Direitos Reais
Direitos Reais
Legislação: Código Civil; Código de Registo Predial – DC 224/84 (6/7); Regime Jurídico de
habitação periódica – DL 275/93 (5/8)
Menezes Cordeiro: O direito real é um direito absoluto e inerente a uma coisa corpórea, que
permite ao seu titular determinada forma de aproveitamento jurídico desta.
Carvalho Fernandes: O direito real é o poder jurídico absoluto atribuído a uma pessoa
determinada para a realização de interesses jurídico-privados, mediante o aproveitamento
imediato de utilidades de uma coisa corpórea.
Teoria Clássica Relação de uma pessoa e uma coisa (protege a relação sobre tudo)
Poder direto e imediato
Poder absoluto
Teoria Personalista Relação de uma pessoa e todas as outras
Obrigação passiva universal
Teoria Mista:
Lado Interno: Poder direto e imediato sobre a coisa
Lado Externo: Impõe-se à generalidade das pessoas
Faz uma conjugação entre as duas teorias
Características:
O carácter absoluto
A inerência
A sequela
A prevalência (característica e principio)
Carácter Absoluto
Oponível contra qualquer pessoa/contra todos
Não se estrutura numa relação jurídica com outrem
Imprescritibilidade da ação de reivindicação
[eficácia ERGA OMNES]
Vem da teoria clássica
Inerência
1
Inês Cerqueira
Direitos Reais
Sequela
O titular pode ir buscar a coisa, independente de quem seja o atual possuidor ou
detentor
Mesmo que ela venha a ser objeto de uma cadeira de transmissões
Eliam si per mille manus ambulaverit
Disponibilidade de meios para a prossecução dos fins do titular
Prevalência
Circunstância de os direitos reais constituídos sobre uma coisa prevalecerem, quer
sobre os direitos de crédito relativos a esta coisa, quer sobre os direitos reais
posteriormente constituídos sobre a mesma coisa e que se revelam total ou
parcialmente incompatíveis com o anterior. Este é um principio que vale para todos os
direitos reais – Hörster, H
DR – RES – COISAS
Trata-se dos direitos que as pessoas podem exercer sobre as pessoas.
Coisas imóveis: prédio
Coisas móveis: computador, carro, barco
Coisas não têm direitos.
Direito de propriedade (direito real máximo) – confere ao titular a plenitude de
direitos sobre as coisas
2
Inês Cerqueira
Direitos Reais
As obrigações são dotadas de uma eficácia meramente relativa, enquanto os direitos reais
se caracterizam pela sua eficácia absoluta
Contrato de mútuo (empréstimo de dinheiro) – relativa
Oponibilidade a terceiros [ERGA OMNES]– absoluta
Artigo 407º
3
Inês Cerqueira
Direitos Reais
Direitos reais de aquisição: no momento da aquisição foi conferido este direito real
contrato promessa com eficácia real (art. 413º)
direito de preferência com eficácia real (art. 421º)
direito de preferência legal (arts. 1380º, 1409º e 1535º CC, art. 6º do DL nº89/2021 de
03-11 Lei de Bases da Habilitação)
Princípios:
Tipicidade
Especialidade
Elasticidade
Transmissibilidade
Publicidade
Boa-fé
Tipicidade
Não é possível inventar um direito real, somente aqueles direitos reais que existem no
ordenamento jurídico é que as pessoas podem ser titulares
Artigo 1306º - “Numerus clausus”
Elasticidade
“(...) direitos reais limitados restringem de acordo e na medida do seu conteúdo, o
conteúdo do direito da propriedade que pertence a outrem ( Hörster)
“(…) em consequência da extinção de um direito menor, o direito real maior pode
retomar o seu conteúdo originário …” (Leitão, M.)
- Compressão e expansão das figuras parcelares
- Uma coisa, diferentes titulares com diferentes (in)compatíveis entre si
Transmissibilidade
Garante o direito de transmitir em vida, ou para depois da morte e garante ao Estado
de conseguir expropriar bens, fará com que haja indemnização
Direito de transmitir os direitos reais
Artigo 62º
Exceções: art. 1443º Usufruto/1490º - Uso e Habitação
4
Inês Cerqueira
Direitos Reais
Boa-fé
Art. 291º, nº3
Elementos:
Boa – Média, exigível de qualquer pessoa | Proteção, informação, lealdade
Fé – Consciência
Para efeitos:
- da posse (arts. 1260º,1269º)
- da usucapião (arts. 1295º e 1298º)
- da acessão industrial (arts. 1333º e ss. E 1340º e ss.)
- da proteção de terceiro (art. 291º CC, 17º n2 Cod. Reg. Predial)
5
Inês Cerqueira
Direitos Reais
Exemplo:
AB
6
Inês Cerqueira
Direitos Reais
adquiriu um negócio que é nulo. Para haver prevalência tem que ter dois direitos validos
constituídos, e neste caso só existe um direito valido.
Só há uma classe de direitos reais que se pode falar de prevalência – que são os
direitos reais de garantias, se chamam de garantia porque garantem alguma coisa, neste caso
o cumprimento de obrigações.
Exemplos:
Hipoteca – artigo 686º CC – podem ser os imóveis ou equiparados (móveis sujeitos a
registo, navios, aviões…), pode o mesmo prédio ser hipotecado várias vezes a favor de
vários credores? 713º - Não impede de ser hipotecado novamente a favor de outro
credor.
Conjugação de rendimento
Penhor
privilégios creditórios
direito de retenção
A em 2024 arrenda por 5 anos a B e em 2025 arrenda a C, com efeitos imediatos por
3 anos
Quem tem direito de morar? B, pois é o mais antigo, mas o segundo é valido então A
tem de indemnizar.
7
Inês Cerqueira
Direitos Reais
Permanência:
A permanência dos direitos reais por contraposição à transitoriedade dos direitos
de crédito
É meramente tendencial
8
Inês Cerqueira
Direitos Reais
Modo
Mod e titulo
9
Inês Cerqueira
Direitos Reais
10
Inês Cerqueira
Direitos Reais
Pergunta de oral – compra e venda de um imóvel, B compra, mas não regista a aquisição, esse
direito é oponível erga omnes? Sim, no entanto, o artigo 5º nº1 CRP, o facto de B ter
comprado e não ter registado, não significa que agora qualquer pessoa pode ter acesso à casa.
(terceiros para efeito de registo – artigo 4º CRP)
Princípio do trato sucessivo – 34º CRP – ex: veiculo automóvel furtado que depois foi vendido,
e esse adquirente vai na conservatória fazer o registo que vai ser recusado, porque há “falta de
trato sucessivo”
Escritura pública – Documento elaborado pelo notário (será feito por ele na primeira pessoa)
Coisa particular – significa feita pelas partes e o notário vai apenas autenticar
Ao contrário das obrigações, por via do princípio da liberdade contratual, nos direitos reais
vigora o princípio da tipicidade taxativa. As partes podem, dentro dos limites da lei, inventar os
contratos que lhes aprouver.
1. Direito real pleno – conferem ao seu titular a plenitude dos poderes a uma coisa
Apenas existe um direito real pleno: direito de propriedade – 1302º
2. Direitos reais limitados – conferem ao seu titular certos poderes sobre coisa, mas
justamente não todos. Divide-se em 3 subcategorias:
De gozo - são 5 – permite usar a coisa
o Usufruto (1439º e seguintes)
o Uso e habitação (1484º)
o Direito de superfície (1524º)
o Servidões prediais (1543º)
o Direito real de habitação periódica (decreto-lei 275/93, de 5 de
agosto)
De garantia – são 5 – garantem o cumprimento de uma obrigação
o Consignação de rendimentos (656º)
o Penhor (666º)
o Hipoteca (686º)
o Privilégios creditórios especiais (733º)
o Direito de retenção (754º)
De aquisição – são 2 – são aqueles que permitem ao seu titular adquirir, ou
adquirir preferencialmente, uma coisa, com prevalência sobre terceiros.
o Direito do promitente comprador no contrato de promessa com
eficácias reais (413º)
o Direito de preferência com eficácia real (421º)
Direito real “sui generis” (termo do professor) – não encaixa nos termos
daquela classificação – posse (1251º)
11
Inês Cerqueira
Direitos Reais
Concepção objetiva: corpus – animus (basta o corpus), o possuidor é aquele que tem o
controlo sobre a coisa
Concepção subjectiva: corpus + animus (é necessário ter o bem na sua posse e ter a vontade
de agir como proprietário desta)
Mero detentor ou simples detenção – possuidores precários, não têm nenhuma titularidade
sobre a coisa que tem sobre seu controlo – não tem intenção de agir como proprietário -
1253º
Extensão da proteção – ir a tribunal para ser mantido na sua posse ou reaver a sua
posse
Autorização do possuidor/proprietário para exercer o poder sobre a coisa, mas são
simples detentores
Locatário (1037º)
Parceiro pecuniário (1125º)
Comodatário (1133º)
Depositário (1188º)
Artigo 1251º e 1253º a)
1253 – Detenção
Inversão do titulo da posse – ex. arrendatário deixar de pagar rendas e agir como proprietário,
informando o proprietário. Se este nada disser, este mero detentor caminha para ser
possuidor
Determinado modo de agir – 1251º
Poder de facto – 1252º n2
Presunções de posse - 1º em caso de duvida, decidir entre duas pessoas que se dizem
possuidores, presume-se a posse de facto a quem controlar a coisa; 2º quem prova que
começou a posse, é possuidor. – 1254º
12
Inês Cerqueira
Direitos Reais
O prazo da posse só começa a contar quando cesse a violência e a posse seja pública.
b) Mera detenção
São aqueles casos em que quem pratica os atos materiais sobre a coisa, não tem,
no entanto, qualquer intenção de se comportar como proprietário. Exemplo: Eu
tenho uma empregada doméstica e ela pratica atos materiais dentro de minha
casa, mas ela não tem a intenção de ser a proprietária.
Corpus – não exige um contacto físico permanente com a coisa basta que a mesma esteja
virtualmente dentro da esfera de atuação do possuidor. Exemplo: Tenho 80 pares de sapatos,
13
Inês Cerqueira
Direitos Reais
mas apenas consigo usar um de cada vez, para ter a posse, não é necessário ter contacto físico
permanente sobre a coisa.
Embora, o corpus se traduza geralmente na prática de atos de uso, pode também consistir em
atos de fruição. Exemplo: A arrendou a casa a B, B não tem a posse, mas A sim, mesmo que
não esteja lá a viver, recebe as rendas como sinal de posse e propriedade.
Windscheid – Teoria da vontade abstrata Vontade com intenção que se pode deduzir do
comportamento da pessoa
Nem todas as posses são iguais e nem todas merecem o mesmo tratamento.
Caracteres da posse
1258º - Espécies de posse
4 Grupos:
Titulada ou não titulada (1259º)
De boa-fé ou má-fé (1260º)
Pacífica ou violenta (1261º)
Pública ou oculta (1262º)
De Boa-fé ou má-fé:
Para efeitos de posse, a Boa-fé significa que quando ao adquiri-la o possuidor ignorava (não
tem conhecimento) que lesava o direito de outra, o direito do proprietário legítimo.
14
Inês Cerqueira
Direitos Reais
1282º - Caducidade
1265º
Aula Prática – 3/04
Caracteres da posse: continuação
Pacífica ou violenta (1261º)
Violenta – quando para adquiri-la foi utilizada coação física ou moral (coação física – existe
força física irresistível – divergência entre a vontade e a declaração)
(coação moral – vício da vontade)
Pública ou oculta (1262º)
- Exercida de forma a ser conhecida pelo interessado
Se a posse for violenta ou oculta, os prazos da usucapião não se conta 1297º (1300º)
15
Inês Cerqueira
Direitos Reais
1256º É de menor âmbito, aquela que se mostrar menos favorável em matéria de usucapião
(se o antecessor estiver de má-fé, aplica-se esse prazo).
16
Inês Cerqueira
Direitos Reais
Prevenção
Prevenir significa antecipar-se (CPC, art 362º)
Uma situação de posse
A posse ainda
O possuidor está sob ameaça de ser perturbado
Direta – 336º
Manutenção turbação
Restituição Esbulho
Ação de manutenção
Ativa – o perturbado ou seus herdeiros
Passiva – (contra o) perturbado
Ação de restituição
Ativa: o perturbado ou os seus herdeiros
Passiva: (contra o) perturbado ou seus herdeiros
▪ Em 2020 B tinha a posse adquirida originariamente por esbulho (caracteres: não titulada e
de má-fé presumida). Em 2021 há um contrato de comodato de B para C, logo este é um mero
detentor (tem em seu poder, há corpus, mas não há animus, porque ele não pretende
comportar-se como proprietário), se não há posse não há caracteres da posse.
17
Inês Cerqueira
Direitos Reais
2
Em 2016, A empresta a B, pelo prazo de um ano, um quadro. Em 2017, porém, vindo a
encontrar, B não devolve a coisa, passando a furtar-se sistematicamente a todas as tentativas
de contacto de A. Vindo em 2018 , a vender o mesmo a C, quando finalmente me 2020, o
quadro é furtado da residência de C por D, que mantem a posse até hoje. Poderá este ultimo
adquirir desde já a propriedade por usucapião?
3
Em 2016, A dá de aluguer a B, pelo prazo de ano, um iate à vela, pois este pretendia dar a volta
ao mundo. Nos termos acordados, o navio deve ser restituído a A, na marina de cascais,
pontualmente, até determinada hora e dia de 2017. No entanto tal não sucedeu, não tendo A
recebido desde então, qualquer notícia de B, uma vez que o mesmo deixou de responder às
suas tentativas de contacto. No ano seguinte (2018), B vende a embarcação a C pelo prazo de
100000€. Sucede que A, casualmente, acaba de ver a embarcação atracada na marina de
Vilamoura e pretende naturalmente recupera-la. Poderá faze-lo?
18
Inês Cerqueira
Direitos Reais
▪ C não conseguiria registar, pois seria violação de um principio – trato sucessivo – artigo 34º
n2 CRP (registo predial)
▪ Usucapião – 1298º; A posse de C durou 7 anos, pode invocar acessão; 7 + 1 anos de posse
▪ Ação de reivindicação por parte de A– 1311º
4
Em 2001, A, proprietário de um prédio rústico situado em Amarante, emigra para o Brasil, para
aí abrir um negócio de pastelaria. Aproveitando-se dessa ausência, um seu vizinho B, ainda
nesse ano, começa a cultivar o prédio, como se o mesmo lhe pertencesse fazendo além do
mais constar publicamente na terra que A lhe tinha vendido. A situação prolonga-se até 2006,
ano em que, por documento particular o vende a C. Este porem morre subitamente de enfarte,
logo no ano seguinte, sobrevindo-lhe como único herdeiro o seu filho D, dentista e residente
em Lisboa, o qual totalmente desinteressado da agricultura dá de arrendamento o terreno a E
em 2008, vindo a vender-lhe em 2009.
(A – Qualifique devidamente a situação jurídica dos diversos intervenientes na situação,
nomeadamente quanto ao seu enquadramento como possessório ou não, caracteres da posse
e modos da respectiva aquisição. B – imaginando que A, acaba agora mesmo (2025) de
regressar do Brasil, como poderia agir para defender os seus interesses e em que prazo)
▪ B ocupa em 2001 o prédio; B tem posse não titulada e de má-fé; modo de aquisição originária
- 1263º a)
▪ B vende a C em 2007 e a posse de C é não titulada, pois é impossível este negócio ter sido
feito por escritura pública, pois seria o nome de A a constar no registo como proprietário do
prédio, havendo uma quebra no trato sucessivo – Artigo 34º CRP (registo predial). Nenhum
notário iria autenticar este documento. Presume-se de posse de má-fé.
▪ D sucede na posse, mantendo os mesmos caracteres (sucede mortis causa) – 1255º
▪ D arrenda em 2008 a E, sendo este um mero detentor, sendo que em 2009, quando compra,
passa a ser possuidor, sendo uma posse não titulada e de má-fé presumida, falamos de
“Traditio Brevi manu”
▪ Usucapião – 1294º, 1295º, 1296º, único possível, visto que não registaram; 3 + 16 anos de
posse (2025); E pode invocar a acessão, pois adquiriu a posse de modo derivado.
Fundamentos da Usucapião
19
Inês Cerqueira
Direitos Reais
Pressupostos da usucapião
Posse
Qualificada (publica e pacifica)
Um direito usucapável (vide objeto)
O decurso do prazo
Objeto
a) Propriedade (1316º)
b) A nua-propriedade (por ilação artigos 1471º e 1473º)
c) O usufruto (artigo 1439º/1440º)
d) O direito de superfície (artigo 1524º/1528º)
e) As servidões aparentes (artigo 1547º)
f) As servidões de vistas (artigo 1362º)
g) “Usucapião libertatis” (artigo 1574º)
Direitos excluídos
Servidões prediais não aparentes
Direito de uso e habitação
Art. 55º DL nº 83/85 de 4-03 (CDADC) “O direito de autor ao pode adquirir-se por
usucapião.”
Bens do domínio público do estado (CRP, artigo 84º | Decreto-lei nº 280/2007)
Domínio do estado: artigo 1304º (DL 477/80 de 15/10) / 1345º
Património
do estado
Bens do Bens do
Domínio Domínio
Privado Público
Indisponível
Disponivel
(Administrati
(financeiro)
vo)
20
Inês Cerqueira
Direitos Reais
Caso Prático
Em 2002, A proprietário de um prédio rústico, vende por escritura pública esse prédio a B,
residente no estrangeiro. Aproveitando-se dessa ausência, em 2003, C ocupa o prédio,
começando a cultiva-lo, mas no ano seguinte, morre, sucedendo como herdeiro D, o qual,
vende em 2010, o prédio a E. Quem será o proprietário?
▪ A vende em 2002 o prédio a B, por escritura pública (celebrada pelo notário), sendo que B
registou
▪ B é proprietário e possuidor; Posse de B é titulada e de boa-fé. Modo de aquisição derivada –
1263º b) Tradição da coisa
▪ C adquire a posse do prédio, quando o “ocupa”, modo de aquisição originária – 1263º a)
(apossamento); Posse não titulada e de má-fé
▪ Sucessão da posse – 1255º
▪ D tem posse não titulada e de má-fé. (Trata-se de modo de aquisição derivada, mas não se
encaixa nos critérios do 1263º, caso especial)
▪ Posse de E é não titulada e presume-se de má-fé – presunção relativa 1260º n2 (admite prova
em contrário). Modo de aquisição derivada – 1263º b)
▪ Usucapião Falta de registo, não existe justo título – falta de trato sucessivo – 1267º
Prazo: 20 anos, porque E está de má-fé. Poderá invocar acessão? Critério: modo de aquisição
derivada – tem! 15 Anos de posse de E + 7 (C + D).
▪ Pode invocar usucapião e adquirir a propriedade, com recurso à acessão.
Usucapião extrajudicial Por exemplo, existir uma nulidade por vício de forma. Escritura de
justificação notarial – documento necessário para invocar a usucapião.
Usucapião existe por uma questão de segurança jurídica
Efeitos no tempo
Retroatividade: artigo 1288º (e 1371º)
Entrega material ou simbólica para efeitos de usucapião
Posse violenta: retroage ao momento em que cessou a violência
Na sucessão na posse (artigo 1255º): retroage à posse do de cujus
Na acessão (artigo 1256º): retroage até ao momento em que o novo possuidor a
adquiriu
Capacidade
Uso da razão (artigo 1266º) = consciência de que se está a praticar atos materiais de
posse
Capacidade de gozo (1289º, n1)
Capacidade de exercício (1289º, n2)
Detentores ou possuidores precários não podem usucapir: artigo 1290º
Compossuidores: regra = solidariedade
* Boa-fé de um aproveita a todos
** Violência de um prejudica a todos
21
Inês Cerqueira
Direitos Reais
Critérios:
Móveis | Imóveis
Justo título
Boa-fé | Má-fé
Registo da mera Posse código civil, artigo 1295º + CPP, artigo 2º/1 e)
1295º
Posse + registo da mera posse + boa-fé = 5 anos
Posse + registo da mera posse + má-fé = 10 anos
1296º
Posse + boa-fé = 15 anos
Posse + má-fé = 20 anos
1300º
Posse violenta ou oculta = art 1300º/1 » 1297º
Posse violenta ou oculta passada a terceiro com titulo = 4 anos
Posse violenta ou oculta passada a terceiro sem titulo = 7 anos
1301º
*coisa (sem registo) comprada a comerciante (artigo 1301º)
Direito da Propriedade
NOTAS DISTINTIVAS 1 – Abrangência Código Civil
É um direito sobre coisas corpóreas – os direitos de autor e a “propriedade” industrial são
direitos sobre coisas, mas em sentido técnico não são diretos de propriedade.
Animais: Código civil artigo1302º/2, artigos 201º-B à 201º-C, Lei nº8/2017
Domínio do Estado: Código civil artigo 1304º, 1345º, 1527º, DL 477/80 de 15/10)
Conceito
Propriedade: qualidade ou característica do que é próprio;
Próprio: que pertence a quem se faz referência
22
Inês Cerqueira
Direitos Reais
Pertença: qualquer coisa que, por disposição de lei ou destinação natural, encontra-se
ligada ao uso de uma pessoa (domínio)
NOTAS DISTINTIVAS 2
É o direito de maior extensão (no que diz respeito ao aproveitamento da coisa)
A propriedade é a atribuição final de uma coisa corpórea, isto é, o aproveitamento último.
Os outros direitos reais sobre a coisa são limitados, são direitos sobre coisa alheia (“ius in
re aliena”)
LEITÃO, L. Menezes 10ª ed, p.297 e seguintes (p.309)
Define a propriedade como “o direito real, que permite ao seu titular, dentro dos limites
da lei, o aproveitamento pleno e exclusivo de todas e quaisquer utilidades proporcionadas
por uma coisa corpórea.”
Aponta como características:
O cariz indeterminado;
A exclusividade;
A elasticidade;
* Perpetuidade.
23
Inês Cerqueira
Direitos Reais
NOTAS DISTINTIVAS 3
Perpetuidade e não uso: artigo 298º/3 [Usufruto 1476º/1 c) – por extensão, Direito de uso
1490º]
Perpetuidade e propriedade resolúvel: o facto translativo é afectado na sua eficácia por
uma incidência posterior (exs.: Divórcio, art. 1790º; Doação entre casados, art.1765º;
Regresso do Ausente, art.119º)
Perpetuidade e propriedade temporária: ex.: substituição fiduciária
Defesas da propriedade
Reivindicação (artigo 1311º)
A ação de reivindicação é uma ação real, petitória e condenatória, destinada à defesa
da propriedade.
O pedido é o reconhecimento do direito de propriedade do reivindicante sobre a coisa
e restituição desta àquele.
Ação direta (artigo 1314º »» artigo 336º)
Ação demarcatória: prevista no art. 1353º do Código Civil, objetiva obrigar os donos dos
prédios confiantes a concorrerem para a demarcação das estremas entre o seu prédio e os
deles.
Direito de tapagem: artigo 1356º
Aquisição da propriedade
Modos 1316º
Momento 1317º
Aula Prática – 15/05
Propriedade – 1302º - propriedade privada é algo que, no ponto de vista histórico, está
enraizado na consciência jurídica das pessoas, é uma noção “intuitiva”. A propriedade privada
– sinal de liberdade, todos os sistemas políticos caracterizam por ataques ferozes à
propriedade privada, porque é um sinal de liberdade, uma pedra basilar.
1305º - acaba indiretamente por definir a propriedade privada – uso, fruição e disposição – a
que mais se adequa ao direito de propriedade.
24
Inês Cerqueira
Direitos Reais
Defesa de propriedade
o Ação de reivindicação – 1311º
(meios de defesa da posse 1276º; 1285º)
Não há um pedido, há dois, pode exigir o seu reconhecimento do direito de propriedade:
1. Que se reconheça/declare que ele é o proprietário (mas o possuidor continua lá)
2. Pedir a condenação do réu a restituir a coisa.
A questão da prova (provar a propriedade), e como se prova o direito de propriedade? O
direito da coisa sujeita a registo, prova-se pelo registo – 7º do Código de registo predial. É uma
presunção relativa ou absoluta? Relativa. E quando são coisas não sujeitas a registo?
1. Invocando factos constitutivos de uma aquisição originária, como por exemplo,
usucapião.
2. 1368º - Presunção de uma posse – é uma presunção relativa
1313º - não está sujeita a qualquer prazo, pode ser a todo o tempo instaurada uma ação de
reivindicação.
1315º - Existem outros direitos de gozo que não a propriedade. É um contencioso aberto.
Exemplo: A é proprietário de um prédio urbano composto por terreno e o prédio vizinho,
funciona no r/chão um estabelecimento de restauração e o proprietário do terreno observa
que depois do estabelecimento fechar, os funcionários vão lá deixar o lixo ao terreno. Este ato
é ilícito e instaura uma ação de reivindicação – 1311º - mas não faz sentido ser ação de
reivindicação, pois não tem o 2º pressuposto desse artigo, que é a restituição, ninguém lhe
tirou o terreno. Então tem que ser alguma ação adequada par esta situação. O 1º pressuposto
que é provar que é proprietário, está aqui provado. Então exigia que o réu fosse condenado a
limpar tudo o que lá está – isto é a ação que melhor se adequa ao caso concreto.
1316º - Esses 5 modos gerais de adquirir são modos gerais de adquirir a propriedade Qual
contrato? Compra e venda; doação; permuta (troca) – aquisição derivada. Usucapião –
aquisição originária, no sentido de que ninguém transmitiu nada. Ocupação (1318º) e acessão
– aquisição originária – acessão aqui tem um significado diferente do semântico normal.
25
Inês Cerqueira
Direitos Reais
Acessão
Industrial
Mobiliária – união, confusão e especificação
Imobiliária
Natural
Aquisição a non domino – pelo registo – do art.291º. A aquisição neste caso resulta da
lei que atribui efeitos a negócios nulos.
Aquisição nos contratos de mútuo de coisa fungível (art.1142º/1144º) e Depósito de
coisa fungível ou depósito irregular (art.1205º e 1206º)
Contrato de empreitada: o art.1212º refere à “propriedade da obra” no caso da coisa:
1) Móvel se for construída com materiais fornecidos no todo ou em parte pelo
empreiteiro (a aceitação da coisa importa a transferência da propriedade para
o dono da obra) – e, no caso de a coisa ser construída com materiais
fornecidos pelo dono da obra (a coisa continua a ser de propriedade dele,
como será depois da obra ser concluída)
2) Imóvel se o solo ou a superfície pertencer ao dono da obra, a coisa é
propriedade deste, ainda que o empreiteiro forneça os materiais. A obra
considera-se adquirida pelo dono da obra à medida que os materiais vão
sendo incorporados no solo, Assim, é a incorporação no solo e não o
26
Inês Cerqueira
Direitos Reais
1345º - Coisas imóveis não são consideradas abandonadas, tornam-se património do estado.
Compropriedade
Ler acórdão – 4517/16.7T80ER.L1-1
Espécies de Aceessão:
Natural Quando resulta exclusivamente de forças da natureza
Industrial Quando resulta de um facto humano
Mobiliaria 1333º
Imobiliária 1339º
Acessão natural é sempre industrial, imobiliária.
Art 1327º Associados a recursos de água
Construção de terreno alheio, boa-fé (1340º) se a construção tiver um valor superior ao que
o prédio tinha, o proprietário da construção adquire por acessão o terreno.
União de duas coisas que não dá para separar.
Construção de terreno alheio, má-fé (1341º) Existe em livre direito de opção por parte do
proprietário do terreno, pode demolir o que já está construído ou ficar com o prédio já
27
Inês Cerqueira
Direitos Reais
construído na sua propriedade, tendo que efetuar o pagamento ao outro sob enriquecimento
sem causa.
28
Inês Cerqueira
Direitos Reais
1364º - Tem grades de ferro ou outro metal nas janelas, a malha não pode ter mais que
cinco centímetros.
1365º - Estilicídio – qual o problema do gotejar? Pode ser agressivo para os materiais.
N2 Por usucapião, por exemplo
Restrições em matéria de plantação de árvores e arbustos 1366º
Os ramos e raízes vão invadir a propriedade – o que o proprietário pode fazer? Cortar os
ramos ou as raízes, e se o dono, sabendo do aviso, não o fizer no prazo de 3 dias – se fizer
o aviso verbalmente, convém que haja testemunhas. N2 Fala das restrições mais severas
em algumas espécies de árvores
1367º - Restrição recai sobre os poderes do proprietário (responsabilidade por factos
lícitos – terá de responder pelos prejuízos causados)
Restrições relativas a paredes e muros de meação 1370º´
Comunhão do muro –Pode pagar metade do valor do muro e fica como proprietário do
muro, tornando assim em dois donos (comum), sendo comum não se pode fazer obras
sem o consentimento dos dois.
Modos de aquisição da propriedade – 1316º (remeter 1370º - ultima parte da norma).
Porque então já não aparece lá? Pois os outros 5 são gerais e esse é um modo especial.
Curiosidade 1371º - Presunção da compropriedade – remete um pouco para a
propriedade rústica.
Restrições ao fraccionamento de prédios rústicos 1376º
Possibilidade de dividir o prédio.
Quanto a prédios urbanos Podem ser divididos? Sim, de 3 maneiras:
1. A constituição de um direito de superfície - 1524º (define o direito de superfície -
direito de construir/manter construção em terreno alheio) – direito real que
permite fraccionar a propriedade nos seguintes termos a superfície e o que
nela existir pertencem a uma pessoa e o subsolo pertence a outra pessoa.
2. Propriedade horizontal – 1414º - forma específica do direito de propriedade –
permite que um edifício seja dividido em varias unidades independentes = frações
autónomas.
3. Loteamento – direito urbano, divisão urbana em lotes. Carece de projeto de
loteamento e está sujeito a licenciamento
1376º n1 Unidade de cultura = área definida por lei para cada área de cultivo do país
1380º - direito de preferência
Compropriedade – 1403º
Conjugalidade, comunhão (geral ou adquiridos), compropriedade
Separação
1404º - Aplicação das regras da compropriedade a outras formas de comunhão
29
Inês Cerqueira
Direitos Reais
30
Inês Cerqueira
Direitos Reais
Aspetos gerais
1. Direitos dos condóminos (art.1420º)
2. Partes comuns do prédio (art. 1421º)
3. Limitações ao exercício dos direitos (art.1422º)
Junção e divisão de frações autónomas (artigo 1422º-A)
Alteração do uso da fração para habitação (Artigo 1422º-B)
4. (não) direito de preferência e divisão
31
Inês Cerqueira
Direitos Reais
32
Inês Cerqueira