0% acharam este documento útil (0 voto)
16 visualizações14 páginas

TJPR #2

O Tribunal de Justiça do Estado do Paraná analisou a Apelação Criminal nº 0001719-59.2023, onde Mailon Renan Kanigoski Jahn foi condenado por tráfico de entorpecentes, com provas robustas da materialidade e autoria do crime. A defesa pleiteou a absolvição e a desclassificação do crime, mas a sentença foi parcialmente provida, mantendo a condenação, mas reconhecendo o tráfico privilegiado e fixando a pena em regime aberto. O recurso foi conhecido e parcialmente provido, com a determinação de substituição da pena privativa de liberdade por penas restritivas de direitos.

Enviado por

Lucas Fontoura
Direitos autorais
© © All Rights Reserved
Levamos muito a sério os direitos de conteúdo. Se você suspeita que este conteúdo é seu, reivindique-o aqui.
Formatos disponíveis
Baixe no formato PDF, TXT ou leia on-line no Scribd
0% acharam este documento útil (0 voto)
16 visualizações14 páginas

TJPR #2

O Tribunal de Justiça do Estado do Paraná analisou a Apelação Criminal nº 0001719-59.2023, onde Mailon Renan Kanigoski Jahn foi condenado por tráfico de entorpecentes, com provas robustas da materialidade e autoria do crime. A defesa pleiteou a absolvição e a desclassificação do crime, mas a sentença foi parcialmente provida, mantendo a condenação, mas reconhecendo o tráfico privilegiado e fixando a pena em regime aberto. O recurso foi conhecido e parcialmente provido, com a determinação de substituição da pena privativa de liberdade por penas restritivas de direitos.

Enviado por

Lucas Fontoura
Direitos autorais
© © All Rights Reserved
Levamos muito a sério os direitos de conteúdo. Se você suspeita que este conteúdo é seu, reivindique-o aqui.
Formatos disponíveis
Baixe no formato PDF, TXT ou leia on-line no Scribd

TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DO PARANÁ

5ª CÂMARA CRIMINAL

APELAÇÃO CRIMINAL Nº 0001719-59.2023.8.16.0076 DA COMARCA


DE CORONEL VIVIDA – VARA CRIMINAL.

APELANTE: MAILON RENAN KANIGOSKI JAHN.

APELADO: MINISTÉRIO PÚBLICO DO ESTADO DO PARANÁ.

RELATORA: DESª MARIA JOSÉ TEIXEIRA.

APELAÇÃO CRIMINAL. TRÁFICO ILÍCITO DE ENTORPECENTES.


PEDIDO DE ABSOLVIÇÃO. MÉRITO. A) FATOS 2 E 3 – ARTIGO 33,
CAPUT, C/C ARTIGO 40, INCISO VI, DA LEI N. 11.343/2006 –
IMPOSSIBILIDADE. MATERIALIDADE E AUTORIA DEVIDAMENTE
COMPROVADAS. PALAVRA DOS POLICIAIS MILITARES. MEIO
IDÔNEO PARA EMBASAR A CONDENAÇÃO. DEPOIMENTOS
UNÍSSONOS QUE APONTAM A PRÁTICA DO DELITO PELO
ACUSADO, CONSUBSTANCIADO NO LAUDO DE EXTRAÇÃO E
ANÁLISE DE APARELHO CELULAR. INVIABILIDADE DA
DESCLASSIFICAÇÃO PARA USO PRÓPRIO. PROVAS
JUDICIALIZADAS CONTUNDENTES ACERCA DA PRÁTICA DE
NARCOTRAFICÂNCIA PELO ACUSADO. B) FATO 4. ABSOLVIÇÃO
QUE SE IMPÕE. INEXISTÊNCIA DE APREENSÃO DAS DROGAS E,
CONSEQUENTEMENTE, CONFECÇÃO DE LAUDO PERICIAL. FALTA
DE MATERIALIDADE. PRECEDENTES DO SUPERIOR TRIBUNAL DE
JUSTIÇA. DOSIMETRIA DA PENA . C) AFASTAMENTO DA
EXASPERAÇÃO DA PENA-BASE ACIMA DO MÍNIMO LEGAL EM
RAZÃO DA NATUREZA E DIVERSIDADE DE DROGA.
IMPOSSIBILIDADE. INTELIGÊNCIA DO ARTIGO 42 DA LEI DE
DROGAS. D) RECONHECIMENTO DA CONFISSÃO ESPONTÂNEA.
INVIABILIDADE. ACUSADO QUE SE LIMITA A APONTAR O USO
PESSOAL DAS SUBSTÂNCIAS ILÍCITAS. E) RECONHECIMENTO DO
TRÁFICO PRIVILEGIADO. ACOLHIMENTO. CIRCUNSTÂNCIAS QUE
AUTORIZAM A DIMINUIÇÃO DA PENA NA FRAÇÃO MÁXIMA DE 2/3
(DOIS TERÇOS). F) FIXAÇÃO DO REGIME ABERTO.
POSSIBILIDADE. QUANTUM DE PENA E DEMAIS CIRCUNSTÂNCIAS
QUE AUTORIZAM SUA FIXAÇÃO. SUBSTITUIÇÃO, DE OFÍCIO, DA
PENA PRIVATIVA DE LIBERDADE POR PENAS RESTRITIVAS DE
DIREITOS. RECURSO CONHECIDO E PARCIALMENTE PROVIDO,
COM DELIBERAÇÃO, DE OFÍCIO.

VISTOS, relatados e discutidos estes autos de Apelação Criminal nº 0001719-


59.2023.8.16.0076, Vara Criminal da Comarca de Coronel Vivida, em que é apelante MAILON
RENAN KANIGOSKI JAHN e apelado o MINISTÉRIO PÚBLICO DO ESTADO DO PARANÁ.

1. O Ministério Público do Estado do Paraná ofereceu denúncia em desfavor de Mailon


Renan Kanigoski Jahn, imputando-lhe a prática do crime previsto no artigo 33, caput, da Lei nº. 11.343
/2006 (fatos nº 1, 2 e 4), bem como no artigo 33, caput, c/c artigo 40, inciso VI, ambos da Lei 11.343/06
(fatos nº 3), em razão dos seguintes fatos delineados na exordial acusatória (seq. 115.1):

“Fato 01
Em data e horário ainda não devidamente esclarecidos nos autos, mas certo que em dias
próximos e anteriores a 13/05/2020, no município de Coronel Vivida, o denunciado MAILON
RENAN KANIGOSKI JAHN, agindo com vontade e consciência, dolosamente portanto,
cientes da ilicitude e da reprovabilidade de sua conduta, vendeu e entregou para o consumo,
sem autorização e em desacordo com determinação legal ou regulamentar, de Emerson
Oliveira Belo, em quantidade ainda não devidamente esclarecida, da substância entorpecente
vulgarmente conhecida por ‘maconha’, droga esta capaz de causar dependência física ou
psíquica, conforme Portaria SVS/MS nº 344/98.

Segundo os inclusos autos de inquérito policial, o denunciado vendeu ‘maconha’ a Emerson


pelo valor de R$50,00 (cinquenta reais)”

Fato 02

No dia 16 de maio de 2020, por volta das 00h10min, no interior da residência situada na Rua
Jaco Gubert, nº. 284, bairro Maria da Luz, no município de Coronel Vivida, o denunciado
MAILON RENAN KANIGOSKI JAHN, agindo com vontade e consciência, dolosamente
portanto, cientes da ilicitude e da reprovabilidade de sua conduta, guardava, sem autorização
e em desacordo com determinação legal ou regulamentar, 11 (onze) buchas da substância
entorpecente vulgarmente conhecida por ‘cocaína’, pesando 6g (seis) gramas, e 01 (um) bucha
da substância entorpecente vulgarmente conhecida por ‘maconha’, pesando 1,2 (um vírgula
dois) gramas, drogas estas capazes de causar dependência física ou psíquica, conforme
Portaria SVS/MS nº 344/98.

Fato 03

Nas mesmas circunstâncias de tempo e lugar acima especificados, o denunciado MAILON


RENAN KANIGOSKI JAHN, agindo com vontade e consciência, dolosamente portanto,
cientes da ilicitude e da reprovabilidade de sua conduta, entregou para o consumo, sem
autorização e em desacordo com determinação legal ou regulamentar, do adolescente W.G.C.
K., nascido em 08/05/2003, quantidade ainda não devidamente esclarecida da substância
entorpecente vulgarmente conhecida por ‘cocaína’, droga esta capaz de causar dependência
física ou psíquica, conforme Portaria SVS/MS nº 344/98.

Fato 04

Neste ano de 2020, em data não específica, mas certo que entre os meses de abril e maio, no
interior da sua residência, o denunciado MAILON RENAN KANIGOSKI JAHN vendeu e
entregou para o consumo de Fábio Aurélio Jaques, sem autorização e em desacordo com
determinação legal ou regulamentar, porção da substância entorpecente vulgarmente
conhecida por ‘maconha’, droga esta capaz de causar dependência física ou psíquica,
conforme Portaria SVS/MS nº 344/98.

No depoimento da testemunha de acusação, Fábio Aurélio Jaques, em Juízo, provou-se que foi
por ele acertado com o denunciado, por aplicativo Whatsapp, a compra de maconha fornecida
por ele (denunciado) na quantidade de seis ou sete gramas.

Apurou-se, ainda, que, ajustada a compra pelo preço de R$20,00 (vinte reais), o produto
ilícito foi entregue ao comprador, pelo denunciado, na residência deste. ”

A denúncia foi oferecida no dia 10 de junho de 2020 (seq. 31.1) e recebida em 6 de julho
do mesmo ano (seq. 44.1). Ato posterior, o Órgão Ministerial apresentou aditamento à inicial acusatória
no dia 27 de julho de 2020 (seq. 115.1), sendo está recebida no dia 17 de setembro de 2020 (seq. 166.1).

Após o regular processamento do feito, sobreveio a r. sentença que julgou procedente a


denúncia, para o fim de condenar Mailon Renan Kanigoski Jahn nas sanções do artigo 33, §4º, da Lei nº
11.343/2006, por quatro vezes, aplicando-lhe à pena de 2 (dois) anos, 5 (cinco) meses e 5 (cinco) dias de
reclusão, a ser cumprida em regime aberto, e pagamento de 692 (seiscentos e noventa e dois) dias-multa.
Determinou, ainda, a substituição da pena privativa de liberdade por duas restritivas de direitos, sendo
essas, prestação pecuniária e de serviços à comunidade (seq. 327.1).

O réu foi intimado pessoalmente, momento em que manifestou seu desejo em recorrer da
sentença condenatória (seq. 336.1).

O Ministério Público do Estado do Paraná interpôs apelação (seq. 333.1), pugnando pela
reforma parcial da sentença outrora proferida, visando o afastamento da causa de diminuição de pena,
prevista no artigo 33, §4º, da Lei de Drogas. Da mesma forma, a defesa de Mailon Renan interpôs
recurso (seq. 337.1), pleiteando pela sua absolvição ou, sucessivamente, pela adequação da dosimetria
penal (seq. 352.1).

Devidamente apresentadas as contrarrazões (seqs. 357.1 e 359.1), após a apresentação de


parecer pela Procuradoria Geral de Justiça, em sede de acórdão, aos 3 de novembro de 2022, restou
determinado o retorno dos autos ao juízo sentenciante para prolação de nova sentença (seq. 28.1 – autos
n. 0001020-73.2020.8.16.0076 Ap).

Neste passo, no dia 20 de junho de 2023, o juízo a quo proferiu sentença, condenando o
acusado Mailon pelo crime de tráfico de entorpecentes, por três vezes distintas, impondo-lhe a pena
corporal de 7 (sete) anos de reclusão, cumprida inicialmente em regime fechado, e ao pagamento de
1.583 (um mil quinhentos e oitenta e três) dias-multa (seq. 364.1).

A defesa constituída do acusado interpôs o presente recurso de apelação, no qual, em


razões recursais, sustentou pela (a) absolvição do recorrente do crime de tráfico de drogas, diante da
fragilidade das provas juntadas aos autos; (b) desclassificação para o delito previsto no artigo 28 da Lei
nº 11.343/2006; alternativamente pelo (c) afastamento da continuidade delitiva, reconhecendo-se a
existência de um só crime; (d) fixação da pena-base em seu mínimo legal, diante da existência de
circunstâncias judiciais favoráveis e o reconhecimento da atenuante da menoridade; (e) aplicação da
fração máxima para a modalidade de tráfico privilegiado; e, por fim, (f) fixação do regime aberto para o
cumprimento de pena ou, sucessivamente, do semiaberto, dada afronta ao princípio da individualização
da pena (seqs. 365.1 e 370.1).

Em contrarrazões, o Ministério Público do Estado do Paraná manifestou-se pelo


conhecimento e desprovimento do recurso, para que se mantenha incólume a sentença condenatória (seq.
374.1).

Nesta instância, o representante da Procuradoria Geral de Justiça, da mesma forma,


pugnou pelo conhecimento e não provimento dos pleitos formulados no recurso (seq. 13.1 – 2º grau).

É o relatório.

2. Presentes os pressupostos de admissibilidade intrínsecos (legitimidade, interesse,


cabimento e inexistência de fato impeditivo e extintivo), e extrínsecos (tempestividade e regularidade
formal), conheço do recurso.

2.1. Pleito Absolutório e Desclassificatório

A defesa de Mailon Renan Kanigoski Jahn pugna pela absolvição do apelante, sob o
argumento de que ausentes provas para a condenação, tendo em vista a fragilidade probatória e,
consequente, necessidade do reconhecimento do princípio in dubio pro reo.

Preliminarmente, a título de argumentação passa-se a transcrição dos depoimentos


colhidos durante a instrução processual, haja vista a imprescindibilidade para análise dos pleitos do
apelante.
Ouvido em juízo, o policial militar José Luiz Dutra informou que “Atendeu a ocorrência.
A gente estava com equipe da ROTAM de Pato Branco, realizando patrulhamento da cidade de Coronel
Vivida, quando em um bairro, no final de uma rua, a gente observou, patrulhando com girorflex
desligado, observou uma casa dois rapazes conversando. Um no interior da residência e outro fora da
residência, os dois conversando pela janela. Nisso, a pessoa que estava dentro da residência alcançou
algo para a pessoa que estava fora e essa apanhou na mão e devolveu alguma coisa que estava no
bolso para a pessoa que estava dentro da residência. Em seguida, tomou carreiro, que é um final de rua
em direção a um mato, a uma ruazinha sem saída. Ai a gente se aproximou da casa e no momento que
ele viu a equipe se aproximar, que é uma casa de fundo assim, mas ela tem uma rua de chão que acaba
em frente a residência. Nisso a gente se aproximou da residência ali e observamos que a pessoa que
estava dentro da casa arremessou algo pela janela, a mesma janela que teria feito a entrega anterior.
E constatamos que se tratava de 5 buchas de cocaína. Nisso batemos na porta, ele abriu, pedimos se ele
possuía mais droga na residência ou coisa parecida, ele falou que não e autorizou a entrada da equipe.
Durante as buscas, foram encontradas mais 6 buchas de cocaína e 1 bucha menor de maconha, pesou
salvo engano 1,2 gramas. No interior da residência abordamos o Mailon que foi reconhecido ser o que
estava na janela realizando a entrega para o cidadão que não foi abordado porque se engrenhou no
matagal no final da rua e ainda teria arremessado as buchas pela janela. Na sequência, encontramos
outro cidadão na residência, o qual, indagado falou ser sobrinho do Mailon, de nome William, menor de
idade, que estaria no local, segundo ele, para consumo de cocaína. Ainda as narinas deles, do William,
eram esbranquiçadas com o pó o que levou a crer que estavam consumindo cocaína e pedido para ele,
ele falou que foi no local somente para consumir um “raio”, ou seja, fazer uso de uma bucha de
cocaína. Indagado qual valor ele teria pago, Mailon falou que teria dado de graça, uma vez que William
era sobrinho do mesmo e só teria ido lá para fazer uso de uma bucha. Demos voz de prisão ao Mailon
pela posse e fornecimento da cocaína para o menor e conduzimos ele para a delegacia e conduzimos o
menor também pelo fato dele está fornecendo a cocaína e aliciando o menor né. Foram encontrados
dentro da residência 6 buchas de cocaína, 5 fora da residência que ele arremessou e mais uma
pequena porção de maconha e ainda 1.200 e alguns reais. Quando batemos na porta quem atendeu foi
o Mailon, o William estava bem fora de si, falava com ele, e ele meio fora de si, com a fala toda
descoordenada até certo ponto. O Mailon falou para a gente que não era usuário, que tão somente
vendia e quem usava era William e teria fornecido de graça para o William porque era sobrinho dele.” (
Depoimento extraído da sentença, eis que extremamente fiel ao conteúdo disponível em mídia
audiovisual - seq. 105.1).

O agente de segurança pública, Renan do Amaral Matiazze, ouvido judicialmente,


corroborando as narrativas de seu colega de profissão, informou que, na data dos fatos, enquanto estavam
em patrulhamento na região de Coronel Vivida, receberam notícias de que no endereço do réu ocorria a
venda de substâncias ilícitas. No local, visualizaram o recorrente conversando com um indivíduo através
da janela do seu domicilio, sendo, nesta ocasião, entregue algo para aquele que estava do lado de fora e
retornando algo – com aparência similar a dinheiro – para o residente do local. O agente público,
esclareceu, ainda, que ao retornar à residência do apelante, este arremessou cinco buchas de cocaína pela
janela, sendo tal prática confessada pelo réu. Outrossim, em buscas no imóvel foram encontradas seis
buchas de cocaína, uma bucha de maconha e, aproximadamente, R$1.200,00 (um mil e duzentos
reais), além de um adolescente, sobrinho do réu, informando que estava no local para fazer o uso de um
“raio” – referindo-se a substância cocaína (seq. 105.2).

A testemunha Fábio Aurélio Jacks, ao seu ouvido em juízo, esclareceu que fazia o uso de
entorpecentes em conjunto com o réu. Comentou que, um dia antes do acusado ser detido, teria
combinado a compra de entorpecentes, via whatsapp, com o réu, todavia não teria conseguido retirá-las.
Esclareceu, ainda, que nos dois/ três meses anteriores, já teria adquirido, aproximadamente, sete gramas
de maconha com o mesmo, retirando-a na residência de Mailon (seq. 106.1).

O adolescente W. G. C. K., ouvido judicialmente, informou que é tio do recorrente e que,


na data dos fatos, devido a desavenças do recorrente com terceiros, foi dormir na residência do
recorrente. Na oportunidade, a polícia entrou no imóvel e encontrou substâncias entorpecentes no local.
Acrescentou que, no dia, realizou o uso de uma bucha de cocaína que estava em cima da mesa, enquanto
o réu foi ao banheiro, acrescentando que este não sabia que estaria realizando o uso (seq. 106.2).

Por sua vez, a testemunha Luiz Henrique Belusso Nichelle, ao ser ouvido em juízo,
informou que é usuário de maconha, nunca tendo adquirido tais substâncias do réu, inclusive, não
sabendo precisar se este realizava a venda dos ilícitos. Informou que, costumeiramente, adquiria
entorpecentes com um terceiro na residência onde, atualmente, reside o réu e, por isso, foi até o local em
determinada oportunidade. Nesta ocasião, solicitou o número do antigo morador, mas que, por confusão,
o réu teria repassado o seu próprio contato, motivo pelo qual teria encaminhado mensagens para o
número do recorrente intentando a compra de ilícitos, todavia não recebeu qualquer retorno (seq. 106.3).

A informante Dejani Alves Breier, amiga próxima da família, em sede de audiência de


instrução e julgamento, informou que o réu laborava em conjunto com o genitor, ajudando, inclusive,
com as contas do domicílio da família. Atualmente, o recorrente possui trabalho celetista, residindo de
aluguel (seq. 282.1).

Por fim, ao ser ouvido sob o crivo do contraditório e da ampla defesa, o réu Mailon
Renan Kanigoski Jahn negou a prática do delito, relatando que, no que diz respeito ao primeiro fato,
não teria fornecido entorpecentes para Emerson, sequer conhecendo o indivíduo. Confirmou, ainda, que
era usuário de maconha e cocaína, bem como que possui diversos inimigos no município, principalmente
o vizinho que residia em frente à sua casa. No que concerne ao segundo fato, apontou que guardava
maconha e cocaína para o seu próprio consumo. Quanto ao terceiro fato, esclareceu que o seu tio, à época
adolescente, fez o uso sem sua autorização de uma bucha de cocaína que estava em cima da mesa,
enquanto este teria ido ao banheiro. Ademais, relativamente ao quarto fato, informou que não se
recordava dos fatos (seq. 282.2).

De uma detida análise da prova contida nos autos, entendo que agiu com o devido acerto o
juízo a quo, visto que as palavras judiciais dos policiais militares envolvidos na ocorrência se mantiveram
firmes, sendo corroboradas diretamente, inclusive, pelos relatos da testemunha Fábio Aurélio e das
provas colhidas durante a fase inquisitorial e confirmadas em juízo. Dessa forma, vislumbra-se que o
pleito absolutório, não comporta acolhimento, visto que devidamente evidenciada a prática do delito pelo
acusado.

Consta dos autos que os Policiais Militares, por meio de declarações uníssonas, afirmaram
que, após receberem uma denúncia noticiando a venda de substâncias entorpecentes em um determinado
domicílio, foram até o local e depararam-se com um indivíduo do lado de fora, aparentemente, em
negociação com aquele que estava no interior do local, posteriormente identificado como Mailon. Ato
contínuo, visualizaram o réu arremessando pela janela algumas substâncias ilícitas. Por isso, após
franqueada a entrada no local pelo próprio indivíduo, encontraram 6 (seis) gramas de cocaína, divididas
em 11 (onze) buchas, tal qual um pedaço de 1,2 (uma vírgula dois) gramas de maconha.

Neste ínterim, destaco que a palavra dos policiais possui relevante valor probatório,
sobretudo quando uníssonos entre si, como se vê nos autos em apreço. Consoante entendimento
majoritário da jurisprudência deste Tribunal de Justiça, a saber:

“APELAÇÃO CRIMINAL. TRÁFICO DE DROGAS. PRELIMINAR. NULIDADE DA BUSCA


PESSOAL. NÃO OCORRÊNCIA. CIRCUNSTÂNCIAS DO FLAGRANTE QUE REVELAM
JUSTA CAUSA PARA A ABORDAGEM POLICIAL. MÉRITO. PLEITO DE
DESCLASSIFICAÇÃO. INADMISSIBILIDADE. AUTORIA E MATERIALIDADE
DEVIDAMENTE COMPROVADAS. ACERVO PROBATÓRIO SEGURO A ATESTAR O
TRÁFICO DE DROGAS. PALAVRA DOS POLICIAIS MILITARES POSSUI RELEVANTE
VALOR PROBATÓRIO. DEPOIMENTOS COESOS E EM CONSONÂNCIA COM OS
DEMAIS ELEMENTOS DOS AUTOS. CONDENAÇÃO MANTIDA. RECURSO
CONHECIDO, PRELIMINAR REJEITADA, MÉRITO DESPROVIDO. (TJPR - 5ª Câmara
Criminal - 0004592-94.2022.8.16.0196 - Curitiba - Rel.: DESEMBARGADORA MARIA JOSÉ
DE TOLEDO MARCONDES TEIXEIRA - J. 31.08.2023) – sem grifos no original.
“APELAÇÃO CRIME – TRÁFICO DE DROGAS – ART. 33, CAPUT, DA LEI Nº 11.343/06 –
SENTENÇA CONDENATÓRIA – RESTITUIÇÃO DE AUTOMÓVEL DE TERCEIRO –
ILEGITIMIDADE – PEDIDO NÃO CONHECIDO 1. PLEITO DE ABSOLVIÇÃO – TESE DE
NÃO COMPROVAÇÃO DA AUTORIA DO DELITO – INOCORRÊNCIA – TESTEMUNHOS
COESOS E HARMÔNICOS DOS POLICIAIS MILITARES –PRESUNÇÃO DE
VERACIDADE DOS AGENTES QUE NÃO FOI DESCONSTITUÍDA PELA DEFESA –
INEXISTÊNCIA DE MOTIVOS QUE DESABONEM OS TESTEMUNHOS DOS
POLICIAIS 2. PEDIDO DE EXCLUSÃO DOS MAUS ANTECEDENTES COM A
CONSEQUENTE READEQUAÇÃO DA PENA AO SEU PATAMAR MÍNIMO –
IMPOSSIBILIDADE – RÉU QUE APRESENTA MAUS ANTECEDENTES POR CRIME
COMETIDO ANTERIORMENTE – TESE FIXADA NO TEMA 150 STF 3. PLEITO PELO
RECONHECIMENTO DO TRÁFICO PRIVILEGIADO – ART. 33, § 4º, LEI DE DROGAS –
IMPOSSIBILIDADE – AUSÊNCIA DO REQUISITO DE BONS ANTECEDENTES 4. PEDIDO
DE ISENÇÃO DO PAGAMENTO DA PENA DE MULTA – IMPOSSIBILIDADE – NORMA
COGENTE – MULTA QUE INTEGRA O PRECEITO PENAL, NÃO SENDO FACULTADA AO
MAGISTRADO SUA APLICAÇÃO OU NÃO 5. AFASTAMENTO, DE OFÍCIO, DA
VALORAÇÃO NEGATIVA DA CIRCUNSTÂNCIA JUDICIAL DA NATUREZA DAS DROGAS
– PEQUENA QUANTIDADE DE ENTORPECENTES APREENDIDOS – EM QUE PESE A
NATUREZA DELETÉRIA DAS DROGAS (COCAÍNA E CRACK), A PEQUENA
QUANTIDADE APREENDIDA NÃO JUSTIFICA A MAJORAÇÃO DA PENA-BASE –
PRECEDENTES JURISPRUDENCIAIS – SENTENÇA REFORMADA – Recurso
PARCIALMENTE conhecido e não provido, com readequação da pena, de ofício, em razão do
afastamento da circunstância da natureza da droga. ” (TJPR - 3ª Câmara Criminal - 0007093-
87.2018.8.16.0090 - Ibiporã - Rel.: RUY A. HENRIQUES - J. 24.07.2023) – sem grifos no
original.

Registre-se, ainda, que na hipótese dos autos, inexiste razão para afastar-se a presumida
idoneidade e credibilidade dos agentes públicos que trazem narrativas coesas e unânimes. A versão
apresentada por eles encontra amparo no boletim de ocorrência, nos relatórios da autoridade policial, bem
como nos laudos de extração de dados do aparelho telefônico celular do acusado, inexistindo motivação
para que os policiais militares prejudicassem o réu deliberadamente, inventando narrativas.

Consigne-se que no interrogatório, o réu Mailon confirmou fatos apresentados pelos


policiais, dentre eles a existência de drogas no interior de sua residência, bem como o uso de uma bucha
de cocaína pelo seu tio, ora adolescente, poucos minutos antes da chegada da equipe policial. Assim,
malgrado a negativa formal do acusado, denota-se que a declaração se encontra dissonante do restante
dos fatos aludidos e confirmados no acervo probatório produzido, especialmente dos testemunhos dos
agentes públicos.

Nota-se, ainda, dos documentos acostados ao Boletim de Ocorrência, principalmente do


Laudo de Extração de Dados do telefone celular do acusado (seq. 29.9), a presença de conversas
envolvendo a narcotraficância com diferentes indivíduos. Um deles, ouvido em sede judicial, Luiz
Henrique, apontou que nunca teria adquirido entorpecentes do acusado, enviando as mensagens
deflagradas em erro, pois acreditava ser outra pessoa. Todavia, contrariando, a versão apresentada, Fábio
(seq. 106.1) pontuou que já teria adquirido, nos dois meses anteriores, aproximadamente R$20,00 (vinte
reais) da substância “maconha” do acusado, não tendo finalizado a compra, por uma segunda vez, pela
morosidade na resposta do acusado.

Dessa forma, inegável o envolvimento do acusado com a narcotraficância, conforme extrai-


se de negociações contidas no celular do próprio acusado, de modo que cito o trecho do laudo
confeccionado em sede inquisitorial (seq. 29.9/ fls. 7 e 8):
Outrossim, observa-se que, na residência do acusado foram encontradas pequenas porções
de cocaína e maconha. Todavia, dos diálogos extraídos de seu aparelho telefônico é possível precisar que
o recorrente possuía substâncias ilícitas alocadas em outros lugares, permanecendo com pequenas
quantidades, a fim de resguardar sua segurança (seq. 29.9/ fl. 12):
Cumpre examinarmos, neste passo, a existência de materialidade dos delitos descritos nos
fatos nº 2, 3 e 4 da inicial acusatória, tendo em vista que o acusado restou absolvido, em primeiro grau,
diante da ausência de provas suficientes para a condenação pelo crime descrito no fato nº 1. Vejamos.

No que concerne ao crime de tráfico de drogas, é sobremodo importante assinalar que o


estado de flagrância, no que tange ao fato nº 2, restou configurado, dadas as substâncias entorpecentes
encontradas serem de propriedade do acusado, o qual tinha em depósito e guardava os ilícitos,
cumprindo, portanto, o requisito objetivo previsto no artigo 33 da Lei nº 11.343/2006, in verbis:

“Art. 33. Importar, exportar, remeter, preparar, produzir, fabricar, adquirir, vender, expor à
venda, oferecer, ter em depósito, transportar, trazer consigo, guardar, prescrever, ministrar,
entregar a consumo ou fornecer drogas, ainda que gratuitamente, sem autorização ou em
desacordo com determinação legal ou regulamentar: Pena - reclusão de 5 (cinco) a 15
(quinze) anos e pagamento de 500 (quinhentos) a 1.500 (mil e quinhentos) dias-multa” – sem
grifos do original.

Por sua vez, com relação ao fato nº 3, denota-se que o adolescente estaria realizando o uso
dos entorpecentes disponíveis na residência do recorrente, estando inclusive sob o efeito dos ilícitos
durante a chegada dos policiais militares. Outrossim, o próprio indivíduo confirmou, na ocasião, o
consumo de drogas na residência de seu sobrinho. Isto posto, a materialidade restou suficientemente
comprovada, especialmente, pelos Autos de Constatação Provisória de Droga (seqs. 1.6 e 1.7) e pelos
Laudos Toxicológicos Definitivos (seqs. 297.1 e 297.2).

Contudo, relativamente ao fato nº 4, apesar da confirmação expressa do consumidor acerca


de toda negociação e aquisição das substâncias ilícitas, bem como do conteúdo extraído do celular do
acusado, a apresentação do laudo definitivo de apreensão dos ilícitos é imprescindível para a condenação
pelo crime de tráfico de drogas. Dessa forma, já consignou o Superior Tribunal de Justiça:

“PROCESSO PENAL E PENAL. AGRAVO REGIMENTAL NO AGRAVO EM RECURSO


ESPECIAL. TRÁFICO DE DROGAS. AUSÊNCIA DE APREENSÃO DA DROGA E DE
LAUDO TOXICOLÓGICO DEFINITIVO. FALTA DE COMPROVAÇÃO DA
MATERIALIDADE DELITIVA. ABSOLVIÇÃO. AGRAVO REGIMENTAL NÃO PROVIDO.
1. No julgamento do EREsp n. 1.544.057/RJ, de minha relatoria, julgado em 26/10/2016, DJe
09/11/2016, a Terceira Seção uniformizou o entendimento de que o laudo toxicológico
definitivo é imprescindível à demonstração da materialidade delitiva do delito e, nesse
sentido, tem a natureza jurídica de prova, não podendo ser confundido com mera nulidade,
implicando na absolvição do acusado.

Foi ressalvada, ainda, a possibilidade de se manter o édito condenatório quando a prova da


materialidade delitiva está amparada em laudo preliminar, dotado de certeza idêntica ao do
definitivo, certificado por perito oficial e em procedimento equivalente, o que não ocorreu na
hipótese.

2. Não ocorrendo a apreensão de drogas, imprescindível para a demonstração da


materialidade do crime de tráfico, de rigor a absolvição.

3. Não se desconhece que a ausência de apreensão de drogas na posse direta do agente não
afasta a materialidade do delito de tráfico quando estiver delineada a sua ligação com outros
integrantes da mesma organização criminosa que mantinham a guarda dos estupefacientes
destinados ao comércio proscrito (HC n. 536.222/SC, Ministro Jorge Mussi, Quinta Turma,
DJe de 4/8/2020). Ocorre que, como visto, no presente caso, as provas coletadas não
demonstram nexo entre o tóxico arrecadado - parte dele em poder da quadrilha formada pelos
irmãos Alefe e Alexandre Junior e o restante na posse de outros acusados - e os réus Aiane
Ataíde e Welbert Henrique (e-STJ fls. 6034/6035).

4. Agravo regimental não provido. (AgRg no AgRg no AREsp n. 2.401.442/MG, relator


Ministro Reynaldo Soares da Fonseca, Quinta Turma, julgado em 26/9/2023, DJe de 29/9
/2023.)” – sem grifos no original.

Nesta vereda, já se posicionou esta Corte de Justiça:

“APELAÇÃO CRIMINAL. TRÁFICO DE DROGAS E ASSOCIAÇÃO PARA O TRÁFICO.


ARTIGOS 33 E 35 DA LEI Nº 11.343/2006. SENTENÇA ABSOLUTÓRIA. RECURSO DA
ACUSAÇÃO. PRELIMINAR EM CONTRARRAZÕES ARGUIDA PELA DEFESA DE
INDIANARA PUGNANDO PELA NULIDADE DAS INTERCEPTAÇÕES TELEFÔNICAS POR
VIOLAÇÃO A INVIOLABILIDADE DO SIGILO. ALEGAÇÃO AFASTADA. PRINCÍPIO
CONSTITUCIONAL DA INVIOLABILIDADE DO SIGILO QUE NÃO É ABSOLUTO,
PODENDO SER AFASTADA EM HIPÓTESES EXCEPCIONAIS. DECISÃO QUE
AUTORIZOU AS INTERCEPTAÇÕES TELEFÔNICAS DEVIDAMENTE FUNDAMENTADA.
INDÍCIOS QUE APONTAM O ENVOLVIMENTO DAS ACUSADAS COM A PRÁTICA DO
NARCOTRÁFICO E ASSOCIAÇÃO PARA O TRÁFICO, EM OBSERVÂNCIA AOS DITAMES
DA LEI Nº 9.296/96. AUSÊNCIA DE NULIDADE. MÉRITO - SÚPLICA CONDENATÓRIA
PELO DELITO DE TRÁFICO DE DROGAS. INVIABILIDADE. AUSÊNCIA DE
MATERIALIDADE DA CONDUTA, ANTE A NÃO APREENSÃO DAS DROGAS E A
FALTA DE LAUDO TOXICOLÓGICO DEFINITIVO. ENTORPECENTES QUE NÃO
FORAM CONFISCADOS. INEXISTÊNCIA DE PERÍCIA DEFINITIVA QUANTO ÀS
SUBSTÂNCIAS. MANUTENÇÃO DO ÉDITO ABSOLUTÓRIO NESTE PONTO.
PRECEDENTES. PRETENSÃO QUANTO A CONDENAÇÃO DO INJUSTO DE
ASSOCIAÇÃO PARA O TRÁFICO. POSSIBILIDADE. AUTORIA E MATERIALIDADE DA
CONDUTA SUFICIENTEMENTE COMPROVADAS. PRESCINDIBILIDADE DE
APREENSÃO DOS ENTORPECENTES PARA A CONFIGURAÇÃO DO CITADO INJUSTO.
CARÁTER AUTÔNOMO DO DELITO. ENTENDIMENTO UNÍSSONO DO SUPERIOR
TRIBUNAL DE JUSTIÇA. DEPOIMENTOS DOS POLICIAIS COM NARRATIVA DOTADA
DE CERTEZA E QUE CONSTITUEM MEIO DE PROVA IDÔNEO A AMPARAR A
CONDENAÇÃO. CIRCUNSTÂNCIAS DO CRIME QUE DEMONSTRAM O EFETIVO
VÍNCULO ESTÁVEL E PERMANENTE ENTRE AS RECORRIDAS PARA O COMÉRCIO DE
DROGAS. RELAÇÃO DE SUBORDINAÇÃO COM DIVISÃO DE TAREFAS
DEMONSTRADO. ACESSO AO CONTEÚDO DAS CONVERSAS TELEFÔNICAS, NO QUAL
FOI POSSÍVEL EVIDENCIAR A TROCA DE INFORMAÇÕES SOBRE A
COMERCIALIZAÇÃO DE ENTORPECENTES. SENTENÇA REFORMADA PARA
CONDENAR AS RECORRIDAS PELO DELITO PREVISTO NO ARTIGO 35, CAPUT, DA LEI
Nº 11.343/2006. RECURSO CONHECIDO E PARCIALMENTE PROVIDO. (TJPR - 3ª
Câmara Criminal - 0004733-19.2021.8.16.0174 - União da Vitória - Rel.: SUBSTITUTO
HUMBERTO GONCALVES BRITO - J. 04.09.2023) – sem grifos no original.

Assim, diante da não apreensão das substâncias para a realização de perícias com relação a
pratica do fato nº 4 descrito na denúncia, conclui-se pela ausência de elementos concretos dos quais se
possa extrair, com clareza, a realização, pelo réu, de algum dos núcleos do tipo penal incriminador
previsto no artigo 33 da Lei nº 11.343/06.

Logo, persistindo a dúvida acerca da materialidade delitiva do fato nº 4, esta deve ser
resolvida em favor do réu à luz do princípio in dubio pro reo, impondo sua absolvição em relação ao
delito previsto no artigo 33 da Lei nº 11.343/06.

Por fim, não há que se falar na desclassificação, dos fatos nº 2 e 3, para o delito previsto
no artigo 28 da Lei de Drogas, eis que, diferentemente do aventado pelo recorrente, amplamente
comprovada a destinação ao comércio das substâncias outrora apreendidas. Aliás, inexistem nos autos
quaisquer elementos capazes de desabonar a palavra dos agentes policiais, bem como diante das demais
provas colhidas durante a instrução processual, incabível o acolhimento do referido pleito.

Registra-se, da mesma forma, nos moldes acertadamente exarados, pela Procuradoria


Geral de Justiça:

“No caso, tais vetores restam, em verdade, prejudicados diante da comprovação de que, para
além do depósito de droga que o apelante fazia em sua residência, ele também forneceu e
vendeu droga a terceiros. De qualquer modo, não é demais destacar vetores presentes nos
autos que também reforçam a caracterização do tráfico, tal como a apreensão de diversidade
de substâncias (maconha e cocaína), sendo que uma delas (cocaína) possui alto poder
deletério.

Outrossim, repisa-se que o local e as condições em que se desenvolveu a ação evidenciam a


traficância e não apenas o consumo próprio, haja vista que os policiais militares afirmaram
terem visto a movimentação característica do tráfico, a entrega de droga a uma pessoa, a
apreensão de droga na residência do apelante e a abordagem de usuário – adolescente –
fazendo uso do ilícito no local.

Logo, observa-se que nenhum dos requisitos da norma favorecem o apelante; o especial fim de
agir exigível pelo tipo penal do art. 28 da Lei n. 11.343/06 não foi minimamente demonstrado
pelo réu; e as circunstâncias que circundam a ação são suficientes para se perceber a
caracterização do tráfico, de modo que a pretensão desclassificatória deve ser afastada.” –
sem grifos no original.

Pelas razões delineadas anteriormente, impõe-se a manutenção do édito condenatório


quanto aos fatos nº 2 e 3, nos exatos termos exarados pelo magistrado de origem, tal qual a absolvição
pelo fato nº 4, em virtude da ausência de materialidade delitiva.

2.2. Dosimetria da Pena

Levando-se em consideração a absolvição supra pelo crime descrito no fato nº 4 na inicial


acusatória, passa-se a análise da dosimetria da pena referente apenas ao fato nº 2 – artigo 33, caput, da
Lei nº 11.343/2006 – e ao fato nº 3 – artigo 33, caput, c/c artigo 40, inciso VI, da mesma legislação.

Preliminarmente, é de se observar que, embora descritos em fatos distintos, os cenários


analisados fazem referência ao mesmo conjunto fático probatório, eis que ocorrem concomitantemente e
são constatados no mesmo instante pelos Policiais Militares, sendo considerados, portanto, crime único.
Considerando que o tipo penal em apreço traz diversas condutas incriminadoras, de forma
que, a prática de uma, duas ou mais, em um mesmo contexto fático, configura o cometimento de um
único crime de tráfico de drogas, não havendo possibilidade de se punir duplamente atos que perfazem
um único ilícito.

Neste ponto:

“(...) Os vários núcleos verbais constantes do art. 33 da Lei de Drogas fazem dele um crime de
ação múltipla ou de conteúdo variado. Assim, mesmo que o agente pratique, em um mesmo
contexto fático, mais de uma ação típica, responderá por crime único, haja vista o princípio da
alternatividade, devendo, no entanto, a pluralidade de verbos efetivamente praticados ser
levada em consideração pelo juiz por ocasião da fixação da pena (art. 59, caput, do CP).
Pouco importa que o autor tenha importado determinada substância entorpecente,
transportado-a para determinado lugar onde foi mantida em depósito para depois ser vendida.
Terá praticado um crime único, por força da incidência do princípio da alternatividade.
Entretanto, inexistindo uma proximidade comportamental entre as várias condutas, haverá
concurso de crimes (material ou mesmo continuado) (...)”. (in Legislação Criminal Especial
Comentada. 2ª edição. Salvador: Editora Juspodvim, 2014, p. 725).

Desta forma, no caso em apreço, denota-se que, em buscas no interior da residência do


recorrente, os agentes constataram a propriedade de entorpecentes, estando configurados os verbos
“guardar” e “ter em depósito”, assim como se deparam com o adolescente fazendo o uso de cocaína,
configurando a causa especial de aumento de pena, prevista no artigo 40, inciso VI, da Lei n. 11.343
/2006, que assim dispõe:

“Art. 40. As penas previstas nos arts. 33 a 37 desta Lei são aumentadas de um sexto a dois
terços, se:

VI - sua prática envolver ou visar a atingir criança ou adolescente ou a quem tenha, por
qualquer motivo, diminuída ou suprimida a capacidade de entendimento e determinação” –
sem grifos no original.

Por tais considerações, passa-se a análise dos pleitos referentes a dosimetria da pena do
crime previsto no artigo 33, caput, c/c artigo 40, inciso VI, da Lei n. 11.343/2006 (fatos nº 2 e 3),
restando, inclusive, prejudicado o pleito referente ao afastamento da continuidade delitiva, eis que
presente apenas um crime.

a) Circunstâncias Judiciais

A defesa do Apelante insurge-se contra a dosimetria da pena, pleiteando o afastamento das


circunstâncias valoradas negativamente na primeira fase, com a consequente fixação da pena-base em seu
mínimo legal.

Todavia, não assiste razão ao Apelante.

Ao realizar a análise das circunstâncias judiciais presentes no artigo 59 do Código Penal, o


juiz sentenciante considerou a natureza gravosa da substância cocaína que possui um alto poder de
nocividade, sendo hábil a submeter o usuário rapidamente a dependência química, bem como a
diversidade das substâncias apreendidas (maconha e cocaína).

Certo de que a análise das circunstâncias judiciais do artigo 59 do Código Penal é de


caráter discricionário do juízo sentenciante, cabendo ao órgão ad quem intervir somente quando em
afronta aos princípios constitucionais e legais.

Nota-se que, in casu, foram encontradas duas substâncias distintas que seriam destinadas a
comercialização, portanto subsistindo a diversidade, bem como a natureza gravosa da cocaína
apreendida. Não obstante, inexistentes outras circunstâncias judiciais desfavoráveis, assim como decidido
em primeiro grau, entendo que se revela proporcional o aumento, considerando a diversidade e natureza
das drogas apreendidas.

Em caso análogo, esta Corte de Justiça considerou a majoração da reprimenda na primeira


fase da dosimetria penal determinando a possibilidade do incremento da basilar. Veja-se:

“APELAÇÃO CRIMINAL. SENTENÇA CONDENATÓRIA. TRÁFICO DE DROGAS E


ASSOCIAÇÃO PARA O TRÁFICO.APELANTE¹: ASSOCIAÇÃO PARA O TRÁFICO.
ABSOLVIÇÃO. DESCABIMENTO. AUTORIA E MATERIALIDADE COMPROVADAS.
VERSÃO DO APELANTE ISOLADA NOS AUTOS. DEPOIMENTO DOS POLICIAIS FIRME
E HARMÔNICO. VÍNCULO ASSOCIATIVO E PERMANENTE DEMONSTRADO.
CONDENAÇÃO ESCORREITA. TRÁFICO DE DROGAS. DOSIMETRIA DA PENA.
FIXAÇÃO DA PENA NO MÍNIMO LEGAL. IMPOSSIBILIDADE. AUMENTO DA PENA-
BASE PELA NATUREZA DA SUBSTÂNCIA ENTORPECENTE. ELEVADO PODER
NOCIVO. DIVERSIDADE DAS DROGAS “CRACK” E “COCAÍNA”. EXEGESE DO ART.
42 DA LEI Nº 11.343/06. APLICAÇÃO DA ATENUANTE DA CONFISSÃO ESPONTÂNEA.
DESCABIMENTO. MERO RECONHECIMENTO DE POSSE/PROPRIEDADE DA DROGA
NÃO AUTORIZA A APLICAÇÃO DO REDUTOR. INTELIGÊNCIA DA SÚMULA 630 DO
STJ. APLICAÇÃO DA CAUSA ESPECIAL DE DIMINUIÇÃO DE PENA DO ART. 33, § 4º,
DA LEI Nº 11.343/06. IMPOSSIBILIDADE. DEDICAÇÃO ÀS ATIVIDADES CRIMINOSAS.
SENTENCIADO QUE OSTENTA CONDENAÇÃO POR ASSOCIAÇÃO AO TRÁFICO.
PEDIDO DE DETRAÇÃO PENAL. NÃO ACOLHIMENTO. TEMPO DE PRISÃO QUE NÃO
ALTERA O REGIME DE CUMPRIMENTO INICIAL DE PENA. PRECEDENTES
JURISPRUDENCIAIS. SENTENÇA ESCORREITA. RECURSO CONHECIDO E
DESPROVIDO. (...).” (TJPR - 5ª Câmara Criminal - 0004919-73.2021.8.16.0196 - Curitiba
- Rel.: DESEMBARGADORA MARIA JOSÉ DE TOLEDO MARCONDES TEIXEIRA - J.
23.01.2023) – sem grifos no original.

Deste modo, nota-se que o magistrado de origem considerando a existência de apenas uma
circunstância judicial negativa, aplicou a fração de aumento de 1/10 (um e dez avos) sobre o intervalo da
pena máxima e mínima cominadas ao delito, resultando em um acréscimo de 1 (um) ano na pena basilar.

Isto posto, mantém-se a pena-base fixada em 6 (seis) anos de reclusão e 600 (seiscentos)
dias-multa, em observação a possibilidade de exasperação da pena pela natureza e diversidade dos
ilícitos e, consequente, conservação da fração outrora aplicada, eis que compatível com a jurisprudência
vigente.

b) Agravantes e Atenuantes

Da análise da segunda fase do cálculo penal, observa-se que inexistem circunstâncias


agravantes a envolver a prática do ilícito, contudo deve ser reconhecida a atenuante da menoridade
relativa, nos moldes do artigo 65, inciso I, do Código Penal.

Em que pese a rogativa da defesa para o reconhecimento da minorante prevista no artigo


65, inciso III, alínea “d”, do Código Penal, extrai-se do depoimento do acusado que este não assume a
realização da venda de ilícitos, limitando-se a afirmar que todos eles seriam destinados ao seu próprio
consumo, deixando, portanto, de confessar espontaneamente a prática do delito. Portanto, inviável o
reconhecimento e aplicação da confissão espontânea.

Por outro lado, tem-se que o réu possuía 18 (dezoito) anos na data da prática do ilícito,
sendo viável e necessária a aplicação da atenuante prevista no artigo 65, inciso I, do Código Penal. Nesta
toada, levando-se em consideração o teor da Súmula n. 231 do Superior Tribunal de Justiça, a pena
intermediária resta fixada em seu mínimo legal, qual seja, 5 (cinco) anos de reclusão e 500 (quinhentos)
dias-multa.

c) Causa Especial de Diminuição da Pena


Em análise última, passa-se a averiguação das causas especiais de aumento e diminuição
de pena. No caso em comento, possuímos a causa específica de aumento de pena prevista no artigo 40,
inciso VI, da Lei nº 11.343/06, sendo necessário o acréscimo da fração de 1/6 (um sexto), assim como
decidido em sede de primeiro grau, passando a pena novamente ao patamar de 5 (cinco) anos e 10 (dez)
meses de reclusão e ao pagamento de 583 (quinhentos e oitenta e três) dias-multa.

Nesta toada, como bem pontuado pelo magistrado sentenciante “Lado outro, a entrega de
droga gratuitamente para consumo foi ao seu tio, pessoa adolescente (conforme qualificação de seq.
1.11), de maneira que incide a causa de aumento prevista no artigo 40, VI, da Lei 11343/2006, de modo
que aumento a pena intermediária em 1/6, fixando-a de maneira definitiva em 5 (cinco) anos e 10 (dez)
meses de reclusão e 583 dias-multa.”

Por outro enfoque, apesar de omissa a sentença neste tópico, é necessária a posterior
diminuição pela possibilidade de reconhecimento do tráfico privilegiado, assim como aventado pela
defesa, dada a primariedade do agente, existência de bons antecedentes, bem como inexistência de provas
contundentes acerca do seu envolvimento com atividades e organizações criminosas.

Deste modo, não havendo nos autos qualquer fator que gere maior reprovabilidade à
conduta, apto a afastar a aplicação da diminuição de pena em seu grau máximo, imperiosa a utilização da
fração de 2/3 (dois terços).

A respeito do tema, cito jurisprudência deste Tribunal de Justiça:

APELAÇÃO CRIME. TRÁFICO ILÍCITO DE ENTORPECENTE. SENTENÇA


CONDENATÓRIA. PLEITO DE APLICAÇÃO DA FRAÇÃO DE REDUÇÃO EM GRAU
MÁXIMO EM RAZÃO DO RECONHECIMENTO DA MINORANTE DO TRÁFICO
PRIVILEGIADO PREVISTA NO §4ª, DO ART. 33, DA LEI DE DROGAS.
POSSIBILIDADE. AUSÊNCIA DE FUNDAMENTAÇÃO IDÔNEA NA SENTENÇA
PARA A FIXAÇÃO DE FRAÇÃO INTERMEDIÁRIA. PENA DEFINITIVA READEQUADA.
FIXADO REGIME INICIAL ABERTO, COM SUBSTITUIÇÃO DA PENA PRIVATIVA DE
LIBERDADE POR RESTRITIVAS DE DIREITOS. RECURSO CONHECIDO E PROVIDO.
(TJPR - 3ª C.Criminal - 0002173-09.2019.8.16.0196 - Curitiba - Rel.: DESEMBARGADOR
JOSÉ CARLOS DALACQUA - J. 13.12.2022) – sem grifos no original.

PENAL. PROCESSO PENAL. APELAÇÃO CRIMINAL. TRÁFICO DE DROGAS (ART. 33,


CAPUT, DA LEI Nº 11.343/2006), SENTENÇA CONDENATÓRIA. RECURSO DA DEFESA.
INCONFORMISMO COM O CÁLCULO DOSIMÉTRICO. REQUERIMENTO DE
APLICAÇÃO DA CAUSA DE DIMINUIÇÃO DO ART. 33, §4º, DA LEI DE TÓXICOS NO
PATAMAR MÁXIMO. ROGATIVA ACOLHIDA SUBSÍDIOS PROBANTES QUE NÃO
SÃO HÁBEIS A EVIDENCIAR, DE FORMA INCONTESTÁVEL, QUE O DENUNCIADO
SE DEDICAVA À ATIVIDADE ILÍCITA E TAMPOUCO QUE INTEGRAVA
ORGANIZAÇÃO CRIMINOSA. REQUISITOS DO TRÁFICO PRIVILEGIADO
CUMPRIDOS NO CASO CONCRETO. EMPREGO DA MINORANTE QUE SE IMPÕE
NO GRAU MÁXIMO, A FIM DE NÃO CONFIGURAR BIS IN IDEM. RECURSO
CONHECIDO E PROVIDO. (TJPR - 5ª C.Criminal - 0001384-23.2021.8.16.0169 - tIBAGI
- Rel.: JUÍZA SUBSTITUTA EM 2º GRAU SIMONE CHEREM FABRÍCIO DE MELO - J.
22.10.2022) – sem grifos no original.

Deste modo, inexistindo qualquer fundamento válido para o afastamento do tráfico


privilegiado, necessária a aplicação do quantum de diminuição em seu patamar máximo, qual seja, 2/3
(dois terços), passando a pena definitiva de Mailon Renan Kanigoski Jahn a 1 (UM) ANO, 11 (ONZE)
MESES e 10 (DEZ) DIAS DE RECLUSÃO E PAGAMENTO DE 194 (CENTO E NOVENTA E
QUATRO) DIAS-MULTA.

d) Regime Inicial de Cumprimento de Pena


Considerando a quantidade de pena fixada, bem com a condição de primariedade do
acusado, assim como requerido pela defesa, determino a fixação do regime aberto para o cumprimento de
pena, nos termos do artigo 33, §2º, alínea “c” do Código Penal.

De igual forma, viável a substituição da pena privativa de liberdade por pena restritiva de
direitos, visto que a quantidade de pena, a primariedade do agente e as condições favoráveis de
culpabilidade, os antecedentes, a conduta social e a personalidade do condenado, bem como os motivos e
as circunstâncias do delito, não obstam a sua conversão, nos termos do artigo 44 do Código Penal.

Por conseguinte, em respeito ao conteúdo do artigo 44, §2º do Código Penal, substituo a
pena privativa de liberdade por duas restritivas de direitos, consistentes em:

a) Prestação de serviços à comunidade, a entidade a ser indicada pelo Juízo singular, em


conformidade com o artigo 46, §3º, do Código Penal.

b) Pagamento de prestação pecuniária, na importância de 1 (um) salário mínimo, nos


termos do artigo 45, §1º, do Código Penal.

Pelas razões acima expostas, conheço do recurso interposto pelo réu Mailon Renan
Kanigoski Jahn e dou-lhe parcial provimento, com deliberação, de ofício.

Ante o exposto, ACORDAM os Desembargadores da 5ª Câmara Criminal do Tribunal de


Justiça do Paraná, por unanimidade de votos, em conhecer do recurso e dar-lhe parcial provimento.

O julgamento foi presidido pelo Desembargador Marcus Vinicius de Lacerda Costa, sem
voto, e dele participaram a Desembargadora Maria José de Toledo Marcondes Teixeira, relatora, o
Desembargador Jorge Wagih Massad e a Desembargadora Substituta Simone Cherem Fabricio de Melo.

11 de dezembro de 2023

DESª MARIA JOSÉ TEIXEIRA

Relatora

Você também pode gostar