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História do Brasil Imperial

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HISTÓRIA DO

BRASIL IMPÉRIO

Nilton Silva Jardim Junior


A construção do
Estado Imperial
Objetivos de aprendizagem
Ao final deste texto, você deve apresentar os seguintes aprendizados:

„„ Identificar as condições e os fatores da consolidação da Independência.


„„ Descrever os processos de elaboração da Constituição brasileira e as
divisões do Poder.
„„ Explicar as origens e a atuação dos principais grupos políticos.

Introdução
Para construir uma análise histórica minimamente rigorosa, é necessário
ter um olhar de Janus (deus grego com duas faces: uma olhando o futuro
e outra o passado), observando os antecedentes e os desdobramentos
de determinado acontecimento para compreender como se consolidam
determinadas mudanças na História. Assim, também se dá com a constru-
ção do Estado Imperial Brasileiro. Para ter o real entendimento de como
ela se desenrolou, é preciso recuar um pouco e analisar como se deu o
desenvolvimento das condições para a independência para, a partir de
então, compreender como foi formado. Assim, devemos fazer um breve
recuo, fazendo uma rápida retrospectiva de nossa história, concentrando-
-nos em como se processou e se consolidou a independência do país, a
fim de compreendermos como o Estado Imperial se constituiu.
2 A construção do Estado Imperial

1 Condições e fatores da consolidação da


Independência: construção de um país
Durante o histórico da colonização portuguesa no Brasil, nossa terra cumpriu
com a tradicional função de todas as colônias: ser basicamente um misto de for-
necedor de matéria-prima e mercado consumidor, devidamente garantidos pelo
pacto colonial e pela presença de autoridades metropolitanas. Nesse ínterim,
foi adotado o sistema de plantation (latifúndios exportadores, monocultores e
escravistas), tendo o açúcar como principal produto. Até o século XVIII, com
exceção das disputas pró-controle de território com outras potências europeias
(que ganharam algum apoio de povos nativos, como o caso dos franceses, ou de
colonos insatisfeitos com a metrópole, como os holandeses no Nordeste), não
houve notícia de qualquer tentativa de revolta separatista ou independência.
Porém, com a descoberta do ouro em Minas Gerais, essa situação mudança.
A partir da Inconfidência Mineira, gradativamente se via uma modificação
com a ocorrência de uma ou outra revolta separatista, embora rapidamente
reprimidas pela metrópole. Somente a partir do início do século XIX veremos
uma mudança-chave que dará início ao processo de independência: a chegada
da Família Real ao país em 1808.
Com as guerras napoleônicas, o Bloqueio Continental e a iminência de as
tropas leais à França invadirem Portugal, a corte portuguesa se mudou para
o Brasil com apoio da Inglaterra. Uma vez feita a mudança, como parte de
honrar o acordo com a Coroa Britânica, o príncipe regente Dom João elevou o
Brasil à categoria de Reino Unido de Portugal e Algarve, abrindo os portos às
nações amigas. A elevação do Brasil e o consequente fim do exclusivo colonial
no país não apenas beneficiaram os ingleses, como também os comerciantes
brasileiros, ainda que não tenham agradado os portugueses. Mesmo com o
fim das guerras napoleônicas em 1817, a família permanecia aqui, passando
a crescer um sentimento de revolta na metrópole, que acabou por se materia-
lizar na Revolução Liberal do Porto, em 1820. De acordo com Fausto (2006),
esses revolucionários estavam passando por situação de crises múltiplas em
Portugal: crise política por conta da ausência da corte e de órgãos do governo,
crise econômica causada parcialmente pelo fim do exclusivo colonial do Brasil
(vale ressaltar que há tempos o Brasil era a colônia mais rica do Império
Ultramarino Português) e crise militar pela presença de oficiais ingleses que
fazia com que os oficiais portugueses fossem preteridos nas promoções para
as patentes mais altas (lembrando que o marechal inglês Beresford foi quem
A construção do Estado Imperial 3

comandou o conselho de regência e exército português na ausência de Dom


João e das cortes). Apesar de o foco principal ser Portugal, a revolução chegou
ao Brasil, nas cidades de Salvador, de Belém e do Rio de Janeiro, obrigando o
rei Dom João VI a realizar algumas reformas políticas e até mesmo convocar
eleições indiretas para as Cortes.

William Carr Beresford (Figura 1) foi um político e militar anglo-irlandês encarregado


não só da administração de Portugal e do comando do exército português durante a
estadia das cortes no Brasil, mas também por compatibilizar a estrutura administrativa
e hierárquica do mesmo exército com a das tropas inglesas. Após sua deposição
pela revolução liberal (1820) e sua malograda tentativa de retornar a Portugal (1826),
continuou sua carreira na política e nas forças armadas britânicas.

Figura 1. William Carr Beresford, por Sir William Beechey (1815).


Fonte: Dcoetzee (1815, documento on-line).
4 A construção do Estado Imperial

Contudo, uma parte das reivindicações da corte entraria em choque com os


interesses brasileiros. Baseada em duas ideias (acabar com o despotismo em
Portugal e restaurar a soberania monárquica de Portugal), esta revolução tinha
como palavras de ordem “Cortes e Constituição” (SCHWARCZ; STARLING,
2005) para destacar tanto seu apreço pela soberania das cortes em detrimento
do poder absoluto dos reis quanto a supremacia de Portugal sobre as colônias,
em especial o Brasil. Como parte dessa reinvindicação, estavam a imposição
do retorno imediato do Rei Dom João VI e a volta do Brasil à sua categoria
inicial de colônia e todas as limitações que isso implicava. E foi nesse ponto
que começou a tensão com o Brasil — por mais que atendesse também aos
interesses de alguns portugueses residentes no Brasil, que se beneficiaram
desse retorno, como burocratas, militares de alta patente e alguns comerciantes,
no geral isso representaria um retrocesso para o país.

Cortes Gerais e Extraordinárias da Nação Portuguesa


Criadas na sequência da Revolução Liberal do Porto (1820), as Cortes Gerais e Extraordi-
nárias da Nação Portuguesa (também conhecidas como Cortes Constituintes de 1820
ou Cortes Constituintes Vintistas) foram o primeiro parlamento (no sentido moderno
do termo) da história de Portugal. Surgiram como adaptação das antigas Cortes Gerais
(uma antiga assembleia de caráter consultivo e dividida pelas três ordens feudais:
clero, nobreza e o povo), porém sem a tripartição original. Reunidas para aprovar uma
constituição para Portugal, elas contavam não só com representantes da Metrópole,
mas também do Brasil e de Algarve. Para maiores informações, consulte o capítulo
“Revolução do Porto e a volta da Família Real para Portugal” (MEIRELLES, 2015) do livro
A família real no Brasil: política e cotidiano (1808-1821).

No cabo de guerra entre as cortes portuguesas e os demais interessados na


manutenção da condição colonial brasileira e as elites do país que desejavam
esse retorno, o segundo grupo gradualmente ganhou, em parte por conta do
temor da própria família real portuguesa de que acontecesse com o Brasil
algo similar ao que já ocorrido em diversos pontos da América desde o final
A construção do Estado Imperial 5

do século XVIII: várias colônias desfizeram seus laços com a metrópole,


muitas vezes com a fragmentação de seu território anterior, como aconteceu
com as ex-colônias espanholas. Assim, conforme Schwarcz e Starling (2005),
a monarquia constitucional se tornou uma alternativa viável para que a inde-
pendência se desse sem o risco de a colônia se fragmentar ou perder totalmente
o vínculo com Portugal. Como parte desse processo, D. João VI retornou com
sua família à metrópole deixando seu primogênito como príncipe regente do
país, o que não agradou totalmente as Cortes e, também, o grupo de grandes
proprietários rurais, burocratas e membros do Judiciário nascidos no Brasil,
conhecidos como “Partido Brasileiro” (FAUSTO, 2006) e que, apesar de não
ser um partido formal, pelo menos era uma corrente de opinião de grande
influência nos altos círculos da época. Além da pressão pela volta da Família
Real, o fato de as cortes se reunirem e tomarem decisões antes da chegada dos
deputados brasileiros também representou outro fator de desagrado.
Com a permanência de Dom Pedro no país (ratificado no dia 9 de janeiro
de 1822, o “dia do fico”) e uma série de atitudes de ruptura (como o fato de
retirar tropas portuguesas do Brasil que não juraram lealdade), além dos
interesses das elites brasileiras, havia outro jogador que não gostava da ideia
da volta do Brasil à condição de colônia: a Inglaterra. Beneficiada pelos
acordos comerciais promovidos após a abertura dos portos às nações amigas
(SCHWARCZ; STARLING, 2005), a maior potência naval (econômica e in-
dustrial) da época não estava disposta a ceder. Não por acaso, uma das figuras
centrais nas batalhas da guerra de independência após a recusa de Dom Pedro
retornar foi o militar e mercenário inglês Thomas Cochrane.
Com a independência consumada, o que foi desde importantes vitórias
navais, pagamento de uma indenização a Portugal e assinatura da nossa
declaração por parte dos Estados Unidos, Portugal e Inglaterra, surgia a
necessidade de inventar um país naquele momento, o qual, até bem pouco
tempo, era um aglomerado de colônias muitas vezes concorrentes entre si.
Para isso, não somente era preciso criar símbolos e narrativas que servissem de
elemento de unidade, mas também estruturas práticas, como uma constituição
e uma estrutura completa de governo. Isso se deu com a Constituição de 1824,
a qual, porém, acabou representando o primeiro grande ponto de atrito entre o
imperador Dom Pedro I e um importante grupo que lhe apoiou: a elite brasileira.
6 A construção do Estado Imperial

Thomas Cochrane
10º Conde de Dundonald e Marquês do Maranhão, Thomas Cochrane (Figura 2) foi
um militar, político e nobre inglês que teve grande importância em batalhas pela
independência do Brasil, do Chile e da Argentina. Chamado de Loup de Mer (“lobo do
mar”, em francês), Cochrane atuou com bravura nas guerras napoleônicas e foi eleito
membro do parlamento inglês. Porém, após um escândalo na bolsa, ele foi expulso
em 1814, retornando à Marinha.
Após ter ido participar da independência do Peru, em 1817, e, posteriormente,
do Chile, Cochrane foi lutar pelo imperador D. Pedro I, ajudando tropas as independen-
tistas brasileiras entre 1821 e 1825. Posteriormente, lutou na independência da Grécia
(1827 a 1828), retornando ao Reino Unido em 1830. Para obter maiores informações,
leia o artigo “Memórias cartaginesas: modernismo, antiguidade clássica e a historiografia
da Independência do Brasil na Amazônia, 1823-1923” (FIGUEIREDO, 2009).

Figura 2. Thomas Cochrane.


Fonte: Ramsay (1854, documento on-line).
A construção do Estado Imperial 7

Apesar de a independência do Brasil ter sido bem menos violenta do que as demais
que ocorreram na América Latina, também houve uma guerra de independência
no país. Mesmo após Dom Pedro I ter expulsado soldados portugueses que não lhe
juraram obediência, ainda ficaram tropas leais a Portugal no Brasil. Com isso, aconte-
ceram importantes batalhas navais em Montevidéu, no Rio de Janeiro, na Bahia e no
Maranhão. Para saber sobre uma dessas importantes batalhas (a Batalha de Jenipapo),
leia a tese Batalha do Jenipapo: reminiscências da cultura material em uma abordagem
arqueológica, de Carvalho (2014).

2 Processos de elaboração da Constituição


brasileira e as divisões do Poder:
um parlamentarismo à brasileira
Com a promulgação da Constituição de 1824, ficou materializado o primeiro
grande atrito do imperador com as elites do país, não apenas por conta do
seu caráter autoritário, que criava um quarto poder (Poder Moderador),
era prerrogativa exclusiva do imperador e lhe dava direito de veto em qualquer
decisão de qualquer poder e exclusividade em nomear senadores (que tinham
mandato vitalício), ministros e o conselho de Estado, como também, e prin-
cipalmente, o fato de ser fruto do desentendimento entre ele e a Assembleia
que votou a Constituição de 1823.
Apesar de a nossa primeira constituição ser a de 1824, outorgada pelo
Imperador, antes dela outra Carta Magna chegou a ser votada em assembleia,
embora dissolvida por Dom Pedro I. Apelidada de “Constituição da Mandioca”
(por conta do critério censitário para direito ao voto ou à candidatura para
deputado que fixava em uma renda mínima atual de 150 alqueires de farinha
de mandioca), a lei resultante da votação de 1823 demonstrou tanto a divisão
existente na elite quanto o grande poder das elites agrárias. De acordo com
Schwarcz e Starling (2005), um dos principais pontos que teria desagradado
o imperador (e seus aliados do Partido Português, um grupo formado basica-
mente por altas patentes militares, burocratas e comerciantes que defendiam o
retorno do Brasil ao Império Português) fora a supremacia do Legislativo sobre
o Executivo, visto que o imperador não poderia dissolver a futura Câmara dos
Deputados, nem ter veto absoluto ou negar a validade de qualquer lei aprovada
8 A construção do Estado Imperial

pela Câmara, conforme aponta Fausto (2006), além da proibição quanto à


participação de estrangeiros na política brasileira, seja como eleitores, seja
como deputados ou senadores. Para além da questão xenofóbica que afetava
os principais aliados do Imperador (incluindo seu ministro José Bonifácio de
Andrada), não interessava a ele ter tais amarras estabelecidas pelos deputados.
Porém, faz-se necessário um parêntese aqui para que fique esclarecer
sobre quem era a elite política e econômica do país na época. A primeira
coisa que é preciso ter em mente reside no fato de que essa elite estava longe
de ser um grupo homogêneo — nem dentro dos próprios grupos havia 100%
de consenso. Um bom exemplo disso era o Partido Brasileiro, visto que, por
mais que concordassem em manter os benefícios mercantis, burocráticos e
financeiros obtidos desde a emancipação do país em 1808 (MATTOS, 2004),
não havia consenso entre eles em vários outros pontos. Essa discórdia ganhava
materialidade em dois grandes grupos: os liberais exaltados, que defendiam
mudanças mais profundas, como adoção do sistema federalista, a separação
da Igreja do Estado, o incentivo à indústria nacional, o sufrágio universal,
a emancipação gradual de escravos e, em alguns casos, a implantação de uma
República democrática; e os moderados, que, como o próprio nome denuncia,
não se interessavam em mudanças tão profundas, e sim em um projeto de
monarquia constitucional que limitasse os poderes do Imperador, mas sem
fazer grandes transformações no status quo.
Os principais grupos políticos da assembleia constituinte de 1823 con-
sistiam em:

„„ liberais exaltados, a favor de mudanças radicais na sociedade;


„„ liberais moderados, a favor da monarquia constitucional, mas sem
grandes mudanças;
„„ partido português, a favor do retorno do Brasil à condição de colônia
e ao império português.

Após dissolver a assembleia constituinte, Dom Pedro elaborou uma cons-


tituição em 1824, a qual, como aponta Mattos (2004), estabelecia uma clara
hierarquia entre os poderes, colocando o já citado Poder Moderador no topo,
dentro de uma ideia que não era exatamente novidade. Conforme Lynch
(2010), Benjamin Constant já defendia essa questão em sua obra Princípios
políticos, a de ter um quarto poder que servisse como um moderador entre
os três, impedindo que estes se entrechocassem. Por mais que, na prática,
Dom Pedro I o tenha utilizado como uma maneira de fazer uma espécie de
A construção do Estado Imperial 9

“parlamentarismo absolutista”, a ideia original era muito diferente. Influen-


ciado também pelo liberalismo em alta na época e pelo clima da restauração
após o fim das Guerras Napoleônicas, Constant tentava com a ideia desse
quarto poder estabelecer uma reconciliação entre monarquia, democracia
e liberalismo. Para isso deveria ter um duplo controle tanto dos poderes do
Estado quanto do povo: “Assim sejam preservadas, também a soberania do
povo deve ser limitada, pois acima do Estado e do povo estariam os direitos
fundamentais do homem moderno [...]” (LYNCH, 2010, p. 95).
Em sua proposta, ele fazia basicamente uma crítica ao Espírito das leis,
de Montesquieu, e uma remodelação do Parlamento inglês, dando ao rei po-
deres políticos por meio da criação desse quarto poder mediador em relação
aos demais.
Assim, em 25 de abril de 1824, foi outorgada a nossa primeira Constitui-
ção, na qual ficavam estabelecidos quatro poderes: Legislativo, Executivo,
Judiciário e Moderador. O Legislativo foi dividido em duas câmaras: Câmara
dos Deputados, de eleição temporária, e o Senado, de eleição vitalícia. Porém,
a eleição para o Senado obedecia a um mecanismo diferente, em que cada
província elaborava uma lista tríplice, a partir da qual o Imperador escolheria
um nome. Os presidentes de províncias e prefeitos (representantes do Executivo)
ficavam a cargo do Imperador. Com todas essas prerrogativas, ficava evidente
que o Imperador tinha controle sobre basicamente todas as instâncias da vida
política, o que minava bastante o poder das elites do país. Por mais que o poder
dessas elites ficasse evidente principalmente na maneira como as eleições se
organizavam (de forma censitária e em vários níveis, todos de acordo com
a produção em alqueires de mandioca), o Poder Moderador e todas as suas
prerrogativas em nomear ministros, presidentes, etc. limitavam bastante a sua
ação. Assim, durante o Primeiro Reinado o imperador e a Câmara dos Depu-
tados ficaram o tempo todo em rota de colisão, a qual extrapolou as paredes
da Câmara e se manifestou em uma série de confrontos entre o imperador e
as elites (principalmente no Nordeste), como revoltas separatistas.

Para entender melhor sobre a questão do Poder Moderador na Constituição de 1824,


leia O Poder Moderador na Constituição de 1824 e no anteprojeto Borges de Medeiros de
1933, de Lynch (2010).
10 A construção do Estado Imperial

3 Origens e atuação dos principais


grupos políticos
Para entender as origens e formas de atuação dos nossos grupos políticos,
é necessário retornar ao nosso passado colonial, visto a impossibilidade de
realizar uma análise minimamente honesta sem falar desse passado escravista
e agrário.
A principal característica da nossa elite do Primeiro Reinado até a República
Velha era justamente uma elite originada diretamente da maneira como se es-
tabeleceu a nossa colonização. Nossa elite e nossos principais grupos políticos,
como já dito, foram resultados das plantations trazidas pelos portugueses e da
burocracia, das forças militares e de todos os aspectos da nossa colonização.
A própria divisão do que era o “Partido Português” e o “Partido Brasileiro”
mostrava isso: de um lado, comerciantes, burocratas e militares portugueses,
e, de outro, desde grandes fazendeiros até os chamados “estratos médios
urbanos”, como advogados, comerciantes ajustados à realidade do comércio
livre pós-emancipação e investidores de terras e propriedades urbanas. Nesse
contexto, o clero também ocupava uma parte importante, assim como a ma-
çonaria, que reunia muitos dos grupos do “Partido Brasileiro”.
A nossa história representa um papel importante na composição da nossa
elite e na sua forma de atuação. De uma forma ou de outra, principalmente
quando falamos de Brasil Império e Colônia, nossa elite está sempre atrelada
à terra e à metrópole. Parte das limitações de ser uma colônia portuguesa
consistia na limitação de ter universidades. Então, os poucos que tinham
condição de colocar os filhos para estudar em uma universidade (o que, mesmo
na Europa, era algo bem raro antes do século XX) eram justamente os filhos
dessa elite fundiária ou os poucos que lucravam com o comércio colonial ou,
no caso específico de Minas Gerais, aqueles que ganharam com a minera-
ção. Não por acaso, nossa primeira revolta separatista unia esses elementos,
idealizada por fazendeiros, mineradores e membros da Igreja temerosos do
efeito da derrama (violenta cobrança das dívidas daqueles que não atingiram
as cotas de produção de ouro), com as ideias trazidas pelos filhos da elite
que estudaram na Europa influenciados, por sua vez, pelo iluminismo e pela
Revolução Francesa.
A Igreja também teve um papel importante como elemento mobilizador
dessa elite, muitas vezes atuando como uma agregadora, até mesmo com cau-
sas populares. Em uma época de acesso ao conhecimento restrito e reduzida
mobilidade social (lembremos que as regras feudais ainda valiam nas colônias,
A construção do Estado Imperial 11

o que resultava em uma sociedade estratificada, na qual o nascimento desem-


penhava um papel fundamental), a Igreja poderia tanto representar uma forma
de ascensão social quanto de acesso ao conhecimento, por mais que até mesmo
a ordenação tivesse o dote como fator limitador. De qualquer forma, o clero
secular sempre teve uma proximidade maior com o povo, desde os tempos da
catequese de nativos, embora muitas vezes circulasse entre a elite. Por mais
que em casos como a escravidão dos nativos, igreja e fazendeiros já tivessem
ficado de lados opostos, em outros episódios, como a já citada Inconfidência
Mineira e a Confederação do Equador (Pernambuco, 1824), setores do clero
se mostraram favoráveis às causas das elites, agindo até mesmo de forma
destacada, como Frei Caneca.
A própria Confederação do Equador foi a primeira em uma série de revoltas
que surgiram após a aprovação da Constituição, mostrando uma velha tradição
de nossas elites — o fato de se organizarem em torno de seus interesses em
comum para lutar contra o poder central.

Para entender melhor sobre a importância de Frei Caneca na Confederação do Equador


e sua trajetória, leia Pacto social e constitucionalismo em frei Caneca, de Bernardes (1997).

Podemos dizer que essa tradição já havia começado com a conquista de


Pernambuco pelos holandeses e com a própria volta do Nordeste ao controle de
Portugal (ambos os eventos com participação ativa dos fazendeiros da região),
com continuação com a Inconfidência Mineira e outras revoltas, principalmente
no Nordeste, e, após a outorga da Constituição de 1824, até pouco depois da
coroação do Dom Pedro II e o Golpe da Maioridade, atravessando todo o
Primeiro Reinado e o Período Regencial (1831–1840).
É bom relembrar que esses grupos estavam longe de serem homogêneos
e condicionados pela conjuntura histórica, já que, mesmo com uma origem
comum fundiária ou ligada à metrópole como constante, no decorrer de nossa
história e com o avanço da urbanização, essa elite foi ganhando novos contor-
nos, principalmente após a chegada da Família Real (1808), ficando evidente na
Assembleia Constituinte de 1823 e na reação que gerou nas elites nordestinas.
12 A construção do Estado Imperial

Essa reação da elite nordestina é um bom exemplo desses novos ventos


da história e do seu impacto. Originariamente a região mais rica do país,
o Nordeste já vinha sofrendo sérios revezes desde a expulsão dos holandeses
(1645), quando estes levaram mudas de cana para as Antilhas, forçando uma
queda no preço do açúcar, somado à descoberta do ouro em Minas (1697),
a transferência da capital para o Rio de Janeiro (1763) e a chegada da Família
Real e sua mudança para o Rio de Janeiro depois de ter desembarcado em
Salvador (1808).
A Constituição de 1824 representou mais um golpe na queda de braço entre
as elites e o governo central, que se viam como representantes de interesses
locais e não nacionais, pois o país nascera recentemente e ainda sob chefia do
herdeiro da coroa metropolitana. Vale lembrar que a Inconfidência Mineira,
a Conjuração Baiana, a Insurreição Pernambucana (1818) e a própria Confe-
deração do Equador, além de revoltas posteriores como a Guerra dos Farrapos
(1835–1845), tiveram alcance bem reduzido, mesmo porque não havia ainda
um sentimento de nacionalidade. Conforme já dito, até a independência,
o Brasil não passava de um amontoado de colônias muitas vezes concorrentes
entre si, e o fato de ter um monarca herdeiro da metrópole como governante,
uma constituição que lhe dava grandes poderes e a sua base de apoio ser
formada por compatriotas de Portugal que tinham como principal projeto
a volta do Brasil à sua condição na pré-emancipação não ajudava em nada.
O país acabara de nascer e ainda não definira sua identidade.
Assim, conflitos não faltaram dentro e fora do Parlamento, que se espa-
lharam por todo país e que custaram o posto do monarca, um assunto que já
fica para um próximo capítulo.

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A construção do Estado Imperial 13

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14 A construção do Estado Imperial

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