AULA 2
NEUROEDUCAÇÃO E O
APRENDIZADO DA
MATEMÁTICA
Prof.ª Mariana Laís Batista
INTRODUÇÃO
Já refletimos sobre o conceito de aprendizagem, compreendido como um
processo que envolve vários outros conceitos, como a percepção e a observação,
os aspectos afetivos, a motivação, atenção e memória, além da inteligência.
Esses processos, considerados básicos para as aprendizagens, são estudados
pelas mais diversas abordagens pedagógicas e psicológicas.
Entre essas concepções, a Neurociência é uma das possíveis lentes para
olhar o objeto de estudo: a educação. E o que é Neurociência, o que é educação,
o que é aprendizagem? Qual a possível relação entre esses três conceitos?
Para iniciar, vamos buscar o significado dos termos:
Neurociência:
Ciência que estuda o sistema nervoso, a organização cerebral, a
anatomia e a fisiologia do cérebro, além de sua relação com as áreas do
conhecimento (aprendizagem, cognição ou comportamento).
Reunião dos saberes e conhecimentos que se relacionam com o sistema
nervoso.
Educação:
Ação ou efeito de educar, de aperfeiçoar as capacidades intelectuais e
morais de alguém.
Processo em que uma habilidade se desenvolve através de seu
exercício contínuo: educação musical.
Aprendizagem:
Ação, processo, efeito ou consequência de aprender; aprendizado.
A duração do processo de aprender; o tempo que se leva para aprender.
O exercício inicial sobre aquilo que se conseguiu aprender; experiência
ou prática. (Dicio, 2024)
De antemão, podemos observar que a Neurociência permite com que a
educação e aprendizagem sejam vistas pelo olhar dos estudos do funcionamento
do sistema nervoso. Como ciência, ela sintetiza todos os conhecimentos da
neurobiologia cerebral, possibilitando realizar a leitura da aprendizagem e propor
ações práticas que possam estimular o cérebro ao aprender.
Além disso, educação e aprendizagem estão correlacionadas, tendo em
vista que aprendemos pela educação formal1 ou informal2. Ambas têm um objetivo
único: o desenvolvimento humano, o aprendizado, a busca por novas formas de
resolver problemas e desafios, o processo de ajudar o indivíduo a se desenvolver
física, intelectual e socialmente.
1 Educação desenvolvida em espaços escolares, com conteúdo e temas pré-estabelecidos,
formado por um conjunto de saberes, a serem desenvolvidos coletivamente – turma, escola, grupo.
2 A educação não formal é aquela que envolve atividades organizadas fora dos sistemas escolares,
mas com intencionalidade e estrutura. Ou seja, todas a aprendizagem advinda de processos de
socialização – em casa, na família, no bairro; a aprendizagem da vida cotidiana, não estruturada.
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Para dar sequência e aprofundar as nossas reflexões, vamos estudar a
relação direta entre a neurociência e a educação; de que modo acontece o
funcionamento da mente durante o processo de aprendizagem e a vinculação
entre neuroplasticidade e aprendizagem. Ademais, vamos introduzir uma visão
sobre o aprendizado da matemática por meio da neuroplasticidade e da
neuroeducação.
TEMA 1 – NEUROCIÊNCIA E A EDUCAÇÃO
Compreendendo os conceitos de neurociência e de educação, já somos
capazes de iniciar reflexões mais aprofundadas sobre essas duas ciências
interligadas, buscando saber o potencial da neurociência para aprimorar os
processos educacionais e, principalmente, compreender como o cérebro funciona
ao aprender.
Já é sabido que o cérebro é o responsável por armazenar, processar e
transformar tudo o que recebemos do ambiente em aprendizagem e
conhecimento; com a neurociência, contudo, é possível entender como o cérebro
realiza esse complexo processo.
Vale ressaltar que estamos falando de duas ciências distintas, porém, aqui,
buscamos encontrar o potencial dessas juntas, almejando conhecer e encontrar
formas teórico-práticas para promover diferentes estratégias e modos de aprender
melhor com os princípios da neurociência e do funcionamento da mente humana.
Para iniciar, vamos estudar as raízes da neurociência antes de conectá-la
à educação, e por isso utilizaremos o termo neuroeducação.
1.1 Raízes da Neurociência
Há muito tempo busca-se compreender como o cérebro funciona. Já foram
mapeadas muitas funções cerebrais e muitos aspectos da anatomia e fisiologia
do sistema nervoso, mas, até hoje há muitas pesquisas em andamento buscando
compreender diversos aspectos do funcionamento cerebral, como sinapses,
emoções, sentimentos e comportamentos (Atagiba; Silva, 2022).
Hoje, a Neurociência já tem muitos conhecimentos sistematizados e
estruturados que permitem sua aplicabilidade em áreas como educação e saúde,
mas para chegar ao que há hoje em termos de conhecimentos teórico-práticos,
há uma grande construção sócio-histórica.
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As autoras Atagiba e Silva (2022), em seu livro Neurociência educacional,
descrevem alguns marcos históricos para o surgimento da neurociência:
• China (475-221 a.C.): primeira relação da visão com o sistema cerebral –
acreditava-se que se a visão fosse danificada, haveria danos no cérebro;
• Século III a.C.: Hipócrates – considerado pai da medicina – concluiu que o
cérebro comandava o corpo;
• Século II: Galeno desenvolve novos estudos sobre o sistema nervoso
autônomo e simpático;
• Século XVIII: Procháska compreendeu as divisões de funções
consideradas corticais que ocupam determinadas partes do cérebro;
• Década de 1960: Joseph Altman provou que o cérebro de mamíferos
adultos produz novos neurônios;
• Década de 1980: Gustav Fritsch e Edmund Hitzig concluíram que a
animação elétrica do córtex cerebral ativa reações de alguns músculos
específicos;
• Século XIX e XX: novos estudos com testes das teorias já conhecidas;
• 1962: Francis Otto Schmitt propõe um encontro semanal com especialistas
para compartilhar sobre as pesquisas e descobertas, dando origem à
neurociência como disciplina acadêmica;
• 1969: Surge a Sociedade de Neurociências em Washington;
• 1970: ano do nascimento do termo “neurociência”;
• 1990: a “década do cérebro” – com muita pesquisa e investimento.
(Atagiba; Silva, 2022)
Apesar de comumente ouvirmos muito sobre os estudos do cérebro
realizados no Egito Antigo, foi com a criação do termo “neurociência” e da
Sociedade de Neurociência, em 1970, que este se tornou um campo científico
autônomo (Atagiba; Silva, 2022).
No Brasil, os estudos começam a ganhar impulso em muitas universidades,
principalmente com o crescimento das novas tecnologias de escaneamento do
cérebro, e um dos ramos que surgiram foi a neurotecnologia – que abarca todas
as novas tecnologias desenvolvidas para entender o funcionamento do cérebro (e
aqui sugerimos a você uma pesquisa para aprofundamento). Vamos focar agora
na neuroeducação – a relação entre a neurociência e educação.
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1.2 Neuroeducação
Como vimos anteriormente, a Neurociência é o campo científico que busca
explicações das funções do sistema nervoso nos diferentes processos cognitivos,
como atenção, memória, linguagem e percepções, aspectos estes que já
sabemos serem essenciais para o aprendizado. Em outras palavras, é pela
Neurociência que compreendemos o funcionamento das redes neuronais
envolvidas no aprender e na forma com que os estímulos chegam e são
processados, armazenados e posteriormente acessados pelo cérebro (Atagiba;
Silva, 2022).
A Neuroeducação é uma das ramificações dos conhecimentos da
neurociência – nesse caso, aplicada ao aprendizado. É um campo considerado
interdisciplinar, pois conecta várias áreas do conhecimento: a neurociência, a
psicologia e a educação (Atagiba; Silva, 2022; Lautenschlager; Freire, 2022).
Ela permite abarcar os conhecimentos sobre o funcionamento do cérebro
(que estudaremos a seguir) e, principalmente, conhecer as áreas e regiões
cerebrais essenciais para o aprendizado (Atagiba; Silva, 2022). E de que forma
esses conhecimentos técnicos podem auxiliar na educação propriamente dita?
Com o crescente número de reprovações e baixo rendimento, muitos
estudantes diagnosticados com dificuldades de aprendizagem e transtornos do
neurodesenvolvimento, além da baixa motivação por parte dos estudantes, vê-se
a necessidade de encontrar novas formas de ensino que trabalhem os aspectos
biológico, psicológico e social do indivíduo (Lautenschlager; Freire, 2022).
Isso é possível quando entendemos a relação da neuroplasticidade
cerebral envolvida na aprendizagem, e novas técnicas de neuroimagem permitem
compreender a relação entre áreas cerebrais e habilidades específicas. Afinal, é
essencial, para uma aprendizagem significativa, conhecer os melhores estímulos
cerebrais para cada tipo de conteúdo que se pretende ensinar (Atagiba; Silva,
2022; Lautenschlager; Freire, 2022).
Preliminarmente, podemos correlacionar, por exemplo, a memória com
aspectos funcionais do hipocampo, e as emoções com o sistema límbico, e criar
estratégias de aprendizagem que considerem estes mecanismos no cérebro
(Atagiba; Silva, 2022).
Vamos conhecer como se dá o funcionamento da nossa mente para
entendermos melhor as áreas supracitadas, mas antes vale ressaltar que a
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neuroeducação tem considerado que o cérebro, em determinadas faixas etárias,
apresenta maiores ligações entre certas áreas e em diferentes aspectos do
aprender. Já ouvimos que, quando adultos, temos mais dificuldade de aprender
certas habilidades. Isso se dá pelo fato de que o cérebro do adulto não tem a
mesma neuroplasticidade que o de uma criança. Ainda assim, é possível aprender
até o fim da vida, mas aproveitar a neurobiologia é uma excelente opção (Atagiba;
Silva, 2022). Segue a relação dos períodos do desenvolvimento de habilidades
com a função principal:
• 0 – 6 anos: visão;
• 9 meses – 6 anos: controle emocional;
• 6 meses – 6 anos: formas comuns de reação;
• 18 meses – 6 anos: símbolos;
• 9 meses – 8 anos: linguagem;
• 4 anos – 8 anos: habilidades sociais;
• 5 anos – 8 anos: quantidades relativas;
• 4 anos – 11 anos: música;
• 9 meses – 11 anos: segundo idioma (Santos; Souza, 2016, citados por
Atagiba; Silva, 2022, p. 168).
Desse modo, pode-se aproveitar essa “janela de oportunidade”, com os
estímulos aplicados de maneira equilibrada e no momento mais indicado, a fim de
se obter aprendizagens reais.
Vamos conhecer, a seguir, a anatomia e fisiologia do sistema nervoso no
processo de aprendizagem.
TEMA 2 – FUNCIONAMENTO DA MENTE NO PROCESSO DE APRENDIZAGEM
Não existe aprendizagem sem um cérebro para desenvolvê-la. Como já
vimos, o funcionamento da mente para a aprendizagem irá envolver vários
processos cognitivos complexos em interação: percepção, atenção, memória,
emoções, motivação etc. Por meio dessa integração os indivíduos conseguem
adquirir, processar, armazenar e aplicar novas informações; além disso,
consideramos que a aprendizagem é uma função multidimensional da mente, pois
inclui várias etapas e mecanismos relacionados.
Contudo, é importante compreender que todo esse processo acontece no
cérebro, por meio de diferentes estruturas cerebrais, neurotransmissores e
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plasticidade neural. A aprendizagem envolve complexas interações entre várias
regiões do cérebro e neurotransmissores. Conheceremos agora como funciona o
sistema nervoso, iniciando pela sua anatomia e fisiologia, para, em seguida,
compreender como o cérebro atua no processo de aprendizagem.
O cérebro é o órgão humano mais importante e complexo, sendo o
responsável por funções gerais do corpo, como pensar, receber informações,
memorizar, movimentar e sentir, entre outros. Curiosamente, o cérebro tem, em
média, entre 1,2 kg e 1,5 kg, apesar de sua infinidade de funções (Atagiba; Silva,
2022; Uebel, 2022).
Cérebro e corpo estão sempre em conexão, mantendo uma comunicação
constante por meio de células chamadas neurônios (Atagiba; Silva, 2022). Para
que essa conexão aconteça, precisamos de todo o sistema nervoso, que irá
receber as informações do “mundo externo” e enviá-las ao cérebro.
Em resumo, os nossos órgãos dos sentidos são os informantes, recebendo
todas as informações brutas do ambiente e enviando-as ao cérebro; quando essas
informações chegam a ele, são analisadas e geram respostas do sistema
muscular esquelético. Ou seja, ao captar a informação sensorial do meio externo,
o cérebro envia uma nova informação ao corpo para este responder à informação
recebida.
O sistema nervoso humano é dividido didaticamente em partes:
• O sistema nervoso central (SNC) é composto por encéfalo (cérebro,
cerebelo e tronco encefálico) e medula espinhal;
• O sistema nervoso periférico (SNP) é composto pelos gânglios e nervos
que enviam as informações dos órgãos para o SNC e, destes, para os
outros órgãos (conforme mencionado acima).
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Figura 1 – O Sistema Nervoso Central e o Sistema Nervoso Periférico
Crédito: Systemoff/Shutterstock.
Quanto ao cérebro, ele é dividido em dois hemisférios unidos por uma
estrutura chamada corpo caloso. Além disso, o cérebro é dividido em partes: lobo
frontal, lobo temporal, lobo parietal e lobo occipital. Conforme já mencionamos, as
células cerebrais chamam-se neurônios, e são compostos por três partes:
1. Corpo neuronal: parte do neurônio onde se localiza o núcleo e as organelas
que produzem a energia e síntese de proteínas;
2. Dendritos: são o prolongamento do corpo celular, realizando a
comunicação com outros neurônios (pelos corpos ou axônios);
3. Axônio: são prolongamentos de extensões variadas, que conduzem
informações de um neurônio para o outro.
Os neurônios se conectam por meio de terminações especiais, chamadas
sinapses, que permitem com que as informações sejam propagadas, bloqueadas,
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potencializadas ou integradas, pois, nestas sinapses são liberados os
neurotransmissores, que auxiliam todo o funcionamento cerebral.
Figura 2 – Sinapses: estruturas do neurônio transmitem impulsos nervosos (ou
sinais elétricos) por meio da sinapse entre os neurônios
Crédito: mentalmind/Shutterstock.
Os neurônios formam redes neuronais para facilitar essa comunicação e,
principalmente, transmitir as informações necessárias para o organismo (Atagiba;
Silva, 2022).
Muitas redes neuronais e partes do cérebro têm relação direta com a
aprendizagem; vamos citar algumas destas, mas vale ressaltar que, ao aprender,
todo o cérebro estará em atividade.
Um sistema muito importante para a aprendizagem é o sistema límbico,
que atua diretamente nos aspectos relacionados às emoções; ele apresenta
partes que auxiliam no aprendizado: o hipocampo, que permite com que a
memória a longo prazo seja armazenada; a amígdala, que funciona como um
arquivo das memórias emocionais; o tálamo, que atua em todos os estímulos
sensórias (exceto do olfato); o hipotálamo, responsável pelas percepções; e os
gânglios, que atuam nas respostas motoras frente a emoções, por exemplo
(Atagiba; Silva, 2022).
Outra parte cerebral importante é o córtex cerebral, que atua na área
neurocognitiva, influenciando fortemente em aspectos de atenção, memória e
linguagem. Em todo processo cognitivo e de aprendizagem há complexa atividade
dos nervos interconectados e das redes neuronais (Atagiba; Silva, 2022).
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Ao longo de nossas vidas, o cérebro também vai se adaptando conforme
nossas experiências: nos primeiros anos de vida, temos uma grande produção de
células e de conexões pelas sinapses, pois precisamos nos adaptar ao mundo a
cada momento. À medida que crescemos e envelhecemos, vamos perdendo
conexões sinápticas, e mantendo apenas uma parte destas (Uebel, 2022), além
de criar novas conexões, o que é possível devido à neuroplasticidade do
cérebro.
TEMA 3 – NEUROPLASTICIDADE E APRENDIZAGEM
Já entendemos que é pelo cérebro que realizamos nossas interações com
o mundo, e a forma com que o cérebro se organiza varia conforme nossa idade.
Em cada faixa etária há necessidades específicas, e as experiências vivenciadas
se diferem. Com isso, o cérebro precisa adaptar-se a essas experiências e
vivências, e isso é possível graças à sua plasticidade (Atagiba; Silva, 2022; Silva,
2021).
Como o cérebro é responsável pelo nosso desenvolvimento e capta cada
período das nossas vidas, é a plasticidade cerebral que permite com que
possamos aprender, memorizar e nos adaptar às diversas situações que nos são
apresentadas.
Há varios conceitos relacionados à plasticidade cerebral. Vamos conhecê-
los no Quadro 1.
Quadro 1 – Plasticidade do cérebro
• Plasticidade cerebral: refere-se à capacidade do cérebro de mudar ao longo da
vida, como regenerar-se após uma lesão.
• Plasticidade neural: reestruturação do sistema nervoso conforme as experiências
de vida – desde o nascimento até a velhice.
• Plasticidade neuronal: prolongamento dos neurônios.
• Plasticidade sináptica: comunicação entre os neurônios e as mudanças nessas
conexões.
Fonte: Atagiba; Silva, 2022.
Optamos aqui por utilizar o termo neuroplasticidade relacionando-o à
aprendizagem, tendo em vista que ele configura o conceito mais amplo que irá
abranger também os termos citados anteriormente, quando nos referimos a toda
adaptação do cérebro para formar novas conexões.
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Nessas adaptações, o cérebro reorganiza-se estrutural e funcionalmente
pelas experiências, criando novas redes neuronais (Atagiba; Silva, 2022). A
plasticidade ocorre ao longo da vida. Didaticamente, podemos considerar três
momentos nesse movimento:
1. Durante o desenvolvimento: em todo desenvolvimento da vida, desde a
concepção até a velhice, há neuroplasticidade;
2. Ao aprender: ocorre sempre;
3. Em virtude de danos: em casos de lesões cerebrais – como em acidentes
vasculares cerebrais (AVC), há mudanças fisiológicas e funcionais
(Atagiba; Silva, 2022).
Acreditamos que fica claro até aqui que a neuroplasticidade e a
aprendizagem estão fortemente interligadas, pois tudo que os indivíduos
aprendem de novo permitem ao cérebro buscar formas de armazenar e apreender
(seja pela memória, seja por qualquer outra função básica da aprendizagem).
Compreendendo que a neuroplasticidade é a característica que permite ao
sistema nervoso readaptar-se para responder ao ambiente, e entendendo que o
maior movimento de novas conexões acontece quando somos crianças, sugere-
se então que a neuroplasticidade ocorre com mais facilidade durante a infância,
pelo crescimento de neurônios e a capacidade maior de aprendizagem, o que
evidencia a importância de formas de ensino que favoreçam esse processo
(Cagliumi, 2020).
Em outras palavras, nosso cérebro tem maior capacidade de plasticidade
nos primeiros anos de vida e na adolescência, enquanto em outros períodos de
vida há gradativa diminuição da neuroplasticidade, embora considere-se que o
órgão se torne mais otimizado, por isso, devemos conhecer as melhores formas
de potencializar o cérebro na infância e adolescência, sendo a escola um local
apropriado para esse movimento (Atagiba; Silva, 2022; Silva, 2021).
As autoras Atagiba e Silva (2022) explicam que as áreas da educação têm
uma grande potência no desenvolvimento integral do cérebro, com isso, é salutar
que os professores organizem o ensino de forma a estimular “o desenvolvimento
de habilidades como pensar, compor, reforçar, criar e debater” (Atagiba; Silva,
2022, p. 58), e mesmo estudantes com dificuldades, com estímulos apropriados,
pela neuroplasticidade, conseguem superar desafios e se desenvolver (Atagiba;
Silva, 2022).
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Não há como entender um processo educacional cognitivo e social sem
considerar a neuroplasticidade envolvida, já que só há aprendizado pelo cérebro
em funcionamento. Contudo, considera-se que a neuroplasticidade está
relacionada com a afetividade e aspectos emocionais e sociais (Garrido, 2020) ,
como já mencionado anteriormente.
Conhecer a neuroplasticidade e sua importância na aprendizagem é
importante com relação à educação, tendo em vista que, por essa via, é possível
compreender a adaptação neural como resposta aos estímulos ambientais,
buscando formas intencionais de estimular a neuroplasticidade dos estudantes
nas diferentes áreas de ensino. Aqui, vamos focar na matemática; logo, a seguir
apresentaremos alguns princípios básicos cerebrais na aprendizagem nesta área
do conhecimento.
TEMA 4 – NEUROPLASTICIDADE NA APRENDIZAGEM MATEMÁTICA
Assim como a oralidade, leitura e escrita são consideradas parte de uma
linguagem, também o é a matemática, porém, não é uma aprendizagem inata,
mas adquirida. O cérebro não nasce pronto para compreender os números e seus
símbolos; é no treinamento cerebral que vão se desenvolvendo redes neurais que
possibilitam o necessário para compreender, adquirir e, posteriormente, aplicar o
raciocínio matemático.
Vale ressaltar que, segundo a ideia da neuroplasticidade, todo treino e
aprendizagem criam novas sinapses que irão facilitar o fluxo de informação; além
disso, toda vez que alguém aprende algo novo com base no que já se sabe,
aumenta a complexidade das ligações neuronais, promovendo maiores
associações (Silva, 2021).
Então, um aspecto importante para o aprender são os processos de
memória, já que se considera que não há aprendizado sem memória imediata, de
curto ou longo prazo, pois, ao aprender, as informações adquiridas modificam as
sinapses e são armazenadas para, posteriormente, serem recuperadas (Silva,
2021).
E no caso da matemática? Sabemos que, para aprender matemática,
existem diferentes habilidades envolvidas além da memória, como o senso
numérico, as habilidades visuoespaciais e a regulação das respostas emocionais.
Aprender matemática é envolver todo o cérebro; sabemos que a biologia cerebral
abrange todas as dimensões humanas: cognitivas, emocionais, motoras e
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afetivas, portanto, entendemos que a aprendizagem matemática se dá de forma
química e física nos neurônios (Lautenschlager; Freire, 2022).
Ademais, ressaltamos que a neurociência pode se relacionar tanto a
aspectos cognitivos como comportamentais, e ambos têm relação com o cérebro
e desenvolvimento humano; a cognição envolve memória, aprendizagem e
capacidade cognitiva; o comportamento envolve emoções, pensamentos e ações
(Castro Filho; Meireles; Rebelo, 2016).
No caso da neurociência cognitiva, ao buscar compreender e explicar o
cérebro nas atividades matemáticas, entende-se que o aprender da matemática
não se trata apenas do armazenamento da percepção, mas de um processo
complexo de elaboração das informações das percepções, e um processamento
que sofre reconstruções (Castro Filho; Meireles; Rebelo, 2016). E por que isso
acontece?
Os indivíduos, quando em busca de resposta para seus pensamentos e
percepções, têm suas conexões neuronais reorganizadas, fortalecendo ou
enfraquecendo as sinapses. Nesse sentido, a atividade mental sofre construções
e reconstruções de redes neurais ao processar as experiências vividas. Essa
capacidade de agregar dados novos às informações já armazenadas,
estabelecendo relações e reprocessamento, é parte da neuroplasticidade
(Castro Filho; Meireles; Rebelo, 2016).
Com isso, ao somar os olhares cognitivo e comportamental, a neurociência
da educação permite olhar para a aprendizagem de forma mais ampla: no caso
da matemática, é possível compreender as dificuldades de aprendizagem de
operações matemáticas, fórmulas, contagens, conceitos e casos de transtornos
de aprendizagem – como a discalculia – sobre os quais estudaremos em breve
(Castro Filho; Meireles; Rebelo, 2016).
Sempre houve preocupação social em torno da aprendizagem
matemática? A educação matemática é a ciência que surge para olhar com mais
profundidade esses aspectos, pois, com seu surgimento no século XIX, havia
interesse em revisar a forma com que a matemática estava sendo ensinada. A
partir de então, buscou-se encontrar formas de tornar os conceitos de matemática
mais acessíveis aos estudantes e, com isso, as discussões se desenvolveram. No
Brasil, em 1950, iniciou-se a educação matemática, que teve forte consolidação
em 1988, com a fundação da Sociedade Brasileira de Educação Matemática
(SBEM) (Castro Filho; Meireles; Rebelo, 2016).
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Ademais, com mais pesquisas e estudos, as abordagens de ensino-
aprendizagem tiveram grande importância para a forma com que se propõe o
ensino de matemática. É neste sentido que a Neuroeducação pode se tornar uma
poderosa fonte de possibilidades para a educação matemática, tendo em vista
que permite buscar formas de organização do ensino que primem pela busca da
neuroplasticidade dos estudantes, compreendendo as formas com que o cérebro
funciona e estimulando a flexibilidade cognitiva, ou seja, a capacidade de
buscarmos diferentes e novas soluções para resolver problemas pensando “fora
da caixa”.
TEMA 5 – A NEUROEDUCAÇÃO E AS HABILIDADES MATEMÁTICAS
Entendemos que a neuroeducação pode ser uma potência quando
pensamos no desenvolvimento das habilidades matemáticas, mas ela é também
um grande desafio, tendo em vista que frequentemente o senso comum apresenta
a seguinte reclamação: “matemática é muito difícil, não gosto de matemática”.
Se o estudante já coloca em mente que ela é uma disciplina difícil ou
desmotivadora, sem dúvida, o cérebro vai receber essa informação e afetará a
forma do aprender: o afeto e a cognição estão inter-relacionados; por isso, a forma
com que o aprender afeta o indivíduo, fará diferença no desenvolvimento da
cognição. Para tanto, será necessário pensar em formas, com o auxílio da
neuroeducação, para modificar (pela neuroplasticidade) os caminhos neurais do
aprendizado da matemática.
A neuroeducação fornece bases essenciais para a compreensão de como
o cérebro processa e aplica habilidades matemáticas por meio das estruturas
cerebrais, neurotransmissores e processos cognitivos em interação, e com elas é
possível a realização de tarefas matemáticas das mais simples as mais
complexas.
Muitas áreas cerebrais estão envolvidas no desenvolvimento das
habilidades matemáticas, as quais permitem o uso de processos cognitivos
essenciais para o aprendizado, como a memória de trabalho, as funções
executivas e habilidades de estimativa, aspectos estes que serão aprofundados
posteriormente.
Atualmente, um aspecto preocupante são os resultados das pesquisas
internacionais e locais em relação à aprendizagem da matemática. Temos
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observado que o Brasil apresenta resultados muito abaixo do esperado para a
aprendizagem matemática (Lautenschlager; Freire, 2022).
Para compreender a complexidade desse aspecto, temos alguns
resultados apresentados no livro Neurociência e educação: diálogos possíveis, de
Lautenschlager e Freire (2022). Em seu capítulo 1, intitulado “Neurociência
cognitiva e educação matemática: um diálogo necessário na/para formação
docente”, as autoras, apresentam o seguinte panorama:
• Resultados do PISA 2018 (Programme for International Student
Assesment): Brasil apresenta baixa proficiência em matemática –
comparado a outros 78 países;
• Prova Brasil – prova aplicada no 5º ano do Ensino Fundamental I e no 9º
ano do Ensino Fundamental II: no 5º ano, apenas 39% dos estudantes têm
aprendizado adequado em matemática, e no 9º ano, o número cai para
14% (Lautenschlager; Freire, 2022).
Ao observar os resultados do Índice da qualidade da Educação Básica no
Brasil do Ideb de 2023, segundo uma reportagem de agosto de 2024, Bruno Alfano
descreve que 69% dos colégios estaduais de Ensino Médio ficaram nos mais
baixos níveis de desempenho em Matemática. No Ideb, as escalas vão do nível 1
ao 10 e, em 2023, das 14,2 mil escolas, 9,8 mil ficaram nos níveis 1 e 2, enquanto
outras 3,6 mil ficaram no nível 3 (Alfano, 2024).
Os três instrumentos de avaliação citados são:
• PISA é um estudo comparativo internacional, que acontece a cada 3 anos,
avaliando os domínios de leitura, matemática e ciências;
• A Prova Brasil é um instrumento brasileiro para avaliar o desempenho em
Língua Portuguesa e Matemática dos estudantes do 5º e 9º anos do Ensino
Fundamental;
• O Ideb, desde 2007, resume um indicador geral de aprendizagem por meio
do Censo Escolar e das médias nos desempenhos no Sistema de
Avaliação da Educação Básica (Saeb).
Para além do preconceito sobre a matemática ou dos resultados
insuficientes no ensino, sabemos que realmente, esta tem se apresentado como
uma disciplina difícil para boa parte dos alunos; por essa dificuldade, um erro
muito comum é o estudante passar horas a fio estudando, o que nem sempre
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funciona, pois o importante é ater-se à qualidade do estudo e não à sua
quantidade (Castro Filho; Meireles; Rebelo, 2016).
Para ilustrar, apresentamos uma reflexão que retiramos de Castro Filho,
Meireles e Rebelo (2016, p. 4) em referência a Plazzi (2007), do livro Aprendendo
inteligência:
Em seu livro PIazzi (2007), afirma que o cérebro humano lembra, num
certo sentido, a arquitetura de um computador: é como se tivesse uma
memória RAM e um HD. Assim, praticamente todas as informações que
absorvemos durante o dia são colocadas em nosso RAM, porém, além
de volátil, é muito pequena. Consequentemente, no fim do dia, o cérebro
sente a necessidade de “resetar”, por isso sentimos sono e
adormecemos. Durante o sonho, é feita a “manutenção” do cérebro, e
também é nessa hora que boa parte do conteúdo da RAM é jogada fora
e essas informações jamais serão recuperadas. Porém, se houve um
preparo prévio durante o sono profundo, uma pequena fração da RAM é
enviada ao córtex, reconfigurando redes neurais e, sendo assim,
gravando de forma permanente. É nesse momento que ocorre o “salvar”.
Vale ressaltar que a decisão do que vai ser descartado pelo cérebro é
tomado com base na carga emocional, associada a cada fragmento de
informação e não a carga racional. Em outras palavras, o seu dia
influencia bastante, por exemplo, se ao receber uma informação durante
o dia, o fez de maneira alegre, prazerosa ou até muito triste, trágica, a
emoção a ela fará com que durante o sono noturno ela seja gravada de
forma permanente. Entretanto, se a informação foi recebida com
indiferença, tédio, de maneira a não o abalar nem positiva, nem
negativamente, com certeza será descartado durante a noite. É por esse
motivo que muitos alunos não aprendem o assunto abordado em sala de
aula, principalmente a matemática [...].
De que forma podemos, então, utilizar a neurociência para olhar com mais
profundidade a aprendizagem matemática? Vamos conversar sobre isso.
5.1 Neuroeducação e habilidades matemáticas
Desde muito pequenos temos contato com o mundo dos números, e é na
escola que sistematizamos esses conhecimentos e temos a possibilidade de
formalizar os conceitos matemáticos. Contudo, para a criação desses conceitos,
precisamos de três aspectos em correlação: os aspectos neurológicos, as
questões emocionais e os elementos do ambiente, considerando a maturidade
cerebral (Atagiba; Silva, 2022).
Para isso, consideramos dois tipos de habilidades: as primárias e as
secundárias. As primárias se referem ao núcleo de sistemas que caracterizam a
mente, e as secundárias partem dessas estruturas primárias e são aprimoradas
pela experiência dos indivíduos em seu meio pela cultura (Atagiba; Silva, 2022).
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• Habilidades primárias: discriminação dos números, estimativas e
subitizações3;
• Habilidades secundárias: ordenação de elementos, resolução de
problemas, contagem verbal, geométrica e algébrica (Atagiba; Silva, 2022).
Em resumo, podemos considerar que as habilidades primárias têm relação
mais direta com o senso numérico, em que as crianças, por meio de interação
espontânea com o mundo, aprendem intuitivamente, enquanto as secundárias
são mais específicas e precisam de intervenção intencional para o aprendizado,
sendo conceitos criados pelas necessidades histórico-culturais da humanidade
(Atagiba; Silva, 2022).
Considera-se, portanto, que o raciocínio matemático no desenvolvimento
das habilidades matemáticas se dá desde o sistema primário do senso numérico
ao sistema secundário como aprendizagem formal (Atagiba; Silva, 2022).
Ademais, de acordo com Cardoso e Muszkat (2018, citados por Atagiba; Silva,
2022), o desenvolvimento das habilidades matemáticas passa por três etapas:
1. Senso numérico: reconhecimento e comparação de pequenas
quantidades, somas e subtrações, subitização e a estimativa.
2. Processamento numérico: a compreensão numérica (natureza dos
símbolos numéricos e a quantidade) e a produção numérica (escrita, leitura
e contagem de números e objetos).
3. Cálculo numérico: uso dos símbolos operacionais, palavras, procedimentos
e regras de cálculos, fatos aritméticos básicos de memória de longo prazo,
como a tabuada.
Com base nessas três etapas, é essencial analisar como auxiliar os
estudantes a passar por elas de forma intencional e guiada, além de observar as
dificuldades em etapas anteriores, que podem prejudicar a forma com que o aluno
se relaciona com a etapa seguinte. Por exemplo: se o estudante não tem domínio
sobre a compreensão numérica, como irá desenvolver aspectos aritméticos?
Para isso, o professor precisará trabalhar várias habilidades matemáticas,
o pensamento dedutivo, a correspondência, a seriação, o valor posicional etc.
(Atagiba; Silva, 2022), de modo que o estudante possa sair de um pensamento
intuitivo para um pensamento dedutivo.
3Subitizações: Discriminação de números de 3 ou 4 elementos, e pequenas alterações de
acréscimo ou retirada.
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Em conteúdos futuros, olharemos com mais profundidade para esses
aspectos do raciocínio lógico-matemático no ensino.
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REFERÊNCIAS
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