CÍCLO DE ESTUDOS
EM CIÊNCIAS DA LINGUAGEM
Questões de semântica nominal:
Os artigos definidos na construção de frases no Português
de Moçambique
Rufino Alfredo
D
2021
Rufino Alfredo
Questões de semântica nominal:
Os artigos definidos na construção de frases no Português
de Moçambique
Tese realizada no âmbito do Doutoramento em Ciências da Linguagem – variante
Linguística, orientada pela Professora Doutora Maria de Fátima Oliveira
Faculdade de Letras da Universidade do Porto
2021
2
Rufino Alfredo
Questões de Semântica nominal:
Os artigos definidos na construção de frases no Português
de Moçambique
Tese realizada no âmbito do Doutoramento em Ciências da Linguagem – variante
Linguística, orientada pela Professora Doutora Maria de Fátima Oliveira
Membros do Júri
Presidente:
Vogais:
3
Dedicatória
À minha família!
4
Sumário
Dedicatória .................................................................................................................................... 4
Declaração de honra ..................................................................................................................... 9
Agradecimentos .......................................................................................................................... 10
Nota prévia .................................................................................................................................. 11
Resumo........................................................................................................................................ 12
Abstract ....................................................................................................................................... 14
Índice de Figuras ......................................................................................................................... 16
Índice de Tabelas ......................................................................................................................... 17
Índice de quadros ....................................................................................................................... 19
Lista de abreviaturas e siglas....................................................................................................... 20
Introdução ................................................................................................................................... 22
CAPÍTULO -I ENQUADRAMENTO HISTÓRICO SOCIAL ................................................................. 27
1.0. Introdução ......................................................................................................................... 27
1.1 Contexto sociolinguístico de Moçambique ....................................................................... 27
1.2 Diversidade linguística em Moçambique .......................................................................... 29
1.3 Difusão do português em Moçambique ............................................................................ 32
2. Sobre contacto de Língua Portuguesa e Línguas bantu em Moçambique ........................... 33
3. Algumas notas sobre o Citshwa ............................................................................................. 42
3.1 Aspetos sociolinguísticos do Citshwa ................................................................................ 43
3.2 Alguns estudos realizados sobre o Citshwa ....................................................................... 43
3.2.1 Cumbane (2008) ........................................................................................................... 44
3.2.2 Gundane (2018) ............................................................................................................ 47
CAPÍTULO II – ENQUADRAMENTO TEÓRICO .............................................................................. 51
1.0 Introdução .......................................................................................................................... 51
2.1 Descrição geral dos determinantes no Português de Moçambique ................................. 51
2.2 Algumas considerações básicas sobre a noção e classificação dos determinantes em
português .................................................................................................................................. 56
2.3 Algumas particularidades morfossintáctico-semânticas dos determinantes no PE. ....... 69
2.3.1 Determinantes demonstrativos ................................................................................... 69
2.3.2 Determinantes possessivos.......................................................................................... 76
2.3.3 Determinantes artigos (definidos e indefinidos) ........................................................ 82
5
2.4 O tratamento dos artigos definidos no PB ........................................................................ 95
2.5 O tratamento dos artigos definidos em Espanhol........................................................... 105
2.5.1 Sobre artigos definidos e indefinidos em Espanhol .................................................. 106
2.6 Conclusão do capítulo ...................................................................................................... 110
Capítulo III - SEMÂNTICA NOMINAL ......................................................................................... 113
3.1 Aspetos gerais sobre a semântica dos sintagmas nominais no PE ................................. 113
3.1.1 Valores semânticos dos Sintagmas Nominais no PE ................................................. 114
3.1.2 Tipos de entidades semânticas .................................................................................. 115
3.2 Descrição semântica dos nomes comuns contáveis, não contáveis e recategorizados em
português ................................................................................................................................ 117
3.2.1 Breve descrição gramatical e semântica dos nomes comuns em português ........... 117
3.2.2 Aspectos gramaticais dos nomes contáveis e não contáveis em português............ 119
3.3 Aspetos gramaticais dos nomes próprios em português ................................................ 131
3.2.3 Tipologia dos nomes próprios.................................................................................... 136
3.4 Conclusão do capítulo ...................................................................................................... 140
CAPÍTULO IV – METODOLOGIA DE INVESTIGAÇÃO .................................................................. 142
4.0 Introdução ........................................................................................................................ 142
4.1. Metodologias de pesquisa e recolha de dados linguísticos ........................................... 142
4.2 A natureza dos dados ....................................................................................................... 144
4.2.1 O Corpus escrito ......................................................................................................... 145
4.3 Material e procedimentos ................................................................................................ 146
4.3.1 Material e procedimento no questionário sociolinguístico ...................................... 146
4.3.2 Material e procedimento no teste de produção provocada..................................... 146
4.3.3 Material e procedimento na tarefa de juízo de gramaticalidade e/ou aceitabilidade
150
4.4 Administração do material usado na recolha de dados.................................................. 153
4.5 Tratamento dos dados ..................................................................................................... 155
4.6 Caracterização dos informantes (a amostra)................................................................... 157
CAPÍTULO V ............................................................................................................................... 159
CONTRIBUTO DOS DETERMINANTES PARA A CONSTRUÇÃO DAS FRASES NO PORTUGUÊS DE
MOÇAMBIQUE: APRESENTAÇÃO E DESCRIÇÃO DOS DADOS.................................................... 159
5.0 Introdução ........................................................................................................................ 159
5.1 Apresentação dos dados sociolinguísticos ...................................................................... 159
6
5.2 Resultados do teste de produção provocada .................................................................. 166
5.2.0 Algumas considerações .............................................................................................. 166
5.2.1 Apresentação dos resultados da primeira sessão do teste de produção provocada
167
5.2.2 Apresentação dos resultados da segunda sessão do teste de produção provocada
195
5.3 Apresentação dos resultados da tarefa de juízo de gramaticalidade e/ou aceitabilidade
208
5.3.1 Síntese do resultado da tarefa de juízo de gramaticalidade e/ou aceitabilidade ... 222
5.3.2 Resultados do inquérito suplementar à tarefa de gramaticalidade e/ou
aceitabilidade ...................................................................................................................... 225
CAPÍTULO VI .............................................................................................................................. 238
OS ARTIGOS DEFINIDOS NOS CORPORA ANALISADOS DO PM: UMA ABORDAGEM SEMÂNTICA
238
6.0 Introdução ........................................................................................................................ 238
6.1 Análise semântica dos resultados referentes aos nomes próprios (antropónimos e
topónimos) no PM .................................................................................................................. 239
6.1.1 Antropónimos............................................................................................................. 239
6.1.2 Topónimos .................................................................................................................. 244
6.2 Análise semântica dos resultados referentes aos nomes comuns contáveis (singular e
plural) no PM .......................................................................................................................... 247
6.2.1 Nomes comuns contáveis no singular ....................................................................... 247
6.2.2 Nomes comuns contáveis no plural ........................................................................... 256
6.3. Nomes não contáveis e recategorizados ........................................................................ 264
6.3.1. Nomes não contáveis ................................................................................................ 264
[Link] Resultados de tarefa de Juízos de gramaticalidade e/ou aceitabilidade .............. 264
6.3.2. Nomes não contáveis recategorizados em contáveis .............................................. 268
6.4 Síntese da análise dos resultados .................................................................................... 274
VII- CONCLUSÕES, IMPLICAÇÕES E PERSPECTIVAS DE INVESTIGAÇÃO .............................. 278
7.0 Introdução ........................................................................................................................ 278
7.1 Conclusões ........................................................................................................................ 279
7.2. Implicações e perspetivas do estudo .............................................................................. 282
Referências Bibliográficas ......................................................................................................... 284
7
Anexos I – Inquérito aplicado aos informantes universitários do regime Laboral ................... 292
Anexos II – Inquérito aplicado aos informantes universitários do regime Pós-Laboral ........... 302
8
Declaração de honra
Declaro que o presente trabalho de tese é de minha autoria e não foi utilizado
previamente noutro curso ou unidade curricular, desta ou de outra instituição. As
referências a outros autores (afirmações, ideias, pensamentos) respeitam
escrupulosamente as regras da atribuição, e encontram-se devidamente indicadas no
texto e nas referências bibliográficas, de acordo com as normas de referenciação. Tenho
consciência de que a prática de plágio e auto-plágio constitui um ilícito académico.
Porto, 29 de Abril de 2021
Rufino Alfredo
9
Agradecimentos
A oportunidade de frequentar o programa de Doutoramento em Ciências da
Linguagem na Faculdade de Letras da Universidade do Porto (FLUP) tornou-se possível
graças ao apoio financeiro atribuído pela Fundação Calouste Gulbenkian - Bolsas de pós-
graduação para estudantes de PALOP e de Timor Leste.
Ao longo dos programas de pós-graduação quer do segundo ciclo de estudos em
Linguística quer do terceiro ciclo em Ciências da Linguagem, o primeiro concluído em
2015 na FLUP, o autor deste trabalho teve o apoio científico incondicional do corpo
docente do Departamento de Estudos Portugueses e Estudos Românicos.
Agradeço, muito especialmente, à Professora Doutora Maria de Fátima Oliveira
que, depois de ter orientado o meu trabalho de Dissertação de Mestrado sobre “Os
Quantificadores universais em PM”, aceitou igualmente orientar o presente trabalho da
Tese de Doutoramento.
À Professora Doutora Ana Maria Brito, Diretora do curso de 3º Ciclo de Estudos
em Ciências da Linguagem da FLUP, agradeço o apoio multifacetado que me
proporcionou ao longo de frequência do Mestrado e do Doutoramento.
À minha entidade empregadora, Universidade Púnguè – Moçambique, pelo
incentivo e autorização da minha saída para o estrangeiro para fins de frequentar o
programa de Doutoramento em Ciências da Linguagem na FLUP, confesso que lhe devo
muita gratidão!
Finalmente a toda minha família: esposa, filhos, pais, irmãos, primos, sobrinhos,
que suportou longos períodos da minha “ausência em presença”, agradeço bastante
pela confiança, compreensão e paciência.
A todos os que aqui não foram mencionados – são várias pessoas nesta lista –
mas que, acreditando em mim, direta ou indiretamente, contribuíram para o sucesso
deste trabalho.
10
Nota prévia
1. O Tema discutido neste trabalho foi ensaiado em alguns eventos científicos,
nomeadamente em 10ªs Jornadas da Língua Portuguesa, realizadas na Universidade
Pedagógica de Maputo, em 2019, no Congresso Internacional Macau e a Língua
Portuguesa: Novas Pontes a Oriente, dias 27, 28, 29 de Novembro de 2019, em Macau,
e no Encontro Conjunto da Associação de Crioulos de Base Lexical Portuguesa e
Espanhola (ACBLPE) e da Society for Pidgins and Creole Linguistics (SPCL), realizado
na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, de 17 a 19 de Junho de 2019.
2. Dado que a ortografia de muitas línguas moçambicanas de família bantu ainda não se
consolidou, apresentam-se, por conseguinte, ao longo do trabalho, algumas
discrepâncias referentes à ortografia de: Xitshwa – usada em Cumbane (2008) e
Citshwa, em Gundane (2018). Esses fenómenos serão verificados ao longo do nosso
trabalho, sobretudo em citações obrigatórias desses autores e não só.
3. Incluem-se ao longo do trabalho algumas traduções referentes aos exemplos do
Citshwa para o Português, umas da autoria de Cumbane (2008) e Gundane (2018), que
estão devidamente assinaladas e outras da nossa autoria, visto que o autor desta tese
tem o Citshwa como sua L1.
11
Resumo
O presente trabalho tem como objetivo principal analisar em que medida a
presença/ausência de artigos definidos no singular e no plural, no Português de
Moçambique (PM) pode contribuir para a análise semântica da frase e da forma como
os nomes, próprios (antropónimos e topónimos) e comuns (contáveis, não contáveis e
recategorizados), são conceptualizados. Nessa perspetiva, descrever-se-ão alguns
contextos sintático-semânticos em que os artigos definidos no singular e no plural
ocorrem nos corpora do PM e vamos comparar os contextos de presença/ausência de
artigos definidos, no singular e no plural, do PM com os do Português Europeu (PE) e
alguns casos do Português do Brasil (PB).
Tendo em conta que há falta de estudos sistematizados sobre a semântica dos
artigos definidos no PM, este tema é relevante na medida em que a L1 de muitos falantes
moçambicanos é uma língua Bantu, família de línguas sem artigos, mas a Língua
Portuguesa, língua com artigos, é língua oficial e de ensino em Moçambique, podendo
observar-se questões relativas às línguas em contacto. Acresce que entre o PE e o PB há
também, de acordo com estudos realizados, algumas diferenças linguísticas relativas à
realização dos artigos definidos, nestas duas variedades do português.
A presente pesquisa foi realizada na base de um corpus escrito (um inquérito),
dirigido a um grupo experimental, constituído por trinta (30) estudantes de cursos
propedêuticos universitários da Universidade Pedagógica, Delegação de Tete (UP –
Tete), falantes do português (L1 e L2). O inquérito foi constituído por dois testes
linguísticos, nomeadamente um teste de produção provocada (composições e
preenchimento de espaços vazios em frases do português) e um teste de juízos de
gramaticalidade e/ou aceitabilidade. Igualmente, foi preciso a aplicação do inquérito
suplementar à tarefa de juízo de gramaticalidade e/ou aceitabilidade, que tinha como
objetivo avaliar a conceptualização semântica dos artigos definidos, em PM, a partir de
pares de frases identificados como aceitáveis na tarefa de gramaticalidade e/ou
aceitabilidade. Apresentaremos assim uma primeira sistematização resultante da
análise dos dados, procurando descrever alguns contextos em que o PM se diferencia
12
do PE. Deste modo, num primeiro momento expomos o problema, seguindo-se a
apresentação dos resultados obtidos a que se segue uma análise dos dados e as
conclusões da pesquisa.
Palavras-chave: Artigos definidos em PM, corpus escrito, análise semântica.
13
Abstract
The main objective of the present work is to analyze to what extent the
presence / absence of definite articles in singular or plural, in the Mozambican
Portuguese (MP) can contribute to the semantic analysis of the sentence and the way
proper nouns (anthroponyms and toponyms) as well as common nouns (countable, non-
countable are recategorized) are conceptualized. In this perspective, we will describe
some syntactic-semantic contexts in which singular and plural definite articles occur in
the corpora of the MP. We will also compare the contexts of presence / absence of these
articles, in MP to European Portuguese (EP) and, in some cases, with the Brazilian
Portuguese (BP).
Bearing in mind that there is lack of systematic studies on the semantics of
definite articles in MP, this topic is relevant as the L1 of many Mozambican speakers is
a Bantu language, a family of languages without articles. Portuguese, a language with
definite articles, being the official and teaching language in Mozambique, poses some
problems and issues related to the languages in contact. Furthermore, between EP and
BP there are also, according to studies carried out, some linguistic differences related to
the realization of definite articles.
This research was carried out on the basis of a written corpus, directed to an
experimental group, consisting of thirty (30) students of propaedeutic courses of
Universidade Pedagógica, Delegação de Tete (UP - Tete), speakers of Portuguese (L1 and
L2). The inquiry comprised two linguistic tests, namely a test of elicited production
(compositions and filling in the blanks in Portuguese sentences) and a test of
grammaticality and / or acceptability judgments. It was also necessary to apply a
supplementary inquiry on grammaticality and / or acceptability judgement, which aimed
to evaluate the semantic conceptualization of definite articles in MP, based on pairs of
sentences identified as acceptable in the task of grammaticality and / or acceptability.
We will thus present a first systematization resulting from the analysis of the data,
seeking to describe some contexts in which MP differs from EP. Thus, at first, we present
14
the problem, then we present the results obtained, followed by the analysis of data and
the conclusions of the research.
Keywords: Definite Articles in PM, written corpus, semantic analysis.
15
Índice de Figuras
FIGURA 1: MAPA ETNOLINGUÍSTICO.................................................................................................... 30
16
Índice de Tabelas
TABELA I: CLASSIFICAÇÃO TIPOLÓGICA DOS DETERMINANTES POR CASTELEIRO (1977) ................................ 58
TABELA II: DISTRIBUIÇÃO DOS ARTIGOS E PRONOMES, BASEADA EM CUNHA & CINTRA (2013) E NEVES (2000).
............................................................................................................................................. 60
TABELA III: GRUPOS DE DETERMINANTES, SEGUNDO BRITO (2003) ......................................................... 63
TABELA IV: SUBCLASSE DE ESPECIFICADORES: OS DETERMINANTES ........................................................... 65
TABELA V: SUBCLASSE DE ESPECIFICADORES: OS QUANTIFICADORES ......................................................... 66
TABELA VI: DISTRIBUIÇÃO SEMÂNTICA E MORFOLÓGICA DOS DEMONSTRATIVOS EM PORTUGUÊS .................. 70
TABELA VII: RELAÇÃO DOS DEMONSTRATIVOS COM PRONOMES PESSOAIS E ADVÉRBIOS LOCATIVOS ............... 71
TABELA VIII: ALGUMAS PARTICULARIDADES SINTÁTICO-SEMÂNTICAS DOS DEMONSTRATIVOS EM PE .............. 73
TABELA IX: VARIAÇÃO MORFOLÓGICA DOS POSSESSIVOS E ENTIDADE POSSUIDORA ..................................... 77
TABELA X: ALGUMAS PARTICULARIDADES (BÁSICAS) SINTÁTICO-SEMÂNTICAS DOS POSSESSIVOS EM PE .......... 79
TABELA XI: ALGUMAS PROPRIEDADES SINTÁTICO-SEMÂNTICAS DOS ARTIGOS DEFINIDOS .............................. 84
TABELA XII: PROPRIEDADES SEMÂNTICAS DOS INDEFINIDOS .................................................................... 92
TABELA XIII: CONTEXTOS QUE FAVORECEM A LEITURA NÃO ESPECÍFICA ..................................................... 94
TABELA XIV: COMPORTAMENTO DOS BNS ENTRE O PE, PB, ITALIANO E O INGLÊS ...................................... 97
TABELA XV: IDADE E SEXO............................................................................................................... 160
TABELA XVI: NATURALIDADE ........................................................................................................... 161
TABELA XVII: LÍNGUA(S) DE PRIMEIRO CONTACTO (L1) ........................................................................ 162
TABELA XVIII: DUAS LÍNGUAS ADQUIRIDAS DESDE BEBÉ ....................................................................... 163
TABELA XIX: LÍNGUA (S) USADA(S) PARA SE COMUNICAR COM OS PAIS ................................................... 163
TABELA XX: LÍNGUA(S) USADA(S) PARA SE COMUNICAR COM OS IRMÃOS ................................................ 164
TABELA XXI: LÍNGUA(S) USADA(S) PARA SE COMUNICAR COM OS AVÓS .................................................. 164
TABELA XXII: LÍNGUA(S) USADA(S) PARA SE COMUNICAR COM OS AMIGOS .............................................. 165
TABELA XXIII: RESULTADOS QUANTITATIVOS REFERENTES À ADESÃO AOS TEMAS ...................................... 167
TABELA XXIV: RESULTADOS DE OCORRÊNCIA, AUSÊNCIA E INSERÇÃO DE ARTIGOS DEFINIDOS...................... 168
TABELA XXV: RESULTADOS DE OCORRÊNCIA DE ARTIGOS DEFINIDOS COM OS POSSESSIVOS ........................ 174
TABELA XXVI: RESULTADOS DE AUSÊNCIA DE ARTIGOS DEFINIDOS COM OS POSSESSIVOS ........................... 184
TABELA XXVII DADOS QUALITATIVOS SOBRE A PRESENÇA, AUSÊNCIA E INSERÇÃO DE ARTIGOS DEFINIDOS PARA
CADA FRASE SIMPLES .............................................................................................................. 196
TABELA XXVIII: DADOS QUANTITATIVOS SOBRE A PRESENÇA, AUSÊNCIA E INSERÇÃO DE ARTIGOS DEFINIDOS PARA
CADA FRASE SIMPLES .............................................................................................................. 198
17
TABELA XXIX: RESULTADOS DA TAREFA DE JUÍZO DE GRAMATICALIDADE E/OU ACEITABILIDADE DO GRUPO A 210
TABELA XXX: JUÍZO DE GRAMATICALIDADE E/OU ACEITABILIDADE DO GRUPO B ....................................... 212
TABELA XXXI: RESULTADOS DA TAREFA DE JUÍZO DE GRAMATICALIDADE E/OU ACEITABILIDADE DO GRUPO C 215
TABELA XXXII: RESULTADOS DA TAREFA DE JUÍZO DE GRAMATICALIDADE E/OU ACEITABILIDADE DO GRUPO D
........................................................................................................................................... 218
TABELA XXXIII: RESULTADOS DA TAREFA DE JUÍZO DE GRAMATICALIDADE E/OU ACEITABILIDADE DO GRUPO E
........................................................................................................................................... 220
TABELA XXXIV: INTERPRETAÇÃO SEMÂNTICA REFERENTE AO GRUPO A .................................................. 226
TABELA XXXV: INTERPRETAÇÃO SEMÂNTICA REFERENTE AO GRUPO B ................................................... 227
TABELA XXXVI: INTERPRETAÇÃO SEMÂNTICA REFERENTE AO GRUPO C .................................................. 229
TABELA XXXVII: INTERPRETAÇÃO SEMÂNTICA REFERENTE AO GRUPO D ................................................. 231
TABELA XXXVIII: INTERPRETAÇÃO SEMÂNTICA REFERENTE AO GRUPO E................................................. 233
18
Índice de quadros
QUADRO I: EVOLUÇÃO DA PERCENTAGEM DE FALANTES DE PORTUGUÊS EM MOÇAMBIQUE ......................... 28
QUADRO II: PROPOSTA DE DISTRIBUIÇÃO DE TEMAS PARA OS INFORMANTES ........................................... 147
QUADRO III: ALGUMAS FRASES COM PRESENÇA/AUSÊNCIA OU INSERÇÃO DE ARTIGOS DEFINIDOS NO SINGULAR E
NO PLURAL............................................................................................................................ 150
19
Lista de abreviaturas e siglas
CDO ....................................................................... CONSTRUÇÕES DE DUPLO OBJETO
CLUP ...................................................................... CENTRO DE LINGUÍSTICA DA UNIVERSIDADE DO
PORTO
D ............................................................................ DIURNO
DD .......................................................................... DETERMINANTE DEFINIDO
DO.......................................................................... DUPLO OBJETO
EX ........................................................................... EXEMPLO
EXS. ......................................................................... EXEMPLOS
I.E. .......................................................................... ISTO É
F.A.......................................................................... FREQUÊNCIA ABSOLUTA
FLUP....................................................................... FACULDADE DE LETRAS DA UNIVERSIDADE DO PORTO
F.R. ......................................................................... FREQUÊNCIA RELATIVA
OD.......................................................................... OBJETO DIRETO
OI ........................................................................... OBJETO INDIRETO
PB .......................................................................... PORTUGUÊS DO BRASIL
PE ........................................................................... PORTUGUÊS EUROPEU
P.E. ......................................................................... POR EXEMPLO
PEM ....................................................................... PORTUGUÊS ESCRITO DE MOÇAMBIQUE
PM ......................................................................... PORTUGUÊS DE MOÇAMBIQUE
POM....................................................................... PORTUGUÊS ORAL DE MAPUTO
PRED. DO SUJ............................................................ PREDICATIVO DO SUJEITO
LB ........................................................................... LÍNGUA BANTU
LBʼS ........................................................................ LÍNGUAS BANTU
LP ........................................................................... LÍNGUA PORTUGUESA
L1 ........................................................................... LÍNGUA MATERNA OU LÍNGUA PRIMEIRA
L2 ........................................................................... LÍNGUA SEGUNDA
N ............................................................................ NOTURNO
20
Nº ........................................................................... NÚMERO
NP .......................................................................... NOUN PHRASE/NOME SEM ESPECIFICADOR
NPʼS........................................................................ NOUNS PHRASES/NOMES SEM ESPECIFICADORES
NS........................................................................... NOME COMUM CONTÁVEL NO SINGULAR
PREFERENCIALMENTE SEM DETERMINANTE
PN .......................................................................... PLURAL SIMPLES (OU PLURAL NU)
PRED. SUJ................................................................. PREDICATIVO DO SUJEITO
UEM ....................................................................... UNIVERSIDADE EDUARDO MONDLANE
UNICEF................................................................... FUNDO INTERNACIONAL DE EMERGÊNCIA DAS
NAÇÕES UNIDAS PARA A INFÂNCIA ("UNITED NATIONS INTERNATIONAL CHILDREN'S EMERGENCY FUND")
UNIPÚNGUÈ-TETE ..................................................... UNIVERSIDADE PÚNGUÈ – TETE
UNIPTETE ............................................................... UNIVERSIDADE PÚNGUÈ - EXTENSÃO DE TETE
UP .......................................................................... UNIVERSIDADE PEDAGÓGICA
UP-TETE ................................................................. UNIVERSIDADE PEDAGÓGICA-TETE
SN .......................................................................... SINTAGMA NOMINAL
SNS ......................................................................... SINTAGMAS NOMINAIS
SGN ........................................................................ SINGULAR SIMPLES (SINGULAR NU)
SPREP..................................................................... SINTAGMA PREPOSICIONAL
SUJ. ......................................................................... SUJEITO
SV........................................................................... SINTAGMA VERBAL
VD .......................................................................... VARIÁVEIS DEPENDENTES
VI ........................................................................... VARIÁVEIS INDEPENDENTES
% ............................................................................ PERCENTAGEM
OBL ........................................................................ OBLÍQUO
21
Introdução
A variedade moçambicana do português tem sido objeto de estudos linguísticos,
com mais destaque para os trabalhos realizados por Carvalho, M. J. A. (1991), que
descreve Aspectos Sintáctico-Semânticos dos Verbos Locativos no Português Oral de
Maputo, Chimbutane, F. (2012) fala sobre Panorama Linguístico de Moçambique,
Firmino, G. (2002) faz uma reflexão sobre a Questão Linguística” na África Pós-Colonial:
O Caso do Português e das Línguas Autóctones em Moçambique, Gonçalves, P. (2010 a)
concentra-se na génese do português de Moçambique, entre outros autores. A maior
parte desses estudos concentra as suas abordagens numa vertente sociolinguística. A
aquisição do português em contextos multilingues é apontada como um dos desafios
para a realidade moçambicana, dado que muitos falantes não têm o português como
língua materna.
Neste contexto, são necessários estudos sobre as especificidades do português
de Moçambique, tendo em conta que, por um lado, se trata de uma variedade que
incorpora algumas características linguísticas diferentes relativamente ao Português
Europeu, pois, segundo Gonçalves (2013:148), “o PM apresenta algumas
particularidades linguísticas em diferentes áreas linguísticas, nomeadamente no que se
refere aos aspetos fónicos, lexicais, morfossintáticos, sintáticos entre outras”. No
entanto, o português é a língua oficial em Moçambique tal como em outros países,
nomeadamente Cabo Verde, Guiné-Bissau, São Tomé e Príncipe, Angola e Brasil. Por
outro lado, a língua portuguesa, caso particular para Moçambique, é falada por uma
parte da população como L2, e por esta razão comporta aspetos que diferem do PE.
Esperamos, portanto, que as descrições apresentadas no trabalho em apreço
possam vir a ser partilhadas e desenvolvidas por outros investigadores, que se
interessarem por estudos linguísticos descritivos, comparativos e contrastivos,
especificamente para a semântica nominal, contribuindo, desta forma, não só para o
seu e o nosso perfil profissional como também possa servir de mais um acervo
bibliográfico valioso para uma variedade do português, ainda jovem.
22
1. Sobre a tese
A presente tese faz uma abordagem semântica dos artigos definidos no singular
e no plural no Português de Moçambique, comparando-os com os do PE e do PB, em
alguns casos. Assim, vamos analisar em que medida a presença ou ausência dos artigos
definidos no singular e no plural, no PM, pode contribuir para a análise semântica da
frase e de que forma os nomes são conceptualizados. A nossa amostra é constituída por
um grupo experimental composto por trinta (30) estudantes de cursos propedêuticos
universitários da UP – Tete, falantes do português (L1 e L2) dos regimes laboral e pós-
laboral, sendo quinze (15) em cada regime.
A inexistência de estudos sistematizados sobre a semântica dos artigos definidos
no Português Escrito de Moçambique (PEM), motivou-nos a desenvolver uma pesquisa
com o foco em artigos definidos no singular e no plural, com o objetivo de compreender
em que medida a presença/ausência ou inserção dos artigos definidos no singular e
plural no PM pode contribuir para a análise semântica da frase e da forma como os
nomes são conceptualizados. Especificamente, vamos identificar os contextos sintático-
semânticos em que os artigos definidos são realizados no PM; descrever
semanticamente os contextos em que os artigos definidos ocorrem nos corpora do PM.
Igualmente vamos comparar os contextos de presença/ausência ou inserção dos artigos
definidos no singular e no plural do PM com os do PE e alguns casos do PB, tendo em
conta a literatura consultada.
Alguns estudos efetuados para o PE e para o PB apontam algumas diferenças
linguísticas relativas à realização dos artigos definidos. Por estas razões, interessou-nos
uma análise (semântica) comparativa deste fenómeno nas variedades referenciadas.
Para o efeito, como se referiu anteriormente elaborou-se um inquérito, dirigido a trinta
(30) estudantes de cursos propedêuticos universitários da UP – Tete, falantes do
português (L1 e L2) dos regimes laboral e pós-laboral.
O inquérito dirigido aos informantes está dividido em duas partes,
designadamente um teste linguístico de elicitação e um questionário sociolinguístico. O
teste de elicitação visava a recolha de dados relativos à competência linguística dos
23
informantes, referente à realização dos artigos definidos no singular e no plural e da
forma como os nomes próprios e comuns são conceptualizados, em português, com
base (i) numa tarefa de produção provocada (composições e preenchimento de espaços
em branco, em frases do português). Em composições escritas pelos sujeitos inquiridos,
foi necessário destacarmos algumas das frases e expressões consideradas mais
relevantes como base de sustentação para as afirmações que ao longo das nossas
abordagens foram sendo feitas. Igualmente, além da tarefa de produção provocada,
contou-se com (ii) uma tarefa de juízos de gramaticalidade e/ou aceitabilidade.
O questionário sociolinguístico destinava-se à recolha de dados que dessem
indicação sobre perfis diversificados dos nossos informantes, relativamente às seguintes
variáveis: idade e género, naturalidade, língua(s) materna(s), (L1), língua(s) adquirida(s)
desde bebé (duas), língua(s) de comunicação com os pais, língua(s) de comunicação com
os irmãos, língua(s) de comunicação com os avós, língua(s) de comunicação com os
amigos.
Os resultados mostram não só as semelhanças relativamente à presença/ou
ausência de artigos definidos no singular e no plural das outras variedades comparadas
(PE e PB), como também assimetrias que revelam algumas diferenças interessantes sob
ponto de vista sintático e semântico, especificamente no que diz respeito à
presença/ausência ou inserção dos artigos definidos no singular, como explicado mais
adiante.
A fim de facilitar a organização do estudo aqui apresentado, entendemos que
seria útil procurar dar uma resposta estruturada às seguintes questões:
(i) Como se realizam os artigos definidos no singular e no plural no Português de
Moçambique?
(ii) Em que contextos ocorrem os artigos definidos no singular e no plural no
Português de Moçambique e quais as consequências semânticas?
(ii) Que tipo de contextos favorece o uso dos artigos definidos no singular e no
plural pelos falantes do Português de Moçambique?
24
(iii) A omissão dos definidos no singular é paralela à dos definidos no plural,
tendo em conta as diferenças semânticas entre eles?
(iv) Qual a conceptualização semântica dos nomes próprios e comuns em PM?
(v) Será que a L1, que é uma língua bantu, interfere na realização dos artigos
definidos no singular e no plural em PM?
Estamos conscientes de que estas questões ou outras semelhantes são
complexas e de difícil abordagem, tendo em consideração que ainda se espera mais
estudos diversificados e consistentes sobre o PE, em particular o PM e as demais línguas
moçambicanas de família bantu, que provavelmente possam trazer alguma informação
mais atualizada sobre o tema em estudo. Esperamos, contudo, que, após a realização
deste trabalho, sejamos capazes de compreender melhor em que medida os artigos
definidos no singular e no plural são realizados no PM e em que contextos sintático-
semânticos contribuem para isso. Esperamos igualmente que a experiência entretanto
adquirida possa vir a ser partilhada com outros investigadores interessados sobre a
semântica nominal, contribuindo desta forma com mais um material de consulta sobre
a variedade do Português de Moçambique.
A tese apresenta seis capítulos. No primeiro capítulo faz-se uma abordagem
relacionada com o enquadramento histórico social, onde são apresentados alguns
aspetos sociolinguísticos do Português de Moçambique, diversidade linguística em
Moçambique, partindo do pressuposto de que apesar de ser uma língua oficial no
território moçambicano, para a maioria da população não é língua materna (L1). No
mesmo capítulo é feita uma abordagem relativa à difusão do PM e uma descrição de
alguns aspetos sobre o contacto de Língua Portuguesa e Línguas Bantu em Moçambique
bem como à apresentação de algumas notas sobre a língua Citshwa.
O capítulo II destina-se a apresentar, baseado na literatura consultada, o quadro
geral sobre a noção e distribuição dos determinantes em classes e subclasses em
português, uma descrição geral dos determinantes, para o PM. Apresentam-se
igualmente algumas considerações básicas sobre a noção e classificação dos
determinantes em português, particularidades morfossintático-semânticas dos
25
determinantes no PE e se tece algumas abordagens sobre o tratamento dos artigos
definidos, para o PB e para o Espanhol.
O capítulo III apresenta uma descrição das principais questões da Semântica
Nominal. No capítulo IV, faz-se à apresentação das questões metodológicas que
envolveram a recolha de dados.
No capítulo V procede-se à apresentação e descrição dos dados do PM.
No capítulo VI procede-se a análise semântica dos dados obtidos do PM,
propondo algumas generalizações sobre frases com presença/ausência ou inserção de
artigos definidos no singular e no plural em diversas posições, em PM.
Finalmente, esta tese inclui as conclusões gerais da pesquisa, as implicações e
perspetivas da investigação, as referências bibliográficas e os anexos.
26
CAPÍTULO -I ENQUADRAMENTO HISTÓRICO SOCIAL
1.0. Introdução
No presente capítulo, fazemos uma abordagem relacionada com o
enquadramento histórico social, onde são apresentados alguns aspetos sociolinguísticos
do Português de Moçambique na secção (1.1). Na secção seguinte, em (1.2), apresenta-
se a diversidade linguística em Moçambique, partindo do pressuposto de que apesar de
ser uma língua oficial no território moçambicano, para a maioria da população não é
língua materna (L1). Em seguida, em (1.3), faz-se uma abordagem relativa à difusão do
PM e, por fim, na secção (2), descrevem-se alguns aspetos sobre o contacto de Língua
Portuguesa e Línguas bantu em Moçambique. Em (3), apresentam-se algumas notas
sobre a língua Citshwa. Finalmente, em (4), apresentamos a conclusão deste capítulo.
1.1 Contexto sociolinguístico de Moçambique
Moçambique é um dos países africanos, localizado na África Austral. Alguns
estudos em Moçambique, incluindo os censos populacionais de (1997), (2007) e mais
outros documentos revelam que existem, em Moçambique, um pouco mais de vinte
milhões de habitantes, socioculturalmente divididos em várias etnias, cada uma delas
caracterizada por uma grande diversidade linguística.
Moçambique é um país multicultural e multilingue, onde, para além do
português, língua da antiga colónia naquele território escolhida como oficial a partir da
independência, são faladas outras línguas, maioritariamente do grupo bantu.
Segundo Firmino (2002:4), em Moçambique, para além das línguas bantu e do
português, há outras línguas faladas de origem estrangeira, tal como é o caso do Inglês,
e outras de origem asiática, como Hindi, Urdu ou Gujarati. Para o autor referenciado, o
Inglês é mais fluente na comunidade estrangeira ligada a organizações internacionais e
embaixadas representadas em Moçambique, embora, devido aos contatos com os
países vizinhos, como a República da África do Sul, Zimbabwe, Zâmbia e Malawi, haja
muitos moçambicanos que usam frequentemente esta língua.
27
As línguas de origem asiática são faladas entre membros da comunidade de
emigrantes oriundos principalmente da Índia e do Paquistão ou pelos seus
descendentes. Uma vez que ainda não há dados adequados para se dimensionar o
impacto destas línguas de origem estrangeira, não se podem tecer grandes
considerações à volta do seu impacto.
Dados do Censo Populacional de 2007 indicam ainda que 50.4% da população
sabe falar a língua portuguesa, ainda que estejam aqui incluídos falantes com diferentes
níveis de conhecimento desta língua, e mais de 90% da população fala pelo menos uma
língua bantu. De acordo com os mesmos dados, a língua portuguesa constitui a L1 de
10.7% dos falantes, enquanto 85.3% da população tem uma língua bantu como L1
(Chimbutane, 2012).
Segundo dados dos censos populacionais divulgados pelo Instituto Nacional de
Estatística (2010), nos últimos anos, após a independência, a percentagem de falantes
de português como L1 aumentou significativamente e os falantes desta língua como L2
também aumentaram. Veja-se no quadro abaixo.
Quadro I: Evolução da percentagem de falantes de português em Moçambique
Falantes do português 1980 1997 2007
L1 1,2% 6,5% 10,7%
L2 24,4% 33% 39,7%
L1 e L2 25,6% 39,5% 50,4%
Fonte: Instituto Nacional de Estatística (2010)
O quadro (i) mostra que, segundo os dados divulgados por Instituto Nacional de
Estatística (2010), em (2007), apenas 10.7% de uma população total de 20 milhões fala
o português como língua materna, (L1), 39,7% falam-no como segunda (L2), e cerca de
49,6 % afirmam não terem absolutamente nenhuma competência nesta língua. Embora
o uso de português tenha aumentado consideravelmente, é importante salientar que o
português representa uma segunda (ou terceira) língua para a maioria (90%) dos
28
moçambicanos, sendo o português tipicamente adquirido durante a infância por via
institucional [Chimbutane & Gonçalves, 2002].
Para esta maioria de moçambicanos, a língua falada com maior frequência em
casa é uma língua bantu, quer nas zonas urbanas, quer nas zonas rurais.
Como consequência do estatuto de L2 do Português para a maior parte dos seus
falantes, há condições criadas para que esta língua seja, pelo menos em parte, sujeita a
mudanças e variação linguísticas relativamente ao padrão europeu do português. Estes
fenómenos condicionam direta ou indiretamente uma mudança de natureza diferente
do que se passa das línguas adquiridas como L1 em contextos monolingues, o caso
especial do PB (cf. Gonçalves, 2013:161).
1.2 Diversidade linguística em Moçambique
Estudos realizados sobre a diversidade linguística em Moçambique, por exemplo
Kathupa (1994); Lopes (1999); Sitoe e Ngunga (2000); Ngunga e Faquir (2011) e
Chimbutane (2015) e mais outros, não reúnem consenso sobre o número exato das
línguas bantu existentes. Contudo, o mapa etnolinguístico1 abaixo mostra que
Moçambique é um país composto por mais de 40 línguas. O mapa que segue ilustra a
distribuição das línguas faladas no país, por zonas.
1
Fonte: [Link] acesso-dia 20.12.2018
29
Figura 1: Mapa etnolinguístico
Fonte: [Link] acesso-dia 20.12.2018
Segundo o mapa apresentado acima, pode constatar-se que, das Línguas Bantu
distribuídas por regiões de Moçambique, não existe sequer uma delas que seja falada
em todo o território nacional. Relativamente à Língua Portuguesa como língua oficial, o
seu espaço linguístico é limitado, pois é mais fluente nas zonas urbanas que rurais.
Em Moçambique, à semelhança de outros países africanos, nomeadamente Cabo
Verde, Guiné-Bissau, São Tomé e Príncipe, Angola e Moçambique, a Língua Portuguesa
«constitui o principal veículo de comunicação usado na administração pública, no ensino
formal e nos órgãos de comunicação social. Sendo ainda a língua preferida pela quase
totalidade dos escritores» - Gonçalves (2013:157).
30
O português em Moçambique é ainda falado pela maioria como uma L2 num
ambiente sociolinguisticamente caracterizado por um extenso multilinguismo (cerca de
vinte línguas bantu - línguas maternas de grande maioria da população) e contacto
linguístico. Entretanto, a Língua Portuguesa em Moçambique, apesar de ser oficial,
continua a distanciar-se de outras variedades do português devido, em parte,
(i) à criatividade influenciadora dos seus falantes, o que tem um papel fundamental na
construção ou formação da gramática do PM.
(ii) à nativização2 da Língua Portuguesa em Moçambique influenciada por prestígio
social e político, i. e., o processo de transformação da norma-padrão europeia em PM -
uma variedade que na base das línguas bantu adapta, integra na língua os seus valores
culturais, a sua identidade, os seus símbolos, os seus objetos materiais, de tal forma que
seja sentida como pertença dos moçambicanos, (cf. Firmino, 2002).
Durante a época colonial e também nos primeiros anos pós-independência, os
contextos de uso do português e das línguas bantu eram diferenciados, sendo que o
português estava associado sobretudo aos domínios formais e as línguas bantu aos
domínios informais.
Atualmente, assiste-se a uma mudança no que se refere aos domínios de
utilização destas línguas. De acordo com Gonçalves e Chimbutane (2015: 158-159), o
uso do português está, cada vez mais, a marcar presença em domínios familiares
“baixos” e as línguas bantu, por seu lado, são cada vez mais usadas em domínios “altos”,
nomeadamente nas instituições públicas (em particular fora dos meios urbanos), em
discursos oficiais ou ainda em campanhas de educação cívica, nos órgãos de
comunicação social (TV, Rádio, etc.). Na ótica dos autores, estas mudanças requerem
uma revisão do ponto de vista da forma como “a situação linguística moçambicana tem
sido caracterizada, sob o risco de – caso isso não aconteça – se estar a descrever uma
2
Termo utilizado por Firmino (2002; Vilela (1995); Gonçalves (2014) e mais autores para distinguir
variedades do português, algumas formadas por transposição linguística irregular (TLI): crioulização e
pidginização.
31
sociedade cujos cidadãos não se reconhecem nas análises dos intelectuais e
académicos”.
1.3 Difusão do português em Moçambique
Nesta secção, importa-nos fazer uma breve descrição sobre a difusão do
português em Moçambique. Para já importa relembrar que a colonização de alguns
países africanos, nomeadamente Cabo Verde, Guiné-Bissau, São Tomé e Príncipe,
Angola e Moçambique, por Portugal, condicionou o uso da Língua Portuguesa como
língua oficial. Os colonizadores portugueses, tal como em outros casos, utilizaram língua
como meio de dominação, excluindo assim as línguas africanas em todas as vertentes
(sócio culturais, sócio económicas, ...) estabelecendo mitos que classificavam as línguas
bantu como “incapazes de cumprir certas funções, sobretudo a de veicular as noções
modernas, os conceitos abstratos e científicos, (…)”. (Zamparoni, 2009:32). Todas as
línguas africanas eram consideradas “dialetos” pela ideologia colonial, num sentido e
sentimento de desvalorização destas excluindo até a possibilidade de serem usadas em
muitos contextos de contacto obrigatório para com os portugueses. “Todo dialeto é uma
língua, mas toda língua não é um dialeto” (Haugen, 2001:100)3. “Toda a língua é
adequada à comunidade que a utiliza, é um sistema completo que permite a um povo
exprimir o mundo físico e simbólico em que vive.” (Alkmim 2001:41)4.
Para expandir o uso obrigatório da Língua Portuguesa, o sistema colonial, em
parte, impedia o uso de línguas bantu através de alguns procedimentos judiciais (leis,
decretos, …) em instituições públicas, incluindo nas escolas. Em segundo lugar,
destacam-se, igualmente, estudos religiosos da igreja católica, obrigatoriamente,
através de catequese.
Historicamente, a colonização portuguesa (1500-1974) afetou seriamente a
evolução linguística, ao encetar, através de uma política de assimilação, um processo de
marginalização sistemática das línguas autóctones, enfraquecendo-as na veiculação da
3
Apud Zamparoni (2009)
4
Apud Zamparoni (2009)
32
cultura e da ciência, relegando-as para o plano familiar e cerimónias mágico-religiosas
(Cumbane: 2008).
Assim sendo, a língua portuguesa tornou-se a única língua de ensino e de
transmissão de saberes nas escolas enquanto, por outro lado, as línguas moçambicanas
eram reservadas apenas para a instrução religiosa, e para fins de comunicação entre os
falantes destas.
Estudos feitos por Mateus (1999:212) e partilhados em Gonçalves (2013:159)
apontam que o ensino da Língua Portuguesa foi intensificada consideravelmente após a
independência (1975) devido à educação gratuita, obrigatória e inclusiva incentivada
pela política linguística, ou simplesmente à expansão de escolas em vários níveis de
ensino, nomeadamente: primário, secundário e técnico-profissional, e mais tarde o
ensino superior e passando, deste modo, a registar um número consideravelmente
significativo de falantes que se encontram em zonas urbanas que se sirvam desta língua.
2. Sobre contacto de Língua Portuguesa e Línguas bantu em
Moçambique
A língua portuguesa, como dissemos na secção anterior, ao longo da sua história
expandiu-se para todos os continentes do planeta, em função do ciclo das grandes
navegações e da expansão colonial europeia, nas quais Portugal desempenhou um papel
pioneiro. Apesar das suas limitações socioecónomicas e demográficas, Portugal
constituiu um grande império colonial que se estendeu pela América do Sul, África, sul
da Ásia e América do Sul.
A expansão resultou na formação de diferentes variedades desta língua,
nomeadamente variedades africanas, variedade brasileira e variedade timorense. Ao
expandir-se pelo mundo, a língua portuguesa, segundo Cunha e Cintra (2005:23), “veio
assumir dois tipos de variedades: as CRIOULAS e NÃO-CRIOULAS”. Para os autores, as
variedades crioulas resultam do contacto que o sistema linguístico português
estabeleceu, a partir do século XV, com sistemas linguísticos indígenas tal como é o caso
33
dos crioulos de Cabo Verde, das Ilhas do Golfo da Guiné e Crioulos continentais. (Cf.
Cunha e Cintra (2005:24).
Relativamente a variedades NÃO – CRIOULAS, Cunha e Cintra (2005:24), embora
a situação tem mudado nos últimos tempos, consideram-nas “variedades do português
com base na variedade europeia, porém mais ou menos modificado, sobre tudo pelo
emprego de um vocabulário proveniente das línguas nativas, e a que não faltam algumas
características próprias no aspecto fonológico e gramatical”. Nesse contexto, são
apontadas como variedades NÃO – CRIOULAS as variedades do português falado em
Moçambique, Angola, Brasil, Goa, Macau e Timor Leste.
Moçambique, como nos referimos, é um país multilingue, com mais de 40 línguas
do grupo bantu, existentes no território moçambicano. O contato do português com as
línguas moçambicanas não foi suficiente para resultar línguas crioulas, mas foi suficiente
para produzir, ao longo do tempo, um amplo processo de convivência entre línguas.
Porém, essa heterogeneidade linguística resultante de coexistência do português e
línguas moçambicanas, no mesmo espaço geográfico, tem, de certa forma, como
consequência um facto linguisticamente notável em estudantes que se ingressam na
universidade, pela primeira vez, segundo a minha experiência de docência em
Moçambique. Por contacto linguístico, os falantes operam, de forma consciente ou
inconsciente, a introdução de traços de uma ou mais línguas na sua língua materna. As
Línguas Bantu (LB), desta feita, constituem as línguas maternas (L1s) da maior parte da
população” (Gonçalves, 2010b: 7).
Gonçalves (1990, 2010b, 2013), Lopes, Sitoe e Nhamuende (2013:17), Duarte et
al (1998) e mais autores partilham a ideia de que há fenómenos linguísticos que
caraterizam a variedade moçambicana do português na oralidade e em alguns contextos
da escrita. Tais fenómenos, segundo Gonçalves (2010b: 26-38) manifestam-se nos
seguintes domínios:
(i) Léxico – esta área inclui vários tipos de diferenças, entre os quais se apontam os
referentes a neologismos formais (1a) e semânticos (1b).
(1) a. Estranhosamente
34
(PE= estranhamente)
b. O namorado negou assumir.
(PE= recusou)
(ii) Léxico-Sintaxe – esta é a área em que a gramática do PM tende a apresentar novas
propriedades sintácticas (2a) ou semânticas (2b).
(2) a. Não conseguiu explicar o seu filho o que é certo ou errado.
(PE: ao seu filho) [em causa está a ausência da preposição para marcar o dativo]
b. Vislumbrei no firmamento nuvens escuras passageiras às quais apelei socorro.
(PE: pedi socorro) [o problema tem a ver com estrutura argumental do verbo]
(iii) Sintaxe – nesta área, os desvios à norma do PE predominantes são os de (i)
alterações de padrões de ordem dos pronomes pessoais átonos (3a) e os referentes não
só às (ii) orações relativas (3b), mas também às (iii) condições de utilização dos artigos
(3c).
(3) a. Quando trata-se de uma rapariga, era até expulsa de casa.
(PE: se trata)
b. Se não respeita a sua cultura, está-se a desrespeitar a si próprio porque é dela em
que vives.
(PE: que vives) [Uma relativa relacionada com estrutura argumental de verbos
com inserção de preposição]
c. Nessa altura [minha mãe] vendia no mercado.
(PE: a minha mãe)
(iv) Morfo-Sintaxe – os desvios à norma europeia mais evidentes nesta área são os de
concordância nominal (4a) e de concordância verbal (4b).
(4) a. Existem pessoas que dizem serem religiosos.
(PE: religiosas)
b. Antigamente os jovens era aconselhados pelos mais velhos.
(PE: eram)
Os fenómenos linguísticos observados em ((1)-(4)), Gonçalves (2005: 6)
considera que se devem, entre vários fatores, aos seguintes interdependentes: (i) “a
quantidade e qualidade do input linguístico fornecido aos aprendentes não garantiram
35
um processo de reestruturação de hipóteses incorrectas sobre as estruturas gramaticais
da norma do PE”; e (ii) “determinados fenómenos típicos do PM, sendo desviantes em
relação à norma padrão do PE, estão já razoavelmente generalizados entre a população
instruída” (Gonçalves, 2010b: 23).
Alfredo (2015), em sua dissertação de Mestrado, fez uma sistematicidade de
outros fenómenos linguísticos. Tais fenómenos estão ligados ao domínio da semântica
dos quantificadores no PM. Os exemplos apresentados em (5) e (6) mostram alguns
fenómenos constatados sobre o PM.
(v) Construções semelhantes às do PB: quando os operadores quantificacionais ‘todos’
em PB é ‘todos os’ e não apenas ‘todos’ ocorrem associados aos nomes sem
determinante (NPʼs) em posição de sujeito.
(5) a. Todo verão reserva surpresas.
(PE: todo o verão …)
b. Todos moçambicanos prometeram que iam votar no dia 15 de Outubro.
(PE: todos os moçambicanos …)
(vi) Realização do quantificador cada em posição pós-verbal, em contextos de
SV+Cada+DD, em frases complexas e, por outro lado, SV+Cada+NP, em frases simples.
Confrontem-se os exemplos seguintes em (6).
(6) a. Uma destas mulheres tem cada a certeza de que a violência doméstica reduziu.
b. Custa cada pasta mil meticais.
Em (6b), o que está aqui em causa não é a posição de ‘cada’, mas a posição do SU
‘cada pasta’.
(vii) Destaca-se também no PM que o quantificador qualquer é realizado em três
posições sintáticas. Sendo a pré-nominal a que mais ocorre em contextos de
Qualquer+NP (cf. 7a.). Em segundo lugar, qualquer é realizado em posição pós-nominal,
com mais frequência em contextos de NP+Qualquer (cf. 7b.) e em contextos de
NP+Qualquer+Modificador (cf. 7c.).
(7) a. Qualquer ministério tem seu plano estratégico.
b. Apoio qualquer é válido.
36
c. Medida qualquer punitiva tem consequências.
Relativamente aos exemplos em ((5)-(7)), chegou-se à conclusão de que, no
PM, regista-se o fenómeno de hesitação ou indecisão de algumas construções em que
são realizados os quantificadores universais (todo, todos, cada, ambos e qualquer)
quando associados a algumas propriedades semânticas. O fator conhecimento
linguístico parece estar em causa, na medida em que os falantes do PM evidenciam
algum afastamento em relação à norma padrão da gramática da língua de ensino, o
Português Europeu (PE). (cf. Alfredo, (2015)).
Os fenómenos linguísticos apresentados ilustram que, de certa forma, o PM
possui algumas particularidades que se distinguem do PE.
Com efeito, interpretar os fenómenos linguísticos do PM, uma variedade em
contacto com línguas bantu é ainda um desafio, tendo em consideração que, segundo
Mota (1996:507), “a existência de contacto linguístico supõe o contacto social dos
respectivos falantes, enquadrados em situações de comunicação de ordem diversa; a
estas relações subjazem relações sociais, políticas e culturais igualmente diversificadas
e que condicionam as relações linguísticas”. Mota (p. 509) mostra que, para que haja
contacto, são necessárias pelo menos duas línguas, uma língua e um dialeto ou dois
dialetos em presença. No caso de Moçambique é um dos exemplos que se enquadra
claramente no que Mota defende.
O que se verifica na realidade, em Moçambique, é a variação linguística do
português. Atualmente, há vários estudos sobre o PM que mostram alguns fenómenos
linguísticos, com particularidades específicas (algumas delas apresentadas nos
exemplos anteriores: (1)-(7)), que as diferencia do PE.
As particularidades observadas no PM levam-nos a concordar com Mota, quando
distingue dois tipos de mudanças linguisticamente: mudança inerente e mudança
decorrente do contacto.
Nesse contexto, analisando os fenómenos linguísticos que o PM manifesta,
acreditamos tratar-se de uma variedade do português, que apresenta mudanças
decorrentes do contacto linguístico, comparativamente à variedade europeia do
37
português. Mudança decorrente do contacto é realizada, segundo Mota (1990:511),
pelos falantes, que numa situação de contacto com outra língua, tendem a aproximar-
se progressivamente do sistema desta (do sistema de Língua Alvo), introduzindo-lhe
modificações em parte explicáveis pelo sistema prévio que possuem (Língua de Origem)
e que a Língua Alvo, desta feita, venha a ser afectada pela versão que dela própria falam
os nativos da Língua de Origem, sob as condições de forte convivência (…).
Desta forma, olhando para o contexto do PM, que convive com mais de 40
línguas moçambicanas, do grupo bantu, por sinal línguas maternas da maioria dos
falantes, é inevitável que haja, de certa forma, alguma influência gramatical das línguas
bantu sobre o PM, em vários domínios.
Alguns estudos em Moçambique, como é o caso de Chimbutane (2015) e mais
outros mostram que os falantes, que se encontram nas cidades capitais, vilas municipais,
bairros urbanos e suburbanos em Moçambique, por sinal bilingues, que normalmente
usam o português e mais uma língua bantu, apresentam uma tendência de convívio
linguístico. Ou seja, os falantes, independentemente da sua língua materna, ao
comunicarem em uma das línguas bantu, buscam do português alguns vocábulos desta
língua para satisfazerem a sua interlocução em uma língua bantu (empréstimos).
Considere-se a título de exemplificação disso, o excerto seguinte em (8).
(8) (LB+LP): Vizinho a xavile mova para sati wakwe.
Citshwa 5: a. Muyakelani a xavile mova sati wakwe
b. Muyakelani a xavele sati wakwe mova.
(8ʼ) PE6: a. O vizinho comprou um carro para a sua esposa.
b. O vizinho comprou para a sua esposa um carro.
No exemplo em (8), notam-se duas palavras incorporadas do português para o
Citshwa: vizinho e para. Sendo a primeira um SN Sujeito e a segunda um SP OI. Mais
interesse no exemplo em (8) é que as palavras que servem literalmente de empréstimos
lexicais do português para o Citshwa não gozam de um enquadramento relevante
5
Uma das línguas bantu falada na zona sul de Moçambique.
6
Nossa tradução, na qualidade de falante nativo do Xitswa.
38
naquele contexto, visto que em Citshwa, como se pode observar em (8 a.) e (8 b.),
existem palavras equivalentes, salve-se excecionalmente o uso da preposição para, que
nos parece não ter equivalência nas LBʼs. Em todo o caso, porém, existem nas LBʼs
mecanismos linguísticos usados para introduzir um Sprep com a função sintática de OI,
o que não constitui o objeto de estudo do presente trabalho.
Assim sendo, de acordo com Mota (1996: 513), é evidente assumirmos que, a
partir de uma situação de contacto de línguas e consoante as condições em que se
desenvolve, podem ocorrer os seguintes processos linguísticos: (i) criação de
bilinguismo dos falantes (o que implica a manutenção da Língua de Origem e influências
dessa Língua de Origem sobre a Língua Alvo e vice-versa) ou (ii) abandono progressivo
(em certos casos extremos, abrupto) da Língua de Origem, por adoção da Língua Alvo
como única língua da comunidade.
Relativamente ao processo de criação de bilinguismo dos falantes
moçambicanos, o Censo de (2007) e outros documentos mostram que, em
Moçambique, o espaço linguístico da Língua Portuguesa como língua oficial é limitado,
pois está mais difundido nas zonas urbanas que rurais. Por isso, o contacto linguístico
de português e LBʼs é mais acentuado nas zonas urbanas que rurais. Logo, a
possibilidade de haver mais falantes bilingues, nomeadamente LP mais uma LB ou vice-
versa, espera-se mais nas zonas urbanas que rurais.
No que toca ao abandono progressivo (em certos casos extremos, abrupto) da
Língua de Origem, por adoção da Língua Alvo como única língua da comunidade,
acreditamos que, possivelmente, aconteça em Moçambique. Mas, pela minha
experiência isso é possível quando estamos perante um casal em que os cônjuges têm
origens diferentes, ou seja, cada um dos cônjuges vem de uma província/região ou de
uma cidade diferente de outro. Nesse contexto, a comunicação entre os cônjuges assim
como os descendentes do mesmo casal tem sido em português, habitualmente. No
entanto, há casos em que os descendentes são expostos à língua materna do pai, quer
seja uma LB quer seja a LP.
39
Assim, o processo de formação da variedade moçambicana do português
prevalece na situação de contacto com as línguas bantu. O contacto deixa, sem dúvida,
algumas marcas que podem inclusive resultar da transferência de estruturas gramaticais
de outras línguas envolvidas na situação de contacto, como se notou nos exemplos
anteriormente, onde destacamos dois fenómenos linguísticos resultantes do contacto
entre o PM e LBʼs: possibilidade de interferência e convivência linguística.
Nesse contexto, tendo em conta os fenómenos linguísticos observados em
exemplos apresentados nesta secção, parece haver no PM uma tendência de
modificação ou alteração de algum ou alguns dos subsistemas do português padrão
(fonético, morfológico, sintático, lexical e semântico) de que resulta uma variação e
mudança linguística, devido ao fator contacto do PM e das línguas moçambicanas, do
grupo bantu.
Sobre a mudança linguística, Marquilhas (2013: 17-40), Farias (2013:33-37),
Nascimento e Lopes (2015:24-26) partilham a ideia de que num processo de mudança
de uma língua distinguem-se três processos, nomeadamente uma mudança regular,
irregular e gramaticalização. Em cada processo de mudança, são caraterizados alguns
fenómenos linguísticos que variam de acordo com as suas propriedades de
manifestação.
Uma mudança regular, segundo Nascimento e Lopes (2015:24), é a que opera
nos sons de uma língua, obedecendo a um princípio de recorrência, ou seja, de
regularidade – o mesmo som, no mesmo contexto fonético, tende a modificar-se do
mesmo modo em todas as palavras da língua, e no mesmo período do tempo.
Em Nascimento e Lopes, exemplificam-se alguns dos fenómenos linguísticos,
fonéticos ou fonológicos, na língua portuguesa observados do latim para o português,
tais como:
(i) Sonorização (na passagem do latim para o português, ocorreu a sonorização dos
fonemas /p/t/k/f/, quando entre vogais). Vejam-se alguns exemplos a seguir em (9).
(9) lupo ˃ lobo; amatu > amado; totu > todo; amicu > amigo; profectu > proveito
40
[Nascimento e Lopes (2015:26)]
(ii) Vocalização (passagem de um som consonântico a um som vocálico). Atentem-se
aos exemplos apresentados em (10).
(10) actu > auto; absentia > ausência; acceptaire > aceitar; facto > feito
[Nascimento e Lopes (2015:26)]
(iii) Consonantivização (passagem de um som vocálico a um som consonântico, como a
evolução das semivogais (ou glides) /j/, /w/ para consoantes, respetivamente, /ʒ/ e /v/.
Confrontem-se os exemplos abaixo em (11).
(11) Iesus > Jesus; uiuere > viver [Nascimento e Lopes (2015:26)]
(iv) Assimilação (processo fonológico em que um segmento fonológico torna igual ou
semelhante a si um outro segmento próximo, quer total quer parcialmente). Anotem-
se os exemplos a seguir em (12).
(12) nostro > nosso; vita >vida (assimilação total)
chamam-lo > chamam-no (assimilação parcial)
[Nascimento e Lopes (2015:45)]
Marquilhas (2013:22) considera que, para o PE, “há também muitas mudanças
na grafia dos textos ao longo da história”. Tal são, por exemplo, os casos de mudança
de uso das letras consonânticas duplas (<ll˃, <pp˃ <nn˃, etc.), o uso de grafias com <h˃
inicial e o de sinais não alfabéticos, como são o hífen ou acentos, como são
demonstrados os exemplos a seguir em (13)
(13) anno > ano; he > é; dase > dasse>dá-se [Marquilhas (2013:22)]
Relativamente à mudança irregular, ao contrário da mudança regular, esta
ocorre esporadicamente, isoladamente, não obedecendo ao princípio da regularidade.
São os casos que se verificam nos processos de dissimilação, metátese e os fenómenos
da mudança analógica. (cf. Nascimento e Lopes (2015:26)).
(v) Dissimilação – processo fonológico que consiste na alteração de um ou mais traços
fonéticos de um fonema que, numa palavra, tinha traços iguais aos de outro fonema
próximo, contíguo ou não. Apresentam-se alguns exemplos em (14).
(14) calamellu > caramelo; memorare > nembrar > lembrar
41
[Nascimento e Lopes (2015:45)]
(vi) Metátese – é a troca de lugares de fonemas ou de sílabas no interior de uma palavra.
A seguir são apresentados os exemplos deste processo em (15).
(15) semper > sempre; merulo > melro [Nascimento e Lopes (2015:46)]
(vii) Mudança analógica – fenómeno de mudança linguística que consiste em igualizar
foneticamente palavras de igual função ou de significado aproximado, tal como é
exemplificado em (16). (cf. Nascimento e Lopes (2015:26))
(16) sic > sim [Nascimento e Lopes (2015:26)]
Outro processo da mudança linguística é a gramaticalização, que ocorre numa
língua quando uma palavra lexical passa a ser usada como gramatical ou funcional. (cf.
Nascimento e Lopes (2015:26)). Veja-se o exemplo a seguir em (17).
(17) a. o caso chegou ao público. [“caso” = nome]
b. caso não chegues, envia uma notificação. [“caso” = conjunção]
[Nascimento e Lopes (2015:26)]
Um outro fenómeno muito importante de substituição lexical, segundo
Marquilhas (2013:24), é o empréstimo linguístico, resultante de contacto com outros
povos e com outras culturas em que muitas palavras podem ser incorporadas nos
vocabulários. Como consequência disto podem registar-se estrangeirismos (por
exemplo os germanismos medievais: espia, estribo… e arabismos medievais: açúcar,
azul …), cultismos – apoiados no léxico das línguas clássicas gregas (democracia,
metamorfose …) e latina (óvulo, corpúsculo …) e as formas vernáculas sobretudo
romanas (casa, homem, mulher …) e pré-romanas (esquerdo, cama …).
3. Algumas notas sobre o Citshwa
Nesta secção, apresentamos uma breve abordagem sobre o citshwa,
concentrando-se em:
42
(i) aspetos sociolinguísticos desta língua, em (3.1);
(ii) estudos realizados sobre conceitualização dos nomes, numa perspetiva sintática, em
(3.2).
3.1 Aspetos sociolinguísticos do Citshwa
Citshwa é uma das línguas moçambicanas, de grupo bantu, falada em algumas
regiões de Moçambique, nomeadamente na região Sul, nas províncias de Inhambane,
Gaza e Maputo, e região Centro, onde se destacam as províncias de Sofala e Manica,
com mais de um milhão de falantes desta língua, que a têm como sua L1, (cf. Ngunga &
Bavo (2011)). Esta língua é falada ainda em outros pontos de outros países,
nomeadamente na zona meridional de Zimbabwe e na Africa do Sul, na província de
Transvaal, (cf. Ngunga & Faquir (2011:195)).
Na classificação de Guthrie (1967:71), citshwa encontra-se codificada na zona S.51.
Estudo feito em Ngunga & Faquir (2011), sobre línguas moçambicanas, considera
que o citshwa é uma língua que apresenta seis (6) variantes, designadamente:
(i) Xikhambani – falada no distrito de Panda;
(ii) Xirhonga – falada na zona ocidental do distrito de Massinga;
(iii) Xihlengwe – falada nos distritos de Morrumbene, Funhalouro e uma parte de
Massinga;
(iv) Ximhandla – falada no distrito de Vilankulo;
(v) Xidzonge (ou xidonge) – falada na parte meridional do distrito de Inharrime;
(vi) Xidzivi – falada nos distritos de Morrumbene e Homoine.
3.2 Alguns estudos realizados sobre o Citshwa
Sobre o Citshwa, existem alguns estudos realizados que apontam vários
fenómenos linguísticos interessantes. Chamusso (1996), por exemplo, concentra-se no
impacto do contexto cultural para a interpretação e tradução de provérbios do Citshwa
para o Português. Andrade (2005) apresenta uma perspetiva de que Xihlengue tem
alguns traços paralelos ao Xichangana e Citshwa. Chivambo (2013) analisa estratégias
de locativização em Citshwa. Cumbane (2000) e (2008) analisa construções de duplo
43
objeto em Citshwa em falantes do português - língua não materna. Gundane (2015)
procura descrever aspectos morfológicos e fonológicos do Citshwa. Gundane (2018)
apresenta Mini Gramática Descritiva do Citshwa, só para citar alguns exemplos.
No âmbito do presente estudo, interessa-nos olhar os estudos feitos em
Cumbane (2008) e Gundane (2018). Os trabalhos desses investigadores apresentam
algum paralelismo no que se refere à conceitualização dos nomes em Citshwa.
3.2.1 Cumbane (2008)
Cumbane (2008), em seu trabalho sobre “As construções de duplo objecto em
xitshwa – repercussões em falantes do português língua não materna”, apresenta um
conjunto de exemplos que mostram a realização de Construções de Duplo Objeto (CDO)
em Citshwa, numa perspetiva comparativa com o PE.
Note-se que neste trabalho, os exemplos apresentados incluem antropónimos
simples e nomes comuns contáveis (no singular e no plural) e não contáveis.
Partindo de dados recolhidos através de um inquérito por questionário, aplicado
maioritariamente em falantes residentes na província de Inhambane, onde mais se fala
o Citshwa, o autor analisa diferentes construções frásicas, quer activas quer passivas.
Em Cumbane (2008), é dada uma especial atenção à estrutura de Duplo Objeto
(DO) e suas combinações. O autor defende a hipótese de que parece haver uma
influência de estrutura de DO e suas combinações sobre o Português de Moçambique
quando falado por indivíduos cuja língua materna é o Citshwa. O autor chama a atenção
para os casos de diversos sintagmas nominais em Citshwa, encontrados nas frases do
corpus analisado, que não apresentam os artigos definidos.
Assim sendo, seguem abaixo, alguns exemplos extraídos de Cumbane (2008),
que mostram a omissão de artigos definidos em Citshwa, em contextos que envolvem a
realização de antropónimos simples e nomes comuns contáveis (no singular e no plural)
e não contáveis, em diferentes posições sintáticas.
(18) a. Abhuku agihi laha. (Citshwa) [Cumbane (2008: 218)]
44
b. Livro estava aqui.7
PE: *Livro estava aqui/ O livro estava aqui
O exemplo apresentado em ((18) (a)) mostra a realização, em Citshwa, de um
nome comum contável no singular (abukho/livro), em posição sintática de Sujeito, onde
o artigo definido é omisso, envolvendo o pretérito perfeito do indicativo (agihi/estava).
Em ((18) (b)), numa tradução nossa, de Citshwa para o Português, observa-se uma
construção agramatical para o PE, devido à omissão do artigo definido (PE: * Livro estava
aqui/ O livro estava aqui), em posição sintática de Sujeito, envolvendo um nome
contável no singular.
(19) a. I gondza bhuku. (Citshwa) [Cumbane (2008: 206)]
b. Ele lê livro.8
PE: *Ele lê livro / Ele lê o livro
No exemplo em ((19) (a)), podemos notar a realização em Citshwa de um nome
comum contável no singular (bukhu/livro), em posição sintática de OD, com a omissão
do artigo definido, envolvendo o presente do indicativo (gondza/lê).
Em (19) (b)), numa tradução literal feita por nós, de Citshwa para o Português,
podemos depreender uma construção frásica agramatical para o PE, devido à omissão
do artigo definido, na posição sintática de OD, envolvendo um nome comum contável
no singular (PE: *Ele lê livro / Ele lê o livro).
(20) a. Ndzi ga punga. (Citshwa)
b. Eu como arroz. [Cumbane (2008: 205)]
PE: Eu como arroz / Eu como o arroz
O exemplo em ((20) (a)) mostra a realização, em Citshwa, de um nome comum não
contável (punga/arroz), em posição sintática de OD, com a omissão do artigo definido,
envolvendo o presente do indicativo (Nzi ga/eu como).
Em ((20) (b)), de acordo a tradução feita em Cumbane (2008), de Citshwa para o
Português, depreende-se uma construção frásica gramatical para o PE, quer com a
7
Nossa tradução
8
Nossa tradução
45
ausência e/ou com a presença do artigo definido (PE: Eu como arroz / Eu como o arroz),
em contexto que ocorre um nome comum não contável. Nestes contextos, em geral, os
nomes não contáveis podem ocorrer sem determinante, no singular, com as funções
sintácticas de OD e de Predicativo do Sujeito. Nestes contextos, ‘o arroz’, com verbos
plenos, a presença do artigo recategoriza em contável tal como bebi café/bebi o café. O
arroz é assim uma porção determinada. Em posição de predicativo do SU, veja-se que é
aceitável: isto é arroz, em oposição de *isto é o arroz.
(21) a. Maria i ula ula nguvo. (Citshwa) [Cumbane (2008: 219)]
b. Maria fala muito.9
PE: *Maria fala muito / A Maria fala muito
Em ((21) (a)) podemos notar a realização, em Citshwa, de um antropónimo simples
(Maria/Maria), em posição sintática de Sujeito, com a omissão do artigo definido,
envolvendo o presente do indicativo (ula ula /fala).
Em ((21) (b)), conforme a nossa tradução de Citshwa para o Português, depreende-
se uma construção agramatical para o PE, devido à ausência do artigo definido que deve
coocorrer com o antropónimo simples, em posição sintática de Sujeito (PE: * Maria fala
muito/A Maria fala muito).
(22) a Zi gonzani zilava mabukho. (Citshwa) [Cumbane (2008: 210)]
b. Alunos querem livros.10
PE: *alunos11 querem livros / os alunos querem livros
O exemplo em ((22) (a)) mostra a realização, em Citshwa, de um nome comum
contável no plural (Zi gonzani/alunos), em posição sintática do Sujeito, com a omissão
do artigo definido, envolvendo o presente do indicativo (zilava/querem).
Em ((22) (b)), numa tradução nossa, de Citshwa para o Português, depreende-se
uma construção frásica agramatical para o PE, devido à ausência de determinantes que
9
Nossa tradução
10
Nossa tradução
11
Em certos casos, por o nome estar no plural, esta frase pode ser gramatical em PE, com interpretação
existencial
46
coocorressem com o nome comum contável no plural, em posição sintática do sujeito
frásico (PE: *alunos querem livros / os alunos querem livros), pese embora que, para
além disso, em PE, é possível em certos contextos ter nomes contáveis no plural sem
determinante na posição de SU: ‘crianças correram para o jardim’.
3.2.2 Gundane (2018)
Num estudo feito por Gundane (2018), são apresentados alguns dados linguísticos,
que foram recolhidos na província de Inhambane, com particularidade nos Distritos
onde se fala com mais frequência o Citshwa, nomeadamente os Distritos de Homoíne,
Massinga e Vilanculos. Os Distritos aqui apresentados possuem maior número de
escolas que ministram o ensino bilingue, envolvendo o Citshwa.
O estudo de Gundane (2018) contou igualmente com alguns dados recolhidos
através de aplicação de um inquérito por questionário aos estudantes universitários da
extinta Universidade Pedagogia da Maxixe, atualmente Universidade Save, extensão da
Maxixe, que frequentavam o curso de línguas (ensino de Português ou Inglês) com minor
em Citshwa, numa amostragem de quarenta e nove participantes, falantes nativos do
Citshwa. Tal estudo não se concentrava apenas no que interessa a nossa pesquisa, mas
sim uma descrição desta língua bantu, em várias perspetivas gramaticais: Morfologia,
Morfossintaxe, Fonologia, Sintaxe, Semântica, entre outros aspetos ligados à linguística
descritiva do Citshwa. Com efeito, interessa-nos apresentar dados do Citshwa
referentes à sintaxe e semântica do Citshwa, extraídos de Gundane (2018).
Os dados apresentados em Gundane (2018:65-69) mostram fenómenos
interessantes do Citshwa sob ponto de vista sintático, os quais incluem frases simples
nas formas afirmativas e negativas, envolvendo o passado, presente e futuro do
indicativo.
Os exemplos apresentados nas páginas mencionadas mostram realização de
nomes comuns contáveis no singular e no plural e antropónimos simples, com a omissão
de artigo definido, em posição sintática de OD, como se pode observar nos exemplos
seguintes abaixo, em (23) – (26), que envolvem frases simples na forma afirmativa.
47
(23) a. Nyamutlha hina hohlazva paratu (Citshwa) [Gundane (2018: 65)]
b. (hoje) nós lavamos prato.12
PE: *(hoje) lavamos prato/ (hoje) lavamos o prato
No exemplo em ((23) a.), podemos notar a realização em Citshwa de um nome
comum contável no singular (paratu), em posição sintática de OD, com a omissão do
artigo definido, envolvendo o presente do indicativo (hohlazva).
Em ((23) b.), numa tradução literal feita por nós, de Citshwa para o Português,
podemos destacar uma construção sintaticamente agramatical para o PE, devido à
omissão do artigo definido (PE: *(hoje) lavamos prato/ (hoje) lavamos o prato). Como
dissemos anteriormente, geralmente em português, os nomes não contáveis ocorrem
sem determinante, no singular, em OD e em posição Predicativa do Sujeito; em
oposição, os nomes contáveis, nos mesmos contextos, requerem um determinante.
Nesse contexto, com a omissão do artigo definido, subtende-se uma leitura não
específica, i.e., a entidade envolvida não nos remete a um objeto físico específico: lavou-
se um prato, um prato qualquer.
(24). a. Yena amahile yindlu (Citshwa) [Gundane (2018: 67)]
b. Ele construiu casa.13
PE: *Ele construiu casa / Ele construiu a casa
O exemplo apresentado em ((24) a.) mostra a realização, em Citshwa, de um
nome comum contável no singular (yindlu/casa), em posição sintática de OD, com a
omissão do artigo definido, envolvendo o pretérito perfeito do indicativo
(amahile/construiu).
Em ((24) b.), numa tradução nossa, de Citshwa para o Português, observa-se uma
construção agramatical para o PE, devido à omissão do determinante (artigo definido
ou indefinido) (PE: *Ele construiu casa), em contextos que se requere obrigatoriamente
a sua realização.
12
Nossa tradução
13
Nossa tradução
48
(25) a. Nzi taxava mabukhu (Citshwa) [Gundane (2018: 68)]
b. Irei comprar livros/ comprarei livros.14
PE: Irei comprar/comprarei livros/ Irei comprar/comprarei os livros.
O exemplo em ((25) a.) mostra a realização, em Citshwa, de um nome comum
contável no plural (mabukhu/livros), em posição sintática de OD, com a omissão do
artigo definido, envolvendo o futuro do indicativo (nzitaxava/irei comprar/comprarei).
Em ((25) b.), numa tradução nossa, de Citshwa para o Português, depreende-se
uma construção gramaticalmente aceitável para o PE, quer com a ausência quer com a
presença do artigo definido (PE: Irei comprar/comprarei livros/ Irei comprar/comprarei
os livros), em contexto que ocorre um nome comum contável no plural.
(26) a. Nyamutla nimixo wena uvitanile Juwawo (Citshwa) [Gundane (2018: 65)]
b. Hoje de manhã tu chamaste João.15
PE: *Hoje de manhã tu chamaste João/ Hoje de manhã, tu chamaste o João.
Em ((26) a.) podemos observar a realização, em Citshwa, de um antropónimo
simples (Juwawo/João), em posição sintática de OD, com a omissão do artigo definido,
envolvendo o pretérito perfeito do indicativo (uvitanile/chamaste).
Numa tradução nossa, em ((26) b.), de Citshwa para o Português, depreende-se
uma construção agramatical para o PE, devido à ausência do artigo definido (PE: *Hoje
de manhã tu chamaste João/ Hoje de manhã, tu chamaste o João), em contexto que se
realiza um antropónimo simples.
Os casos apresentados acima são fundamentais para a presente pesquisa, na restrita
medida em que se pretende analisar em que medida a presença/ausência de artigos
definidos no singular e no plural, no PM pode contribuir para a análise semântica da
frase e da forma como os nomes, próprios (antropónimos e topónimos) e comuns
(contáveis, não contáveis e recategorizados), são conceptualizados, numa perspetiva
14
Nossa tradução
15
Nossa tradução
49
comparativa com PE e alguns casos do PB, onde vamos perceber que meios se usam
nesta língua para exprimir diferentes leituras dos Ns simples.
4. Conclusão do capítulo
Após a leitura deste capítulo depreende-se que em Moçambique, para além das
línguas bantu e do português, há outras línguas faladas de origem estrangeira, tal como
é o caso do Inglês e outras de origem asiática. No presente capítulo, nota-se ainda que,
o português apesar de ser a língua oficial em Moçambique constitui a L2 para a maioria
dos falantes. Para esta maioria de moçambicanos, a língua falada com maior frequência
em casa é uma língua bantu, quer nas zonas urbanas quer nas zonas rurais. Alguns
estudos realizados sobre a diversidade linguística em Moçambique não reúnem
consenso sobre o número exato das línguas bantu existentes. Contudo, segundo o mapa
etnolinguístico apresentado neste capítulo, pode constatar-se que, das Línguas Bantu
distribuídas por regiões de Moçambique, não existe sequer uma delas que seja falada
em todo o território nacional. Relativamente à Língua Portuguesa como língua oficial, o
seu espaço linguístico é limitado, pois é mais fluente nas zonas urbanas que rurais.
Após a leitura deste capítulo fica-se com a sensação de que o contato do
português com as línguas moçambicanas não foi suficiente para resultar línguas crioulas
indígenas tal como é o caso dos crioulos de Cabo Verde, das Ilhas do Golfo da Guiné e
Crioulos continentais. (Cf. Cunha e Cintra (2005:24), mas foi suficiente para produzir, ao
longo do tempo, um amplo processo de convivência entre línguas. Por contacto
linguístico, os falantes operam, de forma consciente ou inconsciente, a introdução de
traços de uma ou mais línguas na sua língua materna. As Línguas Bantu (LB), desta feita,
constituem as línguas maternas (L1s) da maior parte da população” (Gonçalves, 2010b:
7). Alguns estudos realizados sobre o Citshwa, por exemplo, apontam vários fenómenos
linguísticos interessantes.
50
CAPÍTULO II – ENQUADRAMENTO TEÓRICO
1.0 Introdução
Neste capítulo, interessa-nos apresentar o quadro geral sobre a noção e
distribuição dos determinantes em classes e subclasses em português. Na secção 2.1,
proceder-se-á a uma descrição geral dos determinantes, para o PM.
Em 2.2, apresentam-se algumas considerações básicas sobre a noção e
classificação dos determinantes em português.
Em 2.3, descrevem-se algumas particularidades morfossintático-semânticas dos
determinantes no PE.
No mesmo capítulo, far-se-á uma abordagem sobre o tratamento dos artigos
definidos, nomeadamente para o PB, em 2.4,
Na secção 2.5, desenvolvem-se alguns aspectos referentes ao tratamento dos
artigos definidos para o Espanhol.
Finalmente, em 2.6, apresentamos a conclusão do capítulo.
2.1 Descrição geral dos determinantes no Português de Moçambique
Alguns estudos linguísticos trataram os determinantes no Português de
Moçambique. Neste contexto, destacam-se os trabalhos de Gonçalves (1997 e 1998),
Atanásio (2002) e Costa (2014), que apresentam uma descrição da estrutura dos
sintagmas nominais, sem perder de vista os artigos definidos.
1. Gonçalves e Stroud (1998)
No corpus do Português Oral de Maputo (POM), Gonçalves (1997:59)16 e
Gonçalves e Stroud (1998:40-49) reportam a existência de construções de sintagmas
nominais com um padrão diferente ao do PE. São apresentados alguns exemplos que
16
1 In Stroud, C. & Gonçalves, P. Panorama do Português Oral de Maputo - Vol. II: A Construção de um
Banco de “Erros”.
51
envolvem alguns determinantes, em particular os artigos definidos e indefinidos, em
diferentes contextos sintáticos. Tais construções, de um modo geral, apresentam os
seguintes fenómenos linguísticos, que se apresentam abaixo, dando-se exemplos que
seguem em (1), (2), (3), (4) e (5).
(i) Omissão do artigo em SNs com a função de sujeito em posição inicial de frase;
(1) a. Casa de meu irmão está abandonada. (= a casa do)
b. Telefone dela caiu na água. (= o telefone)
[Gonçalves e Stroud (1998:40)]
No exemplo apresentado em (1a), podemos observar o seguinte: a ausência do
artigo definido associado ao núcleo nominal ʻcasaʼ, um nome comum contável no
singular, em posição do sujeito e a ausência do artigo definido em um SN que envolve
um possessivo e um nome comum contável no singular, em posição de modificador. Nos
mesmos contextos, em português, a realização do artigo definido (ou indefinido) é
requerida obrigatoriamente.
(ii) Omissão do artigo definido em SNs com a função de complemento direto;
(2) a. Recebi telefonema. (= o telefonema) (Gonçalves e Stroud, 1998:41)
b. Estão a cortar prioridade aos outros. (= a prioridade)
c. Temos relacionamento muito bom. (= um relacionamento)
d. Se eu abrir machamba, hei-de produzir muita comida. (= a machamba)
[Gonçalves e Stroud (1998:41)]
Em ((2) (a) e (d)), observa-se a ausência do artigo definido associado a nomes
comuns contáveis no singular, em posição sintática de OD, em contextos que se requer
a sua realização em PE.
Os exemplos apresentados em ((2) (b) e (c)) mostram a ausência de um
determinante com nomes comuns não contáveis, em posição sintática de OD. Neste
contexto, em geral, os nomes não contáveis podem ocorrer sem determinante.
(iii) Omissão do artigo em expressões locativas e temporais;
(3) a. Vai para escola. (= para a escola)
b. Às cinco de manhã cheguei em Sena (= da manhã)
c. Acho que até próximo ano poderei concluir (= até ao próximo)
52
d. A minha família está em Norte. (= no Norte)
[Gonçalves e Stroud (1998:42)]
Em (3) são ilustrados alguns exemplos de ausência do artigo definido em SNs-
expressões locativas ((3) (a) e (d)) e temporais ((3) (b) e (c)), em SPREP. Tais contextos
requerem a presença do artigo definido.
(iv) Omissão de artigos em construções que envolvem os quantificadores universais todo,
todos e ambos;
(4) a. Todo sacrifício tem uma bonança.
b. Todos moçambicanos prometeram que iam votar no dia 15 de outubro.
c. Ambos vizinhos estão sempre em brigas.
[Gonçalves e Stroud (1998:51)]
Os exemplos apresentados em (4) dizem respeito à omissão de artigos em
construções com os quantificadores universais todo, todos e ambos, envolvendo nomes
não contáveis, em ((4) (a)) e contáveis, em ((4) (b) e (c)). Nestes contextos, a presença
de artigos definidos é requerida no PE.
(v) inserção de artigo em contextos em que a sua presença não é requerida;
(5) a. Primeiro do Maio (= primeiro de Maio) (Gonçalves e Stroud, 1998:40)
[Gonçalves e Stroud (1998:40)]
b. No Maputo, a vida está difícil. (= Em Maputo)
c. Encontra-se aqui no Munguine a trabalhar. (= em Munguine)
[Gonçalves e Stroud (1998:42)]
Em ((5) (a)), os nomes de meses, no PE, não têm artigo em geral.
Nos exemplos que se ilustram em ((5) (b) e (c)), nota-se a inserção do artigo
definido associado a nomes próprios Topónimos. Nestes contextos, a presença de
artigos definidos em nomes Maputo e Munguine não é requerida, pese embora que em
PE é possível a ocorrência de artigos definidos em nomes como ‘O Porto’, ‘A Guarda’ …
Vemos, assim, que os casos de ausência e inserção de artigos definidos no
trabalho de Gonçalves e Stroud (1998) são analisados numa perspetiva sintática.
53
Neste contexto, Gonçalves e Stroud (1998) chegam à conclusão de que os
fenómenos apresentados sobre ausência e inserção de artigos definidos no PM parecem
ser derivados de interferências das estruturas das línguas Bantu sobre o Português.
2. Atanásio (2002)
Atanásio (2002) faz uma abordagem sintática e semântica das estruturas dos
sintagmas nominais no Português de Moçambique, mostrando a existência de alguns
fenómenos linguísticos referentes ao uso e interpretação dos artigos em produções de
alunos do ensino básico. O autor salienta que os alunos do ensino básico da escola
abrangida pela sua pesquisa em Moçambique não utilizam artigos em contextos em que
seriam de uso obrigatório no PE.
Atanásio (2002), ao analisar um corpus constituído por textos de alunos do
Ensino Básico em Nampula, falantes do PM, também partilha os casos identificados por
Gonçalves e Stroud (1998) relativamente aos casos de omissão de artigos em SNs, em
posição sintática de sujeito, omissão de artigos em SNs, em posição sintática de OD e
quantificadores universais sem artigos definidos, no PM.
Atanásio (2002:12) identifica outros casos, que se apresentam abaixo:
(i) ocorrência dos possessivos (meu, teu, seu, nosso e vosso) não precedidos de artigos
definidos ou de demonstrativos;
(6) a. ... brinquei com meus primos. (= com os meus primos)
b. ... vim depois aqui na escola brincar, cantar e dançar com minhas amigas.
(= com as minhas amigas)
c. ... nossos professores estavam animados na festa. (= os nossos professores)
[Atanásio (2002:12)]
Em (6) são ilustrados alguns exemplos que mostram a ocorrência dos
possessivos não precedidos de determinantes (artigos definidos ou demonstrativos),
envolvendo os nomes comuns contáveis no plural, (cf. (6) (a) e (b)) e de Sujeito frásico
(cf. (6) (c)). Tais contextos requerem realização de determinantes (artigos definidos ou
demonstrativos), no PE.
(ii) ocorrência de preposições a regerem nomes sem artigo:
54
(7) a. …puseram coroa na Praça com Governador Mualeia.
(= com o Governador Mualeia)
b. Estavam todos professores com Governador
(= todos os professores com o governador) [Atanásio (2002:11)]
Os exemplos apresentados em ((7) (a) e (b)) mostram a ausência do artigo
definido em nomes comuns contáveis, em posição sintática de modificador. Neste
contexto, em geral, os nomes comuns contáveis necessitam de determinantes (artigos
definidos ou demonstrativos), para o PE.
Sobre os fenómenos linguísticos apresentados nos exemplos anteriores,
Atanásio (2002) partilha a hipótese avançada por Oliveira (2001), ao comparar a
ausência de artigos em PM e línguas eslavas entre outras, segundo a qual, para o PM,
regista-se o funcionamento paralelo de duas gramáticas, nomeadamente a gramática
das línguas Bantu e a do PE, na formação do Português de Moçambique.
3. Costa (2014)
No trabalho de Dissertação de Mestrado, a autora analisa a estrutura
interna dos sintagmas nominais no PE e no Emakhuwa e defende a interferência da
língua Emakhuwa sobre o português.
A partir de um corpus escrito, constituído por uma lista de frases que foram
traduzidas, do Emakhuwa para o PE, por falantes nativos do Emakhuwa, naturais e
residentes em alguns distritos das províncias de Nampula, Cabo Delgado e Zambézia,
onde se fala com maior frequência esta língua, Costa (2014) identificou outros
contextos, que se seguem abaixo, referentes à ausência de artigos definidos no PM,
para além dos que foram partilhados em Gonçalves e Stroud (1998) e Atanásio (2002).
(i) Contextos que envolvem à realização dos nomes comuns não contáveis
recategorizados, em posição sintática de OD;
(8) a. “ muitas vezes fazemos coisas sem pensar.”
b. “ o governo deve (...) tomar novas leis e regulamentos.”
c. “ ... ele sempre aponta ciúmes - a causa do divórcio”, …
d. “...assistimos / a / casos de violência doméstica (...)” [Costa (2014:66)]
55
Em (8), são ilustrados alguns exemplos que mostram alguns contextos de
realização dos nomes não contáveis recategorizados, em posição sintática de OD.
(ii) Ausência de artigos definidos com nomes não contáveis, em posição sintática de
modificador;
(9) (…) “muitas vezes não devolvem nas suas vidas devido à prática de feitiçaria (…) ”
[Costa (2014:69)]
No exemplo em (9), a autora considera que, “o complemento determinativo de
maldição exigiria um especificador artigo, para determinar aquilo que é conhecido e
praticado supostamente em algumas regiões de Moçambique”, segundo a norma
padrão do português (PE muitas vezes não devolvem nas suas vidas devido à prática da
feitiçaria).
(iii) Ausência de artigos definidos com nomes comuns contáveis no singular em
Sintagmas Preposicionais;
(10) “A nossa casa foi construída por papá” [Costa (2014:70)]
O exemplo apresentado em (10) mostra a ausência do artigo definido em nome
comum contável no singular, em Sintagmas Preposicionais. Neste contexto, em geral, os
nomes comuns contáveis necessitam de determinantes (artigos definidos ou
demonstrativos), no PE. A este respeito, Costa (2014:70) observa que,
“independentemente de os falantes estarem familiarizados com os contextos de
produção das frases, é comum e frequente ouvirem-se construções como as que se
apresentam acima, mas que são agramaticais”.
E conclui que “o determinante artigo é uma categoria vazia nas línguas bantu,
em particular no Emakhuwa, que supostamente parece estar a influenciar a estrutura
do sintagma nominal do português falado no norte de Moçambique”.
2.2 Algumas considerações básicas sobre a noção e classificação dos
determinantes em português
A noção dos determinantes em português tem sido objeto de controvérsia entre
as gramáticas tradicionais às modernas. Para além disso, um outro aspeto que não tem
reunido consenso está relacionado com a classificação dos determinantes.
56
Sobre a noção e classificação dos determinantes em português, destacam-se
algumas gramáticas tradicionais da língua portuguesa, designadamente Cunha & Cintra
(2013) e Neves (2000), gramáticas modernas da língua portuguesa: Mateus et al (2003)
e Raposo et al (2013), trabalho de Casteleiro (1977), Brito (2003) e Dicionário
Terminológico (2008 e 2011).
No presente capítulo, apresentam-se, de seguida, as linhas gerais dos autores
mencionados, com particularidade para os aspetos relevantes que tem a ver com o
objeto de estudo do presente trabalho.
1. Casteleiro (1977)
Casteleiro (1977) associa os determinantes a um SN sendo constituintes que se
antepõem ao nome, tendo a função de delimitar a referência nominal.
Num quadro geral, Casteleiro resume a classificação tipológica dos
determinantes na tabela seguinte em (i), distribuindo-a por subclasse e tipologia, que
varia em género e em número.
57
Tabela I: Classificação tipológica dos determinantes por Casteleiro (1977)
58
Subclasse Tipologia Singular Plural
Masculino Feminino Masculino Feminino
1. Pré-Artigos 1.1Quantificadores totais todo toda todos todas
1.2 Quantificadores Duais -- -- Ambos ambas
2. Artigos 2.1 Artigos Definidos o A os as
2.2 Artigos Indefinidos um uma uns umas
2.3 Demonstrativos este, esse, esta, essa, estes, esses, estas, essas,
aquele aquela aqueles aquelas
3. Pós-Artigos 3.1 Denotativos outro, outra, outros, outras,
mesmo, mesma, mesmos, mesmas,
próprio própria próprios próprias
tal tais
3.2 Numerais um uma dois, três duas
primeiro, Primeira, primeiros, primeiras,
segundo, segunda, segundos, segundas,
terceiro ... terceira ... terceiros ... terceiras ...
3.3 Possessivos meu, teu, minha, tua, meus, teus, minhas, tuas,
seu/dele, sua/dela, seus/dele, suas/dela,
nosso, nossa, nossos, nossas,
vosso, seu/ vossa, sua/ vossos, seus/ vossas, suas/
dele delas deles delas
3.4Quantificadores algum, alguma, alguns, algumas,
Indefinidos muito, muita, Muitos, muitas,
pouco, pouca, poucos, poucas,
vários, certos, várias,
certo, certa
restantes,
restante, certas,
tantos,
bastante, tantas,
bastantes,
qualquer,
quaisquer pós
mais,
menos,
cada,
demais
59
3.5Interrogativos quanto que quanta quantos quantas
exclamativos QU
Fonte: Casteleiro (1977)
A tabela em (i) mostra uma classificação tipológica dos determinantes para o
português europeu. Nesta tabela, nota-se que, para Casteleiro (1977), existem três (3)
classes de determinantes designadamente a classe dos pré-artigos, composta pelos
quantificadores totais e quantificadores duais; a classe dos artigos, preenchida pelos
artigos definidos, indefinidos e demonstrativos e a classe de pós-artigos, constituída por
denotativos, numerais, possessivos, quantificadores indefinidos e interrogativos
exclamativos QU.
2. Cunha & Cintra (2013) e Neves (2000)
Nas gramáticas tradicionais da Língua Portuguesa, (Cunha & Cintra: 2013, Neves:
2000), podemos encontrar alguma informação sobre determinantes. Porém, estas
gramáticas não usam especificamente o termo determinante.
Cunha & Cintra (2013:318) e Neves (2000:450) partilham a ideia de que existe
uma classe de palavras que se estende desde os artigos (definidos e indefinidos) até aos
pronomes, que incluem os demonstrativos, os possessivos e os pessoais. Veja-se a
tabela seguinte em (ii) sobre distribuição dos artigos e pronomes, baseando-se em
Cunha & Cintra (2013) e Neves (2000).
Tabela II: Distribuição dos artigos e pronomes, baseada em Cunha & Cintra (2013) e Neves
(2000).
Subclasse Tipologia Singular Plural
Masculino Feminino Masculino Feminino
I. Artigos 1.1 Artigos definidos O A os as
1.2 Artigos indefinidos Um Uma uns umas
60
2.1 Demonstrativos este, esse, esta, essa, estes, esses, estas, essas,
aquele, aquela, a tal, aqueles, aquelas,
isto, isso,
a outra, os tais, as tais,
o tal,
a mesma os outros, as outras,
o outro,
os mesmos as mesmas
o mesmo
2.2 Possessivos o meu, a minha, os meus, as minhas,
o teu, a tua, os teus, as tuas,
II. Pronomes o seu, a sua, os seus, as suas,
o nosso, o a nossa, os nossos, as nossas,
vosso,
a vossa, os vossos, as vossas,
o seu,
a sua, os seus, as suas,
o próprio
a própria os próprios as próprias
2.2 Pessoais Eu Nós
Tu Vos
Ele Eles
Fonte: Cunha & Cintra (2013) e Neves (2000)
A análise desta tabela permite-nos observar uma distribuição dos artigos e
pronomes. Os artigos subdividem-se em definidos e em indefinidos, variando as suas
formas em número e em género.
Relativamente aos pronomes, observa-se que estes distribuem-se em
demonstrativos, com variação em número e em género, possessivos também com
variação em número e em género e, por fim, os pessoais que variam apenas em número.
Cunha & Cintra (2013:212-213), entretanto, falam de determinação para se
referir aos artigos definidos e indefinidos. Estes autores consideram que quer seja artigo
definido e suas variações, quer seja indefinido também com suas variações, caraterizam-
se por ser palavras que introduzem os substantivos indicando-lhes o género e o número.
Vejam-se alguns exemplos apresentados a seguir em (1).
61
(1) a. o/a estudante os/as estudantes
b. o jantar foi memorável. / os jantares foram memoráveis.
c. um/uma jornalista uns jornalistas/ umas jornalistas
Neves (2000:389) não usa o termo ‘determinante’, mas considera que existem
termos que têm a função particular de fazer referenciação, sem, no entanto, nomear ou
denominar como os substantivos, designados como pronominais. Confrontem-se os
seguintes exemplos abaixo em (2).
(2) a. O arroz velho é considerado planta invasora. A tendência é ELE dominar a lavoura
no segundo ano de infestação.
b. PC nega SEU envolvimento com o narcotráfico.
c. Uma noite, quando Alfredo já se despedira e se afastava, na estrada, ela correu a
falar com Matilde. No quarto dESTA havia luz e a porta se achava entreaberta.
d. O marido estava trabalhando e O menino nO colégio. [Neves (2000:389)]
Os exemplos apresentados em (2) mostram que, embora a autora não use
especificamente o termo determinante, em (2 a.) está um pronome pessoal (ele), em (2
b.), encontra-se um pronome possessivo (seu), em (2 c.), apresenta-se um pronome
demonstrativo ((d)esta) e em (2 d.), destaca-se o artigo definido (o). Contudo, Neves (p.
390), concentrando-se, em parte na semântica textual, trata dos pronomes pessoais (de
terceira pessoa), dos pronomes possessivos, dos pronomes demonstrativos e dos
artigos definidos de palavras de referenciação textual (ou endofóricas), isto é, que fazem
referência a elementos que estão dentro do texto.
Por outro lado, a autora encontra outra explicação sobre os artigos e pronomes
referenciados no quadro (ii), que é partilhada em Cunha & Cintra (2013).
3. Mateus et al (2003) e Raposo et al (2013)
Nas gramáticas modernas da Língua Portuguesa, (Mateus et al (2003) e Raposo
et al (2013)), chama-se determinante às «palavras que se combinam com nomes,
adquirindo o grupo resultante uma dimensão referencial, ou seja, passando a designar
entidades particulares do mundo real ou imaginário sobre o qual incide o discurso»
62
(Raposo (2013:329). Raposo acrescenta ainda que «os determinantes incluem os artigos
definido e indefinido, a forma algum (e variantes) e as formas demonstrativas este, esse,
aquele e suas variantes» (2013:329).
Nesse contexto, e como se pode confrontar no parágrafo anterior, em Raposo
(2013), excluem-se os possessivos na classificação dos determinantes. Uma das razões
apresentadas pelo autor tem a ver com o facto de «um pronome possessivo pré-
nominal, na norma-padrão do português, não ocorrer na posição inicial do SN (*meu
carro é descapotável), sendo, usualmente, precedido por um determinante definido
(artigo ou demonstrativo) (o/este meu carro é descapotável)». (Raposo (2013:329).
Contudo, admite-se que «os pronomes possessivos são expressões referenciais, i. e.,
referem uma entidade do universo do discurso, uma característica semântica
completamente atípica da classe dos especificadores». (Raposo (2013:329).
Brito (2003:346) propõe subdividir os determinantes em dois grupos, tendo em
consideração as propriedades sintáticas e semânticas que caraterizam cada subclasse.
Num quadro geral, Brito distingue dois grupos de determinantes, que se
apresentam na tabela abaixo em (iii).
Tabela III: Grupos de determinantes, segundo Brito (2003)
I. Determinantes
1.1 Não deíticos 1.1.1 Artigos definidos
1.1.2 Artigos indefinidos
1.2 Deíticos 1.2.1 demonstrativos
1.2.2 Possessivos
1.3 Definidos 1.3.1 Artigos definidos
1.3.2 Demonstrativos
Fonte: Brito (2003)
Através desta tabela, podemos constatar um agrupamento dos determinantes,
dividido em três subgrupos, nomeadamente os artigos (definidos e indefinidos),
elementos linguísticos que não possuem um valor deítico (cf. (3)), os demonstrativos e
os possessivos, que fazem parte de um subgrupo dos determinantes com valor deítico
63
(cf. (4)). Finalmente, os definidos e os demonstrativos, devido às suas caraterísticas de
definitude (cf. (5)), pertencem ao mesmo subgrupo.
(3) a. Ele comprou a gramática.
b. Ele comprou uma gramática.
O exemplo em (3) mostra que, em português, os artigos definidos e indefinidos,
não reúnem condições linguísticas referentes a coordenadas pessoais, espaciais e
temporais, tal como acontece, por exemplo, com deíticos: demonstrativos (este livro,
aquele livro …); possessivos (meu livro, teu livro …); pronomes pessoais (eu vou defender
a minha tese); advérbios locativos: eu vou defender a minha tese aqui etc.).
(4) a. Vou comprar na livraria aquela gramática.
b. Vou comprar na livraria o seu livro.
Em (4), apresentam-se exemplos que incluem os determinantes demonstrativos
(aquela) (cf. 4 a.) e o possessivo (seu) (cf. 4 b.). Os determinantes demonstrativos e
possessivos ambos possuem um valor deítico.
Os demonstrativos, para Peres (2013:863), «são elementos centrais no sistema
de dêixis espacial, permitindo que a identificação do referente de um SN seja feita em
função da sua proximidade ou afastamento do falante e/ou ouvinte».
O autor refere ainda que os demonstrativos também «possuem um uso deítico
temporal quando especifica SNs cujo núcleo é um substantivo que denota um intervalo
de tempo», (por exemplo: a. (n)esta semana não posso ir ao cinema/ neste ano,
prometo publicar o meu livro.)
Os pronomes possessivos (meu(s), teu(s), seu(s) e nosso(s)), tal como refere Lima
(2006:87), também «caraterizam dêixis pessoal, na medida em que são explicáveis em
termos do uso do eu, tu, ele(a), nós, etc. A sua função é precisamente contribuir para a
referência a entidades possuídas por, ou de algum modo relacionadas com as pessoas
designáveis por eu, tu, ele(a), nós», etc.
(5) a. A Maria comprou a gramática.
b. A Maria comprou esta gramática.
64
O exemplo em (5) mostra que o artigo definido, em (5 a.) e o demonstrativo em
(5 b.) partilham o mesmo valor semântico de definitude. A noção de definitude está
intrinsecamente ligada ao princípio de unicidade (cf. Leonetti, 1999a; 1999b). No
exemplo, em (5 a.), a Maria comprou a gramática refere-se a uma única gramática, em
particular, comprada pela Maria. A mesma leitura é extensiva para o exemplo em (5. b.),
com o demonstrativo: a Maria comprou esta gramática.
Apesar de serem evidente divergências de classificação dos determinantes, em
português, o conceito de determinante é partilhado nas gramáticas modernas de Língua
Portuguesa, designadamente em Mateus et al (2003) e em Raposo et al (2013), que
referem que os determinantes pertencem a uma categoria linguística designada
especificadores (do nome) (cf. Peres, 2013:717-718). Esta categoria, segundo a
abordagem tida em conta nas gramáticas referenciadas, incorpora genericamente todos
os elementos que se encontram à esquerda do nome e que não funcionam como
complementos desse nome, no interior de um SN, nomeadamente os determinantes e
os quantificadores.
As gramáticas modernas de Língua Portuguesa (Mateus et al (2003) e em Raposo
et al (2013)) representam do modo seguinte a descrição sobre a classificação de
especificadores no PE, constituída pelos determinantes e quantificadores. Assim, na
tabela em (iv), apresenta-se a subclasse dos determinantes e descrevem-se na tabela (v)
os quantificadores.
Tabela IV: Subclasse de especificadores: os determinantes
Subclasse Tipologia Singular Plural
Masculino Feminino Masculino Feminino
1.1 Artigos definidos O A os As
I. DETERMINANTES
1.2Artigos indefinidos Um Uma uns Umas
1.3 Demonstrativos este, esse, esta, essa, estes, esses, estas, essas,
aquele, isto, aquela, a tal, a aqueles, aquelas,
isso o tal, outra,
os tais, as tais,
o outro, a mesma
65
o mesmo os outros, as outras,
os mesmos as mesmas
1.4 Possessivos o meu, a minha, os meus, as minhas,
o teu, a tua, os teus, as tuas,
o seu, a sua, os seus, as suas,
o nosso, o a nossa, os nossos, as nossas,
vosso,
a vossa, os vossos, as vossas,
o seu,
a sua, os seus, as suas,
o próprio
a própria os próprios as próprias
Fonte: Mateus et al (2003) e em Raposo et al (2013)
A tabela em (iv) evidencia a classificação dos especificadores no PE, segundo as
gramáticas referidas. Tal como se pode observar na tabela acima, os determinantes
fazem parte da subclasse de especificadores. A subclasse dos determinantes subdivide-
se em: artigos definidos, artigos indefinidos, demonstrativos e possessivos, que se
apresentam de preferência à esquerda do SN, tal como mostram os exemplos
apresentados a seguir em (6).
(6) a. Os/aqueles jornalistas foram ameaçados durante a campanha sobre Covid-19.
b. Os nossos/os próprios jornalistas foram ameaçados durante a campanha sobre
Covid-19.
Em (6), observa-se que o artigo definido os e o demonstrativo aqueles antepõem-
se ao nome jornalistas, uma posição sintática ocupada exclusivamente pelos
especificadores (determinantes e quantificadores), para o PE.
Tabela V: Subclasse de especificadores: os quantificadores
II. QUANTIFICADORES
(i) Classificação quanto ao tipo
2.1. Quantificadores Próprios
Subclasse Subtipo Exemplos
Cardinais um/dois/mil…
66
Numerais Ordinais primeiro/trigésimo …
Partitivos17 metade/um terço…
Multiplicativos duplo/triplo …
Coletivos18 Par/parelha/trio/quinteto/década,….
Universais todo/cada/cada um/qualquer/ambos
Indefinidos Não Universais algo/alguém/um/algum
Afirmativos vários/poucos/muitos/bastantes/demasiados
Negativos ninguém/nenhum/algum
Gradativos Comparativos mais/menos/tanto
Proporcionais algo/(um)
pouco(s)/muito(s)/bastante(s)/demasiado
2.2. Quantificadores Focais ou Pressuposicionais
Subclasse Exemplos
Inclusivos também/inclusive/até/nem sequer
Exclusivos só/apenas
(ii) Classificação de acordo com o âmbito de quantificação
1. Intrínsecos cada, todo, ambos…
2. Não intrínsecos ‘muitos’ e quantificadores focais ou
pressuposicionais (também/inclusive/até/tão
pouco(s)/nem sequer, só/ao menos/apenas)
Fonte: Sánchez López (1999:1036) para o Espanhol, Peres (2013), Oliveira (1996), Duarte
e Oliveira (2006), Peres & Branco (1989) para o PE
A tabela em (v) sugere uma possível sistematização dos quantificadores em
classes e subclasses referente aos quantificadores, uma das subclasses de
especificadores, baseada em Sánchez López (1999:1036) para o Espanhol, Peres (2013),
Oliveira (1996), Duarte e Oliveira (2006), Peres & Branco (1989) em Português Europeu,
Müller, Negrão e Gomes (2007), Pires de Oliveira (2003) e Neves (2000:511) em PB.
Entretanto, reconhece-se falta de unanimidade em classificar exaustivamente os
quantificadores nas línguas naturais dado que cada língua possui suas especificidades
17
Em Vicente (2013:926) são designados de numerais fracionários.
18
Apud Vicente (2013:926).
67
diferenciando-as de outras línguas ou até variedades. A título de exemplo, para o PB,
segundo Neves (2000) consideram-se quantificadores universais os seguintes: todo,
todos, cada, ambos e nenhum. Já para o PE, segundo Duarte e Oliveira (2003:231), são
considerados universais os operadores “todo/todos”, “cada”, “ambos” e “qualquer”.
Nesta tabela, depreende-se que os quantificadores agrupam-se em: a)
quantificadores próprios, os quais indicam explicitamente uma quantidade: os
Numerais, os Indefinidos e os Gradativos; b) quantificadores focais ou pressuposicionais
- aqueles que não expressam quantidade, mas implicam (ou pressupõem) a leitura
quantificada dos elementos que estão incluídos no seu âmbito: inclusivos e exclusivos.
Acrescenta-se ainda uma outra classificação de acordo com o âmbito de
quantificação, onde se incluem os quantificadores intrínsecos e não intrínsecos, (cf.
Sánchez López (1999:1036)).
A subclasse dos quantificadores, à semelhança da dos determinantes, apresenta-
se de preferência à esquerda do SN, como se pode confrontar os exemplos seguintes
em (7).
(7) a. Todos os/alguns jornalistas foram ameaçados durante a campanha sobre Covid-
19.
b. Muitos/vários jornalistas foram ameaçados durante a campanha sobre Covid-19.
No exemplo em ((7) (a)), nota-se a precedência dos quantificadores universal
(todos os) e não universal (alguns) ao nome jornalistas. Observa-se igualmente, que no
exemplo em ((7) (b)), os quantificadores proporcional (muitos) e não universal (vários)
precedem ao nome jornalistas, o que confere no geral à posição sintática ocupada pelos
especificadores: determinantes e quantificadores referenciados.
4. Dicionário Terminológico (2011)19
No Dicionário Terminológico de língua portuguesa, podemos encontrar alguma
informação sobre a noção de determinante. Neste Dicionário, define-se determinante
19
[Link]
[Link]
68
como «uma palavra que surge sempre antes do nome com o qual concorda em género
e número».
Note-se que, no Dicionário Terminológico distinguem-se determinantes em
subclasses, que podem ser: artigo definido e indefinido, possessivo, demonstrativo e
indefinido interrogativo. Esta última, segundo Dicionário Terminológico, é a palavra que,
em início de frase do tipo interrogativo, precede um nome. Considere-se o exemplo
seguinte em (8).
(8) Que livro leste ontem?
No mesmo contexto, acrescenta-se ainda a subclasse dos determinantes
relativos: (cujo(s), cuja(s)).
Os exemplos seguintes:
(9) a. Aquela é a pessoa cuja prima se chama Margarida.
b. O estudante cujo trabalho foi distinguido pelo CLUP é o Luís.
c. A casa cujas portas foram gradeadas é segura.
mostram que os determinantes relativos são palavras variáveis em género e número
que estabelecem a ligação entre o nome seu antecedente e a oração relativa que
introduz, ocorrendo junto do nome.
2.3 Algumas particularidades morfossintáctico-semânticas dos
determinantes no PE.
Nesta secção, apresentam-se algumas abordagens teóricas referentes a
particularidades sintático-semânticas dos determinantes no PE. A nossa abordagem
concentrar-se-á em estudos realizados, em Oliveira (2006, 2013, 2017, 2018), Duarte e
Oliveira (2003), Brito (2003), Peres (2013), Miguel e Raposo (2013), entre outros, para o
PE.
2.3.1 Determinantes demonstrativos
Miguel (1995:344) refere que os demonstrativos, semanticamente, «indicam a
proximidade ou a distância em relação às pessoas gramaticais, e o tempo – presente ou
69
passado com referente próximo) ou distante (passado ou futuro)». Do ponto de vista
morfológico, as gramáticas tradicionais e modernas, assim como o dicionário
terminológico do português são compatíveis com a visão de que os demonstrativos se
agrupam, em português, em três formas ((i) este, esta, estes, estas; (ii) esse, essa, esses,
essas; (iii) aquele, aquela, aqueles, aquelas).
Para além das formas referenciadas acima, Miguel e Raposo (2013: 859-879)
apontam também outra forma designadamente neutra (isto, isso e aquilo). A tabela que
se segue abaixo, em (vi)20, apresenta uma distribuição semântica e morfológica dos
demonstrativos em português.
Tabela VI: Distribuição semântica e morfológica dos demonstrativos em português
Semântica Morfologia
Pessoa Formas variáveis Formas
invariáveis
Espaço Singular Plural
Tempo Masc. Femin. Masc. Femin.
Proximidade da 1ª pessoa, do este esta estes estas Isto
momento presente ou do
passado próximo
Proximidade da 2ª pessoa, do esse essa Esses essas Isso
passo e do futuro próximos ou
distantes
Proximidade da 3ª pessoa, do aquele aquela aqueles aquelas aquilo
passado distante
Fonte: Miguel e Raposo (2013: 859-879)
Morfologicamente, os demonstrativos admitem duas formas: (i) uma variação
em género e número e outra forma invariável, em que nesta última forma incluem-se
os seguintes elementos isto, isso e aquilo. Semanticamente, os demonstrativos
estabelecem a sua referência tendo em conta a sua relação de proximidade ou distância
20
Baseado em Miguel (1995:344).
70
com, por exemplo, um participante do discurso ou um antecedente textual, podendo
por isso ser deíticos ou anafóricos.
Em Peres (2013), considera-se que a distribuição dos demonstrativos em
português permite estabelecer uma correlação entre os demonstrativos, os pronomes
pessoais e advérbios locativos, com valor deíctico pessoal, local e temporal. Tal valor
que os distingue dos artigos (definidos e indefinidos), os quais não apresentam o valor
deítico.
A tabela21 que se apresenta a seguir em (vii) ilustra a descrição dos
demonstrativos e sua relação com os pronomes pessoais e advérbios locativos.
Tabela VII: Relação dos demonstrativos com pronomes pessoais e advérbios locativos
Pronomes pessoais Determinantes Advérbios locativos
demonstrativos
eu Este Aqui
Tu/você Esse Aí
Ele(a) Aquele Ali
Fonte: Peres (2013)
Nesta parte do seu trabalho, Peres sublinha que os pronomes pessoais, por
excelência, caraterizam a dêixis pessoal (ex.: eu estou aqui e agora).
A dêixis local, segundo Lima (2006:88), diz respeito à localização de uma entidade
em relação ao contexto em que a comunicação toma lugar. Para o autor referenciado,
aqui designa o local onde está o falante, aí designa um local perto do destinatário e ali
um local afastado do falante e do destinatário. Fazem parte ainda de dêixis local os
advérbios cá, lá e acolá. Igualmente, são também apontados por Lima os elementos da
dêixis local, os pronomes demonstrativos (este(a)-esse(a)-aquele(a), bem como isto-
isso-aquilo.
21
Extraído em Peres (2013:863)
71
O outro ponto importante observado pelo autor é que Peres (2013) considera
que os pronomes demonstrativos refletem a estrutura triádica eu-tu-ele(a), na medida
em que têm a função de auxiliar na referência a objetos que estejam, respetivamente,
próximos do falante (este(a)/isto), próximos do interlocutor (esse(a)/isso) ou afastados
de ambos (aquele(a)/aquilo).
Aponta-se, de igual modo, uma importante subclasse dentro dos deícticos locais
estabelecida por expressões como à frente, atrás, em/por cima, em/por baixo, à
esquerda, à direita. Esta subclasse, segundo Peres, estabelece um sistema de referência
dimensional. Ao contrário disto, destaca-se um outro sistema denominado de referência
posicional, o qual se estabelece pelo uso de aqui, ali, cá, lá. Estes advérbios, como se
discute em Peres, não têm a ver com a orientação percetiva.
Por outro lado, a dêixis temporal “tem a ver com aquelas expressões que
permitem a referência a momentos ou períodos de tempo em relação ao momento do
contexto da enunciação” (cf. Lima, 2006:90) (ex.: ele estava aqui agora). O advérbio
agora, do exemplo anterior, refere-se ao tempo em que toma lugar a enunciação. No
mesmo contexto, surgem outros referentes vagos a partir do advérbio agora: tanto se
pode referir a um breve momento, neste momento (ele está agora a falar na televisão)
como a um período de tempo muito extenso, no tempo atual, (agora que passamos para
o sistema digital tudo está facilitado que na era analógica).
Lima (2006) e Peres (2013) acrescentam outros tipos de dêixis, a considerar:
dêixis discursiva e dêixis social. A primeira “tem a ver com expressões que ocorrem num
enunciado (escrito ou oral) e que servem para a referência a outras expressões” (cf.
Lima, 2006:90), (ex.: No capítulo anterior, tratámos da pintura impressionista/ Essa
história é perfeitamente incrível). A dêixis discursiva também inclui os casos de
referência a fragmentos de discurso que ocorrem posteriormente (ex.: Importa-se
perceber só isto: o Pedro escolheu a Linguística como parte da sua vida).
Relativamente à dêixis social, ela também tem a ver com a referência pessoal,
em que esta, por sua vez, é estabelecida “através de expressões que sinalizam mais
familiaridade/proximidade ou mais distância entre os participantes na comunicação”
exs.: (a) não vais à faculdade hoje?; (b) o(a) senhor(a) não vai à faculdade hoje?). Os
72
exemplos acima ilustram o uso da tríade tu, você, o(a) senhor(a). O uso de tu mostra, de
alguma forma, um tratamento de proximidade, entre amigos, familiares ou colegas de
trabalho em posições próximas na hierarquia profissional (cf. (a)). Quanto ao uso da
forma de tratamento o(a) senhor(a) - implica geralmente maior distância e delicadeza
entre os interlocutores, entre outras formas de tratamento, que são dispensadas por
razões do foco da nossa pesquisa.
Em Nascimento e Lopes (2015:164), acrescenta-se também como
demonstrativos os seguintes elementos linguísticos: o mesmo, o outro e tal e suas
M
O
O
N
D
V
R
E
T
S
S
I
variáveis morfológicas.
Em síntese, a tabela seguinte em (viii) descreve algumas particularidades
(básicas) sintático-semânticas dos demonstrativos em PE.
Tabela VIII: algumas particularidades sintático-semânticas dos demonstrativos em PE
Subclasse dos tipologia Propriedades
determinantes
Este Não podem coocorrer com os artigos definidos.
(10) a. * Este o estudante não fez o teste de linguística geral.
b. *O este estudante não fez o teste de linguística geral.
c. Este /o estudante não fez o teste de linguística geral.
Podem ocorrer em contextos em que não são seguidos de nomes, em
construções de elipse nominal.
(11) Vou comprar estes/esses/aqueles.
Podem ter um valor anafórico, remetendo para o discurso anterior.
(12) Rinocerontes e tartarugas são espécies ameaçadas em
Moçambique. Aqueles encontram-se ainda na reserva nacional do
Niassa e estes no parque nacional de Gorongosa.
Podem ocupar a posição pré e pós-nominal. Esta última só é possível
em exclamativas e em relativas apositivas.
(13) a. estes/esses/aqueles alunos
73
b. que alunos estes!
c. os acidentes nas vias públicas estão cada vez mais a aumentar
nas grandes cidades. Facto este que preocupa as autoridades
moçambicanas.
São elementos centrais no sistema de dêixis espacial, permitindo que a
identificação do referente de um SN seja feita em função da sua
proximidade ou afastamento do falante e/ou ouvinte.
(14) a. Este poema aqui ao meu lado pertence ao escritor Mia
Couto. /* Este poema aqui ao lado dela pertence ao
escritor Mia Couto.
b. Esse poema aí ao seu lado pertence ao escritor Mia
Couto. /*Esse poema aí ao meu lado pertence ao
escritor Mia Couto.
c. Aquele poema ali ao lado dela pertence ao escritor
Mia Couto. /*Aquele poema ali ao meu dela pertence
ao escritor Mia Couto.
Tem um uso dêitico temporal quando especifica SNs cujo núcleo é um
nome que denota um intervalo de tempo.
(15) a. (N)esta semana não posso ir ao cinema.
b. Neste ano, prometo publicar o meu livro.
Pode ser usado para falar de uma classe ou de uma espécie em frases
do tipo caracterizador, ocorrendo no singular com nomes não
contáveis e no plural com nomes contáveis.
(16)22 a. Esta humanidade é impiedosa.
b. Estes jovens (de hoje) não ouvem conselhos.
Tem um valor enfático em contextos não relacionados com a dêixis
espacial.
22
Frases extraídas de Peres (2013:875)
74
(17) a. Aquele seu professor de literaturas publicou
novamente uma coletânea de contos infantis?
b. Sobre esse lanche, há convidados a mais?
Esse Não têm valor dêitico temporal.
(18) a. #Importas tu avaliar os alunos nesse momento?
Parece ser o mais usado com valor negativo.
(19)23 aquilo não é homem nem é nada; esse miserável não
devia sequer pôr os pés em tua casa ou isto… um
escritor? Até agora não escreveu nada de jeito!
Aquele (20) #Será que ela importa-se avaliar os estudantes naquele
momento?
Parece ser o mais usado com valor positivo.
(21)24 Aquilo é que um homem ou com aquela coragem que o
caracterizava, D. Afonso Henriques lançou-se ao assalto
da cidade.
Tem uso antecipatório, permito em contextos opacos nos quais o SN
tem uma leitura virtual, o que realça a sua natureza não dêitica neste
uso.
(22) a. Aqueles estudantes que reprovarem em exames de
admissão para a universidade serão excluídos da bolsa
de estudo.
Fonte: Lima (2006) e Peres (2013)
Na tabela em (viii), apresentam-se algumas particularidades (básicas) sintático-
semânticas dos demonstrativos em PE. Entretanto, em Nascimento e Lopes (2015:164)
23
Frase extraída em Peres (2013:876)
24
Frase extraída em Peres (2013:876)
75
acrescenta-se que os determinantes demonstrativos, não são, por norma, precedidos
de artigos. Excetuam-se: o mesmo, o outro e, em alguns casos, o tal. Os autores
referenciados dizem ainda que os demonstrativos, com exceção de tal, podem ocorrer
contraídos com preposições a, de, em, tal como mostram os exemplos seguintes em
(23).
(23) a + aquele = àquele (ex.: Entregue seu teste àquele professor.)
de + aquele = daquele (ex.: Este livro é daquele menino do 1º ciclo.)
em + aquele = naquele (ex.: Ela partiu a perna naquele fim de semana que fomos
passear ao campo.)
a + aquilo = àquilo (ex.: Não me refiro àquilo que aconteceu.)
de + isso = disso (ex.: Não gosto nada disso.)
em + este = neste (ex.: Eu moro neste apartamento.) [Nascimento e Lopes (2015:164)]
2.3.2 Determinantes possessivos
Os possessivos, tal como refere Miguel (1995:344), semanticamente, indicam a
pessoa gramatical como possuidor (cf. 24 a.). Morfologicamente, os possessivos
flexionam em pessoa e número (1ª, 2ª e 3ª pessoas do singular e do plural) (cf. 24 b.),
em género e número (masculino e feminino; singular e plural) (cf. 24 c.). Concordam em
pessoa e número com o objeto possuído (cf. 24 d.).
(24) a. Este é o meu livro. [de quem fala]
b. Ele comprou o meu livro /Ele comprou os meus livros.
c. A minha vizinha /O meu vizinho detesta cães pretos. As minhas vizinhas /Os
meus vizinhos detestam cães pretos.
d. Elas não gostaram das tuas brincadeiras.
Na tabela que se segue abaixo, em (ix), apresenta-se os possessivos e a sua
variação morfológica e a sua correspondência com as pessoas gramaticais (possuidor) e
objeto possuído.
76
Tabela IX: Variação morfológica dos possessivos e entidade possuidora
Os possessivos
Pessoa Singular Plural Entidade possuidora
gramatical
Masculino Feminino Masculino Feminino
Um só 1ª meu minha Meus minhas Locutor
possuidor
2ª Teu tua Teus tuas Interlocutor
3ª seu sua Seus suas Interlocutores
Vários 1ª nosso nossa Nossos nossas Interlocutores
possuidores
2ª vosso vossa Vossos vossas Interlocutores
3ª seu sua Seus suas Entidades de quem
se fala
Fonte: Miguel (1995:344)
Através desta tabela, podemos constatar a variação morfológica dos possessivos
bem como a descrição da entidade possuidora correspondente.
Morfologicamente, os possessivos flexionam em pessoa, em número e em
género, criando deste modo uma concordância entre a pessoa gramatical e número com
o objeto possuído.
Para além da proposta acima apresentada sobre os possessivos, Nascimento e
Lopes (2015:166) oferecem-nos algumas observações sobre a forma, segundo as quais
«as formas do possessivo seu, sua, seus e suas podem ser duplamente ambíguas – por
remeterem, igualmente, para um possuidor da 3ª pessoa, tanto do singular como do
plural, e também por não distinguirem o género do possuidor (se masculino, se
feminino)». Isto acontece porque em português o possessivo concorda com o possuído
e não com o possuidor, ao contrário do inglês, por exemplo.
Atente-se ao exemplo abaixo, apresentado em (25).
(25) A Maria foi visitar os pais e falou dos seus problemas económicos.
77
[Nascimento e Lopes (2015:166)]
Em (25), na esteira de Nascimento e Lopes (2015), os seus problemas pode estar
relacionado com os problemas da Maria, dos pais da Maria ou dos dois: Maria e os pais
dela. Nesse contexto, os autores chamam atenção à possibilidade de desfazer tal
ambiguidade com recurso ao uso das formas dele(s), dela(s) ou pela expressões de
tratamento, tais como do “senhor”, da “senhora”, em substituição das formas seu(s) e
sua(s), como se pode confrontar alguns exemplos seguintes, em (26).
(26) a. A Maria foi visitar os pais e falou dos problemas económicos dela.
b. A Maria foi visitar os pais e falou dos problemas económicos deles dois.
c. A Maria foi visitar os pais e falou dos problemas económicos deles e dela.
[Nascimento e Lopes (2015:166)]
Em línguas como o Português, existem diferentes possibilidades de expressar o
valor linguístico de posse, dentre elas:
(i) em Sintagmas Nominais mediante o emprego de possessivos (exs.: seu caderno; tua
casa, …);
(ii) frases prepositivas com valor genitivo (ex.: o livro do Luís; a casa da Maria, …);
(iii) através de pronomes relativos possessivos (ex.: Luís, cujo Doutoramento terminou
há dias, mereceu um prémio).
Também podemos considerar que os possessivos (meu(s), teu(s), seu(s) e
nosso(s)) caraterizam dêixis pessoal, na medida em que são explicáveis em termos do
uso do eu, tu, ele(a), nós, etc. (Lima, 2006:87). A sua função é precisamente contribuir
para a referência a entidades de algum modo relacionadas com as pessoas designáveis
por eu, tu, ele(a), nós, etc.
Por sua vez, Vilela (1992) identifica alguns verbos com relação de posse,
nomeadamente (i) verbos com significado puramente genérico tais como receber, dar,
ter etc. em que apenas o contexto permite distinguir qual o tipo de posse implicado; (ii)
verbos com significado tão explícito quanto o tipo de posse como, por exemplo,
78
emprestar, vender etc., que definem não só a relação de posse como a própria direção
da mudança de posse.
Na Gramática de usos do português (2000), Neves define o conceito de posse em
duas subcategorizações: a posse alienável e a posse inalienável. A primeira é relacionada
a alguém que possui alguma coisa, ou a posse imaginária de algo, mas essa posse não é
definitiva, logo, pode passar a outra pessoa, como é o caso de um bem material ou algo
mais abstrato, como um emprego. A posse inalienável, por outro lado, relaciona-se com
a impossibilidade de transferência da coisa possuída a outro possuidor, sendo, portanto,
uma posse intrínseca, a exemplo das relações de parentesco e partes do corpo.
Em suma, descrevem-se na tabela seguinte em (x) algumas particularidades
O
O
V
P
E
S
S
S
S
S
I
(básicas) sintático-semânticas dos possessivos em PE.
Tabela X: Algumas particularidades (básicas) sintático-semânticas dos possessivos em PE
Subclasse dos Propriedades
determinantes
Exprimem valores temáticos e de determinação.
(27) minhas vizinhas sofrem de violência doméstica.
Têm marcas de género e número.
(28) a. Minha vizinha sofre de violência doméstica.
b. Minhas vizinhas sofrem de violência doméstica.
Em contextos definidos, o possessivo é obrigatoriamente precedido por outro
determinante, que pode ser artigo definido ou o demonstrativo e alguns tipos de
quantificadores.
(29) a. São as nossas vizinhas violentadas.
b. Essas suas atitudes não se simpatizam com os vizinhos.
c. Todas as nossas vizinhas lamentam pelo sucedido.
Em contextos indefinidos, o possessivo ocorre em posição pós-nominal.
79
(30) Amigos meus já me falaram disso. (Amigos “meus” = alguns amigos
meus (número indeterminado)
Os possessivos seguem o N em diversos contextos:
(i) quando o N não é antecedido de artigo ou se ocorrer com indefinido ou
certos Qs “relativos”:
(31) a. as minhas palavras valem tanto como as tuas.
b. levou consigo aí uns/ alguns/ vários/ bastantes /poucos / diversos
presentes meus.
(ii) quando o N é antecedido de um quantificador interrogativo ou
exclamativo:
(32) a. tem aí quantos presentes meus?
b. que voz sua tão romântica!
(iii) ocorrem em certos enunciados do tipo exortativos:
(33) a. geração nossa não dependerá disso!
(iv) quando o N é antecedido de cardinal, é preferível a posição pós-
nominal do possessivo:
(34) a. vi três colegas meus.
b. # vi três meus colegas.
(v) do ponto de vista distribucional os possessivos não só coocorrem com
artigos e demonstrativos (Art/ Dem+Poss+N) como coocorrem com
quantificadores:
(35) a. as tuas duas últimas publicações.
b. as tuas últimas duas publicações.
c. as minhas muitas/numerosas/várias publicações.
d. os meus outros professores/ os outros meus professores.
Fonte: Miguel (1995:344)
80
Do ponto de vista distribucional, a tabela (x) mostra que os possessivos não só
coocorrem com artigos e demonstrativos (Art/ Dem+Poss+N) como também com
quantificadores (exs.: “as tuas duas últimas publicações” / “as tuas últimas duas
publicações” / “as minhas muitas/numerosas/várias publicações” / “os meus outros
professores/ os outros meus professores”.
Raposo (2013:906-907) mostra que, em português, os pronomes possessivos
podem ter outros valores semânticos, enquanto complementos do nome, como se pode
confrontar nos exemplos a seguir em (36).
(36) a. O seu livro fez muito sucesso.
b. A sua prisão não era esperada.
c. Eles vieram na minha direção.
d. Não se esperava a sua saída do clube a uma hora tao tardia.
[Raposo (2013:906)]
Para Raposo (2013), nos exemplos em (36), os possessivos, apresentam valores
semânticos distintos: em (36 a.), nota-se o papel temático de agente; em (36 b.), regista-
se o papel semântico de paciente; No exemplo em (36 c.), está presente a função
semântica de meta, e em (36 d.), observa-se o papel temático de tema.
Acrescenta-se ainda que, os possessivos quando tomando como referência os
participantes no discurso, para além de possuidores de algo - valor deítico (ex.: tu provas
o meu gelado e eu o teu chocolate), os identifica também como possuidores já
referenciados no discurso – valor anafórico (ex.: “No alto da duna o Búzio estava com a
tarde. O sol pousava nas suas mãos, o sol pousava na sua cara e nos seus ombros25”.
No exemplo referenciado, diz-se que suas, sua, seu, só são corretamente
interpretados se correlacionados com o seu antecedente “Búzio”.
25
Sophia de Mello Breyner Andresen, In Contos Exemplares.
81
No Dicionário Terminológico (2011) partilha-se a ideia de que os possessivos em
português nem sempre indicam posse, como se ilustra nos exemplos a seguir em (37),
(38), (39) e (40).
(37) Não faça isso, minha filha.
(38) Ele já deve ter seus 40 anos.
(39) Marisa tem lá seus defeitos, mas eu gosto muito dela.
(40) Os nossos dias são escuros e luminosos; há crise, mas também há esperança.
Segundo o Dicionário Terminológico, em (37), o emprego do possessivo em não
faça isso, minha filha indica afetividade.
No exemplo em (38), a construção frásica ele já deve ter seus 40 anos indica
cálculo aproximado referente a uma faixa etária (ou idade).
Em (39), a frase Marisa tem lá seus defeitos, mas eu gosto muito dela atribui
valor indefinido ao nome. O exemplo apresentado em (40) expressa uma rotina ou
continuidade de algo. (Nascimento e Lopes, 2015:166).
2.3.3 Determinantes artigos (definidos e indefinidos)
[Link] Notas prévias
Em muitas línguas, a questão dos artigos definidos e indefinidos tem sido alvo do
interesse de alguns linguistas que analisam a diversidade desta subclasse dos
determinantes, evidenciando especificidades de interpretação semântica em diferentes
contextos sintáticos.
Algumas das especificidades linguísticas têm a ver com o fato de algumas línguas,
em particular, apresentarem os artigos tal como é o caso, por exemplo, das línguas
românicas (espanhol, italiano, francês, português, …) e as germânicas (inglês, o alemão,
…) e outas não, a exemplo das línguas eslavas (o russo, checo, polaco…).
Oliveira (2006), no seu trabalho sobre artigos em PE e em PM, considera que há
várias línguas que não apresentam artigos de forma explícita como é o caso das línguas
bantu e de muitas outras não relacionadas com estas, como a maioria das línguas
eslavas: russo, checo, polaco, croata, eslovaco... O Chinês, por exemplo, não apresenta
82
artigos e recorre a um sistema de classificadores, antepostos ao nome, para poder usar
nomes comuns e proceder à sua contagem.
Nas línguas românicas e germânicas, embora apresentando artigos, Oliveira
(2006) chama atenção ao facto de que “nem em todas as construções os apresentam
explicitamente, quer se considere que se trata de um Determinante nulo ou não”. Essas
diferenças, tal como refere a autora, estão ainda relacionadas com o contraste entre
massivos e contáveis e entre plural e singular destes últimos, embora não nos
concentramos no cruzamento deste estudo com as línguas germânicas.
Chierchia (1998b) refere que as línguas românicas têm artigos, mas muito
provavelmente apresentam diferenças entre si, isto é, embora não permitindo
argumentos nus, o Italiano, e possivelmente o Espanhol, parecem ter um determinante
zero enquanto o Francês não. Chierchia considera ainda que as línguas mencionadas se
distinguem de algumas línguas germânicas, em particular o Inglês, por estas permitirem
argumentos nus, o que parece acontecer também com as línguas eslavas.
Nesse contexto, Paraguassu e Müller (2006) consideram que «a maioria das
línguas germânicas e românicas permite a ocorrência do plural nu (PN), mas não permite
a ocorrência do singular nu (SgN)». A autora mostra alguns exemplos contrastivos do
inglês (cf. (41)) e do espanhol (cf. (42)), em que ocorre um nome massivo no singular e
no plural.
(41) a. John bought potatoes / ‘John comprou batatas’
b. *John bought potato /‘John comprou batata’.
(42) a. Juan compró patatas/ ‘Juan comprou batatas’
b. *Juan compró patata/ ‘Juan comprou batata’
[Paraguassu e Müller (2006)]
Os exemplos apresentados em (41) e (42), mostram alguma particularidade em
comum entre o inglês e o espanhol, especificamente no que concerne à aceitação de
realização de um nome recategorizado nu (NP), (cf. (41) (a.)) e (cf. (42) (a.)).
Igualmente, porém, nota-se que os exemplos em (41) (b.) e (42) (b.) não
permitem a ocorrência de um nome massivo no singular nu (SgN). Em contrapartida o
83
PB, apresenta uma realidade diferente de outras línguas românicas, incluindo o PE no
que refere à ausência dos artigos definidos e indefinidos. Nesta variedade, segundo
Müller (2006), adimte-se a realização tanto o SgN como o NPs, como mostram os
exemplos abaixo, em (43).
(43) a. Comprei sapato.
b. Comprei sapatos. [Müller (2006)]
Embora a ausência do artigo definido no PB admita tais particularidades em vista
em (43), existem ainda outros contextos sintáticos interessantes em que a realização ou
não do artigo de determinantes implica diferentes interpretações semânticas, como
veremos nas secções subsequentes deste capítulo, especificamente numa perspetiva
comparativa entre o PB o PE.
[Link] Artigos definidos
Nesta secção, direciona-se a nossa abordagem para os contextos sintático-
semânticos de artigos definidos em português, a fim de apresentar um quadro descritivo
sobre as propriedades incorporadas por esta classe de palavras.
As Gramáticas de língua portuguesa, partilham a ideia de que os artigos definidos
O
O
N
G
D
A
R
E
T
S
I
para o PE apresentam uma variação morfológica: em número e em género (o/a/os/as).
Outra particularidade interessante sobre os artigos definidos em português é referente
à sua realização e/ou ausência com os nomes próprios (antropónimos e topónimos) e
comuns (contáveis, não contáveis e recategorizados) em diferentes posições sintáticas
(ex.: SN-Sujeito; SN-Objeto Direto; SN-Objeto Indireto; SN-complemento do Sintagma
Preposicional e SN- Predicativo de Sujeito).
Oliveira (2013, 2017, 2018), Duarte e Oliveira (2003), Brito (2003), Peres (2013),
Leal (2009), Miguel e Raposo (2013), entre outros, descrevem algumas propriedades
sintático-semânticas dos artigos definidos para o PE, que se apresentam na tabela que
segue abaixo em (xi).
Tabela XI: Algumas propriedades sintático-semânticas dos artigos definidos
(i) Propriedades básicas
84
- Podem ter um valor referencial.
(44) O professor viajou a Maputo.
- Pressupõem a condição de existência no universo do discurso.
(45) Onde está o gato?
- Permitem fazer referência à única entidade existente que está de
acordo com a descrição do SN.
(46) Li o poema (que me recomendaste). Achei-o muito interessante.
(único poema – unicidade)
- Podem surgir pospostos a ambos ou todos.
(47) O Pedro comprou todos os presentes.
(47’) O Pedro comprou ambos os presentes.
- Podem ocorrer em construções de elipse se forem seguidos de um
complemento, um modificador adjetival ou uma oração relativa.
(48) a. O Luís leu a gramática de Língua Portuguesa, a Maria leu a de
línguas
bantu.
b. A Maria leu a que tem estruturas sintáticas.
c. A Maria leu a descritiva.
(ii) Propriedades (contextos)
- Podem, em certos contextos, introduzir entidades novas no discurso.
(49) O palestrante vai falar sobre a terceira guerra mundial.
- Podem ocorrer em contextos de uso anafórico.
(50) Mia Couto publicou recentemente um livro. O escritor tem
provocado muita polémica.
85
- Podem ocorrer em contextos de uso dêitico.
(51) Passa-me o comando do ar condicionado.
- Podem ocorrer em contextos de usos baseados em diversos tipos de
conhecimentos.
(52) a. Deixe a sua mensagem depois de ouvir o sinal.
b. Daqui até à (a+a) rotunda são uns 10 minutos.
- Podem preceder nomes próprios.
(53): Encontrei o Luís.
Fonte: Oliveira (2013, 2017, 2018), Duarte e Oliveira (2003), Brito (2003)
Esta tabela descreve algumas propriedades sintático-semânticas dos artigos
definidos para o PE.
Semanticamente, observa-se que os artigos definidos podem ter um valor
referencial; pressupõem a condição de existência no universo do discurso; permitem
fazer referência à única entidade existente (unicidade) que está de acordo com a
descrição do SN.
No que se refere ao valor referencial, Oliveira (2013, 2017, 2018) considera que
«os artigos definidos estão tipicamente associados a expressões referenciais26». Peres
(2013) mostra que o valor referencial é característico dos nomes próprios27 (ex.:
Moçambique, Pedro, Porto, Maputo, Maria, …); sintagmas nominais (determinados)
definidos (ex.: o caderno, o livro, a gramática que lhe emprestei, este livro, aquele
manual, o meu caderno verde, os meus poemas, …) e os sintagmas nominais
(determinados) indefinidos (ex.: comprei um outro livro de Mia Couto) etc.
26
Esta característica distingue-o do indefinido. (cf. Oliveira (2017 e 2018)).
27
Distingue-se de predicado, que é o que carateriza os nomes comuns, uma vez que em línguas como o
português e outras, os nomes comuns não são em si referenciais, necessitando de determinantes (artigos,
demonstrativos ou possessivos, em geral) para o serem referenciais.
86
No entanto, o autor chama a atenção para certos casos em que «nem sempre se
usa o definido para fazer referência a entidades que já estão no universo do discurso
(acessíveis diretamente ou mencionadas no discurso)», sendo, porém, possível usar o
definido para introduzir entidades novas. Em (54) e (55), apresentam-se alguns
exemplos que provam isso.
(54) O conferencista vai falar sobre a terceira guerra mundial.
(55) Cuidado com o degrau.
Em (54) e (55), observa-se que a realização do artigo definido nos SNs
sublinhados, nomeadamente a terceira guerra mundial e o degrau, não satisfazem as
condições de referência a entidades conhecidas no universo do discurso, introduzindo
entidades novas.
Na mesma tabela em (xi), podemos observar que uma das propriedades
semânticas do artigo definido é o valor de unicidade – o qual permitir fazer referência à
única entidade existente que está de acordo com a descrição do SN (ex.: Li o poema –
único poema).
Ainda na tabela em (xi), igualmente, observamos outras propriedades
semânticas em que os artigos definidos estendem-se por outros contextos de realização,
em que os mesmos podem, em certos contextos, introduzir entidades novas no discurso
(cf. (49)); realizar-se em contextos de uso anafórico (cf. (50)); podem ocorrer em
contextos de uso dêitico (cf. (51)) e podem ocorrer em contextos de usos baseados em
diversos tipos de conhecimentos (cf. (52)).
Relativamente ao contexto sintático, como se pode observar na tabela (xi), os
artigos definidos podem surgir pospostos a ambos ou todos (cf. (47) e (47’)); podem
ocorrer em construções de elipse se forem seguidos de um complemento (cf. (48) (a)),
um modificador adjetival (cf. (48) (b)) ou uma oração relativa (cf. (48) (c)) e podem
preceder nomes próprios (ex. O Pedro é um estudante de linguística.).
Leal (2009) faz uma análise semântica aspectual e nominal das expressões
nominais para o PE, mostrando que o artigo definido quando usado no singular
semanticamente «estabelece tipicamente uma correspondência entre a expressão
87
linguística em que ocorre e um único objeto (designada por ‘operação de
definitização’)». Esta abordagem é também partilhada em Leonetti, (1999a; 1999b), ao
considerar que, a noção de definitude «está intrinsecamente ligada ao princípio de
unicidade» Veja-se o exemplo seguinte em (52).
(52) Li o poema (que me recomendaste). Achei-o muito interessante.
No exemplo em (52), Leal considera que se refere ao único poema (unicidade). Desta
feita, para se referir a uma entidade determinada, um SN definido necessita de um
compromisso existencial (deve haver uma entidade que corresponda à descrição
fornecida pelo SN definido) e de um requisito de unicidade, ou seja, deve haver apenas
uma entidade com tais características (cf. e.g. Russell, 1905; Reichenbach, 1947).
Note-se ainda que o artigo definido quando usado no plural, refere-se à
totalidade das entidades envolvidas no contexto linguístico de enunciação, isto é, o
“único conjunto que pode ser identificado de uma forma não equívoca” (cf. Leal,
2009:149). Veja-se o exemplo abaixo, em (56).
(56) Li os poemas (que me recomendaste). Achei-os muito interessantes.
[Leal (2009:149)]
Em (56), trata-se de um conjunto de poemas, em particular, que pressupõe que
no mundo real existe uma entidade denotada pelo SN, os poemas.
Nesse contexto, Oliveira (2017 e 2018) mostra ainda que há possíveis contra
exemplos ao requisito de unicidade, tal como se ilustra a seguir em (57) e (58).
(57) A Maria pôs a mão em cima da mesa.
(58) A Maria estava à (a+a) janela. [Oliveira (2017 e 2018)]
Para Oliveira, nos casos observados em (57) e (58), a identificação do referente
de forma precisa é irrelevante. A situação é relevante.
Acrescenta-se ainda que, há casos em que o que é relevante é a proeminência
discursiva do referente («leia X, o semanário da atualidade»).
88
Para além das propriedades semânticas apresentadas na tabela em (xi), Oliveira
acrescenta igualmente outros valores associados ao uso dos artigos definidos, para o PE,
nomeadamente:
(i) definido fraco (singular);
(ii) termo de espécie (frases genéricas) (singular e plural).
(i) Definido fraco (singular)
Segundo Oliveira (2018), “os definidos fracos não apresentam unicidade nem
informação conhecida”. Os exemplos que se apresentam abaixo, em (59), (60), (61),
(62), (63), (64), (65) e (66) apresentam algumas particularidades semânticas referentes
ao uso dos definidos fracos.
(59) A Maria apanhou o comboio de Lisboa para o Porto.
(60) O João foi para o hospital e a Rita também.
[Oliveira (2017 e 2018)]
Em Oliveira explica-se que nos exemplos apresentados em (59) e (60) permite-
se a leitura fraca (não referencial) de identidade não-unívoca ou ‘imprecisa’ (‘sloppy’).
(61) Todas as vítimas foram para o hospital.
[Oliveira (2017 e 2018)]
Relativamente ao exemplo em (61), o hospital tem interpretação de escopo
estreito.
(62) a. A Maria leu o jornal.
b. A Maria leu #o livro. [Oliveira (2017 e 2018)]
(63) a. A Maria leu o jornal.
b. A Maria rasgou #o jornal.
[Oliveira (2017 e 2018)]
Em (62) e (63), verificam-se algumas restrições lexicais, nomeadamente o facto
de não se admitir todos os nomes ou verbos em algumas construções com definidos
fracos.
(64) a. A criança foi para o #hospital antigo.
b. A criança foi para o hospital pediátrico.
[Oliveira (2017 e 2018)]
89
No exemplo ilustrado em (64), nota-se que nem todos os modificadores
permitem a leitura de definido fraco.
(65) O jornal foi vendido. [Oliveira (2017 e 2018)]
Em (65), observa-se que os definidos fracos ocorrem em geral na posição
sintática de objeto de verbos ou preposições; em posição de SU passam a definidos
‘normais’:
(66) A Maria foi à farmácia, mas não #a encontrou.
[Oliveira (2017 e 2018)]
O exemplo em (66) mostra que os definidos fracos não podem ser antecedentes
de expressões anafóricas.
(ii) Termo de espécie (frases genéricas) (singular e plural).
Oliveira (2017 e 2018) analisa sobretudo a semântica dos artigos definidos e indefinidos
e defende que uma das características desta subclasse dos determinantes é o facto de:
a) o artigo definido (singular e plural) poder ocorrer associado a termos de espécie, em
particular na posição de Sujeito (cf. (67));
(67) a. Os pandas estão em vias de extinção.
b. O panda está em vias de extinção.
b) o artigo definido apenas no singular poder ocorrer associado a termo de espécie, em
particular na posição de Sujeito com nomes não contáveis (cf. (68));
(68) O ouro é um metal.
c) o artigo definido apenas no singular poder ocorrer associado a termo de espécie, em
posição de OD, se o predicado for de espécie (cf. (69)).
(69) Edison inventou o telégrafo.
[Link] Artigos indefinidos
Numa perspetiva gramatical, os artigos indefinido e definido apresentam em
comum a possibilidade de se anteporem ao nome e morfologicamente variam em
número e em género: definidos (o/a), (os/as) e indefinidos (um(a), uns/umas).
90
Apesar da partilha das caraterísticas mencionadas, os artigos indefinidos diferem
dos definidos no que se refere aos contextos básicos de realização. Os artigos definidos
podem preceder nomes próprios (ex.: O Luís é um empresário.) e os indefinidos não
gozam desta característica: (ex.: *um Luís é um empresário.). Os definidos podem surgir
pospostos a ambos ou todos (ex.: O João comprou todos os brinquedos/ O João comprou
ambos os brinquedos) e os indefinidos estão desprovidos dessa possibilidade (ex.: *O
João comprou todos uns brinquedos/ *O João comprou ambos uns brinquedos).
Semanticamente, os artigos definidos, conforme dissemos na secção anterior,
gozam de ʻdefinitudeʼ em oposição aos indefinidos, os quais são identificados com a sua
natureza de indefinitude.
Uma outra propriedade distintiva tem a ver com o facto de os artigos definidos,
geralmente, apresentarem um valor referencial e os artigos indefinidos caraterizarem-
se pela ausência de indicações para a localização do referente, existindo apenas um
conteúdo quantificacional, que consiste em extrair um elemento pertencente ao
conjunto denotado. Considere-se o exemplo seguinte em (70) e (71).
(70) Estava uma criança à porta da faculdade.
No exemplo em (70), a entidade uma criança é designada de forma imprecisa e
indeterminada; pelo que não satisfaz a indicações para a localização do referente, ou
seja, trata-se de qualquer uma das crianças.
(71) Estava a criança à porta da faculdade.
Em (71), entende-se a criança, faz referência a uma entidade localizável no
espaço e tempo, sendo do conhecimento dos interlocutores.
Leal (2009:156) descreve propriedades que tradicionalmente se atribuem ao
artigo indefinido, mas que não são de facto propriedades do artigo, mas sim
consequências deste traço básico de indefinitude, que se apresentam na tabela seguinte
em (xii).
91
Tabela XII: Propriedades semânticas dos indefinidos
Propriedades semânticas
As expressões nominais com artigo indefinido têm a
capacidade de introduzir referentes novos no discurso;
As expressões nominais com artigo indefinido não têm
interpretações anafóricas;
As expressões nominais com artigo indefinido não têm
capacidade de denotar a totalidade da classe de objetos
ARTIGO(S) INDEFINIDO(S)
em questão;
As expressões nominais com artigo indefinido são sensíveis
à presença de certos operadores, como adverbiais de
quantificação ou condicionais, no mesmo contexto
sintático;
Não satisfazem necessariamente as condições de
unicidade e de identificação;
Ausência de indicações para localizar o referente;
Não transmitem nenhuma instrução no sentido de
recuperar os dados necessários para estabelecer uma
representação do referente;
Não indicam a totalidade da classe de objetos denotada;
Contribuem unicamente com um conteúdo de
quantificação: a interpretação do sintagma de que faz
parte reduz-se a extrair um elemento pertencente ao
conjunto denotado (Um livro de linguística: um elemento
da classe dos livros de linguística).
Fonte: Oliveira (2013, 2017, 2018), Peres (2013), Duarte e Oliveira (2003).
92
Nesta tabela, podemos observar as propriedades semânticas dos indefinidos.
Geralmente, os indefinidos são caraterizados por indefinitude e permitem apenas a
asserção da existência do referente.
Relativamente ao contexto, o artigo indefinido não atribui, em geral, um valor
referencial à expressão nominal.
Além das propriedades apresentadas na tabela em (xii), Leal analisa algumas
particularidades do plural do artigo “uns” e outras formas de quantificação.
Assim, segundo Leal (2009:157), do ponto de vista semântico, o artigo indefinido
plural apresenta algumas semelhanças quer com o quantificador existencial “alguns”,
quer com os meros plurais. Considerem-se exemplos abaixo em (72) e (73).
(72) Comprei {uns iogurtes / alguns iogurtes / iogurtes} no supermercado.
(73) a. Esta turma tem 20 alunos. Alguns deles tiveram nível 5.
b. Esta turma tem 20 alunos. * Uns deles tiveram nível 5. [Leal (2009:157)]
No exemplo em (78), Leal explica que qualquer uma das formas possíveis do
objeto direto procede à extração de um número de entidades que são iogurtes do
conjunto base. Para o autor, há, contudo, diferenças a apontar. Por exemplo, “uns”, ao
contrário de “alguns”, não pode ocorrer em construções partitivas, que requerem uma
interpretação específica dos indefinidos.
Leal estabelece ainda uma outra distinção entre “uns” e “alguns”, que está na
origem de orações consecutivas. Desta forma, conforme sugere o autor, “uns”, tal como
outros elementos, licencia estruturas consecutivas, mas isso não acontece com
“alguns”. Tais casos podem ser observados nas frases seguintes em (74).
(74) a. Levou {uns/tais/tantos} sopapos que nunca mais apareceu no tasco!
b. * Levou alguns sopapos que nunca mais apareceu no tasco! [Leal (2009:158)]
[Link].1 Leituras das expressões nominais indefinidas
As expressões nominais indefinidas, segundo Oliveira (2013, 2017, 2018),
caracterizam-se geralmente por uma leitura não específica. Mas, como se pode notar
93
no quadro (xiii), estão apenas contextos em que o indefinido é não específico. Essa é a
sua caraterística fundamental. O que é excecional é poder ser específico.
A autora considera que, na leitura não específica, não é estabelecido qualquer
referente a partir do discurso. Assim, ao contrário da leitura específica, na leitura não
especifica não é considerada nenhuma parte singular ou plural não identificada nem
determinada. O falante não pretende referir-se a uma entidade determinada.
A tabela que segue em (xiii) mostra contextos que favorecem a leitura não
específica.
Tabela XIII28: Contextos que favorecem a leitura não específica
Contextos semânticos
- Interrogação;
(75) Quem me empresta um lápis?
- Futuro e condicional e por vezes também o imperfeito;
Leitura não específica
(76) Compraria/comprava uma bicicleta nova, se tivesse dinheiro.
- Imperativo;
(77) Compra-lhe uma bicicleta nova.
- Modo conjuntivo (ou qualquer marca gramatical que indique que a
situação não factual (ou real));
(78) Mesmo que compres uma bicicleta nova, vais precisar de
instrução para a condução.
- Construções condicionais;
(79) Se comprares uma bicicleta nova, diz-me.
- Frases genéricas caracterizadoras;
(80) Faz bem à saúde uma caminhada às primeiras horas do dia.
28
Baseado em Oliveira (2013 e 2018)
94
- Advérbios de possibilidade como talvez;
(81) Talvez compre uma bicicleta nova.
- Verbos modais;
(82) Deve chegar um presente pelo correio.
- Negação;
(83) A maquinaria não tem um engenheiro que opere a locomotiva.
- Predicados intensionais
(84) a. O Luís procura um emprego em Maputo.
b. A Maria acha que uma vizinha a inveja.
Fonte: Oliveira (2013 e 2018)
2.4 O tratamento dos artigos definidos no PB
O tratamento dos artigos definidos no PB apresenta algumas particularidades
que as difere das do PE. Nesta variedade do Português existem vários estudos sobre o
comportamento dos artigos definidos em nomes comuns e próprios que mostram
algumas especificidades que as distinguem as do PE, tal como são os trabalhos de Müller
(2001) que descreve alguns aspetos sobre A Expressão da Genericidade no Português Do
Brasil, Müller e Oliveira (2004) que trazem abordagens sobre Bare Nominals and
Number in Brazilian and European Portuguese, Paraguassu e Müller (2006) que fala
sobre Distinção Contável-Massivo Nas Línguas Naturais, Sedrins (2017) apresenta uma
discussão sobre Contextos sintáticos de realização dos Nomes próprios e artigos
definidos no Português Brasileiro, Castro (2006) desenvolve seu trabalho com o foco
sobre Possessivos e artigo definido expletivo em PE e PB, Santana e Grolla (2018), entre
outros.
Desses trabalhos, partilha-se em unanimidade a ideia de que, no PB admite-se a
realização de nomes simples (ou nus) não só plurais, como singulares, constituindo este
último caso uma exceção do PB em relação a outras línguas românicas e outras,
incluindo o PE.
95
1. Müller e Oliveira (2004)
Em estudo sobre Nominals and Number in Brazilian and European Portuguese,
Müller e Oliveira (2004) estudam questões de semântica nominal, com o foco em nomes
nus (BNs) no PB e no PE e suas restrições relacionadas à sua ocorrência e interpretação
nessas duas variedades do português.
As autoras observam que as línguas românicas e germânicas permitem plurais
nus (ou simples) em posições argumentais com interpretação genérica e existencial,
embora sua ocorrência nas línguas românicas seja mais restrita, como também se refere
na proposta de Chierchia (1998) e de Longobardi (2001).
Nesse contexto, as autoras identificam, no PE E PB, algumas diferenças no que
diz respeito à distribuição e interpretação de valores nominais dos sintagmas simples.
Desta feita, o PE, à semelhança das línguas românicas, não permite singulares simples e
apenas plurais simples em posições específicas que permitem tal realização. O PB, por
sua vez, permite, em particular a realização quer dos nomes singulares nus quer
igualmente os plurais nus.
Nesse contexto, as autoras buscam exemplos das línguas românicas (o português
e o italiano) e germânicas (o inglês) que permitam uma análise comparativa no que se
refere à realização dos BNs, baseando-se nas propostas de Chierchia (1998), Longobardi
(2000), entre outros.
Em Chierchia (1998) considera-se que as denotações de singulares simples (Ns)
e plurais simples (NPs) podem variar de uma língua para outra. Em algumas línguas, Ns
e NPs serão argumentais e denotam entidades, p.e., tipos dos nomes comuns. Em outras
línguas, Ns e NPs correspondem a predicados e denotam propriedades.
A proposta de Chierchia, desta feita, opõe-se à visão tradicional de que Ns e NPs
constituem em geral predicados, observados como conjuntos de átomos na lógica de
predicados, conforme referem as autoras.
96
Em análise semântica dos BNs entre o PE, PB, italiano e o inglês, Müller e Oliveira
(2004) estabelecem as propriedades seguintes na tabela abaixo, em (xiv), referentes ao
comportamento desses nomes.
Tabela XIV: Comportamento dos BNs entre o PE, PB, italiano e o inglês
The behaviour of Bare Nouns
Kind-denoting Need for licensing
English Yes No
Italian No Yes
Bare Plurals in EP No Yes
Bare Plurals in BP ?No No
Bare Singulars in BP No No
Fonte: Müller e Oliveira (2004:24)
Na tabla em (xiv) apresenta-se o comportamento dos BNs em PE, PB, italiano e
inglês. Nesta tabela, podemos notar que as línguas românicas (o português e o italiano)
possuem propriedades semelhantes no que se refere ao comportamento dos BNs. O PB,
apesar de ser uma variedade de Português, distingue-se do PE, conforme veremos no
parágrafo seguinte. O PB, por sua vez, encontra semelhança ao inglês, em alguns
contextos, visto que as duas línguas não necessitam de licenciamento com plurais
simples (ou nus).
Müller e Oliveira (2004) apontam as seguintes diferenças relativamente aos BNs
no PE e no PB:
(i) O PE possui distinção entre nomes contáveis e massivos (Cf. 84) e morfologia plural
para os nomes contáveis (Cf. 86):
(85) a. A Maria comprou *um ouro/*dois ouros.
(86) a. A Maria comprou um carro/dois carros. [Müller e Oliveira (2004:16)]
(ii) O PE não permite singulares simples (Cf. 87):
97
(87) *Carro foi roubado.
(iii) No PE, os plurais simples não ocorrem livremente como argumentos; dado que não
são gramaticais na posição de sujeito dos predicados episódicos (88), habituais (89), de
indivíduo (90) e de espécie (91).
(88) a. ?/*Amigos partiram ontem.
(89) a. ?/*Professores trabalham muito. [Müller e Oliveira (2004:16)]
(90) a.*Elefantes são inteligentes.
(91) a. *Elefantes estão extintos. [Müller e Oliveira (2004:16)]
(iv) No PE, em posição de OD, os plurais nus são gramaticais em todos os contextos (Cf.
(92) - (94)), embora exista uma leitura indefinida. Nesse contexto, p.e., a frase em (95)
“não pode significar que os americanos inventaram transistores. Pode significar que eles
descobriram diferentes (tipos de) transístores” (Müller e Oliveira (2004:17).29
(92) a. A Maria compra livros todos os dias.
(93) a. A Maria comprou livros ontem.
(94) a. A Maria lê livros.
(95) a. #Os americanos inventaram transistores. [Müller e Oliveira (2004:17)]
(v) Para o PB, em oposição ao PE e italiano, plurais simples podem ocorrer quase
livremente como argumentos. Os plurais simples são gramaticais essencialmente na
posição de sujeito dos predicados episódicos (Cf. 96), habituais (Cf. 97), de indivíduo (98)
e de espécie (99) com ou sem modificação.
(96) a. Amigos partiram ontem.
(97) a. Professores trabalham muito.
(98) a. Elefantes são inteligentes.
(99) a. Elefantes estão extintos. [Müller e Oliveira (2004:19-20)]
(vi) No PB, plurais simples podem ter uma interpretação existencial (Cf. 96) e universal
(Cf. 97) - (Cf. 99)).
29
Tradução nossa.
98
(vii) No PB, os plurais nus exibem uma leitura preferencial na língua falada coloquial:
uma leitura taxonómica (Cf. 100-103).
(100) a. A Maria compra livros todo dia.
(101) a. A Maria comprou livros ontem.
(102) a. A Maria adora livros.
(103) a. #Os americanos inventaram transistores.11 [Müller e Oliveira (2004:19-20)]
Em (100), para o PB, preferencialmente explica-se que Maria compra diferentes
tipos de livros todos os dias e em (101) significa que Maria comprou diferentes tipos de
livros ontem. As autoras explicam, na mesma sequência, que tal preferência é ainda
mais forte em contextos que exigem uma interpretação de espécie, como em (102) e
em (103). Assim sendo, (102) preferencialmente significa que a Maria adora diferentes
tipos de livros e (103) apresenta uma leitura taxonómica em que os americanos
inventaram diferentes tipos de transístores.
(viii) No PB, os singulares nus são gramaticais essencialmente como sujeitos (Cf. (104) -
(105)) e como objetos (Cf.106) - (108)). No entanto, não são gramaticais em posição de
sujeito de frases episódicas (109) e com uma interpretação de espécie (Cf.110) e (111)).
Além disso, ao contrário dos plurais simples, não são possíveis leituras taxonómicas.
(104) a. Professor trabalha muito.
(105) a. Elefante é inteligente.
(106) a. A Maria lê revista todo dia.
(107) a. A Maria leu revista ontem.
(108) a. A Maria lê revista.
(109) a. *Amigo partiu ontem. [Müller e Oliveira (2004:14)]
(110) a. *Elefante está extinto.
(111) a. *Os americanos inventaram transístor. [Müller e Oliveira (2004:15)]
2. Castro (2006)
A autora, no seu trabalho intitulado Possessivos e artigo definido expletivo em PE
e PB, analisa aspetos gramaticais relacionados com os possessivos no PE e no PB,
concentrando-se em questões relacionadas com a presença vs. ausência de artigo
99
definido diante de possessivos pré-nominais. Nesse contexto, Castro defende que em
sintagmas nominais com interpretação genérica, o PB realiza nomes vazios livremente,
tanto no singular como no plural, enquanto o PE, quando se realizam os nomes comuns
no singular, exige um artigo definido, como se ilustra nos exemplos seguintes em (112)
e (113).
(112) a. Criança lê revistinha. PB *PE
b. Crianças lêem revistinhas. PB PE
(113) As crianças lêem revistinhas. PB PE [Castro (2006:11)]
Os exemplos apresentados em (112) e (113) mostram, em primeiro lugar,
diferenças e semelhanças gramaticais referentes à presença e ausência dos artigos
definidos com nomes contáveis no singular e no plural no PB e no PE.
A agramaticalidade que se verifica em (112a e b), tem a ver com o facto de, em PE,
os nomes contáveis no singular e no plural, na posição do sujeito, requererem sua
realização como especificador (Cf. Duarte e Oliveira (2003) ou Raposo (2013), entre
outros).
Sintaticamente, nota-se que no PB, um nome contável no singular, em posição
de sujeito pode ser realizado sem especificador em oposição ao PE (Cf. (112a e b)), que
nos mesmos contextos requer um especificador, como dissemos anteriormente: um
determinante ou um quantificador (esta/toda a/criança lê revistinha).
Em (112b), nota-se que no PB à semelhança do PE um nome comum no plural
pode ser realizado sem determinante, em posição de sujeito. Mas segundo Raposo
(2013), os nomes contáveis no plural e não contáveis no singular podem ocorrer como
núcleo de um SN reduzido, i.e., sem especificador, em posição pós-verbal (comprei
livros/ comprei ouro) e pós-preposicional (um livro de receitas, colar de pérolas).
Em (112) e (113), segundo Castro (2006), a única interpretação possível para o
PB é a de habitualidade.
Essa genericidade reside nas propriedades morfo-fonológicas do SN, em
particular, na possibilidade de o PB permitir artigos expletivos (não interpretados)
100
foneticamente nulos, ou seja, os nomes vazios ocorrerem mais livremente em PB que
em PE.
A autora considera ainda que, em PB, o artigo definido está ausente com nomes
próprios de pessoas, em contextos em que a sua realização em PE, no entanto, é
obrigatória, pelo que resulta agramatical essencialmente para o PE o exemplo seguinte
em (114a). Confrontem-se os exemplos abaixo em (114).
(114) a. Joaquinita fazia anos amanhã. PB *PE
b. A Joaquinita fazia anos amanhã. PB PE [Castro (2006:09)]
3. Sedrins (2017)
Em seu trabalho sobre Contextos Sintáticos de Realização dos Nomes próprios e
artigos definidos no Português Brasileiro, Sedrins descreve alguns contextos de
realização de artigos definidos diante de nomes próprios, quando este item se torna
obrigatório, sem que o nome deixe de funcionar como um nome próprio, ou seja, sem
que deixe de denotar uma entidade única no domínio discursivo.
Em linhas gerais, o autor considera que os nomes próprios no PB podem ocorrer
com diferentes determinantes (artigo definido, possessivo, demonstrativos), mas
apenas nos contextos em que são realizados com o artigo definido temos uma leitura
individualizada. Considerem-se exemplos seguintes em (115).
(115) a. (O) João não faz essas coisas (* só se for outro João que faz).
b. Aquele João não faz essas coisas (só se for outro João que faz).
c. (O) Meu João não faz essas coisas (só se for outro João que faz).
[Sedrins (2017:242)]
Em (115), o autor explica que os exemplos que se encontram entre parênteses
sugerem o contexto em que se presume uma situação em que há mais de um João.
Segundo o autor, note-se que nos exemplos com o pronome demonstrativo (115b) e
com o possessivo (115c) essa leitura não individualizada para João é possível. Em
contrapartida, conforme explica o autor, o exemplo em (115a), em que o nome próprio
é realizado com artigo definido, a possibilidade de haver um outro João é descartada.
Nesse caso, observa-se que em (115b) e (115c) o demonstrativo e o possessivo atuam
101
como elementos restritivos do nome próprio, isto é, de forma semelhante com que
outros modificadores, como adjetivos e sintagmas preposicionados, atuam, tal como se
pode observar a seguir em (116) e (117).
(116) a. O João altão saiu primeiro.
b. *João altão saiu primeiro.
(117) a. O João de camisa vermelha é meu aluno.
b.*João de camisa vermelha é meu aluno. [Sedrins (2017:241)]
Note-se, em (116) e (117), a realização do nome próprio que é utilizado em
situações em que se presume haver mais de um João, sendo necessário, nesse caso,
individualizar o referente através de um modificador, que no caso de (116) é realizado
pelo adjetivo altão e, em (117), pelo sintagma preposicionado de camisa vermelha. Em
ambos os casos, a realização de um modificador restritivo para o nome próprio exige a
realização do artigo definido.
Além dos determinantes (artigos definidos, demonstrativos e possessivos)
Sedrins considera ainda que os nomes próprios podem também ser realizados com os
numerais, havendo diferentes leituras com a realização ou não do artigo definido.
Seguem em (118) e (119) alguns exemplos ilustrativos.
(118) a. Dois Joãos saíram (não três).
b. Os dois Joãos saíram (*não três).
(119) a. Dois Joãos saíram (não três).
b. Os dois Joãos saíram (*não três). [Sedrins (2017:243)]
Em (118) e (119), Sedrins considera que o nome próprio realizado no plural
comporta-se como um nome comum, não apresentando a propriedade de denotar um
único indivíduo. Assim, o contraste de leitura entre (118a) e (119b) é o mesmo tipo de
contraste que encontramos com sintagmas nominais (SNs) cujo núcleo é um nome
comum, como apresenta (120):
(120) a. Dois meninos saíram (não três).
b. Os dois meninos saíram (*não três).
[Sedrins (2017:243)]
102
Assim, nos exemplos (119b) e (120b), considera-se que o artigo definido atua
conferindo definitude ao SN, não sendo, portanto, em nenhum desses casos, um artigo
expletivo. (Cf. Sedrins, 2017).
O autor observa ainda que, em contextos quantificados em que aparece o artigo
definido, a interpretação do nome próprio é referencial, como mostra o exemplo
seguinte em (121).
(121) a. Toda a Rafaela tem seu amor. [Muller e Negrão (1989)]
No exemplo em (121), a leitura possível para Rafaela, segundo Sedrins, é
equivalente a “a Rafaela inteira tem seu fã”. Note-se que, apesar de em (121) o nome
próprio ser utilizado como referencial, apontando para um único indivíduo, o uso do
artigo definido não é opcional. Caso o artigo fosse omisso em (121), a leitura disponível
seria a leitura referente ao conjunto de indivíduos com o mesmo nome, como é o caso
do exemplo seguinte em (122). Dessa forma, em (121), a presença do artigo definido
remete-nos a uma leitura específica.
(122) Todo João é inteligente. [Sedrins (2017:244)]
Em (122), o autor considera que os nomes próprios quando quantificados
deixam de se referir a um único indivíduo, podendo se referir a todos os indivíduos que
possuem o mesmo nome.
4. Santana e Grolla (2018)
Santana e Grolla (2018) estudaram aceitabilidade do Singular nu pré verbal em
PB, a partir de uma tarefa de juízo de aceitabilidade aplicada a 20 inquiridos adultos,
falantes nativos de PB. Nesse estudo, as autoras identificaram três vertentes que
caracterizam realização e aceitabilidade do Singular nu pré verbal em PB:
(i) frases genéricas;
(123) Criança gosta de assistir televisão. [Santana e Grolla (2018:204)]
(ii) frases com predicados-de-espécie;
(124) Flor é comum em todo lugar. [Santana e Grolla (2018:204)
103
(iii) frases com predicados-de-estágio.
(125) Cachorro se assustou durante a queima de fogos. [Santana e Grolla (2018:204)
As autoras, baseando-se em literatura relevante sobre a semântica dos nomes no PB e
não só: (Müller, (2000), (2001), (2002), (2003), (2004); Martins & Borges (2015),
Dobrovie-Sorin & Pires de Oliveira (2007), Menuzzi, Silva & Doetjes (2015), Pires de
Oliveira, Silva & Bressane (2010), Pires de Oliveira & Mariano (2011); Pires de Oliveira &
Rothstein (2011); entre outros, observam que:
(a) uma grande divergência com relação à aceitabilidade de frases em que ocorrem os
nomes nus em posição pré-verbal, em construções com predicados-de-espécie, como é
o caso dos exemplos seguintes.
(126) Baleia azul está extinta.
(127) Tigre corre risco de extinção.
(128) Dinossauro está extinto.
[Santana e Grolla (2018)]
Os exemplos (126), (127) e (128) mostram realização de Singular nu pré verbal
em PB, os quais dividem pontos de análise. Por um lado, segundo Santana e Grolla
(2018:196-197), alguns estudos (Dobrovie-Sorin & Pires de Oliveira (2007), Menuzzi,
Silva & Doetjes (2015), Pires de Oliveira, Silva & Bressane (2010), Pires de Oliveira &
Mariano (2011); Pires de Oliveira & Rothstein (2011)) consideram-nos aceitáveis para o
PB pois denotam predicado de espécie. No entanto, relativamente aos mesmos
exemplos, outros estudos tal como são os casos de Müller, (2000), (2001), (2002),
(2003), (2004); Martins & Borges (2015)) opõem-se à perspetiva acima, considerando-
os inaceitáveis em PB, uma vez que os nomes nus singulares não denotam espécie.
(b) relativamente às construções genéricas, é consensual na literatura que são
gramaticais e aceitáveis em PB frases genéricas em que o singular nu ocupa a posição
pré-verbal.
(c) com relação aos predicados-de-estágio, o estudo mostra que esse tipo de construção
é possível em PB, embora menos aceitável que as frases genéricas e as com predicados-
de-espécie.
104
2.5 O tratamento dos artigos definidos em Espanhol
Para o Espanhol, podemos destacar alguns estudos relacionados com os
determinantes, nomeadamente Leborans (2003) que descreve Los Sintagmas del
Español, numa perspetiva morfossintática, Laca, (1999) fala sobre ‘Presencia y ausencia
de determinante’, Leonetti, (1999a) concentra-se em ‘El artículo’, Leonetti (1999b), que
fala sobre Los Determinantes, entre outros. No presente trabalho, apresentamos alguns
aspetos abordados em Leonetti referentes à descrição de alguns contextos e valores
semânticos dos artigos definidos na língua espanhola. O nosso objetivo é o de analisar
o comportamento dos artigos definidos em diferentes contextos em algumas línguas
naturais, sendo o Espanhol uma das línguas românicas à semelhança do português, que
se distinguem em alguns aspetos linguísticos, sobretudo no que diz respeito aos artigos
definidos e indefinidos.
1. Leonetti (1999), (1999a)
Nesse contexto, Leonetti (1999) estabelece a classificação dos determinantes
para o Espanhol em: artículos (definido e indefinido), demostrativos, possessivos e
considera ainda a presença no espanhol da forma lo.
Em geral, Leonetti (1999:18) apresenta as caraterísticas seguintes sobre os
determinantes em Espanhol:
- “Forman clases cerradas, integradas por un número limitado de elementos (esto es
especialmente evidente en los demostrativos, los posesivos y los indefinidos, aunque se
a estrictamente falso en los numerales cardinales)”.
- “Tienen en general la misma morfología flexiva que los adjetivos, con variación
degénero y número (si bien en español existen formas neutras de los determinantes,
como “lo”, “esto”, “eso”, “aquello”, que no se encuentran entre los adjetivos)”.
- “Pueden usarse como pronombres (→ pronombres), sin combinarlos com un nombre
común (“Esta es más cara”, “Falta una”). Los determinantes están claramente
emparentados con los pronombres, y para muchos autores ambos pertenecen a la
misma clase de palabras”.
105
2.5.1 Sobre artigos definidos e indefinidos em Espanhol
Em estudos feitos sobre artigos definidos e indefinidos para o Espanhol, Leonetti
considera que o espanhol é uma língua que marca explicitamente a distinção definido /
indefinido em seu sistema de determinantes. Para o autor, a distinção entre artigo
definido e indefinido pressupõe um critério específico de classificação desses elementos
em dois grupos, nomeadamente:
(i) o artigo definido, os demonstrativos e os possessivos – consideram-se determinantes
definidos, com propriedade de definitude;
(ii) a maioria dos quantificadores, excluindo os universais ("tudo", "cada", "ambos"), são
determinantes indefinidos ("alguns", "muito", "pouco", "demais", "vários" ou os
números cardinais) (→ quantificadores), desprovidos da propriedade de definitude.
Considere-se o exemplo ilustrativo em (123).
(123) Tenga cuidado con el escalón30. [Leonetti (1999)]
A partir do exemplo em (123), Leonetti estabelece a condição de unicidade, que
é essencial em todas as expressões definidas. Assim, p.e., segundo o autor, o falante que
produz uma afirmação como a de (123) pressupõe que o recetor será capaz de construir
uma representação adequada do único objeto que satisfaz a descrição fornecida pelo
SN no contexto de uso.
Sobre a condição de unicidade, Leonetti considera que existem algumas formas
de satisfazer a condição de unicidade em determinado contexto discursivo e cada uma
dessas formas dá origem a um dos usos ou valores do artigo definido que as gramáticas
geralmente refletem. Tais usos dependem de qual fonte de informação fornece os dados
necessários para justificar a unicidade. Confrontem-se os exemplos ilustrativos
seguintes em (124).
(124)31 a. Cierra [la puerta], por favor.
30
Exemplos extraídos do texto do autor pré-publicado, disponível em
[Link]
31
Exemplos extraídos do texto do autor pré-publicado, disponível em
[Link]
106
b. Tenía una mascota, y [la mascota] era un hurón.
c. Falta poco para [el verano].
d. [El orangután] está en peligro de extinción.
e. Intenté fotografiarlo, pero se me bloqueó [la cámara].
f. Falta poco para [el comienzo de la temporada]. [Leonetti (1999)]
Em (124a), o autor explica que, se a comunicação é compartilhada pelos
interlocutores (um locutor e um alocutário), a entidade mencionada la puerta é
identificável para ambos os participantes na situação em que se encontram.
Em (124b), identifica-se o uso anafórico, dentre as entidades já mencionadas
pelos interlocutores, onde o SN definido "o animal de estimação" ocupa um
antecedente indefinido e a condição de singularidade é cumprida porque o referente é
o único animal de estimação que apareceu no contexto discursivo (→ anáfora).
Em (124c), nota-se o conhecimento enciclopédico ou do mundo, mais ou menos
compartilhado pelos interlocutores. Nesta frase, não é necessário ter-se falado
anteriormente sobre verão, para que os interlocutores possam identificá-lo facilmente
como o verão que corresponde ao ano atual, simplesmente porque faz parte do
conhecimento geral que todos os anos têm um verão.
Em (124d), regista-se uma leitura genérica, que inclui a suposição de que o
orangotango é uma espécie identificável de primata.
Em (124e), com base no conhecimento enciclopédico ou do mundo, destaca-se
o uso anafórico associativo. Nesta frase, a relação anafórica do SN definido é combinada
com algum tipo de antecedente (que é inferido pela relação entre "fotografar" e "a
câmara") e acesso a um vínculo conceitual entre as duas expressões extraídas do
conhecimento enciclopédico (fotografar envolve o uso de uma câmara ou algo
semelhante); Esse processo permite satisfazer o requisito de unicidade do artigo
definido na "câmara", sem que a referência tenha sido mencionada anteriormente.
Em (124f), observa-se que as propriedades que suportam a condição de
unicidade podem ser retiradas do próprio conteúdo do SN definido, nos usos
endofóricos: especificamente, de seu conteúdo descritivo, onde o complemento do
107
nome nos permite entender de que ponto de fala (já que é natural supor que uma
temporada tenha um começo e apenas um).
Ainda sobre artigos definidos e indefinidos para o Espanhol, Leonetti considera
que um artigo é um determinante definido ou indefinido que possui propriedades
especiais que o torna praticamente obrigatório em vários contextos sintáticos. Em
espanhol, segundo o autor, a restrição mais clara relativamente à realização do artigo
afeta a posição do sujeito pré-verbal, que não admite nomes sem um determinante,
especialmente quando se tratar de um nome contável no singular, (Cf. (125)); também
existem restrições que excluem nomes determinantes (nomes simples) de outras
posições, exemplificadas em (126).
(125)32 *Paella está lista. (Cf. La paella está lista.)
(126)33 a. *Admiro a voluntario(s). (Cf. Admiro a esos voluntarios.)
b. *Le sorprendió la reacción de pariente(s). (Cf. Le sorprendió la reacción
de sus parientes. [Leonetti (1999)]
Em Espanhol, segundo Leonetti, a distinção entre determinantes definidos e
determinantes indefinidos manifesta-se em vários fenómenos gramaticais. Entre eles
estão as propriedades anafóricas, a posição relativa dentro do SN e as restrições de
definição. Em relação à anáfora discursiva, os SNs definidos, em Espanhol, podem ser
anafóricos e assumir antecedentes discursivos, enquanto SNs indefinidos são usados
para introduzir novos referentes no discurso. (→ anáfora). Veja-se o exemplo ilustrativo
abaixo em (127).
(127) Ella tenía un gatoi. Y creo que después sus padres adoptaron a{l gatoi / un gatoj}.
[Leonetti (2017:244)]
Em (127), tal como explica o autor, observa-se que a interpretação do SN
definido é correferencial em relação ao antecedente indefinido “um gato”, enquanto a
32
Exemplos extraídos do texto do autor pré-publicado, disponível em
[Link]
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Exemplos extraídos do texto do autor pré-publicado, disponível em
[Link]
108
do SN indefinido da segunda frase é necessariamente não correferencial, o que implica
que se fale de dois gatos diferentes, conforme o exemplos mencionados.
Para o Espanhol, segundo Leonetti, o caráter indefinido de “un” dá origem a
diferentes interpretações, dependendo do contexto gramatical e discursivo: não
específica, específica ou genérica. Para o autor, o indefinido “un” é incompatível com
nomes não contáveis sem modificação (* "uma farinha") e com nomes de entidades
únicas que exigem unicidade (* "uma mãe de Maria").
Um outro fenómeno gramatical apontado em Leonetti relativamente à distinção
entre artigos definidos e indefinidos diz respeito às posições sintáticas dentro do SN: os
determinantes definidos sempre ocupam posições externas às dos indefinidos, como se
ilustra nos contrastes a seguir em (128).
(128)34 a. las cuatro esquinas / *cuatro las esquinas
b. estas tres lámparas / *tres estas lámparas [Leonetti (1999)]
Na mesma sequência, Leonetti considera que as restrições de definitude são
também observadas em frases com verbos existenciais, p.e., "haber", onde a posição
pós-verbal pode hospedar apenas SNs indefinidos, como em (129a), e SNs não definidos,
como em (129b), o que se deve ao efeito de definitude, exceto em condições especiais,
muito restritivas, exemplificadas em (129c), com um SN definido que tem uma
interpretação não específica, em relação ao número ou tipo de público. Vejam-se alguns
exemplos seguintes em (129).
(129)35 a. Allí había {una / dos / algunas / varias / muchas} barca(s).
b. *Allí había {la / aquella / su / todas las} barca(s).
c. Allí había el mismo público que en años anteriores. [Leonetti (1999)]
Para o Espanhol, o autor considera ainda que também existem construções que
impõem restrições opostas às existentes. Por exemplo, a construção partitiva
34
Exemplos extraídos do texto do autor pré-publicado, disponível em
[Link]
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Exemplos extraídos do texto do autor pré-publicado, disponível em
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geralmente impede que os SNs indefinidos ocupem uma posição depois da preposição.
Em contrapartida admite SNs definidos. Considere-se o exemplo seguinte em (130).
(130)36 uno de {los / estos / tus / *unos / *varios / *demasiados} actores.
[Leonetti (1999)]
Para o Espanhol, como se pode observar, em Leonetti (1999), a distinção entre artigo
definido e indefinido pressupõe um critério específico de classificação desses elementos
em dois grupos, nomeadamente: (i) o artigo definido, os demonstrativos e os possessivos
– consideram-se determinantes definidos, com propriedade de definitude e (ii) a maioria
dos quantificadores, excluindo os universais ("tudo", "cada", "ambos"), são
determinantes indefinidos ("alguns", "muito", "pouco", "demais", "vários" ou os
números cardinais) (→ quantificadores), desprovidos da propriedade de definitude.
2.6 Conclusão do capítulo
No presente capítulo, procuramos trazer algumas descrições gerais que
envolvem a realização dos determinantes para o PM. Procedeu-se igualmente uma
abordagem sobre a noção, distribuição dos determinantes em classes e subclasses bem
como algumas particularidades morfossintático-semânticas dos determinantes no
português.
Após a leitura deste capítulo, compreende-se que, para o PM, os trabalhos de
Gonçalves (1997 e 1998), Gonçalves (1997) e Gonçalves e Stroud (1998), Nicolau (2002)
e Costa (2014), reportam a existência de construções de sintagmas nominais com um
padrão diferente ao do PE, em contextos que envolvem alguns determinantes, em
particular os artigos definidos e indefinidos, em diferentes contextos sintáticos. Em
Gonçalves (1997:59) e Gonçalves e Stroud (1998:40-49) são apresentados alguns
exemplos tais como: omissão do artigo em SNs com a função de sujeito em posição inicial
36
Exemplos extraídos do texto do autor pré-publicado, disponível em
[Link]
110
de frase, omissão do artigo definido em SNs com a função de complemento direto,
omissão do artigo em expressões locativas e temporais, omissão de artigos em
construções que envolvem os quantificadores universais todo, todos e ambos, inserção
de artigo em contextos em que a sua presença não é requerida. No mesmo contexto,
Nicolau (2002:12) identifica outros casos, os quais ainda envolvem os determinantes:
ocorrência dos possessivos (meu, teu, seu, nosso e vosso) não precedidos de artigos
definidos ou de demonstrativos, ocorrência de preposições a regerem nomes sem artigo.
Costa (2014), por sua vez, apresenta os seguintes fenómenos identificados no corpus do
PM, para além dos que foram partilhados em Gonçalves e Stroud (1998) e Nicolau
(2002): realização dos nomes não contáveis recategorizados, em posição sintática de
OD, ausência de artigos definidos com nomes não contáveis, em posição de modificador.
Após a leitura deste capítulo fica-se com a sensação de que a noção dos
determinantes em português tem sido objeto de controvérsia entre as gramáticas
tradicionais às modernas. Para além disso, um outro aspeto que não tem reunido
consenso está relacionado com a classificação dos determinantes. Como vimos, em
Casteleiro (1977) associa-se os determinantes a um SN sendo constituintes que se
antepõem ao nome, tendo a função de delimitar a referência nominal. Em Cunha &
Cintra (2013), Neves (2000), não usam especificamente o termo determinante.
Nas gramáticas modernas da Língua Portuguesa, (Mateus et al (2003) e Raposo
et al (2013)), chama-se determinante às «palavras que se combinam com nomes,
adquirindo o grupo resultante uma dimensão referencial, ou seja, passando a designar
entidades particulares do mundo real ou imaginário sobre o qual incide o discurso»
(Raposo (2013:329). Raposo acrescenta ainda que «os determinantes incluem os artigos
definido e indefinido, a forma algum (e variantes) e as formas demonstrativas este, esse,
aquele e suas variantes» (2013:329).
Nesse contexto, e como se pode confrontar no parágrafo anterior, em Raposo
(2013), excluem-se os possessivos na classificação dos determinantes. Uma das razões
apresentadas pelo autor tem a ver com o facto de «um pronome possessivo pré-
nominal, na norma-padrão do português, não ocorrer na posição inicial do SN (*meu
111
carro é descapotável), sendo, usualmente, precedido por um determinante definido
(artigo ou demonstrativo) (o/este meu carro é descapotável)». (Raposo (2013:329).
Contudo, admite-se que «os pronomes possessivos são expressões referenciais, i. e.,
referem uma entidade do universo do discurso, uma característica semântica
completamente atípica da classe dos especificadores». (Raposo (2013:329).
As propriedades sintático-semânticas dos artigos definidos e indefinidos
sistematizados no presente capítulo apresentam algumas diferenças entre si em vários
aspetos. Semanticamente, os artigos definidos para o PE, conforme referem Oliveira
(2013, 2017, 2018), Duarte e Oliveira (2003), Peres (2013), Leal (2009), gozam de
ʻdefinitudeʼ em oposição aos indefinidos, os quais são identificados com a sua natureza
de ʻindefinitudeʼ. Uma outra propriedade distintiva tem a ver com o facto de os artigos
definidos, geralmente, apresentarem um valor referencial e pressupõem a condição de
existência no universo do discurso; permitem fazer referência à única entidade existente
(unicidade) que está de acordo com a descrição do SN. Os artigos indefinidos, porém,
caraterizarem-se pela ausência de indicações para a localização do referente, existindo
apenas um conteúdo quantificacional, que consiste em extrair um elemento
pertencente ao conjunto denotado.
Para o PB, conforme se viu ao longo deste capítulo, estudos realizados nesta
variedade do português sobre determinantes artigos definidos, em particular, com
destaque para estudos de Müller (2001), Müller e Oliveira (2004), Paraguassu e Müller
(2006) Sedrins (2017), Castro (2006), Santana e Grolla (2018), entre outros, partilha-se
em unanimidade a ideia de que, no PB admite-se a realização de nomes simples (ou nus)
não só plurais, como singulares, constituindo este último caso uma exceção do PB em
relação a outras línguas românicas e outras, incluindo o PE.
112
Capítulo III - SEMÂNTICA NOMINAL
Neste capítulo, apresentamos os elementos descritivos necessários para o
enquadramento da presente pesquisa, nomeadamente a Semântica Nominal. Dado que
o foco da nossa pesquisa centra-se na questão relacionada com abordagem semântica
dos artigos definidos no singular e no plural no Português de Moçambique,
comparando-os com os do PE e do PB, em alguns casos.
Na secção 3.1 Descrevem-se aspetos gerais sobre a semântica dos sintagmas
nominais no PE.
Em 3.2, apresentamos uma descrição semântica sobre os nomes comuns
contáveis, não contáveis e recategorizados e as suas propriedades básicas em
português.
A secção 3.3 é dedicada à análise de aspetos gramaticais dos nomes próprios em
português.
Finalmente, em 3.4, apresenta-se a conclusão deste capítulo.
3.1 Aspetos gerais sobre a semântica dos sintagmas nominais no PE
Nesta secção, pretendemos trazer alguns aspetos gerais sobre a semântica dos
sintagmas nominais no PE.
Assim sendo, nas gramáticas de Línguas Portuguesa, como temos vindo a citar,
são unanimes em considerar que no português europeu, os determinantes,
particularmente os artigos (definidos e indefinidos), antepõem-se geralmente aos
substantivos (ex.: o menino/os meninos, um menino/uns meninos, aquele
menino/aqueles meninos, …).
Peres (2013:754-760) faz uma abordagem Semântica do Sintagma Nominal no
quadro da Gramática do Português, destacando três processos, nomeadamente:
(i) sintagma nominal determinado – o qual consiste na aplicação de um determinante
artigo definido ou indefinido ou um determinante demonstrativo) a um sintagma
nominal (ex.: o caderno, os cadernos da Maria, esses cadernos da Maria, …).
113
(ii) sintagma nominal quantificado – que consiste na aplicação de um quantificador a
um sintagma nominal ou a um sintagma nominal definido (ex.: cada caderno, três
cadernos, todos os cadernos, alguns cadernos, vários cadernos, …).
(iii) sintagma nominal reduzido – passagem de um nome à categoria de SN (com a
correspondente mudança de valor semântico), sem inserção de qualquer outro
constituinte singular ou plural (ex.: como carne frequentemente; as meninas gostam de
bonecas; …).
(iv) sintagmas nominais mistos – resultante de combinações de vários tipos de
sintagmas nominais (ex.: a Maria e todas as suas amigas; alunos e três professores;
algumas crianças e todos os adolescentes, …).
3.1.1 Valores semânticos dos Sintagmas Nominais no PE
Em PE, segundo as gramáticas de LP, os valores semânticos dos SNs são
agrupados em três grandes grupos, designadamente:
(i) valor referencial;
(ii) valor quantificacional;
(iii) valor predicativo.
O valor referencial é característico dos nomes próprios (ex.: Moçambique, Pedro,
Porto, Maputo, Maria, …); sintagmas nominais (determinados) definidos (ex.: o caderno,
o livro, a gramática de que lhe emprestei, este livro, aquele manual, o meu caderno
verde, os meus poemas, …) e os sintagmas nominais (determinados) indefinidos (ex.:
uma menina, umas meninas, …) etc.
Um SN tem valor quantificacional quando geralmente exibe uma determinada
propriedade sobre uma quantidade (ex.: muitas meninas gostam de bonecas, a maioria
das meninas gostam de bonecas; todas as meninas gostam de bonecas; também a Maria
gosta de bonecas; …).
As expressões predicativas são geralmente determinadas por SNs constituído
por nomes comuns (ex.: um vestido, uma maçã, …), verbos copulativos (ex.: ser, estar,
114
ficar, parecer (como em "parecer doente"), permanecer, continuar (como em
"continuar calado"), tornar-se e revelar-se))), adjetivos (o João é
inteligente/médico/professor, …) e os verbos plenos (ex.: a Maria mandou fazer um
bolo).
3.1.2 Tipos de entidades semânticas
Alguns estudos linguísticos trataram entidades semânticas em Português. Neste
contexto, destacam-se os trabalhos de Lopes (1993) – Sobre a Referência Nominal
Genérica, Oliveira e Cunha (2003) - Termos de Espécie e Tipos de Predicados, Oliveira
(2004) sobre Frases Genéricas em Português, Peres (2013) entre outros.
1. Lopes (1993)
Lopes (1993) identifica três tipos de entidades: objeto, espécie e fases.
Relativamente aos objetos, Lopes concebe-os como sendo entidades denotadas
por um sintagma nominal que designa um indivíduo específico. Os nomes ou os
sintagmas nominais que são veículos destas entidades caracterizam-se por conterem
uma informação com traço [+Definido]. Os nomes próprios e os nomes contáveis
determinados ou quantificados, como o caderno de apontamentos, a bicicleta do Luís,
o aparelho da casa de banho..., que podem ser descrições definidas, representam as
entidades consideradas objetos.
Sobre espécie, Lopes (1993:119) considera que se trata de entidades atemporais
que se podem instanciar através de fases (stage) ancoradas no tempo e no espaço,
''concebidas como entidades que se realizam através de um conjunto aberto de
membros, a espécie é definida em termos quantificacionais.
Um termo de espécie, segundo Lopes, cobre não só as "espécies naturais" mas
também os discursivamente construídos como nome de espécie, dependendo da
construção em que se encontra. Qualquer nome pode ser, em princípio, nome de
espécie. Os nomes de espécie ocorrem tipicamente com os determinantes o/os, a/as e,
nalguns casos, com um/uns, uma/umas, podendo, sob certas circunstâncias, não ter
qualquer artigo.
115
Para Lopes (1993), fases denotam propriedades transitórias de indivíduos. Em
Português, os exemplos: o Luís é feliz e o Luís está feliz são distintos. No primeiro
exemplo (o Luís é feliz), refere-se a propriedades permanentes, isto é, o que não é
suscetível de mudança enquanto, no segundo exemplo (o Luís está feliz), trata-se de
fases ou de propriedades transitórias.
As frases transcritas ilustram um contraste entre ser/estar que existe em
Português e que permite considerar que, no primeiro caso, existe um predicado de
objeto (ou de indivíduo) e, no segundo caso, um predicado de fase. A forma "o Luís",
aquela acerca da qual se fazem as predicações, denota, num caso, um indivíduo e,
noutro caso, uma fase.
2. Peres (2013)
Na Semântica do Sintagma Nominal, Peres (2013:736-741) usa o termo entidade
para se referir às noções de objeto (ou indivíduo, mais usado para entidades humanas),
isto é, os nomes. No seu trabalho, o autor distingue subclasses de entidades incluídas
no universo de discurso, as quais se manifestam nas línguas. São as subclasses seguintes:
entidades contáveis; entidades não contáveis; indivíduos e grupos (ou entidades
coletivas); totalidade e partes (ou fragmentos); espécie e espécimes; tipos e exemplares;
entidades reais e entidades virtuais.
As entidades contáveis (nomes contáveis), segundo Peres, denotam conjuntos
de objetos (discretos ou individualizados), cuja cardinalidade pode ser determinada (ex.:
caderno, mesa, caneta, livro, telefone, …).
As entidades não contáveis (nomes não contáveis), ou contínuos, denotam uma
entidade concebida como um todo contínuo e não um conjunto de entidades discreta,
ou seja, não se especifica de que forma os indivíduos são divididos ou individualizados
(ex.: arroz, simpatia, …).
Sobre entidades individuais e grupais (ou entidades coletivas); totais e parciais
(ou fragmentais), Peres agrupa-as em duas vertentes opostas ontologicamente: por um
lado, a oposição entre indivíduos (ou entidades individuais) – (ex.: “aluno”,
116
“casamento”, “país”, …) e grupos (ou entidades coletivas) – (ex.: “turma”, “conjunto”,
“coleção”, …). Por outro lado, resultam a subclasse dos nomes parciais (ou nomes
fragmentadores) – (ex.: “fatia”, “parcela”, “pedaço”, “parcela” ou “rodela”, …) e a vasta
subclasse dos nomes que tomam os objetos na sua totalidade, por exemplo os nomes
individuais contáveis (como “casamento”, “conversa”, “mesa”, …), nomes individuais
massivos (ex.: areia, água, …) ou nomes coletivos (ex.: “turma”, “conjunto”, “coleção”,
…).
3.2 Descrição semântica dos nomes comuns contáveis, não contáveis e
recategorizados em português
Nesta secção, interessa-nos, em 3.2.1, fazer uma breve descrição gramatical dos
nomes comuns em português. Em 3.2.2, far-se-á uma descrição sintática e semântica
dos nomes contáveis e não contáveis em português. Finalmente, em 3.2.3,
apresentamos aspectos semânticos sobre a recategorização dos nomes comuns.
3.2.1 Breve descrição gramatical e semântica dos nomes comuns em português
Nas gramáticas da Língua Portuguesa, desde as tradicionais às modernas,
podemos encontrar alguma informação sobre conceito de nomes comuns.
Em Cunha e Cintra (2013:178), por exemplo, considera-se nome37 comum
“quando se a aplica todos os seres de uma espécie ou quando designa uma abstração”.
Raposo (20013:328) refere que nomes comuns são palavras cujos elementos
mais típicos denotam classes de entidades, concretas ou abstractas; caracterizam-se por
ter um género intrínseco (masculino ou feminino, ex.: caderno e caneta) e por variarem
morfologicamente em número (ex.: panela, panelas).
O autor considera ainda que os nomes comuns são frequentemente precedidas
por um especificador, quer quantificador (todos os cadernos) quer determinante (os
cadernos).
37
Cunha e Cintra (2013) usa o termo substantivo
117
Em Nascimento e Lopes (2015:76), o nome comum é o que designa uma
entidade de uma classe, sem a individualizar. Veja-se o exemplo em (1) e (2).
(1) Ele foi para casa.
(2) As filhas do presidente Obama queriam um cão.
Nascimento e Lopes (2015:76)]
No exemplo em (1), os autores explicam que casa: nome comum que nomeia e
engloba todo e qualquer tipo de habitação humana, seja grande, pequena, pobre,
luxuosa, moderna, antiga, …
Em (2), os autores dizem que cão engloba todos os tipos de cão: serra-da –
estrela, labrador, são-bernardo, pastor alemão, cão d’água português, …
Raposo analisa muito detalhadamente a semântica dos nomes comuns em
português. Para o autor, uma das propriedades que carateriza os nomes comuns tem a
ver com o facto de, por si só, denotarem, mas não referem, ou seja, não estão
habilitados para designar exemplares concretos das classes denotadas pelo nome.
Partindo do exemplo seguinte: gato, Raposo explica que, por si só, este nome
denota intensionalmente um conjunto de propriedades e denota extensionalmente
uma classe; mas não pode ser usado, sem mais, para representar um ou vários
exemplares concretos dessa classe.
Em Oliveira (20013 e 2018) é dada uma especial atenção à semântica dos nomes
comuns e nomes próprios em português. A autora chama atenção para algumas
propriedades entre nomes próprios e comuns, dentre elas:
(i) os nomes próprios são por excelência expressões referenciais;
(ii) os nomes comuns constituem expressões predicativas.
Sobre os nomes comuns, Oliveira (2006), no seu artigo “Sobre Semântica Lexical
e Semântica Frásica na Terminologia para os Ensinos Básicos e Secundários”, analisa
sobretudo que condições uma palavra (um nominal) se constitui em português europeu
e que implicações semânticas, dando alguns exemplos que seguem abaixo em (3)-(8).
(3) O homem é um animal racional.
118
(4) O homem chegou à lua em 1969.
(5) Os homens preferem as loiras.
(6) O homem acabou de chegar.
(7) Um homem não chora.
(8) a. Ela procura um homem que saiba japonês.
b. Ela procura um homem que sabe japonês. [Oliveira (2006)]
Os exemplos apresentados em (3)-(8) mostram algumas caraterísticas
semânticas dos nomes comuns.
Em (3), segundo Oliveira, a leitura de o homem é universal uma vez que o
predicado ser um animal racional se aplica a todos os homens. Na mesma sequência,
em (4), encontram-se duas leituras possíveis: ou se fala da espécie homem ou se fala de
um homem específico. Em (5), apesar do plural, temos uma frase genérica em que se
fala dos homens em geral e em (6) a única leitura possível é a de se considerar um
homem específico. Em contrapartida, em (7) e (8 a), um homem é interpretado de modo
diferente pois a primeira destas frases é uma frase genérica enquanto em (8 a), um
homem que saiba japonês não pode ser entendido como específico, podendo até nem
existir tal indivíduo. Em (8 b), espera-se uma leitura existencial.
Relativamente aos exemplos em (8), Oliveira chama atenção à influência dos
modos verbais na interpretação dos enunciados. Desta feita, observa-se que o modo
indicativo, p.e., em (8 b) garante a leitura existência. Porém, em (8 a), onde se está
presente o modo conjuntivo, tal leitura é impossível.
Sobre os nomes próprios, faremos uma descrição dos mesmos na secção
seguinte em 3.3, do presente capítulo.
3.2.2 Aspectos gramaticais dos nomes contáveis e não contáveis em português
O nome, em geral, tem características morfologias, sintáticas e semânticas que
o identificam. (cf. Nascimento e Lopes, 2015:75).
Em Português, os nomes contáveis e não contáveis tem sido objeto de análise de
alguns linguistas, a destacar os trabalhos de Oliveira (2006, 2013 e 2018), Duarte e
119
Oliveira (2003) ou Peres (1992a, 1993), Cunha, Ferreira e Leal (2003), Raposo (2013),
entre outros.
Desses trabalhos, partilha-se em unanimidade à ideia de que, sob o ponto de
vista semântico, os nomes contáveis e não contáveis em português europeu, duas
propriedades que os distinguem:
(i) cumulatividade;
(ii) divisibilidade.
Os nomes contáveis, segundo Duarte e Oliveira (2003:217) referem-se a
conjuntos encarados como grandezas descontínuas, discretas, i.e., conjuntos em que é
possível distinguir conjuntos singulares e conjuntos plurais e enumerá-los, p.e., a
cadeira, estas cadeiras, duas cadeiras, várias cadeiras.
Assim, de acordo com as autoras, o SN cadeira designa uma entidade objecto
singular do conjunto de entidades objectos materiais que são cadeiras. No mesmo
contexto, os SNs estas cadeiras, duas cadeiras, várias cadeiras denotam conjuntos
plurais do referido conjunto.
Os nomes não contáveis, por sua vez, as autoras consideram que estes nomes
referem conjunto encarado como grandezas contínuas, não discretas, i.e., conjuntos em
que não é possível distinguir entidades singulares e entidades plurais e enumerá-las.
Alguns exemplos ilustrativos seguem abaixo em (9).
(9) a. A água não me tirou a sede.
b. Essa caneta de estanho é linda.
c. A solidariedade é fundamental de qualquer sociedade humana.
[Duarte e Oliveira (2003:217)]
Em (9a), o SN água designa uma porção não especificada de água, p.e., um copo,
uma caneca, uma garrafa, um golo, entre outras formas de medidas não especificadas.
Assim, quer em água no singular quer no plural em águas, independente da
marca morfológica de que a entidade admite a sua variação em número, designam-se
uma parte plural, estando associada ao SN as águas a expressão de uma parte do
120
conjunto água, que, neste caso, serão espécie de água, mas que podem também referir
porções delimitadas de água (p.e., garrafas de águas).
No exemplo ilustrado em (9b), estanho designa a matéria de que é feito um
determinado objeto, neste exemplo a caneta, sendo impossível enumerar partes
singulares ou partes plurais dessa matéria.
Ainda sobre o exemplo em (9b), as autoras chamam atenção ao facto de que em
expressões como gosto de estanhos, tens um estanho lindo na sala, os falantes
reconhecem estanhos e um estanho como formas elípticas de peças de estanhos, uma
peça de estanho, tal como são os casos de pratas, cobres e ferros.
Em (9c), solidariedade - exprime algo em que não são distinguíveis partes
singulares, p.e., em *uma solidariedade nem partes plurais *as solidariedades. (Cf.
Duarte e Oliveira, 2003:219).
No mesmo contexto referente a propriedades dos nomes não contáveis
(liberdade, ciência, água, estanho, solidariedade, …), Duarte e Oliveira distinguem
nomes massivos – que não podem designar partes singulares de conjuntos, são mais
dificilmente pluralizáveis (p.e., água e estanho).
Os nomes massivos segundo as autoras apresentam particularidades seguintes
no singular e no plural. Sendo que no singular designam:
(i) uma substância de que se designa uma parte quantificada de acordo com um certo
padrão de medida:
(10) a. (uma porção) de água um litro de
b. (um copo) de água muita [Duarte e Oliveira (2003:219)]
(ii) uma parte qualificada ou determinada de uma dada substância:
(11) a. uma óptima água
b. um excelente vinho [Duarte e Oliveira (2003:219)]
(iii) uma substância encarada como tal, sem ser considerada como porção ou grandeza:
(12) a. A água dissolve o sal.
b. O ar é indispensável à vida humana. [Duarte e Oliveira (2003:219)]
121
(iv) matéria de que são feitos dados objectos, o que constitui caso especial de (iii) (Cf.
(13)), ou, elipticamente ou objecto feito dessa matéria (Cf. (14)):
(13) a. o ferro
b. isqueiros de ouro
(14) Esse estanho que tens no corredor é lindo. [Duarte e Oliveira (2003:220)]
Na forma plural, os nomes massivos podem designar o seguinte:
(i) vários tipos ou qualidades de uma dada substância:
(15) a. uma óptima água
b. um excelente vinho [Duarte e Oliveira (2003:220)]
(ii) elipticamente, objectos feitos de uma dada matéria ou partes quantificadas de uma
substância de acordo com certo padrão de medida (= duas garrafas de água/dois litros
de água):
(16)38 a. os estanhos
b. as pratas
c. dê-me duas águas. [Duarte e Oliveira (2003:220)]
Nascimento e Lopes (2015:76), por sua vez, descrevem as seguintes
propriedades distintivas entre os contáveis e não contáveis.
(i) São contáveis:
a) as entidades materiais, individualizadas e descontínuas: árvores, casas, alunos, livros;
b) as unidades de medidas: litros, quilómetros, quilos, gramas – três litros, dez
quilómetros, uma colher de água, mas também muita, pouca, toda água, mil gramas de
ouro, dez quilos de açúcar.
(ii) Os nomes não contáveis designam:
a) uma entidade material homogénea: ouro, agua, petróleo, …
b) uma ideia não material, não divisível: esperança, liberdade, otimismo, …
38
Estes exemplos mostram ainda outros contextos que serão recuperados e desenvolvidos em secções
posteriores sobre possibilidade de recategorização dos nomes não contáveis em contáveis e vice-versa.
122
Morfologicamente, os nomes contáveis admitem a oposição singular e plural. E
os nomes não contáveis não admitem tal possibilidade de variação em número. Mas,
que segundo Leal (2000:100), os nomes não contáveis “quando são pluralizados, há uma
recategorização e passam a contáveis, com propriedades denotacionais diferentes das
originais” (ex.: vinhos, assuntos, ...).
Do ponto de vista sintático, e de acordo com Raposo (2013:955), os nomes
contáveis e não contáveis em português distinguem-se por características seguintes:
(i) “Os nomes contáveis podem ser especificados por quantificadores de contagem
discretos (incluindo os numerais cardinais ou quantificadores plurais como alguns,
bastantes, demasiados, muitos, poucos, suficientes). Porém, os nãos contáveis não
podem, tal como como se pode confrontar nos exemplos seguintes em (17) e (18),
respetivamente.
(16) a. li dois livros.
b. plantaram poucas árvores.
c. destruíram muitas casas.
d. Prejudicaram algumas/bastantes/muitas/poucas/ pessoas naquele Bairro.
e. Ela vivia demasiados problemas.
(18) a. Comprei três ouros na bolsa.
b. Sobram-me cinco tabacos no maço.
c. Havia algumas/bastantes/muitas/poucas/ gentes na sala.
d. Caíram-lhe imensos/muitos suores pelo pescoço.
[Raposo (2013:955)]
(ii) inversamente, os nomes massivos podem ser especificados pelos quantificadores de
medição (incluindo os indefinidos singulares algum, bastante, demasiado, muito, pouco,
suficiente, tanto), os quais apenas medem a quantidade da substância, como se pode
notar em (19); em oposição, os nomes contáveis não podem ser especificados por estes
quantificadores (cf. (20)).
(19) a. Libertei imenso/ muito/ bastante suor ao longo da caminhada.
b. Tomei muito café durante o dia.
c. Comprei pouco sal.
123
d. Fiz bastante esforço para concluir o trabalho da tese.
(20) a. Ofereci-lhe caneta suficiente. (vs. ofereci-lhe canetas suficientes)
b. Li pouca página do livro recém-publicado. (vs. Li poucas páginas do livro recém-
publicado)
(iii) Na medida em que exprimem quantidades mas não individualizam entidades, os
nomes não contáveis (especialmente os massivos) no singular podem ocorrer sem um
determinante como complementos verbais (cf. (21)). Esta possibilidade encontra-se
vedada aos nomes contáveis singulares, (cf. (22)).
(21) a. Comprei açúcar.
b. Tomei sumo.
c. Pedi café.
d. Há problema nesta casa.
(22) a. *Comprei carro.
b. *Subi autocarro para a faculdade.
c. *Pedi gramática recém-publicada.
d. *Há cão nesta casa.
(iv) os nomes não contáveis no singular, mas não os contáveis, formam complementos
preposicionais sem determinante:
(23) a. Preparei um chá com limão/com papaia/*/?com papaia.
b. Fiz o arroz com cebola/fiz o arroz com uma cebola.
Na mesma sequência, Oliveira (2013 e 2018), considera que:
(v) os nomes não contáveis admitem cardinais, a não ser que sejam recategorizados em
contáveis.
(vi) em línguas como o português, os quantificadores associados a contáveis têm,
tipicamente, traços de plural. É este traço que o distingue dos quantificadores
associados a não contáveis.
(24) Muitas maçãs vs muita água; bastantes livros vs bastante paciência.
[Oliveira (2013 e 2018)]
(vii) os contáveis no plural e os não contáveis podem surgir associados ao quantificador
nominal quantidade”.
124
(25) Uma quantidade de livros; uma certa quantidade de vinho; *uma certa quantidade
de livro. [Oliveira (2013 e 2018)]
(viii) os contáveis admitem o quantificador adjectival meio, mas não os contáveis; ambos
aceitam metade.
(26) Só tenho dinheiro para meia casa/já decorei metade da casa.
(27) * Fiz o bolo com meio açúcar/ fiz o bolo com metade de açúcar.
[Oliveira (2013 e 2018)]
[Link] Semelhanças39 entre contáveis no plural e não contáveis
Raposo (2013), Oliveira (2013 e 2018) e Leal (2009) identificam outras
particularidades referentes aos nomes contáveis no plural e não contáveis, em
português. Tais particularidades dizem respeito a alguns contextos gramaticais e
semânticos referentes à realização dos contáveis no plural e não contáveis, como se
ilustram nos exemplos seguintes:
(28) Isto é água/ * Isto é livro/ Isto são livros
(29) Quero água/ * Quero livro/ Quero livros
(30) Caiu água/ * Caiu criança/ Caíram crianças [Leal (2009:103)]
Nos exemplos apresentados em (28)-(30), podemos notar dois contextos em que
se assemelham os nomes contáveis no plural e os não contáveis. Sintaticamente,
segundo Raposo (2013), ambos os nomes (contáveis no plural e não contáveis) podem
ocorrer como núcleo de um SN reduzido, i.e., sem especificador, em posição pós-verbal
e pós-preposicional (um livro de receitas, colar de pérolas).
Na mesma análise, Leal busca propriedades semânticas para explicar os
exemplos em (28)-(30). O autor considera que “os nomes contáveis no plural exibem
tendencialmente as propriedades da cumulatividade e da divisibilidade (esta última com
certas restrições)”. Para Leal, se adicionarmos “livros” a “livros”, o resultado final será
39
Em Raposo (2013:957), é usado o termo paralelismo para descrever as semelhanças entre os nomes
contáveis no plural e nomes não contáveis no singular.
125
“livros”, ou seja, o resultado da adição mantém o mesmo tipo de denotação que cada
uma das partes da adição. Por outro lado, se dividirmos a denotação de “livros”, o
resultado final consiste em conjuntos mais pequenos de “livros”. São, obviamente,
excepções os casos em que um dos conjuntos mais pequenos é constituído apenas por
uma entidade.
[Link] Recategorizacão dos nomes comuns em português
Raposo (2013), Oliveira (2013 e 2018) e Leal (2009) estabeleceram algumas
propriedades semânticas relevantes sobre a distinção dos nomes contáveis e não
contáveis do português. Em Raposo, p.e., conforme se viu anteriormente, considera-se
que os nomes contáveis representam entidades que são conceptualizadas como coisas
discretas, autónomas e separadas uma das outras, cada uma delas com a sua
individualidade própria. Em contrapartida, segundo Raposo, existem outras entidades
que são conceptualizadas como um todo que não se manifesta em entidades discretas.
Entre estas entidades, as que têm mais relevância do ponto de vista linguístico são as
substâncias ou massas de natureza uniforme, como água, o ar, o vinho, o ouro ou o
ferro, que podem ser separadas em porções de quantidades diferenciadas, mas que não
se concretizam em entidades com individualidade própria (nomes não contáveis).
Leal (2009), ao reflectir sobre “A questão da recategorização”, considera que a
oposição contável/ não contável passa, por exemplo, pela possibilidade de pluralização
sem alteração semântica e pela compatibilidade com um de dois tipos de quantificação.
Mas isto, segundo Leal, não quer dizer que esta divisão seja estanque. Pelo contrário, o
autor considera, o contexto sintáctico determina, em muitos casos, o tipo de nome em
questão, ou seja, num contexto adequado, um nome contável pode ser interpretado
como não contável e vice-versa.
Nesse contexto, Raposo (2013:959) distingue três casos de recategorização de
nomes não contáveis em nomes contáveis, nomeadamente dois na área dos nomes de
alimentos e um na área dos nomes abstractos, nomeadamente (i) porções discretas
convencionalizadas, (ii) tipo ou variedades de substâncias e (iii) nomes abstratos
reinterpretados como eventos ou como entidades concretas.
126
[Link].1 Recategorizacão dos nomes não contáveis em contáveis
Em Raposo (2013), conforme dissemos anteriormente, aponta-se como um dos
casos mais típicos de conversão de nomes massivos em contáveis, na área dos nomes
de alimentos, àquele em que o uso do nome como contável passa a denotar uma porção
discreta convencionalizada. Tais casos, segundo o autor, são mais frequentes em
restaurantes, quando se pretende dar a conhecer algumas escolhas ao funcionário que
atende os clientes. Vejamos alguns exemplos a seguir em (31).
(31) a. São dois bacalhaus e dois patos.
b. Traga-nos duas cervejas e duas águas com gás.
[Raposo (2013:960)]
Os exemplos em (31), segundo Raposo, resultam precisamente da
convencionalidade e estandardização dos nomes de medida, como se ilustram em (32),
que permitem a sua omissão em contextos como os observados, com a concomitante
recategorização dos nomes massivos em contáveis.
(32) a. São {dois pratos/duas doses} de bacalhau e {dois pratos/ duas doses} pato.
b. Traga-nos dois copos de cerveja e duas garrafas de águas com gás.
[Raposo (2013:960)]
Nos mesmos contextos, Leal (2009), por sua vez, fala da pluralização dos nomes
massivos, os quais são recategorizados em contáveis. Para o autor, se considerarmos
isoladamente o SN “o cristal”, ele designa uma entidade tida como um todo. Já “os
cristais” designa tanto tipos de cristal como os objectos feitos da matéria denotada por
“cristal”. Desta feita, o exemplo ilustrado faz-nos compreender que a pluralização leva
a uma recategorização dos nomes não contáveis como contáveis para o português.
O segundo caso identificado em Raposo (2013) que permite à recategorização
dos nomes não contáveis em contáveis, em português, tem a ver com tipos ou
variedades de substâncias. Para este caso, tal como explica o autor, os nomes massivos
admitem à recategorização em contáveis quando ocorrem com quantificadores
distributivos como cada e qualquer, como se pode observar o exemplo a seguir em (33).
(33) Cada/qualquer aluno traz o seu almoço.
127
Em consideração do exemplo em (33), a explicação que se dá a este caso,
segundo Raposo, é a de que o domínio da quantificação não são entidades individuais,
como quando esses quantificadores são usados com os nomes contáveis, mas sim tipos,
como se ilustra em (34).
(34) a. Com este prato, qualquer vinho serve.
b. Cada tabaco tem um sabor diferente.
[Raposo (2013:961)]
A mesma perspetiva é partilhada em Leal (2009), ao considerar que a
quantificação provoca também este tipo de recategorização, de nomes não contáveis
em contáveis. Para o autor, “um solo”, “dois solos”, “vários solos”, tal como “um cristal”,
“dois cristais”, “vários cristais”, leva à recategorização dos nomes “solo” e “cristal” como
contáveis, denotando tipos de substâncias ou objectos feitos dessa mesma substância.
De facto, entende-se em Leal que a recategorização pode levar a um significado do tipo
‘porção de’, como em “cervejas” (porções de cerveja) ou “dois cafés” (porções de café).
Nestes exemplos, o nome recategorizado pode ainda, eventualmente, denotar o próprio
recipiente (garrafas de cerveja e chávenas de café).
Um outro caso envolvido na recategorização dos nomes não contáveis em
contáveis, mencionado em Raposo (2013), reside nos nomes abstratos reinterpretados
como eventos ou como entidades concretas. Considera-se que alguns nomes não
contáveis (e, neste caso, não massivos) de natureza abstracta, como ajuda, amor,
alegria, beleza, necessidade, trabalho, a mais, podem ser recategorizados em contáveis,
sendo, nesse caso, reinterpretados como denotando um evento ou uma entidade
concreta que manifesta em si o conceito abstracto denotado pelo nome. Em (35),
seguem alguns exemplos ilustrativos.
(35) a. Já teve vários amores. (o nome denota pessoas)
b. Deste-me hoje duas grandes alegrias. (o nome denota eventos)
c. A câmara interessa-se pela exploração das belezas naturais. (o nome denota
entidades físicas, geográficas ou paisagísticas)
d. Essa é única necessidade menor. (o nome denota um facto ou circunstância)
e. Entrou uma beleza na sala. (o nome denota uma pessoa).
128
f. Ela teve muitas ajudas. (o nome denota eventos ou pessoas)
g. Aqui tens o meu trabalho. (o nome denota um objeto físico)
[Raposo (2013:961)]
[Link].2 Recategorizacão dos nomes contáveis em não contáveis
Sobre a recategorização dos nomes contáveis em não contáveis, encontra-se
alguma explicação em Leal (2009) e Raposo (2013). Os dois autores partilham por
unanimidade à questão de alguns contextos sintáticos que admitem à recategorização
dos nomes contáveis em não contáveis. Vejamos alguns exemplos ilustrativos:
(36) a. Cheira a rosa
b. Sabe a frango
c. Há bolo para todos [Leal (2009:104-105)]
Nesses casos, apresentados em (36), Leal explica que a recategorização contável
em não contável é determinada pelo contexto de ocorrência dos nomes. Por exemplo,
nomes simples em complementos dos verbos de percepção sensorial (cf. (36) (a) e (b)),
assim como em construções existenciais (cf. (36) (c)) obrigam a uma interpretação não
contável dos nomes contáveis. Assim, nota-se que “rosa”, “frango” e “bolo” são nomes
que designam não conjuntos de entidades discretas, mas entidades unas encaradas
como contínuas. (cf. Leal, 2009).
Em Raposo (2013) também se repara a questão de alguns contextos sintáticos
que admitem à recategorização dos nomes contáveis em não contáveis. O autor aponta
os verbos cheirar (a), em ((36) (a)), e saber (a), em ((36) (b)), de percepção sensorial, tal
como se mencionou em Leal, que no seu uso intransitivo, esses verbos permitem
frequentemente que o nome primitivamente contável do seu complemento nominal
seja recategorizado em não contável. Raposo mostra ainda que isso é típico dos nomes
de alimentos, mas não só. Em (37), são considerados alguns exemplos ilustrativos.
(37) a. Isso cheira/sabe a {camarão/ervilha/lula/morango/ovo}.
b. Isso cheira/sabe a {árvore/carro novo/cómoda antiga/livro}.
[Raposo (2013:963)]
Um outro contexto que permite a recategorização dos nomes contáveis em não
contáveis envolve a quantificação.
129
Nesse contexto, Raposo (2013) identifica a quantificação enfática. Assim,
segundo o autor, quando um nome contável é especificado por um quantificador de
medida como demasiado, no singular, ou muito, qualquer nome contável pode ser,
opcionalmente, recategorizado em não contável; tal como se ilustra nos exemplos
seguintes em (38).
(38) a. Muito livro compraste ontem na FNAC!
b. Nesta casa há demasiada mulher!
c. Muito carro passa nesta rua!
[Raposo (2013:963)]
A explicação de Raposo sobre os exemplos em (38) referentes a frases de
natureza exclamativa em alusão, e em que se quer tipicamente enfatizar uma
quantidade elevada (inexata), favorecem a recategorização dos nomes contáveis em
não contáveis. Essa particularidade também é analisada em Leal (2009), que considera
o seguinte. “A combinação de expressões que veiculam quantificação de medição com
nomes contáveis não dá sempre lugar a construções agramaticais, mas também
proporciona a recategorização dos nomes como não contáveis”, como se exemplifica a
seguir em (39), com o nome “camelo”. Nesta frase, podemos identificar uma leitura
conotativa referindo-se a maus resultados do jogo do futebol.
(39) Pinto da Costa viu muito camelo quando esteve em Marrocos.
[Leal (2009:105)]
É também apresentado, em Raposo, um outro contexto de recategorização dos
nomes contáveis em não contáveis. Tal contexto envolve os sintagmas preposicionais
classificadores introduzidos por de. Neste contexto, segundo o autor, o sintagma
nominal reduzido, se for primitivamente contável, pode ser recategorizado como
massivo no singular, como se verifica em (40), como complementos e não
modificadores.
(40) a. pudim de ovo, comporta de cereja, bolo de amêndoa, mousse de camarão,
sumo de laranja, batido de morango, gelado de noz, pasta de sardinha, barriga de
freira, manjar de príncipe, …
130
b. orelhas de burro, passo de caracol, leis para inglês ver, …
[Raposo (2013:963)]
Os exemplos em (40) apresentam contextos de modificação nominal, em que se
ilustra a realização da preposição de. Nestes exemplos, segundo Raposo, a
individualidade das entidades (ovos, cerejas, burros, crianças, etc.,) é neutralizada, e as
entidades não denotam nenhum produto, mas têm uma relação semântica
idiossincrática com o nome principal.
3.3 Aspetos gramaticais dos nomes próprios em português
Na secção anterior, tratámos dos nomes comuns contáveis e não contáveis em
diferentes contextos de realização em português.
Esta secção é dedicada, em particular, à questão dos nomes próprios em
português, embora em alguns contextos faz-se menção dos nomes comuns, numa
perspetiva comparativa com os nomes próprios. Assim, são apresentadas e discutidas
algumas propriedades morfossintáticas e semânticas dos nomes próprios e algumas
propriedades que os distinguem dos nomes comuns. Sobre o assunto, serão
considerados os trabalhos de Duarte e Oliveira (2003), Oliveira (2013 e 2018), Raposo
(2013), Raposo e Miguel (2013), Raposo e Nascimento (2013), Cunha e Cintra (2013),
entre outros que analisam os nomes próprios em português em vários contextos
gramaticais.
1. Cunha e Cintra (2013)
Na Nova Gramática do Português Contemporâneo da Língua Portuguesa (Cunha
e Cintra, 2013), podemos encontrar alguma informação sobre “Substantivos”, (pp. 177-
200), em que é proposta uma classificação de substantivos. São analisados os tipos de
substantivos, quanto à flexão em número e género e alguns contextos básicos de
realização dos substantivos em português. As questões de fundo sobre os nomes
próprios assim como os nomes comuns não são analisadas com os pormenores,
sobretudo numa perspetiva semântica.
131
Relativamente aos substantivos próprios e comuns, Cunha e Cintra identificam
as seguintes características que os distinguem. Os nomes comuns aplicam-se a todos os
seres de uma espécie que designam uma abstração (homem, país, cidade). Os nomes
próprios aplicam-se a determinado indivíduo da espécie (Pedro, Brasil e Lisboa).
2. Raposo e Miguel (2013)
Raposo e Miguel (2013) analisam os “Elementos Nucleares do Sintagma
Nominal” para o Português e defendem que o núcleo do SN pode ser um pronome, um
nome próprio ou um comum (um substantivo). Os autores consideram que os nomes
próprios (Manuel, Maria, Alexandre, Clara, Lisboa, Tejo) são expressões referenciais
quando ocorrem com a função de argumento (cf. (41a,b)), de complemento ou
modificador de um adjetivo ou de um nome (cf. (41c,d)), de uma preposição (cf. (41e))
ou de um adverbio (cf. (41f)), ou seja, servem para identificar um referente, tal como se
ilustram os exemplos seguintes em (41).
(41) a. O Manuel vive em Madrid.
b. Fui buscar a Clara à escola.
c. Fiquei orgulhoso da Alexandra.
d. O pai da Maria sou eu.
e. Sai sem a Maria.
f. Fiquei perto da Maria.
[Raposo e Miguel (2013:713)]
3. Duarte e Oliveira (2003:210)
Duarte e Oliveira (2003:210) analisam semanticamente a classe dos nomes em
português. As autoras consideram que os nomes pertencem “a categorias linguísticas
caraterizáveis semanticamente por terem um potencial de referência” (…).
No mesmo contexto, Duarte e Oliveira (2003:210) apresentam uma proposta de
classificação tipológica dos nomes, onde se destacam os nomes comuns e próprios, os
nomes que constituem o foco da abordagem do nosso trabalho.
Na mesma sequência, as autoras estabelecem distinção entre os nomes próprios
dos comuns, apresentando duas propriedades semânticas relevantes, em (i) e (ii).
132
(i) Os nomes próprios são designadores de referente fixo e único;
(ii) Os nomes comuns exprimem, na forma não marcada, uma intensão – a propriedade
que define, constituindo-o, um conjunto de objetos.
Quanto à propriedade referente aos nomes próprios, Duarte e Oliveira
(2003:210) salientam o seguinte:
- os nomes próprios não admitem variação em número, como se ilustra no exemplo
seguinte em (42).
(42) *Galileus morreram na miséria. [Duarte e Oliveira (2003:214)]
- sendo designadores de referente fixo, os nomes próprios não podem ser objecto de
operações de determinação nem admitem complementos nem modificadores de valor
restritivo. Porém, os nomes comuns admitem esta possibilidade. Considere-se o
exemplo ilustrativo abaixo, em (43).
(43) a. *Galileu que era físico nasceu em Pisa.
b. *O João inteligente vive em Coimbra. [Duarte e Oliveira (2003:213)]
No que se refere aos nomes comuns, conforme vimos na secção anterior, Duarte
e Oliveira (2003:217) partilham a ideia de que admitem variação de número (o livro/os
livros), sendo que, no singular designam, em geral, um conjunto singular definido pela
intensão expressa pela forma não marcada do nome comum e no plural designam um
conjunto de entidades simples ou colectivas.
Ainda sobre os nomes comuns, considera-se que a construção do seu valor
referencial exige a aplicação de operação de determinação e, por vezes, complementos
e modificadores do valor restritivo. Apresenta-se a seguir em (44) alguns exemplos
ilustrativos contendo os nomes comuns.
(44) a. O bolo que fizeste tem bom aspeto.
b. O carro recém adquirido foi roubado na madrugada.
Ainda sobre os nomes próprios, em particular, Duarte e Oliveira (2003:217)
destacam algumas características morfossintáticas seguintes. Em português, os nomes
próprios que designam indivíduos pertencentes à memória histórico-cultural colectiva
133
ou que designa rigidamente uma única entidade socioculturalmente saliente ocorrem
sem especificadores. Vejam-se os exemplos ilustrativos a seguir em (45).
(45) a.* O Camões nasceu em Portugal.
b. O Luís nasceu em Portugal.
O exemplo em (45) ilustra a realização de nomes próprios, Camões, em (45a), e
O Luís, em (45b).
A agramaticalidade de (45a) deve-se ao facto da presença do especificador
(artigo definido) no contexto em que se realiza um nome próprio Camões, relativamente
a um dado universo de referência, que designa rigidamente uma única entidade
socioculturalmente saliente e que o locutor identifica como o nome do indivíduo que
nasceu em Portugal por volta de 1524, um poeta português e autor do poema mais
importantes da literatura portuguesa, que celebra os feitos marítimos e guerreiros de
Portugal, “Os Lusíadas”, o maior representante do Classicismo Português.
Em (45b), O Luís é um nome próprio, pese embora existam muitos indivíduos
com o mesmo nome, o de Luís, se (45b) for comunicativamente adequado, Luís designa
um único e o mesmo indivíduo para os interlocutores envolvidos no contexto dessa
comunicação.
4. Raposo e Nascimento (2013)
As propriedades mencionadas em Duarte e Oliveira (2003), referentes aos nomes
próprios em português, também são partilhadas em Raposo e Nascimento (2013). Os
autores consideram os nomes próprios como expressões referenciais e designadores
rígidos.
Os nomes próprios, por um lado, segundo os autores, constituem uma espécie
de etiqueta arbitrária cuja ligação direta ao referente tem de ser cognitivamente
partilhada pelos interlocutores num determinado contexto discursivo.
Por outro lado, são designadores rígidos por se constituir uma das caraterísticas
identificadoras da entidade a que é atribuído. Esta particularidade, segundo os autores,
faz distinguir dos pronomes pessoais, por serem designadores variáveis, que não se
134
ligam intrinsecamente a nenhuma pessoa em particular, mas que podem servir para
referir qualquer pessoa, em função do contexto imediato. Enquanto os nomes próprios,
designadores rígidos, estão estreitamente associados aos seus portadores.
No que se refere à variação dos nomes próprios em número, Raposo e
Nascimento (2013:1012) chamam a atenção ao facto de que, em português, língua na
qual muitos nomes próprios têm propriedades que os aproximam dos nomes comuns,
especialmente os antropónimos e os nomes próprios de base descritiva.
Nesse contexto, em primeiro lugar, aponta-se alguns casos de nomes próprios
que funcionam como verdadeiros pluralia tantum, visto que designam entidades
complexas, formadas por partes, que se realizam obrigatoriamente no plural. Tal como
são os casos de exemplos de nomes de arquipélagos, enquanto conjunto de ilhas ((os)
Açores, (as) Antilhas, (as) Baleares, (as) Canárias …) e os nomes de cordilheiras,
enquanto conjuntos de montanhas (os) Alpes, (os) Pirenéus), bem como o nome do país
(os) Estados Unidos da América. Raposo e Nascimento explicam que os nomes
mencionados, em nenhum dos casos, podem ser usados no singular, como é próprio dos
pluralia tantum, inclusivamente para nomear uma das entidades que faz parte do
conjunto.
Em segundo lugar, os autores salientam que os apelidos usam-se com artigo
definido no plural quando referem a família como um grupo (exs.: será que os Castelos
Branco têm alguma coisa a ver com a cidade do mesmo nome? Ou os Pestanas são uma
família muito antiga.). Nestes contextos de pluralização, Raposo e Nascimento,
reconhecendo, no entanto, que o uso do plural em nomes próprios é menos frequente
e considerado não normativo, explicam que é de regra o apelido ocorrer no singular,
sobretudo se é composto por mais de um nome (exs.: os Cerqueira da Mota, os Saraiva
Lobo, os Paiva Raposo, os Melo, os Brito, os Bragança), embora possa ocorrer também
o plural, quando é composto por único nome (ex.: os Silvas, os Costas, os Coelhos).
Salientam ainda que os antropónimos, em português, podem ser usados no
plural quando referem um grupo de indivíduos com o mesmo nome (sem ser com o
sentido de família que se observou no paragrafo anterior), funcionando nesse aspeto,
135
como nomes comuns: as Marias que eu conheço são todas muito simpáticas, qual das
Isabéis vais convidar para a festa ou na minha vida, só namorei Pedros.
Considera-se ainda que os nomes próprios, por vezes, podem ocorrer em
construções típicas de nomes comuns (cf. (46)).
(46) A Coimbra do tempo de Antero de Quental já não existe.
3.2.3 Tipologia dos nomes próprios
Raposo e Nascimento (2013:998) apresentam uma tipologia dos nomes próprios,
organizada em três dimensões, nomeadamente (i) uma dimensão formal, que tem a ver
com o número de palavras que compõem o nome próprio; (ii) uma dimensão semântica,
baseada no seu grau de arbitrariedade ou de motivação semântica e (iii) uma dimensão
ontológica, que tem a ver com a natureza do seu referente.
Numa dimensão formal, que tem ver com o número de palavras que compõem
o nome próprio, Raposo e Nascimento (2013:998) estabelecem nomes próprios simples
e nomes próprios compostos. Os autores dizem tratar-se de nomes próprios simples
aqueles que são constituídos por uma única palavra, como os nomes de lugar (Paris,
Londres, Portugal, Moçambique, Angola, ..), os nomes de baptismo (Clara, Joana, Teresa
, …) e os apelidos (ou nomes de família) maternos e paternos, como Bacelar, Coelho,
etc..
Os nomes próprios compostos são constituídos por expressões mais complexas,
com mais de uma palavra, incluindo nomes de baptismo como Eduardo José, Maria do
Rosário e João Maria, nomes de família como Castelo Branco, Espírito Santo e Paiva
Raposo, nomes de localidades como Castelo Branco e Vila Nova de Milfontes, nomes de
instituições como Museu Nacional de Arte Antiga, e de monumentos, como Torre Eiffel,
entre outros.
Numa dimensão semântica, baseada no seu grau de arbitrariedade ou de
motivação semântica, Raposo e Nascimento (2013:998) consideram que há nomes
próprios que são semanticamente arbitrários (nomes próprios canónicos) e outros que
descrevem o seu referente (nomes próprios de base descritiva). Cada um destes tipos,
136
como referem os autores, tende a especializar-se na nomeação de entidades
ontologicamente distintas.
Os nomes próprios canónicos são aqueles que os falantes identificam mais
prontamente como os mais típicos da classe dos nomes próprios (Lisboa, Rita, Tejo, …),
ou seja, todos os nomes de pessoa (na cultura ocidental, pelo menos) são canónicos,
bem como a maior parte dos nomes de localidades. São canónicos os nomes próprios
de pessoas (antropónimos) e de lugares (topónimos).
Em contrapartida, os nomes próprios de base descritiva têm um sentido
descritivo (na sua totalidade, como Museu de Arte Popular, ou apenas parcialmente,
como Mar de Azov) que se aplica ao seu referente. Uma das caraterísticas dessa
tipologia de nomes próprios, segundo Raposo e Nascimento (2013:1017) é o uso
obrigatório dos artigos definidos.
Relativamente à dimensão ontológica, que tem a ver com natureza do seu
referente, Raposo e Nascimento (2013:1004) classificam os nomes próprios em (i)
antropónimos e (ii) topónimos.
1. Antropónimos
Na ótica dos autores mencionados, os antropónimos são os nomes atribuídos às
pessoas, podendo ser um nome completo: nome de baptismo, prenome ou nome
próprio (Elvira, Emílio, Felisberta, Isabel, João, Jorge, Maria, Pedro, Sara, …) e os apelidos
ou nomes de família, da mãe ou do pai (Lobo, Melo, Mota, Raposo, …).
Entre os antropónimos incluem-se também as alcunhas, os cognomes e os
pseudónimos.
Raposo e Nascimento (2013:1005) consideram que quer os cognomes quer as
alcunhas podem classificar-se como nomes próprios de base descritiva.
Entende-se que as alcunhas são nomes não oficiais, de natureza informal,
atribuídos às pessoas com base nalguma das suas caraterísticas físicas, profissionais ou
de comportamento (ex.: Edison Arantes do Nascimento, mais conhecido pela sua
alcunha Pelé).
137
Os cognomes, por sua vez, são alcunhas mais formais, atribuídas aos reis e as
rainhas (ex.: Lavrador para D. Dinis, Príncipe Perfeito para D. João II, a Rainha Santa, …),
que condensam uma caraterística típica da atividade ou do comportamento dos reis
enquanto governantes, ocorrendo a seguir ao seu nome, numa posição e com uma
função semelhantes às de aposto e precedidos do artigo definido.
Os pseudónimos, segundo os autores referenciados, são nomes fictícios
semelhantes aos nomes próprios canónicos (completos ou não), criados por
personalidades que não se querem dar a conhecer através só seu nome real, ou que
simplesmente consideram que o nome real não tem suficiente impacto público (ex.:
Miguel Torga, pseudónimo de Adolfo Correia Rocha, …).
Raposo e Nascimento (2013:1017) analisam igualmente o uso dos nomes
próprios (antropónimos referentes a pessoas) com os artigos e defendem que na língua
portuguesa tem o uso particularmente liberal dos nomes próprios, na sua função
referencial, em combinação com o artigo definido, sendo a única língua românica que
permite que os antropónimos se combinem com esse artigo no uso normal da língua,
mesmo quando não são modificados restritivamente. Comparem-se os exemplos
seguintes em (47) do português, francês e espanhol, respetivamente.
(47) a. Gosto muito da Isabel.
b. Me gusta mucho la Isabel. [Raposo e Nascimento (2013:1017)]
Nos exemplos em (47), Raposo e Nascimento comparam o uso dos antropónimos
com artigos definidos em português, francês e espanhol. Os autores explicam que em
(47a), é perfeitamente comum em português. Em contrapartida, o exemplo em (47b)
equivalente ao espanhol, embora talvez não deva ser considerado agramatical, não é
usado normalmente e, se for, tem conotação de familiaridade, ou mesmo depreciativa,
que o português não tem.
2. Topónimos
Em Raposo e Nascimento (2013:1005), considera-se topónimos os nomes de
lugar, que são atribuídos a aglomerados de dimensões variadas criados pelos seres
humanos e onde estes vivem em comunidade, nomeadamente nomes das cidades
138
(Porto, Maputo, Lisboa, …), de vilas (Ansião, Cascais, Sintra, …), de aldeias (Alentisca,
Virtudes, …), de ruas, avenidas, praças (Avenida da Liberdade, Praça do Comércio, Rua
da Arrábida, …) e de países (Moçambique, França, Portugal, Brasil, Angola, Cabo Verde,
Iraque, …).
Incluem-se também aos topónimos nomes de acidentes geográficos naturais de
vários tipos, designadamente os nomes de montanhas (Everest), de serras (Serra da
Estrela), de cordilheiras (Himalaias), de lagos (Lago Niassa), de rios (Douro, Zambeze),
de oceanos (Índico) e de continentes (África, Europa).
No que se refere à realização dos artigos definidos com os topónimos, Raposo e
Nascimento (2013:1018) reconhecem que há nomes próprios que só podem ser usados
com artigos, designados nomes próprios especificados ((o) Porto, (o) Tejo, (o) Guadiana))
e outros que são normalmente usados sem artigos, neste caso, os nomes próprios puros
(Braga, Israel, Lisboa). Contudo, reconhecem ainda o seguinte.
(i) O uso do artigo definido com topónimos canónicos não é exclusivo do Português e não
é inteiramente previsível, havendo, desta forma, alguns nomes de países sem artigos (cf.
(48)) e outros com artigos (cf. (48)).
(48) a. Portugal fica situado na Europa. (vs. *O Portugal fica situado na Europa)
b. Sou natural de Moçambique. (vs. *Sou natural do Moçambique).
[Raposo e Nascimento (2013:1019)]
(49) a. A França fica situado na Europa. (vs. *França fica situado na Europa)
b. Sou natural do Brasil. (vs. *Sou natural de Brasil).
(ii) Existe flutuação, com alguns nomes de países, no uso do artigo definido entre os
falantes. Considerem-se alguns exemplos ilustrativos em (50).
(50) a. (A) Espanha fica situada na Europa.
b. Sou natural {da Itália/de Itália}.
c. Vou para {(a) Inglaterra/(a) França}. [Raposo e Nascimento (2013:1019)]
139
3.4 Conclusão do capítulo
Neste capítulo, procurou-se trazer uma abordagem semântica dos nomes
comuns (contáveis, não contáveis e recategorizados) e as suas propriedades básicas em
português. Apresentámos ainda no mesmo capítulo alguns aspetos gramaticais
referentes aos nomes próprios em português. Os nomes próprios são por excelência
expressões referenciais e os nomes comuns pertencem aos predicados (cf. Oliveira,
2006, 2013, 2018). Relativamente aos nomes comuns em português há que se
considerar algumas caraterísticas, nomeadamente a possibilidade de imprimirem
diferentes leituras (universal, específica, existencial, espécie, frase genérica) de acordo
com o tipo de entidade com que se predica e o contexto semântico é fundamental.
Quanto aos nomes contáveis e não contáveis em português europeu, duas propriedades
que os distinguem: cumulatividade e divisibilidade. Apesar desta distinção, os nomes
contáveis no plural e não contáveis apresentam alguns aspetos que os aproximam.
Sintaticamente, segundo Raposo (2013), ambos os nomes (contáveis no plural e não
contáveis) podem ocorrer como núcleo de um SN reduzido, i.e., sem especificador, em
posição pós-verbal e pós-preposicional (um livro de receitas, colar de pérolas). Em Leal
(2009) explica-se que “os nomes contáveis no plural exibem tendencialmente as
propriedades da cumulatividade e da divisibilidade (esta última com certas restrições)”.
Para o autor, se adicionarmos “livros” a “livros”, o resultado final será “livros”, ou seja,
o resultado da adição mantém o mesmo tipo de denotação que cada uma das partes da
adição. Por outro lado, se dividirmos a denotação de “livros”, o resultado final consiste
em conjuntos mais pequenos de “livros”. São, obviamente, excepções os casos em que
um dos conjuntos mais pequenos é constituído apenas por uma entidade. Verificámos
ainda no mesmo capítulo o processo de recategorizacão de nomes contáveis em não
contáveis e vice-versa. Em Raposo (2013:959) distinguem-se três casos de
recategorização de nomes não contáveis em nomes contáveis, nomeadamente dois na
área dos nomes de alimentos e um na área dos nomes abstractos, nomeadamente (i)
porções discretas convencionalizadas, (ii) tipo ou variedades de substâncias e (iii) nomes
abstratos reinterpretados como eventos ou como entidades concretas. Sobre a
recategorização dos nomes contáveis em não contáveis, encontra-se alguma explicação
140
em Leal (2009) e Raposo (2013). Os dois autores partilham por unanimidade a questão
de alguns contextos sintáticos que admitem a recategorização dos nomes contáveis em
não contáveis. Por exemplo, nomes simples em complementos dos verbos de percepção
sensorial, assim como em construções existenciais obrigam a uma interpretação não
contável dos nomes contáveis. Assim, nota-se que “rosa”, “frango” e “bolo” são nomes
que designam não conjuntos de entidades discretas, mas entidades unas encaradas
como contínuas. (cf. Leal, 2009). Por fim, fez-se uma classificação tipológica referente
aos nomes próprios, baseada em Raposo e Nascimento (2013). Os autores apresentam
uma tipologia dos nomes próprios, organizada em três dimensões, nomeadamente (i)
uma dimensão formal, que tem ver com o número de palavras que compõem o nome
próprio (nomes próprios simples e nomes próprios compostos); (ii) uma dimensão
semântica, baseada no seu grau de arbitrariedade ou de motivação semântica (nomes
próprios canónicos e nomes próprios de base descritiva) e (iii) uma dimensão ontológica,
que tem a ver com natureza do seu referente (antropónimos e topónimos). Considera-
se antropónimos os nomes de baptismo, nome próprio, os apelidos ou nomes de família,
da mãe ou do pai assim como as alcunhas, os cognomes e os pseudónimos. Considera-
se topónimos os nomes de lugar, que são atribuídos a aglomerados de dimensões
variadas criados pelos seres humanos e onde estes vivem em comunidade,
nomeadamente nomes das cidades, de vilas, de aldeias, de ruas, avenidas, praças e de
países. Incluem-se também os topónimos nomes de acidentes geográficos naturais de
vários tipos, designadamente os nomes de montanhas, de serras, de cordilheiras, de
lagos, de rios, de oceanos, e de continentes.
141
CAPÍTULO IV – METODOLOGIA DE INVESTIGAÇÃO
4.0 Introdução
Neste capítulo, apresentamos na secção em (4.1) metodologias de pesquisa e de
recolha de dados.
Em segundo lugar, na secção (4.2), procede-se à apresentação da natureza de
dados recolhidos. Em (4.2.1), descreve-se a constituição do corpus em estudo. Na secção
(4.3) são tratados aspetos relacionados com o material e procedimentos de recolha de
dados, especificamente no que se refere ao questionário sociolinguístico em (4.3.1),
tarefa de produção provocada em subsecção (4.3.2), tarefa de juízo de gramaticalidade
e/ou aceitabilidade na subsecção (4.3.3) e em ([Link]) apresenta-se o inquérito
suplementar à tarefa de juízo de gramaticalidade e/ou aceitabilidade.
Na secção em (4.4), descreve-se todo o processo relacionado com a
administração do material usado na recolha de dados.
Em (4.5), apresentamos os aspetos referentes à manipulação ou tratamento dos
dados.
Por fim, na secção (4.6), descrevem-se aspetos referentes à caracterização dos
informantes (amostra) envolvidos no presente estudo.
4.1. Metodologias de pesquisa e recolha de dados linguísticos
A necessidade da pesquisa sobre a realização e/ou ausência de artigos definidos
no singular e no plural por falantes do PM implicou a adoção de certas técnicas sobre a
natureza dos dados a recolher e sobre os materiais, procedimentos e tratamento dos
dados recolhidos. Dada a insuficiência de corpora específicos sobre artigos definidos, a
utilização de inquéritos por questionário afigurou-se como uma metodologia adequada
para os propósitos do presente trabalho.
Para definirmos as metodologias de pesquisa e as fases envolvidas na recolha de
dados linguísticos em que o presente estudo se insere, partimos da proposta
apresentada por Larsen-Freeman & Long (1991: 10-11). De cordo com os autores
referenciados, existem dois paradigmas principais em que poderá ocorrer a investigação
142
sobre dados linguísticos: pesquisa qualitativa ou não experimental e a pesquisa
quantitativa ou (quase) experimental.
O primeiro paradigma define-se sendo aquele em que os investigadores não
procuram testar hipóteses, mas observam os factos que os rodeiam de modo a
desenvolver generalizações (heurística e indutiva). O segundo é típico de uma pesquisa
destinada a testar hipóteses, através do uso de uma variedade de instrumentos e de
análises estatísticas apropriadas.
Ellis (1994: 675), fazendo uma avaliação das metodologias de pesquisa, afirma
que todos os métodos são válidos desde que forneçam resultados consistentes, ou seja,
desde que os dados recolhidos não sejam apenas um reflexo dos instrumentos utilizados
para os recolher. Na mesma linha de pensamento, alguns pesquisadores como Seliger
(1989: 27-28) defendem que os dois paradigmas, qualitativo e quantitativo, podem ser
vistos como complementares. Para os autores, a combinação das estratégias de ambos
os paradigmas determinam a qualidade de um trabalho de investigação em que se
envolvem os dados linguísticos. Esta perspetiva é partilhada por Flynn e Foley (2009:
30), ao afirmarem que dado o facto de que “muitas pesquisas não podem ser
classificadas como sendo puramente qualitativas ou quantitativas” defendem uma
abordagem complementar destes dois paradigmas.
Assim, o estudo que realizámos insere-se nos dois paradigmas citados
anteriormente, na medida em que, por um lado, no paradigma qualitativo, analisámos
as composições produzidas pelos estudantes universitários, num total de trinta (30)
informantes, de cursos propedêuticos da extinta UP – Tete, atualmente UniPúnguè-
Tete, falantes do português (L1 e L2) dos regimes laboral e pós-laboral. A partir das
composições produzidas pelos informantes, constituímos um corpus do qual foi possível
captarmos o comportamento linguístico dos informantes sobre a presença/ausência ou
inserção de artigos definidos no singular e no plural, em português, em diferentes
contextos sintáticos e semânticos.
Por outro lado, tendo em consideração o inquérito por questionário, que foi
subdividido em duas tarefas: uma tarefa de produção provocada (preenchimento de
143
espaços vazios em frases simples) e outra de juízos de aceitabilidade e/ou
gramaticalidade, foi possível quantificarmos os dados linguísticos e agrupá-los segundo
os objetivos de cada tarefa. Assim sendo, acreditamos que esta prática é típica do
paradigma quantitativo.
Contudo, considerando os dados recolhidos por meio das composições escritas,
que constituem o corpus da presente investigação, e os decorrentes do teste de
elicitação, os quais foram tidos como complementares ao corpus, para se determinar o
conhecimento do desenvolvimento linguístico de falantes do PM sobre a realização de
artigos definidos no singular e no plural, o nosso trabalho assenta fundamentalmente
na pesquisa qualitativa. O estudo que realizámos apresenta características próprias
subjacentes à presença/ausência ou inserção de artigos definidos no singular e no plural,
em PM, em diferentes contextos sintático-semânticos, o que culminou na identificação
de padrões preferenciais de realização, ausência e inserção de artigos definidos pelos
informantes.
4.2 A natureza dos dados
As frases com presença/ausência ou inserção de artigos definidos no singular e
no plural, em diversas posições sintáticas, em PM, constitui o nosso foco de interesse.
Para este fim, e como dissemos anteriormente, o corpus em estudo foi constituído por
textos escritos de estudantes universitários de Moçambique, através de aplicação de
um inquérito por questionário, subdividido em duas tarefas fundamentais,
nomeadamente (i) uma tarefa de produção provocada (composições e preenchimento
de espaços vazios em frases) e (ii) de juízos de aceitabilidade de trinta (30) estudantes
de cursos propedêuticos universitários da extinta UP – Tete, atualmente UniPúnguè-
Tete, falantes do português (L1 e L2) dos regimes laboral e pós-laboral. Igualmente, foi
preciso a aplicação do inquérito suplementar à tarefa de juízo de gramaticalidade e/ou
aceitabilidade, que tinha como objetivo avaliar a conceptualização semântica dos
artigos definidos, em PM, a partir de pares de frases identificados como aceitáveis na
tarefa de gramaticalidade e/ou aceitabilidade.
144
O corpus em alusão parece dar conta de existirem algumas especificidades
linguísticas relativamente ao uso de artigos definidos, destacando algumas posições
sintáticas e alguns contextos semânticos em que ocorrem tais artigos no singular e no
plural no PM.
O instrumento de recolha de dados referenciado foi aplicado ao grupo
experimental, composto por trinta (30) estudantes mencionados anteriormente.
A opção por inquérito por questionário deveu-se ao facto da falta de corpora
específicos sobre os artigos definidos no PM. Com efeito, através dos inquéritos
aplicados aos informantes abrangidos pela nossa pesquisa, foi possível:
(i) obter informações detalhadas sobre a realização de artigos definidos no singular e no
plural em vários contextos sintáticos e semânticos do PM, através da aplicação de
tarefas de produção provocada (composições e preenchimento de espaços em branco
em frases simples);
(ii) identificar as diferentes estruturas (sintáticas) e contextos (semânticos) refletidos
por falantes de variedade moçambicana do português em relação ao uso de artigos
definidos no singular e no plural;
(iii) levar os informantes a emitir um juízo de gramaticalidade e/ou aceitabilidade
relativamente ao uso dos artigos definidos no singular e no plural no PM;
(iv) avaliar o desempenho linguístico, referente à realização de artigos definidos no
singular e no plural, no grupo experimental: estudantes universitários da extinta UP –
Tete, atualmente UniPúnguè-Tete.
4.2.1 O Corpus escrito
Uma das finalidades dos inquéritos era verificar como se realizam os artigos
definidos no singular e no plural no PM. Deste modo, identificámos e inquirimos um
grupo experimental composto por trinta (30) estudantes de cursos propedêuticos
universitários da extinta UP – Tete, atualmente UniPúnguè-Tete, falantes do português
(L1 e L2) dos regimes laboral e pós-laboral, sendo quinze (15) em cada regime.
145
4.3 Material e procedimentos
4.3.1 Material e procedimento no questionário sociolinguístico
Na presente pesquisa, optou-se por um questionário sociolinguístico para fins de
obtermos os perfis diversificados dos nossos informantes, relativamente às seguintes
variáveis: idade e género, naturalidade, língua(s) materna(s), (L1), língua(s) adquirida(s)
desde bebé (duas), língua(s) de comunicação com os pais, língua(s) de comunicação com
os irmãos, língua(s) de comunicação com os avós, língua(s) de comunicação com os
amigos.
Para a elaboração de perguntas do questionário sociolinguístico, optou-se por
um questionário de tipo misto, com perguntas fechadas (onde foram apresentadas
alternativas de resposta, de forma antecipada) e com perguntas abertas (nos casos em
que se pretendia recolher informação sobre idade e género, naturalidade, dando ao
informante uma maior liberdade de resposta).
A opção por perguntas fechadas tem em vista garantir a uniformidade das
respostas, evitando respostas estranhas ou irrelevantes por parte dos informantes, que
possam advir das perguntas abertas e, além disso, garantir um tratamento quantitativo
e eficiente dos dados.
4.3.2 Material e procedimento no teste de produção provocada
O teste de produção provocada foi precisamente aplicado a trinta (30)
estudantes de cursos propedêuticos universitários falantes do português (L1 e L2) dos
regimes laboral e pós-laboral (quinze (15) em cada regime), com objetivo de recolher
informações sobre a forma como a população universitária, falantes do PM, realiza os
artigos definidos no singular e no plural, com vista à descrição das posições sintáticas e
contextos semânticos usados quando associados aos antropónimos, topónimos e
nomes comuns (contáveis, não contáveis e recategorizados), em PM.
Tendo em consideração este facto, a tarefa de produção provocada subdividiu-
se em duas sessões.
146
Assim, na primeira sessão, pediu-se aos informantes para produzirem uma
composição (um texto escrito), com o objetivo de avaliar o uso e a frequência dos artigos
definidos no singular e no plural em diversos contextos sintáticos e semânticos. Para
isso, solicitou-se aos informantes de ambos os regimes (laboral e pós-laboral) para
produzirem por escrito uma composição, com base nos temas seguintes, propostos no
quadro em (ii), que lhes foram fornecidos pelo investigador do presente trabalho.
Recordando que os temas que lhes foram propostos deviam ter alguma relação para
cada grupo abrangido pela nossa pesquisa. Visto que, por se tratar de grupos com
regimes de ensino e faixas etárias diferentes, entendemos que possivelmente haja
alguma diferença na preferência dos temas, os quais pressupomos que sejam de
atualidade e de interesse para cada grupo.
Quadro II: Proposta de distribuição de temas para os informantes
Grupo de informantes Proposta de temas Regime de
ensino
A – 15 (i) Os casamentos Laboral
prematuros
(ii) Uma pessoa inesquecível Laboral
B- 15 (i) A minha rotina diária Pós-laboral
(ii) Uma lição de vida Pós-laboral
Fonte: autor
O quadro em (ii) apresenta uma distribuição de temas para os informantes,
estudantes universitários em regime laboral e pós-laboral, abrangidos pela nossa
pesquisa. Como se pode observar, sugerimos dois temas para cada grupo de
informantes. O objetivo da nossa proposta de temas, tal como dissemos anteriormente,
era para permitir uma escolha por parte dos nossos informantes.
Na segunda sessão da tarefa de produção provocada, pretendia-se que os
informantes preenchessem os espaços em branco com elementos linguísticos que se
147
encontravam entre parênteses, que lhes foram sugeridos pelo investigador da presente
pesquisa. Esta tarefa tinha como objetivo analisar o desenvolvimento da competência
gramatical, nomeadamente no que dizia respeito à conceptualização semântica dos
antropónimos – nomes próprios (de pessoas, de figuras salientes ou de personalidades
renomadas, ...), topónimos – nomes de lugares (países, cidades, …) e comuns (contáveis,
não contáveis e recategorizados), com vista a identificarmos os contextos sintáticos e
semânticos de presença/ausência ou inserção dos artigos definidos no singular e no
plural, em PM.
Assim, os informantes preencheram os espaços em branco das frases simples
apresentadas no inquérito, ao critério de cada um deles. Nesta ótica, as frases simples,
que incluíam nomes próprios e comuns, constituíam o estímulo linguístico para que os
informantes preenchessem os espaços em branco com o nome pretendido. A opção por
frases simples justifica-se pela necessidade de estabelecer um contexto frásico tão
simples quanto possível, que permitisse uma compreensão objetiva e direta das frases
pelos informantes.
Em exemplos que se seguem em (1), (2), (3), (4), (5), (6), (7) e (8) apresentamos,
a título ilustrativo, um conjunto de frases fornecidas aos informantes, envolvendo
antropónimos, topónimos e nomes e comuns (contáveis, não contáveis e
recategorizados), em algumas posições sintáticas (Suj. e OD,) em posição Pred. do Suj. e
em SPPREP, em diversos contextos semânticos no presente e pretérito perfeito do
indicativo.
1. (O Ngungunhane, Ngungunhane)40
__________________________ foi um líder marcante na história de libertação de
Moçambique.
2. (de gramática, da gramática)41
40
Frase 1 do inquérito.
41
Frase 7 do inquérito.
148
Ela gostou ______________________.
3. (de gramática, da gramática)42
Ela gosta ______________________.
4. (chá, o chá)43
A Maria tomou ______________ sem açúcar.
5. (cartas, as cartas)44
O governo aprovou ___________________ credenciais dos país vizinhos.
6. (o telemóvel, telemóvel)45
A Rita comprou ____________________ no supermercado.
7. (o telemóvel, telemóvel)46
A Rita compra ____________________ no supermercado
8. (vinhos, os vinhos)47
Os turistas compraram __________________ importados.
Para cada caso, pretendia-se que os informantes preenchessem os espaços em
branco com os elementos linguísticos adequados para cada contexto frásico. Assim,
esperava-se que, nas frases (1), (2), (3), (4), (5), (6), (7) e (8), os espaços em branco
fossem preenchidos, respetivamente, pelo nome adequado, tendo em conta o contexto
frásico para cada caso. Em (1ʼ), (2ʼ), (3ʼ), (4ʼ), (5ʼ), (6ʼ), (7ʼ) e (8ʼ), são apresentadas as
respostas corretas para cada caso:
(1ʼ) Ngungunhane foi um líder marcante na história de libertação de Moçambique.
[figura saliente]
(2ʼ) Ela gostou da gramática. [gramática específica]
(3ʼ) Ela gosta de gramática. [uma gramática qualquer= compêndio]
(4ʼ) A Maria tomou o chá sem açúcar. [uma chávena de chá]
42
Frase 8 do inquérito.
43
Frase 14 do inquérito.
44
Frase 18 do inquérito.
45
Frase 9 do inquérito.
46
Frase 10 do inquérito.
47
Frase 22 do inquérito
149
(5ʼ) O governo aprovou as cartas credenciais dos países vizinhos. [cartas em particular]
(6ʼ) A Rita comprou o telemóvel no supermercado. [objeto específico]
(7ʼ) A Rita costuma comprar telemóvel no supermercado. [leitura de habitualidade,
provavelmente em PB e não em PE]
(8ʼ) Os turistas compraram os vinhos importados. [tipo de substância particularizado]
4.3.3 Material e procedimento na tarefa de juízo de gramaticalidade e/ou
aceitabilidade
O teste de juízo de gramaticalidade e/ou aceitabilidade foi constituído por frases
simples diversificadas, tendo em conta os objetivos da presente pesquisa,
nomeadamente levar os informantes a refletirem sobre o valor de gramaticalidade e/ou
aceitabilidade relativamente à presença/ausência ou inserção de artigos definidos no
singular e no plural em diversos contextos sintáticos e semânticos, em frases do
português.
As frases sugeridas incluíam antropónimos, topónimos e nomes e comuns
(contáveis, não contáveis e recategorizados), em algumas posições sintáticas (Suj, OD,
Pred. do Suj.) e SPREP, em diversos contextos semânticos no presente e pretérito
perfeito do indicativo.
Veja-se a título ilustrativo os exemplos que se seguem em (9) - (28), apresentados
no quadro em (iii).
Quadro III: Algumas frases com presença/ausência ou inserção de artigos definidos no singular
e no plural
GRUPO A Opções
“” “?” “*”
(9) O Manuel viveu no Niassa.48
(10) O Manuel viveu em Niassa.49.
48
Frase 7 do inquérito
49
Frase 8 do inquérito
150
(11) Ele chama-se Pedro.50
(12) Ele chama-se o Pedro.51.
GRUPO B
(13) Minha caneta partiu-se.52
(14) A minha caneta partiu-se.53
(15) O Rui comprou telefone.54
(16) O Rui comprou o telefone.55
GRUPO C
(17) Malária atinge muitas crianças em África.56
(18) A malária atinge muitas crianças em África.57
(19) Os mercados informais vendem açúcar contrabandeado.58
(20) Os mercados informais vendem o açúcar contrabandeado. 59
GRUPO D
(21) A associação de estudantes foi premiada.60
(22) A associação dos estudantes foi premiada.61
(23) Eles são músicos da cidade.62
50
Frase 11 do inquérito
51
Frase 12 do inquérito
52
Frase 19 do inquérito
53
Frase 20 do inquérito
54
Frase 45 do inquérito
55
Frase 46 do inquérito
56
Frase 53 do inquérito
57
Frase 54 do inquérito
58
Frase 67 do inquérito
59
Frase 68 do inquérito
60
Frase 83 do inquérito
61
Frase 84 do inquérito
62
Frase 87 do inquérito
151
(24) Eles são os músicos da cidade.63
GRUPO E
(25) Os vinhos de Portugal foram comprados por turistas.64
(26) Vinhos de Portugal foram comprados por turistas. 65
(27) Ela foi criticada pelas atitudes da sua juventude.66
(28) Ela foi criticada por atitudes da sua juventude.67
Fonte: autor
Os exemplos em (9) – (28) mostram frases com presença/ausência ou inserção
de artigos definidos no singular e no plural em diversos contextos sintáticos e
semânticos, em português. No grupo em A, foram sugeridas frases em português com
antropónimos e topónimos (simples e compostos). O grupo B apresenta frases com
nomes comuns contáveis no singular.
As frases apresentadas no grupo em C incluem os nomes comuns não contáveis
no singular. No grupo em D encontram-se frases que incluem nomes comuns contáveis
no plural.
Finalmente, no grupo em E observam-se frases do português, envolvendo os
nomes não contáveis recategorizados em contáveis.
Assim, os informantes foram submetidos ao teste de juízo de gramaticalidade
e/ou aceitabilidade das frases sugeridas no inquérito. Para tal, os informantes seguiram
as suas intuições, marcando as frases com “”, às bem formadas; “?” - pouco naturais
ou “duvidosas” e “*” – às frases agramaticais ou inaceitáveis.
63
Frase 88 do inquérito
64
Frase 53 do inquérito
65
Frase 54 do inquérito
66
Frase 99 do inquérito
67
Frase 100 do inquérito
152
[Link] Inquérito suplementar à tarefa de gramaticalidade e/ou aceitabilidade
O inquérito suplementar à tarefa de gramaticalidade e/ou aceitabilidade
pretendia avaliar a conceptualização semântica dos artigos definidos, em PM. Desta
forma, os informantes foram orientados para que, a partir de pares de frases
identificados como aceitáveis sobre a tarefa de gramaticalidade e/ou aceitabilidade,
dissessem a diferença entre os dois casos.
Para uma melhor compreensão dos resultados obtidos através do inquérito
suplementar à tarefa de gramaticalidade e/ou aceitabilidade, decidimos apresentar
conceptualizações semânticas dos informantes sobre artigos definidos, em cinco
grupos, nomeadamente A, B, C, D e E tal como foi estruturada a tarefa de
gramaticalidade e/ou aceitabilidade, do inquérito utilizado no âmbito de recolha de
dados.
4.4 Administração do material usado na recolha de dados
O trabalho de campo decorreu no campus universitário da extinta UP – Tete,
atualmente UniPúnguè-Tete. Aprovado o projeto para a produção do presente trabalho
da tese, foi necessário concentrarmo-nos mais nos inquéritos, com vista a obter
informações precisas sobre a realização de artigos definidos no singular e no plural, em
PM, tendo em conta os objetivos que se pretendia alcançar.
Para o efeito realizou-se, numa primeira fase, um inquérito piloto de recolha de
dados, onde foram selecionados aleatoriamente e submetidos ao inquérito sessenta
(60) informantes de cursos propedêuticos universitários, falantes do português (L1 e L2)
dos regimes laboral e pós-laboral (trinta (30) em cada regime).
Esta opção tinha como objetivo garantir a validade dos instrumentos de recolha
de dados no âmbito da realização do presente estudo. Aliás, uma das perspetivas que
tínhamos era de garantir que os inquéritos fossem realizados numa sala de informática,
disponibilizada pela Universidade, com recurso a computadores, cuja finalidade era de
facilitar a codificação dos participantes, processamento de dados obtidos em programas
informáticos e constituição de um corpus escrito digitalizado. Entretanto, através do
inquérito piloto, foi possível registarmos o seguinte:
153
(i) dificuldades no uso do material informático pelos informantes, na ótica de
utilizadores, com maior destaque para os informantes do pós-laboral, que se pressupõe
que seja uma amostra da população mais velha;
(ii) dificuldades de compreensão da tarefa de produção provocada, envolvendo frases
complexas, por parte dos informantes;
(iii) indecisão na realização de artigos definidos em contextos com antropónimos de
algumas figuras salientes do mundo artístico, cultural e literário;
(iv) problemas relacionados com a adequação do nível de linguagem ao da dos
informantes referentes às instruções fornecidas no inquérito, e;
(v) necessidade de reduzir a amostragem para permitir concentração, aprofundamento
e análise de dados recolhidos.
Na segunda fase, tendo em conta os problemas identificados na fase piloto,
houve necessidade de melhorarmos o nosso material de recolha de dados com mais
precisão possível. Assim sendo, os instrumentos de recolha de dados foram
administrados pelo investigador do presente trabalho e submetidos a trinta (30)
informantes de cursos propedêuticos universitários da extinta UP – Tete, atualmente
UniPúnguè-Tete, falantes do português dos regimes laboral e pós-laboral (quinze (15)
em cada regime).
O processo de recolha de dados decorreu em salas separadas, ou seja, cada
grupo de informantes foi submetido aos inquéritos em seu regime de aulas, na sua
respetiva sala. Por se tratar de turmas numerosas, nomeadamente sessenta e nove (69)
estudantes inscritos no regime pós-laboral e sessenta e sete (67) inscritos no regime
laboral, adotámos o sistema de incluirmos para a nossa pesquisa os números pares de
estudantes do laboral e números ímpares de estudantes inscritos no pós-laboral (quinze
(15) em cada regime).
Para isso, solicitou-se aos informantes selecionados, tendo em conta o critério
referenciado, para responderem por escrito e com precisão aos inquéritos que lhes
foram submetidos.
154
Antes de começarem a responder aos inquéritos, houve necessidade de uma
conversa introdutória com os informantes, em que se fornecia instruções preliminares
sobre o processo de recolha de dados.
Durante a interação com os informantes e com recurso ao marcador e quadro
branco explicava-lhes como deviam assinalar as opções sugeridas no inquérito sem fazer
rasuras e de que maneira podiam contribuir para a invalidação de algumas respostas
caso se notasse duas ou mais opções assinaladas, por exemplo, na mesma pergunta.
Depois de me certificar de que todos os informantes compreenderam as
instruções, marcou-se o início de respostas ao inquérito, que teve uma duração máxima
de duas horas e trinta minutos, tempo que nos foi estabelecido e autorizado pela
direção pedagógica da Universidade, para a coleta de dados, tendo em vista que se
tratava do período normal de aulas.
4.5 Tratamento dos dados
Relativamente ao corpus em estudo, tal como referimos anteriormente, para a
recolha de dados, optou-se por um inquérito por questionário, constituído por duas
tarefas fundamentais, nomeadamente (i) uma tarefa de produção provocada
(composições e preenchimento de espaços em branco em frases simples) e (ii) juízos de
aceitabilidade de trinta (30) estudantes abrangidos pela nossa pesquisa.
Os dados recolhidos referentes ao perfil sociolinguístico, tarefa de produção
provocada (composições e preenchimento de espaços em branco em frases simples) e
de juízos de aceitabilidade, foram objeto de dois tipos de análise, como nos referimos
em secções anteriores: uma quantitativa e outra qualitativa.
Relativamente à aplicação dos inquéritos ao grupo experimental, dissemos que
foi preciso diferenciar a forma de codificar os nossos informantes, tendo sido usado o
sistema de atribuir os números pares aos estudantes do laboral e números ímpares aos
estudantes inscritos no pós-laboral.
Após a atribuição do código numérico, procedeu-se à identificação da L1 dos
informantes, numa perspetiva de saber se possui uma LB e/ou LP, seguido da
identificação da sua naturalidade. A título de exemplo: os informantes “A” e “B” em que
155
“A” é um estudante do regime laboral, identificado, por exemplo, como o número 2, o
mesmo tem o português como L1 e é natural de Tete. Este passou a ser identificado
como 02LPTT. O “B”, por sua vez, é um dos informantes do regime pós-laboral, com o
número 1, falante do Xangana como sua L1 e natural de Maputo. Assim sendo, o seu
código identifica-se como 01LBMP.
Feita a atribuição dos códigos aos informantes, foi efetuada uma primeira leitura
dos dados fornecidos, para permitir uma organização dos inquéritos sob forma da
sequência dos números atribuídos aos informantes, em ordem crescente, ou seja, do
inferior ao superior e, seguidamente, procedeu-se à digitalização dos dados, através do
Scanner HP L2753A#AC4 SCANJET Professional 3000 S3 ADF. A opção por este modelo
da HP deve-se ao facto de ser um design moderno e é extremamente compacto, sendo
perfeito para qualquer ambiente de trabalho que não dispõe de muito espaço. Com este
modelo, é possível digitalizar até 50 páginas frente e verso de uma vez, e tem velocidade
de até 25 páginas por minuto. Além disso, este aparelho é portátil e compatível com
Windows mais recente 2016.
Os dados obtidos a partir das composições feitas por nossos informantes foram
posteriormente transcritos para o formato word, fonte 12. O objetivo desta
configuração era o de permitir e facilitar a contagem de palavras escritas por
informantes de cada regime de ensino: informantes inscritos no regime laboral e pós-
laboral. Feito isso, posteriormente foram transformados em formato txt para serem
compatíveis ao software concordancer for Windows, versão 3, o qual foi usado para
identificar a presença/ausência ou inserção de artigos definidos no singular e no plural,
em algumas posições sintáticas (SU, OD, Pred. do suj.) e SPrep.
Uma vez digitalizados os dados recolhidos, procedeu-se ao seu tratamento
estatístico.
A análise estatística foi efetuada com o auxílio do programa SPSS (Statis Package
for the Social Sciences), versão 13.0. A inserção de dados neste programa, em software
computacional, deve-se à sua rapidez e potência de cálculo. Igualmente, submeteu-se
os dados ao programa Statview Se+Graphics, um programa que nos auxiliou bastante na
comparação dos dados recolhidos em várias ordens: o perfil sociolinguístico, os
156
resultados obtidos a partir da tarefa de produção provocada e de juízos de
gramaticalidade e/ou aceitabilidade e os dois grupos de informantes abrangidos pela
nossa pesquisa.
Dada a diferença, de informante para informante, regime para regime, na
satisfação dos inquéritos aplicados especificamente na tarefa de produção provocada e
de juízos de gramaticalidade e/ou aceitabilidade, procurou-se encontrar um fator de
harmonização, pelo que foi preciso contabilizar-se estatisticamente o número total da
presença/ausência e inserção de artigos definidos no singular e no plural, em função de
cada teste de elicitação, número da frase e posição sintática e contexto semântico.
Os resultados obtidos em cada um dos regimes (laboral e pós-laboral) permitem
avaliar a probabilidade estatística de diferença ou de semelhança entre os regimes
comparados, associadas a variáveis dependentes (VD) e as independentes (VI),
referentes aos informantes, sobre a realização de artigos definidos no singular e no
plural e concetualização dos antropónimos, topónimos e nomes comuns (contáveis, não
contáveis e recategorizados) no presente e no pretérito perfeito do indicativo, em PM.
Finalmente, relacionámos alguns dados das duas variantes para verificarmos a
possível influência de algumas variáveis independentes nas variáveis dependentes. Dos
dados obtidos, foram elaboradas tabelas (cf. Capítulo IV), a partir das quais procedemos
às conclusões.
4.6 Caracterização dos informantes (a amostra)
A definição dos informantes foi feita em função do objetivo primordial do
presente estudo, que era compreender em que medida a presença ou ausência de
artigos definidos (no singular e plural) no Português de Moçambique pode contribuir
para a análise semântica da frase e de que forma os nomes são conceptualizados.
Por forma a aceder aos informantes de diferentes pontos de origem e ou
naturalidade e proveniência, decidimos trabalhar com trinta (30) informantes,
estudantes de cursos propedêuticos universitários, tal como caraterizados acima, no
ano académico de 2018. A partir desta população universitária foi possível constituir
uma amostra, com determinadas características sociolinguísticas.
157
A escolha da extinta UP – Tete, atualmente UniPúnguè-Tete, deve-se ao facto de
ser o local de trabalho do pesquisador, onde, ao longo da sua experiência de lecionação,
constatou que os textos produzidos pelos estudantes que ingressam pela primeira vez
na universidade apresentam um padrão interessante relativamente à realização de
artigos definidos no singular e no plural e concetualização dos antropónimos, topónimos
e nomes comuns em PM.
A seleção dos informantes foi feita seguindo a técnica de amostragem por
seleção “aleatória sistemática”. Esta técnica, segundo Marconi & Lakatos (2008: 30),
caracteriza-se: (i) pela ordenação da população de modo a que cada elemento esteja
identificado (através, por exemplo, de uma lista), (ii) pelo estabelecimento de um
intervalo de números para que se escolha um que servirá de ponto de partida, e (iii) pela
escolha dos elementos que vão constituir a amostra. Para estas autores, a técnica de
amostragem por seleção “aleatória sistemática” dá a possibilidade de cada elemento
ser selecionado, isto é, todos têm a mesma oportunidade de ser escolhidos.
Nesta perspetiva e como dissemos anteriormente, das duas turmas abrangidas
pela nossa pesquisa, referentes ao grupo experimental, ambas de cursos propedêuticos,
selecionou-se através de um método de amostragem simples os números pares dos
informantes da turma do laboral (2-30) e números ímpares de informantes inscritos na
turma do pós-laboral (1-29). Desta forma, no presente trabalho, foram selecionados
trinta (30) informantes, que constituem a amostra da nossa pesquisa, distribuídos em
quinze (15) para cada turma.
158
CAPÍTULO V
CONTRIBUTO DOS DETERMINANTES PARA A CONSTRUÇÃO DAS
FRASES NO PORTUGUÊS DE MOÇAMBIQUE: APRESENTAÇÃO E
DESCRIÇÃO DOS DADOS
5.0 Introdução
Tendo como propósito fundamental desta pesquisa estudar em que medida a
presença/ausência de artigos definidos no singular e no plural, no Português de
Moçambique (PM) pode contribuir para a análise semântica da frase e da forma como
os nomes, próprios (antropónimos e topónimos) e comuns (contáveis, não contáveis e
recategorizados), são conceptualizados, neste capítulo fornece-se a apresentação e
descrição dos dados recolhidos.
A descrição desses dados está dividida em três partes, que correspondem às três
etapas distintas do estudo realizado.
Desta forma, numa primeira fase, começamos pela apresentação e descrição dos
dados sociolinguísticos (cf. secção 5.1).
Numa segunda fase, apresentamos os dados do teste de produção provocada (cf.
secção 5.2).
Numa terceira fase, em (5.3), descrevemos os dados da tarefa de juízo de
gramaticalidade e/ou aceitabilidade.
Finalmente, em (5.4) descrevem-se dados do inquérito suplementar à tarefa de
juízo de gramaticalidade e/ou aceitabilidade.
5.1 Apresentação dos dados sociolinguísticos
Nesta secção, apresentamos os dados sociolinguísticos referentes ao grupo
experimental, composto por trinta (30) estudantes de cursos propedêuticos
universitários da UP – Tete, falantes do português (L1 e L2) dos regimes laboral e pós-
laboral.
159
Conforme foi dito no capítulo IV, para a recolha de dados sociolinguísticos dos
sujeitos inquiridos, recorreu-se a um questionário de tipo misto, constituído por
perguntas fechadas e abertas, com a finalidade de obtermos os perfis diversificados dos
informantes, relativamente às seguintes variáveis: idade e género, naturalidade,
língua(s) materna(s), (L1), língua(s) adquirida(s) desde bebé (duas), língua(s) de
comunicação com os pais, língua(s) de comunicação com os irmãos, língua(s) de
comunicação com os avós, língua(s) de comunicação com os amigos.
Os sujeitos inquiridos apresentam perfis diversificados. As tabelas que se seguem
abaixo ((1)-(8)) apresentam os números e a percentagem das variáveis analisadas.
Tabela XV: Idade e Sexo
Idade Sexo Total
Masculino Feminino Frequências Frequências
Absolutas (Nᵒ) Relativas (%)
Regime(s) Regime(s)
D N Total D N Total
15-24 12 4 16 18 6 24 40 50
25-34 5 13 18 4 7 11 29 36.25
35-44 0 4 4 1 2 3 7 8.75
45-64 0 2 2 1 1 2 4 5
Total 17 23 40 24 16 40 80 100
Fonte: autor
Uma análise geral desta tabela permite observar que, relativamente à
distribuição das idades, apresenta uma configuração assimétrica positiva, resultante de
uma população bastante jovem. Assim, 50% dos sujeitos inquiridos tem entre 15 e 24
anos, 36.25% entre 25 e 34 anos, 8,75% entre 45 e 64 anos, e 5% entre 45 e 64%. Na
mesma tabela, nota-se que os sujeitos inquiridos de cursos propedêuticos do regime
laboral (diurno) são mais jovens comparativamente aos dos Pós-laboral. A realidade dos
estudantes universitários em Moçambique mostra que maior parte dos que se
inscrevem e frequentam os cursos laborais são jovens com o nível médio de escolaridade
160
recém-concluído, ao contrário do que acontece com os estudantes universitários do
Pós-laboral, na sua maioria.
No que diz respeito ao sexo, a informação disponível na tabela (I) revela que no
diurno há mais mulheres que os homens e no noturno observa-se porém mais homens
que as mulheres. Esta realidade contrasta parcialmente o que se tem generalizado em
alguns estudos sobre a educação da rapariga em Moçambique. Segundo o Relatório de
avaliação do Plano Estratégico de Educação e Cultura (2006-2010/11), o nível de acesso
ao ensino básico e médio é muito alto, mas as taxas de conclusão e reprovação não
apresentam o mesmo grau de sucesso. A proporção dos rapazes e raparigas que
concluem o ciclo completo do ensino básico e médio permanece distinta: há mais
percentagem alta que a das raparigas. No mesmo documento, são apontadas como
algumas causas da percentagem baixa das raparigas que concluem o ensino básico e
médio, as seguintes: casamento prematuro, gravidez precoce e falta de
acompanhamento e motivação dos pais encarregados de educação.
Tabela XVI: Naturalidade
Naturalidade Zona(s) Regime(s) Total
D N Frequências Frequências
Absolutas Relativas (%)
(Nᵒ)
Norte de Moçambique 1.25
Nampula 0 1 1 1.25
Cabo Delgado 0 0 0 0
Niassa 0 0 0 0
Centro de Moçambique 81,25
Tete 27 20 47 58.75
Manica 5 2 7 8.75
Sofala 2 5 7 8.75
Zambézia 1 3 4 5
Sul de Moçambique 17.5
Maputo 2 9 11 13.75
Gaza 1 0 1 1.25
Inhambane 2 0 2 2.5
Fonte: autor
161
Os resultados apresentados na tabela (XVI) dizem respeito à naturalidade dos
informantes. A análise desta tabela permite-nos observar que os sujeitos inquiridos são,
na sua maioria, da zona Centro de Moçambique, com uma frequência relativa de
81,25%, sendo que a maioria dos inquiridos nasceu na província de Tete com 58.75%.
Na mesma tabela, podemos constatar 17.5% de frequência relativa de sujeitos
inquiridos provenientes da Zona Sul. Desse número, maior parte inclui informantes que
nasceram em Maputo.
Tabela XVII: Língua(s) de primeiro contacto (L1)
Língua(s) de Línguas Regime(s) Total
primeiro D N Frequências Frequências
contacto (L1) Absolutas (Nᵒ) Relativas (%)
Línguas bantu 93.75
Cinyúnguè 20 14 34 42.5
Cinyanja 1 2 3 3.75
Cichewa 1 0 1 1.25
Cimanyika 0 1 1 1.25
Cindau 3 0 3 3.75
Cishona 0 1 1 1.25
Ciwutee 2 0 2 2.5
Cibáruè 1 0 1 1.25
Citewe 1 0 1 1.25
Cisena 2 5 7 8.75
Cichuwabo 1 3 4 5
Citshwa 1 1 2 2.5
Cichopi 0 2 2 2.5
Gitonga 1 0 1 1.25
Cichangana 2 7 9 11.25
Cironga 1 1 2 2.5
Emakwa 0 1 1 1.25
Língua 3 2 5 6.25
Portuguesa
Outras línguas 0 0 0 0
Fonte: autor
A tabela que se apresenta em (XVII) evidencia os resultados relativos à língua(s)
de primeiro contacto dos informantes. Na comparação dos resultados da tabela (XVII),
depreende-se que 93.75% dos informantes têm uma língua moçambicana como sua L1
e apenas 6.25% dos sujeitos inquiridos têm o Português como língua materna.
162
Tabela XVIII: Duas línguas adquiridas desde bebé
Duas línguas adquiridas desde Regime(s) Total
bebé D N Frequências Frequências
Absolutas (Nᵒ) Relativas (%)
Língua Portuguesa + Língua Bantu 03 02 05 6.25
Língua Bantu + Língua Bantu 0 0 0 0
Língua Bantu + Língua Portuguesa 37 38 75 93.75
Fonte: autor
Na tabela (XVIII) descrevem-se resultados relativos a respostas fornecidas pelos
informantes sobre a sequência duas línguas adquiridas desde bebé.
Através da tabela (XVIII), podemos constatar que relativamente à sequência das
duas línguas adquiridas desde bebé, 93.75% dos sujeitos inquiridos adquiriram,
primeiro, uma língua bantu e mais tarde a língua portuguesa, e 6.25% de frequência
relativa dizem ter adquirido, primeiro, a língua portuguesa e depois uma língua bantu.
Tabela XIX: Língua (s) usada(s) para se comunicar com os pais
Língua(s) usada(s) para se Regime(s) Total
comunicar com os pais D N Frequências Frequências
Absolutas (Nᵒ) Relativas (%)
Português 14 7 21 26.25
Português e Língua Bantu 22 20 42 52.5
Língua Bantu 4 13 17 21.25
Fonte: autor
Com base na tabela (XIX), apesentamos os resultados dos informantes referentes
à(s) língua(s) usada(s) para se comunicarem com os pais. Com efeito, na presente tabela,
de uma forma geral, podemos observar que o português e uma língua bantu constituem
línguas dominantes e usadas alternadamente na comunicação dos sujeitos inquiridos
com os seus respectivos pais, com 52.5% de frequência relativa. Na mesma sequência,
26.25% dos sujeitos inquiridos usam a língua portuguesa, em particular, para se
comunicarem com os pais, sendo maior parte desse número informantes do laboral,
com um total de catorze (14) inquiridos, que corresponde à frequência absoluta e 7 do
Pós-laboral. No mesmo contexto, sucedem os restantes 21.25% de frequência relativa
que usam apenas uma língua bantu para se comunicar com os pais, sendo maior parte
163
desse número informantes do Pós-laboral, com um total de treze (13) observações de
frequência absoluta.
No que se refere ao uso exclusivo da língua portuguesa pelos sujeitos inquiridos
para se comunicarem com os seus respetivos pais, a experiência do pesquisador do
presente trabalho mostra que isso é evidente em casos excepcionais, em que os pais (os
cônjuges) são de proveniência e grupo étnico diferentes. Para tal, os cônjuges para se
comunicar recorrem à língua portuguesa.
Tabela XX: Língua(s) usada(s) para se comunicar com os irmãos
Língua(s) usada(s) para se Regime(s) Total
comunicar com os irmãos D N Frequências Frequências
Absolutas (Nᵒ) Relativas (%)
Português 15 11 26 32.5
Português e Língua Bantu 25 20 45 56.25
Língua Bantu 0 9 9 11.25
Fonte: autor
Os resultados que se encontram na tabela (XX) descrevem sensibilidades dos
informantes referentes a língua(s) usada(s) para se comunicar com os irmãos. Observa-
se na referida tabela que, de uma forma geral, os sujeitos inquiridos alternam o
português e uma língua bantu na comunicação com os seus irmãos, com 56.25% de
frequência relativa. De seguida, podemos notar que, ainda na mesma tabela, 32% dos
informantes usa a língua portuguesa em contextos de comunicação com seus irmãos.
Finalmente, nota-se que 11.25% dos informantes do Pós-laboral usa uma língua bantu
na comunicação destes com seus irmãos.
Tabela XXI: Língua(s) usada(s) para se comunicar com os avós
Língua(s) usada(s) para se Regime(s) Total
comunicar com os avós D N Frequências Frequências
Absolutas (Nᵒ) Relativas (%)
Português 5 3 8 10
Português e Língua Bantu 5 8 21 26.25
Língua Bantu 13 29 51 63.75
Fonte: autor
164
Os resultados apresentados na tabela (XXI) permitem verificar que a língua bantu
constitui a língua de comunicação mais usada pelos sujeitos inquiridos com seus avós,
63.75% de frequência relativa. Na comparação dos resultados desta percentagem
(63.75), entre informantes do laboral e pós-laboral, podemos constatar que a maior
parte destes são os informantes do Pós-laboral, com um total de vinte e nove (29)
observações de frequência absoluta e apenas treze (13) do laboral recorrem a uma
língua bantu para efeitos de comunicação com os avós.
A tabela em alusão mostra ainda uma tendência de os informantes usarem
alternadamente o português e uma língua bantu na comunicação com avós, com 26.25%
de frequência relativa, sendo pouco significativa à percentagem dos informantes que
usam apenas o português para se comunicarem com os avós (10%).
Tabela XXII: Língua(s) usada(s) para se comunicar com os amigos
Língua(s) usada(s) para se Regime(s) Total
comunicar com os amigos D N Frequências Frequências
Absolutas (Nᵒ) Relativas (%)
Português 17 13 30 37.5
Português e Língua Bantu 27 19 46 57.5
Língua Bantu 0 4 4 5
Fonte: autor
Em consideração da tabela (XXII), observa-se que, de uma forma geral, os
informantes alternam o português e uma língua bantu na comunicação com os amigos,
com 57.5% de frequência relativa, sendo vinte e sete (27) de frequência absoluta de
informantes do laboral e dezanove (19) dos do pós-laboral. Na tabela em referência,
nota-se que o Português apresenta uma percentagem significativa, 37.5% de frequência
relativa referente ao uso desta língua na comunicação com os amigos pelos informantes
quer do regime laboral quer do regime pós-laboral. Na mesma tabela, destaca-se o facto
de alguns dos informantes do regime pós-laboral usarem exclusivamente uma língua
bantu para fins de se comunicarem com os amigos, com 5% de frequência relativa e
quatro (4) de frequência absoluta.
165
5.2 Resultados do teste de produção provocada
5.2.0 Algumas considerações
O teste de produção provocada, conforme dissemos no capítulo IV, constituiu-se
em duas partes. Assim, na primeira parte, privilegiou-se uma composição (um texto
escrito), com o objetivo de avaliar o uso e a frequência dos artigos definidos no singular
e no plural em diversos contextos sintáticos e semânticos, com base nos temas
propostos pelo investigador. Na segunda parte da tarefa de produção provocada,
sugeriu-se aos sujeitos inquiridos o preenchimento de espaços em branco com
elementos linguísticos que nos interessava estudar.
Esta tarefa tinha como objetivo analisar o desenvolvimento da competência
gramatical, nomeadamente no que dizia respeito à conceptualização semântica dos
antropónimos – nomes próprios (de pessoas, de figuras salientes ou de personalidades
renomados, ...), topónimos – nomes de lugares (países, cidades, …) e comuns (contáveis,
não contáveis e recategorizados), com vista a identificarmos os contextos sintáticos e
semânticos de presença/ausência ou inserção dos artigos definidos no singular e no
plural, em PM.
Na mesma sequência, segue em 5.2.1 a apresentacão dos resultados referentes
à primeira sessão do teste de produção provocada e em 5.2.2 os resultados da segunda
sessão do mesmo teste. Na mesma sequência, segue em 5.2.1 a apresentação dos
resultados da primeira sessão do teste de produção provocada, em [Link] síntese dos
resultados da primeira sessão do teste de produção provocada. Em 5.2.2 apresentam-
se resultados da segunda sessão do teste de produção provocada, em [Link] dispõe-se
a síntese dos resultados da segunda sessão do teste de produção provocada. Em 5.3
apresentamos resultado da tarefa de juízo de gramaticalidade e/ou aceitabilidade, em
5.3.1 síntese do resultado da tarefa de juízo de gramaticalidade e/ou aceitabilidade. Em
5.3.2 apresentação do resultado do inquérito suplementar à tarefa de gramaticalidade
e/ou aceitabilidade e em [Link] síntese do resultado do inquérito suplementar à tarefa
de gramaticalidade e/ou aceitabilidade.
166
5.2.1 Apresentação dos resultados da primeira sessão do teste de produção provocada
Na primeira sessão do teste de produção provocada, conforme dissemos no
capítulo sobre metodologias, foram propostos alguns temas, os quais deviam ter alguma
relação para cada grupo abrangido pela nossa pesquisa, tendo em consideração que os
nossos informantes são estudantes universitários que frequentam cursos de regimes de
ensino diferentes e com faixas etárias também distintas. Por isso, entendemos que
possivelmente haja alguma diferença na preferência dos temas.
A tabela que segue em (XXIII) apresenta resultados quantitativos referentes à
adesão aos temas propostos pelo investigador.
Tabela XXIII: Resultados quantitativos referentes à adesão aos temas
Grupo de informantes Proposta de temas Aderência ao tema
Nº %
A – 15 (i) Os casamentos prematuros 10 66.66
(Regime laboral) (ii) Uma pessoa inesquecível 5 33.33
B- 15 (i) A minha rotina diária 11 73.33
(Regime pós-laboral) (ii) Uma lição de vida 4 26.66
Fonte: autor
A tabela (XXIII) ilustra os resultados referentes à adesão aos temas propostos pelo
investigador, segundo os critérios anteriormente referenciados.
Os temas sugeridos aos informantes são de atualidade e de interesse social.
Conforme se pode ver, o nível de adesão em cada grupo permitiu uma escolha livre por
parte dos informantes.
A leitura desta tabela permite constatar que, no regime laboral, o tema “Os
casamentos prematuros” foi o preferido pelos informantes, com 66.6%, e 33.3% do
mesmo regime optaram pelo tema: “Uma pessoa inesquecível”68.
68
Isto justifica-se pelo facto de que, segundo o Relatório da UNICEF-2011, 2012), Moçambique tem uma
das taxas mais elevadas de casamento prematuro do mundo, afectando quase uma em cada duas raparigas,
e tem a segunda maior taxa na sub-região da África Oriental e Austral. O mesmo Relatório considera que
cerca de quarenta e oito (48) por cento das mulheres em Moçambique, com idades entre os vinte (20) e os
vinte e quatro (24) anos, já foram casadas ou estiveram numa união antes dos dezoito (18) anos e catorze
167
Relativamente ao regime pós-laboral, 73.33% de informantes produziram textos
sob tema “A minha rotina diária” e 26.66% optaram por “Uma lição de vida”. A adesão
ao tema referenciado parece ter a ver com o facto de a maior parte dos informantes do
regime pós-laboral ser estudantes e funcionários.
Nestes conjuntos de resultados da primeira sessão do teste de produção
provocada, os nossos informantes foram orientados para a produção de um texto a
partir de um tema por eles escolhido, distributivamente. Assim, a tabela (XXIV)
apresenta resultados quantitativos referentes aos textos produzidos pelos informantes.
Esta tarefa, como dissemos anteriormente, tinha como objetivo avaliar a ocorrência,
ausência ou inserção dos artigos definidos no singular e no plural em diversos contextos
sintáticos e semânticos.
Tabela XXIV: Resultados de ocorrência, ausência e inserção de artigos definidos
Nº de palavras Categoria Posição NÚMERO DE OCORRÊNCIA, AUSÊNCIA E INSERÇÃO DOS ARTIGOS
produzidas em do nome sintática DEFINIDOS
cada regime e/ou
Presença do artigo Ausência do artigo Inserção do artigo
função
definido definido definido
sintática
Regime(s) Total Regime(s) Total Regime( Total
s)
L. P.L.
D N F.A F.R D N F.A F.R D N F.A F.R
(Nᵒ)
(Nᵒ) (%) (%) (Nᵒ) (%)
Antropóni SUJ. 5 8 13 46,4 5 3 8 28,5 2 5 7 25
4435 4101
mo 135
Pred. do 78 56 134 35.4 10 244 64.5 - - - -
(51.9%)
(simples) 9
Suj.
(48.01%)
OI 21 17 38 64.4 9 12 21 35.5 - - - -
Topónimo SPREP 37 23 60 28.1 23 39 52 24.1 42 59 101 47.
(simples) 4
(14) por cento antes dos quinze (15) anos. Por esse motivo, decorrem frequentemente em muitas escolas
públicas e privadas várias palestras sobre casamentos prematuros.
168
Nome SUJ. 235 19 433 87.4 23 39 62 12.5
8
comum
contável OD 23 17 40 16.8 88 109 197 83.1
(singular) 98 67 165 85.5 9 1769 26 13.4 - - -
OI -
SPREP 25 18 43 29,2 41 63 104 70.7
Nome SUJ 102 87 189 91.3 5 13 18 8,6 - - - -
comum
OD 10 7 17 31.4 16 21 37 68.5 - - - -
contável
SPREP 6 8 13 32.5 11 16 27 67.5
(plural)
Nome SUJ. 9 16 25 53.1 13 9 22 46.8 - - - -
comum
OD 8 5 13 36.1 11 12 23 63.8 - - - -
(não
contável)
Nº total de Nome OD 16 13 29 42 17 23 40 57.9 - - - -
palavras comum
produzidas: não
contável
(recategor
8536 (100%)
izado)
Fonte: autor
A análise quantitativa dos resultados desta tabela permite-nos, de uma forma
geral, observar, olhando para as percentagens, diferenças quanto a: (i) realização de
artigos definidos, (ii) ausência de artigos definidos e (iii) inserção de artigos definidos.
(i) Realização de artigos definidos
Da análise da tabela (XXIV), podemos constatar que os artigos definidos são
realizados significativamente, em primeiro lugar, com os nomes comuns contáveis no
plural, com preferência na posição sintáctica de sujeito, com 91.3% de frequência
69
em casos de um nome ser feminino
169
relativa, como ilustram os exemplos seguintes, retirados dos textos produzidos pelos
informantes.
(1) “As raparigas com acesso à educação casam-se mais tarde porque têm maior poder
de decisão”. 04LBMN
(2) “As pessoas correm de um lado para o outro a procura de sobrevivência”. 029LBSF
Em segundo lugar, podemos ver mais claramente a realização de artigos
definidos com os nomes comuns contáveis no singular, em posição sintática de sujeito,
com um número total de ocorrências na ordem de 87.4% de frequência relativa. Tais
casos são exemplos que se seguem abaixo em (3) e (4), que foram extraídos do corpus
dos informantes.
(3) “Hoje em dia, ter marido é uma honra. Lembro-me que perdi o meu lar devido à
influência de amigas. Eu tinha tudo e não me faltava nada, incluindo a morada que
tínhamos. A casa do meu marido era invejável”. 08LBTT
(4) “Todos os dias, os roubos eram frequentes na minha zona. Um dia, o filho da minha
vizinha salvou muita gente que vivia naquele bairro. Desde daquele dia, ficou uma lição
de vida e nunca vou esquecer dele”. 05LBTT
Num terceiro lugar, é visível a realização dos artigos definidos com os nomes
comuns contáveis no singular, em posição sintática de OI, com 85.5% de frequência
relativa. Tal como acontece com os exemplos seguintes em (5) e (6), extraídos dos textos
produzidos pelos informantes.
(5) “No natal, por exemplo, tenho o hábito de oferecer ao marido um presente especial,
por se tratar de alguém também especial”. 028LBTT
(6) “Para além de estudar, faço comércio de produtos de primeira necessidade. Dou ao
cliente todo o carinho necessário para voltar cá na loja sempre que quiser”. 027LBTT
Num quarto lugar, podemos notar que os artigos definidos também são
realizados com os antropónimos, com 64.4% de frequência relativa, em posição sintática
de OI, como se ilustram os exemplos abaixo, em (7) e (8).
170
(7) “A única pessoa inesquecível é meu esposo de nome Pedrito. Casei-me oficialmente
com ele há dez anos e juntos com dois filhos menores. Após o casamento, mostrei ao
Pedrito o que ele nunca pensou que eu era capaz”. 030LBSF
(8) “São várias as pessoas que entram em nossas vidas para nos tirar felicidade. Mas
também devo reconhecer que existem outras que trazem para nós muita felicidade.
Uma dessas boas pessoas é meu patrão Francisco. Ele deu-me emprego num momento
que eu precisava. Em troca, eu dei ao Francisco um melhor funcionário da empresa
dele, neste caso eu”. 028LBTT
Finalmente, podemos observar a ocorrência de artigos definidos com os nomes
comuns não contáveis, em posição de sujeito frásico, com 53.1% de frequência relativa,
tal como são os casos dos exemplos em (9) e (10), extraídos do corpus produzido pelos
informantes.
(9) “Tive uma vida difícil ao longo da minha juventude. Contudo, a esperança fez vencer
barreira”. 029LBSF
(10) “Devemos aprender com os outros países sobre a gestão dos recursos naturais.
Pois, o carvão é um bem esgotável. Nos tempos que correm, extrai-se drasticamente
toneladas e toneladas do carvão mineral e ninguém está de olha no futuro desse recurso
precioso, sob o risco de extinguir-se em Moçambique”. 021LBTT
(ii) Ausência de artigos definidos
Os dados apresentados na tabela (XXIV) mostram ausência de artigos definidos,
em primeiro lugar, com nomes contáveis no singular, em posição sintática de OD, com
um total de 83.1 % de observações registadas, como ilustram os exemplos seguintes em
(11) e (12), retirados dos textos produzidos pelos informantes.
(11) “As estatísticas apontam 59.2 por cento. As gravidezes precoces rondam nos 43 por
cento. Estes números preocupam governo”. 018LBZB
(12) “De segunda à sexta-feira, levanto-me muito cedo, arrumo casa e me preparo para
serviço”. 09LBMP
Ainda na tabela (XXIV), podemos constatar a ausência de artigos definidos, em
segundo lugar, com nomes contáveis no singular, como complementos de Preposições,
171
com 70.7% de frequência relativa, como ilustram os exemplos que se seguem em (13) e
(14).
(13) “Só depois das 22h:20 minutos é que volto para casa todo fatigado, mas com uma
jornada ganha”. 017LBZB
(14) “A probabilidade de ser abusada por marido e sofrer complicações durante
gravidez aumenta”. 012LBMN
Na mesma sequência, em terceiro lugar, observa-se na tabela (XXIV) ausência de
artigos definidos, com nomes contáveis no plural, em posição sintática de OD, com um
total de 68.5% de observações constatadas, conforme se depreende nos exemplos que
se seguem em (15) e (16), extraídos dos textos produzidos pelos nossos informantes.
(15) “Após minha leitura, gosto de ver novelas mexicanas, mas sempre controlando o
tempo para a faculdade.” 013LPTT
(16) “Uma das consequências trazidas pelos casamentos prematuros é que muitos
abandonam estudos e as responsabilidades dos bebés ficam sobre os seus pais”.
022LBTT
Em quarto lugar, podemos constatar na tabela (XXIV) a ausência de artigos
definidos, em complemento de nome com nome contável no plural, com interpretação
genérica, com 67.5% de frequência relativa. Tais casos são observados em exemplos que
se seguem em (17) e (18), extraídos do corpus produzido pelos nossos informantes.
(17) “O que incentiva a ocorrência de casamentos prematuros na nossa sociedade tem
explicação de natureza adversa.” 016LBSF
(18) “O que acontece na realidade é que os filhos de mães adolescentes são mais
propensos à mortalidade infantil do que os filhos de uma mãe de outras faixas etárias
superiores.” 018LBZB
Em quinto lugar, observa-se na tabela (XXIV) ausência de artigos definidos em
contextos de ocorrência dos antropónimos (simples), como um aposto, com um total de
64.5% de observações identificadas. Em (19) envolve-se o predicado e em (20) ilustra-
se o contexto de Sujeito.
172
(19) “Samora Machel foi primeiro presidente de Moçambique que fazia de tudo para
acabar com os casamentos prematuros”. 08LBTT
(20) “A minha rotina diária tem sido difícil. A minha empregada doméstica, Joana, fica
a dar conta de tudo em casa. Assim, não me preocupo com actividades de casa”.
015LBSF
Finalmente, em sexto lugar, podemos constatar na tabela (XXIV) a ausência de
artigos definidos em contextos de realização de nome massivo e um nome não
contáveis, em posição sintática de OD, com um total de 63.8% de fenómenos
identificados, como se pode depreender nos exemplos seguintes em (21) e (22)
respetivamente, os quais foram retirados do corpus produzido pelos informantes.
(21) “Sou trabalhadora há dez anos. Exerço função de assistente de laboratório.”
015LBSF
(22) “Extraem carvão mineral e nada fazem para ajudar nativos daquela zona. Isto só
pode acontecer aqui no nosso país.” 021LBTT
(iii) Inserção de artigos definidos
Sobre a inserção de artigos definidos, na tabela em (XXIV) nota-se, em primeiro
lugar, a frequência destes em topónimos simples, em obliquos, com 47.4% de registos
identificados. Os exemplos que se seguem, (23) e (24), foram extraídos do corpus
produzido pelos nossos informantes e mostram tal inserção de artigos definidos com
topónimos simples.
(23) “Conheci meu marido no Maputo, quando eu vivia em casa da minha tia. Tudo
começou no Maputo, desde o namoro ate a fase de casamento. Por isso, ele é uma
pessoa inesquecível para mim.” 08LBTT
(24) “O carvão que extraído no Moatize é de qualidade, mas o governo ainda não traçou
políticas que possam beneficiar sociedade moçambicana.” 021LBTT
Ainda no que se refere à tabela (XXIV), finalmente, podemos constatar a inserção
de artigos definidos em antropónimos simples que designam indivíduos pertencentes à
memória histórico-cultural colectiva ou que designa rigidamente uma única entidade
173
socio-culturalmente saliente, em posição sintática do sujeito, com registo de 25% de
ocorrências identificadas, tal como são os exemplos que se apresentam em (25) e (26),
extraídos do corpus produzido pelos informantes.
(25) “O Deus destinou-me aquela pessoa bonita por fora e muito mais bonita pelo
dentro. Assim, tenho rezado que ele continue sempre especial para sempre.” 06LPTT
(26) “O nosso país já teve bons e piores momentos. Os primeiros presidentes de
Moçambique independente concentravam-se na irradicação da pobreza absoluta. O
Armando Guebuza entrou no poder para deixar economia moçambicana em maus
lençóis. Daqui para frente, devemos reflectir nas escolhas que fazemos nos tempos de
eleições presidenciais.” 05LBTT
Analisando o desempenho dos informantes, conforme a tabela (XXIV) referente
aos resultados da tarefa de produção textual, podemos constatar uma diversificação de
realização dos artigos definidos, nomeadamente uma grande predominância
caracterizada pela ausência dos artigos definidos em alguns contextos em que ocorrem
os nomes contáveis (no singular e no plural) e em antropónimos simples, à semelhança
do PE.
Os textos produzidos pelos informantes permitem-nos ainda apresentar outros
contextos que envolvem a realização ou ausência de artigos definidos com os
possessivos, em português. Assim, a tabela (XXV), que se segue abaixo, apresenta
resultados de ocorrência de artigos definidos, envolvendo os possessivos e a tabela que
se segue em (XXVI) ilustra os resultados de ausência de artigos definidos, em contextos
em que ocorrem os possessivos.
Tabela XXV: Resultados de ocorrência de artigos definidos com os possessivos
Nº de palavras Categoria do Posição Tipo de NÚMERO DE OCORRÊNCIA DOS ARTIGOS
produzidas em nome com sintática preposi DEFINIDOS EM POSSESSIVOS
cada regime possessivo e/ou ção
Presença do artigo definido
função
D N Total
sintática
L. P.L.
174
Frequências Frequências
Absolutas Relativas
(Nᵒ) (%)
4435 4101 Nome comum SUJ - 25 37 62 71.2
(51.9%) contável
SPREP em 21 17 38 58.4
(48.01%) (singular)
por 16 11 27 41.5
OD - 5 3 8 33.3
Nome comum SUJ - 19 27 46 74.1
contável
SPREP em 13 10 23 54.7
(plural)
por 9 10 19 45.2
OD - 6 3 9 32.1
Nome comum SUJ - 17 27 44 62.8
(não contável)
SPREP em 10 8 18 47.3
por 14 6 20 52.6
OD - 5 2 7 25
Nº total de Nome comum SUJ - 15 11 26 41.9
palavras não contável
SPREP em 15 7 22 55
produzidas:
(recategorizado
por 11 7 18 45
)
OD - 7 3 10 43.4
8536 (100%)
Fonte: autor
Na tabela em (XXV), podem observar-se resultados de ocorrência de artigos
definidos com os possessivos, envolvendo os nomes comuns contáveis (singular e
plural), não contáveis e recategorizados, em diferentes posições, nomeadamente
Sujeito, OD e SPREP. Em SPREP são envolvidas as seguintes preposições do português:
em e por. A escolha destas preposições do português prende-se com o facto de serem
mais realizadas no corpus dos informantes, em contextos que envolvem os artigos
definidos e possessivos, em diferentes posições sintáticas (Sujeito, OD) e em SPREP.
175
Através desta tabela, de uma forma geral, podemos constatar que, em contextos
em que estão envolvidos os possessivos e nomes comuns contáveis (singular e plural),
não contáveis e recategorizados, há predominância de realização de artigos definidos
em posição sintática de Sujeito e em SPREP, como ilustram as frequências relativas
referentes a estas posições.
Assim sendo, para facilitar a leitura da tabela em (XXV), de uma forma detalhada,
agrupamos os resultados em três categorias, nomeadamente (i) resultados que
envolvem a realização dos artigos definidos com possessivos em posição sintática de
Sujeito, (ii) resultados que envolvem a realização dos artigos definidos com possessivos
em posição sintática de OD e (iii) resultados que envolvem a realização dos artigos
definidos com possessivos em SPREP.
(i) Realização de artigos definidos com possessivos em posição sintática de Sujeito
Através da tabela (XXV), podemos constatar que a presença de artigos definidos
com possessivos envolve os nomes contáveis (singular e plural), não contáveis e
recategorizados, em diferentes posições sintáticas.
Na mesma tabela, pode ser verificado que, relativamente à presença de artigos
definidos com possessivos, os nomes contáveis no plural, em posição sintática de
Sujeito, 74.1% de frequência relativa, constituem uma categoria de nomes com mais
ocorrências constatadas. Tal como se pode depreender em exemplos que se seguem em
(27) e (28), extraídos dos textos produzidos pelos informantes.
(27) “As nossas casas encontravam-se no mesmo Bairro. Dai que o nosso namoro entre
eu e meu marido começou nas escondidas.” 06LPTT
(28) “Os meus filhos constituem o bem precioso que Deus me deu. Assim sendo, eles
permanecerão em minha vida para me encher de felicidades. Por isso, eles são
inesquecíveis.” 08LBTT
Os nomes contáveis no singular, como se pode depreender na tabela em (XXV),
ocupam o segundo lugar de realização de artigos definidos com os possessivos, em
posição sintática do Sujeito, com uma frequência relativa de 71.2% de frequência
176
relativa, como se pode observar os exemplos que se seguem abaixo, em (29) e (30),
extraídos do corpus produzido pelos informantes.
(29) “A minha machamba foi determinante para garantir sobrevivência de meus
encargos. O que aprendi na vida é que não se pode ter uma única fonte de renda. Com
minha machamba, pelo menos a comida não me falta em casa.” 021LBTT
(30) “Tenho visto alguns homens que impedem suas parceiras para estudar e trabalhar.
Uma coisa é certa, quando o casal trabalha as despesas são partilhadas. Assim, por
exemplo, eu e a minha esposa já adquirimos uma viatura. O nosso carro facilita
transporte de bens materiais.” 029LBSF
Na mesma sequência, depreende-se que, na tabela em (XXV), há realização de
artigos definidos em contextos em que ocorrem os possessivos, envolvendo os nomes
não contáveis, com 62.8% de frequência relativa, em posição sintática de Sujeito. Os
exemplos que seguem em (31) e (32) são ilustrativos ao que se sucede em textos
produzidos pelos nossos informantes.
(31) “A aminha amizade circunscreve-se na rotina que tenho levado diariamente. Como
lição de vida, desde sempre, valorizei pessoas e não coisas materiais. Pois, sinto-me mais
feliz em contacto com as pessoas e não com objectos materiais.” 027LBTT
(32) “O meu jeito de fazer coisas foi importante para conquistar tudo que tenho hoje.
O segredo de tudo isso tem a ver com minha simpatia, dedicação e persistência.” 05LBTT
Na tabela em (XXV), ainda podemos observar que há realização de artigos
definidos em contextos em que ocorrem os possessivos, envolvendo os nomes não
contáveis recategorizados, em posição sintática do Sujeito, com 41.9.8% de frequência
relativa das ocorrências observadas em textos produzidos pelos informantes. Em (33) e
(34), apresentam-se exemplos ilustrativos sobre a realização de artigos definidos em
contextos em que ocorrem os possessivos, envolvendo os nomes não contáveis
recategorizados em posição sintática do Sujeito.
(33) “As minhas alimentações não podem ser alteradas por pessoas que não tenho
confiança. Ao longo de tempos, pude notar isso.” 021LBTT
177
(34) “Conseguimos notar pessoas inesquecíveis em momentos de tristeza e de solidão.
As minhas férias, por exemplo, ficam agradáveis quando estiver na companhia de meu
parceiro e de meus filhos.” 08LBTT
(ii) Realização de artigos definidos com possessivos em OD
No que se refere à OD, os resultados apresentados na tabela (XXV) mostram que
há realização de artigos definidos em contextos em que ocorrem os possessivos,
envolvendo os nomes não contáveis recategorizados, com 43.4% de frequência relativa,
pese embora, registam-se mais casos de ausência dos artigos definidos nos mesmos
contextos, como veremos na tabela seguinte em (XXVI).
Os exemplos que seguem em (35) e (36) são ilustrativos relativamente à
realização de artigos definidos em contextos em que ocorrem os possessivos,
envolvendo os nomes não contáveis recategorizados, em posição sintática de OD.
(35) “Os meus pais resolveram os meus problemas no momento em que vivia sempre
em conflitos com meu marido.” 028LBTT
(36) “Naquele tempo, quando acabassem as nossas férias, ninguém gostaria de voltar
para casa de seus pais.” 028LBTT
De seguida, ainda na mesma tabela (XXV), observa-se a realização de artigos
definidos em contextos em que se realizam com os possessivos e com os nomes comuns
contáveis no singular, em posição sintática de OD, com 33.3% de ocorrências anotadas.
Contudo, há mais casos observados que apresentam ausência de artigos definidos,
como veremos posteriormente, na tabela seguinte.
Assim sendo, seguem em (37) e (38) exemplos ilustrativos, extraídos do corpus
produzido pelos nossos informantes sobre alguns casos de realização de artigos
definidos em contextos em que se realizam com os possessivos e com os nomes comuns
contáveis no singular, em posição sintática de OD.
(37) “Quando comprei a minha casa, notei que valeu a pena ter estudado e ter
conseguido um bom emprego. Contudo, dou graça aos meus pais. Eles são inesquecíveis
para mim.” 028LBTT
178
(38) “Tenho aconselhado a minha filha para que nunca passe pela experiência que tive.
Envolvi-me com meu primeiro marido quando eu tinha 16 anos de idade. Só mais tarde,
vi que devia caminhar com meus próprios pés sem depender de alguém
financeiramente.” 029LBSF
Em terceiro lugar, sobre a realização de artigos definidos com possessivos, ainda
na posição sintática de OD, nota-se na tabela (XXV) a ocorrência de nomes contáveis no
plural, com 32.1% de frequência relativa. Na tabela que se segue em (XXVI), porém,
verifica-se mais ausência de artigos definidos, em posição sintática de OD, envolvendo
os possessivos e nomes comuns contáveis no plural, como veremos posteriormente.
Os exemplos seguintes em (39) e (40) mostram realização de artigos definidos
com possessivos, ainda na posição sintática de OD, nota-se na tabela (XXV) a ocorrência
de nomes contáveis no plural.
(39) “Muitas das vezes, as raparigas perdem-se completamente por falta de
acompanhamento de seus pais. Isto é paralelo dizer que a galinha deve guiar os seus
pintainhos para caminho certo.” 026LPMN
(40) “Na altura que eu conheci meu esposo, os meus pais faziam as suas maxambas
bem próximo ao rio. Algumas vezes, ele obrigava-me ir junto com ele para falarmos
assuntos que tinha a ver com nosso casamento. Inocente que eu era, acabei caindo nas
mãos dele.” 06LPTT
Em quarto e último lugar sobre a realização de artigos definidos com possessivos,
ainda na posição sintática de OD, nota-se na tabela (XXV) a ocorrência de nomes comuns
não contáveis, com 25% de frequência relativa. Em oposição a esta percentagem,
observa-se na tabela seguinte, em (XXVI), mais casos de ausência de artigos definidos,
em contextos que envolvem possessivos e nomes comuns não contáveis, em posição
sintática de OD.
Os exemplos que seguem em (41) e (42) são ilustrativos relativamente à
realização de artigos definidos em contextos em que ocorrem os possessivos,
envolvendo os nomes comuns não contáveis, em posição sintática de OD.
179
(41) “Assunto de casamento nunca foi fácil para ninguém e muito menos para raparigas
que se juntam com alguns homens numa fase precoce. Em consequência disso, a
juventude acaba perdendo o seu brilho e o futuro se perde na totalidade.” 04LBMN
(42) “O que tenho feito para ser feliz no dia-a-dia é certamente: abraçar mais a minha
criatividade, a minha estranheza; me permitir rir de mim mesma e das minhas falhas;
e imponderar mulheres no caminho.” 05LBTT
(iii) Realização de artigos definidos com possessivos em SPREP
No que diz respeito ao SPREP, observa-se na tabela (XXV) a realização de artigos
definidos em contextos em que ocorrem as preposições em e por com os possessivos e
os nomes comuns contáveis (singular e plural), não contáveis e recategorizados, sendo
que a preposição em do português com mais frequência em relação à preposição por.
Em primeiro lugar, destacam-se na tabela (XXV) os nomes comuns contáveis no
singular, que se realizam com os artigos definidos, envolvendo os possessivos e a
preposição em, com 58.4% de ocorrências identificadas no corpus dos nossos
informantes. Os exemplos que se seguem em (43) e (44) mostram a realização de artigos
definidos, envolvendo a preposição em, possessivos e nomes comuns contáveis no
singular.
(43) “Ele é uma pessoa admirável, uma pessoa que me orgulho de ter presente na
minha casa e que faço toda a questão de manter perto de mim.” 030LBSF
(44) “Tudo começou na minha escola. Ele sempre vinha ao encontro de alguém que era
um amigo em comum. Ao logo do tempo assumimos relação de namoro até a fase do
casamento.” 030LBSF
Em segundo lugar, verificam-se na tabela (XXV) os nomes comuns
recategorizados, que ocorrem com os artigos definidos, envolvendo os possessivos e a
preposição em, com 55% de ocorrências registadas no corpus dos nossos informantes.
Os exemplos que se seguem em (45) e (46) foram extraídos do corpus produzido pelos
nossos informantes e mostram a realização de artigos definidos em contextos que
envolvem a preposição em, com possessivos e nomes comuns recategorizados.
180
(45) “Quando me tornei mãe pela primeira vez, tive de investir bastante nas minhas
responsabilidades, tanto no serviço assim como em casa. Visto que conciliar família e
serviço não é uma tarefa fácil.” 01LBTT
(46) “As misturas dos meus sumos são especiais. Conheci alguém que se disponibilizou
na resolução de problemas que eu passava naquele tempo.” 08LBTT
Os resultados da tabela (XXV), em terceiro lugar, mostram que os artigos
definidos são realizados em contextos em que ocorrem os nomes comuns contáveis no
plural, possessivos e a preposição em, com 54.7 %, como se pode observar nos exemplos
abaixo, em (47) e (48), extraídos do corpus produzido pelos nossos informantes.
(47) “As raparigas, muita das vezes, engravidam-se precocemente por serem
dependentes financeiramente de seus parceiros. Isto é uma triste realidade que se
verifica na nossa sociedade. Para que esta situação não possa ocorrer nos nossos
Bairros, aconselha-se a vigilância de todos.” 02LBTT
(48) “Uma das medidas que as escolas deviam ter em consideração para casos
específicos de combate contra os casamentos prematuros tem a ver com instalação de
centros de aconselhamento da rapariga. Também é preciso um trabalho aturado com
os nossos líderes comunitários.” 010LBMP
Em quarto lugar, encontram-se na tabela (XXV) os nomes não contáveis, os quais
ocorrem com os artigos definidos, envolvendo os possessivos e a preposição por, com
52.6% de ocorrências registadas no corpus dos nossos informantes. Os exemplos que se
seguem em (49) e (50) foram extraídos do corpus produzido pelos informantes e
mostram realização de artigos definidos em contextos que envolvem a preposição por,
com possessivos e nomes comuns não contáveis.
(49) “Sei pela minha experiência que as pessoas raramente mudam. Razão pela qual ela
é a única pessoa inesquecível.” 021LBTT
(50) “Por ter sido alguém muito especial para mim e para meus filhos, digo e repito
muito obrigado pelo teu amor e dedicação que sempre me habitou.” 08LBTT
181
Na mesma sequência, observam-se, em quinto lugar, os nomes comuns não
contáveis que se realizam com os artigos definidos, envolvendo os possessivos e a
preposição em do português, com 47.3% de frequência relativa. Tal como se pode
constatar a partir dos exemplos apresentados em (51) e (52), os informantes realizam
artigos definidos, envolvendo os nomes não contáveis com os possessivos e a
preposição em.
(51) “Não é fácil admitir na sua vida um novo amor. O meu esposo, no seu lanche
anterior foi infeliz, porque se juntava com alguém que não estava preparada para
assumir publicamente uma companhia séria.” 021LBTT
(52) “Na minha opinião, acho que uma das formas de estancar casamentos prematuros
na nossa sociedade todos homens e raparigas deviam passar pelos ritos de iniciação. Lá,
aprende-se como no devemos comportar para a vida inteira.” 018LBZB
Os resultados disponíveis na tabela (XXV) permitem verificar que, em sexto lugar,
os nomes comuns contáveis no plural realizam-se com artigos definidos, envolvendo a
preposição por e possessivos, com 45.2% de frequência relativa.
Nos exemplos seguintes em (53) e (54) apresentam-se alguns extratos do corpus
produzido pelos informantes.
(53) “A medida que os dias passavam, pois verificava a cada encontro com meu marido
muitos mistérios. Obviamente que tudo era no começo. Agora entendo que toda
atenção que tive será devolvida oportunamente pelos nossos filhos, quase uma réplica
daquilo que lhes tenho dado como educação. Para mim, a grande lição é saber educar
nossos filhos.” 029LBSF
(54) “A minha fase de juventude foi sempre caracterizada pelos conflitos familiares. A
partir dessa fase, tive uma lição de que devemos orar pelos nossos inimigos, que nem
têm cor. A minha mãe perdeu meu pai para uma amiga dela, hoje minha madrasta. Com
esta experiência nunca mais admiti que minha amiga ou vizinha criasse momentos de
se encontrar com meu marido.” 05LBTT
182
Ainda sobre os resultados que se encontram na tabela (XXV), observam-se, em
sétimo lugar, a realização de artigos definidos com os nomes comuns recategorizados,
em contextos que envolvem a preposição por e possessivos, com 45% de frequência
relativa.
Em (55) e (56) apresentam-se alguns exemplos ilustrativos sobre a realização de
artigos definidos com os nomes comuns recategorizados, envolvendo a preposição por
e possessivos.
(55) “Nessa vida, aprendi que devemos ser atenciosos nos nossos alimentos, sem deixar
os terceiros interferem. Coloco isso na minha vida e procuro ser feliz comigo mesma.”
021LBTT
(56) “As nossas raparigas casam-se precocemente devido a problemas financeiros, que
não se dispõem os seus respectivos pais. Em consequência disso, as raparigas sofrem
diariamente qualquer tipo de violência. Os pais dessas raparigas parecem não
consciencializá-las de que cada uma delas é responsável pelas televisões de escolhas
que fazem.” 020LBGZ
Em último lugar, podemos constatar na tabela em (XXV) a realização de artigos
definidos com os nomes comuns contáveis no singular, envolvendo a preposição por e
possessivos, com 41.5% de frequência relativa. Os exemplos que seguem em (57) e (58)
são ilustrativos ao que se sucede com o corpus produzido pelos informantes no que se
refere à realização de artigos definidos com os nomes comuns contáveis no singular,
envolvendo a preposição por e possessivos.
(57) “Não dá para confiar mais em alguém, sobretudo os homens que andam a nos
enganar sempre. No primeiro casamento, divorciei-me porque o meu ex-esposo não
queria que eu continuasse com meus estudos. Dai, não pensei duas vezes. Tive que
deixar tudo para trás e começar a nova vida. Digo sempre para minha família e colegas
do serviço que o amor que tenho pelo meu filho é o maior e mais profundo do que ter
um falso marido, que não te quer ver bem.” 021LBTT
183
(58) “Trabalho arduamente pela minha filha, que está com uma patologia, desde que
ela nasceu. Todos os dias aprendo como ser uma mãe de alguém muito especial. Com
esses problemas, eu aprendi a realizar actividades profissionais que supostamente eram
tidos como dos homens.” 029LBSF
Tabela XXVI: Resultados de ausência de artigos definidos com os possessivos
Nº de palavras Categoria do Posição Tipo de NÚMERO DE AUSÊNCIA DOS ARTIGOS
produzidas em nome com sintática proposição DEFINIDOS EM POSSESSIVOS
cada regime possessivo e/ou
Presença do artigo definido
função
D N Total
sintática
L. P.L.
Frequências Frequências
Absolutas Relativa (%)
(Nᵒ)
4435 4101 Nome SUJ - 16 9 25 28.7
(51.9%) comum
SPREP com 17 20 37 56.9
(48.01%) contável
de 11 17 28 43
(singular)
OD - 7 9 16 66,6
Nome SUJ - 10 6 16 25.8
comum
SPREP com 7 12 19 46.3
contável
de 9 13 22 53.6
(plural)
OD - 8 11 19 67.8
Nome SUJ 15 11 26 37.1
comum (não
SPREP com 6 9 15 35.7
contável)
de 12 15 27 64.2
OD - 8 13 21 75
Nº total de Nome SUJ - 16 20 36 58
palavras comum não
SPREP com 6 10 16 40
produzidas: contável
de 8 16 24 60
184
(recategorizad OD - 5 8 13 56.5
o)
8536 (100%)
Fonte: autor
Os resultados referentes à ausência de artigos definidos com os possessivos são
apresentados na tabela (XXVI). Tal como se pode constatar, de uma forma geral, a partir
da observação da tabela em alusão, há mais ausência de artigos definidos em OD,
envolvendo os possessivos com nomes comuns não contáveis (75%), em primeiro lugar,
nomes contáveis no plural (67.8%), contáveis no singular (66.6%), em terceiro lugar, e
não contáveis recategorizados (56.5%), em quarto lugar.
Para a leitura da tabela em (XXVI), de uma forma detalhada, apresentamos os
resultados em três categorias, nomeadamente (i) resultados de ausência de artigos
definidos, envolvendo os possessivos em OD, (ii) resultados de ausência de artigos
definidos, envolvendo os possessivos em posição sintática de Sujeito e (iii) resultados de
ausência de artigos definidos, envolvendo os possessivos em SPREP, com
particularidade para as preposições com e de do português.
(i) Resultados de ausência de artigos definidos, envolvendo os possessivos em OD
Os resultados apresentados na tabela (XXVI) permitem verificar que há mais
casos de ausência de artigos definidos em contextos em que ocorrem os possessivos,
envolvendo, em primeiro lugar, os nomes comuns não contáveis, 75% de frequência
relativa, em posição sintática de OD. Nos exemplos seguintes em (59) e (60) apresentam-
se alguns extratos do corpus produzido pelos informantes.
(59) “Um dos problemas de casamentos prematuros tem a ver com o facto de muitos
homens casarem com raparigas não para lhes dar seu amor, mas sim alimentar seu
ego.” 024LBIB
(60) “Uma das formas que encontro para não bater bocas com pessoas é guardar meu
silêncio. Nesta vida aprendi muitas coisas, sobretudo quando se cria muitas amizades,
sem medir a devida confiança.” 07LBTT
185
A análise da tabela em (XXVI) permite-nos observar, em segundo lugar, ausência
de artigos definidos em contextos em que ocorrem os possessivos, envolvendo, em
primeiro lugar, os nomes comuns contáveis no plural, em posição sintática de OD, com
67.8% de frequência relativa, como ilustram os exemplos que se seguem em (61) e (62),
extraídos do corpus produzidos pelos informantes.
(61) “Tive sorte de conhecer muitas pessoas. Algumas delas são meus colegas de serviço.
Aprendo muito com meus colegas do serviço.” 06LPTT
(62) “Em aniversários de juventude, sempre convidei minhas vizinhas. Ao longo dos
tempos fui-me apaixonando por elas. Por ironia do destino, de tantas vizinhas com quem
brinquei escolhi uma para ser minha esposa.” 028LBTT
Na mesma sequência, constata-se na tabela (XXVI), em terceiro lugar, ausência
de artigos definidos em contextos que envolvem os possessivos e nomes contáveis no
singular, com 66.6% de frequência relativa.
Os exemplos seguintes em (63) e (64) foram extraídos do corpus produzido pelos
informantes e mostram ausência de artigos definidos em contextos que envolvem os
possessivos e nomes contáveis no singular, em OD.
(63) “Quando compramos nossa primeira casa, todas coisas mudaram. Passamos a ser
felizes. Esse foi momento mais marcante que tivemos.” 030LBSF
(64) “Uma vida conjugal torna difícil no início. O que mais me marcou foi o facto de lidar
com minha sogra. Ela sempre conduziu meu carro, que eu confiava naquela altura. Por
isso, a partir desse momento tive uma lição de vida de que não se deve viver na mesma
casa com sua sogra.” 021LBTT
Em quarto lugar, observa-se na tabela (XXVI) ausência de artigos definidos em
contextos que envolvem os possessivos e nomes não contáveis recategorizados, em
posição de OD, com 56.5% de frequência relativa.
Em (65) e (66) apresentam-se exemplos ilustrativos sobre ausência de artigos
definidos em contextos em que se realizam os possessivos com nomes não contáveis
recategorizados, em posição de OD.
186
(65) “O que me levou a casar com ele é porque ele conseguiu explorar meus
sentimentos ao máximo. No primeiro casamento que tive, as coisas não correram tão
bem. O tal homem só brincava com meus sentimentos e não dava valor que eu merecia.”
08LBTT
(66) “Os nossos padrinhos constituem pessoas inesquecíveis. Eles estão sempre
disponíveis para resolver nossos problemas.” 06LPTT
(ii) Resultados de ausência de artigos definidos, envolvendo os possessivos em posição
sintática do Sujeito
Através da tabela (XXVI), em primeiro lugar, podemos constatar a ausência de
artigos definidos, em contextos em que são realizados os possessivos com nomes não
contáveis recategorizados, em posição sintática de Sujeito, com 58% de frequência
relativa. Tal como se pode depreender em exemplos que se seguem em (67) e (68),
extraídos do corpus produzido pelos informantes.
(67) “Eu faço questão de não misturar as coisas profissionais e sociais. Quando estou no
serviço, eu sempre procurar dar conta das minhas tarefas. Minhas obrigações e
responsabilidades devem ser entendidas em contextos diferentes. Em casa, sou esposa
e mãe e no serviço uma funcionária. No entanto, há muitas mulheres que perdem
casamentos por não saber separar as coisas.” 09LBMP
(68) “Nossas tradições são apontadas como parte influenciadora de casamentos
prematuros. Dai que deve haver um trabalho sério de sensibilização da própria
sociedade com vista ao abandono dessas práticas.” 014LBTT
No mesmo contexto, observa-se, em segundo lugar, na tabela (XXVI), a ausência
de artigos definidos, em contextos que se realizam os possessivos com nomes não
contáveis, em posição sintática de Sujeito, com 37.1% de frequência relativa. Os
exemplos que se seguem em (69) e (70) foram extraídos do corpus produzido pelos
informantes e mostram ausência de artigos definidos em contextos aqui referenciados.
(69) “Casei-me depois de ter conseguido um emprego formal na função pública e não
me arrendo por isso. Nossa relação vai sempre do bom ao melhor. Acho isso uma lição
187
de vida para se seguir, visto que há muitas mulheres por aí que se casam por interesse
financeiro e o pior de tudo e que ficam eternamente dependentes de terceiros, o que
pode interferir negativamente no casamento.” 021LBTT
(70) “Minha ideia sobre casamentos prematuros é a de que ninguém deve ser obrigado
a casar por interesse de seus pais, como é frequente em algumas zonas de
Moçambique.” 020LBGZ
De seguida, em terceiro lugar, podemos observar na tabela (XXVI), a ausência de
artigos definidos, em contextos que se realizam os possessivos com nomes comuns
contáveis no singular, em posição sintática de Sujeito, com 28.7% de frequência relativa.
Tais casos são observados em exemplos que se seguem em (71) e (72), os quais foram
extraídos do corpus produzido pelos informantes.
(71) “Minha mãe é tudo que tenho de valor nessa vida. Ela sempre fez de tudo para
que não me faltasse nada desde bebé. Por isso, ela é a pessoa inesquecível para mim.”
028LBTT
(72) “Tenho tido uma rotina muito difícil. Saio de casa tão cedo para meu serviço e de lá
para universidade. Nossa faculdade localiza-se distante de onde trabalho.” 013LPTT
Em quarto lugar, os resultados apresentados na tabela (XXVI) permitem verificar
a ausência de artigos definidos, em contextos em que são realizados os possessivos com
nomes contáveis no plural, em posição sintática de Sujeito, com 25.8% de frequência
relativa.
Nos exemplos seguintes em (73) e (74) apresentam-se alguns extratos do corpus
produzido pelos informantes.
(73) “Vivi uma situação em que um casal vizinho fez uma escolha de padrinhos por
interesse. Temos assistido ultimamente casamentos de luxo, em que os padrinhos
pagam maior parte das despesas de evento, mas o pior é que passando alguns dias
divorciam-se por falta de acompanhamento desses padrinhos. Nossos padrinhos
apoiam-nos moralmente no que for preciso.” 029LBSF
188
(74) “Há muita coisa par ter como lição de vida. Há tempos atrás, passei por uma
situação delicada. Nossos amigos que agente encontra por ai são um caso merecedor
de muita atenção. Hoje bebem juntos e amanhã o mesmo amigo namora esposa de
outro amigo.” 05LBTT
(iii) Resultados de ausência de artigos definidos, em contextos que são realizados os
possessivos
A análise da tabela (XXVI) permite-nos observar ausência de artigos definidos em
contextos em que ocorrem as preposições com e de com os possessivos e os nomes
comuns contáveis (singular e plural), não contáveis e recategorizados.
Na comparação dos resultados disponíveis na tabela (XXVI) sobre ausência de
artigos definidos, em contextos em que ocorrem os possessivos, em posição sintática de
SPREP, depreende-se que de é a preposição com mais casos de ausência, com 64.2% de
frequência relativa máxima, seguida de com, que se identificaram 56.9% de frequência
relativa máxima.
Através da tabela (XXVI), podemos constatar uma predominância de ausência de
artigos definidos, em nomes comuns não contáveis, em contextos em que são realizados
os possessivos e a preposição de, com 64.2% de frequência relativa. Os exemplos que
seguem em (75) e (76) ilustram o que se sucede no corpus produzido pelos informantes.
(75) “Minha rotina diária é feita com muito sacrifício. Pois, sou divorciado e tenho dois
filhos menores, que ainda precisam acima de tudo de minha presença física.” 07LBTT
(76) “Reclamamos de injustiça que se vive no mundo actual. Mas para piorar, são
poucas as pessoas que lutam pelos direitos básicos de crianças.” 010LBMP
Em segundo lugar, ainda na mesma tabela (XXVI), observa-se a ausência de
artigos definidos em contextos em que se realizam os nomes não contáveis
recategorizados com os possessivos, envolvendo a preposição de, com 60% de
ocorrências anotadas. Em (77) e (78) apresentam-se exemplos ilustrativos sobre a
ausência de artigos definidos em contextos em que se realizam os nomes não contáveis
recategorizados com os possessivos, envolvendo a preposição de.
189
(77) “Sobre casamentos prematuros é uma realidade no nosso país que tem contribuído
negativamente nas raparigas e constitui uma das formas de violação de seus direitos
humanos.” 016LBSF
(78) “No início de tudo estava difícil, visto que eu não tinha ideia de um casamento.
Passando algum tempo, percebi que ele gostava bastante de minhas experiências.”
08LBTT
Em terceiro lugar, a tabela (XXVI) revela a ausência de artigos definidos em
contextos em que é realizada a preposição com, com nomes comuns contáveis no
singular e possessivos. Na mesma sequência, nota-se 56.9 % de frequência relativa de
casos identificados, como ilustram os exemplos que se seguem em (79) e (80), que foram
extraídos do corpus dos informantes.
(79) “Aos Sábados e Domingos gosto de ficar em casa junto de família, e só de quando
em vez saio para passear com meu esposo.” 011LBTT
(80) “No primeiro dia, depois de casamento, tivemos um jantar com minha família.
Confesso que foi um dia inesquecível para todos que estiveram naquele jantar
memorável.” 08LBTT
Ainda a análise da tabela (XXVI), permite-nos observar a ausência de artigos
definidos em contextos em que é realizada a preposição de com nomes comuns
contáveis no plural e possessivos. Na comparação dos resultados da tabela em alusão,
depreende-se que a preposição de, em contextos referenciados, ocupa o quarto lugar,
com 53.6% de frequência relativa.
Nos exemplos seguintes em (81) e (82) apresentam-se alguns contextos
referentes à ausência de artigos definidos em contextos em que é realizada a preposição
de com nomes comuns contáveis no plural e possessivos.
(81) “Minha rotina diária tem sido muito complicada porque saio de casa ao serviço, de
serviço a faculdade, isto é, na tentativa de adquirir meu nível académico, tenho
enfrentado grandes problemas, mas com ajuda de meus colegas e docentes estou a
superar dificuldades diárias.” 01LBTT
190
(82) “Estes casamentos são considerados uniões forçadas, pois crianças são obrigadas a
casarem contra sua vontade, daí que se exige uma sensibilização de nossas
comunidades.” 014LBTT
Com base na tabela (XXVI), podemos observar em quinto lugar os resultados
referentes à ausência de artigos definidos em contextos em que é realizada a preposição
com, envolvendo nomes comuns contáveis no plural e possessivos, com 46.3% de
frequência relativa. Com efeito, seguem em (83) e (84) exemplos que ilustram ausência
de artigos definidos em contextos em que é realizada a preposição com, envolvendo
nomes comuns contáveis no plural e possessivos.
(83) “Tenho dito sempre que tudo que consegui tem a ver com meus pais, que muito
deram de si para o bem de mim e de meus irmãos.” 09LBMP
(84) “Muitos homens que se envolvem com nossas filhas, menores de idade, não
devem ter passado pelos ritos de iniciação. As nossas tradições moçambicanas incluem
todos os valores morais que um ser humano necessita para se respeitar e ser
respeitado.” 04LBMN
Ainda na tabela (XXVI), podemos observar em sexto lugar os resultados relativos
à ausência de artigos definidos em contextos em que é realizada a preposição de,
envolvendo nomes comuns contáveis no singular e possessivos, com 43% de frequência
relativa, tal como se pode observar a partir dos exemplos que se seguem em (85) e (86),
extraídos do corpus produzido pelos informantes.
(85) “Aos Sábados e Domingos gosto de ficar em casa junto de minha família, e só de
quando em vez saio para passear com meu esposo.” 011LBTT
(86) “Actualmente, os casamentos prematuros ganharam proporções alarmantes. Os
seus efeitos têm impacto negativo no desenvolvimento de rapariga que passa por esse
mal.” 02LBTT
Em sétimo lugar, os resultados apresentados na tabela (XXVI) permitem verificar
a ausência de artigos definidos em contextos em que é realizada a preposição com,
191
envolvendo nomes não contáveis recategorizados e possessivos, com 40% de frequência
relativa.
Nos exemplos seguintes em (87) e (88) apresentam-se alguns contextos de
ausência de artigos definidos em contextos em que é realizada a preposição com,
envolvendo nomes não contáveis recategorizados e possessivos. Tais exemplos foram
extraídos do corpus produzido pelos informantes.
(87) “Como lição de vida, aprendi que não devemos ficar dependentes financeiramente
de nossos maridos. Quando me casei, parecia que tudo ia muito bem. Mas quando perdi
meu parceiro, num momento que estava a iniciar a faculdade, não foi fácil conciliar
estudos com minhas angústias e ainda por cima faltava-me o dinheiro para fins de
pagamento de propinas.” 05LBTT
(88) “Apesar de ter uma rotina difícil, há sempre um dia reservado para passatempos
em família. Com nossos passatempos, temos feito algumas visitas turísticas cá na
cidade.” 011LBTT
[Link] Síntese dos resultados da primeira sessão do teste de produção provocada
Em capítulos anteriores e nesta secção em particular referiu-se que o teste de
produção provocada visava recolher informações sobre a forma como a população
universitária, falantes do PM, realiza os artigos definidos no singular e no plural, com
vista à descrição das posições sintáticas e contextos semânticos usados quando
associados aos antropónimos, topónimos e nomes comuns (contáveis, não contáveis e
recategorizados), em PM.
O teste de produção provocada constituiu-se em duas partes. Assim, na primeira
parte, privilegiou-se uma composição (um texto escrito), com o objetivo de avaliar o uso
e a frequência dos artigos definidos no singular e no plural em diversos contextos
sintáticos e semânticos, com base nos temas propostos pelo investigador. Na segunda
parte da tarefa de produção provocada, sugeriu-se aos sujeitos inquiridos o
preenchimento de espaços em branco com elementos linguísticos de que nos
interessava estudar.
192
Relativamente à primeira parte do teste de produção provocada, os resultados mostram
que “Os casamentos prematuros” foi o tema mais preferido pelos sujeitos inquiridos do
regime laboral e “A minha rotina diária” foi tema mais escolhido pelos sujeitos inquiridos
do regime pós-laboral.
Quanto à realização de artigos definidos, os resultados mostram uma
percentagem significativa. Em primeiro lugar, verifica-se que os nomes comuns
contáveis no plural são realizados com artigos definidos, com preferência na posição
sintática de sujeito. Em segundo lugar, constatam os nomes comuns contáveis no
singular. Em terceiro lugar, estão os nomes comuns contáveis no singular, em OI. Os
antropónimos, em OI, são realizados em quarto lugar. Finalmente, em quinto lugar,
ocorrem os nomes comuns não contáveis, em posição de sujeito.
Quanto à ausência de artigos definidos, constata-se que, em primeiro lugar, os
nomes comuns contáveis no singular, em OD. Em segundo lugar, os nomes comuns
contáveis no singular, quando são realizados em SPREP. Em terceiro lugar, observam-se
nomes comuns contáveis no plural, em OD. Os resultados mostram em quarto lugar os
nomes comuns contáveis no plural, em SPREP. Em quinto lugar, os resultados mostram
a ocorrência dos antropónimos (simples), em posição de Predicativa do Sujeito.
Finalmente, em sexto lugar, constam os nomes comuns não contáveis, em OD.
No que se refere à inserção de artigos definidos, os resultados mostram em
primeiro lugar a frequência de topónimos simples, na categoria funcional de SPREP.
Finalmente, observam-se antropónimos simples que designam indivíduos pertencentes
à memória histórico-cultural coletiva ou que designam rigidamente uma única entidade
socioculturalmente saliente, em posição sintática do Sujeito.
Os resultados do teste de produção provocada mostram ainda a realização dos
artigos definidos com possessivos em posição sintática de Sujeito, em OD e em SPREP.
Ainda nesta secção, notamos que há mais ausência de artigos definidos em OD,
envolvendo os possessivos com nomes comuns não contáveis, em primeiro lugar, nomes
contáveis no plural e no singular, em segundo e terceiro lugares respectivamente, e
nomes não contáveis recategorizados, em quarto lugar. Quanto à realização de artigos
193
definidos com possessivos em posição sintática de Sujeito, os resultados mostram a
frequência, em primeiro lugar, dos nomes contáveis no plural. Os nomes contáveis no
singular ocupam segundo lugar de frequência. Na mesma sequência, depreende-se que
os nomes não contáveis estão em terceiro lugar relativamente à sua frequência de
realização com artigos definidos envolvendo os possessivos. Em quarto lugar,
apresentam-se os nomes não contáveis recategorizados.
Relativamente à realização de artigos definidos com possessivos em OD,
constata-se que os nomes não contáveis recategorizados são realizados em primeiro
lugar. De seguida, em segundo lugar, ocorrem os nomes comuns contáveis no singular.
Em terceiro lugar, notam-se nomes contáveis no plural. Em quarto e último lugar
realizam-se nomes comuns não contáveis.
No que se refere à realização de artigos definidos com possessivos em SPREP, os
resultados mostram o seguinte: contextos em que ocorrem as preposições em e por com
os possessivos e os nomes comuns contáveis (singular e plural), não contáveis e
recategorizados, sendo que a preposição em do português com mais frequência em
relação à preposição por. Quanto aos contextos que envolvem a preposição em, em
primeiro lugar, destacam-se os nomes comuns contáveis no singular. Os nomes comuns
recategorizados ocupam o segundo lugar de frequência. Em terceiro lugar, ocorrem os
nomes comuns contáveis no plural. Os nomes comuns não contáveis apresentam-se em
quarto lugar de frequência.
Na mesma sequência, os nomes comuns não contáveis estão em quinto lugar de
frequência. Quanto aos contextos que envolvem a preposição por, nos resultados
verifica-se que, em sexto lugar, dispõem-se nomes comuns contáveis no plural. Os
nomes não contáveis recategorizados ocupam o sétimo lugar de frequência. Em último
lugar, i.e. oitavo, nota-se a realização dos nomes comuns contáveis no singular.
Os resultados apresentados ainda nesta segunda secção do teste de produção
provocada mostram ausência de artigos definidos, envolvendo os possessivos em OD,
posição sintática do Sujeito e em SPREP, com particularidade para contextos que
envolvem as preposições com e de do português.
194
Referente aos resultados de ausência de artigos definidos, envolvendo os
possessivos em OD, os nomes comuns não contáveis ocupam o primeiro lugar de
frequência. Em segundo lugar, apresentam-se os nomes comuns contáveis no plural. O
terceiro lugar é ocupado pelos nomes contáveis no singular. Em quarto lugar, observa-
se os nomes não contáveis recategorizados.
Relativamente aos resultados de ausência de artigos definidos, envolvendo os
possessivos em posição sintática do Sujeito, destacam-se em primeiro lugar os nomes
não contáveis recategorizados. Em segundo lugar, ocorrem os nomes não contáveis. Em
terceiro lugar, constata-se a frequência dos nomes comuns contáveis no singular. Em
quarto lugar, os resultados permitem verificar os nomes comuns contáveis no plural.
Quanto aos resultados de ausência de artigos definidos, em contextos em que
são realizados os possessivos em SPREP, verifica-se ausência de artigos definidos em
contextos em que ocorrem as preposições com e de com os possessivos e os nomes
comuns contáveis (singular e plural), não contáveis e recategorizados. Sendo que, em
primeiro lugar, os contextos que envolvem a preposição de são os mais acentuados
casos de ausência e em segundo lugar os contextos que envolvem a preposição com.
5.2.2 Apresentação dos resultados da segunda sessão do teste de produção provocada
Na segunda sessão da tarefa de produção provocada, como nos referimos no
Capítulo III sobre Metodologias usadas na recolha de dados linguísticos para a presente
pesquisa, utilizámos um inquérito por questionário, subdividido em duas tarefas,
nomeadamente (i) uma tarefa de produção provocada (composições e preenchimento
de espaços vazios em frases) e (ii) de juízos de aceitabilidade que visava analisar o
desenvolvimento da competência gramatical, nomeadamente no que diz respeito à
conceptualização semântica dos antropónimos – nomes próprios (de pessoas, de figuras
salientes ou de personalidades renomados, ...), topónimos – nomes de lugares (países,
cidades, …) e comuns (contáveis, não contáveis e recategorizados), com vista a
identificarmos os contextos sintáticos e semânticos de presença/ausência ou inserção
de artigos definidos no singular e no plural, em PM.
195
Nesta tarefa, foram orientados os informantes para preencheram os espaços em
branco das frases simples, as quais incluíam nomes próprios e comuns.
Tendo em vista a análise dos resultados da segunda sessão do teste de produção
provocada, foram agrupados dados qualitativos e quantitativos. Assim sendo, seguem
na tabela (XXVII), em primeiro lugar, dados qualitativos para cada frase simples. Nesta
tabela, são apresentados os dados que envolvem a presença, ausência e inserção de
artigos definidos em contextos que incluem antropónimos – nomes próprios (de
pessoas, de figuras salientes ou de personalidades renomados, ...), topónimos – nomes
de lugares (países, cidades, …) e comuns (contáveis, não contáveis e recategorizados),
em posição sintática de Suj., em OD, em OI, em Pred. do Suj. e em SPREP no presente e
pretérito perfeito do indicativo.
Em segundo lugar, apresentam-se na tabela (XXVII) resultados quantitativos
referentes à presença, ausência e inserção de artigos definidos em contextos que
incluem antropónimos – nomes próprios (de pessoas, de figuras salientes ou de
personalidades renomados, ...), topónimos – nomes de lugares (países, cidades, …) e
comuns (contáveis, não contáveis e recategorizados), em posição sintática de Suj., em
OD, em OI, em Pred. do Suj. no presente e pretérito perfeito do indicativo.
Tabela XXVII Dados qualitativos sobre a presença, ausência e inserção de artigos definidos
para cada frase simples
Frases Formas Categoria do Posição Presença Ausência do Inserção do
verbais nome sintática do artigo artigo artigo
e/ou
definido definido definido
função
sintática
(1) Foi Antropónimo SUJ Ngungunhane O
(simples) Ngungunhane
(2) Viajou Topónimo OBL para a para Beira ___
(simples) Beira
(3) Foi Antropónimo Pred do o João João ___
(simples) sujeito
196
(4) comprou Antropónimo OI o Pedro Pedro ___
(simples)
(5) Viveu Topónimo OBL em Maputo no Maputo
(simples)
(6) foi Nome comum SUJ a revista revista ___
publicad contável
a (singular)
(7) Gostou Nome comum da de gramática ___
contável gramática
OBL
(singular)
(8) Gosta Nome comum OBL da de gramática ___
contável gramática
(singular)
(9) comprou Nome comum OD o telemóvel ___
contável telemóvel
(singular)
(10) Compra Nome comum OD telemóvel ___
contável
(singular)
(11) Deu Nome comum OI o cão cão ___
contável
(singular)
(12) Foi Nome comum SUJ o petróleo petróleo ___
(não contável)
(13) Vende Nome comum OD petróleo ___
(não contável)
(14) Tomou Nome comum OD o chá chá ___
(não contável)
(15) comprou Nome comum OD o café café ___
(não contável)
197
(16) Compra Nome comum OD o café café ___
(não contável)
(17) transfor Nome comum SUJ os museus museus ___
maram- contável
se
(plural)
(18) aprovou Nome comum OD as cartas cartas ___
contável
(plural)
(19) foi Nome comum OBL das de instituições ___
revista contável instituiçõe
s
(plural)
(20) foram Nome comum Pred. Do os povos povos ___
contável Suj.
(plural)
(21) adquir- Nome comum OD os conhecimento ___
iram não contável conheci- s
mentos
(recategorizado)
(22) compr- Nome comum OD os vinhos vinhos ___
aram não contável
(recategorizado)
Fonte: autor
Os dados expressos na tabela (XXVIII) mostram frases simples num total de doze
(12). Nestas frases, permite-nos fazer uma leitura geral do que se pretendia com esta
atividade direcionada aos informantes.
Tabela XXVIII: Dados quantitativos sobre a presença, ausência e inserção de artigos definidos
para cada frase simples
Ordem Respostas
das
Presença do artigo Ausência do artigo Inserção do artigo
frases
definido definido definido
198
Regime(s) Total Regime(s) Total Regime(s) Total
F.A. F.R. D N F.A. F.R.
(Nᵒ) (%) (Nᵒ) (%)
D N F.A. F.R. D N
(Nᵒ) (%)
(1) - - - - 2 1 3 10 13 15 28 90
(2) 6 2 8 26.66 9 13 22 73.33 - - - -
(3) 5 2 7 23.33 10 13 23 76.66 - - - -
(4) 10 12 22 73.33 5 3 8 26.66 - - - -
(5) - - - - 6 3 9 30 9 12 21 70
(6) 12 10 22 73.3 3 5 8 26.6 - - - -
(7) 6 4 10 33.33 9 11 20 66.66 - - - -
(8)70 6 4 10 33.33 9 11 20 66.66 - - - -
(9) 5 3 8 26.6 10 12 22 73.3 - - - -
(10)71 5 6 11 36.6 10 9 19 63.33 - - - -
(11) 11 9 20 66.6 4 6 10 33.3 - - - -
(12) 10 9 19 63.33 5 6 11 36.66 - - - -
(13)72 5 5 10 33.33 10 10 20 66.66 - - - -
(14) 7 4 11 36.66 8 11 19 63.33 - - - -
(15) 7 5 12 40 8 10 18 60 - - - -
(16)73 7 6 13 43.33 8 9 17 56.66 - - - -
(17) 13 11 24 80 2 4 6 20 - - - -
(18) 7 5 12 40 8 10 18 60 - - - -
(19) 5 7 12 40 10 8 18 60 - - - -
(20) 7 5 12 40 8 10 18 60 - - - -
70
Presente do indicativo
71
Presente do indicativo (com uma leitura de habitualidade)
72
Presente do indicativo (com uma leitura de habitualidade)
73
Presente do indicativo (com uma leitura de habitualidade)
199
(21) 6 4 10 33.33 9 11 20 66.66 - - - -
(22) 5 3 8 26.6 10 12 22 73.3 - - - -
Fonte: autor
Os resultados disponíveis na tabela (XXVIII) permitem verificar que, na frase (1),
em que ocorre o pretérito perfeito do indicativo (foi), os informantes inserem artigos
definidos, em contextos que se realizam antropónimos simples, figura saliente,
(Ngungunhane), na posição sintática do sujeito, com 90% de frequência relativa e
apenas 10% dos informantes omitiram artigo definido. No mesmo contexto, como se
pode verificar na frase em alusão, a realização do artigo definido não é obrigatoriamente
requerida por se tratar de uma figura saliente (Ngungunhane)74 em Moçambique (fator
determinante), como se pode observar em (1ˈ).
(1ˈ) Ngungunhane foi um líder marcante na história de Moçambique.
Na frase em (2), nota-se ausência de artigos definidos pelos informantes, em
contextos que ocorrem os topónimos simples (a Beira), obliquo, com 73.3% de
frequência relativa e 26.6% dos informantes realizaram o artigo definido. Nesta frase, a
realização do artigo definido é obrigatória, por se tratar de um nome da cidade que é a
Beira, que tem origem num nome comum, a beira, (cf. (2ˈ)).
(2ˈ) Ele viajou para a Beira.
Os resultados referentes à frase (3) dizem respeito à realização de antropónimo
simples (o João) na posição sintática de Pred. do sujeito. Tal como se pode constatar a
partir da observação da tabela em (XXVIII), verifica-se mais ausência do artigo definido,
com 76.6% de frequência relativa e apenas 23.3% realizaram o antropónimo simples (o
João) em Pred. do sujeito com artigo definido, em contexto em que, em PE, não se exige
a presença do artigo definido, mesmo que seja uma freasse equativa, (cf. (3ˈ)).
(3ˈ) Seu nome foi João/(foi João seu nome).
74
Império de Gaza que se notabilizou durante a luta contra o colonialismo.
200
Sobre a frase em (4), a tabela (XXVIII) apresenta os resultados referentes à
realização de antropónimo simples (o Pedro), em OI, com o tempo verbal no pretérito
perfeito do indicativo (comprou).
Ainda na frase em (4), observa-se que os informantes realizam o antropónimo
simples (o Pedro) com a presença do artigo definido, com um total de 73.3% de
frequência relativa e apenas 26.6% realizaram-no sem artigo definido, no contexto em
que se exige a realização do artigo definido, (cf. (4ˈ)).
(4ˈ) Ela comprou um romance para o Pedro.
Relativamente à frase (5), a tabela (XXVIII) revela que o topónimo simples
(Maputo), Oblíquo, com o tempo verbal no pretérito perfeito do indicativo (viveu), é
realizado com a inserção do artigo definido, em contexto que não requer a presença do
artigo definido, (cf. (5ˈ)). 70% de frequência relativa corresponde o total de inserções do
artigo definido pelos informantes e 30% realizaram o topónimo simples (Maputo), ,
Oblíquo, sem a presença do artigo definido.
(5ˈ) A Rita viveu em Maputo.
Os resultados apresentados na tabela (XXVIII) permitem verificar que na frase
(6), onde ocorre um nome comum contável no singular (a revista), em posição sintática
de Sujeito, com o tempo verbal no pretérito perfeito do indicativo (foi publicada), nota-
se realização artigo definido pelos informantes, com 73.3% de frequência relativa e
apenas 26.6% observa-se ausência de artigo definido. Tal como se pode constatar no
exemplo seguinte em (6ˈ), a presença do artigo definido naquele contexto é obrigatória.
(6ˈ) A revista de Linguística foi publicada com sucesso.
Os resultados referentes à frase (7) dizem respeito à realização do nome comum
contável no singular (a gramática), oblíquo, no pretérito perfeito do indicativo (gostou).
Tal como se pode constatar a partir da observação da tabela em (XXVIII), verifica-se mais
ausência do artigo definido, com 66.6% de frequência relativa e apenas 33.3%
realizaram o nome comum contável no singular (a gramática), em SPREP com o artigo
201
definido. Nesta frase, o contexto sintático e semântico do predicado verbal exige a
realização do artigo definido, (cf. (7ˈ)).
(7ˈ) Ela gostou da gramática.
A frase em (8), como se pode confrontar na tabela (XXVIII), refere-se à realização
do nome comum contável no singular (a gramática), em SPREP, no presente do
indicativo (gosta). A análise desta tabela permite-nos observar que há uma
predominância de ausência do artigo definido, com 66.6%de frequência relativa e
apenas 33.3% realizaram o nome comum contável no singular (a gramática), oblíquo
com artigo definido, que obrigatoriamente o contexto sintático e semântico do
predicado verbal não requer a presença do artigo definido, (cf. (8ˈ)).
(8ˈ) Ela gosta de gramática.
A frase que se apresenta em (9), conforme a tabela em (XXVIII), é referente à
realização do nome comum contável no singular (o telemóvel), em OD, com o tempo
verbal no pretérito perfeito do indicativo (comprou). Na comparação dos resultados
desta frase, verifica-se mais ausência do artigo definido, com 73.3% de frequência
relativa e apenas 26.6% realizaram o artigo definido. (cf. (9ˈ)).
(9ˈ) a. A Rita comprou telemóvel no supermercado.
b. A Rita comprou o telemóvel no supermercado.
Através da tabela (XXVIII), podemos constatar que a frase (10) diz respeito à
realização do nome comum contável no singular (telemóvel), em posição sintática de
OD, com o tempo verbal no presente do indicativo (compra). Tal como se pode constatar
a partir da observação da tabela em (XXVIII), verifica-se mais ausência de artigo definido,
com 63.3% de frequência relativa e apenas 36.6% realizaram o nome comum contável
no singular (telemóvel), em posição sintática de OD com artigo definido. Nesta frase, o
contexto semântico do predicado verbal não exige a presença do artigo definido, por
nos remeter a uma leitura de habitualidade, (cf. (10ˈ)).
(10ˈ) A Rita compra telemóveis no supermercado.
202
Sobre a frase (11), disponível na tabela (XXVIII), observa-se realização do nome
comum contável no singular (o cão), em posição sintática de OI, com o tempo verbal
flexionado no pretérito perfeito do indicativo (deu).
Assim sendo, podemos verificar que, na tabela (XXVIII), há realização significativa
do artigo definido com nome comum contável no singular (o cão), em posição sintática
de OI, com 66.6% de frequência relativa e apenas 33.3% observa-se ausência do artigo
definido com o nome comum contável no singular (o cão), no contexto em que se exige
a sua realização de acordo com o tipo de predicado verbal desta frase, (cf. (11ˈ)).
(11ˈ) Ele deu comida ao cão.
Com base na frase (12), apresentada na tabela (XXVIII), constata-se a
realização do nome comum não contável (o petróleo), em posição sintática do Sujeito,
com o tempo verbal flexionado no pretérito perfeito do indicativo (foi). Na mesma
sequência, sucedem mais casos de realização do artigo definido, com 63.3% de
frequência relativa e menos casos de ausência do artigo definido, com 36.6%, em
contexto em que se requer a realização do artigo definido, (cf. (12ˈ)).
(12ˈ) O petróleo sempre foi um bem esgotável.
Na frase (13) da tabela (XXVIII), podemos confrontar os resultados referentes à
realização do nome comum não contável (o petróleo), em posição sintática de OD, com
o tempo verbal flexionado no presente do indicativo (vende). Neste contexto, podemos
observar mais ausências do artigo definido, com 66.6% de frequência relativa e apenas
33.3% de realização do artigo definido com o nome comum não contável (o petróleo),
em posição sintática de OD, no contexto em que se exige a sua realização de acordo com
o tipo de predicado verbal desta frase, que nos remeter a uma leitura de habitualidade
(cf. (13ˈ)).
(13ˈ) Moçambique vende petróleo às Nações Unidas.
Os resultados da frase (14), como se pode observar na tabela (XXVIII),
mostram a realização do nome não contável (o chá), em OD, com o tempo verbal
flexionado no presente do indicativo (tomou). Na mesma sequência, sucedem mais
203
casos de ausência do artigo definido, com 63.3% de frequência relativa e menos casos
de realização do artigo definido, com 36.6%, (cf. (14ˈ)).
(14ˈ) A Maria tomou o chá sem açúcar.
No que se refere à frase (15), a tabela (XXVIII) revela que o nome não contável (o
café), em OD, com verbal flexionado no presente do indicativo (comprou), é realizado
predominantemente sem o artigo definido, em contexto que não se requer a presença
do artigo definido, (cf. (15ˈ)). 60% de frequência relativa corresponde o total de
ausências do artigo definido e 40% realizaram o nome comum não contável (o café), em
posição sintática de OD, com presença do artigo definido.
(15ˈ)Ela comprou o café africano.
Na frase em (16), nota-se ausência de artigos definidos, em contextos que
ocorrem o nome comum não contável (o café), em OD, com o tempo verbal flexionado
no presente do indicativo (compra), com 56.6% de frequência relativa e 43.3% dos
informantes realizaram o artigo definido. Nesta frase, a realização do artigo definido é
requerida obrigatoriamente, devido ao tipo de predicado verbal da frase, pese embora
se espere uma leitura de habitualidade, (cf. (16ˈ)).
(16ˈ) Ela compra o café africano.
Os resultados apresentados na tabela (XXVIII) permitem verificar que na frase
(17), onde ocorre um nome comum contável no plural (os museus), em posição sintática
de Sujeito, nota-se uma realização significativa do artigo definido pelos informantes,
com 80% de frequência relativa e apenas 20% observa-se ausência do artigo definido.
Tal como se pode constatar no exemplo seguinte em (17ˈ), a presença do artigo definido,
em PE, é requerida pelo contexto sintático da frase em alusão (Sujeito), (cf. (17ˈ)).
(17ˈ) Os museus comunitários nacionais transformaram-se numa atraccão turística.
Através da tabela (XXVIII), podemos constatar ainda que a frase (18) diz respeito
à realização do nome comum contável no plural (as cartas), em posição sintática de OD,
com o tempo verbal flexionado no pretérito perfeito do indicativo (aprovou). Tal como
se pode constatar a partir da observação da tabela em (XXVIII), verifica-se mais ausência
204
do artigo definido, com 60% de frequência relativa e apenas 40% realizaram o nome
comum contável no plural (as cartas), em posição sintática de OD com artigo definido.
Nesta frase, a realização ou ausência do artigo definido é parcial favorável ao contexto
desta frase, (cf. (18ˈ)).
(18ˈ) a. O governo aprovou cartas credenciais dos países vizinhos.
b. O governo aprovou as cartas credenciais dos países vizinhos.
Na mesma tabela, pode observar-se a frase (19), que mostra a realização do
nome comum contável no plural (instituições), oblíquo, com o tempo verbal flexionado
no pretérito perfeito (foi revista). Na mesma sequência, sucedem mais casos de ausência
do artigo definido, com 60% de frequência relativa e menos casos de realização do artigo
definido, com 40%, em contexto em que se requer a realização do artigo definido, por
se estar a falar de uma lei para todas as instituições (cf. (19ˈ)).
(19ˈ) A lei das instituições do ensino superior foi revista.
Ainda na tabela (XXVIII), podemos observar os resultados da frase (20) sobre a
realização do nome comum contável no plural (os povos), em posição Predicativa do Suj,
com o tempo verbal flexionado no pretérito perfeito (foram). Tal como se pode
constatar a partir da observação da tabela em (XXVIII), verifica-se mais ausência do
artigo definido, com 60% de frequência relativa e apenas 40% realizaram o nome
comum contável no plural (os povos), em posição Pred. Suj, com o artigo definido. O
contexto sintático desta frase, em PE, não requer a realização do artigo definido, (cf.
(20ˈ)).
(20ˈ) Eles foram povos primitivos.
Relativamente à frase (21), na tabela (XXVIII) depreende-se que o nome não
contável recategorizado (os conhecimentos), em posição sintática de OD, com o tempo
verbal flexionado no pretérito perfeito do indicativo (adquiriram), é realizado
predominantemente sem o artigo definido, em contexto em que a presença ou ausência
do artigo definido é parcialmente favorável à frase em referência, (cf. (21ˈ)). 66.6% de
frequência relativa corresponde o total de ausência do artigo definido e 33.3% refere-
205
se à realização do nome não contável recategorizado (os conhecimentos), em posição
sintática de OD.
(21ˈ) a. Os finalistas adquiram conhecimentos tecnológicos inovadores.
b. Os finalistas adquiram os conhecimentos tecnológicos inovadores.
Na frase em (22), em última posição, como se pode observar na tabela (XXVIII),
nota-se ausência de artigos definidos, em contextos que ocorrem o nome não contável
recategorizado (vinhos), em posição sintática de OD, com o tempo verbal flexionado no
pretérito perfeito do indicativo (compraram), com 73% de frequência relativa e 26.6%
dos informantes realizaram o artigo definido. Nesta frase, a presença ou ausência do
artigo definido é possível, embora com interpretações diferentes, (cf. (22ˈ)).
(22ˈ) a. Os turistas compraram vinhos importados.
b. a. Os turistas compraram os vinhos importados.
[Link] Síntese dos resultados da segunda sessão do teste de produção provocada
Os resultados de análise efectuada nesta sessão referem-se aos resultados de
uma tarefa de produção provocada (preenchimento de espaços vazios em frases). Nesta
tarefa, foram orientados os informantes para preencheram os espaços em branco das
frases simples, as quais incluíam nomes próprios e comuns. A opção por frases simples
justifica-se pela necessidade de estabelecer um contexto frásico tão simples quanto
possível, que permitisse uma compreensão objetiva e direta das frases pelos
informantes.
Os resultados disponíveis nesta sessão permitem verificar que, na frase (1), em
que ocorre o pretérito perfeito do indicativo (foi), os informantes inserem artigos
definidos, em contextos que se realizam antropónimos simples, figura saliente,
(Ngungunhane), na posição sintática do sujeito. Na frase em (2), nota-se ausência de
artigos definidos em contextos que ocorrem os topónimos simples (a Beira – que tem
origem de um nome comum), em SPREP. Os resultados referentes à frase (3) dizem
respeito à realização de antropónimo simples (o João) com artigo definido em Pred. do
Sujeito. Em frase (4), observa-se que os informantes realizam antropónimo simples (o
Pedro), em OI, com o tempo verbal no pretérito perfeito do indicativo (comprou) com a
206
presença do artigo definido. Os resultados permitem constatar que na frase (6), onde
ocorre um nome comum contável no singular (a revista), em posição sintática de Sujeito,
com o tempo verbal composto no pretérito perfeito do indicativo (foi publicada), nota-
se realização artigo definido pelos inquiridos. Os resultados referentes à frase (7) dizem
respeito à realização do nome comum contável no singular (a gramática), em SPREP,
envolvendo um predicado verbal no pretérito perfeito do indicativo (gostou). Os
resultados permitem constatar mais ausência do artigo definido ao realizar um nome
comum contável no singular (a gramática), em SPREP. Os resultados referentes à frase
em (8) permitem observar que há uma predominância de ausência do artigo definido
quando se realiza um nome comum contável no singular (a gramática), em SPREP. A
frase em (9) refere-se à realização do nome comum contável no singular (o telemóvel),
em OD, com o tempo verbal no pretérito perfeito do indicativo (comprou). Os resultados
relativos a esta frase permitem observar mais ausência do artigo definido. Os resultados
que se referem à frase em (10) permitem verificar mais ausência de artigo definido, em
contextos que se realizam um nome comum contável no singular (telemóvel), em OD.
Sobre a frase (11), os resultados permitem registar mais ausência de artigo
definido em contextos que se realiza um nome comum contável no singular (o cão), em
OI, com o tempo verbal flexionado no pretérito perfeito do indicativo (deu). Na mesma
sequência, na frase (12), constata-se a realização do artigo definido em contextos que
envolvem um nome comum não contável (o petróleo), em posição sintática do Sujeito,
com o tempo verbal flexionado no pretérito perfeito do indicativo (foi). Na frase (13), os
resultados permitem verificar mais ausência de artigo definido em contextos que se
realiza um nome não contável (o petróleo), em OD, com o tempo verbal flexionado no
presente do indicativo (vende). Os resultados da frase (14) permitem constatar mais
ausência de artigo definido em contextos que se realiza um nome não contável (o chá),
em OD, com o tempo verbal flexionado no presente do indicativo (tomou).
No que se refere à frase (15), os resultados permitem observar com maior
frequência a ausência de artigo definido em contextos que se realiza um nome comum
não contável (o café), em OD, com o tempo verbal flexionado no presente do indicativo
(comprou). Na frase em (16), nota-se ausência de artigos definidos, em contextos que
207
ocorrem o nome comum não contável (o café), em OD, com o tempo verbal flexionado
no presente do indicativo (compra).
Os resultados relativos à frase (17) permitem observar uma realização
significativa de artigo definido em contextos que envolvem um nome comum contável
no plural (os museus), em posição sintática de Sujeito. Na frase (18), os resultados
permitem notar ausência de artigo definido em contextos de realização do nome
comum contável no plural (as cartas), em OD, com o tempo verbal flexionado no
pretérito perfeito do indicativo (aprovou).
Em (19), os resultados mostram ausência de artigo definido em contextos
que se realiza um nome comum contável no plural (instituições), em SPREP, com o
tempo verbal flexionado no pretérito perfeito (foi revista). Os resultados da frase (20)
permitem constatar ausência de artigo definido em contextos de realização de um nome
comum contável no plural (os povos), em posição Predicativa do Sujeito, com o tempo
verbal flexionado no pretérito perfeito (foram).
Relativamente à frase (21), os resultados mostram ausência de artigo definido
em contextos que se realiza um nome não contável recategorizado (os conhecimentos),
em OD, envolvendo um tempo verbal flexionado no pretérito perfeito do indicativo
(adquiriram). Na frase em (22), os resultados mostram ausência de artigo definido em
contextos que ocorrem o nome não contável recategorizado (vinhos), em OD,
envolvendo um tempo verbal flexionado no pretérito perfeito do indicativo
(compraram).
5.3 Apresentação dos resultados da tarefa de juízo de gramaticalidade
e/ou aceitabilidade
Conforme nos referimos na introdução, a presente pesquisa propõe analisar em
que medida a presença ou ausência dos artigos definidos no singular e no plural, no PM,
pode contribuir para a análise semântica da frase e de que forma os nomes são
208
conceptualizados. Tal como se observou no capítulo IV, para a recolha de dados,
recorreu-se a um inquérito por questionário, subdividido em duas tarefas,
nomeadamente (i) uma tarefa de produção provocada (composições e preenchimento
de espaços vazios em frases) e (ii) de juízos de aceitabilidade, o qual foi aplicado ao
grupo experimental, constituído por trinta (30) estudantes de cursos propedêuticos
universitários da UP – Tete, falantes do português (L1 e L2) dos regimes laboral e pós-
laboral.
A primeira tarefa referente ao teste de produção provocada, conforme dissemos
anteriormente no capítulo IV, constituiu-se em duas partes, nomeadamente a primeira
que privilegiou uma composição (um texto escrito), com o objetivo de avaliar o uso e a
frequência dos artigos definidos no singular e no plural em diversos contextos sintáticos
e semânticos.
A segunda parte da tarefa de produção provocada, visava o preenchimento de
espaços em branco com elementos linguísticos que nos interessava estudar, com o
objetivo de analisar o desenvolvimento da competência gramatical no que diz respeito
à conceptualização semântica dos antropónimos – nomes próprios (de pessoas, de
figuras salientes ou de personalidades renomados, ...), topónimos – nomes de lugares
(países, cidades, …) e comuns (contáveis, não contáveis e recategorizados), com vista a
identificarmos os contextos sintáticos e semânticos de presença/ausência ou inserção
dos artigos definidos no singular e no plural, em PM.
A segunda tarefa do questionário aplicado ao grupo experimental é referente ao
teste de juízo de gramaticalidade e/ou aceitabilidade, o qual foi constituído em cinco
grupos, identificados com as letras A, B, C, D e E.
No grupo em A, foram sugeridas as frases em português com antropónimos e
topónimos. O grupo B apresenta frases com nomes comuns contáveis no singular.
As frases apresentadas no grupo em C incluem os nomes comuns não contáveis
no singular. No grupo em D encontram-se frases, que incluem nomes comuns contáveis
no plural.
209
Finalmente, no grupo em E observam-se frases do português, envolvendo os
nomes não contáveis recategorizados.
Nesta secção, apresentamos os resultados relativos ao teste de juízo de
gramaticalidade e/ou aceitabilidade. Em primeiro lugar, apresentamos, nas tabelas
seguintes, (XXIX, XXX, XXXI, XXXII e XXXIII), os resultados da tarefa de juízo de
gramaticalidade e/ou aceitabilidade refentes à realização, ausência e inserção de artigos
definidos em PM.
Tabela XXIX: Resultados da tarefa de juízo de gramaticalidade e/ou aceitabilidade do Grupo A
Frases Respostas
“” “?” “*”
Regime(s) Total Regime(s) Total Regime(s) Total
D N F.A. F.R. D N F.A. F.R. D N F.A. F.R.
(Nᵒ) (%) (Nᵒ) (%) (Nᵒ) (%)
GRUPO A
(1) 14 15 29 96.6 - - - - 1 - 1 3.33
6
(2) 6 5 11 36.6 - - - - 9 10 19 63.3
6 3
(3) 3 5 8 26.6 - - - - 12 10 22 73.3
6 3
(4) 15 13 28 93.3 - 2 2 6.66 - - - -
3
(5) 10 8 18 60 - - - - 5 7 12 40
(6) 5 7 12 40 - - - - 10 8 18 60
(7) 10 13 23 76.6 - - - - 5 2 7 23.3
6 3
(8) 5 2 7 23.3 - - - - 10 13 23 76.6
3 6
210
(9) 1 - 1 3.33 2 1 3 10 12 14 26 86.6
6
(10) 14 15 29 96.6 1 - 1 3.33 - - - -
6
(11) 10 13 23 76.6 - - - - 5 2 7 23.3
6 3
(12) 5 3 8 26.6 - - - - 10 12 22 73.3
6 3
(13) 5 3 8 26.6 - - - - 10 12 22 73.3
6 3
(14) 10 13 23 76.6 - - - - 5 2 7 23.3
6 3
(15) 5 3 8 26.6 - - - - 10 12 22 73.3
6 3
(16) 10 13 23 76.6 - - - - 5 2 7 23.3
6 3
Fonte: autor
Apresentada a tabela (XXIX) referente ao Grupo A sobre frases em português
com antropónimos e topónimos, passaremos agora a comparar os resultados obtidos
da tarefa de juízo de gramaticalidade e/ou aceitabilidade aplicado aos informantes. À
partida, o grupo experimental, constituído por trinta (30) estudantes de cursos
propedêuticos universitários da UP – Tete, falantes do português (L1 e L2), não
apresentam diferenças significativas entre diferentes informantes relativamente à
aceitação das frases bem formadas; (), pouco naturais ou “duvidosas”, (?), e
agramaticais ou inaceitáveis, (*).
Procurando um factor de uniformização, pelo cálculo de frequências absolutas e
relativas de realização e ausência de artigos definidos em frases do português com
antropónimos e topónimos, observa-se uma variação referente aos contextos em que
estes nomes ocorrem em diferentes posições sintáticas, logo à partida, que é tão
evidente na tabela (XXIX).
211
Analisando o desempenho do grupo experimental na tabela (XXIX), podemos
verificar que o seu desempenho não é diferente do dos outros resultados apresentados
na tabela (XXIV) do presente trabalho, caracterizando-se, em geral, o grupo
experimental pelo seguinte:
(i) inserção de artigos definidos em contextos que envolvem a realização de
antropónimos simples (figuras salientes), em posição sintática de Sujeito, com 96.6% (cf.
Tabela (XXIX), Frase (1)) de frequência relativa e 96.6% referente ao OBL, envolvendo a
preposição de (cf. Tabela (XXIX), Frase (10));
(ii) ausência de artigo definido em contextos em que ocorrem os antropónimos simples,
em posição predicativa do sujeito, com 76.6% de frequência relativa (cf. Tabela (XXIX),
Frases (11, 14 e 16)), com tempos verbais no presente e pretérito perfeito do indicativo;
(iii) realização de artigos definidos com topónimos, em posição sintática de Sujeito, com
93.3% de frequência relativa (cf. Tabela (XXIX), Frase (4));
(iv) ausência de artigos definidos em contextos em que ocorrem os topónimos simples
(referentes a lugares), em OBL, envolvendo a preposição de (cf. Tabela (XXIX), Frase (5)),
com 60% de frequência relativa;
(v) realização de artigos definidos com topónimos, em OBL, com 76.6% de frequência
relativa (cf. Tabela (XXIX), Frase (7)), envolvendo a preposição em.
Tabela XXX: juízo de gramaticalidade e/ou aceitabilidade do Grupo B
Frases Respostas
“” “?” “*”
Regime(s) Total Regime(s) Total Regime(s) Total
D N F.A. F.R. D N F.A. F.R. D N F.A. F.R.
(Nᵒ) (%) (Nᵒ) (%) (Nᵒ) (%)
GRUPO B
(17) 12 10 22 73.3 - - - - 3 5 8 26.6
6
212
(18) 3 5 8 26.6 - - - - 12 10 22 73.3
6
(19) 6 4 10 33.3 - - - 9 11 20 66.6
3 6
(20) 9 11 20 66.6 - - - - 6 4 10 33.3
6 3
(21) 9 11 20 66.6 - - - - 6 4 10 33.3
6 3
(22) 6 4 10 33.3 - - - - 9 11 20 66.6
3 6
(23) 9 11 20 66.6 - - - - 6 4 10 33.3
6 3
(24) 5 6 11 36.6 - - - - 10 9 19 63.3
6 3
(25) 6 4 10 33.3 - - - - 9 11 20 66.6
3 6
(26) 9 11 20 66.6 - - - - 6 4 10 33.3
6 3
(27) 9 11 20 66.6 - - - - 6 4 10 33.3
6 3
(28) 6 4 10 33.3 - - - - 9 11 20 66.6
3 6
(29) 10 9 19 63.3 - - - - 5 6 11 36.6
3 6
(30) 5 6 11 36.6 - - - - 10 9 19 63.3
6 3
(31) 6 4 10 33.3 - - - - 9 11 20 66.6
3 6
(32) 9 11 20 66.6 - - - 6 4 10 33.3
6 3
213
(33) 6 4 10 33.3 - - - - 9 11 20 66.6
3 6
(34) 9 11 20 66.6 - - - 6 4 10 33.3
6 3
(35) 5 3 8 26.6 - - - - 10 12 22 73.3
6 3
(36) 10 12 22 73.3 - - - - 5 3 8 26.6
3 6
(37) 5 3 8 26.6 - - - - 10 12 22 73.3
6 3
(38) 10 12 22 73.3 - - - - 5 3 8 26.6
3 6
(39) 12 10 22 73.3 - - - - 3 5 8 26.6
6
(40) 3 5 8 26.6 - - - - 12 10 22 73.3
6
(41) 5 7 12 40 - - - - 10 8 18 60
(42) 10 8 18 60 - - - - 5 7 12 40
Fonte: autor
Os dados expressos na tabela (XXX) mostram a ocorrência de frases simples com
nomes comuns contáveis no singular. Nestas frases, permitem-nos fazer uma leitura
geral do que se pretendia com a tarefa de juízo de gramaticalidade e/ou aceitabilidade
do Grupo B, nomes comuns contáveis no singular, incluindo possessivos em alguns
contextos.
De acordo com os resultados expressos na tabela (XXX), também partilhados nas
tabelas (XXIV) e (XXV), podemos constatar que o grupo experimental da nossa pesquisa
apresenta um padrão diversificado referente ao uso dos nomes comuns contáveis no
singular, em diferentes posições sintáticas. Assim sendo, verificámos:
214
(a) realização de artigos definidos em contextos em que envolvem nomes comuns
contáveis no singular, em posição sintática de Sujeito, com 73.3% (cf. Tabela
(XXX), Frases (17) e (39)) de frequência relativa, envolvendo o presente e o
pretérito perfeito do indicativo;
(b) ) ausência de artigo definido em contextos em que ocorrem os nomes comuns
contáveis no singular, em posição predicativa do sujeito, com 73.3% de
frequência relativa igual (cf. Tabela (XXX), Frases (36) e (38)), com o presente e o
pretérito perfeito do indicativo;
(c) ausência de artigo definido em contextos em que ocorrem os nomes comuns
contáveis no singular, em OD, com 66.6% de frequência relativa igual (cf. Tabela
(XXX), Frases (21), (23), (26), (27) e (29)), com o presente e o pretérito perfeito
do indicativo;
(d) ausência de artigos definidos em contextos em que ocorrem os nomes comuns
contáveis no singular, em SPREP, envolvendo a preposição de (cf. Tabela (XXX),
Frase (42)), com 60% de frequência relativa;
(e) realização de artigos definidos com nomes comuns contáveis no singular, em
SPREP, com 76.6% de frequência relativa (cf. Tabela (XXX), Frases (32) e (34)),
envolvendo a preposição em, com o presente e pretérito perfeito do indicativo;
(f) realização de artigos definidos com nomes comuns contáveis no singular com
possessivos, em posição sintática de Sujeito, com 66.6% de frequência relativa
(cf. Tabela (XXX), Frase (20)), envolvendo o pretérito perfeito do indicativo.
Tabela XXXI: Resultados da tarefa de juízo de gramaticalidade e/ou aceitabilidade do Grupo C
Frases Respostas
“” “?” “*”
Regime(s) Total Regime(s) Total Regime(s) Total
D N F.A. F.R. D N F.A. F.R. D N F.A. F.R.
(Nᵒ) (%) (Nᵒ) (%) (Nᵒ) (%)
GRUPO C
215
(43) 5 6 11 36.6 - - - - 10 9 19 63.3
6 3
(44) 10 9 19 63.3 - - - - 5 6 11 36.6
3 6
(45) 6 4 10 33.3 - - - - 9 11 20 66.6
3 6
(46) 10 13 23 76.6 - - - - 5 2 7 23.3
6 3
(47) 3 4 7 23.3 - - - - 10 13 23 76.6
3 6
(48) 12 11 23 76.6 - - - - 3 4 7 23.3
6 3
(49) 3 4 7 23.3 - - - - 10 13 23 76.6
3 6
(50) 12 11 23 76.6 - - - - 3 4 7 23.3
6 3
(51) 5 3 8 26.6 - - - - 10 12 22 73.3
6 3
(52) 10 12 22 73.3 - - - - 5 3 8 26.6
3 6
(53) 5 3 8 26.6 - - - - 10 12 22 73.3
6 3
(54) 10 12 22 73.3 - - - - 5 3 8 26.6
3 6
(55) 5 7 12 40 - - - - 10 8 18 60
(56) 10 8 18 60 - - - - 5 7 12 40
(57) 4 6 10 33.3 - - - - 11 9 20 66.6
3 6
(58) 11 9 20 66.6 - - - - 4 6 10 33.3
6 3
216
(59) 10 10 20 66.6 - - - - 4 6 10 33.3
6 3
(60) 6 4 10 33.3 - - - - 10 10 20 66.6
3 6
(61) 10 9 19 63.3 - - - - 5 6 11 36.6
3 6
(62) 5 6 11 36.6 - - - - 10 9 19 63.3
6 3
Fonte: autor
Na tabela (XXXI), podem observar-se resultados da tarefa de juízo de
gramaticalidade e/ou aceitabilidade referentes às frases do Grupo C, que incluem os
nomes comuns não contáveis, em diferentes posições sintáticas.
Através desta tabela, de uma forma geral, podemos constatar que, os mesmos
resultados têm padrões paralelos aos da tabela em (XXIV), tal como são os casos
seguintes, que apresentam maior predominância:
(i) realização de artigos definidos em contextos em que envolvem nomes comuns não
contáveis, em posição sintática de Sujeito, com 63.3% de frequência relativa (cf. Tabela
(XXXI), Frases (44), (46), (48), (50) e (61)); com o presente e o pretérito perfeito do
indicativo;
(ii) realização de artigos definidos com nomes comuns não contáveis, em SPREP, com
76.6% de frequência relativa (cf. Tabela (XXXI), Frases (58)), envolvendo a preposição
por;
(iii) ausência de artigos definidos em contextos em que ocorrem os nomes comuns não
contáveis, em posição sintática de OD, com 66.6% de frequência relativa igual (cf. Tabela
(XXXI), Frases (52) e (54)), envolvendo o presente e o pretérito perfeito do indicativo;
(iv) ausência de artigos definidos em contextos em que ocorrem os nomes comuns não
contáveis, em SPREP, envolvendo a preposição de (cf. Tabela (XXXI), Frase (56)), com
60% de frequência relativa.
217
Tabela XXXII: Resultados da tarefa de juízo de gramaticalidade e/ou aceitabilidade do Grupo D
Frases Respostas
“” “?” “*”
Regime(s) Total Regime(s) Total Regime(s) Total
D N F.A. F.R. D N F.A. F.R. D N F.A. F.R.
(Nᵒ) (%) (Nᵒ) (%) (Nᵒ) (%)
GRUPO D
(63) 13 11 24 80 - - - - 2 4 6 20
(64) 2 4 6 20 - - - - 13 11 24 80
(65) 2 4 6 20 - - - - 13 11 24 80
(66) 13 11 24 80 - - - - 2 4 6 20
(67) 9 11 20 66.6 - - - - 6 4 10 33.3
6 3
(68) 6 4 10 33.3 - - - - 9 11 20 66.6
3 6
(69) 6 4 10 33.3 - - - - 9 11 20 66.6
3 6
(70) 9 11 20 66.6 - - - - 6 4 10 33.3
6 3
(71) 7 5 12 40 - - - - 8 10 18 60
(72) 8 10 18 60 - - - - 7 5 12 40
(73) 7 5 12 40 - - - - 8 10 18 60
(74) 8 10 18 60 - - - - 7 5 12 40
(75) 9 11 20 66.6 - - - - 6 4 10 33.3
6 3
(76) 6 4 10 33.3 - - - - 9 11 20 66.6
3 6
(77) 9 11 20 66.6 - - - - 6 4 10 33.3
6 3
218
(78) 6 4 10 33.3 - - - - 9 11 20 66.6
3 6
(79) 10 12 22 73.3 - - - - 5 3 8 26.6
(80) 5 3 8 26.6 - - - - 10 12 22 73.3
(81) 10 13 23 76.6 - - - - 4 3 7 23.3
6 3
(82) 3 4 7 23.3 - - - - 12 11 23 76.6
3 6
(83) 10 13 23 76.6 - - - - 4 3 7 23.3
6 3
(84) 3 4 7 23.3 - - - - 12 11 23 76.6
3 6
(85) 13 11 24 80 - - - - 2 4 6 20
(86) 2 4 6 20 - - - - 13 11 24 80
Fonte: autor
Os resultados que se observam na tabela (XXXII) referem-se à frases do português,
envolvendo os nomes comuns contáveis no plural, Grupo D, em diferentes posições
sintáticas. Tal como se pode constatar a partir da observação das tabelas em (XXIV) e
(XXXII), identificam-se com maior frequência os contextos seguintes:
(a) realização de artigos definidos em contextos em que envolvem nomes comuns
contáveis no plural, em posição sintática de Sujeito, com 80% de frequência
relativa (cf. Tabela (XXXII), Frases (63), (66) e (85)); com o presente e o pretérito
perfeito do indicativo;
(b) ausência de artigos definidos em contextos em que ocorrem os nomes comuns
contáveis no plural, em posição predicativa do sujeito, com 76.6% de frequência
relativa igual (cf. Tabela (XXXII), Frases (81) e (83)), com o presente e o pretérito
perfeito do indicativo;
(c) ausência de artigos definidos em contextos em que ocorrem os nomes comuns
contáveis no plural, em posição sintática de OD, com 60% de frequência relativa
219
igual (cf. Tabela (XXXII), Frases (72), (74,))), com o presente e o pretérito perfeito
do indicativo;
(d) ausência de artigos definidos em contextos em que ocorrem os nomes comuns
contáveis no plural, em SPREP, envolvendo a preposição de ((cf. Tabela (XXXII),
Frases (67), (70), (75) e (77)), com 66.6% de frequência relativa, envolvendo o
presente e o pretérito perfeito do indicativo.
Tabela XXXIII: Resultados da tarefa de juízo de gramaticalidade e/ou aceitabilidade do Grupo E
Frases Respostas
“” “?” “*”
Regime(s) Total Regime(s) Total Regime(s) Total
D N F.A. F.R. D N F.A. F.R. D N F.A. F.R.
(Nᵒ) (%) (Nᵒ) (%) (Nᵒ) (%)
GRUPO E
(87) 4 3 7 23.3 - - - - 11 12 23 76.6
3 6
(88) 11 12 23 76.6 - - - - 4 3 7 23.3
6 3
(89) 11 12 23 76.6 - - - - 4 3 7 23.3
6 3
(90) 4 3 7 23.3 - - - - 11 12 23 76.6
3 6
(91) 9 11 20 66.6 - - - - 6 4 10 33.3
6 3
(92) 6 4 10 33.3 - - - - 9 11 20 66.6
3 6
(93) 9 11 20 66.6 - - - - 6 4 10 33.3
6 3
(94) 6 4 10 33.3 - - - - 9 11 20 66.6
3 6
220
(95) 9 11 20 66.6 - - - - 6 4 10 33.3
6 3
(96) 6 4 10 33.3 - - - - 9 11 20 66.6
3 6
(97) 9 11 20 66.6 - - - - 6 4 10 33.3
6 3
(98) 6 4 10 33.3 - - - - 9 11 20 66.6
3 6
(99) 10 11 21 70 - - - - 5 4 9 30
(100) 5 4 9 30 - - - - 10 11 21 70
(101) 10 8 18 60 - - - - 5 7 12 40
(102) 5 7 12 40 - - - - 10 8 18 60
(103) 10 8 18 60 - - - - 5 7 12 40
(104) 5 7 12 40 - - - - 10 8 18 60
(105) 4 3 7 23.3 - - - - 11 12 23 76.6
3 6
(106) 11 12 23 76.6 - - - - 4 3 7 23.3
6 3
Fonte: autor
Os dados expressos na tabela (XXXIII) mostram ocorrência de frases simples com
nomes comuns não contáveis recategorizados. Estas frases, permitem-nos fazer uma
leitura geral do que se pretendia com a tarefa de juízo de gramaticalidade e/ou
aceitabilidade do Grupo E, nomes comuns não contáveis recategorizados.
De acordo com os resultados expressos na tabela (XXXIII), também partilhados na
tabela (XXIV), podemos constatar que os informantes apresentam um padrão
diversificado referente ao uso dos nomes comuns não contáveis recategorizados, em
diferentes posições sintáticas. Assim sendo, depreende-se:
221
(i) realização de artigos definidos com nomes comuns não contáveis
recategorizados, em SPREP, envolvendo a preposição por, com 70% de
frequência relativa (cf. Tabela (XXXIII), Frases (99));
(ii) ausência de artigos definidos em contextos em que ocorrem os nomes
comuns não contáveis recategorizados, em posição sintática de Sujeito, com
76.6% de frequência relativa igual (cf. Tabela (XXXIII), Frases (88), (89)),
envolvendo o pretérito perfeito do indicativo;
(iii) ausência de artigos definidos em contextos que ocorrem os nomes comuns
não contáveis recategorizados, em posição sintática de OD, com 66.6% de
frequência relativa igual (cf. Tabela (XXXIII), Frases (91), (93), (95) e (97)),
envolvendo o presente e o pretérito perfeito do indicativo;
(iv) ausência de artigos definidos em contextos que ocorrem os nomes comuns
não contáveis recategorizados, em SPREP, envolvendo a preposição de ((cf.
Tabela (XXXIII), Frases (101) e (103)), com 60% de frequência relativa,
envolvendo o presente e o pretérito perfeito do indicativo.
5.3.1 Síntese do resultado da tarefa de juízo de gramaticalidade e/ou aceitabilidade
Os resultados efetuados nesta sessão têm a ver com o teste de juízo de
gramaticalidade e/ou aceitabilidade, o qual foi constituído em cinco grupos,
identificados com as letras A, B, C, D e E. As frases sugeridas neste teste incluíam
antropónimos, topónimos e nomes e comuns (contáveis, não contáveis e
recategorizados), em Suj., em OD, em posição Predicativa do Sujeito e em SPREP,
envolvendo predicados verbais no presente e pretérito perfeito do indicativo.
No grupo em A, foram sugeridas as frases em português com antropónimos e
topónimos. O grupo B apresenta frases com nomes comuns contáveis no singular. As
frases apresentadas no grupo em C incluem os nomes comuns não contáveis no singular.
No grupo em D encontram-se frases, das quais incluem nomes comuns contáveis no
plural. Finalmente, no grupo em E observam-se as frases do português, envolvendo os
nomes não contáveis recategorizados.
222
Quanto aos resultados do grupo A (antropónimos e topónimos) permitem
verificar aceitabilidade de frases em que se regista inserção de artigos definidos em
contextos que envolvem a realização de antropónimos simples (figuras salientes), em
posição sintática de Sujeito. Nota-se na mesma sequência aceitabilidade de frases em
que se observa ausência de artigo definido em contextos que ocorrem os antropónimos
simples, em posição Predicativa do Sujeito, em tempos verbais do presente e pretérito
perfeito do indicativo. Os resultados mostram ainda que os sujeitos inquiridos aceitam
frases em que se realiza artigos definidos com topónimos, em posição sintática de
Sujeito. Na mesma secção, podemos constatar igualmente aceitabilidade de frases que
apresentam ausência de artigos definidos em contextos que ocorrem os topónimos
simples (referentes a lugares), em SPREP, envolvendo a preposição de. Ainda sobre o
grupo A, observa-se aceitabilidade de frases em que são realizados os artigos definidos
com topónimos, em SPREP, envolvendo a preposição em.
No que se refere ao grupo B (nomes comuns contáveis no singular), os resultados
permitem observar aceitabilidade de frases em que se realizam os artigos definidos em
contextos que envolvem nomes comuns contáveis no singular, em posição sintática de
Sujeito, envolvendo o presente e o pretérito perfeito do indicativo. De seguida, nota-se
aceitabilidade de frases em que se regista ausência de artigo definido em contextos que
ocorrem os nomes comuns contáveis no singular, em posição predicativa do sujeito, em
contextos em que ocorrem os tempos verbais seguintes: presente e pretérito perfeito
do indicativo.
Os resultados do grupo B mostram ainda aceitabilidade de frases que
apresentam ausência de artigo definido em contextos que ocorrem os nomes comuns
contáveis no singular, em OD, e os tempos verbais do presente e do pretérito perfeito
do indicativo. No mesmo contexto, podemos verificar a aceitabilidade de frases em que
se observa ausência de artigos definidos em contextos que ocorrem os nomes comuns
contáveis no singular, em SPREP, envolvendo a preposição de. Igualmente, podemos
notar a aceitabilidade de frases em que se regista a realização de artigos definidos com
nomes comuns contáveis no singular, em SPREP, envolvendo a preposição em e os
tempos verbais do presente e pretérito perfeito do indicativo. Finalmente, no grupo B,
223
os resultados permitem observar aceitabilidade de frases em que são realizados os
artigos definidos com nomes comuns contáveis no singular com possessivos, em posição
sintática de Sujeito, envolvendo o pretérito perfeito do indicativo.
Relativamente ao grupo C (nomes comuns não contáveis), os resultados
mostram aceitabilidade de frases em que são realizados os artigos definidos com nomes
comuns não contáveis, em posição sintática de Sujeito, envolvendo os tempos verbais
do presente e do pretérito perfeito do indicativo. Os resultados deste grupo permitem
verificar ainda aceitabilidade de frases em que são realizados os artigos definidos com
nomes comuns não contáveis, em SPREP, envolvendo a preposição por. Na mesma
sequência, podemos constatar a aceitabilidade de frases em que se verifica ausência de
artigos definidos em contextos que ocorrem os nomes comuns não contáveis, em OD,
envolvendo os tempos verbais do presente e do pretérito perfeito do indicativo. Por fim,
quanto a este grupo, nota-se ainda aceitabilidade de frases que apresentam ausência
de artigos definidos em contextos que ocorrem os nomes comuns não contáveis, em
SPREP, envolvendo a preposição de.
Os resultados referentes ao grupo D (nomes comuns contáveis no plural)
permitem notar aceitabilidade pelos sujeitos inquiridos de frases que apresentam
realização de artigos definidos em contextos que envolvem nomes comuns contáveis no
plural, em posição sintática de Sujeito, em tempos verbais do presente e do pretérito
perfeito do indicativo. Podemos constatar ainda neste grupo aceitabilidade de frases em
que se verifica ausência de artigos definidos em contextos que ocorrem os nomes
comuns contáveis no plural, em posição Predicativa do Sujeito, em tempos verbais do
presente e do pretérito perfeito do indicativo. Ainda no grupo D, os resultados ilustram
aceitabilidade de frases em que se se observa ausência de artigos definidos em
contextos que ocorrem os nomes comuns contáveis no plural, em OD, em tempos
verbais do presente e do pretérito perfeito do indicativo. Os resultados sobre este
grupo, por fim, permitem verificar aceitabilidade de frases que mostram ausência de
artigos definidos em contextos que ocorrem os nomes comuns contáveis no plural, em
SPREP, envolvendo a preposição de, em tempos verbais do presente e do pretérito
perfeito do indicativo.
224
Relativamente aos resultados do grupo E (nomes comuns não contáveis
recategorizados) podemos observar aceitabilidade de frases, pelos sujeitos inquiridos,
quando são realizados os artigos definidos com nomes comuns não contáveis
recategorizados, em SPREP, envolvendo a preposição por. Nota-se igualmente
aceitabilidade de frases em que se observa ausência de artigos definidos em contextos
que ocorrem os nomes comuns não contáveis recategorizados, em posição sintática de
Sujeito, envolvendo o pretérito perfeito do indicativo. No grupo E, os resultados
permitem verificar aceitabilidade frases que ilustram ausência de artigos definidos em
contextos que ocorrem os nomes comuns não contáveis recategorizados, em OD,
envolvendo os tempos do presente e do pretérito perfeito do indicativo. Ainda sobre o
grupo E, os resultados mostram aceitabilidade de frases que apresentam ausência de
artigos definidos em contextos que ocorrem os nomes comuns não contáveis
recategorizados, em SPREP, envolvendo a preposição de, em tempos verbais do
presente e do pretérito perfeito do indicativo.
5.3.2 Resultados do inquérito suplementar à tarefa de gramaticalidade e/ou
aceitabilidade
O inquérito suplementar à tarefa de gramaticalidade e/ou aceitabilidade
pretendia avaliar a conceptualização semântica dos topónimos, antropónimos, nomes
comuns contáveis e nomes não contáveis, em PM. Desta forma, os informantes foram
orientados para que, a partir de pares de frases identificados como aceitáveis em (III)
sobre a tarefa de gramaticalidade e/ou aceitabilidade, dissessem a diferença entre os
dois casos.
Para uma melhor compreensão dos resultados obtidos através do inquérito
suplementar à tarefa de gramaticalidade e/ou aceitabilidade, decidimos apresentar
conceptualizações semânticas dos informantes sobre topónimos, antropónimos, nomes
comuns contáveis e nomes não contáveis, em cinco grupos, nomeadamente A, B, C, D e
E, tal como foi estruturada a tarefa de gramaticalidade e/ou aceitabilidade, em (III), do
inquérito utilizado no âmbito de recolha de dados.
225
Conforme dissemos anteriormente, no grupo em A, foram sugeridas as frases em
português com antropónimos e topónimos. O grupo B apresenta frases com nomes
comuns contáveis no singular. As frases apresentadas no grupo em C incluem os nomes
comuns não contáveis no singular. No grupo em D encontram-se frases, que incluem
nomes comuns contáveis no plural.
Finalmente, no grupo em E observam-se as frases do português, envolvendo os
nomes não contáveis recategorizados.
Através do inquérito suplementar à tarefa de gramaticalidade e/ou
aceitabilidade foi possível obter os resultados que se apresentam a seguir, em grupos
diferentes.
Tabela XXXIV: Interpretação Semântica referente ao Grupo A
Ordem por Frases Leituras
pares das
frases
1 (1) O Mia Couto é um dos escritores “Não há diferença. Entende-se da
influentes na literatura moçambicana. mesma maneira: fala-se de alguém que
já o conhecemos no mundo da
(2) Mia Couto é um dos escritores influentes
literatura: o: escrito moçambicano”
na literatura moçambicana.
2 (3) João ganhou a lotaria. “Não há diferença. Entende-se da mesma
maneira: fala-se de alguém que já o
(4) O João ganhou a lotaria.
conhecemos que ganhou a lotaria”
3 (5) A Avenida de França, em Maputo, foi “Não há diferença. Entende-se da mesma
palco de um espectáculo musical. maneira: Avenida conhecida que se situa
em Maputo, que dá acesso à Embaixada
(6) A Avenida da França, em Maputo, foi
da França ”
palco de um espectáculo musical.
4 (7) O Manuel viveu no Niassa. “Não há diferença. Entende-se da mesma
maneira: fala-se da província que
(8) O Manuel viveu em Niassa.
conhecemos, que se situa no norte de
Moçambique, onde se localiza o segundo
maior lago do mundo (Lago Niassa) ”.
226
5 (9) Ele comprou algumas obras de Paulina Não há diferença. Entende-se da mesma
Chiziane. maneira: fala-se de obras escritas pela
alguém conhecida no mundo da
(10) Ele comprou algumas obras da Paulina
literatura: a escritora moçambicana”
Chiziane.
6 (11) Ele chama-se Pedro. “Não há diferença. Entende-se da mesma
maneira: fala-se de alguém que já o
(12) Ele chama-se o Pedro.
conhecemos que tem o nome de Pedro”
7 (13) O vencedor da Bola de Ouro foi, de Não há diferença. Entende-se da mesma
novo, o Ronaldo. maneira: fala-se de alguém que já o
conhecemos no mundo do futebol e
(14) O vencedor da Bola de Ouro foi e novo,
vencedor de alguns prémios em várias
Ronaldo.
categorias”
8 (15) O vencedor da Bola de Ouro é, de novo,
o Ronaldo.
(16) O vencedor da Bola de Ouro é, de novo,
Ronaldo.
Fonte: autor
Comparando os dados apresentados em (XXXIV), podemos notar que a inserção
ou ausência de artigos definidos em contextos que envolvem a realização de
antropónimos e topónimos, em diferentes posições sintáticas, os inquiridos, falantes do
português (L1 e L2), dizem não haver diferenças semânticas entre os pares de frases em
(1)-(8). Mas em (6) há diferenças em PE ‘ele chama-se o Pedro’ não é aceitável por se
tratar de um contexto predicativo.
Tabela XXXV: Interpretação Semântica referente ao Grupo B
Ordem por Frases Leituras
pares das
frases
9 (17) A menina foi a minha vizinha. 'Fala-se de alguém conhecida e com
alguma relação de proximidade'
(18) Menina foi a minha vizinha. 'Fala-se de alguém não conhecida e sem
alguma relação de proximidade'
227
10 (19) Minha caneta partiu-se. “Não há diferença. Entende-se da mesma
maneira: fala-se de um objecto material
(20) A minha caneta partiu-se.
conhecido que se quebrou.”
11 (21) O Rui comprou telemóvel naquela “Não há diferença. Entende-se da mesma
loja. maneira: fala-se de um objecto material
electrónico e informático conhecido e mais
(22) O Rui comprou o telemóvel naquela
usado na actualidade.”
loja.
12 (23) O Rui compra telemóvel naquela
loja.
(24) O Rui compra o telemóvel naquela
loja.
13 (25) O empresário construiu a casa. “Não há diferença. Entende-se da mesma
maneira: fala-se de uma casa em que
(26) O empresário construiu casa.
conhecemos o tipo, o modelo e a sua
localização geográfica”
14 (27) O Nuno leu poema. “Não há diferença. Entende-se da mesma
maneira: fala-se de um poema que
(28) O Nuno leu o poema.
conhecemos ou da colectânea também
15 (29) O Nuno lê poema.
conhecida”
(30) O Nuno leu o poema.
16 (31) Ele viajou em carro pessoal. “Não há diferença. Entende-se da mesma
maneira: fala-se de um carro conhecido,
(32) Ele viajou no carro pessoal.
incluindo o tipo, o modelo e a cor do
17 (33) Ele viaja em carro pessoal.
mesmo”.
(34) Ele viaja no carro pessoal.
18 (35) Aquela rapariga loira foi a “A primeira fala de alguém conhecida e
aniversariante. com alguma relação de proximidade”.
(36) Aquela rapariga loira foi “A segunda fala de alguém não conhecida
aniversariante. e sem alguma relação de proximidade”.
19 (37) Aquela rapariga loira é a “A primeira fala de alguém conhecida e
aniversariante. com alguma relação de proximidade”.
228
(38) Aquela rapariga loira é “A segunda fala de alguém não conhecida
aniversariante. e sem alguma relação de proximidade”.
20 (39) A rapariga de tranças foi ao 'Fala-se de alguém conhecida e com
mercado. alguma relação de proximidade'
(40) Rapariga foi ao mercado. 'Fala-se de alguém não conhecida e sem
alguma relação de proximidade'
21 (41) A construção da ponte teve muitos “Não há diferença. Entende-se da mesma
investimentos. maneira: fala-se de uma ponte que existe e
que conhecemos a sua localização
(42) A construção de ponte teve muitos
geográfica”.
investimentos.
Fonte: autor
Da análise dos dados apresentados em (XXXV) referentes aos nomes comuns
contáveis no singular, podemos notar uma diversificação de interpretações feitas aos
pares de frases.
Em primeiro lugar, podemos observar que a presença ou ausência de artigos em
contextos que envolvem nomes comuns contáveis no singular, em posições sintáticas
de Sujeito, OD e em SPREP, envolvendo as preposições em e de, os sujeitos inquiridos
fazem leituras diferentes entre os pares de frases deste grupo, (cf. Pares de frases em
10, 11, 12, 13, 14, 15, 16, 17 e 21).
Em terceiro e último lugar, a presença ou ausência de artigos, em contextos em
que ocorrem os nomes comuns contáveis no singular, em posição Predicativa do Sujeito,
no presente e o pretérito perfeito do indicativo, os inquiridos encontram leituras
diferentes entre os pares de frases deste grupo (cf. Pares de frases em (9), (18) e (19).
Tabela XXXVI: Interpretação Semântica referente ao Grupo C
Ordem por Frases Leituras
pares das
frases
22 (43) Malária atingiu muitas crianças em
África.
229
(44) A malária atingiu muitas crianças em “Não há diferença. Entende-se da mesma
África. maneira: fala-se de um nome de
pandemia”
23 (45) Malária atinge muitas crianças em
África.
(46) A malária atinge muitas crianças em
África.
24 (47) Ouro foi sempre um bem lucrativo. “Não há diferença. Entende-se da mesma
maneira: fala-se de um nome de matéria.”
(48) O ouro foi sempre um bem lucrativo.
25 (49) Ouro é sempre um bem lucrativo.
(50) O ouro é sempre um bem lucrativo.
26 (51) Os mercados informais venderam o “Não há diferença. Entende-se da mesma
açúcar contrabandeado. maneira: fala-se de um tipo de substância ”
(52) Os mercados informais venderam
açúcar contrabandeado.
27 (53) Os mercados informais vendem o
açúcar contrabandeado.
(54) Os mercados informais vendem açúcar
contrabandeado.
28 (55) O comércio do arroz selvagem é “Não há diferença. Entende-se da mesma
rentável. maneira: fala-se de um tipo de arroz”
(56) O comércio de arroz selvagem é
rentável.
29 (57) Os franceses clamaram por justiça “Não há diferença. Entende-se da mesma
naquele país. maneira: fala-se de uma ideia”
(58) Os franceses clamaram pela justiça
naquele país.
30 (59) Os franceses pediram justiça naquele
país.
230
(60) Os franceses pediram a justiça naquele
país.
31 (61) O carvão de Moatize é excelente. “Não há diferença. Entende-se da mesma
maneira: fala-se de um nome de matéria”
(62) Carvão é excelente.
Fonte: autor
Com base nos dados apresentados em (XXXVI), depreende-se que os
informantes não encontram diferenças semânticas entre os pares de frases simples que
envolvem a realização de nomes comuns não contáveis, em diferentes posições,
nomeadamente em posição sintática de Sujeito, em SPREP, envolvendo as preposições
de e por, no presente e no pretérito perfeito do indicativo (cf. Pares de frases em 22, 23,
24, 25, 28, 29, 30 e 31) e em OD (cf. Pares de frases em 26, e 27).
Tabela XXXVII: Interpretação Semântica referente ao Grupo D
Ordem por Frases Leituras
pares das
frases
32 (63) Os professores do ensino superior “Não há diferença. Entende-se da mesma
propuseram novas estratégias de maneira: os professores do ensino superior
cooperação. propuseram novas estratégias de
cooperação em conjunto ou
(64) Professores do ensino superior
individualmente”
propuseram novas estratégias de
cooperação.
33 (65) Turistas exigiram melhores condições “Não há diferença. Entende-se da mesma
de alojamento. maneira: Os turistas exigiram melhores
condições de alojamento em conjunto ou
(66) Os turistas exigiram melhores
individualmente”
condições de alojamento.
34 (67) A associação de estudantes foi “Não há diferença. Entende-se da mesma
premiada. maneira: o conjunto de estudantes foi
premiada”
231
(68) A associação dos estudantes foi
premiada.
35 (69) A entrada dos noivos na igreja Na primeira: fala-se dos noivos existentes e
decorreu sem incidentes. conhecidos e com alguma relação de
proximidade”
(70) A entrada de noivos na igreja decorreu Na segunda: fala-se noivos existentes, mas
sem incidentes. não conhecidos e sem alguma relação de
proximidade”.
36 (71) Ele comprou as gramáticas recentes. “Não há diferença. Entende-se da mesma
maneira: fala-se de objectos materiais que
(72) Ele comprou gramáticas recentes.
existem e que os conhecemos”.
37 (73) Ele compra as gramáticas recentes.
(74) Ele compra gramáticas recentes.
38 (75) Eles gostaram de concertos do verão. “Não há diferença. Entende-se da mesma
maneira: fala-se de eventos conhecidos e
(76) Eles gostaram dos concertos do verão.
realizados numa determinada época do
39 (77) Eles gostam de concertos do verão.
ano”
(78) Eles gostam dos concertos do verão.
40 (79) Estas capas são de peregrinos. “Não há diferença. Entende-se da mesma
maneira: fala-se de objectos materiais
(80) Estas capas são dos peregrinos.
conhecidos desde o tipo de tecido, modelo
até a respectiva cor.”
41 (81) Eles foram músicos da cidade. “Não há diferença. Entende-se da mesma
maneira: fala-se dos músicos conhecidos
(82) Eles foram os músicos da cidade.
que partilhamos a mesma cidade de
42 (83) Eles são músicos da cidade.
residência.
(84) Eles são os músicos da cidade.
43 (85) As raparigas de tranças foram ao 'Fala-se de pessoas conhecidas e com
mercado. alguma relação de proximidade'
(86) Raparigas foram ao mercado. 'Fala-se de pessoas não conhecidas e sem
alguma relação de proximidade'
Fonte: autor
232
Sobre os dados apresentados em (XXXVII), podemos notar leituras diversificadas
no que se refere aos contextos de realização e ausência de artigos definidos, envolvendo
os nomes comuns contáveis no plural. Em primeiro lugar, podemos notar que a inserção
ou ausência de artigos definidos em contextos em que são realizados os nomes comuns
contáveis no plural, em posição sintática de Sujeito e em SPREP, envolvendo a
preposições de, no presente e no pretérito perfeito do indicativo, os inquiridos dizem
não haver diferenças semânticas (cf. Pares de frases em 32, 33, 34, 38 e 40).
Em segundo lugar, verifica-se que a realização e ausência de artigos definidos em
contextos que ocorrem os nomes comuns contáveis no plural, em posição de Predicativa
do Sujeito, envolvendo o presente e o pretérito perfeito do indicativo, diz-se haver
diferentes interpretações semânticas entre os pares de frases. Em contrapartida, em
contextos de realização do artigo definido com nomes comuns contáveis no plural, em
posição de Predicativa do Sujeito, subtende-se não haver interpretações semânticas
diferentes entre os pares de frases (cf. Pares de frases em 41 e 42).
Em terceiro lugar, a realização e ausência de artigos definidos, em contextos que
ocorrem os nomes comuns contáveis no plural, em OD, envolvendo o presente e o
pretérito perfeito do indicativo, observa-se única interpretação possível (cf. Pares de
frases em 36 e 37).
Tabela XXXVIII: Interpretação Semântica referente ao Grupo E
Ordem por Frases Leituras
pares das
frases
44 (87) Os vinhos de Portugal foram “Não há diferença. Entende-se da mesma
comprados por turistas. maneira: tipos de vinho de origem
portuguesa”
(88) Vinhos de Portugal foram comprados
por turistas.
45 (89) Cafés africanos e brasileiros foram os
mais caros no inverno.
233
(90) Os cafés africanos e brasileiros foram “Não há diferença. Entende-se da mesma
os mais caros no inverno. maneira: tipos de café de origem africana e
brasileira”
46 (91) Eles compraram águas minerais no Não há diferença. Entende-se da mesma
supermercado. maneira: tipos de água”
(92) Eles compraram as águas minerais no
supermercado.
47 (93) Eles compram águas minerais no
supermercado.
(94) Eles compram as águas minerais no
supermercado.
48 (95) Nesta mercearia venderam chás Não há diferença. Entende-se da mesma
maneira: tipos de chá”
(96) Nesta mercearia venderam os chás.
49 (97) Nesta mercearia vendem chás.
(98) Nesta mercearia vendem os chás.
50 (99) Ela foi criticada pelas atitudes da sua Não há diferença. Entende-se da mesma
juventude. maneira: tipos de atitude ”
(100) Ela foi criticada por atitudes da sua
juventude.
51 (101) A Rita falou de dificuldades da Não há diferença. Entende-se da mesma
primeira guerra mundial. maneira: tipos de dificuldade ”
(102) A Rita falou das dificuldades da
primeira guerra mundial.
52 (103) A Rita fala de dificuldades da primeira
guerra mundial.
(104) A Rita fala das dificuldades da
primeira guerra mundial.
53 (105) As águas minerais fazem bem à Não há diferença. Entende-se da mesma
saúde. maneira: tipos de água”
234
(106) Águas fazem bem à saúde.
Fonte: autor
Relativamente aos dados apresentados em (XXXVIII), podemos verificar
que os inquiridos não encontram diferenças semânticas entre os pares de frases simples
que envolvem a realização de nomes não contáveis recategorizados, em diferentes
posições sintáticas, nomeadamente em posição sintática de Sujeito e em SPREP,
envolvendo a preposição de, em tempos verbais do presente e do pretérito perfeito do
indicativo, (cf. Pares de frases em 44, 45, 51, 52 e 53), em OD, envolvendo os mesmos
tempos verbais (cf. Pares de frases em 46, 47, 48 e 49) e em SPREP, envolvendo a
preposição por, (cf. Pares de frases em 50).
[Link] Síntese do resultado do inquérito suplementar à tarefa de gramaticalidade
e/ou aceitabilidade
Os resultados do inquérito suplementar à tarefa de gramaticalidade e/ou
aceitabilidade pretendia avaliar a conceptualização semântica dos artigos definidos, em
PM. Conforme se referiu, nesta tarefa, os sujeitos inquiridos foram orientados para que,
a partir de pares de frases identificados como aceitáveis sobre a tarefa de
gramaticalidade e/ou aceitabilidade, dissessem a diferença entre os dois casos.
Para uma melhor compreensão dos resultados obtidos através desta tarefa,
decidiu-se apresentar os resultados agrupando-os em cinco divisões, nomeadamente A,
B, C, D e E tal como foi estruturada a tarefa de gramaticalidade e/ou aceitabilidade, do
inquérito utilizado no âmbito de recolha de dados.
Quanto aos resultados do grupo A (antropónimos e topónimos) permitem notar
que a inserção ou ausência de artigos definidos em contextos que envolvem a realização
de antropónimos e topónimos, em diferentes posições sintáticas, os inquiridos, falantes
do português (L1 e L2), dizem não haver diferenças semânticas entre os pares de frases
deste grupo.
235
No que se refere ao grupo B (nomes comuns contáveis no singular), os resultados
permitem observar diversas interpretações referentes aos pares de frases deste grupo.
Em primeiro lugar, podemos observar que a presença ou ausência de artigos em
contextos que envolvem nomes comuns contáveis no singular, em posições sintáticas
de Sujeito, OD e em SPREP, envolvendo as preposições em e de, os informantes dizem
não haver diferenças semânticas. Em segundo lugar, a presença ou ausência de artigos,
em contextos que ocorrem os nomes comuns contáveis no singular, em posição
Predicativa do Sujeito, no presente e o pretérito perfeito do indicativo, os inquiridos
fazem leituras diferentes entre os pares de frases deste grupo. Na mesma sequência,
em terceiro e último lugar, a presença ou ausência de artigos, em contextos que
ocorrem os nomes comuns contáveis no singular, em posição Predicativa do Sujeito, no
presente e o pretérito perfeito do indicativo, os inquiridos fazem leituras diferentes
entre os pares de frases deste grupo.
Relativamente ao grupo C (nomes comuns não contáveis), os resultados
mostram que não há diferenças semânticas entre os pares de frases simples que
envolvem a realização de nomes comuns não contáveis, em diferentes posições,
nomeadamente em posição sintática de Sujeito, em SPREP, envolvendo as preposições
de e por, no presente e no pretérito perfeito do indicativo e em OD.
Os resultados referentes ao grupo D (nomes comuns contáveis no plural)
permitem notar leituras diversificadas no que se refere aos contextos de realização e
ausência de artigos definidos, envolvendo os nomes comuns contáveis no plural. Em
primeiro lugar, podemos notar que a inserção ou ausência de artigos definidos em
contextos em que se realizam nomes comuns contáveis no plural, em posição sintática
de Sujeito e em SPREP, envolvendo a preposições de, no presente e no pretérito perfeito
do indicativo, os inquiridos dizem não haver diferenças semânticas. Em segundo lugar,
verifica-se que a realização e ausência de artigos definidos em contextos que ocorrem
os nomes comuns contáveis no plural, em posição de Predicativa do Sujeito, envolvendo
o presente e o pretérito perfeito do indicativo, diz-se haver diferentes interpretações
semânticas entre os pares de frases. Em contrapartida, em contextos de realização do
236
artigo definido com nomes comuns contáveis no plural, em posição de Predicativa do
Sujeito, subtende-se não haver interpretações semânticas diferentes entre os pares de
frases. Em terceiro lugar, a realização e ausência de artigos definidos, em contextos que
ocorrem os nomes comuns contáveis no plural, em OD, envolvendo o presente e o
pretérito perfeito do indicativo, observa-se única interpretação possível.
Relativamente aos resultados do grupo E (nomes comuns não contáveis
recategorizados) podemos observar que os inquiridos não encontram diferenças
semânticas entre os pares de frases simples que envolvem a realização de nomes não
contáveis recategorizados, em diferentes contextos sintáticos, nomeadamente em
posição sintática de Sujeito e em SPREP, envolvendo a preposição de, em tempos verbais
do presente e do pretérito perfeito do indicativo, em OD, envolvendo os mesmos
tempos verbais e em SPREP, envolvendo a preposição por.
237
CAPÍTULO VI
OS ARTIGOS DEFINIDOS NOS CORPORA ANALISADOS DO PM: UMA
ABORDAGEM SEMÂNTICA
6.0 Introdução
Conforme nos referimos nos capítulos anteriores e logo na introdução, esta
pesquisa propõe-se estudar em que medida a presença/ausência de artigos definidos
no singular e no plural, no Português de Moçambique (PM), pode contribuir para a
análise semântica da frase e da forma como os nomes, próprios (antropónimos e
topónimos) e comuns (contáveis, não contáveis e recategorizados), são
conceptualizados. Para o efeito, e tal como se observou no capítulo IV, para a recolha
de dados, foi necessário o uso do inquérito por questionário subdividido em duas tarefas
fundamentais, nomeadamente uma tarefa de produção provocada e outra tarefa de
juízo de gramaticalidade e/ou aceitabilidade. Igualmente, foi preciso a aplicação de um
inquérito suplementar à tarefa de juízo de gramaticalidade e/ou aceitabilidade, que
tinha como objetivo avaliar a conceptualização semântica dos artigos definidos, em PM,
a partir de pares de frases identificados como aceitáveis na tarefa de gramaticalidade
e/ou aceitabilidade.
Neste capítulo, analisam-se contextos de presença/ausência de artigos definidos
no singular e no plural, no Português de Moçambique (PM) e suas implicações
semânticas, numa perspetiva comparativa com o PE e o PB, em alguns casos. Tendo em
vista alcançar este objetivo, o presente capítulo subdivide-se em três secções. Em
primeiro lugar, analisam-se os resultados referentes aos nomes próprios (antropónimos
e topónimos) (secção 6.1). De seguida, analisamos os resultados referentes aos nomes
comuns contáveis no singular e no plural (6.2). Na mesma sequência, vamos analisar,
em (6.3), os resultados que dizem respeito aos nomes comuns não contáveis e
recategorizados. Finalmente, em (6.4) apresentamos a síntese geral dos resultados
analisados neste capítulo.
238
6.1 Análise semântica dos resultados referentes aos nomes próprios
(antropónimos e topónimos) no PM
6.1.1 Antropónimos
[Link] Resultados de tarefa de produção provocada
A realização dos antropónimos no PM obedece, por um lado, a padrões
semelhantes aos do PE:
(i) em posição sintática de OI, quando coocorrem com os artigos definidos, com 64.4%
de frequência, como se ilustram os exemplos abaixo, em (1);
(1) a. (…) “Após o casamento, mostrei ao Pedrito o que ele nunca pensou que eu era
capaz”. 030LBSF PM PE
b. (…) “Em troca, eu dei ao Francisco um melhor funcionário da empresa dele,
neste caso eu”. 028LBTT PM PE
Em contrapartida, apesar da semelhança observada em (1) com o PE, os
resultados apresentados no capítulo V mostram ainda outros padrões que os distinguem
do PE, nomeadamente:
(ii) em posição Pred. do Sujeito (posição não argumental), os antropónimos simples são
realizados sem artigos definidos, com 64.5% de observações identificadas, como
ilustram os exemplos seguintes em (2), retirados do corpus produzido pelos
informantes.
(2) a. “Samora Machel foi primeiro presidente de Moçambique que fazia de tudo para
acabar com os casamentos prematuros”. 08LBTT PM *PE
(PE: Samora Machel foi o primeiro presidente de Moçambique …)
b. “A minha rotina diária tem sido difícil. A minha empregada doméstica, Joana, fica
a dar conta de tudo em casa. (…)”. 015LBSF PM #PE
(PE: A minha empregada doméstica, a Joana …)
(iii) em posição sintática de sujeito, os antropónimos simples que designam indivíduos
pertencentes à memória histórico-cultural coletiva são realizados com artigos definidos,
239
com 64.5%. Em (3), vejam-se alguns exemplos ilustrativos, com diferença de grau de
familiaridade.
(3) a. “O Deus destinou-me aquela pessoa bonita por fora e muito mais bonita pelo
dentro. (…)” 06LPTT PM *PE
(PE: Deus destinou-me …)
b. “ (…) O Armando Guebuza entrou no poder para deixar economia moçambicana
em maus lençóis. (…)” 05LBTT PM *PE
(PE: Armando Guebuza entrou no poder …)
[Link] Resultados de tarefa de Juízos de gramaticalidade e/ou aceitabilidade
Relativamente aos antropónimos simples e compostos referentes a nomes
próprios que designam indivíduos pertencentes à memória histórico-cultural colectiva,
nota-se, por um lado, aceitação em grande medida de padrões distintos dos de PE,
nomeadamente:
(i) em posição sintática de Sujeito (Cf. (4 b)) e em SPREP (Cf. (5 b)), envolvendo a
preposição de, os informantes, falantes do PM, aceitam preferencialmente a realização
de antropónimos simples e compostos com inserção dos artigos definidos, com 96.6%
de frequência relativa igual para ambos os casos. Vejam-se alguns exemplos ilustrativos
seguintes em (4 b) e (5 b).
(4) a. Mia Couto é um dos escritores influentes na literatura moçambicana. PM PE
b. O Mia Couto é um dos escritores influentes na literatura moçambicana. PM #PE
(5) a. Ele comprou algumas obras da Paulina Chiziane. PM PE
b. Ele comprou algumas obras da Paulina Chiziane. PM #PE
A pouca aceitabilidade dos exemplos em (4 b) e (5 b) para o PE, deve-se ao facto
de que, segundo Duarte e Oliveira (2003:217), “os nomes próprios que designam
indivíduos pertencentes à memória histórico-cultural coletiva ou que designam
rigidamente uma única entidade socioculturalmente saliente ocorrem sem
especificadores”. Dado que, em (4 b), Mia Couto, antropónimo composto, é dado como
240
referência que designa rigidamente uma única entidade socioculturalmente saliente e
conhecido pelos moçambicanos.
Em (5 b), Paulina Chiziane, antropónimo composto, é dado como referência que
designa uma única entidade socioculturalmente saliente e conhecida pelos
moçambicanos.
No que se refere aos antropónimos simples que não designam indivíduos
pertencentes à memória histórico-cultural colectiva ou que não designam rigidamente
uma única entidade socio-culturalmente saliente, tal como são os casos dos nomes de
baptismo, prenome ou nome próprio e os apelidos ou nomes de família, da mãe ou do
pai, foi possível constatar no PM aceitabilidade de padrões semelhantes aos do PE:
(ii) quando os antropónimos simples coocorrem com os artigos definidos, em posição
sintática de Sujeito, com 93.3% de frequência relativa (Cf. (6)), e em posição Pred. do
Sujeito, com 23.3%, (Cf. (7)), tal como são os exemplos ilustrativos abaixo em (6) e (7);
(6) O João ganhou a lotaria. PM PE
(7) Ele chama-se o Pedro. PM #PE
Em contrapartida, apesar desta semelhança com o PE, observada em (6),
encontrámos no PM aceitabilidade de outros padrões que distinguem as duas
variedades, mas com semelhanças ao PB, designadamente:
(iii) quando os artigos definidos com antropónimos simples são realizados sem artigos
definidos, em posição sintática de Sujeito, com 6.3% de frequência relativa (Cf. (8)) e em
posição de Predicativo do Sujeito, com 76.6%, (Cf. (9)). Notem-se os exemplos
ilustrativos em (8) e (9);
(8) João ganhou a lotaria. PM *PE PB
(9) Ele chama-se Pedro. PM PE PB
A agramaticalidade do exemplo em (8) justifica-se pelo facto de, nesta variedade
do português, a realização de um nome próprio, conforme explicam Duarte e Oliveira
(2003), que é utilizado em situações em que se presume haver mais de um João, exige-
se a realização do artigo definido.
241
Castro (2006) e Sedrins (2017) consideram que, no PB, o artigo definido está
ausente com nomes próprios de pessoas, em contextos em que a sua realização em PE,
no entanto, é obrigatório, mas com algumas implicações semânticas.
Assim, segundo Sedrins (2017), a realização do artigo definido com um nome
próprio no PB pressupõe uma leitura individualizada e a ausência do artigo pressupõe
um referente ao conjunto de indivíduos com o mesmo nome.
[Link] Resultados do inquérito suplementar à tarefa de Juízos de gramaticalidade
e/ou aceitabilidade
À partida, tendo em consideração geral os resultados do inquérito suplementar
à tarefa de Juízos de gramaticalidade e/ou aceitabilidade fornecidos pelos informantes,
falantes do PM, nota-se que a realização de antropónimos simples que não designam
indivíduos pertencentes à memória histórico-cultural coletiva ou que não designam
rigidamente uma única entidade socioculturalmente saliente obedece, por um lado, a
padrões semelhantes aos de PE:
a) quando ocorrem associados aos artigos definidos, em posição de sujeito (Cf. (10 a)) e
em posição de Predicativo do Sujeito (Cf. (11 a, c)); com leitura referencial;
(10) a. O João ganhou a lotaria. PM PE PB
b. João ganhou a lotaria. PM *PE PB
(11) a. O vencedor da Bola de Ouro é, de novo, o Ronaldo. PM PE PB
b. O vencedor da Bola de Ouro é, de novo, Ronaldo. PM PE PB
c. O vencedor da Bola de Ouro foi, de novo, o Ronaldo. PM PE PB
d. O vencedor da Bola de Ouro foi, de novo, Ronaldo. PM PE PB
Em (10 a) e (11 a, c), à semelhança do PE e PB, espera-se, portanto, uma leitura
referencial. Em (10 a), o João designa um referente fixo e único e identificável pelos
interlocutores, o mesmo acontece com o Ronaldo em (11 a, c).
242
Em (10 a), a leitura que os informantes, falantes do português (L1 e L2) fazem
e que contribui favoravelmente ao João como sendo um referente fixo e
identificável pelos interlocutores é a de que [se fala de alguém conhecida que já
ganhou a lotaria].
Entretanto, nota-se ainda que, no PM, a inserção ou ausência de artigos
definidos em contextos que envolvem a realização de antropónimos simples, em
posições sintáticas de Sujeito e em posição de Predicativo do Sujeito, os informantes,
falantes do português (L1 e L2), dizem não haver diferenças semânticas. Sendo que, para
os informantes, os exemplos em (10 b) e (11 b, d), à semelhança dos exemplos
apresentados em (10 a) e (11 a, c) identificam uma leitura referencial.
A agramaticalidade que se verifica em (10 b) para o PE, tal como anteriormente,
justifica-se pelo facto de que os nomes próprios, sendo designadores de um referente
fixo e único quando são realizados em contextos sintáticos destas frases geralmente
exigem um especificador. (Cf. Duarte e Oliveira (2003) ou Raposo (2013), entre outros.
No que se refere aos antropónimos simples e compostos que designam
indivíduos pertencentes à memória histórico-cultural coletiva ou que não designam
rigidamente uma única entidade socioculturalmente saliente, observamos que os dados
do PM apresentam em parte padrões semelhantes aos de PE:
b) leitura referencial, quer em posição do Sujeito (Cf. (12 b, d)) quer em SPREP (Cf. (13
b)), tal como se ilustram os exemplos seguintes em (12) e (13);
(12) a. O Ngungunhane foi um líder marcante na história de Moçambique. PM #PE
b. Ngungunhane foi um líder marcante na história de Moçambique. PM PE
c. O Mia Couto é um dos escritores influentes na literatura moçambicana. PM #PE
d. Mia Couto é um dos escritores influentes na literatura moçambicana. PM PE
(13) a. Ele comprou algumas obras da Paulina Chiziane. PM #PE
b. Ele comprou algumas obras de Paulina Chiziane. PM PE
Em (12 b, d) e (13 b, à semelhança do PE e PB, única leitura que é possível é a
referencial. Em (12 b), Ngungunhane designa, conforme dissemos anteriormente,
243
rigidamente uma única entidade socioculturalmente saliente e conhecida pelos
moçambicanos que o identificam como o nome do indivíduo que foi o último rei de Gaza.
Na mesma sequência, em (12 d), Mia Couto, antropónimo composto, é dado
como referência que designa rigidamente uma única entidade socioculturalmente
saliente e conhecido pelos moçambicanos.
Assim, em (13 d), Paulina Chiziane, antropónimo composto, é dado como
referência que designa rigidamente uma única entidade socioculturalmente saliente e
conhecida pelos moçambicanos.
Em (12 b, d) e (13 b), a leitura que os informantes, falantes do português (L1
e L2), p.e., estabelecem e que influencia favoravelmente a Ngungunhane, Mia Couto
e Paulina Chiziane, como sendo referentes fixos e identificáveis pelos
interlocutores é a seguinte:
(i) em (12 d) [fala-se de alguém que já o conhecemos no mundo da literatura: o escritor
moçambicano”]
(ii) em (13 b) [fala-se de obras escritas por alguém conhecida: a escritora moçambicana”]
Por outro lado, verificámos que, no PM, a inserção ou ausência de artigos
definidos em contextos que envolvem a realização de antropónimos simples e
compostos, na posição sintática de Sujeito e em SPREPs, os informantes, falantes do
português (L1 e L2), dizem não haver diferenças semânticas entre os pares de frases.
Neste contexto, para os informantes, os exemplos em (12 a, c) e (13 a), à semelhança
dos exemplos apresentados em (12 b, d) e (13 d) encontram uma leitura referencial.
Esta leitura, porém, referente aos exemplos em (12 a, c) e (13 a) é menos aceitável,
para o PE.
6.1.2 Topónimos
Nas tarefas de produção provocada e de juízos de gramaticalidade e/ou
aceitabilidade, para além de incluirmos os antropónimos simples e compostos também
244
foi preciso identificar, no corpus produzido pelos informantes, de que forma os
topónimos são conceptualizados no PM, tendo como foco os nomes das cidades,
províncias, vilas distritais, de avenidas, praças e de alguns países.
[Link] Resultados de tarefa de produção provocada
A realização dos topónimos no PM obedece, por um lado, a padrões semelhantes
aos do PE:
(i) em SPREP, quando um topónimo com origem de um nome comum é realizado com
artigo definido (Cf. (14) e realização de um nome próprio puro sem artigo definido (Cf.
(15);
(14) Ele viajou para a Beira. PM PE
(15) A Rita viveu em Maputo PM PE
Para além destas características, encontrámos, no PM, realizações de topónimos
com outros padrões distintos dos do PE, como se pode ver no exemplo seguinte em (16),
em resultado da tarefa de produção provocada.
(16) “Conheci meu marido no Maputo, quando eu vivia em casa da minha tia. Tudo
começou no Maputo, desde o namoro ate a fase de casamento. Por isso, ele é uma
pessoa inesquecível para mim.” 08LBTT PM #PE
No exemplo em (16) observa-se que para o PM, parece admitir-se a possibilidade
de inserção do determinante (artigo definido) em topónimos que não o exigem.
“Maputo” é um topónimo referente à cidade capital de Moçambique, o qual é realizado
gramaticalmente sem artigo definido, pese embora seja pouco aceitável para o PE.
[Link] Resultados de tarefa de Juízos de gramaticalidade e/ou aceitabilidade
Os resultados da tarefa de Juízos de gramaticalidade e/ou aceitabilidade
apresentados no capítulo anterior relativamente aos contextos de realização dos
topónimos no PM, verifica-se que:
245
(i) em SPREP, à semelhança do PB, os informantes aceitam preferencialmente a
ocorrência dos topónimos simples sem determinantes (Ns) (Cf. (17) e (18)). Vejam-se os
exemplos ilustrativos seguintes.
(17) A Avenida de França, em Maputo, foi palco de um espetáculo musical. PM PB PE
(18) A Avenida da França, em Maputo, foi palco de um espetáculo musical. PM PB ?PE
Nos exemplos em (17) e (18) observa-se que para o PM, à semelhança do PB,
admite-se realização do topónimo “França” (cf. 17).
[Link] Resultados do inquérito suplementar à tarefa de Juízos de gramaticalidade
e/ou aceitabilidade
A partir dos resultados do inquérito suplementar à tarefa de Juízos de
gramaticalidade e/ou aceitabilidade fornecidos pelos informantes, falantes do
português (L1 e L2), nota-se que a realização de topónimos simples e compostos
obedece, por um lado, a padrões semelhantes aos de PE:
a) quando coocorrem com os artigos definidos, em SPREP, envolvendo as preposições
em (Cf. (19 a)) e de Cf. (20 a)), com leitura referencial;
(19) a. O Manuel viveu no Niassa. PM PE
b. O Manuel viveu em Niassa. PM *PE
(20) a. A Avenida de França, em Maputo, foi palco de um espetáculo musical. PM #PE
b. A Avenida da França, em Maputo, foi palco de um espetáculo musical. PM PE
Em (19 a) e (20 a), à semelhança do PE e PB, espera-se uma única leitura possível,
a referencial.
Em (19 a), o Niassa designa um referente fixo e único e identificável pelos
interlocutores, o mesmo acontece com a Avenida da França, em Maputo, em (20 a),
pese embora este último caso não seja a forma canónica para o PE.
246
Em (19 a), Niassa é um topónimo simples que designa, conforme dissemos
anteriormente, um nome próprio canónico conhecido pelos moçambicanos que o
identificam como o nome de uma das províncias de Moçambique,
Em (20 a), da França, é um topónimo composto que designa, conforme dissemos
anteriormente, um nome próprio de base descritiva que é identificada como o nome de
uma das Avenidas da Cidade de Maputo, em Moçambique.
Os exemplos apresentados em (19 a) e (20 a), são interpretados pelos
informantes, falantes do português (L1 e L2), da seguinte forma:
(a) Em (19 a), (o) Niassa - [“fala-se da província que conhecemos, que se situa no norte
de Moçambique, onde se localiza o segundo maior lago do mundo: Lago Niassa.”];
(b) Em (20 a), Avenida da França - [“fala-se da Avenida conhecida, que se situa em
Maputo, que dá acesso à Embaixada da França”].
Por outro lado, verificámos que, no PM, a inserção ou ausência de artigos
definidos em contextos que envolvem a realização de topónimos simples e compostos,
em SPREP, os informantes, falantes do português (L1 e L2), dizem não haver diferenças
semânticas entre os pares de frases. Neste contexto, para os informantes, os exemplos
em (19 b) e (20 b), à semelhança dos exemplos apresentados em (19 a) e (20 a)
identificam a mesma leitura possível: leitura referencial, em ambos os contextos. Esta
leitura, porém, referente aos exemplos em (19 b) e (20 b) é pouco aceitável, para o PE,
pese embora não seja a forma canónica.
6.2 Análise semântica dos resultados referentes aos nomes comuns
contáveis (singular e plural) no PM
6.2.1 Nomes comuns contáveis no singular
[Link] Resultados de tarefa de produção provocada
À partida, tendo em consideração geral os resultados da tarefa de produção
provocada fornecidos pelos trinta (30) informantes, estudantes universitários dos cursos
iniciais da extinta Universidade Pedagógica de Moçambique, Delegação de Tete (UP-
247
Tete), atualmente Universidade Púnguè - Extensão de Tete (UniPTete), nota-se que a
realização de nomes comuns contáveis no singular obedece, por um lado, a padrões
semelhantes aos de PE:
(i) quando são realizados com artigos definidos, em posições de Sujeito (Cf. (20)), Pred.
Suj. (Cf. (21)), OD (Cf. (22)) e OI (Cf. (23)).
(20) “A casa do meu marido era invejável”. 08LBTT PM PE
(21) “O culpado dessa história é o meu cunhado” 012LBMN PM PE
(22) “Fiquei muito triste porque o meu marido vendeu a casa que construímos juntos
sem o meu consentimento”. 029LBSF PM PE
(23) “Dou ao cliente todo o carinho necessário para voltar cá na loja sempre que quiser”.
027LBTT PM PE
(ii) em posição sintática de Sujeito, os nomes comuns contáveis no singular coocorrem
com artigos definidos, em contextos com os possessivos, com 71.2%, como se pode
observar nos exemplos que se seguem abaixo, em (24), extraídos do corpus produzido
pelos informantes.
(24) a. “A minha machamba foi determinante para garantir sobrevivência de meus
encargos. (…).” 021LBTT PM PE
b. (…) “O nosso carro facilita transporte de bens materiais.” 029LBSF PM PE
(iii) em posição sintática de OD, os nomes comuns contáveis no singular são realizados
com os artigos definidos, em contextos com possessivos, com 33.3%. Vejam-se alguns
exemplos seguintes em (25).
(25) a. “Quando comprei a minha casa, notei que valeu a pena ter estudado e ter
conseguido um bom emprego. Contudo, dou graça aos meus pais. (…).” 028LBTT
PM PE
b. “Tenho aconselhado a minha filha para que nunca passe pela experiência que tive.
Envolvi-me com meu primeiro marido quando eu tinha 16 anos de idade. (…)”
029LBSF PM PE
248
(iv) em SPREP, envolvendo a preposição em, os nomes comuns contáveis no singular são
realizados com os artigos definidos, em contextos que se realizam os possessivos, com
33.3%, (Cf. (26));
(26) a. “Ele é uma pessoa admirável, uma pessoa que me orgulho de ter presente na
minha casa e que faço toda a questão de manter perto de mim.” 030LBSF PM PE
b. “Tudo começou na minha escola. Ele sempre vinha ao encontro de alguém que
era um amigo em comum. (...)” 030LBSF PM PE
(v) em SPREP, envolvendo a preposição por, os nomes comuns contáveis no singular
coocorrem com os artigos definidos, em contextos com possessivos, com 41.5%, (Cf.
(27));
(27) a. (…) “Digo sempre para minha família e colegas do serviço que o amor que tenho
pelo meu filho é o maior e mais profundo do que ter um falso marido, que
não te quer ver bem.” 021LBTT PM PE
b. “Trabalho arduamente pela minha filha, que está com uma patologia, desde que
ela nasceu. (…).” 029LBSF PM PE
Para além destas características, encontrámos, no PM, realizações de nomes
comuns contáveis no singular preferencialmente sem determinantes (Ns) à semelhança
do padrão do PB e distintos dos do PE, em posição Pred. do Sujeito (Cf. (28)), em OD (Cf.
(29)) e em posição argumental (Cf. (30)), tal como se pode observar os exemplos
seguintes abaixo, em resultado da tarefa de produção provocada.
(28) “Ela foi pessoa que criou condições para me aproximar do meu marido”. 09LBMP
PM PB *PE
(29) “Estes números preocupam governo”. 018LBZB PM *PE
(30) “A probabilidade de ser abusada por marido e sofrer complicações durante gravidez
aumenta”. 012LBMN PM *PE
Nos exemplos em (28), (29) e (30) observa-se que para o PM, à semelhança do
PB, admite-se realização dos nomes comuns contáveis no singular sem determinantes
(Ns) como complementos verbais.
249
Na mesma sequência, relativamente à realização dos nomes comuns contáveis
no singular em contextos que ocorrem os possessivos, encontrámos igualmente outros
padrões que se distanciam dos do PE, designadamente:
(vi) em posição sintática de OD, os nomes comuns contáveis no singular coocorrem
preferencialmente com os possessivos sem artigos definidos, com 66.6%, como se pode
verificar os exemplos ilustrativos em (31).
(31) a. “Quando compramos nossa primeira casa, todas coisas mudaram. (…)” 030LBSF
PM *PE
(PE: Quando compramos a nossa primeira casa, …)
b. “ (…) Ela sempre exigiu provar meus pratos, que eu confecionava naquela altura.
(…)” 021LBTT PM *PE
(PE: Ela sempre exigiu provar os meus pratos, …)
(vii) em posição sintática de Sujeito, os nomes comuns contáveis no singular também
são realizados com os possessivos sem artigos definidos, com 28.7%, (Cf. (32));
(32) a. “Minha mãe é tudo que tenho de valor nessa vida. (…)” 028LBTT PM *PE
(PE: A minha mãe é tudo que tenho de valor nessa vida …)
b. “(…) Nossa faculdade localiza-se distante de onde trabalho.” 013LPTT PM *PE
(PE: A nossa faculdade localiza-se distante de onde trabalho)
(viii) em SPREP, envolvendo a preposição com, os nomes comuns contáveis no singular
são realizados sem artigos definidos, em contextos com possessivos, com 56.9 %, (Cf.
(33));
(33) a. “Aos Sábados e Domingos gosto de ficar em casa junto de família, e só de quando
em vez saio para passear com meu esposo.” 011LBTT PM *PE
(PE: … saio para passear com o meu esposo)
b. “No primeiro dia, depois de casamento, tivemos um jantar com minha família.
(…)” 08LBTT PM *PE
(PE: … tivemos um jantar com a minha família)
250
(ix) em posição SPREP, envolvendo a preposição de, os nomes comuns contáveis no
singular são realizados sem artigos definidos, em contextos que se realizam os
possessivos, com 43%, (Cf. (34));
(34) a. “Aos Sábados e Domingos gosto de ficar em casa junto de minha família, e só
de quando em vez saio para passear com meu esposo.” 011LBTT PM *PE
(PE: … gosto de ficar em casa junto da minha família, …)
b. “ (…) Os seus efeitos têm impacto negativo no desenvolvimento de rapariga que
passa por esse mal.” 02LBTT
(PE: … no desenvolvimento da rapariga …)
[Link] Resultados de tarefa de Juízos de gramaticalidade e/ou aceitabilidade
Os resultados da tarefa de Juízos de gramaticalidade e/ou aceitabilidade
apresentados no capítulo anterior relativamente aos contextos de realização dos nomes
comuns contáveis no singular, verifica-se que, no PM:
(i) em posição de Sujeito, à semelhança do PE, aceita-se preferencialmente a realização
dos nomes comuns contáveis no singular com determinantes, com 73.3%, (Cf. (35) e
(36)). Vejam-se os exemplos seguintes.
(35) A menina foi a minha vizinha. PM PE
(36) Menina foi a minha vizinha. *PM *PE
Em contrapartida, os resultados da tarefa de Juízos de gramaticalidade e/ou
aceitabilidade, mostram ainda que os informantes do PM parecem optar por um padrão
diferente do PE e do PB em alguns contextos, tais como:
(ii) em posição Predicativa de Sujeito há grande aceitabilidade por parte dos sujeitos
falantes do PM inquiridos em relação à realização dos nomes comuns contáveis no
singular sem artigos definidos quer com os tempos do presente (Cf. (37)) quer com os
tempos do pretérito perfeito do indicativo (Cf. (38)), com 73.3%. Vejam-se alguns
exemplos ilustrativos em (37) e (38).
(37). a. Aquela rapariga loira é aniversariante. PM *PE
251
b. Aquela rapariga loira é aniversariante. PM PE
(38) a. Aquela rapariga loira foi a aniversariante. PM *PE
b. Aquela rapariga loira foi aniversariante. PM PE
(iii) em OD, existe grande aceitação referente à realização dos nomes comuns contáveis
no singular sem artigos definidos quer com os tempos do presente (Cf. (39)) quer com
os tempos do pretérito perfeito do indicativo (Cf. (40)), com 66.6%. Seguem em (39) e
(40) alguns exemplos ilustrativos.
(39) a. O Rui compra telemóvel naquela loja. PM *PE PB
b. O Rui compra o telemóvel naquela loja. PM *PE *PB
(40) a. O Rui comprou telemóvel naquela loja. PM *PE PB
b. O Rui comprou o telemóvel naquela loja. PM PE PB
(iv) em SPREP, envolvendo a preposição de, os informantes mostram grande aceitação
dos nomes comuns contáveis no singular quando são realizados sem artigos definidos,
com 60%, tal como se pode observar os exemplos que se seguem abaixo, em (41).
(41) a. A construção da ponte teve muitos investimentos. PM PE PB
b. A construção de ponte teve muitos investimentos. PM *PE PB
(v) Há grande aceitabilidade pelos informantes, falantes do PM, relativamente à
realização dos nomes comuns contáveis no singular sem artigos definidos, em SPREP,
envolvendo a preposição em, com 76.6%, quer com os tempos verbais no presente (Cf.
(42)) quer com os tempos verbais no pretérito perfeito do indicativo (Cf. (43)).
Considerem-se os exemplos ilustrativos seguintes em (42) e (43).
(42) a. Ele viaja em carro pessoal. PM PE PB
b. Ele viaja no carro pessoal. PM PE PB
(43) a. Ele viajou em carro pessoal. PM PE PB
b. Ele viajou no carro pessoal. PM PE PB
[Link] Resultados do inquérito suplementar à tarefa de Juízos de gramaticalidade
e/ou aceitabilidade
252
Tendo em consideração os resultados do inquérito suplementar à tarefa de
Juízos de gramaticalidade e/ou aceitabilidade referentes à realização dos nomes
comuns contáveis no singular, verifica-se, por um lado, semelhança com PE:
(i) leitura específica, quando os nomes comuns contáveis no singular são realizados com
artigos definidos, em posição sintática do sujeito (Cf. (45 a)), OD (Cf. (46 a, c, e)) e em
posição de Predicativo do Sujeito (Cf. (47 a, b));
(45) a. A rapariga de tranças foi ao mercado. PM PE
b. Rapariga foi ao mercado. PM *PE PB
Em (45 a), à semelhança do PE, espera-se, portanto, uma leitura específica. O
modo indicativo, o tempo verbal flexionado no pretérito perfeito (foi), SN definido “a
rapariga” e o modificador restritivo “de tranças”, contribuem para a leitura específica.
Assim, em (45 a), os informantes, fazem a seguinte leitura: ['fala-se de alguém
conhecida e com alguma relação de proximidade'].
Em (45 b), no entanto, os informantes, falantes do PM estabelecem uma outra
interpretação possível para esta frase: leitura não específica ['fala-se de alguém não
conhecida e sem alguma relação de proximidade'].
A agramaticalidade que se verifica em (45 b) tem a ver com o facto de, em PE, os
nomes contáveis no singular (e, em certos casos, no plural), na posição do sujeito,
requererem a sua realização com especificador (Cf. Duarte e Oliveira (2003) ou Raposo
(2013), entre outros). Em contrapartida, conforme dissemos anteriormente, em PB,
admite-se a realização livre de nomes simples (Ns e NPs). (Cf. Castro, 2006, Sedrins,
2017, Müller e Oliveira, 2004, entre outros).
Em (45 b), em oposição ao PE e PM, segundo Castro (2006), a única interpretação
possível para o PB é a existencial.
(46) a. O empresário construiu a casa PM PE PB
b. O Nuno lê o poema. PM PE PB
c. O Nuno leu o poema. PM PE PB
d. O Rui compra o telemóvel naquela loja. PM #PE PB
253
e. O Rui comprou o telemóvel naquela loja. PM PE PB
f. O Nuno lê poema. PM *PE PB
g. O Nuno leu poema. PM *PE PB
h. O Rui compra telemóvel naquela loja. PM ?#PE PB
i. O Rui comprou telemóvel naquela loja. PM *PE PB
Em (46 a, c, e), à semelhança do PE, a única leitura possível é a de se considerar
“a casa”/ “o poema”/ “o telemóvel”/ especificamente.
Os informantes interpretam os exemplos em (46) da seguinte forma:
(a) em (46 a), [“fala-se de uma casa em que conhecemos o tipo, o modelo e a sua
localização geográfica”].
(b) em (46 b, c), [“fala-se de um poema que conhecemos ou da colectânea também
conhecida”].
(c) em (46 e), [“fala-se de um objecto material electrónico e informático conhecido
e mais usado na actualidade”]
Em contrapartida, em (46 b), enquanto no PM admite-se uma leitura específica,
para o PE, espera-se uma leitura de habitualidade/ de iteração/ de frequência, em
virtude do tempo presente, embora neste caso possa ser o mesmo poema.
Em (46 d, f, g, h, i), a leitura especifica é possível para o PM, no entanto é
bloqueada para o PE devido ao facto de não serem admitidos, em geral, nomes
contáveis no singular sem determinantes em posição de OD, a não ser que possam ser
recategorizados de alguma forma, o que não parece ser possível nestes exemplos. Em
(46 d), o tempo presente contribui para uma leitura de habitualidade o que torna
marginalmente aceitável a frase.
(47) a. Aquela rapariga loira é a aniversariante. PM *PE
b. Aquela rapariga loira foi a aniversariante. PM *PE
c. Aquela rapariga loira é aniversariante. PM PE
d. Aquela rapariga loira foi aniversariante. PM PE
254
Em (47), à semelhança do PE, o nome comum contável no singular é realizado
com artigo definido, em posição de Predicativo do Sujeito quer com o presente do
indicativo (Cf. (47 a)) quer com o pretérito perfeito do indicativo (Cf. (47 b)). Em ambos
os exemplos, a única leitura é possível: específica, devido à influência do modo
“indicativo, SN definido “a aniversariante” que contribuem favoravelmente para aquela
leitura nos exemplos em (47 a, b).
Os informantes interpretam os exemplos em (47 a, b) da seguinte forma:
(a) em (47 a), [“fala-se de alguém conhecida e com alguma relação de
proximidade”];
(b) em (47 b), [“fala-se de alguém conhecida e com alguma relação de
proximidade”].
A agramaticalidade que se verifica nas frases (47 a, b) tem a ver com o facto de,
em PE, os nomes contáveis no singular, em posição predicativa, não requererem a sua
realização com especificador (Cf. Duarte e Oliveira, (2003) ou Oliveira (2006).
Para o PB, segundo Pires de Oliveira (2005), Müller, Negrão e Gomes (2007),
Sedrins (2017, Castro (2006) e outros, em (47 c, d), espera-se uma leitura não
individualizada (não especifica), ou seja, na há conhecimento mútuo que tanto falante
quanto ouvinte sabem individualizar o referente.
(ii) leitura específica, quando os nomes comuns contáveis no singular são realizados com
artigos definidos, em SPREP (Cf. (48 a, d, f));
(48) a. A construção da ponte teve muitos investimentos. PM PE
b. A construção de ponte teve muitos investimentos. PM *PE PB
c. Ele viaja em carro pessoal. PM PE PB
d. Ele viaja no carro pessoal. PM PE PB
e. Ele viajou em carro pessoal. PM PE PB
f. Ele viajou no carro pessoal. PM PE PB
Em (48 a, d, f), à semelhança do PE, espera-se uma leitura específica O modo
indicativo, que se observa nas frases ilustradas em (48 a, d, f), contribui favoravelmente
255
para leitura específica “do carro pessoal” e “da ponte” no universo da referência dos
interlocutores. Os informantes interpretam os exemplos em (48 a, b) da seguinte forma:
(a) em (48 a, d, f), [“fala-se de uma ponte que existe e que conhecemos a sua localização
geográfica”];
(b) em (48 d, f), [“fala-se de um carro conhecido, incluindo o tipo, o modelo e a cor do
mesmo”].
Em contrapartida, enquanto é possível para o PM uma leitura específica em (48
b, c, e) para o PE essa leitura não está acessível em virtude de em PE se tratar, para os
exemplos (48 c, e), de uma caraterização/tipo de carro e em (48b) a frase não ser
gramatical.
Relativamente ao exemplo em (48 c, devido à influência do presente do
indicativo, espera-se para o PE, para além da leitura em oposição ao PM, a leitura de
habitualidade dado que o presente do Indicativo combinado com eventos os transfora
em estados habituais.
6.2.2 Nomes comuns contáveis no plural
[Link] Resultados de tarefa de produção provocada
Tendo em conta os resultados de tarefa de produção provocada apresentados
no capítulo anterior referentes à realização dos nomes comuns contáveis no plural,
nota-se, por um lado, padrões semelhantes aos de PE e PB:
(i) quando ocorrem com determinantes com preferência na posição sintáctica de sujeito,
com 91.3%, (cf. (49));
(49) a. “As raparigas com acesso à educação casam-se mais tarde porque têm maior
poder de decisão”. 04LBMN PM PE PB
b. “As pessoas correm de um lado para o outro a procura de sobrevivência”.
029LBSF PM PE PB
(ii) quando ocorrem sem determinantes na posição sintática de complemento pós-
verbal, com um total de 68.5% de observações constatadas (cf. (50));
256
(50) a. “Após minha leitura, gosto de ver novelas mexicanas, mas sempre controlando o
tempo para a faculdade.” 013LPTT PM PE PB
b. “Uma das consequências trazidas pelos casamentos prematuros é que muitos
abandonam estudos e as responsabilidades dos bebés ficam sobre os seus
pais”.
022LBTT PM PE PB
(iii) quando os nomes contáveis no plural ocorrem sem especificadores (NPs), em
posição SPREP, com 67.5% de frequência relativa, tal como são os casos seguintes em
(51), extraídos do corpus escrito pelos informantes.
(51) a. “O que incentiva a ocorrência de casamentos prematuros na nossa sociedade
tem explicação de natureza adversa.” 016LBSF PM PE PB
b. “O que acontece na realidade é que os filhos de mães adolescentes são mais
propensos à mortalidade infantil do que os filhos de uma mãe de outras faixas
etárias superiores.” 018LBZB PM PE PB
Os exemplos em (49)-(51) apresentam padrões semelhantes aos do PE e do PB.
Para o PE, segundo Raposo (2013), os nomes contáveis no plural e não contáveis no
singular podem ocorrer como núcleo de um SN reduzido, i.e., sem especificador em
posição pós-verbal (compre livros/ comprei ouro) e pós-preposicional (um livro de
receitas, colar de perolas). O mesmo acontece para o PB, segundo Sedrins (2017).
(iv) em posição sintática de Sujeito, os nomes comuns contáveis no plural coocorrem
com artigos definidos, em contextos que se realizam os possessivos, com 74.1%, tal
como se pode depreender em exemplos que se seguem em (52), extraídos do corpus
produzido pelos informantes. Vejam-se os exemplos seguintes.
(52) a. “As nossas casas encontravam-se no mesmo Bairro. (…) ” 06LPTT PM PE
b. “Os meus filhos constituem o bem precioso que Deus me deu. (…)” 08LBTT
PM PE
(v) em posição sintática de OD, os nomes comuns contáveis no plural coocorrem com
artigos definidos, em contextos que se realizam os possessivos, com 32.1%, (Cf. (53));
257
(53) a. (…) “Isto é paralelo dizer que a galinha deve guiar os seus pintainhos para
caminho
certo.” 026LPMN PM PE
b. “ (…) os meus pais faziam as suas maxambas bem próximo ao rio (…).” 06LPTT
PM PE
(vi) em SPREP, envolvendo a preposição em, os nomes comuns contáveis no plural
coocorrem com artigos definidos e possessivos, com 54.7 %, (Cf. (54));
(54) a. (…) “Para que esta situação não possa ocorrer nos nossos Bairros aconselha-se a
vigilância de todos.” 02LBTT PM PE
b. (…) “Também é preciso um trabalho aturado com os nossos líderes
comunitários.” 010LBMP PM PE
(vii) em SPREP, envolvendo a preposição por, os nomes comuns contáveis no plural
coocorrem com artigos definidos e possessivos, com 45.2% de frequência relativa, tal
como se observar os exemplos ilustrativos seguintes em (55).
(55) a. (…) “Agora entendo que toda atenção que tive será devolvida oportunamente
pelos nossos filhos, quase uma réplica daquilo que lhes tenho dado como educação.”
(…) 029LBSF PM PE
b. (…) “A partir dessa fase, tive uma lição de que devemos orar pelos nossos inimigos,
que nem têm cor.” (…) 05LBTT PM PE
Apesar desta semelhança entre o PM e o PE, os resultados referentes à
tarefa de produção provocada, que tinha como objetivo analisar o desenvolvimento da
competência gramatical, nomeadamente no que dizia respeito à conceptualização
semântica dos antropónimos simples e compostos – nomes próprios (de pessoas, de
figuras salientes ou de personalidades renomados), topónimos – nomes de lugares
(países, cidades, …) e comuns (contáveis, não contáveis e recategorizados), com vista a
identificarmos os contextos sintáticos e semânticos de presença/ausência ou inserção
dos artigos definidos no singular e no plural, em PM, mostram, no entanto, outros
padrões que os distinguem dos do PE, nomeadamente:
258
(viii) em posição sintática de OD, os nomes comuns contáveis no plural são realizados
preferencialmente sem artigos definidos em contextos que ocorrem os possessivos, com
67.8% de frequência relativa, tal como se observar os exemplos ilustrativos seguintes
em (56).
(56) a. (…) “Aprendo muito com meus colegas do serviço.” 06LPTT PM *PE
(PE: com os meus colegas do serviço)
b. “Em aniversários de juventude, sempre convidei minhas vizinhas.” (…) 028LBTT
PM *PE
(PE: sempre convidei as minhas vizinhas)
(ix) em posição sintática de Sujeito, encontrámos alguns casos em que os nomes comuns
contáveis no plural são realizados sem artigos definidos em contextos que ocorrem os
possessivos, com 25.8% de frequência relativa, (Cf. (57));
(57) a. (…) “Nossos padrinhos apoiam-nos moralmente no que for preciso.” 029LBSF
PM *PE
(PE: Os nossos padrinhos)
b. (…) “Nossos amigos que agente encontra por ai são um caso merecedor de muita
atenção. (…)” 05LBTT PM *PE
(PE: Os nossos amigos)
(x) em SPREP, envolvendo a preposição de, os nomes comuns contáveis no plural
realizam-se sem artigos definidos em contextos que ocorrem os possessivos, com 53.6%
de frequência relativa, tal como se observar os exemplos ilustrativos seguintes em (58).
(58) a. “(…) tenho enfrentado grandes problemas, mas com ajuda de meus colegas e
docentes estou a superar dificuldades diárias.” 01LBTT PM *PE
(PE: mas com ajuda dos meus colegas e docentes)
b. “Estes casamentos são considerados uniões forçadas, pois crianças são obrigadas
a casarem contra sua vontade, dai que se exige uma sensibilização de nossas
comunidades.” 014LBTT PM *PE
(PE: daí que se exige uma sensibilização das nossas comunidades)
259
(xi) em SPREP, envolvendo a preposição com, os nomes comuns contáveis no plural são
realizados sem artigos definidos em contextos que ocorrem os possessivos, com 46.3%
de frequência relativa, (Cf. (59));
(59) a. “Tenho dito sempre que tudo que consegui tem a ver com meus pais, que muito
deram de si para o bem de mim (…)” 09LBMP PM *PE
(PE: tem a ver com os meus pais)
b. “Muitos homens que se envolvem com nossas filhas, menores de idade, não
devem ter passado pelos ritos de iniciação. (…).” 04LBMN PM *PE
(PE: Muitos homens que se envolvem com as nossas filhas)
[Link] Resultados de tarefa de Juízos de gramaticalidade e/ou aceitabilidade
Os resultados da tarefa de Juízos de gramaticalidade e/ou aceitabilidade
apresentados no capítulo anterior relativamente aos contextos de realização dos nomes
comuns contáveis no singular, verifica-se que no PM:
(i) em posição de Sujeito, à semelhança do PE e PB, aceita-se preferencialmente à
realização dos nomes comuns contáveis no plural com determinantes, com 80% de
frequência relativa (Cf. (60)). Vejam-se os exemplos seguintes.
(60) Os professores do ensino superior propuseram novas estratégias de cooperação.
PM PE PB
(ii) em posição de OD, à semelhança do PE e PB, aceita-se à realização dos nomes
comuns contáveis no plural com determinantes (Cf. (61)) ou sem determinantes (Cf.
(62)), quer com os tempos verbais do presente (Cf. (61 b e 62 b)) quer com o pretérito
perfeito do indicativo (Cf. (44 a e 45 a)). Vejam-se alguns exemplos que se seguem
abaixo, em (44) e (45).
(61) a. Ele comprou as gramáticas recentes.
b. Ele compra as gramáticas recentes.
(62) a. Ele comprou gramáticas recentes.
b. Ele compra gramáticas recentes.
(iii) em SPREP, envolvendo a preposição de, à semelhança do PE e PB, aceita-se à
realização dos nomes comuns contáveis no plural com determinantes (Cf. (63)) ou sem
260
determinantes (Cf. (64)), quer com os tempos verbais do presente (Cf. (63 b e 64 b))
quer com o pretérito perfeito do indicativo (Cf. (63 a e 64 a)). Apresentam-se em (63) e
(64) alguns exemplos ilustrativos.
(63) a. Eles gostaram de concertos do verão.
b. Eles gostam de concertos do verão.
(64) a. Eles gostaram dos concertos do verão.
b. Eles gostam dos concertos do verão.
Em contrapartida, os resultados apresentados no capítulo anterior, mostram
ainda aceitação de um outro padrão pelos informantes do PM, em oposição ao do PE e
do PB: quando os nomes comuns no plural ocorrem sem determinantes, em posição
predicativa do sujeito, com 76.6%, quer com tempos verbais do presente (Cf. 66 b)) quer
com tempos verbais do pretérito perfeito do indicativo (Cf. (65 b)). Atentem-se os
exemplos seguintes em (65) e (66).
(65) a. Eles foram músicos da cidade. PM PE PB
b. Eles foram os músicos da cidade. PM PE PB
(66) a. Eles são os músicos da cidade. PM PE PB
b. Eles são músicos da cidade. PM PE PB
[Link] Resultados do inquérito suplementar à tarefa de Juízos de gramaticalidade
e/ou aceitabilidade
Os resultados do inquérito suplementar à tarefa de Juízos de gramaticalidade
e/ou aceitabilidade fornecidos pelos informantes, falantes do português (L1 e L2), nota-
se que a realização dos nomes comuns contáveis no plural obedece, por um lado, a
padrões semelhantes aos de PE:
a) quando coocorrem com os artigos definidos, em posição de Sujeito, com leitura
coletiva e distributiva (cf. (67 a, d));
(67) a. Os professores do ensino superior propuseram novas estratégias de cooperação.
PM PE
261
b. Professores do ensino superior propuseram novas estratégias de cooperação. PM PE
c. Turistas exigiram melhores condições de alojamento. PM PE
d. Os turistas exigiram melhores condições de alojamento. PM PE
Em (67 a, d), à semelhança do PE, torna-se possível duas leituras: a coletiva e a
distributiva. Assim, em (67 a e d), os informantes, fazem a seguinte leitura:
(a) em (67 a), [“os professores do ensino superior propuseram novas estratégias de
cooperação em conjunto ou individualmente”];
(b) em (67 d), [“Os turistas exigiram melhores condições de alojamento em
conjunto ou individualmente”].
Nos exemplos em (67 b, c), no entanto, os informantes estabelecem as mesmas
leituras atribuídas aos exemplos em (67 a, d): a coletiva e a distributiva.
A agramaticalidade que se verifica nestas frases tem a ver com o facto de que,
em PE, os nomes contáveis no plural, em posição do sujeito frásico, requererem sua
realização com especificador (Cf. Duarte e Oliveira, (2003) ou Oliveira (2006).
Para o PB, uma variedade que admite nomes vazios (Ns e PNs) é possível a sua
realização. Segundo Pires de Oliveira (2005), Müller, Negrão e Gomes (2007), Sedrins
(2017, Castro (2006) e outros, em (50 b, c), espera-se uma leitura não individualizada
(não especifica), ou seja, não há conhecimento mútuo que tanto falante quanto ouvinte
sabem individualizar o referente.
b) leitura coletiva (Cf. (68)
(68) A associação dos estudantes foi premiada. PM PE
Em (68), à semelhança do PE, torna-se possível única leitura: a coletiva, pelo
facto de o nome associação pertencer a uma entidade coletiva.
c) leitura específica (Cf. (69 ), (70) e (71));
(69) a. As raparigas de tranças foram ao mercado. PM PE
b. Raparigas foram ao mercado. PM PE
(70) a. Eles foram músicos da cidade. PM PE
b. Eles foram os músicos da cidade. PM PE
262
c. Eles são músicos da cidade. PM PE
d. Eles são os músicos da cidade. PM PE
(71) a. Estas capas são de peregrinos. PM PE
b. Estas capas são dos peregrinos. PM PE
Os exemplos em ((69), (70) e (71)), à semelhança do PE, apresentam uma leitura
específica. Assim, em ((69 a), (70 b) e (71 b)), os informantes fazem a seguinte
interpretação das frases:
(a) em (69 a), [“fala-se de pessoas conhecidas e com alguma relação de proximidade”];
(b) em (70 b), [“fala-se dos músicos conhecidos que partilhamos a mesma cidade de
residência.”];
(c) em (71 b), [“fala-se de objectos materiais conhecidos desde o tipo de tecido, modelo
até a respectiva cor”];
(c) Leitura existencial (Cf. (72 a) e (73 a, b));
(72) a. A entrada dos noivos na igreja decorreu sem incidentes. PM PE
b. A entrada de noivos na igreja decorreu sem incidentes. PM *PE
(73) a. Ele comprou as gramáticas recentes. PM PE
b. Ele comprou gramáticas recentes. PM PE
c. Ele compra gramáticas recentes. PM PE
d. Ele compra as gramáticas recentes. PM ?#PE
Em (Cf. (72 a) e (73 a, b)), à semelhança do PE, a única leitura possível é a
existencial.
Os informantes interpretam os exemplos em (72) e (73) da seguinte forma:
(a) em (72 a), [“fala-se dos noivos existentes e conhecidos e com alguma relação
de proximidade”].
(b) em (73 a, b), [“fala-se de objectos materiais que existem e que os conhecemos”].
Em contrapartida, em (56 c), enquanto no PM admite-se uma leitura existencial,
para o PE, espera-se uma leitura de habitualidade/ de iteração/ de frequência. O que
não se pode dizer o mesmo para o exemplo em (56 d).
263
Em (73 d), o contexto semântico do tipo de predicado envolvido nesta frase
contribui para uma leitura de habitualidade, que fica estranho para o PE.
6.3. Nomes não contáveis e recategorizados
6.3.1. Nomes não contáveis
[Link] Resultados de tarefa de produção provocada
Tendo em conta os resultados de tarefa de produção provocada apresentados
no capítulo anterior referentes à realização dos nomes não contáveis e massivos (cf. 74),
nota-se, por um lado, padrões semelhantes aos do PE e PB:
(i) quando ocorrem com determinantes com preferência na posição sintáctica de sujeito,
com 53.1% %, tal como são os casos dos exemplos em (74), extraídos do corpus
produzido pelos informantes.
(74) a. “Tive uma vida difícil ao longo da minha juventude. Contudo, a esperança fez
vencer barreira”. 029LBSF PM PE PB
b. “Devemos aprender com os outros países sobre a gestão dos recursos naturais.
Pois, o carvão é um bem esgotável. (…)”. 021LBTT PM PE PB
(ii) quando ocorrem sem determinantes na posição sintática de complemento pós-
verbal, com um total de 63.8% de observações constatadas (cf. (75));
(75) a. “Sou trabalhadora há dez anos. Exerço função de assistente de laboratório.”
015LBSF PM PE PB
b. “Extraem carvão mineral e nada fazem para ajudar nativos daquela zona. Isto só
pode acontecer aqui no nosso país.” 021LBTT PM PE PB
[Link] Resultados de tarefa de Juízos de gramaticalidade e/ou aceitabilidade
Os resultados da tarefa de Juízos de gramaticalidade e/ou aceitabilidade
apresentados no capítulo anterior relativamente aos contextos de realização dos nomes
não contáveis, verifica-se que, no PM:
(i) em posição de Sujeito, à semelhança do PE e PB, aceita-se preferencialmente à
realização dos nomes não contáveis com determinantes, com 63.3% (Cf. (76) e (77)) quer
264
com tempos do presente (Cf. (76)) quer com tempos do pretérito perfeito do indicativo
(Cf. (77)). Vejam-se os exemplos ilustrativos seguintes.
(76) O ouro é sempre um bem lucrativo. PM PE PB
(77) O ouro foi sempre um bem lucrativo. PM PE PB
(ii) em posição de complemento pós-verbal, à semelhança do PE e PB, aceita-se
preferencialmente à realização dos nomes não contáveis sem determinantes, com
66.6% (Cf. (78) e (79)) quer com tempos do presente (Cf. (78)) quer com tempos do
pretérito perfeito do indicativo (Cf. (79)). Abaixo, apresentam-se alguns exemplos
ilustrativos.
(78) Os mercados informais vendem açúcar contrabandeado. PM PE PB
(79) Os mercados informais venderam açúcar contrabandeado. PM PE PB
(iii) em SPREP, verifica-se semelhança com PE e PB, relativamente à aceitação
preferencialmente de realização dos nomes não contáveis com determinantes,
envolvendo a preposição por, com 76.6%, tal como se pode ilustrar o exemplo seguintes
em (80).
(80) Os franceses clamaram pela justiça naquele país. PM PE PB
Para além destas características semelhantes às do PE, identificámos, no PM,
aceitação de nomes não contáveis com outros padrões distintos dos do PE, mas
semelhante aos do PB, nomeadamente:
(iv) em SPREP, envolvendo a preposição de, há grande aceitabilidade por parte dos
informantes falantes do PM em relação à realização dos nomes não contáveis sem
determinantes, com 60%, conforme se pode constatar no exemplo ilustrativo a seguir
em (81).
(81) O comércio de arroz selvagem é rentável. PM PE PB
Em PM à semelhança do PE e PB, os nomes não contáveis podem ser realizados
sem especificador (Ns).
265
[Link] Resultados do inquérito suplementar à tarefa de Juízos de gramaticalidade
e/ou aceitabilidade
Os resultados do inquérito suplementar à tarefa de Juízos de gramaticalidade
e/ou aceitabilidade referentes à realização dos nomes não contáveis no PM, verifica-se,
por um lado, semelhança com PE:
(i) leitura de espécie, quando o nome não contável é realizado com artigo definido no
singular, em particular na posição de Sujeito (cf. (82 b, d), (83 b, d) e (84 a));
(82) a. Malária atingiu muitas crianças em África. PM PE
b. A malária atingiu muitas crianças em África. PM PE
c. Malária atinge muitas crianças em África. PM PE
d. A malária atinge muitas crianças em África. PM PE
(83) a. Ouro foi sempre um bem lucrativo. PM PE
b. O ouro foi sempre um bem lucrativo. PM PE
c. Ouro é sempre um bem lucrativo. PM PE
d. O ouro é sempre um bem lucrativo. PM PE
(84) a. O carvão de Moatize é excelente. PM PE
b. Carvão é excelente. PM PE
Em (82), (83) e (84), à semelhança do PE, pressupõe-se uma leitura de espécie.
Assim, em (82 b, d), (83 b, d) e (84 a), os informantes, estabelecem leituras
seguintes, as quais contribuem para a leitura específica destas frases:
(a) em (82 b, d) - ['fala-se de um nome de pandemia'];
(b) em (83 b, d) - ['fala-se de um nome de matéria'];
(c) em (84 a) - ['fala-se de um nome de matéria'].
Entretanto, nos exemplos em (82 a, c), (83 a, c) e (84 b), os informantes, falantes
do português (L1 e L2) atribuem a mesma leitura à semelhança dos exemplos em (82 b,
d), (83 b, d) e (84 a): a leitura de espécie. No entanto, essa leitura pode ser acessível aos
exemplos apresentados em (82 a, c), (83 a, c) e (84 b), para o PE, excecionalmente em
jornais.
266
(ii) quando o nome não contável é realizado com ou não com artigos definidos em
posição de OD, com interpretação de substância (cf. (85));
(85) a. Os mercados informais venderam o açúcar contrabandeado. PM PE
b. Os mercados informais venderam açúcar contrabandeado. PM PE
c. Os mercados informais vendem o açúcar contrabandeado. PM PE
d. Os mercados informais vendem açúcar contrabandeado. PM PE
Em (85), à semelhança do PE, o SN açúcar designa uma substância. Neste
contexto, os informantes, falantes do português (L1 e L2) identificaram nessas frases a
única interpretação possível referente ao SN açúcar: ['fala-se de um tipo de substância'].
Os contextos sintáticos referentes à realização do SN açúcar em apresentados
em (85), Raposo (2013) considera que, para o PE, os nomes (contáveis no plural e não
contáveis no singular) podem ocorrer como nucelo de um SN reduzido, i.e., sem
especificador, em posição pós-verbal e pós-preposicional. De acordo com essa
perspetiva, os exemplos em (85) são aceitáveis para o PE, quer a realização do SN açúcar
com artigo definido (Cf. (85 a, c)) quer sua realização sem artigo definido (Cf. (85 b, d)).
(ii) quando o nome não contável é realizado em posição de SPREP, com interpretação
de subespécie (cf. (86));
(86) a. O comércio do arroz selvagem é rentável. PM PE
b. O comércio de arroz selvagem é rentável. PM PE
Em (86), à semelhança do PE, o SN arroz selvagem refere-se a uma subespécie
do arroz. Neste contexto, os informantes, falantes do português (L1 e L2) interpretaram
o SN arroz selvagem em (86) da forma seguinte: ['fala-se de um tipo de arroz'].
O exemplo em (86), à semelhança do exemplo apresentado em (85), tal como
dissemos anteriormente, os nomes não contáveis no singular formam complementos
preposicionais sem determinante, o que resulta a gramaticalidade dos exemplos
ilustrados em (86).
(iii) quando um nome massivo (exprime algo não material e não divisível) é realizado em
SPREP (cf. (87)) e em OD (cf. (88)).
267
(87) a. Os franceses clamaram por justiça naquele país. PM PE
b. Os franceses clamaram pela justiça naquele país. PM PE
(88) a. Os franceses pediram justiça naquele país. PM PE
b. Os franceses pediram a justiça naquele país. PM PE
Os exemplos ilustrativos que se verificam em (87) e (88), à semelhança do PE, o
SN (a) justiça exprime algo não material e não divisível. Assim, os informantes, falantes
do português (L1 e L2) interpretaram o SN (a) justiça em (87) e (88) da forma seguinte:
['fala-se de uma ideia'].
6.3.2. Nomes não contáveis recategorizados em contáveis
[Link] Resultados de tarefa de produção provocada
Os resultados de tarefa de produção provocada apresentados no capítulo
anterior sobre a realização dos nomes não contáveis recategorizados em contáveis,
nota-se, por um lado, padrões semelhantes aos do PE:
(i) quando há realização de artigos definidos em contextos em que ocorrem os
possessivos, em posição sintática do Sujeito, com 41.9.8%, tal como são os casos dos
exemplos que se seguem abaixo em (89), extraídos do corpus produzido pelos
informantes.
(89) a. “Os meus problemas não podem ser resolvidos por pessoas que não tenho
confiança.” 021LBTT PM PE
b. (…) As minhas férias, por exemplo, ficam agradáveis quando estiver na
companhia de meu parceiro e de meus filhos.” 08LBTT PM PE
(ii) em posição sintática de OD, há realização de artigos definidos em contextos em que
ocorrem os possessivos, com 43.4%, (Cf. (90));
(90) a. “Os meus pais resolveram os meus problemas no momento em que vivia sempre
em conflitos com meu marido.” 028LBTT PM PE
b. “Naquele tempo, quando acabassem as nossas férias, ninguém gostaria de voltar
para casa de seus pais.” 028LBTT PM PE
(iii) em SPREP, envolvendo a preposição em, os artigos definidos coocorrem com os
possessivos, com 55%, (Cf. (91));
268
(91) a. “Quando me tornei mãe pela primeira vez, tive de investir bastante nas minhas
responsabilidades, tanto no serviço assim como em casa. Visto que conciliar
família e serviço não é uma tarefa fácil.” 01LBTT PM PE
b. “O que fiz nas minhas férias foi inesquecível. Conheci alguém que se
disponibilizou na resolução de problemas que eu passava naquele tempo.”
08LBTT PM PE
(iii) em SPREP, envolvendo a preposição por, os artigos definidos são realizados com os
possessivos, com 45%, (Cf. (92));
(92) a. “Nessa vida, aprendi que devemos ser os responsáveis pelos nossos
sentimentos,”(…). 021LBTT PM PE
b. (…) “Os pais dessas raparigas parecem não consciencializá-las de que cada uma
delas é responsável pelas consequências de escolhas que fazem.”
020LBGZ PM PE
Em contrapartida, os resultados apresentados no capítulo anterior referentes à
tarefa de produção provocada, mostram ainda a realização de outro padrão pelos
informantes do PM, em oposição ao do PE:
(iv) quando em posição sintática de OD, os nomes não contáveis recategorizados em
contáveis coocorrem com possessivos sem determinantes (artigos definidos), com
56.5%, (Cf. (93));
(93) a. “O que me levou a casar com ele é porque ele conseguiu explorar meus
sentimentos ao máximo. (…).” 08LBTT PM *PE
(PE: ele conseguiu explorar os meus sentimentos …)
b. “Os nossos padrinhos constituem pessoas inesquecíveis. Eles estão sempre
disponíveis para resolver nossos problemas.” 06LPTT PM *PE
(PE: Eles estão sempre disponíveis para resolver os nossos problemas …)
(v) quando, em posição sintática de Sujeito, os nomes não contáveis recategorizados em
contáveis coocorrem com possessivos sem artigos definidos, com 58%. Tal como se pode
depreender em exemplos que se seguem em (94), extraídos do corpus produzido pelos
informantes;
269
(94) a. (…) “Minhas obrigações e responsabilidades devem ser entendidas em contextos
diferentes. (…).” 09LBMP PM *PE
(PE: As minhas obrigações e responsabilidades …)
b. “Nossas tradições são apontadas como parte influenciadora de casamentos
prematuros. (…).” 014LBTT PM *PE
(PE: As nossas tradições …)
(vi) em SPREP, envolvendo a preposição de, depreende-se ausência de artigos definidos
em contextos que e se realizam os nomes não contáveis recategorizados com os
possessivos, com 60%. Em (95), apresentam-se alguns exemplos ilustrativos.
(95) a. “Sobre casamentos prematuros é uma realidade no nosso país que tem
contribuído negativamente nas raparigas e constitui uma das formas de
violação de seus direitos humanos.” 016LBSF PM *PE
(PE: … violação dos seus direitos humanos.)
b. “ (…). Passando algum tempo, percebi que ele gostava bastante de minhas
experiências.” 08LBTT PM *PE
(PE: … ele gostava bastante das minhas experiências.)
(vii) em SPREP, envolvendo a preposição com, verifica-se ausência de artigos definidos
em contextos que e se realizam os nomes não contáveis recategorizados com os
possessivos, com 40%. Em (96), seguem alguns exemplos ilustrativos.
(96) a. “(…) Mas quando perdi meu parceiro, num momento que estava a iniciar a
Faculdade, não foi fácil conciliar estudos com minhas angústias (...)”
05LBTT PM *PE
(PE: … não foi fácil conciliar estudos com as minhas angústias.)
b. “(…) Com nossos passatempos, temos feito algumas visitas turísticas cá na
cidade.” 011LBTT PM *PE
(PE: … Com os nossos passatempos (…))
270
[Link] Resultados de tarefa de Juízos de gramaticalidade e/ou aceitabilidade
Os resultados da tarefa de Juízos de gramaticalidade e/ou aceitabilidade,
apresentados no capítulo anterior relativamente aos contextos de realização dos nomes
não contáveis recategorizados em contáveis, depreende-se que no PM há semelhança
do PE, quando:
(i) em posição de Sujeito, aceita-se preferencialmente a realização dos nomes não
contáveis recategorizados em contáveis com determinantes, com 76.6%, no pretérito
perfeito do indicativo (Cf. (97 a, d, e));
(97) a. Os vinhos de Portugal foram comprados por turistas. PM PE
b. Vinhos de Portugal foram comprados por turistas. PM PE
c. Cafés africano e brasileiro foram os mais caros no inverno. PM *PE
d. Os cafés africano e brasileiro foram os mais caros no inverno. PM PE
e. As águas minerais fazem bem à saúde. PM PE
f. Águas fazem bem à saúde. PM *PE
(ii) em SPREP, envolvendo a preposição por, há grande aceitabilidade por parte dos
informantes, falantes do português (L1 e (L2) em relação à realização dos nomes não
contáveis recategorizados em contáveis com determinantes, com 70%. Vejam-se alguns
exemplos ilustrativos em (98).
(98) a. Ela foi criticada pelas atitudes da sua juventude. PM PE
b. Ela foi criticada por atitudes da sua juventude. PM *PE
Em contrapartida, os resultados da tarefa de Juízos de gramaticalidade e/ou
aceitabilidade mostram ainda que os informantes do PM parecem optar por um padrão
diferente do PE, mas semelhante ao PB em alguns contextos, tais como:
(iii) em posição sintática de OD, há grande aceitabilidade por parte dos informantes,
falantes do português (L1 e (L2) relativamente à realização dos nomes não contáveis
recategorizados em contáveis sem determinantes quer com os tempos do presente (Cf.
(99)) quer com os tempos do pretérito perfeito do indicativo (Cf. (100)), com 66.6%.
Vejam-se alguns exemplos ilustrativos em (99) e (100).
(99) a. Eles compram águas minerais no supermercado. PM PE PB
271
b. Eles compram as águas minerais no supermercado. PM PE PB
c. Nesta mercearia vendem chás. PM PE PB
d. Nesta mercearia vendem os chás. PM PE PB
(100) a. Eles compraram águas minerais no supermercado. PM PE PB
b. Eles compraram as águas minerais no supermercado. PM PE PB
c. Nesta mercearia venderam chás. PM PE PB
d. Nesta mercearia venderam os chás. PM PE PB
(iv) em SPREP, envolvendo a preposição de, os informantes, falantes do português (L1 e
(L2) aceitam preferencialmente à realização dos nomes não contáveis recategorizados
em contáveis sem determinantes quer com os tempos do presente (Cf. (101 a)) quer
com os tempos do pretérito perfeito do indicativo (Cf. (102 a)), com 60%, tal como
mostram os exemplos ilustrativos que se seguem abaixo, em (101) e (102).
(101) a. A Rita fala de dificuldades da primeira guerra mundial. PM PE PB
b. A Rita fala das dificuldades da primeira guerra mundial. PM PE PB
(102) a. A Rita falou de dificuldades da primeira guerra mundial. PM PE PB
b. A Rita falou das dificuldades da primeira guerra mundial. PM PE PB
[Link] Resultados do inquérito suplementar à tarefa de Juízos de gramaticalidade
e/ou aceitabilidade
Os resultados do inquérito suplementar à tarefa de Juízos de gramaticalidade
e/ou aceitabilidade referentes à realização dos nomes não contáveis recategorizados
em contáveis no PM, verifica-se, por um lado, semelhança com PE:
(i) quando o nome não contável recategorizado em contável é realizado associado ao
artigo definido, em particular em posições sintáticas de Sujeito (cf. (103), e em OD (cf.
(104) e (105)); com interpretação de tipo(s) ou variedades de substância(s).
(103) a. Os vinhos de Portugal foram comprados por turistas. PM PE
b. Vinhos de Portugal foram comprados por turistas. PM PE
c. Cafés africano e brasileiro foram os mais caros no inverno. PM PE
d. Os cafés africano e brasileiro foram os mais caros no inverno. PM PE
e. As águas minerais fazem bem à saúde. PM PE
272
f. Águas fazem bem à saúde. PM *PE
(104) a. Eles compram águas minerais no supermercado. PM PE PB
b. Eles compram as águas minerais no supermercado. PM PE PB
c. Nesta mercearia vendem chás. PM PE PB
d. Nesta mercearia vendem os chás. PM PE PB
(105) a. Eles compraram águas minerais no supermercado. PM PE PB
b. Eles compraram as águas minerais no supermercado. PM PE PB
c. Nesta mercearia venderam chás. PM *PE PB
d. Nesta mercearia venderam os chás. PM PE PB
Em (103), (104) e (105)), à semelhança do PE, espera-se uma interpretação de
tipo(s) ou variedades de substância(s). Ness contexto, tal como nos referimos nos
capítulos anteriores, Raposo (2013:959) distingue três casos de recategorização de
nomes não contáveis em nomes contáveis, nomeadamente dois na área dos nomes de
alimentos e um na área dos nomes abstractos, nomeadamente (i) porções discretas
convencionalizadas, (ii) tipo ou variedades de substâncias e (iii) nomes abstratos
reinterpretados como eventos ou como entidades concretas. Para o autor, o segundo
caso é o que mais permite à recategorização dos nomes não contáveis em contáveis, em
português.
Os informantes, falantes do português (L1 e L2), interpretam os exemplos em
(103 a, d, e), (104 b, d) e (105 b, d)) da seguinte forma:
(a) em (103 a), ['fala-se de tipos de vinho de origem portuguesa'];
(b) em (103 d), ['fala-se de tipos de café de origem africana e brasileira'];
(c) em (103 e), ['fala-se de tipos de água];
(d) em (104 b), ['fala-se de tipos de água];
(e) em (104 d), ['fala-se de tipos de chá];
(f) em (105 b), ['fala-se de tipos de água];
(g) em (105 d), ['fala-se de tipos de chá].
(ii) quando os nomes não contáveis são reinterpretados como eventos ou como
entidades concretas (cf. (106) e (107)).
273
(106) a. Ela foi criticada pelas atitudes da sua juventude. PM PE
b. Ela foi criticada por atitudes da sua juventude. PM PE
(107) a. A Rita fala de dificuldades da primeira guerra mundial. PM PE PB
b. A Rita fala das dificuldades da primeira guerra mundial. PM PE PB
c. A Rita falou de dificuldades da primeira guerra mundial. PM PE PB
d. A Rita falou das dificuldades da primeira guerra mundial. PM PE PB
Nos exemplos apresentados em (106) e (107)), à semelhança do PE, segundo
Raposo (2013), os nomes não contáveis (e, neste caso, não massivos): “atitudes” e
“dificuldades” de natureza abstrata são recategorizados em contáveis, sendo, nesse
caso, reinterpretados como denotando um evento ou uma entidade concreta que
manifesta em si o conceito abstracto denotado pelo nome.
Os informantes, falantes do português (L1 e L2), interpretam os exemplos em
(106 a, d, e) e (107 b, d)) da seguinte forma:
(a) em (106), ['fala-se de tipos de atitude'];
(b) em (107), ['fala-se de tipos de dificuldade'].
6.4 Síntese da análise dos resultados
Os resultados de análise efectuada neste capítulo incluem os resultados do teste
de elicitação e do questionário sociolinguístico, submetidos aos informantes. Conforme
se referiu, o teste de elicitação subdividia-se em duas tarefas fundamentais,
nomeadamente uma tarefa de produção provocada e outra tarefa de juízo de
gramaticalidade e/ou aceitabilidade. Igualmente, foi preciso aplicação do inquérito
suplementar a tarefa de juízo de gramaticalidade e/ou aceitabilidade bem como um
questionário sociolinguístico. A tarefa de produção provocada visava recolher
informações sobre a forma como a população universitária, falantes do PM, realiza os
artigos definidos no singular e no plural, com vista à descrição das posições sintáticas e
contextos semânticos usados quando associados aos antropónimos, topónimos e
nomes comuns (contáveis, não contáveis e recategorizados), em PM. Por sua vez, a
tarefa de juízo de gramaticalidade e/ou aceitabilidade tinha como objetivo recolher
informações que dessem indicações sobre o valor de gramaticalidade e/ou
274
aceitabilidade relativamente à presença/ausência ou inserção de artigos definidos no
singular e no plural em diversos contextos sintáticos e semânticos, em frases do
português. No mesmo contexto, o inquérito suplementar à tarefa de gramaticalidade
e/ou aceitabilidade pretendia avaliar a conceptualização semântica dos artigos
definidos, em PM. O questionário sociolinguístico tinha por objetivo captar informações
relativas às seguintes variáveis: idade e género, naturalidade, língua(s) materna(s), (L1),
língua(s) adquirida(s) desde bebé (duas), língua(s) de comunicação com os pais, língua(s)
de comunicação com os irmãos, língua(s) de comunicação com os avós, língua(s) de
comunicação com os amigos.
Quanto aos resultados da analise semântica da tarefa de Juízos de
gramaticalidade e/ou aceitabilidade, verifica-se que, em SPREP, à semelhança do PB, os
informantes aceitam preferencialmente a ocorrência dos topónimos simples sem
determinantes (Ns). Tal possibilidade não é admitida para o PE, em nomes próprios
especificados (cf. Raposo e Nascimento (2013:1018)). Ainda sobre topónimos, os
resultados do inquérito suplementar à tarefa de Juízos de gramaticalidade e/ou
aceitabilidade permitem notar que a realização de topónimos simples e compostos
obedece, por um lado, a padrões semelhantes aos de PE: quando se realizam com os
artigos definidos, em SPREP, envolvendo as preposições em e de com leitura referencial.
Por outro lado, verificámos que, no PM, a inserção ou ausência de artigos definidos em
contextos que envolvem a realização de topónimos simples e compostos, em SPREP, os
informantes, falantes do português (L1 e L2), dizem não haver diferenças semânticas
entre os pares de frases.
Relativamente à realização dos nomes comuns contáveis no singular em
contextos que ocorrem os possessivos, encontrámos igualmente outros padrões que se
distanciam dos do PE, designadamente ausência de determinantes (artigos definidos)
em OD, em primeiro lugar de preferência, Sujeito, em segundo lugar, em SPREP
envolvendo a preposição com, em terceiro lugar, em SPREP envolvendo a preposição
de, em quarto lugar. Quanto aos resultados da analise semântica da tarefa de Juízos de
gramaticalidade e/ou aceitabilidade, verifica-se que no PM, em posição de Sujeito, à
semelhança do PE, aceita-se preferencialmente realização dos nomes comuns contáveis
275
no singular com determinantes. Em contrapartida, os resultados da tarefa de Juízos de
gramaticalidade e/ou aceitabilidade permitem verificar que os informantes do PM
parecem optar por um padrão diferente do PE. Ainda sobre nomes comuns contáveis no
singular, os resultados do inquérito suplementar à tarefa de Juízos de gramaticalidade
e/ou aceitabilidade permitem observar por um lado, semelhança com PE no que se
refere: à leitura específica, em contextos que se realizam os nomes comuns contáveis
no singular com artigos definidos, em posição sintática do sujeito OD e em posição
Predicativa do Sujeito.
No que se refere aos nomes comuns contáveis no plural, os resultados da análise
semântica da tarefa de produção provocada permitem verificar que, por um lado, há
padrões semelhantes aos do PE e PB: quando os nomes comuns contáveis no plural são
realizados com determinantes com preferência na posição sintáctica de Sujeito, na
posição sintática de complemento pós-verbal. Por outo lado, os nomes comuns
contáveis no plural são realizados sem especificadores (NPs), em SPREP, em posição
sintática de Sujeito, em posição sintática de OD, em SPREP envolvendo a preposição em,
em contextos que ocorrem os possessivos, em SPREP envolvendo a preposição por, em
contextos que ocorrem os possessivos. Na mesma sequência, os resultados da tarefa de
Juízos de gramaticalidade e/ou aceitabilidade permitem verificar que os informantes do
PM parecem aceitar um outro padrão diferente ao do PE, em contextos seguintes: em
posições sintáticas de Sujeito e OD, em SPREP envolvendo a preposição de e com, os
nomes comuns contáveis no plural são realizados preferencialmente sem artigos
definidos em contextos que ocorrem os possessivos.
Os resultados da tarefa de produção provocada, mostram ainda a realização de
um outro padrão pelos informantes do PM, em oposição ao do PE: quando em posição
sintática de OD e Sujeito, em SPREP envolvendo a preposição de e com, os nomes não
contáveis recategorizados em contáveis são realizados com possessivos sem
determinantes (artigos definidos). Ainda sobre nomes não contáveis recategorizados
em contáveis, os resultados da tarefa de Juízos de gramaticalidade e/ou aceitabilidade
permitem notar que, há semelhança do PE. Pois os informantes aceitam
preferencialmente frases em que se realizam nomes não contáveis recategorizados em
276
contáveis com determinantes (artigos definidos), em posições sintáticas de Sujeito e OD,
em SPREP envolvendo a preposição por e de (quer com os tempos do presente quer com
os tempos do pretérito perfeito do indicativo). Por fim, os resultados do inquérito
suplementar à tarefa de Juízos de gramaticalidade e/ou aceitabilidade referente aos
nomes não contáveis recategorizados em contáveis permitem observar por um lado,
semelhança com PE, quando: (i) um nome não contável recategorizado em contável é
realizado, associado ao artigo definido, em posições sintáticas de Sujeito e OD, com
interpretação de tipo(s) ou variedades de substância(s); (ii) os nomes não contáveis são
reinterpretados como eventos ou como entidades concretas.
277
VII- CONCLUSÕES, IMPLICAÇÕES E PERSPECTIVAS DE
INVESTIGAÇÃO
7.0 Introdução
Neste trabalho procurou-se estudar em que medida a presença ou ausência de
artigos definidos no Português de Moçambique pode contribuir para a análise semântica
da frase e da forma como os nomes são conceptualizados, comparando-os com os do
PE e em alguns casos do PB. Para tal, para além da introdução em que se apresenta a
motivação para o presente estudo, problema de investigação, objetivos da pesquisa, o
objeto de análise e hipóteses de investigação e se tecem algumas considerações sobre
a situação do PM, a tese para tal apresenta seis capítulos.
No primeiro capítulo faz-se uma abordagem relacionada com o enquadramento
histórico social, onde são apresentados alguns aspetos sociolinguísticos do Português
de Moçambique, diversidade linguística em Moçambique, partindo do pressuposto de
que apesar de ser uma língua oficial no território moçambicano, para a maioria da
população não é língua materna (L1). No mesmo capítulo é feita uma abordagem
relativa à difusão do PM e uma descrição de alguns aspetos sobre o contacto de Língua
Portuguesa e Línguas Bantu em Moçambique bem como à apresentação de algumas
notas sobre a língua Citshwa. O capítulo II destina-se a apresentar, baseado na literatura
consultada, o quadro geral sobre a noção e distribuição dos determinantes em classes e
subclasses em português, uma descrição geral dos determinantes, para o PM.
Apresentam-se igualmente algumas considerações básicas sobre a noção e classificação
dos determinantes em português, particularidades morfossintático-semânticas dos
determinantes no PE e se tece algumas abordagens sobre o tratamento dos artigos
definidos, para o PB e para o Espanhol. O capítulo III apresenta uma descrição das
principais questões da Semântica Nominal. No capítulo IV, faz-se à apresentação das
questões metodológicas que envolveram a recolha de dados. No capítulo V procede-se
a apresentação e descrição dos dados do PM. No capítulo VI procede-se a análise
semântica dos dados obtidos do PM, propondo algumas generalizações sobre frases
com presença/ausência ou inserção de artigos definidos no singular e no plural em
278
diversas posições, em PM. Desta feita, seguem em 7.1 as conclusões do presente
trabalho. Finalmente, em 7.2, apresenta-se as implicações e perspetivas da presente
investigação.
7.1 Conclusões
Neste estudo, procurámos identificar os contextos sintático-semânticos em que
os artigos definidos são realizados no PM, descrevemos semanticamente os contextos
em que estes artigos definidos ocorrem no corpus analisado do PM e comparámos os
contextos de realização e/ou ausência dos artigos definidos do PM com os do PE e alguns
casos do PB tendo em conta a literatura consultada.
A análise dos resultados, a partir das tarefas de produção provocada e de juízo
de aceitabilidade e do inquérito suplementar à tarefa de Juízos de gramaticalidade e/ou
aceitabilidade, permitiu-nos identificar que, no PM, de um modo geral:
(i) a inserção ou ausência de artigos definidos em contextos em que envolvem a
realização de topónimos simples e compostos, em SPREP, os informantes, falantes do
português (L1 e L2), dizem não haver diferenças semânticas.
(ii) Nalguns casos, verifica-se que os sujeitos falantes do PM inquiridos atribuem, em
grande medida, uma leitura não específica aos contextos de realização de nomes
comuns contáveis no singular com determinantes (artigos definidos) em posição
Predicativa de Sujeito, quer com os tempos do presente quer com os tempos do
pretérito perfeito do indicativo.
(iii) A presença ou ausência de determinantes (artigos definidos) em nomes comuns
contáveis no singular, em posição de SPREP, os inquiridos tendem a forçar uma leitura
existencial.
(iv) Em nomes comuns contáveis no plural, quando são realizados sem determinantes
(NPs), em posição sintática de OD com modificador, os informantes, tipicamente,
atribuem uma leitura existencial.
(v) há realização de artigos definidos em posições e contextos diversificados
obedecendo, desde modo, a um padrão semelhante ao do PE, sobretudo em contextos
279
que envolvem os topónimos simples e compostos em SPREP, envolvendo as preposições
em e de com leitura referencial;
(vi) há realização de artigos definidos em posições e contextos diversificados
obedecendo, desde modo, a um padrão semelhante ao do PE, em contextos que
ocorrem os nomes comuns contáveis no singular, em posição sintática do sujeito OD e
em posição Predicativa do Sujeito com leitura específica, em SPREP com leitura
existencial.
(vii) há realização de artigos definidos em posições e contextos diversificados
obedecendo, desde modo, a um padrão semelhante ao do PE, preferencialmente em
contextos que envolvem a ocorrência dos nomes comuns contáveis no plural, em
posição de Sujeito, com leitura coletiva e distributiva; em SPREP, com leitura coletiva ou
existencial, em SPREP modificador, com leitura específica.
(viii) há realização de artigos definidos em posições e contextos diversificados
obedecendo, desde modo, a um padrão semelhante ao do PE, em contextos que
envolvem os nomes não contáveis em posição de Sujeito, com uma leitura de espécie,
em posição de SPREP, com interpretação de subespécie.
(ix) há realização de artigos definidos em posições e contextos diversificados
obedecendo, desde modo, a um padrão semelhante ao do PE, quando ocorrem os
nomes não contáveis recategorizados em contáveis, em posições sintáticas de Sujeito e
OD, com interpretação de tipo(s) ou variedades de substância(s).
(x) há semelhança com o PE, quando os nomes não contáveis são realizados sem
determinantes (artigos definidos), em posição de OD, com interpretação de substância.
(xi) há semelhança com o PE pela realização de nomes massivos (exprimem algo não
material e não divisível), em SPREP e em OD.
(xii) à semelhança do PE e PB, os nomes comuns contáveis no plural são realizados com
determinantes com preferência na posição sintáctica de Sujeito, na posição sintática de
complemento pós-verbal.
(xiii) à semelhança do PE e PB, os nomes comuns contáveis no plural ocorrem sem
especificadores (NPs), em SPREP, em posição sintática de Sujeito, em posição sintática
de OD, em SPREP envolvendo a preposição em, em contextos que ocorrem os
280
possessivos, em SPREP envolvendo a preposição por, em contextos que ocorrem os
possessivos.
(xiv) Os nomes comuns não contáveis ocorrem com determinantes com preferência na
posição sintáctica de sujeito, complemento pós-verbal, em SPREP envolvendo a
preposição por, quer com tempos do presente quer com tempos do pretérito perfeito
do indicativo, à semelhança do PE e PB.
(xv) Os topónimos simples são realizados preferencialmente sem determinantes (Ns),
em SPREP, à semelhança do PB.
(xvi) Os nomes comuns contáveis no singular ocorrem preferencialmente sem
determinantes (Ns), em posição sintática de OD, à semelhança do PB quer com os
tempos do presente quer com os tempos do pretérito perfeito do indicativo.
Após análise sintático-semântica detalhada dos resultados dos dados do PM, o
estudo permitiu encontrar repostas para as perguntas de investigação e chegar à
conclusão de que, nesta variedade do Português manifesta algumas semelhanças com
o PE, sobretudo no que se refere aos casos menos estável nomeadamente uso de artigos
definidos em posição de Sujeito. Em contextos de realização de nomes próprios
(topónimos, em alguns casos de antropónimos) – há hesitações tal como no PE, em
posição de Sujeito. Verificamos ainda semelhanças ao PE no que se refere à realização
de nomes contáveis no plural, que aparecem em complementos de preposições sem
artigos definidos, numa interpretação de quantificação existencial ou não universal. À
semelhança do PE, os nomes contáveis no singular quando recategorizados em não
contáveis, identificou-se alguns casos no PM, em posição sintática de OD, com leitura
de substância. Contudo, no que diz respeito à realização e/ou omissão dos artigos
definidos observam-se algumas diferenças, em particular e em grande medida em
nomes contáveis no singular em posição de OD e em complementos de preposições.
Conforme se observou nos capítulos V e VI, notamos um padrão em comum com o PB
relativo à realização de possessivos sem artigos. Este fenómeno corrobora, em parte, o
que se descreve em Gonçalves (1997 e 1998), Nicolau (2002) e Costa (2014), que
reportam uma forte tendência de omissão de artigos definidos nesta variedade do
Português. Tal como se observou nos capítulos V e VI, isso é mais frequente no singular
281
que no plural. Ainda sobre este fenómeno, procuramos trazer no capítulo I estudos de
Cumbane (2008), Gundane (2018) entre outros que chamam a atenção para os casos de
diversos sintagmas nominais em Línguas Bantu (Citshwa), que são realizados sem
especificadores, em diferentes contextos.
Dadas as particularidades sintático-semânticas verificadas no PM, consideramos
por isso a hipótese de que à luz de alguns pressupostos teóricos relacionados com o
papel do contexto social na aquisição de uma língua, nomeadamente Gonçalves (2005:
6) que considera o seguinte “o contexto social influencia a qualidade e a quantidade do
input da língua-alvo a que os aprendentes estão expostos no processo de aquisição de
uma língua”, assumimos que no PM parece haver uma hesitação relativa ao uso dos
artigos definidos, influenciada pelo contexto sociolinguístico em que os informantes se
encontram inseridos. Visto que: (i) a Língua Portuguesa (Língua oficial e de ensino em
Moçambique) - é uma língua com artigos; (ii) as Línguas Bantu, L1 da maioria dos
falantes do PM, são línguas que não têm artigos. Sendo assim uma possível transferência
das estruturas dessas línguas sobre o Português devido ao contato linguístico que se
verifica entre o Português e as Línguas Bantu em Moçambique, conforme se referiu no
capítulo I.
No que se refere à aceitabilidade inesperada de algumas construções estranhas
e atribuição de interpretações semânticas a estas construções, as quais se distanciam
do PE, acreditamos que se deve, em parte, ao fator conhecimento linguístico, que pode
influenciar as atitudes e as orientações motivacionais dos falantes na realização dos
artigos definidos em português. Assumindo que, maior parte dos inquiridos, conforme
se revelam os resultados do questionário sociolinguístico, Línguas bantu constituem a
L1 da maioria dos falantes do PM.
7.2. Implicações e perspetivas do estudo
Por interesse de investigação linguística, em particular na área de semântica,
levou-se a cabo esta pesquisa sobre Questões de Semântica nominal: os artigos
definidos na construção de frases no Português de Moçambique. Dissemos na
introdução que, para além deste ponto, constituem outros pontos de motivação ao
282
facto de que alguns estudos efetuados para o Português Europeu (PE) e o Português do
Brasil (PB) apontam algumas diferenças linguísticas relativas à realização dos artigos
definidos. Dissemos ainda que a variedade moçambicana do Português tem sido objeto
de estudos linguísticos, embora a maioria se concentre em aspetos relacionados com a
aquisição de Língua Segunda (L2), em particular do Português, dado que muitos falantes
não têm o Português como língua materna. Entretanto, fizemos referência ainda na
introdução o facto de quase não existirem estudos sistemáticos sobre a realização e/ou
ausência dos artigos definidos no singular e no plural sob ponto de vista de contextos
sintático-semânticos em PM, quando associados aos antropónimos, topónimos e nomes
comuns (contáveis, não contáveis e recategorizados). Consideramos por isso, em parte,
que sentimos ter cumprido com as metas principais propostas no presente trabalho.
Igualmente, acreditamos que o presente trabalho se apresenta como um contributo
essencial para o enriquecimento dos estudos semânticos sobre Semântica Nominal do
Português de Moçambique, reconhecendo que há ainda muito para discutir e
aprofundar nomeadamente estudar em que medida as Línguas Bantu podem influenciar
o PM, reflectir profundamente sobre a possibilidade de influência das Línguas Bantu ao
PM devido ao contato linguístico. Finalmente, e tendo em consideração que, do ponto
de vista metodológico, o presente estudo adotou um corpus escrito baseado num
método de elicitação através de aplicação de tarefas de produção provocada e de juízo
de gramaticalidade/aceitabilidade, comprometemo-nos em futuras pesquisas a
constituição e análise semântica de um corpus oral do PM, com o foco em artigos
definidos no singular e no plural.
283
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291
Anexos I – Inquérito aplicado aos informantes universitários do
regime Laboral
I. Inquérito Sociolinguístico
O presente questionário tem como objetivo recolher dados sobre o contributo dos artigos
definidos para a construção das frases em Português. Para o efeito, pede-se a sua atenção
e colaboração para responder com clareza e com objetividade às perguntas que se seguem.
Código: _________________________________
1.2 Idade _______________________ Sexo __________________________
1.3 Naturalidade ________________________________
1.4 Qual é a sua língua materna? __________________________________
1.5 Desde bebé, adquiriu duas línguas? Sim ________ Não __________
1.5.1 Língua Portuguesa + Língua Bantu ________
1.5.2 Língua Bantu + Língua Bantu ____________
1.5.3 Língua Bantu + Língua Portuguesa ________
1.6 Língua(s) de comunicação com os pais (Marque a opção certa, usando um X):
1.6.1 Português ______
1.6.2 Português/Língua Bantu ______
1.6.3 Língua Bantu ______
1.7 Língua(s) de comunicação com os irmãos (Marque a opção certa, usando um X):
1.7.1 Português ______
1.7.2 Português/Língua Bantu ______
1.7.3 Língua Bantu ______
1.8 Língua(s) de comunicação com os avós (Marque a opção certa, usando um X):
1.8.1 Português ______
1.8.2 Português/Língua Bantu ______
1.8.3 Língua Bantu ______
1.9 Língua(s) de comunicação com os amigos (Marque a opção certa, usando um X):
1.9.1 Português ______
292
1.9.2 Português/Língua Bantu ______
1.9.3 Língua Bantu ______
II. Tarefa de produção provocada (produção textual)
2.1 A partir dos temas que se seguem abaixo, escolha um deles e desenvolva um texto.
(i) Os casamentos prematuros
(ii) Uma pessoa inesquecível
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______________________________________________________________________
______________________________________________________________________
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293
______________________________________________________________________
______________________________________________________________________
2.2 A partir dos elementos linguísticos que se encontram entre parênteses, preencha os
espaços em branco das frases seguintes ao seu critério.
1. (O Ngungunhane, Ngungunhane)
__________________________ foi um líder marcante na história de Moçambique.
2. (Beira, a Beira)
Ele viajou para ____________________ .
3. ( João, o João)
Seu nome foi ______________________ .
4. (o Pedro, Pedro)
Ela comprou um romance para _____________________ .
5. ( em Maputo, no Maputo)
A Rita viveu ________________________ .
6. ( a revista, revista)
______________________ de Linguística foi publicada com sucesso.
7. (de gramática, da gramática)
Ela gostou ______________________ .
8. (de gramática, da gramática)
Ela gosta _____________________ .
9. (o telemóvel, telemóvel)
A Rita comprou ____________________ no supermercado.
10. (o telemóvel, telemóvel)
A Rita costuma comprar ____________________ no supermercado.
11. (o cão, cão)
Ele deu comida a ___________________ .
12. (petróleo, o petróleo)
__________________ sempre foi um bem esgotável.
13. (petróleo, o petróleo)
Moçambique vende __________________ às Nações Unidas.
14. (chá, o chá)
294
A Maria tomou ______________ sem açúcar.
15. (o café, café)
Ela comprou __________________ africano.
16. (o café, café)
Ela compra __________________ africano.
17. (museus, os museus)
________________ comunitários nacionais transformaram-se numa atração turística.
18. (cartas, as cartas)
O governo aprovou ___________________ credenciais dos países vizinhos.
19. (das instituições, de instituições)
A lei ______________________ do ensino superior foi revista.
20. (povos, os povos)
Eles foram ________________ primitivos.
21. (conhecimentos, os conhecimentos)
Os finalistas adquiram _____________________ tecnológicos inovadores.
22. (vinhos, os vinhos)
Os turistas compraram __________________ importados.
[Link] de juízos de gramaticalidade e/ou aceitabilidade
Teste o seu juízo de gramaticalidade e/ou aceitabilidade relativamente às frases que se
seguem, marcando-as com“” (bem formada); “?” (pouco natural ou “duvidoso”) e
“*” (inaceitável ou agramatical).
GRUPO A Opções
“” “?” “*”
(1) O Mia Couto é um dos escritores influentes na literatura
moçambicana.
(2) Mia Couto é um dos escritores influentes na literatura
moçambicana.
(3) João ganhou a lotaria.
295
(4) O João ganhou a lotaria.
(5) A Avenida de França, em Maputo, foi palco de um espetáculo
musical.
(6) A Avenida da França, em Maputo, foi palco de um espetáculo
musical.
(7) O Manuel viveu no Niassa.
(8) O Manuel viveu em Niassa.
(9) Ele comprou algumas obras de Paulina Chiziane.
(10) Ele comprou algumas obras da Paulina Chiziane.
(11) Ele chama-se Pedro.
(12) Ele chama-se o Pedro.
(13) O vencedor da Bola de Ouro foi, de novo, o Ronaldo.
(14) O vencedor da Bola de Ouro foi, de novo, Ronaldo.
(15) O vencedor da Bola de Ouro é, de novo, o Ronaldo.
(16) O vencedor da Bola de Ouro é, de novo, Ronaldo.
GRUPO B
(17) A menina foi a minha vizinha.
(18) Menina foi a minha vizinha.
(19) Minha caneta partiu-se.
(20) A minha caneta partiu-se.
(21) O Rui comprou telemóvel naquela loja.
(22) O Rui comprou o telemóvel naquela loja.
(23) O Rui compra telemóvel naquela loja.
(24) O Rui compra o telemóvel naquela loja.
(25) O empresário construiu a casa.
(26) O empresário construiu casa.
(27) O Nuno leu poema.
(28) O Nuno leu o poema.
296
(29) O Nuno lê poema.
(30) O Nuno lê o poema.
(31) Ele viajou em carro pessoal.
(32) Ele viajou no carro pessoal.
(33) Ele viaja em carro pessoal.
(34) Ele viaja no carro pessoal.
(35) Aquela rapariga loira foi a aniversariante.
(36) Aquela rapariga loira foi aniversariante.
(37) Aquela rapariga loira é a aniversariante.
(38) Aquela rapariga loira é aniversariante.
(39) A rapariga de tranças foi ao mercado.
(40) Rapariga foi ao mercado.
(41) Aconstrução da ponte teve muitos investimentos.
(42) Aconstrução de ponte teve muitos investimentos.
GRUPO C
(43) Malária atingiu muitas crianças em África.
(44) A malária atingiu muitas crianças em África.
(45) Malária atinge muitas crianças em África.
(46) A malária atinge muitas crianças em África.
(47) Ouro foi sempre um bem lucrativo.
(48) O ouro foi sempre um bem lucrativo.
(49) Ouro é sempre um bem lucrativo.
(50) O ouro é sempre um bem lucrativo.
(51) Os mercados informais venderam o açúcar contrabandeado.
(52) Os mercados informais venderam açúcar contrabandeado.
(53) Os mercados informais vendem o açúcar contrabandeado.
(54) Os mercados informais vendem açúcar contrabandeado.
(55) O comércio do arroz selvagem é rentável.
(56) O comércio de arroz selvagem é rentável.
297
(57) Os franceses clamaram por justiça naquele país.
(58) Os franceses clamaram pela justiça naquele país.
(59) Os franceses pediram justiça naquele país.
(60) Os franceses pediram a justiça naquele país.
(61) O carvao de Moatize é excelente.
(62) Carvao é excelente.
GRUPO D
(63) Os professores do ensino superior propuseram novas estratégias
de cooperação.
(64) Professores do ensino superior propuseram novas estratégias de
cooperação.
(65) Turistas exigiram melhores condições de alojamento.
(66) Os turistas exigiram melhores condições de alojamento.
(67) A associação de estudantes foi premiada.
(68) A associação dos estudantes foi premiada.
(69) A entrada dos noivos na igreja decorreu sem incidentes.
(70) A entrada de noivos na igreja decorreu sem incidentes.
(71) Ele comprou as gramáticas recentes.
(72) Ele comprou gramáticas recentes.
(73) Ele compra as gramáticas recentes.
(74) Ele compra gramáticas recentes.
(75) Eles gostaram de concertos do verão.
(76) Eles gostaram dos concertos do verão.
(77) Eles gostam de concertos do verão.
(78) Eles gostam dos concertos do verão.
(79) Estas capas são de peregrinos.
(80) Estas capas são dos peregrinos.
(81) Eles foram músicos da cidade.
(82) Eles foram os músicos da cidade.
(83) Eles são músicos da cidade.
298
(84) Eles são os músicos da cidade.
(85) As raparigas de tranças foram ao mercado.
(86) Raparigas foram ao mercado.
GRUPO E
(87) Os vinhos de Portugal foram comprados por turistas.
(88) Vinhos de Portugal foram comprados por turistas.
(89) Cafés africano e brasileiro foram os mais caros no inverno.
(90) Os cafés africano e brasileiro foram os mais caros no inverno.
(91) Eles compraram águas minerais no supermercado.
(92) Eles compraram as águas minerais no supermercado.
(93) Eles compram águas minerais no supermercado.
(94) Eles compram as águas minerais no supermercado.
(95) Nesta mercearia venderam chás.
(96) Nesta mercearia venderam os chás.
(97) Nesta mercearia vendem chás.
(98) Nesta mercearia vendem os chás.
(99) Ela foi criticada pelas atitudes da sua juventude.
(100) Ela foi criticada por atitudes da sua juventude.
(101) A Rita falou de dificuldades da primeira guerra mundial.
(102) A Rita falou das dificuldades da primeira guerra mundial.
(103) A Rita fala de dificuldades da primeira guerra mundial.
(104) A Rita fala das dificuldades da primeira guerra mundial.
(105) As águas minerais fazem bem à saúde.
(106) Águas fazem bem à saúde.
IV. Inquérito suplementar
Tendo em consideração os pares de frases que identificou como aceitáveis em (III), sobre
a tarefa de gramaticalidade e/ou aceitabilidade, diga qual a diferença entre os dois
casos.
299
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Muito obrigado pela sua colaboração!
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Anexos II – Inquérito aplicado aos informantes universitários do
regime Pós-Laboral
I. Inquérito Sociolinguístico
O presente questionário tem como objetivo recolher dados sobre o contributo dos artigos
definidos para a construção das frases em Português. Para o efeito, pede-se a sua atenção
e colaboração para responder com clareza e com objetividade às perguntas que se seguem.
Código: _________________________________
1.2 Idade _______________________ Sexo __________________________
1.3 Naturalidade ________________________________
1.4 Qual é a sua língua materna? __________________________________
1.5 Desde bebé, adquiriu duas línguas? Sim ________ Não __________
1.5.1 Língua Portuguesa + Língua Bantu ________
1.5.2 Língua Bantu + Língua Bantu ____________
1.5.3 Língua Bantu + Língua Portuguesa ________
1.6 Língua(s) de comunicação com os pais (Marque a opção certa, usando um X):
1.6.1 Português ______
1.6.2 Português/Língua Bantu ______
1.6.3 Língua Bantu ______
1.7 Língua(s) de comunicação com os irmãos (Marque a opção certa, usando um X):
1.7.1 Português ______
1.7.2 Português/Língua Bantu ______
1.7.3 Língua Bantu ______
1.8 Língua(s) de comunicação com os avós (Marque a opção certa, usando um X):
1.8.1 Português ______
1.8.2 Português/Língua Bantu ______
1.8.3 Língua Bantu ______
1.9 Língua(s) de comunicação com os amigos (Marque a opção certa, usando um X):
1.9.1 Português ______
302
1.9.2 Português/Língua Bantu ______
1.9.3 Língua Bantu ______
II. Tarefa de produção provocada (produção textual)
2.1 A partir dos temas que se seguem abaixo, escolha um deles e desenvolva um texto.
(i) A minha rotina diária
(ii) Uma lição de vida
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2.2 A partir dos elementos linguísticos que se encontram entre parênteses, preencha os
espaços em branco das frases seguintes ao seu critério.
1. (O Ngungunhane, Ngungunhane)
__________________________ foi um líder marcante na história de Moçambique.
2. (Beira, a Beira)
Ele viajou para ____________________ .
3. ( João, o João)
Seu nome foi ______________________ .
4. (o Pedro, Pedro)
Ela comprou um romance para _____________________ .
5. ( em Maputo, no Maputo)
A Rita viveu ________________________ .
6. ( a revista, revista)
______________________ de Linguística foi publicada com sucesso.
7. (de gramática, da gramática)
Ela gostou ______________________ .
8. (de gramática, da gramática)
Ela gosta _____________________ .
9. (o telemóvel, telemóvel)
A Rita comprou ____________________ no supermercado.
10. (o telemóvel, telemóvel)
A Rita costuma comprar ____________________ no supermercado.
11. (o cão, cão)
Ele deu comida a ___________________ .
12. (petróleo, o petróleo)
__________________ sempre foi um bem esgotável.
13. (petróleo, o petróleo)
Moçambique vende __________________ às Nações Unidas.
14. (chá, o chá)
304
A Maria tomou ______________ sem açúcar.
15. (o café, café)
Ela comprou __________________ africano.
16. (o café, café)
Ela compra __________________ africano.
17. (museus, os museus)
________________ comunitários nacionais transformaram-se numa atração turística.
18. (cartas, as cartas)
O governo aprovou ___________________ credenciais dos países vizinhos.
19. (das instituições, de instituições)
A lei ______________________ do ensino superior foi revista.
20. (povos, os povos)
Eles foram ________________ primitivos.
21. (conhecimentos, os conhecimentos)
Os finalistas adquiram _____________________ tecnológicos inovadores.
22. (vinhos, os vinhos)
Os turistas compraram __________________ importados.
[Link] de juízos de gramaticalidade e/ou aceitabilidade
Teste o seu juízo de gramaticalidade e/ou aceitabilidade relativamente às frases que se
seguem, marcando-as com“” (bem formada); “?” (pouco natural ou “duvidoso”) e
“*” (inaceitável ou agramatical).
GRUPO A Opções
“” “?” “*”
(1) O Mia Couto é um dos escritores influentes na literatura
moçambicana.
(2) Mia Couto é um dos escritores influentes na literatura
moçambicana.
(3) João ganhou a lotaria.
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(4) O João ganhou a lotaria.
(5) A Avenida de França, em Maputo, foi palco de um espetáculo
musical.
(6) A Avenida da França, em Maputo, foi palco de um espetáculo
musical.
(7) O Manuel viveu no Niassa.
(8) O Manuel viveu em Niassa.
(9) Ele comprou algumas obras de Paulina Chiziane.
(10) Ele comprou algumas obras da Paulina Chiziane.
(11) Ele chama-se Pedro.
(12) Ele chama-se o Pedro.
(13) O vencedor da Bola de Ouro foi, de novo, o Ronaldo.
(14) O vencedor da Bola de Ouro foi, de novo, Ronaldo.
(15) O vencedor da Bola de Ouro é, de novo, o Ronaldo.
(16) O vencedor da Bola de Ouro é, de novo, Ronaldo.
GRUPO B
(17) A menina foi a minha vizinha.
(18) Menina foi a minha vizinha.
(19) Minha caneta partiu-se.
(20) A minha caneta partiu-se.
(21) O Rui comprou telemóvel naquela loja.
(22) O Rui comprou o telemóvel naquela loja.
(23) O Rui compra telemóvel naquela loja.
(24) O Rui compra o telemóvel naquela loja.
(25) O empresário construiu a casa.
(26) O empresário construiu casa.
(27) O Nuno leu poema.
(28) O Nuno leu o poema.
306
(29) O Nuno lê poema.
(30) O Nuno lê o poema.
(31) Ele viajou em carro pessoal.
(32) Ele viajou no carro pessoal.
(33) Ele viaja em carro pessoal.
(34) Ele viaja no carro pessoal.
(35) Aquela rapariga loira foi a aniversariante.
(36) Aquela rapariga loira foi aniversariante.
(37) Aquela rapariga loira é a aniversariante.
(38) Aquela rapariga loira é aniversariante.
(39) A rapariga de tranças foi ao mercado.
(40) Rapariga foi ao mercado.
(41) A construção da ponte teve muitos investimentos.
(42) A construção de ponte teve muitos investimentos.
GRUPO C
(43) Malária atingiu muitas crianças em África.
(44) A malária atingiu muitas crianças em África.
(45) Malária atinge muitas crianças em África.
(46) A malária atinge muitas crianças em África.
(47) Ouro foi sempre um bem lucrativo.
(48) O ouro foi sempre um bem lucrativo.
(49) Ouro é sempre um bem lucrativo.
(50) O ouro é sempre um bem lucrativo.
(51) Os mercados informais venderam o açúcar contrabandeado.
(52) Os mercados informais venderam açúcar contrabandeado.
(53) Os mercados informais vendem o açúcar contrabandeado.
(54) Os mercados informais vendem açúcar contrabandeado.
(55) O comércio do arroz selvagem é rentável.
(56) O comércio de arroz selvagem é rentável.
307
(57) Os franceses clamaram por justiça naquele país.
(58) Os franceses clamaram pela justiça naquele país.
(59) Os franceses pediram justiça naquele país.
(60) Os franceses pediram a justiça naquele país.
(61) O carvao de Moatize é excelente.
(62) Carvao é excelente.
GRUPO D
(63) Os professores do ensino superior propuseram novas estratégias
de cooperação.
(64) Professores do ensino superior propuseram novas estratégias de
cooperação.
(65) Turistas exigiram melhores condições de alojamento.
(66) Os turistas exigiram melhores condições de alojamento.
(67) A associação de estudantes foi premiada.
(68) A associação dos estudantes foi premiada.
(69) A entrada dos noivos na igreja decorreu sem incidentes.
(70) A entrada de noivos na igreja decorreu sem incidentes.
(71) Ele comprou as gramáticas recentes.
(72) Ele comprou gramáticas recentes.
(73) Ele compra as gramáticas recentes.
(74) Ele compra gramáticas recentes.
(75) Eles gostaram de concertos do verão.
(76) Eles gostaram dos concertos do verão.
(77) Eles gostam de concertos do verão.
(78) Eles gostam dos concertos do verão.
(79) Estas capas são de peregrinos.
(80) Estas capas são dos peregrinos.
(81) Eles foram músicos da cidade.
(82) Eles foram os músicos da cidade.
(83) Eles são músicos da cidade.
308
(84) Eles são os músicos da cidade.
(85) As raparigas de tranças foram ao mercado.
(86) Raparigas foram ao mercado.
GRUPO E
(87) Os vinhos de Portugal foram comprados por turistas.
(88) Vinhos de Portugal foram comprados por turistas.
(89) Cafés africano e brasileiro foram os mais caros no inverno.
(90) Os cafés africano e brasileiro foram os mais caros no inverno.
(91) Eles compraram águas minerais no supermercado.
(92) Eles compraram as águas minerais no supermercado.
(93) Eles compram águas minerais no supermercado.
(94) Eles compram as águas minerais no supermercado.
(95) Nesta mercearia venderam chás.
(96) Nesta mercearia venderam os chás.
(97) Nesta mercearia vendem chás.
(98) Nesta mercearia vendem os chás.
(99) Ela foi criticada pelas atitudes da sua juventude.
(100) Ela foi criticada por atitudes da sua juventude.
(101) A Rita falou de dificuldades da primeira guerra mundial.
(102) A Rita falou das dificuldades da primeira guerra mundial.
(103) A Rita fala de dificuldades da primeira guerra mundial.
(104) A Rita fala das dificuldades da primeira guerra mundial.
(105) As águas minerais fazem bem à saúde.
(106) Águas fazem bem à saúde.
IV. Inquérito suplementar
Tendo em consideração os pares de frases que identificou como aceitáveis em (III), sobre
a tarefa de gramaticalidade e/ou aceitabilidade, diga qual a diferença entre os dois
casos.
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Muito obrigado pela sua colaboração!
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