DEMOCRACIA: CONCEITOS E REFLEXÕES
MARISETE DE MATTOS MORAIS [1], NEUSETE MACHADO RIGO [2]
1 Introdução
A democracia é uma forma de governo que remonta à antiguidade clássica e ocupa,
na atualidade, a centralidade de debates mundiais, por representar o sistema político de
diversos países e encontrar-se em um contexto de muitos desafios. Nesse texto, retomaremos
alguns conceitos sobre a democracia e sua constituição histórica considerando estudos de
Norberto Bobbio em seu livro “Liberalismo e democracia”. Deste estudo, refletiremos sobre o
contexto brasileiro nas suas trajetórias democráticas.
2 Objetivos
Discutir conceitos e abordagens históricas da democracia para refletir sobre o
contexto democrático brasileiro.
3 Metodologia
A metodologia possui abordagem qualitativa e utiliza a pesquisa bibliográfica em
literatura específica sobre a democracia, focando nas obras de Norberto Bobbio e John Locke
sobre o conceito de democracia e sua trajetória histórica.
4 Resultados e Discussão
O termo democracia (demos=povo e kratos=governo) foi criado em Atenas, na
Grécia em 510 a.C., quando Clístenes, que era um aristocrata progressista (elite que defendia
1
Doutoranda em Desenvolvimento e Políticas Públicas – Universidade Federal da Fronteira Sul - UFFS-Cerro
Largo – Rio Grande do Sul – Brasil, Bolsista DS/Capes. E-mail: [email protected]
2
Orientadora e Doutora em Educação - Universidade Federal da Fronteira Sul-UFFS-Cerro Largo – Rio Grande
do Sul – Brasil; E-mail: [email protected]
a participação cidadã na política), se rebelou contra o tirano Hípias, tirando-o do poder e
implantando novas ideias de governo. Hípias, era filho de Pisístrato, um tirano que governou
Atenas em diferentes anos entre 561 a.C. e 527 a.C., consolidando-se no poder por meio de
um golpe de Estado. Após sua morte, seus filhos, Hípias e Hipárquio, continuaram seu
governo. Hipárquio era considerado um tirano mais moderado, mas foi assassinado em 514
a.C. o que levou à cidade-estado a uma crise.
Hípias ascendeu ao poder, reagindo com brutalidade às ameaças e aumentando a
repressão. Com sua tirania se tornou cada vez mais impopular entre os cidadãos,
especialmente entre as classes médias. Os aristocratas que se opunham ao seu governo
aproveitaram esta situação para mobilizar o povo contra seu governo, realizando também
alianças com os espartanos. A insatisfação culminou então, na deposição de Hípias em 510
a.C. e fuga para a região da Pérsia. Clístenes estava à frente dos aristocratas para implantar
um novo sistema de governo que permitisse maior participação da população, o que
eventualmente levou à criação da democracia ateniense.
A partir daí se inicia o processo de transição da tirania para a democracia onde
diversas reformas foram implantadas. Atenas foi reorganizada em dez demos, ou seja,
subdivisões territoriais tanto de áreas urbanas quanto rurais. Cada demo representava uma
comunidade local e era uma parte essencial do sistema político desenvolvido por Clístenes,
pois identificava não só a sua cidade, mas trazia um sentimento de pertencimento e de
identidade local.
Era nos demos onde as decisões eram tomadas com os cidadãos participando
ativamente da Assembleia=Ekklesia, que ocorria em praça pública, a Ágora. Esta forma de
democracia é chamada de direta, que segundo Bobbio (2000, p. 7) é aquela “em que o poder
não está nas mãos de um só ou de poucos, mas de todos, ou melhor, da maior parte, como tal,
se contrapondo às formas autocráticas, como a monarquia e a oligarquia”.
Esta forma de governo se contrapôs a outras formas de governo, consideradas como
restritivas de poder, como a aristocracia, a monarquia, a oligarquia e a tirania. No entanto, a
visão de quem eram os cidadãos era diferente da que possuímos no século XX, pois somente
eram considerados cidadãos os homens livres, maiores de 21 anos, com determinada renda e
nascidos em Atenas. As mulheres, os estrangeiros (pessoas nascidas em outra cidade-estado),
os escravos e de outros estratos sociais ficavam excluídos da participação política.
Mesmo com esta determinação (que se configura como uma das grandes diferenças
da democracia atual), a democracia atingiu o objetivo central que era evitar a tirania, visto
como a pior forma de governo na época. A democracia ficou conhecida como o modelo em
que o povo tem vez e voz nas decisões políticas.
Contudo, em Atenas a democracia estava longe de ser considerada a melhor forma de
governo, diferente de hoje, em que, mesmo com seus percalços, é a forma mais aceitável.
Com o tempo, este modelo foi se aperfeiçoando, principalmente com as ideias iluministas que
impulsionaram o campo da razão, das ações e rebeldia contra os monarcas, o clero, a falta de
direitos e a liberdade.
As transformações históricas que marcaram o processo de construção da democracia
no mundo foram: a Independência dos Estados Unidos, a Revolução Francesa, a Era
Napoleônica, o fim de várias monarquias e, sobretudo, a compreensão pelo povo da força que
possuía e a importância da sua mão-de-obra durante o período de industrialização (1760-
1850). Tudo isso, possibilitou às sociedades a percepção de que a soberania política estava
associada ao povo e não à figura de seu governante.
Na obra “Dois Tratados sobre o Governo”, John Locke, especifica que os direitos do
cidadão são anteriores ao contrato social e sua preservação é a razão de ser do governo. Sua
defesa é pelo Liberalismo: o ser humano possui direitos fundamentais, inalienáveis e
intransferíveis: direito à vida, direito à liberdade e direito à propriedade. Sobre estes direitos,
afirma que: “todo homem é naturalmente livre e nada pode submetê-lo a qualquer poder sobre
a terra, salvo por seu próprio consentimento” (LOCKE, 1994, p. 153).
Locke (2005) apresenta ainda a ideia geral de que os governos nascem e se legitimam
por meio de um contrato voluntário com os cidadãos e sua participação é a forma de
expressão da razão. Destaca ainda que o fundamento do governo não é nem a força, nem a
tradição, mas o consentimento. O contrato é de consentimento, não de submissão. Seu
objetivo é dar a um terceiro (governo) o papel de resolver os conflitos a partir da lei e de
proteger a população de invasões estrangeiras. Este contrato significa a renúncia parcial dos
direitos individuais para o Estado atuar a serviço dos cidadãos.
Parafraseando Locke (2005), neste contrato, a propriedade já existe no estado de
natureza e é um direito natural, por isso não pode ser ameaçada, nem mesmo pelo governo. O
fundamento originário da propriedade é o trabalho, ou seja, por meio dele ela se torna
produtiva e o direito sobre ela está garantido. O soberano só existe para protegê-la. O governo
é parte do contrato e só se justifica enquanto cumprir suas obrigações. Quando o governo
extrapola a lei no seu exercício, torna-se tirano e isso justifica uma revolução. Se o próprio
governo se torna uma ameaça à vida, à liberdade e à propriedade, volta-se ao estado de
natureza, ou seja, o povo tem direito de resistência e depor seu governo.
Estas ideias e fundamentos iluministas se propagaram, ampliaram e serviram de base
para a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão de 1789, para a Declaração Universal
dos Direitos Humanos de 1948 e para Constituições de diferentes países. Desta forma a
democracia moderna, se constituiu e foi sendo pautada em ordenamentos jurídicos e
instituições políticas sólidas, com os três poderes bem definidos. Partindo do princípio inicial
de que a democracia é o regime político em que a soberania é exercida pelo povo, a maioria
das democracias atuais utiliza a forma representativa.
Assim, os cidadãos elegem seus representantes por meio do voto, confiando então,
parte deste poder ao Estado para que possa organizar a sociedade. Bobbio afirma que: “a
democracia indireta seria a mais adequada precisamente para o alcance dos fins a que fora
predisposta a soberania popular”. (2000, p.34). Deve também possibilitar a existência e
expressão de outros elementos políticos, como sindicatos, associações, movimentos sociais de
quaisquer reivindicações e objetivos, sempre garantindo seus princípios fundamentais.
A experiência democrática brasileira ocorre a partir da Proclamação da República,
em 1889 com a instituição do governo sob três Poderes, seguindo a proposta do iluminista
Montesquieu: o Legislativo, o Judiciário e o Executivo. Segundo esta organização política, o
dirigente é o presidente da República, eleito pelo voto popular (mesmo que o processo eletivo
fosse burlado de todas as formas possíveis).
Mais tarde, após 21 anos de ditadura militar (1964-1985) o Brasil iniciou sua
transição democrática com eleições livres, criando uma nova constituição, a Constituição da
República Federativa Brasileira de 1988, também chamada de Constituição Cidadã. Esta Lei
definiu a democracia em seu primeiro parágrafo: “Todo o poder emana do povo, que o exerce
por meio de representantes eleitos ou diretamente, nos termos desta Constituição” (CF, 1988.
Art.1, Parágrafo. Único). Ao expor que "o poder emana do povo" diz-se que o povo é o
detentor do poder e o governo seu representante e zelador de seus interesses, princípios
essenciais da democracia.
A Constituição também enfatiza o estabelecimento de direitos iguais entre pessoas
independentemente de qualquer elemento distintivo: “todos são iguais perante a lei, sem
distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no
país a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade”
(CF, 1988, art.5.). No entanto, não basta a promulgação da lei, é imprescindível que ela seja
cumprida.
O cumprimento das leis e a garantia destes direitos são o grande desafio da
democracia brasileira. O cidadão atuante, os gestores preocupados com bem estar do povo, as
instituições funcionando plenamente, as liberdades e os direitos sendo garantidos de forma
igual, tudo isso que foi abordado na teoria, precisa também ser efetivo na prática.
Enfim, embora a democracia tenha sido criada na antiguidade clássica, suas ideias
foram atualizadas e aplicadas à realidade brasileira. Concebe-se a democracia na forma
representativa, mesmo com seus percalços, como o único regime possível, em que prevalece a
vontade da maioria, mas respeita-se a opinião e os direitos da minoria.
5 Conclusão
A ideia de democracia surge porque a Grécia vinha de uma sequência de governos
tirânicos, que causavam a insatisfação do povo. Aperfeiçoou-se com a contribuição dos
iluministas servindo como suporte para Declarações de Direitos e Constituições pelo mundo
todo. Assim sendo, se contrapôs aos regimes tirânicos e autoritários e possibilitou a soberania
do povo, ao exercício do poder por meio dos cidadãos.
A democracia garante a escolha livre de seus governantes, por meio de eleições
diretas ou indiretas. Contudo, não estamos falando apenas da possibilidade de participação
política, mas também de igualdade de direitos, igualdade social, igualdade racial e liberdade
garantida a todas as pessoas, ou seja, que os direitos fundamentais, expressos por Locke sejam
garantidos.
Assim, conseguimos atingir o objetivo deste trabalho de “discutir conceitos e
abordagens históricas da democracia para refletir sobre o contexto democrático brasileiro”.
Realizou-se uma reconstrução histórica da democracia desde a antiguidade, seguido das ideias
dos contratualistas e aplicações na atualidade, até uma breve análise da democracia no Brasil.
Palavras-chave: História da Democracia. Democracia brasileira. Direitos fundamentais.
Referências Bibliográficas
BOBBIO. Norberto. Liberalismo e Democracia. Trad. Marco Aurélio Nogueira. São Paulo:
Brasiliense, 2000;
BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Brasília, DF:
Presidente da República, 2016;
LOCKE, John. Dois tratados sobre o governo. Trad. Júlio Fischer. São Paulo: Martins
Fontes, 2005.
LOCKE, John. Segundo tratado sobre o governo civil e outros escritos: ensaio sobre a
origem, os limites e os fins verdadeiros do governo civil. Trad. Magda Lopes, Marisa Lobo da
Costa. Petrópolis-RJ: Vozes, 1994.