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História Da África: Leandro Nascimento de Souza

O documento aborda a história da África, enfatizando a importância de desconstruir estereótipos e narrativas distorcidas que surgiram durante o imperialismo europeu e o racismo científico. Destaca a influência da UNESCO e do Pan-africanismo na reescrita da história africana, promovendo uma perspectiva mais justa e inclusiva. A obra também analisa a relação da história da África com o Brasil, ressaltando a necessidade de reconhecer a contribuição africana na formação da sociedade brasileira.

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História Da África: Leandro Nascimento de Souza

O documento aborda a história da África, enfatizando a importância de desconstruir estereótipos e narrativas distorcidas que surgiram durante o imperialismo europeu e o racismo científico. Destaca a influência da UNESCO e do Pan-africanismo na reescrita da história africana, promovendo uma perspectiva mais justa e inclusiva. A obra também analisa a relação da história da África com o Brasil, ressaltando a necessidade de reconhecer a contribuição africana na formação da sociedade brasileira.

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História da África

Leandro Nascimento de Souza


REVISÃO UNICAP DIGITAL
Msc. Fernando Castim Rua do Príncipe, 526 - Bloco C - Salas 303 a 305
PROJETO GRÁFICO E DIAGRAMAÇÃO Boa Vista - Recife-PE - Cep: 50050-900
Msc. Flávio Santos Telefone +55 81 2119.4335

1ª Edição
Copyright © 2022 de Universidade Católica de Pernambuco
Copyright © 2022 de UNICAP DIGITAL
Sumário
Unidade 1 5
Objetivos da Unidade 6
1. Introdução ao estudo da África 7
1.1 Imperialismo europeu e o racismo científico 7
1.2 A reconstrução da história da África e a UNESCO 9
1.3 História da África: novos conceitos, métodos e perspectivas 11
2. A História da África no Brasil: Construções, perspectivas e o ensino 14
2.1 O racismo científico no Brasil e a invisibilidade africana 15
2.2 A História da África e a educação no Brasil: o contexto das leis 10.639\03
e 11.645\08 16
3. A visão geral da África 18
3.1 Quadro geográfico 19
3.2 Quadro Humano 22
3.3 Quadro cultural 24
Síntese da Unidade 26
Referências 27

Unidade 2 28
Objetivos da unidade 29
1. Primeiras migrações e sociedades no continente africano 30
1.1 As civilizações paleolíticas 32
1.2 As civilizações neolíticas e suas consequências 33
2. A antiguidade africana 33
2.1 Um Egito Negro 34
2.2 Organização política e econômica na África antiga 35
2.3 Sociedade e cultura na África antiga 37
3. A África islâmica 38
3.1 Etapas na expansão do islã na África 39
3.2 O Sudão ocidental e outras civilizações 41
3.3 Organizações políticas e desenvolvimento econômico 44
3.4 Aspectos socioculturais 45
Síntese da Unidade 46
Referências 47

Unidade 3 48
Objetivos da unidade 49
1. A expansão marítima portuguesa na África: dos Mouros ao oriente 50
2. A África Atlântica na época moderna 56
3. O imperialismo e a partilha da África: invasões, danos e resistência 61
Síntese da Unidade 68
Referências 69
Unidade 4 70
Objetivos da unidade 71
1. O tráfico de escravizados africanos e a escravidão no Brasil 72
1.1 Fluxo do tráfico de escravizados africanos no Atlântico 72
1.2 Escravidão africana no Brasil: aspectos coloniais rurais 74
1.3 Escravidão africana no Brasil: aspectos urbanos 76
2. Quilombos e novas percepções de África no Brasil 78
2.1 A formação do quilombos no Brasil: o exemplo de Palmares 78
2.2 Quilombos do século XIX: Catucá e o Malunguinho 81
2.3 Remanescentes de quilombos no Brasil: desafios e possibilidades 83
3. Os Agudá: identidade brasileira na África? 85
4. A cultura afro-brasileira 87
4.1 Religião e religiosidade 87
4.2 Aspectos socioculturais gerais 88
4.3 problemas atuais 89
Síntese da Unidade 91
Referências 91
Unidade 1
A importância da história da África: construções e desconstruções

Nesta segunda unidade, revisitaremos o continente africano num tempo mais


afastado, o que denominamos de antiguidade africana. Conheceremos civilizações
anteriores e contemporâneas do já conhecido Egito, que, muitas vezes, nos foi
apresentado como não sendo uma parte integrante do continente africano,
sobretudo nos filmes de Hollywood. Por antiguidade africana, entendemos o recorte
temporal dos primórdios, até a chegada dos colonizadores europeus. Nesse sentido,
não falaremos de ‘Idade Média’ africana, por se tratar de um conceito exclusivamente
para a História da Europa.

As fontes para o estudo deste período da História da África são várias, portanto, faz-se
necessário um estudo numa perspectiva interdisciplinar, conforme sugere a Coleção
História Geral da África, organizada pela UNESCO, já mencionada na unidade
anterior. As pesquisas arqueológicas, sobretudo as implementadas em meados da
década de XX, após a primeira grande guerra mundial, apontam a África como berço
da humanidade, foi nesse continente que se deu o processo de hominização, qual
seja, os hominídeos foram-se constituindo em seres humanos a partir do trabalho.

Teremos a oportunidade de conhecermos também as dinâmicas existentes dentro


do território africano, bem como a relação dos africanos com povos da Ásia e da
Europa, e a presença de um islã que se africanizou em território africano. Não se trata
de virar as costas para o presente, buscaremos mostrar que, no continente africano,
há, na contemporaneidade, permanências do passado, tanto na cultura material
quando na cultura imaterial.

Objetivos da unidade

• Compreender o contexto histórico da implementação das Leis nº 10.639/03 e


11.645/08 e suas implicações para a história da África no Brasil.
• Identificar como e por que os aspectos negativos sobre a África e a história e
cultura afro-brasileira ainda se fazem presentes na sociedade, desenvolvendo novas
percepções a respeito da história da África, e de como ela é importante para a
história do Brasil.
• Identificar a multiplicidade de culturas e etnias africanas bem como seu quadro
geográfico para a construção crítica da historiografia do continente.
UNIVERSIDADE CATÓLICA DE PERNAMBUCO
História da África

1. Introdução ao estudo da África

O ponto de partida para estudar a África é justamente questionar o que sabemos


sobre ela e assim começarmos a perceber que temos pouco conhecimento, e grande
parte dele está estereotipado, distorcido ou [Link] como sabemos tão
pouco sobre esse continente que tem tanta proximidade histórica com o Brasil ? É
tudo fruto de uma construção realizada no século XIX, quando há relação com
questões políticas, econômicas e sociais, e que continuam influenciando a
mentalidade coletiva de parte da sociedade brasileira até hoje. Mas como foi essa
construção ?quais os interesses por trás disso ? Quais foram os responsáveis ? É de
grande relevância compreender essa história.

1.1 Imperialismo europeu e o racismo científico

O chanceler alemão Bismarck oferece, aos seus convidados, um bolo fatiado onde se lê “África”. Charge
francesa, L’Ilustration, 1885. Fonte: <[Link]>Acesso em: 01/07/2020.

No século XIX, a segunda revolução industrial realizada na Europa exigia matéria-


prima em abundância, mão de obra barata e mercado consumidor. Além de que,
nesse momento houve um grande avanço na tecnologia bélica europeia, sobretudo

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História da África

na criação de armas de repetição, as metralhadoras. O que garantia para os Estados


industriais da Europa uma grande vantagem militar com relação aos estados
africanos. Nesse aspecto, tanto o continente asiático como o africano serviriam aos
interesses industriais, em que os europeus dominariam politicamente essas regiões,
gerando o imperialismo, oficializado na conferencia de Berlim, em 1884, quando
ocorreu a partilha da África entre as nações europeias, como demonstra a charge no
início deste tópico.

Mas só a força não era suficiente, foi criada uma justificativa para esse domínio
europeu. Antes da partilha, grupos industriais tiveram influências nas pesquisas
acadêmicas que tentavam comprovar uma hierarquia entre os grupos étnicos no
mundo. Nesse contexto, fortaleceu-se a teoria que chamamos hoje de “racismo
cientifico”, que, através da eugenia, os intelectuais criaram o conceito evolutivo das
“raças” humanas. Em suma, propagou-se a teoria de que o mundo estaria dividido
em “raças” mais evoluídas que as outras, e que era o dever dos grupos humanos
“avançados” levar o progresso e a civilização para os seus “irmãos” menos evoluídos.
Nesse conceito, chegamos a dois extremos, os arianos europeus como grupos mais
avançados e os africanos negroides como os menos desenvolvidos. Seria o que
chamamos hoje de “Darwinismo social”. Logo, a justificativa da dominação europeia
na África foi a “luz” da civilização que eles levariam a esse continente. Considerando
ainda que essa teoria foi absorvida por outros aspectos culturais, e que, nesse
momento, o “padrão europeu de sociedade” se tornaria sinônimo de modernidade, e
o que não se encaixasse nesse padrão seria bárbaro ou selvagem. Porém como isso
influenciou na historia da África?

No século XIX, a universidade moderna atribuiu um novo conceito, mais próximo da


ciências exatas, buscando sempre uma verdade absoluta em todas as áreas do
conhecimento. Com a História não foi diferente, para ser aceita nos padrões
científicos da época, teve que se adaptar e criar o seu método em busca dessa
única verdade. Para tanto, a construção histórica teve como limite uma única fonte,
que foi o documento oficial gerado pelo Estado, ou seja, apenas fontes escritas
criadas por agentes governamentais. Juntando a isso, as teorias de superioridade
racial europeia, chegaram à conclusão de que a África não tinha história antes da
chegada do europeu no seu continente, pois só a partir de então houve fontes
escritas a seu respeito.

A partir dos escritos europeus do passado e com uma linha de pensamento de


superioridade, os ditos como mais “evoluídos“ vão construir a história da África,
subjugando e inferiorizando toda a história de um continente que teve uma grande
participação na história da humanidade. Assim, a África perdeu o seu protagonismo
na história do mundo, ficando esquecida pela sombra da história europeia. Essa
construção estereotipada, distorcida e inferiorizada da história da África foi muito
fortalecida no fim do século XIX e primeira metade do século XX, influenciando a
mentalidade coletiva e o imaginário das sociedades ocidentais, seja em questões
políticas, econômicas e socioculturais.

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História da África

Muito do que sabemos sobre o continente africano nos dias atuais ainda preserva a
influência dessas construções iniciadas no século XIX, pois somos reféns dos
interesses políticos e econômicos, que divulgam apenas os aspectos negativos do da
África, desconsiderando a sua contribuição na construção das sociedades globais.
Mas quando começou o interesse para desconstruir esses estereótipos sobre a África?
Como e quando a história da África começou a ser construída?

Título: Racismo: uma história – impactos fatais (parte 2).


Ano: 2007. Duração: 52 min.
Direção: David Olusoga – BBC
Sinopse: “Racismo: Uma História”é um documentário britânico
dividido em três partes, originalmente transmitido pela BBC Four
em março de 2007. A série explora o impacto do racismo em
escala global e narra as mudanças na percepção da raça e na
história do racismo na Europa, nas Américas, na Austrália e na
Ásia. O documentário é um estudo desafiador e altamente
relevante, mantém uma estrutura coerente ao longo dos três
episódios que focalizam as origens, o desenvolvimento e o legado
do racismo. O documentário se utiliza da análise de vários
acadêmicos, e especificamente na parte 2, desenvolve o impacto
do racismo científico, do darwinismo social e da eugenia,
iniciados no século XIX, sobre a humanidade. Disponível em:
[Link]

1.2 A reconstrução da história da África e a UNESCO

Com o fim da segunda guerra mundial e a derrota do nazismo, que tinha sido o auge da
teoria do racismo cientifico, uma parcela da sociedade ocidental começou a refletir,
reorganizando pensamentos e buscando formas de se evitar novos conflitos, como foi o
caso da formação da UNESCO em 1946. Ligada a ONU, a Organização das Nações Unidas
para a Educação, a Ciência e a Cultura, teve e tem como objetivo a construção da paz por
meio da cooperação intelectual entre as nações, acompanhando o desenvolvi-mento
dos países, colaborando com a construção de identidades e a afirmação de direitos
[Link] dos vários conflitos ao longo do século XX, não se pode negar a
importância da UNESCO e dos seus objetivos, principalmente no que se refere à
reconstrução da História da África.

Na década de 1960, fortaleceu-se o movimento do Pan-africanismo iniciado nos


Estados Unidos da America, resgatando a importância da África e de seus
descendentes espalhados pelo mundo. Outro ponto importante foram os vários
africanos que estudavam nas universidades europeias e que se encontravam nas

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História da África

CEA(casas dos estudantes africanos), onde discutiam e refletiam sobre questões


diversas do seu continente. Muitos desses estudantes voltavam para seus países na
África e se engajavam, ou até mesmo lideraram os movimentos de independência e de
desco-lonização. Muitos desses estudantes também tiveram um grande papel no
desenvolvimento do resgate do protagonismo do continente africano na histórica da
humanidade. Vale salientar que, após a segunda guerra mundial, os conceitos e
métodos na construção histórica tiveram uma grande influência da Escola dos Annales.
Questões como a utilização da diversidade de fontes, interdisciplinaridade e a história-
problema foram de grande importância para a reescrita da história da África.

A partir de 1964, com o diretor geral da UNESCO, René Maheu, tiveram início os
debates com relação à importância de se reescrever a história da África, e o ponto mais
relevante foi que se colocou em evidência a necessidade dos próprios africanos
contarem sua própria história, levando em consideração as perspectivas dos seus
próprios aspectos culturais. De 1969 a 1971, começou a organização dos documentos e a
planificação do que viria a ser uma grande coleção de textos que teriam como objetivo
colocar a África no seu devido lugar na história. Em 1671, houve a 16ª Conferência Geral
da UNESCO, quando foi criado o Comitê Científico Internacional da História Geral da
África, com 39 membros, dois terços desses foram intelectuais africanos, e que teve
como presidente o queniano Bethwell Allan Ogot. Com critérios rigorosos na
elaboração e análise dos textos, durante 30 anos, 350 especialistas reescreveram a
história da África em oito volumes, publicados a partir de 1981. É inegável a contribuição
da Coleção História Geral da África da UNESCO para uma nova perspectiva ao
continente africano. Novos conceitos, teorias e métodos de análise foram-lhe
atribuídos. E sua produção foi amplamente divulgada, com traduções em várias
línguas. Cabe agora, a nós, pesquisadores, professores e alunos, fazermos uso desse
material, para contribuir em nossa profissão, com as desconstruções a respeito das
perspectivas apenas negativas da África, que ainda nos chegam nos dias atuais.

Coleção História Geral da África da UNESCO. Foto: acervo pessoal. Link para acessar e baixar a coleção
completa em português: <[Link]
Acesso em 01 de julho de 2020.

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História da África

1.3 História da África: novos conceitos, métodos e perspectivas

É necessário combater o eurocentrismo. Essa é a primeira medida a ser tomada para


iniciar uma melhor compreensão dos estudos africanos. Romper com questões
etnocêntricas e anacrônicas, bem como a idéia de passividade dos povos. Os africanos
foram sujeitos da sua própria história, realizaram escolhas, alianças, e reagiram das mais
diversas formas ao contato com os povos de fora do seu continente. É fundamental
compreender que existem várias Áfricas, e cada região tem seu tempo, seus aspectos
culturais mais diversos, conceitos e valores que sempre tiveram uma dinâmica própria,
principalmente nas relações entre os povos.

Nesse sentido, deve-se desconsiderar analisar a África, tendo como referência a


história da Europa, da sua cronologia ao seu desenvolvimento. Questões como “a
África é pré-capitalista” ou “a África está em progresso”, são reproduções que
estabelecem um referencial europeu para análise dos acontecimentos africanos.

Talvez a África seja “anti capitalista”, o que a concepção europeia considera


“progresso”, muitos africanos podem considerar uma ruptura das ancestralidades.
Por isso a importância de analisar a África por ela mesma. Um grande exemplo disso
é a forma de analisar as comunidades nômades com relação aos núcleos
centralizados de poder. Por que um é considerado “civilizado” e o outro não? Por que
afirmar que as comunidades nômades estão em estágio evolutivo para uma
centralização e fixação? Esses pontos desconsideram justamente a capacidade de
escolha de um povo, o que ele considera melhor para sí mesmo. Não teriam as
comunidades descentralizadas escolhido a sua própria forma de vida, com um
caminho de desenvolvimento próprio ? Será que não poderíamos aprender com eles
a melhor forma de se relacionar com o meio ambiente? Sobretudo porque, na
concepção de mundo africano, tudo está conectado: Existe uma força vital na relação
do homem com a natureza. Ela abarca todos os seres, sejam eles minerais, animais
ou vegetais e estabelece individualizações que se hierarquizam segundo as espécies
e faz a natureza povoar-se de forças ligadas ao seus mais variados domínios, como
nos apontam alguns estudiosos da filosofia africana.

A questão é justamente essa, desapegar de um modelo tradicionalista europeu, pois


ele não se encaixa na África. Mas como fazer isso?

O primeiro passo é levar em consideração a diversidade de evidências históricas, ou


seja, equilibrar com a mesma importância as fontes sobre o continente africano.
Sejam elas: fontes escritas (egípcia, núbia, greco-latina, árabes, europeias, soviéticas,
africano moderno, asiáticas, americanas); Cronologia; Tradição oral; Arqueologia;
Linguística; Etnologia e Antropologia cultural; A arte; Geografia; Antropologia física.
Dentre essas fontes, a que tem mais valor para os africanos é a tradição oral; para eles,
a palavra é uma memória viva, tendo os Griots como os grandes guardiões das
tradições milenares.

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História da África

Título: Sotigui Kouyaté, Um griot no Brasil.


Ano: 2007. Duração: 57 min.
Direção: Alexandre Handfest (Sesc-SP)
Sinopse: O documentário, traz o ator, diretor e griot africano,
que trabalhou com Peter Brook, falando da missão de passar
adiante seus conhecimentos, a memória do continente e da
importância da escuta para arte, comunicação e vida.
Disponível em:
[Link]
Acesso em 14 de julho de 2020.

Além das fontes, outro aspecto importante a se considerar é a ruptura com a


classificação cronológica da história europeia, termos como “pré-história” já não fazem
mais sentido, principalmente para os africanos cuja escrita não tem mais importância
que a palavra. De acordo com o historiador Joseph Ki-zerbo, de Burkina Faso, um dos
principais intelectuais na reconstrução da história da África, o continente tem a
seguinte cronologia:

A As civilizações Paleolíticas;
B A revolução neolítica e as suas consequências;
C A revolução dos metais ou a passagem dos clãs a reinos e impérios;
D Os séculos de reajustamento: europeus, tráfico de escravos e suas consequências,
séculos XV ao XIX;
E A ocupação europeia e as reações africanas até os movimentos de libertação pós-
2ª guerra mundial;
F As independências e os seus problemas.

Mesmo com a formação classificatória do tempo e acontecimentos da História


da África, é de grande importância compreender que cada região tem seu
tempo e isso foi levado em consideração na própria reescrita da história do
continente pela UNESCO.

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História da África

Divisão regional do continente africano. Fonte: <[Link]fi[Link]> Acesso em 01


de julho de 2020.

Observando no mapa acima, tanto a África Setentrional (Norte da África), quanto a


África Oriental, tiveram contato constante no mundo antigo com os povos
europeus através do mar Mediterrâneo, e com os povos da Ásia através do oceano
Índico. Não só foram influenciados como também influenciaram, num grande
intercâmbio cultural. Na África Ocidental, entre os séculos IX e XIV, houve grandes
impérios como o de Gana e do Mali, com estruturas políticas e sociais complexas,
além de uma ampla atividade econômica através de rotas comerciais pelo deserto
do Saara, Mediterrâneo e Oriente. Na África Central, houve uma grande dinâmica
Atlântica, uma intensa relação com os continentes americanos, influenciando
diretamente sua formação. Esses são alguns poucos exemplos dessa conexão
histórica da África com o mundo, e que temos que revisitar essas histórias, dessa
vez com a perspectiva africana.

Retomando a linha de pensamento de Joseph Ki-zerbo, para compreensão da


História da África, tem que se levar em conta quatro grandes princípios:

1 A interdisciplinaridade (relacionar com a história conceitos e perspectivas de outras


áreas do conhecimento humano);
2 Vista do interior (como já explicado, a África não pode ser medida por padrões e
valores de fora do continente);
3 Povos africanos em seu conjunto (relações internas entre os vários grupos e suas
formações);
4 Problematização (evitar a história factual, problematizando as construções e
estruturas sociais e suas relações).

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UNIVERSIDADE CATÓLICA DE PERNAMBUCO
História da África

Todos esses conceitos são de fundamental importância para analisar a História da


África, mas nenhum deles será eficiente se o pesquisador não estiver disposto a
aprender, principalmente na revisão dos seus conceitos e valores. Mas, e no Brasil?
Como se construiu a História da África?

2. A História da África no Brasil: Construções, perspectivas e


o ensino

O Brasil foi civilizado pelo continente africano. O que queremos dizer com essa
afirmação? Queremos dizer que dos diversos povos que formaram a sociedade
brasileira, exceto os nativos, foram os africanos que mais contribuíram nas diversas
áreas do conhecimento. Isso, por si só, já é razão suficiente para que conheçamos o
continente africano.

Neste sentido, o ensino da História do Continente africano está intrinsecamente


relacionado com o ensino da História do Brasil. O historiador Alberto da Costa e Silva,
um dos mais importantes brasileiros que pesquisou o continente africano,além de ter
sido embaixador do Brasil na Nigéria e no Benim, afirmou que “Brasil e África
constituem duas margens de um rio chamado Atlântico”; e mais, “que é preciso
conhecer o continente africano, para bem conhecer o Brasil”. Neste sentido, nosso
entendimento é que a História do Brasil deve ser ensinada estabelecendo conexões
com o outro lado do Atlântico, sobretudo a partir do período das grandes navegações.
São duas faces de uma mesma moeda. No contexto do mercantilismo, padre Antônio
Vieira afirmou que: “Sem negros, não há Pernambuco, e sem Angola não há negros”.

No entanto, é preciso entender que a História dos africanos e seus descen-dentes na


diáspora, no caso específico no Brasil, foi ressignificada, reinventada, dentro de
determinadas condições; mas a origem, a matriz é de origem africana. Daí a expressão:
religiões de matriz africana, por exemplo.

Pelo fato de a população africana ter sido submetida à escravidão colonial, pouco se
conhece acerca do continente africano anterior à chegada dos europeus. Isso cria um
desconhecimento que leva à ignorância acerca das grandes civilizações existentes
naquele continente. Portanto, o ensino da História da África não começa com a
chegada dos colonizadores, é muito anterior. Enfim, o ensino da História da África no
Brasil é uma forma de descolonizar as mentes acerca das nossas origens africanas.

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História da África

SILVA, Alberto da Costa e. Um Rio Chamado Atlântico: A África no Brasil e o


Brasil na África. RJ: Nova Fronteira, 2003.
Síntese: O livro nos traz um grande panorama das relações continentais Brasil e
África, de 1822 até a Primeira Guerra Mundial. Depois, trata as nossas influências
em toda a áfrica negra e também das influências culturais, econômicas,
religiosas e políticas dos africanos sobre o Brasil. Na narrativa do autor, o Brasil e
a África eram um mundo só, de modo que o que se passava de um lado influía
muito na vida do outro.

2.1 O racismo científico no Brasil e a invisibilidade africana

Pouco sabemos sobre o continente africano, em virtude da forma como se deu a


formação da sociedade brasileira, qual seja, numa perspectiva de uma visão única: a
visão do colonizador europeu, que se considerava superior aos demais povos. O
discurso da pretensa superioridade racial, presente nas ciências de fins do século
XVIII e todo o século XIX, chegou também ao Brasil, o que denominamos de racismo
científico. Duas áreas do conhecimento por excelência,advogavam que os povos
nativos, indígenas, e os africanos, eram biológica e intelectualmente inferiores, razões
pelas quais não deveriam ser tratados como os europeus, inclusive passivos de ser
escravizados, como forma de superar o “estágio” atrasado no qual se encontravam.

Os índios, a princípio, denominados de negros da terra, foram, no período colonial, os


primeiros a serem escravizados a partir de “argumentos” estritamente religiosos.
Posteriormente os africanos com o mesmo argumento.

Segundo essa visão, os africanos escravizados e seus descendentes teriam limitado


sua contribuição apenas como força bruta de trabalho, uma vez que estavam
privados de contribuições intelectuais, posto que tinham deficiência no quociente
de inteligência. A afirmação do professor de medicinal legal da Faculdade de
Medicina da Bahia, Raimundo Nina Rodrigues: “A raça negra no Brasil, por maiores
que tenham sido os seus incontestáveis serviços à nossa civilização, há de constituir
sempre um dos fatores de nossa inferioridade como povo”. Somam-se a ele outros
intelectuais, como: Sílvio Romero, Oliveira Vianna, Euclides da Cunha, entre outros.

Em razão dessa visão racista e preconceituosa sobre o continente africano e seus


descendentes, disseminados na literatura brasileira ao longo do século XIX até meados
do século XX, é que temos uma visão da África em negativo: lugar só de miséria,
pobreza, atraso, sem cultura, sem História. Aliás, esses teóricos brasileiros reproduziam
as ideias advindas do pensamento eurocêntrico, sintetizadas na afirmação do filósofo
Hegel, de que, na África, não haveria História e que, “tal é o homem na África;
porquanto se limita a diferenciar-se da natureza, encontra-se no primeiro estágio,
dominado pela paixão, pelo orgulho e a pobreza é um homem estúpido”.

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UNIVERSIDADE CATÓLICA DE PERNAMBUCO
História da África

Essa visão de África encontra-se incrustada na mentalidade de segmentos da


sociedade brasileira. Identificar-se com ela seria tornar-se tão atrasado como ela. O
ideal, portanto, era afastar-se o quanto possível desse espectro, e se aproximar do
modelo positivo que seria o da Europa civilizada e culta. Esse processo histórico foi
denominado pelos sociólogos como “embranqueamento”; qual seja, o desejo de
fazer a nação brasileira parecida com as nações europeias. Hoje, até projetos, no
pós-abolição, de proibir a entrada de africanos para o Brasil na condição de livres,
como evidenciaram as pesquisas do brasilianista Thomas Skdmore, dentre outros.

SKIDMORE, Thomas. Preto No Branco: Raça e nacionalidade no pensamento


brasileiro. RJ: Paz e Terra, 1976.
Síntese: O autor analisa um momento central para a explicação do racismo na
sociedade brasileira. Seu estudo ajudou a recolocar em pauta esse tema agudo
da realidade nacional. Com base nos escritos e discursos de uma grande gama
de cientistas, políticos e romancistas, o livro revela que a intelligentsia local,
influenciada por padrões e formas europeus, procurou acomodar as teorias
racistas então em vigor, que consideravam o negro inferior e condenavam a
mestiçagem, à situação local. A solução original encontrada foi o
"branqueamento" da sociedade, por meio da imigração europeia.

2.2 A História da África e a educação no Brasil: o contexto das leis


10.639\03 e 11.645\08

Apesar desta visão negativa do continente africano reproduzida na História oficial


tradicional e na literatura de modo geral, registramos tentativas de outras visões
sobre a África, a partir do movimento social negro organizado. Um exemplo disso foi a
iniciativa de nomear um jornal com o título Menelick, em homenagem ao imperador
da Etiópia, Menelick II, fundador da atual capital do país e um dos responsáveis por
sua moderna reunificação territorial.

Em fins da década de setenta, momento da reorganização do movimento negro que


havia caído na ilegalidade em virtude do Golpe Militar de 1964, o Movimento Negro
Unificado Contra A Discriminação Racial, trazia entre as suas reivindicações, a
inclusão do Ensino da História da África nos parâmetros curriculares como uma de
suas principais bandeiras.

Empurrada pelas reivindicações dos movimentos sociais, somada a


redemocratização do país, sobretudo a partir da Constituição de 1988, algumas
Universidades Brasileiras incluíram a História da África como disciplinas eletivas e/ou
obrigatórias. Sobretudo as Universidades que constituíram Núcleos de Estudos Sobre
África e Estudos Afro-brasileiros. E finalmente a participação do Brasil na Terceira

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História da África

Conferência Mundial contra o Racismo, a Discriminação Racial, a Xenofobia e Formas


Correlatas de Intolerância promovida pela ONU, em Durban, em 2001, colaborou no
processo de inclusão do Ensino da História da África nos parâmetros curriculares
brasileiros em todos os níveis.

A História da África passou a ter obrigatoriedade no Brasil a partir da Lei 10639/03, e


posteriormente acrescida da obrigatoriedade do Ensino da História Indígena na Leis
11.645/08. Frisamos que, mesmo antes de o ensino tornar-se obrigatório em nível
nacional, secretarias estaduais e municipais de educação já haviam tomado
iniciativa a inclusão, como já dissemos acima, em decorrência da mobilização dos
movimentos sociais que reivindicavam políticas de inclusão das minorias de poder
historicamente excluídas.

Passados exatamente dezessete anos da promulgação da lei, o que se ouve com


frequência é que ela não estaria sendo aplicada devidamente, e até que era mais
uma “lei pra inglês ver”; ou seja, que não seria aplicada. Em nossa opinião, é uma
visão um tanto quanto pessimista, como se fosse a única lei no Brasil a não ser
aplicada. Há de fato resistências, devido ao fato do racismo e do preconceito no Brasil
ser uma questão estrutural e institucional. Durante muito tempo não se admitia,
inclusive por parte do Estado brasileiro, a existência do racismo e da discriminação.
Vigorou a ideologia da democracia racial, que argumentava que o Brasil era o modelo
de convivência e harmonia racial a ser seguido pelas demais nações. Uma das
grandes barreiras ao ensino da História da África no Brasil, já foi superado: “o
preconceito de ter preconceito”, para usar uma expressão do sociólogo Florestan
Fernandes. Em que consistia essa afirmação? Segundo ele, uma vez que não se
admitia o preconceito existente em relação à África e aos seus descendentes, ficava
difícil superá-lo. Uma vez admitido pelo Estado, estaria dado o primeiro passo para
sua superação. O passo foi dado. Estamos a caminho.

Ressaltamos a importância dos Núcleos de Estudos Africanos e Afro-brasileiros


criados institucionalmente, sobretudo nas instituições públicas de ensino superior e
de ensino médio. A associação nacional de pesquisadores com a temática negra
(ABPN), surgida a partir do primeiro encontro realizado no ano 2000, na
Universidade Federal de Pernambuco, portanto, antes da referida lei, e
posteriormente outras associações similares de pesquisa, ensino e extensão de
História da África e Afro-brasileira.

A Associação de Pesquisadores Negros (ABPN) tem como objetivos: I) Congregar os


Pesquisadores Negros Brasileiros; II) Congregar os Pesquisadores que trabalham com
temas de interesse direto das populações negras no Brasil;III) Assistir e defender os
interesses da ABPN e dos sócios, perante os poderes públicos em geral ou entidades
autárquicas;IV) Promover conferências, reuniões, cursos e debates no interesse da
pesquisa sobre temas de interesse direto das populações negras no Brasil; V)
Possibilitar publicações de teses, dissertações, artigos, revistas de interesse direto das
populações negras no Brasil;VI) Manter intercâmbio com associações congêneres do
país e do exterior;VII) Defender e zelar pela manutenção da Pesquisa com

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História da África

financiamento Público e dos Institutos de Pesquisa em Geral, propondo medidas


para seu aprimoramento, fortalecimento e consolidação;VIII - Propor medidas para a
política de ciência e tecnologia do País.

Esta associação mantém uma revista acadêmica que traz pesquisas sobre a África e a
diáspora africana, numa perspectiva interdisciplinar, que tem sido muito utilizada por
profissionais da educação nos mais diversos níveis.

O Ensino da História da África e dos afro-descendentes preconizados pela referida lei,


contribui para uma concepção decolonial da História, em que os protagonistas não
são necessariamente os europeus, mas no caso específico os africanos e seus
descendentes. Um ensino cujo conhecimento não é fragmentado, pois que, como já
mencionamos acima, a cosmovisão africana, ou epistemologia estão fundamentados
na interação entre o ser humano e a natureza.

DOMINGUES, Petrônio. Movimento negro brasileiro: alguns


apontamentos históricos. Tempo. 2007, vol.12, n.23, pp.100-122.
Síntese: O autor analisa a trajetória do movimento negro
organizado durante a República brasileira (1889-2000), com as
etapas, os atores e suas propostas. A ideia central é demonstrar
que, em todo o período republicano, esse movimento vem
desenvolvendo diversas estratégias de luta pela inclusão social
do negro e superação do racismo na sociedade brasileira.
Disponível em:
[Link]
77042007000200007&lng=en&nrm=iso&tlng=pt
Acesso em 12 de jul. de 2020.

3. A visão geral da África

O continente africano, no seu passado e presente, abriga civilizações mais diversas,


bem como milhares de etnias com vários aspectos culturais. São mais de 1,216 bilhões
de pessoas (dados de 2016), centenas de povos com diferenças e semelhanças nas
questões linguísticas e socioculturais. O deserto do Saara proporcionou uma divisão
geográfica natural no continente, com duas grandes regiões que tiveram histórias
bem particulares ao longo das épocas, a África do Norte (ou África árabe) e a África
subsaariana (conhecida como África negra).

Ao longo dos milênios, foram vários os Estados formados, uns com um contato mais
externo do que outros, e antes da presença europeia no período moderno, houve
inúmeras sociedades, com diversas complexidades e fronteiras que consideravam os

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História da África

aspectos étnicos. Com a colonização da África pelos Estados imperialistas houve uma
nova configuração política, que resultam hoje em 57 países, em que historicamente,
foram invenções do período colonial, desconsiderando as diferenças culturais.

As duas grandes divisões geográficas do continente africano. Fonte: <[Link]


[Link]>Acesso em 02 de julho de 2020.

3.1 Quadro geográfico

Além das duas grandes regiões separadas pelo deserto do Saara, atualmente o
continente tem uma divisão geopolítica em cinco regiões e 57 países, são eles:

• África Setentrional ou do Norte: Argélia, Egito, Líbia, Marrocos e Tunísia.


• África Ocidental ou do Oeste: Benim, Burkina Fasso, Camarões, Costa do Marfim,
Gâmbia, Gana, Guiné, Guiné-Bissau, Guiné equatorial, Libéria, Mali, Mauritânia, Níger,
Nigéria, Saara ocidental, Senegal, Serra Leoa, Togo.
• África Oriental: Djibuti, Eritreia, Etiópia, Malauí, Quênia, Somália, Sudão, Tanzânia,
Uganda.
• África Central: Angola, Burundi, Chade, Gabão, República Centro-africana,
República Democrática do Congo, República do Congo, Ruanda.
• África Setentrional ou do Sul: África do Sul, Botsuana, Lesoto, Moçambique,
Namíbia, Suazilândia, Zâmbia, Zimbábue.
• África Insular: Cabo Verde, Ilhas Canárias, Ilhas Comores, Ilha Reunião, Ilha
Seychelles, São Tomé e Príncipe, Madagáscar, Maurício, Mayotte.

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História da África

Divisão geopolítica do continente africano. Fonte: <[Link]


[Link]> Acesso em: 4 de jul. 2020.

Muito já se falou que um dos grandes problemas do ocidente é enxergar o


continente africano de uma maneira muito uniforme, homogênea. Embora existam
traços comuns, há também uma diversidade: humana, geográfica, política,
econômica, social. Enfim, a África é um continente, mas, desde a antiguidade, nunca
esteve isolado, temos referências de contatos dos africanos com outros povos, tais
como Ásia e Europa, como se verá na Unidade II.

O mapa abaixo nos dá uma dimensão da diversidade geográfica, na qual cada


agrupamento humano teve que construir sua forma da vida, seu habitat.

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História da África

Aspectos da geografia física do continente africano. Disponível em: <[Link]


mp_vegetacao.jpg> Acesso em 15 de jul. de 2020.

Quanto à diversidade étnica e cultural do continente africano, o mapa a seguir pode


nos ajudar a compreendê-la para além do exotismo, com que muitas vezes são
apresentados os povos africanos, sobretudo através da filmografia hollywoodiana,
que reproduziu a visão eurocêntrica da África.

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História da África

África cultural. Disponível em: <[Link]


Acessado em 15 de jul. de 2020.

3.2 Quadro Humano

Os colonizadores “metamorfosearam” os africanos em “negros”. A cor da pele


passou a ser a identidade africana. E mais, os diversos grupos étnicos foram
reduzidos a adjetivos, como afirmou a antropóloga Ilka Boaventura Leite:“Um fato é
notório: convertido em escravo, o africano passou a ser denominado negro”. Nesse
sentido, as diversidades étnicas foram reduzidas à cor da pele: África ficou sendo
sinônimo de continente negro, como se não houvesse diversidades entre os
diversos povos. O mapa abaixo apresenta-nos as diversidades étnica e linguística no
continente africano.

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História da África

Disponível em: <[Link] Acessado em: 6 de jul. 2020.

Portanto, o termo etnia caracteriza um grupo possuidor da consciência de terem uma


origem e interesses em comum, relacionadas por experiências compartilhadas. Por
exemplo: quando tratamos dos povos europeus, não os reduzimos à cor branca. Eles
são conhecidos pelas particularidades que historicamente carregam entre si: alemães,
ingleses, franceses, austríacos, etc. No entanto, quando nos referimos ao continente
africano, as populações são genericamente denominadas de negros.

A etnicidade vai além da nacionalidade, dentro de uma mesma nação, podemos ter
vários grupos humanos com sentimento de pertencimento específico. Tomemos
como exemplo o país Angola, que muita contribuição deu ao Brasil: em 2019 sua
população era aproximadamente em 32 milhões de habitantes. Há lá as seguintes
etnias: ovimbundu, ambundu,bakongo, lunda, cokwe, ovambo, nyaneka-Nkhumbi,
ganguela, xindonga, khoisan.

Os colonizadores, ao adentrarem o continente, além de não reconhe-cerem a


diversidade étnica, reduziram os habitantes em “peças”, em negros, e quando muito,
os nomearam a partir do lugar de embarque. Dessa forma, temos, nos documentos
produzidos pelo tráfico, pessoas identificadas como sendo Benguela, Cabinda, Mina,
Congo, Moçambique, etc; que, na verdade, foram denominações a partir do local
onde foram embarcados ou capturados. Esta questão será abordada quando
falarmos das implicações do tráfico no continente africano e na formação dos
africanos e seus descendentes na diáspora.

No processo da diáspora, os africanos escravizados tiveram que resignificar suas


identidades, pois não lhe eram possível manter sequer o nome de família, qual seja, o
sobrenome que indicava muitas vezes o grupo étnico a que se pertencia. Em
decorrência disso é relativamente raro encontramos hoje, afro-brasileiros com
sobrenomes africanos. É bom lembrar que segundo dados do Instituto Brasileiro de
Geografia e Estatística (IBGE), mais de 50% da população brasileira se autodeclararam
pretos ou pardos; ou sejam, descendentes de africanos. Já, por outro lado, é comum
encontramos pessoas com sobrenomes de europeus: holandeses, alemães, italianos,

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História da África

espanhóis, irlandeses. Isso se deve ao fato de seus antepassados não terem


experimentado o processo do tráfico e da escravidão.

3.3 Quadro cultural

Antes da chegada dos colonizadores no continente africano, ao contrário do que


afirmaram alguns teóricos como Hegel, havia sim História no continente. Povos
organizados em sociedades complexas (cidades, reinos, impérios) e em sociedades
simples (aldeias, comunas, clãs). As descrições de viajantes de diversas origens nos
relatam, muitas vezes com surpresas a cultura material e imaterial dos diversos povos
com os quais tiveram contato, e/ou ouviram dizer. Estas fontes são ricas em
informações, mas é preciso lê-las com cuidado, pois estão também, eivadas de
preconceitos da época.

Mapa geral étnico africano. Disponível em: <[Link]


[Link]> Acesso em: 5 de jul. de 2020.

O mapa acima exemplifica a diversidade cultural de alguns povos africanos. Um


parêntesis: a cultura, tanto a material quanto a imaterial, estão intrinsicamente
relacionadas com a experiência de cada povo; nesse sentido, não pode ser vista na
perspectiva do exótico, do diferente, do mero folclore. Ela representa o “fazer-se” de
cada povo. Portanto, deve ser analisada dentro do seu contexto, sem hierarquizações
ou juízo de valor.

O antropólogo congolês, Kabengele Munanga, ao falar sobre a cultura em África: “a


África, tanto tradicional quanto moderna, é um mundo variado e diverso. Na sua
complexidade social, a África é composta de sociedades que tem cada uma sua
individualidade cultural”. Ele afirma que há sim as diversidades, mas que também há
elementos comuns a diversos povos, o que alguns teóricos denominam como
africanidades: “Na diversidade que caracteriza o mundo africano, há, também

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História da África

numerosas semelhanças, estas podem ser observadas em diversos aspectos da vida:


do uso da palavra e do gesto à conduta social, da relação com o sagrado à concepção
da morte”.

Plínio, o Velho descreveu aspectos da cidade de Méroe por volta do ano 37 da era
cristã, cidade localizada na Núbia, falou da rainha de nome Candace, e que havia um
templo a Júpiter Amon. Já um chinês de nome Tuan Cheng-Shih se ocupou com a
descrição dos pastores da Somália, por volta do século IX. Acrescenta que: “Desde os
tempos antigos, eles não estão submetidos a nenhum povo estrangeiro”. O árabe Al-
Idrise descreveu, por volta do século XII, Gana como a terra do ouro, discorrendo sobre
a realeza de Gao, os homens comuns, os comerciantes; apontando para a
complexidade daquela sociedade.

Ibn Battuta, em nossa opinião, que pode ser comparado ao viajante Marco Polo,
percorreu a África sob influência do Islã, sobretudo a região do império do Mali,
revelando aspectos culturais, políticos econômicos e religiosos da África, ao tempo
que o ocidente vivia sob o sistema feudal. Uma África que em nada tinha do que dela
falou Hegel e seus seguidores, numa perspectiva negacionista.

Quando falamos da diversidade cultural da África, que foi durante muito tempo
negada ou invisibilizada pelo ocidente, não podemos esquecer as contribuições nos
diversos campos do conhecimento. O professor e pesquisador Henrique Cunha Jr.
nos lembra as tecnologias que tiveram origem no continente africano, e foram
trazidas para o Brasil: as tecnologias têxteis, na construção civil, na elaboração da
madeira, na técnica do fabrico do sabão, na metalurgia, dentre outros.

O padre italiano, Giovanni Antônio Cavazzi de Montecuccolo, que viveu treze anos em
Angola como missionário, no século XVII, tendo sido inclusive confessor da rainha
N’zinga, destacou a importância dos ferreiros naquela sociedade. O conhecimento
com a metalurgia dava ao grupo de ferreiros uma distinção social. Ao comparar o
trabalho dos ferreiros de angola com os europeus, em determinado momento
exclama: “Esse foles são acionados com tanta rapidez que os nossos artistas ficariam
admirados”. Os panos produzidos pelos congoleses foram elogiados por Duarte
Coelho, que por lá esteve no século XVI: “impõe-se mencionar a arte maravilhosa que
tem a sua gente de fazer os mais diversos panos, como veludos com ou sem pelos,
brocados, cetins, cendais, damascos...”.

Não é por acaso que Debret e outros que estiveram no Brasil, destacaram em suas
iconografias, as escravas vendendo tecidos pelas ruas, entre eles os conhecidos panos
da costa. Tecidos produzidos na África Ocidental, como em Ijebu, e que chegavam ao
Brasil através de comerciantes africanos. Em Ijebu, era uma tarefa destinada
sobretudo às mulheres, conforme relato de Osifekunde, escravizado de um francês
que viveu doze anos no Brasil, e que, ao viajar para a França, levou-o consigo. Lá,
Osifekunde libertou-se. É dele o seguinte: “Colher algodão, fiá-lo, tecê-lo e tingi-lo
estão costumeiramente com as mulheres, e sabe-se ser muito grande quantidade de
tecidos manufaturados em Ijebu e dali exportados, até mesmo para o Brasil”.

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História da África

Título: Presenças africanas por Carlos Serrano.


Ano: 2001. Duração: 20 min.
Direção: Isa Grinspum Ferraz.
Sinopse: Carlos Serrano fala da sofisticada organização social e
administrativa dos povos africanos que, com o tráfico negreiro,
vieram para o Brasil. Identifica raízes que, até hoje, estão muito
presentes na cultura brasileira. Disponível em:
[Link]
Acesso em 6 de jul. de 2020.

Síntese da Unidade

Nesta unidade buscamos apresentar as razões pelas quais devemos inserir o


conteúdo História da África e dos afro-descendentes em todos os níveis na matriz
curricular brasileiro. Mostramos a relação intrínseca que existe entre o Brasil e o
continente africano, embora pouco se conheça sobre a outra margem do Atlântico,
em função do preconceito acerca do continente africano, genericamente
denominado de continente negro. O racismo científico que escondeu o
conhecimento sobre o continente berço da humanidade. Por outro lado, a luta dos
movimentos sociais organizados em busca de outras epistemologias que pudessem
visibilizar a contribuição da África, dos africanos e dos afrodescendentes nos diversos
campos do conhecimento.

Novas perspectivas para o ensino da História da África e da diáspora africana foram


apresentados, sobretudo através de publicações e experiências de instituições como
ABPN, que visam a mostrar para além de uma História única sobre o continente: as
diversidades étnica, cultura, política, geográfica, econômica, do continente.

Enfim, esta unidade apontou para o estudo do continente africano numa perspectiva
interdisciplinar, sugerindo, através de bibliografia e filmografia, ampliar os
conhecimentos acerca deste continente, que foi historicamente descrito em
negativo, e que, em função disso, seu povo e seus descendentes espalhados pelos
diversos espaços do planeta terra, foram e são ainda discriminados, em função de
uma narrativa única, a do colonizador, acerca da História.

Agora convidamos os alunos para a próxima unidade, na qual vamos analisar os


acontecimentos da história da África dentro de uma ordem cronológica própria, nesse
caso específico para a unidade 2, teremos: Civilizações paleolíticas e neolíticas,
antiguidade africana, e a África islâmica.

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História da África

Referências

HERNANDEZ, Leila Leite. A África Na Sala De Aula: Visita à história contemporânea. SP: Selo Negro, 2005

KIZERBO, Joseph. História Geral da África, vol 1. Brasília: UNESCO, 2010.

MBEMBE, Achille. Crítica Da Razão Negra. SP: N-1 Edições, 2018.

MUNANGA, Kabengele. Origens africanas do Brasil contemporâneo. São Paulo: Global, 2009.

SCHWARCZ, Lilia Moritz. O espetáculo das raças. SP: Cia. Das Letras,1995.

SERRANO, Carlos e WALDMAN. Memória D’África: A temática africana em sala de aula. SP: Cortez, 2007.

SILVA, Alberto da Costa e. Imagens da África. SP: Cia. Das Letras, 2012.

SILVA, Alberto da Costa e. Um Rio Chamado Atlântico: A África no Brasil e o Brasil na África . RJ: Nova
Fronteira, 2003.

SKIDMORE,Thomas. Preto No Branco: Raça e nacionalidade no pensamento [Link]: Paz e Terra, 1976.

27
Unidade 2
A África antes da colonização europeia

Nesta segunda unidade, revisitaremos o continente africano num tempo mais


afastado, o que denominamos de antiguidade africana. Conheceremos civilizações
anteriores e contemporâneas do já conhecido Egito, que, muitas vezes, nos foi
apresentado como não sendo uma parte integrante do continente africano,
sobretudo nos filmes de Hollywood. Por antiguidade africana, entendemos o recorte
temporal dos primórdios, até a chegada dos colonizadores europeus. Nesse sentido,
não falaremos de ‘Idade Média’ africana, por se tratar de um conceito exclusivamente
para a História da Europa.

As fontes para o estudo deste período da História da África são várias, portanto, faz-se
necessário um estudo numa perspectiva interdisciplinar, conforme sugere a Coleção
História Geral da África, organizada pela UNESCO, já mencionada na unidade
anterior. As pesquisas arqueológicas, sobretudo as implementadas em meados da
década de XX, após a primeira grande guerra mundial, apontam a África como berço
da humanidade, foi nesse continente que se deu o processo de hominização, qual
seja, os hominídeos foram-se constituindo em seres humanos a partir do trabalho.

Teremos a oportunidade de conhecermos também as dinâmicas existentes dentro


do território africano, bem como a relação dos africanos com povos da Ásia e da
Europa, e a presença de um islã que se africanizou em território africano. Não se trata
de virar as costas para o presente, buscaremos mostrar que, no continente africano,
há, na contemporaneidade, permanências do passado, tanto na cultura material
quando na cultura imaterial.

Objetivos da unidade

• Identificar o continente africano como o berço da humanidade, suas rupturas e


permanências com o tempo presente.
• Conhecer as civilizações africanas e suas diversas formas de organização social,
política e econômica na antiguidade africana.
• Analisar as dinâmicas das populações africanas num processo endógeno e
exógeno, ao longo do período denominado antiguidade africana.
• Observar a presença e as transformações do islamismo no continente africano e
seus desdobramentos.
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História da África

1. Primeiras migrações e sociedades no continente africano

É importante lembrar que, mesmo antes da chegada dos colonizadores no


continente africano, já havia migrações internas na África, por diversas razões: secas,
escassez de alimentos, disputas territoriais, etc. Uma vez que não havia um domínio
sobre tais fenômenos, sobretudo os naturais, a saída era migrar, buscar outro local
para constituir seu habitat. Não podemos esquecer que o desenvolvimento dos
utensílios de produção não se deu de uma forma uniforme; dependia muito das
condições materiais de cada sociedade. Houve, portanto, podemos dizer, “graus”
diferentes de desenvolvimentos das forças produtivas. Enquanto havia grupos que
estavam no sistema de coleta e caça, outros já haviam construído sistemas mais
complexos de adaptação; tudo dependendo das condições e das necessidades de
cada um.

África: Berço da humanidade. Disponível em: <[Link]


Migra%C3%A7%C3%A3o_humana#/media/Ficheiro:Human_migration_out_of_Africa.png> Acessado em:
08.07.2020.

A cultura material (arqueologia) indica que o desenvolvimento da espécie humana se


iniciou na África Oriental e Meridional, expandindo-se, adaptando-se a novos
ambientes. Como diz um provérbio do Malawaí: ”São as pessoas que fazem o mundo”.

Agricultura e pastoreio foram duas atividades características das primeiras


civilizações: enquanto a primeira exigia uma fixação no solo, a segunda, ao contrário,
possibilitava a expansão, proporcionando desta forma, dois modos de vida,
aparentemente distintos, mas não necessariamente excludentes.

No processo de migração, inevitavelmente surgiram os contatos entre povos diversos.


Destes encontros, as consequências poderiam ser múltiplas, uma vez que alguns já
se haviam apropriado de determinado território, enquanto outros viviam de forma
nômade ou semi nômade, sem se fixarem definitivamente no território. Elikia
M’Bokolo, historiador, natural do Congo, adverte-nos que não devemos cair na
“tentação” de buscar uma causa única para as migrações, evitar as explicações

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História da África

generalizantes, as migrações podem ter tido motivos diversos. Só os estudos


etnográficos podem indicar com mais precisão as diversas razões.

O mapa abaixo nos dá uma dimensão das migrações no continente africano em


diversos tempos na antiguidade, e as dimensões da organização social de diversos
povos. É importante uma leitura atenciosa da legenda, que inclusive nega toda
aquela visão inferiorizante que a narrativa ocidental criou sobre o continente africano,
como vimos na Unidade I. O mapa apresenta também o contato e a influência de
povos do Oriente no continente africano, anterior às grandes navegações. Não só do
Oriente, também da Europa, sobretudo dos gregos e dos romanos. Aliás, Alberto da
Costa e Silva, também mencionado na Unidade I, no livro Imagens da África,
apresenta-nos fragmentos históricos de vários, como: Estrabão, Heródoto, Aristóteles,
Plínio, o Velho, Deodoro da Sicília, dentre outros.

Esse processo de migração proporcionou elementos comuns entre os povos africanos;


portanto, há no continente diversidades, como vimos na Unidade I, mas também há
pontos comuns, o que alguns pesquisadores denominaram de africanidades.

Fonte: Atlas da História do Mundo. Empresa Folha da Manhã S.A. SP: Folha de São Paulo, 1995, p.45.

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1.1 As civilizações paleolíticas

Convencionou-se chamar de Idade da Pedra o momento em que os primeiros


utensílio líticos passaram a ser usados. Segundo o britânico Sutton, especialista em
Pré história, não foi um período longo da história da humanidade, equivalendo a 999
milésimos do tempo de permanência do homem na África Oriental. E acrescenta que
a Idade da Pedra não foi um período estático da História. A evolução tecnológica
durante o paleolítico e o neolítico é facilmente demonstrada pela transformação e
diversificação dos utensílios de pedra.

O que caracteriza este período, não é apenas o uso da pedra como utensílio, ainda
que ele seja o predominante, mas também outros aspectos, tais como: o cozimento
de alimentos, sob forma de pedaços de carvão, como apontam os vestígios de
fogueiras e fragmentos de ossos de animais, descobertos pela arqueologia na África
Oriental, nos sítios arqueológicos. Foram estes sítios que revelaram verdadeiras
‘oficinas’, onde caçadores elaboravam seus instrumentos.

As pesquisas sobre este período da História da humanidade ganharam notoriedade a


partir da década de vinte do século passado. As escavações não se limitavam a
descobertas isoladas, mas sim ao conjunto de elementos que indicavam um modo
de vida.

Utensílios e ferramentas utilizadas pelos povos do Paleolítico africano. Fonte: <[Link]


client=firefox-b-d&sxsrf=ALeKk022RF_rGjmWshGCw3ViFlUNuwcp_A:1594298> Acessado em: 09.07.2020.

No contexto da História universal, é importante destacar que na Áf rica Oriental,


a Idade da Pedra, em particular, foi mais extensa, teve início quando os
primeiros hominídeos começaram a fabricar utensílios de pedra de maneira
regular, com formas e padrões determinados. Portanto, é impossível falar de
paleolítico sem mencionar a Áf rica Oriental; ressaltamos mais uma vez a
importância do conhecimento da História da Áf rica, para o conhecimento da
História da Humanidade.

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História da África

1.2 As civilizações neolíticas e suas consequências

Conhecido também como “época da Pedra Polida”, os sítios mais antigos registrados
deste período estão localizados nas regiões onde hoje estão o Sudão e Sudão do Sul.
Nesta região, foram encontrados arpões perfurados na base de anzóis feitos de
conchas, pequenos machados de osso polido, cerâmicas decorada com pontos de
linhas onduladas. A cultura material recolhida na região da Etiópia, Eritreia, Quênia e
adjacências apontam para civilizações neolíticas que, além do conhecimento da
pesca, conheciam a domesticação de cabras, uma economia pastoril e agrícola. A
criação de gado é um fenômeno de longa duração, para usar uma expressão de
Braudel, é mantida até os dias atuais pelos Massai.

A tradição dos pescadores da África Central e oriental remonta também a esse


período. Pode-se falar de uma civilização com grande dinâmica com a água, a partir
dos sítios arqueológicos encontrados: presença de espinhas de peixes, conchas e
moluscos. Não por acaso, há na tradição judaico-cristã, passagens que falam dos rios
de Cuxe (antiga Núbia).

Os autores da coleção História Geral da África, organizada pela UNESCO, mostram a


evolução da espécie humana a partir da África, enfatizando a peculiaridade de cada
região, a saber: África Oriental, Central, Ocidental, Austral e do Norte. Isso nos ajuda a
ter uma dimensão da complexidade que o processo de cada momento em que os
hominídeos foram-se fazendo homens.

Título: Berço da humanidade (série Nova África-EBC).


Ano: 2012. Duração: 26 min. Direção: Mônica Monteiro.
Sinopse: Nesse episódio, a série realiza uma visita a vários
museus e centros de pesquisa na África, entrevistando vários
especialistas a respeito dos períodos paleolítico e neolítico da
humanidade, demonstrando, através de fósseis e pesquisas
atuais, a África como o berço da humanidade. Disponível em:
[Link]
Acesso em 06 de jul. de 2020.

2. A antiguidade africana

Quando se fala em antiguidade africana, geralmente apresentam-se as pirâmides do


Egito como se elas fossem exceção. A antiguidade africana é muito mais ampla: ao
norte, ao centro, a leste, a oeste e ao sul; existiram várias civilizações, que, na
linguagem ocidental, foram conhecidas como reinos e impérios; mas que não podem
e nem devem ser entendidas como meras cópias dos reinos e impérios ocidentais.

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História da África

Cada qual teve suas especificidades. Portanto, ao estudá-las, todo cuidado é pouco,
para não cairmos na tentação do anacronismo, na ânsia de buscarmos semelhanças
puras e simples.

A Núbia antiga, localizada entre o Egito e o Sudão, foi uma espécie de elo entre a
África Central e o Mediterrâneo. Em seu processo histórico, recebeu, como o reino de
Axum, a influência do cristianismo, por volta dos séculos III e IV da era cristã. A África
do Norte esteve sob o domínio do Império Romano, a Cartago mencionada em textos
latinos, é a atual cidade de Tunis, capital da Tunísia.

O historiador, Alberto de Costa e Silva, já nosso conhecido da Unidade I, ao


investigar a África anterior aos portugueses, descreveu os vários reinos dos povos
falantes da língua iorubá, na África Ocidental, denominando-os de Reinos do
Iorubá. Povos de uma mesma origem, com características comuns, mas também
com especificidades. Ao falar da organização de Ifé, no primeiro milênio da nossa
era, Costa e Silva diz que cada vilarejo dividia-se possivelmente em várias linhagens,
cujos chefes eram escolhidos pela idade ou pela proximidade genealógica com o
grande ancestral.

Essas informações, um tanto quanto gerais, nos dão a possibilidade de enxergar uma
antiguidade africana que não se resume ao Egito dos tempos dos faraós.

Algumas pirâmides núbias antigas, reconstruídas no sítio arqueológico de Meroé, no Sudão


Fonte: <[Link] Acesso em: 09.07.2020.

2.1 Um Egito Negro

Alguns livros didáticos tradicionais de História Geral dividiam a África em: África
Negra e África Branca. África negra seria a localizada abaixo do Saara, e África branca,
o norte, a região setentrional. O Egito, portanto, quando muito estaria incluído nesta
África “branca”. Essa invenção da historiografia ocidental está contida em Hegel: “A
África não é uma parte histórica do mundo. Não tem movimentos históricos dela.

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História da África

Quer isto dizer que sua parte setentrional pertence ao mundo europeu ou asiático”.
Precisou surgir um intelectual africano em meado do século XX, para colocar o Egito
no continente negro. Estamos falando do, ainda pouco conhecido pesquisador
senegalês, Cheikh Anta Diop, que colocou em xeque o racismo científico, ao provar
que o antigo Egito era uma civilização negra. Sua renomada obra, até os dias de hoje
ainda sem tradução para o português: Nations Nègres et cultures (Nações Negras e
culturas) e Anteriorité des civilizations nègres: mythe ou vérité historique
(Anterioridade das civilizações negras: mito ou verdade histórica).

Pesquisas posteriores, produzidas por diversos pesquisadores africanos e africanistas,


sobretudo a partir da década de sessenta, quando muitas antigas colônias
conquistaram a independência política, confirmaram as teses de Anta Diop, sobre a
anterioridade das civilizações negras.

2.2 Organização política e econômica na África antiga

Já falamos das diversidades existentes no continente africano do ponto de vista cultural e


étnico. No que tange a organização política, econômica e social, não é diferente. Há, no
entanto, traços comuns, mas via de regra não se pode falar em organização no singular,
posto que estamos falando de sociedades, de civilizações, de povos.

Ao longo da História, convencionou-se construir referenciais de análises, categorias e


conceitos, para explicar os movimentos da História produzidos pelos grupos
humanos. Nesse sentido, conceitos como reinos e impérios foram criados para
caracterizar sociedades hierarquizadas com poder mais ou menos centralizado. Por
outro lado, foram identificadas sociedades sem hierarquizações rígidas, cujo poder
era descentralizado, pouco centralizado e/ou coletivista. É comum então falarmos em
sociedades simples, e sociedades complexas. Mas esses dois conceitos não são
suficientes para entendermos os meandros das sociedades, razão pela qual devemos
fazer estudos mais pormenorizados, recortes temporais e/ou geográficos, para não
cairmos nas generalizações.

Muitas vezes, os conceitos que utilizamos para compreendermos a História da África


foram os forjados no ocidente. Os já mencionados conceitos: reino e império, são
exemplos. É preciso também considerar que as formações sociais, políticas e
econômicas não são estáticas, sofrem mudanças de diversas ordens.

Os egípcios se desenvolveram ao longo do delta do rio Nilo, foram milênios para a


unificação política dos monos, pelos faraós (monarquia teocrática). O Egito foi uma
grande manifestação da capacidade do ser humano de montar estratégias para usar
o meio ambiente a seu favor, controlando a aridez do solo e as dificuldades impostas.
Foi o primeiro estado africano a fazer uso da escrita, construiu um complexo sistema
de irrigação, de administração pública, contábil e política, por meio dos faraós, como
forma de gerir a disponibilidade de recursos, organizar os trabalhos e minimizar a
vulnerabilidade às cheias e secas do rio Nilo. Para sobreviver e se desenvolver naquela
região, foi preciso organizar-se.

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História da África

Localizada ao sul do Egito e no norte do Sudão, região estratégica e elo entre a África
Central (subsaariana) e o Mediterrâneo (norte da África e oriente próximo), a
Civilização Núbia surgiu por volta de 4.000 a.C, em meio ao deserto do Saara e, assim
como o Egito, desenvolveu-se próximo do Nilo, bem como do trabalho de construção
de diques e canais de irrigação destes povos para evitar inundações durante as cheias
e garantir boas colheitas. Por volta de 2.000 a.C, houve a unificação das comunidades
núbias sob o poder de um rei; surgiu então o Reino de Cuxe.

Por conta da extração de ouro, e de um processo de expansão, os kushitas passaram


a ter uma relação intensa com o vizinho do Norte. A circularidade cultural foi enorme,
mas Cuxe absorveu grande parte da cultura egípcia, adotou-se o culto às divindades
egípcias, os costumes funerários, a construção de pirâmides. Em Napata e Meroe,
cidades kushitas, foram erguidas numerosas pirâmides. Os meroítas construíram
mais pirâmides do que os faraós egípcios, já foram contabilizadas mais de 230
pirâmides nos arredores de Méroe, cem a mais do que no Egito.

Na parte oriental do continente, foi desenvolvido o Império de Axum, que deu origem
ao Império Etíope. O Império Axumita foi considerado um dos quatro grandes
impérios do final da Antiguidade (séculos I-VI d.C.), ao lado de Roma, Pérsia e China.
No século X a.C., de acordo com a mitologia etíope contida no livro Kebra Negast,
acredita-se que nesta região viveu a Rainha de Sabá (Makeda). Acredita-se também
que a família imperial da Etiópia, bem como os imperadores de Axum, têm sua
origem a partir de Menelik I, filho da Rainha de Sabá e do rei Salomão.

A partir do século I da Era Cristã, teve início a expansão de Axum pelo norte da
Etiópia, parte da Pérsia, sul da península arábica (Iêmen) e, no século IV, a conquista
de Meroé, capital do Reino de Cuxe. Desse modo, construiu-se um império, que
abarcava ricas terras cultiváveis do norte da Etiópia, do Sudão e da Arábia meridional.

Nos séculos VII e VIII, o reino se enfraqueceu enquanto os árabes muçulmanos


emergiam. O império de Axum e, posteriormente, o império etíope deixou uma
diversidade de riquezas para a posteridade, a exemplo da língua ainda falada na
região (ge’ez), a igreja etíope com suas tradições e seu o patrimônio arquitetônico.

ABU BAKR, A. O Egito faraônico. In: MOKHTAR, G. História Geral da África. Vol II.
Brásília: UNESCO, 2010, p. 37-67.
Síntese: O autor analisa toda a construção histórica do Egito antigo, das suas
origens até o domínio Persa. Bem como realiza uma análise das estruturas
sociais em cada etapa do desenvolvimento da civilização egípcia, bem como
sua relação com os outros povos.

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2.3 Sociedade e cultura na África antiga

Cada sociedade tinha sua forma de explicar-se através das narrativas de origem, ou
mito fundador. Acreditavam numa origem comum, o que lhe dava um sentimento
de pertencimento, uma identidade. O princípio geral da religiosidade na África
antiga, era o culto aos antepassados, hoje conhecida como religiões tradicionais.

Para compreendermos a cultura de cada sociedade da África antiga, faz-se


necessário investigar a produção da vida material, pois a cultura é uma produção
humana. Portanto, a cultura também não é estática. A cultura material revela
aspectos da cultura do povo que a produz, mas há também a cultura imaterial que
perpassa os tempos, principalmente através da oralidade.

Investigar uma sociedade, implica perguntar pela concepção de mundo do povo que
a formou. No caso das sociedades africanas, segundo Eduardo Oliveira, há uma
estrutura comum que sedimenta a organização social, política e cultural. Esses
elementos compõem a cosmovisão africana e, apesar das modificações e rupturas,
seguem estruturando as concepções de vida dos africanos e seus descendentes
espalhados pelo mundo depois da diáspora negra.

Sobre alguns aspectos culturais específicos da África antiga, temos nos egípcios a
maior referência: eles desenvolveram o estudo da matemática e da geometria,
voltada principalmente para a construção civil. A preocupação com as cheias e
vazantes do Nilo estimulou o desenvolvimento da astronomia. Observando os astros,
localizaram planetas e constelações. O desenvolvimento da prática da mumificação
permitiu o maior conhecimento da anatomia humana, tornando possível a realização
de cirurgias no crânio. Tratavam de doenças do estômago, coração e de fraturas.
Todos esses aspectos estavam ligados à questão religiosa ou filosofia egípcia. Com o
tempo, os ancestrais foram transformados em divindades, sendo adotadas por vários
grupos sociais. O politeísmo foi um fator importante na sociedade da África antiga, e
que influenciou vários povos ao longo da história africana.

Título: Sabedoria e Antiguidade: Egípcios


Ano: 2015. Duração: 45 min. Direção: Heike Wells
Sinopse: O documentário expõe vários aspectos da civilização
egípcia, sociedade, cultura e cotidiano. Muitos especialistas são
consultados. Dos aspectos religiosos às grandes construções,
bem como a filosofia, são temas abordados no documentário.
Disponível em:
[Link]
Acesso em 06 de jul. de 2020.

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Estado e civilizações no continente africano antes da expansão marítima europeia. Disponível em: <https://
[Link]/modulo3/cntnt/[Link]> Acesso em 7 de jul. 2020.

3. A África islâmica

Há alguns anos, a mídia ocidental, sobretudo os noticiários televisivos, comentavam


com uma certa exaustão, a presença de um grupo islâmico denominado Boko
Haram na Nigéria. Segundo o noticiário, seria um grupo terrorista querendo tomar o
poder. As notícias pareciam querer anunciar uma novidade: “a presença islâmica em
África”. Houve até quem nos perguntasse: “o que aconteceria com as religiões
tradicionais africanas diante da presença islâmica em África?”.

A presença do islã na África remonta ao século VII, portanto, não é uma novidade, já faz parte
da cultura de muitos povos. Nesse sentido, nos é permitido falar em um Islã africanizado,
qual seja, ele ressignificou-se, mantendo os princípios básicos do seu livro sagrado.

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O mapa abaixo nos permite dimensionar a presença do Islã no continente africano na


contemporaneidade. Importante compreender o islamismo não apenas como uma
questão religiosa monolítica, mas como um conjunto de práticas sociais, que, em
África, como já dissemos, ressignificou-se frente às culturas locais.

Predominância religiosa nas várias regiões do continente africano: Disponível em: <[Link]
luarnaut/mp_relig.jpg> Acessado em: 08.07.2020.

3.1 Etapas na expansão do islã na África

Geralmente menciona-se a Jihad como a forma unilateral da expansão do islã na


África, entendendo-a como “guerra santa”. Na verdade, o sentido literal da palavra,
que deriva do árabe (jihãd), significa esforço, empenho, luta. Mohammed El Fasi e
Ivan Hrbek, estudiosos sobre o islã, problematizam: como interpretar a obrigação
dos fiéis de convidar os infiéis? De forma pacífica? Através da tal guerra santa? e
concluem que gerações de pesquisadores provaram que a imagem do guerreiro
árabe exibindo a espada com uma mão e o Corão com a outra pertencia ao reino
da fantasia; este clichê permanece entretanto vivo nos escritos populares
consagrados ao Islã.

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Isso não quer dizer que um dos princípios do islamismo não seja sua vocação
missionária. Assim como o cristianismo, o islamismo é uma religião proselitista; mas
isso não se traduz por uma cruzada sem peias. Houve, portanto, formas plurais de
expansão da religião no continente africano.

O Islã chegou ao sul do Saara, sobretudo pelas mãos dos comerciantes, como relatam
a expedição de “Ukba Ibn Nafi”, crônicas de Ibn Khaldun, dentre outras fontes. Os
pesquisadores acima mencionados afirmam que, entre as razões de aderir ao
islamismo, estavam: fascínio pela mensagem simples do Islã, desejo de escapar dos
tributos e taxas, vontade de identificar-se com a classe dominante e de participar da
nova cultura.

No Sudão Ocidental e Central predominou um islamismo mais ortodoxo,


representado pelos Almorávidas, como apontam a arquitetura religiosa, as tradições
orais e as crônicas de Al Bakri. Uma vez que as lideranças aderiam ao Islã, havia
grandes possibilidades dos súditos também aderirem; portanto, parece-nos que
havia uma estratégia neste processo. No entanto, há uma descrição de Al Bakri em
Gao, onde a religião oficial era o Islã, e a massa era não muçulmana.

Uma das características no processo de islamização, é a arabização, uma vez que a


língua oficial é o árabe. Mas no caso da Somália, segundo El Fasi e Hrbek, um dos
traços característicos da islamização dos somalis foi não ter sido ela acompanhada
de arabização, atribuindo isso ao fato de não ter havido uma imigração de
comerciantes árabes para a Somália, apenas expedições comerciais. Fato
semelhante ocorreu na costa oriental da África e nas ilhas; neste caso em virtude do
comércio em língua swaíli.

Há um debate historiográfico acerca da relação entre as culturas africanas e a


presença do islã em África, mas Zakari Dramani-Issifou, especialista sobre as relações
entre a África Negra e o Magreb, advoga que, nos primeiros tempos, por se tratar
mais de uma questão política e econômica do que estritamente religiosa, houve uma
“confortável coexistência”, sempre levando em consideração as peculiaridades de
cada região, por isso, o autor faz um estudo caracterizando as várias regiões, e os
diversos grupos sociais: mercadores, cortesãos, meio rural, meio urbano, e também as
“vertentes religiosas do islã”, concluindo que houve momentos de coexistência
pacífica, como momentos de tensões sociais e culturais.

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Expansão do Islã no Norte da África: Disponível em: [Link]


Acessado em: 09.07.2020.

EL FASI, Mohammed. HRBEK, Ivan. Etapas do desenvolvimento do Islã e da


sua difusão na África. IN: EL FASI, Mohammed. História Geral da África, vol 3.
Brasília: UNESCO, 2010, p. 69-112.
Síntese: Os autores realizam uma análise minuciosa a respeito de cada etapa
do desenvolvimento do Islã na África, seja no Norte como também ao sul do
Saara. Analisam-se aspectos políticos, econômicos, e socioculturais,
principalmente na questão da africanização do Islã.

3.2 O Sudão ocidental e outras civilizações

O império de Gana foi admirado por ocidentais e orientais. As narrativas advindas dos
ocidentais são mais corriqueiras, razão pela qual escolhemos mostrar, o país, do ouro,
como era conhecido, a partir de um outro olhar, o de um iraniano conhecido como
Ibn al Fakih, ele dizia que de Tarkala à cidade de Gana, gastam-se três meses de
marcha num deserto árido. “No país de Gana, o ouro nasce como plantas na areia, do
mesmo modo que as cenouras”.

É possível imaginar como esta narrativa exagerada deve ter mexido com as mentes
dos “aventureiros”. Al Bakri e Al-Idrisi também descreveram Gana, destacando outras
características daquele país, tais como: a organização política, a presença do
islamismo, a descrição dos edifícios da cidade, alguns cerimoniais entre gana e os
seus súditos, os tipos de alimentos, etc.

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História da África

No Brasil ficou registrada uma das maiores revoltas dos escravizados ao longo do
século XIX, a denominada Revolta dos Malês. Escravizados oriundos da região onde
hoje se localiza o país Mali e adjacências. Eram africanos islamizados, que em 1835,
implementaram uma grande revolta na cidade de Salvador, como relatou o
historiador baiano, João José Reis.

Por volta dos séculos XIII e XIV, a região constitui-se no mais rico Estado da África
ocidental. Possuía minas de ouro e tinha controle das vias transaarianas em direção
ao Magreb, à Líbia e ao Egito. As narrativas acerca da origem do império do Mali estão
na Epopeia Mandinga, destacando-se a figura do Sundiata, que de uma criança
frágil, tornou-se um soberano renomado.

Zona de influência do império de Mali. Disponível em: <[Link]


[Link]> Acessado em: 09.07.2020

Sobre o império do Mali os relatos de Ibn Battuta são reveladores: a descrição de


Tagaza, que segundo ele, uma de suas singularidades consiste em suas casas e
mesquitas serem construídas com blocos de sal e terem seus tetos de peles de
camelos. Ele descreveu ainda um dia de festa na corte do Mali, destacando a
presença dos poetas e suas exortações ao soberano. Revelou ainda que no decorrer
da cerimônia, apareceu a permanência de rituais anteriores a adesão ao islamismo.

Battuta também se ocupou com a descrição dos costumes dos malineses,


mostrando o que para ele eram as virtudes e os defeitos daquela gente. Entre os
defeitos, a forma como praticavam a religião islâmica, o que nós denominamos
anteriormente de um “Islã africanizado”, por ter sido ressignificado com a cultura
e religiões locais. Quanto às virtudes, ele ressaltou o senso de justiça e a segurança
do território.

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História da África

O Império de Songai, surgido por volta do século VIII, oriundo de comunidades de


pescadores, caçadores e camponeses, foi um dos mais longos, segundo Kabenguele
Munanga. Surgido das “entranhas” do Império do Mali, localizado na curva do Rio
Níger. Sua capital data do século IX, ficava nas encruzilhadas das rotas comerciais
transaarianas, recebendo, portanto, influências múltiplas.

Estes diversos reinos e impérios na região denominada de Sudão Ocidental, travaram


disputas territoriais e comerciais ao longo das suas existências, pois eram sociedades
complexas, hierarquizadas com interesses nem sempre comuns. Soma-se a isso, a
posterior chegada dos colonizadores que aproveitaram das disputas internas para
implementarem o sistema de exploração no contexto do mercantilismo,
transformando das disputas “domésticas” em guerra fraticidas, transformando
inclusive as formas de trabalhos compulsórios existentes em certas regiões.

NIANE, Djibril Tamsir. O Mali e a segunda expansão manden. IN: NIANE, Djibril
Tamsir. História Geral da África, vol 4. Brasília: UNESCO, 2010, p. 133-192.
Síntese: Além de realizar uma grande análise das estruturas sociais do império
do Mali, bem como os fatores que proporcionaram sua expansão, o autor
também desenvolve a história das principais lideranças do império, como o
Sundiata Keita e o Mansa Musa I. O autor ainda expõe um excelente acervo
iconográfico, com vários materiais arqueológicos do período em questão.

Representação de Mansa Musa I e seu império, atlas catalão de 1375. Disponível em: <https://
[Link]/2015/08/28/civilizacoes-perdidas-iii-gana-mali-e-songhai/> Acesso em: 7 de jul. de 2020.

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História da África

3.3 Organizações políticas e desenvolvimento econômico

Já mencionamos que antes da chegada dos colonizadores ocidentais na África, havia


formas de organizações sociais complexas e simples, sem queremos dizer que umas
eram superiores às outras, cada qual se desenvolvia de acordo com suas
necessidades e condições materiais.

No que tange ao aspecto econômico, muitas destas sociedades ficaram conhecidas


como tributárias, qual seja, as comunidades aldeãs deviam pagar tributos à camada
dirigente. O império de Gana é um exemplo: “O gana dependia dos tributos ao
comércio para manter sua numerosa corte e um exército permanente, para distribuir,
nas grandes festividades a riqueza entre seus súditos, e para conservar, através de
repetidas dádivas, a obediência ou a aliança de reis menores.

Destacamos a importância do comércio. A maior parte das cidades estava


estruturada segundo um esquema preciso, compreendendo um plano geométrico
a partir do qual se espalhavam mercados. Os mercados com significado não apenas
de lugar de compra e venda de mercadorias, mas como lugar de sociabilidades,
como destacaram Pierre Verger e Roger Bastide, numa investigação sobre os
mercado no Benin.

Com a chegada dos mercadores árabes e do Islã a partir do século VII, houve um
“aceleramento” no comércio no continente, como mostram as rotas transaarianas.
Não que elas não existissem antes, mas as dimensões foram alargadas, inclusive os
incrementos das capturas de povos de outras etnias para serem subordinados ao
trabalho compulsório. Um dos requisitos para ser transformado em trabalhador
compulsório, era estar despossuído de uma linhagem.

Desde a antiguidade, o sal mineral tornou-se um importante produto nas trocas


comerciais. Os textos árabes do último quartel do primeiro milênio da nossa era,
atestam a existência de um comércio saariano de sal. As minas de Taghaza foram
mencionadas com frequência pelos cronistas que escreveram sobre a África
Ocidental. Tanto Al-Bakri, quanto Ibn Battuta mencionaram em seus escritos as
minas de Taghaza, e o trabalho compulsório árduo nas mesmas. “noz de cola”,
amendoim, eram produtos também muito comercializados e úteis nas longas
viagens comerciais, além claro, da principal atividade econômica, extração e
comercialização do ouro.

Na África Oriental, destacamos a importância da língua swahili no desenvolvimento


do comércio. As pesquisas mostram o quadro comercial bastante ativo. Em meados
do século XII, começou a importar porcelana da China. No começo do século XIII,
Mogadíscio era uma das cidades mais importantes da África Oriental, na época
exportava ébano e sândalo, âmbar cinzento e marfim.

Por volta do século XIV, havia um comércio que ligava a costa da África Oriental e
as ilhas aos países da costa do norte do Oceano Índico. Pouco conhecemos deste

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História da África

comércio, porque a partir do século XIV, com as grandes navegações pelo


Atlântico, a historiografia ocidental se debruçou quase que exclusivamente sobre
o comércio atlântico.

Rotas comerciais transaarianas. Disponível em: <[Link]


[Link]> Acesso em 6 de jul. 2020.

3.4 Aspectos socioculturais

A terra era, na maior parte da África, um bem coletivo. Inútil, portanto, conservá-la no
seio da família por meio de uniões monogâmicas. Cada chefe local passava ao pai de
família um terreno para cultivo. Este, por sua vez passava a ser devedor ou a pagar
tributo em espécie ou trabalho ao chefe. Desta perspectiva, mais pertinente era ter
muitas mulheres e muitos filhos que cultivassem o solo, gerando, como afirmou
Ester Boserup, uma “economia da poligamia”. Além disso, amplas linhagens
familiares simbolizavam todo o prestígio de um homem. Essa estrutura incentivava
uma intensa competição. Entre as mulheres, o espírito competitivo se traduzia no
desejo de muitos filhos. Há um dito ioruba que nos revela a importância da
descendência na cultura tradicional africana: “Sem filhos, estás nu”.

A educação se fazia também quer oralmente (contos, mitos e lendas), ou pelo


exemplo, mesmo que algumas populações conhecessem e praticassem a escrita. O
objetivo era perpetuar a memória coletiva, fazendo com que a identidade étnica
fosse perpetuada.

No campo da religiosidade, destacamos a relação com a natureza. A floresta e as


forças da natureza inspiravam reações diferentes. A mata era bem vista entre os

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História da África

pigmeus, já entre os axantes e os aças, ela era temida, marcava-se o limite entre os
dois mundos por meio de muros baixos. No Benim, entre os baulês, sacrifícios eram
oferecidos aos deuses na mata, para pacificá-los e impedi-los de vir importunar a
gente nas aldeias.

Para os agricultores, abrir e cultivar a marta ou a savana era, ao mesmo tempo, criar o
mundo – atividade ora associada à fertilidade feminina e à capacidade de aumentar a
comunidade, ora à propriedade. As atividades humanas essenciais eram restritas às
áreas cultivadas.

Algumas destas práticas estão presentes na contemporaneidade, tanto em África,


quanto na diáspora. No Brasil, é possível identificá-las em alguns dos cultos afro-
brasileiros de matriz africana, tais como o Candomblé, o Tambor de Mina, dentre
outros. São permanências que resistem à modernidade, constituindo-se no que
Braudel denominou tempo longo, ou fenômenos de longa duração, que vamos ver
na próxima unidade.

Título: Viajando pela África com Ibn Battuta.


Ano: 2011. Duração: 28 min. Direção: Jacy Lage.
Sinopse: Documentário sobre a viagem de Ibn BaTtuta pela
África saariana criado por José Rivair Macedo, professor da
Universidade Federal do Rio Grande do Sul - UFRGS, e dirigido
por Jacy Lage. Este vídeo é parte de um projeto de material
didático para a rede pública de ensino sobre a história da
África. Com participação de vários africanistas brasileiros.
Disponível em:
[Link]
Acesso em 8 de jul. de 2020.

Síntese da Unidade

Nesta unidade revisitamos a antiguidade africana em alguns aspectos gerais, sem


nos determos especificamente em cada região do continente, por se tornar uma
tarefa impossível num espaço e tempo limitado de carga horária. No entanto foi
possível conhecer um pouco da organização social, política, econômica cultural e
religiosa da África pretérita e do que dela permanece na contemporaneidade.
Através dos relatos de viajantes, citações de pesquisadores renomados, mapas e
iconografias disponíveis, oferecemos tanto olhar dos africanos sobre a África,
quanto os dos “de fora”.

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História da África

Ao longo do texto procuramos estabelecer relações com a Unidade I, porque os


temas apontam para um “continuum”; e porque a História não é constituída de
períodos estanques, razão pela qual evitamos nos prender demasiadamente em
datas, entendendo que elas são apenas indicativos, “pontas de icebergs”. E já fica
aqui o convite para a próxima unidade, analisar as relações atlânticas do continente
africano e o quanto ele foi explorado pelo imperialismo europeu.

Referências

ABU BAKR, A. O Egito faraônico. In: MOKHTAR, G. História Geral da África. Vol II. Brásília: UNESCO, 2010, p. 37-
67.

COSTA E SILVA, Alberto da. Imagens da África. SP: Cia. Das Letras, 2012.

COSTA E SILVA, Alberto da. A enxada e a lança: A África antes dos portugueses. SP: Cia. Das Letras, 1996.

DEL PRIORE, Mary e VENÃNCIO, Renato Pinto. Ancestrais: uma introdução à História da África Atlântica. RJ:
Ed. Campus, 2004.

EL FASI, Mohammed. HRBEK, Ivan. Etapas do desenvolvimento do Islã e da sua difusão na África. IN: EL FASI,
Mohammed. História Geral da África, vol 3. Brasília: UNESCO, 2010, p. 69-112.

ILIFFE, John. Os Africanos: História dum continente. Lisboa: Terramar, 1995.

M’BOKOLO, Elikia. África Negra: História e civilizações. Salvador: Ed. UFBA, 2009.

MUNANGA, Kabengele e GOMES, Nilma Lino. O Negro no Brasil hoje. SP: Ed. Global, 2006.

NIANE, Djibril Tamsir. O Mali e a segunda expansão manden. IN: NIANE, Djibril Tamsir. História Geral da
África, vol 4. Brasília: UNESCO, 2010, p. 133-192.

REIS, João José. Rebelião escrava no Brasil: A História do levante dos Malês(1835). SP: Ed. Brasiliense, 1986.

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Unidade 3
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História da África

A África sob o olhar e o domínio europeu

Muito do que conhecemos sobre o Continente africano foi-nos transmitido a partir


dos colonizadores europeus, sobretudo a partir das denominadas grandes
navegações, ou seja, do período no ocidente conhecido como Período Moderno. No
entanto, como nas Unidade I e II, a História do Continente africano é muito anterior a
este período. Na verdade, o que as narrativas europeias fizeram com o continente, foi,
para usar uma expressão da romancista nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie, “uma
História única”. Esa História foi contada a partir dos interesses políticos, econômicos e
religiosos dos colonizadores.

Um exemplo desse olhar europeu sobre o continente foi o de transformá-lo num


continente de negros, como adiantou a antropóloga Ilka Boaventura Leite: “Um fato é
notório: convertido em escravo, o africano passou a ser denominado negro”. Reduziu
a pluralidade do continente em todos os sentidos: geográfico (florestas e desertos),
biológica (epiderme negra), e cultural (povo sem História ou de “História fria”); em
consequência, produziu um desconhecimento do continente.

Malgrado a construção deste arcabouço historiográfico, é possível utilizá-lo de uma


forma crítica, na linguagem de Walter Benjamin, “uma leitura a contra-pelo”. Soma-
se a isso, a África a partir das narrativas dos próprios africanos, sobretudo a partir dos
anos sessenta, e que agora está ao nosso alcance, através da coleção organizada sob
o patrocínio da UNESCO, também já mencionada nas Unidades I e II.

Nunca é demais lembrar que as imagens da África construída sob a visão europeia
no contexto do mercantilismo e do imperialismo, tratou os africanos de uma forma
desumana, como “peças”, escravizados, e/ou povos atrasados, sem cultura, sem
civilização; quando muito, povos na infância da humanidade, que precisam ser
“protegidos” por povos de “cultura superior”. Foi dessa forma, que, segundo Walter
Rodney, a “Europa subdesenvolveu a África”.

Objetivos da unidade

• Identificar o continente no período da colonização europeia, a partir das grandes


navegações e o impacto desta mesma colonização na História do continente.
• Reconhecer o imperialismo do século XIX sobre o continente africano como o
prolongamento do sistema de exploração no contexto do capitalismo industrial.
• Constatar as diversas formas de resistência ao colonialismo e ao imperialismo dos
povos africanos e os processos de independência a partir da segunda metade do
século XX, bem como a formação dos Estados africanos contemporâneos.

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História da África

1. A expansão marítima portuguesa na África: dos Mouros


ao oriente

Os Mouros foram uma “invenção” dos romanos, ou seja, foi o nome dado por eles aos
habitantes do Norte-Nordeste africano. Do século VIII ao XV, dominaram boa parte da
Espanha, estabelecendo califados na região da Andaluzia, até 1492, ocasião da
reconquista cristã. Os portugueses, por sua vez, denominam genericamente de
mouros os negros africanos islamizados.

Antes mesmo das grandes navegações, na denominada baixa Idade Média, os


comerciantes da Sicília, Pisa, Gênova, Veneza e a Provença, por exemplo, tinham
negócios com as cidades mouras do Norte da África. Mas isso não significa que os
europeus tinham acesso às fontes comerciais, que eram monopólio dos
muçulmanos, leia-se, dos mouros. As grandes navegações pelo Atlântico quebraram
o monopólio desses comerciantes. Na Unidade anterior, mencionamos as rotas
comerciais, transaariana antes deste período.

A origem do nome, segundo pesquisas de Nei Lopes, vem do latim maurus, que deu
origem a palavras como: Mauro, Maurício, Mouraria; bem como os adjetivos: morenos,
mourisco; e o verbo mourejar, ou seja, trabalhar como mouro (neste caso no sentido
de escravo). A Península Ibérica muito herdou da cultura moura, seja na literatura, na
arquitetura, música, culinária, comércio e conhecimentos náuticos.

A historiadora Maria Emília Madeira Santos destaca os significativos conhecimentos


que os africanos tinham com o mar, à época da chegada dos africanos; os
conhecimentos, habilidades e práticas relativas à navegação, construção de
embarcações, atividades como a pesca, o nado, guerras, navegação de cabotagem
e comércio, de vários povos africanos na região ocidental do continente,
influenciaram e desenvolveram vários aspectos do que viria a ser o reino de
Portugal na península Ibérica.

Com as cruzadas ibéricas e a formação do reino de Portugal e sua expansão ao Sul,


muito foi absorvido da cultura moura, principalmente as práticas mercantis e
conhecimentos de navegação. Quando Portugal invade a cidade de Celta em 1415, se
deparou com a variedade de produtos africanos, o que fortaleceu suas práticas
mercantis na Europa, ocasionando um investimento em outras expedições marítimas
na costa ocidental africana. O caráter cruzadístico em que as expedições foram
impulsionadas começaram a ceder espaço para uma perspectiva mais mercantil.
Vários fatores contribuíram para isso, o principal foi que os lusitanos não tinham
forças suficientes para combater a rede de proteção costeira dos povos da África
ocidental, partindo, assim, para negociações comerciais e estratégias de infiltração
mais diversas no litoral, se aproveitando dos contextos locais. A grande questão é que
Portugal foi muito eficiente em seu projeto, a longo prazo, de substituir as caravanas
do deserto do Saara pelas caravelas do mar.

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Castelo Mouro, em Sintra, Portugal. Fonte: <[Link]


[Link]> Acesso em 20 de jul. 2020.

O contato dos portugueses e, posteriormente, dos demais colonizadores europeus na


África Ocidental através do Atlântico foi através do processo de feitorias pelo litoral.
Um sistema feito, na medida do possível através de escambo de produtos
manufaturados com especiarias e outros bens de interesse dos comerciantes na
época, no contexto da acumulação primitiva de capital no ocidente.

As feitorias portuguesas eram entrepostos comerciais, geralmente fortificados e


instalados em zonas costeiras, que os lusitanos construíram para centralizar e
monopolizar o comércio dos produtos locais para o reino (e daí para o resto da
Europa). Funcionavam simultaneamente como mercado, armazém, ponto de apoio
à navegação e alfândega. Eram administradas por um "feitor" encarregado de reger
as trocas, negociar produtos e cobrar impostos (o quinto). Entre o século XV-XVI
foram construídas numerosas feitorias, cerca de 50 fortificações ao longo das costas
da África ocidental e austral, África oriental e no Brasil. Facilmente abastecidas e
defendidas por mar, as feitorias funcionavam como bases de colonização
autônomas, que proporcionavam segurança e permitiram a Portugal dominar o
comércio no Atlântico.

É preciso lembrar que os povos que já estavam estabelecidos nos locais onde os
portugueses estabeleceram suas feitorias, eram diversos, como os Dogon, Mende,
Senufo, Akan, Ijebu, Mossi, Igbo, Pende, Haussás, Bariba, Bambara, Iorubá, Dagomba,
entre outros. Embora houvesse também certas semelhanças, dependendo da forma
como estavam constituída as sociedades: sociedades simples, aldeãs, com
organização comunitária; sociedades complexas, hierarquizadas, em formato de

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reinados ou impérios. Dessa forma, os colonizadores tiveram que montar táticas e


estratégias de colonização, tendo sempre em vista o fim último: a pilhagem dos bens
materiais a qualquer preço. Inicialmente, em busca de ouro e marfim, é a partir do
século XVI que o principal produto de enriquecimento extraído do continente
africano pelos colonizadores europeus foram os africanos, transformados em “peças”,
mercadorias, através do processo da escravização.

Como aconteceu em todos os continentes e grande parte das sociedades, a


escravidão no continente africano já existia antes da chegada dos europeus, mas a
sua escravidão interna era distinta do tráfico de escravos que passou a vigorar depois
das conquistas de territórios africanos por portugueses e demais povos europeus a
partir do século XV e XVI. A principal diferença era que a escravidão na África não
tinha o caráter comercial nem a amplitude adotada após o desenvolvimento do
tráfico de escravos através do oceano Atlântico.

Um dos sistemas que existiam na África negra era o jonya, difundido no Sudão
ocidental, no Níger e no Chade, onde o cativo, um escravo ligado a uma linhagem e
que não podia ser cedido nem vendido, tendo direito à maior parte do que produzia.
Pertencia nesse sistema ao Estado e ao seu aparelho político. Em outros lugares,
havia venda apenas esporádica de escravos. O aumento populacional representava
também o aumento do poder do monarca, o que levava ao estímulo da procriação
das mulheres escravas. Os filhos delas nasciam livres e os seus netos incorporavam-se
à sociedade. Por esses fatores, a venda de escravas era quase
[Link] qualificados que eram escravos também não eram
vendidos em muitas das sociedades africanas. A escravidão com cunho comercial,
que em alguns locais substituiu o jonya, começou a ganhar força com a islamização
de algumas áreas do continente africano, principalmente no Norte. Entretanto, a
escravização em massa ocorreu com a abertura das rotas comerciais no Atlântico. A
ligação comercial do continente africano com a Europa e a América transformou o
escravo em um dos principais produtos de exportação, gerando grandes lucros à
determinadas elites de algumas sociedades africanas aliadas aos europeus, bem
como a destruição de outros povos que não se sujeitavam aos interesses
colonizadores ou inimigos de grupos com maior poder militar atrelados aos
interesses mercantis. Tal situação ampliou o número de escravizados se comparada
aos antigos sistemas existentes na África fazendo com que as guerras internas no
continente que eram por questões políticas territoriais mudassem para as guerras
econômicas em busca de escravizados, o que causou um impacto negativo no
continente e seus aspectos de desenvolvimento.

Dissemos acima que, devido às diferentes formas de organização das sociedades da


África Ocidental por ocasião da chegada dos europeus, no caso específico, os
portugueses, tiveram que criar meios, formas, estratégias para adentrarem, e se
estabelecerem no litoral, com a finalidade já mencionada. As feitorias/fortes, foram
amplamente utilizadas, algumas maiores outras menores.

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Principais feitorias e possessões portuguesas na África, séculos XV ao XVIII.


Fonte: < [Link] Acesso em 25
de jul. de 2020.

Havia povos rivais entre si no continente africano por razões várias, sobretudo em
sociedades hierarquizadas, de poder centralizado, as diferenças são muitas vezes
transformadas em desigualdades, o poder um “objeto de desejo”. Nessas sociedades,
estabelecer “amizades” com o grupo dominante e criar rivalidades entre os
oponentes, foram algumas das estratégias utilizadas; quando não fosse possível,
usava-se a força de forma generalizada. O padre espanhol, Bartolomeu de Las Casas
assim escreveu:

“Desde há muito que os portugueses se acostumavam a praticar razias na Guiné para


aí obterem escravos; vendo que nós espanhóis, tínhamos muita necessidade de
escravos e que lhe comprávamos a bom preço, eles puseram-se a capturá-los cada vez
mais. E os próprios negros vendo com que avidez são procurados, lançam-se em
guerras injustas, uns contra os outros e a vender-se uns aos outros aos portugueses, se
bem nós sejamos os responsáveis pelos pecados que eles assim cometem”

A partir desses contatos, as sociedades tradicionais africanas passaram, nesse


período, por aceleradas transformações com consequências jamais vistas até então,
como ficou registrado no romance do escritor nigeriano Chinua Achebe: O Mundo Se
Despedaça. Posteriormente, outras obras registraram o impacto da chegada dos
europeus ao continente africano, a partir do período denominado de Idade Moderna,
ou de Mercantilismo; o que para os africanos, o momento em que a estabilidade
passou a ser um fato do passado.

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Fortaleza de São Jorge da Mina e Castelo no monte de S. Tiago em 1750.


Fonte: < [Link] Acesso
em 21 de jul. de 2020.

John Iliffe, professor de História da África na Universidade de Cambridge, ao abordar


esta temática, disse-nos que a melhor maneira de compreendermos as formas
diversas do contato dos colonizadores, no caso, os portugueses na África Ocidental,
foi ouvindo as experiências por eles vividas. Trouxe-nos o exemplo do missionário
Sigismund Koelle, que, em meados do século XIX, em Serra Leoa, pediu a 177 escravos
libertados, que descrevessem o processo de escravização pelo qual passaram. Os
depoimentos apontam para diversas formas de capturas, as transformações das
formas de punições utilizadas nas sociedades antes da presença do colonizador, e
posterior a ela. Ou seja, como costumes e tradições históricas de punições foram
transformadas visando a fazer com que os infratores se “metamorfoseassem” em
escravizados, como maneira de pagar pelas suas infrações, às diferenças étnicas
foram largamente utilizadas pelos colonizadores.

O reino do Congo estava localizado geograficamente na região da África Centro


Ocidental. Quando da chegada dos portugueses no século XV, através de Diogo Cão
em 1482, o reino já tinha quase um século de existência. O rei, Manicongo, morava na
capital Mbanza Congo, que foi rebatizada pelos portugueses com o nome de São
Salvador, hoje situada na atual Angola, perto do rio Congo. A unidade política era a
aldeia, seu núcleo era formado pelos membros de uma mesma linhagem. Acima das
aldeias, vinham os distritos, dirigidos pelos funcionários. Nomeados pelo rei, os
governadores das províncias podiam ser transferidos por ele para outras províncias, de
acordo com sua vontade. Além das funções administrativas e judiciárias atribuídas
também aos chefes dos distritos, os governadores cumpriam também a função de
conselheiros do monarca.

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Diz Ki-Zerbo que uma das razões da expansão da empreitada portuguesa para a
região do Índico não se deu necessariamente pela falta de ouro, mas pela ganância,
ou seja, “os portugueses achavam pouco o ouro, porque esperavam encontrar um
manancial comparável ao do Eldorado da América do Sul, explorado pela Espanha”.
Nesse sentido, a costa Atlântica não satisfazia, buscava-se incessantemente, o tão
sonhado Eldorado, o Reino do Preste João.

Os portugueses chegaram à região de Sofala por volta do ano de 1506, mas havia um
obstáculo a ser vencido: o Império de Monomotapa (Mutapa). De acordo com a
tradição oral, o primeiro "mwene" foi príncipe guerreiro de um reino Shona ao sul,
chamado Nyatsimba Mutota, enviado para encontrar novas fontes de sal, ao norte. O
Príncipe Mutota encontrou o sal entre os Tavara, uma subdivisão do Shona, que eram
notórios caçadores de elefantes. Foram então conquistados, e sua capital, estabelecida
a 358 km ao norte do Grande Zimbábue no Monte Fura pelo Zambezi.

Duarte Lopes, comerciante português que morou por doze anos no Congo, fez
referência ao vasto poderio e grandeza do Monomotapa. Segundo ele, grande e com
vasta população, “muito animosa na guerra”. Descreveu ainda o exército comparando-
o com o do Império Romano. Um rei que tem muitos outros reis vassalos, completou
ele. As informações acerca das sociedades desta região da África surpreenderam a
muitos, sobretudo quando vieram à luz, através da arqueologia, a cultura material.

Mapa de Monomotapa. Willem Janszoon Blaeu, 1634. Fonte: <[Link]


2015/11/[Link]> Acesso em 26 de jul. de 2020.

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2. A África Atlântica na época moderna

A fundação da capitania de Angola em 1575, foi de grande importância na história de


Portugal na África e de sua colônia na América, o Brasil. Uma frase de padre Antônio Vieira
revela a importância de Angola no contexto da colonização brasileira: “Sem negros, não há
Pernambuco, e sem Angola, não há negros”.

Alberto da Costa e Silva destacou a relevância de Paulo Dias Novaes, no


convencimento ao rei de Portugal, de avançar no projeto de colonização na região de
Angola, qual seja, ir além de uma feitoria. Novais, auxiliado pelos jesuítas procuraram
descrever as riquezas da região, as suas jazidas de prata, cobre e sal, e mais, que era o
caminho para chegar até Moçambique e as sonhadas minas de Monomotapa. O
argumento era também que só se conseguiria evangelizar os africanos, se eles
fossem submetidos militarmente, tratava-se, portanto, de ocupar o território.

Convencida, a corte criou em 1571, a Capitania e Governança de Angola, sob o sistema


de capitania hereditária; Paulo Dias Novaes foi contemplado. Novaes estabeleceu-se
na ilha de Luanda em 1575. As terras “doadas” pelo monarca a Paulo Dias, pertenciam
ao manicongo. Foi necessário constituir “alianças” com os chefes locais, mas os
conflitos não tardaram, o que o donatário não conseguia era fazer valer os seus
pretensos direitos sobre o comércio. As complexas relações de poder entre as diversas
linhagens e o governo de Novaes comprometeram as relações. Com a morte de
Novais em 1589, Luís Serrão o sucedeu.

Em 1591, Felipe II de Espanha e I de Portugal (era o período da União Ibérica), cancelou


a doação da capitania e implantou o governo geral, cujo o primeiro foi D. Francisco
D’Almeida; mas as relações com os chefes locais continuaram tensas, exigindo dos
governantes “jogo de cintura”, quando não, acabavam nas “vias de fato”, geralmente
com prejuízo maior para os portugueses, que contavam com um adversário a mais
como epidemias.

O ouro desejado, ou na quantia desejada, não foi encontrado, mas havia a alternativa
do “ouro negro”, qual seja, a escravização e tráfico de africanos, que, na época, era
negócio lucrativo, e sem ele, não se tinha Pernambuco (leia-se, como dissera Vieira
Brasil) e nem senhores de engenho, pois, segundo Antonil, contemporâneo de Vieira:
“Os escravos são as mãos e os pés do senhor de engenho, porque sem eles no Brasil
não é possível fazer, conservar e aumentar fazenda."

No início do século XVII, o portugueses “aprimoraram” o sistema de alianças para


melhor dominar. Se aproximaram dos imbangalas, a quem eles chamavam de jagas,
considerados grupos com habilidade guerreiras, que se tornaram aliados na preia de
adversários para vendê-los como escravizados. Por esta época, em virtude de tais
alianças e da presença dos portugueses, as sociedades africanas desta região
passaram por muitas mudanças no âmbito da organização social, política e
econômica; sobretudo quando os chefes locais aderiram à religião católica como
parte do sistema de alianças.

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A historiografia destaca dois grandes nomes neste contexto: Nzinga M’bandi em


Angola e Nzinga a Nkuwu, do Congo. Ambos tiveram embates com os portugueses
por longos anos, tanto os registros dos colonizadores e a tradição oral registraram as
diversas guerras de conquista e de resistências, que tiveram repercussões para além
do continente africano, podemos dizer que tomaram uma dimensão atlântica, como
veremos adiante.

No ano de 1617, quando tomou posse como governador geral de Angola Luíz Mendes
de Vasconcelos, com a determinação de manter a paz no território, o reino do
Ndongo passava por problemas na sucessão. Aliás, o momento de sucessão nos
reinos africanos, era ocasião de disputas, devido à complexidade das sociedades
estabelecidas através das linhagens, das alianças para se manter no poder, e de
outros interesses vigentes; somados agora à presença do colonizador que,
aproveitava o momento de instabilidade para tomar “as rédeas” do processo. Foi
nesta conjuntura que N’zinga M’bandi tentou assumir o poder.

N’zinga usou de várias estratégias, uma


delas foi procurar apoio entre grupos
imbangalas, que migravam para terras
ao sul do Ndongo, inclusive tornando-se
esposa de um chefe. Enquanto os
conquistadores brancos estendiam suas
alianças entre chefes ambundos e
imbangalas, mantendo o Ndongo como
estado subordinado à Coroa
portuguesa, N’zinga tornou-se a maior
opositora de sua presença na região,
sempre reivindicando ser a verdadeira
ngola do Ndongo. No início dos anos
1630 ocupou Matamba, uma chefatura
situada a nordeste do Ndongo, limítrofe
do Congo e do Dembo, composto de
chefaturas ambundas, aliadas do Congo
e com crescente presença portuguesa.
De Matamba intensificou sua
resistência à penetração territorial dos
portugueses, tornando-se importante
aliada dos holandeses, que mesmo
Nzinga Mbamdi. Fonte: <[Link]
antes de ocupar Luanda, de 1641 a 1648,
nzinga-a-rainha-negra-que-combateu-os-traficantes-
mantinham uma presença intensa na
portugueses/>. Acessado em: 25.07.2020.
região da foz do rio Congo. Outro fato
importante foi sua adesão ao catolicismo em 1656, por se tratar de uma aliança com os
lusitanos pela troca da sua irmã que tinha sido capturada, a partir desse momento ela
se torna aliada do portugueses até sua morte em 1663. Acontecimento este descrito,
entre outros, pelo seu ex-confessor, Giovanni Antônio Cavazzi de Montecúccolo, na
obra: Descrição Histórica Dos Três Reinos Do Congo, Matamba e Angola.

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Em 1483, momento em que o navegador lusitano Diogo Cão alcançou a foz do rio
Zaire, foi encontrado um governo monárquico fortemente estruturado, o reino do
Congo. Estrategicamente, Diogo estabeleceu relações com o manicongo N’zinga a
Nkuwa, de tal sorte que conseguiu que ele embarcasse seus filhos em uns de seus
navios numa embaixada ao rei D. João II; houve também embaixadas portuguesas no
reino do Congo, posto que Nkuwa havia aderido ao catolicismo. Com seu falecimento
em 1506, outros lhe sucederam, entre eles Mbemba Nzinga, que ao aderir ao
catolicismo, passou a ser Dom Afonso. Esse, segundo a historiografia, usou o
cristianismo como instrumento político para conquistar o poder, se consolidar e
ampliá-lo. Durante o seu reinado, de 1506 a 1543, implementou mudanças
significativas, sob a influência do catolicismo; inclusive, alterou o cerimonial da corte,
a maneira de vestir e os títulos de fidalgo. E mais, em fins do século XVI, uma parcela
da elite conguesa era capaz de comunicar-se em português.

Importante lembrar que tais mudanças atingiram uma parcela diminuta do reino do
congo, as estruturas e os costumes sociais construídos ao longo de muitas gerações, não
cediam tão facilmente. Uma das resistências por exemplo, foi no âmbito dos costumes
locais referentes ao casamento e a constituição das famílias. Os chefes locais esforçavam-
se para preservar o matrimônio poligâmico, para escândalo dos missionários católicos.
Houve momentos de conflitos e acomodações entre o catolicismo e a religiões locais,
inclusive aliança diplomática da elite local com o Vaticano.

O reino do Congo teve o interesse em eliminar Portugal como intermediário no tráfico de


escravizados para a América, gerando um mal-estar entre o soberano conguês e o
governador de Angola, gerando vários conflitos que se agravaram com a chegada dos
holandeses em Luanda em 1641. Com a ocupação holandesa em Angola, que durou 7 anos,
houve um grande sentimento antilusitano, construído pelos soberanos do Congo e
Matamba. Os lusitanos resistiram na fortaleza de Massangano, e conseguiram recuperar
Angola através de uma esquadra vinda do Brasil em 1648, liderada por Salvador de Sá, que se
tornou o governador, implantando seus interesses fluminenses em Luanda, que era ampliar
o tráfico de escravizados entre Angola e o Rio de Janeiro.

Em Pernambuco, após a expulsão dos holandeses em 1654, a preocupação dos colonos


era reestruturar a produção açucareira, investindo principalmente numa mão de obra
mais em conta. Para tanto, lideranças político-militares se aproveitaram do seu
prestígio perante a Coroa lusitana para solicitar cargos de poder em Angola, como
Governadores, para administrar a região de acordo com seus interesses ligados ao
tráfico entre Luanda e o Recife. João Fernandes Vieira e André Vidal de Negreiros
atravessaram o Atlântico e foram governar Angola, levando um projeto administrativo
diferente dos interesses da Coroa lusitana, implantando uma política predatória no
interior da África centro ocidental, através de campanhas militares em que
aumentaram os números de escravizados e eliminaram por um tempo os
intermediários. Esse momento, chamado por Luis Felipe de Alencastro de “Angola
brasílica”, contribuiu para a ampliação do tráfico de escravizados Atlântico, ainda mais
por uma de suas campanhas militares ter resultado na desfragmentação política do
reino do Congo, através da batalha de Ambuíla em 1665.

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Ao longo dos séculos XVI e XVII, a África Centro Ocidental passou por transformações
significativas por conta da presença do colonizador, podemos falar em “aceleramento da
História”, segundo uma expressão de Pierre Nora. Houve rupturas, é certo, mas também
permanências e ressignificações nos diversos aspectos da sociedade. O enfraquecimento
do sistema de linhagem calcado na matrilinhagem e crescimento da patrilinhagem. Este
processo de enfraquecimento da matrilinhagem, segundo J. Vansina, esteve relacionado
com os direitos á terra: “A aldeia possuía os direitos sobre a terra, e o espírito que vivia nesta
terra era perpetuado kitomi, da aldeia. Ideologicamente, tais direitos pertenciam a
matrilinhagem do fundador”. Novas práticas religiosas foram surgindo, uma vez que
alguns ritos católicos foram apropriados, por algumas camadas sociais, surgindo um
catolicismo africanizado.

No âmbito da escultura, inúmeros símbolos cristãos passaram a ser representados


nos objetos do cotidiano, tais como em cabos de bengala, os crucifixos passaram a
fazer parte dos adornos nos pescoços, estátuas de santos católicos. Estes símbolos
foram aplicados sobre objetos feitos de cobre, marfim, madeira, pedra, fibras de
tecidos, etc. Por fim, pode-se falar em reinvenção de tradição, como apontaram as
pesquisa de Terence Ranger e Eric Hobsbawm, para o caso de rituais no Congo.

Título: O Atlântico negro: na rota dos orixás.


Ano: 1998. Duração: 54 min. Direção: Victor Leonardi.
Sinopse: O documentário trata da riqueza cultural africana,
sobretudo sua religiosidade. Exibe rituais e trajes típicos. Os
africanos trouxeram para o Brasil os mestres da agricultura
tropical e da criação de gado extensiva. A religião dos orixás,
muito ligada à noção de família. O tráfico de escravos da África
para o Brasil, que em 350 anos mais de 4 milhões de negros
foram embarcados na costa africana com destino à Bahia,
Maranhão, Pernambuco, Rio de Janeiro, São Paulo e Rio
Grande do Sul. A figura de Chachá Francisco Félix de Souza, o
maior traficante de escravos da costa atlântica da história. A
admiração e o respeito recíprocos entre o Brasil e a África, e o
seu grande entrosamento cultural. A africanidade ancestral
presente em terreiros, danças sagradas e rituais de orixás nos
antigos reinos iorubas de Ketu e jejes de Abomei, a
comunidade dos 'brasileiros' em Benin, onde as tradições
brasileiras são mantidas até hoje. Disponível em:
[Link]
Acesso em 21 de jul. de 2020.

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África Centro Ocidental, século XVII. Fonte: MONTECÚCCOLO, Pe. João António Cavazzi de. Descrição
histórica dos três reinos do Congo, Matamba e Angola. Volume 2. Lisboa: Junta de Investigações do Ultramar,
1965, p. 431.

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3. O imperialismo e a partilha da África: invasões, danos e


resistência

A Conferência de Berlim, realizada no período de 15 de novembro de 1884 a 26 de


fevereiro de 1885, representou a dominação política e econômica das nações
europeias, que se consideravam superiores, sobre os povos africanos. Sob diversos
“argumentos”, buscaram “justificar” a “necessidade” de submeter direta ou
indiretamente os povos africanos ao seu julgo. As novas fontes de matéria-prima e o
desenvolvimento das relações de produção capitalista na Europa exigiam métodos
de exploração mais eficazes, entrávamos na Era do Imperialismo, como muito bem
frisou Eric Hobsbawm.

No caso da África Ocidental, durante o século XIX, o comércio europeu concentrou-se


na produção de produtos agrícolas da Guiné, em especial nos óleos vegetais e nas
sementes oleaginosas: óleo de palma ou dendê e amendoim. Com os baixos preços,
os comerciantes começaram a pressionar para terem acesso direto às áreas
produtoras. Isso implicava na melhoria dos meios de acesso, como por exemplo a
abertura de ferrovias, os denominados “caminhos de ferro”.

Entre os argumentos para “justificar” a presença efetiva dos europeus no continente,


estava o do desenvolvimento em prol da humanidade, do progresso, do
humanitarismo, dentre outros. Foi neste contexto que se protagonizaram os
discursos contra o tráfico e a escravidão no continente africano. As intervenções nos
assuntos da África do Norte, do Sul, do Leste e do Oeste, provocando confrontações
entre a população nativa e os interesses europeus. O mapa abaixo nos dá a dimensão
da presença europeia no continente africano, com destaque para a França e
Inglaterra. Portugal, que havia sido o precursor na corrida à África na época das
grandes navegações, ficou com uma pequena parte do bolo, por razões diversas, que
não nos cabe aprofundar neste momento. Mas fica a inquietação: por que os
portugueses, que foram os primeiros a chegar ao continente, ficaram com tão
poucas áreas no momento da partilha? E mais, porque foram os últimos a saírem, no
processo de descolonização, no pós-segunda guerra mundial?

As empreitadas imperialistas eram um misto de política, economia, interesses


religiosos e culturais. Havia, portanto, uma ideologia, qual seja, um conjunto de ideias
que buscavam justificar as razões dos investimentos europeus na África para o bem
da humanidade. Eventos internacionais, como as exposições mundiais serviam como
palco para se vender estas ideias.

Nesta fase de exploração, além dos “investimentos” europeus no continente visando ao


lucro a baixo custo, foram também motivadas migrações, era preciso tomar posse efetiva
da terra com cidadãos “civilizados”. Nesse sentido, os conflitos políticos existentes na
Europa favorecem sobremaneira a saída dos excluídos pelas guerras. Do outro lado do
Atlântico, em terras africanas, com relativo auxílio do governo ou de empresas privadas,
estes imigrantes foram-se constituindo numa elite local branca, com grandes privilégios.

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Para esses, fazia-se necessário a montagem de uma estrutura mais sofisticada: escolas,
igrejas, clubes de lazer, enfim, a tentativa de se fazer uma Europa incrustada no
continente africano.

O exemplo mais escandaloso de imperialismo no continente africano foi o caso da


Bélgica nos tempos de Leopoldo II. Leopoldo criou, em 1876, uma Associação
Internacional para a exploração do Congo, com objetivos científicos e filantrópicos,
a seu serviço, estava entre outros, Henry M. Stanley, que viajava pela bacia do Congo
obtendo tratados com chefes de aldeias, que, em acordos, renunciavam à soberania
sobre suas terras em favor do rei. Não é preciso dizer que, por detrás de tal
associação, havia outros interesses. As atrocidades cometidas no Congo na época
de Leopoldo II ficaram registradas para a posteridade, na obra de Adam Hochschild,
com o título: O fantasma do rei Leopoldo: Uma História de cobiça, terror e heroísmo
na África colonial.

A partilha da África, 1914. Fonte: <[Link]


Acesso em 24 de jul. de 2020.

No processo do colonialismo e imperialismo na África, foram utilizadas várias táticas e


estratégias, além das formas violentas, como o caso do Congo belga, que diga-se de

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passagem, não foi exceção. Destacamos, aqui, a utilização das diferenças étnicas. Os
colonizadores procuravam hierarquizar as etnias, concedendo vantagens para umas
em detrimento de outras, de forma a criar rivalidades em função das diferenças
étnicas; ou seja, transformaram as diferenças em desigualdades, daí a “justificativa”
de intervenção para conter as, por eles denominadas “guerra tribais”. Guerras que
eles, desde o período do tráfico, fomentaram visando a obter, através dos vencedores,
pessoas nas condições de escravizados, vítimas dos conflitos. Importante lembrar
que, antes da chegada dos colonizadores, as tensões e conflitos existentes entre as
diversas etnias não tinham a mesma intensidade que, após a chegada deles, e que as
razões eram outras. Com a presença do colonizador, os conflitos e tensões tomaram
uma “dimensão infernal”.

As resistências ao imperialismo e colonialismo são um capítulo importantíssimo na


História do continente africano. Desde a chegada do primeiro estrangeiro visando à
exploração, houve resistência. É verdade que houve também acomodação, até
porque a História da humanidade é constituída de acomodações e resistências. No
caso da África, nas narrativas produzidas pelo colonizador, tais resistências pouco
aparecem, constituindo-se exceções, quando na verdade foram regras. Como diz um
provérbio bakongo: “Enquanto os leões não tiverem seus historiadores a história das
caçadas continuarão glorificando os caçadores”.

Título: Batalha de Argel.


Ano: 1966. Duração: 123 min. Direção: Gillo Pontecorvo.
Sinopse: A história da luta dos rebeldes argelinos e das
medidas cada vez mais extremas tomadas pelo governo
francês para reprimir o que logo se tornaria um revolta
nacional, levando à declaração da independência da Argélia
em 1962. Disponível em:
[Link]
Acesso em 28 de jul. de 2020.

As resistências ao colonialismo e ao imperialismo em África foram de formas diversas


e ininterruptas, como mostra o mapa abaixo. Para compreendê-las, faz-se necessário
conhecer a forma de organização da sociedade onde ela se deu, a forma de
intervenção colonialista; se direta ou indireta, e as razões últimas de sua eclosão, o
estopim, que pode ter sido de ordem: econômica, política, social ou religiosa. As
resistências eram passivas ou ativas, local ou alargada, eclodiu em meio rural ou
urbano, assumiram formas antigas ou modernas. Elikia M’Bokolo nos diz que:
“Implicava ora as populações, ora as elites tradicionais, ora ainda as elites modernas,
desencadeou alianças entre essas diferentes camadas sociais, fazia nascer ou
renascer consciências de classe ou de pertença étnica”.

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História da África

Diante de tantas evidências, uma pergunta que não quer calar: como a historiografia
europeia (como vimos na Unidade I) do século XIX, ainda que estivesse no continente
Europeu, não conseguiu enxergá-las e afirmar que, na África, não havia História? Tais
movimentos geraram lideranças que, posteriormente, tornaram-se símbolos
nacionais ou regionais, nas lutas de independência nas décadas de 50, 60 e 70 do
século XX. Nomes que a historiografia ocidental pouco menciona.

O já mencionado historiador M’Bokolo nos adverte que, ao tratarmos deste tema,


devemos usar o plural, resistências, pois tantas foram as formas que assumiram; seria
um risco tentar eleger uma como modelo, cada qual teve o seu caráter revolucionário.

Revoltas e resistência colonial na África, 1900-1940. Fonte: [Link]


mp_Revoltes_1900_1940.gif. Acessado em: 26.07.2020.

Queremos destacar a importância da religiosidade africana como elemento crucial


na construção de muitos movimentos de resistência ao colonialismo e imperialismo,
sejam as religiões tradicionais africanas, o islã, ou mesmo o cristianismo africanizado.
Aqui, ao contrário do que disse Marx, acerca do cristianismo na Europa do século XIX,

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História da África

a religião não foi necessariamente ópio, ela foi elemento de aglutinação para compor
a resistência, pois os africanos utilizaram uma das antigas vias do pensamento, a
religião, (como uma das formas de resistência), que se tornou o local privilegiado de
um amadurecimento e de uma manifestação da vontade de lutar.

Nomes como o de Chaka, El-Hadj Omar, Samori Touré, Gungunhana, Behanzim,


Khama, Sheik Ibra Fall, Amadou Bamba, Mutesa I, Menelik, Nana Prempeh I,
Moshoeshoe, Nana Yaa Asantewa, Bai Bureh, dentre outros, podem soar estranho aos
nossos ouvidos, mas eles são referências em África na luta contra o imperialismo.

Samori ibne Lafia Turé: Símbolo de luta contra o colonialismo francês. Fonte: <[Link]
luarnaut/Samory_esposas.jpg> Acessado em 26 de jul de 2020.

Os movimentos de resistência agudizaram-se ao longo do século XIX, sobretudo por


ter sido o século em que os colonizadores buscaram ocupar, efetivamente, os
territórios que até então eram tidos por eles como lugar de passagem, lugar de
extrair matéria-prima e escravizados, sem a necessidade de fixação à terra. Aliás, o
imperialismo exigia outras formas de exploração, consideradas mais eficazes e
condizentes com os tempos de modernidade.

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História da África

As resistências do século XIX inspiraram os movimentos posteriores, incluindo os de


independência a partir da década de cinquenta. Portanto, podemos falar em
continuum, ao tratarmos desses dois momentos, a saber, as resistências do século
XIX, e os movimentos de independência do século XX. Nesse sentido, o movimento
denominado Pan-africanismo, oriundo do século XIX, na diáspora, foi de suma
importância no processo, posto que os combatentes pela independência do século
XX buscavam inspiração em lideranças do século XIX e primeira década do século XX,
como o mencionado Samory Touré.

A participação de africanos nas duas grandes guerras, somadas às iniciativas de


resistência ao imperialismo em África, o movimento Pan-africano, e outras
iniciativas associativistas de fora e de dentro do continente, foram cruciais para a
eclosão dos movimentos de independência no contexto do processo de
descolonização em África. Citamos algumas: 1897: Criação da Aborigines Rights
Proction Society – na Costa do Ouro; 1900: Conf. Em Londres dos negros de
diferentes continentes; 1908: Criação da People Union na Nigéria; 1910: Criação do
Club des Jeunes Sénégalis; 1913: Criação da Liga Angolana; 1915: Prisão de 500
intelectuais em Madagáscar; 1924: Criação da liga Universal de Defesa da Raça
Negra por kodjo Tovalou Houénou e René Maran; 1926: Fundação do Comitê de
Defesa da Raça Negra por Lamine Senghor e lançamento de La Voix des Nègres em
Paris; 1929: Fundação da Liga Nacional Africana (Angola); 1931: Criação da Union des
Travailleurs Noirs. Lançamento da Revue Du Monde Noir, em francês e em inglês;
1934: Lançamento de L’Etudiant Noir, em Paris; 1948: Lançamento em Luanda do
movimento Vamos Descobrir Angola; dentre outras.

Os estudantes, como: Agostinho Neto, Amílcar Cabral, Mário Pinto de Andrade, Lúcio
Lara, Gentil Vianna, Aquino de Bragança, Marcelino dos Santos, Pedro Pires, dentre
outros, lutaram contra o colonialismo e se tornaram liderança no processo de
independência e pós-independência.

Agostinho Neto, principal liderança no movimento de independência de Angola. Fonte: <[Link]


agostinho-neto-poeta-medico-politico-angolano/> Acesso em 27 de jul de 2020.

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História da África

Recrutas do movimento de libertação popular de Angola. Fonte: <[Link]


Afrika%[Link]>. Acesso em 28 de jul. 2020.

Os movimentos de independência na África ocorreram no momento da


denominada Guerra Fria, quando as potências capitalistas e socialistas, visando a
aumentar seu lastro de influência, apoiavam os movimentos independentistas, com
o intuito que, futuramente, viessem fazer parte do seu bloco, dessa forma, não
houve um movimento único de independência nas colônias. O objetivo comum era
a independência, mas as perspectivas de qual regime adotar, não consensual,
razões, entre outras, pelas quais, após as guerras de independência, a instabilidade
política foi constante nas nascentes nações. É certo que essa não foi o único motivo.
Há outros, entre eles, por exemplo, o modelo de Estado nação implantado, aos
moldes das democracias ocidentais, em muitos casos foram incompatíveis com as
tradições; soma-se a isso a herança das práticas de corrupção implantada ao longo
do processo de colonização visando aos interesses de grupos particulares, em
detrimento do coletivo.

De modo geral, as independências foram, muitas vezes, definidas pelas


circunstâncias locais e pelo aproveitamento que delas fizeram as lideranças locais,
mas não podemos, de forma alguma, descontextualizá-las das mudanças que
vinham ocorrendo em âmbito macro: nas Américas, Europa, Ásia e África.

No bloco de independência das antigas colônias britânicas, destacamos a liderança


de Kwame Nkruma, na antiga Costa do Ouro. Tornada independente em 1957, adotou
o nome de Gana, no afã de simbolizar a volta às origens. Nas colônias sob o domínio
da França, o destaque para a Argélia, através de um processo de guerra sangrenta.
Movimento que ficou imortalizado no clássico filme “Uma Batalha Em Argel”. A luta

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História da África

de libertação nacional nas colônias portuguesas, nas décadas de 60 e 70, quando


ainda na metrópole portuguesa imperavam os resquícios dos ideais fascistas
representados no governo de Salazar e seus asseclas.

As situações política, econômica e social em que se encontram, hoje, os países que


foram colônias dos europeus, revelam o quanto que a Europa subdesenvolveu a
África, não só no sentido material. Para recuperá-la, seria necessário, como sugeriu Ki-
Zerbo, um Plano Marshall para a África.

Título: Hotel Ruanda.


Ano: 2004. Duração: 122 min. Direção: Terry George.
Sinopse: Durante os conflitos políticos entre hutus e tutsis que
mataram quase um milhão de ruandenses em 1994, Paul
Rusesabagina, gerente do Hotel des Milles Collines, na capital
do país, toma a decisão corajosa de abrigar sozinho mais de
1.200 refugiados. Disponível em:
[Link]
Acesso em 27 de jul. de 2020.

Síntese da Unidade

Nesta unidade, buscamos conhecer, sinteticamente, o continente africano no


período da colonização europeia a partir das grandes navegações e o impacto dessa
mesma colonização na História do continente. Usamos como recurso algumas
iconografias e mapas, para melhor compreensão do conteúdo apresentado.

Para além da ação dos colonizadores, evidenciamos os movimentos de resistência


dos colonizados, numa perspectiva de “uma história vista pelos debaixo”.
Constatamos as diversas formas de resistência ao colonialismo e ao imperialismo dos
povos africanos e os processos de independência a partir da segunda metade do
século XX, bem como a formação dos Estados africanos contemporâneos.
Evidenciamos lideranças das lutas de resistência ao longo dos séculos XIX e XX, bem
como lideranças dos movimentos de independência no pós segunda guerra mundial.
Independências que foram um desdobramento das lutas de resistência do passado,
ressignificadas no contexto de Guerra Fria do Século XX.

Agora, convidamos o leitor para a unidade 4, na qual vamos analisar os aspectos e


influências da história e cultura africana na formação do Brasil.

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História da África

Referências

APPIAH, Kwame Anthony. Na casa de meu pai. A África na filosofia da cultura. Rio de Janeiro: Contraponto,
1997.

COSTA E SILVA, Alberto. A Manilha E O LIbambo; A África e a escravidão de 1500- 1700. RJ: Nova Fronteira,
2002.

______________________. Imagens da Á[Link]: Cia. Das Letras,2012.

ILIFFE, John. Os Africanos: História Dum Continente. Lisboa: Terramar,1995.

KI-ZERBO, Joseph. História Da África Negra. Vol. II. Lisboa: ed. Europa-América, 2000.

LAMBERT, Jean-Marie. História da África Negra. Goiânia: Ed. Kelps, 2001.

LOPES, Carlos. Compasso de espera. O fundamental e o acessório na crise africana. Porto: Edições
Afrontamento, 1997.

LOPES, Nei. Enciclopédia Brasileira Da Diáspora Africana. SP: Selo Negro, 2004.

M’BOKOLO, Elikia. África Negra – história e civilizações do século XIX aos nossos dias. Tomo [Link]: Colibri,
2007.

M’BOKOLO, Elikia. África Negra – História E Civilizações. Tomo I. SP: Casa das Áfricas/Salvador: EDUFBA, 2009

WSSELING, H.L. Dividir Para Dominar: A Partilha Da África.(1880-1914). RJ: Ed. UFRJ, 1998.

UNESCO. História Geral da África. Vols.V, VI e VII. Brasília: MEC,2010.

69
Unidade 4
As relações históricas e culturais entre o Brasil e a África

Alberto da Costa e Silva disse que o Brasil e o continente africano se constituem duas
margens de um grande rio chamado Atlântico, e que, no século XIX, era mais fácil sair
do nordeste brasileiro e chegar a Benguela ou Luanda, do que às províncias do sul,
devidos às precariedades dos caminhos terrestres. Já para o continente africano, as
correntes marítimas, sobretudo do Nordeste, eram favoráveis. Verger já havia dito que
a relação entre o Brasil e a África, ao longo da colonização, constituiu-se uma via de
mão dupla: com fluxos e refluxos.

No caso específico da então província de Pernambuco, as notas dos jornais, como por
exemplo, o Diário de Pernambuco, divulgavam as saídas e entradas de navios indo e
vindos do continente africano, na coluna “Avisos Marítimos”. Destacamos dois entre
muitos, para caracterizar que o porto do Recife era um dos atracadouros na margem
de cá da África. Em 19 de maio de 1841, foi publicado: “Para Luanda com escala por
Benguela, o bergantim brasileiro Temerário chegado proximamente de Lisboa ,é
primeira vez que se destina à África, sairá com muita brevidade, quem quiser carregar
ou ir de passagem dirija-se a seu capitão Domingos Francisco da Silva ou a Manoel
Francisco Pontes na rua da Senzala Velha”. Havia outros experimentados capitães que
singravam os mares em direção à Costa Africana, levando e trazendo carregamento,
inclusive produtos contrabandeados, como veremos adiante, mas não parece ser o
caso do que estava no porto do Recife, como vemos a publicação de 14 de abril de 1846,
prestes a partir: “Há um navio de lote de 200 toneladas, que se propõe ir para a Costa
da África, Benguela e Angola; tem metade do carregamento pronto, a quem convier
carregar a outra metade, ainda por conta de diversos carregamentos, pode dirigir-se
defronte ao trapiche novo, número 10, terceiro andar, que achará com quem tratar”.

A influência do Continente Africano na formação social do Brasil foi tamanha, que o


já mencionado Alberto da Costa e Silva afirmou que “o Brasil foi civilizado pela
África”. Pesquisadores como Henrique Cunha Júnior e Petronilha Beatriz Gonçalves
e Silva, falam em “africanidades brasileiras” para identificar as “ilhas de Áfricas”
presentes no Brasil.

Objetivos da unidade

• Identificar as relações históricas entre o continente africano e o Brasil, ao longo do


período da formação social, política e econômica brasileira, qual seja, na Colônia,
Império e República.
• Reconhecer os aspectos africanos presentes na cultura material e imaterial na
sociedade brasileira, em decorrência do processo diaspórico e dos acordos
diplomáticos posteriores no período republicano brasileiro.
• Constatar a presença brasileira na África Ocidental, em decorrência ao retorno de
ex-escravizados e seus familiares no pós-tráfico negreiro.
• Conhecer os acordos diplomáticos e econômicos entre o Brasil e algumas nações
do continente africano, a partir da primeira década do século XXI.
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1. O tráfico de escravizados africanos e a escravidão no Brasil

1.1 Fluxo do tráfico de escravizados africanos no Atlântico

O fluxo do tráfico de africanos escravizados no Atlântico constitui um complexo e


polêmico capítulo na História da diáspora africana no período moderno. É um
momento da história da humanidade de uma grande violência contra seres
humanos. A ferida deste tráfico ainda não foi cicatrizada, são motivos de projetos de
reparações históricas desde o seu final, até os dias atuais, como se viu na Terceira
Conferência Mundial contra o Racismo, a Discriminação Racial, a Xenofobia e Formas
Correlatas de Intolerância, promovida pela ONU na África do Sul em 2001, da qual o
Brasil participou e foi signatário de suas resoluções.

Recife esteve entre os principais portos brasileiros receptores de escravizados,


juntamente com Salvador, São Luís e Rio de Janeiro; portanto, nessas três cidades,
encontram-se referências culturais e materiais latentes da presença africana em
decorrência do tráfico legal e clandestino.

Estudos recentes têm mostrado que as dimensões do tráfico atlântico vão além do já
conhecido tráfico triangular, com a participação efetiva de uma elite brasileira
envolvida diretamente no processo. Para o Recife, os trabalhos de Marcus Carvalhos
têm evidenciado as táticas e estratégias dos traficantes locais, mesmo após as leis
antitráfico. O clássico livro de Pierre Verger, “Fluxo e Refluxo: do tráfico de escravos
entre o Golfo do Benin e a Bahia de Todos os Santos”, aborda o tráfico de mão dupla
entre as duas margens do Atlântico. Destaque para o traficante baiano, Francisco
Félix de Souza, o Chachá, que, posteriormente, foi sujeito de investigação de Alberto
da Costa e Silva.

O tráfico triangular foi um conceito formulado por Eric Williams, que consistia no
seguinte: A Inglaterra, a França e a América Colonial forneciam as exportações e as
embarcações, a África, a mercadoria humana; e as plantações da colônia, as matérias
que seriam enviadas às metrópoles, depois de desembarcada “as peças humanas”.
Neste processo, havia a necessidade de um mecanismo regulador e controlador
indispensável: o monopólio comercial.

De forma sintética, o desenho abaixo representa o tráfico triangular.

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História da África

Representação do modelo clássico do comércio triangular: A Europa exportava têxteis e rum para África, que,
em troca, fornecia escravos para as Américas, que, por sua vez, alimentavam a produção de açúcar, tabaco e
algodão para a Europa. Fonte: <[Link]
Acessado em 09 de ago. de 2020.

O historiador Luiz Felipe de Alencastro, na obra “O Trato dos Viventes”, destaca a


importância geográfica do nordeste do Brasil no que tange às rotas comerciais com o
continente, inclusive no tráfico, aponta como conhecimento das correntes marítimas
era de suma importância para o êxito de uma empreitada no “trato dos viventes”.

O tráfico de africanos escravizados no período moderno esteve no contexto da


acumulação primitiva de capital, foi portanto, nessas circunstâncias que os africanos
foram “metamorfoseados” em mercadoria, eram então denominados “peças da
Índia”. O preço estava de acordo com a “flutuação do mercado”. Com a proibição do
tráfico, logicamente, as coisas ficaram mais rendosas por um lado, mas, por outro,
mais arriscadas. Um exemplo de trocas no período anterior às proibições:

Fonte: BAVIDSON, B. A mãe África, p. 49 apud MUSEU NACIONAL DA ESCRAVATURA. Textos sobre o
comércio triangular. Luanda: Ministério da Cultura, 2006.

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História da África

Impossível falar de tráfico negreiro, sem falar de traficantes. Era uma pessoa, um
grupo ou empresa que praticava o comércio entre a África e o mundo colonial. No
caso do Brasil, inicialmente foram os ingleses, depois os portugueses e brasileiros.
Segundo Clóvis Moura, no Brasil, os traficantes constituíram-se uma camada
privilegiada, mesmo após a Lei de 1831. E acrescenta que, muitos traficantes
influenciaram, poderosamente na política, a prática do suborno era frequente.

O tráfico atlântico foi, segundo João José Reis, o aspecto mais terrível da escravidão
moderna, cerca de 12 milhões de africanos foram vítimas do mesmo; desses mais ou
menos a metade foi desembarcada no Brasil. Mas os que foram retirados do
continente eram um número ainda maior, muitos ficaram pelo atlântico em virtude
da morte.

Marina de Mello e Souza destaca três grandes momentos do tráfico: de 1440 a 1580,
os escravizados eram retirados da região da Alta Guiné (região do rio Gâmbia); de
1580 a 1690, da região centro africana, tendo como referência o porto de Luanda; de
1690 a 1850, região de Angola e Costa da Mina.

REDIKER, Marcus. O Navio Negreiro: Uma História Humana. SP: Cia. Das Letras, 2011.
Síntese: Com base em mais de trinta anos de pesquisas em arquivos marítimos,
Marcus Rediker, grande especialista em tráfico transatlântico, escreveu uma
história sem precedentes do navio negreiro e de seus passageiros, voluntários e
involuntários. O autor reconstrói, com detalhes, a vida e a morte de escravos e
marujos, os desmandos e a perversidade dos capitães, o dia a dia do navio, com
suas doenças terríveis, motins e violência, sem se esquecer dos detalhes
técnicos e das principais diferenças entre os vários tipos de embarcação
dedicados ao comércio de escravizados.

1.2 Escravidão africana no Brasil: aspectos coloniais rurais

A relevância da força de trabalho do africano escravizado na economia do Brasil


Colônia foi evidenciada pelos religiosos Antônio Vieira e André Antonil. O primeiro
afirmou que “sem negros, não há Pernambuco, e sem Angola, não há negros”; o
segundo enfatizou: “os escravos são as mãos e os pés do senhor de engenho, porque
sem eles no Brasil não é possível fazer, conservar e aumentar fazenda."

A exportação de mercadorias produzidas pela força de trabalho do africano


escravizado e seus descendentes foi a base da economia. Começou com a produção
açucareira, que se estendeu do século XVI ao XIX. O engenho era a unidade produtiva.
Não por acaso, Vera Ferlini caracterizou a produção açucareira do Brasil entre o
século XVI e XVIII, de “civilização do açúcar”. Cita da obra “Diálogo das Grandezas do

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Brasil”, datada do século XVII, a seguinte afirmação: “ porque o açúcar é a principal


cousa com que tudo este Brasil se enobrece e faz rico, e na lavra dele se tem
guardado até o presente”.

Em torno do açúcar, desenvolveram-se outras atividades necessárias à subsistência


provendo um comércio local e mesmo o escambo de escravos, como por exemplo o
tabaco, cultivado desde o final do século XVI no Recôncavo da Bahia. Esta economia,
assim como o açúcar, estava estribado no trabalho escravo. Segue-se a pecuária,
também ligada ao mundo açucareiro; dentre outras, a criação do gado fornecia o
transporte, a força motriz para as moendas, o alimento e a manufatura do couro,
sobretudo no sertão.

No complexo açucareiro, havia outras categorias de trabalhadores além dos


escravizados, mas o que predominava era o binômio: senhores e escravos. Era uma
sociedade autoritária, aristocrática, violenta. Recorre-mos mais uma vez a Vera Ferlini:
“O açúcar era branco, o trabalho era negro. Havia doçura nas mesas e sofrimento nos
engenhos; riquezas nas casas-grandes e miséria na senzalas”.

Com a crise açucareira no nordeste do Brasil, o eixo econômico agro-exportador, aos


moldes das plantation, deslocou para o sudeste do Brasil com o cultivo do café. Nas
fazendas de café, todas as etapas do trabalho eram feitas pelos escravizados:
derrubada das matas, preparação do solo, o plantio, a limpeza, a colheita o
tratamento, e o seu acondicionamento em sacos.

Escravizados no plantio do café. Fazenda de Ibicaba-SP.


Fonte: [Link]
Imagens-do-Carlota-Schmidt_fig4_317412105. Acessado em 09 de ago. 2020.

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1.3 Escravidão africana no Brasil: aspectos urbanos

Na mineração, também os braços dos escravizados foram a “força motriz”. Ao redor da


mineração, surgiam os centros urbanos. Se, por um lado, havia opulência, devido à
mineração, por outro, como sugere a obra de Laura Vergueiro, havia miséria. Ela
estudou o caso da província de Minas Gerais.

O trabalho na mineração era também exaustivo: os escravizados passavam o dia todo


dentro da água fria, batendo cascalho em busca de pepitas de ouro, e nas minas
subterrâneas, tudo isso sob o olhar vigilante do capataz, pois, a qualquer descuido, o
escravizado poderia “desencaminhar” uma pepita que seria seu “passaporte” para a
liberdade; mas não era tão fácil assim, muitas das vezes não passava de uma
miragem da liberdade.

O fato de haver maior mobilidade no mundo urbano, se comparado ao rural, não


significa que o trabalho escravo era mais ameno. Havia táticas e estratégias de
vigilâncias para além do feitor de chicote na mão, como era comum no meio rural.
Obras tais como: “O feitor ausente: estudo sobre a escravidão urbana no Rio de
Janeiro”, de Leila Algranti, mostra a dinâmica do escravismo no meio urbano. Já Mary
Karasch investigou os escravizados africanos no Rio de Janeiro, portanto, também
um estudo sobre escravidão urbana: as funções dos escravizados, as doenças a
religiosidade, as fugas, as alforrias, o mercado de escravos. Enfim, a escravidão urbana
em todas as suas dimensões na corte, na capital do Império; a cidade mais negra das
Américas do século XIX, segundo Luiz Felipe de Alencastro.

Os escravizados urbanos estavam presentes em todo estabelecimento comercial das


cidades: açougues, padarias, sapatarias. Havia os escravizados de ganho, ou
escravizados ao ganho; aqueles que trabalhavam fora da casa de seu proprietário:
eram os que trabalhavam por jornada (jornaleiros). Vendiam nos mercados ou nas
ruas: água, doces, louças, perfumes, tecidos, barbeiros, carregadores de cadeirinhas.
Eles entregavam aos seus senhores uma quantia fixa do que ganhavam.

Importante lembrar que muitos escravizados urbanos tinham conhecimento dos


ofícios desenvolvidos em sua terra natal, antes de serem transformados em “peças da
Índia”, ou seja, antes de serem submetidos à escravidão colonial. Debret registrou
muitos deles nos ofícios, tais como: sangradores e aplicadores de sanguessugas,
fabricantes e vendedores de cestos, serradores de tábuas, vendedores de milho, leite,
capim. Calçadores de ruas, vendedoras de angu, quitandeiras, lavadeiras, passadeiras,
escultores, pintores, músicos, artesãos em geral.

No meio urbano, encontrava-se, com certa facilidade, escravizados que eram


escultores. Segundo Moura, o viajante Thomas Ewbank registrou o trabalho de
escravizados escultores, que realizavam trabalhos em pedra, imagens de santos
em madeira. Alguns ex-votos expostos na Igreja do Rosário na corte, eram, obras
de escravizados.

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História da África

Os escravos de aluguéis não eram exclusivos do meio urbano, também eram


encontrados no meio rural, mas, nas cidades, eram presença contínua. Esses faziam
um contrato com o alugador, com o consentimento do seu proprietário. Neste
contexto destacavam-se os carregadores: carregavam malas, pipas e outros objetos.
Enquanto espera-vam que os alugasse, trançavam chapéus, esteiras, vassouras, pulseiras
de couro; eram, na verdadeira acepção da palavra: “pau pra toda obra”.

Escravizados no mundo urbano.


Fonte: [Link] Acessado em
10 de ago. de 2020.

CARVALHO, Marcus J. M. de. Liberdade: rotinas e rupturas do escravismo no Recife,


1822-1850. Recife: Ed. Universitária da UFPE, 2002.
Síntese: Com base em dados demográficos, relatos de viajantes da época, como o
naturalista britânico Charles Darwin, e escritos de historiadores, a obra compõe
um quadro que demonstra como a capital pernambucana, que parecia
indissociável da escravidão, ao mesmo tempo caminhava para o abolicionismo,
que se fortaleceria décadas mais tarde. O autor aborda, de um lado, as estratégias
adotadas pelos traficantes de escravos para continuar com o comércio de seres
humanos e, por outro, as pressões dos próprios cativos por meio de fugas e
rebeliões contra o sistema que os oprimia. Outro aspecto abordado é o papel do
Recife como polo de atração de mão de obra livre e os impactos sociais dos
contingentes de trabalhadores não escravos. Trata-se de uma leitura
fundamental para entender a complexidade da escravidão no Brasil a partir da
perspectiva de um dos maiores centros urbanos do século XIX.

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História da África

Título: Ecos da escravidão.


Ano: 2015. Duração: 53 min. Direção: Nereide Beirão.
Sinopse: Fosse nos engenhos de açúcar, nas lavouras de café
ou na mineração, o serviço pesado estava nas mãos dos cativos.
E em homenagem aos 127 anos da Lei Áurea, o Caminhos da
Reportagem traça o longo e difícil caminho do cativeiro à
abolição, a luta pela liberdade, as formas de alforria, os
principais abolicionistas. Ainda analisa uma polêmica: é
possível ou não reparar os males deixados à população negra
por anos e anos de trabalho escravo? Disponível em:
[Link]
Acesso em 17 de ago. de 2020.

2. Quilombos e novas percepções de África no Brasil

2.1 A formação do quilombos no Brasil: o exemplo de Palmares

A coroa portuguesa definiu quilombos como um reduto de negros fugidos. Em 1740,


reportando-se ao rei de Portugal, o Conselho Ultramarino valeu-se da seguinte
definição de quilombo: "toda habitação de negros fugidos, que passem de cinco, em
parte despovoada, ainda que não tenham ranchos levantados e nem se achem pilões
nele". Mas os quilombos foram, antes de tudo, uma formação social nascida no
continente africano no século XVI. A historiadora Beatriz Nascimento foi uma das
primeiras pesquisadoras brasileiras a recuperar, na década de oitenta, o sentido
primeiro do significado dos quilombos em África.

Os quilombos se formaram na África Centro Ocidental, no momento da chegada dos


colonizadores portugueses, quando diversas etnias se entrechocam, se sucedem no
mesmo espaço, seja aderindo ao novo momento, seja resistindo a esta penetração.
Dentre essas etnias, estavam os Imbangalas, também conhecidos como Jagas. O
congolês Kabenguele Munanga corrobora Beatriz Nascimento, ao apontar a origem
dos quilombos em África.

Portanto, os quilombos se formaram no Brasil, no mesmo tempo em que se


formaram no continente africano. E mais, foi um fenômeno atlântico, qual seja, onde
existiu escravidão de africanos nas Américas, existiram quilombos. Clovis Moura
caracterizou essa dinâmica como quilombagem. Para os colonizadores franceses,
tratava-se da marronnage, palavra derivada do termo espanhol, cimarrón; na América
de colonização espanhola, ficou conhecido como palenque; cumbe, no Caribe.

Na década de oitenta do século passado, Clóvis Moura fez um levantamento


preliminar dos registros de quilombos na historiografia brasileira. Em Sergipe:

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quilombo da Capela, quilombo de Itabaiana, quilombo de Divina Pastora, quilombo


de Itaporanga, quilombo do Rosário, quilombo do Engenho Brejó, quilombo de
Laranjeiras e quilombo de Vila Nova. Na Bahia: quilombo do Urubu, de Jacuípe, de
Jaguaripe, de Maragogipe, de Muritiba, dos Campos de Cachoeira, de Orobó, Tupim e
Andaraí, de Xiquexique, do Buraco do Tatu, de Cachoeira, de Nossa Senhora dos
Mares e do [Link] São Paulo: Jabaquara, Moji- Guaçu, Atibaia, Santos, Campinas,
Piracicaba, Morro de Araraquara, Pará da Aldeia Pinheiros, de Jundiaí, Itapetininga,
da Fazenda Monjolinho (São Carlos). Na região Amazonense: Oiapoque, Calçoene e
Mazagão (Amapá); Alenquer, Óbidos, Alcobaça, Caxiú, Mocajuba, Gurupi e Anajás
(Pará). No Maranhão: Turiaçu, Maracassumé, Preto Cosme, São Benedito do Céu.
Minas Gerais: Ambrósio, Campo Grande, Bambuí, Andaial, Sapucaí, Careca, Morro de
Angola, Parnaíba e Ibituruna.

Croqui: Quilombo do Ambrósio.


Fonte:[Link]
Acessado em: 14 de ago. de 2020.

O quilombo de Palmares teve início aproximadamente em fins do século XVI, foi,


segundo as pesquisas tradicionais e recentes, a maior manifestação de rebeldia
contra o escravismo na América Latina. Seu território, atualmente, pertence ao estado
de Alagoas, no passado, parte da capitania de Pernambuco. Teve uma longevidade de
aproximadamente cem anos, ao longo deste período, preocupou de forma

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significativa as autoridades coloniais. Há farta documentação acerca desta


experiência, mas nenhuma delas escrita pelos palmarinos, por isso, faz-se necessário
uma “leitura a contrapelo”, para evidenciarmos uma História de Palmares “vista dos
debaixo”, qual seja, a partir do olhar dos palmarinos. A arqueologia tem sido de suma
importância na construção do que foi o quilombo de Palmares, para além da visão do
colonizador. É óbvio que a historiografia tradicional conservadora, comprometida
com os valores do colonizador, procuraram esconder ou minimizar a importância
histórica de Palmares, sobretudo ao longo do regime militar instaurado em 1964. Para
eles, Palmares seria um grande mal exemplo. Mas os oponentes ao regime
resgataram Palmares, inclusive nomeando uma célula de resistência ao regime como
Vanguarda Popular Palmares (VPR). A literatura e a filmografia também tentaram
reconstruir o que teria sido o quilombo de Palmares. Muitas dessas obras são ainda
desconhecidas do grande público brasileiro, mesmo no meio acadêmico, por se
tratar, segundo alguns, de uma “História militante”.

Edison Carneiro foi um dos que buscou descrever a geografia de Palmares. Segundo
ele, a região era montanhosa e de difícil acesso; estendia-se do planalto de
Garanhuns até a do município de Viçosa, no estado de Alagoas. Para José Antônio de
Mello, a guerra empreendida contra os holandeses, entre 1630 e 1635, foi um dos
momentos em que os escravizados aproveitaram “a brecha do sistema escravista”
para seguirem em direção a Palmares. Há controvérsias acerca da população de
Palmares. Clovis Moura afirmou que o quilombo chegou a ter entre 20 e 25 mil
habitantes, um quantitativo desafiador para o sistema escravista. Não foi sem razão
que várias expedições foram necessárias para destruir Palmares.

A organização social e política de Palmares seguiu aos moldes das sociedades


africanas, ressignificadas na diáspora, e também com presença da população
indígena e mesmo de brancos perseguidos pela coroa por alguma razão. Não for por
acaso que ficou conhecido na historiografia como República de Palmares, qual seja,
coisa pública, do latim, Res Publica; em oposição ao poder branco e escravista.

Contra Palmares foi organizada uma grande “cruzada”, uniram-se senhores de


engenho, bandeirantes, com a estrutura do poder colonial, tropas mercenárias com
promessas de liberdade. A tropa de Domingos Jorge Velho não foi a primeira a
insuflar-se contra Palmares. Muita pólvora foi gasta visando a destruir, o que foi a
maior resistência ao sistema escravista no período colonial.

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Título: Ganga Zumba.


Ano: 1963. Duração: 100 min. Direção: Carlos Diegues.
Sinopse: O filme começa num engenho de cana-de-açúcar, no
nordeste brasileiro, entre os séculos XVI e XVII. Inspirados pelo
Quilombo dos Palmares, uma comunidade de negros fugidos
da escravidão, trama a fuga para a Serra da Barriga. Entre eles,
se encontra o jovem Ganga Zumba, futuro líder do quilombo. O
filme foca na trajetória desse líder e suas ações, bem como a
luta do quilombo por sua sobrevivência. Disponível em:
[Link]
Acesso em 17 de ago. de 2020.

2.2 Quilombos do século XIX: Catucá e o Malunguinho

A “era da quilombagem” não se resumiu a Palmares. Como já vimos, ao longo de todo


o período escravista, os quilombos existiram na diáspora como oposição ao sistema,
uma forma alternativa de vida dos oprimidos. E mesmo no ocaso do escravismo,
comunidades quilombolas lutam pelos seus direitos nas Américas na
contemporaneidade, como veremos a seguir. No momento, queremos evidenciar um
quilombo, ainda não muito conhecido, apesar de ter suas marcas presentes na região
metropolitana do Recife, sobretudo através da manifestação afro-indígenareligiosa: O
culto a Malunguinho, o senhor das Matas. Esse acontece anualmente, no evento
denominado Kipupa Malunguinho, no mês de setembro, mata do Catucá, no
município de Abreu e Lima.

Marcus Joaquim Carvalho, pesquisador acerca da escravidão e tráfico de escravizados


em Pernambuco, é, em nossa opinião, quem mais investigou acerca do quilombo do
Catucá e os seus malunguinhos. Segundo ele, Malunguinho era o pronome de
tratamento, pelos quais os escravizados que foram trazidos do continente africano se
denominavam, qual seja, companheiros de barco, ou companheiros de viagem.

A partir das referências de pesquisadores, tais como Pereira da Costa, Carvalho


procurou, na perspectiva da agência escrava, mostrar a importância do quilombo do
Catucá, como fenômeno de resistência ao escravismo no século XIX pernambucano.
O autor contextualiza a mata do Catucá, mostrando a relevância do conhecimento da
região na cons-trução da resistência dos quilombolas. As fontes utilizadas são, além
da bibliografia disponível, como o já mencionado, Pereira da Costa, as fontes
jornalísticas, os documentos das autoridades policiais, correspondências oficiais;
neste caso também, a necessidade da “leitura a contra pelo”, para evidenciarmos as
táticas e estratégias dos malunguinhos.

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A pesquisa de Carvalho aponta também para as acomodações e resistências ao longo


da História do quilombo do Catucá, os arranjos, tantos de senhores de engenhos, de
pequenos camponeses, quanto de quilombolas; afinal, não só de guerras é feita a
vida humana. E mais, evidenciam uma perspectiva teórica e metodológica da história
social da escravidão, que emergiu na historiografia brasileira, na segunda metade da
década de oitenta do século XX, no contexto da democratização da sociedade
brasileira, embalada pelos novos movimentos sociais, como o movimento negro, que,
entre outras questões, questionavam a produção acadêmica acerca da escravidão e
do pós-abolição. Efemérides como o centenário da Lei Áurea, realizado no ano de
1988, ano da promulgação da atual Constituição, onde os direitos sociais tiveram
avanços, em relação às constituições anteriores. Avanços esses decorridos em função
dos “novos personagens que entraram em cena”, para usar uma expressão de Eder
Sader; qual seja, os movimentos sociais que se reorganizaram a partir do final dos
anos setenta daquele século.

Esta revisitação ao quilombo de Catucá e ao Malunguinho proporcionou a


visibilização de práticas religiosas híbridas que, acreditamos, estavam na
invisibilidade. Estamos falando do kipupa Malunguinho, que, segundo Pedro
Stoeckli Pires, que descreveu o V Encontro, “é um encontro, organizado pelo
Quilombo Cultural Malunguinho, que tem como objetivo de homenagear e
reconhecer Malunguinho, líder negro que elevou-se à divindade na jurema
assumindo a patente de Rei da Jurema, se firmando na tradição oral e teológica
nordestina como defensor espiritual”.

Kipupa Malunguinho 2019.


Fonte:[Link]
[Link]. Acessado em 16 de ago. de 2020.

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Título: Malunguinho.
Ano: 2015. Duração: 48 min. Direção: Felipe Peres Calheiros.
Sinopse: Malunguinho liderou o quilombo do Catucá, nos
arredores de Recife, no início do século XIX. Apesar de ter sido
assassinado em 1835, ainda hoje é cultuado pelos praticantes
da Jurema Sagrada, religião de matriz indígena com
influências africanas do nordeste do Brasil. Disponível em:
[Link]
Acesso em 16 de ago. de 2020.

2.3 Remanescentes de quilombos no Brasil: desafios e possibilidades

Foi a partir da Constituição de 1988 que ganhou publicidade a demanda das


comunidades negras que ocupavam a terra, sem, no entanto, terem o documento
legal das mesmas. Essa realidade é uma das decorrências da Lei de Terras de 1850,
que obstou o acesso legal à terra aos que não eram considerados “cidadãos de bem”.
Podemos dizer que foi o “cercamento tardio”, para lembrar o que se deu na Europa, e
que Marx muito bem descreveu em “O Capital”, no capítulo intitulado Acumulação
Primitiva de Capital. Portanto, a Lei de Terra criou os denominados posseiros: os que
possuem a posse da terra, sem ter a escritura da mesma. Em outras palavras, os
“legalmente sem-terra”.

No pós-abolição, muitas comunidades se formaram no meio rural ou urbano, de


segmentos oriundos das antigas fazendas ou engenhos, a grande maioria
descendentes dos escravizados. Foram se organizando de forma coletiva nas
denominadas terras devolutas. Organizações constituídas por laços de
pertencimento, que de certa forma remontam os quilombos históricos em África.
Foram estes grupos, rurais ou urbanos que passaram a ser reconhecidos como
quilombos contemporâneos ou remanescentes de quilombos, pela Constituição de
1988. Segundo SCHIMITT, tais grupos foram constituídos a partir de uma grande
diversidade de processos: fugas com ocupação de terras livres e geralmente isoladas,
por heranças, doações, recebimento de terras como pagamento de serviços
prestados, a simples permanência nas terras que ocupavam e cultivavam no interior
das grandes propriedades, bem como a compra de terras, tanto durante a vigência
do sistema escravocrata quanto após a sua extinção. O processo de identidade deste
grupo faz-se na luta coletiva pela subsistência, sem a qual é imprescindível o bem
material, qual seja a terra.

O Artigo 68 da Constituição Federal diz: “Aos remanescentes das comunidades dos


quilombos que estejam ocupando suas terras é reconhecida a propriedade definitiva,
devendo o Estado emitir-lhes os títulos”. Amparado neste artigo, o Decreto

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presidencial nº 6040/2007, Instituiu a Política Nacional de Desenvolvimento Sustentável


dos Povos e Comunidades Tradicionais; compreendendo por Comunidades Tradicio-
nais, o contido no Artigo 3º. Do referido decreto: “os grupos culturalmente
diferenciados que se reconhecem como tais, que possuem formas próprias
de organização social, que ocupam e usam territórios e recursos naturais como
condição para sua reprodução cultural, social, religiosa, ancestral e econômica,
utilizando conhecimentos, inovações e práticas gerados e transmitidos pela tradição”.

A partir desse marco legal, as lutas das comunidades tradicionais, no caso específico,
os quilombolas, ganharam nova dimensão. Aliás, um movimento que intensificou-se
desde que o Brasil foi signatário das resoluções da Conferência de Durban, como já
vimos em Unidade anterior. Em decorrência da mobilização das comunidades que se
organizaram e constituíram Associações em nível local, regional e nacional, as
pesquisas, inicialmente dos antropólogos e, posteriormente, dos historiadores,
ampliaram o alcance do significado de quilombos, em outras palavras, a
ressemantização do conceito consistiu em recuperar o quilombo africano, qual seja,
uma forma de organização social historicamente constituída, não apenas lugar de
negros fugidos do sistema escravocrata e seus descendentes.

GOMES, Flávio dos Santos. Mocambos e quilombos: uma história do


campesinato negro no Brasil. São Paulo: Claro Enigma, 2015.
Síntese: Espalhadas por todo o Brasil, vemos surgir comunidades negras rurais
e remanescentes de quilombos. Elas são a continuidade de um processo mais
longo da história da escravidão e das primeiras décadas da pós-emancipação.
Não se trata de um passado imóvel, como aquilo que sobrou de um passado
remoto. As comunidades de fugitivos da escravidão produziram histórias
complexas de ocupação agrária, criação de territórios, cultura material e
imaterial próprias, baseadas no parentesco e no uso e manejo coletivo da terra.
O desenvolvimento das comunidades negras contemporâneas é bastante
complexo, com seus processos de identidade e luta por cidadania. A história
dos quilombos, e seus desdobramentos, do passado e do presente é o tema
deste livro.

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3. Os Agudá: identidade brasileira na África?

Agudás celebram a Festa de Nosso Senhor do Bonfim em Benim, 2010. Foto: Milton Guran. Fonte: <https://
[Link]/rumos-2015-2016-acervo-agudas> Acesso em 16 de ago. de 2020.

Agudá é um termo usado no Benin para identificar os portadores de sobrenome


português, em geral descendentes dos ex-escravizados retornados. São geralmente
oriundos do Brasil. Os retornados não estão apenas no Benin, mas também em
outros países da África Ocidental, como por exemplo, no Togo e Nigéria.

Os retornados ao continente africano após a escravidão têm sido uma das


preocupações da historiografia nos últimos anos, sobretudo após os acordos de
cooperação estabelecidos entre o governo brasileiro e alguns países africanos, a partir
da primeira década do século XXI.

Dentre as pesquisas sobre esta temática, destacamos a de Alberto da Costa e Silva,


que dedicou um capítulo aos Agudás, na obra: “Um Rio Chamado Atlântico”. Neste,
ele investiga a presença de brasileiros na região, desde a ocupação colonial na África
Ocidental, destacando momentos de cumplicidade, acomodação e resistência. No
campo da Antropologia Social, destacamos a pesquisa de Manuela Carneiro da
Cunha, no livro intitulado: “Negros Estrangeiros: Os escravos libertos e sua volta a
África”. Na verdade, essa obra é um exemplo típico da relação de “boa vizinhança”
entre a Antropologia e a História. Na literatura, a trilogia de Antônio Olinto: “Alma da
África (Casa da Água, vol. I; O Rei de Keto, Vol. II e Trono de Vidro, Vol. III)”; e agora,

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recentemente, o romance histórico de Ana Maria Gonçalves, “Um Defeito De Cor”;


revisita o tema dos retornados brasileiros ao continente africano.

Na verdade, este tema ainda é pouco explorado no campo da historiografia, mas as


fontes disponíveis estão ao alcance dos historiadores, como por exemplo, as notas de
jornais dando conta de grupos de ex-escravizados que implementavam o seu retorno
para o continente africano. O “Jornal do Recife”, em 27 de novembro de 1868,
noticiava que um grupo de africanos, ex-escravizados, embarcava do Recife para a
Bahia, implementando sua viagem de volta à África. Sob o título: SCENAS
AFRICANAS, descrevia o acontecimento:

No Vapor Cruzeiro do Sul seguira ontem para a Bahia, donde partirão para a Costa da
África, porção de pretos e pretas, africanos livres, e todos da nação Mina, levando
alguns filhos nascidos aqui, ao todo quarenta e nove pessoas.
Ao embarque desta gente apareceu quase toda a parceria, cantando e dançando ao
som de batuques.
Na frente do séquito ia a bandeira da Sociedade que entre eles há. Compõem-se de
três tiras horizontais da mesma largura, duas verdes nas extremidades e uma branca
no centro. No início desta há uma figura de um calanro de cor verde com a cabeça
preta e por baixo a palavra Ajuda, empregada ao que nos parece impropriamente, em
lugar de Proteção, que deveria ser[...]

Embora o redator tenha achado que a inscrição “Ajuda” estivesse errada, que deveria
ser Proteção, errado estava ele, pois referia-se muito provavelmente a Ajudá, ou
Agudá. Segundo Nei Lopes, o vocábulo Agudá origina-se do fongbé e no ioruba, o
substantivo ajuda, do nome do forte português de São João Batista da Ajuda.

Na sua suposição, o redator diz que deveria ser Proteção, porque seria a forma que
queriam expressar o auxílio mútuo que a Sociedade prestava entre eles, visando à
liberdade de seus patrícios. E termina a nota dizendo que todos os anos saíam
embarcações com muitos deles para a terra natal. E finaliza lamentando que as
“outras tribos não fizessem o mesmo, e que cada ano emigrassem dois mil para lá,
pelo menos”.

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4. A cultura afro-brasileira

4.1 Religião e religiosidade

Nos estudos tradicionais sobre a cultura afro-brasileira, falava-se em aculturação,


assimilação, sincretismo com a conotação de que uma cultura se sobreporia à outra.
Época em que se acreditava em “cultura superior” e “cultura inferior”. Os estudos
recentes, no campo das Ciências Sociais, têm usado expressões tais como:
hibridização e ressignificação, visando a mostrar que, no processo diaspórico, o que
houve foi um encontro de culturas, ainda que em condições desiguais e de forma
violenta. Dessa dialética surgiu uma síntese, é certo, mas houve também
permanências, ainda que resignificadas.

No campo das práticas religiosas temos um exemplo sem retoques do que falamos
acima, por isso preferimos falar em religiosidade, ao invés de religião, para caracterizar a
plasticidade de tais práticas, numa perspectiva do: “isto e aquilo”. Ao contrário do
binarismo: “isto ou aquilo”. Nesse sentido, há possibilidades de entendermos as várias
dimensões do “fazer-se” do ser humano. Pierre Verger captou de certa forma, essa
dimensão ao investigar as práticas religiosas de ex-escravizados africanos na Bahia do
século XIX. Africanos que transitaram entre o catolicismo, islamismo e protestantismo.
Não por acaso o subtítulo da obra se intitula: “Sete caminhos na liberdade de escravos
da Bahia no século XIX”. O número sete aponta para as várias possibilidades de adesão
e alienação de valores religiosos.

Preferimos falar em religiosidade afro-brasileira porque essa prática está relacionada


com diversos aspectos do fundamento de várias religiões, tendo mantido a matriz
africana, ou seja, sobressaem nelas os elementos oriundos das religiões africana.
Identificamos, na religiosidade afro-brasileira, elementos do islamismo; como vimos
noutra Unidade, a presença do Islã em África, remonta ao século VII; elementos do
cristianismo católico que foi, durante todo o período da colonização, a religião oficial
do Brasil, e mais, a presença do cristianismo no continente, datam aproximadamente
do século IV as práticas religiosas dos nativos, os indígenas, ressaltado principalmente
na Jurema Sagrada; e, majoritariamente, as religiões oriundas do contine, tais práticas
eram entendidas como “seitas”, por não se tratarem de uma religião ancorada num
dogma, ou numa tradição escrita. Na verdade esta foi uma face da discriminação
sofrida por esta religiosidade, por ser oriunda das camadas que estiveram à margem
da sociedade.

Importante lembrar que a religiosidade afro-brasileira, confere aos participantes uma


certa autonomia. Desta forma, ao investigá-las, precisamos levar em consideração as
questões históricas regionais, pois elas se fazem a partir do fazer-se dos grupos
humanos. Ainda que haja um princípio comum, a ancestralidade, há também a
possibilidade de reinvenções no interior das práticas. È, sem dúvida, uma prática de
longa duração, mas que não é monolítica, comporta transformações nos rituais, é uma
religiosidade aberta. As diversas denominações conferidas a elas, é um indicativo das
várias possibilidades de religar o ser humano com o sagrado.

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Em síntese, elencamos como pontos comuns entre as várias práticas da religiosidade


afro-brasileira: o culto aos ancestrais; o caráter coletivo, que se expressa na família
ritual, ou seja, “os filhos de santos”; a capacidade de conviver com todos os setores da
sociedade e atrair pessoas; uma religiosidade sem proselitismo. Em suma prática que
ao longo da História dos povos negros no Brasil, foi elemento de libertação da
opressão, sobretudo do sistema escravocrata.

Representação de praticantes de religião afro-brasileira. Fonte:< [Link]


religiao-africana-preconceitos/>. Acesso em 15 de ago. de 2020.

4.2 Aspectos socioculturais gerais

Entendemos que uma das grandes questões da cultura afro-brasileira é que, durante
muito tempo, ela foi, e às vezes ainda é, tratada como folclore. Folclore no sentido de
uma cultura menor, somatório de expressões desconexas. Isso se deve ao longo
período da História do Brasil em que tudo que vinha do continente africano era visto
como inferior, como subcultura. Nesse sentido, ainda pesa sobre as manifestações
socioculturais afro-brasileiras a herança da colonização e da escravidão.

Partindo de pressuposto, fazem-se necessárias políticas públicas advindas do Estado


brasileiro, que reparem e promovam as manifestações culturais afro-brasileiras
historicamente marginalizadas. Neste sentido é que entendemos políticas
implementadas, tais como Pontos de Cultura e o fortalecimento de órgãos tais como
a Fundação Cultural Palmares.

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Recuperar o sentido da palavra cultura, e no caso, cultura afro-brasileira,


compreendendo-a como manifestação da vida social. A capacidade de simbolizar,
representar a vida material e os seus anseios. Neste sentido, a cultura afro-brasileira
se apresenta onde estiverem as comunidades que se identificam como afro-
brasileiros, com seus gestos, comportamentos, símbolos gráficos, sons, danças, artes.

Algumas manifestações afro-brasileiras ganharam notoriedade no Brasil e no


exterior, sobretudo quando apresentadas como objeto do turismo, a capoeira e a
culinária, são exemplos típicos. No entanto, outros aspectos ficaram nos subterrâneos,
quando não são atribuídos aos descendentes dos colonizadores. Exemplo típico na
cultura artística. Ainda hoje, objetos sagrados de rituais da religiosidade afro-brasileira
apreendida pelo Estado durante a ditadura do Estado Novo Varguista, ainda estão
sob “a guarda” do Estado, quando deveriam ter voltado para as comunidades de
onde foram expropriados.

Alguns pintores e escultores afro-brasileiros ficaram conhecidos, tais como


Antônio Francisco Lisboa; o Aleijadinho, o pintor Valentim da Fonseca e Silva, o
mestre Valentim. Mas acontece que são, não raras vezes, apresentados como
exceção, mas, na verdade, existem muitos outros Franciscos e Valentins no
anonimato, por falta de incentivo do poder público, seja local, regional ou federal.
É bom lembrar que para o Brasil foram trazidos como escravizados, inúmeras
pessoas que eram artífices, pintores, músicos. Esses, passaram o seu fazer-se, para
seus descendentes, sejam nas famílias extensas, nas confrarias, nas sociedades de
auxílio mútuo, sociedades recreativas, e tantas outras organizações que foram por
eles constituídas ao longo da História do Brasil. Enfim, são lugares de cultura afro-
brasileira que precisam ser valorizados, respeitados e incentivados, pois que, como
já mencionamos, foram perseguidos e marginalizados, quer no período colonial,
imperial e mesmo republicano.

4.3 problemas atuais

Registramos alguns avanços por parte do Estado brasileiro, no que tange à


reaproximação do Brasil com países do continente africano, sobretudo a partir da III
Conferência Mundial em Durban, já referida nesta Unidade. O avanço maior veio no
início da primeira década deste século, com o governo de Luiz Ignácio Lula da Silva.
Diversos acordos de cooperação foram firmados em diversas áreas. A Lei 10639/03, já
citada, é um dos exemplos; o intercâmbio para estudantes de graduação e pós
graduação nas Universidade Federais brasileiras é outro exemplo; inclusive a criação
de uma Universidade Federal que enfatiza esta relação acadêmica: A UNILAB
(Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira).

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UNILAB: Repúdio ao corte da assistência para estudantes estrangeiros (São Francisco do Conde- Bahia).
Fonte:[Link]
estrangeiros. Acessado em 16 de ago. de 2020.

No entanto, a partir de 2019, vivemos um retrocesso sem precedentes na História do


Brasil, no que tange aos avanços sociais e às políticas afirmativas, apesar de o Estado
brasileiro, ter sido, como vimos, signatário das resoluções de Durban. A imagem
acima retrata uma manifestação de estudantes do continente africano, contra o corte
na assistência para estudantes estrangeiros.

No âmbito da sociedade civil, a intolerância religiosa em relação à religiosidade afro-


brasileira tem crescido a passos largos, malgrado a legislação brasileira. As
manifestações de racismo, inclusive por membros do atual governo são constantes,
como atestam os noticiários nos veículos de comunicação de massa. Enfim, vivemos
momentos de retrocessos nas relações raciais, no que tange à convivência com as
diferenças, sobretudo com as étnicas e raciais. Já não se pode mais esconder-se sob o
discurso da “democracia racial”, ou da “cordialidade do brasileiro”.

Com relação à política de aproximação, o governo brasileiros e o dos países africanos,


inclusive dos que já eram parceiros, há uma desmotivação, somado à má vontade. A
prioridade voltou a ser dos países do hemisfério norte.

Organizações como a Fundação Cultural Palmares, e as políticas voltadas para as


reparações históricas estão sendo colocadas em xeque, sob o argumento de que “o
Brasil estava fora dos trilhos”, e que todas as mazelas de hoje, foram em decorrência
das políticas de inclusão, que estavam em implementação.

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Síntese da Unidade

Nesta Unidade, buscamos identificar as relações Históricas entre o Continente


africano e o Brasil, ao longo do período da formação social, política e econômica
brasileira, qual seja, na Colônia, Império e República. Enfatizamos os diversos aspectos
dessas relações como uma “via de mão dupla”; inclusive, a presença brasileira na
África Ocidental, em decorrência ao retorno de ex-escravizados e seus familiares no
pós tráfico negreiro.

Destacamos as africanidades presentes no Brasil, através dos aspectos africanos


presentes na cultura material e imaterial na sociedade brasileira, em decorrência
do processo diaspórico e dos acordos diplomáticos posteriores no período
republicano brasileiro.

Indicamos os acordos diplomáticos e econômicos entre o Brasil e algumas nações do


continente africano, a partir da primeira década do século XXI, os avanços nas
relações entre os governos brasileiros nas primeiras décadas do século XXI e,
finalmente, registramos o momento de incertezas pelo qual passam tais relações, a
partir do governo empossado em 2019, e que está em curso. Incertezas não só quanto
à relação Brasil e continente africano, mas em relação às políticas afirmativas de
caráter reparador ao histórico processo estabelecido entre o ocidente e o continente
africano, sobretudo em virtude da colonização e escravização pelo qual passou e
passam os africanos e os afro-brasileiros.

Referências

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MOURA, Clóvis (Org.) Os Quilombos Na Dinâmica Social do Brasil. Maceió: Ed. UFAL, 2001

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História da África

SCHIMITT, Alessandra; TURATTI, Maria Cecília; CARVALHO, Maria Celina Pereira de. A atualização do conceito
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Santos dos séculos XVII a XIX. Salvador: Corrupio, 2002.

______________. Os Libertos: Sete caminhos na liberdade de escravos da Bahia no século XIX. Salvador:
Corrupio, 1992.

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