Catfishing: a conduta de assumir uma identidade falsa nas plataformas de mídia social...
Catfishing: a conduta de assumir uma identidade falsa nas
plataformas de mídia social e suas consequências jurídico-penais
Recebido: 16 de novembro de 2022 • Aprovado: 13 de fevereiro de 2024
[Link]
Paulo Henrique Carvalho Almeida
Universidade Federal do Piauí, Teresina, Brasil
paulohealmeida@[Link]
[Link]
Sebastião Patrício Mendes da Costa
Universidade Federal do Piauí, Teresina, Brasil
sebastiaocosta@[Link]
[Link]
Resumo
O presente artigo tem como objetivo discutir as questões legais associadas
à utilização de perfis falsos nas plataformas de mídia social, a fim de verificar
se tal conduta representa uma infração de natureza penal no ordenamento
jurídico brasileiro. Para tanto, este estudo busca responder a seguinte pergunta-
problema: a conduta de assumir uma identidade falsa nas plataformas de mídia
social configura o crime de falsa identidade previsto no sistema normativo
brasileiro? Para alcançar a resposta dessa pergunta, a pesquisa pretende, em
primeiro lugar, apresentar os conceitos operacionais relacionados às plataformas
de mídia social e os dados estatísticos que envolvem a utilização deste tipo de
tecnologia de informação e comunicação. Logo em seguida, o estudo analisa a
conduta denominada catfishing, como representação prática do comportamento
de assumir uma identidade falsa no ambiente virtual, por meio da exposição de
casos concretos, apresentando a origem desse termo e sua conexão com
as plataformas de mídia social. Após apresentar um panorama geral sobre o
fenômeno do catfishing, a pesquisa verifica se esta conduta configura o crime de
falsa identidade, sob a perspectiva do sistema normativo brasileiro. Para alcançar
os objetivos propostos, a pesquisa emprega o método indutivo, de abordagem
qualitativa, em conjunto com os procedimentos técnicos da pesquisa bibliográfica
e documental. Como resultados, a pesquisa identificou que o catfishing, que
trata da conduta de assumir uma identidade falsa no ambiente virtual, está
relacionada diretamente com o uso específico das plataformas de mídia social
para fins enganosos e que, embora amplamente presente nesses ambientes, não
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2 Paulo Henrique Carvalho Almeida y Sebastião Patrício Mendes da Costa
constitui, por si só, uma infração penal no ordenamento jurídico brasileiro. No
entanto, constatou-se que a prática pode se enquadrar no tipo penal de falsa
identidade, previsto no artigo 307 do Código Penal, desde que reste comprovado o
dolo do agente em atribuir-se falsa identidade com o intuito de obter algum tipo de
vantagem ou de causar prejuízo. Observou-se que a responsabilização penal
exige uma análise contextualizada da conduta, levando em conta a
intencionalidade, o que evidencia a complexidade do tema e a necessidade de
maior atenção legislativa e doutrinária às novas formas de interação digital.
Palavras-chave: redes sociais; catfishing; falsa identidade; direito penal; cibercrime.
Catfishing: assuming a false identity on social networking platforms
and its legal-criminal consequences
Abstract
This article aims to discuss the legal issues associated with the use of false
profiles on social networking platforms, to verify whether this conduct represents
a criminal infraction in the Brazilian legal system. To this end, this study seeks
to answer the following question-problem: “Does assuming a false identity on
social networking platforms configure the crime of false identity provided for in
the Brazilian regulatory system?” To answer this question, this research aims,
first, to present operational concepts related to social networking platforms and
statistical data involving the use of this type of information and communication
technology. Next, the study analyzes a conduct known as catfishing as a practical
representation of assuming a false identity in a virtual environment, exposing
concrete cases, presenting the origin of the term, and its connection with social
networking platforms. After providing an overview of catfishing, this research
evaluates whether this conduct constitutes a crime of false identity from the
perspective of the Brazilian regulatory system. To achieve the proposed objectives,
this research implements an inductive method, with a qualitative approach, and
technical bibliographic and documentary research procedures. As a result, the
study identified that catfishing, understood as assuming a false identity in a
virtual environment, is directly related to the specific use of social networking
platforms for deceptive purposes and that, although it is widely present in these
environments, it does not in itself constitute a criminal offense in the Brazilian
legal system. However, the study found that this practice may fall under a criminal
type of false identity, provided for in Article 307 of the Criminal Code. This is so if
the agent’s malice is proven by taking on a false identity to obtain some kind of
advantage or cause harm. Researchers observed that criminal liability requires a
contextualized analysis of the conduct, taking into account intentionality, which
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evidences the complexity of the issue and the need for greater legislative and
doctrinal attention in the face of new forms of digital interaction.
Keywords: social networks; catfishing; false identity; criminal law; cybercrime.
Catfishing: la conducta de asumir una identidad falsa en
plataformas de redes sociales y sus consecuencias jurídico-penales
Resumen
El presente artículo tiene como objetivo discutir las cuestiones legales asociadas al
uso de perfiles falsos en las plataformas de redes sociales, con el fin de verificar si
dicha conducta representa una infracción de naturaleza penal en el ordenamiento
jurídico brasileño. Para ello, este estudio busca responder la siguiente pregunta-
problema: ¿la conducta de asumir una identidad falsa en las plataformas de redes
sociales configura el delito de falsa identidad previsto en el sistema normativo
brasileño? Para responder a esta pregunta, la investigación pretende, en primer
lugar, presentar los conceptos operativos relacionados con las plataformas de redes
sociales y los datos estadísticos que implican el uso de este tipo de tecnología de
información y comunicación. A continuación, el estudio analiza la conducta deno-
minada catfishing como representación práctica del comportamiento de asumir una
identidad falsa en el entorno virtual, a través de la exposición de casos concretos,
presentando el origen del término y su conexión con las plataformas de redes
sociales. Luego de ofrecer una visión general sobre el fenómeno del catfishing, la
investigación evalúa si esta conducta configura el delito de falsa identidad desde
la perspectiva del sistema normativo brasileño. Para alcanzar los objetivos pro-
puestos, la investigación emplea el método inductivo, con enfoque cualitativo,
junto con procedimientos técnicos de investigación bibliográfica y documental.
Como resultado, se identificó que el catfishing, entendido como la conducta de
asumir una identidad falsa en el entorno virtual, está directamente relacionado
con el uso específico de plataformas de redes sociales con fines engañosos y
que, aunque está ampliamente presente en estos entornos, no constituye por sí
mismo una infracción penal en el ordenamiento jurídico brasileño. No obstante, se
constató que esta práctica puede encuadrarse en el tipo penal de falsa identidad,
previsto en el artículo 307 del Código Penal, siempre que se compruebe el dolo del
agente al atribuirse una identidad falsa con la intención de obtener algún tipo de
ventaja o causar perjuicio. Se observó que la responsabilidad penal exige un análi-
sis contextualizado de la conducta, teniendo en cuenta la intencionalidad, lo que
evidencia la complejidad del tema y la necesidad de mayor atención legislativa y
doctrinal frente a las nuevas formas de interacción digital.
Palabras clave: redes sociales; catfishing; falsa identidad; derecho penal; ciberdelito.
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4 Paulo Henrique Carvalho Almeida y Sebastião Patrício Mendes da Costa
Introdução
Com o avanço da tecnologia, a vida cotidiana passou por transformações significa-
tivas. A tecnologia proporcionou uma conectividade global entre pessoas das mais
diferentes localidades, fazendo com que a conexão interpessoal ultrapassasse as fron-
teiras espaciais e, ao mesmo tempo, reduzisse a distância que outrora foi a principal
dificuldade para o relacionamento social (Kremling & Parker, 2018). Porém, o avanço
tecnológico também possibilitou que pessoas mal-intencionadas utilizassem a tec-
nologia para a prática de comportamentos lesivos.
Um exemplo disso são as plataformas de mídia social, que constituem uma inova-
ção tecnológica e consistem em ambiente virtuais que possibilitam um amplo acesso
ao conhecimento e proporcionam um relacionamento interpessoal no qual não exis-
tem fronteiras e distâncias (Chambers, 2013). São ambientes que, ao mesmo tempo
que possuem uma grande divulgação de conteúdo destinado aos usuários de internet,
seja por meio de postagem de textos, fotos ou vídeos, também favorecem a interação
entre os usuários, o que representa um papel fundamental para o relacionamento so-
cial entre indivíduos das mais diversas localidades (Miguel, 2018).
As plataformas de mídia social são consideradas uma das inovações tecnológi-
cas mais utilizada pelos usuários de internet, além também de se configurarem como
o principal alvo de criminosos, dada a facilidade que os usuários se relacionam com
outras pessoas que utilizam essa tecnologia (Hasibuan & Syam, 2023). Isso demons-
tra o poder de conectividade dos ambientes virtuais. Assim, o ambiente que antes
se destinava à interação social se tornou um meio para a prática de comportamen-
tos maliciosos.
Um dos comportamentos que é visto frequentemente no âmbito das plataformas
de mídia social é a conduta denominada catfishing, que consiste no ato de assumir
uma outra identidade, no qual uma pessoa cria um perfil falso e se passa por outra
pessoa, geralmente com o uso de imagens, nomes e informações fictícias, para fins
enganosos (Smith, Smith e Blazka, 2017). É dentro deste contexto que perdura a pro-
blemática que é abordada no presente artigo científico, pois o presente estudo propõe
uma análise jurídica do fenômeno do catfishing, com a finalidade de verificar se esta
conduta configura o crime de falsa identidade previsto no sistema normativo brasileiro.
A partir dessas premissas, a pesquisa busca responder ao seguinte problema de
pesquisa: a conduta de assumir uma identidade falsa nas plataformas de mídia so-
cial para fins enganosos, utilizando-se de um perfil falso com ou sem o uso de dados
reais de terceiros, configura o crime de falsa identidade previsto no artigo 307 do Có-
digo Penal brasileiro?
Em resposta ao problema de pesquisa mencionado acima, propõe-se a seguinte
hipótese: a utilização de perfil falso nas plataformas de mídia social, no qual alguém
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assume uma identidade falsa para fins enganosos, por si só não configura o crime de
falsa identidade previsto no ordenamento jurídico brasileiro.
A relevância desta pesquisa se deve, no plano acadêmico, à contribuição
que oferece para o debate sobre a tipicidade penal de condutas praticadas no ambiente
digital e estimula a produção de conhecimento científico interdisciplinar, especialmen-
te entre o Direito e a tecnologia, áreas que, a cada dia, se aproximam cada vez mais.
No plano social, a pesquisa ajuda a compreender os impactos dessa conduta na
violação de direitos fundamentais como a privacidade, a honra e a segurança dos in-
divíduos. Além disso, a pesquisa favorece a conscientização da população sobre os
riscos do ambiente virtual e incentiva o uso ético e responsável das plataformas de
mídia social.
A presente pesquisa foi desenvolvida a partir do método indutivo, de abordagem
qualitativa, em conjunto com os procedimentos técnicos da pesquisa bibliográfica
e documental, com base em bibliografias, artigos científicos coletados em plataformas
digitais, decisões judiciais, material legislativo, bem como outros dados pertinentes à
pesquisa, seja de fonte nacional ou internacional.
O conteúdo da pesquisa está dividido em três seções, além da introdução e
da conclusão. A primeira seção apresenta as características das plataformas de mídia
social e o reflexo da utilização desses mecanismos de comunicação nas relações inter-
pessoais no cenário atual. Essa seção é desenvolvida a partir de um exame analítico
de conceituações operacionais e dados estatísticos que integram parte da problemá-
tica posta, no qual é apresentado os conceitos basilares relacionados às plataformas
de mídia social, além de apresentar dados que revelam a quantidade de pessoas que
utilizam esta tecnologia de informação e comunicação, assim como quais plataformas
são mais utilizadas atualmente. A finalidade da primeira seção é introduzir o leitor na
temática desta pesquisa antes de se adentrar no cerne da questão.
Na segunda seção é apresentado um panorama geral sobre o fenômeno do
catfishing, abordando a sua origem etimológica, histórica e conceitual, assim como sua
relação com as plataformas de mídia social. Essa seção explora as características des-
sa prática e discute os fatores que favorecem sua ocorrência, como o anonimato, a
ausência de mecanismos rigorosos de verificação e a ampla disponibilidade de infor-
mações pessoais nos ambientes virtuais. Além disso, são analisadas as motivações
que levam à prática e apresentados os impactos que esse comportamento pode ge-
rar às vítimas.
A terceira seção investiga se o catfishing como representação prática da conduta
de assumir uma identidade falsa nas plataformas de mídia social configura o crime de
falsa identidade previsto no sistema normativo brasileiro. A partir do conceito de nor-
ma penal e de sua função de proteção de bens jurídicos, a seção busca compreender
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os limites e as possibilidades de aplicação do ordenamento jurídico penal brasilei-
ro diante de um fenômeno contemporâneo que desafia as categorias tradicionais da
ordem penal.
1. As plataformas de mídia social e seu reflexo no cenário atual
A internet surgiu como uma gigantesca fonte de informações, possibilitando o compar-
tilhamento de uma quantidade massiva de conhecimentos entre aqueles que estavam
na imensa rede mundial de computadores, que ligava um elevado número de dispositi-
vos de computação em todo o mundo (Paesani, 2013). Raminelli (2021, p. 603) destaca
que “se anteriormente o acesso era restrito, como, por exemplo, com jornais que ti-
nham foco no local ou no global, hoje a internet oferece os dois ao mesmo tempo”,
possibilitando que o conhecimento seja acessado por meio de uma interconexão
global, não havendo mais o que falar em restrição territorial.
Por meio do avanço tecnológico, a internet deixou de ser apenas uma ferramenta
de informação e se transformou em um instrumento de comunicação global, forne-
cendo um ambiente para interação entre os usuários de todo o mundo (Rowland et
al., 2017). Basicamente, a internet se tornou “[...] um meio de comunicação que interli-
ga dezenas de milhões de computadores no mundo inteiro e permite o acesso a uma
quantidade de informações praticamente inesgotável, anulando toda distância de lu-
gar e tempo” (Paesani, 2013, pp. 10-11).
Em termos simples e de fácil compreensão, pode-se dizer que a capacidade de
interação humana foi potencializada pela tecnologia de computadores e pela inter-
net, uma vez que os dispositivos de computação viabilizaram diversas formas de
acesso à internet, e a internet, por sua vez, proporcionou uma comunicação sem
fronteiras (Chawki et al., 2015).
É fato que a sociedade está cada vez menos offline, e o tempo dedicado ao uso
de tecnologias conectadas à internet continua aumentando. De acordo com os dados
constantes no relatório desenvolvido pela DataReport, que analisa o cenário global
de conectividade, atualmente o tempo médio diário de uso da internet por usuário
no mundo gasta online corresponde a aproximadamente 6 horas e 58 minutos (Kemp,
2022). Essa conectividade acontece porque “a proliferação da tecnologia levou a mu-
danças distintas na forma como os indivíduos se relacionam com o mundo ao seu
redor”1 (Holt et al., 2018, p. 17), de tal forma que a internet se tornou um elemento es-
sencial para a vida humana na sociedade moderna.
No Brasil o tempo médio de conexão à internet é significativamente superior à
média global, o que o torna um dos países em que os usuários de internet passam
a maior quantidade de tempo online, com uma média diária de 10 horas e 19 minutos,
1
No original: The proliferation of technology has led to distinct changes in how individuals engage with
the world around them”.
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ficando em terceiro lugar nas estatísticas globais (Kemp, 2022). Isso demonstra que os
brasileiros passam quase metade do seu dia conectados à internet, seja para a rea-
lização de atividades profissionais, estudos, interação social ou apenas como uma
forma de entretenimento. A respeito da conectividade na sociedade moderna, Holt
et al. (2018, p. 17) afirmam que:
Hoje, a maior parte do mundo agora depende de computadores, Internet e
tecnologia celular. Os indivíduos agora possuem laptops conectados via Wi-Fi, te-
lefones celulares que também podem se conectar à Internet e um ou mais sistemas
de videogame que podem ser conectados à rede. Além disso, as pessoas têm vá-
rias contas de e-mail para uso pessoal e comercial, além de perfis de redes sociais
em várias plataformas. Os telefones celulares tornaram-se o método preferido de
comunicação para a maioria das pessoas, especialmente mensagens de texto.2
A forma como as pessoas acessam e utilizam a internet se desenvolveu a par-
tir de diferentes motivos, dentre as quais se destaca a expansão das plataformas de
mídia social (Naughton, 2016). De acordo com a definição de Miguel (2018, p. 61), “as
plataformas de mídia social são interfaces que facilitam a conectividade e promo-
vem o contato interpessoal entre estranhos, relacionamentos existentes, indivíduos
e grupos”3. Em outras palavras, as plataformas de mídia social são mecanismos de
conectividade que proporcionam aos usuários uma relação interpessoal com pes-
soas do mundo inteiro.
As plataformas de mídia social são responsáveis pela maior parte da conectivi-
dade da sociedade moderna, uma vez que, das 6 horas e 58 minutos por dia que o
usuário global permanece conectado à internet, 2 horas e 27 minutos são destinadas
ao uso de plataformas de mídia social (Kemp, 2022). E isso não é nenhuma surpre-
sa, pois “[...] muitas pessoas ao redor do mundo usam as mídias sociais como meio
de se conectar e se envolver com outras pessoas de diferentes maneiras”4 (Holt et al.,
2018, p. 18), de modo que essas plataformas online representam um dos principais
meios de conexão interpessoal.
2
No original: “Today, most of the world now depends on computers, the Internet, and cellular
technology. Individuals now own laptops that are connected via Wi-Fi, cell phones that
may also connect to the Internet, and one or more video game systems that may be
networked. In addition, people have multiple email accounts for personal and business
use, as well as social networking profiles in multiple platforms. Cell phones have become
a preferred method of communication for most people, especially text messages”.
3
No original: “Social media platforms are interfaces that facilitate connectivity and promote interpersonal
contact between strangers, existing relationships, individuals, and groups”.
4
No original: “[...] many people around the world use social media as a means to connect and engage with
others in different ways”.
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8 Paulo Henrique Carvalho Almeida y Sebastião Patrício Mendes da Costa
Gráfico I - Crescimento do número de usuários de mídia social (em bilhões)
5
4,62
4,5 4,19
4 3,7
3,46
3,5 3,19
3 2,78
2,5 2,3
2,07
2 1,85
1,72
1,48
1,5
0,5
0
ene-12 ene-13 ene-14 ene-15 ene-16 ene-17 ene-18 ene-19 ene-20 ene-21 ene-22
Fonte: elaboração própria, a partir de Kemp (2022).
De acordo com o relatório global da DataReport, o número de usuários de mí-
dia social tem crescido a cada ano, totalizando, atualmente, cerca de 4,62 bilhões de
usuários de mídia social (Kemp, 2022). Isso mostra que aproximadamente 93,3%
dos usuários de internet de todo o mundo utilizam alguma plataforma de mídia social.
Esse tipo de relacionamento interpessoal acontece em ambientes virtuais esta-
belecidos por cada uma das plataformas de mídia social, que nada mais são do que
locais digitais propícios para o compartilhamento de conhecimento e a discussão en-
tre os usuários. Dentre as plataformas de mídia social mais utilizadas pelos usuários de
internet de todo o mundo, cinco estão no topo das estatísticas globais. Em primeiro
lugar, tem-se o Facebook, com exatamente 2,91 bilhões de usuários ativos. A segunda
posição é ocupada pelo YouTube, que possui em torno de 2,56 bilhões de usuários. Em
terceiro lugar se encontra o WhatsApp, com aproximadamente 2 bilhões de usuários. A
quarta posição é ocupada pelo Instagram, com cerca de 1,47 bilhões de usuários ati-
vos. E em quinto lugar tem-se o WeChat, com 1,26 bilhões de usuários (Kemp, 2022).
As plataformas de mídia social permitem que os usuários tenham uma presen-
ça online, de maneira que cada um possa publicar informações sobre o seu dia a dia
na rede e expressar sua identidade e conexões online (Chambers, 2013; Comer, 2018).
Nesse sentido, Holt et al. (2018, p. 344) asseveram que “a capacidade de postar vídeos
e fotos nos permite compartilhar praticamente todas as facetas de nossas vidas com
quem estiver interessado”5.
Contudo, a conduta de compartilhar momentos e detalhes da vida pessoal no
ambiente virtual pode trazer alguns males, uma vez que o excesso de exposição da
5
No original: “The ability to post videos and photos allows us to share virtually every facet of our lives
with whoever is interested”.
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sociedade na rede, especialmente em ambientes criados para a condução de rela-
cionamentos pessoais, como é o caso das plataformas de mídia social, permite que
diversas pessoas do mundo inteiro tenham acesso às informações pessoais dos usuá-
rios. Como bem destacam Chawki et al. (2015, p. 04), “nossa crescente dependência de
computadores e redes digitais torna a própria tecnologia um alvo tentador; seja para
obter informações ou como meio de causar perturbações e danos”6.
É evidente que as novas tecnologias, em especial as plataformas de mídia social,
oferecem diversos benefícios que merecem ser exaltados. Entretanto, por outro lado,
elas trazem consigo uma série de riscos, sobretudo no que diz respeito ao comparti-
lhamento de informações pessoais, que, muitas vezes sem que se perceba, acabam
expostas aos perigos intensificados pelo ambiente virtual.
2. Um panorama sobre o catfishing
No ambiente das plataformas de mídia social, marcado por interações mediadas por
perfis digitais e pela frequente dissociação entre identidade real e identidade virtual,
emergem condutas enganosas que exploram essa dinâmica. É nesse contexto que
se insere o fenômeno denominado catfishing, prática que, conforme descreve Ndyulo
(2023), consiste no ato de utilizar a imagem de uma pessoa, sem o seu consentimento,
para criar um perfil falso nas plataformas de mídia social, induzindo outras pessoas
no ambiente virtual ao erro quanto a com quem estão se comunicando ou até mes-
mo se relacionando. Todavia, esse conceito é restritivo por reduzir o fenômeno ao
uso não autorizado da imagem de terceiros para fins enganosos , limitando-o à cria-
ção de perfis falsos com imagens de pessoas reais.
Esse termo apresenta diversas definições, sendo uma delas a prática de utili-
zar plataformas de namoro online, como o Tinder, para o cometimento de fraudes
(Pramudiarjaa, Artikab & Prabawatic, 2023). Contudo, essa não é a definição mais am-
plamente aceita na atualidade, considerando que a prática de assumir uma identidade
falsa para enganar terceiros pode ocorrer em diferentes ambientes digitais, como é o
caso das plataformas de mídia social que não são ambientes destinados especifica-
mente para namoro online.
De acordo com Hasibuan e Syam (2023, p. 3309), esse comportamento “[...] em
si não se limita apenas ao uso de mídias sociais, mas também pode ser encontrado
em aplicativos de namoro online, fóruns de discussão e várias outras formas de in-
teração virtual”7. Nesse sentido, compreende-se que a definição mais adequada de
catfishing seja aquela de natureza mais ampla, conforme proposta por Smith, Smith
6
No original: “Our increasing dependence on computers and digital networks makes the technology itself
a tempting target; either for the gaining of information or as a means of causing disruption and damage”.
7
No original: “[...] itself is not only limited to the use of social media, but can also be found in online
dating applications, discussion forums and various other forms of virtual interaction. In most cases, the
catfish’s main goals are personal gain, manipulating others, and creating false relationships”.
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10 Paulo Henrique Carvalho Almeida y Sebastião Patrício Mendes da Costa
e Blazka (2017), os quais definem o termo como a criação e utilização de um perfil
online falso com finalidade fraudulenta. Em outras palavras, trata-se da conduta de
assumir uma identidade falsa em ambientes virtuais de interação social, com o obje-
tivo de enganar terceiros.
O termo catfishing tem origem na palavra inglesa catfish, cuja tradução literal signi-
fica bagre em português, mas que, no contexto da internet, passou a ser utilizado com
um sentido figurado (Moraes & Brandão, 2018). A metáfora refere-se ao indivíduo que
se faz passar por outra pessoa, outra assumindo identidade falsa no ambiente virtual,
com a finalidade de enganar pessoas (Maheen, Ghani & Syed, 2023).
A origem e popularização dessa palavra surgiram de um documentário lançado no
ano de 2010, denominado de Catfish. Em resumo, o documentário conta a história de
Nev Schulman, um fotógrafo que se apaixonou por alguém que se dizia ser uma jo-
vem chamada Megan, uma pessoa que ele conheceu virtualmente através de Abby,
uma garotinha que fazia pinturas de suas fotografias, e Angela, mãe da garotinha e
responsável por enviar as pinturas ao fotógrafo. Essa conexão surgiu quando Nev foi
apresentado a um grupo de amigos e familiares de Abby por meio do Facebook, onde
ele acabou conhecendo Megan, irmã da garotinha, e posteriormente se apaixona-
ram (Travis, 2022).
A desconfiança que circundava Nev fez com que ele começasse a desconfiar que
Megan estava mentindo, o que o levou a realizar uma visita surpresa à residência dela.
Ao chegar, encontrou Angela e o seu marido, Vince, sendo informado por Angela de que
Megan estaria internada em um centro de reabilitação, tratando um câncer. Durante a
visita, Vince contou uma história curiosa: dizia-se que, ao transportar bacalhaus por
longas distâncias, colocava-se bagres nos tanques para que os bacalhaus se mantives-
sem ativos, nadando, e assim não ficassem flácidos. A finalidade de Vince ao contar
essa história era alertar a Neve de que ele estava sendo enganado sobre tudo o
que estava acontecendo. Ao final da visita, Angela confessou ser Abby, a suposta crian-
ça que fazia pinturas das fotografias, bem como Megan, a irmã fictícia (Knafo, 2021).
A metáfora apresentada por Vince, ainda que peculiar, acabou ganhando um sig-
nificado mais profundo dentro do contexto social e digital. Assim como os peixes
bagres eram introduzidos nos tanques para provocar movimentação, no ambiente
virtual, o catfish passou a representar a pessoa que provoca, engana e desestabiliza
outros indivíduos por meio de identidades falsas (Knafo, 2021). A repercussão do do-
cumentário foi tamanha que o termo catfish passou a ser amplamente utilizado para
designar quem cria perfis falsos com o intuito de manipular, seduzir ou obter vantagens
sobre terceiros nas interações virtuais (Lovelock, 2017).
Após o lançamento do documentário, diversos telespectadores relataram ter
sido vítimas de perfis falsos, em situações semelhantes àquelas retratadas na história
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exibida na obra cinematográfica (Moraes & Brandão, 2018). A repercussão da obra, em
apresentar a existência e os impactos dos perfis falsos, contribuiu para a conscienti-
zação de inúmeras pessoas sobre os riscos envolvidos nas interações em ambientes
virtuais. O alcance social e midiático do documentário foi tão expressivo que resul-
tou na criação do programa de televisão Catfish: The Show, que apresenta uma série de
casos reais de relacionamentos online marcados por mentiras e como diferentes pes-
soas foram vítimas de fraudes virtuais (Smith, Smith e Blazka, 2017).
Enquanto que a palavra inglesa catfish remete ao peixe conhecido como bagre,
a tradução literal de catfishing para o português seria agir como um bagre, expressão esta
que faz alusão a uma pessoa que assume uma identidade falsa no ambiente virtual
com a finalidade de enganar outras pessoas (Lovelock, 2017). O indivíduo esconde sua
verdadeira identidade e, valendo-se das possibilidades proporcionadas pela tecnolo-
gia, cria uma nova identidade, que expressa o desejo de se exibir perante os demais
usuários no ambiente virtual (Kristy, Krisdinanto & Akhsaniyah, 2023).
Por meio do catfishing, o indivíduo tem liberdade para decidir como se apresentar
nas plataformas de mídia social sem que ninguém monitore com precisão as infor-
mações ou imagens fornecidas pelo usuário na criação de uma conta falsa, o que
contribui para que a falsidade perdure no ambiente virtual. Essa liberdade expansiva
do ato de personificar outra pessoa é facilitada pela acessibilidade que os usuários
possuem em encontrar imagens de pessoas online através de uma simples pesqui-
sa nos mecanismos de buscas, sejam programas que permitem acesso à internet ou
as próprias plataformas de mídia social, que contém uma vasta quantidade de pes-
soas online e dados pessoais (Ndyulo, 2023).
É importante destacar que, com o surgimento das inteligências artificiais genera-
tivas – que consistem em sistemas capazes de gerar novos conteúdos a partir de um
conjunto de dados, como textos, áudios, imagens e vídeos (Corchado et al., 2023) –,
tornou-se ainda mais prático a criação de perfis falsos, visto que não é mais necessário
que os usuários procurem informações ou imagens de pessoas reais. Por meio dessas
inteligências artificiais, sobretudo das voltadas à geração de imagens, os usuários po-
dem criar ou alterar qualquer imagem de acordo com o comando dado ao sistema, o
que ocorre em questão de segundos.
Um outro ponto que contribui para a liberdade expansiva do ato de personificar
outra pessoa é a ausência de critérios rigorosos para o cadastramento em plataformas
de mídia social, que abre margem para que qualquer pessoa crie uma conta virtual e
se identifique como bem entender. Para exemplificar, os dados fornecidos pela plata-
forma de mídia social Facebook apontam que cerca de 16 bilhões de perfis falsos foram
deletados em dois anos (Skeldon, 2021), número que corresponde a mais de cinco ve-
zes a quantidade de usuários ativos no ano de 2022, conforme apontado no gráfico
apresentado na seção anterior.
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Além da ausência de critérios de cadastro, destaca-se ainda que a tecnologia facilita
com que pessoas se escondam atrás do anonimato e, assim, dificultem a identificação
dos dados referentes à vida real de quem realmente está por detrás do sujeito virtual
(Kremling & Parker, 2018). O anonimato permite que o sujeito não seja unicamen-
te identificado, impedindo que os outros usuários sejam capazes de identificar o
indivíduo quando seus dados estiverem associados com outras bases de dados, garan-
tindo, com isto, a preservação da privacidade (Affonso & Sant’Ana, 2017) e tornando
o ambiente virtual um esconderijo confortável para aqueles que desejam ocultar sua
verdadeira identidade.
A partir dos pontos apresentados, depreende-se que os usuários de platafor-
mas de mídia social não podem ter certeza de com quem estão se relacionando, pois
as informações divulgadas, como fotos, vídeos, nomes, idade, profissão etc., podem
ser totalmente falsas.
De acordo com Ndyulo (2023), na prática do catfishing podem existir três partes
envolvidas: o criador do perfil falso, que utiliza imagens de outra pessoa sem per-
missão; a pessoa cujas imagens foram utilizadas indevidamente na criação do perfil
falso na plataforma de mídia social; e o terceiro que é enganado pelo perfil falso. Isso
quer dizer que na prática desse comportamento podem existir duas vítimas, a pri-
meira é a pessoa que teve sua imagem apropriada e utilizada indevidamente em uma
conta falsa e a segunda é a pessoa que foi enganada pelo usuário que está utilizan-
do o perfil falso.
Entretanto, é importante destacar que, ao criar um perfil falso, o usuário pode
optar por utilizar imagens e informações inteiramente fictícias, que não correspon-
dem a uma pessoa real. Nesses casos, não existe a figura da vítima cuja imagem foi
apropriada e utilizada de forma indevida, como acontece quando há o uso indevido
da imagem de terceiros.
Os motivos por trás do catfishing podem variar, o que indica que há vários objetivos
que podem levam uma pessoa à construção de uma identidade falsa nas plataformas de
mídia social (Kristy, Krisdinanto & Akhsaniyah, 2023). De acordo com Ryan e Taylor
(2024), as motivações que levam uma pessoa a criar um perfil falso online podem es-
tar relacionadas a quatro principais motivações: entretenimento, emulação de um eu
ideal, desejo de interação significativa e ganho financeiro.
O entretenimento, como motivador fundamental, surge quando a prática do
catfishing está vinculada ao prazer resultante desse comportamento ou do humor
que ele proporciona, que estaria provavelmente ligada ao narcisismo, cujos traços
característicos, como baixa empatia, tendem a aumentar a probabilidade de que o
indivíduo sinta prazer em enganar os outros dessa maneira (Ryan & Taylor, 2024).
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Outra motivação recorrente para o catfishing é a emulação de um eu ideal, que
ocorre quando um indivíduo assume uma identidade que considera perfeita e dese-
jável. Esse processo é amplamente facilitado pelas plataformas de mídia social, uma
vez que perfis online “[...] podem ser editados e reeditados até chegar a uma imagem
considerada ideal pelo sujeito, podendo ser enfim colocada para aprovação de
outros” (Rodrigues, Silveira & Correa, 2020, p. 140).
Nesse contexto, o catfishing pode atuar como um instrumento que viabiliza a ex-
periência do indivíduo de ter um eu que é múltiplo, efêmero, ilimitado e ilusório. Isso
acontece porque o eu ideal criado através de informações falsas pode assumir diferen-
tes identidades ou personalidades, que podem ser rapidamente modificadas, apagadas
ou substituídas, de tal forma que a identidade ou personalidade assumida pode ser
reinventada completamente, sem limitações materiais, como parte de uma constru-
ção ilusória com o objetivo de enganar ou manipular (Knafo, 2021).
O desejo de estabelecer conexões significativas também pode impulsionar a cria-
ção de perfis falsos nas plataformas de mídia social. Esse desejo é representado pela
vontade do indivíduo de ter uma interação significativa com outras pessoas no am-
biente virtual, quando os relacionamentos atuais não atendem suas necessidades e
expectativas (Pramudiarjaa, Artikab & Prabawatic, 2023). Como bem destaca Knafo
(2021, p. 09), “no catfishing, a tecnologia é usada para estender e alterar a dimen-
são virtual da individualidade, negando a ferida real enquanto encena uma fantasia
potente e às vezes perigosa”8.
Por fim, o ganho financeiro constitui um dos motivadores mais evidentes na cons-
trução de uma identidade falsa nas plataformas de mídia social. Isso acontece quando
os indivíduos criam perfis falsos com o intuito de fazer com que outras pessoas deem
bens, dinheiro ou algum outro ativo que possui valor econômico (Ryan & Taylor, 2024).
Essas motivações fundamentais demonstram que a prática de fraude de identi-
dade nas plataformas de mídia social nem sempre está acompanhada de intenções
negativas. Por outro lado, essa conduta pode desencadear um impacto psicológico
e emocional em potenciais vítimas, cujas expectativas não são atendidas, podendo
até mesmo abrir brecha para o cometimento de outros comportamentos (Pramudiar-
jaa, Artikab & Prabawatic, 2023; Hasibuan & Syam, 2023).
À primeira vista, um perfil falso pode até parecer inofensivo, bastando que seja
denunciado à plataforma de mídia social para que seja devidamente removido. No
entanto, o fenômeno do catfishing envolve camadas mais profundas, especialmente
quando há a utilização indevida de dados pertencentes a outras pessoas para obter
alguma vantagem indevida ou causar dano a alguém.
8
No original: “In catfishing, technology is used to extend and alter the virtual dimension of selfhood,
denying the wound of the real while enacting a potent and sometimes dangerous fantasy”.
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3. Catfishing sob a perspectiva do direito penal brasileiro
A vida humana se desenvolve em um mundo regulado por normas, no qual os indi-
víduos se veem imersos desde o início da vida até o último suspiro. Essa estrutura
normativa, caracterizada por uma rede espessa de regras de conduta formais e infor-
mais, condiciona e direciona ações individuais e coletivas ao longo de toda a existência,
de tal modo que a sua presença se dissolve no cotidiano, tornando-se quase invisí-
vel (Bobbio, 2003).
Dentro desse contexto se insere a norma jurídica, que “[...] baseia-se no compor-
tamento humano que pretende regular e tem como missão possibilitar a convivência
entre as diferentes pessoas que compõem a sociedade”9 (Muñoz Conde & García Arán,
2010, p. 33). As normas jurídicas existem para regular condutas, estabelecendo o que
deve ser feito e o que deve ser evitado em uma determinada sociedade (Bobbio, 2003).
A norma penal, por sua vez, não foge da finalidade de regular o comportamento
humano, mas apresenta uma forma específica de regulação do comportamento, em
comparação às demais normas jurídicas, que consiste, especificamente, no emprego
de sanções como forma de coibir a prática de condutas definidas como infrações de
natureza penal (Bitencourt, 2020).
A diferença entre a norma penal e as demais normas do sistema jurídico
reside, justamente, na tipificação de condutas como infrações de natureza penal
e na imposição de penalidades como consequência jurídica do descumprimento
da norma incriminadora. Por meio da norma jurídico-penal, espera-se que
o comportamento tipificado como infração penal não seja praticado e que, se praticado, o
infrator receba a sanção prevista na referida norma penal incriminadora (Muñoz Conde
& García Arán, 2010).
A norma penal “[...] tem por objeto condutas humanas descritas em forma
positiva (ações) ou em forma negativa (omissão de ações) de tipos legais de con-
dutas proibidas” (Santos, 2020, p. 27). Tem-se, assim, que a norma incriminadora
envolve, de um lado, o tipo penal descrito em forma positiva, que cria um dever
jurídico de abstenção da ação, proibindo a prática de condutas tipificadas como cri-
me; e, do outro lado, o tipo penal descrito em forma negativa, que cria um dever
jurídico de realização da ação, impondo uma obrigatoriedade na execução de uma
determinada conduta (Santos, 2020).
Entretanto, a penalização de condutas não se resume apenas em punir o infra-
tor pelo seu comportamento criminoso, mas também em busca garantir a “proteção
de valores relevantes para a vida humana individual e coletiva, sob ameaça de pena”
(Santos, 2020, pp. 27-28). Isso significa que o legislador não deve penalizar um
9
No original: “[...] tiene por base la conducta humana que pretende regular y su misión es la de posibilitar
la convivencia entre las distintas personas que componen la sociedad”.
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Catfishing: a conduta de assumir uma identidade falsa nas plataformas de mídia social... 15
comportamento por mera discricionariedade, simplesmente porque o desagrada, mas
sim porque o comportamento, quando praticado, lesiona algum bem jurídico que ne-
cessita de proteção penal (Roxin, 2009).
Nesse contexto, a definição e a delimitação dos tipos penais devem estar alinhadas
à proteção de bens jurídicos concretos, e não a juízos morais arbitrários. É justa-
mente esse princípio que orienta a interpretação dos delitos penais frente às novas
realidades sociais, como aquelas impostas pelo avanço das tecnologias e das relações
digitais. Diante disso, surge a necessidade de refletir sobre como figuras típicas tradicio-
nais, como o crime de falsa identidade, podem ou não abarcar condutas contemporâneas,
como a conduta do catfishing, que trata da criação e utilização de uma identidade falsa,
representada por meio de um perfil online, com finalidade enganosa.
No ordenamento jurídico brasileiro não existe especificamente um crime de
falsificação de identidades online, somente a previsão normativa do crime de fal-
sa identidade, previsto no artigo 307 do Código Penal (Decreto-Lei nº 2.848, 1940).
Conforme menciona o referido dispositivo legal, configura crime de falsa identidade
a conduta de atribuir-se ou atribuir a terceira falsa identidade para obter vantagem,
em proveito próprio ou alheio, ou para causar dano à outrem.
No crime de falsa identidade o agente atribui a si mesmo ou a terceira pessoa, ca-
racteres de um outro indivíduo, com a finalidade de obter vantagem de indevida, em
proveito próprio ou alheio, ou causar dano à outrem (Greco, 2017). Desse modo, ob-
serva-se que o núcleo do tipo é o verbo atribuir, no sentido de imputar a si próprio ou a
terceira pessoa falsa identidade, que pode abranger duas hipóteses: a) quando
a agente atribui a si próprio ou a terceiro a identidade de outra pessoa, efetivamente
existente; ou b) quando o agente atribui a si próprio ou a terceiro identidade fictícia,
inexistente na realidade (Masson, 2024).
A falsidade tipificada na referida norma penal não é de cunho documental, ma-
terial ou ideológico, mas sim de caráter pessoal, pois a conduta não recai sobre
a pessoa física, e sim sobre sua identidade civil, sendo chamada, desse modo, de fal-
sidade pessoal (Prado, 2019; Masson, 2024). Isso quer dizer que essa norma penaliza
o ato de assumir uma identidade falsa, ou conduta de atribuí-la a terceiro, ou seja, o
indivíduo que se apresenta com identidade diversa da sua, valendo-se de dados in-
corretos ou pertencentes a outra pessoa, ou que atua, da mesma forma, atribuindo
esses dados falsos a um terceiro (Greco, 2017).
O bem jurídico protegido por esta norma é a confiança na individuação pessoal,
referente à essência do indivíduo, à identidade, ao estado civil ou outra qualidade
juridicamente relevante da pessoa, nas relações públicas ou particulares (Prado, 2019).
Depreende-se, a partir disso, que a falsidade pessoal versa sobre o elemento de iden-
tificação da pessoa, identificação essa que é compreendida como um conjunto de
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características próprias de determinada pessoa, capazes de identificá-la e individua-
lizá-la no meio social, tais como o nome, a filiação, a idade, o estado civil, o sexo e
a profissão (Masson, 2024).
Por se tratar de um crime de forma livre, a conduta pode ser compatível com os
mais diversos meios de execução, de modo que a falsa identidade pode acontecer
oralmente ou por escrito (Masson, 2024). Essa liberdade na forma de execução pos-
sibilita que o crime seja cometido também no ambiente virtual, quando o indivíduo
assume uma identidade falsa ou atribui a uma terceira pessoa falsa identidade,
com a finalidade de obter vantagem, em proveito próprio ou alheio, ou de causar
dano a outrem.
No entanto, é importante relembrar que para a caracterização de uma infra-
ção de natureza penal é necessário que esteja presente o elemento subjetivo, ou
seja, a vontade livre e consciente do agente em praticar uma determinada conduta
lesiva a um bem jurídico penalmente relevante (Martinelli & Bem, 2021). No caso do
crime de falsa identidade, o elemento subjetivo consiste na vontade livre e conscien-
te de atribuir-se ou atribuir falsa identidade a terceira pessoa, acrescido do especial
fim de agir, que consiste na obtenção de vantagem, em proveito próprio ou alheio,
ou de causar dano à outrem (Capez, 2019).
Embora o crime de falsa identidade seja classificado de um crime formal, no
qual não é necessário que o agente atinja o especial fim de agir, que consiste na ob-
tenção da vantagem indevida, em proveito próprio ou alheio, ou no dano à outrem,
isso não significa que toda e qualquer atribuição de falsa identidade pode configurar
o delito em questão (Bitencourt, 2018). Para a consumação do crime de falsa iden-
tidade basta que o agente atribua, efetivamente, a falsa identidade a si mesmo ou a
um terceiro, porém, essa atribuição deve estar atrelada ao especial fim de agir pre-
visto no tipo penal, que é a obtenção da vantagem ou a produção de um dano a um
terceiro (Capez, 2019).
Para exemplificar a necessidade do especial fim de agir para a caracterização do
crime de falsa identidade, torna-se necessário recorrer a duas situações hipotéticas
que envolvem a prática do catfishing, conforme as motivações apresentadas no tópi-
co anterior: o entretenimento e o ganho financeiro. Na primeira, uma pessoa cria um
perfil falso em uma plataforma de mídia social, utilizando imagens de terceiros, com
o objetivo de interagir com outros usuários e obter curtidas, seguidores e envolvimen-
to afetivo virtual, sem qualquer intenção de obter vantagem indevida, em benefício
próprio ou de terceiros, ou causar prejuízo a outrem. Na segunda hipótese, o agen-
te também cria um perfil falso, mas com o intuito deliberado de enganar a vítima,
construir um vínculo emocional e, posteriormente, solicitar transferências financei-
ras com base em narrativas fraudulentas, como doenças ou dificuldades familiares.
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No primeiro caso, a motivação centrada no entretenimento e na vivência fictícia
de outra identidade revela a ausência do dolo específico exigido para a configuração
típica do crime de falsa identidade, uma vez que não há finalidade de induzir alguém
em erro com o intuito de obter vantagem ou causar prejuízo. Já na segunda situação,
a conduta evidencia claramente o especial fim de agir, pois a falsa identidade é em-
pregada como meio para enganar e lesar economicamente a vítima, mesmo que esse
fim não seja alcançado, preenchendo, assim, os requisitos objetivos e subjetivos do
tipo penal descrito no artigo 307 do Código Penal.
Em decisão proferida em 2º de fevereiro de 2023, a Segunda Turma Criminal do
Tribunal de Justiça do Distrito Federal e dos Territórios (2023) reconheceu a prática
do crime de falsa identidade na criação de um perfil falso em rede social. No caso,
a ré criou um perfil em um site de bate-papo utilizando fotos e informações pes-
soais de sua ex-namorada, com quem havia mantido um relacionamento amoroso.
O perfil simulava ser da vítima e oferecia encontros sexuais, o que levou à aborda-
gem de diversos desconhecidos, incluindo ligações e até visitas em sua residência,
causando-lhe constrangimentos e prejuízos morais (Tribunal de Justiça do Distrito Fe-
deral e dos Territórios, 2023).
Ao julgar o caso, o referido Tribunal de Justiça concluiu que a conduta se en-
quadra no artigo 307 do Código Penal, configurando o crime de falsa identidade,
uma vez que houve a utilização indevida de elementos identificadores da vítima com o
intuito de prejudicá-la (Tribunal de Justiça do Distrito Federal e dos Territórios, 2023).
Essa decisão reforça o entendimento de que assumir uma identidade falsa em am-
bientes virtuais, ainda que por meio de perfis falsos, pode configurar o crime de falsa
identidade, desde que esteja vinculado ao especial fim de agir da norma, que é obter
vantagem indevida ou causar prejuízo a outrem.
A partir disso, nota-se que a simples conduta de assumir uma identidade falsa
nas plataformas de mídia social não se adequa ao comportamento tipificado como
crime de falsa identidade, pois, para a configuração deste delito, é necessário que
o referido comportamento tenha como finalidade a obtenção de uma vantagem
indevida ou um dano à outra pessoa. Se a intenção de criar um perfil falso no ambien-
te virtual está dissociada com o especial fim de agir que o crime de falsa identidade
exige, não há a configuração deste delito.
É oportuno observar que, quando a vantagem mencionada no preceito primário
do crime de falsa identidade for de natureza patrimonial e tiver sido obtida mediante
fraude, induzimento ou manutenção de alguém em erro, ocasionando prejuízo a ter-
ceiro, poderá configurar o crime de estelionato, previsto no artigo 171 do Código Penal
(Decreto-Lei nº 2.848, 1940). Isso se justifica pelo fato de que o próprio preceito
secundário do artigo 307 prevê a sua aplicação de forma subsidiária, ao estabelecer
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que a pena prevista somente será aplicada quando a falsidade não constituir elemen-
to de crime mais grave (Greco, 2017).
A distinção entre esses dois delitos, quando se trata de vantagem econômi-
ca, reside no fato de que, para a configuração do estelionato, é necessária a efetiva
obtenção da vantagem ilícita e o correspondente prejuízo à vítima. Já no crime de
falsa identidade, não se exige a concretização da vantagem econômica nem o pre-
juízo alheio, sendo suficiente a intenção do agente de alcançá-la para a consumação
do delito (Masson, 2024).
Um exemplo concreto disso foi o caso de estelionato divulgado amplamente pe-
los meios de comunicação do Brasil no ano de 2022, no qual uma idosa brasileira,
acreditando estar se relacionando com o ator norte-americano Johnny Depp, transfe-
riu mais de R$ 200 mil para o golpista que se passava pelo mencionado ator (Cuozzo,
2022). Segundo as informações relatadas pela vítima, o criminoso virtual, utilizando-
-se de um perfil falso na plataforma de mídia social Instagram, se passava pelo ator
norte-americano e solicitava quantias em dinheiro, alegando que os valores seriam
destinados para o pagamento de condenações em processos em que estava envol-
vido (Dias, 2022).
Observa-se que, nessa situação, o criminoso assumiu ser quem não é, utilizando-
-se de um perfil falso em uma plataforma de mídia social, para obter uma vantagem
indevida de ordem econômica, o que acarreta na absorção do crime de falsa identi-
dade pelo crime de estelionato, por esta conduta ser mais grave do que aquela. Desse
modo, pode-se afirmar que o catfishing, quando utilizado para obter alguma vantagem
econômica indevida, configura o crime de estelionato cometido no ambiente virtual,
afastando-se, portanto, da tipificação de crime de falsa identidade.
Esse raciocínio pode ser observado no entendimento do Superior Tribunal de Justi-
ça (STJ), quando pacificou a controvérsia sobre a configuração do crime de envolvendo
falsidade nos casos em que há obtenção de vantagem patrimonial com a publicação
da Súmula n.º 17 (1990), na qual estabelece que “quando o falso se exaure no este-
lionato, sem mais potencialidade lesiva, é por este absorvido”. O que se diz acima,
em síntese, é que havendo inicialmente a prática de um crime envolvendo falsidade
com a obtenção de vantagem de cunho patrimonial, deve o agente ser punido apenas
pelo crime de estelionato, em razão da sua maior reprovabilidade e gravidade típica.
Necessário observar que a vantagem também não pode ser de caráter sexual,
pois, se assim o for, o crime não será o de falsa identidade, mas sim de violação se-
xual mediante fraude, previsto no artigo 215 do Código Penal (Decreto-Lei nº 2.848,
1940; Greco, 2017). Nessa mesma linha de pensamento, o Tribunal de Justiça do
Distrito Federal e dos Territórios (2019), reconheceu a prática do crime de violação se-
xual mediante fraude por parte de uma mulher que, ao longo de mais de cinco anos,
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Catfishing: a conduta de assumir uma identidade falsa nas plataformas de mídia social... 19
manteve um perfil falso em rede social, passando-se por homem com o objetivo
de manter relacionamento virtual com outra mulher. A acusada utilizou-se de diver-
sas estratégias fraudulentas para sustentar a identidade fictícia, incluindo o uso de
nome masculino, envio de fotos falsas, ausência de chamadas de vídeo e alteração
proposital da voz durante ligações telefônicas, enganando a vítima e induzindo-a a
um vínculo emocional e sexual online, com atos libidinosos transmitidos em tempo
real (Tribunal de Justiça do Distrito Federal e dos Territórios, 2019).
Considerando o exposto até aqui, pode-se perceber que, embora o catfishing
tenha como característica a existência de uma finalidade enganosa, como dito
anteriormente, é necessário, para que se possa falar no crime de falsa identidade, que
se comprove que esse comportamento foi realizado objetivando a obtenção de uma
vantagem indevida ou a provocação de um dano a uma pessoa. A correta tipificação
penal dessa conduta demanda uma análise cuidadosa do contexto e das finalidades
subjacentes ao uso da identidade falsa no ambiente virtual, evitando-se a banaliza-
ção do tipo penal e assegurando que apenas condutas efetivamente lesivas aos bens
jurídicos protegidos sejam criminalizadas.
Assim, o direito penal brasileiro, diante do fenômeno do catfishing, enfrenta o
desafio de equilibrar a proteção dos indivíduos contra fraudes e danos, sem extra-
polar sua função, preservando os princípios da legalidade, da intervenção mínima
e da proporcionalidade. Isso reforça a importância de uma constante atualização
legislativa e jurisprudencial, capaz de refletir as complexidades das relações virtuais,
garantindo segurança jurídica e efetividade na tutela dos direitos no ambiente digital.
Conclusões
Conforme verificado nas linhas desta pesquisa, a conduta denominada catfishing consis-
te na criação e utilização de perfil falso online para fins enganosos, o que demonstra
de forma bastante clara, a relação direta entre essa conduta e as plataformas de
mídia social. Importa considerar que, por se tratar de uma conduta de manipulação
de uma conta falsa em ambiente de interação social, tal conduta depende da exis-
tência de uma plataforma de mídia social para que o agente assuma uma identidade
falsa. Do contrário, se não existe esse ambiente para a criação de uma identidade vir-
tual falsa, não há que se falar em catfishing.
O fenômeno do catfishing, ainda que não seja um termo jurídico técnico, revela prá-
ticas complexas que transitam entre o campo da construção de identidades fictícias
e a perpetração de fraudes e danos. Como demonstrado ao longo desta pesquisa, a
criação e utilização de perfis falsos em plataformas digitais não constituem, por si sós,
condutas típicas do ponto de vista penal, mas podem se enquadrar em figuras deliti-
vas previstas no ordenamento jurídico brasileiro, a depender do contexto, da intenção
do agente e das consequências da ação, como é o caso do crime de falsa identidade.
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Não se pretende negar a possibilidade de tipificação penal da conduta mencio-
nada, quando esta é praticada com uma finalidade criminosa. O que não deve ser
admitido é a imputação de um crime e, consequentemente, a imposição de uma san-
ção penal para todo comportamento de assumir uma identidade falsa nas plataformas
de mídia social que não tenha uma finalidade criminosa, que envolva a obtenção de
uma vantagem indevida ou um dano à outrem.
A análise das motivações que levam indivíduos à pratica do catfishing, que podem
variar do simples entretenimento à obtenção de vantagem financeira, permitiu com-
preender que a tipificação penal dessa conduta exige mais do que a simples criação de
uma identidade falsa. É imprescindível que se comprove o especial fim de agir previsto
em tipos penais específicos, como o de falsa identidade, estelionato ou violação se-
xual mediante fraude. A ausência desse dolo específico afasta a configuração do crime.
A jurisprudência recente tem enfrentado os desafios impostos por esse tipo de
conduta no ambiente digital, ainda que o marco normativo penal brasileiro careça
de tipo penal específico que trate criação e do uso de perfis falsos em ambientes vir-
tuais. Nesse cenário, a interpretação dos tribunais vem se mostrando essencial para
a adequação das normas penais tradicionais às novas realidades sociais, cumprin-
do o papel de garantir a proteção de bens jurídicos relevantes, sem comprometer os
princípios da legalidade, da intervenção mínima e da proporcionalidade.
Diante disso, percebe-se a necessidade de um aprimoramento legislativo que
considere as nuances das relações mediadas por tecnologia, especialmente quando
estas se utilizam de mecanismos de disfarce identitário para finalidades enganosas.
A evolução das relações sociais no ambiente virtual demanda um olhar renovado do
direito penal, sensível não apenas aos elementos objetivos das condutas, mas tam-
bém às suas finalidades e repercussões concretas.
Por fim, a presente pesquisa buscou contribuir para o debate jurídico contem-
porâneo sobre o uso indevido de identidades em ambientes virtuais, destacando a
importância de uma abordagem penal criteriosa e contextualizada. Combater o catfishing
de forma justa e eficaz requer o fortalecimento da educação digital, o desenvolvimen-
to de políticas públicas preventivas e, sobretudo, a constante atualização normativa
que permita ao Direito Penal responder adequadamente às condutas mais gravemen-
te lesivas, sem incorrer em excessos punitivos ou banalização da tutela penal.
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