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Ensaio

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A Reinvenção do Saber: Interdisciplinaridade e Metodologias Não Convencionais no Ensino da

Filosofia

O cenário educacional contemporâneo clama por uma profunda reformulação que transcenda
os modelos pedagógicos tradicionais, especialmente no ensino da Filosofia. Frequentemente
questionada por sua aparente inutilidade ou excessiva teorização, a Filosofia pode se tornar
uma disciplina vibrante e fundamental quando abordada por metodologias não convencionais
e um olhar interdisciplinar . Este ensaio propõe explorar a importância e a relevância da
interdisciplinaridade e das metodologias de ensino não convencionais no ensino da Filosofia,
definindo conceitos-chave como conhecimento disciplinar arbóreo e rizomático, a Teoria da
Complexidade de Edgar Morin e seus Sete Saberes, além de identificar seus pontos de
encontro com a Base Nacional Comum Curricular (BNCC) e o organizador curricular transversal.
A Estrutura do Conhecimento: Do Arbóreo ao Rizomático

Para compreender a necessidade de abordagens inovadoras, é crucial diferenciar as formas


como o conhecimento tem sido historicamente organizado e transmitido. O conhecimento
disciplinar tradicional é frequentemente comparado a uma estrutura arbórea, caracterizada
por ser compartimentalizada e hierárquica . Assim como uma árvore possui ramos distintos,
cada disciplina (Biologia, História, Matemática, etc.) desenvolveu suas próprias teorias,
métodos e conceitos, com pouca comunicação ou integração entre eles. Essa abordagem,
consolidada com a formação das universidades modernas e o impulso da pesquisa científica
nos séculos XIX e XX, resultou na fragmentação dos saberes . A hiperespecialização leva à perda
da capacidade natural de contextualizar o conhecimento, dificultando a percepção da realidade
em sua totalidade complexa. No ensino tradicional, o professor é o detentor do saber, e o
aluno, um recipiente passivo, focado na memorização, o que inibe a criação e a reflexão crítica.

Em oposição a essa visão fragmentada, surgem as abordagens que buscam a integração dos
saberes. A interdisciplinaridade emergiu em meados da década de 1960, na França e na Itália,
como uma crítica à compartimentalização das disciplinas . Ela se define como a interação e
integração entre diferentes disciplinas ou áreas do conhecimento, promovendo intercâmbios
reais e enriquecimentos mútuos. A interdisciplinaridade não dilui as disciplinas, mas mantém
sua individualidade enquanto as integra para permitir a compreensão de realidades complexas,
considerando múltiplos fatores . Seu objetivo é capacitar os alunos a enfrentar problemas
complexos do mundo real, fomentando uma visão globalizante da realidade. Em uma sala de
aula interdisciplinar, o professor atua como mediador, e os alunos se tornam parceiros ativos
no processo de construção do conhecimento, vivenciando um processo de descoberta, união e
liberdade em conhecer .

Indo além da interdisciplinaridade, a transdisciplinaridade busca uma compreensão mais


profunda, holística e sistêmica, que transcende as fronteiras disciplinares. Ela se concentra em
problemas complexos que exigem a colaboração de diversas áreas do conhecimento e da
sociedade para serem resolvido. Segundo Piaget, a transdisciplinaridade representa o nível
superior de integração, construindo um sistema total sem fronteiras sólidas entre as disciplinas
A metáfora do conhecimento rizomático complementa essa visão de integração. Ao contrário
da estrutura arbórea, o rizoma representa uma rede interconectada de conhecimentos, sem
hierarquias fixas ou um centro definido .Essa abordagem enfatiza a multiplicidade, a
flexibilidade e a interconexão, refletindo a natureza dinâmica e fluida do saber . O trabalho
interdisciplinar e transdisciplinar no Ensino Médio, especialmente no ensino de Filosofia,
quando realizado com clareza e coerência, promove uma educação integral e eficaz do
educando .

Edgar Morin e a Teoria da Complexidade: Religando os Saberes

A busca por uma educação que prepare os indivíduos para um mundo complexo encontra um
de seus pilares mais robustos na Teoria da Complexidade de Edgar Morin. Para Morin, o
pensamento complexo questiona o paradigma da razão e da ciência como os únicos modos de
interpretar a realidade, buscando religar os conhecimentos dispersos e integrar as culturas
científica e humanística . Ele define complexidade como “o que é tecido junto”, algo que abraça
e interliga todas as coisas, em oposição à fragmentação e ao reducionismo do pensamento
simplificador

A Teoria da Complexidade de Morin se fundamenta em três teorias da década de 1940: a


Teoria da Informação, a Cibernética e a Teoria dos Sistemas. A Teoria da Informação lida com a
transmissão de sinais e a gestão da incerteza . A Cibernética, por sua vez, estuda os processos
de comunicação e controle, introduzindo o conceito de retroação ou feedback, rompendo com
a causalidade linear e inaugurando a ideia de “anel recursivo”. A Teoria dos Sistemas destaca
que o todo é mais que a soma das partes devido a qualidades emergentes, mas
também/menos que a soma das partes porque algumas qualidades podem ser inibidas pela
organização do conjunto . Morin amplia essa visão, incorporando a ideia de auto-organização e
três princípios fundamentais: Princípio Dialógico: Indica a coexistência necessária de
contrários, como ordem e desordem, vida e morte, sabedoria e loucura, que são inseparáveis e
complementares . Ao contrário da dialética hegeliana, que busca resolver contradições, o
princípio dialógico as mantém, pois são o motor da realidade

Princípio Recursivo: Enfatiza que produtos e efeitos são também produtores e causas daquilo
que os gerou, em um movimento circular e inovador (por exemplo, a sociedade produz o
indivíduo, que por sua vez, produz a sociedade)

Princípio Hologramático: Afirma que a parte contém a totalidade da informação do todo, e o


todo está presente em cada parte (como uma célula contém a informação genética de um
organismo completo)

Esses conceitos formam o “edifício da complexidade”, propondo uma reforma do pensamento


que permite contextualizar e religar os saberes . Morin defende que a missão primordial do
ensino deve ser aprender a religar em vez de aprender a separar, pois sem essa religação, os
saberes isolados se tornam inadequados para a compreensão de uma realidade cada vez mais
complexa

Para Morin, a educação deve dar aos alunos uma cultura que lhes permita articular, religar,
contextualizar e globalizar os conhecimentos adquiridos. Ele argumenta que um saber só é
pertinente se for capaz de ser situado em um [Link] sentido, a Filosofia, que por sua
natureza já busca a totalidade e a interconexão, pode se beneficiar imensamente dessa
abordagem, conectando o pensamento filosófico a problemas cotidianos e à realidade do
aluno

Os Sete Saberes Necessários à Educação do Futuro, sistematizados por Morin a pedido da


UNESCO, não são um programa escolar, mas abordam “buracos negros” ignorados na educação
. Eles são:

1. As Cegueiras do Conhecimento: O Erro e a Ilusão: A educação deve ensinar que o


conhecimento é uma tradução e reconstrução da realidade, sempre passível de erro e ilusão,
preparando para as incerteza

2. Os Princípios do Conhecimento Pertinente: Em um mundo de informações massivas, é


crucial discernir os problemas e conceitos-chave, conectando o particular ao geral e as partes
ao todo, estimulando a capacidade natural de contextualizar

3. Ensinar a Condição Humana: A humanidade é uma e diversa (indivíduo/sociedade/espécie,


razão/afeto/pulsão). A educação deve conscientizar sobre essa unidade na diversidade,
recorrendo a ciências pluridisciplinares como cosmologia, ecologia e pré-história, e valorizando
a literatura e a poesia para compreender a complexidade humana .

4. Ensinar a Identidade Terrena: A educação deve promover uma ética da compreensão


planetária e um sentimento de pertencimento à Terra, diante de um destino comum e ameaças
globais

5. Enfrentar as Incertezas: A vida é marcada pelo inesperado e pela incerteza. A educação deve
fortalecer os espíritos para enfrentar o desconhecido, desenvolver estratégias adaptáveis e
reconhecer que a história não é linear

6. Ensinar a Compreensão:A compreensão mútua é fundamental para a solidariedade


humana. A educação deve combater o individualismo, o egocentrismo e a indiferença,
cultivando a empatia e a capacidade de “sofrer junto”

7. A Ética do Gênero Humano (Antropoética): Implica desenvolver autonomia pessoal,


participação social e a consciência de um destino humano compartilhado, agindo para a
humanização da humanidade e a solidariedade planetária

Morin sugere que as universidades dediquem um tempo para refletir sobre a pertinência do
que ensinam, elaborando dispositivos que permitam a comunicação entre as ciências e as
humanidades, buscando uma mudança de pensamento para além da fragmentação
Metodologias de Ensino Não Convencionais no Ensino da Filosofia

As metodologias de ensino não convencionais representam uma ruptura com o modelo


hegemônico da educação, que muitas vezes perpetua um viés neoliberal, transformando a
escolaridade em um mero “self-service” para formar mão de obra produtiva . Escolas não
convencionais buscam a liberdade e a inclusão de crianças e jovens, distanciando-se das
metodologias ativas com cunho neoliberal, focadas apenas na produtividade e eficiência . Elas
se propõem a afrouxar os “nós paradigmáticos” do ensino convencional, utilizando
“dispositivos pedagógicos” e “dispositivos de gestão” para criar um ambiente de aprendizado
emancipatório e pluralista .

Embora as metodologias ativas como a Aprendizagem Baseada em Problemas (PBL),


Aprendizagem Baseada em Projetos (ABPR), Sala de Aula Invertida (Flipped Classroom), Ensino
Colaborativo e Aprendizagem Baseada em Jogos sejam adotadas tanto em escolas
convencionais quanto não convencionais, a diferença crucial reside em seus fundamentos
teóricos e objetivo. Enquanto o ensino convencional as utiliza para otimizar a produtividade no
contexto neoliberal, as escolas não convencionais as empregam para um ensino
verdadeiramente integral e emancipatório

No ensino da Filosofia, a aplicação dessas metodologias não convencionais pode superar o


dilema entre “ensinar a história da Filosofia” e “ensinar a filosofar”. Ao invés de aulas
expositivas que apenas depositam conteúdo , a Filosofia pode ser ensinada de maneira
dinâmica, contextualizada e participativa. Exemplos de práticas que promovem essa reinvenção
incluem Dicionário Filosófico: Estimula os alunos a pesquisar e definir termos filosóficos
com suas próprias palavras, fomentando a curiosidade e o domínio do conteúdo . Varal
Cultural: Incentiva a expressão pessoal de reflexões filosóficas por meio de desenhos, músicas,
poesias e textos autorais, dando notoriedade à produção textual e à criatividade dos alunos

Fanzines:Utiliza essa mídia de baixo custo para que os alunos relacionem a Filosofia com o
mundo atual por meio de ilustrações, poesias ou músicas, desenvolvendo a capacidade de
refletir sobre questões cotidianas

Paródias:Transforma o aprendizado de conceitos filosóficos em uma atividade criativa e


autoral, conectando teorias com a atualidade através da música

Essas abordagens valorizam a interação do aluno com o assunto, tornando-o protagonista do


próprio aprendizado, e permitem ao professor atuar como mediador, estimulando a
curiosidade epistemológica. Além disso, é fundamental que o professor leve em consideração a
realidade da comunidade escolar, adaptando as metodologias às condições locais para garantir
que as atividades sejam produtivas e significativas para os alunos, como a experiência na Escola
Estadual Desembargador Sadoc Pereira demonstrou. A Filosofia, nesse contexto, torna-se uma
ferramenta para o desenvolvimento do pensamento autônomo, problematizador e reflexivo
dos alunos.
Interdisciplinaridade, Saberes de Morin e a BNCC: Conexões Cruciais

A Base Nacional Comum Curricular (BNCC) foi concebida com base nos Sete Saberes
Necessários à Educação do Futuro de Edgar Morin, estabelecendo diretrizes que promovem
uma educação integral e conectada à realidade dos alunos.

Os principais pontos de encontro entre os saberes de Morin e a BNCC, com implicações para o
ensino da Filosofia e outras áreas, são:

Visão Sistêmica e Interdisciplinaridade:A BNCC, ao propor um organizador curricular


transversal, incentiva a integração entre diferentes áreas do conhecimento, como Filosofia,
Ciências Humanas, Ciências da Natureza, Português e Matemática. Essa abordagem dialoga
com o pensamento complexo de Morin, que enfatiza a interdependência entre as partes e o
todo, e a necessidade de conectar diferentes saberes para compreender a realidade . A
Filosofia, ao interligar-se com outras disciplinas, ajuda a compreender a totalidade da condição
humana [133].

Atenção ao Contexto e à Realidade: Tanto a BNCC quanto Morin destacam a importância de


uma educação contextualizada, que considere as necessidades e desafios da sociedade, bem
como a condição humana e a identidade terrena . Isso é crucial no ensino da Filosofia, que
ganha sentido ao abordar problemas reais do cotidiano dos alunos

Desenvolvimento de Habilidades Socioemocionais:A BNCC valoriza o desenvolvimento de


competências socioemocionais como trabalho em equipe, resolução de problemas e tomada
de decisões. Morin, por sua vez, aborda a importância da compreensão e da ética do gênero
humano, valorizando as relações interpessoais e a responsabilidade com o outro . A Filosofia,
ao promover o diálogo e a reflexão, contribui para o desenvolvimento dessas habilidades.

Abertura ao Erro e à Incerteza: A BNCC reconhece que o processo de aprendizagem envolve


erros e incertezas, e que o conhecimento é construído progressivamente. Morin enfatiza a
importância de lidar com o erro e a ilusão, e a necessidade de enfrentar as incertezas do
mundo , o ensino de Filosofia pode cultivar a resiliência intelectual e a capacidade de
questionar, mesmo diante do incerto.

Reforma do Pensamento: Ambos propõem uma mudança de paradigma na educação para lidar
com a complexidade do mundo, o que implica questionar os modelos tradicionais e adotar
uma postura mais aberta e reflexiva .

Em relação aos conteúdos específicos, a interdisciplinaridade se manifesta de forma potente:

Filosofia e Ciências Humanas:A Filosofia e as Ciências Humanas (História, Geografia, Sociologia)


se conectam ao buscar a compreensão da natureza humana, da sociedade e da cultura . A
interdisciplinaridade permite que a Filosofia se articule com esses campos para analisar
fenômenos sociais e culturais em sua complexidade, abordando temas transversais como
cidadania, diversidade cultural e direitos humanos .

Ciências da Natureza:O estudo dos fenômenos naturais (Física, Química, Biologia) pode ser
enriquecido pela Filosofia ao questionar a natureza do conhecimento científico, a ética da
pesquisa e as implicações das tecnologias para a vida e o planeta. A Filosofia pode fornecer a
base ética para discussões sobre sustentabilidade e saúde.

Língua Portuguesa:A Filosofia se beneficia do desenvolvimento da leitura, escrita, oralidade e


análise linguística, promovendo a comunicação eficaz e crítica . O ensino de Filosofia, por sua
vez, aprimora a capacidade argumentativa e a clareza na expressão de ideias complexas.

Matemática: O pensamento lógico-matemático e a resolução de problemas são cruciais para a


Filosofia, especialmente na lógica e na epistemologia . A interdisciplinaridade permite aplicar
conceitos matemáticos a situações do cotidiano e explorar a relação entre o pensamento
abstrato e a realidade.

Em síntese, a interdisciplinaridade e as metodologias de ensino não convencionais,


fundamentadas na Teoria da Complexidade de Edgar Morin, são essenciais para uma educação
da Filosofia verdadeiramente transformadora. Elas superam a mera transmissão de conteúdo,
capacitando os alunos a desenvolver um pensamento crítico, autônomo e reflexivo. Essa
abordagem se alinha perfeitamente aos objetivos da BNCC, que visam uma formação integral,
integrada e contextualizada, preparando os estudantes para os desafios multifacetados do
século XXI. Apesar dos desafios estruturais e pedagógicos, a efetivação dessas práticas é um
caminho promissor para reinventar o saber e capacitar os futuros cidadãos a navegar e atuar
em um mundo cada vez mais complexo

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