Arthur Napoleão
Arthur Napoleão
Resumo O presente trabalho propõe uma análise das práticas pianísticas do séc. XIX,
integrando-as numa sociedade caracterizada pela ascensão da burguesia.
Após uma descrição da sociedade burguesa da cidade do Porto na segunda
metade do séc. XIX, descreveremos a carreira do pianista-compositor Arthur
Napoleão. Conclui-se este trabalho com uma análise dos Estudos op. 90,
numa tentativa de chamar à colação este compositor, visando demonstrar a
utilidade artística e pedagógica da sua obra.
Keywords Musical practices of the Romantic Era. Virtuosity and improvisation.
The musical salons of ninetheenth-century.
Abstract The present work intends to analyse the musical practices of the bourgeoisie of
the ninetheenth-century. The analysis is carried out on the testimony of the
pianist and composer Arthur Napoleão. His career will be described. As
composer he left the Études op. 90 and it is our aim to call the attention to the
artistic and pedagogical interest of this composition. An analysis of this work
will be done.
Índice
Introdução ..................................................................................................................................... 1
A) Razões justificativas do estudo de Arthur Napoleão ............................................................ 4
B)Arthur Napoleão na Historiografia Musical ........................................................................... 5
Capitulo I
Conclusão .................................................................................................................................... 94
Bibliografia e Fontes .................................................................................................................... 98
Fontes Manuscritas ................................................................................................................. 98
Fontes Impressas..................................................................................................................... 98
Periódicos ................................................................................................................................ 98
Autores e obras ....................................................................................................................... 99
Referências Eletrónicas ......................................................................................................... 102
Anexos ....................................................................................................................................... 104
Introdução
A investigação centra-se na figura de Arthur Napoleão, pianista nascido na cidade do
Porto, em 1843. Tendo um pendor biográfico, o presente trabalho não se esgota nessa
intenção. Através do percurso de Arthur e de acordo com a visão desse artista,
poderemos entender melhor uma época e, de algum modo, reconstruir a maneira como
determinadas camadas sociais viviam e se relacionavam. Não querendo ser demasiado
ambicioso, parece-me que parte dos valores, que ainda hoje a nossa sociedade suporta,
são herdeiros de costumes e crenças que foram construídos nesse tempo e descrever
esses hábitos é como procurar as fundações da nossa atual sociedade. O testemunho de
Arthur Napoleão é precioso pelos acontecimentos que presenciou e pelas personalidades
com que se cruzou no seu percurso de vida.
Este trabalho não visa uma mera enumeração de factos/acontecimentos e datas. Embora
essa vertente esteja presente, será, pois, a descrição de ambientes e de pessoas no seu
pulsar diário – naturalmente integradas num contexto – que servirá de escopo à
investigação. Começaremos por abordar a cidade do Porto no tempo de Arthur
Napoleão, tentando entender como é que Portugal e, particularmente, a cidade do Porto
viveram e receberam o Romantismo, na segunda metade do séc. XIX. A construção de
uma nova sociedade burguesa que se erguia contra a velha e arruinada nobreza, com a
adoção de novos hábitos de vida, padrões de comportamento e consumo, serão também
objeto de análise. É, pois, um mundo em mudança visto na perspetiva e através da
música.
Acompanhar as tournées de Arthur será uma janela que se abrirá de seguida. Serão
descritas várias cidades e diferentes países onde Arthur, além de ter tocado, teve
oportunidade de conhecer as pessoas mais influentes do seu tempo, quer do ponto de
vista político, quer do ponto de vista artístico e intelectual. A naturalidade e
simplicidade com que Arthur Napoleão nos fala dos seus encontros com as maiores
personalidades da sua época, quer nacionais quer internacionais, são tocantes e dignos
de nota.
Concluiremos com a análise do trabalho, nos seus variados aspetos, realizado por
Arthur Napoleão no Brasil. Teremos a sua faceta como pianista virtuoso, como
compositor e homem de negócios. Veremos o seu dinamismo como organizador de
1
concertos e editor. A ele se deve a publicação das obras dos mais importantes
compositores brasileiros dessa época, além de ter divulgado no Brasil obras de
compositores europeus emergentes. Foi ele a ponte entre o velho mundo romântico
europeu e a nova música brasileira. Um homem que atravessou o II Império no Brasil e
assistiu à criação da República e que foi condecorado e acarinhado por todos os regimes
é um fenómeno raro. A ele se deve a introdução do jogo de xadrez no Brasil. Foi um
dos maiores jogadores do seu tempo, tendo criado e colaborado com as maiores revistas
da época.
Durante a sua vida encontramos muitas referências a este pianista em jornais e revistas
de crítica musical. O tom elogioso é uma constante, quer na sua fase de menino-
prodígio, quer mais tarde, enquanto pianista virtuose. Os círculos que frequentou, os
eventos que organizou ou onde se apresentou como pianista e os países que percorreu
em tournée atestam uma longa carreira internacional de grande sucesso. Apesar de ter
gozado de grande notabilidade em vida, após a sua morte, em 1925, foi votado ao
esquecimento.
Penso ser importante perceber as razões que motivaram esse esquecimento, na medida
em que, paradoxalmente, são as mesmas que justificam o seu estudo e a evocação da
sua memória. A memória é, por vezes, atraiçoada pela maneira como a história se
constrói. Um dos motivos que conduziram a esse esquecimento prende-se com o facto
de a obra de Napoleão ter sido retirada dos programas dos Conservatórios1, isto é,
deixou de fazer parte do ensino formal do piano. Esse abandono foi-lhe funesto, pois o
papel que os Conservatórios têm como repositório da nossa memória musical coletiva é
de primordial importância. A questão que devemos de imediato colocar é essa. Porque é
que a obra de Napoleão foi retirada do ensino formal do piano? Arthur Napoleão é um
digno representante das práticas pianísticas do seu tempo. A sua obra exprime essa
relação, remetendo-nos para a música de entretenimento de salão do séc. XIX, nas
várias vertentes que este conceito adquiriu (o salão aristocrático, o salão burguês e o
pseudo-burguês). Há obras desse autor que escapam a essa lógica, mas digamos que
essa imagem de marca se generalizou. Esta vertente é recusada nos Conservatórios que
1
Isso passou-se após a morte do compositor. Na autobiografia Arthur diz: (…) As minhas composições,
tive eu ocasião de ouvir nos cursos de piano do Conservatório.
2
tentam reproduzir sempre o que de melhor se fez em termos artísticos, em determinada
época. Isso não quer dizer que as obras e os compositores selecionados pela lógica dos
Conservatórios reflitam o quotidiano das práticas musicais dessa época. Só que a
integração das obras de um autor nas práticas musicais e sociais de uma época não é
uma prioridade dos Conservatórios, visto que o que poderemos chamar uma Sociologia
da Música não é uma área privilegiada no plano dos estudos formais de piano.
Há também outro aspeto que poderá contribuir para explicar o abandono da música de
Napoleão: O modelo de artista protagonizado por Arthur Napoleão, tendo as suas raízes
bem fundas no séc. XIX, tem como figura típica o pianista-compositor que tinha uma
dupla função: por um lado, era uma figura de entretenimento, tocando obras mais
superficiais que estavam na moda3, mas, além disso, tinha em repertório as grandes
obras da música erudita do seu tempo. Na sua visita a Liszt, Napoleão executou o
Galope Cromático deste compositor, obra essa que ainda hoje faz parte do repertório
erudito. A sua ligação à obra de Chopin está bem expressa nas observações que ele nos
deixou aquando da sua visita à casa da Senhora Rosen, em Varsóvia4. Napoleão
conheceu e privou com discípulos de Chopin e de Liszt. A lista de grandes compositores
com os quais se cruzou é imensa. O seu conhecimento do repertório erudito é,
poderemos dizer, avassalador. Se, por vezes, encontramos alguma superficialidade em
2
CAZARRÉ, M. (2003)
3
O conjunto de obras musicais de A.N. no género “música de salão” é extenso, não sendo objectivo desta
trabalho analisar essa vertente do autor.
4
Conferir pág. 35 deste trabalho.
3
Napoleão, teremos que ver que esse era um modelo imposto pelas modas do momento a
que ele se submeteu e, convenhamos, com grande eficácia e sucesso.
Este modelo não resistiu às mudanças que o séc. XX impôs. A invenção do gramofone e
o desenvolvimento técnico e científico, trazido pelo séc. XX, suportaram e
desenvolveram uma indústria de música de entretenimento sem precedentes. A
massificação musical imposta pelas grandes produtoras musicais criou um novo
paradigma e um outro perfil de artista. Assistiu-se a uma separação entre a música de
entretenimento, nas suas mais variadas facetas, e a música erudita. O modelo de
Napoleão, enquanto artista na duplicidade em que ele se movimentava, tornou-se
obsoleto, de um momento para o outro.
5
de ter sido amigo pessoal deste artista, colaborou e tocou com ele em concertos de
música de câmara. Isso explica os termos laudatórios usados para falar de Arthur
Napoleão. Ele exalta o seu virtuosismo e elegância, tanto nas suas interpretações a solo
como na sua colaboração em grupos de música de câmara. Salienta, ainda, a sua enorme
facilidade de leitura à primeira vista.5Conclui a sua análise chamando a atenção para a
lucidez que Arthur conservava e para a frescura técnica exibida, apesar da avançada
idade6. Freitas Branco na sua História da Música Portuguesa diz (…) Arthur Napoleão
(outro portuense de ascendência estrangeira), nascido em 1843, foi menino-prodígio
aplaudido em grandes meios europeus. Liszt elogiou-lhe os dotes de pianista.
Meyerbeer apresentou-o na corte da Rússia. (…) O seu mérito de compositor não se
igualou ao de executante.7 Mais uma vez encontramos uma referência à presença de
Arthur Napoleão na corte Russa. Como já foi dito anteriormente, não há nenhuma
informação nesse sentido, contida na autobiografia. No papel que Napoleão representa
de pianista-compositor, de acordo com o modelo seguido no séc. XIX, Freitas Branco
põe em destaque o seu desempenho como pianista virtuose. Ao que parece, Freitas
Branco não é um entusiasta da obra de Napoleão. No mesmo sentido, diz-nos Sanches
de Frias,8
Arthur Napoleão deixará obra mais sólida nas suas composições
musicaes, que de há muito correm mundo. Essas porêm não fôram a
causa que deu celebridade ao menino-fenómeno, que aos seis anos
tocava em público e aos sete incompletos efectuava o seu primeiro
concerto; a sua alta reputação deveu-se ao piano, cujo éco sonoro
terminará, quando os dedos do homem se imobilizarem.
Nos últimos anos recrudesceu o interesse por Arthur Napoleão. Os trabalhos publicados
acerca deste autor nos últimos dez anos afastam-se um pouco da abordagem, digamos,
5
O próprio Arthur Napoleão na sua autobiografia(1907:386) refere essa facilidade de leitura. (…) Em
anos atrasados (1883) almoçávamos frequentemente juntos com Stephen Heller. Este notável compositor
era bondoso e simples no seu modo de tratar. Afeiçoou-se a mim desde o dia em que apresentando-me
uma nova sonata de sua composição, eu a li ao piano com a maior facilidade.
6
A obra de Cernicchiaro foi publicada em 1926, mas este artigo foi escrito ainda em vida de Arthur
Napoleão.
7
Branco,J(1992:145)
8
Frias, 1913, p. 11
6
mais tradicional, que se situa no estudo do binómio pianista-compositor, nos termos
anteriormente descritos. A investigação mais atual relaciona-o com as práticas
pianísticas do séc. XIX, usando a figura de Napoleão como um ponto de partida para a
compreensão e contextualização de uma época e de um ambiente específico, isto é, as
práticas musicais nos espaços privados. O interesse por esta figura não se esgota nesse
tema, havendo também trabalhos acerca da receção na obra de Napoleão do Exotismo e
Folclorismo, explorando o facto de, nas suas viagens, Napoleão ir absorvendo
elementos musicais das terras por onde passou e que integrou nas suas obras. A figura
de Napoleão anda neste momento a ser explorada com base num novo paradigma de
investigação. Lamentavelmente não temos elementos que nos digam o que foi feito do
espólio deste autor. Após a sua morte, em 1925, pensa-se que a viúva se terá desfeito do
acervo do compositor, mas não é conhecido o seu destino. Alguma informação poderá
ser encontrada no acervo de Viana da Motta, companheiro de Napoleão que com ele
colaborou em muitos concertos e outras manifestações de carácter artístico.
Espero que este trabalho seja um contributo para a compreensão artística da segunda
metade do séc. XIX, não só em Portugal, mas também nos países onde a carreira de
Napoleão o levou. Gostaria, ainda, que a evocação aqui feita da personalidade de Arthur
Napoleão seja um subsídio para a memória de um grande artista, nos seus múltiplos
aspetos, que a cinza do tempo corroeu.
7
Capítulo I
Em 1843 nasce no Porto Arthur Napoleão. O Porto é, na época, uma cidade que sofre
grandes transformações. Naturalmente, é um País inteiro que se transforma. No entanto,
esse fenómeno é muito visível numa cidade que reflete, de uma maneira muito especial,
o desenvolvimento industrial e o consequente aumento de atividade comercial
provocado pelo fenómeno da Revolução Industrial. Um pouco depois do resto da
Europa, a Revolução Industrial manifestou-se em Portugal, trazendo consigo novos
hábitos e modos de vida.9
9
Acerca da relação entre cultura e economia disse Almeida Garret(1841): O Teatro é um grande meio de
civilização mas não prospera onde a não há. In Vasconcelos,A.(2003:9)
10
Vaquinhas e Cascão (1993: VOL.5, P. 444).
8
aceitando lentamente o ócio e o divertimento como parte integrante da vida.11 Essa
classe emergente tem novas necessidades e hábitos que alteram a tradicional distinção
entre espaços públicos e privados. Se em meados do séc. XIX o burguês portuense é
retratado como pouco dado a atividades de lazer, o avançar do século criou novas
necessidades e rotinas sociais. A mudança é lenta e começa pelas camadas sociais mais
endinheiradas que vêem na arte uma oportunidade de promoção social. A burguesia
inicia um processo de aristocratização, que alcança visibilidade na busca de cargos
políticos e de poder. Esta tendência para ocupar cargos políticos já começara a
formular-se a partir do Marquês de Pombal. Na segunda metade do séc. XIX, é patente
o crescente domínio da burguesia na coisa pública e nos recém-criados espaços
públicos. A importância crescente da burguesia não é exclusiva da cidade do Porto. It is
now commonplace to say of nineteenth-century music culture that, notwithstanding
institutions such as the court theater and court orchestra, it belonged basically to the
middle class, or bourgeoisie.12 Portugal foi mais tardiamente apanhado pela espiral de
mudança que alterou o panorama económico, político e social Europeu. O romantismo
português não difere da generalidade dos outros movimentos congéneres da Europa; o
que é substancialmente diferente é a realidade económica e social em que se vai
manifestar, o grau de desenvolvimento das forças produtivas e a fase de transformação
dos grupos sociais.13 Há, pois, um movimento generalizado em toda a Europa que iça a
burguesia a um lugar cimeiro. No entanto, não é fácil encontrar uma identidade comum
nesta nova classe. Inded, as Theodore Hamerow observed, the unity of middle class
during this period derived essentially from a community of interests rather than a
community of origins. No mesmo sentido, e referindo a realidade nacional,
encontramos.
11
CARDOSO in REIS e AGUIAR (EDS), 1998,
12
Dahlhaus,Carl,p41
13
Costa, F. 1990, p. 228
9
que exercem e na cultura que detêm, quer na fortuna que possuem. Mas
entre eles distingue-se um núcleo constituído fundamentalmente por
negociantes e proprietários com elevados rendimentos.14
14
Cruz, 1999, p. 274
16
CRUZ,1999,p.274
17
CRUZ,1999,p.384
10
Há toda uma atividade comercial que acompanha os novos hábitos. O número de
importadores nacionais ligados ao comércio e importação de pianos multiplica-se. As
páginas dos jornais diários exprimem essa nova realidade, publicando anúncios
publicitando as mais variadas marcas de pianos. As casas editoras de partituras
atravessam, também, um momento de prosperidade. Não só editam partituras, como
ainda métodos de aprendizagem dos mais variados instrumentos musicais. É prática
comum editar transcrições para vários instrumentos de obras que tiveram êxito nos
teatros da cidade do Porto. Nas revistas da época, encontramos exemplos dessa prática.
Se, por um lado, era na privacidade do lar que assistíamos à educação artística das
novas gerações, os portuenses, sobretudo as elites, sentiam necessidade de uma
afirmação social ao nível público. Era, portanto, necessário criar espaços adequados que
permitissem a esta nova classe exibir o seu estatuto. O acesso público a esses espaços
tinha de ser controlado, de modo a ter o ambiente de diferenciação e exclusividade
pretendidos. O associativismo teve, nessa época, um grande impulso. Multiplicaram-se
por todo o lado vários tipos de associações com fins diversos. Procuravam diversificar
o recreio, para proporcionar o agradável convívio dos seus membros e aumentar o
número dos seus associados, recorrendo às representações dramáticas, à leitura ,à
dança, ao estudo musical ou ao jogo lícito.19 A música e a dança, desde o liberalismo,
18
A Actualidade, 1874, nº 263 de 18 de dezembro
19
Ribeiro,Helena 2001, p. 20
11
tinham-se assumido como rituais de civilização.20Houve associações que tiveram uma
vida efémera, porém, encontramos outras que duraram até aos dias de hoje, como é o
caso do Clube Portuense ou do Ateneu Comercial do Porto. Em relação a este assunto,
Ramalho Ortigão deixa este testemunho:
20
PEREIRA, G. 1995
21
ORTIGÃO, 1986, 1887, vol.I,pp. 151-152 ORTIGÃO,Ramalho- AS FARPAS- O País e a Sociedade
Portuguesa(edição integral). Lisboa: Clássica Editora,1986, (1887), 15 vols.
22
DAHLHAUS,Carl,1989,1928 pp.43 Nineteenth-Century Music. University California Press.
12
burguesia do Porto aproxima-se dos ideais e do tipo de mentalidade que encontramos,
nessa época, noutros países europeus. O burguês que, nos seus tempos de lazer, se
dedicava às coisas do espírito era bem visto pelo sistema. O músico amador estava, por
assim dizer, integrado no sistema. O músico profissional não fazia parte da “sociedade”.
Se, por um lado, a ascensão da burguesia liberta os artistas da sua subjugação à nobreza,
por outro lado, também podemos verificar que a integração destes na ordem burguesa
não é pacífica. A vida de Artur Napoleão tem episódios que ilustram esse
“desentendimento” os quais serão focados aquando da abordagem biográfica. Esta
coexistência entre músicos amadores e profissionais é-nos narrada pelos jornais da
época, referindo um concerto no Clube da Foz.
O snr. Nicolau Ribas, que pela primeira vez, honrou, com a sua
presença a casa da assembleia, tocou duas peças de música admiráveis,
uma fantasia sobre motivos de “Lucia”, e os “Echos”. Que dizer d’este
grande artista? Todos sabem que é de grande plana.(…)O snr. Sollari
Allegro, pianista amador, tão distinto como modesto, acompanhou todas
as peças ao piano que se executaram(…).23
O repertório utilizado nos clubes e sociedades era constituído, acima de tudo, por obras
para piano e canto. A relação entre este tipo de espaços e os espaços públicos, isto é, os
teatros, era muito grande. Era habitual a execução de árias de ópera e opereta que
estivessem na moda, naturalmente com arranjos que permitissem serem tocadas por
pequenos grupos. A edição de adaptações para outros instrumentos de obras que
estavam na moda era uma prática corrente. Era frequente a adaptação de obras para
piano a quatro mãos. Depois do concerto sucedia o baile. Acabado que foi o concerto
dançou-se delirantemente até depois da meia-noite. Estiveram cerca de cincoenta
senhoras(…).24 É comum as notícias de caráter social da época referirem o número de
senhoras presentes. Não se quantifica as pessoas presentes no seu todo, mas apenas o
número de senhoras. Isto é, a importância de um acontecimento social não se media
pelo número de cavalheiros presentes, mas sim pela adesão ou não do elemento
feminino. É, também, interessante a maneira como um serão era organizado. Começava
23
O Primeiro de Janeiro, 1880, nº 268 de 17 de Novembro.
24
O Primeiro de Janeiro,1876, nº 235 de 14 de Outubro.
13
por ter uma parte mais cultural, onde se escutavam obras de maior virtuosismo e
seriedade, à qual sucedia o baile. Portanto, na mesma noite e no mesmo espaço
tínhamos a junção de duas coisas diferentes. O concerto abria o serão que culminava no
baile, onde se dançava delirantemente. O lado mais cultural e o entretenimento puro
davam, assim, as mãos numa noite bem passada. Seria este o modelo seguido com tanto
sucesso nos clubes e associações da cidade do Porto, na segunda metade do séc. XIX.
A grande quantidade destes clubes e associações dificulta a tarefa de fazer uma listagem
completa. No entanto, convém fazer referência aos mais representativos.
B) O movimento associativo
O clube Portuense surge em 1857, fruto de uma cisão da Assembleia Portuense. Era um
clube mais elitista. O jogo e o serviço de chá eram atividades habituais destas
associações. Eram frequentes as reuniões de família, os bailes e os saraus. Não eram
dedicadas exclusivamente à música.
25
Guia Histórico do Viajante no Porto e Arrabaldes, 1864, p.47
26
VIEIRA,1900, pp.319-322.
27
Guia Historico do Viajante do Porto…, 1864, pp. 47-48.
14
Templo da antiga arte musical da cidade do Porto, santuário
célebre onde receberam o primeiro baptismo de semifusas tantos
meninos prodígios e donzelas(…),e onde se coroaram com os seus
primeiros louros tantos músicos célebres, como Francisco Eduardo da
Costa, Francisco Sá Noronha e as grandes dinastias artísticas dos Ribas,
dos Arroios, dos Napoleões.28
Encontramos aqui uma referência à família Napoleão. Artur Napoleão terá pisado estes
palcos, mas tanto o seu Pai como os irmãos terão, igualmente, colaborado. (Alfredo
Napoleão legou-nos obras de grande interesse e Aníbal Napoleão foi também músico de
mérito). Esta associação fundiu-se em 1880 com o clube Portuense. Dificuldades
económicas, assim como a intenção de alargar os estatutos, estiveram na base desta
decisão.29
28
ORTIGÃO, As Farpas, vol. 1, pp.153-154.
29
O Primeiro de Janeiro, 1880, nº 158 de 14 de Julho.
30
P-Pad, Arquivo do Governo Civil, Mç. 152.
31
Estatutos da Sociedade Nova Euterpe, 1869, art.3,p 5.
15
Ateneu Comercial do Porto. É uma instituição que ainda hoje existe, tendo sido palco
das mais variadas iniciativas culturais e sociais, desde a sua fundação aos dias de hoje.
32
O Primeiro de Janeiro, nº 304 de 25 de novembro de 1883 “Participaram neste benefício para os
pobres, alguns amadores e Alfredo Napoleão, Nicolau Ribas, Moreira de Sá, Ciríaco de Cardoso,
Marques Pinto, Xisto Lopes.” Esta notícia é referente ao clube da Foz.
33
O Comércio do Porto,1879, nº79 de 2 de abril.
16
culturais e artísticas, não podendo deixar de referir-se a criação de uma associação
muito interessante que se chamou a “Sociedade dos Quartetos”, que, como o próprio
nome nos indica, nos remete para a música de câmara.
A vida intelectual e artística da cidade do Porto foi muito influenciada pelos hábitos das
comunidades estrangeiras aí residentes. A comunidade inglesa assim como a alemã
exerceram uma influência muito grande na aquisição de novos hábitos culturais. A
recente burguesia portuense ia criando, aos poucos e poucos, novas exigências. Temos
notícia de que, desde o início do séc. XIX, a música habitualmente denominada
“clássica” ou, usando outra nomenclatura, chamada “erudita”, era cultivada nos salões
privados das famílias estrangeiras residentes no Porto. No entanto, nos espaços públicos
essa presença não se fazia sentir. Foi preciso esperar pela segunda metade do séc. XIX
para que essa lacuna fosse colmatada. Os espaços públicos até então encontravam-se
submersos pelo repertório operático, a maior parte das vezes de qualidade duvidosa,
tanto ao nível do repertório escolhido como da própria interpretação. Comentando esta
situação, João de Freitas Branco utiliza a expressão invasão italiana para ilustrar o
domínio da música italiana em Portugal, ao longo dos séculos XVIII e XIX.34 Houve
naturalmente outros géneros musicais praticados nos espaços públicos portuenses ao
longo da segunda metade do séc. XIX. Com a ópera italiana convivia a opereta francesa
e a zarzuela espanhola. Perfilavam-se, ainda, outros géneros de cariz mais popular,
como a paródia, a revista e o vaudeville.35 A “Sociedade dos Quartetos”, fundada em
1874 tenta criar novas dinâmicas culturais.36 Esta associação diverge das que
anteriormente referimos. Tem uma vertente fortemente cultural, tentando divulgar obras
de grandes compositores da época, havendo um grande interesse pela música alemã. É
um “clube” mais elitista, tanto pelos artistas que o integram como pelo público que
frequenta as suas sessões.
34
Branco, 1992, p.192
35
Silva, 2004
36
RIBEIRO,H.(2001)
17
C)Espaços Públicos de Representação
Concluindo este capítulo será de todo conveniente referir os espaços públicos de
representação, isto é, os teatros. Se, por um lado, assistimos na segunda metade do séc.
XIX, na cidade do Porto, ao desenvolvimento do movimento associativo que conduz a
uma grande oferta de espaços semi-públicos (ou, dito de outro modo, espaços públicos
de acesso restrito), por outro lado, esse período histórico também foi fértil na crescente
oferta de espaços públicos, isto é os teatros. (…)a conquista de novos espaços de
sociabilidade numa estratégia de oposição aos costumes mouriscos, isto é às tradições
arreigadas numa sociedade fechada do tipo feudal foi uma tarefa conduzida pela
burguesia ascendente.37
Se, por um lado, a construção de teatros respondia aos ideais da burguesia, por outro
lado, ao poder dominante interessava a criação de espaços onde estivessem presentes as
classes mais ricas. Esses espaços teriam assim uma função de controlo político-social
aos olhos de alguns soberanos.38 Seria o local por excelência da intriga política. Este
movimento de construção de teatros surge no séc. XVIII, mas foi na segunda metade do
séc. XIX que ele atingiu o auge. Com a vitória liberal e as reformas de Almeida Garrett,
o interesse pelas atividades teatrais aumentou, o que levou à construção de novos teatros
por todo o País. A cidade do Porto, berço de uma burguesia próspera, tornou este
fenómeno mais visível. A influência italiana é notória em Portugal e também na
categoria dos chamados “teatros à italiana.” Segundo Soares Carneiro 39 não houve
influência portuguesa nesse modelo de teatro. Isto é, houve uma aceitação total do
modelo desenvolvido em Itália. De acordo com este autor, (…)Entre 1850 e 1874
contamos 55 teatros (construídos ou reconstruídos a nível nacional); entre 1855 e
1899, contamos 98; e 34 outros são ainda da segunda metade do século embora as suas
datas de construção não sejam conhecidas. É um número muito elevado para a
densidade populacional da época e a cidade do Porto teve a sua contribuição para este
resultado. Vamos referir os teatros construídos na cidade do Porto, na segunda metade
do séc. XVIII.
37
CARVALHO,1990 p. 351
38
CYMBRON,1998,p.4
39
CARNEIRO, 2002, p.19
18
C.1) O Teatro Príncipe Real foi fundado em 1855. Começou por se chamar Teatro-
Circo, presentemente é o Teatro Sá da Bandeira. As obras representadas nesse
espaço exprimem a predominância da Zarzuela.40
C.2) O Teatro Baquet foi fundado em 1859. Teria à volta de 900 lugares. Esta
capacidade colocava-o como um dos maiores teatros portugueses da época, a
seguir ao S. Carlos, ao D. Maria II e pouco abaixo do S. João.41 Na década de 70, a
opereta foi o género musical mais divulgado neste espaço, mas, numa análise mais
alargada, a zarzuela é dominante.42
40
SILVA, 2004,p.70
41
CARNEIRO, 2002, p.495.
42
SILVA, 2004, p.76.
43
O Tripeiro, ano V,VI série, nº 9,setembro de 1865, p. 274.
44
SILVA, 2004, p. 80.
19
C.6) O Teatro Vasco da Gama foi inaugurado em 1884. Dedicou-se mais à ópera
cómica e opereta.
C.7) O Teatro dos Recreios foi inaugurado a 22 de outubro de 1885. A zarzuela era
dominante.
45
SILVA, 2004, p. 100.
20
Capítulo II
21
da música e as lêtras do alfabeto. Devo dizer, de passagem, que sou
contrário ao ensino impôsto às crianças prematuramente, e que não
simpatizo muito com os chamados meninos-prodígios, embora me
quisessem metêr, como metêram nesta conta. Considero, segundo a
opinião de muita gente douta, uma crueldade o carregar um cérebro de
extrema fragilidade, que precisa de diversão e ar livre, com estudos
impróprios da sua edade.47
Embora Arthur Napoleão manifeste contrariedade por ser metido na conta dos meninos-
prodígios, foi esta faceta que, inicialmente, lhe abriu portas no mundo artístico da
época. Poderemos dividir a vida do autor em três fases distintas.
48
Cazarré, M. (2006)p. 32. Designação usada nos programas de concertos e jornais da época. No Brasil recebeu das mãos da
Princesa Regente em 1887 a “Comenda da Ordem da Rosa”. No mesmo ano em Espanha foi agraciado com a “Comenda de
número de Izabel a Católica”. Em 1899 El-Rei Carlos entregou-lhe a “Comenda da Ordem de Santiago”.
22
explicou que a publicação do texto teve de ser adiada devido ao
falecimento do Senhor João Chaves responsável pela organização da
edição.49
Arthur Napoleão manifestou o desejo de rever e corrigir essas notas para em seguida se
publicarem. Essa tarefa tornou-se difícil de concretizar, porque Arthur Napoleão veio a
sofrer de cataratas o que lhe impedia a leitura e revisão desse documento. Com o acordo
do autor, foi essa tarefa entregue a Castro Menezes e a Pereira da Silva. Terá sido João
do Rego Barros o guardador deste legado. Deve-se a este amigo de Arthur Napoleão a
publicação dessas Notas no Correio da Manhã, após a morte do autor. Poderemos
49
Autobiografia, p. 444. Também Alexandre Raicevich de Medeiros, Comunicação. Associação Nacional
de História- Rio de Janeiro. XIV Encontro Regional da ANPUH-RIO Memória e Património. Rio de
Janeiro 19 a 23 de Julho de 2010 UNIRIO.
50
Referido na bibliografia.
23
concluir que há duas versões destas Notas. Uma de 1907, que estará na origem da obra
de Sanches de Frias51, em 1913, e uma segunda versão, revista por Castro Menezes e
Pereira da Silva, que foi publicada em 1925.52
Foi assim que se iniciou a 1ª fase da carreira pianística de Arthur Napoleão (…)
51
Não temos elementos que nos permitam saber onde está esta primeira versão.
52
Foi publicada sob a forma de folhetim. Questões de natureza económica terão estado na origem desta opção.
53
Frias(1913p.22)
54
Autobiografia p.39
24
piano. Pelo menos atrai a admiração de todos.”Camilo Castelo Branco escreveu: “dir-
se-ia que as trémulas mãos do menino curvavam a fronte de seu pae e mestre, quando
os aplausos estrondeavam na sala. Os louvores animaram o jubilôso pae a levar seu
filho á apreciação de mais numeroso público.”55 Em relação ao concerto no teatro de S.
João, pode ler-se na sua autobiografia, p.42: João Ribas, comunicando a sua autorizada
opinião ao “Periódico dos Pobres” foi de parecer que Alexandre Napoleão devia sem
perda de tempo apresentar seu filho ao público de Lisboa.56 A 8 de março de 1850,
realizou-se um segundo concerto no teatro de S. João, com a intenção de reunir os
fundos necessários para a viagem a Lisboa.
Naquela época, a rede de transportes era muito deficiente. O Fontismo57 estava prestes a
dar os primeiros passos. A viagem Porto-Lisboa fazia-se, na época, por mar com todas
as dificuldades e custos inerentes. Fez-se a viagem, tendo Arthur e seu pai Alexandre
ficado hospedados em Lisboa, em casa de um negociante chamado Jacob Aldosser,
amigo de longa data de Alexandre.58 Arthur Napoleão recorda nas suas Notas os serões
passados em casa de Jacob. Ao que parece, seu pai e o anfitrião passavam as noites a
jogar Gamão, um jogo de tabuleiro muito em moda na época. Arthur observava-os
atentamente. Um dia desafiei o Jacob para uma partida. Ele olhou para mim com
desdém. Eu insisti. Ele afinal aceitou. Jogámos e preguei-lhe um capote.59
Munido de uma carta de recomendação dirigida a D. Maria Emília, casada com José
Bernardo da Costa Cabral, posteriormente Conde de Cabral e irmão de Costa Cabral,
Conde de Tomar e Presidente do Conselho do Reino, apresentou-se Arthur com seu pai
no palacete do Poço Novo. A interceção desta senhora foi preciosa, pois Arthur viu que
55
Coisas leves e pesadas p. 63
56
O salão burguês, o palco da associação Filarmónica Portuense ou o teatro de S. João são espaços diferentes entre si. Espelham
diferentes realidades e modos de sociabilidade diferenciados. No entanto, todos têm uma relação aberta com a imprensa. O que
acontecia na esfera privada do salão burguês ou da associação recreativa não ficava enclausurado nesse espaço. Há uma
preocupação em tornar público o que lá se passou.
57
Referimo-nos ao movimento de modernização dos transportes levado a cabo pelo Ministro do Reino Fontes Pereira de Melo.
58
Este facto por si só poderá não parecer muito importante, mas é um exemplo da maneira de viajar dessa época. Ao percorrermos
o percurso artístico do pequeno Arthur, somos confrontados frequentemente com situações destas. A opção por determinada cidade
ou país tinha a ver com a existência de amigos residentes nesses sítios, ou então através de cartas de recomendação dirigidas a
pessoas consideradas influentes no meio social e cultural pretendido.
59
Ao pesquisar o percurso de Arthur Napoleão no Brasil fui confrontado com várias referências, relacionando-o com a introdução
do jogo de Xadrez no Brasil. A sua mestria em jogos de tabuleiro começou bem cedo.
25
se lhe abriam as portas do Teatro de S. Carlos, a 29 de Maio de 1850. Citando o próprio
Arthur Napoleão (…)
O sucesso alcançado valeu-lhe um convite para o Paço das Necessidades, onde foi
recebido por D. Maria II e D. Fernando. Nessa ocasião, Arthur Napoleão acompanhou
ao piano D. Fernando, que cantou uma ária em voga na época. Ser recebido no Paço era
uma alta honra concedida a um artista. Posteriormente, tocou no teatro de D. Maria e no
teatro D. Fernando, entretanto demolido.
Depois, foi o regresso ao Porto, onde Arthur continuou ativo. Tem outro concerto a 21
de Fevereiro de 1851, no teatro de S. João, também com grande êxito. Regressam a
Lisboa, mas Alexandre Napoleão vê-se confrontado com problemas inesperados. Por
um lado, a imprensa não lhe dá o apoio que ele esperava. Acusam-no de estar a
explorar em demasia uma criança que já podia estar a cursar estudos sérios (…) que
era preciso que cessasse tal exploração, tratando-se de formar o futuro de um grande
artista.61 Além disso, a situação política tinha mudado, com a queda de Costa Cabral e a
ascensão do Duque de Saldanha. Não podiam, assim, contar com o apoio que tinham
tido anteriormente. Enfim a 27 de Maio de 1851 realizou-se meu concerto que teve
sucesso extraordinário. Fui chamado mais uma vez ao Paço das Necessidades (…)
Finalmente dei mais um concerto de despedida no Teatro de D. Maria.
Nesta altura, já Arthur Napoleão tinha percorrido as mais importantes salas e teatros do
nosso país e seria o momento de tentar uma carreira no estrangeiro. Há um
acontecimento dessa época que precipita a decisão de sair de Portugal. O naufrágio do
vapor Porto, que fazia a viagem Porto-Lisboa, provocou a morte a várias famílias da
burguesia portuense. Alexandre Napoleão perdeu quase todas as suas alunas neste
desastre. Foi, então, tomada a decisão de rumar a Inglaterra. A escolha deste país não
60
Autobiografia p.44
61
Autobiografia, p.48
26
foi ao acaso, pois a madrinha de Arthur, Angelina Alvarenga, morava em Oxford. Foi o
apoio logístico de Angelina que permitiu a estadia de Arthur ao longo de alguns meses
em Inglaterra.
Os condes de Lavradio não apresentaram Arthur à família real. Esse facto dificultou os
projetos de Alexandre, que assim viu fechadas algumas portas. O ser recebido pela
Rainha Vitória era, na época, (…) o que se julgava de primeira intuição para se formar
62
O duque e a duquesa de Somerset deram um excelente jantar, seguido de um importante sarau, na quinta-feira, estando presentes
os duques de Inverness, o marquês de Ailesburg, o visconde de Melgund, lord Milfor,a senhôra Georgina Fane, o ministro da
Fazenda,sr. Disraeli, o general Arthur Upton e o sr. George Campbell. À noite a duquêza reuniu os mais distintos membros do
corpo diplomático e muitas personagens da aristocracia. O sr. Arthur Napoleão, jovem pianista portugês, mostrou os seus
extraordinários recursos musicaes, durante todo o sarau, provocando a admiração dos assistentes, que revelaram a sua profunda
satistação.
27
conceito público.63 Dificuldades económicas levaram Alexandre a abandonar Inglaterra
e procurar o sucesso na capital francesa.
Estamos em 1853 quando Arthur chega a Paris. Na capital francesa, Alexandre pratica
uma abordagem diferente. Apresenta Arthur, na altura com 10 anos, aos artistas
consagrados de então. Há uma preocupação com a formação artística do jovem pianista,
o que o leva a estudar com músicos importantes residentes na capital francesa. Devemos
referir as aulas dadas por Thalberg, importante personalidade do piano da época. Mas
não ficou por aqui. Visitou também Ravina, Prudent, Goria e Marmontel. O casal
Massart, ambos professores do Conservatório, também lhe deram aulas. Foi também
visita da casa do tenor Roger, onde conheceu várias personalidades importantes, entre as
quais o conhecido compositor Offenbach. Decisivo para a tão desejada apresentação
pública foi o contacto com Henry Herz, que, além de músico, era um prestigiado
fabricante de pianos. Foi no salão de Herz que Arthur se apresentou pela primeira vez
ao público parisiense. Mas, antes disso, a 10 de março de 1853, participou no concerto
das Tulherias. Teve um êxito grande, tendo sido cumprimentado no final por Napoleão
III e pela Imperatriz. A Imperatriz Eugénia já tinha sido visitada por Arthur antes do seu
casamento com Napoleão III, no palacete da Place de Vendôme. Era filha da marquesa
do Montijo. Arthur refere-se-lhe designando-a de Formosa Eugénia e recorda que no
fim do concerto ela lhe deu um beijo na testa64. Os comentários da imprensa falam do
jovem prodígio português de oito anos e meio, apesar de nessa altura Arthur já ter
completado os 10 anos. Certamente uma jogada de marketing por parte de Alexandre.
Em relação a este concerto, Hector Berlioz escreveu um artigo a 17 de março no
Journal des debats que agradou muito ao jovem artista.65Arthur e seu pai foram a casa
63
Frias, 1913 p.40
64
Autobiografia, p. 70. Muitas pessoas me disseram então, que nunca mais eu devia lavar a cara para não se evaporar o
perfume daquele beijo.
65
Arthur Napoleão na sua autobiografia(págian 72) transcreve o artigo. Uma crítica vinda de um músico com a importância de H.
Berlioz será para recordar. M. Arthur Napoleão est un jeune pianiste âgé de huit ans, né à Lisbonne, gracieux et vif comme le Puck
de Shakespeare et faisant courir les pauvres petites mans sur le clavier avec une incroyable vélocité. On l’a applaudi, acclamé
redemandé, et j’ai surtout été ravi de la gentille et joviale gaucheries avec laquelle il a salué son auditoire au milieu de cette
tempête de brave. On voit qu’il n’a pris que la musique, et que les mines savants et les poses de virtuoses déifiés lui sont encore
inconnues. Ce charmant enfant a eu quelques jours prés, l’honneur de se faire entendre à la cour, et L.L.M.M. Il l’ont comblé de
caresses et de présents.
28
de H. Berlioz para lhe agradecer as simpáticas palavras. Segundo nos diz Arthur,
encontraram-no doente e acamado, mas que os recebeu amavelmente apesar de tudo.66
Este episódio serve para enquadrar a relação de grande aceitação que Arthur teve na
capital francesa. Ele privou com os maiores vultos da época, num clima de grande
familiaridade. Tratando-se de recordações da infância, compreende-se que, por vezes, a
sucessão de personalidades é tão rápida que ele tem dificuldade em lembrar-se de todas.
Nas suas Memórias,67 ele diz (…) Também passámos uma noite deliciosa em casa de
uma princesa russa, de cujo nome meu pai nunca conseguiu lembrar-se. Estávamos em
plena intimidade. Achava-se presente Felicien David, o notável compositor do
“Désert”. Ele nos fez ouvir algumas das suas novas melodias, acompanhando ao piano
a princesa. Anos mais tarde, Arthur veio a perceber quem era a princesa Russa.
Tratava-se da princesa Czernicheff, a quem Chopin anos antes tinha dedicado o seu
Prelúdio op. 45. Meu pai bem me dizia sempre que o tal nome acabava num “cheff”
qualquer.
66
Frias(1913 p.49) relatando este episódio diz que (…)Apesar disso recebeu-os com a máxima afabilidade.
67
Autobiografia p. 72
68
Recordemos que quando da apresentação de Arthur Napoleão no Paço Real em Portugal, ele acompanhou ao piano o rei
D.Fernando, esposo consorte de D.Maria II.
29
A 26 de março, realizou-se o concerto público no salão de Henry Herz. Teve grande
êxito, tendo havido por parte da imprensa os maiores elogios ao evento. Com este
concerto encerra-se a passagem por Paris. O sucesso obtido em Paris foi tão grande que
obteve eco em Londres. Decidiram voltar a Londres, para tentar mais uma vez serem
recebidos pela Rainha Vitória.
Em Londres, tiveram a ajuda de John Ella, diretor de uma sociedade musical chamada
Musical Union, cujos concertos eram frequentados pela aristocracia inglesa. O sucesso
obtido nesse concerto abriu-lhes as portas para muitos saraus e espetáculos. Se, do
ponto de vista económico, este regresso a Londres foi bem sucedido, o mesmo não se
pode dizer em relação ao objetivo que os levou lá. Mais uma vez não conseguiram ser
recebidos pela Rainha.
Acerca deste período, Arthur recorda os estudos musicais que fez em Inglaterra com o
Professor Thorold Wood, que era casado com uma portuguesa nascida em Lisboa. Foi
então iniciado nas obras de J. S. Bach, Weber e Dussek. Mais tarde, esta família mudou-
se para Lisboa, e Wood foi professor de Aníbal e Alfredo, ambos irmãos de Arthur.
Também estudou nesta altura com o músico Charles Hallé, tendo este iniciado Arthur
nas Sonatas de Beethoven. Diz-nos Arthur que assistiu a uma série de recitais dados por
este pianista, nos quais ele executou de cor as 32 Sonatas de Beethoven. Estes relatos
ilustram a maneira fragmentada como a educação artística de Arthur Napoleão foi
conduzida. De acordo com os sítios por onde andava e as pessoas que ia conhecendo,
assim construiu a sua formação e personalidade artística.
69
FRIAS(1913, p.68) Este episódio é também relatado na autobiografia. Quando me levaram para o
piano executei a Fantasia de Thalberg sobre os “Hugguenottes”. Ao terminar Mayerbeer caminhou para
mim e passando-me a mão pelo queixo disse-me: “Tu me fais la cour, petit”. Eu fiquei muito lisonjeado.
30
assistimos ao papel do salão aristocrático como espaço de sociabilidade. Deste período,
fica-nos a imagem que o periódico Kladeradatsch publicou70.
Arthur, nesta viagem, passou por Hannover, onde teve oportunidade de ouvir pela
primeira vez uma obra de Wagner. Assistiu à representação do Tannhauser, que, de
acordo com as suas palavras, teve (…) mise-en-cene excelente, orquestra magnífica.
Está claro que não entendi nada da música, mas ainda assim fiquei aturdido e
maravilhado71. Deste modo, a formação artística de Arthur era consolidada um pouco
ao acaso e de acordo com as oportunidades que iam surgindo nas viagens. Alexandre
rejeitou sempre a opinião daqueles que o aconselhavam a inscrever o filho num
Conservatório para cursar estudos musicais sérios. Na perspetiva de um empresário,
visto que é nesse papel que devemos ver Alexandre, isso seria incompatível com a
carreira itinerante de um artista como Arthur.
70
Ver anexo. Arthur Napoleão com o traje de Imperador Napoleão, montado num piano, dirigindo um
batalhão de artistas célebres que estiveram em Berlim. (Thalberg, Neruda, Vivier e outros que a memória
apagou).
71
Autobiografia p. 95
72
A guerra da Crimeia aconteceu entre 1854 e 1856. O mal e a crueldade dos combates causam grandes
perdas. Em Paris, onde se realiza uma Exposição Universal, começa a inquietação .DUROSELLE
(1992: 31). Ironicamnete, esta guerra, a guerra da Crimeia, longamente condenada pelos historiadores
como uma questão sem sentido e absolutamente evitável, não foi precipitada pela Rússia, nem pela Grã-
Bretanha ou pela Áustria-países com grandes interesses na questão do Leste-, mas pela França.
KISSINGER(1996 p.78)
31
de trabalhar fomos passar dois meses com o amigo de Dufrene na sua casa de campo
em Ville-Pinte.73
Nos dois últimos meses de 1855, voltaram a Inglaterra, Escócia e Irlanda. Essa viagem
seguiu um modelo diferente do usado anteriormente. Foram integrados numa
companhia formada pelo empresário Beale. A descrição que nos chega desta viagem
mostra-nos o elevado grau de profissionalismo organizativo deste empresário, numa
época em que as comunicações e os transportes eram ainda tão deficientes. Estas
tournées na Inglaterra são uma maravilha de actividade e combinação! Lembro-me de
que uma vez, num dia toquei em duas matinées e um concerto à noite, em três cidades
diferentes.74 Esta descrição mostra-nos uma época na qual existia um grande interesse
pela música. Há uma grande adesão do público a estas iniciativas e, além disso, já se
podem observar estruturas organizativas profissionais que suportam estes espetáculos.
O conceito de empresário artístico, nos termos em que hoje o consideramos, começa a
desenhar-se nesta altura. Alexandre, enquanto empresário do filho não optou por este
caminho. A abordagem por ele usada com maior frequência era a seguinte: Travava
relações com membros importantes de uma região ou cidade e, através da sua
influência, arranjava concertos.
73
FRIAS(1913, p.71) diz que (…)Por fim, o bom amigo da primeira estada, o Dufrene, levou pae e filho
para a sua casa de campo de Ville-Pinte, onde passaram um mês regaladamente. Frias aponta aqui dois
elementos diferentes da autobiografia. 1. A casa pertencia a Dufrene. 2. A estadia foi de um mês.
74
Autobiografia p.98.
75
FRIAS, 1913, p. 73
32
Sendo um testemunho pessoal e, portanto, individual, não é, no entanto, impeditivo da
compreensão do coletivo. É nesse sentido que analiso a autobiografia do autor, na
crença de que ao desvendar uma vida, estarei a iluminar outras, o que poderá contribuir
para a compreensão de uma época e dos valores que esta suporta.
33
Em agosto, voltaram à Alemanha, fazendo uma paragem em Aix-la-Chapelle. Realizou
um concerto para a Princesa da Prússia, que ali se encontrava de passagem, e esteve
num sarau realizado em casa do barão de Rottschild. Já noo fim da estação musical,
seguiram para Baden Baden, onde se encontrava Rossini, hospedado num hotel. Foram
visitá-lo, tendo Rossini assinado o álbum de Arthur e deixado um tema de uma fuga.
Acerca desse encontro com o célebre compositor pouco nos diz a autobiografia.
Foi nessa altura que Arthur se deslocou a Weimar para visitar o pianista e compositor
Liszt. Dirigidas e organizadas pela princesa de Wittgenstein, havia reuniões semanais às
quais presidia Liszt. (…) As reuniões de Liszt atraíam a atenção de toda a Alemanha.
Elas eram de facto dirigidas pela princesa de Wittgenstein, cujas relações com Liszt
eram bem conhecidas. Arthur nessa ocasião tocou duas obras: A Fantasia Huguenotes
de Thalberg e o Galop Chromatique de Liszt. Era sabido que Liszt e seus sectários não
eram grandes admiradores da obra de Thalberg. Felizmente toquei depois o Galop
Chromatique do próprio Liszt e ele fez-me alguns elogios e recomendações78. Em
seguida Liszt interpretou alguns dos seus liede, acompanhando ao piano uma cantora.79
Depois disso tocou sozinho uma composição sua, Les Patineurs do Profeta. Nesta
reunião esteve presente o jovem pianista Tausig (discípulo de Liszt), que impressionou
positivamente Arthur com uma interpretação da Polonaise op. 53 de Chopin. A morte
de Chopin ocorreu em 1849, tendo havido uma forte relação artística e pessoal deste
com Liszt. Estar presente numa reunião deste nível é um privilégio a que Arthur teve
direito e que nos diz muito acerca do prestígio que ele próprio já tinha. Consolidando
78
Autobiografia p. 103.
79
Não temos elementos que nos permitam identificar a cantora. Na autobiografia, Arthur diz que se
esqueceu do nome da cantora.
34
esta ideia, existe uma carta de Hans von Bulow80para Liszt, onde ele acusa o pai do
pequeno Arthur de ter promovido algum barulho durante um recital, ao que parece para
vingar o filho por causa do Tausig. Há relatos deste tipo de situações nesta época. Por
vezes, admiradores ou seguidores de determinado artista iam promover barulho durante
os concertos dos rivais. No Porto, esse fenómeno já era conhecido nos teatros da cidade.
O que esta situação tem de interessante é que estamos a falar de Hans Von Bulow,
casado com Cosima, filha de Liszt (que mais tarde casou em segundas núpcias com R.
Wagner). Os estudos de técnica pianística deste autor ainda hoje são praticados pelos
jovens pianistas.
A força deste testemunho é muito grande. Podemos dizer que Arthur “bebeu na fonte”
os ensinamentos dos grandes mestres do séc. XIX. Isso dá-lhe, sem dúvida, uma enorme
autoridade, quer como pianista, quer como pedagogo numa fase posterior da sua
80
Citada na autobiografia e em FRIAS(1913) da seguinte forma: Correspondence entre Franz Liszt et
Hans von Bulow, pag. 189 Librairie Firchbacher. Paris.
81
Autobiografia p. 108
35
carreira. Foi assim que formou os alicerces que lhe permitiram, mais tarde, no Brasil,
ser uma ponte entre o “velho” mundo romântico europeu e a nova música com raízes
brasileiras.
Estamos em 1857, contando então Arthur Napoleão 14 anos de idade. Naturalmente que
se deve a Alexandre Napoleão, seu Pai e empresário, o cuidado de apresentar o jovem
pianista às pessoas mais importantes e influentes do mundo artístico. Deduzir que, com
essa prática, Alexandre ambicionava aumentar os seus proventos, será uma conclusão
óbvia. Os bons relacionamentos ajudam ao sucesso de empreendimentos futuros. Para
além do aspeto económico, há uma vertente cultural e artística muito grande. Arthur
cruzou-se na sua carreira de “menino-prodígio” com grandes figuras do séc. XIX. O
modo despretensioso como ele narra esses encontros diz-nos muito acerca da maneira
como as pessoas viviam e se relacionavam. Esse testemunho na primeira pessoa é um
valioso contributo para a compreensão de uma época. Arthur foi, além de músico, um
observador atento do seu tempo.
82
Autobiografia p. 111
83
Na autobiografia é referido com o nome português de António.
84
Autobiografia p. 114
36
Arthur descreve de uma maneira pitoresca a sua passagem pelos salões da rica
burguesia. Toquei em muitas casas de família, onde era sempre festejado e presenteado
de modo extraordinário. Algumas vezes era acompanhado a casa com banda de música
e archotes, um delírio85… Houve uma nota discordante por parte de um jornal. O
“Courrier du Brésil” afirmou que Alexandre, em vez de explorar o filho, deveria era
fazê-lo cursar estudos sérios num conservatório qualquer. Já não era a primeira vez que
Alexandre se via confrontado com esta acusação. Isto deu lugar a uma acesa troca de
palavras na imprensa, que só contribuiu para fazer publicidade ao jovem pianista.
Estes jantares eram muito lucrativos para Alexandre e, a par dos grandes teatros,
asseguram-lhe uma fonte de rendimento.86 Referindo-se a uma visita à casa do Marquês
de Abrantes, diz-nos Arthur: Depois do jantar toquei piano. A marquesa passou-me no
dedo um anel com um magnífico solitário87. (…) Em casa da família Palhares (…)
recebi uma magnífica abotoadura de brilhantes; e deste modo andei em muitas casas
diversas. Era, pois, prática habitual a oferta de joias como forma de pagamento. Não
encontramos nenhuma referência na autobiografia acerca de quantias monetárias
arrecadadas nestas situações. Poderemos levantar a hipótese de que, naquele meio, o uso
de dinheiro como forma de pagamento não estaria de acordo com as práticas sociais da
época. O artista que num espaço privado fosse desempenhar o seu trabalho era recebido
85
Consultar anexo 2.
86
Consultar anexo 3.
87
Autobiografia p. 119
37
como uma visita pelos donos da casa. A propósito do Marquês de Abrantes, lembro-me
que fomos convidados a jantar no seu palacete (…) A Marquesa ao receber-me deu-me
um beijo na testa. Portanto, o artista era convidado para jantar, logo, sentava-se à mesa
de jantar com a família da casa e restantes convidados. A haver aqui uma situação
contratual, ela era dissimulada até no modo como a joia era oferecida. A expressão
passou-me no dedo um anel, sugere um gesto discreto e elegante por parte da anfitriã.
Disfrutar de um serão musical doméstico seria uma manifestação de riqueza, mas
também um ato que exprimia um sentido de pertença a um determinado estrato social.
Tinha um significado de afirmação e simultaneamente de ostentação.
Napoleão tinha uma vertente cosmopolita – utilizando outra expressão, era “um
cidadão do mundo”. A maneira como se exprimia refletia isso mesmo (…) Era uma
misturada de inglesismos e francesismos incalculável. E eu, muito sem vergonha, não
escondia nada da minha ignorância.88 Foi Joaquim Augusto da Cunha Porto grande
patriota com veleidades de poeta quem, naquela época, se preocupou com a educação
de Napoleão, tendo-lhe oferecido Os Lusíadas e as obras de Almeida Garrett. Sob a sua
orientação, Arthur leu estas obras e corrigiu o seu português. A sua educação foi,
também ela, feita um pouco ao acaso, à semelhança dos seus estudos artísticos. Com o
tipo de vida itinerante que Arthur viveu desde tenra idade, não é fácil construir uma
formação estruturada e coerente.
88
Autobiografia p. 119
89
Autobiografia p. 121
38
(…) A meu ver, porém, o professor de piano mais provecto no seu mister era Isidoro
Bevilacqua.
A tournée seguiu para a Argentina e, de acordo com o autor, (…) A digressão a Buenos
Aires deixou-me muito agradáveis recordações. Em primeiro lugar cito o general Mitre
e a sua adorável família que muito me distinguiram91. O general Mitre era, então, o
Presidente da República da Argentina. Fazendo uma retrospetiva dos acontecimentos
recentes, Napoleão é recebido no Rio de Janeiro pelo Imperador, chegando à Argentina
é recebido e acarinhado pelo Presidente da República e sua família. Podemos por aqui
avaliar a importância e o prestígio que a música, e particularmente o piano, disfrutavam
na segunda metade do séc. XIX.
Este modelo de pianista compete com as modernas estrelas da música pop, tão
aclamadas nos nossos dias. Mesmo tendo em conta as dificuldades de transporte que
havia no séc. XIX, Arthur Napoleão movimenta-se pelo mundo de uma maneira
próxima dos atuais artistas de massas. Isto só se explica pela existência de um público
ávido deste tipo de intervenção artística, o que leva, usando terminologia moderna, à
conclusão de que havia mercado para esta atividade. Napoleão já não assume a figura
modesta do jograli, que nos séculos anteriores percorreu a Europa, mas assume-se como
um artista planetário, com dimensões modernas, ainda que com as limitações
decorrentes do que era considerado mundo civilizado nessa época.
De regresso ao Brasil, houve ainda tempo para fazer concertos na cidade da Baía e em
Pernambuco. A viagem para Portugal, na barca Olinda, foi atribulada. O comandante do
90
Consultar anexo.
91
Autobiografia p. 129
39
navio, em homenagem ao ilustre passageiro, conseguiu embarcar um piano, mas (…) o
mar, o enjoo dos passageiros e o movimento do navio poucas vezes nos permitiu
aproveitar dessa vantagem.92
Tendo chegado a Portugal, foram obrigados a ficar de quarentena numa ilha perto da
cidade espanhola de Vigo. Estes contratempos ilustram as dificuldades que um viajante
desse tempo tinha de suportar. Além do incómodo de uma longa viagem pelo mar, ainda
tinham, terminada aquela, de ficar isolados do resto do mundo. Tratámos de passar o
tempo do melhor modo possível. Cantou-se, dançou-se e no fim da quarentena houve
manifestações ao director e sua gentil irmã.
Há um outro saboroso episódio narrado por Napoleão que me parece interessante aqui
deixar, pois de algum modo nos mostra o que era o pulsar das gentes da cidade do Porto
naquela época. Alexandre decidiu realizar um concerto no Porto e, para aproveitar
material que já tinha imprimido para outras ocasiões no estrangeiro, distribuiu umas
circulares com os seguintes dizeres em francês:
Monsieur, je prends la liberté de vous remettre les billets ci-inclus pour le concert de
mon fils Arthur Napoléon, en vous priant etc. etc.
Na véspera do concerto espalhou por todo o lado os bilhetes nas respetivas circulares.
Não calculou a reação dos portuenses a este procedimento.
(…) Foi como uma bomba que explodisse em pleno nos círculos
mais frequentados. Um individuo devolveu os bilhetes e a circular,
dizendo que não podia aceitar aquilo por ignorar o idioma de
Lamartine. Meu Pai, exasperado (…) respondeu azedo e
92
Autobiografia p. 131
93
Consultar anexo
40
inconvenientemente, terminando por dizer que toda a pessoa bem-
educada conhecia o francês. (…) Pior a emenda que o soneto.
Ao que parece, no dia do concerto o teatro estava cheio, só que a intenção não era ouvir
Arthur Napoleão, mas sim brindar os artistas com uma tremenda pateada e assobios,
durante mais de dez minutos. Só findou quando o jovem Arthur, já desesperado, se
estendeu na cadeira e pôs as mãos na cabeça. O barulho terminou e o concerto realizou-
se sem mais problemas na sala. Nos corredores, a situação não acalmou do mesmo
modo. Segundo o relato de Arthur, o Pai teve de fugir, senão levava uma sova. (…)
Escapou à sova e consolou-se com a farta receita que tinha embolsado; mas votou um
tal ódio ao Porto que nunca mais lá voltou. Assim se despediu Alexandre da cidade
invicta.
Depois de uma breve passagem por Inglaterra e Irlanda, embarcaram no vapor Pacific
com destino aos Estados Unidos, onde chegaram em outubro de 1858. De acordo com a
autobiografia, o jornal nova-iorquino The New York Herald, na sua edição de 2 de
novembro de 1858 dá notícia da chegada do pianista Arthur Napoleão, referindo que é
de nacionalidade portuguesa e nascido em 1844. Alexandre, sempre que podia, retirava
um ano ou dois ao filho.
Neste período, há dois episódios que nos mostram a grande aceitação social que era
devida a Napoleão. Paul Morphy foi um dos maiores jogadores de xadrez do seu tempo.
Quando do seu regresso da Europa, após ter batido todos os grandes mestres da França,
Inglaterra e Alemanha, foi recebido triunfalmente em Nova Iorque. Ofereceram-lhe
94
Autobiografia. Meu Pai, coitado, não tinha absolutamente o jeito necessário para empresas desta
ordem num país como os Estados-Unidos. Pensava que aquilo era o mesmo que no Brasil, Inglaterra etc.
e a coisa era inteiramente outra.
41
nessa ocasião um tabuleiro de xadrez com peças em ouro e prata. Num comentário curto
Arthur diz: Assisti à solenidade.
Mais tarde, convidaram Napoleão para visitar o New York Chess Club, pois Paul
Morphy devia lá ir nessa noite. O campeão apareceu e foi convidado a fazer uma
partida. Inicialmente recusou a ideia, mas, subitamente, disse: I’ll play a game with the
young Napoleon. O jovem Napoleão perdeu ao fim de 35 lances, num jogo muito
disputado.
Além de ilustrarem a grande aceitação social que Arthur tinha – usando terminologia
atual, podemos dizer que ele pertencia ao Jet-set internacional – explicam-nos por que é
é apontado como o introdutor do jogo de xadrez no Brasil.
Após os maus resultados obtidos na tournée para norte com a colaboração de Thies,
resolveram tentar o sul, usando o mesmo secretário. O resultado foi igual, um desastre
financeiro. É nesta altura que Arthur, para ter algum dinheiro para os seus gastos
pessoais, vendia por 5 e 10 dólares polkas que ele compunha sob pseudónimo.
Fazer uma lista dos espetáculos a que Arthur assistiu é tarefa significativa. Podemos
dizer, no entanto, que ele absorveu tudo quanto pôde do que se passava à sua volta.
Desde teatro de todos os géneros, passando por concertos musicais, esteve presente em
tudo o que pôde ver e ouvir. Quando era mais jovem, sente-se a influência paterna na
sua educação, mas neste momento, já com 17 anos, começa a dar os primeiros passos
sozinho. As suas observações neste campo são muito interessantes, pois dão-nos uma
imagem da segunda metade do séc. XIX, no que à cultura diz respeito, de grande
dinâmica e interesse pela arte nos seus mais variados aspetos.
Ficaram em Nova Iorque até janeiro de 1860, partindo então para a ilha de Cuba. O
calendário não foi favorável, pois encontrava-se em Cuba o pianista Gottschalk a
preparar um festival que envolvia 600 músicos em cena. Este pianista-compositor
inscreve-se na mesma matriz a que pertence Arthur Napoleão na lógica dos virtuoses do
séc. XIX.95 Como a ocasião não era adequada, resolveram ir para Porto Rico, tendo
percorrido a ilha em concertos. Os resultados financeiros não foram os melhores, mas
95
Mais tarde vieram a ter uma relação muito próxima, tendo Napoleão publicado, na editora que criou,
obras deste compositor.
42
nesta ilha ficaram durante um ano, de abril de 1860 a abril de 1861. 96 Instalaram-se na
cidade de Guayama, que de acordo com Napoleão (…) pode bem ser comparada aquela
que o Júlio Verne descreve no “Dr. Ox”, uma cidade onde durante quase um século,
não constava que houvesse discussão entre os moradores: onde os carroceiros não
praguejavam, onde os cães não mordiam, onde não havia notícia de se ter dado um
sopapo nos últimos trezentos anos.
Partiram para Inglaterra em abril de 1861. Napoleão observa que o género Fantasia de
Thalberg já não estava na moda. Atento às novas tendências, de imediato se apercebeu
da necessidade de mudar o repertório, apesar (…) da técnica continuar a causar
sensação.
Este período em Londres foi parco em oportunidades para tocar. Mais uma vez
Napoleão deixa nas suas memórias relatos de espetáculos, concertos e teatros. Um autor
citado por ele várias vezes é Shakespeare, demonstrando um grande conhecimento das
peças do célebre dramaturgo. Mas os seus interesses são heterogéneos, pois nesta altura
dedica-se à esgrima e ao box. A fase de menino-prodígio está a chegar ao fim e
lentamente transita para a fase de dandy, jovem pianista virtuose.
96
Questões financeiras relacionadas com o sistema bancário terão sido a causa desta paragem. O
Liverpool Borough Bank tinha estado com moratória de dois anos. Alexandre tinha lá todo o dinheiro.
97
Autobiografia. (…) Fui visitar Rossini, que morava na esquina da Rue Chausée d’Atin e do Boulevard.
43
surgia o concerto. A estreia da troupe foi o mais brilhante possível, diz-nos Arthur, que
nessa noite tocou A Norma de Liszt, com muitos aplausos. Correram as principais
cidades de Inglaterra, Escócia e Irlanda, regressando em março a Londres.
Só em agosto desse ano (1862) iniciam uma nova viagem ao Brasil. Nos meses em que
ficaram em Londres, Arthur pôde assistir aos concertos realizados por Thalberg.
Observa Arthur que o género Fantasia de Thalberg estava a sair de moda. O modelo de
pianista-compositor que Thalberg representa influenciou Napoleão na sua prática
pianística. É interessante que o comentário que deixou na sua autobiografia nos ajuda a
entender a sua perspetiva crítica. (…) Tocou algumas novas composições originais, que
agradaram bastante. Reparemos que Arthur não exprime a sua opinião pessoal em
relação às obras, mas sim qual foi a opinião dominante, isto é, o juízo do público. Ele
tem uma vertente muito descritiva, colocando-se num papel de observador do que o
rodeia. É esta vertente que torna a sua autobiografia uma fonte de informação preciosa
para uma compreensão da segunda metade do séc. XIX.
O número de personalidades com que Napoleão se cruzou neste período, que vai de
março de 1862 até agosto do mesmo ano, é muito grande. Dos vários acontecimentos
focados pelo autor, refiro aqui o recital realizado por Arthur Napoleão em St. James
Hall, com o violinista sueco Ole Bull.98 Há outra referência interessante em relação a
um concerto realizado em Hannover Square Rooms, em colaboração com outros
artistas. Arthur diz que (…) Thalberg deu-me a honra da sua presença. A sala estava
repleta. O tom da imprensa foi elogioso (…) mas insinuava que eu deveria atirar-me
com maior afinco ao repertório clássico. Isso jurei comigo mesmo fazer logo que me
pudesse governar inteiramente. Está aqui implícita uma crítica à orientação dada pelo
progenitor. Arthur teve de esperar mais dois anos para ver este desejo realizado.
Em 1862, teve lugar a Exposição Universal de Londres. Toda a corte esteve presente na
cerimónia de abertura e Arthur deixa-nos o seu testemunho: (…) Miguel Costa era o
regente. Executou-se uma composição de Auber representando a França outra de
Sterndale Bennet representando a Inglaterra e outra de Meyerbeer representado a
Alemanha. Todas três escritas expressamente para a ocasião. Ao que parece a cantata
98
Autobiografia. Foi a única vez que me encontrei com o afamado violinista sueco.
44
o “Hino das Nações” de Verdi, representando a Itália, foi rejeitado pelo Sr. Costa99, (…)
que não a achava à altura da situação. Os músicos presentes executaram à revelia do
Maestro a obra de Verdi, que se encontrava presente na cerimónia. (…) Assisti a essa
bela reparação feita não só a Verdi, mas à arte italiana.
É nesta fase que Arthur iniciou uma relação com artistas e homens de letras da cultura
brasileira que irá marcar a sua vida. No campo da música, cita os violinistas Schramm,
Arnand, Moniz Barreto e o flautista Reichert. (…) Nas Letras todo o Rio intelectual:
José Feliciano de Castilho, Machado de Assis, Faustino Xavier de Morais, Pedro Luís
Manoel de Mello, Ernesto Cybrão, etc. As reuniões musicais e literárias levadas a cabo
por este grupo tiveram assinalável êxito. Seria demasiado extenso referir as celebridades
que se encontravam no público. A relação com a vida cultural do Rio de Janeiro teve
aqui o seu começo. (…) Ouviam-se trechos de prosa “avant la lettre” e poesias
inéditas, interrompidas de tempos a tempos por alguma peça musical nova, ou mesmo
velha, executada por um de nós.
Em finais de 1862, uma nova digressão ao estado de Rio Grande do Sul fica marcada
pelo encontro com amizades já antigas. Daqui prosseguem para Montevideu e foi na
capital do Uruguai que teve lugar uma cerimónia que me parece importante referir. Em
sessão solene presidida pelo Grão-Mestre foi entregue a Arthur o diploma de Aprendiz
Mação. (…) Creio que era “Sol del Oriente” o nome da loja. Cito de memória, porque
em uma das minhas viagens perdi o meu título. Um pouco mais à frente Arthur
acrescenta: Alguns meses mais tarde é que fui promovido ao grau de Mestre, no Oriente
do Rio de Janeiro. A relação de Arthur Napoleão com a Maçonaria irá ter mais
desenvolvimentos, no entanto a autobiografia é muito parca em informações em relação
a esse assunto.
99
Não encontrei mais nenhuma referência ao regente da orquestra Miguel Costa na autobiografia. A sua
nacionalidade fica por determinar.
100
Este facto ilustra uma das práticas pianísticas muito apreciadas na época.
45
A segunda estadia na Argentina foi marcada por um incidente que passo a relatar. Um
amigo convidou Arthur para o baile no Club El Progreso, mas o impresso nunca mais
foi entregue. Ao que parece, os estatutos do Club não autorizavam a entrada a artistas.
Arthur Napoleão recusou-se a realizar os concertos agendados e abandonou o país. Este
episódio ilustra um aspecto focado na primeira parte deste trabalho que é a relação dos
artistas com a nova ordem burguesa emergente. Pelo que se pode observar, essa relação
nem sempre é pacífica. Este incidente deu azo a vários artigos na imprensa nacional
Argentina.
O regresso a Portugal abre um capítulo novo para Alexandre e Arthur. Alexandre foi
morar para uma casa no alto da Rua da Lapa em Lisboa e (…) Aí passou os últimos 20
anos da sua vida, tranquilo, sossegado e feliz, tendo contraído segundo matrimónio
com D. Josefina Ferreira, uma boa e santa criatura que nós todos tratávamos por tia
Josefina. A partir deste momento cessa a relação de trabalho com o progenitor
Alexandre Napoleão. Arthur está por sua conta, não havendo na autobiografia a partir
daqui, mais referências ao pai.
A relação de Napoleão com a Maçonaria irá ter mais desenvolvimentos. Neste regresso
a Portugal, nova cerimónia maçónica irá acontecer. Há uma proximidade entre
46
Napoleão e o poder político, que se adivinha nesta descrição: O Sr. Mendes Leal, então
Ministro da Marinha e Grão-Mestre da Maçonaria Portuguesa, deu-me também a
honra de, em sessão solene, receber-me Príncipe da Rosa Cruz, colocando-me ele
mesmo as insígnias. A rapidez com que Napoleão sobe na hierarquia maçónica é
enorme. De aprendiz a mestre, acabando em Príncipe da Rosa Cruz, foi tudo obra de
meses. Reparemos que estas cerimónias decorreram em países e em lojas maçónicas
diferentes. Iniciou-se o processo no Uruguai, sucedeu-lhe o Brasil, concluindo-se em
Portugal. Terá sido uma ação concertada entre as várias lojas, tendo em consideração a
organização internacional que a Maçonaria representa? Quais as consequências práticas
desta adesão a uma organização com estas características de natureza política e social?
Não tenho elementos que, de momento, me permitam algum esclarecimento. Há um
facto que me parece curioso e que já referi: Quando, no Brasil, o Império caiu e surgiu a
República, Arthur não foi alvo de quaisquer perseguições de natureza política,
conservando o estatuto que detinha, tendo a particularidade de ser visita da família real
no exílio, em Paris. A imunidade de que goza, não tem, face à informação recolhida,
uma explicação clara.
Levei nesses primeiros meses de Lisboa uma vida de boémio. Assim inicia Arthur
definitivamente a fase de “O dandy jovem pianista virtuose” (1863-1883). O relato que
nos deixa da vida boémia de Lisboa, coincide em traços gerais com a visão que nos foi
deixada por Eça de Queirós na sua obra literária.
A sua entrada nesta época para o Grémio Literário permitiu-lhe o encontro com um
conjunto de personalidades importantes da cultura portuguesa. Há nomes mais
101
Esta referência ao fado é interessante porque nos mostra a relação da nobreza com este género musical.
102
Autobiografia, p. 192.
47
conhecidos e outros que se foram obscurecendo com o passar do tempo. Passo a citar
alguns: Relacionei-me com Francisco Palha, João Palha, Ernesto, Biester103, Pinheiro
Chagas, Duarte Sá, Bulhão Pato, Palmeirim, Gomes de Amorim, Thomas Ribeiro,
António Teixeira de Vasconcellos, Júlio César Machado104, Mendes Leal105, etc, etc.
Arthur deu uma série de concertos em Lisboa, tendo tido num deles a colaboração de
seu irmão Aníbal. Com ele executou a dois pianos a Fantasia “Norma” de Thalberg. A
solo, Arthur interpretou uma Fantasia da “Traviata” de sua autoria, muito aclamada
pela imprensa. Posteriormente a este sucesso público, Napoleão vê serem-lhe abertas as
portas dos salões aristocráticos de Lisboa106. Ele cita o salão da Duquesa de Palmela,
dos Condes de Penafiel, as reuniões no palacete de Carlos Santos, banqueiro, e a
amizade que o ligou ao Marquês da Torre, mais tarde Marquês de Fronteira. Também
participou numa soirée do Conde de Farrobo na Quinta das Laranjeiras. Arthur refere as
sumptuosas festas que tiveram lugar no Teatro das Laranjeiras, mandado edificar pelo
Conde de Farrobo107, onde chegaram a estar presentes a Rainha D. Maria II e D.
Fernando.108
103
Dramaturgo. A.N. Escrevia peças originais, inspirando-se na escola romântica que predominava em
França.
104
Este autor escreveu um livro sobre os teatros de Lisboa, editado pela Mattos Moreira e & C.
105
Este nome foi referido anteriormente como Ministro da Marinha e Grão-Mestre da Maçonaria.
106
Se repararmos no modelo seguido por Napoleão no princípio da sua carreira veremos que era o
inverso: isto é, começava por tocar nos salões aristocráticos e só depois é que lhe eram abertas as portas
dos espaços públicos.
107
Autobiografia, p. 198. As circunstâncias favoreciam singularmente o Conde nessa época, por
existirem em Lisboa belas vozes entre as senhoras de alta sociedade e da mesma forma entre os homens.
108
Autobiografia, p. 198. Gastou o Conde nessa noite a bagatela de 60 contos de reis, moeda forte, quase
meio milhão de francos.
48
A autobiografia torna-se, neste ponto, uma crónica de viagens. É um testemunho da
maneira de viver da alta burguesia dessa época. Não iremos reproduzir esta parte, na
medida em que se afasta dos objetivos deste trabalho. Mas, no meio desta crónica, há
um episódio curioso que passo a citar. Tendo Arthur ficado sozinho em Madrid, fez
contas à vida e ao dinheiro que já tinha gasto e entendeu que seria melhor fazer alguns
concertos nessa cidade. A maneira como ele descreve a situação é um pouco
desconcertante, dada a simplicidade com que tudo acontece. Limita-se a dizer que (…)
O primeiro e melhor amigo que arranjei foi o Adolfo de Quesada109. (…) Por influência
de Quesada, fui apresentado pouco tempo depois a S.M. a Rainha D. Isabel e ao Rei.
Acrescenta então: (…) Fui chamado a tocar uma noite ao palácio Real perante Suas
Majestades. A Rainha foi de extrema amabilidade comigo, presenteando-me com ricos
botões de brilhantes. Em seguida, pegou no dinheiro amealhado e rumou para Paris,
para ir ter com os amigos que já lá estavam.
Mais uma vez, a descrição dos meses que passou no Porto vem carregada de
pormenores interessantes acerca da vida cultural e social desta cidade. Das pessoas com
que se cruzou nessa época salientamos os nomes de Camilo Castelo Branco 111 e
Pinheiro Chagas. O concerto de despedida desta cidade foi mais uma vez uma enchente,
sendo o programa constituído, como era hábito naquela época, por um conjunto de
colaborações de várias personalidades do mundo artístico.
109
Conde de S. Rafael e Mordomo de El Rei D. Afonso XII.
110
Autobiografia, p. 210 (…) El- Rei d. Luís, El-Rei D. Fernando e S.M. a Rainha D. Maria Pia
assistiram, acompanhados de seus ministros e outros altos personagens. Num grande estrado
expressamente construído para esse efeito, colocou-se a orquestra composta por 120 músicos. Ao fundo o
grande órgão encomendado na Inglaterra. (…) Fui eu o regente.
111
Autobiografia, p. 211 (…) Conversei com o ilustre escritor (…) e aproveitei o ensejo para lhe
agradecer a esplendida crónica que a meu respeito tinha escrito no “Civilizador”.
49
Em princípio de 1866 deixei a cidade natal, depois de ter
organizado um belo concerto de despedida. O Teatro Baquet teve uma
das suas maiores enchentes. Meu programa era um primor de variedade
e de conjunto. Todos os artistas notáveis do Porto tomaram parte, o
grande Taborda fez uma cena cómica e a Florinda112… cantou e
encantou! 113
112
Esta cantora vem referida na autobiografia noutras situações. P. 211 (…) Confesso ter assistido mais
de trinta vezes à representação desse “mistério” só para ouvir Florinda cantar (…)
113
Autobiografia, p. 212
114
Antes de embarcar realizou uma série de concertos. Deixou-nos uma nota em relação a um deles: Em
seguida parti para o Porto e na passagem por Coimbra dei um outro concerto, que por sinal era o
primeiro que nessa cidade realizava. O piano porém era tão ruim que melhor teria sido lá não ter ido.
115
Autobiografia p. 241
50
rendimentos estáveis tornou-se imperiosa para Arthur, já que para pedir Lívia Avellar
em casamento, tinha de ter uma situação bem resolvida, do ponto de vista financeiro.
Ao que parece, o seu futuro sogro não aprovou de imediato a sua ligação com a sua filha
Lívia.116 A questão do casamento de Arthur Napoleão com Lívia Avellar demorou uns
anos a resolver. Mesmo depois de Lívia ter atingido a maioridade, o pai pediu-lhe que
não saísse de casa contra a sua vontade. Ela acatou esse pedido. Só em fevereiro de
1876, finalmente, cedeu a vontade paterna.117
Fixou-se então Napoleão no Rio de Janeiro, com a firma Narciso118, Arthur Napoleão &
companhia. O seu papel no meio cultural do Rio de Janeiro alterou-se um pouco, pois a
sua nova função de empresário colocou-lhe outros desafios. De pianista preocupado
com os seus próprios concertos, passou a dinamizador de espetáculos musicais de outros
artistas. É nesta qualidade que se relaciona com Gottschalk, recém-chegado ao Brasil. A
sua colaboração leva-o a alojar este pianista no 1º andar do seu estabelecimento
comercial e a dar-lhe apoio na organização de um Festival de Música no Rio de Janeiro.
Os gostos da época levam a empreendimentos, que poderemos apelidar de faraónicos de
acordo com os padrões atuais. Senão, vejamos o cartaz que nos chega desse tempo:
Temos o arranjo de duas obras para 31 pianos e duas orquestras. Totalizavam 500
músicos em cena.119 Recordemos o Festival de Havana em que participavam 600
músicos, organizado também por Gottschalk. As práticas musicais da época têm
características únicas que aqui ficam ilustradas. Estavam na moda os arranjos para uma
116
Sendo uma família de grandes proprietários, pertencentes à alta burguesia brasileira, acolher um artista
itinerante no seu seio não seria visto com bons olhos.
117
Autobiografia, p. 261. A 11 de fevereiro de 1876 casou a minha cunhada Adelina(…) Por ocasião
dessa solenidade, minhas cunhadas agarraram-se ao pai, pedindo-lhe que levantasse o interdito do
casamento de Lívia. O interdito levantou-se. Mais à frente A.N. acrescenta: p. 263. As minhas pazes com
o Sr. Miguel de Avellar fizeram-se seis meses depois, por ocasião da infausta e inesperada morte de
minha boa cunhada Sofia Farani. Aí, diante do cadáver da filha ambos lhe beijámos a mão e tudo estava
acabado.
118
Narciso é uma figura que no passado tinha publicado obras de Arthur Napoleão.
119
Consultar anexo.
51
profusão de pianos com orquestras com centenas de músicos. No meio da música havia
também disparos de armas de fogo quando a obra musical simulava uma batalha.120
Arthur foi também influenciado por esta maneira de fazer música: recordemos o
concerto que ele organizou quando estava na cidade de Guayama. Uma das obras
tocadas foi A Favorita numa versão para quatro pianos. O Festival de Gottschalk no Rio
de Janeiro teve tanto sucesso que decidiram repeti-lo. O sucesso do segundo festival
ficou manchado pelo falecimento de Gottschalk.121
A ação de Napoleão no Brasil esboça-se desde já. Por um lado, o apoio a iniciativas de
carácter musical de acordo com o conceito de espetáculo da época e, além disso, a
publicação, através da sua firma Narciso, Arthur Napoleão& C., de obras musicais de
compositores seus contemporâneos.
Há vários concertos organizados pelo Club Mozart. Arthur refere que num deles
participou uma pianista portuguesa chamada Judith Ribas de Oliveira, filha do músico
portuense João Ribas. Recordemos que este músico esteve ligado à Sociedade dos
Quartetos122, importante associação de cariz artístico portuense. O eixo Porto/ Rio de
Janeiro mostra alguma vitalidade, apesar das dificuldades dos meios de transporte da
época.
A música de câmara tem um carácter mais intimista e, poderemos dizer, também mais
elitista. Isto remete-nos para o papel desempenhado pelos espaços privados na
divulgação de obras musicais que se afastam de um gosto mais popular. Em 1872, no
Rio de Janeiro, Napoleão colaborou nuns encontros musicais em casa de Benjamim da
Rocha Faria. O alto nível destes encontros levou Arthur, no ano seguinte, a organizar
umas reuniões em sua casa. Depois da música (…) entrava em contribuição o sete e
120
Autobiografia, p. 247. Nos bastidores dirigi umas descargas de fuzilaria intercaladas.
121
A morte de Gottschalk deu lugar a desentendimentos com os herdeiros. Uma consequência desses
desentendimentos é que há obras desse compositor publicadas mais tarde na Europa, com versões
diferentes das publicadas em vida do autor pela editora de Arthur Napoleão. O pianista Espadero foi o
responsável por estas versões. Arthur diz-nos na sua autobiografia, p. 247 (…) Espadero morreu vítima de
um horrível desastre: esfregando o corpo com querosene, aproximou-se de uma vela, lhe comunicou o
fogo!...
122
Consultar 1ª parte deste trabalho.
52
meio e o trinta e um (jogos da época). Napoleão queixou-se que os seus intentos se
viram gorados, pois o repertório introduzido não correspondia às suas aspirações.
O período que vai de 1871 a 1876 é parco em matéria de relevo artístico no Rio de
Janeiro. Companhias de vários géneros visitam a cidade, mas não há nenhum aspeto
digno de realce. Há, no entanto, um episódio curioso do qual farei a transcrição, pelo
ambiente de familiaridade que transparece entre Napoleão e o Imperador D. Pedro II.
E é assim que se fez ouvir no Rio de Janeiro o Requiem de Verdi. Mais uma vez se
sente o papel de Napoleão na vida artística brasileira. Apesar de ter sido um projeto
economicamente dispendioso, acabou por dar lucro. (…) O saldo a favor distribui-se
por estabelecimentos de caridade indicados pelo Senhor D. Pedro II. 124
Segue-se uma viagem à Europa, acompanhado de Lívia de Avellar. Bayreuth foi um dos
destinos, com a intenção de ouvir a música de Wagner. Na época, este era o ponto de
encontro da elite intelectual europeia. Esta localidade não estava preparada
logisticamente para acolher o elevado número de visitantes que aí iam beber Wagner125.
As condições de conforto oferecidas deixavam muito a desejar. Arthur não é muito
expansivo nos seus comentários à música de Wagner126, no entanto, faz um ato de
contrição no final desta visita, onde ressalta uma nota de humor bem portuguesa. (…)
123
Autobiografia, p. 267
124
Autobiografia, p. 268. As receitas dos três espetáculos realizados chegaram a 14.000$000 e as
despesas totais orçaram os 10.000$000.
125
Autobiografia, 279. (…) E era curioso entrar naquelas hospedarias (…) apenas com mesas compridas
e cadeiras de pau (…) e ali se sentavam príncipes, artistas, banqueiros, gente de toda a esfera social.
126
A opinião de Napoleão acerca de Wagner não é clara. No seguinte episódio veladamente há um
sentimento de admiração. Autobiografia, p. 278. Uma ocasião, durante um intervalo do “Siegfried”
observei Wagner bem à minha vontade. Só e afastado do reboliço da multidão, bebia a sua cerveja
53
Foi com sensação de alívio que entrámos no confortável vagão
da estrada de ferro e ainda mais quando penetrámos no excelente hotel
de Munique. Que querem! A humanidade é assim feita e muitas vezes as
nossas impressões se ressentem do estado psicológico determinado em
nós pela falta de uma boa poltrona ou de uma boa costeleta.127
O relato das viagens feitas pelo casal Arthur Napoleão e Lívia Avellar é extenso e
pormenorizado. Os encontros que se vão sucedendo nessas viagens mostram-nos a
maneira de viver da época das classes mais favorecidas. Viajar era uma das ocupações
prediletas deste estrato social. Depois de passar por várias cidades italianas regressaram
a Paris. A par com os passeios temos também muitas referências a jantares. Neste
regresso a Paris os jantares sucedem-se denunciando uma vida social muito dinâmica.
Um desses jantares foi em casa de Saint-Saens, onde esteve presente Marie Trautman.128
sentado à mesa de uma “brauerei”. Fingi também beber. Ele olhou-me duas ou três vezes- parecia
esperar que eu lhe dirigisse a palavra- nada! Afinal levantou-se e partiu, deixei-o partir: isso mesmo era
o que eu queria; tranquilo, calado, sem testemunhas, olhar para o meu homem. Talvez falando quebrasse
o encanto!
127
Autobiografia, p. 280.
128
Esta pianista aos 16 anos ganhou o 1º prémio do Conservatório de Paris. A par de uma carreira como
pianista deixou obra publicada na área da pedagogia musical.
54
Inicialmente, o salão de concertos teve muito sucesso, mas as suas condições não eram
as mais favoráveis, pois como era virado para a rua, tudo o que lá se passava ouvia-se
perfeitamente no exterior. Mas o seu maior defeito prendia-se com o facto de a rua onde
estava instalado não permitir o acesso a carruagens. (…) O próprio Imperador se via
impossibilitado de assistir a qualquer exibição que lá se efectuasse. Ontem como hoje,
a facilidade de acesso é determinante no êxito de um empreendimento desta natureza.
Além disso, fica patente a importância da presença do Imperador. De facto, na Europa,
quando se construíram os primeiros espaços públicos, já existia essa ideia da burguesia
ouvir ópera na presença do rei.
Iniciou-se o Festival com um discurso do orador Ruy Barbosa. Seguiu-se uma produção
dramática de Machado de Assis, tendo o espetáculo terminado com três obras musicais
inéditas: O Hino a Camões de Carlos Gomes, a Marcha Elegíaca a Camões de
Leopoldo Miguez e a Marcha Heroica a Camões de Arthur Napoleão. Napoleão regeu a
primeira e a última obra, tendo Miguez dirigido a sua própria obra.
129
Autobiografia, p. 331
55
As preocupações de Napoleão neste período prendem-se com uma crise comercial
motivada pela baixa do preço do café, que coincidiu com o problema abolicionista.
Problemas políticos e económicos motivaram mais uma viagem a Paris, para acordos
com os credores.
Outro Festival organizado por Arthur esteve relacionado com uma epidemia de cólera
que afetou o sul de França e Itália. Com vista à obtenção de fundos para as vítimas,
formou-se uma comissão, da qual faziam parte o Sr. Ministro de França Amelot, o
Ministro de Itália Mertucelli e Ferreira de Araújo. (…) O Teatro encheu-se literalmente
e mandámos para as vítimas de Itália e França a bonita soma de 25.000 francos.
Mais à frente, Arthur acrescenta: Nesse mesmo ano tomei parte noutro concerto para as
inundações de Espanha. Recebi nessa ocasião a Comenda de Número de Isabel a
Católica. Tendo Gerard, Ministro de França substituído Amelot, indagou Arthur se ele
tinha a Legião de Honra. Perante a negativa disse: (…) é uma injustiça e como volto a
França dentro de poucos meses, pode contar que vou reclamá-la para si (…)
Acrescenta Arthur: (…) O ilustre diplomata perdeu uma ocasião para ficar calado.
Nunca mandou coisa alguma (…) Ele é que foi enviado para a China.131
130
Ver em anexo gravura do Teatro Lírico.
131
Autobiografia, p. 349.
56
Nestas iniciativas Arthur desempenha vários papéis. Ele aparece como compositor,
como pianista, como maestro que dirige a orquestra e também como organizador de
todos estes empreendimentos. Há uma função estritamente profissional como músico
nas suas várias vertentes, mas também nos surge no papel de filantropo que
desinteressadamente se empenha em tarefas em prol do bem comum. Numa época em
que as funções do estado, no que concerne às prestações sociais, dava os primeiros
passos na Europa, vemos a sociedade civil a organizar-se solidariamente e a socorrer as
vítimas das múltiplas calamidades que se sucediam.
Mais uma vez Arthur Napoleão nos deixa com descrições pormenorizadas das intrigas e
peripécias proporcionadas pelas diversas companhias de teatro, dança e ópera que
visitam o Rio de Janeiro naquele tempo. Dos diversos episódios, há um muito curioso,
porque nos mostra como iniciou carreira o famoso maestro Toscanini. Passemos a
palavra a Arthur Napoleão:
Leopoldo Miguez132 era o regente. A páginas tantas por uma cabala que
nunca compreendi bem, Miguez demitiu-se133 e um músico da orquestra,
Soperti (concertino) tomou a regência, mas foi recebido com uma famosa
pateada e teve que renunciar ao cargo. Então, facto curioso, um
desconhecido, por nome Toscanini, largou o violoncelo e saltou para a
cadeira de regente. O público, aturdido com a audácia e pouco a pouco
admirado com a proficiência do novo chefe, rompeu com entusiásticos
aplausos.134
132
Sócio de Arthur Napoleão na firma Arthur Napoleão&Miguez
133
Consultar anexo.
134
Autobiografia, p. 354
135
Em anexo gravura deste teatro.
57
iniciativa. No Palácio de Cristal de Petrópolis realizaram-se vários concertos sem
orquestra no ano de 1893/1894, que foram organizados também por ele. Constavam de
quatro concertos por ano, mas, infelizmente, no penúltimo concerto sucedeu algo
inesperado: Quando Arthur tocava a sua transcrição da Abertura Tanhauser três dedos
da sua mão esquerda deixaram de ter movimento. Foi-lhe diagnosticada a crampe des
pianistes. Os tratamentos a que foi submetido tiveram bons resultados, todavia
Napoleão ficou afastado do piano durante um longo período.
Em 1902, faleceu em Paris a sua esposa Lívia de Avellar. No ano seguinte, casa em
segundas núpcias com Rita Leão Ribeiro, filha do Barão de Santa Maria e sobrinha do
Marquês de Paraná. As suas relações com a antiga nobreza imperial parecem conservar-
se intactas.
Este evento teve uma consequência importante para o nosso trabalho. Foi no decurso
desta cerimónia que Napoleão, instado pela comissão organizativa, aceitou ceder as
Memórias, tendo, no entanto rasgado, alguns capítulos. A intenção de Arthur era a de
136
Diretor do Instituto Nacional de Música.
137
De acordo com a autobiografia seguiu-se um banquete no Pavilhão Mourisco da Avenida Beira-Mar.
Ver em anexo o Menu. Ver canto direito inferior uma nota humorística relacionando Arthur Napoleão
com o Napoleão Bonaparte.
58
publicá-las após a sua morte. Foi com base nesta autobiografia, a que Napoleão chamou
de Notas Soltas, que se realizou o presente trabalho de investigação.
D) Outros aspetos
Na década de 90, refere encontros com o músico português Alfredo Keil138e com
o pianista e compositor Rey-Colaço139. Encontrou-se no Porto com Bernardo
Moreira de Sá.140
138
Autobiografia, p.381. Conheci Alfredo Keil, filho do meu velho amigo, o alfaiate Keil, o “Paole de
Lisboa”.
139
Autobiografia, p. 380. Conheci nesta minha viagem o meu distinto colega Rey-Colaço. Este notável
professor deveu muito, nos seus primeiros anos, à valiosa proteção do Conde de Daupias.
140
Autobiografia, p. 382. Relacionei-me com Bernardo Moreira de Sá, maior trabalhador que em prol
da arte tem tido a cidade invicta. (…) Fundou em 1881 o Orpheon Portuense, cujos anais são uma
valiosa contribuição para a história de música em Portugal. Tive a satisfação de prestar o meu concurso
ao Orpheon, no concerto de 27 de março de 1889.
59
Referindo-se ao Conde de Sebastião Pinho, disse Napoleão: O seu salão de
honra estava adornado com os móveis, bronzes e outros objetos da sala dos
embaixadores do palácio de S. Cristóvão, que ele adquiriu no leilão dos bens de
S. Majestade o Imperador D. Pedro II, que se efetuou por ordem do governo
provisório.142 Ficamos a saber onde foi parar o espólio do Imperador. Acerca do
mesmo Conde acrescenta: Os grandes artistas têm sido ali atraídos por ele,
tanto mais que possui belos pianos de concerto, onde eu e Viana da Mota muitas
vezes nos regalámos de tocar juntos.
Em 1900 refere o pianista Paderevsky. Estivemos pela última vez numa festa no
“Chateau de La Muette”. (…) Nessa noite houve concertos. O pianista era
Paderevsky.
141
Autobiografia, p. 401. Noutro jantar em casa dos Viscondes de Cavalcanti, encontrei enfim Eça de
Queiroz e esposa. Foi uma noite de supremo encanto, em que pude conversar umas horas com o grande
escritor.
142
Autobiografia, p. 404
143
Autobiografia, p. 424
144
Autobiografia, p. 424
60
Capítulo III
“Romanticism” is a term used to denote an entire era, a portmanteau word covering all
important composers from Shubert to Mahler, and the unimportant ones as well. This is
a bad blunder: a category taken from the history of ideas but lacking sufficient focus to
be useful for historiography has been hewn into a rough-and-ready label simply
because our underdeveloped historical awareness balks at the thought that the nineteen
century, like most other periods, was inwardly divided, and hence the search for a
single valid name for it is doomed to failure.146
145
Cazarré (2006:57)
146
Dahlhaus, 1928, p.16
61
nacionalistas que estiveram presentes na Europa dessa época. Há na obra deste autor a
receção de elementos musicais típicos da cultura e da música brasileira. Será um
exagero afirmar que Arthur Napoleão foi um dos pilares da construção do nacionalismo
enquanto corrente estético-musical no Brasil? Diz Vasco Mariz:
147
Mariz, 1983, p. 93
148
Mariz, 1983, p. 94/108
62
eles empreendidas. Votta, R.149realça o importante papel de Napoleão como editor e
também como professor. As primeiras edições do compositor Villa-Lobos foram feitas
por Napoleão, como, por exemplo, a Prole do Bebê nº1. Como professor, teve como
alunos Ernesto Nazareth e Chiquinha Gonzaga. As obras destes compositores foram
também editadas pela Casa Arthur Napoleão.
Voltando à afirmação feita anteriormente, vejo fundamento para dizer que Arthur
Napoleão foi uma figura presente no nacionalismo Brasileiro, pela proximidade que
teve em todo este movimento, pela colaboração e apoio prestado e pela própria
integração nas suas composições de elementos musicais pertencentes à cultura popular
brasileira. O papel desempenhado por ele, neste importante período da cultura artística
brasileira, tem sido alvo de recentes trabalhos de investigação realizados no Brasil.150
149
Simpósio Internacional Villa-Lobos- USP/ 2009
150
CAZARRÉ,M. (2003)
63
it was the public or the private concert- the bourgeois or the aristocratic-
that formed the decisive arbiter in the making of aesthetic judgments and
musicohistorical decisions. (…) A glance at the biographies of Spohr,
Moscheles, Chopin or Liszt will suffice to assess the historical
significance of the private concert, the form in which the earlier music
culture of the nobility survived into the nineteenth century. (…) The
importance to music history of the private concert only began to recede
in the late nineteenth century. Yet scholarly and popular writings on
music almost invariably overlook or belittle its importance. This is
probably explained, for one, by an unconscious prejudice on the part of
the bourgeois historians against aristocratic traditions; for another, by
the habit of searching the past for a pre-history of the present, a present
whose musical culture is marked by the public concert; and finally by an
inherent lack of documents. Public concerts were regularly reported in
journals and newspapers, private concerts only rarely.151
Vários motivos poderão ser apontados para justificar a dificuldade em estudar e integrar
alguns autores na época a que pertencem (preconceitos dos historiadores imbuídos da
cultura burguesa, vícios na construção da história, etc.), assim como entender a
importância das práticas musicais e ambientes a elas ligados. Além disso, o séc. XIX
trouxe várias tendências desconexas entre si – o intimismo, a monumentalidade e o
virtuosismo –, porém com um fim comum: o de encontrar uma porta de saída para o
Classicismo. Estas tendências são visíveis nas obras de Napoleão.
151
Dahlhaus 1928, p.49
152
Cazarré 2006, p.58
64
Do ponto de vista da forma, Arthur Napoleão não utilizou a herança do Classicismo que
se projetou no Romantismo. Também não se vê a intenção de criar novos modelos
dentro da composição musical. Os géneros por ele praticados seguem as modas da
época, tendo como objetivo agradar a um vasto público. Destacam-se Os galopes, as
fantasias sobre temas muitas vezes de outros compositores e peças caraterísticas que
nos remetem para o pitoresco da cor local. A música de dança está, também ela,
presente na obra de Napoleão.
Podemos ser levados a concluir que houve, na época, uma mainstream constituída por
grandes compositores que nos deixaram um legado que faz parte da história da música.
As suas obras ainda hoje são tocadas e serão esses os compositores que dão corpo ao
chamado romantismo na música. A grandiosidade da obra desses criadores como que
“engoliu” outras expressões musicais e compositores que foram caindo em desuso.
Criações que são produto e resultam de uma moda estão condenadas ao esquecimento
com o aparecimento de uma moda nova. Isto não significa que tais obras sejam despidas
de valor artístico. No entanto, convém caracterizá-las e integrá-las no seu tempo para
melhor as podermos entender. É a tarefa que nos propomos realizar.
153
Cazarré ,2006, p.59
65
não gostava de tocar as suas obras em grandes salas, preferindo a intimidade do salão.
(…) Chopin felt best understood, both as pianist and composer, not in the concert halls
where Liszt established his reputation, but rather in the aristocratic salons of Paris and
London.154 Por vezes, chamamos música de salão a um tipo de peças musicais
destinadas a amadores, que tocavam para um público pertencente à classe média
provinciana. Não devemos confundir este repertório com o praticado no “salão
aristocrático”.
154
Dahlhaus 1989, p.147
155
Dahlhaus 1989, p.150
66
baladas sentimentais e canções cómicas que alcançaram uma venda sem
precedentes no último quartel do séc. XIX.156
Pelo tipo de obras editadas, podemos ter uma ideia clara das práticas musicais deste
período. A dualidade apontada anteriormente indicia um mundo a duas velocidades,
tendo, no entanto, um ponto comum: a sociabilidade girava à volta do piano. A obra de
Napoleão reflecte com clareza esta ideia, pois encontramos nele obras puramente de
entretenimento a par com peças com outras ambições artísticas. A relação de Napoleão
com o salão aristocrático e burguês é amplamente descrito na sua autobiografia. Nos
vários países que percorreu, foi sempre presença obrigatória nesses espaços.
A maior parte das obras para piano de Napoleão revela procedimentos técnico-
estéticos característicos da maioria da música composta pelos pianistas-compositores
do séc. XIX, dentre estes procedimentos salientam-se aqui algumas referências a
virtuosidade, improvisação, folclorismo e exotismo.157 Esta categoria de pianista-
compositor era usual na época e enraizava numa linha aos quais pertenciam grandes
nomes como Thalberg, Liszt, Herz e Gottschalk.
156
Burrows, 1981, p.282 in Cazarré, 2006, p. 75.
157
Cazarré(2006:61)
67
Esta caracterização deverá ser completada com outros elementos analíticos, de maneira
a obtermos uma visão mais completa e envolvente da obra do autor. A mera descrição
morfológica do texto não nos dá a relação com a realidade sociocultural da época e a
própria vida do autor. Para encontrar canais significantes que nos conduzam à
compreensão global da obra de Arthur Napoleão, iremos analisar a sua obra à luz dos
seguintes aspetos.
O virtuosismo tem uma grande importância na música do séc. XIX. Há uma ideia de
que os virtuosos dos séculos XVIII e XIX são uma herança dos menestréis errantes dos
séculos anteriores. No entanto, o que nos interessa é perceber o processo que levou ao
entendimento do virtuosismo como arte. O violinista Paganini é apontado como o
inspirador de compositores/intérpretes como Liszt, Schumann e Brahms, entre outros
que tentaram transferir o virtuosismo de Paganini do violino para o piano. Há dois
procedimentos composicionais básicos que estão na base do virtuosismo. Por um lado, a
utilização do monodismo cantabile e, por outro lado, o uso de figuração herdada da
improvisação, que abandonou um papel meramente auxiliar e decorativo para se tornar
parte substancial da obra. The decisive factor was Liszt’s fundamental insight that
virtuosity, instead of remaining a peripheral and epigonal part of music, was capable in
principle of participating in the “romantic revolution” which Berlioz, following the
lead of Victor Hugo, had transferred from literature to music.158
A improvisação está implícita na obra deste autor. Na época que estamos a descrever, a
improvisação é íntima do virtuosismo. Um tipo de obra que estava muito em voga era a
Fantasia sobre temas de uma ópera que estivesse na moda. Napoleão deixou-nos alguns
158
Dahlhaus(1989:135)
68
exemplos desse tipo de composição, que era muito apreciada pelas plateias de então159.
O auditório ouvia uma melodia conhecida e, a seguir, deixava-se fascinar pelas
habilidades técnicas com que o pianista o presenteava. O texto musical por vezes estava
escrito, no entanto, era uma prática habitual a improvisação no momento. Portanto,
quando o texto aparece escrito, ele reflete, de alguma maneira, uma conceção com
origem na improvisação. Neste contexto, torna-se difícil separar virtuosismo de
improvisação. Estas práticas estão presentes em Arthur Napoleão, enquanto intérprete e
enquanto compositor. No grande modelo desta época protagonizado por Liszt, era
hábito ele, no fim dos seus espetáculos, pedir ao público sugestões de temas sobre os
quais ele improvisava. Essa descrição ficou-nos dos concertos que ele deu em Portugal
em 1845.160
159
La Favorita, grande fantasia a 4 pianos sobre a ópera de Donizetti. Na lista elaborada por FRIAS,S.
(1913) esta obra não tem data de publicação.
160
Branco, F. 1959
161
Este episódio é referido na autobiografia.
69
seus ouvintes – associa, com ou sem razão, a determinados lugares ou
povos distantes.162
O Exotismo influenciou Arthur Napoleão enquanto compositor. Está presente em
muitas obras do autor que usam procedimentos técnicos semelhantes. São eles:
Ostinato rítmico com intenção de dança.
Ostinato rítmico e melódico como padrão para acompanhamento.
Uso de melodias com cores locais ou que evocam sentimentos do que
pretende retratar.
Criação de ambientes musicais sonoros através da pintura de paisagem
musical, pela utilização dos procedimentos acima referidos,
conjuntamente com sonoridades que “entonam” o proposto pelo título da
obra.163
162
Locke, R. P. 2011, p.28
163
Cazzarré, M. (2003:16)
164
DUROSELLE(1992:15)
70
natureza política. Essa repressão levou ao afastamento das pessoas dos espaços
públicos, com receio da polícia política. Com este medo, as pessoas acolheram-se nos
seus lares, onde só aceitavam a entrada de amigos e pessoas de confiança. O culto do
lar, que esta atitude veio trazer, influenciou a arte nas suas mais diversas manifestações,
da arquitetura à pintura como na decoração e no tipo de mobiliário. No mobiliário,
privilegiou formas simples e elegantes e, na arquitetura, abandonou as ornamentações
excessivas e pesadas. É, além disso, um estilo de vida, centrado na família e na vida
privada.
Na música, podemos encontrar duas manifestações deste estilo, que se refletem, por um
lado, na técnica de composição e, por outro, na maneira como o concerto é organizado.
Em relação à técnica de composição, podemos dizer que há uma clara preocupação em
escrever obras que possam ser executadas com relativa facilidade por músicos amadores
(de acordo com esta visão, os primeiros lieder de Schubert integram-se nesta categoria).
Em relação à maneira como o concerto é organizado, há dois aspetos a considerar, que
estão relacionados. Analisando os programas dos espetáculos de Arthur Napoleão165,
poderemos constatar que este tinha a colaboração de vários artistas. Além disso, o seu
repertório era muito variado, isto é, continha fragmentos de ópera e sinfonias, assim
como peças a solo. Era uma miscelânea de estilos musicais. Digamos que a separação
entre cultura e entretenimento não é bem clara. Isto é uma característica da abordagem
de Arthur Napoleão no duplo papel de compositor e pianista virtuoso. Mas é, acima de
tudo, uma característica da época.
165
Conferir anexo.
166
DAHLHAUS (1989:174)
71
C)Géneros Musicais e Práticas Pianísticas
Era habitual Napoleão interpretar textos de sua autoria, o que se inscreve na lógica da
época do pianista-compositor. Será, possivelmente, um dos últimos pianistas herdeiros
de uma tradição que nos vem dos princípios do séc. XIX. O pianista português Viana da
Motta, que se relacionou com Arthur Napoleão, tem uma abordagem mais de acordo
com a atual. Fazia recitais temáticos, isto é, abordava um autor ou uma época em cada
espetáculo. Podemos dizer que os dois pianistas formam uma ponte entre o séc. XIX e o
séc. XX. O público de Viana da Motta esperava que o pianista mostrasse virtuosismo na
interpretação de obras de compositores consagrados, mas o interesse pela improvisação
foi-se extinguindo.
FRIAS (1913), fez uma lista das obras compostas por Arthur Napoleão.167 CAZARRÉ
(2006:99), em relação a essa lista, faz o seguinte comentário: Logo de imediato ao se
cruzarem os dados da listagem com os frontispícios das capas de partituras publicadas
pela Casa Editora Arthur Napoleão, Sampaio & Araújo e Cia., Editora Bevilaqcua e
Ed. Vieira Machado e Cia., verificou-se a dissonância das informações apresentadas, o
que levou à realização de uma revisão do catálogo de obras para piano do compositor
(…) A lista realizada por CAZARRÉ (2006) estabelece uma datação das obras de
acordo com informação recolhida na autobiografia e nas edições da mesma obra por
casas editoras diferentes. Alem disso, há obras que fazem parte da lista de CAZARRÉ
que estão manuscritas, isto é, nunca foram publicadas. Essas obras não integram a
recolha de FRIAS (1913), cuja lista apresenta lacunas ao nível da datação das obras que
são referidas e não inclui outras que estão manuscritas. No entanto, este trabalho foi
realizado em vida do compositor. Poderemos recordar a insatisfação de Arthur
Napoleão168 pelo livro publicado em Portugal em 1913, no entanto os aspetos que lhe
desagradaram não são especificados. Apesar de lacunar, esta lista dá-nos informações
importantes em relação à obra do autor. Completando essa análise com as informações
adicionadas por CAZARRÉ (2006), poderemos, com alguma margem de segurança,
167
Consultar anexo.
168
Consultar pág. 23 deste trabalho.
72
afirmar que a obra composicional de Arthur Napoleão se projeta em três áreas, ou,
melhor dizendo, explora três géneros musicais distintos:
2. Peças características
3. Estudos
169
CAZARRÉ (2006:107)
73
Era habitual Napoleão tocar Fantasias de Thalberg nos seus concertos170. Thalberg
chegou a dar algumas aulas a Arthur e é compreensível essa influência. Todavia, há uma
altura em que Arthur Napoleão começou a tocar as suas próprias Fantasias. Por um
lado, porque assumiu o papel de pianista-compositor como era habitual na época, por
outro lado, tem a ver com o seu crescimento artístico que lhe conferiu maior autonomia.
No entanto, a influência de Thalberg continuou presente no tipo de técnica de
composição que Arthur Napoleão adotou. No seu tratado de composição musical,
Durand171 descreve vários tipos de Fantasias. Tendo como ponto comum o facto de uma
fantasia ser uma peça composta sobre motivos de ópera ou sobre motivos de airs
populaires, a sua abordagem técnica diverge bastante. Há as Fantasias à maneira de
Herz, de Thalberg e de Liszt. Em relação a Thalberg diz-nos DURAND (1899) Essas
Fantasias, que começam com uma introdução e finalizam por uma Coda, são
geralmente baseadas em três motivos principais, que servem de tema para a peça
inteira. Cada um destes motivos é executado habitualmente duas vezes no mínimo,
sejam consecutivamente, sejam com a intercalação de alguns compassos episódicos.
(…) Os três motivos que constituem o corpo da peça são ligados entre si pelos
divertimentos, os quais, assim como a introdução, são geralmente formados por
sujeitos, por fragmentos ou derivados destes mesmos motivos.
170
Consultar anexo.
171
DURAND,E. (1899:190,191)
74
foi escrita com uma intenção narrativa, deixando transparecer o tipo de emoções
envolvidas. Temos aqui dois elementos que se tornam comuns neste tipo de obras e que
são a existência de uma estória e/ou a relação com determinado sentimento ou emoção.
Se recuarmos no tempo, encontraremos uma obra de juventude de J.S.Bach, dedicada ao
seu irmão mais velho172, que nos conta, através da música e numa forma bastante livre,
uma estória e o sentimento que está por detrás dessa narrativa. Encontramos, pois, em
compositores anteriores ao Romantismo, obras que, de algum modo, poderemos integrar
no género Peças Características. O fenómeno que podemos classificar como novo e
que nos surge no Romantismo é a institucionalização desta maneira de pensar e de
compor música, como consequência. Há, também, no Romantismo o romper com as
formas tradicionais e a adoção de formas mais livres para estas obras.
2. Peças com título ou subtítulo que fazem referência a géneros de danças. Ex.
Polca de Concerto op. 17, Caprice-Valse op. 68 (…)
Esta divisão foi feita de acordo com os títulos e subtítulos das obras. É uma perspetiva
útil para a sistematização e organização das obras de Napoleão, apesar de ter o
inconveniente de “meter no mesmo saco” peças muito diversas. Grande parte destas
172
BWV 992 Sopra la Lontananza del Fratello Dilettissimo.
173
CAZARRÉ (2006:145)
75
obras tem o título em francês, o que reflete um costume da época. Paris assumia-se
como a capital do mundo artístico e intelectual, o que levava os artistas a “batizarem” as
suas obras com nomes franceses, para assim potenciarem a sua aceitação junto do
público consumidor. É uma prática que Arthur Napoleão segue, mas que não é
exclusiva dele. Aliás, um dos traços que marcam a personalidade artística de Napoleão é
a sua consensualidade. Ele integra, tanto na sua prática de pianista, como na sua obra
como compositor, as modas do momento.
O galope (…) é uma peça muito viva em 2/4. Ele é composto (…)
de três grupos de frases formando do mesmo modo os períodos, onde a
terceira parte é a reprodução total ou parcial da primeira. O corpo da
peça pode ser precedido de uma introdução de alguns compassos e
seguido de uma coda. (…) O passo do galope consiste em deslizar o pé
até o encontro do outro, a cada tempo, de uma maneira contínua e sem
trocar o pé. Este movimento combinado corresponde a cada um dos
tempos do compasso, e é indispensável que a música os acentue bem.
174
Consultar anexo.
175
DURAND (1899:214)
176
http://www.oxfordmusiconline.com:80/subscriber/article/grove/music/10589
76
A quick, lively dance in 2/4 time. Together with the waltz,
quadrille and polka it was one of the most popular ballroom dances of
the 19th century. It derived its name from the galloping movement of
horses and was possibly the simplest dance ever introduced into the
ballroom. The partners held each other rather as in the waltz but both
facing the line of dance and proceeding rapidly with springing steps
down the room. The dance originated in Germany, was popular in
Vienna in the 1820s and spread to France and England in 1829.
Sendo o Galope uma peça de dança, tinha também uma vertente de concerto.
Recordemos o encontro de Arthur Napoleão com Liszt, no qual o jovem Arthur tocou o
Galope cromático composto por Liszt. O próprio Liszt costumava tocar essa obra nos
seus concertos. Numa perspetiva mais popular de dança de salão ou como peça de
concerto, o Galope foi a grande moda ao longo do séc. XIX. Nos salões de baile, era
usada para terminar o serão. Pela sua simplicidade coreográfica, conseguia envolver
toda a gente e poderemos encontrar aí a explicação para o seu sucesso como dança de
salão. Não requeria elevadas competências aos potenciais bailarinos e era uma
oportunidade para todos participarem. Napoleão escreveu vários Galopes, com maior
incidência na sua juventude.
A polca também se insere no género peça característica e encontramos vários exemplos
deste tipo de composições na obra do autor. São peças que pertencem à fase de
juventude do compositor. Há polcas de Napoleão que são para serem executadas em
concerto, portanto obras com maior ambição artística, e outras que têm uma
componente de dança, viradas para uma dimensão de entretenimento. Na sua
autobiografia, ao referir a sua passagem pelos Estados Unidos da América, diz-nos que,
para arredondar o seu pecúlio, compunha e vendia polcas por cinco a dez dólares, sob
pseudónimo.
A origem da Polca suscita alguma polémica. There is much dispute about the origins of
the polka. Etymologically, the name suggests three Czech words: půl (‘half’), pole
(‘field’) and polka (‘Polish woman’), all of which have given rise to various
speculations. Accordingly it is a dance with a predominant ‘half-step’, a ‘field dance’
77
or a dance coming from or inspired by Poland.177 É uma opinião dominante aquela que
nos diz que a polka era uma dança de camponeses checos. Outros aspetos a reter são:
A ballroom dance that became especially popular during the 19th
century. Originally a peasant round dance from Bohemia, it was adopted
in Prague in the late 1830s and soon spread throughout Europe, being
danced in Paris in 1840 and in London four years later; it also reached
New York, where it was taken up with great enthusiasm. The polka was a
lively couple dance in 2/4 time, generally in ternary form with regular
phrases, and was characterized by short rapid steps for the first beat and
a half of the bar, followed by a pause or hop.178
Com origem europeia, a Polca chegou ao Brasil, onde foi absorvida e transformada pela
sociedade brasileira. Introduzida na década de 40 do séc. XIX no Brasil, teve de
imediato um sucesso extraordinário. Escrita num compasso binário simples, a sua
coreografia despertou um grande entusiasmo, pois permitia o que popularmente se
chama o “dançar agarrado”. Fundiu-se com outros géneros locais de música popular e
espalhou-se pelos salões de todo o Brasil. As Polcas escritas por compositores de
grande divulgação popular, como C. Gonzaga e Ernesto Nazareth, ilustram a receção
que esta dança teve no Brasil. A sua expansão é visível até às primeiras décadas do séc.
XX, através de gravações que nos ficaram já da época dos discos mecânicos de 78 rpm.
Arthur Napoleão deixou-nos várias Polcas de sua autoria, mas a sua influência na
sociedade brasileira envolve outros aspetos. A casa editora Arthur Napoleão (ainda hoje
existente) publicou e deu voz a toda uma geração de novos compositores brasileiros que
reinterpretaram estes conceitos de origem europeia, acrescentando-lhe o calor e a cor da
cultura local. No entanto, ao referir a polca no contexto da obra de Arthur Napoleão,
estamos a falar desta dança na sua versão europeia. Reparemos que as polcas de
Napoleão foram compostas antes do compositor se instalar definitivamente no Brasil.
177
http://www.oxfordmusiconline.com:80/subscriber/article/grove/music/22020
178
http://www.oxfordmusiconline.com:80/subscriber/article/opr/t114/e5265
78
C.3) Estudos
Napoleão deixou-nos três coleções de estudos para piano que são o op. 43, 84 e 90.
Estudos é um género que carece de alguma uniformidade conceptual. Os vários
compositores que, em épocas diferentes, se dedicaram a este género foram integrando
intenções e caminhos diversos. Múzio Clementi publicou em 1817 o seu conjunto de
estudos a que chamou Gradus ad Parnassum. Têm uma vertente pedagógica, isto é, são
obras destinadas a serem executadas por estudantes de piano durante o seu processo de
aprendizagem. Não havendo propriamente um impedimento, não será expectável que
figurem nos programas de concerto. Este entendimento digamos que é o inicial, talvez o
mais básico do que é um estudo. Cada estudo expõe uma determinada dificuldade
técnica que o estudante deverá enfrentar e resolver. Aceitando esta perspetiva,
poderemos encontrar um outro exemplo de estudos anteriores à obra de Clementi. A
obra de J.S.Bach O cravo bem temperado inscreve-se também nesta lógica e é anterior à
obra de Clementi, pois situa-se na primeira metade do séc. XVIII. Os dois cadernos que
constituem esta obra estão escritos em todas as tonalidades maiores e menores. O
primeiro prelúdio está na tonalidade de dó maior e o segundo na de dó menor, o terceiro
em dó sustenido maior e o quarto prelúdio em dó sustenido menor. E assim
sucessivamente, até esgotar as tonalidades possíveis do sistema temperado. Visa
habilitar o executante a explorar tecnicamente todas as tonalidades. Há, pois, um
conjunto de obras que se destinam não à sala de concerto, mas sim à sala de aula e à
intimidade do trabalho diário do instrumentista. Neste contexto, poderemos situar os
estudos de Carl Czerny, que juntamente com Clementi e Cramer, fazem parte do plano
de estudos dos atuais Conservatórios de Música.
Com os estudos de Cramer,179abre-se um caminho que irá influenciar os compositores
que se lhe seguiram. A par com preocupações de estrita ordem técnica pianística, há
também um conteúdo musical e artístico que faz com que essas obras transcendam a
mera técnica e se aproximem de uma lógica de concerto. Poderemos dizer que são obras
que anunciam os célebres Études op. 10 e 25 de Fréderic Chopin. Depois da publicação
dos Études de Chopin, este género evolui de uma maneira vertiginosa. Temos,
179
Arthur Napoleão publicou uma versão destes estudos para dois pianos a que chamou 84 Nouvelles
Études de Cramer-Napoleão.
79
posteriormente, os Estudos de Execução Transcendental de Liszt e, se ultrapassarmos a
época de Arthur Napoleão, devemos referir pela sua importância os estudos de Debussy,
Scriabin e, concluindo na nossa época, os estudos de Ligeti.
Situando Arthur Napoleão na época a que pertence, veremos que ele frequentou em
Varsóvia o salão de Mme. Rosen, que Chopin visitara várias vezes. A influência deste
compositor está presente na descrição que Napoleão nos deixa na sua autobiografia.180
Os estudos de Arthur Napoleão não são dedicados a uma determinada dificuldade
técnica, afastando-se assim do modelo mais tradicional deste género. Cada estudo
envolve várias dificuldades técnicas e, além disso, tem presente uma vertente emocional
e musical. Isso aproxima-o do modelo de estudos seguido pelos compositores do
romantismo. No caso dos estudos op. 90, encontramo-nos perante obras que não se
destinam a estudantes de piano, mas sim, pela dificuldade que apresentam, a pianistas
experimentados.181 Não é visível entre eles uma relação de tonalidade, como a
apresentada por J.S.Bach na sua obra Cravo Bem Temperado. Ao gosto da época,
Napoleão atribuiu um nome francês a cada um dos seus 18 estudos op. 90. Temos
assim:
I. Aux pieds d’Omphale
II. Course au clocher
III. Ronde des Elfes
IV. Au Foyer
V. Danse des Fantoches
VI. Duo d’amour
VII. Pressentiment
VIII. L’Ondine et le Poete
IX. Nouveau tremolo
X. Sérénade Portugaise
XI. Papillon
XII. Rêve d’un fée
XIII. Joyeux souvenir
180
Conferir pág. 34 deste trabalho.
181
Uma análise detalhada dos Estudos op. 90 não é um objetivo deste trabalho. O Estudo nº1 op. 90
dedicado a Viana da Motta poderá ser consultado no anexo.
80
XIV. Adamastor
XV. Près d’un ruisseau
XVI. Peines du coeur
XVII. Une nuit sur le Taje
XVIII. Cavalcade
81
profusão de arpejos, não lhe retirem a clareza. Há também o uso da técnica da
oitava com as duas mãos em simultâneo, o que lhe confere uma grande
monumentalidade. Ao gosto da época, o seu título associa-se ao nome de uma
deusa da mitologia Grega.
O Estudo op. 90 nº1 principia com um arpejo descendente, executado com as duas mãos. A
velocidade de execução será uma das dificuldades a ultrapassar. Outro aspecto técnico será o
facto do arpejo, ao ser executado com as duas mãos, obrigar o intérprete a desenvolver uma
igualdade no ataque de maneira a obter uma sonoridade uniforme.
82
Os primeiros cinco compassos deste excerto (3º,4º,5º,6 e 7º compasso do estudo) abordam outra
questão técnica, muito interessante do ponto de vista da técnica pianística. Temos aqui um
cantabile para os dedos fracos da mão direita (quarto e quinto dedo) enquanto os dedos fortes
(primeiro e segundo dedo) fazem um arpejo. Esta dificuldade técnica é muito explorada no
Romantismo e somos remetidos para o Étude nº 3 op. 10 de Chopin. A movimentação dos dedos
fortes não é igual nestes estudos, no entanto, teremos que reconhecer que têm por alvo a mesma
dificuldade técnica. Haverá aqui também acessoriamente um cuidado especial a ter com o pedal
direito do piano, com vista a não misturar as harmonias. Na partitura, vem proposta uma
utilização desse pedal que nos dá uma perspectiva dos gostos da época em relação a esse
assunto.
No próximo exemplo, temos o mesmo problema do arpejo descendente executado com as duas
mãos, mas exposto noutra tonalidade. (Compasso nº 11 e nº12 do estudo)
83
Sucede-se um cantabile nos termos anteriormente descritos noutra tonalidade. (Compassos 13º,
14º, 15º e 16º do estudo)
O mesmo tema aparece agora em oitavas paralelas com a mão direita. Neste estudo, Arthur
Napoleão aborda vários tipos de técnica. É frequente nos chamados estudos para piano uma
abordagem sistemática do mesmo problema técnico. Habitualmente fazem parte da rotina diária
de um pianista e não ultrapassam esse âmbito. Neste caso, temos o que poderemos chamar um
Estudo de Concerto. Trata-se de uma obra que, pela sua grandiosidade e variedade técnica, se
destina a ser tocada em público e não reservada ao trabalho académico. Repare-se no seguinte
fragmento, a partir do compasso nº 19.
84
A aplicação de várias técnicas à mesma ideia musical é um caminho seguido pelo compositor.
No exemplo seguinte, desenvolve-se um problema técnico importante na técnica pianística. O
cantabile aparece na linha superior, suportado por uma profusão de arpejos descendentes nas
duas mãos. Questões de igualdade e separação de planos sonoros, tão queridas aos pianistas, são
aqui abordadas com grande acuidade. Compassos 23º, 24º, 25º e 26º.
No excerto seguinte (compasso 37º, 38º 39º e 40º) o cantabile vem exposto numa linha
intermédia, utilizando com predominância os dedos fortes da mão esquerda (Primeiro e segundo
dedo). Mais uma vez é necessário desenvolver o equilíbrio dos vários planos sonoros.
85
O próximo excerto é um bom exemplo do gosto musical e técnico daquela época, onde
imperava o virtuosismo de Franz Liszt (Compasso 61º, 62º e 63º do estudo). Oitavas paralelas
salpicadas com acordes, suportadas por uma mão esquerda em arpejos, abrangendo desde a zona
mais aguda do piano até à mais grave, e tudo isto, com indicações de ff e por vezes de fff, dá-
nos uma ideia clara do carácter da obra. Do ponto de vista técnico, as questões aqui
apresentadas revestem-se do maior interesse para efeitos de estudo. O cantabile em oitavas
paralelas reforçadas com acordes e arpejos muito rápidos na mão esquerda são uma proposta
interessante de trabalho técnico.
86
O uso de oitavas nas duas mãos em simultâneo confere monumentalidade ao texto musical. Será
essa uma das caracteristicas da obra de Arthur Napoleão (Compasso 75º e 76º do estudo) O
exemplo escolhido para concluir esta abordagem a este estudo faz ressaltar este aspecto que,
sendo ilustrativo de uma época, não deixa também de ser uma imagem de marca de Arthur
Napoleão enquanto compositor.
88
visível, que é o uso de trilos sucessivos na mão direita para realçar a melodia. Os
trilos são executados com os dedos fortes da mão direita, ficando a melodia a
pertencer aos dedos fracos da mesma mão. É um problema técnico muito
interessante, no entanto de grande dificuldade de execução.
9. Estudo nº9- Nouveau tremulo. Tonalidade dó maior. Este estudo foi dedicado ao
pianista e compositor Gottschalk. Nos estudos anteriores não nos debruçámos
sobre as dedicatórias, pois nos parece que essa abordagem justificaria por si só
uma investigação autónoma. A referência que aqui deixamos prende-se com o
facto de que os oito primeiros compassos são o motivo de um estudo de
Gottschalk. A relação de amizade de Arthur Napoleão com este compositor foi
muito grande. Napoleão, enquanto editor, foi responsável pela publicação de
várias obras de Gottschalk, além de ter colaborado com ele em muitos
espetáculos182. Este estudo exige o controlo de notas e acordes repetidos em
mãos alternadas. Para além do problema da igualdade de som, é um estudo de
resistência física, bem ao gosto da época.
10. Estudo nº 10- Sérénade Portugaise. (O Trovador e a Saloia.) Tonalidade sol
menor com coda em Sol maior. Curiosamente, este estudo dedicado ao pianista e
pedagogo português Rey Collaço183 tem um subtítulo em português. É a única
vez em que Arthur Napoleão usa a língua portuguesa nesta obra. É o primeiro
estudo do segundo caderno. Tem um cantabile muito claro que é entregue à mão
direita e um acompanhamento arpejado distribuído pelas duas mãos. A isto
acresce um baixo feito pela mão esquerda. Esta técnica era muito popular na
época, porque dava a sensação que o pianista tinha três mãos. A polirritmia
atribuída à mão direita é de difícil execução, pois a clareza do cantabile poderá
ser posta em causa. Neste estudo, mais uma vez fica demonstrado o profundo
conhecimento de Arthur Napoleão dos problemas técnicos do piano.
182
Utilizo a palavra espetáculo, porque o conceito atual de recital não coincide com as práticas musicais
da segunda metade do séc. XIX.
183
Há uma obra com carácter pedagógico deste autor do qual deixo a referência. Rey Colaço,
Alexandre(1923) De Música. Imprensa Libanio da Silva. Travessa do Falla-Só, 24 Lisboa. Na dedicatória
do estudo nº 10, o nome Collaço vem escrito com dois ll. No livro referido aparece “Colaço” escrito “à
portuguesa”.
89
11. Estudo nº 11- Papillon. Tonalidade Ré maior. Neste estudo temos outra
perspetiva da polirritmia. No seu início temos um cantabile nos dedos fracos da
mão direita, pontilhados por tercinas nos dedos fortes da mesma mão.
Seguidamente, é explorada a divisão em quatro de cada tempo do cantabile. A
mão esquerda começa por se limitar a desenhar o baixo na região grave do
piano, mas termina com cruzamentos de mão e uma escrita com muitos acordes.
A dificuldade deste estudo será conservar a uniformidade do cantabile numa
divisão por vezes binária e outras vezes ternária da unidade de tempo.
12. Estudo nº 12- Rêve d’un Fée. Tonalidade Sol maior. Explora as subdivisões do
tempo num compasso composto, começando por atribuir uma divisão ternária à
mão direita colocando quatro figuras na mão esquerda. A mão direita tem um
fraseado com muitos intervalos de sexta, mas também de terceira. Há outro
aspeto a considerar que é a diferença de ataques, onde vemos por vezes a mão
esquerda em legato e a direita em staccato. Poderemos ver este estudo
relacionado com questões de articulação. Mais uma vez se conclui que Arthur
Napoleão abordava várias dificuldades técnicas ao mesmo tempo, embora
possamos vislumbrar a questão central que lhe serve de fio condutor no processo
composicional. Neste caso o domínio técnico de vários tipos de articulação.
13. Estudo nº 13- Joyeax Souvenir. Tonalidade si bemol maior. O próprio Arthur
Napoleão caracteriza este estudo numa nota de rodapé inscrita na 1ª página desta
obra. Diz-nos o autor: Cette Etude n'est qu'un simple exercise de notes repetées.
Jouer le aussi rapidement que possible184. Sendo um estudo de notas repetidas
na mão direita, há um desenvolvimento temático na mão esquerda.
14. Estudo nº 14- Adamastor. Tonalidade mi bemol menor. Encontram-se nesta obra
várias dificuldades técnicas As técnicas usadas nos estudos anteriores cruzam-se
aqui, havendo alguma dificuldade em definir a prevalente. Temos, por vezes, o
cantabile entregue alternadamente aos polegares das duas mãos, inserido numa
profusão de acordes e arpejos a uma velocidade de cortar a respiração. Em
compasso 2/4, com indicação de metrónomo de colcheia a 104, sendo o texto
184
Arthur Napoleão raramente se refere a si próprio enquanto compositor. Das poucas vezes que o faz, o
tom adotado é de humildade, banhado de alguma ironia. Esta atitude contrasta com a sua auto imagem
enquanto pianista. Na sua autobiografia em relação a esse aspeto, percebe-se claramente que ele se sentia
incluído no pequeno grupo dos maiores pianistas do mundo.
90
para a mão direita preenchido com fusas, adicionando cruzamento de mãos e
oitavas alternadas, ficamos com uma ideia da intenção do compositor. A título
de curiosidade, este estudo é dedicado a seu irmão Alfredo Napoleão. Alfredo,
não tendo sido um pianista com o relevo do irmão mais velho Arthur, foi um
compositor de mérito, cujas obras foram publicadas na casa editora propriedade
de Arthur Napoleão.
15. Estudo nº 15- Prés d’un ruisseau. Tonalidade Sol maior. Há um padrão rítmico
que nos acompanha do princípio ao fim deste estudo, cabendo aos primeiros
dedos de ambas as mãos a ligação e igualdade desejada pelo compositor. Tem
um cantabile em terceiras, evoluindo mais tarde para outros intervalos ou
mesmo acordes.
16. Estudo nº 16- Peine du coeur. (Mendelssohnianna) Tonalidade fá menor. A
referência do subtítulo remete-nos para o universo musical das Canções sem
palavras de Mendelssohn. O cantabile é entregue aos quartos e quintos dedos da
mão direita, apoiados por acordes executados pelas duas mãos. Há uma linha de
baixo feita pela mão esquerda, constante ao longo deste estudo. Mais uma vez
temos recriado o efeito das três mãos, pois são percetíveis três níveis sonoros. A
dificuldade será conseguir manter as três linhas claramente distintas até ao fim
do estudo.
17. Estudo nº 17- Une nuit sur le Taje. Tonalidade fá sustenido menor. O problema
técnico das três mãos é mais uma vez explorado neste estudo, mas de maneira
diferente. A mesma figuração dificulta a execução do cantabile, pois a mão
direita tem que fazer um arpejo e, no interior desse arpejo, destacar as notas da
melodia. Tendo em conta a velocidade a que este estudo deverá ser executado,
torna-se muito delicado atingir este objetivo. Trata-se de um estudo para a mão
direita, estando a mão esquerda relegada para uma função meramente
harmónica. Há, no entanto, uma seção onde a situação se inverte, cabendo à mão
esquerda um conjunto de harpejos, mas, no conjunto da obra, essa parte não é
significativa.
18. Estudo nº 18- Cavalcade. Tonalidade sol bemol maior. O problema técnico que
se salienta é o das terceiras diatónicas e cromáticas executadas a grande
velocidade pela mão direita. Além disto, encontramos também sextas, mas com
91
menos profusão que as terceiras. Por vezes, as terceiras são sucessivamente
feitas pelas duas mãos na mesma zona do teclado. Temos, por vezes, a mesma
nota musical abordada consecutivamente com dedos e mãos diferentes,
dificuldade já vista num estudo anterior.
Foi nosso objetivo descrever as questões técnicas da prática pianística, que os Estudos
de Virtuosismo op. 90 de Arthur Napoleão abordam. Nesta descrição, ficaram de fora
uma análise harmónica e do ponto de vista da forma. Esta descrição visa meramente
enumerar as questões técnicas levantadas por este conjunto de estudos, dando assim ao
estudante de piano ou professor, pistas que o ajudem a selecionar o estudo adequado
para a superação do problema técnico pretendido.
Através desta exposição, entregaremos ao critério de quem tenha curiosidade de ler os
Estudos de Virtuosismo op. 90 a decisão de os colocar na prateleira, onde eles têm
estado, ou encontrar neles algum préstimo.
Arthur Napoleão foi um cidadão do mundo. Ao longo da sua vida como músico,
percebe-se nele a intenção de ter sucesso e de agradar a um vasto público. Napoleão
reflete as práticas musicais da sua época e, em muitos aspetos, a sua carreira coincide
com a de outros grandes nomes desse tempo e que, como ele, caíram no esquecimento.
Há uma grande parte da obra de Arthur Napoleão que se destina às práticas de música
de salão do séc. XIX, refiro-me a música de entretenimento e da moda. Temos que
perceber que, nessa época, o frívolo andava de mão dada com o sério. Um salão
aristocrático poderia ter ao serão o mesmo artista, que, em momentos diferentes da
noite, assumia papéis distintos. Numa descrição desses serões, encontrámos uma peça
de teatro onde um dos personagens era Arthur Napoleão. Pelos vistos, também foi ator.
Os Estudos de Virtuosismo op. 90 são uma obra com características diferentes do
caminho habitualmente traçado por este compositor. Aqui deparamo-nos com um
pianista virtuoso, com uma carreira e uma consagração internacional que nos lega a sua
experiência como pianista e pedagogo. Além da componente técnica, há uma
musicalidade contida nestes estudos que não deve ser ignorada.
92
Habitualmente, os criadores que ultrapassam as barreiras do tempo são artistas que
rompem com as normas vigentes e inauguram um novo universo sonoro. Por vezes, o
sucesso da sua obra só acontece mais tarde, muitas vezes após a sua morte. O inverso
também acontece e Arthur Napoleão será um desses casos. Foi um artista com um
sucesso e uma aceitação internacional enorme que caiu no esquecimento após a sua
morte, em 1925 no Rio de Janeiro. A sua obra não é revolucionária e apesar de, desde
tenra idade, ter acompanhado o fenómeno do seu tempo que foi Wagner, essa influência
não é notória na formação da sua personalidade artística. Alexandre Napoleão, pai de
Arthur, esforçou-se por dar ao filho a melhor formação artística. Arthur tinha um
conhecimento privilegiado da cultura artística do seu tempo. Na sua autobiografia, ele
conta-nos do seu primeiro contacto em jovem com a obra de Wagner e, anos mais tarde,
descreve com pormenor a sua viagem a Bayreuth onde foi beber Wagner à fonte.
Talvez tenha sido o facto de ele não ter rompido com o status quo o que o votou ao
esquecimento como compositor.185 Não é intenção deste trabalho encontrar as razões
que votaram a obra de Arthur Napoleão ao esquecimento. Aquilo que aqui me propus
fazer e agora concluo, é o de trazer à colação os Estudos op. 90 deste compositor,
concluindo que será de justiça artística voltar a tocar esta obra de Arthur Napoleão pelo
seu interesse histórico (na medida em que nos faz reviver uma época), artístico e
também pedagógico. A Arte não é feita só por aqueles que quebram tradições e
anunciam novos tempos, a Arte também pertence aos que vivem o (no) seu tempo e o
representam com dignidade.
185
Faço a ressalva de que a casa editora Arthur Napoleão ainda hoje existe. Foi recentemente comprada
pela Fermata Brasileira que não se tem mostrado disponível para abrir os seus arquivos para estudo.
Grande parte dos compositores brasileiros foram publicados por esta casa editora.
93
Capítulo IV
Conclusão
94
ouvir as suas ópera.186 Sendo um conhecedor da arte do seu tempo, não vemos que a
obra de Napoleão seja influenciada por este espírito. O que ressalta na vida e na obra de
Napoleão é um esforço por agradar aos outros, por ter sucesso. É um homem muito bem
integrado na ordem social e nos valores dominantes, que vivia e trabalhava para o
presente e não um desafiador visionário que ambicionava rasgar os horizontes do futuro.
Da leitura da sua autobiografia não ressalta um enaltecimento das suas composições.187
Habitualmente, não faz comentários sobre elas, mas, quando o faz, é visível uma nota de
humor. Recordemos as polcas que ele escreveu sob pseudónimo aquando da sua
passagem por Nova Iorque, que ,de acordo com as suas palavras, lhe rendiam entre 5 a
10 dólares. A sua mordacidade sobe de tom quando recorda a sua passagem pelo Brasil
em 1857 e, referindo-se a Narciso, (seu futuro sócio anos mais tarde) nos deixa o
seguinte testemunho: Narciso era também um dos meus admiradores: não deixava de
me visitar quase que diariamente farejando sempre alguma coisa que pudesse dar
interesse à sua casa de comércio. Homem de pouca ilustração, deveu a sua posição de
sócio de Bevilacqua exclusivamente ao seu zelo e actividade. As baboseiras que eu
compunha nessa época ele mais disputava, pagava e publicava. Os seus anúncios eram
um primor de originalidade. Lá vai um:
Composições Célebres
Do Jovem Pianista Português
Arthur Napoleão
Saíram à luz o célebre galope de bravura com o título “Recordações do Palácio de
Cristal de Londres,” sendo de grande efeito e expressamente compôsto com tôdo o
capricho pâra sêr tocado a primeira vez no Palácio Cristal em Londres, onde foi
perenemente aplaudido e victoriado, acompanhando o retrato do autôr-prêço 3$000:
grande valsa a “Amazona”, dedicada ao grande mestre V. Archer, acompanhando o
retrato do autôr- preço 2$000; vendem-se unicamente no grande depósito de pianos e
músicas de Bevilacqua&Narciso, rua dos Ourives, 53.
186
Na sua autobiografia temos uma longa narrativa acerca desta viagem.
187
Em relação às suas performances como executante encontramos uma atitude diferente.
95
Este anúncio é também reproduzido por Frias.188 Este Galope é uma obra de época, de
acordo com os padrões vigentes. Exige, por parte do executante, uma boa técnica de
arpejo e uma mão direita muito firme na leitura das oitavas. Do ponto de vista técnico,
requer uma preparação e resistência física muito grande. São 10 páginas impressas em
que o pianista não tem espaço para respirar. A publicidade que lhe é feita não é
enganosa, pois é, sem dúvida, uma peça de grande efeito, repetindo uma expressão do
anúncio. Para além disso, não queremos interferir com o juízo que o autor fez da obra.
Não podemos falar da obra de Artur Napoleão sem referir a sua vertente mais séria e
também académica. Devemos nesta categoria inserir a versão que Napoleão fez para
dois pianos, dos Estudos de Cramer. Este tipo de versões integra-se muito nas práticas
pianísticas da época e também chama a atenção para a relação de Napoleão com
material musical de natureza pedagógica, mostrando o seu lado académico. Nesta
investigação, encontrámos referências a esta obra, mas não tivemos acesso à partitura.
Outra obra do maior interesse, que já citámos neste trabalho, foi o conjunto de estudos
para piano op. 90. Pela sua dimensão e complexidade, justifica uma análise séria e
aprofundada. A edição que encontrámos desta obra foi editada na Alemanha e esta obra,
na época, fazia parte dos programas do Instituto Nacional de Música do Brasil.
De uma maneira concisa vamos descrever e enumerar o percurso das práticas pianísticas
de Arthur Napoleão:
A sua presença nos espaços privados, no contexto da música de salão nas suas
variadas aceções.189
Participação em concertos nas cortes europeias e na corte do Brasil, na fase
Imperial. Exprime a sua relação com a aristocracia real.
Colaboração em inúmeros concertos de Benefício, isto é, espetáculos com uma
intenção de solidariedade a favor de uma causa.
Participação em séries de concertos.190
Participação e organização em grandes festivais comemorativos de efemérides.
Por vezes, eram-lhe encomendadas obras musicais para serem estreadas nesses
188
FRIAS1913, p.100 A sua linguagem é no entanto mais contida e o termo baboseiras é substituído pela
palavra ninharias que poderá resultar mais elegante.
189
Envolve os países e cidades percorridos pelo artista, com ênfase em Paris, Londres e Rio de Janeiro.
190
Por vezes organizados pelo próprio Arthur Napoleão.
96
grandes acontecimentos. Colaborava como executante, compositor, diretor de
orquestra e organizador.
Presença relevante em concertos por ocasião de Exposições Universais e
Internacionais, como pianista e regente da orquestra.
A sua ação como editor192 permitiu a publicação da nova música brasileira, sem a qual
compositores como Henrique Oswald poderiam ter ficado no esquecimento. Deu
também visibilidade a compositores como Chiquinha Gonzaga e Ernesto Nazareth que
exploram uma vertente musical mais popular. Arthur Napoleão deverá ser recordado
também como um dos precursores do nacionalismo musical brasileiro.
191
Consultar programas de concerto em anexo.
192
Os direitos de autor da casa editora Arthur Napoleão&C. pertencem à editora Fermata Brasileira.
Uma análise do trabalho editorial desenvolvido por Arthur Napoleão está dependente da colaboração
desta firma.
97
Bibliografia e Fontes
Fontes Manuscritas
Esta fonte foi cedida pelo Maestro Manuel Ivo Cruz. A maior parte da obra estava
dactilografada, tendo, no entanto, correções e algumas notas manuscritas. Há páginas
que estão inteiramente manuscritas. Como a obra não está editada, a citação das páginas
refere-se ao número que a digitalização eletrónica lhe atribuiu.
Fontes Impressas
Periódicos
Actualidade (A)
Palco (O)
Revista Musical
Tripeiro (O)
98
Autores e obras
ALIER, Roger (2002) La zarzuela. La historia, los estilos, los compositores, los
intérpretes hitos del género lírico español. Barcelona: Ediciones Robinbook.
BRANCO, Camilo Castello (1867) Cousas Leves e Pesadas. Porto, Casa de Luiz de
Oliveira 1867.
CERNICCHIARO, Vicenzo (1926) Storia Della Musica nel Brasile. Deí Tempi
Coloniali al Nostri Giorni. (1549- 1925). Milano:Stab.Tip. Edit. Frattelli Riccioni.
CIDADE, Hernâni (s.d.) Século XIX. A revolução cultural em Portugal e alguns dos
seus mestres. Editorial Presença
99
Humanas da Universidade Nova de Lisboa:1998. Tese de Doutoramento em Ciências
Musicais.
CRUZ, Maria Antonieta (1999) Os Burgueses do Porto na segunda metade do séc. XIX.
Porto: Fundação Eng. António de Almeida.
DUROSELLE, Jean Baptiste (1992) A Europa de 1815 aos nossos dias: vida política e
relações internacionais. 4.ed. São Paulo: Pioneira.
100
PEREIRA, Gaspar Martins; PEREIRA, Luciano Vilhena, (dir.) (1995) Álbum de Memórias do
Ateneu Comercial do Porto (1869-1994).Porto: Ateneu Comercial do Porto.
The New Grove Dictionary of Music and Musicians. (2001) Londres: Macmillan
Publishers Limited, 2ª edition.
101
Referências Eletrónicas
http://hdl.handle.net/10183/1281
imslp.org/wiki/Category:Napoleão,_Artur
www.encontro2010.rj.anpuh.org/.../1276017543
Iwww.eca.usp.br/etam/vilalobos/resumos/CO014.pdfwww.eca.usp.br/etam/vilalobos/re
sumos/CO014.pdf
102
103
104
105
106
107
108
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110
111
112
113
114
115
116
117
Anexos
118
Final de Marco Visconti de Petrella ? Inédita
119
A Brasileira, marcha para piano ? Casa Bevilacqua, Rio de
Janeiro
120
Palácio de Cristal, marcha para dois pianos ? Inédita
Fantasia sobre a opereta de Offenbach Les Bavards 1866 Edição Narciso, Rio de Janeiro
Fantasia sobre a opereta de Offenbach La Belle Hélène 1866 Edição Narciso, Rio de
Janeiro
Fantasia sobre a opereta de Offenbach Le Barbe Bleu 1866 Edição Narciso, Rio de
Janeiro
O Remorso Vivo, drama lírico para piano e canto ? Edição Narciso & A.
Napoleão
121
Guillaume Tell, abertura ? Inédita
Teus olhos, polca e teus lindos olhos a 4 mãos ? Edição Narciso, Rio de
Janeiro
122
A Carinhosa, polca ? Edição Narciso, Rio de
Janeiro
123
Souvenir de Napoles, balada ? Edição Lucca-Milão
Camões, marcha comemorativa para orquestra e banda militar 1880 Edição Arthur
Napoleão&Miguez, Rio
124
Nuit à Seville, serenata ? Edição Choudens, Paris
Romance e Havenera (O romance adquiriu tal popularidade que o ? Edição Choudens, Paris
La Schiavo, paráfrase para piano sobre a ópera de Carlos ? Edição Arthur Napoleão,
Gomes Rio de Janeiro
Hino da lavoura e comércio, para duas e quatro mãos ? Edição Arthur Napoleão,
Rio de Janeiro
125
Les silphes, dois trechos para piano ? Edição Arthur Napoleão,
Rio de Janeiro
Hino do Espírito Santo. Estas peças escritas a pedido dos ? Edição Arthur Napoleão,
chefes desses estados brasileiros. Rio de Janeiro
Hino do Acre. Estas peças escritas a pedido dos chefes ? Edição Arthur Napoleão,
desses estados brasileiros. Rio de Janeiro
126
Nouveau caprice sobre a valsa do Faust de Gounod ? ?
127
128
129
130
131
132
133
Menu do jantar integrado nas comemorações dos 50 anos de carreira de Arthur
Napoleão no Brasil, com a presença do Presidente da República do Brasil.
134
Poesia de Ramalho Ortigão(Reprodução da autobiografia)
135
136
137
138
139