Capítulo XIX - Memorial do Convento
Contextualização do capítulo na obra
Este capítulo acontece quinze anos após o início da narrativa. Nesta altura, Baltasar e
Blimunda vivem em Mafra, estando o soldado envolvido na construção do convento.
Domenico Scarlatti informa-os de que o Padre Bartolomeu faleceu em Toledo. Devido às
circunstâncias, a passarola encontra-se abandonada na serra de Montejunto.
Resumo do capítulo + excertos
O capítulo inicia com uma descrição do ritmo frenético na construção do convento (“terra
solta, pedrisco, calha que a pólvora ou o alvião arrancaram ao pedernal profundo, esse
pouco o transportam por mão de homem os carrinhos, enchendo o vale com o pó que se vai
arrasando do monte ou extraindo dos novos caboucos.”) e com o anúncio de mudança de
serviço de Baltasar (“Durante muitos meses, Balasar puxou e empurrou carros de mão, até
que um dia se acho cansado de ser mula liteira, ora à frente, ora atrás, e, tendo prestado
públicas e boas provas perante oficiais do ofício, passou a andar com uma junta de bois,
das muitas que el-rei tinha comprado.”). Surge a necessidade de ir a Pêro Pinheiro buscar a
Benedictione, uma pedra gigante, e dá-se início à viagem de Mafra a Pêro Pinheiro.(“O
cortejo de lázaros e quasímodos está saindo da vila de Mafra, ainda de madrugada, o que
lhes vale é que de noite todos os gatos são pardos e vultos todos os homens”). Inicia-se o
transporte da pedra e é feita uma descrição da mesma (“Era uma laje retangular enorme,
uma brutidão de mármore rugoso que assentava sobre troncos de pinheiro, chegando mais
perto sem dúvida ouviríamos o gemer da seiva, como ouvimos agora o gemido de espanto
que sai da boca dos homens, neste instante em que a pedra desafogada aparece em seu
real tamanho.”) e do seu método de transporte, que leva ao ferimento de um trabalhador.
(“Vinha puxada a braço, em grande alarido de quem fazia a força, de quem a mandava
fazer, um homem distraiu-se, deixou ficar o pé debaixo da roda, ouviu-se um berro, um grito
de dor insuportável, a viagem começa mal.”) Durante uma noite inicia-se a narrativa de
Manuel Milho. A história contada por M. Milho é uma sátira anti-monárquica que fomenta
uma reflexão profunda sobre a existência humana e da possibilidade de transformação pelo
sonho. Chegam a Cheleiros e morre um dos trabalhadores. (“Manuel Milho a contar a sua
história, fala aqui um ouvinte, só eu, e tu, e tu, damos pela ausência, outros nem sabiam
que fosse Francisco Marques, alguns o viram morto, a maior parte nem isso, não se vá
julgar que desfilam seiscentos homens diante do cadáver em última e comovida
homenagem, são coisas que só acontecem nas epopeias.”) Faz-se um velório e menciona-
se a missa de domingo. Manuel Milho termina a sua narrativa e os trabalhadores chegam a
Mafra após oito dias de viagem.
Personagens
Baltasar (41 anos): vítima da desumanidade da guerra, pragmático e simples, personagem-
tipo
D. João V (36 anos): vaidoso, megalómano, cumpridor da sua palavra, tirano
Povo: massa coletiva e anónima que construiu o convento, o verdadeiro protagonista do
Memorial do Convento, representado por Baltasar, entre outros personagens.
Francisco Marques: nascido em Cheleiros, homem de família, trabalhador, representa todos
os que morreram em nome da megalomania do rei
Outras personagens: José Pequeno, Manuel Milho, Tadeu, Isidro
Linguagem e estilo
No capítulo em que se descreve a “epopeia da pedra”, são evidentes algumas das marcas
da escrita de Saramago.
Recursos expressivos:
- Comparação: “os homens são tão curiosos como os cachopos” e “ouviríamos o
gemer da seiva, como ouvimos agora o gemido de espanto que saiu da boca dos
homens”
- Enumeração: “se partirem alguns dos primitivos, escoras de vário tamanho,
martelos,torqueses, chapas de ferro, gardanhas,...)
- Metáfora: “... todo o poder de el-rei será vento, pó e coisa nenhuma…”
- Ironia e comentários do narrador: “...o peso da varanda da casa a que se
chamará Benedictione é de trinta e um mil e vinte e um quilos, trinta e uma
toneladas em números redondos, senhoras e senhores visitantes,e agora passemos
à sala seguinte, que ainda temos muito que andar…”
- Discurso: “...por acaso foi o ruivo que lhe respondeu, É a pedra, e outro
acrescentou, Nunca vi uma coisa assim em dias da minha vida, e abanava a cabeça,
abismado.“.... O discurso direto é sempre um recurso de aproximação do leitor ao
narrado, neste caso para "garantir" a veracidade, o caráter testemunhal que o
narrador atesta no início. Neste caso, os comentários dos homens, em discurso
direto, dão conta da enormidade da pedra e do espanto que isso causa.
- Pontuação inusitada
- Frases longas
Intertextualidade
Neste excerto, o melhor exemplo de intertextualidade é a alusão, uma figura de linguagem
que estabelece uma referência indireta a algo ou alguém amplamente conhecido, sem a
necessidade de o nomear de forma explícita. Nesse contexto, expressões como “chegou-
se-lhe fogo ao rabo” e “deitar os bodes pela boca” carregam significados que remetem a
saberes partilhados pela cultura popular, evocando imagens e sentidos que vão além do
que está literalmente dito.
1. “Chegou-se-lhe fogo ao rabo”
Esta expressão popular portuguesa é usada para dizer que alguém se viu em apuros, ficou
aflito ou começou a agir com pressa, como se estivesse "com o rabo a arder", ou seja, sob
pressão ou em perigo iminente.
2. “Deitar os bodes pela boca”
Esta expressão é menos comum, mas tem um tom mais metafórico e pode variar de
significado conforme o contexto. Em muitos casos, é interpretada como falar demais, dizer
coisas que estavam guardadas ou revelar verdades difíceis. Pode também ser uma forma
mais crua de se referir a vomitar palavras amargas, ressentimentos ou críticas.
A EPOPEIA DA PEDRA
EPOPEIA – poema extenso em que são narradas acções heróicas e grandiosas, façanhas
de heróis ou factos memoráveis do colectivo de um povo.
Neste capítulo narra-se a saga heróica do transporte de uma pedra enorme de Pêro
Pinheiro para Mafra (cerca de 15 km), que se destinava à varanda situada sobre o pórtico
da igreja. Isto aconteceu porque o rei não queria que essa varanda fosse construída por
pedrinhas, mas sim por uma pedra como um todo, de forma a que se destacasse mais.
Trabalho de transporte da pedra
As grandes dificuldades começaram imediatamente na primeira vez que os homens veem a
pedra e reconhecem, antecipadamente, o sofrimento que ela virá a causar-lhes. É dito que
a pedra pesava cerca de trinta toneladas e tinha 7x3 metros. Para o seu transporte
construíram a Nau da Índia, um carro puxado por 200 juntas de bois, e foram precisos 600
homens e 8 dias. As grandes dificuldades foram a colocação da pedra em cima do carro, e,
já em viagem, um avanço extremamente lento. Devido ao perigo acrescido das subidas e
descidas, acontecem sacrifícios humanos, quando o pé de um homem fica debaixo de uma
roda.
Na descida para Cheleiros, o movimento perigoso e incerto do carro culmina com a morte
de Francisco Marques, um dos transportadores, e dois bois, cujas pernas foram partidas
pela plataforma resvalada. O esforço dos homens, que trabalhavam de dia, e descansavam
de noite, leva-os à exaustão. Nestas horas de descanso surge, encaixada na narrativa
principal, a história de Manuel Milho, contada em episódios, à noite, em estilo de folhetim.
Esta ameniza o sofrimento dos homens, distrai-os e deixa-os curiosos em relação ao
desenlace, revelado na noite seguinte.
Simbolismo
Pedra Benedictione: é central no romance, simbolizando a grandiosidade do projeto do
Convento de Mafra e representando a Terra-mãe e, em contraste, a pequenez do Homem.
Desde logo, as dimensões da pedra evidenciam a tirania e a megalomania do rei. A pedra
é, no contexto da construção do convento, um elemento de opressão e de subordinação.
Os operários que trabalham na obra e os animais do seu transporte são praticamente
escravizados e forçados a lidar com a dureza e a frieza da pedra, enquanto a sua própria
condição humana é desconsiderada, sendo transformados em peças da engrenagem de
um projeto megalómano imposto pelo poder da monarquia e da Igreja.
Contudo, ao mesmo tempo, a pedra assume uma outra camada simbólica, que é a da
transcendência e da memória. A edificação do convento está ligada à procura de algo que
vá além do efémero e seja imortal. A pedra preserva-se no tempo, tal como os ideais de
poder, fé e controle que o convento representa. Enquanto que as ações humanas podem
ser efémeras, a pedra permanece, como símbolo da dureza da realidade e da resistência à
mudança, do sofrimento humano e da exploração. Assim, simboliza a resistência das
instituições, como a Igreja e a monarquia, que se perpetuam ao custo do sofrimento e da
exploração do povo.
Construção do Convento: Simbolicamente, a construção do convento relata a dicotomia
presente nas classes sociais e, portanto, a desigualdade a que o povo foi (é) submetido. O
convento é o espaço da megalomania do rei, e símbolo da ostentação régia e da opressão.
Nele habitam milhares de trabalhadores que vieram das suas terras de origem,
voluntariamente ou forçados, para trabalhar na construção do convento. Representa o
esforço desmedido, a doença e a morte, o sacrifício e exploração do povo, mas, por outro
lado, a solidariedade, o companheirismo e a cumplicidade dos trabalhadores.
Críticas
Megalomania do rei: A obsessão de D. João V em construir algo monumental reflete a
vontade de manter a imagem de poder divino, como se a magnificência do convento fosse
uma forma de demonstrar a autoridade e a virtude da monarquia portuguesa, glorificando-a,
em associação à religião.
(“…Deve-se a construção do convento de Mafra ao rei [Link]ão V, por um voto que fez se lhe
nascesse um filho, vão aqui seiscentos homens que não fizeram filho nenhum à rainha e
eles é que pagam o voto, que se lixam…”, “pena que não esteja D. João V no alto da
subida, não há pouco que puxe melhor que este”)
Hipocrisia religiosa: O convento, nesse sentido, é mais do que um espaço religioso. É,
também, símbolo de um poder político que se alia à Igreja para manter a ordem social. A
religiosidade é usada como um instrumento de controle, o que é criticado por Saramago,
quando mostra as desigualdades e os sofrimentos causados pela construção da obra. Os
operários são tratados como meras peças de uma grande máquina, sendo explorados até a
exaustão.
Opressão do povo pelos poderosos: O capítulo também faz uma crítica explícita à
estrutura social da época, especialmente em relação ao tratamento dos operários que
trabalham na construção do convento. Esses trabalhadores são descritos como sendo
vítimas de um sistema que não os vê como seres humanos, mas como meios para um fim.
A dureza do trabalho, as condições precárias e a exploração são abordadas por Saramago
com uma carga de indignação, apontando as falhas de uma sociedade que se diz cristã,
mas que age de forma imoral. É, na realidade, uma sociedade que se fundamenta na
dureza, na rigidez e na perpetuação do sofrimento em nome de ideais imortais como a fé e
a razão.
Hipocrisia religiosa: Além disso, a crítica à Igreja vai além da exploração dos
trabalhadores. Saramago questiona a verdadeira natureza do poder da Igreja, associando-a
a uma forma de controle social que oprime os indivíduos e os impede de exercerem a sua
autonomia.
Exaltação do povo
Neste episódio, o povo é destacado pelo narrador, que o elege como herói coletivo da
epopeia. Sacrificado, humilhado, mal nutrido e miserável, alcança uma dimensão trágica, na
medida em que cumpre um terrível destino que não escolheu, e se eleva acima da condição
de «bicho da terra» e aos nossos olhos, quando supera em força e humanidade todas as
outras classes. Aqui destaca-se a força, o suor, o sacrifício e até a morte dos homens que,
pela sobrevivência, trabalham sem descanso para tornar possível o cumprimento da
promessa do rei. O seu sacrifício fá-lo herói.
Sobressaindo o seu esforço e determinação, o narrador resgata-o do anonimato. Alguns
adquirem forma e identidade e entram em ação (Francisco Marques, Manuel Milho). Aos
outros é-lhes prestada homenagem, com a atribuição simbólica de um nome para cada
letra do alfabeto «…Alcino, Brás, Cristóvão, Daniel, Egas, Firmino…». Isto, numa vontade
de os tornar imortal, em memória, e de os incluir na História de Portugal que os esqueceu
como esquece todos os “pequenos”.
Saramago acaba por desenvolver um novo conceito de herói, associando-o à inclusão.
Afasta-se da imagem idealizada - “... que para heróis se deverão escolher os belos e os
formosos, os esbeltos e escorreitos, os inteiros e completos...”, e cria um retrato real - “...
quanto há de belfos e tartamudos, de coxos e prognatas, de zambros e epilépticos, de
orelhudos e parvos, de albinos e de alvares, os de sarna e os de chaga, os da tinta e do
tinhó… lázaros e quasímodos…”
("já que não podemos falar-lhes das vidas, por tantas serem, ao menos deixemos os nomes
escritos, é essa a nossa obrigação, só por isso escrevemos, torná-los imortais, pois aí
ficam, se de nós depende.")
Atualidade
Ao relacionarmos essa temática com a atualidade, percebemos que a Epopeia da Pedra
não se limita à reflexão sobre o passado. Continua, na verdade, a ser uma crítica atual à
perpetuação de sistemas de poder e à exploração de indivíduos e povos em nome do
progresso e do poder político e religioso. Em pleno século XXI, a crítica de Saramago
ressoa em vários contextos, desde as desigualdades sociais e económicas até às políticas
autoritárias e à manipulação da verdade. A pedra pode ser vista, hoje, em manifestações de
grande infraestrutura ou projetos de poder que sacrificam o bem-estar das pessoas, seja na
construção de megaempreendimentos ou na perpetuação de sistemas políticos que
favorecem uma elite em detrimento das necessidades coletivas.
Além disso, a reflexão sobre a importância da memória e do legado histórico, tal como a
Epopeia da Pedra nos oferece, é crucial para entender como as práticas do passado
continuam a moldar o presente. A maneira como os erros e as injustiças de outras épocas
são esquecidos ou ignorados é uma crítica direta ao modo como, muitas vezes, a história é
manipulada para servir aos interesses atuais. Assim, a crítica de Saramago mantém-se
válida, pois leva-nos a questionar a construção das nossas sociedades e a maneira como
lidamos com a nossa história coletiva.
Conclusão/Importância do capítulo
Através de elementos como a construção do convento, a exploração dos trabalhadores, a
crítica à Igreja e ao poder político, e as relações humanas e filosóficas entre os
personagens, Saramago constrói um retrato poderoso da sociedade portuguesa do século
XVIII. Este capítulo, como toda a obra, desafia-nos a questionar o papel da religião, da
política e da moralidade na formação da realidade e da experiência humana. Além disso,
este episódio fortalece a exaltação do povo e a crítica ao Rei, através da imortalização e
glorificação do povo como herói e verdadeiro construtor do Convento de Mafra.
Por fim, a Epopeia da Pedra serve como uma reflexão crítica sobre o passado e uma
advertência e um convite à reflexão sobre a nossa atualidade, convidando-nos a observar
como o poder, a opressão e a memória continuam a ser temas centrais no nosso tempo.
“Tão grande. Mas Baltasar murmurou, olhando a basílica, Tão pequena.”