Malária
Infectologia
MALÁRIA
DEFINIÇÃO
Síndrome febril aguda causada pelo protozoário Plasmodium que é trans-
mitido pelo mosquito Anopheles. Faz diagnóstico diferencial com dengue,
chikungunya e leptospirose.
EPIDEMIOLOGIA
Doença endêmica em regiões tropicais, acometendo principalmente,
África, Haiti, América Central e do Sul, Índia. Segundo dados da OMS, em 2018
houve 219 milhões de casos. No Brasil, mais de 90% dos casos de malária, estão
localizados na Amazônia.
AGENTES ETIOLÓGICOS
Seu vetor é o mosquito Anopheles darlingi, culturalmente conhecido como “mos-
quito-prego”.
O agente etiológico é o Plasmodium, que no Brasil é encontrado em 3 espécies:
P. vivax; P. falciparum e P. malariae. O P. ovale é restrito ao continente africano.
Em primatas são encontradas as espécies: P. knowlesi e P. simium.
Por que o P. falciparum é o mais grave?
1. Afeta vários estágios da hemácia, levando a um padrão de anemia hemolítica
grave com hiperbilirrubinemia indireta. Pode não haver reticulocitose, pois os
reticulócitos também são infectados e destruídos;
2. Consome muita glicose resultando em hipoglicemia grave;
3. Gera aumento de ácido lático podendo culminar em acidose metabólica;
4. Tem proteínas de superfície adesivas ocasionando lesão no leito pulmonar,
baço, fígado e outros, e favorecendo o quadro de disfunção dos órgãos.
CICLO BIOLÓGICO
A fêmea do mosquito Anopheles, ao picar a pele do ser humano, libera o
esporozoíto, que entra na circulação sanguínea para chegar nos hepatócitos. Lá,
ele vai se desenvolvendo e maturando, transformando-se no esquizonte hepático
repleto de merozoítos em seu interior, que se dilata até romper, liberando-os na
circulação. Esse estágio é assintomático e chamado de exoeritrocítico.
Ao ganhar a circulação sanguínea, esses merozoítos infectam as hemá-
cias. As espécies vivax e ovale infectam reticulócitos, enquanto P. falciparum
pode infectar em qualquer estágio do eritrócito. No interior do eritrócito, se trans-
forma em trofozoítos jovens e depois maduros. O desenvolvimento dentro da
hemácia resulta na formação de merozoítos que irão invadir novas hemácias, e
que posteriormente, se diferenciarão em gametócitos. Somente os gametócitos
são capazes de se desenvolver dentro do inseto.
Vale ressaltar que, existe uma forma do P. vivax e P. ovale que pode ori-
ginar o Hipnozoíto, essa forma persiste hibernando no fígado durante meses e
até anos. Forma que hiberna e pode gerar reinfecção.
Reproduzido de: Centers for Disease Control and Prevention. DPDx: Malaria.
Disponível em: https://www.cdc.gov/dpdx/malaria/modules/malaria_LifeCycle.gif
FATORES DE RISCO E PRODUÇÃO
Fatores de Risco:
o Viagem para locais de alta prevalência (Haiti, México, Amazônia, África, Índia)
o Contanto direto com sangue, através de transfusão, transplante e acidente
perfurocortante.
Fatores de Proteção:
o Traço Falcêmico o HLA BW 53
o Mutação de G6PD o Ausência de fator duffy
o Talassemia
QUADRO CLÍNICO
O quadro clínico e sua gravidade depende de vários fatores como idade,
imunidade, espécie e epidemiologia. Deve-se dar atenção alguns fatores: expo-
sição geográfica, contato prévio, surgimento dos sintomas e padrão de febre (pa-
roxismo febril).
FORMA NÃO COMPLICADA:
Nessa apresentação, não há disfunção de órgão vital, e pode ser apresen-
tada pela infecção de qualquer uma das espécies do plasmódio. Possui clínica
pouco específica, na qual seus principais sinais e sintomas são: taquicardia, ta-
quipneia, calafrio, mal-estar, fadiga, diaforese, cefaleia, tosse, anorexia, náusea,
vômitos, mialgia, diarreia, artralgia e dor abdominal. Existem alguns sintomas
mais específicos, como icterícia, sangramento e organomegalia. Apresenta tam-
bém paroxismos febris, sinal que pode orientar acerca da etiologia.
O período de incubação é variável entre as espécies e o quadro geral-
mente abre com esses sintomas inespecíficos e o Acesso Malárico, que é a rup-
tura das hemácias acompanhada de calafrio e sudorese que dura até 1h e é se-
guida por um episódio febril. Após isso, a febre possui um caráter intermitente e
está relacionada a ruptura de hemácias contendo esquizontes maduros. O P.
knowlesi apresenta febre em 24h, já o P. vivax, P. falciparum e o P. ovale é terçã
(se apresenta a cada 48h – 2 dias sem febre e 1 com febre) e a P. malariae é
quartã (manifestando-se em ciclos de 72h).
FORMA COMPLICADA:
Essa apresentação tem disfunção de órgão vital e é causada, principal-
mente, pelo P. falciparum, podendo também ser causada pelo P. vivax. Possui
clínica mais grave e pode levar a morte.
MANIFESTAÇÕES CLÍNICAS
Cefaleia intensa e sonolência, pode evoluir com re-
Malária cerebral baixamento do nível de consciência, alterações pupi-
lares e em reflexos profundos.
Inicialmente, se apresenta com aumento da frequên-
Disfunção Pulmonar cia respiratória e pode se agravar, abrindo um quadro
(Síndrome do de síndrome do desconforto respiratório agudo, que
Desconforto Respirató- é a apresentação mais grave. Existe também a lesão
rio Agudo) pulmonar imuno-mediada, que ocorre após início do
tratamento, que é o edema agudo de pulmão.
Choque é caracterizado pela pressão arterial sistólica
< 90mmHG, e em geral, apresenta-se como um cho-
que hiperdinâmico (redução da resistência vascular
Colapso circulatório
periférica + função cardíaca normal). A presença de
choque em pacientes com malária é chamada de Sín-
drome da Malária Álgida.
Resultado do aumento do ácido lático pelo metabo-
Acidose metabólica
lismo anaeróbico
No Brasil, é a complicação mais frequente. Insufici-
ência renal é definida pela redução do volume uriná-
rio a menos de 400 mL/dia e ureia e da creatinina
plasmáticas aumentadas. Ela é resultado de fenôme-
Falência renal nos de citoaderência, eventos microembólicos, redu-
ção do fluxo sanguíneo, lesão direta pelas catecola-
minas liberadas por mediadores inflamatórios, depo-
sição de imunocomplexos e glomerulopatia imuno-
mediada.
É o resultado da lesão hepática, pode apresentar si-
nais de icterícia, hepatomegalia e elevação das ami-
Falência hepática notransferases. Essa diminuição de função pode al-
terar a gliconeogênese, o metabolismo de antimalá-
ricos e diminui a produção de fatores de coagulação.
O paciente está num estado pró-coagulante: trom-
Coagulopatia com ou
bocitopenia + ativação da cascata de coagulação e
sem CIVD
sistema fibrinolítico.
Hemoglobina < 7g/dl ou hematócrito < 20% na pre-
Anemia severa
sença de parasitemia > 10.000/mcL
Mais frequente em crianças e os níveis de glicose
sanguínea são inferiores a 30 mg/dL. É explicada
Hipoglicemia pelo alto consumo de glicose do plasmódio, que tam-
bém atrapalha o estoque de glicogênio no fígado
através de lesão hepática.
Resultado da hemólise intravascular aguda maciça.
Hemoglobinúria
Sua principal complicação é a necrose tubular aguda.
RECRUDESCÊNCIA: Devido tratamento ineficaz ou falha imunológica, os plas-
módios permanecem na corrente sanguínea de forma indetectável e após dias
ou semanas, o paciente volta a manifestar sintomas. O principal causador é o P.
falciparum.
REINFECÇÃO: Os hipnozoítos hibernantes são liberados dos hepatócitos para a
corrente sanguínea, resultando em nova parasitemia. É causada pela P. vivax ou
P. ovale.
DIAGNÓSTICO
A Gota Espessa é o método utilizado no Brasil e considerado padrão-ouro
pela OMS, essa técnica é baseada na visualização direta do parasita através da
microscopia óptica. Já o Esfregaço Delgado possui baixa sensibilidade, porém é
mais eficiente para diferenciação das espécies do Plasmodium. Além desses, os
testes rápidos para a detecção de componentes antigênicos de plasmódio são uti-
lizados como triagem, e podem ser utilizados também como confirmação diag-
nóstica em lugares onde é inviável a realização da gota espessa.
Diagnóstico Diferencial: Quadro semelhante a outras síndromes febris,
como febre amarela, leptospirose, calazar, entre outras.
TRATAMENTO
Objetivo do tratamento:
o Interrupção do ciclo que ocorre dentro da hemácia;
o Erradicação das formas latentes no ciclo tecidual (hipnozoítos); e
o Interrupção da transmissão do parasito.
O esquema recomendado pelo Ministério de Saúde para Malária não complicada
por P. vivax, malarie e ovale, são:
o Cloroquina em 3 dias e Primaquina em 7 dias.
o A primaquina é a responsável pela destruição dos hipnozoítos e não pode
ser usada em gestantes.
Esquema para Malária complicada por P. vivax:
o Cloroquina intravenosa.
Esquema para Malária não-complicada por P. falciparum:
o Combinação fixa de Artesunato+Mefloquina em 3 dias associados a Pri-
maquina em dose única para erradicação dos gametócitos; OU
o Combinação fixa de artemeter+ Lumefantrina em 3 dias associados a Prima-
quina em dose única;
o Para gestantes e crianças menores de 5 anos, deve-se usar quinina por 3
dias + clindamicina por 5 dias.
Esquema para Malária grave pelo P. falciparum:
o Artesunato intravenoso associado a clindamicina; OU
o Artemether intramuscular associado a clindamicina; OU
o Quinina + clindamicina intravenosas (este esquema pode ser usado em
gestantes de 1º trimestre e crianças menores de 6 meses).
REFERÊNCIAS
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