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Praeirinho Riscos

O estudo analisa a vulnerabilidade social da população do bairro Praeirinho em Cuiabá/MT, destacando que os riscos de enchentes são exacerbados por fatores sociais como baixa renda e falta de infraestrutura. A pesquisa, baseada em dados do Censo Demográfico de 2010, revela que a população local, composta majoritariamente por crianças e idosos, enfrenta desvantagens sociais significativas em comparação com o município e o estado. Conclui-se que a ocupação em áreas de risco é resultado da segregação social e da falta de políticas habitacionais adequadas.

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Praeirinho Riscos

O estudo analisa a vulnerabilidade social da população do bairro Praeirinho em Cuiabá/MT, destacando que os riscos de enchentes são exacerbados por fatores sociais como baixa renda e falta de infraestrutura. A pesquisa, baseada em dados do Censo Demográfico de 2010, revela que a população local, composta majoritariamente por crianças e idosos, enfrenta desvantagens sociais significativas em comparação com o município e o estado. Conclui-se que a ocupação em áreas de risco é resultado da segregação social e da falta de políticas habitacionais adequadas.

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RISCOS E VULNERABILIDADE:

O CASO DO PRAEIRINHO, CUIABÁ, MT, BRASIL


TÍTULO EM INGLÊS
Aristóteles Teobaldo Neto 1
Margarete C. C. T. Amorim 2
RESUMO

A população residente nas cidades brasileiras está cada vez mais exposta a diversos pos de riscos.
Entretanto, em uma sociedade de classes, o risco varia conforme o nível de vulnerabilidade de
cada grupo social. Este ar go teve como principal obje vo, avaliar se a população residente no
bairro Praeirinho, em Cuibá/MT, além de estar sujeita ao perigo de ser a ngida por um fenômeno
de origem climá ca, como as enchentes; também tem o risco agravado por fatores de origem
social. Para tanto, foram selecionadas algumas variáveis indica vas de desvantagens sociais do
banco de dados do Censo Demográfico 2010 (IBGE) e realizada uma comparação rela va ao
município de Cuiabá e ao estado de Mato Grosso. Concluiu-se que o bairro apresenta indicadores
de desvantagens sociais relacionados à renda, qualidade ambiental urbana e saneamento básico,
muito superiores rela vamente e proporcionalmente aos recortes espaciais do município de
Cuiabá e do estado de Mato Grosso, indicando que a equação do risco é agravada especialmente
por fatores de origem social que expõem 1/3 da comunidade cons tuída por crianças e idosos.
PALAVRAS-CHAVE: ENCHENTES, CUIABÁ, DESIGUALDADES SOCIAIS.

ABSTRACT

Escrever

KEYWORDS: KEYWORD 1; KEYWORD 2; KEYWORD 3.

1 - Introdução

1 Afiliação, Departamento/Ins tuto/Universidade.exemplo1@[Link]: h ps://[Link]/0000-0000-


0000-000X
2 Profa. Livre-docente, Departamento de Geografia/Faculdade de Ciência e Tecnologia/Universidade Estadual

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1
Em muitos países e, especialmente no Brasil, todos os anos, na mesma época, repetem-se
as mesmas manchetes que se reportam às enchentes, às inundações, aos desabamentos e às
perdas materiais e humanas. No caso brasileiro, o problema se repete em todo verão chuvoso.
Não bastasse a banalização do recorrente evento, interpretações equivocadas criminalizam
o clima, desviando o foco do principal problema gerador e produtor de riscos que ceifam a vida de
milhares de pessoas todos os anos, ou seja, o modelo de produção do espaço geográfico urbano
que produz riscos, na medida em que, por meio da polí ca do mercado imobiliário, restringe as
opções de moradia à população mais pobre, que sem opção vão ocupar áreas inadequadas,
tornando-se vulneráveis e expostas aos riscos (CARLOS, 2015)3.
Diminuir os riscos pressupõe eliminar a vulnerabilidade. Para tanto, é necessário
diagnos cá-la e compreender os processos produtores de riscos e vulnerabilidade. Este trabalho
teve como principal obje vo conhecer alguns aspectos da vulnerabilidade socioespacial no bairro
Praeirinho, (Cuiabá/MT), localizado em área de risco a enchentes.
Muitos fatores são definidores da condição social de um grupo de indivíduos e,
dependendo de sua qualidade/quan dade, podem aumentar ou reduzir sua capacidade diante de
ameaças e perigos. Alguns indicadores são consenso entre vários pesquisadores, entre eles:
idosos, crianças, mulheres, negros, jovens, portadores de necessidades especiais, pessoas com
baixo grau de alfabe zação e de baixa renda, infraestrutura e saneamento urbano etc. São
condições que podem limitar ou favorecer a ação e/ou recuperação e resiliência, pós-catástrofe.
Cu er (2011) a divide em duas dimensões:

A vulnerabilidade, numa definição lata, é o potencial para a perda. A


vulnerabilidade inclui quer elementos de exposição ao risco (as circunstâncias que
colocam as pessoas e as localidades em risco perante um determinado perigo),
quer de propensão (as circunstâncias que aumentam ou reduzem a capacidade da
população, da infraestrutura ou dos sistemas sicos para responder a e recuperar
de ameaças ambientais) (CUTTER, 2011, p.60).

A dimensão de exposição ao risco tem relação direta com a questão espacial. As


desigualdades inerentes ao espaço urbano possuem uma expressão espacial que interessa
diretamente às análises geográficas. Já os elementos de propensão estão relacionados à condição

3 Ana Fani Alessandri Carlos. Notas da Palestra: A Gestão dos Riscos Naturais na França. Moderador Pedro Roberto Jacobi. Expositora: Yvete
Veyret. Debatedoras: Ana Fani Carlos e Helena Ribeiro. Transmissão ao vivo pela web em 25/06/2015 às 10 horas.

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social. Por isso, admite-se que a adje vação “socioespacial” remete às duas dimensões inerentes à
vulnerabilidade. A vulnerabilidade só pode ser definida a par r da compreensão dos riscos e que
ameaçam uma comunidade ou sistema.
A ameaça está relacionada às condições sico-naturais do terreno ou da área
ocupada, indicando sua maior ou menor susce bilidade à ocorrência de
fenômenos que podem colocar o homem em situação de perigo, como
escorregamentos, as inundações, os terremotos, os furacões etc” (SOUZA e
ZANELLA, 2009).

Braga, Oliveira e Givisiez (2006 p. 82) destacam que o documento final da Conferência
Mundial para a Redução de Desastres, em Kobe, a ONU (2005) chama a atenção para a
necessidade de se desenvolver sistemas de indicadores de risco e vulnerabilidade nos níveis
nacional e subnacional, como forma de permi r aos tomadores de decisão um melhor diagnós co
das situações de risco e vulnerabilidade. A mensuração é um dos grandes desafios na
operacionalização da vulnerabilidade e representa uma demanda real em todo o planeta.

2 – Materiais e métodos
Esta pesquisa foi fundamentada na base teórica acerca do conceito de vulnerabilidade e
risco, construída por geógrafos brasileiros como Souza e Zanella (2009), Almeida (2010) e
Marandola Jr. (2014), Zamparoni (2012), bem como pesquisadores de reconhecimento
internacional, como Veyret (2015) e Cu er (2003). Foram analisadas mais de 40 variáveis que
dizem respeito a seis temas: grupos vulneráveis (crianças, idosos, negros e mulheres),
alfabe zação, responsáveis pelo domicílio, renda, saneamento básico e qualidade das vias públicas
urbanas. Foi usada a base de dados do Censo 2010 (IBGE)4. Para realizar a comparação entre as
diferentes unidades territoriais, foram somados os dados dos setores censitários que compõem o
bairro (3 setores censitários), o município (820 setores censitários) e o estado de Mato Grosso
(setores censitários 6119). Os dados brutos, disponíveis em planilhas eletrônicas em formato xls e
csv, foram conver dos em dados rela vos, para melhor representação em gráficos e tabelas, bem
como para favorecer a avaliação comparada. Foram vetorizados o perímetro urbano, baseado no
memorial descri vo da Lei n. 4.719 de 30_12_2004 (PREFEITURA MUNICIPAL DE CUIABÁ, 2007) e a

4 Base de dados em formato xls e csv, com manual técnico Base de Informações do Censo Demográfico 2010: Resultados do Universo por setor
censitário, disponíveis on line em <[Link]/downloads_geociencias.htm>

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área de risco a enchentes, baseado no mapa de riscos a enchentes, elaborado pelo Ins tuto de
Planejamento e Desenvolvimento Urbano da Prefeitura Municipal de Cuiabá, 2007 (ZAMPARONI,
2014). Foi usado o Sistema de Informações Geográficas ArcMap 10 ESRI, para edições vetoriais e
elaboração do mapa.

3 – Estudo de caso: Bairro Praeirinho – Cuiabá/MT.


O bairro Praeirinho está localizado em área de proteção permanente, às margens do Rio
Cuiabá, na capital do estado de Mato Grosso, dentro das “áreas de riscos” segundo a classificação
da Prefeitura Municipal de Cuiabá (IPDU, 2007). Em 2010 contava com população de 1.951
habitantes, de acordo com o Censo Demográfico 2010 (IBGE).
O bairro surgiu em 1984, resultado de uma ocupação feita por moradores que viviam nas
redondezas (PINHO, 2000). Porém, a área ocupada fica às margens do Rio Cuiabá, sujeita à
dinâmica natural de elevação do nível de água em épocas de chuvas. Trata-se de um exemplo
emblemá co de uma dinâmica de produção do espaço urbano marcada pela segregação de classes
sociais. Conforme destacou Carlos (informação verbal)5 essa produção do espaço urbano
segregado produz risco na medida em que as pessoas pobres, impedidas de ocupar áreas
des nadas à especulação imobiliária ocupam, sem opção, as áreas mais expostas aos riscos.
Nenhuma polí ca habitacional garan u a remoção da comunidade para uma área segura.
Com a omissão do poder público, a área foi se consolidando ao longo do tempo e oficialmente
reconhecida como bairro, através da Lei número 3723, de 23 de dezembro de 1997 (CUIABÁ,
2007). Apesar disso, os moradores con nuam sujeitos às perdas diante do risco que os ameaçam
de forma permanente, conforme se observa em depoimentos recentes apresentados a seguir.
A moradora Vera Alves de Souza reside há dez anos na região e diz que se cadastrou
várias vezes em programas habitacionais, mas nunca foi beneficiada. “Uma hora vai
desabar ou causar enchentes piores do que aconteceu, mas não vou sair, não tenho
para onde ir”, declarou. Outra moradora, que preferiu não se identificar, contou que
está no bairro há cinco anos e que aos fundos de sua casa tem um grande buraco que
sempre enchia de água durante a chuva. Para acabar com a situação, ela teria jogado
entulhos dentro tentando evitar enchente (GLOBO, 26/11/2014).

O perigo é maior no verão, devido ao regime de chuvas.

5 Palestra: A Gestão dos Riscos Naturais na França. Moderador Pedro Roberto [Link]: Yvete Veyret. De-
batedoras: Ana Fani Alessandri Carlos e Helena Ribeiro. Transmissão ao vivo pela web em 25/06/2015 às 10 horas.

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As chuvas concentram-se no período de final de setembro a maio, mas é no verão
que a precipitação ocorre em maior quan dade. A precipitação máxima mensal
ocorre, em média, no mês de janeiro, aproximadamente 215 mm. No restante do
ano, as massas de ar seco sobre o centro do Brasil inibem as formações chuvosas.
Nos meses secos (de junho a setembro), as passagens de frentes frias associadas à
fumaça produzida pelas constantes queimadas feitas nessa época, reduzem a
umidade rela va do ar a níveis muito baixos. Os meses mais secos acontecem em
julho, agosto e setembro, com valores médios próximos de 55%, podendo a ngir
15% em casos extremos. Nos meses de verão, a umidade rela va do ar gira em
torno de 80% (BRASIL, MINISTÉRIO DA CIENCIA, TECNOLOGIA E INOVAÇÃO, INPE,
2015).

Em março 2007 o Ins tuto de Pesquisas e Desenvolvimento Urbano (IPDU) da Prefeitura


Municipal de Cuiabá, divulgou o mapa das áreas de risco a enchentes. Trata-se de um documento
oficial que admite a total inclusão do Praeirinho em área de risco (Figura 1)

Figura 1 - Mapa de localização do bairro Praeirinho e Áreas de Riscos a Enchentes

Apesar do alto índice pluviométrico em todo o planalto da Bacia do Rio Cuiabá, as


oscilações sazonais do nível do rio sempre ocorreram. O risco surgiu a par r da primeira moradia

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de Preservação Permanentes) e córregos, dentro da cidade, veram aumento grada vo das
inundações devido a combinação de fatores como ocupação desordenada, falta de polí cas
públicas de preservação da rede hídrica, saneamento e coleta de lixo. De acordo com Zamparoni
(2012, p.361), em Cuiabá, a ocupação das áreas de risco é formada por grilos, invasões,
propriedades sem documentação legalizada junto aos órgãos de planejamento do município. A
autora destaca a baixa renda como caracterís ca socioeconômica principal, definidora do perfil da
população que vive nestas áreas de risco.
A seleção de variáveis no banco de dados do Censo Demográfico (IBGE, 2010) baseou-se
nos principais indicadores de desvantagens sociais, conforme literatura consultada, em especial
nosXXXXX

Foi realizada uma comparação rela va da vulnerabilidade, proporcional aos recortes


espaciais: bairro, município e estado. Assim, foi possível conhecer se a vulnerabilidade social no
bairro Praeirinho era maior ou menor em relação ao município e ao estado de Mato Grosso. Para
tanto, foram rela vizados os totais absolutos de população e domicílio para cada recorte espacial
e, depois, quan ficados os percentuais rela vos de cada variável indicadora de desvantagens
sociais e, por fim, comparados entre os diferentes recortes especiais.

4 – Resultados e discussões
Considerando-se a sociedade organizada em classes sociais, em que as oportunidades são
diferenciadas, conforme o estrato social, reconhece-se a existência de alguns grupos mais
vulneráveis que outros, tais como os negros, indígenas, mulheres e a população de baixa renda.
Com relação à cor, destaca-se a predominância da população de cor parda no Praeirinho
(70,48%), 54,30% em Cuiabá e 52,44% no estado. A população que se declara preta, no bairro,
corresponde a 13,63%, no município a 10,80% e no estado a 7,57%. Enfim, vale destacar que a
população parda e preta, somadas, é consideravelmente superior (84%) à do município (65%) e do
estado (60%). Já a população branca é consideravelmente menor (15,33%), comparando-se com a
do município (33%) e do estado (37%) (Gráfico 1 - Cor).

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Gráfico 1 – Cor da população residente no bairro Praeirinho, em Cuiabá e no Mato Grosso.
Fonte: Censo 2010 - IBGE
O gênero feminino está incluído no grupo dos vulneráveis, por isso, fundamental no
conhecimento da vulnerabilidade do bairro, como um todo. Um número considerável de mulheres
(37,25%) é responsável pelo domicílio. O índice é maior que o do estado (34,56%), porém, menor
do que o do município (40,84%), conforme se observa no gráfico 2.
Com relação à renda, 8,32% dos domicílios, declararam-se sem qualquer po de renda,
aproximadamente duas vezes o índice do município (4,54%) e quase três vezes o índice do estado
(3,27%). A maioria dos domicílios possuem renda até 1 (um) salário mínimo, sendo o índice
decrescente para Cuiabá (55,62%) e o estado de Mato Grosso (43,84%). Ao considerar a faixa de 0
(zero) a 3 (três) salários mínimos, tem-se uma população de 96,56% no bairro, 91,24% no
município e 82,66% no estado. Os índices do bairro superam os do município e do estado nos
extratos mais nega vos, ou seja, ‘sem renda’ e ‘renda até 1 salário mínimo’, elevando a condição
de vulnerabilidade geral, conforme pode ser observado no gráfico 3.
Em torno de 28,19% da população é composta por crianças e 6,15% de idosos. Somados,
totalizam 34,3% da população com dificuldade de locomoção em uma eventual emergência. No
caso dos idosos, pelas dificuldades de locomoção naturalmente impostas pela idade. No caso das
crianças, pela falta de senso crí co e capacidade de resposta e diagnós co de uma situação de
emergência.
Numa situação ideal que configuraria uma situação de bom índice cultural e acesso a
informação, 100% das pessoas acima de 7 anos estariam alfabe zadas, entretanto, no bairro,
apenas 78,22% estão alfabe zadas, ao passo que em Cuiabá o percentual sobe para 84,37% e na
média geral do estado, gira em torno de 79,81%. Destaca-se ainda o des no inadequado,
diretamente no rio, do esgoto de 28,03% e do lixo de 3,25% dos domicílios.

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Fonte: Censo 2010 – IBGE

A qualidade do ambiente urbano foi analisada a par r das 10 (dez) variáveis da pesquisa,
“Caracterís cas Urbanís cas do Entorno dos domicílios”, desenvolvida pelo IBGE no Censo 2010. A
pesquisa levantou a existência ou ausência de cada variável. Para algumas a situação ideal seria
100% (existência de iden ficação de logradouro, iluminação pública, pavimentação, calçada, meio
fio ou guia, bueiro/boca de lobo, rampa para cadeirante, arborização), para outras 0% (existência
de esgoto a céu aberto, lixo acumulado nos logradouros).
Em nenhuma das variáveis o bairro possui as condições ideais e se destacam: a inexistência
de calçada com rampa para cadeirante; apenas 13% dos domicílios possuem seu logradouro
iden ficado; e 19% dispõem de arborização. De forma compara va, o Praeirinho superou
nega vamente, a cidade e o estado, em 9 (nove) das variáveis, conforme se observa no gráfico 4.

Gráfico 4 - Qualidade Ambiental Urbana: Vias Públicas


Fonte: Censo 2010 - IBGE

5 - Conclusões
O risco a enchentes no bairro Praeirinho, existe desde a construção da primeira moradia
naquele local. Surgiu como resultado do modelo de produção do espaço urbano que mercan liza o
espaço e segrega socioespacialmente, pela sua ocupação desigual, de acordo com o poder
aquisi vo de cada família. Por se tratar de uma área imprópria à ocupação, não possui valor de
mercado e restou como opção às famílias que, sem renda e sem a garan da do Estado, do direito à

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moradia, iniciou a sua história em uma área de preservação permanente. Com o bairro, nasceu
também o risco a enchentes que a comunidade convive há mais de 30 anos.
As análises feitas nesse trabalho permi ram concluir que, de fato, o bairro Praeirinho se
cons tui em uma situação espacial de risco, agravada tanto pela situação sica de susce bilidade
às enchentes, como pelos indicadores de desvantagens sociais elevados, principalmente se
comparados com as médias do município e do estado de Mato Grosso.
A população negra no bairro é proporcionalmente superior à do município e do estado. Ao
contrário, a população branca é menos da metade da média da cidade e do estado. Com relação à
renda, enquanto de 70% dos domicílios no Praeirinho possuem renda familiar de 0 a 1 salário
mínimo, no município de Cuiabá o percentual se reduz para 60%. No estado o índice é de 47%.
Quando se avaliam os números relacionados à qualidade ambiental urbana, as diferenças
rela vas entre bairro, município e estado, são ainda mais discrepantes: lançamento de esgoto
sanitário direto no rio: 28,03% (bairro), 0,73% (município) e 0,50% (estado); des no do lixo direto
no rio: 3%(bairro), 0,04%(município) e 0,22% (estado); esgoto a céu aberto no logradouro: 24%
(bairro), 13,33% (município) e 6,33% (estado) e Lixo acumulado nas ruas: 42% (bairro), 7,47%
(município) e 4,32% (estado).
Com isso, foi possível traçar um perfil da vulnerabilidade no bairro Praeirinho. Os pobres e
pretos/pardos estão expostos ao risco de origem climá ca, agravado por fatores de origem social.
Esse conhecimento condena a narra va de criminalização do clima e reposiciona a causa da
vulnerabilidade no sistema social que ao mercan lizar o acesso à terra e à moradia, exclui a
parcela da população que sem condições de acessar moradia em espaços adequados, ocupam
espaços susce veis a perigos de diversos pos, cujo risco é agravado por deficiência de espaços
urbanos, saneamento básico, renda, entre outros direitos elementares ao exercício da cidadania.
O diagnós co da vulnerabilidade aponta para a necessidade de se ques onar as raízes de
um sistema social produtor de desigualdades sociais, vulnerabilidades e riscos, bem como orienta
as polí cas públicas prioritárias.
A importância das ins tuições de pesquisas e do levantamento de dados dessa natureza se
destaca pela necessidade de se conhecer a situação atual, bem como avaliar a eficiência das
polí cas públicas ao longo do tempo, tendo em vista a coleta decenal do Censo Demográfico
realizado pelo IBGE.

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6 – Agradecimentos
Agradecimento especial aos apoios ins tucionais do IBGE (Ins tuto Brasileiro de Geografia
e Esta s ca) e da FAPESP (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo) – processos:
2016/03599-9 e 2018/08339-0.

7 - Referências
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hidrográfica do rio Maranguapinho, região metropolitana de Fortaleza, Ceará 2010. 278 f. Tese
(Doutorado em Geociências e Ciências Exatas). Universidade Estadual Paulista. Campus de Rio
Claro. Rio Claro SP.
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PREFEITURA MUNICIPAL DE CUIABÁ. Organização Geopolí ca de Cuiabá. IPDU - Ins tuto de
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CUTTER, Susan L. A ciência da vulnerabilidade: modelos, métodos e indicadores, Revista Crí ca de
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2015. URL : h p://[Link]/165 ; DOI : 10.4000/rccs.165.
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SOUZA, L. B; ZANELLA, M. E. Percepção de Riscos Ambientais: Teorias e Aplicações – Fortaleza:
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Ferreira da Cruz] 2 ed. 1a. impressão. São Paulo: Contexto, 2015
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