ALgebra Linear Completo
ALgebra Linear Completo
Álgebra Linear
Mauri Cunha do Nascimento
Departamento de Matemática - UNESP/Bauru
4 de janeiro de 2011
Sumário
1 Matrizes e Determinantes 2
1.1 Matrizes . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 2
1.2 Determinante de uma matriz quadrada . . . . . . . . . . . 4
1.3 Matriz escalonada . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 5
1.4 Equivalência de matrizes por linha . . . . . . . . . . . . . 5
2 Sistemas Lineares 7
2.1 Sistema de Equações Lineares . . . . . . . . . . . . . . . . 7
2.2 Classificação de um Sistema Linear . . . . . . . . . . . . . 8
4 Transformações Lineares 27
4.1 Definição e exemplos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 27
4.2 Núcleo e Imagem . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 28
4.3 Operador linear . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 30
4.4 Matriz de um operador linear . . . . . . . . . . . . . . . . 31
5 Autovalores e Autovetores 32
5.1 Autovalores e Autovetores de uma matriz . . . . . . . . . 33
5.2 Polinômio caracterı́stico de um operador linear . . . . . . 34
5.3 Diagonalização . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 35
6 Apêndice 37
6.1 Corpos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 37
6.2 Polinômio Minimal . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 37
6.3 Forma de Jordan . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 39
6.4 Composta e inversa de transformações lineares . . . . . . 40
6.5 Exercı́cios de Espaços Vetoriais . . . . . . . . . . . . . . . 40
6.6 Exercı́cios de Transformações Lineares . . . . . . . . . . . 41
Bibliografia 42
1 MATRIZES E DETERMINANTES 2
1 Matrizes e Determinantes
1.1 Matrizes
Definição 1.1 Uma matriz m×n é uma tabela com números dispostos em m linhas e n colunas.
a11 a12 · · · a1n
a21 a22 · · · a2n
Am×n = . ..
. .. = [aij ]m×n
. . ··· .
am1 am2 · · · amn
onde aij é o elemento da matriz que está na linha i e na coluna j.
Numa matriz quadrada A = [aij ]n×n , os elementos a11 , a22 , . . . , ann formam a diagonal
principal da matriz.
Observe que, se A = [aij ] é uma matriz simétrica, então a i-ésima linha e a i-ésima coluna
de A têm exatamente os mesmos elementos e na mesma ordem. O termo ”simétrica”vem do
fato de existir uma simetria em A em relação à diagonal principal.
1 −2 5 1 −2 5
Exemplo 1.1 A matriz −2 4 7 é simétrica e a matriz 0 4 7 é uma matriz
5 7 0 0 0 0
triangular superior.
Propriedades
Sejam A, B e C matrizes, O uma matriz nula, I uma matriz identidade e r, s escalares. Desde
que sejam possı́veis as operações, as seguintes propriedades são válidas.
1. Comutativa. A + B = B + A. Em geral AB 6= BA
2. Associativa. A + (B + C) = (A + B) + C e A(BC) = (AB)C
3. Distributiva. A(B + C) = AB + AC e (B + C)A = BA + CA
4. A + O = O + A = A; AI = IA = A; OA = O0 ; AO = O”, onde O, O0 e O” são matrizes
nulas adequadas.
5. r(A + B) = rA + rB
6. (r + s)A = rA + sA
7. (rA)B = r(AB) = A(rB)
Inversa. Se A é uma matriz quadrada, a inversa de A, caso exista, é uma matriz de-
notada por A−1 satisfazendo AA−1 = A−1 A = I (matriz identidade).
1 MATRIZES E DETERMINANTES 4
onde Aij é a matriz quadrada de ordem n − 1, obtida da matriz A retirando-se a i-ésima linha
e j-ésima coluna.
Propriedades de determinantes.
1. Se A tem uma linha (ou coluna) nula então det(A) = 0
2. Se multiplicarmos uma linha (ou coluna) de uma matriz por uma constante r, seu determi-
nante fica multiplicado por r
3. Se A é uma matriz n×n e r é um escalar então det(rA) = rn det(A)
4. Trocando a posição de duas linha (ou colunas), o determinante troca de sinal
5. Trocando a linha i por linha i + r(linha j), não se altera o determinante (o mesmo vale para
colunas em lugar de linhas)
6. Se A tem duas linhas (ou colunas) iguais então det(A) = 0
7. det(AB) = det(A)det(B)
8. Se existe a inversa de A então det(A−1 ) = 1/(det(A))
9. Existe a inversa de A se, e somente se, det(A) 6= 0
10. O determinante de uma matriz triangular é igual ao produto dos elementos da diagonal
1 MATRIZES E DETERMINANTES 5
Exercı́cios 1.2 Livro do Boldrini página 11 exercı́cios 1, 2, 6, 10, 12, 13; página 90 exercı́cios
3, 4, 8 e 13 " #
a b
Exercı́cio 1.3 Mostre que se A = é uma matriz inversı́vel então
c d
" #
1 d −b
A−1 = det(A)
−c a
Definição 1.2 Dizemos que uma matriz A é uma matriz escalonada (ou matriz em forma de
escada) se as condições abaixo são satisfeitas:
a) As linhas nulas (caso existam) localizam-se abaixo de todas as linhas não nulas.
b) Caso i e j sejam linhas não nulas e i < j, então o primeiro elemento não nulo da linha i
está em uma coluna anterior à do primeiro elemento não nulo da linha j.
Exemplo
1.6 São
matrizes escalonadas:
2 −1 3 0
0 1 3 1 0 4 0 5 " #
0 0 4 1 1 0
, 0 0 7 , 0 2 1 5 0 , , [7].
0 0 0 0 0 1
0 0 0 0 0 0 −3 2
0 0 0 0
Definição 1.3 Dizemos que uma matriz A é equivalente por linhas a uma matriz B, se a matriz
B pode ser obtida da matriz A, a partir de uma seqüência finita de operações elementares, as
quais estão listadas a seguir.
1. Troca da linha i com a linha j ( Li ↔ Lj ).
2. Multiplicação da linha i por um escalar não nulo r (Li → rLi ).
3. Substituição da linha i por r vezes a linha j somada à linha i, (Li → Li + rLj ).
1 MATRIZES E DETERMINANTES 6
Exercı́cios 1.5 Livro do Lipschutz: pag. 36 - 1.20, 1.21, 1.22; pag. 50 - 1.54 e 1.55
Teorema 1.1 Uma matriz A é inversı́vel se, e somente se, A é equivalente por linhas à matriz
identidade. Além disso, a mesma sucessão de operações elementares que transformam a matriz
A na matriz identidade, transformam a matriz identidade na inversa de A.
0 2 1
Exemplo 1.7 A = 2 0 2
1 1 2
0 2 1 1 0 0 1 1 2 0 0 1 1 1 2 0 0 1
2 0 2 0 1 0 L1 ↔ L3 2 0 2 0 1 0 L2 ↔ L3 2 0 2 0 1 0 L3 →
1 1 2 0 0 1 0 2 1 1 0 0 0 2 1 1 0 0
1 1 2 0 0 1 1 1 2 0 0 1
L2 → L2 + L3
L3 − 2L1 0 2 1 1 0 0 L3 → L3 + 2L2 0 2 1 1 0 0 e
L1 → L1 + 2L3
0 −2 −2 0 1 −2 0 0 −1 1 1 −2
1 1 0 2 2 −3 1 1 0 2 2 −3 1 0 0 1 23 −2
0 2 0 2 1 −2 L2 → 21 L2 0 1 0 1 12 −1 L1 → L1 −L2 0 1 0 1 12 −1
0 0 −1 1 1 −2 0 0 −1 1 1 −2 0 0 −1 1 1 −2
3
1 0 0 1 2
−2
1
L3 → −L3 0 1 0 1 −1
2
0 0 1 −1 −1 2
3
1 2
−2
1
Assim, A−1 = 1 2
−1
−1 −1 2
Exercı́cio
1.6 Determine as inversas das matrizes dadas abaixo, caso seja possı́vel.
1 0 1 " # " #
1 2 1 2
A= 1 2 1 B= C=
0 3 2 4
0 2 0
2 Sistemas Lineares
2.1 Sistema de Equações Lineares
Definição 2.1 i) Uma equação linear nas incógnitas (ou variáveis) x1 , x2 , · · · , xn é uma
equação dada por: a1 x1 + a2 x2 + +an xn = b onde b e os coeficientes ai são escalares.
ii) Uma solução da equação dada em (i) é uma n-úpla (c1 , c2 , ..., cn ) de escalares que satisfaz a
equação: a1 c1 + a2 c2 + +an cn = b.
iii) Um sistema de equações lineares é um conjunto (finito) de equações lineares.
iv) Uma solução de um sistema de equações lineares com n incógnitas é uma n-úpla (c1 , c2 , ..., cn )
de escalares que é solução de todas as equações do sistema.
Um
sistema com m equações e n incógnitas tem representação
a11 x1 + a12 x2 + . . . + a1n xn = b1
a21 x1 + a22 x2 + . . . + a2n xn = b2
..
.
a x + a x + ... + a x = b
m1 1 m2 2 mn n m
Teorema 2.1 Sistemas que possuem matrizes ampliadas equivalentes por linhas são equivalen-
tes, isto é, ambos possuem o mesmo conjunto de soluções.
1 1 1 2
0 1 −1 −5
0 0 1 3
que é a matriz ampliada do sistema
x + y + z = 2
y − z = −5
z = 3
cuja solução é x = 1, y = −2 e z = 3, ou seja, (1, −2, 3) é solução do sistema dado.
Observe que um sistema homogêneo é sempre possı́vel, pois (0, 0, ..., 0) é uma solução.
Exemplo 2.2 (
x + y = 0
Sistema impossı́vel:
x + y = 2
(
x + y = 0
Sistema possı́vel e determinado:
y = 2
n
Sistema possı́vel e indeterminado: x + y = 2
Teorema 2.2 Duas matrizes escalonadas equivalentes por linhas têm sempre o mesmo número
de linhas não nulas.
Definição 2.3 O posto de uma matriz A é o número de linhas não nulas de qualquer matriz
escalonada linha equivalente a A.
Teorema 2.3 Um sistema é possı́vel se, e somente se o posto da matriz dos coeficientes do
sistema é igual ao posto da matriz ampliada. Neste caso, considerando os postos das matrizes
iguais a p, e considerando n o número de incógnitas, temos:
a) se n = p então o sistema tem uma única solução
b) se p < n, para obter uma solução para o sistema, podemos escolher n − p incógnitas e
atribuir valores quaisquer para elas. Os valores para as outras p incógnitas serão dadas em
função destas.
Vemos no Teorema anterior que se um sistema tiver mais que uma solução, terá infinitas
soluções. O valor n − p no ı́tem (b), é chamado de grau de liberdade do sistema.
Exemplo
( 2.3 Dado o sistema
x + 2y + z + t = 1
x + 3y − z + 2t = 3
obtemos o sistema equivalente:
3 ESPAÇOS VETORIAIS REAIS 9
(
x + 2y + z + t = 1
.
y − 2z + t = 2
Temos então n = 4 (incógnitas), p = 2 (posto das matrizes ampliadas e dos coeficientes) e
o grau de liberdade do sistema sendo n − p = 2. Podemos obter x e y em função de z e t:
y = 2 + 2z − t e x = −3 − 5z + t. Podemos também representar as soluções do sistema por
(x, y, z, t) = (−3 − 5z + t, 2 + 2z − t, z, t) ou, trocando z e t pelos parâmetros a e b,
(x, y, z, t) = (−3 − 5a + b, 2 + 2a − b, a, b), ou ainda
(x, y, z, t) = (−3, 2, 0, 0) − a(5, 2, 1, 0) + b(1, −1, 0, 1). Atribuindo valores para a e b, obtemos
soluções para o sistema. Por exemplo, para a = 2 e b = −1, obtemos x = −14 e y = 7. Assim,
(x, y, z, t) = (−14, 7, 2, −1) é uma solução do sistema.
Exercı́cios 2.1 Resolver os exercı́cios do livro do Boldrini: página 49, exercı́cios 1, 5, 6, 10,
11, 12, 13, 14, 15, 16, 19, 20
Resolver os exercı́cios do livro do Lipschutz: página 34 exercı́cios de 1.15 a 1.19; página 49,
exercı́cios 1.48 a 1.51.
Definição 3.1 Um espaço vetorial real é um conjunto V não vazio onde estão definidas a
adição de vetores (a adição de elementos de V ) e o produto de por escalar (o produto de
números reais por elementos de V ) satisfazedo as condições abaixo, para u, v, w ∈ V e r, s
números reais.
0) Fechamento: u + v ∈ V e ru ∈ V
Propriedades da adição
1) Associativa: u + (v + w) = (u + v) + w
2) Comutativa: u + v = v + u
3) Vetor nulo: existe O ∈ V tal que v + O = O + v = v
4) Oposto de v: se v ∈ V então existe −v ∈ V tal que −v + v = v + (−v) = O.
Notação para a subtração: u − v = u + (−v)
Propriedades do produto por escalar
5) r(u + v) = ru + rv
6) (r + s)v = rv + sv
7) r(sv) = (rs)v
8) 1v = v
Define-se espaço vetorial complexo da mesma forma como acima, mas considerando-se
o produto por escalar como o produto de vetor por número complexo, isto é, se os escalares
r e s tomados na definição acima forem números complexos. Espaços vetoriais são definidos
de forma mais geral, tomando os escalares como elementos de um corpo K (ver apêndice).
O conjunto dos números reais e o conjunto dos números complexos são exemplos de corpos.
Quando tomamos um espaço vetorial V , onde com os escalares são elementos de um corpo K,
dizemos que V é um espaço vetorial sobre o corpo K.
3 ESPAÇOS VETORIAIS REAIS 10
A menos que seja especificado, nos exemplos vamos considerar espaços vetoriais sendo
espaços vetoriais reais, isto é, espaços vetoriais sobre o corpo dos números reais.
Exemplos 3.1 O conjunto dos vetores no plano forma um espaço vetorial real, como também,
o conjunto dos vetores no espaço forma outro espaço vetorial real. Existem outros conjuntos que
também formam espaços vetoriais. Por exemplo, dados os inteiros positivos m e n, o conjunto
M (m, n) das matrizes reais m×n formam um espaço vetorial com as operações de soma de ma-
trizes e produto de escalares por matrizes. O conjunto dos vetores no plano é identificado com
R2 = {(x, y) : x, y ∈ R} e o conjunto dos vetores no espaço com R3 = {(x, y, z) : x, y, z ∈ R}.
Estes conjuntos podem ser generalizados, tomando Rn = {(x1 , x2 , ..., xn ) : x1 , x2 , ..., xn ∈ R},
o conjunto das n-úplas de números reais, onde n é um número inteiro maior que zero. A soma
de elementos de Rn e o produto de elementos de Rn por escalar, isto é, por números reais, é
definido como no caso de vetores no R2 ou R3 :
(x1 , x2 , ..., xn ) + (y1 , y2 , ..., yn ) = (x1 + y1 , x2 + y2 , ..., xn + yn ) e
r(x1 , x2 , ..., xn ) = (rx1 , rx2 , ..., rxn ).
Observe que Rn com as operações que foram definidas, pode ser identificado com o espaço das
matrizes reais 1 × n.
Da mesma forma, considerando C o conjunto dos números complexos, os conjuntos Cn =
{(x1 , x2 , ..., xn ) : x1 , x2 , ..., xn ∈ C}, são espaços vetoriais complexos, onde as operações são
definidas formalmente como em Rn .
Da mesma forma, se K é um corpo (veja apêndice), os conjuntos da forma Kn =
{(x1 , x2 , ..., xn ) : x1 , x2 , ..., xn ∈ K}, são espaços vetoriais.
As provas que estas operações satisfazem as condições para espaços vetoriais são análogas
às provas para os casos de vetores e matrizes. As operações definidas acima são chamadas
operações usuais para os respectivos espaços.
Teorema 3.1 Sejam V um espaço vatorial, v um vetor, r um escalar e O o vetor nulo. Então:
1. rO = O
2. 0v = O
3. se rv = O então r = 0 ou v = O
4. se rv = v então r = 1 ou v = O
5. (−r)v = r(−v) = −(rv) (⇒ (−1)v = −v)
6. o vetor nulo é único
7. para cada vetor v, o oposto de v é único
3.2 Subespaço
Nos exercı́cios anteriores temos alguns exemplos de subespaços (identifique os subespaços dos
respectivos espaços).
Em vista da observação após o Teorema 3.1, enunciamos o teorema a seguir.
Exemplo 3.2 Qualquer espaço vetorial V contém pelo menos dois subespaços: o próprio V e
o conjunto {O}, que contém somente o vetor nulo de V .
Exemplos 3.3
1. W = {(x, 0, z) : x, z ∈ R} é subespaço de R3
2. W = {(x, y, x + y, x − y) : x, y ∈ R} é subespaço de R4
2
3. W = {(x,
(" y, z) : x + # y = 0 e z =)2x} é subespaço de R
a 0
4. W = : a, b ∈ R é subespaço de M (2, 2)
0 2a − b
5. W = {(x, y) ∈ R : 2x − 3y = 0} é subespaço de R2
3 ESPAÇOS VETORIAIS REAIS 12
Definição 3.3 Seja V um espaço vetorial e sejam v1 , v2 , · · · , vn . Uma combinção linear dos
vetores v1 , v2 , · · · , vn é uma expressão da forma a1 v1 + a2 v2 + .... + an vn onde a1 , a2 , ..., an são
escalares. Assim, se v = a1 v1 + a2 v2 + .... + an vn dizemos que v é uma combinação linear dos
vetores v1 , v2 , · · · , vn ∈ V .
Exemplo 3.4 Os vetores u = (1, 2) e v = (3, 4) de R2 são ( L.I., pois se au + bv = (0, 0), temos:
a + 3b = 0
a(1, 2) + b(3, 4) = (0, 0) ⇒ (a + 3b, 2a + 4b) = (0, 0) ⇒
2a + 4b = 0
3 ESPAÇOS VETORIAIS REAIS 13
Exemplo 3.5 Os vetores u = (1, 2, 3), v = (1, 0, 0) e w = (2, 2, 3) são L.D. pois se au + bv +
cw = (0, 0, 0), temos: a(1,
2, 3) + b(1, 0, 0) + c(2, 2, 3) = (0, 0, 0) ⇒ (a + b + 2c, 2a + 0b + 2c, 3a +
a + b + 2c = 0
0b + 3c) = (0, 0, 0) ⇒ 2a + 2c = 0 .
3a + 3c = 0
Resolvendo o sistema concluı́mos que existem soluções não nulas. Uma delas é a = 2, b = 2 e
c = −2, ou seja, 2(1, 2, 3) + 2(1, 0, 0) − 2(2, 2, 3) = (0, 0, 0).
Teorema 3.3 Os vetores v1 , v2 , · · · , vn são linearmente dependentes se, e somente se, um deles
for combinação dos demais.
Corolário 3.4 Dois vetores u e v não nulos são L.D. se, e somente se, um dos vetores for
igual ao outro multiplicado por algum escalar.
Exemplos 3.6 Os vetores u = (1, 2) e v = (2, 1) são L.I. Os vetores u = (1, 2, 3) e v = (3, 6, 9)
são L.D.
Observe que qualquer subconjunto de um conjunto L.I. é também L.I. e que qualquer conjunto
que contém um subconjunto L.D. é também L.D.
Exemplo 3.7 Em R2 , os vetores (1, 2) e (2, 4) são L.D., pois 2(1, 2) − (2, 4) = (0, 0). Logo,
2(1, 2) − (2, 4) + 0(5, 7) + 0(13, −99) = (0, 0). Assim, os vetores (1, 2), (2, 4), (5, 7), (13, −99)
são L.D.
Exemplo 3.8 Se V é um espaço vetorial então qualquer conjunto de vetores que contenha o
vetor nulo é L.D., pois se v1 , v2 , · · · , vn são vetores quaisquer então 0v1 +0v2 +· · ·+0vn +1·O =
O.
Exercı́cios 3.3
1. Verifique, em cada caso, se os vetores são L.I..
a) V = R2 , u = (1, 2), v = (3, 2)
b) V = R2 , u = (1, 2), v = (3, 2), w = (5, 8)
c) V = R3 , u = (1, 0, 0), v = (1, 1, 0), w = (1, 1, 1)
d) V = R3 , u = (1, 2,"1), v =#(3, 6, 3)" # " #
1 2 1 0 0 2
e) V = M (2, 2), u = , v= , w=
0 1 2 1 −2 0
f ) V = R2 , u = (3, −3)
2. Sejam u, v e w vetores L.I..
a) Mostre que os vetores u1 = u, u2 = u + v e u3 = u + v + w são L.I.
b) Mostre que os vetores u1 = u + w, u2 = u + v e u3 = 2u + v + w são L.D.
Se V é gerado por v1 , v2 , · · · , vn então qualquer vetor v de V pode ser expresso como uma
combinação linear dos vetores v1 , v2 , · · · , vn , isto é, existem escalares a1 , a2 , ..., an tais que
v = a1 v1 + a2 v2 + .... + an vn . Assim, V = {a1 v1 + a2 v2 + .... + an vn : ∀i, ai ∈ R}
Notação: V = [v1 , v2 , ..., vn ].
Exemplos 3.9 R2 = [(1, 0), (0, 1)] pois para qualquer vetor v = (x, y) de R2 , v = (x, y) =
x(1, 0) + y(0, 1). Do mesmo modo, R3 = [(1, 0, 0), (0, 1, 0)(0, 0, 1)] pois para qualquer ve-
tor v = (x, y, z) de R3 , v = x(1, 0, 0) + y(0, 1, 0) + z(0, 0, 1). Generalizando, Rn =
[(1, 0, 0, ..., 0), (0, 1, 0, ..., 0), ..., (0, 0, 0, ..., 1)]
Exemplo 3.10 Os vetores u = (1, 0) e v = (1, 1) também geram R2 pois tomando um vetor
qualquer w = (x, y) de R2 , precisamos verificar que existem a, b ∈ R (em função de x e y)
tais que w = au + bv, ou seja, w = (x, y) = au + bv = a(1, 0) + b(1, 1) = (a + b, b). Assim,
(
a+b = x
b = y
Resolvendo o sistema, chegamos em a = x − y e b = y. Logo, w = (x, y) = (x − y)(1, 0) + y(1, 1)
e portanto, R2 = [(1, 0), (1, 1)]. Por exemplo, se w = (−2, 2) então w = (−2, 2) = −4(1, 0) +
2(1, 1). Na Figura 2, observamos a representação de w no plano R2 , como combinação linear
de u e v.
"
# " #
1 0 1 0
Exemplo 3.11 Os vetores u = e v = não geram M (2, 2) pois
0 1 1 0
" # " # " # " #
1 1 1 0 1 0 a+b 0
6= a +b = . Mas u e v geram um subespaço de
1 1 0 1 1 0 b a
(" # )
a+b 0
M (2, 2), digamos, o subespaço W = : a, b ∈ R
b a
Exemplo 3.12 Os vetores (1, 3, 0) e (2, 0, −1) geram o subespaço W = {a(1, 3, 0)+b(2, 0, −1) :
a, b ∈ R} = {(a + 2b, 3a, −b) : a, b ∈ R} do R3 . Será que os pontos de W tem alguma
configuração especial no R3 ? Vamos analisar:
a + 2b = x
(x, y, z) ∈ W ⇔ (x, y, z) = (a + 2b, 3a, −b) para a, b ∈ R ⇔ 3a = y
−b = z
Das duas últimas equações obtemos b = −z e a = y/3. Substituindo a e b na 1a equação
obtemos y/3 + 2(−z) = x, ou seja, 3x − y + 6z = 0 que é a equação de um plano no R3 .
Assim, W representa um plano no R3 que passa pela origem do espaço, pois (0, 0, 0) satisfaz
sua equação. A partir da equação 3x − y + 6z = 0, isolando uma das variáveis, por exemplo
y = 3x + 6z, podemos explicitar W também por: W = {(x, 3x + 6z, z) : x, z ∈ R}
Observaremos mais adiante que qualquer par de vetores L.I. em R3 gera um plano que
passa pela origem do espaço.
Exemplo 3.13 Seja um vetor (a, b, c) do espaço R3 . Temos [(a, b, c)] = {t(a, b, c) : t ∈ R} =
{(at,
bt, ct) : t ∈ R}. Assim, (x, y, z) ∈ [(a, b, c)] se, e somente se,
x = at
(∗) y = bt para algum t ∈ R
z = ct
Assim, caso (a, b, c) 6= (0, 0, 0), o subespaço [(a, b, c)] do R3 é a reta cujas equações paramétricas
são dadas em (∗), ou seja, é a reta que passa pela origem do espaço e tem a direção do vetor
v = (a, b, c).
Exercı́cios 3.4 Verifique, em cada caso, se os vetores dados geram o espaço. Caso não gerem,
explicite o subespaço gerado por eles.
a) V = R3 , u = (1, 0, 0), v = (1, 1, 0), w = (1, 1, 1)
b) V = R3 , u = (1, 1, 1), v = (1, 0, 1)
c) V = R2 , u = (1, 2), v = (2, 1)
d) V = R2 , u = (1, 2), v = (2, 4)
e) Resolva os exercı́cios 6, 7, e 8 da página 129 do livro do Boldrini
Definição 3.6 Uma base para um espaço vetorial V é um conjunto de vetores linearmente
independentes que geram V .
Exemplo 3.14 O conjunto {(1, 0), (01)} é uma base para R2 pois:
a) como já vimos, este conjunto gera R2 ;
b) o conjunto é linearmente independente pois se a(1, 0) + b(0, 1) = (0, 0), então (a, b) = (0, 0),
logo, a = 0 e b = 0.
Assim, {(1, 0), (0, 1)} é a base canônica de R2 . Existem várias bases para um mesmo
espaço. Por exemplo, já verificamos que o conjunto {(1, 2), (3, 4)} é linearmente independente.
Como exercı́cio verifique que este conjunto gera R2 e conclua que forma uma base para R2 .
Exemplo 3.16 O conjunto {(1, 0, 3), (0, 0, 2)} é linearmente independente mas não é uma base
de R3 pois não gera R3 : o vetor (0, 2, 0) não se escreve como combinação linear de (1, 0, 3) e
(0, 0, 2) (verifique).
Exemplo 3.17 O conjunto (1, 0), (0, 1), (3, 7) gera o R2 , pois para qualquer vetor v = (a, b),
v = a(1, 0) + b(0, 1) + 0(3, 7). Mas esse conjunto não é linearmente independente, pois 3(1, 0) +
7(0, 1) − 1(3, 7) = (0, 0).
O conjunto {0} formado somente pelo vetor nulo de um espaço vetorial também é um
espaço vetorial, pois satisfaz as condições da definição. Mas esse conjunto não contém ve-
tores linearmente independentes, logo, não possui uma base. Neste caso, convenciona-se que
dim{0} = 0. Por exemplo, dim{(0, 0, 0)} = 0.
3 ESPAÇOS VETORIAIS REAIS 17
Exemplo 3.19 O conjunto {(2, 7), (5, 9)} é uma base de R2 pois é um conjunto L.I. (verifique)
com dois vetores e dimR2 = 2.
Exemplo 3.20 O conjunto B = {(1, 2)} não é uma base de R2 pois dimR2 = 2. Mas podemos
completar B de modo a formar uma base de R2 . Como dimR2 = 2 precisamos completar com
um vetor de R2 que seja L.I. com (1, 2). Por exemlo, o vetor (0, 1) (verifique que os dois vetores
são L.I.). Assim, B = {(1, 2), (1, 0)} é uma base de R2 .
Exemplo 3.21 Os vetores u = (1, 2), v = (3, 4) e w = (5, 6) são L.D., pois dimR2 = 2. Vamos
verificar se estes vetores geram R2 : (
a + 3b + 5c = x
(x, y) = a(1, 2)+b(3, 4)+c(5, 6) ⇒ (x, y) = (a+3b+5c, 2a+4b+6c) ⇒ ⇒
2a + 4b + 6c = y
(
a +3b +5c =x
. Assim, temos um sistema escalonado com duas equações e três
−2b −4c = y − 2x
incógintas (a, b e c). Fazendo c = 1 obtemos a = 1 − 2x + 23 y e b = −2 + x − 21 y. Assim,
R2 = [(1, 2), (3, 4), (5, 6)]. Mas (5, 6) = −(1, 2) + 2(3, 4). Logo, R2 = [(1, 2), (3, 4)]. Como (1, 2)
e (3, 4) são L.I., então {(1, 2), (3, 4)} é uma base de R2 .
Exemplo 3.22 Os vetores u = (1, 2, 3) e v = (2, −3, 7) não geram o espaço R3 , pois dimR3 =
3. Mas, é possı́vel encontrar um vetor w tal que {(1, 2, 3), (2, −3, 7), w} seja uma base de R3 ,
pois (1, 2, 3) e (2, −3, 7) são L.I. (verifique).
Exercı́cios 3.6
1) Verifique se qualquer vetor de R2 se escreve como combinação linear dos vetores
{(1, 0), (1, 1), (0, 1)}. Este conjunto forma uma base de R2 ? Justifique sua resposta.
2) Verifique que o conjunto {(1, 1, 1), (1, 1, 0)} é L.I.. Eles formam uma base de R3 ? Justifique
sua resposta. Eles formam uma base para R2 ? Justifique sua resposta.
3) Escreva (4, 6) como combinação linear dos vetores (1, 0) e (2, 3).
3 ESPAÇOS VETORIAIS REAIS 18
Exemplo 3.25 Seja W = [(1, 1, 5), (0, 2, 1), (0, 0, 7)]. Como os três vetores geram W e são
L.I. (verifique) então formam uma base para W . Logo, dimW = 3. Como W é um subespaço
de R3 , então W = R3 .
Exemplo 3.27 Seja W = [(1, 2), (2, 0)]. Temos dimW = 2 (verifique). Logo, W = R2 .
−→
Nos espaços R2 e R3 , cada ponto P está associado ao vetor OP , onde O é a origem do sistema
cartesiano. Assim, um subespaço gerado por um vetor resulta em uma reta passando pela
origem do sistema cartesiano.
No caso de um subespaço de R3 gerado por dois vetores L.I., este subespaço será um plano
passando pela origem do sistema cartesiano.
Teorema 3.9 As linhas não nulas de uma matriz escalonada m×n são L.I. (quando conside-
radas como vetores de Rn ).
Exemplo 3.28 Os vetores u = (1, 2, 0, 3, 5), v = (0, 0, 0, 0, 7) e w = (0, 0, 3, 1, 2) são L.I. pois
podemos formar com eles uma matriz escalonada.
Exemplo 3.29 Se desejarmos encontrar uma base e a dimensão para o espaço V gerado pelos
vetores u = (1, 0, 2, 1), v = (2, 1, 0, −1) e w = (1, 1, −2, −2), colocamos estes vetores como
linhas de uma matriz
e a escalonamos
1 0 2 1 1 0 2 1 1 0 2 1
L2 → L2 − 2L1
2 1 0 −1 0 1 −4 −3 L3 → L3 − 2L2 0 1 −4 −3
L3 → L3 − L1
1 2 −6 −5 0 2 −8 −6 0 0 0 0
Assim, pelo Teorema 3.8, V = [(1, 0, 2, 1), (2, 1, 0, −1), (1, 2, −6, −5)] =
[(1, 0, 2, 1), (0, 1, −4, −3)] e pelo Teorema 3.9, os vetores (1, 0, 2, 1) e (0, 1, −4, −3) são
L.I.. Logo B = {(1, 0, 2, 1), (0, 1, −4, −3)} é uma base para V , portanto, dimV = 2.
Exemplo 3.30 Se quisermos completar o conjunto L.I. {(1, 1, 2), (1, 1, 5)}, para formarmos
uma base para R3 , colocamos estes vetores como linhas de uma matriz e a escalonamos e depois
completamos a matriz (escalonada) com os vetores que faltam
para completar uma base:
" # " # 1 1 2
1 1 2 1 1 2
L2 → L2 − L1 → 0 3 −5 Assim, aumentamos com a linha 2
1 1 5 0 0 3
0 0 3
para obter uma matriz 3×3 escalonada. Logo, {(1, 1, 2), (1, 1, 5), (0, 3, −5)} é uma base para R3 .
Exercı́cio 3.7
1. Encontre a dimensão de W nos casos abaixo:
a) W = [(1, 2, 3, 4, 5), (7, 8, 9, 10, 11), (1, 1, 1, 1, 1), (5, 4, 3, 2, 1)]
b) W = [(1, 0, 1, 0, 1), (0, 1, 0, 1, 0), (1, 1, 0, 1, 1), (2, 5, −1, 5, 2)]
2. Em cada ı́tem do exercı́cio anterior, a partir da base de W , encontre vetores que, junto com
os vetores da base de W , formam uma base para R5
Exemplo 3.34 Seja U = [(1, 2, 0, 1), (1, 2, 1, 2), (2, 4, 1, 3)] subespaço do R4 . Vamos encontrar
um subespaço W do R4 tal que R4 = U ⊕ W . Colocando os geradores de U em uma matriz
e escalonando-a obtemos uma base de U (as linhas não nulas da matriz escalonada): B =
{(1, 2, 0, 1), (0, 0, 1, 1)}. Para completar os geradores de U de modo a formar uma base de R4 ,
basta tomar dois vetores do R4 que, juntos com a base de U , possam ser colocados como uma
matriz escalonada. Por exemplo, podemos tomar os vetores (0, 1, 0, 0) e (0, 0, 0, 1). Assim,
para W = [(0, 1, 0, 0), (0, 0, 0, 1)], como R4 = [(1, 2, 0, 1), (0, 1, 0, 0), (0, 0, 1, 1), (0, 0, 0, 1)], temos
R4 = U + V . Como dimU = dimV = 2 então pelo Teorema 3.12, dim(U ∩ W ) = 0, ou seja,
U ∩ W = {(0, 0, 0, 0)}. Assim, R4 = U ⊕ W .
Exercı́cios 3.8
1. Sejam U = [(1, 2, 3, −2, 5), (1, 3, 4. − 1, 3), (1, 1, 2, −3, 7)] e
W = [(1, 4, 5, 0, 1), (2, 8, 12, 0, 2), (1, 4, 3, 0, 1)] e seja V = U + W .
a) Encontre dimV e dim(U ∩ W )
3 ESPAÇOS VETORIAIS REAIS 21
b) V = U ⊕ W ? Porque?
c) Encontre subespaços U 0 e W 0 de R5 tais que R5 = U ⊕ U 0 e R5 = W ⊕ W 0
2. Sejam U = [(1, 0, 0, 0)(0, 1, 1, 1), (2, 1, 1, 1)] e W = [(1, 0, 0, 2), (1, 0, 1, 0), (2, 0, 1, 2)]
a) Encontre dim(U + W ) e dim(U ∩ W )
b) R5 = U + W ?
c) R5 = U ⊕ W ?
3. Sejam U = [(1, 2, 1), (2, 0, 2)] e W = [(1, 1, 1), (2, 1, 2)]
a) Encontre dim(U + W ) e dim(U ∩ W )
b) R3 = U + W ?
c) R3 = U + W ?
d) Encontre subespaços U 0 e W 0 de R3 tais que R3 = U ⊕ U 0 e R3 = W ⊕ W 0
(Exercı́cios do livro do Boldrini página 130: 18, 19, 20 e 22)
Consideremos
um sistema de equações lineares com m equações e n incógnitas
a11 x1 + a12 x2 + · · · + a1n xn = b1
a21 x1 + a22 x2 + · · · + a2n xn = b2
.. .. .. .
. + . + ··· + . = ..
a x +
m1 1 am2 x2 + · · · + amn xn = bm
Considerando a matriz dos coeficientes A, a matriz das incógnitas X e a matriz dos termos
independentes
B,
a11 a12 · · · a1n x1 b1
a21 a22 · · · a2n x2 b2
A= .. .. ..
, X = .. , B = ..
. . · · · . . .
am1 am2 · · · amn xn bm
o sistema pode ser escrito na forma AX = B. Se as matrizes X1 e X2 são soluções desse
sistema então A(X1 + X2 ) = AX1 + AX2 = B + B = 2B = B se, e somente se, B é uma
matriz nula. Assim, X1 + X2 é também solução se, e somente se, b1 = b2 = ... = bm = 0. Neste
caso, dizemos que o sistema é homogêneo. Note que se o sistema for homogêneo, se X for uma
solução do sistema e se r for um escalar, então A(rX) = r(AX) = rO = O, onde O é a matriz
nula m×1. É claro que AOn×1 = Om×1 . Assim, se o sistema for homogêneo então o conjunto
das soluções deste sistema forma um subespaço de Rn . Portanto, o conjunto das soluções de
um sistema linear homogêneo é um espaço vetorial.
Variáveis livres
Em um sistema na forma escalonada, dizemos que uma variável é livre se ela não inicia
nenhuma das equações do sistema. No exemplo dado a seguir, as variáveis x e z iniciam,
respectivamente, a primeira e a segunda equações do sistema escalonado. Logo x e z não são
variáveis livres, enquanto que as demais variáveis, y, s e t, são as variáveis livres do sistema.
Note que podemos atribuir quaisquer valores às variáveis livres e obter os valores das demais
para encontrar soluções para o sistema.
x + y + z + s + t = 0
2x + 2y − z + 2s − t = 0
x + y + 4z + s + 4t = 0
para encontrar uma base e a dimensão do espaço das soluções, colocamos o sistema na forma
escalonada:
(
x + y + z + s + t = 0
3z + 3t = 0
de onde tiramos as variáveis livres y, s e t. Para obter uma base para o espaço das soluções do
sistema, colocamos valores para y, s e t de forma a obter y, z, t na forma escalonada, garantindo
vetores (x, y, z, s, t) L.I. :
y = 1, s = 0 e t = 0: (−1, 1, 0, 0, 0)
y = 0, s = 1 e t = 0: (−1, 0, 0, 1, 0)
y = 0, s = 0 e t = 1: (0, 0, −1, 0, 1)
Assim, B = {(−1, 1, 0, 0, 0), (−1, 0, 0, 1, 0), (0, 0, −1, 0, 1)} é uma base para o espaço das
soluções do sistema, tendo portanto este espaço dimensão 3.
Exercı́cio 3.9 Encontre uma base e a dimensão para o espaço das soluções para cada sistema
abaixo.
x + 2y + 3z + 4s + 5t = 0
7x + 8y + 9z + 10s + 11t = 0
a)
x + y + z + s + t = 0
5x + 4y + 3z + 2s + t = 0
x + z + t = 0
y + s = 0
b)
x + y + s + t = 0
x + 5y − z + 5s + 2t = 0
Exercı́cios 3.10 ˙
1. Encontre uma base e a dimensão para os seguintes subespaços de R4 .
a) U = {(x, y, z, t) ∈ R4 : x + y + z = 0 e x − y − z + t = 0}
b) W = {(x, y, z, t) ∈ R4 : x + 2y − z + 3t = 0 e 2x + 4y + z − 2t = 0}
c) U ∩ W
d) U + W
2. Sejam U = {(x, y, z) : x + y + z = 0} e W = {(x, y, z) : x − y + 2z = 0}
a) Encontre dim(U + W ) e dim(U ∩ W )
b) R3 = U + W ?
c) R4 = U ⊕ W ?
3 ESPAÇOS VETORIAIS REAIS 23
3. Sejam U = {(x, y, z, s, t) : x + y + z + s + t = 0, y − z + s − t = 0 e s − 2t = 0} e
W = {(x, y, z, s, t) : x + y + z + s + t = 0 e z + s + t = 0}
a) Encontre dim(U + W ) e dim(U ∩ W )
b) R5 = U + W ?
c) R5 = U ⊕ W ?
4. Exercı́cio 25 da página 132 do livro do Boldrini.
Seja V um espaço vetorial e seja B = {v1 , v2 , ..., vn } uma base de V. Para qualquer vetor v ∈ V, v
se escreve como uma combinação linear dos vetores da base: v = a1 v1 + a2 v2 + ... + an vn . Além
disso, só existe uma maneira de expressar v como uma combinação dos vetores da base B pois
se v = b1 v1 + b2 v2 + ... + bn vn , então a1 v1 + a2 v2 + ... + an vn = b1 v1 + b2 v2 + ... + bn vn , logo,
(a1 − b1 )v1 + (a2 − b2 )v2 + ... + (an − bn )vn = 0. Como B é uma base, seus vetores são L.I. Logo,
a1 − b1 = a2 − b2 = ... = an − bn = 0, ou seja, a1 = b1 , a2 = b2 , · · · , an = bn .
Definição 3.9 Uma base ordenada de um espaço vetorial V é uma base onde é considerado a
ordem dos vetores nesta base.
Definição 3.10 Sejam V um espaço vetorial e B = {v1 , v2 , ..., vn } uma base ordenada de V .
Para v = a1 v1 + a2 v2 + ... + an vn , os escalares a1 , a2 , . . . , an são chamados coordenadas de
a1
a2
v em relação à base B e [v]B = . é chamado o vetor das coordenadas de v em relação à
..
an
base B.
Note que, mudando a posição dos vetores da base, muda também o vetor das coordenadas.
0 2
Exemplo 3.37 Sejam B = {(1, 0),"(0, 1)}
# e B = {(0, " 1), (1,
# 0)} bases ordenadas de R e seja
−3 5
v = (3, 5) um vetor. Então [v]B = e [v]B 0 = .
5 −3
Exercı́cio 3.11 Seja B = {(1, 2, 1), (0, 1, 2), (0, 0, 1)} uma base de R3 . Encontre [v]B nos casos
abaixo.
a) v = (0, 3, −2) b) v = (0, 1, 1) c) v = (1, 2, 1) d) v = (2, 3, 4)
Seja V um espaço vetorial e sejam B = {v1 , v2 , ..., vn } e B 0 = {w1 , w2 , ..., wn } bases ordenadas
de V. Para v ∈ V , sejam v = x1 v1 + x2 v2 + ... + xn vn , e v = y1 w1 + y2 w2 + ... + yn wn as
representações
de v comocombinação
linear dos vetores das duas bases. Então,
x1 y1
x2 y2
[v]B =
.. e [v]B 0 = ..
. .
xn yn
3 ESPAÇOS VETORIAIS REAIS 24
Teorema 3.13 Seja V um espaço vetorial e sejam B e B 0 bases ordenadas de V. Então, para
0
cada v ∈ V , [v]B = [I]B
B [v]B 0
Exemplo 3.38 Sejam B = {(3, −2), (−4, 3)} e B 0 = {(1, 0), (0, 1)} bases de R2 . Vamos en-
contrar a matriz de mudança da base B 0 para a base B e também o vetor das coordenadas de
v = (2, 3) em relação à base B.
0
Para encontrar [I]B 0
B , escrevemos os vetores de B como combinação linear dos vetores de B:
(1, 0) = 3(3, −2) + 2(−4, 3)
(0, 1) = 4(3, −2) + 3(−4, 3) " #
0 3 4
A transposta da matriz dos coeficientes é a matriz procurada: [I]B B = . Como
2 3
3 ESPAÇOS VETORIAIS REAIS 25
B B B 0
Exemplo 3.39 No exemplo anterior,
" vamos #encontrar [I]B 0 e"realizar# o produto [I]B [I]B 0 .
3 −4 0 1 0
Resolvendo, encontramos [I]B
B0 = e [I]B B
B [I]B 0 = que é a matriz identi-
−2 3 0 1
0
dade. O próximo teorema mostra que isso sempre acontece, ou seja, [I]BB é sempre a inversa
da matriz [I]B
B0 .
Exercı́cios 3.12
1. Para B1 = {(0, 1), (1, 0)}, B2 = {(−1, 2), (2. − 3)}, B3 = {(2, 3), (−5, −7)} bases de R2 e
v = (4, 5), encontre:
a) [v]B1 b) [v]B2 c) [v]B3 d) [I]B 1
B2 e) [I]B B1
B3 f ) [I]B3
2
B2 B1 B1
2. No exercı́cio
("anterior
# verifique
" #que
" [I]B3 [I]
# B"2 = [I]B#)
3
.
1 0 1 1 1 0 1 1
3. Para B = , , , , encontre a matrizes de mudança de
0 0 0 0 1 1 1 1
B B0 0
base [I]
(" B 0 e [I]B
# , "onde B#é "a base canônica
# " de#)M (2, 2):
1 0 0 1 0 0 0 0
B0 = , , , .
0 0 0 0 1 0 0 1
4. Fazer o exercı́cio 29 da página 133 do livro do Boldrini.
Respostas: " # " # " #
2 3 5 −7 17 −29
1. [I]B
B2 =
1
, [I]B
B3 =
1
, [I]BB3 =
2
,
1 2 2 −3 7 −12
" # " # " #
5 22 −3
[v]B1 = , [v]B2 = , [v]B3 =
4 13 −2
1 1 1 1 1 −1 0 0
0 1 1 1 0 1 −1 0
B B0
3. [I]B 0 = e [I]B =
0 0 1 1 0 0 1 −1
0 0 0 1 0 0 0 1
Um polinômio com coeficientes reais é uma expressão da forma p(t) = a0 +a1 t+a2 t2 +· · ·+an tn ,
onde a0 , a1 , a2 , · · · , an são números reais. Dizemos que p(t) = a0 + a1 t + a2 t2 + · · · + an tn tem
grau n se an 6= 0.
Seja P o conjunto de todos os polinômios com coeficientes reais. Consideramos que dois
polinômios saõ iguais quando eles têm todos os coeficientes iguais:
a0 + a1 t + a2 t2 + · · · + an tn = b0 + b1 t + b2 t2 + · · · + bn tn ⇒ a0 = b0 , a1 = b1 , a2 = b2 , · · · an = bn
No conjunto P define-se as operações de adição de polinômios e produto de polinômio por
escalar como segue:
3 ESPAÇOS VETORIAIS REAIS 26
Subespaços Pn
Seja P o espaço dos polinômios sobre R e Pn o conjunto dos polinômios de graus menores ou
iguais a n, isto é, Pn = {a0 + a1 t + · · · + an tn : ai ∈ R}. Verifica-se facilmente que Pn é um
subespaço de P . Por exemplo, P2 = {a0 + a1 t + a2 t2 : ai ∈ R} é o espaço dos polinômios de
graus menores ou iguais a 2
Base e dimensão
Definição 3.11 Dizemos que um conjunto infinito de vetores é (LD) se contém um subconjunto
finito de vetores linearmente dependente. Caso contrário, dizemos que o conjunto é linearmente
independente (LI).
No espaço P dos polinômios, o conjunto {1, t, t2 , t3 , · · · } é LI, pois para qualquer subconjunto
finito, digamos, {1, t, t2 , · · · , tn }, se a0 +a1 t+a2 t2 +· · ·+an tn = 0 = 0+0t+0t2 +· · ·+0tn então
a0 = a1 = · · · = 0, mostrando que são LI. Por exemplo,{t, t3 , t8 } é LI pois é um subconjunto
de {1, t, t2 , · · · , t8 } que é LI.
Temos também que {1, t, t2 , t3 , · · · } gera P , pois todo polinômio se escreve na forma
p(t) = a0 + a1 t + a2 t2 + · · · + an tn . Também P não é finitamente gerado, pois não existe um
limite para o grau dos polinômios, apesar de todo polinômio ter um grau finito.
Assim, {1, t, t2 , t3 , · · · } é uma base de P .
Verifica-se facilmente que {1, t, t2 , t3 , · · · tn } é uma base de Pn .
Assim, dimPn = n + 1.
Quando um espaço V não é finitamente gerado, dizemos que V tem dimensão infinita e
denotamos dimV = ∞.
Assim, dimP = ∞.
Se A é um subconjunto do conjunto dos números reais, define-se F (A) o conjunto das funções
de A em R. A soma de funções e o produto de funções por escalar são definidos como segue:
Para f e g em F (A) e r ∈ R, define-se:
h = f + g, h(x) = f (x) + g(x).
k = rf, k(x) = rf (x).
4 TRANSFORMAÇÕES LINEARES 27
Aqui também, F (A) é um espaço vetorial. Seu vetor nulo é a função constante nula: n(x) = 0.
Assim, o conjunto F (R) das funções reais definidas em todo R é um espaço vetorial.
Para f (x) = sen2 (x) e g(x) = cos2 (x), sabemos que f, g ∈ F (R). Denotando h = f + g, então
h(x) = sen2 (x) + cos2 (x) = 1, isto é, h é a função constante h(x) = 1. Denotando k = −3f ,
então k(x) = −3sen2 (x).
O espaço P dos polinômios sobre os reais é um subespaço de F (R). Como P tem di-
mensão infinita então dimF (R) = ∞.
Os conjuntos C(R) = {f ∈ F (R) : f é contı́nua } e D(R) = {f ∈ F (R) : f é diferenciável }
são subespaços de F (R), e ambos têm P como subespaço.
Se V e W são espaços vetoriais, de modo análogo ao que foi feito para F (A), podemos
verificar que F (V, W ) = {f : V −→ W : f é função }, o conjunto das funções de V em W é
também um espaço vetorial.
4 Transformações Lineares
4.1 Definição e exemplos
Definição 4.1 Sejam V e W espaços vetoriais e seja T : V → W uma função. Dizemos que
T é uma transformação linear, se T satisfaz:
a) T (v + w) = T (v) + T (w), para quaisquer v, w ∈ V ;
b) T (av) = aT (v), para qualquer v ∈ V e qualquer a escalar.
1 −5
Subexemplo. Para A = 0 3 , TA : R2 → R3 , obtida por
−2 1
1 −5 " # x − 5y
x
0 3 = 3y , então TA é uma transformação linear definida por
y
−2 1 −2x + y
TA (x, y) = (x − 5y, 3y, −2x + y).
5) T : D(R) → D(R), T (f ) = f 0 , onde D(R) é o conjunto das funções diferenciáveis de R em
R e f é a derivada de f .
Não são transformações lineares:
6) T : R3 → R3 , T (x, y, z) = (x + 1, y + 2, z − 3).
7) T : R2 → R, T (x, y) = xy
8) T : M (2, 2) → R, T (A) = det(A)
Teorema 4.1 Sejam U e V espaços vetoriais e sejam {v1 , ..., vn } uma base para V e u1 , · · · , un
vetores de U . Então existe uma única transformação linear T : V → U tal que T (vi ) = ui para
todo i ∈ {1, ..., n}.
Exemplo 4.3 Seja {(1, 1), (0, 1)} uma base de R2 e sejam (2, 0, 5) e (1, −1, 3) vetores de R2 .
Então existe uma transformação linear T : R2 → R2 tal que T (1, 1) = (2, 0, 5) e T (0, 1) =
(1, −1, 3). Para encontrar T , basta escrever (x, y) como combinação linear da base dada e
aplicar T : como (x, y) = x(1, 1) + (y − x)(0, 1) e T é uma transformação linear então T (x, y) =
xT (1, 1) + (y − x)T (0, 1) = x(2, 0, 5) + (y − x)(1, −1, 3) = (x + y, y − x, 2x + 3y).
Notação: N (T ) = {v ∈ V : T (v) = OW }.
T (v) = w. Assim, T é sobrejetiva se, e somente se, W = Im(T ), isto é, se, e somente se,
dim W = dimIm(T ).
Uma transformação linear T : V → W é bijetiva se T é injetiva e sobrejetiva.
Teorema 4.3 Seja T : V → W uma transformação linear. Então T é injetiva se, e somente
se, N (T ) = {OV }.
Exemplo 4.4 No exercı́cio anterior, resolvendo chegamos que o núcleo de T tem dimensão 1.
Logo, N (T ) 6= (0, 0, 0). Assim, pelo teorema anterior T não é injetiva.
Teorema 4.4 Seja T : V → W uma transformação linear. Se {v1 , ..., vn } uma é base de V
então {T (v1 ), · · · , T (vn )} gera Im(T ). Isto é, Im(T ) = [T (v1 ), T (v2 ), . . . , T (vn )]
Teorema 4.5 Seja T : V → W uma transformação linear, sendo V espaço de dimensão finita.
Então dimV = dimN (T ) + dimIm(T ).
Exemplo 4.7 No exemplo acima, sabemos que dimN (T ) = 1. Qual seria uma base para
N (T )? Sabemos que N (T ) = {(x, y, z) ∈ R3 : T (x, y, z) = (0, 0, 0)}, ou seja, N (T ) =
{(x, y, z) : x + y + z = 0, x + 2y − 2z = 0 e y − 3z = 0}. Assim N (T ) é o conjunto das
soluções do sistema
x + y + z=0
x + 2y − 2z = 0 . Resolvendo o sistema chegamos, por exemplo, na base (4, −3, −1)
y − 3z = 0
para N (T ).
Exercı́cios.
1) Mostre que uma transformação linear T : R5 → R3 não pode ser injetiva.
2) Mostre que uma transformação linear T : R3 → R4 não pode ser sobrejetiva.
3) Seja T : V → W uma transformação linear. Mostre que:
a) se dimV > dimW então T não é injetiva;
4 TRANSFORMAÇÕES LINEARES 30
Teorema 4.8 Se V e W são espaços vetoriais de mesma dimensão (finita) então V e W são
isomorfos.
Temos então que qualquer espaço vetorial real V de dimensão finita é isomorfo a Rn onde
n é a dimensão de V .
Por exemplo, o espaço P4 dos polinômios de graus menores ou iguais a 4 é isomorfo a R5 ;
o espaço das matrizes reais M (2, 3) é isomorfo a R6 .
Já vimos que, para uma matriz Amxn , podemos associar uma transformação linear TA : Rn →
Rm . Veremos agora que dada uma transformação linear T : V → W , é possı́vel associar uma
matriz A a T . Faremos isso para o caso de T ser um operador linear. Para o caso geral, o
procedimento é semelhante e pode ser encontrado nos livros da bibliografia.
Definição 4.4 Um operador linear sobre um espaço vetorial V é uma transformação linear
T :V →V.
Já vimos também que se V é um espaço vetorial e B = {v1 , ..., vn } é uma base de V , então
cada v em V se escreve de maneira única como combinação linear dos elementos da base, isto
é, existem únicos escalares a1 , · · · , an tais que v = a1 v1 + · · · + an vn . Assim, considerando B
como base ordenada,
podemos tomar o vetor das coordenadas de v em relação à base B:
a1
[v]B = ... .
an
4 TRANSFORMAÇÕES LINEARES 31
Teorema 4.10 Seja V um espaço vetorial e sejam B = {v1 , ..., vn } e B 0 = {w1 , ..., wn } bases
de V. Se T : V → V é um operador linear então [T ]B 0 = P [T ]B P −1 onde P = [I]B
B 0 é a matriz
0
de mudança da base B para a base B .
Definição 4.5 Dizemos que duas matrizes n×n A e B são semelhantes se existe uma matriz
n×n inversı́vel P tal que A = P −1 BP .
Teorema 4.11 Duas matrizes representam o mesmo operador linear T se, e somente se elas
são semelhantes.
Exercı́cios.
1) Seja T : R2 → R2 definida por T (x, y) = (2x − 5y, 2y)
a) Encontre [T ]B para B = {(1, 0), (0, 1)}
b) Encontre [T ]B 0 para B 0 = {(1, 2), (2, 1)}
2) Seja T : R3 → R3 definida por T (x, y, z) = (2x + y, y − z, x + y + z)
a) Encontre[T ]B para B = {(1, 0, 0), (0, 1, 0), (0, 0, 1)}
b) Encontre [T ]B 0 para B 0 = {(1, 1, 1), (1, 1, 0), (1, 0, 0)}
5 Autovalores e Autovetores
Definição 5.1 Sejam V um espaço vetorial e T : V → V um operador linear. Dizemos que
um escalar λ é um autovalor de T , se existe um vetor não nulo v ∈ V tal que T (v) = λv. Neste
caso, dizemos que v é um autovetor de T , associado ao autovalor λ.
Exemplos 5.1
1) Seja : V → V definido por T (v) = 2v. Então 2 é um autovalor (o único) de T e todo vetor
não nulo de V é um autovetor associado ao autovalor 2.
2) Seja T : V → V a aplicação nula. Então 0 é um autovalor (o único) de T e todo vetor não
nulo de V é um autovetor associado ao autovalor 0.
3) Seja T : R2 → R2 definida por T (x, y) = (−y, x). Então T (x, y) = λ(x, y) ⇒ (−y, x) =
(λx, λy) ⇒ −y = λx e x = λy ⇒ −y = λ2 y ⇒ λ2 = −1 ou y = 0. Como λ ∈ R então λ2 6= −1,
logo, y = 0 e, portanto, x = λy = 0, ou seja, (x, y) = (0, 0). Assim, não existem autovalores
para T .
3b) Seja T : C2 → C2 definida por T (x, y) = (−y, x), onde C é o corpo dos números complexos
e estamos considerando C2 um espaço vetorial complexo. Desenvolvendo como no exemplo
anterior, chegamos que x = λy e λ2 = −1. Como estamos trabalhando num espaço vetorial
complexo, temos dois autovalores: λ1 = i e λ2 = −i. Assim, para λ1 = i temos x = iy e os
autovetores associados ao autovalor λ1 = i são da forma (iy, y), y 6= 0; para λ2 = −i temos
x = −iy e os autovetores associados ao autovalor λ2 = −i são da forma (−iy, y), y 6= 0;
4) Seja T : R2 → R2 definida por T (x, y) = (x, x − 2y). Se (x, y) é um autovetor associado a
um autovalor λ então (
x = λx
T (x, y) = λ(x, y) ⇒ (x, x − 2y) = (λx, λy) ⇒
x − 2y = λy
Se x = 0 então y 6= 0 e −2y = λy. Logo, λ = −2. Assim, −2 é um autovalor de T e os vetores
da forma v = (0, y), y 6= 0, são autovetores associados ao autovalor −2. Se x 6= 0 então λ = 1
5 AUTOVALORES E AUTOVETORES 33
Definição 5.2 Seja A uma matriz n×n. Um autovalor de A é um escalar λ para o qual existe
um vetor coluna v n × 1 não nulo, tal que Av = λv. O vetor v aqui é também chamado de
autovetor associado ao autovalor λ .
Dada uma matriz n×n A, vamos proceder de modo a procurar os autovalores e autovetores
de A. Se v é um autovetor de A associado ao autovalor λ, então Av = λv = λIv onde I é a
matriz identidade n×n. Logo, Av − λIv = O, ou seja, (A − λI)v = O. Se det(A − λI) 6= 0
então A − λI é inversı́vel com inversa, digamos, B. Assim,
B(A − λI) = I ⇒ B(A − λI)v = Iv ⇒ BO = v ⇒ O = v, o que é uma contradição pois v é
um autovetor.
Assim, λ é um autovalor de A se, e somente se, det(A − λI) = 0.
Denotando P (λ) = det(A − λI), temos que os autovalores de A são as raı́zes de P (λ).
Definição 5.3 O polinômio P (λ) = det(A − λI) definido acima é chamado o polinômio carac-
terı́stico de A.
" # " #
−1 4 −1 − λ 4
Exemplo 5.2 Para A = , P (λ) = det(A − λI) = det =
1 2 1 2−λ
(−1 − λ)(2 − λ) − 4 ⇒ P (λ) = −2 − λ + λ2 − 4 = λ2 − λ − 6.
Assim, as raı́zes do polinômio caracterı́stico P (λ) = λ2 − λ − 6 são λ = −2
" e λ = 3.# " #
−1 4 x
Para λ = −2, existe um vetor coluna v tal que Av = −2v. Assim, =
1 2 y
" # " # " # (
x −1x + 4y −2x −1x + 4y = −2x
−2 ⇒ = ⇒ . Resolvendo o sistema, che-
y x + 2y −2y x + 2y = −2y
gamos que as soluções são "
da forma
# x = −4y. Assim, os autovetores associados ao autovalor
−4y
λ = −2 são os vetores v = , y 6= 0.
y
Para λ = 3, procedendo da mesma
" # forma, concluı́mos que os autovetores associados ao autova-
x
lor λ = 3 são da forma v = , x 6= 0.
x
1 0 2
Exercı́cio 5.1 Para a matriz A = 0 1 3 encontre os autovalores e autovetores asso-
0 0 −5
ciados.
x
Resposta: λ = 1 com autovetores associados da forma v = y , x 6= 0 ou y 6= 0.
0
2z
λ = −5 com autovetores associados da forma v = 3z , z 6= 0.
−6z
5 AUTOVALORES E AUTOVETORES 34
1 2 −1
Exercı́cio 5.2 Para a matriz A = 1 0 1 encontre os autovalores e autovetores as-
4 −4 5
sociados.
−y
Resposta: λ = 1 com autovetores associados da forma v = y , y 6= 0.
2y
−2y
λ = 2 com autovetores associados da forma v = y , y 6= 0. λ = 3 com autovetores
4y
−y
associados da forma v = y , y 6= 0.
4y
5.3 Diagonalização
Definição 5.4 Dizemos que um operador linear T sobre um espaço vetorial V é diagonalizável
se existe uma base B de V tal que [T ]B é uma matriz diagonal.
Teorema 5.1 Seja T um operador linear no espaço vetorial V. Então T é diagonalizável se, e
somente se, existe uma base B de V formada por autovetores de T .
Definição 5.5 Dizemos que uma matriz A é diagonalizável se existe uma matriz invertı́vel P
tal que P −1 AP é uma matriz diagonal.
Teorema 5.2 Uma matriz quadrada de ordem n é diagonalizável se, e somente se, A tem n
autovetores linearmente independentes. Neste caso tomando uma matriz P , onde as colunas de
P são os n autovetores L.I. de A então a matriz P −1 AP é uma matriz diagonal.
" #
−1 4
Exemplo 5.4 Para A = , já vimos que A possui dois autovalores, com autovetores
1 2
associados da forma (−4y, y) e (x, x). Logo, podemos considerar os vetores " v = #(−4, 1) e
−4 1
w = (1, 1) formando uma base de R2 , pois são L.I.. Assim, para P = , P −1 =
1 1
" # " #
−1/5 1/5 −2 0
. Logo, P −1 AP = · · · =
1/5 4/5 0 3
−1
Verifique que P AP não é uma matriz diagonal.
Exemplo 5.5 Seja T : R2 → R2 definida por T (x, y) = (x, x − 2y). Já vimos que seus
autovalores são 1 e −2. Logo, T é diagonalizável.
5 AUTOVALORES E AUTOVETORES 36
" #
−1 4
Exemplo 5.6 Já vimos que a matriz A = possui dois autovalores distintos: λ1 = 3
1 2
e λ2 = −2. Logo, A é diagonalizável.
Respostas. " #
1 1
1) Autovetores: 0 e 3; P =
−1 2
" #
−1 1
2) Autovalores: −2 e 3; P =
1 4
3) B = {(1, 1), (2, 3)} 4) Não é diagonalizável pois não possui autovalores.
5) Não é diagonalizável pois não possui dois autovetores L.I.
6 Apêndice
6.1 Corpos
Um corpo é um conjunto não vazio K munido de duas operações ”+”e ”·”tais que
1. ∀a, b ∈ K, a + b ∈ K e a · b ∈ K
2. ∀a, b ∈ K, a + b = b + a e a · b = b · a
3. ∀a, b, c ∈ K, (a + b) + c = a + (b + c) e (a · b) · c = a · (b · c)
4. ∃ 0 ∈ K tal que a + 0 = 0 + a = a, ∀a ∈ K
5. ∃ 1 ∈ K tal que a · 1 = 1 · a = a, ∀a ∈ K
6. ∀a ∈ K ∃ b ∈ K tal que a + b = 0 (notação: b = −a)
7. ∀a ∈ K, a 6= 0, ∃ b ∈ K tal que a · b = 1 (notação: b = a−1 )
8. ∀a, b, c ∈ K, a · (b + c) = a · b + a · c
Exemplo 6.1 Os conjuntos R (conjunto dos números reais), C (conjunto dos números comple-
xos), Q (conjunto dos números racionais ou fracionários) são corpos com as operações usuais
de adição e multiplicação.
Exemplo 6.2 O conjunto Z dos números inteiros, com as operações usuais de adição e mul-
tiplicação, não é um corpo pois 2 ∈ Z mas não existe b ∈ Z tal que 2b = 1.
O exemplo anterior é denominado o corpo dos inteiros módulo 2. Para cada número primo
existe um corpo com p elementos, chamado de corpo dos inteiros módulo p e denotado por
Fp = {0, 1, 2, ..., p − 1}.
No corpo Fp estão definidas as operações: a + b = c onde c é o resto da divisão de a + b por p;
a · b = d onde d é o resto da divisão de a · b por p.
Denotamos por K[t] o conjunto dos polinômios com coeficientes em K. Assim, escrevemos
p ∈ K[t] (ou p(t) ∈ K[t] ) para dizer que p é um polinômio sobre K ou seja, um polinômio com
coeficientes em K.
6 APÊNDICE 38
Definição 6.1 Um polinômio p ∈ K[t] de grau maior ou igual a 1 é redutı́vel sobre um corpo
K se p = f g, onde f e g são polinõmios sobre K de graus maiores ou iguais a 1. Caso p não
seja reduı́vel dizemos que p é irredutı́vel.
Teorema 6.1
1) Se f, g, h ∈ K[t] e f = gh então o grau de f é igual à soma dos graus de g e de h.
2) Todo polinômio de grau 1 é irredutı́vel.
3) Os únicos polinômios irredutı́veis sobre C são os de grau 1.
Definição 6.2 Uma raiz de um polinômio p(t) é um elemento a tal que p(a) = 0.
Por exemplo, i é raiz do polinômio p(t) = t2 + 1
Teorema 6.2
1) Se K é um corpo e a ∈ K uma raiz de p(t) ∈ K(t) então p(t) = (t − a)g(t) para algum
g(t) ∈ K[t].
2) Se p(t) ∈ C é um polinômio de grau n então p(t) = a(t − a1 )(t − a2 ) · · · (t − an ) onde
a1 , a2 , · · · , an são as raizes de p(t).
3) Se a + bi é uma raiz do polinômios p(t) ∈ R então a − bi também é raiz de p(t).
4) Se p é irredutı́vel sobre R então p tem grau 1 ou 2.
Se A é uma matriz n×n e p(t) é um polinômio então p(A) é a matriz n×n obtida pela
substituição de t por A e do termo constante a0 por a0 I, onde Am é o produto de A por A m
vezes e I é a matriz identidade n×n.
" #
1 −1
Exemplo 6.6 Para A = e p(t) = t2 + 2t − 3 então p(A) = A2 + 2A − 3I =
0 2
" # " # " # " #
1 −3 2 −2 3 0 0 −5
+ − = , sendo I a matriz identidade 2×2.
0 4 0 4 0 3 0 5
Definição 6.3 Dizemos que um polinômio p(t) ∈ K[t] é mônico se o coeficiente de maior grau
em t é 1.
Por exemplo, p(t) = t3 − 2 é mônico.
Teorema 6.4 Se A uma matriz quadrada então existe um único polinômio mônico p(t) tal que
p(t) é polinômio de menor grau satisfazendo p(A) = O. Tal polinômio é chamado polinômio
minimal de A (ou do operador linear T , caso [T ]B = A).
Teorema 6.5 O polinômio caracterı́stico e o polinômio minimal têm os mesmos fatores irre-
dutı́veis.
6 APÊNDICE 39
Em vista do teorema anterior, temos que as raizes do polinômio minimal são justamente os
autovalores.
Exemplo 6.7 Se p(t) = (t − 1)2 (t + 2)3 é o polinômio caracterı́stico de uma matriz A então
o polinômio minimal de A será um seguintes: p1 (t) = (t − 1)(t + 2), p2 (t) = (t − 1)(t + 2)2 ,
p3 (t) = (t − 1)(t + 2)3 , p4 (t) = (t − 1)2 (t + 2), p5 (t) = (t − 1)2 (t + 2)2 , p6 (t) = (t − 1)2 (t + 2)3 .
Embora um operador linear T nem sempre seja diagonalizável, veremos que podemos ter
[T ]B em uma forma também simples.
5 1 0 0 " #
0 5 1 0 −2 1
Exemplo 6.8 J4 (5) = e J2 (−2) = .
0 0 5 1 0 −2
0 0 0 5
Dizemos que uma matriz A está na forma de Jordan se A é uma matriz ”diagonal de
blocos”onde cada elemento de sua ”diagonal”é um bloco de Jordan.
3 1 0 | 0 0
3 1 0 0 0
0 3 1 0 0 3 1 | 0 0
0
0 0 3 | 0 0
Exemplo 6.9 A = 0 0 3 0 0 = =
− − − + − −
0 0 0 −4 1
0 0 0 | −4 1
0 0 0 0 −4
0 0 0 | 0 −4
" #
J3 (3) O3×2
O2×3 J2 (−4)
Já vimos que se An×n é uma matriz quadrada (respectivamente, T : V → V um operador linear)
e se λ um autovalor de A (resp. de T ), então o conjunto Eλ dos autovetores associados a λ é
um espaço vetorial, chamado o autoespaço de λ.
1) Existe, pelo menos um bloco Ji (λj ) de ordem sj . Os outros blocos Ji (λj ) são de ordem menor
ou igual a sj .
2) A soma das ordens dos blocos Ji (λj ) é igual a rj .
3) O número de blocos Ji (λj ) é igual à multiplicidade geométrica de λj.
A matriz [T ]B é chamada a chamada a matriz de Jordam de T .
Observe que para poder definir F oT é necessário que o domı́nio de F seja igual à imagem
de T (ou simplesmente que o domı́nio de F esteja contido na imagem de T ).
Exercı́cio 6.1
1) Seja T : R2 → R2 , definida por T (x, y) = (x + y, 2x − y).
a) Mostre que T é uma transformação linear.
b) Mostre que T é bijetiva.
c) Encontre T −1 .
2) Seja a transformação linear T : R3 → R3 , definida por T (x, y, z) = (2x − 3y + z, 4x − y, 3x).
a) Mostre que T é uma transformação linear.
b) Mostre que T é bijetiva.
c) Encontre T −1 .
d) Encontre T oT
3) Seja T : R2 → R2 , definida por T (x, y) = (x + y, y).
a) Mostre que T é uma transformação linear.
b) Mostre que T é bijetiva.
c) Encontre T −1 , T oT , T oT −1 e T −1 oT −1 .
c) V = {(x, y, z, t) ∈ R4 : xy = 0et = 0}
d) V = {(x, y, z) ∈ R3 : x + y = 2 − z}
2) No exercı́cio anterior, encontre uma base nos casos onde V for um espaço vetorial.
3) Considere o subespaço de R4
W = [(1, 1, 2, 4), (1, 1, 1, 2), (1, 4, 4, 8)].
a) O vetor (2, 3, 3, 6) pertence a W ?
b) O vetor (0, 0, 1, 1) pertence a W ?
c) Encontre uma(" base e a dimensão# de W .)
2a a + 2b
4) Para W = : a, b ∈ R
0 a−b
" # " #
0 −2 0 3
a) ∈ W? b) ∈ W?
0 1 2 1
5) Considere o subespaço de R4 gerado pelos vetores v1 = (1, 1, 0, 0), v2 = (0, 0, 1, 1), v3 =
(2, 2, 1, 1) e v4 = (1, 0, 0, 0).
a) O vetor (2, 3, 2, 2) ∈ [v1 , v2 , v3 , v4 ]?
b) Exiba uma base para [v1 , v2 , v3 , v4 ].
c) [v1 , v2 , v3 , v4 ] = R4 ? Porque?
6) Considere o subespaço de R3 gerado pelos vetores v1 = (1, 1, 0), v2 = (1, 1, 1), v3 = (0, 1, 1).
[v1 , v2 , v3 ] = R3 ? Porque?
7) O espaço R2 é um subespaço de R3 ? Porque?
8) Determine
uma base e a dimensão do espaço das soluções dos sistemas abaixo.
2x + 4y − 6z = 0
x + 2y − 4z + 3r − s = 0
a) x − y + 4z = 0 b) x + 2y − 2z + 2r + s = 0
6y − 14z = 0 2x + 4y − 2z + 3r + 4s = 0
Respostas:
1) a) sim b) sim c) não d) não
2) a) {(1, 1, 0, 0), (0, 0, 2, 1)} b) {(2, 1, 0, 0), (1, 0, 2, 1)}
3) a) sim b) não 4) a) sim b) não
5) a) sim b) {(1, 0, 0, 0), (0, 1, 0, 0), (0, 0, 0, 1)}.
8) a) base: {(5, 7, 3)}; dimensão: 1.
b) base: {(−2, 1, 0, 0, 0), (−1, 0, 1/2, 1, 0), (−3, 0, −1, 0, 1)}; dimensão: 3.
b) Caso T seja diagonalizável, encontre uma base B de autovetores para T e determine a matriz
de T nesta base.
c) Verifique se T é um isomorfismo. Caso seja, encontre T −1 e a matriz de T −1 na base B,
encontrada no ı́tem (b). Realize o produto das matrizes de T e de T −1 .
Bibliografia
1. BOLDRINI, J. L. Álgebra linear. 3a Ed. São Paulo: Harper e Row do Brasil, 1986.
2. LIPSCHUTZ, S. Álgebra linear. 3a Ed. São Paulo: Editora Makron Books, 1994.