TÓPICO 1 —
UNIDADE 1
HEMATOPOESE
1 INTRODUÇÃO
Caro acadêmico, iniciaremos mais uma disciplina clínica, e, nela,
conheceremos as teorias e os parâmetros práticos desse mundo incrível que é a
Hematologia Clínica.
Nessa especialidade da análise clínica, o sangue e os órgãos, como
baço, gânglios linfáticos, linfonodos e a própria medula óssea, são analisados
por profissionais com amplo conhecimento em hematologia, sendo de extrema
importância estarem capacitados a realizar pesquisas e diagnósticos de doenças
relacionadas ao sangue.
Um analista clínico carrega as responsabilidades de analisar e de com-
preender doenças que possam interferir em parâmetros de exames sanguíne-
os e afetar órgãos hematopoiéticos, como citado, a medula óssea, que, como
veremos no decorrer da unidade, é a responsável pela produção de hemácias,
leucócitos e plaquetas.
Acadêmico, acreditamos que, em algum momento, você já ouviu falar
do exame de hemograma completo, pois bem, ele apresenta esse nome por
investigar os três parâmetros hematológicos: hemácias, leucócitos e plaquetas.
Através do hemograma completo e de outros exames de sangue complementares,
o profissional analista clínico consegue investigar alguma alteração e descobrir
falhas na produção de células sanguíneas etc. Exames como esse e como outros que
abordaremos são analisados no setor de hematologia clínica, por um profissional
capacitado e, muitas vezes, com especialização na área.
Neste tópico, serão apresentadas a produção e a liberação das células,
em especial, os glóbulos vermelhos, citando o órgão de origem e o crescimento
celular. Juntos, compreenderemos a histologia desses órgãos, que participam da
hematopoese. Você já ouviu ou parou para entender a importância do exame de
mielograma? E o reflexo que ele causa para uma boa interpretação do exame de
sangue periférico? Pois então, prepare-se para embarcar nesse primeiro contato
com a hematologia clínica.
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UNIDADE 1 — INTRODUÇÃO AO ESTUDO DA HEMATOLOGIA CLÍNICA: SURGIMENTO, ALTERAÇÕES
MORFOLÓGICAS/CITOLÓGICAS E TÉCNICAS LABORATORIAIS APLICADAS À SÉRIE VERMELHA
2 PRODUÇÃO DE CÉLULAS SANGUÍNEAS: O SANGUE
E A HEMATOPOIESE
Primeiramente, para entrarmos nesse estudo clínico, precisamos
relembrar de alguns conceitos abordados na disciplina básica de Hematologia.
Então, vamos lá!
Começaremos a falar do sangue e dos constituintes, você lembra o que é
sangue? Bom, o sangue é um tecido conjuntivo fluído, que apresenta uma enorme
composição de matriz extracelular, que circula por todo corpo através dos vasos
sanguíneos (MARTY; MARTY, 2015).
O sangue tem inúmeras funções, as quais estão associadas aos
componentes, como o transporte de oxigênio, que vai dos pulmões aos tecidos, e
o CO2, que vai dos tecidos aos pulmões. Tem função de transporte dos nutrientes,
principalmente, daqueles que são absorvidos pelo trato gastrointestinal, que vão
para o fígado, e aqueles do fígado, que vão para os demais tecidos, interligando o
transporte de hormônios, medicamentos e excreção de resíduos sanguíneos. Nesse
sistema, concentram-se a defesa do organismo e a presença de imunoglobulinas
e proteínas. Nele, encontramos as plaquetas que atuam na hemostasia e na
reconstituição endotelial. Observam-se células capazes de regular a manutenção
do pH, participando do equilíbrio ácido-base e da manutenção do equilíbrio
iônico mediante a transferência de íons, assim como da manutenção da hidratação
residual e da temperatura corporal (HOFFBRAND, 2013).
FIGURA 1 – ESQUEMA DO SISTEMA CIRCULATÓRIO
FONTE: <[Link] Acesso em: 11 jan. 2021.
Qual o volume sanguíneo presente no corpo humano? Já parou para
pensar? O volume do sangue circulante é denominado de volemia, e esse termo
corresponde, aproximadamente, 75ml/kg de volume (SAKABE et al., 2004).
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TÓPICO 1 — HEMATOPOESE
Pensando em um paciente que pesa 60kg, esse mesmo paciente teria, no
seu volume sanguíneo, um total de 4,5L de sangue. Entrando rapidamente neste
assunto de volume sanguíneo, temos que entender os termos técnicos utilizados
para quando o paciente apresenta um quadro de hemorragia, problemas renais,
ou, até mesmo, um quadro de desidratação moderado à grave, que perde um
pouco do volume sanguíneo. Esse termo, dentro das análises hematológicas, é
interpretado como hipovolemia (SAKABE et al., 2004).
Quando o paciente entra em uma perda de 70-80% do sangue, pode
apresentar um quadro de choque hipovolêmico, geralmente, ocasionado por
um problema cardíaco, devido à diminuição do volume sanguíneo, como citado
anteriormente, podendo ser hemorrágico. Em algumas situações, pacientes
que apresentam sangramentos espontâneos, como é o caso das coagulopatias –
hemofilias, e não hemorrágicos, que ocorrem por uma perda sanguínea pelo trato
gastrointestinal, pelos rins, por uma pancreatite aguda etc.
Na hipervolemia, ocorre um aumento do fluxo sanguíneo, gerando
excesso, que pode se dar pela absorção de grandes quantidades de líquidos,
ocorrendo um desequilíbrio hidroeletrolítico (ácido-base), geralmente, ocasio-
nado pela má administração de medicamentos ou em casos raros de cirurgias
(SAKABE et al., 2004).
Analisando o exposto a seguir, notam-se os volumes totais sanguíneos.
QUADRO 1 – VALORES MÉDIOS DE VOLUMES SANGUÍNEOS EM HOMENS E MULHERES
Homem (75 Kg de peso) Mulher (55 Kg de peso)
Volume de eritrócitos 2.120 ml Volume de eritrócitos 1.390 ml
Volume de plasma 2.560 ml Volume de plasma 2.010 ml
Volume de sangue total 4.680 ml Volume de sangue total 3.400 ml
FONTE: <[Link]
volume-do-sangue/20318>. Acesso em: 11 jan. 2021.
Ao analisarmos o sangue macroscopicamente, depois de passar por um
processo de centrifugação, observa-se um desmembramento (separação) da
mistura heterogênica que é esse tecido. Ocorrendo a separação, surgem dois
principais componentes.
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UNIDADE 1 — INTRODUÇÃO AO ESTUDO DA HEMATOLOGIA CLÍNICA: SURGIMENTO, ALTERAÇÕES
MORFOLÓGICAS/CITOLÓGICAS E TÉCNICAS LABORATORIAIS APLICADAS À SÉRIE VERMELHA
FIGURA 2 – SANGUE TOTAL CONTENDO EDTA APÓS O PROCESSO DE CENTRIFUGAÇÃO
FONTE: A autora
Como apresentado, o plasma se refere à parte líquida do sangue, mas o
que significa “parte liquida”? O plasma é composto por 90% de água, os outros
restantes são sais, glicose, aminoácidos, vitaminas e ureia. Dentro do sangue,
ocorre a passagem de inúmeros componentes que são essenciais para o nosso
crescimento de forma saudável.
Quando citamos os sais, sabemos que ocorre uma dissociação (ionização),
na qual o organismo capta vários íons, como sódio, cloreto, potássio, cálcio, tudo
de uma forma bem circulante na corrente sanguínea. No exemplo da glicose,
como vimos na disciplina de Bioquímica Básica e Metabolismo, a glicose é uma
fonte de energia para a maioria das células, tendo, na circulação sanguínea, a
presença de outros monossacarídeos, como a frutose, galactose, que chegam ao
fígado para serem metabolizados.
Os aminoácidos, que são importantíssimos na produção das proteínas,
também estão presentes no sangue. Em geral, toda ou qualquer célula viva, que
deve produzir uma série de proteínas, precisa estar nutrida de aminoácidos,
visto que são consideradas elementos funcionais da célula humana. As vitaminas
também merecem atenção, pois são essenciais nas estruturas, como os ácidos
nucleicos e as bases nitrogenadas (PIRES et al., 2006).
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TÓPICO 1 — HEMATOPOESE
ATENCAO
Acadêmico, não se pode deixar de mencionar, além de relembrar que as
nossas proteínas são criadas a partir das nossas informações genéticas.
Fazendo parte da estrutura líquida do sangue, a ureia é um composto
orgânico cristalino de função excretora nitrogenada. Inúmeras células presentes
no sangue produzem resíduo, conhecido como amônia, o qual vai para o fígado,
que metaboliza essa substância, transformando-a em algo menos prejudicial,
menos toxico, nesse caso, a ureia. É levada para o órgão excretor, o rim, a partir
do qual é filtrada e eliminada através da urina (SODRÉ; COSTA; LIMA, 2007).
Além de todos esses componentes citados, não podemos deixar de citar,
rapidamente, as proteínas, que, em algumas situações, conseguem ser mais ou
menos diluídas na água. É necessário entender que a maior porção das proteínas
presentes no sangue é composta pela albumina, que, dentro da nossa corrente
sanguínea, tem a função de transportar ácidos graxos (por serem apolares), além
de controlar a viscosidade do sangue (PIRES et al., 2006).
FIGURA 3 – SANGUE EM EDTA COM ALTA VISCOSIDADE (ESPESSO)
FONTE: A autora
Por isso, é importante destacar que alguns problemas ocasionados por
essa alta viscosidade sanguínea, muitas vezes, ocorrem por um elevado índice
de proteínas relacionadas, como no caso da albumina, que pode levar distúrbios
ao fluxo sanguíneo em algumas áreas do corpo, destacando-se a síndrome de
hiperviscosidade do sangue (SAKABE et al., 2004).
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UNIDADE 1 — INTRODUÇÃO AO ESTUDO DA HEMATOLOGIA CLÍNICA: SURGIMENTO, ALTERAÇÕES
MORFOLÓGICAS/CITOLÓGICAS E TÉCNICAS LABORATORIAIS APLICADAS À SÉRIE VERMELHA
NOTA
Segue um fragmento do artigo Trombose de veia central da retina bilateral
associada à síndrome de hiperviscosidade sanguínea - Relato de caso, para demonstrar
a importância da viscosidade adequada.
Relato de caso de um paciente masculino de 16 anos de idade com queixa inicial de baixa
da acuidade visual e que, no exame oftalmológico, foi encontrado edema de papila bilateral,
que evoluiu para trombose da veia central da retina em ambos os olhos. Na investigação
laboratorial, foi feito diagnóstico de um mieloma múltiplo tipo IgA, que cursava com
síndrome de hiperviscosidade sanguínea, o que explicava o quadro oftalmológico. Após
tratamento específico, o paciente apresentou melhora da acuidade visual e do aspecto
fundoscópico. O achado de oclusão de veia central da retina bilateral pode levar ao
diagnóstico de importantes doenças sistêmicas. Os achados fundoscópicos podem servir
de parâmetro na avaliação do tratamento.
Leia mais em [Link]
Acadêmico, já parou para analisar que os níveis de albumina controlam o
fluxo sanguíneo? Esse controle de “albuminação” do sangue se faz para controlar,
além da viscosidade, a distribuição do plasma na região tecidual, ou seja, quanto
mais líquido, “mais fluido” for o sangue, mais plasma consegue ser notado na
matriz extracelular, invadindo os tecidos (PIRES et al., 2006).
DICAS
Acadêmico, para melhor entendimento da albumina, sugerimos a leitura de
uma parte do livro Bioquímica Clínica para o Laboratório: Princípios e Interpretações de
Valter T.
Um bom exemplo do que foi colocado: Quando um atleta de fisiculturismo
termina o treino, consegue observar, macroscopicamente, uma elevação dos
músculos do bíceps, e isso ocorre, consequentemente, por parte do extravasamento
de plasma na corrente sanguínea para dentro do tecido muscular. Esse “inchaço”
é decorrente da entrada do plasma no tecido, e essa quantidade de água é
controlada pela albumina.
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TÓPICO 1 — HEMATOPOESE
Também consegue realizar boa parte da retenção de líquido dentro da
corrente sanguínea, ou seja, menos albumina faz com que esse líquido se espalhe
rapidamente para dentro dos tecidos. Um exemplo clínico é quando um paciente
sofre uma lesão forte e, na região lesionada, forma-se um edema. Esse inchaço
formado tem uma grande ligação com a albumina extravasada nos tecidos
(SODRÉ; COSTA; LIMA, 2007). A partir da albumina, observamos o controle da
pressão osmótica, pois, quando ocorre a queda dessa proteína, é relativamente
notada uma queda na barreira osmótica, liberando grande quantidade de plasma
sanguíneo.
Como citado no início deste tópico, encontramos o plasma sanguíneo,
macroscopicamente, após o processo de centrifugação. Em um tudo de EDTA
(anticoagulante), conseguimos diferenciar dos leucócitos e das hemácias. A
visualização se faz presente em uma fina camada branca, ali, são encontradas as
imunoglobulinas, estas que realizam a função de imunidade corporal (anticorpos),
que estão circulando a todo momento no organismo.
FIGURA 4 – OS PRINCIPAIS LEUCÓCITOS ANALISADOS EM SAGUE PERIFÉRICO
FONTE: A autora
TUROS
ESTUDOS FU
Todo estudo dos glóbulos brancos (leucócitos) será visto na Unidade 2 deste
livro. Voltaremos a falar mais deles.
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UNIDADE 1 — INTRODUÇÃO AO ESTUDO DA HEMATOLOGIA CLÍNICA: SURGIMENTO, ALTERAÇÕES
MORFOLÓGICAS/CITOLÓGICAS E TÉCNICAS LABORATORIAIS APLICADAS À SÉRIE VERMELHA
Agora, acadêmico, já parou para pensar de onde surgem as hemácias? Os
leucócitos e as plaquetas? Entenderemos todo esse surgimento no decorrer das
unidades.
2.1 A HEMATOPOIESE FETAL
O período do processo hematopoiético, quando encontrado em um adulto,
é notável, graças aos focos de hematopoiese transitórios que ocorrem em uma
sequência de fases: embrionário, hepatoesplenico e período medular (ZAGO;
FALCÃO; PASQUINI, 2013).
Na literatura de outras décadas, destacava-se que a hematopoiese fetal
ou embrionária iniciava no mesoderma do saco vitelino, e as células-tronco
(Stem-cell) desenvolvidas na vesícula vitelina. Com o passar dos dias, isso
se alojava no fígado, o timo e a medula óssea, gerando a hematopoiese final
(HOFFBRAND, 2013).
Com a atualização dos estudos nas literaturas da hematologia, foi
descoberta a presença de focos hematopoiéticos estabilizados na região do
mesonefro, notando-se que não só na vesícula vitelina pode ocorrer hematopoiese
embrionária (HOFFBRAND, 2013).
A fase embrionária acontece na quarta semana de gestação, apresentando
a localidade na parede da vesícula vitelina, mais especificamente, na lâmina
mesodérmica. Histologicamente, são encontrados grupos celulares de um
tamanho reduzido e, no interior, apresentam-se células mesenquimais que se
subdividem em uma nova espécie celular conhecida como hemangioplástica
(BARCELOS; AQUINO, 2018).
As células que migram para determinado local desses grupos celulares
se encontram em processo de diferenciação, ganhando formas alongadas e
achatadas, chamadas de Ilhotas de Wolff-Pander. No interior dessas ilhotas,
encontram-se grandes quantidades de células, uma com a outra, e isoladas por
um líquido (matriz fluida ou plasma) ali presente. Os vasos sanguíneos surgem
quando as Ilhotas Wolff-Pander elevam o volume, ocorrendo, assim, a formação
dos vasos sanguíneos de caráter primitivo (BARCELOS; AQUINO, 2018).
Na parede da vesícula vitelina, existem células que apresentam
características endoteliais primitivas e outras que são encarregadas de estarem
no interior dessas células, sendo percursoras dos elementos sanguíneos. Quando
as células endoteliais atingem determinada idade, desprendem-se da parede,
ganhando um formato mais esférico, sendo denominadas, agora, de percursores
hematopoiéticos (BARCELOS; AQUINO, 2018).
10
TÓPICO 1 — HEMATOPOESE
Na segunda fase citada, hepatoesplênico, entre a sexta semana de
gestação, o processo hematopoiético não ocorre mais na vesícula vitelina. O
período “hepatoesplênico” recebe esse nome por ter a iniciação com as células do
fígado e baço do embrião. Quando ocorre o aumento da massa hematopoiética,
células migram de maneira permanente até a 28º semana para o interior do baço
(HOFFBRAND, 2013).
Na última fase do processo de hematopoiese embrionária, apresenta-se
o período medular, ocorrendo nas cavidades dos ossos, situando, no interior, a
proliferação de células com grânulos – ganulociticas e megacariócitos, chegando
perto da vigésima semana, com início da formação dos linfonodos (BARCELOS;
AQUINO, 2018).
Por fim, o processo de hematopoiese se instala depois do nascimento na
medula óssea, enquanto o fígado e o baço apresentam pouca contribuição no
processo final.
2.2 A ERITROPOIESE E O CONTROLE FISIOLÓGICO
A hemácia é produzida e passa pela etapa de maturação na medula óssea
(local de produção). Esse processo recebe o nome de eritropoiese (BARCELOS;
AQUINO, 2018).
Em um paciente estável, os glóbulos vermelhos são produzidos na
medula óssea, mas quando são analisadas alterações em graus de anemias
graves, por exemplo, nota-se um ponto morfológico: a produção passa a ser no
baço e no fígado, exceto os fetos, primeiro local de produção (ZAGO; FALCÃO;
PASQUINI, 2013).
Para a hemácia chegar ao grau de maturação final, passa por várias etapas,
e apresenta mudanças significativas no núcleo e no citoplasma, lembrando que,
quando a hemácia se torna “adulta” para cair na corrente sanguínea, precisa se
desprender do núcleo, tornando-a anucleada (YE; ROUAUL, 2010).
Iniciando a etapa de diferenciação celular da categoria eritroide, a stem
cell hematopoiética multipotente gera uma maturação em cima de progenitores
mieloides, sofrendo maturação para os proeritroblastos, chegando aos
eritroblastos e adquirindo a forma de um eritrócito (CAMASCHELLA; PAGANI,
2010). Observe, a seguir, o processo fisiológico de cada etapa de um eritrócito.
Um mineral que merece destaque nesse processo de maturação e
diferenciação das hemácias é o ferro, trazendo a síntese de hemoglobina
para o interior da célula pelos eritoblastos em processo de desenvolvimento
(CAMASCHELLA; PAGANI, 2010).
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UNIDADE 1 — INTRODUÇÃO AO ESTUDO DA HEMATOLOGIA CLÍNICA: SURGIMENTO, ALTERAÇÕES
MORFOLÓGICAS/CITOLÓGICAS E TÉCNICAS LABORATORIAIS APLICADAS À SÉRIE VERMELHA
TABELA 1 – CÉLULAS DA LINHAGEM ERITROCITÁRIA EM FORMAÇÃO
FONTE: Adaptada de Zago, Falcão e Pasquini (2013)
A responsável por realizar o transporte do ferro para a circulação na
corrente sanguínea é a transferritina, que entrega esse mineral aos eritroblastos
através da ponte transferrina diferrica com o coletor de transferrina TfR1.
Chegando no interior de um eritroblasto, a mitocôndria usa o ferro para
realizar duas sínteses, a primeira, de Heme, e, a outra, a síntese de clusters Fe-S
(CAMASCHELLA; PAGANI, 2010).
DICAS
Acadêmico, para um melhor entendimento dos clusters Fe-S e da transferrina
TfR1, sugerimos a leitura do seguinte artigo: [Link]
[Link].
Com essa absorção pelas mitocôndrias, nota-se um bom funcionamento
dos grupos prostéticos de algumas proteínas ali presentes (destacando a proteína
reguladora do ferro – IRP1), quando comparado às citosólicas (CAMASCHELLA;
PAGANI, 2010).
Além da forma extremamente adequada, a plasticidade do glóbulo san-
guíneo normal favorece, de modo extraordinário, a passagem rápida pela micro-
circulação: toda modificação de forma ou de plasticidade do eritrócito determina
uma dificuldade circulatória e contribui para a destruição precoce das hemácias.
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TÓPICO 1 — HEMATOPOESE
Apresentando um tempo de vida de 120 dias, por esgotamento metabóli-
co e condições que o próprio organismo causa em aspecto degenerativo, as hemá-
cias circulantes, na corrente sanguínea, são removidas e destruídas pelas próprias
células do sistema imunológico: monócito e macrófago. Levando os restos celula-
res para o baço, o fígado e a medula óssea (ZAGO; FALCÃO; PASQUINI, 2013).
Porventura de alguma doença adquirida e o paciente precisar realizar
a remoção do baço, esse procedimento não interfere nesse processo, pois a
destruição medular continua sem apresentar nenhuma alteração, exceto quando
ocorre a hemólise patológica, no caso de esferocitose e em paciente talassêmico,
com esplenomegalias que necessitam de transfusão imediata (ZAGO; FALCÃO;
PASQUINI, 2013).
Quando destruído pelo sistema monocítico-macrofágico, o eritrócito é
separado, como no caso da hemoglobina e da membrana. Situações que envolvem
as proteínas e os fosfolipídios, estes digeridos pelo processo. A macromolécula
de hemoglobina é quebrada em globina e a heme realiza abertura do anel da
protoporfirina, dando abertura para o ferro e formando a bilirrubina (GANZ;
NEMETH, 2012).
Acadêmico, como descrito na disciplina de Bioquímica Básica e
Metabolismo, a hemoglobina, quando decomposta em globina, é metabolizada,
dando vida aos aminoácidos presentes na corrente sanguínea.
FIGURA 5 – CICLO DE VIDA DOS ERITRÓCITOS PRODUZIDOS NA MEDULA ÓSSEA
FONTE: Adaptada de Zago, Falcão e Pasquini (2013)
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UNIDADE 1 — INTRODUÇÃO AO ESTUDO DA HEMATOLOGIA CLÍNICA: SURGIMENTO, ALTERAÇÕES
MORFOLÓGICAS/CITOLÓGICAS E TÉCNICAS LABORATORIAIS APLICADAS À SÉRIE VERMELHA
2.3 HEMOGLOBINA
Caro acadêmico, você já parou para pensar por que a cor do nosso sangue
é vermelha? Ele recebe essa coloração devido a uma proteína tetrâmero existente
no interior das hemácias, conhecida como hemoglobina.
Carregando a responsabilidade de transportar gases importantes para
a manutenção dos órgãos e tecidos, como oxigênio e dióxido de carbono, essa
proteína é de exclusividade das hemácias.
Segundo Marengo-Rowe (2006), a hemoglobina apresenta uma estrutura
tetramérica constituída por dois pares de cadeias globínicas diferentes, que são
codificadas por dois agrupamentos de genes distintos. As cadeias globínicas
podem ser alfa (α), beta (β), zeta (ζ), gama (γ), epsilon (γ) ou delta (δ), e são
produzidas durante o desenvolvimento do corpo humano, em quantidades
variáveis. Dependendo das cadeias globínicas presentes na estrutura tetramérica
de uma hemoglobina, esta pode ser conhecida por Hb Gower 1 (ζ2Ɛ2), Hb
Portland (ζ2γ2), Hb Gower 2 (α2ε2), Hb Fetal (Hb F) (α2γ2), Hb Adulta (Hb A)
(α2β2) ou Hb Adulta minor (Hb A2) (α2δ2).
Nota-se que boa parte dos grupos heme é apreendida pelo reticulo
endotelial e, por isso, sofre alguma quebra enzimática. Assim, a seguir, observe a
estrutura das cadeias de hemoglobina.
Como vimos na disciplina de Bioquímica Básica e Metabolismo, a
hemoglobina é fragmentada em partes, ocorrendo a separação em globina e grupos
heme. O grupo das globinas é degradado e sintetizado para originar moléculas
de aminoácidos para ser utilizado novamente pelo organismo. O grupo heme
passa pelo processo de fagocitose no fígado, baço e medula óssea, originando
a substância amarelada conhecida como bilirrubina. Iniciando o processo de
absorção, nesses órgãos, o ferro é transportado com a ferritina para dentro da
corrente sanguínea, sendo reutilizado para a formação de novos grupos heme.
FIGURA 6 – ESTRUTURA FIGURADA DAS CADEIAS DE HEMOGLOBINAS
Molécula de Hemoglobina
FONTE: <[Link] Acesso em: 29 jan. 2021.
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TÓPICO 1 — HEMATOPOESE
A distribuição dessa macromolécula é feita através da interação da
hemoglobina com o oxigênio do ar (que pode ser inspirado ou absorvido, como
na respiração cutânea) (BERG; SACKS, 2008). Devido a isso, forma-se o complexo
oxi-hemoglobina, representado pela notação HbO2.
FIGURA 7 – TRANSPORTE DE OXIGÊNIO PELA HEMÁCIA
Oxigênio dos
pulmões
Hemácia
Oxigênio liberado
para as células
do tecido
Moléculas de
hemoglobina
Oxigênio ligado a moléculas de
hemoglobina
FONTE: <[Link] Acesso em: 18 jan.
2021.
Chegando às células do organismo, o oxigênio é liberado e o sangue arterial
(vermelho) se transforma em venoso (vermelho arroxeado). A hemoglobina
livre pode ser reutilizada no transporte do oxigênio. A hemoglobina distribui o
oxigênio para as todas as partes do corpo irrigadas por vasos sanguíneos (BERG;
SACKS, 2008).
A hemoglobina pode ser encontrada dispersa no sangue ou em várias
células especializadas (BERG et al., 2008). O aumento de glóbulos vermelhos
no sangue (eritrocitose), geralmente, dá-se por uma adaptação fisiológica do
organismo em locais de altitude elevada.
DICAS
Caro acadêmico, para um melhor entendimento da elevação dos níveis de
hemoglobina, sugerimos a leitura do seguinte artigo, presente no link a seguir: [Link]
[Link]/efd186/[Link].
15
UNIDADE 1 — INTRODUÇÃO AO ESTUDO DA HEMATOLOGIA CLÍNICA: SURGIMENTO, ALTERAÇÕES
MORFOLÓGICAS/CITOLÓGICAS E TÉCNICAS LABORATORIAIS APLICADAS À SÉRIE VERMELHA
Uma vez que o aumento em quantidade dos glóbulos vermelhos favore-
ce o transporte de oxigênio pelo sangue, o uso melhora a performance de atle-
tas, principalmente, em esportes que necessitam de muita resistência (BERG;
SACKS 2008).
Quando os atletas realizam treino em locais de alta altitude, a pequena
concentração de oxigênio estimula a produção natural de EPO, Eritropoietina,
hormônio que aumenta o número de glóbulos vermelhos e da capacidade
muscular. Ao retornar para as baixas altitudes, o corpo está mais preparado e a
resistência está maior.
2.4 FORMAÇÃO DAS CÉLULAS DA SÉRIE VERMELHA:
HEMÁCIAS
Anteriormente, vimos que a medula óssea é o principal órgão de produção
das células do sistema hematológico (hemácias, leucócitos e plaquetas). Quando
mencionamos os aspectos morfológicos, precisamos entender como são descritas
a forma e a estrutura externa de cada célula. A complexidade de uma hemácia, que
apresenta vida média, formada por uma membrana plasmática e pelo citoplasma,
confere uma característica importante: ser uma célula anucleada.
No aspecto morfológico, o eritrócito (hemácia) apresenta fatores
importantes, como exemplo, a vitamina B12, que auxilia na formação do grupo
heme, ligando-se à molécula de oxigênio, e o ácido fólico, que interage a todo
momento no processo da formação dos glóbulos vermelhos (HOFFBRAND,
2013). Quando ocorre um déficit de um desses elementos, observamos que a
célula não é capaz de duplicar, de forma correta, o ácido desoxirribonucleico
(DNA). Ainda, na diferenciação do processo de mitose, ocorre a elevação do
citoplasma, com dificuldade de duplicação, causando uma deformidade celular,
gerando a anemia megaloblástica, a qual abordaremos no decorrer desta unidade
(HOFFBRAND, 2013).
Todo o processo de maturação e proliferação, para gerar uma hemácia,
ocorre dentro da medula óssea, a partir de um eritroblasto, observado em objetiva
de 100x e 40x, respectivamente, recebendo o nome de eritropoiese (ZAGO;
FALCÃO; PASQUINI, 2013).
FIGURA 8 – SEQUÊNCIA DO PROCESSO DE MATURAÇÃO DE UM ERITRÓCITO A PARTIR DA
STEM CELL - LINHAGEM DOS ERITRÓCITOS
16
TÓPICO 1 — HEMATOPOESE
FONTE: <[Link] Acesso em: 24
fev. 2021.
FIGURA 9 – ERITROBLASTO ORTOCROMÁTICO, VISTO EM OBJETIVA DE 100X E 40X,
RESPECTIVAMENTE
FONTE: A autora
Depois que passa pelo evento de enucleação, como falamos anteriormente,
para uma hemácia madura, entra na corrente sanguínea (ZAGO; FALCÃO;
PASQUINI, 2013).
Nos próximos tópicos desta unidade, estudaremos o reticulócito, que re-
cebe esse nome quando a célula passa pelo processo de enucleação ainda carre-
gada, dentro de si, com quantidades suficientes de RNA, e boa parte da síntese
proteica passando da medula óssea para o sangue periférico com esses restos ce-
lulares. A seguir, será possível observar as etapas de maturação de um eritrócito.
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UNIDADE 1 — INTRODUÇÃO AO ESTUDO DA HEMATOLOGIA CLÍNICA: SURGIMENTO, ALTERAÇÕES
MORFOLÓGICAS/CITOLÓGICAS E TÉCNICAS LABORATORIAIS APLICADAS À SÉRIE VERMELHA
FIGURA 10 – ERITRÓCITO EM FASE DE DESENVOLVIMENTO
FONTE: <[Link] Acesso em: 29
jan. 2021.
Como mostrará a figura a seguir, microscopicamente, em objetiva, com
aumento de 100x, a hemácia apresenta uma hemácia em morfologia normal, com
um diâmetro de 8mm.
FIGURA 11 – GLÓBULOS VERMELHOS, APRESENTANDO MORFOLOGIA NORMAL EM SANGUE
PERIFÉRICO
FONTE: A autora
As hemácias são consideradas a maior população de células circulantes
na corrente sanguínea. Assim, a seguir, será relatada a distribuição (valores de
referência) para homens, mulheres e crianças. Lembrando, acadêmico, que os
valores de referência variam de laboratório para laboratório, seguindo os valores
de cada equipamento automatizado de hematologia.
18
TÓPICO 1 — HEMATOPOESE
QUADRO 2 – VALORES NORMAIS DE HEMÁCIAS CIRCULANTES, ANALISADAS POR MM³
FONTE: <[Link] Acesso em: 24 jan. 2021.
3 HISTOLOGIA E ANATOMIA DOS ÓRGÃOS
HEMATOPOIÉTICOS
O tecido hematopoiético, ou hematocitopoiético, vem do grego, hemato
- sangue, cito - células e poiese - formação ou origem. Tecido responsável
pela formação do sangue. A medula óssea é o órgão responsável pelo
desenvolvimento (formação) das células que compõem o nosso sistema
sanguíneo (HOFFBRAND, 2013).
Como visto na disciplina de Hematologia E Imunologia Básica, no
mesoderma do saco vitelínico, inicia-se a formação das primeiras células
sanguíneas no embrião. Outros órgãos, como fígado e baço, servem de abrigo
provisório para a hematopoiese. Com a maturação do osso da clavícula, começa a
ganhar formato a medula óssea, do segundo ao terceiro mês de vida intrauterina,
órgão final do processo hematopoiético.
Na infância, até os seis anos de vida, a medula óssea de todos os ossos
contribui para esse processo de desenvolvimento das fases da infância para a
adolescência, assim, ocorre uma substituição do líquido que se aloja dentro da
medula dos ossos longos. Com a chegada da vida adulta, os ossos da pelve, ilíaco,
esterno, ossos do crânio, arcos costais, vértebras e epífises femorais e umerais
são os únicos com a função de produzir células sanguíneas (HOFFBRAND,
2013). Quando a medula óssea está em constante produção, já no órgão final,
é denominada de medula óssea vermelha, e ganha esse nome pela enorme
quantidade de hemácias ou glóbulos vermelhos presentes no interior. Nos ossos
restantes, faz-se presente a medula óssea amarela, com esse nome pela quantidade
de tecido adiposo (MARTY; MARTY, 2015).
19
UNIDADE 1 — INTRODUÇÃO AO ESTUDO DA HEMATOLOGIA CLÍNICA: SURGIMENTO, ALTERAÇÕES
MORFOLÓGICAS/CITOLÓGICAS E TÉCNICAS LABORATORIAIS APLICADAS À SÉRIE VERMELHA
FIGURA 12 – ESQUEMA DA MEDULA ÓSSEA VERMELHA
FONTE: <[Link] Acesso em: 18 jan. 2021.
De acordo com Abbas, Litchman e Pillai (2015), em um paciente adulto,
observamos, através de estudos histológicos e citológicos, que esse processo de
hematopoiese se faz presente na medula óssea de ossos chatos, desenvolvendo
quantidades suficientes de hemácias e glóbulos brancos.
Estudos são capazes de mostrar que, em um aspecto quantitativo, o processo
de formação do sangue gera uma enorme produção celular, contabilizando mais
ou menos 10¹² Kg de células sanguíneas por dia. O ser humano, na fase adulta,
consegue apresentar uma capacidade de desenvolver cerca de um total de 3,0
bilhões de glóbulos vermelhos, 2,5 bilhões de trombóticos e apenas um bilhão de
leucócitos kg/peso (BARCELOS; AQUINO, 2018).
Toda essa produção citada é organizada cuidadosamente por um
microambiente no qual são encontradas células e proteínas da matriz extracelular
que dão origem ao estroma celular, isso tudo ocorrendo dentro da medula óssea
(ROITT, 2013).
Células, como fibroblastos, macrófagos, adipócitos, células musculares
lisas, células reticulares de tecido endotelial, situadas em uma determinada
parte do estroma medular, e posicionadas na medula óssea, apresentam uma
característica muito complexa, pois além de haver a variedade celular, há uma
ampla estrutura de tecido conjuntivo (WOOD, 2013).
20
TÓPICO 1 — HEMATOPOESE
DICAS
Um ótimo fragmento do livro de células-tronco pode complementar o estudo
desta unidade. Observe:
O transplante de células-tronco hematopoiéticas é, muitas vezes, a única esperança de
cura de um paciente. Vários são os obstáculos que eles têm que enfrentar durante todo o
processo de busca de um doador: a remissão da doença para possibilitar o procedimento,
a neutropenia decorrente do condicionamento, além de todas as complicações no pós-
transplante. Esse é o dia a dia de pacientes e médicos em uma unidade de transplante: lidar
com tais problemas, tornando possível não só a cura de um percentual de pacientes, mas,
também, a qualidade de vida após o transplante.
O comprometimento e o preparo da equipe multidisciplinar que atua nesse acompanha-
mento diário são fundamentais para o bom resultado, e manter essa equipe sempre atuan-
te e decidida a continuar na busca de melhores soluções não é uma tarefa simples.
No Centro de Transplante de Medula Óssea (CEMO), do Instituto Nacional de Câncer José
Alencar Gomes da Silva (INCA), os profissionais são estimulados a procurar o aprofundamento
de conhecimentos em trabalhos que investigam as questões mais preocupantes na área do
transplante de células-tronco hematopoiéticas.
Leia mais em [Link]
[Link].
Analisando a histologia do tecido hematopoiético, quando colocado em
estudo o significado do termo “autorrenovação”, define-se como o atributo de
gerar células-filhas com aspecto ligeiramente igual ao das células-mãe, gerando
resultados positivos no nascimento de células sem alterações morfofuncionais.
Outro termo citado nesse processo de diferenciação é “stem cell” (célula-tronco),
capaz de garantir a multiplicação de outras células, a partir de uma única célula,
dentro da medula óssea, em múltiplas linhagens celulares do tecido sanguíneo
(BARCELOS; AQUINO, 2018).
DICAS
Acadêmico, uma boa dica para saber como surgiu o experimento que
comprova a existência de stem cells é a leitura dos documentos de mc-cullochietill, 1961:
[Link]
renewal-and-differentiation/.
21
UNIDADE 1 — INTRODUÇÃO AO ESTUDO DA HEMATOLOGIA CLÍNICA: SURGIMENTO, ALTERAÇÕES
MORFOLÓGICAS/CITOLÓGICAS E TÉCNICAS LABORATORIAIS APLICADAS À SÉRIE VERMELHA
Inicia-se, então, o processo de diferenciação e proliferação de células
sanguíneas. Cita-se a palavra proliferação, dirigindo-se à replicação, ou seja,
à mitose celular. Pode ou não ocorrer o quadro de doenças hematológicas. O
processo de diferenciação é significativo para as células que originam as próprias
“identidades”, contendo a presença de macromoléculas para o surgimento das
próprias funções específicas (BARCELOS; AQUINO, 2018). Segue representada
uma célula da série vermelha imatura, para melhor entendimento do processo de
diferenciação.
FIGURA 13 – REPRESENTAÇÃO DE UM PROERITROBLASTO, UMA CÉLULA DA LINHAGEM
ERITROCITÁRIA, IMATURA EM SANGUE PERIFÉRICO
FONTE: <[Link] Acesso em: 24 jan.
2021.
Então, acadêmico, a célula-tronco, representada a seguir, distingue-
se em duas linhagens, buscando um melhor entendimento e separação das
células hematopoiéticas: linhagem mieloide, a partir da qual nascem eritrócitos,
plaquetas, granulócitos e monócitos, e linhagem linfoide, que origina os linfócitos
(ZAGO; FALCÃO; PASQUINI, 2013).
22
TÓPICO 1 — HEMATOPOESE
FIGURA 14 – CÉLULAS HEMATOPOIÉTICAS EM ESTÁGIO DE EVOLUÇÃO
FONTE: <[Link] Acesso em: 29 jan. 2021.
Dentro da linhagem mieloide, analisa-se que há uma separação da célula
progenitora mieloide. As hemácias e as plaquetas são formadas a partir de uma
linhagem eritroide-megacariota e os granulócitos e os monócitos com a linhagem
granulocítica-monocítica (ZAGO; FALCÃO; PASQUINI, 2013).
Em uma explicação singela, acerca da formação das células hematopoiéticas,
conseguimos entender que o surgimento dos eritoblastos e dos megacarioblastos
ocorre a partir da diferenciação do precursor eritroide-megacariócito.
Cada célula progenitora eritroide (eritroblasto) passa por um estágio de
maturação, originando o que conhecemos por hemácias e, os megacarioblastos,
da formação a um megacariócito, que, morfologicamente, é considerada a maior
célula formada na medula óssea, com o núcleo e o citoplasma se desprendendo,
fragmentando-se e originando várias plaquetas (BARCELOS; AQUINO, 2018).
Estudaremos as plaquetas na Unidade 3.
Quando as células amadurecem, ocorre uma organização, que recebe o
nome de Unidades Formadoras de Colônias – CFU (Colony Forming Units). Sendo
listadas como CFU-E/Mega, as células de categorias progenitoras eritroide-
megacariocitica e, CFU-G/M, as células granulociticas monocitica (BARCELOS;
AQUINO, 2018).
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UNIDADE 1 — INTRODUÇÃO AO ESTUDO DA HEMATOLOGIA CLÍNICA: SURGIMENTO, ALTERAÇÕES
MORFOLÓGICAS/CITOLÓGICAS E TÉCNICAS LABORATORIAIS APLICADAS À SÉRIE VERMELHA
FIGURA 15 – CÉLULAS DE CATEGORIAS PROGENITORAS ERITROIDE-MEGACARIOCITICA E
CÉLULAS GRANULOCITICAS MONOCITICA
FONTE: A autora
Cada célula hematológica, sendo uma plaqueta, um leucócito ou um
eritrócito, tem uma maneira de regular a produção, de acordo com o aspecto
fisiológico do organismo de cada paciente. Alguns aminoácidos, como as leucinas,
e os fatores estimuladores de colônias-CSF, por exemplo, são responsáveis por
mediar as células da hematopoiese. Um exemplo é o hormônio glicoproteico
eritropoetina, agindo como um estimulador para a produção de novos
eritroblastos, e o GM-CSF.
3.1 MIELOGRAMA
Para avaliarmos como está o funcionamento das células hematopoiéticas,
geralmente, o médico hematologista solicita o exame de mielograma, que é
decorrente de uma punção aspirativa da medula óssea (por isso, esse exame
recebe o nome de punção de medula óssea ou aspirado da medula óssea) (BARTL;
FRISCH; WILMANNS, 1993). Nesse exame, o analista clínico, com especialidade
em hematologia, realiza uma leitura do que se é extraído da medula óssea, além
de outros exames que caminham juntos para concluir o diagnóstico, que são:
citogenética e imunofenotipagem.
O exame é solicitado para investigar alterações primárias na medula
óssea, como anemias de origem desconhecida, diminuição ou aumento excessivo
da série branca, hemocromatose (sobrecarga de ferro), e investigação de alguns
parasitas, como leishmania, na sua forma amastigota.
24
TÓPICO 1 — HEMATOPOESE
Para a realização, é feita uma assepsia local (punção realizada apenas por
médico clínico geral ou hematologista) com álcool 70%, e, alguns casos, leva-se
anestesia local. Em crianças, o mais indicado para a retirada é na crista ilíaca e,
em pacientes adultos, coleta-se ao esterno, com agulha especifica para esse tipo
de punção.
FIGURA 16 – POSIÇÃO CORRETA PARA RETIRADA DO ASPIRADO MEDULAR PARA ANÁLISE
LABORATORIAL DO MIELOGRAMA
FONTE: <[Link] Acesso em: 24
jan. 2021.
Quando o médico responsável pela coleta realiza o procedimento,
transfere o material coletado para um tubo, contendo EDTA (para a realização
do esfregaço), e para uma placa de Petri, para observar a presença de espículas
medulares, material parecido com uma estrutura gelatinosa.
FIGURA 17 – ANÁLISE DE ESPÍCULAS MEDULARES EM PLACA DE PETRI
FONTE: <[Link] Acesso em: 24 abr. 2020.
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UNIDADE 1 — INTRODUÇÃO AO ESTUDO DA HEMATOLOGIA CLÍNICA: SURGIMENTO, ALTERAÇÕES
MORFOLÓGICAS/CITOLÓGICAS E TÉCNICAS LABORATORIAIS APLICADAS À SÉRIE VERMELHA
Com a presença desses fragmentos “gelatinosos”, o médico hematologista,
utilizando um capilar, coleta essas espículas, transferindo-as para uma lâmina
na qual, depois de depositado de maneira correta, coloca-se uma outra lâmina
extensora por cima, realizando o esfregaço da espícula medular. Esse procedimento
é feito para garantir a eficácia do material coletado.
FIGURA 18 – TUBO DE EDTA CONTENDO MATERIAL ASPIRADO DE MEDULA ÓSSEA E
ESFREGAÇO DO MATERIAL DE MIELOGRAMA/COMO CHEGA AO LABORATÓRIO
FONTE: A autora
Uma observação muito importante é que, quanto mais rápida (se não for
utilizado anticoagulante na hora da punção) e de forma mais correta for realizada
essa lâmina, melhores as chances de análise laboratorial correta.
Ao realizar a retirada do material para o exame de mielograma, o médico
hematologista, ou clínico geral, encaminha para o laboratório, junto com a
punção da medula óssea, para ser analisada por um analista clínico. A coloração
do esfregaço do aspirado medular (mielograma), geralmente, é feita à base dos
corantes Romanowsky e May-Grunwald.
Com formação em Medicina pela Rússia, o Dr. Dmitri Leonidovich
Romanowsky acreditava em métodos, utilizando corantes com a presença de
soluções, que chegariam a tingir o interior de células. Com a junção de dois
corantes básicos, como a eosina e o azul de metileno, método já utilizado por
muitos pesquisadores, deram vida aos corantes que carregam os seus nomes:
Leishman, May-Grunwald, Gíemsa e Wright (ABRAHAMSOHN, 2016).
Adquire-se uma técnica que usa a presença de álcool para dissolver o
corante eosina e o azul de metileno, para obter uma concentração de aspecto
envelhecido, por apresentar uma oxidação em um dos corantes (azul de
metileno). Identifica-se uma nova coloração, e um composto de solução com um
alto teor alcoólico gera o eosinato de azul e vários pigmentos de azul de metileno
(ABRAHAMSOHN, 2016).
A técnica para esfregaços de medula (May Grunwald-Giemsa) segue um
modo de preparo:
26
TÓPICO 1 — HEMATOPOESE
a- Preparar o esfregaço com o fragmento de medula coletado;
b- Fixar o material, cobrindo a lâmina com metanol e deixar atuar por três minutos;
c- Escorrer o metanol e cobrir o esfregaço com o corante de May Grunwald puro,
homogeneizar e deixar atuar durante três minutos;
d- Adicionar 1 mL de água destilada, homogeneizar e deixar atuar por um minuto;
e- Escorrer o corante sem lavar a lâmina;
f- Cobrir a lâmina com a mistura de Giemsa (15 partes de corante para 10 partes
de água destilada), homogeneizar e deixar atuar por 12-15 minutos;
g- Lavar a lâmina, cuidadosamente, com água destilada;
h- Deixar secar.
Obtendo resultados, ainda, segundo o fabricante Laborclin (2018),
macroscopicamente, a lâmina corada deve apresentar uma tonalidade rosa-mate
uniforme. Microscopicamente, as plaquetas devem se apresentar púrpuras com
pontos avermelhados visíveis. As estruturas eosinófilicas se apresentam com
tonalidade alaranjada, as basofílicas, em tonalidade azul-escura, e, neutrofílicas,
lilases. Estruturas chamadas de azurrófilas se coram em tonalidades avermelhadas.
Lâminas muito avermelhadas indicam acidez excessiva e lâminas azuladas
indicam alcalinidade excessiva.
TABELA 2 – RESULTADOS ESPERADOS PARA COLORAÇÕES
FONTE: <[Link] Acesso em: 29 jan. 2021.
Depois de realizado o procedimento de coloração, busca-se analisar a
celularidade em uma avaliação do aspirado de medula óssea, além da interpretação
que, com o esfregaço de sangue periférico, pode ajudar no diagnóstico. Assim,
será demonstrada, a seguir, a coloração de um aspirado de medula óssea antes de
ser analisado no microscópio.
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UNIDADE 1 — INTRODUÇÃO AO ESTUDO DA HEMATOLOGIA CLÍNICA: SURGIMENTO, ALTERAÇÕES
MORFOLÓGICAS/CITOLÓGICAS E TÉCNICAS LABORATORIAIS APLICADAS À SÉRIE VERMELHA
FIGURA 19 – LÂMINA CORADA PELO MÉTODO DE MAY GRUNWALD-GIEMSA
FONTE: A autora
NOTA
Vale ressaltar que, para a leitura e a interpretação da análise do esfregaço de
mielograma, o profissional deve apresentar pós-graduação em Hematologia, seguindo os
padrões exigidos pelo Conselho Regional ou Federal.
3.2 AVALIAÇÃO DO ASPIRADO DE MEDULA ÓSSEA E O
REFLEXO NO SANGUE PERIFÉRICO
Com constituição pelas linhagens hematológicas de características
diferentes: hemácias, leucócitos e plaquetas, que se fazem presentes no sangue
periférico. Como estudado anteriormente, segundo Bartl, Frisch e Wilmanns
(1993), na medula óssea, conseguimos analisar graus de compartimentos celulares,
e cada um obedece a uma “escada” de maturação. O grau que organiza as células
mais jovens consegue realizar o processo de diferenciação e proliferação celular,
enquanto os de compartimentos mais maduros só realizam um processo, que
seria o de diferenciação.
Quando ocorre a saída de células imaturas para o sangue periférico
analisado em um esfregaço (podendo ser de aspirado de medula óssea ou de
sangue periférico), nota-se que essa célula migrou para uma categoria seguinte e,
uma outra, adquiriu o seu lugar, alterando, dessa maneira, o número de células
iniciais (BARCELOS; AQUINO, 2018).
28
TÓPICO 1 — HEMATOPOESE
Para entendermos como ocorre uma avaliação do aspirado de medula
óssea, precisamos, primeiramente, analisar como se estabelece a liberação de
células para o sangue periférico. Pois bem, a liberação de uma célula X, por
exemplo, só seria aceita se estivesse pronta a nível de maturação celular para
entrar em um próximo compartimento. Quando essas células atingem um grau
de amadurecimento completo, a liberação é permitida para o sangue periférico.
Uma observação a ser feita acerca dessa análise é que, quando a célula
apresenta um tamanho fixo, ocorre uma grande demanda daquele tipo celular X
na circulação. Nota-se um aumento da categoria (podendo ser da série vermelha,
branca ou plaquetária). Contudo, se a procura do organismo por essa célula X, por
exemplo, aumentar muito, e, com isso, atingir a capacidade máxima no processo
de proliferação ou liberação, a medula deve entender que precisa enviar, para o
sangue periférico, células ainda em desenvolvimento, células jovens. Realiza-se
essa liberação até que a alta demanda de células seja cessada. Quando alcançado
esse ponto de chegada, ocorre o encerramento dessa liberação para o sangue peri-
férico, e o processo de proliferação é reorganizado (BARCELOS; AQUINO, 2018).
Um bom exemplo do contexto é quando ocorre, em sangue periférico,
uma eritrocitose, ou seja, o aumento excessivo dos eritrócitos, decorrente, por
exemplo, de uma anemia hemolítica, sendo observada a produção de células
eritrocitárias anormais na medula óssea.
Uma boa interpretação do exame de rotina mais solicitado em um
laboratório de análises clínicas, o hemograma completo, é primordial para um
diagnóstico precoce de doenças hematológicas.
FIGURA 20 – LAUDO DE HEMOGRAMA, CONTEÚDO DE ALTERAÇÕES NO ERITROGRAMA
FONTE: A autora
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UNIDADE 1 — INTRODUÇÃO AO ESTUDO DA HEMATOLOGIA CLÍNICA: SURGIMENTO, ALTERAÇÕES
MORFOLÓGICAS/CITOLÓGICAS E TÉCNICAS LABORATORIAIS APLICADAS À SÉRIE VERMELHA
FIGURA 21 – CÉLULAS JOVENS (ERITROBLASTO) CIRCULANTES EM SANGUE PERIFÉRICO DE
UM ADULTO
FONTE: A autora
O reflexo que um aspirado de medula óssea causa na análise de esfregaço
sanguíneo é, justamente, a presença de células imaturas circulantes.
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RESUMO DO TÓPICO 1
Neste tópico, você aprendeu que:
• O órgão responsável pela formação das células sanguíneas é a medula óssea
vermelha.
• O exame de hemograma completo recebe esse nome por avaliar os três
parâmetros do sangue: hemácias, leucócitos e plaquetas.
• As hemácias, para entrarem na corrente sanguínea, precisam sofrer maturação,
e, com isso, perde-se o núcleo, tornando-se células anucleadas, com formato
bicôncavo, quando vistas microscopicamente.
• Para adquirir a forma madura da hemácia ou do eritrócito, passa por cinco
estágios de maturação: proeritroblasto, eritroblasto basófilo, eritroblasto
policromático, eritroblasto ortocromático e reticulócito, chegando à célula final.
• As hemácias carregam o título de maior população do sangue.
• O período do processo hematopoiético, quando encontrado em um adulto, é
notável, graças aos focos de hematopoiese transitórios que ocorrem em uma
sequência de fases: embrionário, hepatoesplenico e período medular.
• Hematócrito é o índice que avalia o percentual de ocupação de uma hemácia,
mas ele só não caracteriza o diagnóstico de anemia.
• O volume corpuscular médio, a hemoglobina corpuscular média e a
concentração de hemoglobina corpuscular média são parâmetros calculados a
partir do valor da hemoglobina e do hematócrito.
• Células jovens, presentes no esfregaço de sangue periférico, podem indicar
alterações na medula óssea.
• O exame de mielograma serve para diagnosticar possíveis patologias no tecido
hematopoiético.
• Apenas o médico clínico geral ou com especialização em hematologia pode
realizar o aspirado de medula óssea.
• A célula-tronco se divide em duas linhagens: linhagem mieloide e linhagem
linfoide.
• O surgimento dos eritroblastos ocorreu a partir da diferenciação de percursor
eritroide-megacariócito.
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