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Aula 3

A neuropsicologia investiga a relação entre o funcionamento do sistema nervoso e o comportamento humano, utilizando conceitos como modularidade, dissociação e sistemas funcionais. A modularidade sugere que o cérebro é composto por módulos especializados para diferentes funções cognitivas, enquanto a dissociação refere-se à separação de funções cognitivas em casos de lesões cerebrais. A interdependência entre as regiões cerebrais é crucial para a complexidade do comportamento humano, permitindo a integração de funções sensoriais, motoras e cognitivas.

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A neuropsicologia investiga a relação entre o funcionamento do sistema nervoso e o comportamento humano, utilizando conceitos como modularidade, dissociação e sistemas funcionais. A modularidade sugere que o cérebro é composto por módulos especializados para diferentes funções cognitivas, enquanto a dissociação refere-se à separação de funções cognitivas em casos de lesões cerebrais. A interdependência entre as regiões cerebrais é crucial para a complexidade do comportamento humano, permitindo a integração de funções sensoriais, motoras e cognitivas.

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AULA 3

FUNÇÕES
NEUROPSICOLÓGICAS
COGNITIVAS: COGNIÇÃO E
APRENDIZAGEM

Prof. Everton Adriano de Morais


CONVERSA INICIAL

A neuropsicologia é um campo interdisciplinar que une conhecimentos da


neurologia e da psicologia, e outras áreas do conhecimento relacionadas a saúde,
educação e afins, para compreender como o funcionamento sistema nervoso está
relacionado ao comportamento e aos processos cognitivos e comportamentais.
Dentro deste campo, diversas abordagens têm sido desenvolvidas para investigar
e explicar as complexidades do cérebro humano e suas funções. A partir de
diversos conceitos fundamentais da neuropsicologia, destacam-se a modularidade,
dissociação, isomorfismo, sistemas funcionais, análise sindrômica, bem como
fatores neuropsicológicos.
A modularidade refere-se à ideia de que o cérebro é composto por módulos
independentes, cada um especializado em uma função cognitiva específica. Por
exemplo, a área de Broca, localizada no lobo frontal, é crucial para a produção da
fala. Quando uma pessoa sofre um Acidente Vascular Cerebral (AVC) que afeta
essa área, pode apresentar dificuldade na expressão da linguagem, mas ainda
consegue entender ou compreender as informações e conhecimentos recebidos
em uma leitura ou conversa. Isso ilustra como diferentes áreas do cérebro são
responsáveis por diferentes processos, num processo interdependente. A
dissociação é um conceito importante na neuropsicologia que se refere à separação
entre diferentes funções cognitivas, geralmente observada em pacientes com
danos cerebrais. Por exemplo, um paciente pode ter uma lesão na área de
Wernicke, que afeta a compreensão da linguagem, mas ainda consegue falar
fluentemente, embora suas frases não façam sentido. Este é um exemplo de
dissociação simples. A dissociação dupla pode ser observada quando dois
pacientes mostram padrões opostos de déficits: um com lesão na área de Broca
(dificuldade em desenvolver linguagem expressiva, mas compreende) e outro com
lesão na área de Wernicke (fala fluentemente, mas não compreende).
O isomorfismo propõe uma correspondência direta entre estruturas neurais
e funções cognitivas. Por exemplo, estudos de neuroimagem mostram que a
ativação do córtex visual é necessária para o processamento de estímulos visuais.
Quando olhamos para uma obra de arte, a área do córtex visual é ativada para
processar as cores e formas, ilustrando a correspondência entre a estrutura neural
e a função cognitiva de percepção visual.
Os sistemas funcionais, introduzidos por Alexander Luria, propõem uma

2
abordagem mais dinâmica e interconectada do funcionamento cerebral. Imagine
alguém tocando piano. Esta tarefa não depende apenas das áreas motoras do
cérebro, mas também das áreas auditivas (para ouvir a música), áreas visuais (para
ler a partitura) e áreas de memória (para recordar a peça). As diferentes regiões do
cérebro trabalham juntas como um sistema funcional para realizar a tarefa. A
análise sindrômica é uma metodologia utilizada na neuropsicologia para
compreender as inter-relações entre diferentes sintomas observados em pacientes
com lesões cerebrais. Por exemplo, um paciente com Alzheimer pode apresentar
um conjunto de sintomas como perda de memória, dificuldades de linguagem e
problemas de orientação espacial. A análise sindrômica ajuda a identificar esses
padrões de déficits cognitivos, inferindo quais áreas cerebrais podem estar
danificadas. Os fatores neuropsicológicos são os elementos que influenciam o
desempenho cognitivo e comportamental, incluindo a integridade estrutural e
funcional do cérebro, bem como fatores ambientais e psicológicos. Por exemplo,
uma criança que cresce em um ambiente enriquecido com livros, jogos educativos
e interações sociais positivas pode ter um desenvolvimento cognitivo melhor do que
uma criança que cresce em um ambiente negligente.
Esses fatores mostram como o ambiente e a biologia se interrelacionam para
influenciar o desenvolvimento cognitivo. Desta forma a neuropsicologia utiliza uma
série de conceitos e abordagens para investigar e entender as complexas relações
entre o cérebro e o comportamento. A modularidade, dissociação, isomorfismo,
sistemas funcionais, análise sindrômica e fatores neuropsicológicos são pilares
fundamentais que orientam tanto a pesquisa quanto a prática clínica neste campo,
permitindo uma compreensão mais detalhada e precisa das funções cognitivas e
suas bases neurais. Esses conceitos são ilustrados por exemplos do dia a dia,
desde a produção da fala e a compreensão da linguagem até o processamento
visual e o desenvolvimento cognitivo em diferentes ambientes.

TEMA 1 – MODULARIDADE COGNITIVA: UMA PERSPECTIVA


NEUROPSICOLÓGICA

1.1 Módulos interdependentes e suas funções no processo cognitivo

A modularidade cerebral é um conceito central na neurociência e na


psicologia cognitiva que propõe que o cérebro humano é composto por módulos
ou unidades funcionalmente especializadas. Esses módulos são responsáveis por
3
processar diferentes tipos de informações e desempenhar funções específicas,
contribuindo para a vasta gama de habilidades cognitivas que possuímos. A teoria
da modularidade cerebral sugere que o cérebro é organizado em diferentes
módulos, cada um especializado em determinadas tarefas cognitivas. Esses
módulos são, em essência, "blocos de construção" que trabalham de maneira
integrada, mas com graus variados de independência. Por exemplo: existem
módulos especializados em processamento visual, auditivo, linguagem, memória,
e assim por diante (Toren, 2021, p. 181-206). Este conceito foi inicialmente
proposto por Jerry Fodor em 1983 em seu livro The Modularity of Mind. Fodor
argumentava que certas funções mentais são realizadas por sistemas mentais
específicos e autônomos, chamados de módulos, que possuem características
como encapsulamento informacional (processam informações de maneira
independente de outros módulos) e especificidade funcional (são especializados
em um tipo de processamento) (Candiotto, 2008, p. 119-135).
A evidência para a modularidade cerebral vem de diversas áreas de estudo,
incluindo neuropsicologia, neuroimagem, e estudos de lesões cerebrais. Por
exemplo, pacientes com lesões específicas no cérebro frequentemente mostram
déficits em funções cognitivas específicas, sugerindo que essas funções eram
mediadas por áreas específicas do cérebro. Estudos de neuroimagem funcional,
como fMRI e PET scans, também revelam que diferentes tarefas cognitivas ativam
regiões cerebrais distintas. Um exemplo clássico é a área de Broca e a área de
Wernicke, que são associadas respectivamente à produção e compreensão da
linguagem. Lesões na área de Broca resultam em dificuldades na produção da
fala (afasia de Broca), enquanto lesões na área de Wernicke resultam em
dificuldades na compreensão da linguagem (afasia de Wernicke). As funções
cognitivas, que incluem percepção, memória, linguagem, atenção, e tomada de
decisão, são mediadas por diferentes módulos cerebrais que trabalham em
conjunto para produzir comportamentos complexos, por exemplo (Kandel et al.,
2023, p. 157-164).
A percepção visual, por exemplo, envolve vários módulos que processam
diferentes aspectos do estímulo visual, como cor, forma e movimento, que são
posteriormente integrados para formar uma percepção coesa do ambiente.
Memória: A memória também é um exemplo de modularidade, onde diferentes
tipos de memória (como a memória de trabalho, memória de longo prazo, e
memória episódica) são mediadas por diferentes estruturas cerebrais. O

4
hipocampo, por exemplo, é crucial para a formação de novas memórias
episódicas (Pimentel, 2020, 1-18).
A modularidade na linguagem é evidente nas distinções funcionais entre as
áreas de Broca e Wernicke. A área de Broca está envolvida na produção da fala
e na articulação gramatical, enquanto a área de Wernicke está envolvida na
compreensão e processamento da linguagem. A atenção é regulada por uma rede
de módulos que inclui regiões como o córtex pré-frontal e o córtex parietal, que
colaboram para direcionar e sustentar o foco atencional (Santos, 2021, p. 3-5;10-
11). A tomada de decisão envolve a integração de informações emocionais e
cognitivas, mediada por áreas como o córtex pré-frontal e a amígdala, que
modulam o comportamento baseado em recompensas e punições. Embora a
modularidade implique uma especialização de funções, a integração entre os
módulos é fundamental para o funcionamento cognitivo harmonioso. A
comunicação entre diferentes regiões cerebrais, através de redes neurais
complexas, permite que a informação processada por diferentes módulos seja
integrada para gerar respostas adaptativas ao ambiente (Kandel et al., 2023, p.
157-164).
A modularidade cerebral fornece uma estrutura poderosa para entender
como o cérebro humano realiza uma vasta gama de funções cognitivas. Essa
abordagem permite que os pesquisadores identifiquem as bases neurais de
comportamentos específicos e compreendam como diferentes processos
cognitivos são organizados e integrados no cérebro. Continuar explorando a
modularidade e a conectividade do cérebro é essencial para avançar nosso
conhecimento sobre a mente humana e para desenvolver intervenções eficazes
para distúrbios cognitivos (Candiotto, 2008, p. 119-135).

1.2 Um cérebro especializado, mas interdependente em sua neurobiologia

O cérebro humano é uma estrutura notável, tanto por sua especialização


quanto por sua interdependência neurobiológica. Cada região do cérebro
desempenha funções específicas, mas todas trabalham em conjunto para
possibilitar a complexidade do comportamento humano, a cognição e a emoção
(Santos & Godoy, 2021, p. 435-454). A especialização do cérebro é evidente em
áreas como o córtex motor, responsável pelo controle dos movimentos, e o córtex
visual, crucial para o processamento da informação visual. Essas regiões não
funcionam isoladamente; elas comunicam-se extensivamente com outras áreas

5
cerebrais. Por exemplo, o processamento de um estímulo visual não ocorre apenas
no córtex visual; ele envolve uma rede de áreas que incluem o córtex parietal e
temporal, que ajudam na interpretação e resposta a esses estímulos (Lopes et al.,
2020, p. 129-143).
Além das áreas corticais, estruturas subcorticais como o tálamo, os gânglios
da base e o cerebelo desempenham papéis essenciais. O tálamo, por exemplo,
atua como um centro de retransmissão de informações sensoriais, direcionando-as
para as áreas apropriadas do córtex. Os gânglios da base são cruciais para a
regulação de movimentos voluntários e aprendizagem de habilidades motoras,
enquanto o cerebelo é fundamental para a coordenação e precisão dos movimentos
(Kandel et al., 2023, p. 1224-1226).
A interdependência é uma característica vital da neurobiologia cerebral.
Redes neurais complexas conectam diferentes regiões, permitindo a integração de
funções sensoriais, motoras e cognitivas. O sistema límbico, que inclui estruturas
como o hipocampo e a amígdala, exemplifica essa interconexão. O hipocampo é
essencial para a formação de novas memórias, enquanto a amígdala está envolvida
na resposta emocional. A interação entre essas estruturas permite que as
experiências emocionais influenciem a formação e a evocação das memórias
(Gazzaniga & Heatherton, 2018, p. 405-445).
Além disso, o cérebro depende de uma comunicação eficaz entre seus
hemisférios. O corpo caloso, um grande feixe de fibras nervosas, facilita essa
comunicação, permitindo que os hemisférios direito e esquerdo trabalhem em
conjunto. Essa cooperação é fundamental para funções como a linguagem, que
envolve predominantemente o hemisfério esquerdo, mas também necessita de
contribuições do hemisfério direito para aspectos como a prosódia e a entonação.
Outro aspecto crucial da interdependência cerebral é a plasticidade neural, a
capacidade do cérebro de reorganizar-se em resposta a experiências, lesões ou
mudanças no ambiente. Essa plasticidade é mediada por interações complexas
entre neurônios e sinapses, permitindo que o cérebro se adapte e aprenda ao longo
da vida (Santos & Godoy, 2021, p. 435-454).
Em suma, o cérebro humano é uma máquina altamente especializada, com
regiões distintas dedicadas a funções específicas. No entanto, sua verdadeira
capacidade reside na interdependência de suas partes, que trabalham de maneira
coordenada e integrada para suportar o vasto espectro de habilidades e
comportamentos humanos. A neurobiologia do cérebro, portanto, é um

6
testemunho de como a especialização e a interdependência são essenciais para
a complexidade e a adaptabilidade da mente humana (Kandel et al., 2023, p.
1224-1226), pois todo o funcionamento do sistema nervoso traz construções de
circuitos que se conectam entre si para desenvolver inúmeras funções como
cognição, emoção e comportamento.

TEMA 2 – DISSOCIAÇÃO COGNITIVA: CASOS NOTÁVEIS E IMPLICAÇÕES


NEUROPSICOLÓGICAS

2.1 A Dissociação Cognitiva e os fenômenos psicológicos que afetam o


sistema nervoso

A dissociação cognitiva é um fenômeno psicológico onde ocorre uma


separação entre diferentes componentes da consciência, memória, identidade ou
percepção. Esse processo pode ser entendido como uma defesa mental frente a
eventos traumáticos ou estressantes, permitindo que a pessoa continue
funcionando enquanto bloqueia ou compartimentaliza memórias ou emoções
difíceis. A dissociação varia em intensidade, desde experiências cotidianas como
"perder-se" em um livro, até casos severos, como o transtorno dissociativo de
identidade. Um exemplo cotidiano de dissociação cognitiva ocorre quando uma
pessoa dirige para casa em uma rota familiar e, ao chegar, percebe que não se
lembra do trajeto. Esse fenômeno, conhecido como piloto automático, é uma
forma leve de dissociação onde a atenção consciente é desviada, mas as ações
automáticas continuam. Isso permite que a mente consciente se concentre em
outros pensamentos ou problemas, enquanto as habilidades motoras e de
navegação operam quase automaticamente (Silva, 2021).
Em casos mais severos, a dissociação pode resultar de traumas graves,
como abusos ou acidentes. Um caso notável é o de sobreviventes de guerra que
desenvolvem transtorno de estresse pós-traumático (TEPT). Essas pessoas
podem experimentar flashbacks vívidos ou perder segmentos de tempo, onde
suas memórias do trauma são tão intensas que causam uma separação da
realidade presente. Essa dissociação serve como um mecanismo de defesa para
minimizar a dor emocional associada às lembranças traumáticas. Outro exemplo
impactante é o transtorno dissociativo de identidade (TDI), anteriormente
conhecido como transtorno de personalidade múltipla. Indivíduos com TDI
possuem duas ou mais identidades ou estados de personalidade distintos que
7
controlam o comportamento em diferentes momentos (Cardoso et al, 2024, p. 1-
20). Cada identidade pode ter suas próprias memórias, comportamentos e até
mesmo alterações fisiológicas. Um caso histórico famoso é o de Shirley Mason,
que foi diagnosticada com TDI e cuja história foi retratada no livro e filme Sybil
(1976). Mason apresentava várias personalidades, cada uma com suas
características únicas, como diferenças de idade, gênero e interesses (Montanari,
2021, p. 269-273).
As implicações neuropsicológicas da dissociação cognitiva são profundas
e multifacetadas. Estudos de neuroimagem mostram que a dissociação pode
envolver alterações na atividade cerebral, particularmente em áreas relacionadas
à memória e à emoção, como o hipocampo e a amígdala. Em situações de
dissociação severa, pode haver uma desregulação na comunicação entre
diferentes partes do cérebro, contribuindo para a fragmentação da consciência e
da identidade (Silva, 2021).
A dissociação pode impactar significativamente a qualidade de vida.
Indivíduos com transtornos dissociativos muitas vezes enfrentam dificuldades em
manter relacionamentos, carreiras e em realizar tarefas diárias. O tratamento
geralmente envolve terapia cognitivo-comportamental, terapia de exposição e, em
alguns casos, medicação. A terapia busca ajudar os pacientes a integrarem suas
experiências dissociativas, processar traumas subjacentes e desenvolver
estratégias para lidar com o estresse. Por fim, a dissociação cognitiva é uma
resposta complexa do cérebro a eventos estressantes ou traumáticos, variando
de formas leves, encontradas no cotidiano, a formas graves, que requerem
intervenção clínica. Compreender e tratar a dissociação é crucial para melhorar a
saúde mental e o bem-estar de indivíduos afetados, permitindo-lhes levar uma
vida mais integrada e funcional (Reis & Ortega, 2024, p. 555-563), e diante disso,
tornar as atividades do dia a dia, mais funcionais e produtivas de acordo com o
desempenho e desenvolvimento de cada indivíduo.

2.2 Aspectos neuropsicológicos da memória relacionados a dissociação


cognitiva

A memória é um dos aspectos mais fascinantes e complexos do


funcionamento cerebral, desempenhando um papel crucial em nossa vida
cotidiana. Ela não apenas nos permite reter informações essenciais, como
também molda nossas experiências e identidade. No entanto, um fenômeno
8
intrigante relacionado à memória é a dissociação cognitiva, que pode ser
observada em diversas situações cotidianas. Dissociação cognitiva refere-se a um
estado em que certos pensamentos, memórias ou percepções se separam da
consciência habitual (Reis & Ortega, 2024). Imagine um cenário em que você está
dirigindo para o trabalho. Após estacionar o carro, percebe que não se lembra de
detalhes do trajeto. Você se lembra de ter saído de casa e de ter chegado ao
destino, mas os eventos entre esses pontos estão nebulosos. Este é um exemplo
clássico de dissociação cognitiva. Durante a condução, sua mente estava tão
envolvida em outros pensamentos que o ato de dirigir foi realizado de maneira
automática, sem a atenção consciente plena. Outro exemplo cotidiano pode ser
encontrado no fenômeno de "perder-se" em um livro ou filme. Você está tão
imerso na história que perde a noção do tempo e do ambiente ao seu redor. Sua
memória para os eventos imediatos pode estar comprometida, pois sua atenção
está focada exclusivamente na narrativa. Esse tipo de dissociação pode ser
benéfico, proporcionando um alívio temporário do estresse e uma forma de
escapismo saudável (Silva, 2021).
No entanto, a dissociação cognitiva também pode ter implicações mais
graves, especialmente quando ocorre como mecanismo de defesa em resposta a
traumas. Por exemplo, uma pessoa que sofreu um acidente grave pode ter
amnésia parcial ou total do evento traumático. O cérebro, em um esforço para
proteger o indivíduo da dor emocional, dissocia as memórias do trauma da
consciência. Embora isso possa ajudar a pessoa a lidar com a situação imediata,
pode levar a complicações psicológicas a longo prazo, como transtorno de
estresse pós-traumático (TEPT). As funções neuropsicológicas subjacentes à
memória e à dissociação cognitiva envolvem várias áreas do cérebro, como o
hipocampo, que é crucial para a formação de novas memórias, e a amígdala, que
está envolvida nas respostas emocionais. Durante eventos traumáticos, o
hipocampo pode reduzir sua atividade, enquanto a amígdala se torna hiperativa.
Isso pode resultar em memórias fragmentadas e dissociadas (Reis & Ortega,
2024; Cardoso et al, 2024, p. 1-20).
O uso cotidiano de smartphones também ilustra um aspecto interessante
da dissociação cognitiva. Com a facilidade de acesso à informação, muitas vezes
confiamos nos dispositivos para armazenar dados importantes, como números de
telefone, compromissos e listas de tarefas. Essa externalização da memória pode
levar a uma dissociação entre nosso conhecimento imediato e a dependência de

9
tecnologia para relembrar informações. Embora isso possa parecer prático, pode
também reduzir nossa capacidade de reter e recordar informações sem
assistência (Alves et al, 2024, p. 82-104). Em resumo, a dissociação cognitiva é
um aspecto fascinante da neuropsicologia da memória que se manifesta de várias
maneiras em nosso dia a dia. Seja ao dirigir perdermo-nos em uma atividade
envolvente, ou ao utilizarmos a tecnologia para lembrar de tarefas, esses
exemplos cotidianos ilustram como nossa mente pode funcionar de forma
automatizada ou fragmentada, refletindo a complexidade dos processos
neuropsicológicos subjacentes.

TEMA 3 – ISOMORFISMO ESTRUTURAL: MAPEANDO A RELAÇÃO ENTRE


CÉREBRO E COMPORTAMENTO

3.1 Bases teóricas e epistemológicas a respeito do mapeamento cerebral:


localizacionismo e unitarismo

O estudo do mapeamento cerebral tem sido um campo de intenso debate


e desenvolvimento ao longo da história da neurociência, fundamentado em
diversas bases teóricas e epistemológicas. Dois dos principais paradigmas que
moldaram a compreensão sobre a organização funcional do cérebro são o
localizacionismo e o unitarismo (De Toni et al., 2005, p. 47-55).
O localizacionismo, também conhecido como teoria da localização das
funções cerebrais, propõe que funções cognitivas específicas são atribuídas a
regiões determinadas do cérebro. Esta abordagem ganhou força no século XIX
com as contribuições de cientistas como Franz Joseph Gall, que desenvolveu a
frenologia, uma teoria que associava traços de personalidade a áreas específicas
do crânio. Embora a frenologia tenha sido desacreditada, a ideia de que
determinadas áreas do cérebro são responsáveis por funções específicas
persistiu. Um dos marcos fundamentais para o localizacionismo foi o trabalho de
Paul Broca, que, ao estudar pacientes com afasia, identificou uma área no lobo
frontal esquerdo (posteriormente conhecida como área de Broca) associada à
produção da fala. De forma semelhante, Carl Wernicke descobriu uma região no
lobo temporal esquerdo (área de Wernicke) ligada à compreensão da linguagem.
Essas descobertas reforçaram a ideia de que funções cognitivas podem ser
mapeadas em locais específicos do cérebro (Kandel et al., 2023; Santos, 2021, p.
3-5;10-11).
10
Em contrapartida, o unitarismo, ou holismo, surge como uma resposta
crítica ao localizacionismo, enfatizando a interconectividade e a interdependência
das áreas cerebrais na realização das funções cognitivas. Os defensores dessa
abordagem argumentam que o cérebro funciona como uma unidade integrada, e
não como um conjunto de partes independentes. Entre os pioneiros desta
perspectiva está Karl Lashley (Strapasson & Neto, 2021), que, através de seus
experimentos com ratos em labirintos, no qual os mamíferos roedores aprendiam
a fazer discriminações e generalizações diante de situações de reforço positivo e
punições, diante de alimentos e choque elétrico, concluiu-se que a memória não
estava localizada em uma região específica, mas distribuída de maneira difusa
pelo córtex. Essa conclusão levou à formulação da lei da ação em massa, que
sugere que o desempenho cognitivo é uma função do córtex como um todo, e não
de áreas isoladas.
Adicionando a essa discussão, John Hughlings Jackson e Pierre Flourens
também foram figuras cruciais no desenvolvimento do unitarismo. Hughlings
Jackson, um neurologista britânico, propôs que o cérebro funciona através de uma
hierarquia de centros de controle, com funções complexas envolvendo a
integração de várias regiões cerebrais. Ele sugeriu que, embora certas funções
possam estar localizadas em áreas específicas, o funcionamento do cérebro
depende da interação dinâmica entre essas áreas, enfatizando uma visão mais
integrativa do processamento neural. Pierre Flourens, um fisiologista francês,
realizou experimentos pioneiros com lesões cerebrais em animais, nos quais
tirava parte do córtex cerebral de aves e anfíbios, e observada o comportamento
dos animais, concluindo que funções cerebrais não podiam ser atribuídas a áreas
isoladas, mas eram resultado da ação do cérebro como um todo (Lins et al, 2021).
Ele observou que, após lesões cerebrais, os animais frequentemente conseguiam
recuperar funções, indicando uma plasticidade e uma capacidade do cérebro de
se reorganizar funcionalmente. Essa perspectiva holística foi uma das bases para
a crítica ao localizacionismo estrito.
Na contemporaneidade, as bases teóricas do mapeamento cerebral
frequentemente combinam elementos do localizacionismo e do unitarismo,
reconhecendo que, enquanto certas funções podem ser predominantemente
associadas a áreas específicas, a complexidade das interações neuronais e as
redes funcionais integradas desempenham um papel crucial. A neuroimagem
funcional, como a ressonância magnética funcional (fMRI) e a tomografia por

11
emissão de pósitrons (PET), tem fornecido evidências de que atividades
cognitivas envolvem redes distribuídas pelo cérebro, corroborando a perspectiva
unitarista. No entanto, essas técnicas também identificam a ativação de regiões
específicas durante tarefas particulares, dando suporte ao localizacionismo (Lins
et al., 2021).
Em síntese, o debate entre localizacionismo e unitarismo no mapeamento
cerebral representa uma rica interseção de abordagens teóricas e
epistemológicas. Ambas as perspectivas contribuíram significativamente para o
avanço da neurociência, e a integração dessas visões continua a aprofundar
nossa compreensão sobre a complexa arquitetura funcional do cérebro humano.
A evolução das técnicas de neuroimagem e a crescente sofisticação das
metodologias de pesquisa indicam que futuras descobertas continuarão a refinar
e a expandir nosso entendimento sobre a organização cerebral, navegando entre
os conceitos de especificidade local e interconexão global (Kandel et al., 2023, p.
1224-1226) e com isso ter a possibilidade de explorar mais e mais o
funcionamento do sistema nervoso e suas diversas estruturas e funcionalidades.

3.2 Isomorfismo cerebral: neurobiologia junto aos processos de


neuroimagem

A neurobiologia, que estuda a base biológica dos processos neurais,


beneficia-se enormemente das tecnologias de neuroimagem. Métodos como a
ressonância magnética funcional (fMRI), a tomografia por emissão de pósitrons
(PET) e a magnetoencefalografia (MEG) possibilitam a visualização de áreas
ativas do cérebro durante a realização de diversas tarefas cognitivas. Essas
técnicas revelam como diferentes regiões cerebrais se comunicam e se conectam
para produzir pensamentos, emoções e comportamentos (Jamadar et al., 2021).
Por exemplo, a fMRI mede as mudanças no fluxo sanguíneo cerebral associadas
à atividade neural, fornecendo imagens detalhadas que indicam quais áreas do
cérebro estão envolvidas em funções específicas, como a memória, a linguagem
ou o processamento sensorial. A PET, por sua vez, utiliza traçadores radioativos
para mapear processos metabólicos no cérebro, oferecendo insights sobre a
atividade neuroquímica. Essas técnicas têm confirmado a existência de padrões
de isomorfismo cerebral, mostrando que certas funções mentais correspondem
consistentemente a atividades em áreas específicas do cérebro. Por exemplo, o
córtex pré-frontal está fortemente associado ao planejamento e à tomada de
12
decisões, enquanto o hipocampo está ligado à formação de memórias (Lins et al.,
2021).
Os estudos de neuroimagem têm demonstrado como o isomorfismo
cerebral pode variar entre indivíduos, revelando diferenças na ativação cerebral
que podem estar associadas a diferentes habilidades cognitivas ou
predisposições a transtornos mentais. Isso não apenas amplia nosso
entendimento sobre a diversidade da função cerebral, mas também aponta para
potenciais intervenções terapêuticas personalizadas (Jamadar et al., 2021, p.
267).
A interação entre neurobiologia e neuroimagem também tem implicações
significativas para a compreensão de como o cérebro se adapta e se reorganiza
em resposta a lesões ou doenças, um fenômeno conhecido como plasticidade
cerebral. A capacidade do cérebro de reconfigurar suas conexões para
compensar áreas danificadas é crucial para a recuperação funcional, e a
neuroimagem permite monitorar essas mudanças de forma detalhada (Valadão
et., 2023, p. 19178-19191).
Em relação ao isomorfismo cerebral, este é um princípio fundamental que
guia muitas pesquisas em neurociência. As técnicas de neuroimagem
desempenham um papel essencial na elucidação da relação entre estrutura
cerebral e função, permitindo avanços significativos na compreensão de como o
cérebro humano opera em saúde e doença. Esses avanços, por sua vez, abrem
caminho para novas abordagens no diagnóstico e tratamento de transtornos
neurológicos e psiquiátricos, reforçando a importância da neuroimagem na
pesquisa e prática clínica (Mendonça, 2022). Essa interação entre neurobiologia
e neuroimagem não apenas amplia nosso entendimento da estrutura cerebral e
suas funções, mas também está revolucionando a forma como abordamos
diagnósticos e tratamentos neurológicos e psiquiátricos. Com a evolução contínua
das técnicas de imagem cerebral, como a ressonância magnética de alta
resolução e novos métodos de análise de dados, estamos cada vez mais aptos a
explorar nuances e complexidades no funcionamento do cérebro humano.
Por exemplo, estudos recentes (Cardoso et al, 2024, p. 1-20; Jamadar,
2021, p. 267) têm explorado como diferenças individuais na conectividade
cerebral podem influenciar o desenvolvimento de transtornos neuropsiquiátricos,
como autismo e esquizofrenia. A capacidade de detectar padrões específicos de
conectividade anormal pode ajudar não só no diagnóstico precoce, mas também

13
na personalização de terapias para melhorar a qualidade de vida dos pacientes.
A combinação de técnicas de neuroimagem com avanços em genética e biologia
molecular está abrindo novas perspectivas para a compreensão das bases
biológicas de doenças cerebrais complexas. Por exemplo, a identificação de
variantes genéticas associadas a certas condições neurológicas pode ser
correlacionada com padrões de atividade cerebral observados em imagens,
proporcionando uma visão mais abrangente das causas e mecanismos
subjacentes dessas doenças (Kandel, 2023).
No campo da neurociência cognitiva, o isomorfismo cerebral e as técnicas
de neuroimagem têm contribuído para desvendar como processos mentais
complexos, como tomada de decisão, aprendizagem e emoções, são
representados e organizados em diferentes regiões do cérebro. Estudos
longitudinalmente integrados também têm mostrado como o cérebro humano se
adapta ao longo da vida, respondendo a experiências, treinamento cognitivo e
mudanças ambientais (Jamadar, 2021). À medida que avançamos, a colaboração
entre neurobiologia e neuroimagem promete novas descobertas e inovações
significativas. O desenvolvimento de técnicas mais sofisticadas e a integração de
abordagens multidisciplinares continuam a expandir nossas fronteiras de
conhecimento sobre o cérebro humano, permitindo-nos não apenas compreender
melhor sua complexidade, mas também oferecer esperança para novas
intervenções terapêuticas e estratégias de tratamento mais eficazes.

TEMA 4 – ANÁLISE SINDRÔMICA EM NEUROPSICOLOGIA: ABORDANDO


COMPLEXIDADES DIAGNÓSTICAS

4.1 O processo da análise sindrômica em Neuropsicologia

A análise sindrômica em Neuropsicologia é um processo essencial para


compreender as complexidades das alterações cognitivas e comportamentais
observadas em diferentes condições neurológicas. Esse método envolve a
identificação e o agrupamento de sintomas específicos que frequentemente
ocorrem juntos, formando padrões característicos associados a determinadas
síndromes neuropsicológicas (Lovalho, 2023). Um exemplo prático disso é a
síndrome de Gerstmann (Morais et al., 2022, p. 18845-18854), que inclui uma
combinação de sintomas como discalculia (dificuldade com operações
matemáticas), agrafia (dificuldade em escrever), desorientação direcional
14
(dificuldade em distinguir direita e esquerda) e apraxia (dificuldade em executar
movimentos voluntários aprendidos). Quando um paciente apresenta esses
sintomas em conjunto, isso sugere a presença dessa síndrome específica,
facilitando o diagnóstico e o planejamento do tratamento.
Outro exemplo é a síndrome de Capgras, na qual o paciente desenvolve a
crença delirante de que pessoas próximas foram substituídas por impostores.
Além dessa crença, podem estar presentes outros sintomas como ansiedade e
paranoia. A análise sindrômica ajuda a reconhecer essa combinação específica
de sintomas como característica distintiva dessa síndrome, diferenciando-a de
outras condições psiquiátricas com sintomas similares (Castro et al, 2023, p.
21274-21280).
No contexto clínico, a análise sindrômica também é aplicada para entender
e diagnosticar condições como o Transtorno do Déficit de Atenção e
Hiperatividade (TDAH), que envolve uma combinação de sintomas como
desatenção, impulsividade e hiperatividade. Identificar esses padrões de sintomas
é fundamental para direcionar intervenções terapêuticas adequadas e
personalizadas para cada paciente (Souza et al., 2021, p. 197-213). A análise
sindrômica em Neuropsicologia é um método crucial que permite aos profissionais
de saúde mental e neuropsicólogos agrupar e interpretar sintomas específicos,
facilitando o diagnóstico preciso e o desenvolvimento de estratégias de
intervenção eficazes para melhorar a qualidade de vida dos pacientes. Além de
facilitar o diagnóstico e o planejamento do tratamento, a análise sindrômica em
Neuropsicologia também desempenha um papel fundamental na pesquisa
científica e no avanço do conhecimento sobre as bases neurobiológicas das
condições neuropsicológicas (Castro et al, 2023, p. 21274-21280).
Ao identificar padrões consistentes de sintomas em grupos de pacientes,
os pesquisadores podem investigar correlações com áreas específicas do cérebro
afetadas, variações genéticas subjacentes e respostas a diferentes formas de
intervenção terapêutica. Por exemplo, em estudos sobre a Doença de Alzheimer,
a análise sindrômica tem sido crucial para identificar estágios específicos da
progressão da doença com base em padrões de comprometimento cognitivo,
como perda de memória episódica, dificuldades na linguagem e deterioração das
habilidades visuoespaciais (Reis et al, 2023, p. 555-563). Essa abordagem não
apenas ajuda na compreensão dos mecanismos da doença, mas também orienta
a pesquisa de novos biomarcadores e terapias direcionadas. A análise sindrômica

15
permite uma abordagem mais personalizada e precisa no tratamento de
pacientes. Ao reconhecer padrões individuais de sintomas, os profissionais podem
adaptar intervenções terapêuticas para abordar as necessidades específicas de
cada pessoa, maximizando os resultados e minimizando os efeitos adversos.
No contexto educacional, a análise sindrômica também é aplicada para
compreender as dificuldades de aprendizagem em crianças e adolescentes, como
no caso do Transtorno do Espectro Autista (TEA), onde a identificação de padrões
específicos de comportamento social, comunicação e interesses restritos pode
guiar a criação de programas educacionais e terapias comportamentais
individualizadas. Portanto, a análise sindrômica não se limita apenas ao
diagnóstico clínico, mas abrange uma variedade de aplicações que são essenciais
para a compreensão, diagnóstico e tratamento das condições neuropsicológicas,
melhorando assim a qualidade de vida dos indivíduos afetados e impulsionando
avanços na área da Neuropsicologia (Morais, 2023), possibilitando assim,
discussões mais aprofundadas nos estudos sobre o sistema nervoso e suas
inúmeras funcionalidades relacionadas aos processos biológicos gerais.

4.2 Parâmetros e estruturas diagnósticas diante de aspectos


neuropsicológicos das síndromes

No estudo neuropsicológico das síndromes, a análise dos parâmetros e


estruturas diagnósticas desempenha um papel crucial na compreensão dos
aspectos cognitivos e comportamentais dos pacientes. Estes parâmetros referem-
se aos critérios específicos utilizados para identificar e classificar as síndromes,
enquanto as estruturas diagnósticas são os modelos teóricos que orientam os
profissionais na avaliação e interpretação dos sintomas observados. Um exemplo
claro de parâmetro diagnóstico é encontrado na síndrome de Asperger, que
anteriormente era categorizada como um transtorno do espectro autista (Lovalho
et al. 2023). Os critérios diagnósticos incluem déficits persistentes na interação
social e padrões restritos e repetitivos de comportamento. A utilização desses
parâmetros ajuda os profissionais a distinguirem a síndrome de Asperger de
outras condições neuropsicológicas que possam apresentar sintomas
semelhantes.
Já as estruturas diagnósticas oferecem um arcabouço teórico para
entender como os diferentes sintomas se inter-relacionam e como eles podem
variar em intensidade e manifestação ao longo do tempo. Por exemplo: o modelo
16
bioecológico de Bronfenbrenner é frequentemente utilizado na análise das
interações complexas entre fatores genéticos, ambientais e individuais que
influenciam o desenvolvimento neuropsicológico das crianças com síndromes
como a síndrome de Down. Além disso, a avaliação neuropsicológica utiliza testes
padronizados para medir habilidades cognitivas específicas, como memória,
atenção e habilidades visuoespaciais. Estes testes fornecem dados quantitativos
que são essenciais para diagnosticar e monitorar o progresso de indivíduos com
síndromes como o Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) ou
a Síndrome de Williams, esta síndrome por exemplo, é classificada como uma
doença genética rara que afeta a aprendizagem e o desenvolvimento psicomotor.
A combinação de parâmetros e estruturas diagnósticas no contexto
neuropsicológico das síndromes permite aos profissionais de saúde mental uma
compreensão mais profunda e precisa das necessidades individuais de cada
paciente, facilitando o desenvolvimento de planos de intervenção personalizados
e eficazes (Souza et al., 2021, p. 197-213).
Essa abordagem integrada não só facilita o diagnóstico preciso, mas
também orienta a implementação de intervenções terapêuticas e educacionais
adequadas. Por exemplo, ao identificar padrões específicos de déficits cognitivos
em crianças com síndrome de Down, os profissionais podem adaptar programas
educacionais para maximizar o potencial de aprendizagem desses indivíduos
(Loiola, 2020, p. 378-399). Além disso, as estruturas diagnósticas permitem uma
compreensão mais geral das síndromes, considerando não apenas os aspectos
neurobiológicos, mas também os contextos sociais e emocionais dos pacientes.
Isso é crucial para o desenvolvimento de intervenções que promovam não apenas
o desenvolvimento cognitivo, mas também o bem-estar emocional e a inclusão
social dos indivíduos afetados. Outro exemplo é a síndrome de Tourette, onde os
parâmetros diagnósticos envolvem a presença de tiques motores e vocais
persistentes (Duarte, 2022, p. 581-593).
As estruturas diagnósticas associadas ajudam a distinguir entre diferentes
manifestações dos tiques e a entender as comorbidades frequentemente
associadas, como transtornos de ansiedade ou déficits de atenção. Portanto, a
aplicação rigorosa de parâmetros e estruturas diagnósticas no estudo das
síndromes neuropsicológicas não apenas informa o diagnóstico e o tratamento,
mas também contribui para o avanço contínuo da pesquisa científica e para a
melhoria da qualidade de vida dos indivíduos afetados e suas famílias. A evolução

17
desses métodos diagnósticos continua a ser fundamental para o campo da
neuropsicologia, oferecendo esperança e apoio às comunidades que lidam com
essas condições complexas.

TEMA 5 – FATORES NEUROPSICOLÓGICOS: INFLUÊNCIAS E APLICAÇÕES


PRÁTICAS NA AVALIAÇÃO COGNITIVA E COMPORTAMENTAL

5.1 A relação entre o cérebro e o comportamento: principais demandas


trabalhadas no contexto da avaliação neuropsicológica

Um dos principais objetivos da avaliação neuropsicológica é identificar


padrões específicos de funcionamento cerebral que podem estar relacionados a
dificuldades comportamentais. Por exemplo, um paciente que apresenta
dificuldades na atenção e concentração pode passar por testes que avaliam suas
capacidades cognitivas, como testes de atenção sustentada ou de memória de
trabalho (Ortiz et al., 2023). Os resultados desses testes podem revelar áreas
específicas do cérebro que estão subdesenvolvidas ou que sofrem de disfunções,
ajudando assim a orientar intervenções terapêuticas adequadas. Além disso, a
avaliação neuropsicológica também é crucial para diagnosticar condições
neurológicas e psiquiátricas. Por exemplo, pacientes com suspeita de demência
podem ser submetidos a uma bateria de testes neuropsicológicos que avaliam
diversas funções cognitivas, como memória, linguagem, e funções executivas.
Esses testes ajudam não apenas a diagnosticar a doença, mas também a
monitorar sua progressão ao longo do tempo e ajustar estratégias de tratamento
(Fuentes et al., 2014).
Outro aspecto importante da avaliação neuropsicológica é sua aplicação
em contextos forenses e educacionais. Por exemplo, em casos judiciais, pode ser
necessária uma avaliação detalhada das funções cognitivas de um indivíduo para
determinar sua competência para julgamento. Da mesma forma, no ambiente
educacional, a avaliação neuropsicológica pode ajudar a identificar crianças com
dificuldades de aprendizagem específicas, como dislexia ou discalculia,
permitindo a implementação de intervenções educacionais personalizadas
(Fuentes et al., 2014)
A avaliação neuropsicológica desvenda a complexa relação entre o cérebro
e o comportamento ao utilizar métodos científicos para investigar as funções
cerebrais subjacentes a diferentes comportamentos e habilidades cognitivas. Com
18
base em evidências sólidas coletadas durante essas avaliações, profissionais de
saúde mental e educadores podem oferecer intervenções personalizadas que
melhoram significativamente a qualidade de vida dos pacientes e alunos. Essa
abordagem detalhada da relação entre o cérebro e o comportamento na avaliação
neuropsicológica também se estende à compreensão de como lesões cerebrais,
traumas e doenças neurológicas impactam o funcionamento cotidiano das
pessoas. Por exemplo, indivíduos que sofreram um acidente vascular cerebral
(AVC) podem passar por uma avaliação neuropsicológica para determinar quais
habilidades foram afetadas, como a linguagem, a coordenação motora ou a
memória (Malloy-Diniz, 2018).
Os resultados dessas avaliações não só ajudam a formular um diagnóstico
preciso, mas também a desenvolver planos de reabilitação personalizados. Para
pacientes com lesões cerebrais, a reabilitação neuropsicológica pode incluir
exercícios específicos projetados para estimular áreas do cérebro que foram
prejudicadas, facilitando a recuperação funcional e a adaptação a novas formas
de funcionamento (Malloy-Diniz, 2018). Diante disso, a avaliação neuropsicológica
desempenha um papel fundamental na pesquisa científica, fornecendo dados
valiosos sobre como diferentes condições neurológicas afetam o cérebro e o
comportamento ao longo do tempo. Essas informações são essenciais para o
desenvolvimento de novas terapias e intervenções que visam melhorar a
qualidade de vida dos pacientes (Fuentes, 2018).
No contexto clínico, a avaliação neuropsicológica também permite uma
compreensão mais profunda das necessidades individuais dos pacientes, guiando
a prescrição de medicamentos e terapias psicológicas que são mais eficazes para
cada caso específico. Por exemplo, pacientes com transtornos do espectro autista
podem se beneficiar de avaliações neuropsicológicas para identificar padrões
cognitivos únicos e adaptar intervenções comportamentais que melhor atendam
às suas necessidades (Malloy-Diniz, 2018). Em síntese, a avaliação
neuropsicológica não só ilumina a complexa interação entre o cérebro e o
comportamento humano, mas também oferece insights cruciais para o
desenvolvimento de estratégias terapêuticas personalizadas, aprimorando assim
a qualidade de vida e o bem-estar de indivíduos afetados por condições
neurológicas diversas.

19
5.2 Processo de avaliação neuropsicológica e seus principais componentes

A avaliação neuropsicológica é um processo complexo e meticuloso


utilizado para investigar o funcionamento cognitivo de indivíduos de todas as
idades. Esse tipo de avaliação é essencial para compreender como diferentes
áreas do cérebro estão contribuindo para o comportamento, as habilidades
cognitivas e emocionais de uma pessoa. Um dos componentes fundamentais
desse processo é a anamnese detalhada, onde o avaliador coleta informações
sobre o histórico médico, desenvolvimento pessoal e familiar do paciente
(Marques & Melo, 2023, p. 2022). Esses dados são cruciais para contextualizar
quaisquer achados na avaliação e para entender possíveis fatores de risco ou
influências ambientais. Durante a avaliação propriamente dita, uma variedade de
testes neuropsicológicos pode ser administrada. Por exemplo, testes de memória
como o Teste de Memória de Rivermead são usados para avaliar diferentes tipos
de memória, como memória de curto prazo e memória episódica. Esses testes
ajudam a identificar padrões de funcionamento cognitivo específicos e possíveis
áreas de déficit (Silva et al., 2007, p. 492-497).
Além dos testes de memória, outros testes avaliam funções executivas,
como o Teste de Stroop, que mede a capacidade de inibição cognitiva e
flexibilidade mental. Essas funções são essenciais para o planejamento,
organização e resolução de problemas no dia a dia. A avaliação neuropsicológica
também pode incluir testes de linguagem, como a Boston Naming Test (Miotto et
al., 2010, p. 279-282), que avalia a capacidade do paciente de nomear objetos, e
testes visuoespaciais, como o teste de Cópia de Figuras Geométricas Complexas,
que examina a habilidade do paciente em copiar figuras complexas (Malloy-Diniz,
2018). É importante ressaltar que a interpretação dos resultados desses testes
requer habilidades especializadas por parte do neuropsicólogo, pois os dados
coletados são integrados com as informações da anamnese e observações
clínicas para formar um diagnóstico preciso e um plano de intervenção adequado.
Por fim, o relatório final da avaliação neuropsicológica não apenas
descreve os resultados dos testes, mas também fornece recomendações
específicas para ajudar o paciente a lidar com suas dificuldades cognitivas e
melhorar sua qualidade de vida. Isso pode incluir sugestões para estratégias
compensatórias, encaminhamentos para outros profissionais de saúde ou
orientações para familiares e cuidadores. Desta forma, considera-se o processo

20
de avaliação neuropsicológica é um componente essencial no diagnóstico e
manejo de uma variedade de condições neurológicas e psicológicas, oferecendo
uma compreensão detalhada das capacidades cognitivas de um indivíduo e
orientando intervenções personalizadas para otimizar seu funcionamento no dia a
dia.

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