The Beginning After The End – Capítulo 524
https://centralnovel.com/the-beginning-after-the-end-capitulo-524/
POV ARTHUR LEYWIN
Meus canais se romperam, e minha pele jorrou sangue. Meus ossos
fraturaram, meu sangue ferveu. E ainda assim, mantive minha mente
totalmente focada na tarefa, pairando distante, protegida de mim mesmo. Eu
sentia a dor, sabia que ela estava ali, mas aquele instante era precioso demais
para me perder em algo tão pequeno quanto o colapso do meu corpo físico. Um
único fio da minha consciência isolava toda a agonia, mantendo-a a uma
distância segura, enquanto minha mente pairava acima de tudo, observando o
tsunami de éter se espalhar pela atmosfera.
Meu núcleo de três camadas, brilhando fraco como um membro
sobrecarregado, mal conseguia conter a torrente de éter liberada pela ruptura
da quarta camada. Os portões incrustados no núcleo, que o ligavam aos meus
canais, tremeluziam inutilmente, e os canais estavam devastados. Era preciso o
esforço total da minha consciência amplificada pelo Gambito do Rei, com
exceção daquele único fio que mantinha a dor à parte, para controlar tamanho
poder. Com isso, estendi minha vontade para cima e para baixo, todas as
minhas runas divinas trabalhando em plena harmonia.
A informação começou a fluir em minha mente a partir de Ji-ae, através da
recém-formada conexão com Tessia. Vi a forma de Epheotus e das Relictombs,
compreendi as leis necessárias — física, termodinâmica, expansão e contração
espacial, a trama do tempo, o pulsar quente da vida — tudo o que era exigido.
Acima de mim, a fenda se alargava rapidamente, e a descida de Epheotus
acelerava de forma alarmante.
O portal abaixo começou a se desdobrar, derramando o conteúdo das
Relictombs conectadas, enquanto a primeira zona era puxada do vazio para o
mundo físico. O portal tremia, estressado por duas forças opostas: o dilúvio de
éter causado pelo sacrifício da minha camada de núcleo, e o rio etéreo do
outro lado, à beira de transbordar. Um pátio — parte da primeira zona — se
despedaçou sob o peso da gravidade, apenas para se reconstruir em novas
formas, dobrando-se como papel ao vento.
A Destruição se acendeu junto com o restante das minhas runas divinas,
quando Regis ligou seu domínio da runa ao meu insight sobre ela. Fluxos de
chamas violetas dançavam pelos caminhos etéreos e dentro do espaço em
transformação.
A runa divina espacial abriu o Taegrin Caelum como uma casa de bonecas,
enquanto as novas estruturas advindas das Relictombs se assentavam nos
vazios deixados. Tudo que era supérfluo era reduzido ao nada pela Destruição.
O espaço se contraía e expandia conforme necessário. Caminhos etéreos
entrelaçavam o novo ao antigo. O tempo tremia em saltos irregulares,
enquanto as Relictombs se ajustavam à passagem do tempo real.
Ruas se desenrolavam para fora do portal, se destruindo e reconstruindo.
Edifícios ruíam e renasciam sob as pressões contrárias da runa espacial e do
Réquiem de Aroa. A Destruição podava incessantemente aquilo que eu não
podia aproveitar, enquanto eu mantinha toda a forma em minha mente como
uma planta tridimensional com profundidade temporal — um projeto de quatro
dimensões.
No coração do caos, onde as Relictombs se desdobravam e remodelavam como
um barquinho de papel, houve gritos. Eram as vozes de todos os que estavam
confinados lá dentro. Dezenas, depois centenas, agarrando-se ao que fosse
sólido, cada um envolto num casulo protetor de espaço e tempo.
O Gambito do Rei ameaçava ceder diante do esforço mental exigido. Ainda me
observando de cima, vi meu corpo tossir sangue. Meu corpo, em frangalhos,
tingido de escarlate; as mãos de Tessia escorregadias com o sangue que
escorria livremente da minha pele. Suas lágrimas se misturavam ao sangue
que fluía de seu próprio nariz.
Endureci o foco, reunindo os galhos da estrutura enquanto lutava para
reabsorver meu próprio éter, tentando fortalecer ainda mais a runa divina.
Teria sido mais fácil se tivéssemos tempo para esvaziar completamente as
Relictombs, encerrar todas as ascensões e remover as pessoas dos dois
primeiros níveis. Em vez disso, elas estavam abarrotadas de refugiados,
fugitivos do ataque final de Agrona.
Como em cada etapa deste processo, precisei me guiar pela maior chance de
êxito. Salvar as pessoas das Relictombs seria como passar ervilhas pelas
lâminas giratórias de uma colheitadeira. O tempo, a paciência e a energia
exigidos eram um preço que eu ainda não conhecia, assim como Epheotus.
Tentar salvar todos ao mesmo tempo talvez fosse exatamente o motivo de não
salvar ninguém… Ouviu-se um estalo ensurdecedor acima. Epheotus havia
avançado demais, depressa demais, sem apoio suficiente, enquanto minha
atenção permanecia nas Relictombs.
O Gambito do Rei me isolava da dor e do medo. Uma nova percepção floresceu
no sangue, crescendo como flores ao longo dos ramos em expansão. Era isso. O
propósito da runa divina. Um sacrifício verdadeiro. Até então, ela estivera
contida pela minha relutância em abrir mão de mim mesmo. Aqui, no entanto,
agora, isso era impossível. O preço por salvar as Relictombs, Epheotus, os
asuras e os alacryanos só poderia ser… eu.
E eu já havia começado.
Meu corpo era dilacerado de dentro para fora. Minha mente, arrancada do
invólucro. Meu núcleo, luminoso e exposto, reduzido a três camadas ao redor
de um núcleo orgânico de mana em ruínas. Eu precisava ir além. Separar-me
por completo.
À medida que o entendimento se desdobrava em minha mente como as
Relictombs emergindo do portal, cada ramo do Gambito do Rei se dividia em
outro, e cada novo galho brotava mais um, até que toda dor e preocupação, já
distantes, se dissolveram num ruído de fundo sem importância. Minha
consciência se expandia ao longo desses ramos, abarcando em si a totalidade
dos caminhos etéreos, ligando cada ponto a todos os outros, tanto os já fixos no
tecido do mundo quanto aqueles que apenas agora se formavam, como
sinapses cintilantes através do continente em queda.
O próprio mundo pareceu prender a respiração, e dentro daquele vento morno,
vi os fios dourados que uniam tudo. Eu estava no centro, inumeráveis fios se
entrelaçando ao meu redor e se estendendo até cada elfo, anão, humano,
alacryano e asura, em ambos os mundos. Meu corpo desapareceu, engolfado
numa silhueta humanoide de fios dourados, intensamente entrelaçados e
resplandecentes.
A respiração voltou, e os fios desapareceram de vista.
No céu acima, Epheotus já não se desintegrava, sustentado agora por um anel
de éter puro. A terra, como as Relictombs, se condensava e remodelava sob
meu comando, como argila moldada pelas mãos de um oleiro.
A Destruição dançava pelos caminhos etéreos, deslizando sobre sua superfície
e consumindo com precisão cirúrgica.
Quilômetro após quilômetro de Epheotus caía através da fenda, à medida que o
bolsão espacial expandido onde existiu por tanto tempo se colapsava. Tive
apenas segundos para me adaptar ao processo antes que ele tivesse de mudar
novamente, e a cada avanço, tornava-se mais complexo.
— Deixe-nos ajudar — disse Sylvie, firme, percebendo minha tensão. Como
Tessia, suas mãos estavam tingidas com meu sangue.
Abri a boca para responder, mas nenhuma voz saiu.
— Só preciso… de um pouco mais de tempo.
Sylvie assentiu. Fechou os olhos com força. E então, poder e éter,
manifestando-se por meio de suas artes aevum, estenderam-se pela face do
mundo, abrandando o tempo até que este escorresse como mel.
Uma força contrária reagiu. Sylvie arfou quando o feitiço se quebrou,
estilhaçando-se e enviando um calafrio nauseante por minha espinha.
— O quê…? — Ela murmurou, sem fôlego.
Algo se aproximava. Uma tempestade de mana e éter, mal contida. Descendo
de Epheotus.
— Myre — falei, o nome áspero em minha garganta.
Quase todo o meu éter estava fora do corpo, moldando Epheotus acima e as
Relictombs abaixo com mãos metafísicas. Por isso não me curava. Regis
absorvia o necessário para ativar a Destruição e me permitir canalizá-la, mas
eu guardava apenas o mínimo para manter meu corpo devastado vivo. E agora,
eu lutava para reunir o suficiente e nos proteger.
Se Myre atacasse…
— Arthur Leywin! — Sua voz retumbou pela atmosfera, profunda, ressonante, e
carregada de dor. — Senti a morte de Kezess, mas preciso saber… Como ele
morreu? Foi Agrona? — Suas palavras vinham afiadas, mas com uma súplica
velada.
Olhei para a fogueira que ardia por trás de seus olhos, incapaz de sentir medo.
— Eu o matei.
Houve uma longa inspiração, como o prenúncio de uma tempestade, antes que
ela respondesse, a voz trêmula.
— Trouxemos você para entre nós. Tratamos você como um dos nossos.
Treinamos e elevamos você. Abrimos os lugares mais sagrados. Fizemos de
você um de nós. E é assim que você retribui? Matando o homem que por tanto
tempo manteve este mundo seguro? — Notavelmente, percebi, ela não
perguntou o motivo.
Myre completou sua descida, flutuando como uma folha levada pelo vento. Seu
rosto era uma tempestade, seus olhos dois raios prestes a cair.
— Vovó! — gritou Sylvie, posicionando-se entre nós. — Você sabe que ele não
teve escolha. Sabe melhor do que ninguém as decisões que Kezess tomou e
tomaria novamente. Mas se você não nos deixar trabalhar, todos que ainda
estão aqui vão morrer. Inclusive o seu povo. A morte de Kezess não significará
nada!
Quanto mais Myre se aproximava, menor ela parecia. Já não era a jovem rainha
reluzente que vi ao lado de Kezess no trono, nem tampouco a anciã severa que
conheci no passado. Ela parecia antiga — ancestral —, mas indomada. Como
uma divindade esquecida. E foi naquele instante que compreendi, talvez pela
primeira vez, por que um dia consideramos os asuras como deuses.
Apesar de tudo pender na beira de uma lâmina, eu não podia parar. Todo o
primeiro nível das Relictombs já havia atravessado o portal, agora com mais de
sessenta metros de altura. Utilizando o éter para manipular a abundância de
mana da terra, extraí pedra das próprias montanhas, envolvendo e
preenchendo o lado aberto de Taegrin Caelum, formando a base do edifício. Ao
longe, ouvia os clamores e súplicas das pessoas que acabara de deslocar.
Epheotus era mais difícil. Precisava que Sylvie retardasse sua entrada neste
mundo, pois a formação exigia precisão. Os cálculos de Ji-ae estipulavam uma
faixa de terra com exatamente cento e duzentos e trinta e um quilômetros de
largura. A borda já havia ultrapassado as Montanhas Presas do Basilisco e se
aproximava da costa leste de Alacrya, e eu tinha apenas momentos para
completar a segunda das três divisões que seriam necessárias para salvar
Epheotus.
— Me sentindo… esticado demais, cara — pensou Regis. Ele e Sylvie não
tinham escolha a não ser coexistir dentro da teia do Gambito do Rei, embora
precisassem manter distância mental, ou suas mentes se romperiam tentando
acompanhar todos os meus pensamentos.
Myre estava diretamente na nossa frente agora, embora eu não tivesse notado
sua aproximação. Seus olhos repousaram sobre meu estado: o sangue, o voo
trêmulo, o pouco éter sustentando meu corpo físico. Este seria o momento em
que eu descobriria quem ela realmente era. Quem ela escolheria ser.
— Você está se matando — disse ela, rouca.
Arrependimento… ou alívio? Não soube dizer.
— Não seria… a primeira vez — respondi, com dificuldade.
Seus olhos desviaram para Tessia e depois repousaram em Sylvie.
— Sinto muito, filha da minha filha. Eu sei — disse, fechando os olhos e
soltando um suspiro cansado. — Eu sei.
Sylvie, com o olhar firme e úmido, assentiu levemente. Então, seu poder voltou
a se expandir e, desta vez, Myre não tentou detê-la. Sylvie lutava contra a
tempestade de éter que eu mesmo havia desencadeado, e eu mantinha o elo
entre nós com firmeza em minha mente.Não compartilhava meus pensamentos,
mas a incluía em minha consciência, minha conexão com os caminhos etéreos
através do God Step e as formações de Epheotus e das Relictombs pela runa
divina espacial. Através de mim, seu poder alcançou os confins de ambos os
mundos, e embora não parasse o tempo, ela aliviou a pressão de sua passagem,
dando-me tempo para transformar informação bruta e cálculo em realidade
física.
Quando a primeira faixa de terra passou sobre o litoral, busquei o ponto de
transição necessário.
— Minha família? — perguntei a Myre, ainda concentrado.
— Em segurança — respondeu ela, a voz áspera sob o peso da exaustão.
Esperei por mais. Quis perguntar, exigir que ela explicasse, mas sua única
palavra consumiu o tempo que eu tinha antes de encontrar o que buscava, e
toda a minha atenção voltou-se a Epheotus. A terra que obscurecia o céu
dividiu-se quando Epheotus se tornou não uma, mas duas faixas, a segunda
formando-se em um ângulo preciso de trinta e seis graus, seguindo agora em
direção sudeste.
Um segundo anel exigia outra camada de éter de sustentação, um novo fluxo
de Destruição e Réquiem de Aroa. A teia emaranhada que era o Gambito do
Rei se tensionou ainda mais, comprimida por forças puxando-a em todas as
direções.
A breve suspensão temporal de Sylvie se esvaiu de novo, enquanto ela
descansava por um momento.
Ao meu lado, Tessia, ainda agarrada ao meu braço, vacilou. Sua cabeça
tombou contra meu ombro revestido de armadura com força demais, abrindo
um corte sobre a sobrancelha. Seus olhos estavam desfocados; ela sequer
parecia notar. Apertei-a contra mim, incerto de que ainda pudesse se
sustentar.
— Tess. — Tessia…?
— Estou… bem. — Seus pensamentos escorriam lentamente.
— O desgaste sobre os sistemas físicos dela é enorme — interveio Ji-ae. — Essa
estrutura… o que sou agora, não foi feita para residir em um invólucro
orgânico. A quantidade de informação está consumindo-a por dentro.
— Eu disse que estou bem — retrucou Tessia, erguendo a cabeça do meu
ombro e se afastando, sem soltar completamente meu braço. Seu lado agora
estava manchado de sangue, meu e dela.
— Eu também tô ótimo, caso alguém queira saber — ironizou Regis, com o
equivalente mental de alguém cuspindo sangue.
Myre flutuou à nossa frente, o cenho franzido de preocupação.
— Deixem-me ajudar — disse, erguendo a mão antes que qualquer protesto
pudesse surgir. — Eu entendo. Isso não se trata de aliança ou perdão, mas de
sobrevivência. O maior preço já foi pago para dar ao meu povo um futuro. Não
vou desperdiçá-lo.
Sem esperar resposta, mana rodopiou em torno de sua mão erguida, brilhante
e potente. Um pouco de éter respondeu, e nossas feridas começaram a se
fechar lentamente.
As sobrancelhas de Myre franziram-se ainda mais, seus lábios curvando-se em
uma expressão de intensa concentração. A mana crescia… mas o éter mal
reagia. Percebi que ela precisava de toda sua energia apenas para curar os
ferimentos mais leves.
— Concentre-se na Tess — ordenei, entre dentes cerrados.
Ela hesitou, então voltou toda a atenção para Tessia. O sangue que escorria do
nariz de Tess diminuiu, e sua expressão suavizou levemente.
Mas, assim que a pressão curativa me deixou, engasguei. Vi, do alto, meus
próprios olhos revirarem nas órbitas. A pressão do reino etéreo dobrou, depois
triplicou. As primeiras seções do segundo nível das Relictombs começavam a
emergir pelo portal, e o edifício, uma estalagem de dois andares que ficava na
borda do pátio de entrada, explodiu em escombros. Só consegui proteger as
dezenas de pessoas aglomeradas dentro dela envolvendo-as em éter, no
instante antes do colapso.
O chão sob seus pés rachou quando enormes vinhas esverdeadas, de um tom
esmeralda vivo, irromperam para apanhá-las no ar. Tessia tremia com o
esforço do feitiço, sua vontade bestial fervilhando dentro dela. Num canto da
teia de pensamentos interligados, percebi que, ao puxar das Relictombs,
permitia que o rio etéreo ganhasse mais liberdade, corroendo as bordas
metafóricas como animais escavando as margens de um rio real. Apoiei-me
contra esse peso inesperado, forçando-o de volta ao controle. Os cálculos
fluindo de Ji-ae se ajustaram no meio do processo para acomodar o aumento de
pressão.
Havia éter em abundância fluindo agora, jorrando do portal e das bordas de
Epheotus, mas como o rio etéreo, ele tinha sua própria atração, forte demais
para eu utilizar.
Eu precisava de um meio de neutralizar isso, mas estava no limite da minha
concentração, esgotado demais para considerar algo novo.
— Arthur.
Olhei ao redor, confuso. Vovó Sylvia? Não, claro que não. Encontrei os olhos de
Myre, tendo momentaneamente esquecido de sua presença, com a mente à
beira do colapso.
— Você está me privando — disse ela, calma mas firme. — O éter mal reage a
mim. Você está controlando tudo. Você… e o que quer que mais esteja aqui
conosco. Essa força tentando passar com Epheotus.
Entendi. O pouco éter atmosférico que existia aqui foi absorvido e utilizado nos
primeiros segundos, antes mesmo de quebrar a camada externa do meu
núcleo. O único éter restante era o meu, canalizado através das runas divinas
para atuar sobre as Relictombs e Epheotus. Myre, claro, não podia acessar o
éter que se acumulava nas bordas do mundo, assim como eu.
— Mas ainda posso ajudá-lo, Arthur. — Seus olhos brilharam, desespero e
arrependimento misturando-se com perda e aceitação.
Então, os olhos cresceram. O rosto ao redor deles se alargou, alongando-se. O
pescoço se estendeu, o corpo expandindo-se rapidamente; as vestes fluídas
deram lugar a escamas brancas, largas e resplandecentes. As asas se abriram
atrás dela, batendo lentamente, em meio a um redemoinho de mana do
atributo ar. Runas douradas brilhavam sobre seu rosto dracônico, desciam pelo
pescoço longo e se espalhavam pelas asas imensas.
Encarei seus olhos, agora púrpura. As marcas douradas ao redor deles
incandesceram… depois se apagaram, até desaparecerem por completo. Sua
língua espetou-se, perfurando minha armadura, carne e osso. Diferente de
Sylvia, ela não conseguiu perfurar meu núcleo sozinha. Eu teria que deixá-la
entrar. Paralisado por um momento de terror recordado, quase a rejeitei.
Então… novamente cerrei um punho de éter em torno do meu núcleo.
Enquanto o reino etéreo ameaçava romper-se e meu corpo ameaçava falhar, eu
precisava de mais éter. Havia menos na terceira camada que na quarta, mas…
Cerrei os dentes, e a camada externa do núcleo se despedaçou. As feridas da
última vez ainda não haviam cicatrizado, então o éter não precisou seguir pelos
canais, apenas escapou pelas fissuras já abertas que marcavam meu corpo
inteiro.
A língua de Myre finalmente perfurou meu núcleo, como Sylvia havia feito
tantos anos atrás. Fios de fumaça dourada subiram do meu peito, crepitando
com faíscas de ametista. Quando ela se afastou, o sangue do ferimento se
perdeu no mar escarlate que me cobria, escorrendo entre as escamas da minha
armadura relicária. Enquanto Sylvia parecia exausta e enfraquecida após
transferir sua vontade, Myre de alguma forma parecia ainda mais majestosa.
As runas douradas haviam se apagado, assim como o brilho púrpura em suas
íris, mas o dragão branco ancestral que agora flutuava diante de mim
continuava a exalar uma força selvagem e majestosa.
— Que você tenha a sabedoria para usar este conhecimento melhor do que eu
em meus muitos milênios de vida, Arthur Leywin.
Senti a esfera dourada de sua vontade repousando dentro das duas camadas
restantes do meu núcleo de éter, quente e reconfortante.
— Vovó…
Dessa vez, não fui eu quem falou, mas Sylvie. E, ainda assim, naquele instante,
suas palavras carregavam o mesmo desespero infantil do meu eu de quatro
anos, assistindo, sem compreender, Sylvia se sacrificar para me salvar de
Cadell.
Não houve mais palavras. Myre se afastou no ar, mergulhando na base ainda
em formação das Relictombs. Eu sabia, sem sombra de dúvida, que ela estava
indo atrás de Kezess. Acessando o brilho dourado de sua vontade, ativei-a.
Uma onda de energia me atravessou, e runas douradas acenderam-se sobre
minha armadura e subiram pelo meu pescoço, entrelaçando-se às do
Realmheart.
Senti as forças vitais dos meus companheiros, da própria Myre e das poucas
milhares de pessoas que já haviam sido trazidas das Relictombs, amontoadas
como wogarts no novo anel físico da estrutura emergente. Com um giro no
espaço, abri caminho até o que antes havia sido o relicário de Agrona.
Grande parte da energia liberada pela terceira camada do meu núcleo ainda
pairava ao meu redor, embora o grosso já tivesse fluído pelos canais de éter
para sustentar minhas runas divinas, tanto acima quanto abaixo. Puxei esse
poder para mim, guiando-o ao propósito de me curar.
A força vital de Tessia estava fraca, seu pulso lento, embora a mana ainda
vibrasse com intensidade. Com a vontade de Myre ativa, eu podia sentir a
distância entre nós, o calor pulsante de sua vida. Quando liberei o éter, ele
fluiu para Tessia. Suas feridas acenderam-se como chamas por trás dos meus
olhos. Direcionei o éter até elas — aos nervos, às sinapses, aos tecidos
cerebrais rasgados por microfissuras.
Ela respirou mais aliviada quase de imediato.
Agora, ruas e construções deslizavam para fora do portal. Com a runa divina
espacial, reconstruí a zona semelhante a uma cidade dentro e ao redor dos
escombros do Taegrin Caelum. O éter manipulava a mana para conjurar e
moldar pedra; Destruição eliminava o desnecessário; o Réquiem de Aroa
reerguia o que ainda podia ser salvo; e a runa espacial redesenhava a própria
realidade física da área.
Senti a aproximação do próximo ponto de demarcação em Epheotus e preparei
minha mente entrelaçada para se esticar ainda mais. Sylvie estendeu sua
arte aevum, desacelerando o tempo por um instante, me concedendo o fôlego
necessário para me preparar. Uma terceira faixa de terra se descolaria das
outras, formando-se a partir da fenda em um ângulo de trinta e seis graus ao
norte da primeira. Meu poder agora se estendia por todo o globo, enquanto a
primeira faixa de terra se aproximava de Dicathen. Com minha mente tão
fundida aos caminhos etéreos por meio do God Step, mais uma vez me senti
observando a totalidade de ambos os continentes.
Vi Seth e Mayla entre as multidões em Maerin, já não mais sendo
bombardeados por escombros de Epheotus, mas olhando para o céu com
assombro, observando a terra se estender sobre suas cabeças; os Glayder
cercados por seu conselho na sacada do Palácio de Etistin, todos à sombra de
Epheotus, temerosos; Evascir, o titã que guardava o Santuário, matando uma
besta de mana epheotana diante de Vincent, Tabitha e Lilia Helstea, que
assistiam horrorizados, com a casa desmoronada atrás deles; Helen e Durden
liderando um ataque contra uma criatura imensa de fogo e pedra negra que
avançava sobre Blackbend; a Muralha destruída, soterrada sob a montanha;
Anakasha do Clã Matali arrastando seu pai inconsciente, Ankor, para longe de
uma ruína; e os grandes lordes asuras, cada um no coração de seus próprios
domínios.
Mas não vi minha mãe. Nem minha irmã. Só me restava confiar na palavra de
Myre, e acreditar que elas estavam realmente seguras.
Quase todo o segundo nível das Relictombs já havia sido trazido do reino
etéreo, agora formando uma espécie de vila ao redor da base da nova
estrutura, que lentamente ganhava forma. Um mapa das Relictombs, tal como
Ji-ae o via, já se espalhava pela minha mente, junto a uma planta arquitetônica
que nos permitiria preservar o que importava em cada zona, garantindo que o
conhecimento etéreo impregnado na criação daquele lugar não se perdesse.
E, mais importante ainda, lançando os alicerces sobre os quais tudo aquilo que
eu ainda pretendia construir deveria repousar.
A última estrutura a emergir do segundo nível foi a propriedade dos Grahnbel,
agora lotada de refugiados escondidos. Com a vontade de Myre ainda pulsando
viva dentro de mim, eu sentia cada vida ali como se tivesse meus dedos
sentindo seus pulsos. Estava no processo de incorporar a propriedade à cidade
quando o colapso do espaço que contivera o segundo nível sacudiu o portal. O
rio etéreo, serpenteando através do vazio do outro lado, voltou a se agitar, e a
própria realidade estremeceu.
Enquanto o tremor reverberava pelo meu corpo, fios dourados surgiram
novamente diante da minha visão. Meus sentidos seguiram-nos até onde
convergiam: uma silhueta feita inteiramente dos fios do Destino, escondida na
circunferência do sol, visível entre duas faixas de terra em expansão.
Como se percebesse minha atenção, a voz do Destino soou em minha mente.
— Grey. Arthur Leywin. Eu vim para te agradecer. Seu desempenho atendeu a
todas as expectativas práticas.
Senti-me afastando ainda mais de mim mesmo, minha visão, ainda pairando do
alto, se distanciando do meu corpo e da presença dos meus companheiros.
— É você. O rio. Você está empurrando do outro lado. — Minha raiva veio
como uma coisa fria e distante, amortecida pelas camadas do Gambito do
Rei. — Por quê? Nós tínhamos um acordo.
— Sua visão de futuro era uma coisa maravilhosa, mas só poderia terminar
assim. Embora Agrona tenha iniciado o processo, foi você quem concluiu o ato
de perfurar completamente a barreira. Agora, o éter pode, mais uma vez,
espalhar-se pelo mundo, libertando-se da pressão acumulada por tanto
tempo. A necessidade da entropia.
— Ao custo de todo este mundo. — Quis gritar essas palavras, mas a emoção
necessária não estava mais em mim.
— Todos os mundos morrem. Todas as estrelas se apagam. — Um zumbido
áspero percorreu os fios dourados. — Você pode soltar agora, Arthur. Cumpriu
tudo o que lhe foi exigido. Se seus impulsos mortais assim demandarem,
considere que talvez tenha salvado todo o universo conhecido e desconhecido
ao custo de um único e pequeno mundo.
O éter irrompeu pelas bordas do portal, rasgando-o ainda mais, inundando os
contornos de Epheotus e sacudindo-o como um terremoto.
— Um pequeno mundo? — Encarei a forma feita de cordas douradas,
atônito. — Mas você é deste mundo. Todas aquelas mentes e vozes que se
fundem para formar o que você é… elas vêm daqui. Cada pessoa que já existiu
e passou a fazer parte de você. Certamente ainda resta algum desejo de
protegê-lo, não?
Não houve pausa. Nenhum indício de que minhas palavras tivessem
despertado qualquer reflexão na entidade inumana.
Apenas…
— Não.