Resumos – Fundamentos da Literatura Portuguesa
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Tema 1 – Aula 1
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Independência e Organização de Portugal
A independência de Portugal foi um processo gradual. O destaque vai
para Afonso Henriques, que em 1128 expulsou sua mãe Teresa e o
Conde de Borgonha na Batalha de São Mamede, iniciando sua
ascensão. A Batalha de Ourique (1139) é crucial, pois, segundo o
mito do milagre de Ourique, Afonso Henriques foi ungido rei de
Portugal. Após a morte de Afonso VII (seu primo e imperador da
Península Ibérica), Afonso Henriques expandiu o território e buscou o
reconhecimento papal, que só veio no final de seu reinado, por mil
moedas de ouro. Sua morte em 1185 marcou o início da primeira
dinastia portuguesa, a "Afonsina" ou "Dinastia de Borgonha".
Surgimento da Cavalaria e o Amor Cortês
O século XI na Europa viu a transição do feudalismo para uma
economia comercial monetária com os mosteiros e,
posteriormente, as cidades liderando as trocas comerciais. Isso
impulsionou o ressurgimento da burguesia, que se tornou uma
classe social intermediária e influente.
A cavalaria surgiu como uma nobreza de segunda classe, composta
por soldados mercenários que eventualmente receberam feudos. A
Igreja incentivou a cavalaria, reconhecendo-a como o exército de
Cristo, buscando anular a secularização vinda das cidades.
A cultura da corte medieval era marcadamente feminina, e as
obras literárias como as canções de amor provençais e romances
arturianos eram escritas para mulheres. Isso deu origem a uma nova
concepção de amor: o amor trovadoresco.
O Amor Trovadoresco e suas Influências
No século XII, o amor trovadoresco se destacou pela valorização da
figura feminina, algo original em uma sociedade teocrática e
misógina. Houve uma reinterpretação do corpo feminino, antes
associado ao pecado, para uma visão mais estetizada.
O texto apresenta três teses sobre a origem da lírica provençal (lírica
trovadoresca):
Tese Médio-Latina: Sugere influência de poetas latinos
elegíacos como Catulo e Ovídio, embora o amor para os
trovadores fosse um "transporte espiritual" e "via de salvação",
diferente da visão antiga de "enfermidade dos sentidos".
Tese Árabe: Aponta para a influência de poetas árabes da
Andaluzia, que desenvolviam um amor platônico.
Tese Folclórica: Baseia-se na erótica provençal e na transição
de uma poesia popular jogralesca para o lirismo cortês, com o
amor adulterino refletindo a euforia orgiástica de festas
romanas, as florárias da primavera.
A influência cátara, doutrina considerada herética, também é
mencionada. Os cátaros acreditavam na dicotomia espírito-matéria e
na bissexualidade celeste, com o amor puro dos trovadores se
assemelhando à abstinência metafísica cátara.
O platonismo é destacado na lírica provençal, distinguindo o amor
popular/sensual (vulgar) do amor espiritual (dos sábios). O
cristianismo acentuou a cisão entre corpo e alma, associando o corpo
ao pecado. No entanto, o amor cortês, apesar de medieval,
carregava um caráter herético que influenciou a Renascença e a
Reforma.
O racionalismo dialético cristão, com figuras como Pedro
Abelardo, promoveu uma renovação cultural e o surgimento do
individualismo. A poesia dos clerici vagantes (clérigos errantes) do
século XII também é relevante, com poetas autônomos que cantavam
prazeres terrestres e criticavam o clero.
Para finalizar, o texto menciona uma controvérsia em torno do
Espírito Santo, uma heresia popular do século XIII que acreditava na
encarnação do Espírito Santo em uma mulher, influenciando o culto
literário do feminismo no Sul da França.
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Aula 2 – Características das cantigas na poética medieval galego-
portuguesa
O texto apresenta as características dessas cantigas, que surgiram
quase simultaneamente à formação de Portugal, com os primeiros
poetas possivelmente ligados à corte de D. Sancho I. Apesar da
origem portuguesa, essa poesia não tinha um caráter nacionalista,
sendo influenciada pelos reinos vizinhos da Península Ibérica e
utilizando o galego-português como língua de expressão lírica.
Duas obras são consideradas inaugurais: "Ora faz ost’o senhor de
Navarra", de Joam Soares de Paiva, e "Cantiga de guarvaia", de Pai
Soares de Taveirós. A identificação de poetas era desafiadora, com
registros biográficos limitados a figuras de alta posição social. O auge
da produção ocorreu nas cortes de Fernando III, Afonso X (Leão e
Castela) e D. Afonso III (Portugal), com o rei D. Dinis consolidando um
novo centro trovadoresco em sua corte. O fim do lirismo trovadoresco
galego-português é geralmente associado à morte de D. Dinis em
1325, embora seu filho, Pedro Afonso, ainda tenha legado um livro de
cantigas.
A lírica galego-portuguesa foi influenciada pela poesia provençal,
mas com adaptações devido à distância geográfica. Sua preservação
se deu principalmente através de três cancioneiros: o da Ajuda, o da
Biblioteca Nacional de Lisboa (anteriormente Colocci-Brancuti) e o da
Vaticana, que, comparados aos manuscritos provençais, formam uma
tradição "pobre" em termos de volume.
O texto detalha os gêneros trovadorescos:
Cantigas de amor: Inspiradas nas canções provençais,
expressam o amor do eu lírico masculino pela "senhor".
Diferentemente da poesia provençal, a galego-portuguesa
enfatizava a renúncia em vez da recompensa do amor, com a
"coita" (sofrimento) como elemento central. A mulher é
idealizada, inatingível, e o amor é uma "vassalagem amorosa",
desprovido de sinceridade individual e focado em uma forma
codificada. Um exemplo analisado é a "Cantiga d’amor de
refran" de João Garcia de Guilhade, que demonstra a repetição
e aprofundamento da ideia inicial, exaltando a beleza da
mulher. Manuel Bandeira é citado como um poeta brasileiro
com inspiração medieval em sua "Cantiga de amor".
Cantigas de amigo: Apresentam um eu lírico feminino que se
dirige ao "amigo" (namorado), à mãe ou às irmãs, embora
fossem escritas por trovadores. Há uma relação próxima com as
cantigas de amor, por vezes com uma visão "feminina" do amor
cortês. O exemplo de Pero Meogo, "Cantiga d’amigo (Tençon)",
ilustra um diálogo entre a filha e a mãe, onde a filha, ao
justificar seu atraso na fonte, oculta um encontro amoroso.
Cantigas de escárnio e de maldizer: Ambas visam falar mal
de alguém. A cantiga de escárnio o faz de forma velada ("por
palavras cubertas"), com críticas implícitas. Já a cantiga de
maldizer usa uma linguagem transparente e direta ("por
palavras descubertas"). Ambas possuem um caráter satírico,
por vezes burlesco e obsceno, sendo muito valorizadas pelos
trovadores. D. Afonso X é citado como autor de cantigas
satíricas e Guilherme IX da Aquitânia como um "trovador
bifronte" com composições de amor cortês e prazer carnal. O
texto analisa a "Cantiga d’escaneo" de D. Afonso X, onde a
crítica é implícita através da metáfora do "escorpião". Por outro
lado, a "Cantiga de maldizer" de Gil Pérez Condes é analisada
como um exemplo de heresia e deboche explícitos contra Deus.
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Aula 3 - Características das novelas de cavalaria e das crônicas na
prosa medieval
A prosa medieval em Portugal é marcada por dois gêneros
principais: as novelas de cavalaria e as crônicas.
Novelas de Cavalaria
As novelas de cavalaria, com foco na Matéria de Bretanha (a
lenda do Rei Artur e do Santo Graal), são uma manifestação
cultural e literária significativa.
Contexto e Características
A lenda do Rei Artur é um tema complexo devido à multitude de
textos e versões. A Demanda do Santo Graal portuguesa é
um exemplo, com seu único original existente traduzido de um
francês do século XIII.
A "matéria de Bretanha" foi organizada em ciclos, sendo a
Demanda parte do ciclo bretão ou arturiano, distinto das
canções de gesta.
Chrétien de Troyes é um dos principais nomes, com sete
novelas em versos sobre a "matéria Bretanha". No entanto, a
união da lenda de Artur com o mito do Graal ocorreu após sua
morte.
O mito do Graal é mais antigo que a lenda de Artur, remetendo
a objetos célticos e crenças judaico-cristãs.
Wolfram von Eschenbach (com Parzifal) e Robert de Boron
(com uma tetralogia) também são importantes para o ciclo do
Graal. Gautier Map é atribuído ao início mais significativo
desse ciclo.
Existe uma versão portuguesa e outra castelhana da Demanda,
com dúvidas sobre qual é a original.
A Demanda e seus simbolismos
A Demanda é uma novela mística e simbólica:
Galaaz, o cavaleiro puro, é o escolhido para encontrar o Cálice
Sagrado, e não Percival, como em outras versões.
A investidura de Galaaz é um ato nobre e ritualístico, com
Lancelote do Lago tornando seu filho cavaleiro.
O primeiro surgimento do Graal na Távola Redonda,
trazendo beleza, luz e manjares, é um momento misterioso e
marcante.
O escudo de Galaaz, branco com uma cruz vermelha,
simboliza Cristo.
Galaaz passa por provações, como no castelo do Rei Brutus,
onde sua pureza é testada.
Finalmente, Galaaz encontra o Santo Graal no Castelo de
Corbenic, onde ele, Boors e Percival recebem manjar e a hóstia
do próprio Jesus Cristo.
A história termina com a morte de Artur, após confrontos com
Lancelot e seu filho Morderet. Lancelote e Genebra se tornam
eremita e freira, respectivamente.
O Amadis de Gaula
O romance Amadis de Gaula, provavelmente escrito em
português no século XIII (atribuído a Vasco Lobeira), é um
importante romance de cavalaria ibérico.
A figura de Amadis é marcada por sua perfeição, bravura nas
batalhas e um profundo sentimentalismo, especialmente em
relação à sua amada Oriana.
Diferente da sublimação do amor, Amadis explora o aspecto
carnal do amor, aproximando-se das cantigas de amigo.
As Crônicas: A Prosa Historiográfica
A historiografia portuguesa medieval, antes de Fernão Lopes,
baseava-se em Crônicas breves, Livros de linhagem e a
Crônica geral de Espanha de 1344.
Fernão Lopes
Fernão Lopes (1380-1460 aproximadamente) é considerado o
primeiro grande prosador e historiador oficial de Portugal.
Ocupou cargos importantes como escrivão, guardião-mor da
Torre do Tombo e tabelião-geral do reino.
Suas crônicas eram parciais, simpatizando com o povo e a
revolução burguesa, mas ainda assim ofereciam uma visão
ampla e concreta da realidade social.
Ele baseava suas crônicas em uma noção de verdade
relativa e documentos criteriosamente selecionados. Sua
experiência profissional como notário e arquivista, além do
acesso a informações sigilosas na corte, contribuíram para a
veracidade histórica de seus escritos.
As Crônicas de D. Pedro, D. Fernando e D. João I (primeira
e segunda partes) são de sua autoria, e ele também reescreveu
crônicas de outros monarcas.
Sua qualidade estilística é notável, aglutinando fragmentos
narrativos, documentos e citações, mantendo a originalidade do
texto através de sua própria composição e escolha de fontes.
Essa "técnica híbrida" permitia a ele um domínio perfeito dos
efeitos e a criação de uma narrativa com sentido próprio.
Devido ao seu trabalho como escrivão e historiador, e sua
técnica narrativa aprimorada, Fernão Lopes é o mais
importante cronista da historiografia portuguesa.
Ambos os gêneros, novelas de cavalaria e crônicas, oferecem um
panorama rico e complexo da prosa medieval portuguesa,
refletindo tanto o imaginário épico e simbólico da época quanto a
busca por um registro histórico mais concreto.
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Tema 2 – Barroco e Arcadismo
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Aula 1 - O Barroco em Portugal
A história do Barroco em Portugal é um período de grande
complexidade e contradições, marcado por transições sociais,
políticas e culturais que o diferenciaram de outros movimentos
artísticos.
Contexto Histórico e Social
Declínio do Feudalismo e Ascensão Burguesa: A Idade
Média, com seu sistema feudal, teocentrismo e sociedade
agrária fechada, viu seu fim com o surgimento de novas formas
econômicas e uma nascente cultura burguesa. Em Portugal, que
se tornou autônomo no século XII sob D. Afonso Henriques, as
estruturas feudais perduraram até os séculos XI e XIV, com uma
literatura influenciada por jograis, cancioneiros, trovas, cantigas
de amor, sátiras, hagiografias e novelas de cavalaria (estas
últimas, com forte dependência da cultura cristã).
Revolução de Avis e Expansão Naval: A Revolução de Avis
(1383-1385) alterou a dinastia portuguesa, diminuindo o poder
monárquico em favor dos poderes locais e dando início à
expansão naval e aos descobrimentos. D. João I e seus
sucessores foram apoiados pela burguesia, enfraquecendo a
nobreza e a influência da Igreja, o que abriu Portugal para o
mundo.
Humanismo e Renascimento: Essa abertura marcou o início
do Humanismo, com Fernão Lopes como referência nas letras,
enfatizando o empreendimento humano na história. Nos séculos
XV e XVI, o Renascimento emergiu como uma evolução do
Humanismo, valorizando a cultura greco-romana, o
racionalismo e o antropocentrismo. O Renascimento promoveu
a razão humana e a racionalização dos costumes e da arte,
refletindo a ascensão da burguesia urbana.
Domínio Espanhol e Contrarreforma: Entre 1580 e 1640,
Portugal esteve sob domínio espanhol (período filipino),
intensificando as trocas culturais e introduzindo influências
barrocas da Espanha. Esse período foi crucial para o surgimento
do Barroco nas terras lusitanas. O Barroco, no entanto, tem sua
origem também ligada à Contrarreforma, uma reação da
Igreja Católica à Reforma Protestante iniciada por Martinho
Lutero e João Calvino no século XVI. A Contrarreforma, com o
Concílio de Trento (1545-1563), ressurgiu com a Inquisição, a
proibição de livros "profanos" e a criação da Companhia de
Jesus. O Barroco, então, serviu de suporte e vazão a essa
reação religiosa conservadora, contrapondo-se aos valores
burgueses de apelos sensoriais, novas concepções de amor e
elogio ao dinheiro e ao luxo.
Princípios Estéticos do Barroco
O Barroco é uma arte de dualidades e conflitos, nascida de um
contexto de tensões entre Reforma e Contrarreforma, e entre o
Feudalismo e a Modernidade. Ele conciliava opostos como:
Espírito conservador da Contrarreforma (recuperando
valores medievais) versus transformações históricas do
Renascimento (liberdade, empreendimento individual).
Antíteses, oscilações, contrapontos, sinestesias,
trocadilhos, rebuscamentos, tensões e irregularidades
na linguagem.
A origem do termo "barroco" é controversa, mas muitos apontam
para o castelhano "barrueco" (pérolas imperfeitas). Heinrich
Wölflin, no século XIX, recuperou o termo com valor positivo,
descrevendo-o como o oposto do Clássico. Já João Adolfo Hansen
argumenta que o Barroco, como o conhecemos, pode ser uma
construção teórica baseada em Wölflin, e que talvez nunca tenha
existido como um movimento coeso.
Manifestações Artísticas do Barroco
O Barroco abrangeu diversas formas de arte na Europa a partir do
século XVI:
Artes Plásticas: Explorava gradações intensas de cor,
contrastes entre claro e escuro, e sensação de movimento,
como nas obras de Caravaggio.
Música: Desenvolveu a polifonia, com exploração de
contraponto e fuga, exemplificada por Johann Sebastian Bach
e Georg Friedrich Händel.
Arquitetura: Caracterizada por pompa e grandiloquência, com
reentrâncias, ornamentos, saliências e modulações em curvas,
como nas obras de Francesco Borromini e do brasileiro
Aleijadinho.
Literatura: Recusa de vocábulos populares, escrita
aristocrática, empolada, obscura, mística e opulenta. Duas
vertentes se destacam:
o Cultismo ou Gongorismo: Preciosismo vocabular,
linguagem ornamental, jogos sonoros e sintáticos (ex:
Luis de Góngora).
o Conceptismo ou Quevedismo: Ênfase na exploração de
conceitos e ideias, atenção aos conteúdos temáticos (ex:
Francisco de Quevedo).
Barroco em Portugal: Panorama e Características
O Barroco português foi fortemente influenciado pelo
desenvolvimento desse estilo na Espanha. Após a morte de D.
Sebastião na batalha de Alcácer-Quibir (1578) e o breve reinado do
Cardeal D. Henrique, a dinastia de Avis chegou ao fim, levando
Portugal ao domínio espanhol por 60 anos (período filipino). Essa
união intensificou as trocas culturais e a influência barroca
espanhola.
A produção literária portuguesa desse período foi marcada por um
teor sebastianista e anticastelhano, reivindicando a
autonomia portuguesa. Havia uma mistura de forças antagônicas:
Uma estrutura feudal tardia e uma cultura cristã medieval
sob o domínio da Contrarreforma jesuítica.
A presença de cristãos-novos e uma burguesia comercial
crescente, impulsionando o comércio e o capitalismo.
Essa dualidade resultou em uma literatura que mesclava o profano
e o religioso, o satírico e o moralista, o passadista e o artificial. Os
temas abordados incluíam a finitude da vida, o desejo da
eternidade, as contradições do amor, a liberdade do
espírito versus a moralidade cristã, o apego ao passado
aristocrata, os arroubos da vida citadina burguesa, a
sensualidade da carne e a espiritualidade.
A poesia barroca portuguesa foi marcada pelo surgimento de
academias literárias e pela influência da lírica espanhola
(gongorismo), refletindo o espírito da corte sob domínio espanhol.
As coletâneas da época, como Fênix Renascida, revelam uma
poesia que, apesar de formalmente elaborada, muitas vezes
pecava por artificialismos e falta de inovação.
Autores e Obras Marcantes
Padre Antônio Vieira (1608-1697): Considerado o maior
autor da literatura barroca portuguesa, um dos maiores
intelectuais da língua portuguesa.
Sóror Mariana Alcoforado (1640-1723): Autora das Cartas
portuguesas, que revelam a tensão entre a paixão e a vida
conventual, representando a sociedade conservadora
portuguesa da época.
Rodrigues Lobo (1580-1622): Viveu na dinastia filipina e
produziu obras com forte influência hispânica, como Corte na
Aldeia, que absorve influências barrocas e as incorpora ao
espírito português.
Padre Manuel Bernardes (1644-1710): Escreveu Nova
Floresta, retratando o espírito religioso e o culto das virtudes da
fé.
Francisco Manuel de Melo (1608-1666): Vasta obra que
inclui teatro, biografias e poesia. Destaca-se sua Carta de guia
de casados, com um tom irônico e bem-humorado.
Antônio José da Silva, "O Judeu" (1705-1739): Teatrólogo
inovador, escreveu peças em prosa (óperas) com forte
influência da comédia renascentista espanhola e francesa,
marcadas pelo riso e pela sátira. Perseguido e morto pela
Inquisição.
Frei Antônio das Chagas (1631-1682): Produziu obra em
prosa e verso com traços barrocos, como os poemas de
circunstância e as Cartas espirituais. Seu soneto Conta e Tempo
exemplifica a dualidade entre vícios humanos e virtudes
divinas, tema recorrente na lírica barroca.
Em suma, o Barroco em Portugal foi um reflexo das profundas
contradições de uma sociedade em declínio, dividida entre uma
aristocracia agonizante e uma burguesia emergente, mas ainda
dependente do ouro das colônias e do comércio.
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Aula 2 - As características barrocas da obra do Padre
Antônio Vieira
Padre Antônio Vieira (1608-1697) foi uma figura proeminente do
período barroco, com uma vida marcada por sua atuação política e
religiosa no Brasil e em Portugal. Jesuíta, orador e escritor, Vieira
se destacou por sua defesa dos cristãos-novos e dos povos
ameríndios, o que lhe rendeu perseguições e exílios.
Características da Escrita Barroca de Padre Antônio Vieira
A obra de Vieira é considerada um exemplo notável do Barroco,
especialmente por sua "retórica da agudeza" ou conceptismo.
Suas principais características incluem:
Engenho e Jogo de Ideias: Vieira era um "ourives da
palavra", manipulando-a de forma engenhosa para criar
raciocínios persuasivos. Ele explorava a etimologia, a
sonoridade, as repetições e os múltiplos significados das
palavras, construindo associações surpreendentes. O objetivo
não era apenas a lógica dedutiva, mas a persuasão através da
beleza e do impacto estético do texto.
"Desempenho" do Texto: Uma técnica central em sua escrita
era o "desempenho" do texto bíblico. Ele não apenas
comentava os trechos, mas os "desempenhava", isolando
termos e explorando suas possibilidades de sentido para revelar
"mistérios" e "conceitos" ocultos na palavra.
Cultismo e Conceptismo: Sua escrita exibe tanto o cultismo
(uso de metáforas e hipérboles) quanto o conceptismo (jogo
de ideias encadeado por um raciocínio "lógico", que na verdade
era uma construção engenhosa).
Função Persuasiva: A principal função de seu discurso era a
persuasão para a fé católica. Embora utilizasse artifícios
literários complexos, Vieira adaptava sua linguagem para que
seus sermões fossem compreendidos por um público diverso
como os analfabetos, buscando a catequização.
Oposição Simétrica e Repetição: Vieira utilizava "leis da
repetição, da simetria e da oposição" na construção de suas
frases e ideias, frequentemente explorando pares de antônimos
("boca e mão", "ver e ouvir", "cair e subir").
O Sermão da Sexagésima como exemplar Barroco
Considerado uma de suas obras mais representativas, o Sermão
da Sexagésima é um exemplo claro das técnicas barrocas de
Vieira.
Tema Metalinguístico: O sermão aborda a própria pregação
do Evangelho, utilizando a parábola do semeador de São
Lucas como metáfora central. A semeadura é comparada à
pregação, e as sementes desperdiçadas, aos ouvintes que não
são tocados pela palavra de Cristo.
Analogias e Silogismos: Vieira utiliza analogias e silogismos
para explicar a necessidade de pregador, ouvinte e graça
divina para a conversão, comparando-os a espelho, olhos e
luz para a autocompreensão.
Crítica aos Pregadores: O sermão também serve como uma
crítica aos pregadores de seu tempo, abordando cinco
circunstâncias essenciais para a evangelização:
1. A Pessoa: O pregador deve pregar por suas ações e
exemplo, não apenas por palavras.
2. A Ciência: O pregador deve ensinar o que sabe, sem
recorrer a conhecimentos alheios.
3. A Matéria: O sermão deve ter uma matéria única para
não confundir os ouvintes.
4. O Estilo: O estilo deve ser claro, fácil e natural,
comparado à própria natureza.
5. A Voz: A persuasão deve ser branda e razoável, tocando
o coração em vez de gritar ou incutir medo.
Influências: Vieira resgata a oratória medieval com a
construção de alegorias para comentários bíblicos, adaptando-a
com o "discurso engenhoso" do século XVII, típico da prosa
barroca ibérica.
Vieira e Baltasar Gracián
Vieira e o jesuíta espanhol Baltasar Gracián (1601-1658)
compartilhavam a valorização do engenho e da agudeza na
escrita. No entanto, havia uma distinção crucial:
Para Gracián, o objetivo dos "efeitos" da agudeza era estético,
buscando o Belo.
Para Vieira, embora utilizasse artifícios estéticos, sua finalidade
era a construção de uma Verdade e a revelação da palavra de
Deus, convencendo os ouvintes.
Padre Antônio Vieira é considerado um autor fundamental para a
língua e a literatura portuguesa devido à sua inovação linguística e
à maestria no uso da palavra, que se aproxima da concepção de
que a escrita literária é uma arte em si, e não apenas um veículo
para ideias. Sua obra, com sua geometria de opostos e o
desdobramento da palavra, revela mistérios e conceitos,
acendendo o divino.
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Aula 3 – O Arcadismo em Portugal
Aqui, abordamos o Arcadismo em Portugal, contextualizando-o
dentro do Iluminismo europeu do século XVIII. O Iluminismo,
impulsionado pelo desenvolvimento industrial na Inglaterra,
promoveu o elogio da razão, a revisão do conhecimento, o
ensino laico, a liberdade individual e a igualdade social, em
oposição ao poder da Igreja e dos Estados absolutistas. Pensadores
como Voltaire, Rousseau e Adam Smith foram cruciais para essa
época.
Contexto do Arcadismo em Portugal
Em Portugal, o Marquês de Pombal, ministro de D. José, foi um
grande defensor das ideias iluministas. Ele promoveu reformas
políticas, educacionais e culturais, substituindo o ensino religioso
pelo burguês e fortalecendo o Estado. O Padre Luís Antônio Verney
também foi influente, defendendo a educação laica, o governo
assentado na opinião pública e o fim das ações da Inquisição, além
de criticar a "retórica da agudeza" barroca. No entanto, após a
morte de D. José e a queda de Pombal, Portugal viu um retorno do
poder da nobreza e da Igreja, gerando uma tensão histórica com o
restante da Europa.
Características do Arcadismo em Portugal
O Arcadismo português floresceu nesse cenário de tensões. Ele se
contrapôs ao Barroco, trocando as referências eclesiásticas pela
cultura clássica greco-romana, com Horácio sendo uma grande
inspiração. Seus princípios estéticos incluíam:
Harmonia das formas, verossimilhança e ideal da razão
em busca do belo.
Equilíbrio das emoções (despersonalização lírica).
Temas como a vida no campo (fugere urbem), a
contemplação calma da natureza (locus amoenus), a
simplicidade (aurea mediocritas) e a eliminação do
supérfluo (inutilia truncat).
As academias literárias foram importantes para o movimento,
como a Arcádia Lusitana (fundada em 1756) e, posteriormente,
a Nova Arcádia (1790). Essas academias eram compostas por
uma burguesia ilustrada e seguiam regras rígidas, com forte
apego aos modelos clássicos. Os poetas árcades usavam
pseudônimos latinos como forma de buscar um ideal de
simplicidade e apagar suas origens sociais. A linguagem arcádica
buscava a clareza e a simplicidade, substituindo o
rebuscamento barroco.
Principais Nomes e Obras
Alguns dos nomes importantes da Arcádia Lusitana foram
Antônio Dinis da Cruz e Silva, Correia Garção (Coridón Erimanteu),
e o Padre José Freire (Cândido Lusitano), que sistematizou os
princípios da academia em sua Arte poética. Outros poetas
relevantes, como Reis Quita (Alcino Menécio), Nicolau Tolentino de
Almeida (com sua obra satírica), e Manuel de Figueiredo (Lícidas
Cíntio), que foi um grande dramaturgo neoclássico, também se
destacaram.
Destaque: Manuel Maria Barbosa du Bocage
Bocage (Almano Sadino), um dos maiores expoentes do
Arcadismo português e membro da Nova Arcádia, ficou conhecido
por seus temas satíricos, erotismo e humor. Sua fase lírica,
com desilusão amorosa e dramas existenciais, o tornou um
precursor do Romantismo em Portugal. Seu soneto "Convite à
Marília" exemplifica as características árcades, com a valorização
do ambiente bucólico (fugere urbem, locus amoenus), a
simplicidade (aurea mediocritas) e a linguagem clara, além de
referências mitológicas. Bocage foi perseguido e preso pela
Inquisição por suas ideias e poemas políticos.
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Tema 3 – Humanismo e Classicismo em Portugal
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Aula 1 - Características do Humanismo português e do teatro
vicentino
O Humanismo Renascentista Português
O Renascimento português, entre a segunda metade do século XV
e as primeiras décadas do século XVI, foi um período de crise de
valores, marcado por rupturas e continuidades entre a
Escolástica, o Humanismo e o Racionalismo pragmático-
experiencial (Cultura dos Descobrimentos).
O Humanismo em Portugal, embora tardio e em constante tensão
com a cultura medieval, buscou restaurar textos latinos e
gregos. No entanto, demonstrou pouco interesse pela Física e
desdém pela prática, focando na erudição livresca. Uma nata
intelectual, formada por estudantes portugueses em universidades
europeias, impulsionou o movimento, com a criação do Real
Colégio das Artes em Coimbra (1537) sendo um marco.
A Contrarreforma, a Inquisição e a Companhia de Jesus foram
cruciais para o declínio do Humanismo, pois se opuseram ao
progresso científico e impuseram o ensino escolástico, afastando
Portugal das principais correntes intelectuais europeias.
A Cultura dos Descobrimentos
Paralelamente, a "Cultura dos Descobrimentos", ou "Sabedoria do
Mar", representou um racionalismo pragmático. Ela se dividiu
em:
Campo técnico-prático: com a ciência náutica e instrumentos
de precisão.
Campo teórico-positivo: com estudos em Matemática,
Astronomia, Geografia, Medicina, Zoologia e Botânica.
Campo etnológico-prático colonial: com informações sobre
Antropologia e Geografia colonial.
Os Descobrimentos transformaram o oceano em uma via de
comunicação planetária, sendo uma vanguarda ibérica que
permitiu uma universal acumulação de bens materiais e espirituais
para a Europa.
Gil Vicente e o Teatro Vicentino
Gil Vicente (c.1465 - c.1536), dramaturgo e poeta português, é
considerado o pai do teatro português. Sua obra vasta e
intensa, produzida para as cortes de D. Manuel, D. Leonor e D. João
III, foi compilada postumamente por seus filhos.
Suas obras são classificadas em farsas, autos de enredo e
autos de atualidade (satíricos e alegórico-críticos). O teatro
vicentino foi influenciado por autores castelhanos como Juan del
Encina e Lucas Fernández, especialmente na associação do
cômico e do sério e no uso de recursos musicais. Gil Vicente
expandiu o papel do pastor no teatro, tornando-o uma personagem
aberta.
Apesar de viver em uma época de transição, Gil Vicente é visto
como um "espécie-medieval" por alguns críticos, com uso modesto
da cultura greco-romana e alheio às preocupações da expansão
marítima, focando mais nos efeitos perniciosos.
Visão de Mundo e Personagens
A crítica de Gil Vicente pode ser dividida em:
"Mundo Sagrado": Compartilhava do pensamento medieval,
influenciado pelo fanatismo religioso de D. João III, com uma
visão platônica de dois mundos (eterno/imutável e
perecível/finito), e uma representação negativa do judeu.
"Mundo dos Homens": Analisava criticamente a sociedade
em suas farsas, como Inês Pereira e Juiz da Beira, e em textos
como o Sermão de 1506 e a Carta a D. João III.
Seus personagens são tipos (abaixo da alegoria e acima do
individual), como a Morte em forma de esqueleto ou a Preguiça
dormindo. Há também figuras fortemente idealizadas, como Inês
em Farsa de Inês Pereira, cujo nome (Agnes: pura, santa) já é uma
ironia.
Unidade Dramática e Simbolismo
Gil Vicente, segundo alguns críticos, não alcançava uma unidade
dramática completa, com predominância de tipos e casos sobre
caracteres e dramas. Seu teatro era mais romanesco (narra
sucessivos acontecimentos, descrevendo tipos) do que dramático
(põe à prova um indivíduo em uma situação).
O simbolismo era uma característica forte, herdada da Idade
Média. Suas peças estão repletas de alegorias (representações
plásticas de símbolos), como a Fama favorecendo Portugal ou a
intervenção de deuses mitológicos. A peça A Frágua do Amor é um
exemplo de como o simbolismo e a alegoria podiam se misturar
com a sátira.
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Aula 2 – Aspectos ecdóticos (crítica textual), estilísticos e
temáticos da lírica camoniana
O texto aborda a lírica camoniana no contexto do Classicismo
em Portugal (século XVI), destacando os desafios ecdóticos
(crítica textual) e as principais temáticas do poeta: o amor
petrarquista e o desconcerto do mundo.
Luís Vaz de Camões e o Classicismo em Portugal
Luís Vaz de Camões é a figura central do Classicismo e
Renascimento ibérico. Embora muitos detalhes de sua vida
sejam incertos e baseados em conjecturas, sabe-se que foi
soldado, sofreu exílios e prisões, e publicou Os Lusíadas em
1572. A autenticidade de muitos de seus poemas líricos é um
desafio para a Ecdótica (ciência que busca restituir a forma
original de um texto), devido à perda de manuscritos e alterações
posteriores, o que levou a esforços para estabelecer um "cânone
mínimo" de sua obra lírica.
Aspectos Estilísticos e Temáticos da Lírica Camoniana
A lírica camoniana se caracteriza por:
A Figura Feminina Petrarquista e o Neoplatonismo
Petrarquismo: Camões foi profundamente influenciado pelo
petrarquismo, especialmente pela "hipercodificação bembesca"
de Pietro Bembo. No século XVI, a "originalidade" era entendida
como a capacidade de imitar e reorganizar modelos
reconhecidos.
Idealização da Mulher: A mulher amada é retratada de forma
angelical e espiritualizada, desprovida de conflitos, seguindo
os padrões de Laura de Petrarca e Beatriz de Dante. Ela eleva a
alma do poeta. O soneto "Alma minha gentil, que te partiste" é
um exemplo dessa idealização neoplatônica, onde a amada,
agora no céu, serve de inspiração e apelo.
Dualismo Platônico: Essa concepção de amor intensifica o
dualismo platônico, evidente no soneto "Amor é fogo que arde
sem se ver", que explora as oposições entre matéria e espírito,
sensível e inteligível, finito e infinito.
O Desconcerto do Mundo
Temática Maneirista: Camões aborda o "desconcerto do
mundo", uma temática maneirista que expressa a
incomensurabilidade e o desajuste entre as exigências
íntimas da vida pessoal e a realidade.
Destino Confuso e Irracional: Para Camões, o desconcerto é
resultado de um destino irracional, onde os bons sofrem e os
maus prosperam, gerando uma não correspondência entre
valores e realidade. O poema "Os bons vi sempre passar" ilustra
essa ideia de que "só para mim, Anda o Mundo concertado".
Desilusão Existencial: Essa temática reflete a própria
experiência do poeta e sua relação com um destino opaco. O
soneto "O dia em que eu nasci, morra e pereça" exemplifica
essa desilusão, amaldiçoando o dia do nascimento por conta
da vida desgraçada.
A lírica de Camões, portanto, sintetiza a tradição peninsular com a
influência italiana e espanhola, explorando as tensões entre a
idealização do amor neoplatônico e a amarga percepção do
desajuste do mundo.
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Aula 3 - Planos e a estrutura de Os Lusíadas
O texto explora a epopeia Os Lusíadas, de Luís Vaz de Camões,
sob duas perspectivas principais: o plano da história e o plano
do maravilhoso, além de detalhar a estrutura formal e os
excursos da obra.
Planos de Os Lusíadas
O Plano da História
Em Os Lusíadas, a história é apresentada como uma "verdade
selecionada" com finalidade moralizante, seguindo a concepção
quinhentista de João de Barros e Tito Lívio. Há um tom
supranacionalista e de exaltação da "guerra justa",
celebrando os feitos do povo português, especialmente contra os
"infiéis". Exemplos incluem:
Nascimento de Portugal: Exaltação de Viriato e a falsa
etimologia de "vir".
Batalha de Ourique (1139): Narrada com a desproporção dos
exércitos, o milagre de Cristo aclamando Afonso Henriques rei e
a origem dos cinco escudetes no brasão português.
Batalha de Aljubarrota (1383-1385): Consolidou a
independência de Portugal frente aos castelhanos, com Camões
enaltecendo a fé e o esforço português.
Batalha de São Mamede: Camões compara D. Teresa à
Medeia por sua ação contra o filho D. Afonso Henriques,
destacando a importância da veneração aos pais.
Episódio de Inês de Castro: Mistura o épico e o lírico,
descrevendo a felicidade de Inês, a covardia dos executores e a
lenda da "fonte dos amores" na Quinta das Lágrimas, que
simboliza as lágrimas derramadas.
O Plano do Maravilhoso
O plano do "maravilhoso" em Os Lusíadas se baseia na utilização
dos deuses greco-latinos, comum no Renascimento. A mitologia
serve como ornamentação e, por vezes, tem intenção irônica.
A Ilha dos Amores: Este episódio central (20% da obra) é
interpretado como o "fruto proibido" e tem sido alvo de
tentativas de identificação geográfica por escoliastas, embora
muitos a considerem uma ilha fantástica. Possui ecos de
descrições clássicas como os Jardins de Alcínoo (Odisseia) e o
Somnium Scipionis de Cícero.
Significado Alegórico da Ilha: O episódio começa com
Cupido (filho de Vênus) organizando uma expedição para punir
homens que amam coisas materiais em vez de usá-las,
ressaltando um tema neoplatônico de amor como princípio
unificador. A ilha e as Ninfas representam os prêmios e a
imortalização pela glória para os navegantes, refletindo o ideal
quinhentista da virtu.
Segredos do Mundo Ignoto: A deusa Tétis não apenas se une
a Vasco da Gama, mas também revela à nação portuguesa os
"segredos do mundo ainda ignoto", incluindo a Máquina do
Mundo (descrição do sistema geocêntrico ptolomaico) e as
futuras conquistas marítimas de Portugal.
Estrutura e Estilo
Os Lusíadas é uma epopeia dividida em dez cantos, composta por
oitavas (rima ababcc) e versos predominantemente
decassílabos.
Personagens
A obra apresenta uma vasta gama de personagens:
Da Viagem: Os portugueses (os Lusíadas), Vasco da Gama,
Velho do Restelo, entre outros.
Da História: D. Afonso Henriques, D. Nuno Álvares, Inês de
Castro.
Da Mitologia: Júpiter, Vênus, Baco, Marte, Netuno, Adamastor,
Tétis, Ninfas e Cupido.
Os Excursos do Poeta
Os excursos (digressões) permitem que o narrador-poeta se
desvie do tema principal, revelando uma perspectiva maneirista e
crítica aos valores políticos e sociais de sua época. Os Lusíadas é
uma obra complexa, com características tardo-góticas, clássicas e
que antecipa o Maneirismo e o Barroco.
Alguns excursos importantes são:
1. Proposição (Canto I): O poeta expõe o tema, um herói
coletivo – o povo português.
2. Invocação (Canto I): Camões pede inspiração às ninfas do
Tejo ("Tágides"), transferindo a mitologia grega para Portugal.
3. Dedicatória (Canto I): Dedicada a D. Sebastião, com tom
elogioso, afirmando a verdade dos feitos portugueses sobre as
"façanhas fingidas" de outras epopeias.
4. O Homem, um "bicho da terra tão pequeno" (Canto I):
Reflexão sobre a fragilidade da vida humana.
5. Canto o "louvor e a justa glória" dos heróis portugueses?
(Canto V): O poeta lamenta a falta de mecenas em Portugal
para a poesia épica, queixando-se da desvalorização da arte.
6. A Onipotência do Dinheiro (Canto VIII): Crítica à ganância e
ao interesse financeiro, exemplificado pela prisão de Vasco da
Gama.
7. O Poeta Conselheiro (Canto X): O poeta aconselha D.
Sebastião a governar com humanidade e a manter a dignidade
de Portugal perante outras nações europeias.
Argumento dos Dez Cantos
A obra começa in media res (em plena ação) com a armada de
Vasco da Gama. O Concílio dos Deuses decide o destino dos
portugueses, com Baco se opondo à viagem e Vênus, Marte e
Mercúrio a favor. A narrativa de Vasco da Gama ao rei de Melinde
ocupa parte significativa da epopeia, cobrindo a história de
Portugal desde a fundação até o início da viagem. O quinto canto
apresenta o episódio do Adamastor. O sexto descreve a
tempestade incitada por Baco e a intervenção de Vênus. Os cantos
finais (IX e X) culminam na Ilha dos Amores e na revelação da
Máquina do Mundo por Tétis a Vasco da Gama, profetizando as
futuras conquistas portuguesas.
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Tema 4 – Primeira Geração Romântica em Portugal
O Contexto do Romantismo em Portugal e na Alemanha
O Romantismo, como movimento cultural e filosófico, emergiu em
um cenário de profundas transformações políticas e ideológicas,
tanto em Portugal quanto na Alemanha. Ambos os países
vivenciaram contextos históricos distintos que moldaram as
particularidades de suas expressões românticas.
Romantismo em Portugal: Entre Revoluções e Ideais
Liberais
Em Portugal, o Romantismo floresceu durante um período
turbulento conhecido como "Anarquia Espontânea" (1777-1834),
marcado pelo reinado de D. Maria I e pela Guerra Civil. A fuga da
família real para o Brasil, a pressão de Inglaterra e França e a
subsequente Guerra Civil (1832-1834) entre liberais (partidários
de D. Pedro I) e absolutistas (partidários de D. Miguel) deixaram
o país fragilizado.
A partir de 1820, os ideais de liberdade, igualdade e fraternidade
da Revolução Francesa começaram a influenciar Portugal,
impulsionando a busca por uma "civilização liberal". Com o triunfo
dos liberais em 1834 e a ascensão de D. Maria II ao trono, foram
feitas tentativas de reformar o ensino e criar instituições culturais,
como academias de belas-artes e conservatórios, para promover o
aperfeiçoamento moral do país. O político liberal Passos Manuel
foi fundamental nessas reformas.
Apesar da consolidação do estado liberal, a influência do
conservadorismo miguelista e de setores retrógrados da Igreja
ainda persistia. Escritores como Alexandre Herculano e Almeida
Garrett, figuras centrais do início do Romantismo português,
criticavam o absolutismo e os preconceitos arraigados, defendendo
a modernização e a instrução pública. Herculano, mais ligado ao
rigor historicista, e Garrett, com uma postura religiosa, romântica e
liberal, foram os primeiros a difundir as ideias românticas em
Portugal, embora com abordagens distintas.
Romantismo Alemão: A Afirmação de uma Identidade
Cultural
Na Alemanha, o Romantismo teve um desenvolvimento filosófico
singular. Diferente de Portugal, a Alemanha do Século das Luzes
(Aufklärung/Iluminismo) esteve culturalmente à sombra da França,
com pensadores como Leibniz escrevendo em francês e a corte de
Frederico, o Grande, espelhando a francesa. Além disso, a cultura
alemã se distanciou da italiana (Renascença), focando na Reforma
Protestante e na vida religiosa.
O Sturm und Drang ("tempestade e ímpeto"), um movimento
pré-romântico, já demonstrava uma rebelião contra o Classicismo
francês e valorizava os ideais germânicos, com destaque para o
conceito de gênio como valor máximo.
No Romantismo, a Alemanha alcançou sua maturidade cultural.
Immanuel Kant, que com seu ensaio O que é a Aufklärung?
questionava a "menoridade" do homem, privilegiando o
racionalismo e a busca pela autonomia. No entanto, o Romantismo
alemão representou uma contracorrente a esses ideais iluministas.
O romance Os Sofrimentos do Jovem Werther, de Goethe, enfatiza
o "sentimento é tudo", valorizando a intuição e a irracionalidade
em oposição à primazia da razão cartesiana e kantiana.
A Filosofia de Fichte, com sua obra Teoria da Ciência, serviu de
base para os irmãos Schlegel (August Wilhelm e Friedrich), que
lançaram as ideias do movimento romântico. Fichte defendia a
compreensão da realidade por uma dialética interna do Eu, com
uma fonte inconsciente de representações. Essa ênfase no
inconsciente antecipou aspectos do pensamento psicanalítico.
Outros nomes importantes do Romantismo alemão, como Novalis,
Tieck, Schleiermacher e Schelling, também partiram das ideias de
Fichte. Schelling, em particular, buscava um princípio
incondicionado para explicar a realidade, destacando a ideia de
inconsciente, a vida como força impulsionadora da natureza
e o artista-gênio que intui diretamente as coisas.
Embora houvesse pontos de contato com o Classicismo iluminista,
o Romantismo alemão apresentava uma atmosfera vagamente
religiosa, com Novalis propondo uma "religião do Romantismo".
Essa busca por uma explicação total e a proximidade com ideais
místicos caracterizaram os filósofos românticos alemães.
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Aula 2 – Característica das obras de Garrett e Herculano
As Obras de Almeida Garrett e Alexandre Herculano:
Pilares do Romantismo Português
Almeida Garrett e Alexandre Herculano foram figuras centrais do
Romantismo em Portugal, cada um com características distintas
que moldaram a literatura e o pensamento de sua época. Ambos
buscaram, à sua maneira, refletir sobre a identidade e os desafios
de Portugal em um período de transição.
Almeida Garrett (1799-1854): A Renovação da Cultura
Portuguesa
João Batista Leitão de Almeida Garrett foi um dos nomes mais
significativos da literatura portuguesa. Nascido no Porto e formado
em Direito em Coimbra, sua vida foi marcada pela participação
política e por exílios devido às conturbadas mudanças em Portugal.
Consciente da crise de identidade do país, Garrett dedicou-se a um
programa estético para reconstruir a cultura portuguesa,
investindo na educação e na formação de uma elite cultural
através do Conservatório e do Teatro Nacional.
Embora influenciado pelo Iluminismo, Garrett adotou o estilo
romântico, mas com uma visão crítica aos seus aspectos
retrógrados. Sua obra poética, que transita do arcádico-filintista ao
iluminista-romântico, destaca-se por:
Camões: Obra que faz referência ao bardo lusitano, explorando
o exotismo medieval, o instinto de liberdade, a melancolia, o
amor pela solidão e o individualismo.
Folhas Caídas: Considerada sua maior maturidade poética,
esta obra é marcada por um "eu" lírico teatral e por poemas
que exploram tensões e antíteses, como em "Não te Amo" (que
discute o dualismo entre amor e desejo, alma e corpo) e "Gozo
e Dor" (que aborda a contradição entre prazer e sofrimento).
Nesses poemas, Garrett explora o irracionalismo e o conflito dos
sentimentos, embora com uma "pose" que, segundo Vechi, por
vezes sufoca a sinceridade.
Na prosa de ficção, Garrett legou obras importantes:
O Arco de Sant’Ana (1845 e 1850): Um romance histórico
inspirado em Walter Scott, que alia medievalismo, nacionalismo
e intriga amorosa, mas se distancia do modelo de Scott pelas
contínuas digressões do autor. A trama central envolve um
amor "culpado" e a revelação de segredos familiares em um
contexto de intrigas políticas no Porto medieval.
Viagens na Minha Terra (1846): Esta obra apresenta uma
unidade temática profunda, mas com uma estrutura
fragmentada, influenciada por Laurence Sterne. É uma
articulação de elementos heterogêneos da realidade, vistos,
ouvidos, pensados e sentidos pelo narrador. A novela A Menina
dos Rouxinóis, inserida na obra, utiliza personagens como
Carlos (símbolo do Portugal contemporâneo), Frei Dinis (valores
tradicionais), Joaninha (Portugal ingênuo e telúrico) e Francisca
(a imprudência do liberalismo) para criticar o liberalismo
triunfante e a incapacidade de seus defensores de servirem aos
interesses do país, repetindo os erros do absolutismo. Garrett
expõe a oposição entre materialismo e espiritualismo, e sua
crítica aos "barões" reflete a decepção com a nova elite
burguesa.
No teatro, Garrett teve uma fase clássica e uma romântica, sendo
Frei Luís de Sousa (1844) sua obra-prima. Estruturada como
uma tragédia grega em três atos, a peça narra o conflito de Dona
Madalena de Vilhena, casada em segundas núpcias com Dom
Manuel, sem certeza da morte de seu primeiro marido, Dom João
de Portugal, desaparecido em Alcácer-Quibir. O retorno de Dom
João como o Romeiro desvela a identidade e leva a um desfecho
trágico, com a morte de Maria (filha de Madalena e Manuel) e o
"morrer para o mundo" dos pais. A peça explora a transição de
espaços profanos para sagrados e condensa 21 anos de história
em sua representação. As personagens, como Manuel de Sousa
Coutinho (coragem e patriotismo), Dom João de Portugal
(vingança), Telmo Pais (sabedoria pela experiência), Madalena
(mulher culta e sensível em conflito) e Maria (precoce e intuitiva),
são essenciais para o desenvolvimento da tragédia.
Alexandre Herculano (1810-1877): O Historiador-
Romancista
Alexandre Herculano de Carvalho e Araújo foi uma figura
proeminente do Romantismo português, com intensa participação
política e intelectual. Lutou contra as invasões estrangeiras e o
absolutismo de D. Miguel, e embora liberal, divergiu dos rumos do
setembrismo.
Sua carreira de escritor começou com a poesia, mas foi na prosa
de caráter histórico que se destacou, enfrentando problemas
com o Clero devido às suas investigações. Herculano conciliou o
imaginário com o rigor histórico em suas obras de ficção,
abrangendo novelas, contos e romances:
O Bobo (1843): Romance histórico ambientado nas lutas entre
D. Teresa e D. Afonso Henriques. Interpenetra figuras históricas
e ficcionais, explorando intrigas políticas e amores, com a figura
do truão representando a liberdade da palavra medieval.
O Monasticon: Reúne romances como Eurico, o Presbítero e
O Monge de Císter.
o Eurico, o Presbítero: Aborda o problema do celibato
religioso em meio a uma intriga amorosa entre Eurico e
Hermengarda, paralela à queda do império visigótico
espanhol sob os árabes. A obra evoca valores idealizados
do mundo gótico e a lealdade histórica.
o O Monge de Císter: Explora os conflitos entre o celibato
e os impulsos humanos, como o amor e o ódio, através da
história de Frei Vasco, dividido entre a vingança e a
consciência moral.
Herculano também conciliava o catolicismo primitivo com as ideias
liberais. Seu conto A Abóboda (1839) é um exemplo. Ambientado
na construção do Mosteiro da Batalha, o conto denuncia a
decadência da religião e a submissão cultural, simbolizando a luta
entre o Portugal novo e o Portugal velho. Os personagens
principais – o Prior (crítica à ligação Igreja/Estado), o Irlandês
(crítica à submissão cultural e pecados humanos), D. João I
(valores do cavaleiro medieval adaptados ao liberalismo) e o
Cego/Mestre Afonso (ideais românticos e valores absolutos) –
representam classes e ideias, refletindo criticamente sobre o
presente através de um passado idealizado.
O recurso de Herculano ao histórico e ao medievalismo não se
reduzia a uma fuga, mas expressava o descontentamento com o
presente e a valorização das raízes da nacionalidade portuguesa
na Idade Média. Ele é reconhecido como um pioneiro das ficções
históricas em Portugal.
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Tema 5 - Segunda e terceira gerações do Romantismo em Portugal
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Aula 1 - O contexto e as características da segunda geração
romântica
O Romantismo e Suas Faces em Portugal: Conceito,
Contexto e a Geração Ultrarromântica
O Romantismo, mais que um estilo, é um período histórico e um
fenômeno cultural complexo e por vezes contraditório, marcado
por uma nova liberdade artística e por intensas mudanças
sociais. Em Portugal, o movimento chegou com certo atraso em
relação a outros países europeus, atrelado a marcos históricos
como a Revolução Liberal de 1820 (Revolução do Porto). Essa
época de transição gerou um "espírito do tempo" de busca por
afirmação individual e, na arte, um forte subjetivismo.
As transformações, como o progresso econômico e a urbanização
impulsionados pelas Revoluções Francesa e Industrial, não foram
uniformemente recebidas em Portugal. A esperança inicial de um
renascimento nacional transformou-se em decepção para os
espíritos mais idealistas, pois a prometida felicidade revolucionária
não se concretizou, e o liberalismo, para alguns, apenas
mascarava antigas práticas de desigualdade e corrupção.
No campo literário, o Romantismo português atendeu às
necessidades de uma burguesia letrada que via na arte um
instrumento de formação de identidade. Isso impulsionou a
ascensão do romance e a adoção de uma linguagem mais
coloquial e popular para alcançar um público amplo.
As características gerais do Romantismo incluem:
Liberdade de criação e culto à originalidade
Subjetivismo e individualismo
Idealização da mulher e sentimentalismo
Exaltação do belo e preferência por temas
tradicionais/nacionais
Adoção do novo modelo trágico (Shakespeare)
Efervescência de temas e estilos
Desejo de fuga (escapismo)
A Segunda Geração Romântica e o Ultrarromantismo
Enquanto a primeira geração romântica portuguesa focava no
nacionalismo e na busca por uma identidade, a segunda geração
se caracterizou por um sentimentalismo extremo, que a levou a
ser denominada Ultrarromantismo. Nela, a idealização da
mulher, o culto ao amor e o desejo de fuga atingem o ápice,
muitas vezes beirando o desequilíbrio e o exagero.
O desencantamento com a não concretização das promessas
revolucionárias resultou em melancolia e pessimismo. Obras
ultrarromânticas, como as de Soares de Passos, expressam esse
sentimento em ambientes sombrios, macabros e cemiteriais, onde
a morte se torna o último refúgio. O poema "Noivado do Sepulcro"
exemplifica essa atmosfera, com um amor que transcende a vida e
a noção de que o descanso só é alcançado na morte.
Esse cenário de desilusão deu origem ao "mal do século": um
estado de pessimismo extremo, desencanto, melancolia, tristeza,
tédio e até pensamentos autodestrutivos. Essa "doença" era vista
como consequência do vazio existencial deixado pelo
racionalismo iluminista, que, ao negar o mundo transcendente
e os valores religiosos, desprovou o mundo de sentido para os
artistas e a burguesia que consumia essa arte.
O herói ultrarromântico português reflete esse panorama. Ele é
uma figura não convencional, cujo valor reside mais na
expressão de seus sentimentos do que em suas ações.
Desarraigado e em busca de sentido em um mundo indiferente, ele
se volta para sua interioridade, buscando refúgio no fantasioso
(como o amor além-túmulo) ou manifestando insatisfação e
inadequação. Esse herói é frequentemente rebelde,
transgressor, autodestrutivo, e suas falhas e atos (inclusive
crimes) são consequência de um amor descomedido.
O Romance como Expressão da Burguesia e a Obra de
Camilo Castelo Branco
O romance tornou-se o gênero por excelência do Romantismo
português, adaptando-se à burguesia ascendente que o
produzia e consumia em massa. Essa demanda levou a uma
mercantilização da escrita e, por vezes, a um
comprometimento do nível estético, com a proliferação de
melodramas e clichês sentimentais.
Camilo Castelo Branco (1825-1890) é o maior expoente da
segunda geração romântica portuguesa e o primeiro autor a viver
exclusivamente de seus escritos. Sua vida pessoal, marcada por
paixões turbulentas e problemas judiciais (como o adultério que o
levou à prisão), reflete-se em suas obras, embora não sejam
estritamente autobiográficas. Foi na prisão que ele escreveu sua
obra-prima, Amor de Perdição.
As características da obra camiliana incluem:
O amor como religião: O herói de bom caráter encontra
redenção no amor irrealizável, impedido por distinções sociais
ou rivais. A mulher é idealizada como figura angelical ou
demoníaca, mas sempre uma representação do imaginário
masculino que eleva o amor ao sagrado.
Melodrama: Forte sentimentalismo, influenciado pelo pré-
romantismo inglês, com elementos como:
o Fatalismo: Um destino imutável que conduz ao
desespero.
o Isolamento: Espacial (seminários, prisões) ou emocional
(solidão diante de um mundo mesquinho).
o Hiperbolização do sentimento: O amor é o único
espaço de sentido, e sua reiteração intensa é uma forma
de realização.
o Negação do trágico clássico e reverência ao trágico
shakespeariano: Narrativas progressivas com conflitos e
exacerbações emocionais que culminam em desfechos
trágicos.
o Sentimentos contraditórios: Notadamente a tensão
entre razão e emoção.
Rejeição à literatura crítico-social: Camilo focou na
personalização de atitudes e sentimentos humanos (amor, ódio,
remorso), explorando vícios e virtudes sob uma perspectiva
individual, e não como resposta a questões sociais.
Amor de Perdição (1862) é a obra mais célebre de Camilo,
escrita na prisão. Inspirada em Romeu e Julieta e na própria vida
do autor, a trama narra o amor trágico entre Teresa
Albuquerque e Simão Botelho, impedido pela rivalidade familiar
e pelos casamentos arranjados.
O enredo, repleto de clichês românticos, prende o leitor com:
Amor irrealizável devido à rivalidade entre as famílias.
Culto ao amor idealizado, mantido em segredo e por cartas.
Casamento arranjado como obstáculo.
Exílio/isolamento (Teresa no convento, Simão na Índia).
Herói transgressor: Simão comete crimes em nome do amor.
Trágico/Fatalidade: Mortes por sofrimento (Teresa), febre
(Simão) e suicídio (Mariana, que se atira ao mar com o corpo de
Simão).
A vida e obra de Camilo se entrelaçam em um melodrama
sentimental. Sua habilidade em criar uma narrativa romanesca
fluida, próxima da linguagem jornalística, popularizou o romance
em Portugal. Mesmo com um final de vida trágico, Camilo Castelo
Branco permanece como um dos autores mais importantes da
literatura portuguesa, encapsulando o espírito do
Ultrarromantismo e a condição do "mal do século".
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Aula 2 - O contexto e as características da terceira geração
romântica
A Terceira Geração Romântica em Portugal: Entre a
Depuração e o Pré-Realismo
A terceira geração romântica em Portugal, também conhecida
como pré-Realismo, surgiu em meados do século XIX, buscando
depurar o Romantismo de seus excessos, especialmente o
sentimentalismo exagerado do ultrarromantismo. Embora Camilo
Castelo Branco já mostrasse sementes de uma descrição da
dinâmica social burguesa em suas obras, o objetivo dessa nova
fase era uma literatura mais social e engajada, abandonando
os exageros, mas mantendo a liberdade e autonomia de criação.
As mudanças em direção a uma arte mais realista foram
influenciadas por figuras como Victor Hugo e se manifestaram
nos centros culturais de Porto, Coimbra e Lisboa, com destaque
para a juventude acadêmica de Coimbra. Essa juventude,
educada em ideais liberais e progressistas, chocava-se com a
realidade das instituições que, na prática, eram hostis a um
liberalismo genuíno.
Com a consolidação do liberalismo em Portugal, a preocupação
com a liberdade de criação e a defesa de uma literatura nacional e
laica já não eram as prioridades. Novas questões, como as
desigualdades sociais geradas pelo avanço econômico e
tecnológico, tornaram-se urgentes, levando autores como João de
Deus e Júlio Dinis a reagir afetivamente a essas questões.
João de Deus (1830-1896): A Simplicidade na Poesia
Romântica
João de Deus, poeta nascido em Algarve, teve uma vida boêmia e
dificuldades financeiras antes de se dedicar à escrita e à
pedagogia. Sua poesia se contrapõe aos exageros
ultrarromânticos, buscando uma simplicidade, espontaneidade,
fluidez e "desatavio" nos versos. Embora ele afirmasse que suas
obras eram improvisos, a realidade era que eram cuidadosamente
lapidadas para alcançar ritmo harmonioso e naturalidade.
As principais características da poesia de João de Deus são:
Lírica amorosa desprovida de sentimentalismos
exacerbados: O amor é tratado de forma mais singela e, por
vezes, maliciosa e sensual, como em "Beijo na Face" e "Amores,
Amores", onde a voz feminina rompe com a imagem da mulher
casta e inalcançável do ultrarromantismo.
Temática do amor à mulher e a Deus: Influenciado por sua
formação católica, o amor a Deus é um tema recorrente, como
no soneto "Deus?".
Fluência rítmica e formalidade: Utiliza redondilhas
maiores ou versos decassílabos, conferindo um ritmo falado
que facilita a memorização e declamação.
Linguagem prosaica e identificável: Sua simplicidade não
se refere apenas ao rompimento com os exageros, mas também
a uma linguagem que permite aos leitores se identificarem e
compartilharem do sentimento.
João de Deus é visto como um reformador do Romantismo,
trazendo um "romantismo mais sadio" e deixando um legado na
poesia e na pedagogia, com a publicação de sua Cartilha
Maternal.
Júlio Dinis (1839-1871): O Romance de Costumes e o Amor
Transformador
Júlio Dinis, pseudônimo de Joaquim Guilherme Gomes Coelho, foi
médico e professor. Sua obra, influenciada pela educação inglesa,
destaca-se por seus romances de costumes, que se passam
predominantemente em espaços campesinos (com exceção de
"Uma Família Inglesa", ambientada no Porto urbano).
Em Júlio Dinis, o amor diverge do ultrarromântico: em vez de
loucura, ele representa elevação e aprendizado, sendo
comedido e condicionado pelo dever. O autor evitava excessos
por questões estilísticas e morais, escolhendo temas que não
ferissem sua sensibilidade. Acreditava no amor verdadeiro e
puro, cuja corrupção é causada por um desequilíbrio temporário,
restabelecido ao final da trama.
A melancolia é um elemento importante em suas narrativas,
como em A Morgadinha dos Canaviais, onde o protagonista
Henrique de Souselas busca a cura para seu desencanto e vazio
existencial no campo, encontrando na memória da infância e no
contato com Madalena e Cristina (mulheres de elevações morais)
um caminho de autoconhecimento e reconciliação com o futuro.
Dinis via a literatura como uma fonte educativa, promovendo a
esperança de um mundo "reencantado".
Os romances de Júlio Dinis também se aproximam do romance de
formação (bildungsroman), com o herói sendo moldado por
meio da aprendizagem. A reconciliação com o mundo
desencantado se dá através do amor verdadeiro e de um projeto
de modernização agrícola, exemplificando o ideal burguês de
sentido no trabalho e na produtividade.
Sua influência inglesa se manifesta no tempo lento e no caráter
popular e educativo de suas novelas, que imprimem a ética
burguesa, prudente e idealista em seus personagens. Se há
um desarranjo moral, ele é reparado pelo contato com pessoas de
caráter superior. O romance Uma Família Inglesa é um exemplo
claro dessa característica didática, registrando minuciosamente o
cotidiano burguês e suas virtudes.
Em suma, a terceira geração romântica, por meio de João de Deus
e Júlio Dinis, promoveu uma depuração do Romantismo,
buscando uma linguagem mais limpa e a representação de um
amor mais possível e transformador. Essa abordagem, que se
aproxima dos sentimentos reais e do cotidiano burguês, marcou
uma transição para o Realismo na literatura portuguesa.