos recursos hídricos.
A reflexão sobre o conceito de governança é importante para perceber-semelhor o
que é governança hídrica e o que implicam suas falhas nos processos de desenvolvimento.
As percepções sobre a governança hídrica alimentaram o surgimento de debates,
produções acadêmicas em torno da abordagem conceitual e de gestão, no seio das agências,
49
organismos internacionais,como se pode denotar ao longo deste estudo. A título de exemplos
desses estudos, Ribeiro e Johnsson (2018) elencam nomeadamente: estudos da OCDE (2016)
que consideram que o risco gerado por falhas no gerenciamento da água representa igual
risco para economia dos países; os trabalhos da Water Governance Facilitye da PNUD (2005)
defendendo que a governança da água constitui uma das áreas mais críticas para o
desenvolvimento sustentável dos recursos hídricos e dos serviços relacionados à água; a
discussão da governança da água na comunidade de água na Conferência de Bonn (2001) e
na Cúpula Mundial de Joanesburgo (2002) e o 6º Fórum Mundial da Água (Marselha, França,
2012) destacando o reconhecimento da governança efetiva como uma condição crítica para
o sucessono enfrentamento do desafio de efetuar reformas da gestão das águas em todo o
mundo.
No que tange a Governança Hídrica, Bolson e Haonat (2016) defendem a ideia de que
a Governança Hídrica se constitui no estabelecimento de um sistema de regras, normas e
condutas que reflitam os valores e visões de mundo daqueles indivíduos sujeitos a marcos
normativos.A G.W. P (2002, p. 1) definiu a governança das águas como o conjunto de
“sistemas políticos, sociais, econômicos e administrativos disponíveis para aproveitar e
gerenciar os recursos hídricos, e distribuir os serviços hídricos nos distintos níveis da
sociedade”.
Assim sendo, a governança das águas vai abarcar as estruturas políticas, sociais,
econômicas e jurídicas instituídas por uma determinada sociedade para gerir as questões
hídricas (ROGER; HALL, 2003 apud VILLAR, 2012). Coelho e Havens (2015) consideram-
na como um sistema político, social, econômico e administrativo que direta ou indiretamente
influencia o desenvolvimento e a gestão integrada de recursos hídricos para a sociedade.
Para efeitos da pesquisa, estes últimos, com conceito mais abrangente e aplicável à
pesquisa incluem a existência de uma reciprocidade entre Governança Hídrica e as outras
políticas públicas de desenvolvimento.
Todavia, a Governança Hídrica deve atender não só a dimensão política, como
também as dimensões econômica, social e ambiental para que a gestão de recursos hídricos
seja uma política integradora; um processo decisório que envolve os diferentes atores
vinculados ao seu uso, numa visão mais abrangente de revisão das atribuições internas e
externas dos Estados que compartilham da mesma bacia hidrográfica, do papel dos usuários
e do próprio uso da água (COELHO; HAVENS, 2015; JACOBI; SINISGALLI, 2009 apud
BOLSON; HAONAT, 2016; VILLAR, 2012).
50
Para isso, a Governança Hídrica depende da participação, do envolvimento e da
negociação de multi-atores (o governo local; os consumidores; os gestores; os eventuais
empreendedores; a sociedade civil), ou seja, os stakeholders. Incorpora a descentralização
transferindo o poder para o governo local, ou seja, o empowerment, a unidade de gestão por
bacias hidrográficas; e os mecanismos para a resolução de conflitos, ou seja ainda,o conceito
de Governança se baseia em multiplicidade de atores, sua interdependência, objetivos
compartilhados, fronteiras fluídas entre público, privado e esferas associativas e
multiplicidade de formas de ação, intervenção e controle (BOLSON; HAONAT, 2016;
KOOIMAN, 1993 apud LIMA, 2018).
Na componente de descentralização, em Martins (2015) percebe-se que esta
representa não apenas a governança a nivel local (escala vertical), mas também a inclusão de
mais diferentes grupos e racionalidades na construção dos significados sociais da água
(escala horizontal), ou seja, incorpora os usos e os saberes locais múltiplos e a reprocidade
entre s diferentes atores. Portanto, deve existir uma influência mútua entre os que produzem
e reproduzem os conhecimentos e isso parece fundamental em um espaço como por exemplo,
o comitê de bacia, devendo se ampliar a participação dos diversos grupos locais
Quanto à participação, Martins (2015, p. 228) elenca que esta componente “ é um dos
elementos fundamentais para a governança democrática de água.” O autor reforça que a
participação é um processso não linear (de avanços e de retrocesso) e socialmente construido
através de perfis dos segmentos que participam, da frequência às plenárias e o envolvimento
prático com diversas tarefas que demandam um comitê. A participação deve ser percebida
como um processo de negociação, de disputas sociais expressas por conflitos de interesses e
por diferentes visões sobre o mundo. A não efetivação desta percepção por parte dos gestores
pode resultar em não participação de todos os atores dos processos de desenvolvimento.
A não participação, por exemplo dos comitês de bacia pode significar o discurso
oculto de resistência ou seja, a não formulação discursiva explicita sobre determinado estado
de coisas, as regras de recrutamento dos participantes, o formato da participação,o desenho
institucional ou a falta de crença na efetividade do espaço institucional pode reatrair o
envolvimento dos atores (MARTINS, 2015). O autor, alerta que o uso de terminologia
técnica pode compromenter a pretendida ampliação da participação, visto que só favorece os
representantes da burocracia estatal e de entidades de pesquisa e associações profissionais e
impactando nos alvos das políticas públicas (famílias ou comunidades). Portanto, é
necessário que não se legitime o monopólio de saberes de certos agentes em detrimento de
outros, ou seja, não se justifique que a política se valha da técnica e da ciência para orientar
51
e julgar as condutas sociais. “Os comitês devem ser discutidos como palco de interlocução e
composição de interesses” (MARTINS, 2015, p.230).
Nesse sentido, a governança hídrica constitui o conjunto de ações e arranjos
estruturais formais e informais capazes de influenciar na gestão dos recursos hídricos.
Portanto, agovernança hídrica determina a estruturação e a efetividade da gestão dos recursos
hídricos.
Na abordagem sobre a governança hídrica, o conceito de Coelho e Havens (Sd) se
mostra mais abrangente e denotativa. Estes consideram-a como um sistema com vertentes
política, social, econômica e adimnistrativa que de uma e/ou de outra forma interfere no
desenvolvimento e na gestão integrada de recursos hídricos para servir a sociedade. Desta
forma compreende-se no plano geral que a governança hídrica deve ter como foco a
capacidade institucional em dar resposta ao grupo alvo (as pessoas) em situações (previsíveis
ou factíveis) de vulnerabilidade hídrica e pobreza (questões de desenvolvimento) nas áreas
rurais.
Um dos grandes reflexos daefetivação da Governança Hídrica relaciona-se com a
Segurança Hídrica. No ponto que se segue aborda-se a Segurança Hídrica como como reflexo
da Governança Hídrica.
2.4 SEGURANÇA HÍDRICA
A questão da (in) segurança hídrica está intimamente relacionada com a governança
hídrica. A governança hídrica assenta sobretudo na idéia do chamado mínimo existencial e,
o acesso à água é o principal elemento do que a disponibilidade (BOLSON; HAONAT, 2016)
e, “ o direito à água é um direito fundamental reconhecido expressamente pelo Conselho dos
Direitos Humanos da ONU, em suas resoluções números 15/9, de 2010, e 11/8, de 2011”
(BOLSON; HAONAT, 2016, p.227). A água pode constituir-se em um único recurso que
conecta os sistemas naturais e sociais, e nenhum setor pode ser gerenciado sem levá-la em
consideração.
Para todos efeitos da pesquisa, “ a crise de água no sé[Link] é muito mais de
gerenciamento do que uma crise real de escassez e estresse” (ROGERS et al., 2006 apud
TUNDIZI, 2008. p.7). No entanto, reconhece-se que “o aumento do consumo, o elevado grau
de urbanização e o aumento populacional [...] ” (TUNDIZI, 2003 apud GIACOMIN;
OHNUMA, 2012, p.1563) tem efeitos na quantidade e qualidade de recursos hídricos
disponíveis para sustentar o estilo de vida de uma pessoa, região, nação, empresa e produto.
52
Pereira Júnior (2004) realizou um estudo sobre a disponibilidade de recursos hídricos
e constatou que a escassez de água vai se tornando uma realidade em muitas regiões do
mundo sendo mais intensa nos países pobres e desérticas. O autor sublinhou que a escassez
de água não se verifica só nas regiões desérticas (por exemplo:Norte de África e Oriente
Médio), mas também nas regiões úmidas (África Ocidental e Oriental, China, India e
México). Dos 26 países que se dispõem de menos de 1000 m³ anuais por habitante, 11estão
localizados na África (PEREIRA JÚNIOR, 2004).
Porém, o séc. XXI será marcado não mais por disputas voltadas ao petróleo como
aconteceu no século passado, mas sim em torno da água e já é uma realidade (VIEGAS,
2012). Estes conflitos geram externalidades nas relações a todos níveis, atingindo famílias,
comunidades, países ou blocos de países e o mundo no global. Em contrapartida, esses
conflitos poderão fomentar o surgimento de dentetores de reservas de água e acumulação de
riqueza daqueles que a possuir ou a [Link] aos conflitos, são geradas situações
de dependência entre países.
Na componente de dependência gerada entre países, por exemplo, Pereira Júnior
(2004, p. 8) estudou que “o Egito depende do rio Nilo proviniente de Sudão, para a sua
sobrevivência; da Síria, que recebe da Turquia o rio Eufrates; da Holanda, que recebe o rio
Reno; e da Hungria, que o rio Danúbio.” Percebe-se que a garantia do suprimento de água
depende, nesses casos, dos acordos internacionais que reconhecem o direito à água aos países
de jusante. Pela sua localização geográfica, Moçambique é um país de jusante, dos 15 rios
existentes apenas um é inteiramente nacional, ou seja tem sua origem no país.
No que tange aos conflitos, Pereira Júnior (2004) refere que no Oriente Médio e
Nordeste de África, a situação é crí[Link] exemplo, o conflito entre Índia e Paquistão pelas
águas da bacia superior do rio Indus, na região do Punjab e da Cachemira. Israel, Jordânia e
Síria partilham, sob intenso conflito as águas do rio Jordão; Turquia, Síria e Iraque, as do rio
Eufrates; Egito, Sudão e Etiópia, as do médio rio Nilo. Boa parte do conflito entre Israel e
Palestina é movido pela escassez de água da região e a cedênciado território aos palestinos
representa aos israelitas ceder água.
Outro aspecto muito fundamental na disponibilidade dos recursos hídricos relaciona-
se com a qualidade. Nesse sentido, a quantidade de água existente no planeta não significa
toda ela, própria e acessível para o uso e consumo humano e em diferentes setores de
produção, parte dela encontra-se contaminada e não adequada à saúde e consumo humano
conforme o fundamento da Organização Mundial da Saúde (OMS). Viegas (2012) apoiando-
se no fundamento da OMS investigou que 80% das doenças do mundo derrivam-se da
53
ausência da água que provoca a disenteria, hepatite A, malária e amebíase e, de não
tratamento da mesma sendo a poluição hídrica um dos principais canais de propagação de
enfermidades como tifo e cólera. Assim entende-se que a água é um elemento fundamental
e insubstituível à saúde humana e por isso, o seu acesso deve ser permanente e regular e um
direito inalienável.
Igualmente, as concentrações populacionais ou seja a urbanizacão e a intensificação
das atividades humanas constituem outros fatores de insegurança hídrica, visto que a
pecuária, a agricultura, a indústria, além de benefícios socioeconômicos (a riqueza) que
geram, também geram os resíduos sólidos, liquidos e outros que a sua deposição inadequada
pode afetar a qualidade de água e por consequência a qualidade de vida humana, sobretudo
(TUNDISI, 2003 apud VIEGAS, 2012).
Para reforçar a ideia, Bolson e Haonat (2016) referem que num passado recente, os
múltiplos usos de água na agricultura não representavam tantos riscos em relação à segurança
hídrica. No entanto,os autores elencam que com o aumento progressivo da produção de
alimentos em razão da demanda mundial e do uso intensivo da água, fertilizantes, alterações
de drenagem na agricultura, a explosão da urbanização, etc., se vê a degradação da qualidade
da água superficial e subterrânea e a eutrofização de lagos, represas e rios. (BOLSON;
HAONAT, 2016). Ademais, e, não menos importante, o principal fator que agrava a escassez
de água doce na Terra é o seu uso na esfera privada de maneira irresponsável, com fins de
acumulação de capital.
Alguns dados mostram que “a quantidade de água, qualitativamente aproveitável,
suficiente à vida para usos domésticos é de 50 litros ao dia por pessoa, um pouco mais de 18
m³ por ano, admite-se, excepcionalmente, que nos países pobres, 25 litros sejam suficientes”
(PETRELLA, 2004, p. 12 apud BOLSON; HAONAT, 2016). Percebe-se que a
disponibilidade dos recursos hídricos não depende só da distribuição geográfica dos mesmos,
mas também da forma como são gerenciados e reconhecido o direito humano à água.
Isso expressa o quanto o ser humano, para viver com dignidade, precisa de água
potável e que com o aumento das fontes de contaminação, da diminuição da disponibilidade
e do estresse hídrico em muitas regiões do planeta, a segurança hídrica será ameaçada. É
inegável que o gerenciamento das bacias hidrográficas nacionais, por si só, não é capaz de
fazer frente à (eventual) falta de água; e a (in) segurança hídrica é um dos desafios da
governança da água.
Os problemas da desigualdade estão muito ligados à questão da governança da água
em muitas partes do mundo. Por exemplo, o Brasil, mesmo que ocupe 23º lugar entre os
54
países com mais água disponível por pessoa no mundo, de acordo com o Relatório sobre o
Desenvolvimento da água no Mundo, da UNESCO, tem uma distribuição da água, no país,
marcada pela desigualdade: 75% dos mananciais estão na Região Norte, que tem menos de
10% da população; já aRegião Nordeste, com quase um terço da população do país, tem
apenas 3,3% das disponibilidades hídricas (BOLSON; HAONAT, 2016).
Outro dado não menos relevante tem a ver com o consumo da água per capita no
Brasil que dobrou nos últimos vinte anos, mas, no total, “ cerca de 40 milhões de pessoas
vivem em domicílio sem rede ou que, mesmo servido pela rede de abastecimento público,
tem fornecimento intermitente ” (URBAN, 2004, p. 107 apud BOLSON; HAONAT, 2016).
Moçambique não constitui uma exceção a muitos destes cenários de distribuição de
demandas e ofertas por recursos hídricos. O governo de Moçambique – GdM (2007, p. 8-
12) refere, por exemplo que:
A situação dos recursos hídricos em Moçambique, em termos absolutos, se
compara razoavelmente bem com a dos outros países que ocupam zonas climáticas
similares. A média total anual do escoamento superficial é estimada em 216
km3/ano. O total fluxo de entrada na fronteira é de aproximadamente 116 km3/ano,
enquanto o escoamento superficial gerado dentro do país é em média 100 km3/ano.
Portanto, mais de 50% da média total do escoamento superficial é gerado fora do
país. ... A alta dependência de Moçambique em recursos hídricos compartilhados
é um fator importante na disponibilidade e vulnerabilidade hídrica
[Link], a capacidade de produção dos sistemas de abastecimento de
água para as 13 principais cidades, com um total de cerca de 4 milhões de
habitantes, é aproximadamente 250,000 m3/dia (ou uma produção total de uns 80
Mm3/ano). Cerca de 75% desta produção serve a área de Maputo (principalmente
do rio Umbeluzi, regulado pela barragem dos Pequenos Libombos). A maioria do
abastecimento de água para as áreas urbanas depende da provisão de água
superficial. Somente quatro cidades principais – Pemba, Tete, Xai-Xai, e Chokwe
– dependem de fontes de água subterrânea. (MOÇAMBIQUE - GdM, 2007, p.8-
12).
Percebe-se que a alta dependência em recursos hídricos internacionais e a infra-
estrutura muito limitada de gestão de água constituem fatores fundamentais da
disponibilidade de recursos hídricos em Moçambique. Esta dependência torna a economia
muito vulnerável a choques hídricos, e a água representa um constrangimento ao crescimento
e à redução da pobreza. Portanto, o potencial em recursos hídricos não significa distribuição
regular dos mesmos ou seja seu acesso por todas as regiões. Este aspectos influenciam
igualmente na segurança hídrica no país.
Portanto, a água continua sendo um bem que não pode ser substituido por outro, quer
seja natural, quer seja artificial, tendo em conta as suas qualidades e seus múltiplos
[Link] visão de sustentabilidade e de reconhecimento do direito humano, a água deve
55
constituir na agenda política e de políticas públicas um recurso disponível em quantidade e
qualidade adequadas para as gerações atuais e futuras.
No caso da abordagem sobre a segurança hídrica, o conceito defendido por Bolson e
Haonat (2016); Rogers et al. (2006) apud Tundizi (2008, p.7) dá resposta à discussão que
existe em diferente literatura sobre a crise de água ou seja a quantidade e a qualidade de água
no planeta Terra. Para estes, “o acesso à água é o principal elemento do que a disponibilidade”
e como senão bastasse, a crise de água no sé[Link] é mais de gerenciamento do que uma crise
real de escassez e estresse.
Na seção que se segue são apresentadas diversas formas de abordagem do
desenvolvimento.
2.5 DESENVOLVIMENTO
No campo da literatura existe várias abordagens sobre o conceito de “
Desenvolvimento” e, portanto, diferentes percepções. Igualmente, no meio acadêmico o
debate sobre o conceito de desenvolvimento é bastante rico destacadamente quanto à
diferenciação entre desenvolvimento e crescimento econômico, pois muitos autores
atribuem apenas a renda como condição para se chegar ao desenvolvimento, sem, no entanto,
se preocupar em verificar como a renda é distribuída e utilizada (OLIVEIRA, 2002).
Dado importante é que, nos últimos 50 anos foi introduzida no campo de
singularidade histórica da noção de “Desenvolvimento” a ideia-força que vai guiar interesses,
discussões tensas e intelectuais, programas governamentais e em especial vai motivar grupos
sociais preocupados com esta noção, [...] , o que significa que este conceito adentrou o campo
da política e passou a permear e determinar as expectativas e o jogo das disputas sociais
(NAVARRO, 2001).
Por sua vez, Kageyama (2008) refere qua a noção de desenvolvimento é complexa e
multidimensional e está associada a heterogeneidade geográfica de ocupação e evolução
histórica do território. A descrição e avaliação do grau de desenvolvimento são orientadas
pelas estratégias adotadas e devem refletir-se em indicadores de bem-estar social, de
desigualidade, de conservação ambiental, etc em cada momento histórico.
A ideia de desenvolvimento como evolução e como progresso passou por concepções
de desenvolvimento como utopia e foi substituída pela identificação da relação entre
desevolvimento e crescimento econômico. Isto significa que o dinamismo econômico passou
a ser tratado como sinônimo de melhoria nos indicadores sociais e o crescimento passou a
56
ser identificado com o desenvolvimento econômico. Só recentemente adentrou a expressão
desenvolvimento sustentável, isto é, o desenvolvimento capaz de preservar os recursos
necessários às gerações [Link] Barbosa (2008, p. 2), “[...] o conceito de
desenvolvimento sustentável foi firmado na Agenda 21, documento desenvolvido na
Conferência Rio 92, e incorporado em outras agendas mundiais de desenvolvimento e de
direitos humanos, mas o conceito ainda está em construção segundo a maioria dos autores
que escrevem sobre o tema, como por exemplo, Carla Canepa (2007), José Eli da Veiga
(2005) e Henri Ascelard (1999)”. No mesmo período, surge a ideia de desenvolvimento
sustentável passando esta a fazer parte das agendas de pesquisa e de políticas públicas em
todo o mundo.A ideia de desenvolvimento sustentável é recente. Com o relatório “Nosso
Futuro” se denota o imperativo ético ou seja a solidariedade sincrônica com a geração atual
e a solidariedade diacrônica com as gerações futuras e o respeito pela preservação da
natureza. Associa-se o respeito à diversidade de culturas e de sustentação da vida, a base da
igualdade e justiça social.
O ponto de partida da complexidade sobre o conceito de desenvolvimento centra-se
nas perspectivas de Sen,1990, com apresentação do Indice de Desenvolvimento Humano
(IDH) no primeiro relatório sobre Desenvolvimento Humano do Programa das Nações
Unidas para o Desenvolvimento (UNDP), expondo as idéia de bem-estar e de pobreza como
fenômenos multidimensionais.
Sen (1999) analisa o papel do desenvolvimento em contraposição ao entendimento
que associa o desenvolvimento somente através de fatores como o crescimento do produto
interno bruto, rendas pessoais, industrialização, avanço tecnológico ou modernização social,
não que estes fatores não contribuam diretamente para a expansão das liberdades, mas não
somente eles. A ideia do autor é a de que o crescimento econômico não pode ser considerado
um fim em si mesmo, tem de estar relacionado com a melhoria de vida dos indivíduos e com
o fortalecimento das liberdades.
Kageyama (2008) recaptula a idéia de entitlementde Sen, que reforça a compreenão
sobre a questão da melhoria de vida dos indivíduos, isto é, o desenvolvimento proporcionaria
nessa idéia o conjunto de diferentes combinações de bens ou mercadorias, entre os quais os
alimentos são os mais básicos, que cada pessoa, em determinado momento e em determinada
sociedade pode possuir, adotar, herdar, fruto de trabalho.
Estudiosos referenciaram que, o desenvolvimento ocorre no entorno de pessoa(s),
proporcionando-lhes a “vida boa” o “emprego, habitação,educação, renda, família e amigos”
(KAGEYAMA, 2008). O objetivo básico do desenvolvimento é criar e tornar disponível um
57
ambiente em que as pessoas possam gozar de uma vida longa e saudável, recebendo a
educação e desfrutando de um padrão de vida decente. Inclui-se liberdade política, garantia
dos direitos humanos e respeito próprio (UNDP, 1990 apud KAGEYAMA, 2008). Sendo
assim, o desenvolvimento não se restringe a acumulação da renda a partir dos salário, mas
sim o acesso a todas as condições que conduzem ao bem- estar social e ambiental
(IBRAIMO,2013).
Assim, a função da renda é ser um meio de acesso a bens e serviços, e não um fim em
si mesmo, e o bem-estar da sociedade depende de como a renda é utilizada, e não apenas do
seu nível, para o obtenção desses elementos identificados como promotores de qualidade de
vida. Questões normativas são importantes neste aspecto.
Nas percepções sobre o desenvolvimento e olhando para Moçambique, Mafra (2004)
apud Paz ( 2014, p. 1) defende que:
O desenvolvimento, expressa-se através do acesso físico e econômico aos bens,
serviços e equipamentos que permitem a satisfação das necessidades básicas que
incorporam educação, saúde e de bem-estar como oportunidade de construção da
coesão social. Exige preocupações de eficiência, sustentabilidade e equidade
(MAFRA, 2004 apud PAZ, 2014, p. 1).
Diante deste posicionamento, Paz (2014) traz à tona que o desenvolvimento deve
prover e promover serviços básicos, oportunidades de emprego, financiamentos, ensino, etc.,
diferentes formas de “ganhar a vida” entre outre outros elementos. Estes elementos são
importantes nos países em desenvolvimento como Moçambique.
O pressuposto de políticas públicas como suporte para o desenvolvimento remete-
nos pensar o desenvolvimento numa perspectiva institucionalista, que se constitui num
“processo histórico de interações humanas refletidas em arranjos institucionais que sustentam
uma matriz institucional que impõe determinados padrões de comportamento; [...] , sendo
que sem um processo de evolução das interações sociais com os recursos não há como pensar
no desenvolvimento “rural” (SILVA, 2014, p.117 - 134).
Neste contexto, o desenvolvimento resulta do crescimento econômico e da melhoria
na qualidade de vida, ou seja, deve incluir “as alterações da composição do produto e a
alocação de recursos pelos diferentes setores da economia, de forma a melhorar os
indicadores de bem-estar econômico e social (pobreza, desemprego, desigualdade, condições
de saúde, alimentação, educação e moradia)” (VASCONCELLOS; GARCIA, 1998, p. 205
apud OLIVEIRA, 2002, p. 38).
58
Santos (2013) aflora várias reflexões em volta do conceito desenvolvimento e
constata que o conceito “Desenvolvimento” apresenta aspectos qualitativos e alterações da
natureza quantitativa. Para além de abranger aspectos económicos, abarca também aspectos
extra econômicos como:
a) planejamento territorial;
b) desenvolvimento dos diferentes ramos de produção;
c) redução das desigualdades;
d) melhoria da qualidade de vida;
e) satisfação das necessidades básicas de toda a população;
f) garantia das liberdades e respeito pelos direitos humanos,
g) respeito pelo ambiente e gerações futuras.
Portanto, o conceito de Santos (2013) sobre o desenvolvimento se mostra mais
adequado aos objetivos desta proposta de trabalho e com conteúdo multidimensional de olhar
e compreender o alcance dos elementos factíveis de políticas públicas de desenvolvimento,
conduzindo-se a um entendimento mais específico sobre o desenvolvimento rural. Neste
contexto de abordagem, estas reflexões desaguam na ideia de desenvolvimento integrado e
inclusivo, reforçado pelo argumento de que desenvolvimento é um processo
multidimensional que se traduz no grau de acesso ao conjunto diversificado de oportunidades
proporcionadas continuadamente aos habitantes de um território, as quais lhes possibilitam
uma satisfatória realização pessoal e profissional, traduzida numa vida considerada de
qualidade, aferida segundo padrões objetivamente estabelecidos e subjetivamente avaliada.
2.6 DESENVOLVIMENTO RURAL (SUSTENTÁVEL)
As abordagens de desenvolvimento rural e os seus conceitos variaram ao longo da
história das sociedades. Sob pontos de vista acadêmico, de gestão de políticas (públicas), de
programas de governos questiona-se a possibilidade existencial ou não de teorias que
sustentem a questão de desenvolvimento rural. Portanto, Conterato et al. (2014), consideram
que o desenvolvimento rural não constitui uma disciplina e nem possui uma teoria específica.
Por conta disto, afilia-se à perspectiva das teorias sociais e de bases epistemológicas das quais
assentam as ciências sociais em geral.
O conceito de desenvolvimento rural pode ser entendido em literaturas mais recentes,
embora a sua raiz possa ser encontrada em outros conceitos mais antigos como
desenvolvimento agrícola, desenvolvimento agrário (NAVARRO, 2001)
59
A partir da década de 1950, a possibilidade do desenvolvimentoalimentou esperanças
e estimulou iniciativas diversas em todas as sociedades. Por conta disto, seria inevitável que
o desenvolvimento rural, como subtema imediatamente derivado, fosse igualmente um dos
grandes motores das políticas governamentais e dos interesses sociais, igualmente inspirando
um crescente conjunto de debates teóricos (NAVARRO, 2001).
Neste período, mesmo nos países industrializados, as atividades agrícolas eram
significativas ou a população habitando em áreas rurais e não obstante estas atividades tinham
ainda um significativo peso econômico nas contas nacionais e uma hegemonia da agricultura
no plano científico e nos diferentes sistemas agrícolas dos países que a ela aderiram.
Com a Revolução Verde materializou-se um novo padrão tecnológico, rompendo-se
radicalmente com o passado pelo fato de integrar fortemente as famílias rurais a novas formas
de racionalidade produtiva. A vida social é mercantilizada, quebra-se a autonomia que
agricultura detinha e subordina-se a novos interesses, classes e formas de vida e de consumo
majoritariamente urbanas nos diferentes países e o renascimento do mundo rural fortemente
transformado (NAVARRO, 2001).
A noção de desenvolvimento rural foi modificada com modernização, orientando as
ações para o desenvolvimento rural. No exemplo de Brasil, já nos anos de 1970, um conjunto
de programas foi implementado nas regiões mais pobres, o Nordeste em particular, sob égide
do desenvolvimento rural (modelo de modernização agrícola). Neste contexto, a
transformação social e econômica e a melhoria foram entendidas como resultado natural da
mudança produtiva na agricultura (NAVARRO, 2001).
Por um lado, as exigências do novo padrão tecnológico de produção acarretaram
aumentos de produção e da produtividade, renda familiar e, portanto, o desenvolvimento
rural. É importante referenciar que mesmo o modelo socialista não escapou a influência deste
padrão, exceto para aspetos de aparatos institucionais, formas de propriedade e a
redistribuição da produção (NAVARRO, 2001). Por outro lado, os resultados das propostas
de desenvolvimento rural implementadas em diferentes países com relação à redução da
pobreza não foram satisfatórios.
Por conseguinte, a partir da década de 1980 e mais especificamente durante a década
de 1990, reaparece a modificação do debate mais aceso entre os estudiosos sobre o tema
desenvolvimento (rural); sob égide de impossibilidade de desenvolvimentoou as dificuldades
de materialização, portanto a preocupação social e política com relação ao futuro da
humanidade (NAVARRO, 2001).
60
É no contexto das incertezas e riscos sem precedentes, de um lado, e de mudanças
rápidas, profundas e inéditas, de outro lado, que o tema de desenvolvimento rural
gradualmente reapareceu no seio de debates e disputas sociais já em escala global.
O reaparecimento do tema de desenvolvimento rural assenta sobre a evolução em
termos conceituais indexada a um conjunto de expressões que nos ajuda ao entendimento,
nomeadamente: desenvolvimento agrícola, desenvolvimento agrário e o próprio
desenvolvimento rural.
O desenvolvimento agrícola (ou agropecuário) na ideia de Navarro (2001) refere-se
exclusivamente às condições de produção agrícola e/ou agropecuária, as suas caraterísticas
produtivas, bem como suas tendências periódicas. Constituem-se em base material de
produção agropecuária, suas facetas e evolução, como por exemplo: área plantada,
produtividade, formatos tecnológicos, economicidade, uso do fator trabalho, etc.
Relativamente ao desenvolvimento agrário, pode-se dizer que se refere à
interpretação do “mundo rural” em todas as suas dimensões nas relações com a sociedade,
isto é, não apenas a estrutura agrícola num dado período. Incluem-se as condições próprias
de produção (desenvolvimento agrícola), instituições, políticas do período, disputas entre
classes, condições de acesso e uso da terra, relações de trabalho e suas mudanças, conflitos
sociais, mercados, etc. O desenvolvimento agrário adentra nas análises da ”vida social rural”
(NAVARRO, 2001).
O conceito de desenvolvimento rural destaca-se e diferencia-se dos anteriores por ser
ação articulada que induz mudanças em um determinado ambiente rural. Na possibilidade de
definição, desenvolvimento rural deveria ser um aporte de várias ações que acontecem num
determinado local, numa determinada região que visam a melhoria da qualidade de vida das
pessoas, onde se movimentam projetos, atividades em prol da melhoria da qualidade de vida.
Entretanto, “o desenvolvimento rural proporciona para as famílias rurais a qualidade
de vida, envolvendo questões de saúde, saneamento básico, da renda da agricultura, da
alimentação, da segurança alimentar.” Sociedade Brasileira de Economia, administração e
Sociologia Rural- SOBER, 2010, p. 8).
Navarro (2001, p. 88) percebe que “as ações de desenvolvimento rural tem variado
ao longo do tempo, embora nenhuma das propostas deixe de destacar a melhoria do bem-
estar das populações rurais como objetivo final desse desenvolvimento”. Conterato et. all
(2014) também colaboram para esta percepção designando essas mudanças por
metamorfoses dos meios rurais. Isto significa que as ações de desenvolvimento rural,
61
considerando a noção de políticas públicas, incorporam nas suas pautas as mudanças que
ocorrem em ambientes rurais.
Neste contexto, adentrando as pesquisas feitas por Conterato et al. (2014, p. 1)
percebem-se que:
o reconhecimento cada vez mais evidente da necessidade de se adotar distintos
aportes teóricos e proposições metodológicas, particularmente a partir do empírico
da diversidade, em que se manifestam os processos e as práticas no meio rural, [...]
remete-nos a necessidade de reformulação de muitos trabalhos produzidos e
estabelecermos novos parâmetros teóricos e metodológicos aplicados aos estudos
rurais, [...] , buscando novas contribuições em função das metamorfoses no meio
rural em termos de práticas e processos e enfoques multidisciplinares.
(CONTERATO et al., 2014, p.11).
O conceito de desenvolvimento rural, altera-se ao longo do tempo, influenciado por
diversas conjunturas, ou seja, pelos novos condicionantes de desenvolvimento
socioeconômicos impostas às famílias e às atividades rurais. Portanto, existe uma percepção
de que as teorias anteriores não conseguem, como sempre foi sucedendo, dar conta das
transformações que ocorrem no meio rural e nem são capazes de dar resposta à promoção do
desenvolvimento, visto que as condições de pobreza e de vulnerabilidade vão
compromentendo a qualidade de vida.
A partir da perspectiva proposta, inclue-se o conceito de desenvolvimento rural
sustentável, que inclui aspetos de natureza da questão ambiental, indicando a necessidade de
estratégias de desenvolvimento rural que contemplem um debate sobre a utilização desses
espaços e recursos. Estas estratégias incorporam uma apropriada compreensão das chamadas
dimensões ambientais face às implicações do uso dos recursos hídricos provenientes de uma
série de fatores naturais, econômicos, sociais e políticos, sendo o recurso água tão somente o
ponto de convergência de um complexo sistema ambiental (NAVARRO, 2001; PIRES;
SANTOS; DEL PRETTE, 2002).
A adoção da Bacia Hidrográfica (BH) como unidade de gestão representa uma
estratégia objetiva para agregar o conceito de desenvolvimento sustentável na perspectiva de
atingir três metas básicas:
a) o desenvolvimento econômico;
b) a equidade social;
c) a proteção ambiental, ou seja, uma visão integradora.
O desenvolvimento sustentável é uma meta a longo prazo para a humanidade que se
consolidará quando a conservação for de memória coletiva (PIRES; SANTOS; DEL
PRETTE, 2002).
62
Por conta de ser um campo de estudos multidisciplinar e inesgotável de ponto de vista
teórico, vários conceitos podem-se relacionar como já foi referido, e pretende-se neste canto
trazer outro conceito que também é importante nesta pesquisa, o de desenvolvimento local.
Os estudos sobre o desenvolvimento local foram desenvolvidos dentro das temáticas
de descentralizacão, democratização e participação que configuram a boa governança ou
seja a articulação das relações de poder. Desses estudos podem se citar: abordagem teórica
de Escobar (2005) referindo que o local também se encontra configurado por relações de
poder (poder central-local), Premebida e Almeida (2006) defendem que o poder de Estado
será respeitado enquanto ordenador jurídico político, mas não como interventor dos destinos
da vida cotidiana das populações.
O Desenvolvimento Sustentável constitui um processo que ocorre na região ou no
ambiente local do cidadão.
Embora o conceito de desenvolvimento local seja confundido com os demais
conceitos e parecer que se tratasse dos mesmos processos e fenômenos, a expressão é recente
e deriva de duas grandes mudanças do período atual: a multiplicação das ONGs e os
processos de descentralização em curso em muitos continentes, em especial na América
Latina (Exemplo de Brasil). Segundo Navarro (2001), o desenvolvimento local surge em
oposição à aceleração dos processos de globalizaçãoe da necessidade de transferência de
responsabilidades de Estados antes centralizadas valorizando crescentemente o “local”, pois:
(i) o âmbito local, é mais fatível a aplicação de uma abordagem que compatibilize
o desenvolvimento econômico e social com a proteção dos ecossistemas naturais,
considerando as interdependências com as esferas globais; (ii) o gerenciamento da
BH permite a democratização das decisões, congregando as autoridades, os
planejadores e os usuários (privados e públicos) bem como os representantes da
comunidade (associações sócio profissionais, de proteção ambiental, de moradores
etc.), e (iii) permite a obtenção do equilíbrio financeiro pela combinação dos
investimentos públicos (geralmente fragmentários e insuficientes, pois o custo das
medidas para conservação dos recursos hídricos é alto) e a aplicação dos princípios
usuário-pagador e poluidor-pagador, segundo os quais os usuários pagam taxas
proporcionais aos usos, estabelecendo-se, assim, diversas categorias de usuários (
PIRES; SANTOS; DEL PRETTE, 2002).
A convergência destas mudanças resultaria na introdução do desenvolvimento local
orientada por diversas iniciativas, governamental ou não. Portanto as questões de “agricultura
familiar” exigem novos padrões de desenvolvimento rural baseados em mecanismos e
repercussões de âmbito local (NAVARRO, 2001).
Depois de aflorar as noções e expressões como: desenvolvimento agrícola,
desenvolvimento agrário, desenvolvimento rural, desenvolvimento rural sustentável e
63
desenvolvimento local, percebe-se que não há segmentação entre essas noções, mas sim há
uma interpenetração de seus significados. Assim, é inevitável abordar questões de
desenvolvimento agrícola sem interpretar o desenvolvimento agrário e por finalidade,
construir uma estratégia de desenvolvimento rural apropriado a questão ambiental, neste caso
o desenvolvimento rural sustentável, daí as iniciativas no plano propriamente local são
igualmente imprescindíveis para incorporar a questão de desenvolvimento local.
Portanto, percebe-se que para configurar o desenvolvimento rural prioriza-se o
atendimento às famílias rurais em questões de promover as condições de saúde, saneamento
básico, renda agrícola, alimentação, segurança alimentar, proteção ambiental, entre outros.
Nestas prioridades, a água joga um papel de relevo, daí que se faz necessário uma política de
gestão de recursos hídricos que promova a participação e interação de todos os stakeholders
envolvidos nesses setores. O desenvolvimento rural é um subtema do desenvolvimento e
motor das políticas governamentais e dos interesses sociais, que induzem mudanças em um
determinado ambiente rural (NAVARRO, 2001).
2.7 AGRICULTURA EM MOÇAMBIQUE: POTENCIALIDADE AGRO-
ECOLÓGICAS, CARACTERIZAÇÃO GERAL E PERSPECTIVAS DE
DESENVOLVIMENTO AGRÍCOLA À LUZ DA POLÍTICA DE GESTÃO DE
RECURSOS HÍDRICOS EM MOÇAMBIQUE
Moçambique possui potencialidades agrícolas favoráveis para a médio e longo prazo
desenvolver um setor agrário diversificado e dinâmico. Segundo o Instituto Nacional de
Investigação Agronômica- INIA (1993), as regiões agroecológicas são áreas cujos cenários
ecológicos apresentam características naturais específicas e que as tornam particulares para
o desenvolvimento de certas atividades agropecuá[Link] contexto, Sitoe (2005) reforça a
ideia do INIA (1993), dissertando que o país possui condições naturais para em longo prazo
desenvolver um setor agrário9 diversificado e dinâmico.
De uma forma geral, essas condições são as seguintes:- Uma superfície de 799.380
km2, com uma fronteira terrestre de 4.330 km e uma extensãoda costa de 2.400 km;- Cerca
de 36 Milhões de hectares (ha) de terra arável, dos quais menos de 10% são cultivados;- 3.3
Milhões de hectares irrigáveis, dos quais somente cerca de 50.000 (0,13%) sãoatualmente
irrigados;- Cerca de 80% da superfície do país é ocupada por florestas e a área coberta de
9
A expressão agrário é análoga à análise do agrícola no Brasil.
64
florestapotencialmente produtiva, contendo espécies de valor comercial, é de cerca de 20
milhõesde hectares. Esta área correspondente a cerca de 24% da superfície total do país. O
volume comercial existente nesta área é de cerca de 22 milhões de metros cúbicos deárvores
em pé com um DAP10 acima de 40 cm;- Cerca de 9 Milhões de hectares de parques nacionais
e áreas de reservas de fauna bravia.- Das 104 bacias hidrográficas existentes, 15 são
particularmente importantes e nove destassão seções terminais de rios internacionais. O
escoamento médio anual é estimado em 216 milhões de m3 de água, dos quais apenas 100
milhões têm origem em chuvas que ocorrem em Moçambique (SITOE, 2005).
A partir desta caracterização, pressupõe-se que o país possuindo 36 milhões de
hectares (ha) de terra arável dos quais 3.3 milhões de hectares são irrigáveis, deveria garantir
produção de alimentos ao longo de todo ano e a consequente Segurança Alimentar (SA)dos
moçambicanos, se esse potencial fosse devidamente explorado (MOÇAMBIQUE - MINAG,
2010). INIA (1993) refere que Moçambique apresenta 10 regiões agroecológicas com grande
diversificação de características fisiográficas e agrupadas em três macro-regiões. Sitoe(2005)
reitera que diferentes aptidões, em geral, são definidas principalmente pela precipitação e
tipo de solos.
Esta diversidade condiciona fortemente a prática da atividade agropecuária e
determina principalmente a escolha de culturas a produzir, as técnicas de produção utilizadas
bem como os rendimentos agronômicos das culturas.
Conforme a fig.1, existem três (3) macro-regiões com potencial agrícola,
nomeadamente: Zona Norte (entre os rios Rovuma e Zambeze); Zona Centro (entre os rios
Zambeze e Save); e Zona Sul (sul do rio Save).
De acordo com Mucavel (2009), as regiões macro ecológicas de Moçambique
caracterizam-se da seguinte forma:
a) Zona Norte (entre os rios Rovuma e Zambeze)
- Precipitação media anual que varia de 1.500 a 2.200 mm;
- Baixo a moderado risco de seca para a agricultura de sequeiro (<30%);
- Principais culturas: milho, algodão, coco, caju, mandioca, mapira, meixoeira,
amendoim.
b) Zona Centro (entre os rios Zambeze e Save)
- Precipitação media anual que varia de 2.200 a 2.900 mm;
- Moderado risco de seca para a agricultura de sequeiro (31-45%);
10
DAP significa diâmetro à altura do peito. (Sitoe, 2005: p. 8)
65
- Principais culturas: milho, algodão, mandioca, bananas, citrinos, cana sacarina,
hortícolas, mapira, caju e arroz.
c) Zona Sul (a Sul do rio Save)
- Precipitação média anual na ordem dos 350 – 1.500 mm.
- Risco alto (61-75%) a muito alto (>75%) de seca para a agricultura de sequeiro;
- Principais culturas: milho, arroz, amendoim, feijão nhemba, mandioca, citrinos, cana
sacarina, vegetais e caju.
Portanto, o campo de estudo inseriu-se na zona sul, ou seja, a Sul do rio Save. Este
zoneamento permite não só diferenciar as potencialidades agroecológicas regionais do país,
mas também explicar características climáticas da área de estudo e a orientação de políticas
públicas para a promoção do desenvolvimento rural.
Figura 1 - Regiões macro ecológicas de Moçambique
Fonte: Mucavel (2009).
66
Apesar destas potencialidades, a agricultura em Moçambique é essencialmente de
setor familiar e de rendimentos baixos (SITOE, 2005). De acordo com CEMO (2010), a
expressão setor familiar é abrangente, descreve uma situação heterogênea, incluindo vários
sistemas de produção organizados em bases culturais diferentes, de pequena e média escala,
que utilizam ou não recursos familiares, mas também mão-de-obra e outros recursos
adicionais para manter ou aumentar a sua produção, conforme as necessidades internas da
família e as oportunidades comerciais que se apresentam.
Todavia, o setor familiar agrícola em Moçambique ainda apresenta baixos níveis de
produção agrária. Os sistemas de produção agrícola utilizam mão-de-obra intensiva, métodos
de produção de baixa produtividade associados a pobreza e insegurança alimentar. A enxada
constitui o instrumento principal de produção. Existe uma dispersão dos mercados e
integração fraca da população rural nos mercados de produtos alimentares (ARNDT et al.,
2000, MLAY et al., 2003, apud FALCÃO, 2009). Falcão (2009) refere que a produção
agrícola do setor familiar utiliza 97% da área cultivada e abastece a cerca de 80% da
população, cerca de 94% das famílias rurais cultiva em média 2.4 ha e somente cerca de 29%
vende a sua produção, 87% das propriedades agrícolas possuem um tamanho inferior a 5 ha,
apenas 14% de 3.3 milhões de hectares são irrigados e em 5% aplicam-se pesticidas.
O rendimento da maior parte dos cereais não ultrapassa 1 tonelada por hectare e o
país continua altamente dependente de importações de alimentos para suprir as necessidades
alimentares da população (MOÇAMBIQUE - MINAG, 2010). Portanto, na exploração das
potencialidades agrícolas deve- se ter em conta outros fatores que permitem a produção em
cadeia de valor, nomeadamente o acesso aos insumos e a todos os serviços de apoio ao setor
agrário. A maior parte das famílias camponesas praticam agricultura de sequeiro em regime
de queima e roça e o período de pousiovaria de três a sete anos (HELTBERG; TARP, 2002;
FALCÃO, 2005 apud FALCÃO, 2009).
Neste contexto, a baixa produtividade deve‐se a vários fatores dos quais se destacam
a baixa disponibilidade e acesso a insumos de qualidade (sementes melhoradas, fertilizantes,
pluverizantes), insuficiente cobertura dos serviços de extensão agrária e sua inadequada
ligação com os serviços de pesquisa, limitado aproveitamento da água para a agricultura,
infertilidade dos solos e limitado acesso ao financiamento (SITÓE, 2005).
Ademais, as limitadas infraestruturas e serviços para acessar ao mercado constituem
outros fatores que afetam a agricultura em Moçambique. Os elevados custos de
transação(elevadas margens entre o preço pago ao produtor e o preço de mercado da
67
produção do setor familiar, e entre o preço de importação dos insumos e o preço destes ao
consumidor) desincentivam a participação do setor familiar no mercado (SITOE, 2005).
A limitada capacidade institucional e necessidade de maior coerência de políticas
constitui outra condicionante na produtividade agrícola. As instituições do setor agrário em
Moçambique, quer públicas quer privadas, possuem fragilidades que precisam ser superadas
para atingirem um desempenho eficiente, contribuindo assim para que o setor se torne
próspero e competitivo (MINAG, 2010).
Apesar destas limitações, o setor agrícola continua sendo muito importante no
sustento dos moçambicanos visto que cerca de 80% da população vive nas zonas rurais e
basicamente da agricultura.
Os insumos impulsionam o aumento da produção e da produtividade e os serviços de
apoio dinamizam o setor agrário. Entretanto, Falcão (2009) elenca que com boas condições
climáticas, as famílias podem produzir o suficiente para satisfazer as necessidades e
contribuir em 50% para o mercado (FALCÃO, 2009). Porém, isso não basta, é fundamental
mudar para uma gestão que melhore o acesso aos recursos hídricos pelas pessoas ou famílias
produtoras, ao mesmo tempo que reduz a vulnerabilidade e a pobreza. Igualmente, pondera-
se que,dependendo do tipo de insumos, ao mesmo tempo que aumentam a produção, podem
significar fontes de poluição, aumentando a vulnerabilidade e a pobreza.
Outrossim, Vilas (2013) sustenta que nesta discussão sobre perspectivas de
desenvolvimento do setor agrário é imprescindível investir em projetos científicos e de
desenvolvimento tecnológico, direcionados ao aperfeiçoamento dos diversos usos da água,
garantindo assim à atual e às futuras gerações alto padrão de qualidade, utilização racional e
integrada da água com vistas ao desenvolvimento sustentável, e à prevenção e defesa contra
fenômenos hidrológicos críticos ou devido ao uso inadequado de recursos naturais. Portanto,
esse investimento visando a sustentabilidade significaria a redução da vulnerabilidade das
pessoas face aos efeitos dos eventos extremos e a redução da pobreza.
Essas soluções passam necessariamente por melhoria efetiva do saneamento e das
redes hirológicas, reabilitação de infra-estruturas hidráulicas existentes, desenvolvimento de
novas infra-estruturas hidráulicas, incremento da participação de todos atores
envolvidos,consolidação das ARAs, entre outras. Estas soluções podem permitir no seu
conjunto a redução da vulnerabilidade hídrica; a promoção da governança hídrica
descentralizada, democrática, participativa e partilhada; e a segurança hídrica ou seja o
acesso regular, contínuo, permanente e suficiente de água nos seus múltiplos usos.
68
O capítulo que se segue reflete num primeiro momento a abordagem geral sobre as
políticas públicas e sua relação com o processo de governança e desenvolvimento, bem como,
ocupa-se, em seguida, de apresentar essas políticas públicas em Moçambique.
69
3 POLÍTICAS PÚBLICAS: A BUSCA PELA GESTÃO HÍDRICA E PELO
DESENVOLVIMENTO RURAL EM MOÇAMBIQUE
3.1 ABORDAGEM GERAL DE POLÍTICAS PÚBLICAS
A literatura sobre políticas públicas não é consensual quanto a conceitualização,
formulação e implementação. A temática sobre políticas públicas como área de
conhecimento e disciplina surge recentemente da ciência política. O surgimento deve- se ao
discurso que indica a necessidade de restrições de gastos pelos governos, bem como às novas
visões sobre o papel dos governos, Debate-se, dessa forma, o desenho de políticas públicas
capazes de impulsionar o desenvolvimento econômico e promover a inclusão social de
grande parte de sua população. Souza (2006) menciona os principais fundadores de políticas
públicas nomeadamente: Laswell, Simon, Lindblom e Easton.
Laswell (1936) introduz a expressão análise de política pública ainda nos anos 1930,
como forma de conciliar conhecimento científico/ acadêmico com a produção empírica dos
governos e estabelecer o diálogo entre cientistas sociais, grupos de interesse e governo.
Simon (1957) introduziu o conceito de racionalidade limitada dos decisores públicos e esta,
poderia ser minimizada pelo conhecimento racional. Para Simon, a racionalidade dos
decisores públicos é sempre limitada por problemas tais como informação incompleta ou
imperfeita, tempo para a tomada de decisão, auto-interesse dos decisores, etc., mas a
racionalidade, segundo Simon, pode ser maximizada até um ponto satisfatório pela criação
de estruturas (conjunto de regras e incentivos) que enquadre o comportamento dos atores e
modele esse comportamento na direção de resultados desejados, impedindo, inclusive, a
busca de maximização de interesses próprios. Lindblom (1959; 1979) no racionalismo de
Laswell e Simon questiona e incorpora outras variáveis à formulação e à análise de políticas
públicas (as relações de poder e a integração entre as diferentes fases do processo decisório
o que não teria necessariamente um fim ou um princípio). Conclue- se que as políticas
públicas precisariam incorporar outros elementos à sua formulação e à sua análise além das
questões de racionalidade, tais como o papel das eleições, das burocracias, dos partidos e dos
grupos de interesse. Easton (1965) contribuiu para a área ao alinhar a política pública como
uma relação entre formulação, resultados e o ambiente. Segundo Easton, políticas públicas
recebem influência dos partidos, da mídia e dos grupos de interesse, refletindo-se nos seus
resultados e efeitos (SOUZA, 2006).
70
Existem várias definições de política pública, por exemplo Souza (2002, p. 4)
apresenta algumas:
Mead (1995) a define como um campo dentro do estudo da política que analisa o
governo à luz de grandes questões públicas. Lynn (1980) a define como um
conjunto específico de ações do governo que irão produzir efeitos específicos.
Peters (1986) segue o mesmo veio: política pública é a soma das atividades dos
governos, que agem diretamente ou através de delegação, e que influenciam a vida
dos cidadãos. Dye (1984) sintetiza a definição de política pública como “o que o
governo escolhe fazer ou não fazer”. A definição mais conhecida continua sendo a
de Laswell, ou seja, decisões e análises sobre política pública implicam em
responder às seguintes questões: quem ganha o quê, por que e que diferença faz.
(SOUZA, 2002, p.4)
Em geral, entendem-se políticas públicas como instrumento ou conjunto de ação dos
Governos (SOUZA, 2006), uma ação elaborada no sentido de enfrentar um problema público
(SECCHI, 2013) ou um conjunto de decisões e ações orientado à resolução de problemas
políticos (RUA, 1998).
Entende-se por políticas públicas, conjuntos de programas, ações e atividades
desenvolvidas pelo Estado ou governo ou ainda privado diretamente ou indiretamente, com
a participação de entes públicos ou privados, que visam assegurar determinado (s) direito (s)
de cidadania, de forma difusa ou para determinado grupo social, cultural, étnico ou
econômico, assegurados constitucionalmente (RUA, 1998).
Percebe-se que políticas públicas constituem um ramo de ciência política cujo
principal objetivo é orientar os governos e ou os privados a viabilizarem a tomada de decisões
e suas ações.
De acordo com as características dos tomadores de decisões e ações, ou seja, dos
atores intervenientes nos processos de desenvolvimento, as políticas públicas podem ser
Estatais (governamentais) e não estatais (Não-Governamentais).
De acordo com Deves et al. (2007), as políticas públicas dividem-se em Estatais
(governamentais) e Não-Governamentais. As políticas estatais se referem ao papel dos atores
sociais e das agências governamentais na formulação e implementação de políticas públicas
e as relações entre movimentos sociais, formas de organização e representação de interesses,
redes e políticas públicas. Elas incluem políticas de financiamento rural; de desenvolvimento
econômico; de desenvolvimento local sustentável; de combate à pobreza; ambientais;
agrárias, de Segurança Alimentar, entre outras. As políticas públicas não governamentais são
desenvolvidas por setores fora do governo como as ONGs, visando de uma forma geral ajudar
o governo a providenciar o bem-estar social das suas populações. Igualmente, o relatório
sobre o Desenvolvimento no Mundo, de 1997, enfatiza a importância de ONGs e outras
71
organizações da sociedade civil não apenas na provisão de bens públicos, “mas também por
seu papel na construção da confiança e de um senso de pertencimento à esfera pública entre
aqueles excluídos ou alienados do processo político” (WORLD BANK, 1997, p. 114).
O campo de estudos de políticas públicas está fortemente atrelado às necessidades de
desenvolvimento de melhorias nos processos político-administrativos, que permitam o
incremento das atividades implementadoras (MAJONE; QUADE, 1980, p.5 apud LIMA;
D´ASCENZI, 2013). A prática administrativa e execução de atividades com vista a obtenção
de metas configuram a política pública (SILVA; MELO, 2000). Portanto, essa prática deve
ser estruturada de modo a maximizar a probabilidade de que os implementadores e os
diferentes grupos alvos desejam fazer ou alcançar. Por isso, os líderes das agências
implementadoras devem possuir habilidades políticas e gerenciais e estarem comprometidos
com os objetivos de política pública. A constituição e a consolidação de políticas públicas
depende daquilo que o governo faz ou deixa de fazer e passível de ser formulado e analisado
cientificamente.
Percebe-se que o estudo de políticas públicas focaliza-se no entendimento das
instituições como fundamentais para limitar a tirania e as paixões inerentes à natureza
humana, nas organizações locais atribuindo-lhes o papel de promover o bom governo e
especificamente no ramo da ciência política para entender como e por que os governosoptam
por determinadas ações (SOUZA, 2006).
As políticas públicas refletem, portanto, que entendimento os grupos sociais têm
sobre sua própria condição e sobre a sociedade em geral, bem como sobre os instrumentos
necessários para aperfeiçoar esta condição11.
Portanto, as políticas públicas expressam a forma e a vigência das relações e
interações entre o Estado e a sociedade civil. A crescente preocupação com questões relativas
à boa governança devem ser acompanhadas por mudança na concepção do papel do Estado
na promoção do desenvolvimento.
Neste contexto, uma condição de boa governança implica para a política pública o
alcance positivo em termos implementação e resultados. A capacidade do governo em
promover o envolvimento dos diferentes atores (Estado, ONGs, sociedade civil) na
implementação das políticas e atingir metas coletivas pressupõe expandir a interlocução, a
participação, a descentralização, a responsabilização jurídica, entre outros, permite que as
11
O que não implica em desconsiderar que outros elementos também interferem na conformação das políticas
públicas, a exemplo das instituições e dos interesses (PALIER; SUREL, 2005; PIERSON, 2003;
MAHONEY, 2001; HALL, 1997; CATIA; SCHNEIDER, 2015, p. 21).
72
políticas públicas produzam resultados eficazes. O governo tem a responsabilidade de
desenhar e implementar políticas de desenvolvimento inclusivas que favoreçam a todos no
nível social, económico e ambiental.
3.2 POLÍTICAS PÚBLICAS DE DESENVOLVIMENTO EM MOÇAMBIQUE
Nesta seção pretende-se apresentar o panorama geral de políticas públicas que visam
a promoção do desenvolvimento em Moçambique identificadas na seção neste capítulo e sua
relação com o desenvolvimento rural no país.
A apresentação aqui feita não constitui uma matéria-prima bruta ou um produto
acabado, portando não se esgota aqui. Todavia, se fazem presentes algumas contribuições
teóricas, empíricas e procedimentos metodológicos com foco nos estudos rurais recentes e
multidisciplinares, com vistas a compreender-se o quão a implementação das políticas
públicas pode ser importante para o desenvolvimento rural no país.
Nesta seção, ainda se explora a percepção sobre o desenvolvimento rural em
Moçambique, desde a sua concepção até ao momento. O desenvolvimento rural em
Moçambique é um fenômeno muito recente e a forma de percebê-lo, o seu foco, variou ao
longo do tempo, como aconteceu em muitos países do mundo.
A forma de percebê-lo foi influenciada por um conjunto de antecedentes e vários
fatores com intensidade diversa a salientar: a colonização portuguesa, a guerra civil, a
democratização política, a integração regional dos países da SADC, entre outros.
Moçambique encontra-se não só confrontado ao imenso desafio da reconstrução nacional
pós-guerra civil, mas também marcado por uma desigualdade social e econômica
(ALMEIDA, 2009).
Além do referido por Almeida (2009), o país é também confrontado pelos efeitos das
hostilidades políticas com impacto direto na economia, na organização social e técnico-
científico e de modo específico, na gestão dos recursos naturais.
Tendo a importância econômica das áreas rurais, a colonização portuguesa e de forma
sumária teria destruído ou impossibilitado as alternativas de diversificação da economia em
geral com vistas ao bem-estar econômico-social da população moçambicana. Uma das
formas dessa destruição consistiu na redução da importância do sistema de subsistência e no
aumento da produção que respondesse aos interesses coloniais.
73
Desse modo, Newiti (1997) elenca que no período colonial, as várias formas de
exploração capitalista implementadas pelas companhias majestáticas12, nas pequenas
propriedades agrícolas e plantações dos colonos, destruíram a economia de subsistência, pois
a produção camponesa foi organizada de forma a constantemente produzir para a subsistência
e ainda um excedente que se vendia à burguesia comercial que contribuía para aumentar a
riqueza dos colonos. O baixo custo da força de trabalho colonial - que constituiu a própria
base de acumulação do capital colonial - dependia da capacidade da família camponesa de se
auto-alimentar e ainda produzir excedentes (NEWITI,1997).
Assim, o rendimento proveniente do trabalho assalariado e da produção forçada de
culturas de rendimento tornou-se um elemento necessário para a reprodução da agricultura
familiar - para a compra de ‘inputs’, animais e instrumentos de tração, bem como de bens de
consumo.
A Circular de 1 de Maio de 1947, um instrumento que o governo Português instituiu
para intensificar as funções do campesinato, obrigou aos moçambicanos trabalharem em
locais à favor da exploração colonial. Assim, os moçambicanos, em particular nas zonas
rurais, deviam, por ano trabalhar seis meses e sem qualquer remuneração, a favor ou do
Governo, ou das plantações (empresas) ou de um particular (colono). Para além disto, o
processo de exploração era também reforçado através do sistema de impostos e de cultivo
forçado de culturas de rendimento. Todo o moçambicano que não cumprisse às obrigações
da Circular era sujeito a punição e muitas vezes à prisão (NEWITI,1997).
Neste contexto, logo após a independência nacional foram definidas estratégias que
concorreriam como espinha dorsal para o desenvolvimento rural e vitória contra o
subdesenvolvimento em Moçambique. Essas estratégias resumiram-se na coletivisação ou
socialização do campo e na modernização da agricultura. Pensado isto estrategicamente, em
muito pouco tempoeclode no país a guerra civil que durou cerca de 16 anos.
Contudo, coma guerra dos 16 anos, os seus efeitos, naturalmente nefásticos,
intensificou-se em quase todo o meio rural do país, pois toda a produção, circulação ou
distribuição econômica baseada no setor primário esteve, negativamente, afetada, ou seja,
destruiu-se a economia de subsistência nas áreas rurais. Igualmente, as consequências
imediatas desta situação traduziram-se em desemprego, fome e ciclos de pobreza da
população num todo, que vão desde instabilidade política, passando por instabilidade
12
Companhias magestáticasconstituiam grandes porções de terras concessionadas pelo governo colonial
português nas suas colonias ao capital estrangeiro (capital não português) (NEWITI,1997).
74
econômico-financeira e social até ambiental. Dessa forma, inviabilizou-se a execução dos
planos de crescimento e desenvolvimento econômico com vista a erradicação da pobreza.
Neste contexto, o governo de Moçambique saído do período de instabilidade política
viu-se na necessidade de desenhar e programar políticas públicas para fazer face a situação
de pobreza do país em geral e das áreas rurais de modo particular.
Das grandes políticas públicas desenhadas e implementadas no setor agrícola, podem-
se referir o Programa Nacional Integrado de Desenvolvimento Agrícola (PROAGRI) e o
PEDSA. Podem ser citadas outras políticas públicas como PARPA, a política de
descentralização, outras de entre várias, também focalizadas para o crescimento e
desenvolvimento econômico e com enfoque para as áreas rurais.
De um modo geral, a definição de políticas de combate à fome e pobreza intensificou-
se consideravelmente na última década em decorrência das prioridades e compromissos
assumidos pelos países. Portanto, em Moçambique essas políticas continuam sendo
prioridade nas diferentes frentes de desenvolvimento.
As políticas de combate à fome e à pobreza são operacionalizadas por meio de
programas que possuem relação direta com o setor dos recursos hídricos e com o seu carácter
inter-setorial e multifuncional. A intersetorialdade e a multifuncionalidade reside no fato de
que o combate à fome e à pobreza não se funda sobre um único setor, mas sim na
intercomunicação ou diálogo entre várias políticas setoriais e com funções múltiplas.
Ou seja, existem o envolvimento de vários setores e com múltiplas funções, por
exemplo os setores de educação, saúde, águas e saneamento, agrário, indústria e comércio,
finanças, ordenamento ou desenvolvimento territorial, entre outros. Posto isto, o combate à
fome e à pobreza deve ser aprimorado numa dimensão integrada destes setores.
Neste sentido, pode-se assumir que estas políticas e tantas outras têm um triangulador
comum de garantir aos cidadãos o acesso à comida e água em quantidade, qualidade e
regularidade suficientes, etc., de maneira sustentável e respeitando o desenvolvimento na
diversidade cultural do país. O maior desafio de desenvolvimento que o GdM enfrenta é o de
sustentar o crescimento econômico enquanto reduz os níveis da pobreza absoluta (GdM,
2007).
Entre os vários programas, planos e estratégias, podem-se citar: os Objetivos de
Desenvolvimento do Milênio (ODM, 2000), a Declaração do Milênio (DM, 2006), a Agenda
2025 (2003), o Programa Quinquenal do Governo (PQG, 2009-2014), Plano de Ação para a
Redução da Pobreza Absoluta (PARPA I, 2001- 2005 e PARPA II, 2006-2009), Índice de
Desenvolvimento Humano (IDH, 2012), Plano Econômico e Social (PES, 2014), Plano
75
Estratégico para o Desenvolvimento do Sector Agrário (PEDSA, 2011-2020) e do IIAM
(2011-2015), o Fundo Internacional de Desenvolvimento da Agricultura (FIDA, 2010), a
Estratégia de Revolução Verde, Estratégia de Desenvolvimento Rural (EDR, 2007) e o Fundo
Distrital de Desenvolvimento (FDD, 2006). A presente tese aprofunda até que ponto este
conjunto ou parte dele harmoniza-se com a política de gestão de recursos hídricos, dada a
importância que estes têm em geral e na economia de Moçambique, em particular. Por
exemplo, como a política de gestão dos recursos hídricos articula-se com PARP, PEDSA,
FIDA, Estratégia de Revolução Verde, EDR e FDD. Parte dessa articulação é demostrada
ao longo deste capítulo.
3.2.1 Estratégia de Desenvolvimento Rural e a Promoção de Uso de Recursos
Naturais em Moçambique
Esta seção visa trazer as abordagens ou debates no seio dos acadêmicos,
pesquisadores em organismos nacionais e internacionas entorno da Estratégia de
Desenvolvimento Rural (EDR) e a promoção de uso dos recursos naturais em Moçambique.
A Estratégia de Desenvolvimento Rural (EDR) em Moçambique foi aprovada em
2007. (MOÇAMBIQUE. Ministério de Administração Estatal - MAE, 2010). O foco dessas
abordagens ou debates consiste em promover diferentes percepções do desenvolvimento
rural e promoção de uso de recursos naturais que geram desenvolvimento. A criação da
riqueza passa necessariamente pela existência de terra e recursos, sua utilização através de
iniciativas de desenvolvimento socioeconômico local.
Estudos desenvolvidos por Instituto Nacional de Investigação Agronômica - INIA
(1993), Sitoe (2005), (MOÇAMBIQUE - MINAG, 2010; CEMO (2010), entre outros
mostram que Moçambique oferece espaço para ações de desenvolvimento com envolvimento
de novos atores e iniciativas inovadoras. As zonas rurais ou seja os distritos asseguram-se
como polos de desenvolvimento do país e para várias frentes de combate à pobreza.
O programa nacional de desenvolvimento rural tem em vista valorizar cada vez mais
os esforços que vão sendo enveredados na promoção do desenvolvimento por parte dos
demais stakeholders no combate à pobreza.
Os objetivos estratégicos do Desenvolvimento Rural em Moçambique, 2006-2025
resumem-se em: Competitividade, produtividade e acumulação de riqueza; Gestão produtiva
e sustentável dos recursos naturais e do ambiente; diversificação e eficiência do capital social,
76
de infraestruturas e institucional; expansão do capital humano, inovação e tecnologia e; boa
governação e planejamento para o mercado (MOÇAMBIQUE - MAE, 2010).
A EDR promove e coordena o processo de desenvolvimento para assegurar os direitos
de acesso a exploração rentável dos recursos naturais, desenvolvimento inclusivo e segurança
alimentar (MOÇAMBIQUE - MAE, 2010).
Em termos de operacionalização a Direção Nacional de Promoção de
Desenvolvimento Rural tem estado a implementar duas iniciativas integradas no Programa
de Promoção de uso de recursos naturais, nomeadamente: - projeto de capacitação sobre uso
dos recursos naturais para o desenvolvimento com apoio da FAO e Holanda; - projeto de
parcerias entre comunidades locais e investidores (Holanda, IFAD e FAO) (MAE, 2010).
Através da iniciativa espera-se o alívio à pobreza e à insegurança alimentar
implementando vários instrumentos de gestão de recursos naturais, assegurar o conhecimento
sobre o direito e aproveitamento da terra para os utentes. Na segunda inciativa espera-se o
estabelecimento de parcerias economicamente sustentáveis entre comunidades e investidores
que estimulem os livelihoods das comunidades nas zonas rurais e novos investimentoss em
bases equitativas e sustentáveis (MAE, 2010, p. 8).
Para a materialização da promoção do uso dos recursos naturais no contexto de
desenvolvimento rural sustentável reveste-se de maior importância a garantia e segurança no
uso da terra, através de Direito de Uso e Aproveitamento da Terra (DUAT). Portanto, o
DUAT pelas comunidades e o seu reconhecimento jurídico e espacial através da delimitação
é fundamental para facilitar as parcerias locais.
Percebe-se que uma EDR baseada em articulação institucional de boa governança dos
recursos naturais, assegurando a posse de uso da terra por todos e em particular por
populações pobres pode- se lograr a promoção de desenvolimento rural.
3.2.2 Política agrária: continuidades e descontinuidades da política agrária e
Desenvolvimento (rural) em Moçambique
A abordagem deste ponto baseia-se em dois grandes períodos da história de
Moçambique, tendo em conta os objetivos e os atores do desenvolvimento do setor agrário
em geral. Esses períodos são: período colonial e Pós-colonial.
No período colonial, a política agrária assegurou a acumulação primitiva do capital
por parte da burguesia colonial, ou seja, serviu os interesses do colono. Desse modo, pode-
77
se perceber que a agricultura manteve-se subdesenvolvida em termos de satisfação das
necessidades básicas da população moçambicana.
No período pós-colonial, os atores de desenvolvimento são quase na sua totalidade
diferentes, e vão ser implementadas dinâmicas diferentes com vistas a assegurar que o setor
agrícola seja direcionado para o bem-estar e o crescimento econômico do país.
As diferentes dinâmicas com objetivo de tornar o setor agrário próspero, vão
caracterizar as continuidades e descontinuidades da trajetória da política agrícola em
Moçambique conforme os subperíodos seguintes:
a) 1975 a 1982/83;
b) 1984 a 1992/94;
c) 1995 a 1999;
d) 2000-2004;
e) 2005 a 2009;
f) 2010 a 2014;
g) 2015 a 2019.
No períodode transição, ou seja, de 1974 a 1975, nas zonas rurais, ocorre a
desintegração da base econômica da burguesia colonial devido ao abandono das propriedades
pelos colonos, para alémda destruição de equipamento e abate de gado, ou o seu contrabando
através dasfronteiras da África do Sul e Rodésia. A rede de comercialização não escapou
dado que era quase que exclusivamente controlada pela burguesia e pequena burguesia
colonial (WUTYS, 1987).
Desse modo, assistiu-se a uma baixa na produção e colheita de produtos agropecuários, o que
aliado com a baixa de produção dos camponeses provocou uma quebra acentuada da
comercialização de excedentes mercantis, com impacto sobre o mercado interno e as
exportações. O quadro 01 apresenta a produção agrícola no período de transição refletindo
as consequências da retirada dos colonos do território e a sabotagem destes em vários setores.
É importante reiterar que toda a cadeia de produção e comercialização agrícola no período
colonial era controlado pelos portugueses (colonos). Portanto, a agricultura de subsistência
(das famílias camponesas) era controlada e sob dominios dos colonizados, ou seja orientada
para a reprodução social.
78
Quadro 1 - Mudança na produção agrícola (em termos percentuais) no período de
transição, 1973/1975
Descrição Mudança percentual na produção de
1973/75, a preços constantes de 1973
Produçã total das coletas agrícolas -13%
Produção de subsistência +12%
Produção mercantil dos camponeses -60%
Colheitas das plantações -16%
Produção das machambas dos colonos/latifúndios -54%
Fonte: adaptado de Marc Wuyts (1987), Camponeses e Economia Rural em Moçambique.
Neste contexto, os resultados da produção agrícola neste período influenciaram na
reformulação de políticas agrárias nos subperíodos subsequentes.
No primeiro subperíodo, a política agrária foi orientada com base em Política de
Economia Centralmente Planificada no contexto da orientação político-ideológica socialista.
Na sequência do III Congresso da Frente de Libertação de Moçambique
(FRELIMO),realizado em Maputo de 3 a 7 de fevereiro de 1977, foi explicitadaa estratégia
de desenvolvimento econômico e social de Moçambique independente. Esta estratégia foi
mais tarde concretizada com a aprovação em 1979 do Plano Prospectivo Indicativo (PPI),
cujo objetivo era acabar com o subdesenvolvimento em10 anos (1980-1990).
A coletivização ou socialização do campo, avaliada como a espinha dorsal do
desenvolvimento do país, em termos de estratégia se assentava na criação e consolidação das
aldeias comunais. As empresas estatais e as cooperativas seriam as formas organizadas de
produção agrícola sobre as quais se assentariam as aldeias comunais. O pressuposto era de
que a socialização do campo permitiria a criação de um forte setor estatal agrário (dominante)
e atransformação da agricultura familiar através de um dinâmico movimento cooperativo,
com o enquadramento de milhões de camponeses em cooperativas agrícolas e a emergência
de um operariado agrícola. Por outro lado, a socialização do campo podia criar condições
para o aumento da produtividade no campo (WUTYS, 1987).
A modernização da agricultura se assentou na introdução da mecanização nas mais
de 4.000 empresas agrícolas abandonadas pelos colonos e já transformadas em propriedades
agrícolas estatais. A mecanização da agricultura pressupunha contribuir na produção de bens
de exportação e bens de consumo em grande escala que pudessem transformar a vida nas
zonas rurais. A rápida mecanização era motivada pela vontade de aumentar a produtividade
e a substituição do trabalho forçado e manual duro por uma forma de agricultura mais
79
moderna, contribuindo assim para o aumento rápido da produção do setor estatal (WUTYS,
1987)
Em termos de avaliação do desempenho do setor agrário,a produção aumentou
atingindo os níveis mais altos após a independência em 1981 para a maior parte dos bens de
consumo interno e de produtos para exportação (WUTYS, 1987). Para demostrar essa
avaliação, o autor refere que as exportações aumentaram 83% entre 1977 e 1981 e
continuaram a ser de origem agrícola. A produção bruta agrária cresceu em cerca de 9% no
mesmo período e a contribuição do setor agrário para o Produto Social Global foi, em média,
de 40% ao ano, no período em referência.O setor familiar contribuiu com cerca de 36% da
produção agrária comercializada, sendo a sua participação considerável em culturas como o
algodão, o caju, oleaginosas, o milho e outros cereais e em cerca de 70% dos efetivos bovinos
do país (WUTYS, 1987). Portanto, a produção do setor agrário aumentou comparativamente
ao período de transição. Este aumento demostra que de alguma formaa estratégia funcionou
e em benefício da economia do país.
Nos anos de 1982 a 1984, o setor agrícola foi bastante condicionado pela enorme
flutuação dos preços dos produtos agrícolas no mercado internacional, para além dosfatores
internos já referidos anteriormente, as inundações e secas, a diminuição doaprovisionamento
por importação e as ações de desestabilização que reduziram a produção agrária. A estratégia
baseada em grandes projetos para o desenvolvimento excluia a contribuição dos pequenos
projetos (setor familiar) na economia do país.
Neste contexto, através de uma profunda reflexão sobre a redução da produção
agrícola, no IV congresso da Frelimo (1983), define-se uma metodologia de utilização
máxima e integral dos recursos disponíveis a nível local. Ou seja, aproveitar ao máximo as
capacidades produtivas com vista a minimizar o efeito das importações e aumentar
progressivamente as exportações. Uma das recomendações consistiu no uso de uma
combinação dos pequenos e grandes projetos para o combate à fome e o aumento de receitas
em divisas para o país.
As estratégias consistiram em dar apoio concentrando e integrado ao setor de
produção familiar, em especial na atividade agropecuária, assegurando os recursos
necessários em instrumentos de trabalho, meios de produção e bens essenciais para a troca
no campo. O objetivo era aumentar a produtividade do setor familiar e estimular a produção
mercantil que garante os excedentes para o aprovisionamento interno e para o aumento das
exportações. O esforço principal incidiria na produção de cereais, na plantação e
repovoamento de cajueiros, no incentivo à apanha da castanha de caju, na produção de
80
algodão, de mandioca, de oleaginosas, de feijão, na pecuária e produção de carne, e na
pesca(WUTYS, 1987).
A quando da realização do IV congresso (1983), a política agrária foi orientada com
base em economia virada para o mercado. Com adesão às instituições de Bretton Woods,
Moçambique beneficia-se de um programa de recuperação e transformação econômica. Em
Janeiro de 1987, iniciavaem Moçambique a implementação do Programa de Reabilitação
Econômica (PRE), um programa de estruturação econômica e social que embarcou na
economia do mercado e alterou as políticas macroeconômicas (CUCO, 1994 apud FALCÃO,
2009). Portanto, era suposta uma maior participação no mercado através de venda da
produção agrícola, geração de empregos e rendimentos e melhoria das condições de bem-
estar da população, o que não aconteceu como explicado a seguir.
Em 1989, o PRE integrou também a componente social (PRES). Na sequência desta adesão
foram tomadas medidas de políticas à nível financeiro, monetário e comercial. Por exemplo,
apostou se na introdução de critérios rígidos de rentabilidade em toda a gestão econômica.
No setor agrícola foram depositados mais esforços na agricultura privada, de pequena escala
e familiar, através de melhores termos de troca e de um aumento de oferta de bens. As
políticas pressupunham a privatização das empresas estatais, o fornecimento de maquinaria
de produção, preços mínimos, entre outras, ou seja, a liberalização da economia (FALCÃO,
2009).
Em termos de avaliação, o número de empresas agrícolas decresceu, não obstante este
processo ter conhecido um quase congelamento, na sequência de desestabilização militar nas
zonas rurais.
Já em 1992, com o fim do conflito armado e com a normalização da frequência de
queda de chuvas em 1993/4, foram criadas condições para o regresso às zonas de origem de
milhares de moçambicanos deslocados interna e externamente. Para dar uma dinâmica
diferente ao setor agrícola, formula-se o PROAGRI (Programa Nacional Integrado de
Desenvolvimento Agrícola) (MOÇAMBIQUE - MADER, 2003).
A partir de 1995, após a implementação do pluralismo político e multipartidarismo,
a abordagem da política agrária pode ser compreendida sob ponto de vista de programas
quinquenais do governo, ou seja, os seguintes subperíodos: III- 1995 a 1999; IV-2000-2004;
V-2005 a 2009; VI- 2010 a 2014 e VII- 2015 a 2019.
Em 1995, o Conselho de Ministros aprovou, através da resolução n° 11/95, de 31 de
Outubro, a Política Agrária e as respectivas Estratégias de Implementação, para orientar às
intervenções que devem ser feitas e as formas como devem ser conduzidas no setor agrícola
81
no país. Tendo em conta a política agrícola e as respectivas Estratégias de Implementação,
foram desenhados diversos normativos de especialidade, para cada uma das áreas ou
subsetores, procurando delinear os mecanismos e os devidos procedimentos dos atores
intervenientes, em relação às matérias que cada instrumento aborda (MOÇAMBIQUE -
MADER, 2003).
A formulação do PROAGRI data desde 1994 com a formação de grupos de trabalho
para preparar diagnósticos e propor estratégias e programas de investimentos à nível setorial.
Realizadas as eleições gerais e multipartidárias, o Governo no seu Programa Quinquenal
(1994-1999), aprova a política nacional da agricultura e desenvolve estratégias subsetores
correspondentes.
Porém, o PROAGRI foi um programa nacional integrado de desenvolvimento
agrícola de cinco anos e, simultaneamente foi criada a capacidade institucional dentro do
Ministério da Agricultura, com o apoio do PNUD, da FAO e de outros doadores.
No que tange as componentes sub-setoriais do PROAGRI, salientam-se que: as
componentes principais, que pela sua natureza, alcançama maioria dos objetivos de um setor
particular (pecuária, florestas e fauna bravia). Foram também configuradas componentes
auxiliares que apoiam os vários setores (Extensão, Investigação, Terras, Irrigação e
Desenvolvimento Institucional). Por fim, criaram-se as componentes suplementaresque
apoiam aimplementação efetiva das componentes principais e auxiliares (FinançasRurais,
Pós-Colheita, e Consolidação de Orçamentos) (MOÇAMBIQUE - MADER, 2003).
Mader (MOÇAMBIQUE - 2003) refere que em termos de objetivos, o programa
visava:
a) criar um programa compreensivo e integrado para o desenvolvimento harmonioso
da agricultura;
b) estabelecer consensos e mecanismos de coordenação entrevários doadores
interessados pelo financiamento dodesenvolvimento no setor da agricultura;
c) estabelecer regras e mecanismos de gestão de programas e projetos que induzam a
transparência na utilização de recursos financeiros, humanos e materiais
A implementação deste programa teria contribuído não só para uma maior
desconcentração e descentralização do processo de tomada de decisão com efeito para os
níveis provinciais e distritais, durante a titularidade pelo MADER, como também o desenho
e implementação do Plano de Ação para a Redução da Pobreza Absoluta (PARPA). Portanto,
até ao momento não foi abordada a questão dos recursos hídricos em termos de contribuição
para o desenvolvimento rural no país. A questão de desenvolvimento rural foi diretamente
82
relacionada com o desenvolviemento da agricultura nas zonas rurais, sem ter em conta a
abordagem dos recursos hídricos.
Nos subperíodos: III- 1995 a 1999; IV-2000-2004; V-2005 a 2009; VI- 2010 a 2014
e VII- 2015 a 2019, a política agrária se caracterizou por continuidade e descontinuidades
em função da sua adaptação ao contexto vigente. Os denominadores comuns nestes
subperiodos consistem em tomar a agricultura como base do desenvolvimento econômico e
social através de aumento da produção agrícola, comercialização agrícola, melhoria de
serviços de apoio ao setor agrário, segurança alimentar e nutricional e com foco para as zonas
rurais.
Porém, só a partir do quarto subperíodo, o governo apresenta de forma clara a
abordagem dos recursos hídricos para o desenvolvimento. Ora se pode notar que oGoverno
propunha-se desenvolver estratégias multi-sectoriais, a saber:
a) a promoção de um ambiente favorável para o desenvolvimento agrícola baseado
nas regras do mercado, providenciando incentivos para o investimento e
crescimento produtivo;
b) a melhoria de infraestruturas: rede de estradas, comunicações, mercados e
comercialização;
c) a melhoria do desempenho dos serviços públicos de suporte ao sector familiar: a
investigação, extensão, apoio à produção agrícola, pecuária e informação sobre
mercados;
d) garantia de desenvolvimento sustentável dos recursos naturais envolvendo as
comunidades na gestão e utilização da terra, recursos hídricos, florestas e fauna
bravia, em seu próprio benefício.
Desse modo, percebe-se que em termos de políticas públicas não está explícito sobre
como deve ser a gestão dos recursos hídricos para o desenvolvimento rural.
3.2.3 Plano de Ação para a Redução da Pobreza (PARP, 2011 a 2014) e
Desenvolvimento Rural
Nesta seção, é apresentado o panorama geral do PARP- 2011 a 2014), sua relação
com o desenvolvimento rural. O GdM (2011) refere que o PARP (2011-2014) dá
continuidade ao PARPA II, cuja implementação cobriu o horizonte temporal de 2006 a 2009,
estendido até 2010, e tem como meta principal reduzir o índice de incidência da pobreza dos
83
atuais 54.7% para 42% em 2014. O PARPA II, por sua vez, constitui a continuidade do
PARPA I(GdM, 2011).
O PARPA I aprovado em 1999 para cobrir o período de 2001- 2005 definiu a pobreza
como sendo “incapacidade dos indivíduos de assegurar para si e os seus dependentes um
conjunto de condições mínimas para a sua subsistência e bem-estar, segundo as normas da
sociedade”(GdM, 2006, p.24).
Em termos de objetivo visava reduzir a pobreza absoluta, que, em 1997, estava
estimada em 70%, para o alcance de pelo menos 60%, em 2005. Quanto aos pilares ou áreas
de concentração destacam-se: a paz e estabilidade social, educação, saúde, agricultura e
desenvolvimento rural, infraestruturas básicas, boa governação e gestão macroeconômica e
financeira (MOÇAMBIQUE - GdM, 2006, p. 24).
Em relação aos resultados, apesar de algumas melhorias no período 2001-2005, a
implementação mostrou-se fragilizada e sem sucessos no geral. Portanto, registaram-se
desenvolvimentos positivos em termos de contexto macro-económico e nos setores sociais
da educação e saúde. Todavia, a contínua escassez de emprego e rendimento nas áreas rurais
e urbanas torna difícil transformar estes avanços em verdadeira redução da pobreza
(TVEDTEN et al., 2009). Igualmente, elenca-se que a pobreza e o fosso entre o rico e o
pobre aumentaram (CUNGUARA; HANLON, 2010).
Entretanto, o índice de pobreza aumentou devido: a falta de um plano interdisciplinar
que possa permitir novas visões entre os envolvidos na execução de projetos para o
desenvolvimento de Moçambique. Inclui-se a falta ou a fraca interdependência entre as áreas
de ação no fomento do crescimento econômico e da redução da pobreza. Exemplo: é difícil
construir escolas sem estradas, as análises da pobreza mostram, frequente e robustamente, a
educação como determinante fundamental do bem-estar, pois a educação é chave de
desenvolvimento. Numa economia onde cerca 80% da população ativa (é uma parte mais
elevada da população ativa pobre) trabalham no setor agrícola, é difícil conceber reduções
da pobreza em grande escala sem haver crescimento no setor agrícola (MOÇAMBIQUE -
GdM, 2006, p. 18).
É de notar que o PARPA I focalizou-se na questão da redução dos índices de pobreza
absoluta se se olhar para o conceito de pobreza adoptado nesse período. Outro aspecto a
mencionar, é que não foram asseguradas as condições mínimas de subsistência que
concorressem para o bem-estar da sociedade.
O PARPA II definiu pobreza como a “impossibilidade por incapacidade, ou por falta
de oportunidade de indivíduos, famílias e comunidades de terem acesso a condições mínimas,
84
segundo as normas básicas da sociedade”( MOÇAMBIQUE - GdM, 2006, p. 22). O PARPA
II emerge em Moçambique no período de 2006-2009 e se estendeu até 2010, visando reduzir
a pobreza absoluta de 54%, em 2003, para 45% em 2009. A consolidação da paz, da
democracia, a estabilidade social, a segurança dos cidadãos e sua propriedade, e a garantia
da liberdade individual, como condições básicas para o crescimento da economia e da
redução da pobreza absoluta, constituíram os grandes pilares.
Avaliando os resultados, em vez de redução, a pobreza nos seus termos percentuais
atingiu 55%, superando 2003 e as perspectivas de [Link] parte, os resultados são
explicados pelo fato de que durante vinte anos, Moçambique viveu com 56% do Orçamento
do Estado, dependente de ajudas internacionais, um país com a economia frágil vivendo de
importações. (IESE, 2009). Segundo Cunguara e Hanlon (2010, p. 2), “ Ação para a Redução
da Pobreza Absoluta (PARPA II) para o período 2006-2009 ambicionava continuar a reduzir
a pobreza para 45 porcento até 2009. [...]. O objectivo do PARPA II de reduzir a pobreza
para 45 porcento provou não passar de uma utopia de desenvolvimento.” Percebe-se que
Moçambique dependendo das importaçãoes na sua economia e de ajuda externa no
orçamento, dificilmente pode sair da armadilha da pobreza.
Logo, torna-se visível, até aqui, que as ações então implantadas pouco contribuíram
para a melhoria de vida do cidadão moçambicano. (IESE, 2009). Desse modo, tanta
terminologia não vem surtindo os efeitos desejados, senão, talvez, para justificar os fundos
gastos na gestão moçambicana ou para justificar apoios internacionais - os dados pesquisados
e os relatórios mostram que o indivíduo é ainda imbuído de muitas mazelas, mantendo-se na
margem da pobreza extrema (IESE, 2009). No entanto, os desafios continuaram.
Cunguara e Hanlon (2010) referem que 70 % da população moçambicana vive nas
zonas rurais e a agricultura de sequeiro constitui a principal atividade econômica. As
pequenas explorações representam cerca de 99 % de todas explorações agrícolas, o que
significa que a redução da pobreza nestas zonas passam necessariamente por melhoramento
dos rendimentos familiares dos camponeses.
Na perspectiva de continuar no combate à pobreza, o Conselho de Ministros (CM),
no dia 3 de maio de 2011, aprovouum novo Programa de Ação na Redução de Pobreza
(PARP), que vigorou entre 2011-2014 (GdM, 2011).
Não obstante, o PARP 2011-2014 reflete acontinuidade do PARPA II, e tem como
principal objetivo reduzir a incidênciada pobreza alimentar, a partir do nível atual de 54,7%
para 42%, até2014 (IMF, 2011, p. 8). Sendo relevante destacar que essa política emerge na
situação em que o relatório do PNUD (2011) coloca Moçambiqueentre os países mais pobres,
85
ocupando a posição 184º no que diz respeitoao Índice de Desenvolvimento Humano (IDH),
comparado ao ano de 2009 em que estava na 182º, dos 187 países.
Concernente a esse programa, GdM (2011) destaca a réplica de Francisco (2008) que
sustenta que a emergência do PARP 2011-2014 surge como substituição do PARPA II, mas,
como se constatou, constitui uma continuidade dasações que foram desenvolvidas, mal ou
bem sucedida a idéia éde continuidade. Apesar da crítica, houve algumas mudanças que
melhoraram a situação do país em relação aos casos de pobreza. Por exemplo, houve a
redução da pobreza multidimensional. O termo pobreza dimensional é aprofundado ao longo
do trabalho.
O PARP é um documento estratégico do Governo de Moçambique de médio prazo
operacionalizado com foco no combate para a redução da pobreza e vulnerabilidade, na
cultura de trabalho, no crescimento inclusivo, entre outros.
O GdM (MOÇAMBIQUE, 2011) percebe a pobreza como um fenômeno
multidimensional, e o seu combate não se circunscreve apenas noselementos da pobreza
absoluta, ela estende-se ao conceito mais abrangente: Impossibilidade por incapacidade, ou
por falta de oportunidade de indivíduos, famílias e comunidades de terem acesso a condições
mínimas, segundo as normas básicas da sociedade.
Neste contexto, o governo moçambicano viu-se na necessidade de redirecionar os
esforços na sua ação de gestão pública, focalizando-se no “aumento da Produção e
Produtividade Agrária e Pesqueira, Promoção de Emprego e no Desenvolvimento Humano e
Social, mantendo em comum os pilares sobre a Governação, a Macroeconomia e a Gestão de
Finanças Públicas” (MOÇAMBIQUE – GdM, 2011, p. 5).
O aumento da produção e produtividade agrícola e pesqueira seria orientado pelo
Plano Estratégico de Desenvolvimentodo Setor Agrário (PEDSA) e no Plano Diretor das
Pescas, destacando a importância da agricultura familiar para a segurança alimentar e
nutricional, em particular nas zonas rurais, pois a produção de culturas alimentares básicas
(principalmente milho, mandioca, arroz, feijões) constitui quase 90% do total, enquanto a
pesca artesanal é responsável pela produção de 85% do pescado para o consumo interno
(MOÇAMBIQUE - GdM, 2011).
Neste contexto, destacam-se como prioridades: o aumento do acesso aos fatores de
produção, aosmercados e melhoriada Gestão Sustentável dos Recursos Naturais (Terra,
Águas, Pescas, Florestas).
O GdM, através de PARP (2011-2014) previa reduzir a incidência de pobreza de
54,7%, em 2009 para 42%, em 2014 ciente que as intervenções da ação governativa
86
favoreceriam, em primeiro lugar as camadas mais pobres, concentradas mais em áreas rurais.
(MOÇAMBIQUE - GdM, 2011). Para uma avalição do PARPA em geral, o quadro que se
segue mostra os resultados alcançados desde a sua implementação. A avaliação realizada
compreende quatro (4) etapas. No entanto, constituem resultados ajustados de referência para
as futuras avaliações.
Tabela 1 - População abaixo da linha da pobreza (%) segundo os PARPAs I, II e III
(PARP)
População abaixo da linha de pobreza13 (Avaliação por período)
Área 1ª 96/97 2ª 02/03 3ª 08/09 4ª 14/15
Nacional 69,7 52,8 51,7 46,1
Urbano 61,8 48,2 46,8 37,4
Rural 71,8 55,0 53,8 50,1
Fonte: Traduzido de Ministério da Economia e Finanças (Quarta Avaliação Nacionalda Pobreza e
Bem-Estar em Moçambique, 2014-15), 2016.
Portanto, o quadro 02 faz uma avaliação quantitativa da situação da pobreza em
Moçambique e suas tendências associadas. Conforme os dados ilustrados, percebe-se que a
pobreza rural continua sendo maior do que a urbana, visto que quase a metade da população
nas zonas rurais permance pobre na 4ᵃ avaliação. Igualmente, os dados do quadro 02 são
salientes como no meio rural a pobreza é mais aguda do que a média nacional e do que a
situação nas zonas urbanas.
Esta premissa baseava-se na ideia de que seria possível reduzir os índices de pobreza
com um investimento diversificado e em cadeia de geração de valor na agricultura que possa
aumentar a produtividade do setor familiar, diversificação da economia, criando empregos e
ligações entre os investimentos estrangeiros e a economia local, apoio às Micro, Pequenas e
Médias Empresas (MPME’s), desenvolvimento humano e social. Paralelamente a este
crescimento econômico,reduziria-se a insegurança alimentar e a desnutrição crônica infantil,
fortalecendo os mecanismos de defesa a doenças endêmicas, como o HIV-SIDA,
Tuberculose e Malária (MOÇAMBIQUE - GdM,2011).
As intenções do governo reforçam a ideia da importância de assegurar maior
coordenação, coerência e consistência entre as várias políticas, estratégias, bem como, tornar
as várias estratégias setoriais mais articuladas e melhor coordenadas (GdM, 2011).
13
As linhas de pobreza foram baseadas em cesta básica, e pressupunha-se que no período que separava os dois
inquéritos aos agregados familiares os pobres tenham mudado os seus padrões de consumo, mediante a
escolha de produtos mais baratos e de baixa qualidade, o que justificava a redução da linha de pobreza.
(CUNGUARA; HANLON, 2010: p. 2).
87
Assim, pode-se depreender o quão as ações do PARP relacionam-se com os objetivos
de melhorar as condições socioeconômicas da população em geral e promover o
desenvolvimento integrado nas zonas rurais, em particular. Por isso,é importante estudar
aarticulação das polítcas de Gestão Hídrica e de Desenvolvimento Rural. No entanto, a
Gestão Hídrica é parte importante do Desenvolvimento Rural.
Percebe-se que, as políticas de redução da pobreza surtem efeito,mas não alteram a
situação de que no rural a pobreza é maior do que no urbano.
3.3 A GESTÃO DE RECURSOS HÍDRICOS EM MOÇAMBIQUE: ORIENTAÇÕES
DE POLÍTICA DE GESTÃO DE RECURSOS HÍDRICOS, RELAÇÃO COM A
TEORIA DE OSTROM E PERSPECTIVAS DE DESENVOLVIMENTO RURAL
Nesta seção é apresentado o panorama geral da Gestão de recursos hídricos em
Moçambique sob ponto de vista de orientações de Politica de Gestão de Recursos Hídricos.
Em seguida estabelece-se ponte entre a gestão de recursos hídricos no país e a teoria de
Ostrom (1999) e no fim as perspectivas de Desenvolvimento Rural.
O quadro legal de gestão de recursos hídricos em Moçambique se assenta sobre a
Constituição de 1990 e na Lei de Águas desenvolvida em 1991 (Lei 16/91, de 3 de Agosto
de 1991) (MOÇAMBIQUE - GdM, 2007). A Lei de Águas de 1991 baseia-se na abordagem
da bacia hidrográfica para a gestão da água (FAO 2005a). A Lei de Águas forneceu as bases
para reformas dentro do setor da água e delineou a estrutura institucional, princípios e
políticas para a gestão da água em Moçambique (DFID 1999; SADC 14 2003c). A Lei de
Águas está desenhada para criar um sistema participativo e descentralizado da gestão da água
dentro do país.
A Política Nacional de Irrigação, adotada em 2002, delineia a importância da
estratégia da irrigação no país (FAO 2005a). Refletindo sobre a importância dos recursos
hídricos e sua extensão para além do território nacional, a Direção Nacional da Água,
estabeleceu o Gabinete de Rios Internacionais – (GRI), cuja obrigatoriedade da legislação é
para com os países vizinhos e o Setor da Água da SADC (SADC 2003c).
A demanda pelos recursos hídricos por parte dos países vizinhos em que muitos rios
do país têm a sua origem pode ter conduzido à necessidade de um instrumento legal que
regulasse o uso de recursos hídricos comuns. Neste âmbito de gestão transfronteiriça de
14
SADC- Southen African Development community.
88
recursos hídricos, Moçambique jogou um papel muito importante na Revisão
do Protocolo da SADC sobre a Partilha dos Cursos de Água e foi o primeiro país a apresentar
os instrumentos da ratificação com o Secretariado da SADC (SADC 2003c). A
vulnerabilidade (hídrica) do país pode explicar esta posição pioneira e hegemônica na revisão
do referido protocolo.
A Lei Nacional de Águas foi posteriormente alterada para se alinhar à Revisão
do Protocolo da SADC sobre a partilha dos Cursos de Água (UN Habitat/UNEP 2007). As
responsabilidades institucionais constituem também o pano de fundo da questão da política
de descentralização do governo de Moçambique. Ora vejamos, a Direção Nacional da Água
sob a Lei de Águas de 1991, dentro do Ministério das Obras Públicas e Habitação (MOPH)
é responsável pela formulação de políticas e implementação de planejamento e gestão na
totalidade dos recursos hídricos do país bem como fornecimento de água e serviços
de saneamento.
A Direção Nacional para Hidráulica Agrícola (DNHA) dentro do Ministério da
Agricultura e Desenvolvimento Rural (MADER) mantém a responsabilidade pelas
atividades relacionadas com a irrigação e drenagem (FAO 2005).
A Lei de Águas de 1991enfatiza a necessidade de coordenação intersetorial e de um
enquadramento institucional através do Conselho Nacional de Águas (CNA). O CNA foi
estabelecido como uma comissão consultiva sob a Lei de Águas, desenhada para aconselhar
o Governo em questões relacionadas com a gestão da água e a implementação de políticas da
água (DFID 1999, apud SADC, 2003).
A gestão de recursos hídricos em Moçambique como em muitas partes do mundo
envolve muitos setores do país: Ministério das Obras Públicas e Habitação; Ministério da
Agricultura e Pescas; Ministério dos Negócios Estrangeiros e Cooperação; Ministério da
Indústria e Comércio; Ministério dos Recursos Minerais e Energia; Ministério da
Administração Estatal; Ministério da Saúde; e Ministério da Coordenação e Ação Ambiental.
A adesão do CNA demonstra a importância dada à água em Moçambique e o
comprometimento do governo central na gestão da água (DFID 1999 apud SADC, 2003);
contudo, a coordenação entre os vários ministérios tem sido um desafio constante
(FAO 2005).
O artigo 18 da Lei de Águas atribui a jurisdição da gestão da água às Autoridades
Regionais de Águas (Administração Regional de Águas – ARA), que foram estabelecidas
com base nas bacias hidrográficas (DFID 1999, apud SADC, 2003). As ARAs mantêm
autonomia financeira e organizacional mas prestam contas à Direção Nacional de Água.
89
Foram estabelecidas cinco autoridades da gestão regional da água (SADC, 2003):- ARA Sul
(Sul), cobrindo a fronteira sul do país ate a bacia do Rio Save; - ARA Centro (Central), que
inclui a bacia do Rio Save até a bacia do Rio Zambeze; - ARA Zambeze que consiste na
bacia do Rio Zambeze; - ARA Centro Norte (Centro Norte) cobrindo a região desde a bacia
do Rio Zambeze até ao Rio Lúrio; e ARA Norte (Norte), que consiste na bacia
do Rio Lúrio até a fronteira norte. A bacia do Rio Incomáti em que foi realizada a pesquisa
de campo deste trabalho pertence à ARA Sul (Sul) e tem sua origem fora do país.
Desta forma percebe-se que o governo focalizou mais as suas ações na estruturação
burocrática e articulação institucionais do que nas formas de envolvimento das comunidades
locais. Porém, compreende-se que os recursos hídricos, uma vez transfronteiriços, constituem
bens comuns para todos os países da região, daí a necessidade de uma gestão partilhada de
recursos comuns e a prioridade dos acordos internacionais.
Neste contexto de partilha dos recursos comuns, a teoria de Elinor Ostrom (1999) tem
grande contribuição para a gestão de recursos hídricos em Moçambique sob ponto de vista
de orientação de Política de Gestão de Recursos Hídricos. Nos parágrafos que se seguem é
apresentada o conteúdo da teoria de Ostrom.
Ostrom, economista Norte-Americana, Prémio Nobel da Economia em 2009,
desafiou a teoria de Garrett Hardin com a sua teoria The Tragedy of the Commons
apresentando uma nova forma de gestão de recursos comuns, em comunidade e de modo
sustentável. Enquanto a teoria de Hardin defende essa gestão baseada na privatização ou
nacionalização dos recursos com benefícios a curto prazo, com uma regulação que marca o
distanciamento entre quem legisla e os utilizadores, resultava a escassez, sobre-exploração e
degradação dos recursos; a teoria de Ostron defende que na gestão dos recursos de bens
comuns devia se previlegiar o envolvimento das comunidades locais e por consequência os
beneficios se tornariam de longo prazo, visto que os sujeitos da regulação são as
comunidades, os gestores e os utilizadores. A visão de Ostrom pressupõe o uso e o consumo
do recursos comuns partilhado não rival e uso e governança dos recursos comuns com
equidade (OSTROM, 1990).
Portanto, Ostrom provou que um conjunto de bens comuns a vários indivíduos não é
necessariamente mal gerido pelos seus utilizadores e que privatizar ou regular com base em
entidades externas não são as únicas formas, nem as soluções mais eficientes, para a gestão
sustentável dos recursos. Ostrom na temática de gestão de recursos partilhados permite
perceber que, por um lado, se a população for envolvida no processo de gestão, o resultado
será um consumo do bem comum partilhado, um consumo com equidade e tendo em
90
perspectiva não o lucro fácil de curto prazo, mas a sustentabilidade do recurso. Por outro lado,
se nos envolvidos dominar o seu próprio interesse, de forma racional, mas agindo
individualmente e na procura da maximização do lucro, sem ter uma perspectiva a longo-
prazo, o resultado será a tragédia ou seja o esgotamento dos recursos (OSTROM, 1999 apud
SIMÕES; MACEDO; BABO, 2011).
Para viabilizar a Gestão Integrada dos Recursos Hídricos (GIRH) em moldes
participativos, o governo de Moçambique vai levando a cabo a substituição de abordagens
prescritivas e centrais de desenvolvimento, por um regime de desenvolvimento sustentável,
participativo e orientado para a procura e oferta de recursos hídricos.
A Conferência das Nações Unidas para o Desenvolvimento Sustentável (CNUDS)
(2012) adverte que a participação e a capacitação a todos os níveis de gestão hídrica passa
por membros da sociedade civil, organizações não governamentais e grupos alvos dessa
mesma gestão.
Tendo em conta a gestão de recursos hídricos em Moçambique sob ponto de vista de
orientação de Política de Gestão de Recursos Hídricos e a teoria de Ostrom. Nesta ponte,
compreende-se que o Governo regula, controla e é provedor de serviço, jogando um papel
central na formulação e implementação de políticas públicas. A legistação sobre a gestão dos
recursos hídricos pressupõe a participação dos atores através da descentralização do processo
o que converge com a teoria de Ostrom. Porém, a legislação não toma no seu foco a questão
da democratização e gestão partilhada ou recíproca no uso e consumo dos recursos de bens
comuns proposta por Ostrom. Neste caso, a discussão centra-se na Política de Gestão dos
Recursos Hídricos mais burocrática ou seja, não se configura a necessidade de um reforço da
legislação nestas componentes e como deve ser a gestão democrática e partilhada de recursos
hídricos da região, quer seja de ponto de vista das relações deplomáticas, quer seja de ponto
de vista de envolvimento das comunidades locais.
Com a aprovação e ratificação do protocolo da SADC sobre os cursos de água
partilhados, o acordo sobre a utilização conjunta das águas dos Rios Incomáti e Maputo, a
execução de alguns estudos conjuntos de bacias hidrográficas internacionais e o
estabelecimento de novas administrações regionais de água, são reconhecidos os grandes
desafios no setor dos recursos hídricos, nomeadamente: melhoria efetiva do saneamento nas
zonas urbanas, peri-urbanas e rurais, redes hidrológicas, desenvolvimento de novas
infraestruturas hidráulicas, gestão integrada de recursos hídricos com a participação das
partes interessadas e a consolidação das Administrações Regionais de água (ARAS)
(MOÇAMBIQUE - GdM, 2007).
91
Em termos de políticas, definiu-se uma série de políticas nos vários setores de água,
nomeadamente: gestão integrada de recursos hídricos; satisfação das necessidades básicas da
população mais pobre; o valor econômico da água; o papel do governo; maior papel das
partes interessadas e mais afetadas pela gestão de água a nível das bacias hidrográficas; a
participação dos beneficiários; o aumento do papel do setor privado; o enquadramento
institucional; a capacitação institucional; a integração do abastecimento de água, o
saneamento e promoção de higiene; a educação sobre a água, e o conhecimento de recursos
hídricos e da sua utilização (MOÇAMBIQUE - GdM, 2007). Portanto, a privatização do setor
de água pode conduzir à penalização das camadas sociais mais pobres ao reduzir o acesso e
aumentar a vulnerabilidade.
O desenvolvimento dessas políticas nos setores de água tem como principal objetivo
proporcionar um conjunto de políticas e instrumentos para fortalecer o planejamento de
desenvolvimento dos recursos hídricos no país, e de melhorar a coordenação das agências
utilizadoras de água dentro do quadro de gestão integrada dos recursos hídricos
(MOÇAMBIQUE - GdM, 2007).
No contexto de Moçambique, GdM (MOÇAMBIQUE - 2007) refere que a assistência
a ser dada no fortalecimento das instituições do setor de água visa melhorar a eficiência das
instituições no setor da Direção Nacional de Águas (DNA) e a Administração Regional de
Águas (ARAs) e promover o envolvimento dos stakeholders na gestão dos recursos hídricos
aos níveis nacional, regional e local. Neste aspecto institucional existe o reconhecimento de
que a capacidade institucional é fundamental no âmago da gestão dos recursos hídricos e sua
articulação nos níveis e meios destacados. Para consubstanciar estes argumentos, o GdM
(MOÇAMBIQUE, 2007), através da Política Nacional de Águas, refere que o seu objetivo é
melhorar os serviços de água e saneamento bem como aumentar o grau de cobertura tanto
nas áreas rurais como urbanas. Faz- se preciso apresentar a organograma institucional da
gestão dos recursos hídricos. Esta gestão incopora- se na estrutura orgânica do Ministério de
Obras Públicas, Habitação e Recursos Hídricos. Portanto, a Direcção Nacional de Gestão de
Recursos Hídricos (DNGRH)faz parte da estrutura deste ministério. A DNGRH, é uma
unidade orgânica do Ministério das Obras Públicas, Habitação e Recursos Hídricos,
responsável pela promoção do uso e aproveitamento sustentável dos recursos hídricos para
satisfação das necessidades actuais e das futuras gerações, salvaguardando o ambiente.
A DNGRHé composta por: Departamento de Gestão de Bacias Hidrográficas,
Departamento de Obras Hidráulicas, Departamento de Rios Internacionais, Departamento de
Planificação e Departamento de Administração e Finanç[Link] GdM (MOÇAMBIQUE,
92
2016, p. 427- 428), são funções da Direcção Nacional de Gestão de Recursos Hídricos, as
seguintes:
a) propor políticas e estratégias de desenvolvimento, conservação, uso e
aproveitamento dos recursos hídricos das bacias hidrográficas;
b) assegurar a disponibilidade de água em quantidade e qualidade para os diferentes
usos;
c) coordenar as ações de cooperação no domínio dos recursos hídricos
compartilhados, assegurando a participação nos organismos de cooperação no
domínio das águas;
d) avaliar o cumprimento dos acordos internacionais sobre a utilização conjunta dos
recursos hídricos;
e) avaliar periodicamente, o balanço dos recursos hídricos das bacias hidrográficas e
das necessidades de água a nível nacional e regional;
f) estabelecer o cadastro dos usos e aproveitamento e operar sistemas nacionais de
informação sobre recursos hídricos;
g) elaborar e monitorar a implementação dos planos de bacia para apoio ao
planeamento de curto, médio e longo prazo, sobre o uso e aproveitamento,
conservação e desenvolvimento dos recursos hídricos, segundo o princípio da
unidade e coerência da gestão das bacias hidrográficas;
h) promover investimentos para construção e manutenção dos aproveitamentos
estratégicos para gestão, armazenamento, proteção, derivação e transporte de água,
bem como a regularização dos leitos dos rios, assegurando a sua exploração
sustentável;
i) realizar estudos estratégicos para conservação, proteção e desenvolvimento dos
recursos hídricos;
j) elaborar propostas de legislação e do quadro regulamentar sobre recursos hídricos
e assegurar a fiscalização e o seu cumprimento;
k) manter atualizado o cadastro com vista a garantir a conservação do património do
domínio público hídrico;
l) garantir a gestão integrada e racional dos recursos hídricos e o sistema de
administração de recursos hídricos com base em bacias hidrográficas;
m) assegurar e coordenar o planeamento estratégico integrado da gestão dos recursos
hídricos;
n) assegurar o estabelecimento de sistemas de previsão e aviso de cheias;
93
o) elaborar, actualizar e monitorar a implementação do plano nacional para a
construção de infraestruturas hidráulicas;
p) propor investimentos para a construção, manutenção e expansão de infraestruturas
de gestão, proteção e armazenamento de água; e
q) propor a definição de zonas de proteção e zonas propensas a inundações e secas.
Portanto a operacionalização e a materialização destas funções depende da sua
articulação com os departamentos que a compõem e com outras direções do Ministério de
tutela, em especial a Direcção Nacional de Abastecimento de Água e Saneamento (DNAAS).
A seguir é apresentada a estrutura orgânica da DNGRH:
Figura 2 - Organograma da DNGRH
DIREÇÃO NACIONAL DE GESTÃO DE
RECURSOS HÍDRICOS
DEPARTAMENTO DE DEPARTAMENTO DE DEPARTAMENTO DE
DEPARTAMENTO DE DEPARTAMENTO DE
GESTÃO DE BACIAS RIOS ADMINISTRAÇÃO E
OBRAS HIDRÁULICAS PLANIFICAÇÃO
HODROGRÁFICA INTERNACIONAIS FINANÇAS
REPARTIÇÃO DE REPARTIÇÃO DE GESTÃO DE
REPARTIÇÃO DE REPARTIÇÃO DE
PLANEAMENTO DE BACIAS INFORMAÇÃO DE RECURSOS
FINANÇAS ADMINISTRAÇÃO
HIDROGRÁFICAS (RPBH); HÍDRICOS, RGIRH).
Fonte: Elaborado pelo autor
Por ser de crucial importância na abordagem desta tese, também são apresentadas as
funções da DNAAS, que é a unidade orgânica do Ministério das Obras Públicas, Habitação
e Recursos Hídricos responsável pelo abastecimento de água potável e saneamento às
populações, e assegura a implementação de programas de abastecimento de água e
saneamento, visando alcançar serviços sustentáveis e cobertura universal.
Para o GdM (MOÇAMBIQUE, 2016, p. 430- 431), são funções da DNASS, as
seguintes:
a) propor e assegurar a implementação de políticas, estratégias, normas, regulamentos
e especificações técnicas para o abastecimento de água e saneamento, bem como
os programas no domínio do abastecimento de água e saneamento;
b) promover investimentos para a construção, manutenção e expansão de infra-
estruturas de abastecimento de água e saneamento;
94
c) harmonizar os planos e as acções com vista a assegurar o acesso universal aos
serviços de abastecimento de água e de saneamento;
d) assegurar o equilíbrio no acesso aos serviços de abastecimento de água e
saneamento;
e) actualizar e divulgar as estratégias de abastecimento de água e saneamento;
f) incentivar a participação do sector privado na provisão do serviço do abastecimento
de agua e saneamento, incluindo a parceria público privada;
g) monitorar o cumprimento das normas para prevenção da poluição doméstica e
industrial;
i) elaborar normas de drenagem de águas pluviais nos assentamentos rurais e urbanos,
e monitorar o seu cumprimento;
j) estabelecer e operar sistemas nacionais de informação sobre água e saneamento;
k) prestar apoio técnico e metodológico aos órgãos locais do estado e autárquicos no
domínio de abastecimento de água e saneamento.
Neste contexto, é possível destacar alguns elementos que caracterizam as dimensões
de desenvolvimento segundo Santos (2013), a citar: satisfação das necessidades básicas de
toda a população, garantia das liberdades e respeito pelos direitos humanos, respeito pelo
ambiente e gerações futuras, entre outro. Isto remata a ideia de que a Política de águas para
o desenvolvimento passa imperiosamente pela satisfação das necessidades de grupos de
baixo rendimento (mais vulneráveis), descentralização da gestão dos recursos hídricos e
prestação de serviços e, a distribuição daqueles de forma integrada, alívio da pobreza,
melhoramento da saúde pública (MOÇAMBIQUE - GdM, 2017).
Desse modo, a abordagem da pesquisa configura o desenvolvimento rural no PAX,
distrito de Manhiça focalizando- se na satisfação das necessidades básicas das camadas
sociais mais vulneráveis do meio rural, através de descentralização na gestão dos recursos
hídricos, reduzindo a pobreza e melhorando a saúde pública. As políticas de gestão de
recursos hídricos são fundamentais para o desenvolvimento rural através de uma boa
governança hídrica e uma segurança hídrica garantida.
Desse modo, percebe-se até que ponto a gestão dos recursos hídricos sob ponto de
vista de políticas de gestão pode contribuir para o desenvolvimento rural, ou seja, para a
redução da vulnerabilidade (hídrica) e combate à pobreza nas áreas rurais.
Portanto, a revisão teórica desta tese pode ser expressa no seguinte esquema
conceitual que orienta o alcance do objetivo da pesquisa. O esquema conceitual permite
visualizar a relação da Política de Gestão de Recursos Hídricos com as dimensões de
95
desenvolvimento em Santos (2013). Ou seja, até que ponto a Política de Gestão de Recursos
Hídricos contribue para o planejamento territorial, desenvolvimento dos diferentes ramos de
produção, redução das desigualidades, melhoria da qualidade de vida, satisfação das
necessidades básicas de toda a população, garantia das liberdades e respeito pelos direitos
humanos e respeito pelo ambiente e gerações futuras no PAX. Portanto, toda a área do círculo
enxerga-se o Desenvolvimento Rural através das dimensões em Santos (2013), conforme o
objeto da tese.
Figura 3 - Esquema Conceitual da Pesquisa
Planejamento
territorial
Respeito pelo Desenvolvimento
ambiente e gerações dos diferentes ramos
futuras de produção
Política de Gestão
dos Recursos
Garantia das Hídricos
liberdades e Redução das
respeito pelos desigualdades
direitos humanos
Satisfação das
necessidades Melhoria da
básicas de toda a qualidade de vida
população
Fonte: Elaborado pelo autor
No capítulo a seguir é apresentada a metodologia da pesquisa .
96
4 METODOLOGIA DA PESQUISA
Este capítulo explicita a estratégia metodológica para o alcance dos objetivos
preconizados na pesquisa. Quanto à forma, a pesquisa iniciou com a busca e organização de
campos de problematização que estiveram presentes na construção do problema da pesquisa,
incluindo a emergência de conceitos de governança hídrica, segurança hídrica e
vulnerabilidade (hídrica) e pobreza, sua relação com os processos de desenvolvimento em
geral e de modo específico com os processos de desenvolvimento rural. A emergência destes
conceitos permitiu a (des)construção das variáveis da pesquisa. A figura 4 esquematiza as
relações entre a (in)segurança hídrica, a vulnerabilidade e a pobreza a partir do recurso
hídrico compartilhado. Nessa fig, são notáveis as interações e intermediações que
estabelecem entre os conceitos referenciados. A (in)segurança hídrica pode resultar nas
vulnerabilidades e estas em situações de pobreza. Da mesma forma pode se entender que a
pobreza constitui a causa as vulnerabilidades e a insegurança hídrica. Igualmente, a figura 4
destaca o lugar e o papel da governança do recurso comum ou compartilhado.
Figura 4 - Relações entre (in)segurança hídrica, a vulnerabilidade e a pobreza a partir
do recurso hídrico compartilhado
Fonte: Elaborado pelo autor.15
No que tange ao conteúdo, a emergência dos conceitos referidos e sua relação com os
processos de desenvolvimento permitiu a compreensão sobre a delimitação do objeto de
15
O autor agradece o diálogo ocorrido por defesa desta tese. A figura 04 decorre da análise da Prof.ª Alessandra
Matte enquanto arguidora do manuscrito.
97
estudo. Em seguida procedeu-se o desenho do respectivo projeto de pesquisa, sua aprovação
e trabalho de campo.
Para responder à questão da pesquisa preconizou-se o referencial teórico que buscou
a definição e a operacionalização de conceitos e abordagens como: recursos hídricos, gestão
de recursos hídricos, desenvolvimento, desenvolvimento rural, entre outras referenciadas no
trabalho. O uso de abordagem de natureza quantitativa e qualitativa inclui elementos como:
conceitos de governança hídrica, segurança hídrica, vulnerabilidade e pobreza que permitem
compreender melhor a contribuição da Política de Gestão dos Recursos Hídricos nos
processos de Desenvolvimento. A teoria de desenvolvimento que norteia a pesquisa é a de
Santos (2013). Os aspectos relacionados com essa teoria de Desenvolvimento na área de
estudo focalizam-se no planejamento territorial, nas desigualdades socioeconômicas, na
satisfação das necessidades básicas da população, na liberdade e respeito pelos direitos
humanos, no respeito pelo ambiente e gerações futuras a partir desta política. A verificação
das relações entre as dimensões indicadas na teoria foi feita através da revisão teórica e de
trabalho de campo (dados do campo).
Para a materialização da pesquisa incluiu-se o trabalho de pré-campo conforme
detalhado neste capítulo. Os dados do pré-campo contribuiram não só para o alinhamento
dos principais elementos introdutórios da pesquisa, mas também para a reformulação das
técnicas de coleta de dados no trabalho de campo final. Para não distorcer os resultados da
pesquisa final não foram incluídos dados do pré-campo na amostra e na análise.
Na delimitação do objeto de estudo concentrou-se na apresentação sucinta da
localização espacial da pesquisa, das características físico-geográficas e socioeconômicas do
local de estudo e de seguida, os métodos e as técnicas que orientaram para o alcance dos
objetivos preconizados na pesquisa.
Assim sendo, são apresentados os seguintes elementos: Escolha e Delimitação
espacial da pesquisa, Caracterização sócio-econômica do distrito de Manhiça, Métodos de
Abordagem, Métodos de Procedimentos, Tipos de Pesquisa, Etapas Metodológicas da
Pesquisa de campo e e a metodologia para a análise dos dados. A análise de dados está no
próximo capítulo.
98
4.1 ESCOLHA E DELIMITAÇÃO ESPACIAL DA PESQUISA
A pesquisa decorreu no Posto Administrativo16 de Xinavane, distrito de Manhiça,
província de Maputo, Moçambique. A escolha do Posto Administrativo de Xinavane deve-
se ao fato de o mesmo ser atravessado pelo Rio Incomáti. Por um lado, a maior parte da
população do distrito de Manhiça em geral, e de modo específico a população deste posto
administrativo tem o Rio Incomáti como fonte de busca de recursos hídricos não só para o
consumo doméstico, mas também para o desenvolvimento de várias atividades: agricultura,
pecuária, pesca, navegação, turismo, entre outras. Por outro lado, a existência não só das
potencialidades agrícolas, mas também, por consequência, de projetos e associações de
agricultores e produtores que podem influenciar para o desenvolvimento espacial e
proporcionar o bem- estar das populações locais. Desses projetos podem ser mencionadas as
plantações de cana-de-açúcar e as indústrias açucareiras de Maragra e de Xinavane
localizadas junto a bacia do Incomáti e as associações de camponeses e produtores existentes.
Igualmente, a escolha se justifica pela questão de domínio das línguas de comunicação usadas
pelas populações locais, o que facilitou a aplicação das têcnicas de coleta de dados de
informação junto aos inquiridos e aos entrevistados.
4.2 LOCALIZAÇÃO DO POSTO ADMINISTRATIVO DE XINAVANE
Como foi referido, o Posto Administrativo de Xinavane localiza-se no distrito17 de
Manhiça, província de Maputo, Moçambique. O distrito de Manhiça situa-se entre os
paralelos 24º 58’ 49’’ e 25º 35’ 46’’ de latitude Sul e entre os meridianos 32º 30’ 51’’ e 33º
08’ 14’’ de longitude, conforme a fig.01, possuindo uma superfície de 2.380 km2 e cerca de
157.642 habitantes, recenseados em 2007 (INE, 2007).
A fig 05, ilustra não só a localização do distrito, mas também os países limítrofes
(países da montante) junto à fronteira Ocidental e o Oceâno Indico na costa leste, a rede
hidrográfica de Moçambique e as províncias do paí[Link] efeito do objeto da pesquisa, o foco
da ilustração relaciona-se com a rede hidrográfica na qual está inserida a bacia do Rio
Incomáti.
16
No caso de Moçambique, o Posto Administrativo compreende duas ou mais localidades.
17
Para caso de Moçambique, distrito engloba dois ou mais Postos Administrativos.
99
Figura 5 - Rede Hidrográfica de Moçambique
Fonte: MAE (2008).
A figura 06 apresenta o enquadramento geográfico do distrito de Manhiça e a
localização da área ocupada pela bacia do Incomáti (área em que correu a pesuisa). O distrito
de Manhiça limita-se com o distrito de Bilene a Norte, Magude a Oeste, Marracuene a Sul e
oceano Indico a leste. Portanto, o Posto Administrativo de Xinavane a Norte deste
[Link] de 32 % da área bacia hidrográfica de Incomáti pertence a território
moçambicano. (MAE, 2008).Relativamente a abordagem da bacia hidrográfica, a bacia de
Incomáti constitui o recorte empírico da pesquisa.
100
Figura 6 - Enquadramento Geográfico do Distrito de Manhiça e o Posto
Administrativo de Xinavane
Fonte:INE (2002).
4.3 CARACTERIZAÇÃO SÓCIO-ECONÔMICA DO DISTRITO DE MANHIÇA
4.3.1 População, Habitação e condições de vida
O distrito de Manhiça possui cerca de 160.096 habitantes (INE, 2007). Neste distrito
predomina, em termos de habitação, a palhota, com pavimento de terra batida, teto de chapa
de zinco e paredes de caniço ou paus; famílias sem rádio e luz; uma bicicleta em cada dez
famílias, possui latrinas nas residências e a água é proveniente de poços ou furos.
Segundo o informe anual do Posto Administrativo de Xinavane (2018)18, estima-se
que neste posto administrativo existe cerca de 31.598 habitantes dos quais 15.080 são de
sexo masculino e 16.518 são de sexo feminino. Isto significa que a maioria da população do
posto administrativo de Xinavane é de gênero feminino.
O Posto Administrativo de Xinavane, seguindo o da Manhiça Sede, apresenta
melhores condições habitacionais, sendo que, a maioria das suas famílias vive em casas de
18
Dados do campo, 2019.
101
bloco ou tijolos, com teto de chapas de zinco, com água canalizada fora da casa e latrina e
sem eletricidade (somente 12% das habitações possuem energia elétrica) ( MAE, 2008). As
casas de madeira e zinco representam 3% do total das habitações do distrito e as de bloco ou
tijolo 13%, a sua maioria (cerca de 70%) localizadas na vila de Xinavane e da Manhiça Sede.
Fora destes locais e a partir da observação realizada, a situação é contrária, ou seja, as casas
são de material precário quase na sua totalidade (MAE, 2008).
4.3.2 Economia
O Distrito de Manhiça possui cerca de 236 mil hectares do potencial de terra arável,
ocupadas pela exploração cerca de 20% desta área (25 mil ha de sequeiro e 30 mil ha
irrigados) e pela pecuária cera de 30 mil ha de pastos, isto é, 13% de terra arável (MAE,
2005). A partir destes dados entende-se que o distrito de Manhiça possui um potencial agro-
ecológico capaz de promover o desenvolvimento agrícola e pecuário, tornar o distrito um
celeiro agro-pecuário. Igualmente, este potencial agrário pode proporcionar novas dinâmicas
agrícolas próprias à agricultura e configurar a gênese e o perfil das comunidades deste
distrito.
O clima é do tipo tropical úmido no litoral e tropical seco para o interior. Possui duas
estações: quente e de pluviosidade elevada de Outubro a Abril e a fresca e seca de Abril a
Setembro. A precipitação média anual é de 807 mm com freqüência nos meses de Dezembro
a Fevereiro, a temperatura média anual é de 23°C, sendo a máxima em Janeiro (cerca de
32°C) e a mínima em Julho de 13°C. Os solos variam de fertilidade média, na zona alta, com
sedimentos arenosos eólicos a Ocidente e ao longo da costa e uma zona de dunas costeiras e
uma planície aluvial com menos de 100m, ao longo do vale com solos argilosos, de textura
estratificada ou turfosos (MAE, 2008).
Os solos possuem aptidão agrícola e, de um modo geral, a agricultura é praticada em
explorações familiares de 1 ha, em regime de consorciação de culturas com base em
variedades locais. A demanda pelos terrenos tem provocado conflitos pela posse de terra. O
setor familiar produz principalmente milho, batata doce, feijão, amendoim, mandioca,
banana e arroz. Após as intensas cheias de ano de 2000, o distrito foi fustigado pela seca e
estiagem o que induziu uma tímida recuperação do ritmo de produção da atividade agrícola
familiar (MAE, 2005).
O setor privado é dominado pelas açucareiras de Maragra e de Xinavane, que ocupam
cerca de 20 mil hectares de cana-de-açúcar (dos 55 mil identificados ou 37%) e empregam
102
diretamente, na atividade agrícola e industrial, cerca de 65% de mão-de-obra assalariada do
distrito (MAE, 2005).
Portanto, as atividades agrícola e da indústria açucareira constituem as principais
fontes de rendimentos para as comunidades da área de estudo.
A organização “médicos sem fronteiras” estima que a média de reservas alimentares
de cereais e mandioca, por agregado familiar é em torno de 2 meses, assumindo-se que 7,5%
da população esteja potencialmente vulnerável, com destaque aos camponeses, idosos e às
famílias chefiadas por mulheres (MAE, 2005). As outras fontes de rendimentos são
provenientes do trabalho migratório e venda de cana-de-açúcar e bebidas, hortícolas,
banana, papaia, cajú, carvão e lenha. A criação de gado embora com descréscimo de efetivos
e o comércio (informal) constituemoutras atividades econômicas deste distrito (MAE, 2005).
De modo mais específico, o Governo de Distrito de Manhiça (GDM), através de Plano
Distrital de Desenvolvimento, refere que, por causa das potencialidades que o distrito possui
em diversas áreas, os investidores nacionais e estrangeiros deveriam dar atenção merecida ao
distrito (GDM, 2017). Isto tornaria o distrito numa referência agrícola e turística a nível da
província de Maputo.
O GDM (2017, p. 3) faz menção da “existência de potencialidades que proporcionam
zonas de desenvolvimento, nomeadamente: agricultura e pecuária, pesca e turismo,
tecnologia e investigação, recursos naturais”.
No que tange à agricultura, há que destacar não só a existência de grande extensão de
terra arável com condições agrícolas para produzir alimentos e gerar rendimentos; de um
matadouro industrial, mas também a existência de uma carteira de projetos desenhados que
permitirá ao investidor a fácil identificação da área de intervenção para o desenvolvimento
sustentável.
Relativamente a pesca e turismo, a explicação se focaliza na existência do Incomáti,
com três afluentes e 13 lagos, possibilitando a instalação e execução de regadios e prática da
pesca. Os 20 km de costa marítima, as dunas e lagoas existentes testemunham melhor a
prática de turismo.
No entanto, a potencialidade em tecnologia e investigação teria gerado a existência
de uma empresa Nacional de Parques de Ciência e Tecnologia e de um centro de investigação
em Saúde que realiza pesquisa na área de saúde e assistência médica (GDM, 2017)
As potencialidades em recursos naturais são explicadas pela abundância de areia (fina
e grossa) para as atividades de construção, produção de tijolo e cerâmica e, a existência de
103
nascentes de água, calcário, diatomitos, o que joga a favor de instalação de fábricas de
captação e engarrafamento de água, produção de cal e de cimento.
Todavia, entendemos que estes são alguns exemplos, a par de muitos, que jogam a
favor de um distrito com potencial para o desenvolvimento. Existe um reconhecimento
estrutural de que o aumento da produção e da produtividade nas áreas rurais passa
necessariamente pela promoção de desenvolvimento das mesmas, pela formação do capital
humano e social, ou seja, pela formação dos atores de desenvolvimento nas zonas rurais em
particular.
Apoiando-se na ideia sobre os atores de desenvolvimento rural de Schneider e Gazola
(2011), a pesquisainclui as interfaces que os agricultores familiares do Posto Administrativo
de Xinavane estabelecem com outros atores presentes no meio rural ao nível do distrito de
Manhiça e província19 de Maputo em geral. Estes atores possuem as formas de interações
que constroem com os mercados, as instituições e a dinâmica social e econômica da
sociedade como um todo. Estes atores podem ser agricultores individuais, grupos ou
coletivos sociais, produzem, organizam, armazenam, trocam e negociam no seu cotidiano.
No que respeita ao setor agrário, no Posto Administrativo de Xinavane existem duas
(2) associações de camponeses regularizadas nomeadamente: associação Tchuucane e
Tuanano e uma (1) ainda não legalizada e identificada por associação Tsacane/Buna; dois
(2) grupos de produtores nomeadamente: grupo produtor KanimanboChivambo e grupo
produtor da localidade Eduardo Mondlane.
4.3.3 Infraestruturas e serviços
O Distrito de Manhiça é atravessado pela Estrada Nacional nº1 (EN1) e por um total
de 200 km de estradas secundárias, terciárias e pontes, em geral transitáveis, à exceção de
Calanga, Josina Machel que são inacessíveis na época de chuvas. As frotas privadas, em
mau estado de manutenção asseguram o transporte rodoviário. O transporte fluvial e o
ferroviário de carga e de passageiros são orientados no sentido Maputo-Magude. Conta-se
também com a rede de telecomunicações fixa e móvel e uma delegação de correios de
Moçambique (MAE, 2005).
A vila de Xinavane e o municipio de Manhiça possuem pequenos sistemas de
abastecimento de água, e as zonas rurais são abastecidas por uma rede de 153 furos equipados
19
A expressão província é análoga ao Estado no Brasil.
104
com bombas manuais e 32 poços a céu abertoque garantem o abastecimento de cerca de 85%
da população rural. A rede elétrica ainda não atinge a todos os Postos Administrativos do
distrito (MOÇAMBIQUE - MAE, 2005).
O distrito conta com 13 mil hectares de infra-estruturas e equipamentos de irrigação
dos quais 10 mil estão operacionais, incluindo 6 mil das açucareiras.
Existem no distrito 183 escolas (85 do Ensino Primário). Porém, a rede escolar
continua a não satisfazer a procura, havendo ainda crianças com idade escolar sem estudar
devido as distâncias percorridas para encontrar estes serviços, a dispersão da população e a
fraca rede escolar.
Em termos de serviços do sistema nacional de saúde, o distrito conta com 22 unidades
sanitárias, incluindo um hospital rural, que possibilitam o acesso da população aos serviços
do Sistema Nacional de Saúde (MAE, 2005). A pesquisa tomou em conta estes elementos e
a análise com relação as questões de assimetrias na sua distribuição pelo distrito de Manhiça.
No que tange ao setor de água, GDM (2017) forneceu dados que indicam que cerca
de 2.692 famílias possuem água canalizada (entre pública e privada). Existem três (3)
sistemas de abastecimento de água canalizada dos quais dois (2) são públicos e um (1) é
privado. Ao nível do Posto Administrativo contam-se vinte e dois (22) furos de água e catorze
(14) poços de água. Entretanto, todas as preocupações relativas à água são atendidas no Posto
Administrativo.
A pesquisa compreende os métodos de abordagem e de procedimento.
Os métodos de abordagem referem-se ao plano geral do trabalho, a seus fundamentos
lógicos e aos processos de raciocínio adotados, enquanto métodos de procedimentos
relacionam-se com as etapas do trabalho da pesquisa de campo. De Araújo (2000) refere que
em função da forma de raciocínio utilizada, os métodos de abordagem classificam-se em:
dedutivo, indutivo, hipotético-dedutivo e dialéctico.
Na presente pesquisa, o método indutivo orientou toda a abordagem. O método
indutivo procura pensar os problemas de pesquisa em um raciocínio ascendente, no qual se
parte da observação de fenômenos particulares, procura-se identificar regularidades entre
eles, para então chegar a uma generalização, propondo como conclusão quase que uma lei ou
teoria sobre o objeto pesquisado (GIL, 2006).
Referir que duas das leis criadas a partir desse raciocínio são verificadas nas mesmas
circunstâncias, causas produzem os mesmos efeitos, ou em outras palavras, se em dadas
condições, um determinado fenômeno, sempre que pesquisado, se repetiu, em futuras
verificações o mesmo será observado. A outra consiste em afirmar que o que é verdade de
105
muitas partes suficientemente enumeradas de um sujeito, é verdade para todo esse sujeito
universal (MESQUITA FILHO, 2006).
A pesquisa focaliza-se no método indutivo porque considera: as circunstâncias e a
frequência com que ocorre determinado fenômeno, os casos em que o fenômeno não se
verifica e os casos em que o fenômeno apresenta intensidade diferente (BACON 1561-1626
apud GERHARDT; SOUZA, 2009). Pela natureza da inter-relação das variáveis da pesquisa,
foi estudada a questão da Contribuição da Política de Gestão dos Recursos Hídricos da bacia
de Incomati para o Desenvolvimento Rural no Posto Administrativo de Xinavane, para se
chegar à resposta da problemática da pesquisa.
Desse modo, a pesquisa analisou a contribuição da Política de Gestão de Recursos
Hídricos nas várias dimensões de desenvolvimento no Posto Administrativo de Xinavane
(Manhiça, Moçambique, nomeadamente: Planejamento territorial; Desenvolvimento dos
diferentes ramos de produção; Redução das desigualdades; Melhoria da qualidade de vida;
Satisfação das necessidades básicas de toda a população; Garantia das liberdades e respeito
pelos direitos humanos, e Respeito pelo ambiente e gerações futuras.
No que respeita aos métodos de procedimentos, na pesquisa foram usados os seguintes:
estatístico, histórico e comparativo.
O método estatístico é empregado nas pesquisas quantitativas, uma vez que trata de
elementos de caráter matemático. Este método permitiu obter uma base de informações a
serem analisadas, via estatística descritiva e análise das relações entre as variáveis da
pesquisa. Igualmente, este método proporcionou a elaboração de tabelas, quadros e gráficos
ilustrativos das tendências dos fenômenos [Link]ém foram usadas as ferramentas
estatísticas do Excel e SPSS 22.
O método histórico coloca os dados da pesquisa sob uma perspectiva histórica,
permitiu identificar elementos precursores do que há na atualidade relativamente ao objeto
de pesquisa. Através da observação foram captados elementos de transformação do espaço
estudado (naturais, sociais, econômicos, políticos, ambientais, entre outros), ou seja, em
torno da contribuição da política de gestão dos recursos hídricos para o desenvolvimento
rural onde decorreu a pesquisa. Este método foi aplicado nas etapas de revisão da literatura,
coleta e análise de dados.
106
4.4 TIPOS DE PESQUISA
A pesquisa baseou-se em métodos quantitativos e qualitativos considerando que eles
se complementam e permitem análises mais profundas. Em seguida, são apresentados os
instrumentos utilizados na realização da pesquisa e as etapas da pesquisa.
Os instrumentos utilizados na realização deste estudo são os seguintes: entrevistas
com os gestores equestionários aos agregados familiares. As entrevistas visavam coletar
percepções que os gestores tem sobre a gestão hídrica no local de estudo. A parte do
questionário consistiu na verificação do desenvolvimento, da governança hídrica, segurança
hídrica, vulnerabilidade hídrica e pobreza.
Portanto, as entrevistas serviram para complementar e aprofundar a informação
obtida a partir dos questionários. Ao todo foram realizadas 12 entrevistas, conduzidas de
acordo com o roteiro do Apêndice I deste trabalho.
As entrevistas à informantes chave foram estruturadas em cinco partes,
nomeadamente: a primeira parte questiona quanto às principais fontes de água usadas e os
efeitos das cheias e secas neste posto administrativo.
A segunda parte apresenta as perguntas do foco da pesquisa, ou seja, a gestão de
recursos hídricos e as atividades sócio- econômicas.
A terceira parte questionou quanto às percepções sobre a existênciaou não de comitês
de bacias hidrográficas e sobre a participação proativa das comunidades na gestão de recursos
hídricos.
A quarta parte compô-se de perguntas relativas aos planos de formação de pessoas ou
ao nível das comunidades com vista ao desenvolvimento integrado dos recursos hídricos e a
quinta parte buscou percepções sobre conhecimento normativo em prol proteção do
ambiente, ou seja, a sustentabilidade ambiental.
A utilização do questionário consistiu na coleta de informações junto aos agregados
familiares no Posto Administrativo de Xinavane. Conforme o apêndice II, o questionário
foi estruturado em seis partes, nomeadamente: a primeira parte possui perguntas relacionadas
com as características gerais dos que responderam pelos seus agregados familiares no
decurso do questionário.
A segunda parte do instrumento da pesquisa aborda os recursos hídricos focalizando-
se não só na principal fonte de água usada neste posto administrativo, bem como nos efeitos
das cheias e secas neste local de Moçambique.
107
A terceira parte centra-se nos aspectos de gestão de recursos hídricos e as atividades
econômicas. É nesta parte que são apresentadas perguntas relacionadas com os conceitos de
governança hídrica, de segurança hídrica e da vulnerabilidade hídrica.
A quarta parte apresenta perguntas sobre a existência ou não de comitês de bacias
hidrográficas. Não obstante esta parte tratar de questões normativas e de gestão de recursos
hídricos no geral, também aborda questões da participação ou não dos próprios sujeitos de
desenvolvimento nessa gestão.
A quinta parte focalizou-se no desenvolvimento institucional em recursos hídricos e
a sexta parte centralizou-se no desenvolvimento sustentável na política de gestão de recursos
hídricos, na sua abordagem ambiental.
Neste contexto, foram administrados 132 questionários que serviram de instrumentos
de coleta de dados. Pelo seu conteúdo, os questionários proporcionaram a informação sobre
a contribuição da Política de Gestão dos Recursos Hídricos para o Desenvolvimento Rural
na área estudada.
A seguir é apresentado o quadro síntese das metodologias e técnicas utilizadas e os
resultados e os resultados alcançados.
Quadro 2 - Síntese dos métodos e técnicas utilizados e finalidade
Métodos utilizados Técnicas utilizadas Finalidade
Revisão teórica sobre as políticas Mapeamentodas políticas públicas para a gestão
Indução públicas para a gestão hídrica e hídrica e para a promoção do desenvolvimento
para a promoção do rural em Moçambique
desenvolvimento rural em
Moçambique
Estatística descritiva e Entrevistas aos gestores e Relação da governança hídrica e a segurança
análise das relações questionários aos agregados hídrica com a vulnerabilidade das populações no
entre as variáveis familiares Posto Administrativo de Xinavane
Estatística descritiva e Entrevistas aos gestores e Explicada a contribuição da governança hídrica e
análise das relações questionários aos agregados a segurança hídrica para o desenvolvimento rural
entre as variáveis familiares no Posto Administrativo de Xinavane
Estatística descritiva e Entrevistas aos gestores e Verificada a congruência entre a Política de
análise das relações questionários aos agregados Gestão de Recursos Hídricose o Desenvolvimento
entre as variáveis familiares Rural no Posto Administrativo de Xinavane
Fonte: Elaborado pelo autor
4.5 ETAPAS METODOLÓGICAS DA PESQUISA DE CAMPO
[Link] Etapa I: A Revisão da Literatura
Este instrumento consistiu na coleta e análise de informação escrita que versa sobre
o assunto em estudo. Ele permitiu a contextualização do trabalho e a definição de principais
108
conceitos e teorias que retratam o tema de estudo. Constituiu-se em um instrumento de base
em que a pesquisa se fundamentou. A informação escrita incluiu livros e artigos científicos,
estatísticos, relatórios e artigos diversos.
A revisão da literatura constituiu-se, não só no principal instrumento metodológico
para a definição do problema de pesquisa, das hipóteses e dos objetivos da pesquisa, na forma
como está concebido no capítulo da introdução, mas também em uma série de opções, tanto
de natureza teórica como também de caráter metodológico, que foram sendo feitas ao longo
do processo de pesquisa. Como trajetória metodológica em pesquisas de natureza social, o
recorte de uma investigação, e sua construção no plano conceitual, nunca é feito logo num
padrão ajustado mas de aproximações sucessivas, através das quais o pesquisador vai
controlando e ajustando os instrumentos de análise e dando forma ao conjunto de elementos
que fazem parte do recorte empírico, observação e interpretação. Esta pesquisa não fugiu da
regra. A revisão da literatura também contribuiu tanto para assimilar as diferentes
abordagens, como também para a sua desconstrução e reconsrução em função da realidade
estudada.
Neste contexto, toda a construção teórica sobre a contribuição da política de gestão
de recursos hídricos no desenvolvimento rural em Moçambique permitiu a realização das
entrevistas e questionários, ou seja, dialogar com os envolvidos nos processos concretos de
gestão de recursos hídricos. portanto, essa construção permitiu realçar algumas conexões
presentes no objeto estudado, sugerir novas formas de interpretá-lo e, poder oportunizar um
diálogo mais próximo com a realidade estudada e com os próprios sujeitos de
desenvolvimento.
4.5.2 Etapa II: Pré-Campo
A realização do pré-campo justifica-se, de entre vários aspectos, pela necessidade de
aproximação à realidade em que pesquisa decorreu. Essa aproximação visava uma
reformulação dos objetivos e adequação dos instrumentos de coleta de dados. O pré-campo
decorreu no período compreendido entre Março e Maio de 2018. Foram administrados os
questionários aos agregados familiares da Localidade 25 de Setembro, Posto Administrativo
de Xinavane, distrito de Manhiça.
A equipe de pesquisa (trabalho de campo) foi constituida por três elementos
permanentes nos dias de coleta de dados, duas pessoas pertecentes a localidade observada,
que dependendo da ocupação deram apoio mais voltado para a interpretação das perguntas e
109
respostas em casos de maior necessidade e o guia (líder comunitário) para apresentação da
equipe de pesquisa aos inquiridos. Fazem parte dos três primeiros elementos, o pesquisador
e outros dois estudantes que se encontravam na fase de conclusão dos cursos de graduação
em Sociologia e Economia e, as duas últimas são representantes da organização dos jovens
e da secretaria da localidade.
As entrevistas foram direcionadas aos representantes de repartição de infraestrutura
do distrito de Manhiça indicados pelo Governo do Distrito de Manhiça, da repartição de
abastecimento de água no distrito de Manhiça, do Posto Administrativo de Xinavane; da
localidade 25 de Setembro (Posto Administrativo de Xinavane), da Associação dos
agricultores e criadores da localidade 25 de Setembro, da organização dos jovens da
localidade 25 de setembro.
Foram usados questionários como instrumentos de coleta de dados junto aos
agregados familiares da localidade referenciada, pois, estes no seu dia-a-dia têm a bacia
hidrográfica do Rio Incomáti como seu meio de sustento. Assim foram questionadas 150
pessoas que responderam pelos seus agregados durante o pré-campo.
No entanto, o pré-campo consistiu, de entre vários aspectos mencionados, em
analisar até que ponto os instrumentos de coleta de dados seriam adequados e aperfeiçoados
para a realização da tese.
Desse modo, o pré-campo permitiu a emergência do conceito importante para a
compreensão da realidade observada, o de governança hídrica; relacionar os
conceitosgovernança hídrica, segurança hídrica, vulnerabildade hídrica, pobreza,
desenvolvimento e desenvolvimento rural com a realidade observada no terreno, ou seja, a
relação da teoria com a prática no terreno. Foi possível compreender as limitações e a
insuficiência das questões apresentadas nas entrevistas e questionários; preparar melhor as
entrevistas e os questionários para uma maior adequação à observação no terreno (trabalho
de campo final).
4.5.3 Etapa III: Trabalho final de Campo
O trabalho final de campo decorreu no mesmo posto administrativo, mas desta vez
mais focalizado para a localidade Eduardo Mondlane, no período de Outubro de 2018 até
Janeiro de 2019 e com a equipe de coleta de informações constituída por dois elementos
incluindo o próprio pesquisador.
110
Relativamente às técnicas de coleta de dados recorreu-se a administração de
questionários reformulados a partir dos que foram utilizados no pré-campo e o cálculo do
tamanho da amostra. Para o efeito de cálculo de tamanho da amostra aplicou-se a fórmula
que é frequentemente usada em pesquisas (RICHARDSON,1999):
n= 𝛿𝑥𝑃(1 − 𝑃)𝑥𝑁/𝐸𝑥𝐸𝑥(𝑁 − 𝑃) + 𝛿𝑥𝛿𝑥𝑃(1 − 𝑃), em que:
n →corresponde ao tamanho minimo da amostra com vista a uma precisão na observação;
N→ 𝑡𝑜𝑡𝑎𝑙 𝑑𝑎 𝑝𝑜𝑝𝑢𝑙𝑎çã𝑜 (𝑙𝑜𝑐𝑎𝑙𝑖𝑑𝑎𝑑𝑒)
P→ 𝑃𝑟𝑜𝑝𝑜𝑟çã𝑜𝑑𝑎𝑝𝑜𝑝𝑢𝑙𝑎çã𝑜𝑞𝑢𝑒𝑠𝑒𝑒𝑠𝑝𝑒𝑟𝑎𝑎𝑠𝑒𝑟𝑒𝑛𝑡𝑟𝑒𝑣𝑖𝑠𝑡𝑎𝑑𝑎(𝑃 = 0.5);
E→ 𝑚𝑎𝑟𝑔𝑒𝑚𝑑𝑜𝑒𝑟𝑟𝑜𝑎𝑚𝑜𝑠𝑡𝑟𝑎𝑙 (0.05);
𝛿 → valor estatístico que depende do nível de significância escolhido (∝= 95%, 𝛿 = 2).
n= 2x0.5x(1-0.5)x27153/0.5x0.5x27153+2x2x0.5(1-0.5)
n= 2x0.25x27153/0.0025x27153+4x0.25
n= 0.5 x 27153/67.8825+1
n= 13567.5/68.8825
n=197
No entanto, foram questionados para a presente tese 132 representantes dos
agregados familiares, dos quais corespondem a 67, 0% da amostra prevista para a
administração dos questionários. Isto deveu-se às limitações, muitas já identificadas na
realização do pré-campo.
Em relação às entrevistas realizadas (11), elas foram direcionadas aos representantes
das seguintes instituições já referenciadas: Ministério de Obras Públicas e Habitação e
Recursos Hídricos (MOPHRH) na Direção Nacional de Gestão de Recursos Hídricos (3
entrevistados), a Administração Regional de Águas de sul (ARASul) (3 entrevistados),
Administração Estatal através do Governo do Distrito de Manhiça (1 entrevistado) e de Posto
Administrativo de Xinavane (1 entrevistado) e Serviços Distritais de Atividades Econômicas
(SDAE) de Manhiça) (1 entrevistado). Incluiu-se nas entrevistas conversas com os
representantes das associações de camponeses (1 entrevistado) e de grupos de produtores (1
entrevistado). O roteiro das entrevistas utilizadas para a realização da pesquisa consta do
apêndice I.
Em termos de potencialidades, o trabalho de campo final permitiu de entre vários
aspectos: a consolidação e enquadramento dos conceitos mais importantes para a
compreensão dentro da realidade observada. Esses conceitos relacionam-se com a
governança hídrica, a segurança hídrica, a vulnerabildade hídrica, pobreza, a resiliência,
111
desenvolvimento e desenvolvimento rural. Para o ponto observado estes conceitos
interelacionam-se.
4.6 ANÁLISE DOS DADOS
Depois de coleta de dados através dos questionários (132) procedeu-se a inserção de
dados quantitativos nos pacotes do Excel e SPSS. Nos dois pacotes os dados foram agrupados
em características gerais dos representantes dos agregados familiares, em seguida foram
relacionados com a gestão hídrica e por fim os dados relativos ao desenvolvimento rural.
Os pacotes do Excel contribuiu, sobretudo, para analisar os dados que foram
assumidos como “Zero” no SPSS e que influenciariam negativamente na frequência e no
resultado da análise. O pacote SPSS contribuiu bastante para a análise das relações entre as
variáveis. Em comum os pacotes permitirampara a elaboração de tabelas de frequências e os
valores percentuais. Foi aplicada a estatística discritiva: mínimos, máximos, médias e e
distribuição de frequência.
As frequências indicam o número de vezes que cada variável foi observada. Os
valores percentuais representam a participação da categoria da variável no total amostral.
Os dados qualitativos provenientes de entrevistas foram usados para complementar e
explicar as tendências quantitativas dos resultados dos questionários nas tabelas e gráficos
através de transcrição e análise das entrevistas.
4.7 VARIÁVEIS DA GESTÃO HÍDRICA POR DIMENSÕES DE
DESENVOLVIMENTO RURAL
O quadro 04 mostra apresenta a caracterização das variáveis de Gestão Hídrica por
dimensões do Desenvolvimento Rural. O mesmo quadro inclue a caracterização demográfica
dos Agregados Familiares inquiridos.
112
Quadro 3 - Variáveis de Gestão Hídrica por dimensões do Desenvolvimento Rural
Dimensão Variáveis Numeração
Chefe do AF 01
Sexo 02
Idade 03
0) Possui escolaridade 04 C
aracterização demográfica Nível de escolaridade 05
EstadoCivil 07
Ocupação principal do cônjuge 08
Composição do AF(nᵒ de membros) 09
Possui unidades de produção agrícolas 10
Cultivo em zonas altas e baixas 11
Tamanho das propriedadesagrícolas 12
Mitigação dos efeitos das cheias e seca ou escassez de água para 17
produzir alimentos
Enfrentamento de variaçõesclimáticas 18
Principal problema relacionado com as águas do Rio Incomáti 20
Morteshumanas por inundações 21
Destruição de habitação por inundações 22
1) Utilização de técnica para a captação de água das chuvas 33 P
lanejamento Territorial Uso de caleira com tambores para a captação de águas de chuvas 34
Uso de caleira com cisternas para a captação de águas de chuvas 35
Existência de comitês de gestão de águas que funcionam neste 55
posto administrativo
Participação das pessoas de comitês de zonas ou de bacia 56
hidrográfica neste posto administrativo
Avaliação da participação das pessoas no comitê 57
Existência de processos e infraestruturas administrativas 61
especificas para questões de gestão de água da bacia de Incomáti
Sabe da existência de um fundo de recursos hídricos para este 65
posto adminstrativo
Origem dos fundos de água: furos, Rio Incomáti 66
O que produz ( Hortícolas, Cereais, outras) 13
Destino da produção (Consumo e venda) 14
Aplica a irrigação na produção de alimentos 15
2) D
esenvolvimento dos Tipo de irrigação (Gota a gota, aspersão, inundação, outra) 16
diferentes Ramos de Redução da produção agrícola por inundações 23
Produção Redução de número de animais por inundações 24
Redução de quantidade de alimentos por secas 26
Redução de número de animais por secas 27
Aproveitamento das águas do Incomáti para gerar a riqueza 44
(atividade)
Tem-se usado a água do rio para determinado fim de cultivo 51
Melhor técnica para a gestão do uso da água recomendada para 53
o cultivo de cana
Principal tecnologia que pode contribuir para a economia de 54
água na agricultura
Principal fonte de água usada 19
Conhecimento da existência de um instrumento jurídico de 36
enquadramento e regulamentação da utilização da água para fins
agrícolas, industriais e hidroelétricos
113
Dimensão Variáveis Numeração
Disponibilidade de recursos hídricos (água do Incomáti) para 43
serem usados por todos
Dificuldades no Acesso a água potável 45
Existência de promoção das campanhas de formação, educação 62
3) R
e divulgação, tanto junto das populações, como dos agentes da
edução das Desigualdades
administração, em relação aos principais problemas de gestão
das águas da bacia do Incomáti
Quem promove com frequência as campanhas de formação, 63
educação e divulgação, tanto junto das populações, como dos
agentes da administração, em relação aos principais problemas
de gestão das
Qual a campanha frequente com relação aos principais 64
problemas de gestão de água neste posto administrativo
Formas de acesso à informação sobre os casos de contaminação 71
da água do Incomáti
Escolaridade 4
Eclosão de doenças por causa das inundações 25
Eclosão de doenças por causa das secas 28
Situação de habitação e saneamento(vulnerabilidade) resulta das 38
inundações/secas
4) Melhoria da Qualidade
de Vida Situação econômica (vulnerabilidade) resulta da - Insuficiência 39
financeira e de unidades escolares/educação
Vulnerabilidade e a pobreza resulta da insuficiência de vias de 40
acesso (ruas e estradas) para a circulação de pessoas e bens
A exposição às doenças (vulnerabilidade) resulta da falta ou 41
insuficiência de unidades sanitárias
Vulnerabilidade e a pobreza da população relaciona-se com a 42
falta ou insuficiência de segurança
Água do rio é adequada para o uso e o consumo 50
humano/doméstico
Política que mais contribui para o desenvolvimento no posto 58
administrativo de Xinavane: Políticas de habitação, de saúde, de
água, de crédito (financiamento), de saneamento, transporte e
comunicação
Que política contribuiria para o desenvolvimento da gestão de 59
recursos hídricos (Incomáti) neste posto administrativo: Política
de habitação, política de saúde__ política de água, política de
crédito (financiamento), política de saneamento, política de
transportes e comunicação
Satisfação ou não da família em escolaridade dos seus membros 46
Ocupação Principal 06
5) Satisfação das A intervenção do estado/governo na política de gestão de águas 60
Necessidades Básicas de da bacia de Incomáti satisfaz as necessidades das populações e
toda a População ações de desenvolvimento da economia deste posto
administrativo
Ajuda do governo em assistência em géneros alimentícios 30
Ajuda do governo em assistência em fomento pecuário 31
Ajuda do governo em material de construção 32
Escolaridade não satisfatória dos membros da família 47
Abastecimento em água potável contínuo e suficiente para a 49
satisfação das necessidades do seu cotidiano
A sua condição socioeconômica resulta da: Insuficiência 48
financeira; falta ou insuficiência de unidades escolares/educação
Sabe-se se o governo consegue acompanhar a utilização da água 67
do Rio Incomáti
114
Dimensão Variáveis Numeração
6) Garantia das Técnica usada para evitar eventuais desperdícios da água do rio 52
Liberdades e Respeito durante o cultivo
pelos Direitos Humanos Participação em algum momento da capacitação em gestão de 68
recursos hídricos
Ocorrência de situações de contaminação/poluição da água do 69
7) Respeito pelo Ambiente Rio Incomáti
e Gerações Futuras Conhecimento de casos de descumprimento à legislação 73
ambiental e de recursos hídricos do Incomáti
Fator principal de uso não eficiente de água do Rio Incomáti; 37
Denúncia do descumprimento à legislação ambiental e de 72
recursos hídricos
Quem polui mais a água do Incomáti 70
Medidas tomadas em descumprimento à legislação ambiental e 74
de recursos hídricos
Fonte: Elaborado pelo autor
Desse modo, o estudo dos resultados obtidos através de entrevistas e questionários na
área estudada permitiu analisar a Contribuição da Política de Gestão de Recursos Hídricos
para o Desenvolvimento Rural no Posto Administrativo de Xinavane (vide o capítulo 5). A
apresentação dos resultados no próximo capítulo segue as dimensões do desenvolvimento
contidas no quadro 04.
115
5 A POLÍTICA DE GESTÃO DOS RECURSOS HÍDRICOS E
DESENVOLVIMENTO RURAL NO POSTO ADMINISTRATIVO DE
XINAVANE
Neste capítulo são apresentados os resultados de campo sobre a Política de Gestão
dos Recursos Hídricos e o Desenvolvimento Rural. Os resultados refletem a contribuição
dessa política nos processos de Desenvolvimento Rural, tendo como caso de estudo o PAX.
A apresentação obedece à seguinte sequência: em primeiro lugar foi feita a descrição e
análise dos resultados de entrevistas aos gestores de recursos hídricos. Em segundo lugar,
descrevem-se e analisam-se os resultados dos questionários aos representantes dos agregados
familiares seguindo as dimensões de desenvolvimento, já referenciadas ao longo deste
trabalho, nomeadamente:
a) planejamento territorial;
b) desenvolvimento dos diferentes ramos de produção;
c) redução das desigualdades;
d) melhoria da qualidade de vida;
e) satisfação das necessidades básicas de toda a população;
f) garantia das liberdades e respeito pelos direitos humanos;
g) respeito pelo ambiente e gerações futuras.
Portanto, os resultados mostram a Contribuição da Política de Gestão dos Recursos
Hídricos nos processos de Desenvolvimento Rural no local da pesquisa.
5.1 APRESENTAÇÃO E ANÁLISE DOS RESULTADOS DE ENTREVISTAS AOS
GESTORES DE RECURSOS HÍDRICOS
Nesta secção são apresentados e analisados os resultados das entrevistas aos
informantes chaves, ou seja, aos gestores de recursos hídricos.
Relativamente à questão sobre qual é a principal fonte de água usada no distrito de
Manhiça, 7 entrevistados mencionaram a água do Rio Incomáti como principal fonte de água,
apenas 2 entrevistados mencionaram a água do furo. Isto espelha a percepção dos
entrevistados sobre a importância das águas do Rio Incomáti.A facilidade de acesso à água
do rio por parte das comunidades locais relativamente às outras fontes de água influencia
para esta percepção. Além disso, o Rio Incomáti constitui fonte de água que mais demanda
o uso e o consumo de água em comparação com os furos e poços. A maior demanda no uso
116
e consumo de água do Rio Incomáti justifica-se ainda pelo fato de que as atividades agrárias,
as plantações de cana-de-açúcar, a agro-indústria, higiênico-sanitários depende da oferta e
demanda de recursos hídricos. Este dado configura a percepção de que na área de estudo, o
Rio Inomáti é importante para o Desenvolvimento Rural tendo em conta que é a fonte de
água mais acessada e disponível a todos. No entanto, a qualidade de água acessada por todos
depende da atitude de cada um daqueles que utilizam a água, sejam famílias, pequenos
agricultores, produtores de gado, entre outros que utilizam esses recursos para realizar
diversas tarefas na manutenção da sua vida ou as grandes produções de cana-de-açúcar. Essa
diversidade de interesses e formas de utilização desse recurso tornam fundamental o processo
de governança.
Questionados sobre quais são os principais problemas relacionados com a água do
Rio Incomáti, 6 entrevistados relataram sobre eventos de cheias ou inundações e 3
mencionaram os eventos das secas como sendo os principais problemas. Este dado significa
que pese embora a importância das águas do Rio Incomáti no uso e consumo por parte das
comunidades, elas constituem um principal problema quando se trata de enchentes e secas.
Igualmente, significa que o regime do caudal do Rio Incomáti é intermitente, ou seja, de
regime periódico. O caudal do Rio Incomáti depende da influência climática, ou seja, da
quantidade de precipitação. Portanto, não basta atender a disponibilidade e o acesso às águas
do Rio Incomáti para os seus múltiplos usos, mas também é preciso ter em conta a qualidade
das águas ofertadas e demandadas. No entanto, o que falta é a gestão da utilização e dos
efeitos climáticos. Desse modo, configura- se como sendo importante a dimensão de
sustentabilidade de desenvolvimento, visto que os efeitos das variações climáticas sobre as
comunidades geram diversas formas de estas se lidarem com a gestão dos recursos hídricos
no país. Ou seja, a preservação da disponibilidade e da qualidade dos recursos hídricos exige
o uso adequado destes nas atividades domésticas e sobretudo nas atividades produtivas.
Neste caso, o resultado mostra a importância da componente de sustentabilidade do
desenvolvimento tendo como base a compreensão do movimento do Rio Incomáti, da
sucessão das cheias e secas. Ou seja, o conhecimento que se tem sobre o caudal do Rio
Incomáti e a sucessão das cheias e secas no país pode configurar-se como um instrumento
importante para o desenvolvimento rural de toda a região.
Igualmente questionados sobre os efeitos das inundações do Rio Incomáti, 7
entrevistados comungaram a idéia de que a redução da produção agrícola foi um dos
principais efeitos das inundações no Posto Administrativo de Xinavane (PAX). Outros
entrevistados mencionaram a eclosão de doenças hídricas (diarreias, cólera, malária,
117
giardiáse, gastroenterite, amebiase e, entre outras) e a destruição da habitação como sendo os
principais efeitos das inundações. Este dado é corroborado por estudos de MICOA (2005).
Questionados sobre os efeitos das secas na Bacia do Incomáti, 6 entrevistados
mencionaram a escassez de gêneros alimentícios e 3 consideraram que as secas na bacia do
Incomáti causaram doenças. Estes dados significam que, naturalmente, se reforçam asidéias
defendidas pelo MICOA ( 2005), Sitói (2005), GdM ( 2007) e INAM (2016) de que enchentes
e secas impactam sobre a economia e a saúde humana e, ou seja, Bolson e Haonat (2016)
também colaboram neste dado ao estudarem que a ausência de água interfere na saúde
humana, na segurança alimentar e no próprio ciclo natural da vida humana e não humana.
Deste modo, ao se analisar os efeitos tanto das enchentes, como também das secas,
percebe-se que, além de o Rio Incomáti ser a fonte principal de acesso aos recursos hídricos,
o mesmo constitui, como já se referiu ao longo do trabalho, um dos principais recursos ou
instrumentos de desenvolvimento. Nesse sentido, o que falta é a gestão da utilização e dos
efeitos climáticos. Portanto, a falta de gestão hídrica para o desenvolvimento é que afeta
negativamente as comunidades e não exatamente os enchentes ou as secas em si no Rio
Incomáti. A falta de gestão das variações climáticas, influencia negativamente no
desenvolvimento sócioeconômico. A redução da produção pode influenciar os outros setores
de atividades gerados e relacionados com a agricultura: plantações de cana-de-açúcar,
emprego, mercados diversos, agro-indústria, entre outros. A eclosão das doenças hídricas e
a destruição da habitação podem afetar direta e indiretamente a saúde e igualmente podem
criar ou agravar a (in)segurança, a vulnerabilidade e a pobreza das populações locais. Neste
contexto, as variações climáticas sobre os rios fazem com que a própria gestão influencie
sobre o desenvolvimento socioecnômico. Por isso, a relação entre instrumentos de governaça
hídrica e desenvolvimento rural são especialmente importantes na região.
Na sequência das anteriores questões, questionou-se sobre a assistência do governo
às vítimas das cheias e secas. Assim, 6 entrevistados relataram que o governo ajudou com
assistência em gêneros alimentícios e em medicamentos e 3 relataram que o governo ajudou
com assistência em material de construção. Este dado significa, que face a ocorrência de
enchentes e secas, o governo priorizou na sua ação interventiva a alimentação e a saúde. No
entanto, percebe-se que não houve satisfação das necessidades derivadas destes eventos
extremos, ou seja, a política pública que atendeu as famílias não foi suficiente tendo em conta
que não atendeu especificamente as consequências desses eventos climáticos. Portanto, não
basta intervir de forma segmentada, por exemplo, na alimentação e na saúde, mas sim de
forma integrada ou seja em todos os setores da vida humana e não humana. É preciso investir
118
em infra-estruturas diversas que são essenciais na componente da redução dos níveis de
vulnerabilidade e de pobreza das comunidades. Este posicionamento sustenta-se nos
argumentos do GdM (MOÇAMBIQUE - 2007) e do Mophrh (2012) ao se referirem que em
Moçambique, o nível de investimento no desenvolvimento de recursos hídricos é
insuficiente, a infraestrutura não é adequada obstruindo assim o desenvolvimento dos
principais setores dependentes de água. Ou seja, o governo atende de forma pontual no
momento da catástrofe, não reduz a vulnerabilidade das famílias que ficam suscetíveis à
ocorrência de novos eventos climáticos. Os instrumentos que visam a promoção do
desenvolvimento ruralna Bacia do Incomáti devem então, buscar soluções além daquelas do
momento da crise, evidenciando a necessidade da articulação de políticas de governação
hídrica que permitam a redução da vulnerabilidade da comunidade aos eventos subsequentes,
que invariavelmente ocorrerão.
Quanto às técnicas usadas para a captação de água das chuvas no PAX, todos
entrevistados mencionaram a caleira com tambores20 como a técnica de captação de chuva.
Sobre a questão se existe um instrumento jurídico de enquadramento e
regulamentação da utilização da água para fins agrícolas, industriais e hidroelétricos, 6
entrevistados responderaram que existe o referido instrumento e 3 responderam que o
referido instrumento não existia. Portanto, percebe-se que os instrumentos normativos
existem, mas não são todos que conhecem esses processos.
Em matéria de utilização adequada dos recursos hídricos, questionou-se sobre o
principal fator que contribui para o desperdício de água do Rio Incomát e 7 entrevistados
mencionaram a agricultura e a plantação de cana-de-açúcar21 e 2 entrevistados mencionaram
que a açucareira de Xinavane contribuía para o desperdício de água neste rio. Desse modo,
percebe-se que o desperdício de água ocorre em atividades produtivas que muitas vezes são
vistas como a solução para as situações de vulnerabilidade e pobreza e para o crescimento e
desenvolvimento do país. Daí, a necessidade de instrumentos de compartilhamento e
governança desse importante recurso para o desenvolvimento das famílias e do país.
Portanto, as soluções para o desenvolvimento via atividades produtivas, que muitos discursos
advogam, podem na realidade estar agravando o problema de vulnerabilidade e não
resolvendo os reais problemas das famílias. Por isso, a questão da governança hídrica parece
ser fundamental nos processos de desenvolvimento rural no local de estudo.
20
Recomendado com base na legislação pelo Conselho Municipal;
21
Quer uma, quer outra, são atividade de cultivo de terra ou para produzir alimentos ou para produzir matérias
primas;
119
Quanto ao o principal elemento que se relaciona com a vulnerabilidade e a pobreza
em Xinavane, 7 entrevistados consideraram os efeitos das cheias/ inundações e secas e 2
entrevistados consideraram a combinação22dos efeitos das cheias e secas com a falta ou
insuficiência financeira.
No que tange a demanda pelos recursos hídricos (Incomáti), todos entrevistados
foram unânimes em considerar que a demanda referenciada era maior, ou seja, existe maior
procura23 por estes recursos em quase todos os setores (domésticos, de produção e prestação
de serviços). Na perspectiva da pesquisa, este dado significa que a demanda crescente por
água pelos grandes setores da economia, e especificamente pela agricultura, pode permitir a
curto prazo o crescimento da economia nesses setores, mas também pode obstruir as
perspectivas de crescimento no médio e longo prazo em termos de disponibilidade de água
em algumas bacias de rios, como o exemplo da Bacia doIncomáti. Este dado consta da
indicação como fator de desperdício de água por alguns gestores.
Em termos de disponibilidade de recursos hídricos, 7 dos entrevistados percebem que
os recursos hídricos (água do Incomáti) estão disponíveis para serem usados por todos e 2
dos entrevistados percebem que estes recursos hídricos não estão disponíveis para serem
usados por todos. Os que percebem que os recursos hídricos não estão disponíveis para todos
argumentam que, quando a demanda aumenta nos países da montante e nos grandes setores
produtivos reduz, a quantidade de água para ser usada pelas famílias e nas pequenas
produções da comunidade. Percebe-se com este dado a idéia de que o governo como
promotor e regulador de toda política pública deve proporcionar a partilha de recursos
hídricos por todos que desejam utilizar. Ou seja, os utentes podem utilizar os recursos
hídricos da bacia do Rio Incomáti. Desse modo, o acesso à utilização da água constitui um
requisito essencial ao crescimento e desenvolvimento e à redução de pobreza, da inseguraça
hídrica e a insegurança alimentar.
Relativamente ao aproveitamento de águas do Incomáti para a geração de riqueza, 6
entrevistados disseram que são aproveitadas para agricultura, piscicultura e pecuária e 3
disseram que aproveitavam para agro-indústria, pesca e navegação fluvial. Um adequado
aproveitamento das águas do Incomáti pode gerar riqueza para as famílias e incrementar o
desenvolvimento dos setores produtivos.
22
Em acréscimo depoimento contraditório: “ Esta comunidade não sofre muito com as inundações nem com as
secas. As comunidades sabem lidar com cheias e secas”;
23
A maior demanda nota-se através de hidrômetro que detectam e registram o nível de água. Pode se notar
ainda pela insuficiência de água para a satisfação das necessidades das populações, na produção de alimentos
e comercialização e para a indústria e prestação de serviços;
120
Para a satisfação das necessidades domésticas e de higiene das populações locais em
água potável, 7 entrevistados mencionaram que o abastecimento em água potável não era
contínuo e suficiente para a satisfação das necessidades domésticas e de higiene das
populações e apenas 2 mencionaram que o referido abastecimento era satisfatório para as
mesmas necessidades. Os entrevistados mencionaram que as avarias no sistema de
abastecimento, cortes de corrente elétrica, rompimento das condutas de água, entre outros
aspectos explicam o abastecimento em água não contínuo e nem suficiente. Isto significa
que no local de estudo existe uma cobertura insuficiente em termos de abastecimento em
água potável. Desse modo, percebe-se que a cobertura no abastecimento em água potável
ainda não alcançou os objetivos da Política de Gestão de Recursos Hídricos para o
desenvolvimento, caracterizando assim a disponibilidade e o acesso limitados a estes
recursos. Portanto, o acesso limitado aos recursos hídricos reduz a capacidade das pessoas
suprirem as suas necessidades básicas ( consumo, higiene, saneamento, confecão de
alimentos, entre outras). O acesso à água é imprescendível aos processos de crescimento e
desenvolvimento econômico, daí que a gestão hídrica é fundamental.
Na sequência, questionou-se se a água do rio era utilizada para o uso e o consumo
humano e doméstico. Em forma de respostas, constatou-se que um pouco mais que a metade
(5 ) considerou que a água do Rio Incomáti não é utilizada para o uso e o consumo humano
ou doméstico. A outra parte dos entrevistados (4) considerou que a água do Rio Incomáti é
utilizada para o uso e o consumo humano ou doméstico. Isto significa que a qualidade de
água do Rio Incomáti não é utilizada para o uso e consumo humano e doméstico. A
diferença de percepção entre os gestores pode ser resultante da articulação do processo de
governança hídrica, especificamente a circulação ou veiculação da informação sobre os
efeitos da utilização da água do Incomáti pela comunidade e pelos grandes setores
produtivos. Portanto, o acesso à informação sobre o uso doméstico e de higiene pessoal não
utilizada, os processos da produção de cana- de –açúcar (em algumas fases), as eventuais
ocorrências de afogamento, acumulação de lixo junto ao leito, entre outros, é limitado para
alguns entrevistados. A governança hídrica poderia ser capaz de alinhar essas informações
entre os gestores.
De acordo com essa parte dos entrevistados, a água do Rio Incomáti é utilizada para
as atividades produtivas, a citar: agricultura, plantações de cana-de- açúcar, produção de
açúcar, criação de animais, entre outras e não para o consumo humano e doméstico.
Em termos de circulação ou difusão da informação, questionou-se sobre a forma a
partir da qual a população tem acesso à informação sobre os casos de contaminação da água
121
do Incomáti. Assim constatou-se que 8 entrevistados mencionaram que eram informados
em reuniões com os gestores de recursos hídricos. Apenas 1 entrevistado mencionou que
a população tinha acesso à informação sobre os casos de contaminação da água do Incomáti
através de pessoas singulares. Este dado alinha-se àqueles dos parágrafos anteriores, ou
seja, a percepção de alguns gestores de que a água do Rio Incomáti era adequada para o
consumo humano pode ter-se derivado da forma como a informação sobre casos de
contaminação circula. Isso caracteriza a evidência de problemas na organização e
circulação das informações. Portanto, os processos de governança hídrica são importantes
no alinhamento e difusão de informações diversas.
Sobre como se tem usado a água do rio de modo a evitar eventuais desperdícios da
mesma no cultivo, cerca de 7 entrevistados, responderam que a rega gota-a-gota constituía
a melhor técnica para a gestão do uso da água para o cultivo e cerca de 2 apontaram que era
preciso evitar fugas nas condutas e manter um bom sistema de rega (rega eficiente). Isto
significa em termos de investimento dos produtores a manutenção e incremento da
produção agrícola, visto que isso pode garantir o acesso permanente à água para fins
produtivos. Desse modo, a gestão hídrica integrada ao desenvolvimento rural é
fundamental.
Na mesma perspectiva questionou-se sobre qual a melhor técnica para a gestão do
uso da água se recomendaria para o cultivo de cana-de-açúcar. Em forma de respostas
dadas, um pouco mais da metade (5) mencionou que recomendaria a rega gota-a-gota para
o cultivo de cana-de-açúcar e quase que a metade (4) recomendaria a rega por aspersão. Em
termos de disperdício de água, nota-se a percepção que os entrevistados têm sobre o uso
racional da água nos cultivos ao mencionarem a rega gota-a-gota como sendo a que pode
evitar perdas de água. Portanto, a rega gota-a-gota otimiza o consumo de água aproveitada,
o gotejamento não umedece toda a superfície e é localizado, reduz as perdas de água por
evaporação, lixiviação profunda e escorrimento, diferentemente da rega por aspersão. A
rega gota-a-gota é fundamentalmente de menor gasto em água e, por via disso, a mais
efeciente nos sistemas de regadios.
Ainda na mesma perspectiva de uso racional da água, perguntou-se sobre qual seria
a principal tecnologia que podia contribuir para a economia de água na agricultura em geral
no PAX. Neste caso, 6 entrevistados mencionaram a rega gota-a-gota e aspersão e 3
mencionaram que a criação de represas e sistema de bloqueio de água podia contribuir para
a economia de água na agricultura neste posto administrativo.
122
No que respeita a questão sobre quais são as políticas que mais contribuem para o
desenvolvimento neste posto administrativo, um pouco mais da metade (5) apontou que as
políticas agrícolas e de plantações contribuíam mais para o desenvolvimento neste posto
administrativo. Quase metade dos entrevistados (4) apontou que as políticas de educação,
de emprego e da responsabilidade social da Açucareira de Xinavane contribuíam mais para
o desenvolvimento do PAX. Este dado configura-se uma contradição das políticas públicas,
visto que neste caso de estudo, as políticas de desenvolvimento se apoiam em alguma
medida nas políticas de responsabilidade social da açucareira de Xinavane. Mas, essa
atividade desperdiça água (ao usar a asperção), dificultando a gestão hídrica e a segurança
hídrica, e aumentando a vulnerabilidade das famílias no posto administrativo.
Em termos de órgãos de gestão de águas que funcionam no PAX, 6 entrevistados
relataram sobre a existência de comitês de gestão de Bacia de Incomáti (Unidade de Gestão
da Bacia do Incomáti-UGBI) e 3 relataram sobre a existência de comitês de zona para a
gestão hídrica no PAX. Entre os entrevistados existe diferença quanto a percepção sobre os
orgão de gestão de águas que funcionam no PAX. Portanto, a UGBI constitue o orgão que
tem controle direto sobre a Bacia do Incomáti. Não obstante, existem os comitês de zona
que constituem encontros com a comunidade numa periodicidade de duas (02) vezes por
ano (segundo os entrevistados). Desse modo, não existe sobreposição quanto as unidades
administrativas, nem existe dispersão de esforços na organização da gestão da utilização da
água. De acordo com a questão apresentada aos entrevistados, é importante o alinhamento
das noções sobre a UGB e os comitês de zona ao nível dos gestores. Igualmente, se fazem
cruciais os planos de formação de gestores nesse sentido.
Quanto à participação desses comitês, questionou-se sobre como os entrevistados
avaliavam a frequência da participação das pessoas de comitês no PAX. Neste caso, 8
entrevistados avaliaram positivamente a participação referenciada, apenas 1 entrevistado
avaliou que a referida participação era fraca. Para os gestores entrevistados, consideram
uma participação positiva quando a audiência antige 80% dos convocados.
Em termos de política de gestão hídrica, questionou-se sobre a existência de
instrumento jurídico que contenha as atribuições e funções, os membros participantes, a
pauta básica, a periodicidade de reuniões e demais regras que regulam o funcionamento do
respectivo comitê. Em resposta a esta questão, 8 entrevistados relataram que existia o
referido instrumento e apenas um entrevistado relatou sobre a não existência desse
instrumento. Isto implica que no local de estudo exitem normas que regulam a gestão
hídrica que são desconhecidas de grupos da população e gestores. Portanto, existem
123
evidências de problemas na organização e circulação de informações. Desta forma, percebe-
se o papel da gestão hídrica na produção e difusão das informações.
Na sequência questionou-se sobre a existência de infraestruturas administrativas
específicas para a gestão de águas do Incomáti no PAX. No entanto, 8 entrevistados
mencionaram a existência das referidas infraestruturas administrativas, apenas 1 respondeu
que não existiam essas infraestruturas administrativas. Essas infraestruturas incluem a
UGBI, os comitês de zona, o PAX, as normas e leis que regulam a gestão hídrica.
Quanto à questão se a intervenção do Estado/governo na política de gestão de águas
da bacia de incomáti satisfazia as necessidades das populações e ações de desenvolvimento
da economia deste posto administrativo, 7 entrevistados relataram que esta intervenção do
governo era satisfatória na ajuda à comunidade. Outros entrevistados (2) responderam que
a referida intervenção do governo não era satisfatória. Implica ao Estado intensificar a sua
função de regulação e fiscalização na implementação da política de gestão hídrica, ou seja,
promover a componente de boa governança no posto administrativo. No entanto, a
intervenção do governo não deve ser apenas pontualmente nos momentos de crise, mas sim
permanente tendo em conta invariabilidade da ocorrência de eventos extremos e a
exposição da comunidade aos efeito das variações climáticas.
Ainda na perspectiva de política de gestão hídrica para o desenvolvimento,
questionou-se sobre a existência de planos de formação, educação e divulgação, tanto junto
das populações, como dos agentes da administração, em relação aos principais problemas
de gestão das águas. 8 entrevistados mencionaram que existiam os referidos planos e 1
entrevistado relatou que não existiam os referidos planos. Portanto, percebe-se que existem
planos de desevolvimento dos recursos hídricos no posto administrativo, expressando as
políticas públicas que vão sendo implementadas e que nem todas as pessoas conhecem os
documentos. A diferença na percepção entre os entrevistados mostra o desconhecimento
de alguns gestores dessa existência e a necessidade de maior divulgação dessa
implementação e envolvimento de todos os gestores nesses planos. Os processos de
governança hídrica integrados ao treinamento e formação dos gestores e voltados aos
interesses da comunidade são importantes nesse contexto. A implementação de políticas
públicas implica expandir a interlocução de todo o público alvo.
Na mesma sequência, todos entrevistados referenciaram que quem promove com
frequência esses planos de formação, educação e divulgação é o governo, além do setor
privado. Portanto, existe a percepção de que o principal agente para a promoção dos planos
124
de desenvolvimento dos recursos hídricos é o Estado. Não se mencionou a participação do
setor privado desses planos. Existe a percepção de que isso deve ser feito pelo Estado.
Quanto à existência de um fundo de recursos hídricos no PAX, 6 entrevistados
responderam que existia o referido fundo e 3 entrevistados responderam que não existia o
fundo de recursos hídricos. Na sequência, questionou-se sobre a origem dos fundos para
aqueles que afirmaram a existência desse fundo. Assim, 7 entrevistados relataram que os
fundos são de origem das águas dos furos, 2 entrevistados referenciaram que os fundos
provinham das águas do Rio Incomáti. Desse modo, percebe-se que não existe clareza sobre
a existência e a origem do fundo de gestão de recursos hídricos, o que configura uma das
falhas de governança hídrica em relação ao acesso à informação, mesmo entre gestores.
Portanto, existe a necessidade de aprimoramento do compartilhamento das informações
quanto à gestão hídrica.
Em termos de gestão, controle e acompanhamento do governo na gestão hídrica
questionou-se sobre se o governo moçambicano consegue acompanhar a utilização da água
do Rio Incomáti. Neste caso, 8 entrevistados, responderam que o governo consegue fazer o
referido acompanhamento através de ARASul, apenas 1 referenciou que o referido
acompanhamento se fazia através de cadastramento de utentes das águas de Incomáti. Este
dado configura, não só formas distintas para uma mesma gestão hídrica, mas também uma
divergência de percepção da estrutura hierárquica do processo entre os gestores. Ou seja, a
ARASul, representando operacionalmente o Estado, através da UGBI promove um controle
direto na gestão hídrica. O cadastramento constitui uma componente da UGBI no terreno.
Quanto às capacitações em recursos hídricos, questionou-se se já tinham participado
da capacitação em recursos hídricos, 8 entrevistados responderam que já tinham participado
como capacitandos e apenas 1 como capacitador.
Sobre questões de sustentabilidade, questionou-se sobre se os entrevistados tinham
conhecimento sobre ocorrência de situações de contaminação/poluição da água do Rio
Incomáti, 7 entrevistados mencionaram que não tinham conhecimento da referida
ocorrência e apenas 2 entrevistados tinha conhecimento. Destes questionados sobre quem
poluía mais a água do incomáti, todos mencionaram o uso e consumo humano, a citar:
higiene individual usando detergentes e lançamento de resíduos sólidos no rio.
Na sequência disso, questionou-se sobre como se fazia a denúncia em caso de
descumprimento à legislação ambiental e de recursos hídricos, neste ponto 6 entrevistados
relataram que em caso de registro do referido descumprimento é notificado o infrator pelo
UGBI. Apenas 3 entrevistados responderam que em caso do mesmo registro, a denúncia se
125
fazia aos líderes comunitários e as populações. Em termos de análise se faz relevante a
gestão hídrica integrada ao desenvolvimento rural, ou seja, é importante que essa
governança também esteja atrelada à promoção do envolvimento dos diferentes atores e
utlizadores de água para a produção e a preservação do ambiente. A gestão hídrica é
importante na promoção do desenvolvimento nas zonas rurais. A água participa nos
processos produtivos importantes para o desenvolvimento rural.
Na mesma perspectiva, perguntou-se se, em algum momento, os entrevistados teriam
registrado casos de descumprimento à legislação ambiental e de recursos hídricos. Assim,
7 entrevistados mencionaram que ainda não tinham registrado casos de descumprimento à
legislação ambiental e de recursos hídricos, apenas 2 entrevistados responderam que já
tinham registrado os referidos casos.
Em caso de descumprimento à legislação ambiental e de recursos hídricos,
questionou-se sobre que medidas foram tomadas em função desse descumprimento. Nesta
vertente, todos entrevistados mencionaram a advertência24aos utentes infratores como
sendo a medida tomada.
Ainda em matéria de sustentabilidade perguntou-se se existia um plano de
Mapeamento, classificação, avaliação e monitoramento de programas de ação para
mitigação de riscos em caso de contaminação de águas do Incomáti, como resultado, 6
entrevistados responderam que existia esse plano25, 3 entrevistados mencionaram que não
existia nenhum plano desta natureza.
Na parte final da entrevista, questionou-se sobre a existência de um plano de
diagnóstico dos riscos e controles da qualidade das águas no geral, no PAX, um pouco mais
que a metade dos entrevistados (5 ) mencionou que existia o referido plano26 e quase a
metade dos entrevistados (4 ) respondeu que o referido plano não existia.
Portanto, percebe-se que os gestores de recursos hídricos sabem da existência de
instrumentos normativos e infraestruturas administrativas que orientam a gestão hídrica.
Igualmente, tem conhecimento sobre os fatores de desperdícios de água e as técnicas que
podem concorrer para o uso racional dos recursos hídricos no geral e de modo particular no
24
Para GDM (2016), em caso de descumprimento da legislação ambiental e de recursos hídrico partilhados na
região da SADC, reúne-se para encontrar meio termo. Em caso recorrente o ministro do ambiente pode
chamar atenção e até penalizar;
25
Existe uma atividade de monitoramento da qualidade de água em que se recolhe uma amostra para análises
do laboratório. A ARA-Sulé responsável por esta atividade neste posto administrativo;
26
As ARAS com apoio do Banco Mundial distribuem material nas unidades de gestão de bacias para a coleta
de amostras para avaliação da qualidade de água dos rios, em áreas específicas, é semestral.
126
PAX. Em contrapartida, parte dos gestores mostram insuficiência no conhecimento sobre a
operacionalização dos instrumentos normativos e infreaestruturas administrativas de gestão
dos recursos hídricos, dos planos de formação e aplicação da legislação ambiental. Retoma-
se que a interlocução de todos envolvidos na gestão hídrica integrada ao desenvolvimento
rural é fundamental na organização e circulação das informações.
Com relação aos conceitos que norteiam a pesquisa, os resultados das entrevistas,
mostram que existem aspectos observados na governança hídrica que concorrem para
ocorrência da vulnerabilidade e pobreza e a insegurança hídrica no local onde a pesquisa
decorreu. Incluem-se nesses aspectos a resiliência.
Ou seja, a insuficiência na capacidade e articulação institucional para dar respostas
às comunidades em situações de vulnerabilidade e pobreza, concorre para que parte
considerável de pessoas ou comunidades esteja exposta aos efeitos das variações climáticas.
A par disso, o acesso limitado à água potável ou saneamento constitui uma das falhas da
governança hídrica no PAX. Em termos de segurança hídrica, os resultados configuram que
o acesso contínuo e suficiente à água como recurso produtivo e de consumo é fundamental
tanto quanto a sua disponibilidade. Posto isso, em termos de desenvolvimento, os resultados
ilustram que o acesso limitado a um conjunto diversificado de oportunidades impacta na
satisfação das necessidades básicas ou na melhoria de qualidade de vida das comunidades.
Portanto, as limitações apresentadas influenciam na escolaridade, na geração de emprego e
renda em geral e nas zonas rurais de modo específicos.
O uso e consumo doméstico, a agricultura, a criação de animais, as plantações de
cana-de- açúcar, a agro-indústria, a produção do açúcar em Xinavane e Maragra constituem
as atividades que fazem o uso dos recursos hídricos no distrito de Manhiça e no país.
Por fim, os resultados mostram ainda a necessidade de reforço na aplicação da
legislação ambiental com vista a salvaguardar o desenvolvimento dos recursos hídricos em
quantidade e em qualidade, visto que ela existe.
5.2 APRESENTAÇÃO E ANÁLISE DOS RESULTADOS DE QUESTIONÁRIOS AOS
AGREGADOS FAMILIARES
Os dados apresentados e analisados relacionam-se com as Características
Demográficas dos Agregados Familiares inquiridos, Gestão Hídrica e Planejamento
Territorial, Gestão Hídrica e Desenvolvimento dos diferentes Ramos de Produção, Gestão
Hídrica e Redução das Desigualidades, Gestão Hídrica e Melhoria de Qualidade de Vida,
127
Gestão Hídrica e Satisfação das Necessidade Básicas de toda a População, Gestão Hídrica
e a Garantia das Liberdades e Respeito pelos Direitos Humanos, Gestão Hídrica e Respeito
pelo Ambiente e Gerações Futuras.
No que respeita às Características Demográficas dos representantes dos Agregados
Familiares, os dados do campo (tabela 01), mostram que foram questionadas mais mulheres
do que homens. Ou seja, do total de 132 inquiridos, 67.4% são mulheres e 32.6% são
homens. Isto se explica, em parte, pelo fato de que o questionário procurava entrevistar o
chefe do agregado familiar e no campo de recolha de dados, as mulheres emergiram como
que majoritariamente respondentes pelos chefes dos agregados, pois estes na sua maioria
encontravam-se nos seus postos de trabalho no momento de administração de questionário.
Igualmente, o trabalho não se orientou pela questão do gênero, mas sim, pelo acesso ou não
à comunidade para se proceder a administração de questionários. Um dado não menos
importante, no momento do questionário muitos homens encontravam-se nos seus locais de
trabalho e os questionários foram administrados nos dias úteis da semana. Entretanto,
notou-se que a maioria da população do posto administrativo de Xinavane é de gênero
feminino, conforme apresentado na metodologia. Para além destes argumentos, este dado é
reforçado pela idéia de que em geral, Moçambique possui mais pessoas de gênero feminino
do que masculino. (INE, 2017)27. De modo específico, este dado também foi constatado no
Posto Administrativo de Xinavane28.
Por um lado, estes dados, suficientemente, justificam a emergência de mais
mulheres entrevistadas do que homens durante o trabalho de campo. Por outro lado, pode-
se desmitificar a desigualdadede papeis sociais, porque as mulheres, além de cuidarem do
domicilio também prestam vários serviços em diferentes setores de atividades. Algumas
mulheres no PAX participam na produção de cana de açúcar, ou como assalariadas ou como
vendedoras da produção de cana de açúcar à açucareira de Xinavane.
Na administração de questionários notou-se a existência de mulheres que prestam
serviços nos trabalhos agrícolas sazonais da indústria açucareira de Xinavane, setor das
plantações de cana de açúcar, diminuindo assim a distância de separação das atividades
masculinas e femininas e diversificando deste modo os papeis sociais dos diferentes atores
no meio rural. Ou seja, as mulheres também tem papel na geração de renda própria, sem
no entanto abandonar o espaço privado feminino da casa.
27
INE, 2017 através de CENSO POPULACIONAL de 2017.
28
Informe anual do Posto Administrativo de Xinavane, 2018.
128
Assim, percebe-se que existe inserção social, a transferência da renda para todos
os estratos de gênero, reduzindo as relações assimétricas do gênero na construção e na
participação dos processos de desenvolvimento.
Portanto, a inserção de parte de mulheres como força de trabalho nas plantações
de cana- de- açúcar e na própria açucareira de Xinavane, embora em regime sazonal em
geral, constitui evidência da sua participação na gestão hídrica e desenvolvimento rural.
Tabela 2 - Gênero dos questionados
Gênero e total Frequência Percentagem
Feminino 89 67.4
Masculino 43 32.6
Total 132 100.0
Fonte: Elaborado pelo autor da pesquisa do campo.
Em termos de idade, os dados foram agrupados em faixas etárias, como se pode
observar na tabela 02. Os dados mostram que foram questionados pessoas que variam de
18 a mais de 60 anos de idade.
Os questionados são majoritariamente pessoas com faixa etária entre 18 e 34 anos
de idade (42. 4%, seguido da faixa etária de 35 e 59 anos 37.9%). Assim pode-se entender,
em geral, que a maior parte dos questionados está na faixa de transição de jovem a adulto.
Na pesquisa realizada, este dado significa que foram questionadas pessoas adultas para dar
respostas aos questionamentos apresentados. Porém, foi inquirida parte considerável de
pessoas com idade igual ou superior a 60 anos (cerca de 19.7 %), o que pode pressupor a
existência de algumas experiências vivenciadas e outras que vão se (re)produzindo.
As características apresentadas acima têm implicações para a pesquisa. Por
exemplo, indivíduos com faixas etárias de adultos tendem a ter mais experiências de vida,
tendem a permanecer fixa as suas unidades residenciais com as famílias, o que lhes confere
maior reconhecimento pelas autoridades comunitárias locais e, consequentemente têm uma
visão ampla sobre as dinâmicas socioeconômicas, políticas e ambientais nas respectivas
comunidades. A parte considerável de pessoas da terceira idade reforça este aspecto, ou
seja, podem ter bastante experiência com as políticas públicas implementadas ou que vão
sendo direcionadas às comunidades.
Por conta disso, foram sustentadas todas as respostas dadas em torno dos
questionamentos sobre a contribuição da implementação de políticas públicas e aquelas
que mais se destacam no desenvolvimento das comunidades no Posto Administrativo de
129
Xinavane em geral, e de modo específico, a contribuição da Política de Gestão de Recursos
Hídricos para o desenvolvimento neste Posto Administrativo.
A experiência de vida e a permanência nas suas comunidades permitiu que os
inquiridos contribuíssem à pesquisa em termos de análise da Contribuição da Política de
Gestão de Recursos Hídricos para o desenvolvimento das comunidades neste Posto
Administrativo, em específico, e em geral em Moçambique como país todo.
Tabela 3 - Faixas etárias dos questionados
Faixas etárias Frequência Percentagem
18 a 34 anos 56 42.4
35 a 59 anos 50 37.9
60 e + anos 26 19.7
Total 132 100.0
Fonte: Elaborado pelo autor da pesquisa do campo.
Em termos de situação dos respondentes quanto à escolaridade (tabela 03), 62.1% dos
questionados possuem a escolaridade e 37.9% não possuem nenhuma escolaridade. O país
tem 44 anos de independência do jugo colonial (até ao momento da pesquisa). Portanto, o
acesso à escola era dificil antes para as gerações antigas.
Para efeitos da pesquisa, este dado proporcionou certo grau de confiança de os
questionados terem entendido as perguntas do questionário e as respectivas interpretações,
com base no nível de instrução e nas experiências vivenciadas.
Portanto, a expansão da escolaridade nas áreas rurais, permite que as
comunidades residentes não sejam tratadas como sujeitos à margem do processo
sociocultural, econômico, educacional e político. A escola joga um papel estratégico na
produção do conhecimento científico e, por conseguinte o desenvolvimento. As
experiências vivenciadas constituem não só testemunhas, mas também um repositório de
algum conhecimento, o pressuposto de desenvolvimento.
Tabela 4 - Escolaridade dos questionados
Possui Frequência Percentagem
escolaridade
Sim 82 62.1
Não 50 37.9
Total 132 100.0
Fonte: Elaborado pelo autor da pesquisa do campo
No que tange aos níveis de escolaridade dos questionados (tabela 04), constatou-
se que, dos questionados com alguma escolaridade, 34.8 % possuem a escolaridade
130
primária, 16.7 % tem o ensino secundário básico, 9.1% possuem o ensino secundário médio
e os restantes 1.5% tem o nível de graduação. Estes dados mostram ainda que poucos
questionados tem o ensino de graduação ou superior concluído. Percebe- se que as
desigualidades socioeconômicas e a distância em busca da Universidade limitam o acesso
ao nível superior. Portanto, a insuficiência financeira para cobrir as despesas causadas pela
busca em uma avanço na escolaridade, a insuficiência de unidades escolares
(infraestruturas) e a não compensação pelo ensino a distância e pela educação de adultos,
além da inserção de muitas pessoas (mulheres) na prestação de serviços (sazonais) quer
seja nas plantações de cana de açúcar na açucareira de Xinavane, constituem fatores de
limitado acesso à educação no geral.
O predomínio de indivíduos com ensino primário pode ter implicações na
compreensão e análise crítica das perguntas e das consequentes respostas apresentadas no
questionário. O nível de escolaridade e a experiência são importantes para potencializar as
respostas em pesquisas. As pessoas tendem a explorar melhor as oportunidades de
responder questões relacionadas com as suas preocupações e experiências.
Igualmente, o baixo nível de escolaridade tem implicações nos processos de
desenvolvimento econômico. Isto é, observou-se que o nível de escolaridade influencia na
facilitação do conhecimento científico-tecnológico que seria fundamental para o domínio
das técnicas de produção e inovação, transformação de produto ou adição de valor nos
produtos agropecuários impactando positivamente no crescimento e desenvolvimento
econômicos.
A fraca expansão da rede escolar e em particular a fraca rede escolar da
escolaridade média e a ausência de universidade no PAX constituem os fatores de baixo
nível de escolaridade da maioria dos questionados. Porém, as políticas públicas de
promoção de serviços sociais jogam um papel preponderante na dinamização das áreas
rurais.
Tabela 5 - Nivel de escolaridade - quantidade e percentual dos questionados
Nível de escolaridade Frequência Percentagem
Sem escolaridade 50 37.9
Primário 46 34.8
Secundário básico 22 16.7
Secundário médio 12 9.1
Superior 2 1.5
Total 132 100.0
Fonte: Elaborado pelo autor da pesquisa do campo.
131
Os dados da tabela 05 ilustram que os inquiridos ocupam-se mais em atividade
agrícola camponesa. A ocupação camponesa da maior parte dos inquiridos (72.0%) constitui
um dado que pode pressupor que apesar de existirem outras atividades incluindo as não
agrícolas, a população do Posto Administrativo de Xinavane tem a atividade agrícola como
base de seu sustento. Este dado é corroborado por aquele encontrado em Sitoi (2005) que
afirma que cerca de 70.0 % da população de Moçambique vive em áreas rurais e destes cerca
de 80.0 % tem a atividade agrícola como seu sustento.
Portanto, esse dado confere aos questionados uma larga experiência no cultivo da
terra. Desse modo, os inquiridos percebem melhor a implementação das Políticas Públicas
em geral e da Política de Gestão dos Recursos Hídricos dentro do contexto de
desenvolvimento agrícola e especificamente no desenvolvimento rural.
Além disso, a experiência que os questionados têm com relação a atividade agrícola
conduz à adaptação destes aos usos múltiplos dos recursos hídricos. Exemplo, ao longo do
trabalho de campo os questionados mencionaram que os recursos hídricos proporcionam a
higiene e o saneamento dos domicilios, criam atividades que geram riqueza através da
navegação (fluvial), a pesca, turismo, atividades agropecuárias, agroindústria, comércio,
piscicultura, entre outras experiências.
Porém, as experiências referidas permitem-lhes interpretar, historicamente, o mundo
rural em todas as suas vertentes, que vão desde as condições de produção agrícola,
instituições, políticas do período, acesso à terra, relações de trabalho e suas mutações,
mercados, etc.
Os resultados da presente pesquisa, apresentados mais adiante corroboram com esta
análise. Na prática a maioria dos questionados tem como principal fonte de seu sustento as
atividades focalizadas no âmbito agrário, o que pode significar para as comunidades do PAX
uma forte relação entre trabalho, terra e família.
Igualmente, a ocupação em atividades não agrícolas, por exemplo: comércio, serviços
bancários, transportes e comunicações, podem explicar a diversificação das atividades nas
áreas rurais e o próprio desenvolvimento rural.
Portanto, este dado pode também significar e reforçar a idéia, no seio das
comunidades rurais em especial, de que a agricultura constitui meio de combate a pobreza
extrema e influenciar a academia a produzir bases de conhecimentos imprescindíveis que
incorporam nas novas políticas públicas maior inclusão social destes extratos sociais e novas
formas de produção e a transformação de modos de vida no meio rural.
132
Tabela 6 - Ocupações dos questionados – Frequência e Percentagem
Ocupações Frequência Percentagem
Sem ocupação 3 2.3
Camponesa 95 72.0
Comerciante formal 3 2.3
Comerciante informal 3 2.3
Pescador 2 1.5
Outras 26 19.6
Total 132 100.0
Fonte: Elaborado pelo autor da pesquisa do campo
Os dados do gráfico 01 ilustram que a maior parte dos questionados (54.5%) tem o
estado civil de regime de união estável comparativamente aos outros. O regime união estável
de casados tende a mostrar maior responsabilidade das pessoas comparativamente, por
exemplo a solteiro, e foi usado a favor do estudo realizado.
Gráfico 1 - Estado civil dos questionados
60,00%
50,00%
40,00%
30,00%
20,00%
10,00%
0,00%
Solteiro Casado União Divorciado Separado Viúvo
estável
Fonte: Elaborado pelo autor da pesquisa do campo
Quanto a ocupação principal do cônjuge, os dados do campo ilustram que cerca de
50.0% tem a atividade camponesa como ocupação principal, ou seja, a maioria dos cônjuges
ocupa-se pela atividade agrícola e parte muito insignificante dedica-se a pesca.
Relacionando com os dados da tabela 05, a agricultura ocupa uma posição exclusiva
relativamente à ocupação das famílias questionadas, no conjunto de várias atividades
desenvolvidas neste posto administrativo.
No gráfico 2 assim como na tabela 05, os dados convergem ao ilustrarem que a
ocupação principal dos questionados relaciona-se com a atividade agrícola. Este dado
significa que a atividade agrícola é a atividade econômica básica, seja como fonte de
alimentação assim como fonte de acumulação de renda através de empregos que gera. Este
133
dado confere com aquele encontrado em Sitoe (2005) que considera que a maior parte da
população (70%) vive na zona rural e depende da agricultura para o seu sustento. Neste dado
configura-se ser importante o papel das políticas públicas no geral e as agrícolas em
particular. A existência de outras atividades na comunidade permite perceber a diversificação
do setor familiar, ou seja, existe nas zonas rurais um conjunto diversificado de trabalhos,
sendo a atividade agrícola a principal.
Gráfico 2 - Ocupação principal do cônjuge
70,00%
57,90%
60,00%
50,00%
40,00%
30,00% 25,00%
20,00%
11,30%
10,00% 4,50%
1,14%
0,00%
Camponês Comerciante Comerciante Pescador Outras
formal informal (carpinteiro,
serralheiro,…)
Fonte: Elaborado pelo autor da pesquisa do campo.
Os dados do campo (tabela 7), indicam que muitos agregados familiares são
constituídos por cera de 1 a 5 membros (65.9%). Este dado significa a configuração das
comunidades observadas em familias além da sua consolidação. As ações das políticas
públicas têm como seu foco a estrutura ou a composição das famílias. Portanto, as políticas
públicas de gestão de recursos hídricos e de desenvolvimento devem incluir no seu foco a
composição das famílias.
Tabela 7 - Composição dos agregados familiares
Número de membros de AF Frequência Percentagem
1 a 5 membros 87 65.9
6 a 10 membros 36 27.3
11 a 16 membros 9 6.8
+ de 16 membros 0 0.0
Total 132 100.0
Fonte: Elaborado pelo autor da pesquisa do campo
134
5.2.1 Gestão Hídrica e Planejamento Territorial
Com os dados da tabela 07, percebe-se que a maior parte dos questionados possui
unidades de produção agrícola, ou seja 84.1%. Isto significa que a atividade agrícola ocupa
um lugar fundamental no PAX e as famílias questionadas são essencialmente camponesas.
Estes dados convergem e corroboram com os dados do gráfico 2 e da tabela 07 ao refletirem
que maior parte dos questionados possui unidades de produção agrícola e na sequência disso
tem a atividade agrícola como a principal e de seu sustento básico. Neste dado e no constatado
sobre a ocupação principal dos questionados configura-se não só como um espaço para a
implementação das iniciativas de desenvolvimento rural, mas também a importância das
zonas ruris no combate à pobreza. No entanto, o combate à pobreza não limita a um único
setor, mas sim na diversidade dos setores.
Tabela 8 - Situação dos questionados quanto ao acesso às unidades de produção
Respostas Frequência Percentagem
Sim 111 84.1
Não 21 15.9
Total 132 100.0
Fonte: Elaborado pelo autor da pesquisa do campo.
Os dados da tabela 08 mostram que 56.0% dos questionados têm as suas unidades de
produção agrícola nas zonas altas e os restantes 44.0% tem as suas unidades de produção
agrícolas nas zonas baixas. O fato de que a pesquisa decorreu na estação do verão e chuvosa
pode explicar melhor a tendência de maior parte de questionados realizarem seus cultivos na
zona alta, pois nesse período as zonas baixas encontram-se inundadas na sua maioria.
Diferentemente, no período seco por causa de vazão de água, os questionados fazem seus
cultivos nas zonas baixas. Portanto, as variações climáticas influenciam a ocupação de terras
para fins de cultivos, caracterizando desse modo a dinâmica agrícola no PAX. Ou seja, face
a essas variações climáticas existem estratágias de sobrevivências por parte das famílias.
Tabela 9 - Localização das unidades de produção agrícola
Localização Frequência Percentagem
Zona alta 62 55.9
Zona baixa 49 44.1
111 100.0
Fonte: Elaborado pelo autor da pesquisa do campo.
135
A tabela 09 ilustra que 83.8% dos questionados possui propriedades agrícolas com
tamanho menor ou igual a 1 ha. Isto significa que a maioria dos questionados tem
propriedades agrícolas com menores dimensões em relação àqueles com suas parcelas
agrícolas que ultrapassam 1 ha. Portanto, percebe-se que as famílias tem dificuldades de
expandir as áreas de produção agrícolas, o que pode influenciar para a baixa produção e
produtividade agrícolas. Isto pode conduzir à percepção sobre o alcance das políticas públicas
que promovem o desenvolvimento agrícola no país em geral, e de modo específico no PAX,
ou seja até que ponto as políticas agrícolas promovem o desenvolvimento rural no local de
estudo.
Tabela 10 - Tamanho das propriedades agrícolas
Tamanho das propriedades agrícolas Frequência Percentagem
< ou = 1ha 93 83.8
>1ha 18 16.2
Total 111 100.0
Fonte: Elaborado pelo autor da pesquisa do campo.
A tabela 10 mostra que 93.0% dos questionados responderam que usavam rega de
forma alternada. Apenas 7.0% responderam que usam alternativas como o cultivo em zonas
baixas durante a estação seca (Abril a Setembro) e em zonas altas no período chuvoso
(Outubro a Março).
Estes dados expressam por um lado a vulnerabilidade hídrica dos questionados aos
efeitos das variações climáticas (secas) e, por outro lado, refletem a capacidade de adaptação
dos questionados a essas variações para garantir a sua (re)produção social. Portanto, para
manter a produção para o sustento, as famílias face aos efeitos das secas recorrem à rega
para o cultivo de hortícolas e aos cultivos que se adaptam à seca, ou seja, à agricultura de
sequeiro.
Estes dados corroboram com aqueles encontrados em Bolson e Haonat (2016) ao
afirmarem que a vulnerabilidade hídrica relaciona-se com a exposição natural ou estrutural
das pessoas perante aos eventos climáticos extremos. MICOA (2005) tinha estudado que a
vulnerabilidade hídrica consiste na exposição das pessoas à todos os impactos da ocorrência
de eventos climáticos e sem capacidade de se protegerem.
136
Tabela 11 - Enfrentamento dos efeitos das secas
Alternativas Frequência Percentagem
Rega 26 92.9
Alternância de cultivos 2 7.1
Total 28 100.0
Fonte: Elaborado pelo autor da pesquisa do campo.
Em termos de como se organizam em caso de variações climáticas pode se observar
na tabela 11 que a falta de infraestrutura para o enfrentamento das cheias indica a.
vulnerabilidade dos questionados aos efeitos das variações climáticas (cheias) e a
capacidade de adaptação dos questionados a essas variações para garantir a sua (re)produção
social e, de modo particular, a produção para o sustento. Para manter a produção de
subsistência no período das cheias, as famílias recorrem à aberura de canais de modo que a
água não alcance as hortícolas e aos cultivos nas zonas altas.
Tabela 12 - Alternativas utilizadas para o enfrentamento dos efeitos das cheias
Alternativas Frequência Percentagem
Abertura de canais de irrigação 32 28.8
Alternância de cultivo 79 71.2
Total 111 100.0
Fonte: Elaborado pelo autor da pesquisa do campo
Portanto, nas duas tabelas anteriores (10 e 11), os dados configuram a percepção de
que no local de estudo existe a vulnerabilidade hídrica caracterizada por grupos
populacionais pobres e com privação, áreas degradadas e de riscos, escassez de água potável,
contato com doenças de veiculação hídrica, acesso limitado à água para fins produtivos, entre
outros aspectos.
A figura 07 reforça as questões de vulnerabilidade hídrica mencionadas nos
parágrafos anteriores. A mesma fig. permite perceber o disperdício de água de chuva, que
uma vez armazenadas e conservadas mitigariam a escassez de água no período seco
amenizando os efeitos das secas. Ao longo da pesquisa constatou-se que muitos questionados
não armazenam a água das chuvas que posteriorimente podia ser utilizada para diversos fins.
137
Figura 7 - Identificação de exemplo de vulnerabilidade hídrica dos questionados
Fonte: autor da pesquisa
Nesse contexto, a gestão hídrica é importante na redução da vulnerabilidade. O
desenvolvimento rural também se faz importante no mapeamento das condições
socioeconômicas decorrentes das secas e cheias, alocação de infraestruturas à altura. Desse
modo, uma gestão hídrica integrada ao desenvolvimento rural focalizada na redução da
exposição ao risco e à capacidade de adaptação à ocorrência das secas e cheias, mudanças
econômicas decorrentes e os recursos e as estratégias das famílias expostas é fundamental.
De acordo com os dados da tabela 12, a maior parte dos questionados (84.8%),
percebem que os principais problemas com a água do Rio Incomáti relacionam-se com os
efeitos das cheias. No entanto, outros questionados percebem que os problemas referenciados
relacionam-se com a redução da quantidade de água por causa da agricultura, a redução da
quantidade de água por causa da açucareira de Xinavane e a redução da quantidade de água
por causa da produção de cana -de- açúcar. Estes dados configuram a redução da
disponibilidade e acesso à água por parte das famílias, o que pode gerar conflitos pela água
e dificultar as oportunidades de desenvolvimento no PAX. Os conflitos pela água envolvem
a todos os utilizadores, nomeadamente: famílias camponesas, os megaprojetos de irrigação,
os produtores de cana-de-açúcar, a açucareira de Xinavane e a agroindústria. Ou seja, no fim,
138
estes dados refletem as falhas na gestão hídrica e na promoção de desenvolvimento rural no
local de estudo.
Estes dados conferem com àquele constatado em GdM (2007) que considera que a
atual pressão sobre os recursos hídricos e a influência de práticas de gestão de demanda e
oferta tem levado ao surgimento de conflitos entre os usos naturais e antrópicos, entre os
diferentes setores econômicos e entre os utilizadores à montante e à jusante. Recordando que
Moçambique é um país a jusante.
Todavia, reitera-se que, na discussão sobre perspectivas de desenvolvimento do setor
agrário, é imprescindível investir em projetos científicos e de desenvolvimento tecnológico,
direcionados ao aperfeiçoamento dos diversos usos da água, garantindo assim à atual e às
futuras gerações alto padrão de qualidade, utilização racional e integrada da água com vistas
ao desenvolvimento sustentável, e à prevenção e defesa contra fenômenos hidrológicos
críticos ou devido ao uso inadequado de recursos naturais (Vilas, 2013). Portanto, esse
investimento visando a sustentabilidade significaria a redução da vulnerabilidade das pessoas
face aos efeitos dos eventos extremos e a redução da pobreza e promoção de desenvolvimento
rural.
Tabela 13 - Principais problemas com a água do Rio Incomáti
Principais problemas Frequência Percentagem
Efeitos das cheias 112 84.8
Efeitos das secas 9 6.8
Redução da quantidade de água por causa da agricultura 2 1.5
Redução da quantidade de água por causa da açucareira de 1 0.8
Xinavane
Redução da quantidade de água por causa da produção de cana - 1 0.8
de- açúcar
Outros 7 5.3
Total 132 100.0
Fonte: Elaborado pelo autor da pesquisa do campo
Quanto aos efeitos das cheias, os dados da tabela 13 ilustram que os questionados
percebem que as inundações causaram mortes humanas, destruição de habitação, a redução
de produção agrícola e de animais e doenças. No entanto, a destruição de habitação, a
redução de produção agrícola e de animais e doenças são consideradas como sendo os
principais efeitos das cheias no PAX. Portanto, este dado corrobora com aquele encontrado
em GdM (2007) e INA (2016) que consideram que chuvas intensas destroem habitações,
reduzem a produção agrícola e de animais, além de eclosão de doenças hídricas.
139
Tabela 14 - Efeitos das inundações no PAX (percentagem de questionados)
Efeitos das inundações Percentagem dos respondentes
Amostra
(n)
Sim (%) Não (%)
Mortes humanas 37.9 62.1
Destruição de habitação 132 63.6 36.4
Doenças 72.0 28.0
Fonte: Elaborado pelo autor da pesquisa do campo
Os dados da tabela 14 revelam que 21.2 % dos questionados mencionaram que o
governo ajudou em termos de assistência em medicamentos. Apenas 2.3% relataram que o
governo ajudou em fomento pecuário. 4.5% revelaram que o governo ajudou em material de
construção. Isto significa que o governo não interviu à altura da satisfação das necessidades
dos afetados pelas cheias assim como pelas secas. Os dados mostram a fraca participação do
governo em assistência às populações, o que aumenta a vulnerabilidade e a pobreza e reduz
a capacidade de resiliência.
Tabela 15 - Formas de ajuda do Governo no período das cheias e secas
Formas de ajuda Percentagem dos respondentes
Amostra
(n) Sim (%) Não (%)
Medicamento 21.2 78.8
Fomento pecuário 132 2.3 97.7
Material de construção 4.5 95.5
Fonte: Elaborado pelo autor da pesquisa do campo
Com base em dados (tabela 15), 34.8% dos questionados mencionaram que usavam
alguma técnica na captação de água das chuvas. Isto significa que poucos questionados fazem
a captação da água das chuvas. Por um lado, estes dados implicam que grande parte dos
questionados não armazenam água, o que pode aumentar a sua vulnerabilidade hídrica. Por
outro lado, os dados mostram que a política pública orientada para a captação de água de
chuva pelo Município não é eficiente e não está surtindo efeitos desejados, o que pode
aumentar essa vulnerabilidade. É preciso potencializar essa política pública. Portanto, uma
gestão hídrica orientada para a construção ou distribuição de cisternas pode reduzir essa
vulnerabilidade, disperdício de chuva e aumentar o acesso à água. O acompanhamento do
uso dessas cisternas far-se-ia fundamental nesse sentido. Desse modo, uma ação facilitadora
do Estado na implementação de políticas públicas é importante para a concepção destas pelos
tomadores. É fundamental expandir a veiculação das informações, descentralizar as ações e
140
a responsabilização para que as políticas públicas produzam resultados eficázes. Também é
importante aprimorar na Lei de Águas o desenho de um sistema de participação e
descentralização da gestão de água, capacitação de todos atores a todos os níveis de gestão
hídrica. Essas ações devem interessar ao público alvo resolvendo as demandas não atendidas.
A assistência no fortalecimento dos processos da gestão hídrica integrados ao
desenvolvimento rural é importante, visto que pode assegurar a disponibilidade de água em
quantidade e qualidade para os diferentes usos. Precisa-se, igualmente, de estudos
estratégicos que influenciam a conservação, proteção e desenvolvimento dos recursos
hídricos. A política pública deve ser assegurada pela infraestrutura e monitoramento da sua
implementação.
Tabela 16 - Utilização de técnicas na captação de água de chuva
Respostas Frequência Percentagem
Sim 46 34.8
Não 86 65.2
Total 132 100.0
Fonte: Elaborado pelo autor da pesquisa do campo
Os dados da tabela 16 ilustram que 65.0% dos questionados mencionaram que
usavam caleira com tambores na captação de água das chuvas.
Conforme os dados das tabelas anteriores que concernem o uso de técnicas para a
captação de água das chuvas, percebe-se que nas comunidades visitadas poucos usam alguma
técnica de captação e aproveitamento das águas de chuva, apesar de na entrevista, os gestores
terem reforçado a existência de uma a legislação do Município que orienta e incentiva o uso
de técnicas para a captação de águas de chuva.
Tabela 17 - Técnicas de captação de água de chuva no PAX
Técnicas de captação de Percentagem dos respondentes
água Amostra
(n)
Sim (%) Não (%)
Uso de caleira com 56.5 43.5
tambores
Uso de caleira com 10.8 89.2
cisternas 46
Fonte: Elaborado pelo autor da pesquisa do campo
Identificados os problemas causados pelas cheias e secas sobre os questionados, a
intervenção do governo, o uso de técnicas de captação e armazenamento de água percebe- se
141
que as políticas públicas de gestão hídrica não respondem às demandas das famílias. No
entanto, é preciso utilizar formas de reduzir a sua vulnerabilidade em relação aos efeitos
climáticos e promover o desenvolvimento.
Portanto, estes dados são importantes na pesquisa ao permitirem perceber que a
maioria dos questionados sofre efeitos dos eventos climáticos e não tem assistência do
governo. Estes questionados são de algum modo mais vulneráveis do que aqueles que
eventualmente receberam alguma ajuda, do que aqueles que consequem armazenar alguma
água (através de técnicas de captação de chuvas), ou do que aqueles que não sofrem efeitos
negativos. Estes dados descrevem determinada forma de gestão hídrica que não satisfaz parte
das necessidades básicas da população, e dificilmente promove o desenvolvimento rural no
PAX. O papel do governo é importante nos processos de gestão pública e de
desenvolvimento.
Relativamente à questão de gestão de águas, questionou-se se conheciam a existência
dos comitês de gestão de águas no PAX. Os dados da tabela 17 ilustram que 97.7% dos
questionados responderam que no PAX existem os comitês de zona para questões de gestão
de água. No entanto, os dados da entrevista com os gestores (66.6 %) contrastam revelando
que no PAX existem os comitês de bacias hidrográficas, neste caso a UGBI. Portanto,
percebe- se que existe orgão que promove um controle direto na gestão hídrica no PAX, no
entanto, existem também os comitês de zona que podem caracterizar o processo de
descentralização, mesmo que não seja um dado mais aprofundado neste estudo.
Tabela 18 - Conhecimento sobre a existência dos comitês de gestão de águas no PAX
Respostas Frequência Percentagem
Sim 129 97.7
Não 3 2.3
Total 132 100.0
Fonte: Elaborado pelo autor da pesquisa do campo
O gráfico 03 mostra que a maioria dos questionados (84.8%) respondeu que
participava dos comitês que existem no PAX. No entanto, outros responderam que não
partiticipavam dos encontros nos comitês de zona. Dessa forma, percebe-se que existem
pessoas que podem estar excluídas do processo de gestão hídrica. A não participação de
algumas pessoas pode dificultar a boa governança hídrica, ou seja, a almejada governança
hídrica descentralizada. As demandas das pessoas excluídas nesses processos não podem ser
acolhidas e satisfeitas, visto que as pessosas não tem igual oportunidade de exporem as suas
preocupações, bem como a oportunidade de interação com os gestores e outros atores
142
envolvidos. Como se refere neste estudo, é imperativo que a gestão hídrica e a promoção de
desenvolvimento rural tenham um olhar inclusivo para que diversos interesses em jogo
integrem a busca pelos processos de desenvolvimento.
Gráfico 3 - Participação dos encontros nos comitês de zona no PAX
15,20%
Sim
Não
84,80%
Fonte: Elaborado pelo autor da pesquisa do campo.
Os dados do gráfico 04 mostram que 86.72% dos questionados responderam que a
participação desses comitês era positiva em termos de audiência. A participação dos atores
de desenvolvimento é crucial para a governança democrática de água. A não participação,
por exemplo dos comitês de bacia hidrográfica pode significar falhas da governança hídrica.
Portanto, uma gestão hídrica integrada à inclusão dos atores a todos os níveis é importante.
Gráfico 4 - Avaliação da participação dos encontros nos comitês de zona (audiência)
90,00%
80,00%
70,00%
60,00%
50,00% 86,72%
40,00%
30,00%
20,00%
10,00% 13,28%
0,00%
Positiva Negativa
143
Fonte: Elaborado pelo autor da pesquisa do campo.
Ainda em termos de gestão hídrica, questionou-se se existiam processos e infra-
estruturas administrativas para questões de gestão de água da bacia de Incomáti. De acordo
com dados da tabela 18, a maioria dos questionados (84.8%) mencionou que não existiam
processos e infra-estruturas administrativas para questões de gestão de água da bacia de
Incomáti. Estes dados significam que mesmo que a maioria participe na gestão nos comitês
de zona, é possível que suas demandas não sejam resolvidas nesses comitês, mas sim na
UGBI, visto que a existência destes processos e infra-estruturas mencionada pelos gestores
pode não ser percebida no nível de base, ou seja, pelo público alvo. Mais em diante, os
questionados apontam para a existência da legislação ambiental que regula e monitora a
gestão hídrica e os setores produtivos.
Tabela 19 - Existência de processos e infra-estruturas administrativas para questões
de gestão de água da bacia de Incomáti
Respostas Frequência Percentagem
Sim 20 15.2
Não 112 84.8
Total 132 100
Fonte: Elaborado pelo autor da pesquisa do campo.
Sobre o conhecimento da existência de um fundo de recursos hídricos para o Posto
Administrativo de Xinavane, a tabela 19, mostra que 82.6 % dos questionados não tinham
conhecimento sobre a existência de um fundo de recursos hídricos no PAX. Na sequência,
sobre a origem desse fundo, 14 (%) mencionaram que os fundos provinham da água dos
furos. Portanto, existe um fundo (em dinheiro) que provém de taxas fixas sobre o consumo
de água em todos os setores (produtivos e não produtivos) e é canalizado à administração do
PAX. Uma das finalidades deste fundo consiste no investimento nos eventuais casos de
reparo de fontes de água.
No que respeita a capacidade do governo em controlar a gestão de recursos hídricos,
56.8% dos questionados afirmaram que o governo moçambicano consegue acompanhar a
utilização da água do Rio Incomáti. Estes dados configuram um paradoxo quando comparado
por exemplo com os dados sobre a ajuda do estado/ governo aos afetados pelos efeitos das
cheias e secas, participação do estado/governo na satisfação das necessidades básicas e de
desenvolvimento, a existência de processos e infra-estruturas específicas de gestão hídrica
na bacia de Incomáti, a existência de campanhas de formação, educação e divulgação em
gestão hídrica, entre outros. Ou seja, ao mesmo tempo que os questionados reclamam da
144
participação do governo, reconhecem que este consegue controlar a gestão dos recursos
hídricos. Eventualmente, isto pode ser explicado por determinadas formas de gestão hídrica
insuficientes para atender as demandas do público alvo das políticas públicas, ou seja, essas
formas atendem os fazedores dessas políticas, surgindo dessa forma distorções da montante
à ajusante das políticas públicas (insuficiente articulação entre os stakeholders). Quer dizer
que as políticas públicas vistas como a face expressiva da ação do Estado ou do governo são
insuficientes para promover o pleno envolvimento dos stakeholders na gestão dos recursos
hídricos aos níveis nacional, regional e, sobretudo, local. Esses dados são corrobrados com
aquele encontrado em GdM(2007) que considera que a capacidade institucional é
fundamental no âmago da gestão dos recursos hídricos e sua articulação nos níveis e meios
destacados. Aliás, a gestão hídrica se torna insuficiente se ela estiver voltada para o exercício
do poder (autoridade) e à racionalidade da burocracia na (re)solução das demandas do público
alvo dessa mesma gestão. Os dados a seguir analisados também reforçam estes argumentos.
Sobre a participação da capacitação em gestão em recursos hídricos (formas de
enfrentamento dos efeitos das cheias e secas, técnicas de captação e armazenamento de água,
resolução de conflitos pela água). Os dados da tabela mostram que nem todos todos os
questionados tiveram capacitação nessas temáticas de gestão hídrica, visto que 79.0% dos
questionados em nenhum momento participaram da capacitação em matéria de gestão em
recursos hídricos, apenas cerca de 21% participaram. Isto significa que até ao momento da
presente pesquisa no PAX maior parte dos questionados não tinha participado da capacitação
nessas temáticas de gestão hídrica. Essas temáticas configuram importante aspecto na gestão
hídrica, visto que constituem as demandas insuficientemente atendidas da maior parte dos
questionados até ao momento da pesquisa. A capacitação do público alvo das políticas
públicas de gestão hídrica é fundamental para uma gestão descentralizada e voltada ao
empoderamento das comunidades locais. Desse modo, estes e outros dados apresentados
ajudam perceber que no nível do PAX, a capacidade para introduzir uma abordagem mais
integrada da gestão dos recursos hídricos ainda não está suficientemente instalada. Este
argumento, corrobora com aqueles encontrados em CNUDS (2012) e em Roger e Hall (2003)
apud VILLAR (2012); Coelho e Havens (2015) Em CNUDS(2012), adverte- se que a
participação e a capacitação são necessárias para todos os níveis de gestão hídrica, de
tomadores de decisão de alto nível a gestores de recursos hídricos, implementadores e
técnicos (que muitas vezes são os principais elaboradores de políticas públicas), passando
por membros da sociedade civil, organizações não governamentais e grupos de usuários da
água. Em Roger e Hall (2003) apud Villar (2012); Coelho e Havens (2015), a governança
145
hídrica é funcional quando abrange as estruturas (políticas, sociais, econômicas, jurídicas e
administrativas) instituídas por uma determinada sociedade para gerir as questões hídricas
que influenciam o seu desenvolvimento. Portanto, a participação e o empoderamento de
todos e a todos níveis configuram- se importantes para uma efetiva gestão hídrica e
desenvolvimento dos recursos hídricos.
Neste contexto, pode-se considerar que as dinâmicas sociais e políticas, bem como as
aspirações, crenças e valores que afetam o comportamento humano em relação à utilização
dos recursos hídricos devem ser compreendidas e baseadas em abordagem interdisciplinar e
de agenciamento, ou seja, na perspectiva parafraseada em Long (2007) apud Schneider e
Gazolla (2011, p. 13) baseadas na capacidade de saber e atuar de todos os atores de
desenvolvimento.
Para estes dados tambem corroboram com aquele encontrado em Staduto et al.
(2015). Estes ressaltaram que avanços reais não podem ser alcançados se qualquer grupo ou
estrato social não puder ser participante do processo de desenvolvimento e desfrutar da
qualidade de vida que os recursos tangíveis e intangíveis possam oferecer para a sociedade.
(STADUTO et al., 2015).
Tabela 20 - Conhecimento da existência de um fundo de recursos hídricos entre os
questionados
Perguntas Amostra Respostas (%)
(n=132)
Sim Não
Tem conhecimento sobre a 17.4 82.6
existência de um fundo de
recursos hídricos?
O governo consegue controlar a 56.8 43.2
gestão de recursos hídricos?
Já participou da capacitação em 21.2 78.8
gestão em recursos hídricos?
Fonte: Elaborado pelo autor da pesquisa do campo.
5.2.2 Gestão Hídrica e Desenvolvimento de diferentes Ramos de Produção
Os dados da tabela 20 mostram que a maioria dos questionados (54.1%) produzem
cereais. Este dado corrobora com a dinâmica da produção agrícola. Em período de chuvas, a
tendência é de se produzir nas zonas altas, as mais adequadas para o cultivo de cereais.
Porém, parte considerável dos entrevistados (45.9%) %) indicou a produção de hortícolas.
Estes dados, expressam de algum modo, a dependência e a adaptação das famílias
146
questionados relativamente às variações climáticas ou estações do ano para deteminados
cultivos. Igualmente, os dados configuram a vulnerabilidade dos questionados em relação
aos efeitos de enchentes e secas, visto estes não terem como se proteger.
Tabela 21 - Culturas agrícola produzidas no PAX
Culturas agrícolas produzidas Frequência Percentagem
Hortícolas 51 45.9
Cereais 60 54.1
Total 111 100.0
Fonte: Elaborado pelo autor da pesquisa do campo.
Com os dados da tabela 21 verifica-se que 94.6% dos questionados mencionaram que
para além do consumo, vendem a produção no local. Apenas 5.4% dos questionados vendem
a produção em outros locais fora da comunidade. Os dados mostram ainda que os
questionados majoritariamente produzem para o consumo e vendem produção nas
propriedades agrícolas. Isto, implica que existe acesso limitado aos mercados. Portanto, a
produção destina-se ao consumo e em alguns casos uma parte dela é vendida localmente.
Este dado é corroborado com aqueles encontrados em Sitoe (2005) e CEMO (2010) que
consideram que a agricultura em Moçambique é essencialmente do setor familiar
(camponesa) e de baixos rendimentos, de satisfação das necessidades internas da família e
oportunidades de venda local.
Portanto, sendo essencialmente uma agricultura de baixos níveis de produção seria
dificil que a mesma participasse no mercado através de fornecimento de vários produtos.
Tabela 22 - Destino de produção agrícola no PAX
Destino da produção Frequência Percentagem
Consumo e venda local 105 94.6
Venda em outros locais 6 5.4
Total 111 100.0
Fonte: Elaborado pelo autor da pesquisa do campo.
Os dados da tabela 22 indicam que 54.1% dos questionados não fazem irrigação ao
produzir alimentos, somente 45.9% a fazem. Este dado pode configurar o acesso limitado
aos recursos hídricos por parte dos questionados, caracterizando desse modo as falhas da
governança hídrica e a ineficiência das políticas de desenvolvimento rural. Portanto, uma
gestão hídrica que melhore o acesso aos recursos hídricos nos setores socioeconômicos
das famílias é fundamental para aumentar a produção e a produtividade nas zonas rurais,
reduzindo desse modo as vulnerabilidades e a pobreza.
147
Tabela 23 - Irrigação nas propriedades agrícolas
Respostas Frequência Percentagem
Sim 51 45.9
Não 60 54.1
Total 111 100.0
Fonte: Elaborado pelo autor da pesquisa do campo.
A tabela 23 indica que dos 51 questionados que irrigam as suas propriedades, 73.0%
destes usam a irrigação gota-a-gota. Apenas 27.0% usam a irrigação por inundação. A rega
gota-a- gota é das mais eficientes, pois viabiliza a produção, evita perdas de água e reduz a
vulnerabilidade.
Porém, os dados permitem perceber a existência de situações de vulnerabilidade que
caracterizam as falhas de governança hídrica, dificultando desse modo os objetivos da
Política de Gestão dos Recursos Hídricos e das políticas de desenvolvimento agrícola. Ou
seja, a rega por inundação por parte de alguns questionados configura- se em um dos fatores
de desperdício de água relativamente as outras formas, o que pode influenciar a gestão
hídrica e a vulnerabilidade das famílias no PAX.
Tabela 24 - Tipos de irrigação utilizados pelos questionados
Respostas Frequência Percentagem
Gota-a-gota 37 72.5
Inundação 14 27.5
Total 51 100.0
Fonte: Elaborado pelo autor da pesquisa do campo
Quanto aos efeitos das cheias, os dados da tabela 24 ilustram que os questionados
percebem que as inundações causaram a redução de produção agrícola e de animais e
doenças. No entanto, a redução de produção agrícola e de animais e a eclosão de doenças são
consideradas como sendo os principais efeitos das cheias no PAX. Portanto, este dado
corrobora com aquele encontrado em GdM (2007) e INA (2016) que consideram que chuvas
intensas, reduzem a produção agrícola e de animais, além de responderem pela eclosão de
doenças hídricas.
Tabela 25 - Percepção sobre os efeitos das inundações
Efeitos das inundações Percentagem dos respondentes
Amostra
(n= 132)
Sim (%) Não (%)
Redução da produção agrícola 98.5 1.6
Redução de animais 70.5 29.5
Fonte: Elaborado pelo autor, pesquisa do campo
148
Quanto aos efeitos das secas, a tabela 25, mostra claramente que cerca de 78.0% dos
questionados percebem que as secas reduziram a quantidade de alimentos produzidos.
Igualmente este dado corrobora com estudos realizados pelo MICOA (2005) ao afirmar que
os eventos climáticos impactam na economia de Moçambique.
Os dados da tabela ilustram que os questionados percebem que as secas reduziram os
alimentos e animais e causaram doenças. Para caso de doenças, MICOA (2005) menciona
que, quer seja em períodos de cheias intensas, quer seja em tempos de secas prolongadas e
ocorrência de ciclones, as populações são vulneráveis a utilizarem água contaminada
proveniente de águas estagnadas por ausência de abastecimento de água potável. Desse
modo, as doenças hídricas surgem.
Tabela 26 - Efeitos das secas no PAX na percepção dos questionados
Efeitos das secas Percentagem dos respondentes
Amostra
(n= 132)
Sim (%) Não (%)
Redução de alimentos 78.0 22.0
Redução de animais 71.2 28.8
Fonte: Elaborado pelo autor da pesquisa do campo.
Para questão de aproveitamento da água da Bacia de Incomáti perguntou-se sobre em
que atividades se utilizavam as águas do Rio Incomáti para gerar a riqueza. Assim, os dados
da tabela 26 indicam que 82.4% dos questionados responderam que utilizavam as águas do
Rio Incomáti para a sua subsistência a partir da produção de hortícolas para alimentação e
venda. Portanto, percebe- se que tanto para os gestores, assim como para as famílias, as águas
do Rio Incomáti são utilizadas para as atividades produtivas, contribuindo para o bem- estar
e esse dado significa maior demanda em água pelos setores produtivos. Para a pesquisa
implica que as práticas produtivas, vistas como as que mais demandam água e ao mesmo
tempo contribuem para o rendimento das famílias e da economia nacional, devem ser
sustentáveis na utilização dos recursos hídricos de modo a garantir o acesso contínuo e
regular destes recursos.
Tabela 27 - Atividades que utilizam as águas do Rio Incomáti para a subsistência
Respostas Frequência Percentagem
Criação de peixe 8 7.8
Navegação fluvial 4 3.9
Produção de hortícolas para alimentação e venda 84 82.4
Pesca 5 4.9
149
Outra 1 1.0
Total 102 100.0
Fonte: Elaborado pelo autor da pesquisa do campo.
Com relação ao uso da água para o cultivo, a maioria dos questionados (59.8%)
respondeu que usava a água do rio para determinado fim de cultivo (tabela 27). Este dado
reforça aquele que considera que a água é um insumo insubstituível no setor produtivo. No
setor agrícola a água é utilizada para a irrigação, participando dessa forma no aumento da
produção e da produtividade e gera emprego e renda dentro deste setor.
Tabela 28 - Utilização da água do Rio Incomáti para o cultivo entre os questionados
Respostas Frequência Percentagem
Sim 79 59.8
Não 53 40.2
Total 132 100.0
Fonte: Elaborado pelo autor da pesquisa do campo.
Na gestão de água questionou-se sobre qual a técnica adequada para a gestão do uso
da água para o cultivo de cana-de-açúcar e outros. Neste ponto, o gráfico 05 ilustra que 55.20
% dos questionados relataram que a técnica adequada para a gestão do uso da água para o
cultivo de cana-de-açúcar e outros seria a irrigação gota-a-gota, seguido de irrigação por
aspersão. Portanto, percebe-se que os questionados têm conhecimento sobre as técnicas
adequadas para os cultivos de cana-de-açúcar e outros. Esse é um dado importante para a
gestão hídrica e pode ser aproveitado para reduzir o disperdício de água.
Gráfico 5 - Técnica identificada como adequada para a gestão do uso da água para o
cultivo de cana-de-açúcar e outros
60,00%
50,00%
40,00%
30,00% 55,20%
44,60%
20,00%
10,00%
0,20%
0,00%
Asperção Inundanção Gota- a -gota
Fonte: Elaborado pelo autor da pesquisa do campo.
150
Na mesma sequência, questionou-se sobre qual seria a principal tecnologia que pode
contribuir para a economia de água na agricultura tendo em conta a medição da quantidade
de água existente no solo e que a planta necessita e prática da irrigação com déficit. As duas
técnicas mostram vantagens em relação às outras mencionadas anteriormente. Outra razão
consistiu na busca de percepção dos questionados sobre a existência de plantas ou cultivos
com exigências específicas em termos de consumo de água. Os dados do gráfico 06 mostram
que 67.5% dos questionados mencionaram a medição da quantidade de água existente no
solo e que a planta necessita como sendo a principal tecnologia que pode contribuir para a
economia de água na agricultura. Para a pesquisa, estes dados implicam que na área de
estudo, os questionados percebem sobre as técnicas que podem contribuir para a economia
da água. Portanto, as políticas públicas voltadas para a governança hídrica no PAX podem
explorar este potencial que os questionados possuem, no sentido de contribuir para que se
economize mais água nos setores produtivos (principalmente na agricultura).
Gráfico 6 - Tecnologia que pode contribuir para a economia de água na agricultura
na percepção dos inquiridos
67,50%
70,00%
60,00%
50,00%
32,50%
40,00%
30,00%
20,00%
10,00% 0,00%
0,00%
Medir a Uso de cobertura Prática da
quantidade de morta (resíduos irrigação com
água existente no de cultivos) déficit
solo e que a planta melhoramento
necessita genético de
plantas
Fonte: Elaborado pelo autor da pesquisa do campo.
5.2.3 Gestão Hídrica e Redução das Desigualdades
Como se pode observar no gráfico 07, a maior parte dos questionados (68.9%) usa
água do furo (canalizada) como principal fonte hídrica no seu cotidiano. Porém, existe outras
fontes de água (água dos poços e do Rio Incomáti). Portanto, o uso de água do furo não é
contínuo e nem suficiente para satisfazer as necessidades do cotidiano das famílias,
conforme referenciado neste capítulo. Desse modo, o uso de água do furo (canalizada) ainda
151
é limitado, ou seja, existem problemas de segurança hídrica no PAX. Em termos de fontes
de água, nem lagos nem outras foram identificadas.
Gráfico 7 - Principal fonte de Água em uso no PAX
9,10%
Água do Rio Incomáti
22,00% Água dos poços
68,90% Água de furo
lagos
outra
Fonte: Elaborado pelo autor da pesquisa do campo.
Quanto ao conhecimento da existência de um instrumento jurídico de enquadramento
e regulamentação da utilização da água para fins agrícolas, industriais e hidroelétricos, os
dados da tabela 28, mostram que cerca de 93.9 % dos questionados mencionaram que não
tinham conhecimento da existência desse instrumento jurídico. Ou seja, a circulação de
informação e as ações de educação, que podem ter sido mencionado pelos gestores
entrevistados, não estão sendo percebidos pela população que respondeu ao questionário. Isto
significa que as pessoas não conhecem o instrumento jurídico de enquadramento e
regulamentação da utilização da água para fins diversos, ou seja, se existe o referido
instrumento, o mesmo é pouco difundido e menos abrangente, daí que a maioria dos
questionados não têm conhecimento.
Em termos de implicações à pesquisa realizada, este dado contrasta com teoria de
Ostrom (1999) para o âmbito de Gestão hídrica e com Santos (2013) quanto as dimensões de
desenvolvimento. Este aspecto constitui o foco desta pesquisa, ou seja, da relação da Política
de Gestão de Recursos Hídricos com o Desenvolvimento Rural.
Tabela 29 - Percepções sobre a existência de um instrumento jurídico de gestão
hídrica
Respostas Frequência Percentagem
Sim 8 6.1
Não 124 93.9
Total 132 100.0
Fonte: Elaborado pelo autor da pesquisa do campo.
152
No que tange ao acesso dos recursos hidricos (tabela 29), questionou-se se os recursos
hídricos (água do Incomáti) estavam disponíveis para serem usados por todos. Para efeito de
resposta, percebe-se que 77.3% dos questionados, responderam que os recursos hídricos da
bacia do Incomáti estão disponíveis para serem usados por todos. Isto significa que maior
parte dos questionados percebe que a legislação sobre a gestão hídrica não limita o acesso a
estes recursos. Portanto, existe a universalização do acesso aos recursos hídricos nesta bacia
hidrográfica de Incomáti. Este dado é corroborado com aquele encontrado em Coelho e
Havens (2015) que a universalização do uso de recursos hídricos caracteriza a dimensão
política no uso dos mesmos recursos.
Desse modo, e tendo em conta a percepção dos entrevistados sobre a qualidade de
água do Rio Incomáti configura-se que a existência dessa legislação não vai se refletindo na
redução da vulnerabilidade e no aumento da segurança hídrica. Sendo assim, existe o
problema de acesso aos recursos hídricos no local de estudo que derivado da qualidade de
água que pode não ser percebido tanto pelos entrevistados assim como pelos questionados.
Tabela 30 - Disponibilidade dos recursos hídricos (água do Incomáti) para todos
Respostas Frequência Percentagem
Sim 102 77.3
Não 30 22.7
Total 132 100.0
Fonte: Elaborado pelo autor da pesquisa do campo.
Quanto ao acesso à água potável, questionou-se sobre se os questionados tinham
dificuldades no acesso. Os dados da tabela 30 mostram que 69.7% dos inquiridos
mencionaram que tinham dificuldades no acesso à água potável. Estes dados reforçam a ideia
de que não basta ter o acesso universalizado de água,mas é preciso ter acesso àgua de
qualidade e digna de ser consumida. É interessante perceber que mesmo que seja ilustrado
que o acesso à água tem problemas, o aumento daqueles relacionados com a vulnerabilidade
devido a essa falta de acesso não foi identificado. Portanto, as dificuldades de acesso à água
estão atreladas aos problemas de gestão hídrica nos setores produtivos e não produtivos.
Tabela 31 - Percepção dos questionados quanto à dificuldades de acesso à água
potável
Respostas Frequência Percentagem
Sim 92 69.7
Não 40 30.3
Total 132 100.0
Fonte: Elaborado pelo autor da pesquisa do campo.
153
Quanto à existência de promoção das campanhas de formação, educação e
divulgação, tanto junto das populações, como dos agentes da administração, em relação aos
principais problemas de gestão das águas da bacia do Rio Incomáti, os dados da tabela 31
mostram que um pouco mais da metade dos questionados (53.8%) mencionou que não existia
essas campanhas de formação, educação e divulgação tanto junto das populações, como dos
agentes da administração, em relação aos principais problemas de gestão das águas da bacia
de Incomáti.
Tabela 32 - Percepção sobre a existência das campanhas de formação, educaçãoe
divulgação em relação aos principais problemas de gestão das águas da bacia do Rio
Incomáti
Respostas Frequência Percentagem
Sim 61 46.2
Não 71 53.8
Total 132 100.0
Fonte: Elaborado pelo autor da pesquisa do campo.
No entanto, questionou-se sobre quem promove com frequência as campanhas de
formação, educação e divulgação tanto junto das populações, como dos agentes da
administração, em relação aos principais problemas de gestão das águas da bacia de Incomáti.
Os dados da tabela 32 mostram que cerca de 86.9 % dos questionados apontaram o Governo
como sendo o interventor frequente nessas campanhas. Existe também a percepção da
participação do setor privado na promoção dessas campanhas. No entanto, existe diferença
na percepção sobre quem intervem na promoção dessas campanhas, visto que os gestores
mencionaram o estado, os questionados acrescentaram o setor privado. Esta diferença pode
ser fundamentado pelo fato de alguns inquiridos trabalharem nas empresas. Portanto, essas
campanhas são promovidas tanto pelo setor estatal como também pelo setor privado, com
destaque para o primeiro. Reitera-se neste ponto o papel do estado na formação, educação e
divulgação das populações em temáticas de gestão hídrica e desenvolvimento rural, conforme
o local do estudo realizado. Ou seja, os dados podem expressar o envolvimento estatal na
implementação das políticas e a consecução das metas coletivas. Estes dados são
corroborados com os dados encontrados em Diniz, 1999, apud Villar, 2012 que consideram
a capacidade e a flexibilidade governativa e estatal de controlar e regular os processos de
desenvolvimento. Também corroboram com aquele encontrado em Gonçalves (2006) que
aponta que a governança inclui e envolve as dimensões estatal e não estatal, ou seja, existem
várias formas de administrar envolvendo a participação do estado e de setores privados.
154
Tabela 33 - Percepção sobre os promotores das campanhas de capacitação
Respostas Frequência Percentagem
Governo 53 86.9
Setor privado 8 13.1
Total 61 100.0
Fonte: Elaborado pelo autor da pesquisa do campo.
Quanto a questão sobre que forma de campanha o Governo tem promovido com maior
frequência, os dados da tabela 33 mostram que 92.5 % dos questionados referiram-se às
campanhas de educação como sendo as mais frequentes do que as outras formas,
nomeadamente: formação e divulgação em questões de gestão de recursos hídricos da bacia
do Rio Incomáti. É interessante que nenhum questionado mencionou a campanha de
formação. As campanhas de educação mencionadas pelos questionados relacionam- se com
sensibilização e palestras sobre o tratamento da água para o consumo e as de divulgação
resumem- se a informação de interesse público.
Tabela 34 - Tipo de campanha o Governo tem promovido com maior frequência
Respostas Frequência Percentagem
Educação 49 92.5
Divulgação 4 7.5
Formação 0 0.0
Total 53 100.0
Fonte: Elaborado pelo autor da pesquisa do campo.
Sobre as formas de acesso à informação sobre os casos de contaminação da água desta
bacia hidrográfica, os dados da tabela 34 mostram que do total (77) que responderam, a maior
parte dos questionados (80.5%) acessa a informação através de pessoas singulares29. Apenas
19.5% dos questionados tem acesso através de encontros com as autoridades locais ou
administrativas.
Tabela 35 - Formas de acesso à informação sobre os casos de contaminação da água
desta bacia hidrográfica
Respostas Frequência Percentagem
Encontro com autoridades locais e admnistrativas 15 19.5
Pessoas singulares 62 80.5
Total 77 100.0
Fonte: Elaborado pelo autor da pesquisa do campo.
29
Na perspectiva da pesquisa, pessoas singulares referem-se aos usuários dos recursos hídrico. Portanto, não
configura nenhum estatuto jurídico.
155
5.2.4 Gestão Hídrica e Melhoria da Qualidade de Vida
Os dados da tabela 35 ilustram que os questionados percebem que tanto as
inundações, assim como as secas causaram doenças. Para caso de doenças, MICOA (2005)
menciona que, quer seja em períodos de cheias intensas, quer seja em tempos de secas
prolongadas e ocorrência de ciclones, as populações são vulneráveis a utilizarem água
contaminada proveniente de águas estagnadas por ausência de abastecimento de água
potável. Desse modo, as doenças hídricas surgem.
Tabela 36 - Efeitos das inundações e secas e a eclosão de doenças
Efeitos das inundações e Percentagem dos respondentes
secas Amostra
(n= 132)
Sim (%) Não (%)
Eclosão de doenças por 72.0 28.0
causa das inundações
Eclosão de doenças por 69.7 30.3
causa da seca
Fonte: Elaborado pelo autor da pesquisa do campo.
A tabela 36 mostra que dos questionados, 96.2% responderam que a água do rio não
era adequada para o uso e consumo doméstico. Estes dados significam que a água do Rio
Incomáti não é percebida como capaz de ser utilizada para o consumo doméstico. Configura-
se importante pensar que ao mesmo tempo que os questionados percebem que os recursos
hídricos do Rio Incomáti estão disponíveis para uso e consumo por todos, igulmente
percebem que estes recursos não são adequados para o consumo devido a sua qualidade e
poucos armazenam água da chuva. Para a pesquisa, isto implica que a maioria da população
é vulnerável sinalizando falha da governança hídrica e de estratágias de desenvolvimento
(rural).
Tabela 37 - Percepção sobre qualidade de água do rio para o uso e consumo doméstico
Respostas Frequência Percentagem
Sim 127 96.2
Não 5 3.8
Total 132 100.0
Fonte: Elaborado pelo autor da pesquisa do campo.
Em termos de políticas públicas para o desenvolvimento no PAX, questionou-se
sobre qual é a política que mais contribui para o desenvolvimento neste posto administrativo.
Assim, os dados da tabela 37, revela que 43.9% dos questionados mencionaram que a política
156
que mais contribui para o desenvolvimento no PAX é a política de água, seguido
imediatamente pela política de saúde, 25.0% dos inquiridos. Estes dados mostram que a
política de água é aquela que mais se destaca no conjunto de outras políticas públicas de
desenvolvimento no PAX. Mesmo que os questionados reconheçam a insuficiência dessas
políticas, por exemplo, as de aprovisionamento em água para o consumo, saneamento, as de
educação, habitação, saúde, as de promoção da produção, entre outras, estes percebem que
as de promoção das condições de abastecimento em água são mais visíveis que as outras.
Dado não menos importante, para a pesquisa, parte considerável dos questionados (26.5 %)
mencionou que nenhuma política contribui para o desenvolvimento. Nesse dado, pode se
constatar que existe parte de questionados que não enxergam a responsabilidade social da
Açucareira de Xinavane e o emprego (mesmo que sazonal na sua maioria) que dela se deriva.
A expansão do abastecimento em água não se traduz na redução de vulnerabilidades das
comunidades na percepção dos questionados, visto que os dados desta pesquisa mostram que
os questionados sofrem de um conjunto de vulnerabilidades resultantes das falhas de
governança hídrica e da insuficiência de políticas públicas. Na percepção dos entrevistados,
as políticas que mais contribuem para o desenvolvimento do PAX, são as seguintes: as
políticas agrícolas e de plantações, as de educação, de emprego e da responsabilidade social
da Açucareira de Xinavane. Portanto, tanto as políticas mencionadas pelos questionados
assim como as elencadas pelos entrevistados ainda não se traduziram na redução das
vulnerabilidades e pobreza ou no combate à insegurança hídrica e na provisão das condições
para o aumento da escolaridade e emprego. Os dados também vislumbram um
questionamento sobre a contribuição das políticas públicas de desenvolvimento na área de
estudo.
Tabela 38 - Percepção sobre a política que mais contribui para o desenvolvimento
neste posto administrativo
Respostas Frequência Percentagem
Política de habitação 1 0.8
Política de saúde 33 25.0
Política de água 58 43.9
Política de transportes e comunicação 5 3.8
Nemhuma 35 26.5
Total 132 100.0
Fonte: Elaborado pelo autor da pesquisa do campo.
No mesmo contexto de políticas públicas para o desenvolvimento no PAX,
questionou-se sobre qual é a política que mais contribuiria para o desenvolvimento dos
recursos hídricos. A tabela 38, mostra que 91.7% dos questionados relataram que a política
157
que mais contribuiria para o desenvolvimento dos recursos hídricos seria a política de água.
Portanto, os inquiridos ainda percebem que a política de água pode contribuir para o
desenvolvimento no PAX, colocando desse modo desafios no setor de água. Configura-se
dessa forma o valor da água como elemento vital e para o desenvolvimento rural entre as
famílias que participaram da pesquisa.
Tabela 39 - Percepção sobre a política que mais contribuiria para o desenvolvimento
dos recursos hídricos no PAX
Respostas Frequência Percentagem
Política de habitação 8 6.1
Política de saúde 1 0.8
Política de água 121 91.7
Política de transportes e comunicação 2 1.5
Nenhuma 0 0.0
Total 132 100.0
Fonte: Elaborado pelo autor da pesquisa do campo.
5.2.5 Gestão Hídrica e Satisfação das Necessidades Básicas de toda a População
No que tange a satisfação dos questionados quanto a escolaridade dos seus
membros, com base nos dados ( tabela 39) 75.8% dos questionados relataram que a
escolaridade dos seus membros era satisfatória. Portanto, os níveis de escolaridade, a
insuficiência da rede escolar, a insuficiência financeira, as condições precárias de habitação
e saneamento, entre outros na área de estudo não justificam a satisfação mencionada pelos
questionados, pois estes são elementos que caracterizam as vulnerabilidades e desigualidades
no local de estudo. Este dado é corroborado com aquele encontrado em Asselin (2009) que
considera que a inexistência ou a insuficiência do acesso a estes elementos implica expor as
pessoas aos efeitos de qualquer fenômeno adverso ou seja, exposição das famílias ou
comunidades às condições de vulnerabilidade e de pobreza. Algumas vulnerabilidades dos
questionados podem resultar da baixa escolaridade e de falha das políticas públicas. A
escolaridade é um elemento fundamental ao permitir que a pessoa reconheça o seu potencial
e perceba o desempenho de políticas públicas.
Tabela 40 - Satisfação dos inquiridos com relação a escolaridade dos seus membros
Respostas Frequência Percentagem
Satisfatória 100 75.8
Não satisfatória 32 24.2
Total 132 100.0
Fonte: Elaborado pelo autor da pesquisa do campo.
158
Na sequência, questionou-se sobre os motivos de não satisfação dos
questionados pela escolaridade dos seus membros, a tabela 40 mostra que 84.4% dos
que não estão satisfeitos apontaram a insfuficiência financeira para cobrir as despesas
escolares. Este dado traduz a idéia de que a insuficiência financeira e de escolas afetam
o acesso à educação, ou seja, percebe- se que a renda (nas suas várias vertentes) e a
ampliação da rede escolar são fundamentais na satisfação das necessidades básicas das
pessoas.
A renda ajuda a suprir todo de tipo de despesas ou o problema de investimento
em educação, caso contrário, as pessoas estarão mais expostas às condições de
vulnerabilidade e pobreza. A educação além de ser direito humano, também constitui
uma das necessidades básicas e estratégicas de desenvolvimento. Portanto, se faz
importante a existência de políticas públicas que concorram para maior acesso à
educação e a redução das desigualdades na distribuição da renda, promoção de
alternativas de acumulação reduzindo a vulnerabilidade das pessoas.
Tabela 41 - Causas de insatisfação dos questionados pela escolaridade dos seus
membros
Respostas Frequência Percentagem
Insuficiência financeira para cobrir despesas em 27 84.4
escola
Insuficiência de unidades escolares/educação 5 15.6
Total 32 100.0
Fonte: Elaborado pelo autor da pesquisa do campo.
Os dados da tabela 41 revelam que 21.2 % dos questionados mencionaram que
o governo ajudou em termos de assistência em medicamentos. Apenas 2.3% relataram
que o governo ajudou em fomento pecuário. 4.5% revelaram que o governo ajudou em
material de construção. Isto significa que o governo não interviu à altura da satisfação
das necessidades dos afetados pelas cheias assim como pelas secas. Os dados mostram
a fraca participação do governo em assistência às populações, o que aumenta a
vulnerabilidade e a pobreza e reduz a capacidade de resiliência.
159
Tabela 42 - Ajuda do Governo no período das cheias e secas
Formas de ajuda Percentagem dos respondentes
Amostra
(n= 132)
Sim (%) Não (%)
Medicamento 21.2 78.8
Fomento pecuário 2.3 97.7
Material de construção 4.5 95.5
Fonte: Elaborado pelo autor da pesquisa do campo.
Em relação ao abastecimento em água potável, a tabela 42 mostra que a maioria dos
questionados (64.4%) respondeu que o abastecimento em água potável não era contínuo e
nem suficiente para a satisfação das necessidades do seu cotidiano. Este dado constitui outro
fator da vulnerabilidade e ao mesmo tempo, caracteriza falhas da governança hídrica.
Portanto, a crise em abastecimento em água impacta o funcionamento de outros setores,ou
seja, uma crise repercute em várias outras dimensões da vida da comunidade. Para esta
pesquisa, estes dados implicam ainda um sistema de abastecimento em água menos eficiente
e universalizado, visto que existem muitas famílias afetadas, ou seja, o consequente acesso
limitado à água, não só não satifaz as necssidades básicas da comunidade (uso e consumo
doméstico), mas também pode gerar conflitos (e monopolização de água) entre as famílias.
Sendo a água essencial à vida, o abastecimento em água não contínuo e suficiente significa
o aumento do risco à vida humana, dado que dela fortemente depende. A água constitui um
dos insumos insubstituíveis nos setores produtivos, no entanto esses dados significam que
esta forma de abastecimento em água não é favorável à expansão da agricultura na
comunidade, um dos elementos chave para o desenvolvimento rural.
Tabela 43 - Existência de abastecimento em água potável contínuo e suficiente para a
satisfação das necessidades do seu cotidiano
Respostas Frequência Percentagem
Sim 47 35.6
Não 85 64.4
Total 132 100.0
Fonte: Elaborado pelo autor da pesquisa do campo.
Com relação à satisfação dos questionados quanto a intervenção do Estado/governo
na política de gestão de águas da bacia de Incomáti (tabela 43), 74.2% dos questionados
responderam que a intervenção não satisfaz as necessidades das populações e ações de
desenvolvimento da economia no PAX. Estes dados configuram e reforçam a insatifação em
geral dos questionados relativamente com as políticas públicas. As políticas são a forma
160
expresssiva da presença ou não do Estado ou governo na promoção das condições para a
satisfação das necessidades básicas da população. Portanto, estes dados reforçam a
insuficiência das políticas públicas de gestão hídrica e de desenvolvimento rural no local de
estudo.
Tabela 44 - Percepção sobre a satisfação da intervenção do Estado/governo na política
de gestão de águas de Incomátie nas necessidades das populações e ações de
desenvolvimento da economia
Respostas Frequência Percentagem
Sim 34 25.8
Não 98 74.2
Total 132 100.0
Fonte: Elaborado pelo autor da pesquisa do campo.
5.2.6 Gestão Hídrica, e Garantia das Liberdades e Respeito pelos Direitos Humanos
Em matéria de uso adequado dos recursos hídricos nos cultivosa tabela 44 mostra que
a maioria dos questionados (77.1%) respondeu que no cultivo tem usado os canais de
irrigação de modo a evitar eventuais desperdícios da água. Os questionados fazem valas que
conduzem a água e mantém os solos úmidos por um período longo. Para a gestão hídrica, o
uso de canais para a irrigação se mostra como uma técnica que reduz perdas de água e
aumenta o acesso à mesma.
Tabela 45 - Técnica utilizada para evitar eventuais desperdícios da mesma no cultivo
Respostas Frequência Percentage
Uso de residuos de cultivo 7 20.0
Medição de água no solo por 1 2.9
meio de sensores
Uso de canais de irrigação 27 77.1
Total 35 100.0
Fonte: Elaborado pelo autor da pesquisa do campo.
5.2.7 Gestão Hídrica e Respeito pelo Ambiente e Gerações Futuras
A partir dos dados do gráfico 08, observa-se que 43.20 % dos questionados relataram
que a agricultura constituía o fator que contribui para o uso não eficiente de água do Rio
Incomáti, seguido pela indústria açucareira de Xinavane. Este dado relaciona-se com estudos
que defendem que o sistema de irrigação é o maior usuário de água a nível mundial e com
impacto na ocorrência de desperdício durante a captação, distribuição, uso e drenagem dos
161
sistemas. Para a pesquisa implica um desafio à Política de Gestão de Hídricos no nível do
PAX e no distrito de Manhiça: adoção de sistemas de rega mais eficientes, acessíveis a todos
os utilizadores, com capacidade de suporte e universais.
Portanto, nota-se um paradoxo entre as políticas públicas de gestão hídrica e de
promoção de desenvolvimento. Ou seja, a agricultura e açucareira são as que desperdiçam
mais água aumentando a vulnerabilidade e a insegurança hídrica, ao mesmo tempo essas
atividades são os motores dos projetos de desenvolvimento no país. No entanto, é preciso
conciliar essas políticas públicas, isto é, utilizar formas sustentáveis tanto na gestão hídrica
como nas atividades produtivas.
Gráfico 8 - Fatores de Uso não eficiente dos Recursos Hídricos
Uso e consumo humano
Agricultura
26,10% 25,30%
4,50% Criação de animais
Agoprocessamento
43,20%
0,90%
Produção de cana-de-
açúcar
0,00%
Açucareira de Xinavane
Fonte: Elaborado pelo autor da pesquisa do campo.
No contexto da Segurança Hídrica, ou seja, o acesso permanente e regular, aos
recursos hídricos em quantidade e qualidade suficientes e em torno da questão sobre o
conhecimento de casos de contaminação ou poluição da água do Rio Incomáti, os dados da
tabela 45 ilustram que mais da metade dos questionados (56.1%) respondeu que possuía
conhecimento sobre a ocorrência de casos de contaminação da água do Rio Incomáti. As figs.
08 e 09 adiante (fotos extraídas durante a pesquisa) ilustram casos que concorrem para a
contaminação da água no Rio Incomáti, além dos demais fatores de contaminação
apresentados neste capítulo. Para efeitos da presente pesquisa, estes dados mostram a
insuficiência ou falhas da gestão hídrica na componente de sustentabilidade, o que torna a
qualidade de água não adequada para o uso e consumo humano e isso nem sempre é
considerado ou conhecido pela população.
162
Tabela 46 - Conhecimento sobre a ocorrência de casos de contaminação da água do
Rio Incomáti entre os questionados
Respostas Frequência Percentagem
Sim 74 56.1
Não 58 43.9
Total 132 100.0
Fonte: Elaborado pelo autor da pesquisa do campo.
Para reforçar os dados anteriores, a fig.08 ilustra a acumulação de diversos materiais
junto ao leito do rio. Isto expressa a fragilidade dos sistemas de de vigilância e saneamento
do meio, bem como a fragilidade das autoridades locais na defesa contra qualquer tipo de
contaminação (aquática,pedológica, atmosférica entre outros). Como não é possível
estruturar um sistema de monitoramento adequado, mais importante ainda é a questão da
educação, capacitação e da transparência das informações quanto a qualidade da água
utilizada.
Figura 8 - Acumulação de materiais junto ao leito do Rio Incomáti
Fonte: Autor da pesquisa
Na sequência desta questão procurou-se saber sobre a percepção da comunidade em
relação ao principal agente poluidor das águas da bacia do Rio Incomáti. Os dados da tabela
46 mostram que a maioria dos questionados (44.4%) mencionou o uso e consumo humano
163
da água como sendo o principal agente poluidor. O segundo maior poluidor mencionado
relaciona-se com a açucareira de Xinavane, 28.4%. A poluição pelos países vizinhos também
foi um aspecto apontado quase sempre pelos questionados como fazendo parte do conjunto
dos principais poluidores da água da bacia do Rio Incomáti, 12.3%. Estes dados, reforçam
aqueles verificados neste capítulo, que consideram a vulnerabilidade dos questionados, a não
participação e capacitação destes em matéria de gestão em recursos hídricos e esta (gestão
hídrica) voltada para o exercício e racionalização do poder e burocracia concorrem para as
falhas da governança hídrica e desenvolvimento das comunidades. Portanto, os questionados
percebem que os principais poluidores da água da bacia do Rio Incomáti são nomeadamente:
o uso e consumo humano, a açucareira de Xinavane e os países vizinhos. O uso e consumo
humano enquadra-se à escala familiar (micro) com menor proporção na utilização de água e
eventualmente com menor impacto na qualidade de água, visto seu acesso limitado. A
açucareira de Xinavane enquadra-se na escala nacional e regional com maior proporção no
uso da água, provavelmente com maior impacto na qualidade de água, e por fim, os países
vizinhos em escala regional e com maior proporção no uso de água e igualmente maior
impacto na qualidade de água. Isto remete a pensar na corroboração do GdeM (2007) que
elenca que a cooperação regional com respeito à gestão conjunta de bacias hidrográficas
partilhadas é extremamente importante para Moçambique considerando suas principais
bacias transfronteiriças, com mais de 50% dos recursos hídricos do país. O planejamento e
partilha conjunta são instrumentos valiosos a usar para o cumprimento dos princípios do
Protocolo da SADC para a integração regional e alívio a pobreza, a unidade ecoerência da
bacia hidrográfica partilhada e a utilização dos recursos hídricos deforma equitativa e
razoável por cada Estado.
Tabela 47 - Percepção dos questionados quanto ao principal agente poluidor das
águas do Rio Incomáti
Respostas Frequência Percentagem
Países vizinhos 11 13.6
Açucareira de Xinavane 23 28.4
Uso e consumo humano 36 44.4
Atividade agrícola 10 12.3
Agro-processamento 1 1.2
Total 81 100.0
Fonte: Elaborado pelo autor da pesquisa do campo.
Com base na figura 9 pode parecer que o uso e consumo humano seja o principal
responsável pela poluição da água do Rio Incomáti, mas pode ser que não, pois constitui o
que os questionados conseguem enxergar no PAX. A responsabilidade recai sobre as
164
comunidades que não tem outras alternativas de acesso à água fora do uso do Rio Incomáti
para a satisfação das suas necessidades básicas e de produção para a subsistência, e por isso
têm maior vulnerabilidade. A utilização da água de maneira indevida pode, e deve ser um
dos problemas da gestão hídrica no local de estudo, mas decorre da vulnerabilidade e da falta
de opções para a sobrevivência dessas comunidades. Portanto, existem os grandes setores
econômicos dos países vizinhos à montante e os megaprojetos de irrigação, producão
agrícola, plantações de cana-de-açúcar e produção de açúcar no PAX que consomem grandes
volumes de água do Rio Incomáti. Percebe-se que ao mesmo tempo que estes megaprojetos
são vistos como grandes motores de emprego, geração de renda, desenvolvimento econômico
do país, são considerados os setores produtivos que mais utilizam a água do Rio Incomáti e
com maior poder de contaminação ambiental relativamente ao uso e consumo humano. Este
fundamento corrobora com os dados encontrados em Pereira Júnior (2004) ao considerar, por
exemplo, que a irrigação e os usos industriais são os responsáveis por maior uso e consumo
em recursos hídricos e, em MOPHRH (2012), que considera que as demandas e ofertas em
água pelos países vizinhos da montante alocam vulnerabilidades às populações da ajusante.
O PAX, está ajusante do Rio Incomáti.
Figura 9 - Exemplo de utlização humana dos recursos hídricos
Fonte: Elaborado pelo autor da pesquisa do campo.
Em termos de sustentabilidade da Política de Gestão de Recursos Hídricos na bacia
do Rio Incomáti, questionou-se sobre a forma através da qual se faz a denúncia em caso de
descumprimento à legislação ambiental e de recursos hídricos. A tabela 47 mostra que dos
165
71 questionados que responderam à pergunta, a maioria (73.2%) mencionou que se faz
através da informação canalizada às autoridades locais e para 27.0% dos respondentes, a
informação sobre esse descumprimento é canalizada às autoridades policiais do posto policial
mais próximo do local de ocorrência. Os dados mostram que as próprias comunidades são
responsáveis em denunciar casos de descumprimento à legislação ambiental e de recursos
hídricos.
Tabela 48 - Formas de denúncia em caso de descumprimento à legislação ambiental e
de recursos hídricos
Respostas Frequência Percentagem
Denúncia às autoridades locais 15 19.5
Denúncia às autoridades policiais do posto policial mais próximo 62 80.5
Total 77 100.0
Fonte: Elaborado pelo autor da pesquisa do campo.
Ainda no aspecto de sustentabilidade referida, questionou-se sobre a existência de
conhecimento de casos de descumprimento à legislação ambiental e de recursos hídricos do
Incomáti e os dados da tabela 48 constatam que dos 115 que responderam à pergunta, 81.7
% não tinham conhecimento sobre casos de descumprimento da referida legislação, apenas
18.3 % tinham conhecimento. No entanto, tanto os questionados assim como os entrevistados
mencionaram ter ocorrido um caso de escavações feitas junto ao leito obstruindo o percurso
normal das águas do rio na seção afetada.
Tabela 49 - Conhecimento de casos de descumprimento à legislação ambiental e de
recursos hídricos do Incomáti
Respostas Frequência Percentagem
Sim 21 18.3
Não 94 81.7
Total 115 100.0
Fonte: Elaborado pelo autor da pesquisa do campo.
Nessa vertente, questionados sobre que medidas foram tomadas nos casos de
descumprimento à legislação ambiental e de recursos hídricos verificou- se que apenas 19
questionados responderam e todos mencionaram as medidas paliativas (100%). Portanto, a
tomada destas medidas assenta sobre a base de que os líderes comunitários, os chefes das
localidades são as pessoas situadas ao nível da base onde os projetos são executados e vistos
como (re)solução dos problemas de desenvolvimento econômico do país e de reprodução
social das comunidades dentro e fora do PAX.
166
5.3 RELAÇÃO DAS RESPOSTAS DOS GESTORES (STAKCHOLDERS) OU OS
ENTREVISTADOS COM A DOS MORADORES OU OS QUESTIONADOS
Nesta seção apresentados aspectos de respostas dos gestores que se relacionam com
a dos moradores. Pretende-se verificar o quanto as respostas dos gestores e dos moradores
correspondem ao objeto da pesquisa. As respostas dadas permitem perceber a compreensão
do objeto da pesquisa por todos, ou seja pelos fazedores das políticas (gestores) e o público
alvo dessas políticas (moradores). Os resultados mostram que a diferença na percepção entre
os gestores e moradores pode resultar da articulação do processo de governança hídrica, ou
seja, a circulação ou veiculação da informação sobre os efeitos da utilização da água do
Incomáti pela comunidade e pelos grandes setores produtivos não permite o alcance dos
resultados da política. Por exemplo, o acesso à informação sobre o uso doméstico e de higiene
pessoal não utilizada, os processos da produção de cana- de –açúcar (em algumas fases), as
eventuais ocorrências de afogamento, acumulação de lixo junto ao leito, entre outros, é
limitado para alguns entrevistados e aos questionados. A governança hídrica poderia ser
capaz de alinhar essas informações entre os gestores e os moradores.
Nesse sentido e com base nas respostas dos gestores apresentadas e analisadas ao
longo deste capítulo, por exemplo: percebe-se que parte considerável dos gestores sabe da
existência de processos e normas de gestão dos recursos hídricos, infraestruturas
administrativas e maior parte dos moradores pouco sabe dessa existência. Todavia, todos
sabem dessa exitência. Esse elemento pode ser aproveitado como estratégico para o alcance
da Política de Gestão de Recursos Hídricos no PAX.
Tantos os gestores assim como os moradores reconhecem que o Rio Incomáti
constituem o principal instrumento para o desenvolvimento da região e do país. No entanto,
todos percebem que o acesso limitado aos recursos hídricos no PAX impacta na satisfação
das necessidades básicas das famílias e explicam em grande parte as situações de
vulnerabilidades, pobreza e insegurança hídrica. Embora isso seja reconhecido pelos
envolvidos, fica saliente a falta de gestão da utilização e dos efeitos climáticos.
Ainda analisando as respostas dos gestores e moradores, percebe-se que existe uma
fraca interlocução entre estes atores ou envolvidos visto que as estratégias de Gestão Hídrica
baseadas de cima para baixo “top- down” não permitem que todos os envolvidos sejam na
verdade o alvo da implementação das políticas públicas na pesrspectiva da Ostrom e de forma
integrada e inclusiva. Isto significa que a Política de Gestão dos Recursos Hídrica que vai
167
sendo implementada no PAX não está surtindo os resultados esperados, ou seja, exite parte
excluida dos que deviam ser os principais alvos da política, o alcance da política pública.
Nesse sentido, a interlocução de todos envolvidos na Gestão Hídrica constitui um
desafio e permite que tantos os gestores assim como os moradores tenham conhecimentos
não só das temáticas desta gestão mas também do desenvolvimento rural. A organização e
circulaçào da informação por todos (gestores e moradores) é fundamental na política de
Gestão Hídrica que visa promover o desenvolvimento.
5.4 VARIÁVEIS DE VULNERABILIDADE E DE DISPONIBILIDADE DE
RECURSOS HÍDRICOS
Nesta seção são apresentadas as variáveis de vulnerabilidade e de disponibilidade e
acesso aos recursos hídricos sobre as quais a pesquisa se concentrou para abordar a Gestão
Hídrica e o Desenvolvimento Rural. Os dados da tabela 49 espelham aspectos observados na
Governança hídrica que influenciam a ocorrência de situações de vulnerabilidade, pobreza e
de insegurança hídrica e por isso de fraca resiliência.
Por um lado, os dados da tabela 49 mostram que existe a exposição natural ou
estruturalmente das pessoas perante eventos naturais, por exemplo, faces aos eventos
extremos e a fragilidade institucional para reduzir ou acabar com a vulnerabilidade. Por outro,
os mesmos dados ilustram as varíaveis que podem influeniciar positiva e negativamente a
vulnerabilidade da comunidade.
Portanto, ao longo da pesquisa é possível perceber as relações que existem entre essas
variáveis. Os apectos alistados na tabela espelham não só a existência de falhas de Gstão
Hídrica, mas também dos desafios das políticas públicas que promovem a Gestão Hídrica e
o Desenvolvimento Rural no local do estudo.
168
Quadro 4 - Variáveis de vulnerabilidade e de disponibilidade e acesso aos recursos
hídricos
Variáveis de vulnerabilidades Variáveis que indicam a disponibilidade e acesso
aos recursos hídricos
Mortes humanas por inundações Aplicação da irrigação na produção de alimentos
Destruição de habitação por inundações Tipo de irrigação (Gota a gota, aspersão, inundação,
outra)
Redução da produção agrícola por inundações e Aproveitamento das águas do Incomáti para gerar a
secas riqueza (atividade)
Redução de número de animais por inundações Dificuldades no Acesso a água potável
Eclosão de doenças por causa das inundações Abastecimento em água potável não contínuo enen
suficiente para a satisfação das necessidades do
cotidiano
Eclosão de doenças por causa das secas Técnica usada para evitar eventuais desperdícios da
água do rio durante o cultivo
A exposição às doenças Participação da capacitação em gestão de recursos
hídricos
Ocorrência de situações de contaminação/poluição Redução da quantidade de água disponível e
da água do Rio Incomáti adequada ao consumo ou uso doméstico
Conhecimento de casos de descumprimento à Fraca circulação e divulgação de informação sobre
legislação ambiental e de recursos hídricos do as temáticas de gestão hídrica
Incomáti
Medidas tomadas em descumprimento à legislação Desconhecimento sobre o desenvolvimento dos
ambiental e de recursos hídricos recursos hídricos
Elaborado pelo autor da pesquisa.
169
6 CONSIDERAÇÕES FINAIS
Ao longo da presente pesquisa foram abordados vários aspectos (teóricos e práticos)
com relação a Contribuição da Política de Gestão dos Recursos Hídricos para o
Desenvolvimento Rural no PAX baseando-se na teoria de desenvolvimento de Santos (2013).
Foram tratados os sub-temas seguintes: Vulnerabilidade hídrica e Pobreza, Resiliência e
eventos hídricos extremos (cheias/inundações, secas e ciclones), Governança e Governança
Hídrica, Segurança Hídrica, Desenvolvimento, Desenvolvimento Rural, Políticas Públicas
de Gestão Hídrica e de Promoção de Desenvolvimento Rural. Essa teoria defende que o
desenvolvimento inclui as seguintes dimensões: o Planejamento territorial, Desenvolvimento
dos diferentes ramos de produção, Redução das desigualdades, Melhoria da qualidade de
vida, Satisfação das necessidades básicas de toda a população, Garantia das liberdades e
respeito pelos direitos humanos, Respeito pelo ambiente e gerações futuras, conforme o
esquema conceitual apresentado. Por um lado, os resultados da pesquisa expressam
elementos que reforçam a teoria e, por outro lado, os que não reforçam a teoria referenciada.
Nos elementos que reforçam a teoria, a pesquisa sublinha a noção de desenvolvimento e a
importância da segurança hídrica para a vida da comunidade, percepção de que a utilização
dos recursos hídricos pelos grandes setores produtivos poderá inlfuenciar o desenvolvimento
da região. Os elementos que não reforçam a teoria relacionam-se, especificamente com os
problemas de acesso à água para as famílias e os setores produtivos, decorrentes de
determinadas formas de gestão hídrica não alinhadas ao desenvolvimento rural. Portanto, as
dificuldades de acesso aos recursos hídricos significam limitações nos processos de
desenvolvimento da comunidade.
Esta pesquisa teve como objetivo geral analisar a Contribuição da Política de Gestão
de Recursos Hídricos no Desenvolvimento Rural, tendo como recorte espacial o PAX. Desse
modo, considera-se que este objetivo tenha sido alcançado, considerando que a tese apresenta
elementos favoráveis e desvaforáveis ao Desenvolvimento Rural que a Gestão Hírdica vai
(re)produzindo no PAX. Existem políticas públicas de gestão hídrica e outras que promovem
o desenvolvimento rural no PAX. Os elementos favoráveis ao Desenvolvimento Rural, a
partir da Gestão Hídrica, que a pesquisa apresenta são nomeadamente: a existência de
processos e infraestruturas de Gestão Hídrica que permitem regular e monitorar o uso de
recursos hídricos (UGBI e Normas ou regulamentos), a existência de Megaprojetos de
irrigação, de produção de cana-de-açúcar, agro-indústrias (plantções e acucareira de
Xinavane) importantes para gerar comida, emprego, renda e outras formas de subsistência
170
para as pessoas e o desenvolvimento do país. Isto é importante para o desenho de políticas
agrícolas que incorporam as estratégias de desenvolvimento rural focadas na promoção do
uso de recursos naturais (hídricos) para o desenvolimento.
No entanto, em relação aos elementos desfavoráveis ficou claro que existe
incongruência entre a (s) política (s) de gestão de recursos hídricos entre si e com as políticas
de desenvolvimento (rural) (vide os objectivos da pesquisa). Ou seja, determinadas formas
de Gestão Hídrica e políticas públicas no PAX (re)produzem as vulnerabilidades e pobreza
e a insegurança hídrica reduzindo desse modo as possibilidades de desenvolvimento, o que
confirma a segunda hipótese da pesquisa. Um dos exemplos consiste na retomada da
percepção de que a ação do governo decorre pontualmente no momento em que a
comunidade se encontra em crise decorrente de catástrofe, mostrando dessa forma a
descontinuidade das políticas, a falta de articulação das políticas de gestão hídrica integradas
à redução da vulnerabilidade da comunidade aos eventos subsequentes.
Com relação aos objetivos específicos da tese, estes foram materializados, sendo que
o primeiro foi alcançado através da revisão da literatura (capítulo 3) e os outros durante a
pesquisa de campo (capítulo 4).
A revisão teórica permite que a pesquisa defenda que embora se verifique diferenças na
definição da vulnerabilidade hídrica, existe em comum a ideia de uma exposição natural ou
estruturalmente imposta às pessoas perante aos efeitos dos eventos naturais, sem capacidade
pessoal ou institucional para se lidar-se com a qualidade e a quantidade de água disponível
para o consumo, saneamento, produção, etc. Os dados do campo confirmam a existência da
vulnerabilidade hídrica no PAX elucidando desta forma a fragilidade na implementação das
políticas públicas no local de estudo.
A vulnerabilidade hídrica relaciona-se com a vulnerabilidade econômica, social e
ambiental. Portanto, o conceito de vulnerabilidade pode ser aplicado a uma pessoa ou a um
grupo social (crianças, as mulheres, idosos e outros) conforme a sua capacidade de prevenir,
de resistir e de contornar potenciais impactos e riscos. O conceito de vulnerabilidade
relaciona-se com o conceito de pobreza. A pobreza é um conceito multidimensional visto
que incopora na sua defenição a renda, educação, saúde, alimentação ou nutrição, acesso à
água potável ou saneamento, trabalho ou emprego, habitação e ambiente onde a pessoa vive,
acesso a ativos (crédito), acesso a mercados, participação na comunidade ou bem-estar social.
A pobreza e a vulnerabilidade hídrica no PAX espelham uma das falhas da governança e da
governança hídrica. A existência de diferentes utilizadores dos recursos híricos com
interesses diversos no local de estudo explicam de alguma forma a pobreza e a
171
vulnerabilidade hídrica no PAX. A resiliência ao nível local (área de estudo) deve ser
potencializada de modo a aproximar cada vez mais a intervenção ao nível local na resolução
dos problemas, promovendo dessa forma, também, o desenvolvimento. Nesse caso, a
mitigação dos efeitos dos eventos extremos constitui uma ação chave para a resiliência no
PAX, ou seja, a promoção de capacidade ou habilidade de recuperação das pessoas ou
sistema antes, durante e depois dos efeitos de um ou vários eventos extremos configura-se
mais importante.
A revisão teórica deixa claro que a governança hídrica consiste na criação da
capacidade institucional para dar resposta às pessoas ou sistemas em situações previsíveis ou
factíveis de vulnerabilidade hídrica e desenvolvimento (rural). No caso de Moçambique, a
gestão hídrica prioriza a provisão de serviços e oportunidade de desenvolvimento rural, no
entanto, determinadas formas de gerenciar a água não facilitam a materialização dessa
prioridade. Ou seja, a lei é muito bem clara e rígida, no entanto, não está alcançando os
resultados esperados. A governança hídrica deve configurar as funções públicas,
envolvimento e negociação de soluções aceitáveis para os diferentes atores (sociedade civil,
empresas públicas, o setor privado entre outros). Nessa direção e no caso do PAX, a
articulação Estado-Setor Privado pode desempenhar um papel importante na provisão de
serviços de água, enquanto monitorada e controlada por parte de qualquer entidade
reguladora em Moçambique, ou seja, enquanto o estado defender e proteger os interesses das
comunidades ou famílias. No entanto, no local do estudo, o papel do governo de
Moçambique na provisão de serviços de gestão hídrica tem sido influenciado por aumento
das dificuldades de financiamento dos investimentos necessários para a construção de
barragens e regadios sustentáveis, etc, por exemplo e conforme a literatura, as entrevistas e
questionários. Portanto, deve-se perceber que a (re)construção de infraestruturas hídricas
robustas constitui a chave para o desenvolvimento dos recursos hídricos integrado ao
desenvolvimento rural em Moçambique. Toda governança tem por objetivo promover e
regular os processos de desenvolvimento. Assim, Governança Hídrica tem por objetivo
garantir a gestão integrada dos recursos hídricos para que estes promovam o
desenvolvimento.
Observou-se que no contexto da pesquisa, a governança hídrica constitui a chave para
garantir a segurança hídrica, reduzir os níveis de vulnerabilidade das pessoas aos efeitos das
cheias e secas neste posto administrativo. No entanto, as estratégias de governança de bens
comuns locais baseadas de cima para baixo e por isso, afastadas da realidade e de
conhecimentos das condições locais, não se alinham com a teoria da Ostrom. Isso podem
172
resultar no insucesso das medidas de governança e na degradação dos recursos em questão
dificultando a promoção do desenvolvimento. Assim essas estratégias pouco respondem as
demandas das famílias e dos setores de (re)produção social. Para a presente pesquisa, essas
ações devem ser baseadas em educação ou instrução de qualidade proporcionada à população
local. Portanto, a teoria da Ostrom configura a idéia de que com o envolvimento de todos
atores de desenvolvimento é possível promover o desenvolvimento de uma gestão de
recursos hídricos mais abrangente, democratizada, participativa. Ou seja, promover o
desenvolvimento integrado de recursos hídricos (desenvolvimento sustentável), através de
maior envolvimento das comunidades locais.
Estes atores podem ser agricultores individuais, grupos ou coletivos sociais que
produzem, organizam, armazenam, trocam e negociam no seu cotidiano.
A existência de processos e infraestruturas administrativas de gestão dos recursos
hídricos a nível do governo local - reforça a gestão hídrica integrada com o desenvolvimento
rural na área de estudo. Porém, a fraca articulação institucional (voltada ao exercício do poder
e a racionalidade burocrática) podem acabar por prejudicar a articulação entre os
stakeholders, incluindo o empowerment. A existência de megaprojetos de irrigação,
produção de cana-de- açúcar e agroindústria (responsáveis pelo consumo de grandes volumes
de água) no PAX pode gerar mais conflitos pela água entre os utilizadores. Desse modo, seria
prejudicada a gestão integrada dos recursos hídricos ao desenvolvimento rural.
Na segurança hídrica, o mais imporante é o acesso contínuo, regular e decente à água
do que a disponibilidade, ou seja, não é só a quantidade de água que determina que todas as
pessoas tenham água para os seus múltiplos usos, mas sim o seu acesso em qualidade para o
bem-estar. Portanto, no local de estudo notou-se que o acesso contínuo, regular e decente à
água em quantidade e qualidade nas zonas rurais pode permitir a satisfação não só das
necessidades básicas, mas também a prática de atividades de desenvolvimento dessas zonas
(desenvolvimento rural). A água configura-se como um recurso estratégico para o
desenvolvimento em todas as escalas de análise (local, nacional, regional, mundial entre
outras).
A discussão do conceito de Desenvolvimento considera este conceito multifacetado
e variável no tempo e no espaço. Multifacetado porque incorpora várias dimensões: social,
econômica, ambiental e política, e variável visto que sofre metamofóses, ou seja, sugere
percepções diferentes no tempo e no espaço. Os resultados do campo permitem perceber este
conceito.
173
O debate sobre o Desenvolvimento rural redunda em considerá-lo um processo de
desenvolvimento que tem como foco as demandas que induzem mudanças (a melhoria da
qualidade de vida) nas zonas rurais. Isto implica que as ações de desenvolvimento nos meios
rurais empreendidas pelo governo e outros atores devem assentar em um plano estratégico
de desenvolvimento rural com uma perspectiva integrada e com sustentabilidade no futuro.
A agricultura em Moçambique contribui para a disponibilidade de alimentos, matéria-prima,
a exportação e captação de divisas, geração de emprego entre outros aspectos. Desse modo,
a agricultura deve ser vista como estratégia de combate à pobreza e produção da riqueza
nacional e de desenvolvimento rural. As condições que o Governo deve criar incluem o
aumento da disponibilidade e acesso a insumos de qualidade, a cobertura dos serviços de
extensão e sua adequação aos serviços de pesquisa, desenvolver sistemas de rega compatíveis
às necessidades dos produtores e o financiamento das atividades agrárias. Deve‐se priorizar
a construção e reabilitação de estradas e de outras infraestruturas nas zonas de maior
potencial agrário.
Além das infraestruturas básicas, é necessário que os mercados disponham de
infraestruturas de armazenamento com serviços mínimos, como eletricidade, um sistema de
informação eficaz sobre os preços dos insumos e dos produtos. A infraestrutura e sua
eficiência (em todas as vertentes) é um elemento chave para o desenvolvimento.
O país é sujeito a ciclos de abundância de água, associados a cheias, que alternam
com períodos de déficit, que conduzem a secas, com impacto direto na economia e em
especial nos cultivos.
Os eventos hídricos extremos (enchentes e secas) são conhecidos no PAX por serem
eventos anuais previsíveis e atingem direta ou indiretamente a todos, no entanto, as alterações
climáticas continuam impactando quer seja nas condições de habitação e saneamento, quer
seja nas condições de desenvolvimento de atividades socioeconômicas no PAX. O
comportamento do caudal do Rio Incomáti depende das irregularidades climáticas,
registando-se ou períodos de cheias ou períodos de déficit, que conduzem a inundações e
secas, respectivamente. As variações climáticas influenciam não só na forma de distribuição
das propriedades agrícolas (ou em zonas altas ou em zonas baixas), mas também no tipo de
cultivo a praticar uma vez que as cheias e secas tem efeitos na sazonalidade de cultivos e na
adoção de formas de seus enfrentamentos no PAX.
A demanda crescente por água pelos grandes setores da economia, pode por um lado,
acelerar o crescimento econômico e, por outro lado, pode obstruir a disponibilidade e o
acesso à água nas comunidades. A agricultura familiar no PAX é pouco equipada e
174
capitalizada e muito dependente das condições climáticas. Existe partilha de uso e consumo
de água do Rio Incomáti entre os setores de irrigação, de produção de cana-de-açúcar, de
agro-pecuário e o setor de produção familiar, o que pode gerar mais conflitos em água, além
de impactar na própria qualidade de água. Os resultados mostram que não são enchentes ou
secas o problema crucial, mas sim a falta de gestão dos efeitos das mudanças climáticas
impacta na vida da comunidade do PAX, ou seja, dos eventos extremos.
Durante a pesquisa, foram questionados mais mulheres do que homens. As mulheres
trabalham em diferentes atividades produtivas. Não existem especificações de papeis sociais
quanto à divisão social de trabalho, visto que no PAX, as mulheres, além de cuidarem do
domicílio também prestam vários serviços em diferentes setores socioeconômicos. A maior
parte dos questionados corresponde a faixa de transição de jovem para adultos e possui
experiências vivenciadas e outras que vão se (re)produzindo, tendo a atividade agrícola como
base de seu sustento.
A escolaridade dos questionados é baixa, visto que a maior parte dos seus membros
tinha terminado o nível primário até ao momento da pesquisa. A prevalência das distâncias
percorridas para encontrar serviços de educação, a dispersão da população e a fraca rede
escolar concorre para a manutenção de baixas taxas de escolaridade, baixa qualidade de
ensino e aprendizagem, acentuar as desigualidades sociais e a invisibilidade de uma parte da
população relativamente ao acesso ao ensino. Portanto, as dificuldades financeiras, a
insuficiência de unidades escolares, os empregos sazonais nas plantações e na açucareira de
Xinavane e na África do Sul (RSA) constam dos fatores que limitam o acesso a educação no
local de estudo, além de reproduzirem situações de vulnerabilidade e pobreza.
Para os teóricos que defendem a necessidade de mais anos de estudo para uma melhor
condição de vida, a escolaridade dos inquiridos não é satisfatória. Mais anos de escolaridade
permitem que as pessoas tenham maior capacidade de perceberem do seu potencial e
explorem melhor as oportunidades de vida, melhorando o seu bem-estar. Para o caso de
estudo, os questionados podiam melhorar os seus rendimentos reduzindo as suas
vulnerabilidades e aumentando o desenvolvimento. A escolaridade é um elemento chave para
o desevolvimento, ao facilitar as pessoas perceberem e acatarem as políticas públicas. A
escolaridade baixa associa-se à insuficiência financeira para suprir as despesas escolares, a
vulnerabilidade e a pobreza dos questionados, a inexistência de universidade ou escola
superior no local de estudo. No entanto, a maioria dos questionados têm uma larga
experiência de vida e suas unidades residenciais o que lhes confere experiências vividas em
diferentes políticas públicas que vão sendo implementadas.
175
Desse modo, as experiências vivenciadas permite aos questionados a configuração de
um repositório de conhecimento importante para questões de desenvolvimento, além de
enfrentamentos dos efeitos dos eventos naturais extremos.
A água do Rio Incomáti e a água dos furos constituem as principais fontes de água
usadas pelas populações para diversos fins. Os impactos das cheias e secas (insurgências
hídricas, a redução ou escassez de alimentos e de animais criados, a destruição de habitação)
constituem os principais problemas relacionados com a água do Rio Incomáti no PAX.
Existem percepções difirentes entre os entrevistados e os questionados quanto à ajuda do
governo às vítimas dos efeitos de cheias e secas.
A agricultura, as plantações de cana-de-açúcar engendradas pela açucareira de
Xinavane e o uso e consumo humano de água no PAX constituem não só os principais fatores
que demandam enormes quantidades de recursos hídricos, mas também constituem as
principais fontes de degradação da qualidade destes recursos.
O uso de caleira com tambores representa a única técnica de captação de água de
chuva mencionado pelos inquiridos, no entanto nem todos a usam.
Existe ineficiente divulgação de um instrumento jurídico de enquadramento e
regulamentação da utilização da água para fins agrícolas, industriais e hidroelétricos nas
comunidades.
Os efeitos das cheias/inundações e secas associados à insuficiência financeira
relacionam-se com a vulnerabilidade e a pobreza das comunidades questionados. Não existe
restrição na disponibilidade de recursos hídricos, para serem usados por todos cidadãos, ou
seja, os recursos hídricos estão disponíveis para serem usados por todos segundo as
revelações dos questionados, porém a qualidade desses recursos afeta o acesso universalizado
de água.
As águas do Rio Incomáti são de extrema importância para a geração de riqueza às
famílias através da prática da agricultura, piscicultura, pecuária, agro-indústria, pesca e
navegação fluvial. No PAX, a bacia do Rio Incomáti constitui não só a base de produção de
alimentos, e criação de animais e desenvolvimento de grandes setores de economia, mas
também alternativa de transporte, área para a criação de novas moradias, comércio e serviços
e lazer, proteção contra os impactos das mudanças climáticas.
O abastecimento em água potável não é satisfatório às necessidades domésticas e de
higiene das populações, o que aumenta a vulnerabilidade da comunidade e reduz as
possibilidades de desenvolvimento. A água potável é necessária para todos por se tratar da
176
parte de água adequada para o consumo. Vilas (2003) estudou que a água é utilizada
principalmente para o consumo humano e atividades produtivas.
Considera-se que a rega gota-a-gota, a rega por aspersão, o uso de canais de irrigação,
a medição da quantidade de água existente no solo e a eliminação de fugas nas condutas com
vista a ter um sistema de rega eficiente constituem as melhores técnicas para a gestão do uso
da água para os cultivos e outros fins promovendo por um lado a economia de água e por
outro lado evitando o disperdício.
As políticas de água e de saúde constituem as políticas públicas que mais contribuem
para o desenvolvimento na percepção das comunidades até ao momento da pesquisa. Em
termos de políticas públicas para o desenvolvimento, as políticas de água em harmonia com
a legislação ambiental e com todas outras políticas de desenvolvimento são fundamentais
para o desenvolvimento integrado dos recursos hídricos.
A intervenção do Estado/governo na política de gestão de águas da Bacia de Incomáti
não é satisfatória com relação às necessidades das populações e ações de desenvolvimento
da economia. No entanto, o Estado/governo consegue acompanhar a utilização da água do
Rio Incomáti. Existe a fraca promoção de campanhas de formação, educação e divulgação
tanto junto das populações, como dos agentes da administração, em relação aos principais
problemas de gestão das águas da bacia de Incomáti e promovida pelo governo, resume-se a
sensibilização. A divulgação do conhecimento da existência de um fundo de recursos hídricos
é fraca e limitada ao conhecimento sobre a gestão dos recursos monetários provinientes do
uso e manunteção de fontes de água. A criação e promoção de um fundo soberano é
fundamental nesses aspectos.
Os resultados da pesquisa do campo mostram que no PAX existe a fraca participação
e capacitação dos questionados em temáticas de gestão hídrica. Isso pode afetar os processos
de desenvolvimento integrado dos recursos hídricos almejado na Política de Gestão dos
Recursos Hídricos no país, visto que a participação e a capacitação são necessárias para todos
os níveis de governança hídrica. É sabido que aexclusão de qualquer grupo ou estrato social
e , na sequência, não poder ser participante do seu próprio processo de desenvolvimento e
desfrutar da qualidade de vida que os recursos tangíveis e intangíveis oferecem pode impactar
na governaça hídrica, segurança hídrica, vulnerabilidade hídrica e desenvolvimento. A
existência de processos e infraestruturas administrativas especificas para questões de gestão
de água da bacia de Incomáti é fundamental na implementação da Política de Gestão de
Recursos Hídricos no PAX.
177
Os resultados da pesquisa realizada reforçam a idéia de que garantir a habitação e
saneamento básico para a resiliência da comunidade à eventos climáticos constitui um dos
grandes desafios da governança hídrica no PAX.
Percebe-se que os processos e infraestruturas administrativas específicas para
questões de gestão de água de qualquer bacia hidrográfica visam, além de vários aspectos,
gerar os comitês de gestão de águas ao nível dos postos administrativos. No caso da pesquisa,
existem no PAX o comitê de gestão de bacia de incomáti (Unidade de Gestão da Bacia do
Incomáti-UGBI)30em vez de comitês de zona.
A maioria dos questionados não tinha conhecimento sobre a existência dos processos
e infraestruturas específicas para a gestão de águas o que significa que os principais
problemas de gestão das águas da bacia do Incomáti ainda estão longe de serem conhecidos
ou resolvidos (até ao momento da pesquisa). Isto constitui grande desafio à governança
hídrica. Esse desafio pode relacionar-se com a promoção das campanhas mencionadas.
Ademais pode-se, a partir da menor parte dos questionados que mencionaram que tinha
conhecimento, entender-se que existem limitações no acesso à informação ou parte invisível
da população. As campanhas de formação, educação e divulgação, tanto junto das
populações, como dos agentes da administração, em relação aos principais problemas de
gestão das águas da bacia constitui um dos veículos não só de transmissão ou divulgação de
algumas práticas como também de divulgação de educação e conhecimento de uso racional
de recursos hídricos. A falta de uma gestão adequada da utilização do Rio Incomáti e dos
efeitos climáticos gera problemas relacionados com os recursos hídricos (enchentes) e o risco
às vidas humanas e não humanas por inundações, a escassez de água para produzir alimentos
e a consequente redução da quantidade de gêneros alimentícios no PAX.
A pesquisa de campo permite assumir que determinadas formas de irrigação (gota-a-
gota, canais de irrigação) correspondem aos diferentes tipos de enfrentamentos que os
camponeses optam para se organizarem e se adaptarem à imposição das variações climáticas,
por exemplo no período de secas a irrigação tem sido uma aposta como alternativa de
produção e no período de enchentes a alternância de cultivo. Constitui para maior parte dos
camponeses uma alternativa de manter a atividade agrícola.
De acordo com os dados do campo, os diferentes cultivos influenciam os tipos de
irrigação a adotar. Porém, a pesquisa captou que maior parte dos camponeses no PAX usa
com frequência a rega gota-a-gota (gotejamento).
30
Segundo as entrevistas aos representantes da DNGRH, ARASul e inquérito aos AF.
178
Pode-se afirmar claramente que os efeitos das cheias e secas são agravados pela
fraqueza de infraestruturas de base consolidada no PAX impactando na redução da produção
e alimentos agrícolas, de número de animais, assim como a eclosão de doenças hídricas, ou
seja, pela inadequada gestão ou mitigação de efeitos dos eventos hídricos
Salientar que os dados da pesquisa do campo vislumbram a existência de
vulnerabilidade social ( habitação, escola/educação, a pobreza, água inadequada para o
consumo humano/doméstico, a exposição às doenças/insuficiência sanitária) no PAX.
Na pesuisa do campo, os resultados mostram que no PAX a vulnerabilidade hídrica
inclui o consumo de água inadequada, acesso limitado à água potável e às condições de
saneamento. No entanto, essas vulnerabilidades podem ser explicadas pela gestão de águas
da bacia de Incomáti e articulação de políticas públicas de desenvolvimento para o PAX
ineficientes.
Os dados de observação na pesquisa do campo permitem perceber que a
vulnerabilidade hídrica e a pobreza, a insegurança hídrica no PAX resultam da governança
hídrica ineficiente. A ineficiência na implementação das políticas públicas no PAX resultam
em deficiente processo de governança, significando igualmente a insuficiência de políticas
sólidas que busquem a satisfação de demandas presentes e futuras.
A acumulação do lixo junto ao leito do Rio Incomáti e a poluição aquática engendrada
pela açucareira de Xinavane constitui uma ameaça não só à saúde humana, mas também
ataque à biodiversidade aquática o que pode causar o desequilíbrio ecológico. Existe uma
fragildade na divulgação e implementação da legislação ambiental, dado que muitos
entrevistados responderam que as medidas tomadas contra os infratores eram paliativas.
Portanto, exitem evidências de problemas na orgnização e circulação de informações que
impactam ,de forma considerável, na implementação da Política de Gestão de Recursos
Hídricos no PAX.
Portanto, com vista a dar reforço e novas visões do que foi constatado tanto no nível
teórico assim como nos resultados do campo, são elencados os seguintes aspectos: o governo
devia promover a expansão da rede escolar/educação e tornar em uma realidade o ensino
superior (universidades) no PAX. A existência e expansão de infraestruturas eficientes
(acesso aos serviços de saúde, educação, saneamento, habitação, emprego, água, informação,
entre outros) contribuem para a redução da vulnerabilidade e pobreza, aumento da resiliência
e de desenvolvimento (rural). A Universidade pode contribuir para a existência de recursos
humanos em qualidade e decência, e consequentemente reduzirá os indices de
vulnerabilidade. Sendo a agricultura a base de sustento das comunidades do PAX e
179
dependente das condições climáticas há necessidade de uma Política de gestão de água
adequada e harmonizada com as políticas agrícolas e outras de combate à pobreza e de
promoção da produção nacional.
A governo e o setor privado deviam tornar eficiente a divulgação do instrumento
jurídico de enquadramento e regulamentação da utilização da água para fins agrícolas,
industriais e hidroelétricos nas comunidades. A organização e circulação das informações é
fundamental quer seja na gestão dos efeitos dos eventos climáticos, quer seja na
implementação da Política de Gestão dos Recursos Hídricos no PAX.
Existe necessidade de uma reflexão por parte do governo sobre os mecanismos que
podem mitigar os efeitos das calamidades naturais no país nomeadamente: criação de novas
infraestruturas hidráulicas e hídricas e o fortalecimento das já existentes com vista a aumentar
a resiliência. No entanto, há necessidade de expandir o acesso aos serviços de saúde,
educação, abastecimento em água, incluindo as próprias infraestruturas robustas e resistentes
às intempéries na área de estudo.
Desse modo, o governo devia promover a construção de infraestruturas
(resistentes/robustas) de apoio ao setores dos recursos hídricos e de produção agrícola
relacionados com estradas e pontes, linhas férreas, portos secundários, eletrificação, postos
de distribuição de combustível, telecomunicações, facilidades de comercialização,
abastecimento e armazenamento de bens, sistemas de regularização dos rios, armazenamento
de água e irrigação, centros de pesquisa tecnológica e de formação técnica e profissional, e
outros.
A potencialização da efeciência dos comitês da zona em articulação com os comitês
de bacia hidrográficas no PAX representariam a forma mais descentralizada de processos e
infraestruturas específicas de gestão de recursos hídricos.
Nos comitês de bacias devem ser abordados, com ênfase, vários aspectos relacionados
com a gestão hídrica incluindo a maior divulgação das formas de mitigação dos efeitos das
cheias e secas ou escassez de água e se promover junto as comunidades ações preventivas
para aumento da segurança em relação aos eventos climáticos.
O Governo devia apostar nagovernança descentralizada, participativa, democrática e
partilhada na gestão dos recursos hídricos com vista a promover maior envolvimento dos
visados pela Política de Gestão Hídrica integrada ao desenvolvimento rural.
Os processos e infraestruturas administrativas específicas para questões de gestão de
água de qualquer bacia hidrográfica e a existência de promoção das campanhas de formação,
educação e divulgação, tanto junto das populações, como dos agentes da administração, em
180
relação aos principais problemas de gestão das águas da bacia deviam constituir vários de
muitos pilares da governança hídrica;
É necessário que se fortaleça a divulgação e implementação da legislação ambiental
para que haja a responsabilização dos infratores e sejam tomadas medidas estruturais, dado
que qualquer tipo de degradação ambiental é de difícil reparação ou reconstituição e muitas
vezes é excessivamente de elevados custos;
No que respeita aos recursos hídricos, é preciso que se evite o desperdício e poluição
da água que se caracterizam por escassez de água em quantidade e em qualidade, reduzindo
desse modo o uso de produtos tóxicos ou lançamento de materiais nos leitos dos rios, a
poluição atmosférica e preservar a biodiversidade.
Em termos de sustentabilidade ambiental, as reuniões com os gestores de recursos
hídricos, a comunicação interpessoal, a comunicação com as autoridades locais (lideres
comunitários) e policiais são fundamentais para a circulação ou difusão da informação sobre
os casos de contaminação da água do Rio Incomá[Link] modo vários são desafios colocados
às políticas públicas. Entretanto, existem várias concepções sobre as políticas públicas que
vão sendo implementadas e a sua contribuição para o desenvolvimento do PAX.
A procura crescente e concorrida por água pelos grandes setores socioeconômicos,
pode também impor um sério constrangimento nas perspectivas de crescimento e
desenvolvimento. Portanto, essa forma de abastecimento em água não só caracteriza uma das
falhas de governança hídrica, mas também aloca desafios à própria governança e às políticas
públicas voltadas à melhoria da qualidade de vida das comunidades e desenvolvimento.
Pese embora a pesquisa se tenha materializado, a sua realização teve limitações de
natureza financeira, de tempo disponível, equipe de trabalho na coleta de dados, de ordem
burocrática e de passividade e outras. A insuficiência em recursos financeiros impossibilitou
que se atingissem as duas localidades, ou seja, todo o Posto Administrativo e a constituição
de uma equipe mais coesa para a coleta de dados. O tempo disponível para o pesquisador
conjugado com a distância relativamente ao domicílio afetou o rítmo da realização do campo
como era esperado. Aspectos de ordem burocrática afetaram o tempo útil para o despacho da
autorização a partir da credencial e para a plena realização do campo. Outras limitações
relacionam-se com a falta de transportes e o horário restrito para encontrar os representantes
dos agregados familiares.
No entanto, as limitações não retiram o mérito à pesquisa realizada. Pelo contrário
abrem possibilidades de outras pesquisas baseadas nesta.
181
Desse modo, a pesquisa abre possíveis novos caminhos de pesquisa, nomeadamente:
a gestão dos efeitos da variações climáticas sobre as famílias e as atividades produtivas;
Influência da disponibilidade e acesso à água no desenvolvimento rural; Variações climáticas
e o desenvolvimento das atividades agropecuárias; Infraestruturas hídricas e a redução da
vulnerabilidade e pobreza; O papel do Estado na mitigação dos efeitos das variações
climáticas nas comunidades; entre outros.
182
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191
APÊNDICE A - GUIA DE ENTREVISTA AOS GESTORES DE RECURSOS
HIDRICOS
A presente entrevista é de âmbito acadêmico, destina-se aos gestores dos recursos hídricos e
tem como objetivo analisar a contribuição da Política de Gestão dos Recursos Hídricos para
o Desenvolvimento Rural em Moçambique.
A pesquisa pertence a Milagre Jacinto Armando, doutorando em Desenvolvimento Rural, no
Programa de Pós-Gradução em Desenvolvimento Rural- UFRGS, Brasil.
Trata-se de um trabalho sigiloso, as informações são confidenciais e ninguém mais vai saber
do que se disse, daí que a vossa colaboração é de grande apreço.
CARACTERÍSTICAS GERAIS
Identificação do entrevistado:
Nome___________________instituição______
Desde quando trabalha no setor (ano)____; formação
acadêmica_________Ocupação (profissional)__________; Cargo que
Ocupa__________________ Sexo:M/F ___
I. SOBRE OS RECURSOS HIDRICOS
1. Qual é a principal fonte de água usada no distritodeManhiça? Água do
RioIncomáti___; Água dos poços___;água de furo___; lagos____; outra__
2. Quais são os principais problemas relacionados com a água do Rio Incomáti? Cheias
(inundações)___; Seca ____; redução de quantidade de água por causa da
agricultura___; redução de quantidade de água por causa da açucareira de
Xinavane___; redução de quantidade de água por causa da produção de cana-de-
açúcar___; intrusão salina__; outros___
3. As inundações do Rio Incomáti causaram mortes humanas__ a destruição de
habitação_ reduziram da produção agrícola __ reduziram o número de animais_
causaram doenças__ outros__
4. As secas na bacia de incomáti causaram a escassez de géneros alimentícios__
reduziram o número de animais__ causaram doenças __,outros__.
5. O governo ajudou com assistência em medicamentos_ em géneros alimentícios_em
fomento pecuário __em material de construção _ outras
assistências__________________________________________________________
6. Que técnicas são usadas para a captação de água das chuvas neste posto
administrativo: a caleira com tambores_ caleira com cisternas__
nenhuma__outras__,__________________________________________________
_______________
192
II. GESTÃO DE RECURSOS HÍDRICOS E ATIVIDADES
SOCIOECONÔMICAS
7. Existe um instrumento jurídico de enquadramento e regulamentação da utilização da
água para fins agrícolas, industriais e hidroeléctricos?
___________________________________________________________________
8. Qual é o principal fator que contribue para o disperdício de água do rio incomát?: uso
e consumo humano__ agricultura__;criação de animais_ agoprocessamento__;
produção de cana-de-açúcar_ açucareira de Xinavane_
9. Qual é o principal elemento que tem a ver com a vulnerabilidade e a pobreza em
Xinavane: as cheias/inundações e secas__ a falta ou insuficiência de vias de acesso
(ruas e estradas) _acom a falta ou insuficiência de unidades sanitárias _a falta ou
insuficiência de segurança _ o acesso a água potável_ o acesso aos recursos
hídricos(água do rio)__
10. Como avalia a demanda pelos recursos hídricos
(Incomáti)___________________________________________________________
___________________________________________________________________
___________________________________________________________________
11. Os recursos hídricos (água do Incomáti) estão disponíveis para serem usados por
todos? Sim_ Não_
12. Em que atividades as águas do Incomáti podiam ser aproveitadas para gerar a riqueza
nas famílias?
_________________________________________________________
13. O abastecimento em água potável é contínuo e suficiente para a satisfação das
necessidades domésticas e de higiene da população?
___________________________________________________________________
___________________________________________________________________
___________________________________________________________________
14. A água do rio é adequada para o uso e o consumo humano/doméstico? Sim_Não_
porque?_____________________________________________________________
___________________________________________________________________
___________________________________________________________________
_
15. De que forma a população tem acesso à informação sobre os casos de contaminação
da água do Incomáti? _________________________________________________
___________________________________________________________________
___________________________________________________________________
16. Como se tem usado a água do rio de modo a evitar eventuais desperdícios da mesma
no cultivo?__________________________________________________________
___________________________________________________________________
___________________________________________________________________
a melhor técnica para a gestão do uso da água recomendaria para o cultivo de cana-
de-açúcar?____________________________________________________
___________________________________________________________________
17. Qual é a principal tecnologia que pode contribuir para a economia de água na
agricultura em geral neste posto administrativo?_____________________________
___________________________________________________________________
___________________________________________________________________
18. Quais são as políticas que mais contribuem para o desenvolvimento neste posto
administrativo________________________________________________________
___________________________________________________________________
193
___________________________________________________________________
___________________________________________________________________
___________________________________________________________________
[Link]ÊS DE BACIAS HIDROGRÁFICAS:
19. Quais são os comités de gestão de águas que funcionam neste posto admimistrativo?
______________________________________________________
___________________________________________________________________
___________________________________________________________________
20. Como avalia a frequência da participação das pessoas de comitês neste posto
administrativo? ______________________________________________________
___________________________________________________________________
[Link] DE FORMAÇÃO, CAPACITAÇÃO E DESENVOLVIMENTO
INSTITUCIONAL EM RECURSOS HÍDRICOS
21. Existe um instrumento jurídico , cujo nele deverão constar as atribuições e funções,
os membros participantes, a pauta básica, a periodicidade de reuniões e demais regras
que disciplinarão o funcionamento do respectivo comitê?________________
___________________________________________________________________
___________________________________________________________________
22. Existem infraestruturas administrativas específicas para a gestão de águas do
Incomáti neste posto administrativo? _____________________________________
___________________________________________________________________
23. A intervenção do Estado/governo na política de gestão de águas da bacia de incomáti
satisfaz as necessidades das populações e ações de desenvolvimento da economia
deste posto administrativo?_____________________________________
___________________________________________________________________
___________________________________________________________________
24. Existem planos de formação, educação e divulgação, tanto junto das populações,
como dos agentes da administração, em relação aos principais problemas de gestão
das águas? __________________________________________________________
___________________________________________________________________
___________________________________________________________________
25. Em caso de sim, quem promove com frequência? Governo_ setor privado_, outros_,
especifique__________________________________________________________
___________________________________________________________________
___________________________________________________________________
26. Existe um fundo de recursos hídricos para este posto administrativo? Sim__; Não_
27. Em caso de sim, de que origem são os fundos? Águas dos furos__ águas do Rio
Incomáti____________________________________________________________
___________________________________________________________________
___________________________________________________________________
28. O governo moçambicano consegue acompanhar a utilização da água do Rio
Incomáti? Sim__ Não__, em caso de sim de que formas? _____________________
___________________________________________________________________
___________________________________________________________________
___________________________________________________________________
29. Já participou da capacitação em recursos hídricos como: capacitador?__,
capacitando?__ Outro_ especifique_______________________________________
194
___________________________________________________________________
___________________________________________________________________
V. RECURSOS HIDRICOS E MEIO AMBIENTE
30. Tem ocorrido situações de contaminação/poluição da água do Rio Incomáti? Sim__
Não__, Em caso de sim, que tipo(s) de contaminação?________________________
___________________________________________________________________
___________________________________________________________________
31. Que(m) poluem mais a água do Incomáti?_________________________________
___________________________________________________________________
___________________________________________________________________
32. Como se faz a denúncia em caso de descumprimento à legislação ambiental e de
recursos hídricos?_____________________________________________________
___________________________________________________________________
___________________________________________________________________
33. Em algum momento teriam registado casos de descumprimento à legislação
ambiental e de recursos hídricos?________________________________________
___________________________________________________________________
___________________________________________________________________
34. Em caso registo, que medidas foram tomadas em descumprimento à legislação
ambiental e de recursos hídricos?________________________________________
___________________________________________________________________
___________________________________________________________________
35. Existe um plano de Mapeamento, classificação, avaliação e monitoramento de
programas de ação para mitigação de riscos em caso de contaminação de águas do
Incomáti?___________________________________________________________
___________________________________________________________________
36. Existe um plano de diagnóstico dos riscos e controles da qualidade das águas no
geral, neste posto administrativo?________________________________________
___________________________________________________________________
Fim
Muito obrigado pela paciência, colaboração, cooperação e mais.
195
APÊNDICE B - GUIA DE PERGUNTAS AOS AGREGADOS FAMILIARES
O presente questionário de âmbito académico, destina-se aos participantes na gestão dos
recursos hidricos do distrito de Manhiça e tem como objetivo analisara contribuição da
Política de Gestão dos Recursos Hídricos para o Desenvolvimento rural em Moçambique.
O mesmo pertence a Milagre Jacinto Armando, doutorando em Desenvolvimento Rural, no
Programa de Pós-Gradução em Desenvolvimento Rural- UFRGS, Brasil
Trata-se de um trabalho sigiloso, as informações são confidenciais e ninguém mais vai saber
do que se disse, daí que a vossa colaboração é de grande apreço.
NOME DA LOCALIDADE
________________________
I. CARACTERÍSTICAS GERAIS DO AGREGADO FAMILIAR
Identificação do inquirido:
1. Chefe do AF? Sim__ Não__
2. Sexo: F__ M __
3. Idade: Até 17 Anos__ 18-34 Anos____ 35-59 Anos __ Mais de 60 anos___
4. Escolaridade: Tem escolaridade? Sim__ Não__
5. Caso sim:Nívelprimário__Secundário básico _Secundário
médio_Médio(técnico)_Ensino Superior_Alfabetização e Educação de Adultos_
6. Ocupação Principal: Camponês___Comerciante formal__ Comerciante informal__
Pescador__Outras__
7. EstadoCivil:Solteiro(a)__Casado(a)__Uniãoestável_Divorciado(a)__Separado(a)_Viúv
o(a)__
8. Ocupação principal do cônjuge: Camponês ___Comerciante formal__ Comerciante
informal__ Pescador__Outras__
9. Composição do AF(nᵒ de membros)? 0-5_ 6-10_ 11-16_ mais de 16 membros__
10. Possui unidades de produção? Sim_ Não__
11. Em que zona possui unidades de produção? Zona alta__; zona baixa__
12. Emcaso de sim, tamanho das propriedades (em ha)__________________________
13. O que produz? Hortícolas_ Cereais_ outras_, Especifique____________________
14. Destino da produção? Consumo e venda local__, venda em outros locais__.
Especifique__________________________________________________________
15. Faz irrigação ao produzir alimentos? Sim ___; Não___
16. Se sim, que tipo de irrigação? Gota a gota___; asperção___; inundação__; outra___
qual?__________________________________________________________________
17. O que tem feito para minimizar os efeitos da seca ou escassez de água para produzir
alimentos? _____________________________________________________________
196
______________________________________________________________________
______________________________________________________________________
______________________________________________________________________
18. Como se organiza para enfrentar as variações climáticas? _______________________
______________________________________________________________________
______________________________________________________________________
______________________________________________________________________
19. SOBRE OS RECURSOS HIDRICOS
20. Qual é a principal fonte de água que usas? Água do Rio Incomáti___; Água dos
poços___;água de furo___; lagos____; outra__
21. Qual é o principal problema relacionado com a água do Rio Incomáti? Cheias
(inundações)___; Seca ____; redução de quantidade de água por causa da agricultura___;
redução de quantidade de água por causa da açucareira de Xinavane___; redução de
quantidade de água por causa da produção de cana-de-açúcar___; intrusão salina__;
outros___
22. As inundações do Rio Incomáti causaram mortes humanas? Sim__ Não__
23. As inundações do Rio Incomáti causaram a destruição de habitação? Sim__ Não__
24. As inundações do Rio Incomáti reduziram a produção agrícola? Sim__ Não__
25. As inundações do Rio Incomáti reduziram o número de animais? Sim__ Não__
26. As inundações do Rio Incomáti causaram doenças? Sim__ Não__
27. As secas na bacia de Incomáti reduziram a quantidade de alimentos?Sim__ Não__
28. As secas na bacia de Incomáti reduziram o número de animais?Sim_ Não_
29. As secas na bacia de Incomáti causaram doenças?Sim__ Não__
30. O governo ajudou com assistência em medicamentos? Sim__ Não__
31. O governo ajudou com assistência em géneros alimentícios?Sim_ Não__
32. O governo ajudou com assistência em fomento pecuário? Sim__ Não__
33. O governo assistiu-vos em material de construção?Sim_ Não_
34. Usas alguma técnica para a captação de água das chuvas? Sim__ Não_
35. Na captação de água das chuvas usas a caleira com tambores?Sim_ Não_
36. Na captação de água das chuvas usas a caleira com cisternas?Sim_ Não_
III. GESTÃO DE RECURSOS HÍDRICOS E ATIVIDADES SÓCIOECONÔMICAS
37. Tem conhecimento da existência de um instrumento jurídico de enquadramento e
regulamentação da utilização da água para fins agrícolas, industriais e hidroeléctricos?
Sim_Não_
38. Qual é o principal fator que contribue para o uso não eficiente de água do Rio
Incomáti?: uso e consumo humano__ agricultura__;criação de animais_
agoprocessamento__; produção de cana-de-açúcar_ açucareira de Xinavane_
39. A sua situação de habitação e saneamento (vulnerabilidade) resulta da ação das
cheias/inundações, secas? Sim_Não_
40. A sua situação econômica (vulnerabilidade) resulta da ação das cheias/inundações,
secas? Sim_Não_
41. Achas que vulnerabilidade e a pobreza resulta da falta ou insuficiência de vias de acesso
(ruas e estradas) para a circulação de pessoas e bens? Sim_Não_
42. A exposição às doenças (vulnerabilidade) resulta da falta ou insuficiência de unidades
sanitárias? Sim_Não_
43. A vulnerabilidade e a pobreza da população tem a ver com a falta ou insuficiência de
segurança? Sim_Não_
197
44. Os recursos hídricos (água do Incomáti) estão disponíveis para serem usados por todos?
Sim_ Não_
45. Em que atividade aproveita melhor as águas do Incomáti para gerar a riqueza? Criação
de peixe __ navegação fluvial __ produção de hortícolas para alimentação e venda __
pesca___ outra__ Qual?_______________________________
46. Tem dificuldades no acesso a água potável?Sim_Não_
47. A escolaridade dos membros da família (no geral) é: satisfatória __;não satisfatória__
48. Em caso de não satisfatória(pergunta 46), quais as causas? Insuficiência financeira para
cobrir as dispesas escolares__ insuficiência de unidades escolares/educação __;
outras__especifique____________________________________________________
______
49. A sua condição sócio-econômica resultada: Insuficiência financeira__; falta ou
insuficiência de unidades escolares/educação_
50. O abastecimento em água potável é contínuo e suficiente para a satisfação das
necessidades do seu cotidiano? Sim_Não_
51. A água do rio é adequada para o uso e o consumo humano/doméstico? Sim_Não_
52. Tem-se usado a água do rio para determinado fim de cultivo? Sim_Não_
53. Como tem usado a água do rio de modo a evitar eventuais desperdícios da mesma no
cultivo?Uso de resíduos de cultivo__ medição da água do solo por meio de sensores __
uso de canais de irrigação_
54. Qual a melhor técnica para a gestão do uso da água, que recomendaria para o cultivo
de cana-de-açúcar e outros? Asperção__ inundanção__ gota a gota__
55. Qual é a principal tecnologia que pode contribuir para a economia de água na
agricultura ?Medir a quantidade de água existente no solo e que a planta necessita __,
uso de cobertura morta (resíduos de cultivos) melhoramento genético de plantas __,
prática da irrigação com déficit____;
IV. COMITÊS DE BACIAS HIDROGRÁFICAS:
56. Quais são os comités de gestão de águas que funcionam neste posto admimistrativo?
Comités de zonas__ comités de bacia hidrográfica__
57. Participas desses comitês? Sim __; Não__.
58. Como avalia a participação das pessoas de comitês neste distrito? ____________
_______________________________________________________________________
V. PLANOS DE FORMAÇÃO, CAPACITAÇÃO E DESENVOLVIMENTO
INSTITUCIONAL EM RECURSOS HÍDRICOS
59. Das políticas que se seguem, qual é a política que mais contribui para o
desenvolvimento neste posto administrativo: Política de habitação__, política de
saúde__ política de água__ política de crédito (financiamento)__ política de
saneamento__ política de transportes e comunicação__ Nenhuma__
60. Que política contribuiria para o desenvolvimento da gesão de recursos hídricos
(Incomáti) neste posto administrativo: Política de habitação__, política de saúde__
política de água__ política de crédito (financiamento)__ política de saneamento__
política de transportes e comunicação__
61. A intervenção do Estado/governo na política de gestão de águas da bacia de incomáti
satisfaz as necessidades das populações e ações de desenvolvimento da economia deste
posto administrativo?Sim_Não_
62. Existem processos e infra-estruturas administrativas especificas para questões de
gestão de água da bacia de Incomáti? Sim_ Não_
198
63. Existe a promoção das campanhas de formação, educação e divulgação, tanto junto das
populações, como dos agentes da administração, em relação aos principais problemas
de gestão das águas da bacia de Incomáti? Sim_Não_
64. Em caso de sim, quem promove com frequência? Governo_ setor privado_
65. Qual é a campanha que tem ocorrido com maior frequência com relação aos principais
problemas de gestão das águas neste posto adminisrativo? de formação__, de
educação__ de divulgação_
66. Sabe da existência de um fundo de recursos hidricos para este posto? Sim__; Não___;
67. Em caso de sim, de que origem são os fundos? Em água dos furos__ em água do Rio
Incomáti___
68. Sabe se o governo moçambicano consegue acompanhar a utilização da água do rio
Incomát? Sim__ Não__
69. Em algum momento participou da capacitação em gestão em recursos hídricos?
Sim__; Não__.
VI. RECURSOAS HIDRICOS E MEIO AMBIENTE
70. Sabesetem ocorrido situações de contaminação/poluição da água do Rio Incomáti?
Sim__ Não__
71. Que(m) poluem mais a água do Incomáti?Paises vizinhos_ açucareira de Xinavane__
consumo humano__ criação animal__ atividade agrícola___; agroprocessamento__
72. De que forma tem acesso à informação sobre os casos de contaminação da água do
Incomáti? Encontros com as autoridades locais/administrativas__, através de pessoas
singulares__
73. Como denunciar o descumprimento à legislação ambiental e de recursos
hídricos?Denúncia do desmando às autoridades locais__ denúncias às autoridades
policiais do posto policial mais próximo__
74. Tem conhecimento de casos de descumprimento à legislação ambiental e de recursos
hídricos do Incomáti? Sim_ Não_
75. Em caso sim, que medidas foram tomadas em descumprimento à legislação ambiental
e de recursos hídricos?Estruturais___ paliativas__.
Muito obrigado pela paciência, colaboração