Unid 2
Unid 2
Unidade II
5 IMUNO-HEMATOLOGIA, TRANSFUSÃO SANGUÍNEA E REAÇÃO
TRANSFUSIONAL
A descoberta do primeiro grupo sanguíneo, em 1900, pelo imunologista austríaco Karl Landsteiner,
deu início à fase científica da transfusão sanguínea. Atualmente sabe-se que os antígenos eritrocitários
são estruturas macromoleculares, herdados geneticamente, que se localizam na superfície extracelular
da membrana dos eritrócitos podendo ser de natureza carboidrato, proteína ou glicoproteína. A maioria
desses antígenos são imunogênicos e podem, portanto, induzir a formação de anticorpos em indivíduos
desprovidos dessas moléculas durante transfusões, gestações e/ou transplantes. Esses indivíduos
previamente sensibilizados, se expostos novamente ao antígeno eritrocitário, podem apresentar reações
transfusionais hemolíticas, e no caso de mulheres em idade fértil, a gestação pode ser comprometida
pela doença hemolítica do feto e recém-nascido (DHFRN) (RODRIGUES, 2016).
As membranas plasmáticas de um modo geral apresentam–se como barreiras seletivas que asseguram
a composição interna constante das células através do controle da transferência ativa e passiva de
inúmeras moléculas. Essas membranas têm um sistema estrutural complexo, citoesqueleto, que envolve
tanto a forma da célula, como sua mobilidade, deformabilidade e o transporte de macromoléculas. Entre
os diferentes constituintes da membrana, apresentam-se receptores envolvidos em funções complexas
que permitem a comunicação entre as células, reconhecimento imunológico e fenômenos de adesão
celular (MURADOR; DEFFUNE, 2007).
As trocas entre esses compartimentos são feitas através de bombas, canais de trocas de íons e
transporte molecular como o da glicose. Além disso, a deformabilidade de sua membrana, a fluidez
de seu citoplasma e a complexidade de sua superfície membranária, em relação ao seu volume
interno, asseguram as funções de transporte de O2 dos pulmões e remoção do CO2 dos tecidos para os
pulmões. Essa capacidade de transporte depende das condições de adaptação circulatória e, também,
da hemoglobina citosólica e de um polipeptídio maior da membrana: a banda 3 ou proteína de troca
66
HEMOTERAPIA E BANCO DE SANGUE
de íons (anion exchanger 1, AE1). Como transportador de membrana, a AE1, ou banda 3, media as
trocas de Cl–/HCO3–, aumentando então a capacidade sanguínea de transporte de CO2, garantindo a
homeostase e o equilíbrio ácido-básico. Por interação com lipídios e proteínas, a banda 3 multifuncional
(AE1) une o complexo multiproteico do citoesqueleto e confere aos eritrócitos propriedades mecânicas
e elásticas, regulando a viscosidade sanguínea. As glicoforinas A, B, C, D, que possuem receptores de
membrana e antígenos participam do reconhecimento célula-célula na extremidade externa e auxiliam
na estabilização do citoesqueleto através de ligações com a proteína 4.1 na face interna da membrana.
Todas as proteínas de transporte da membrana do eritrócito são produzidas nos estágios primordiais dos
eritroblastos (BONIFÁCIO; NOVARETTI, 2009).
Resíduos de carboidratos
Atualmente, entre os 346 antígenos eritrocitários descritos, 308 antígenos são classificados em
36 sistemas, pois suas bases moleculares são bem definidas. Os demais 38 antígenos são classificados
em coleções ou séries e, à medida que suas bases genéticas são descobertas, o antígeno é classificado
dentro de um sistema já existente ou passa a compor um novo sistema de grupo sanguíneo.
Os principais sistemas sanguíneos em que os antígenos eritrocitários foram classificados são: ABO,
Rhesus (Rh), MNS, I, P, Lewis, Lutheran, Kell, Duffy, Kidd e Xg. No entanto, há vários outros sistemas,
como Gerbich (Ge), Diego, Indian (In), Scianna (Sc), Cartwright (Yt), Cromer (Cr) e Knops (Kn). Esses
antígenos foram classificados de acordo com suas funções biológicas: proteínas estruturais, transporte,
receptores/moléculas de adesão, enzimática, complemento, proteínas regulatórias e outras, sendo que
um antígeno eritrocitário pode apresentar mais que uma função (BONIFÁCIO; NOVARETTI, 2009).
Lembrete
67
Unidade II
Localização do
N. ISBT Sistema sanguíneo Nome do gene Função da proteína
cromossomo
Galactosiltransferase ou
001 ABO ABO ABO 9q34.2 N-acetilgalactosaminiltransferase
4q31.21, 4q31.21,
002 MNS (glicoforin A/B/E) MNS GYPA, GYPB GYPE Desconhecida/adesão?
4q31.1
003 P1PK P1PK A4GALT 22q13.2 Galactosiltransferase
Desconhecida; transporte de
004 Rh RH RHD, RHCE 1p36.11 membrana?
005 Lutheran LU BCAM 19q13.2 Adesão
006 Kell KEL KEL 7q33 Metaloendopeptidase
007 Lewis LE FUT3, FUT6, FUT7 19p13.3 Fucosiltransferase (todos)
008 Duffy FY ACKR1 1q21-q22 Receptor de quimiocina
009 Kidd JK SLC14A1 18q11-q12 Transportador de ureia
010 Diego DI SLC4A1 17q21.31 Permutador aniônico
011 Yt YT ACHE 7q22 Acetilcolinesterase
Xp22-32, Yp11.3,
012 Xg XG CD99, XG Desconhecida/adesão?
Xp22.32
ERMAP, C1GALT1, 1p34.2, 7p21.3,
013 Sciannna T/Tn SC Desconhecida/adesão?
C1GALT1C1 Xq24
014 Dombrock DO ART4 12p13-p12 ADP ribosiltransferase
015 Colton CO AQP1 7p14 Canal de água
016 Landsteiner-Wiener LW ICAM4 19p13.2 Molécula de adesão
017 Chido/Rodgers CH/RG C4A,C4B 6p21.3 Fator de complemento
FUT1, FUT2 e
018 H H 19q13.33 Fucosiltransferase
pseudogene
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HEMOTERAPIA E BANCO DE SANGUE
Localização do
N. ISBT Sistema sanguíneo Nome do gene Função da proteína
cromossomo
031 FORS FORS GBGT1 9q34.13-q34.3 N-acetilgalactosiltransferase
Transportadores de cassetes de
032 Junior JR ABCG2 4q22.1 ligação ao ATP
Transportadores de cassetes de
033 Lan LAN ABCB6 2q36 ligação ao ATP
034 Vel VEL SM1M1 1q36.32 Desconhecida
035 CD59 CD59 CD59 11p13
036 Augustine AUG SLC29A1 6p21.1
Isso produz uma reação transfusional muito grave, que pode ser fatal, chamada de reação hemolítica
aguda. O princípio dos testes de compatibilidade surgiram com a descoberta do sistema ABO, que
provavelmente era a causa da maioria dos insucessos nas transfusões (HARMENING, 2019).
Os genes ABO se localizam no braço longo do cromossoma 9 (posição 9q34.1‑q34.2). Foram definidos
quatro genes: A1, A2, B, O. Esses genes codificam a produção de duas enzimas glicosiltransferases A e B.
A transferase A (α1,3 → N-acetilgalactosaminiltransferase), que adiciona o açúcar N-acetil‑galactosamina
e produz o antígeno A; e a transferase B (α1,3 → galactosiltransferase), que adiciona a galactose e
produz o antígeno B num substrato precursor na membrana da hemácia, o antígeno H (que serve como
estrutura básica para esses dois antígenos). A substância H é formada pela ação da enzima alfa-2-L-
fucosiltransferase, que adiciona L-fucose à galactose terminal. Essa enzima é codificada no locus FUT1
do cromossomo 19, na posição q13.3, sendo, portanto, geneticamente independente do locus ABO.
O gene O não produz transferase ativa. A sequência de DNA do gene O é idêntica à do gene A, exceto
pela deleção (G‑261) na região N‑terminal, o que codifica uma proteína truncada. O gene alelo A2 difere
de A1 pela simples deleção de uma base na região C‑terminal, na posição 467, sendo o nucleotídeo T em
A2 e C em A1; o gene A2 produz uma transferase A2 que tem uma atividade reduzida quando comparada
com a transferase A1. A diferença entre genes A e B são sete nucleotídeos no DNA, que resultam em
quatro aminoácidos diferentes nas transferases A e B (OLIVEIRA; RIBEIRO; VIZZONI, 2013).
Fucose N-acetilglicosamina Galactose
Galactose
N-acetilglicosamina
Galactose
Glicose
(Substância precursora) SP Ag H Ag A Ag B
Os antígenos do sistema ABO não estão restritos à membrana eritrocitária, sendo encontrados
na saliva, urina, leite e nos líquidos biológicos, exceto fluido espinhal. A presença da substância ABO
específica nos líquidos biológicos ocorre em indivíduos que apresentam o gene secretor (Se) FUT2
– que correspondem a 80% das pessoas. Encontra-se também na maioria das células epiteliais e
endoteliais e sua presença nos linfócitos e nas plaquetas parece estar relacionada à absorção do plasma.
Em decorrência da presença de antígenos ABO na maioria dos tecidos do organismo, trata-se mais de
um sistema de histocompatibilidade, e são importantes na compatibilidade de transplantes de órgãos e
medula óssea (ANVISA, 2014b).
Os antígenos ABO estão expressos desde a 5-6ª semana de vida intrauterina, porém é somente
ao redor dos 2 a 4 anos de vida que o número de sítios antigênicos apresenta expressão plena.
70
HEMOTERAPIA E BANCO DE SANGUE
Os anticorpos ABO são dirigidos contra os antígenos ausentes nas hemácias do próprio indivíduo. São
de classe IgM e IgG, ativos a 37 °C e capazes de fixar e ativar o complemento, provocando hemólises
intravasculares severas em casos de incompatibilidades transfusionais. Também estão relacionados
com a doença hemolítica do recém-nascido (DHRN), geralmente de intensidade leve. Os anticorpos do
sistema ABO aparecem espontaneamente depois dos 4 meses de idade, com pico de produção após
5 anos de idade e com diminuição progressiva na velhice. Uma das explicações para o seu aparecimento
é a ampla distribuição de estruturas semelhantes a esses antígenos na natureza, principalmente nas
bactérias. Por isso esses anticorpos são chamados de ocorrência natural. As bactérias presentes no trato
intestinal, na poeira e em alimentos promovem uma exposição constante de todos os indivíduos a essas
estruturas, semelhantes aos açúcares A e B presentes nas hemácias (GIRELLO; KHUN, 2016).
A identificação dos fenótipos ABO está relacionada à presença ou à ausência dos antígenos A e/ou B na
membrana das hemácias (prova direta) e à detecção ou à ausência de anticorpos contra os antígenos
eritrocitários que não estão presentes na superfície das hemácias (prova reversa). Resumindo: nas
membranas das hemácias, são identificados dois tipos de antígenos de carboidratos, denominados
aglutinogênios, sendo eles o aglutinogênio A e o aglutinogênio B, que caracterizam a presença desses
carboidratos e irão determinar o fenótipo do sangue do indivíduo. No plasma do sangue, podemos
identificar dois anticorpos, que são as aglutininas anti-A e anti-B. Dessa forma, os indivíduos que
integram o grupo sanguíneo A possuem aglutinogênios A e aglutininas anti-B. Os que integram o grupo
sanguíneo B possuem aglutinogênio B e aglutininas anti-A. Indivíduos que possuem o grupo sanguíneo
AB possuem aglutinogênios A e aglutinogênio B, e por isso não possuem nenhuma das duas aglutininas.
E, por fim, pessoas que integram o grupo O possuem aglutininas anti-A e aglutininas anti-B, portanto
não possuem aglutinogênio.
A1 A1O A1 Anti-B
AA
1 2
BB
B B Anti-A
BO
A1
AB A1B Nenhum
B
A2A2 Anti-B
A2 A2
AO2
Eventual Anti-A1
A2 Nenhum
A2B A2B
B Eventual Anti-A1
71
Unidade II
Os subgrupos também ocorrem nos indivíduos AB. Cerca de 80% dos indivíduos A e AB são A1/A1B,
19% são A2/A2B, e 1%, outros subgrupos (A3, Aint, Ael, Am, Ax, Ay etc.). Os subgrupos de B são raros (B3, Bx,
Bm, Bel). A reação de aglutinação com antissoros A e B só é visível quando mais de 2 mil sítios antigênicos
estão presentes na membrana das hemácias. Na medicina transfusional, em geral, não é importante
distinguir os subgrupos de A e de B. A transfusão de subgrupos, em geral, não leva à reação transfusional
(BATISSOCO; NOVARETTI, 2003).
Pela importância clínica e a presença regular de anticorpos naturais hemolíticos do sistema ABO, é
uma regra básica não transfundir hemácias portadoras de antígenos que possam ser reconhecidos pelos
anticorpos do receptor. Assim, de acordo com essa norma, podemos estabelecer as seguintes regras
de compatibilização no sistema ABO: transfusões de isogrupos sempre que possível; transfusões de
heterogrupos apenas excepcionalmente, respeitando-se o seguinte esquema:
A A
O AB O AB
B B
A) B)
72
HEMOTERAPIA E BANCO DE SANGUE
A frequência dos fenótipos ABO varia de acordo com a raça e a população estudada. Algumas
explicações foram dadas a esse fenômeno, como migração populacional, cruzamentos étnicos e doenças
que conferem vantagens ou desvantagens a certos grupos sanguíneos.
73
Unidade II
encontrar frequências diversas do fenótipo RhD positivo, como em negros africanos (95%), europeus
(82-88%) e até (100%) em algumas populações do extremo Oriente (CASTILHO; PELLEGRINO-JUNIOR;
REID, 2015).
RhD RHCE
COOH
Os genes RHD e RHCE apresentam um elevado grau de homologia, com uma variação de 36
aminoácidos em 416 posições. O polimorfismo E/e resulta da substituição de um único aminoácido
no éxon 5, na quarta alça extracelular, quando da substituição de uma prolina (E) na posição 226 para
uma alanina (e). No polipeptídio Rh, que carreia os antígenos C e c, ocorre uma substituição de quatro
aminoácidos em uma cadeia de 416 aminoácidos, embora apenas uma substituição pareça ser crítica
para o polimorfismo C/c: a substituição de uma serina (C) na posição 103 por uma prolina (c). Por outra
parte, o polipeptídio codificado pelo gene RHD difere daquele codificado pelo RHCE em 36 aminoácidos.
Essas diferenças talvez possam explicar em parte a imunogenicidade do antígeno RhD, pois quando
um indivíduo RhD negativo é exposto a hemácias RhD positivas, o seu sistema imune é estimulado por
uma proteína que difere em 36 aminoácidos daquela que ele possui (CASTILHO; PELLEGRINO-JUNIOR;
REID, 2015).
Na prática transfusional, o sistema Rh é o sistema mais importante depois do sistema ABO, tendo
sido responsável por casos de doença hemolítica do recém-nascido de intensidade variável, chegando
mesmo a ser grave e levar a óbito fetal, além de ter sido responsabilizado por reações transfusionais
hemolíticas graves. Ainda que cinquenta antígenos estejam relacionados ao sistema Rh, apenas 5
(D, C, c, E, e) são responsáveis pela grande maioria dos problemas clínicos associados a esse sistema.
As complexidades sorológica e fenotípica associadas a esse sistema levaram à elaboração de
nomenclaturas diferentes: o sistema Rh-Hr (Wiener), a terminologia CDE (Fischer e Race) e o sistema
numérico da Sociedade Internacional de transfusão sanguínea (ISBT – Rosenfield), que se basearam
em diferentes teorias quanto à genética desse sistema de grupo sanguíneo.
74
HEMOTERAPIA E BANCO DE SANGUE
Genótipos
Wiener Fisher-Race Rosenfield
R1r DCe/dce Rh:1, 2, -3, 4, 5
R1R1 DCe/DCe Rh, 1, 2, -3, -4, 5
Ocorrência comum rr dce/dce Rh: -1, -2, -3, 4, 5
RR
1 2
DCe/DcE Rh: 1, 2, 3, 4, 5
R 2r
DcE/dce Rh: 1, -2, 3, 4, 5
RR
2 2
DcE/DcE Rh:1, -2, 3, 4, -5
r’r dCe/dce Rh: -1, 2, -3, 4, 5
r’r’ dCe/dCe Rh: -1, 2, -3, -4, 5
r’’r dcE/dce Rh: -1, -2, 3, 4, 5
Ocorrência rara r’’r’’ dcE/dcE Rh: -1, -2, 3, 4, 5
Rr0
Dce/dce Rh: 1, -2, -3, 4, 5
R0R0 Dce/Dce Rh: 1, -2, -3, 4, 5
ryr dCE/dce Rh: -1, 2, 3, 4, 5
O antígeno RhD apresenta um extenso polimorfismo. Pode se apresentar como um antígeno com
fraca expressão (D fraco) ou como um antígeno modificado (D parcial). Essas características, muitas
vezes, só podem ser determinadas por estudos moleculares. Entretanto, portadores do antígeno D parcial
e alguns D fracos estão propensos a imunizações de anti-D (NARDOZZA et al., 2010).
75
Unidade II
Os métodos moleculares podem confirmar ou excluir a presença desses antígenos; entretanto, não
devem ser analisados de forma isolada, ou seja, sem a realização de testes sorológicos, pois nem sempre
a presença do gene resulta na expressão da proteína. No sistema Rh ocorre essa exceção, e há pessoas
que possuem o gene RhD, mas não expressam a proteína: são os famosos pseudogenes. Dessa forma,
ao utilizarmos os métodos moleculares em imuno-hematologia, devemos confrontar os resultados dos
testes (genótipos) com os fenótipos, que são evidenciados por testes de sorologia de grupos sanguíneos
(CASTILHO; PELLEGRINO-JUNIOR; REID, 2015).
Os anticorpos do sistema Rh, em especial o anti‑D, não são naturais. Eles são produzidos a partir de
um estímulo imunológico, seja a gestação de um feto RhD positivo ou transfusão de um componente
RhD positivo. No caso específico do antígeno D, estima-se em 80% a probabilidade de imunização
após uma transfusão incompatível. Já a imunização por gravidez representa a maioria dos casos
de doença hemolítica do recém-nascido, sendo devida ao anti-D. Entretanto, com a profilaxia por
imunoglobulinas anti-RhD, o número de aloimunizações maternas contra o antígeno D diminuiu, mas
o mesmo não ocorreu com os antígenos E, c, e C. Eles são de natureza IgG, ativos a 37 °C, e são melhor
detectados por meio da utilização da antiglobulina humana ou por meio da utilização de painéis de
hemácias tratadas por enzimas proteolíticas. Como são IgG, atravessam a barreira placentária e estão
envolvidos em casos de doença hemolítica perinatal. Esses anticorpos não fixam complemento e a
destruição das hemácias é extracelular, podendo estar associados a casos de reação transfusional
hemolítica tardia por destruição das hemácias no meio extravascular (ANVISA, 2014b).
O anticorpo anti-K foi descrito em 1946, após a implantação da técnica de Coombs no soro de
uma paciente em um relato de DHPN. Verificaram que o anticorpo reagia com as hemácias de seu filho
76
HEMOTERAPIA E BANCO DE SANGUE
recém-nascido, de seu marido e de sua filha mais velha. Assim foi nomeado o sistema Kell, sendo o
terceiro mais importante e imunogênico sistema de grupos sanguíneos. Seu correspondente antitético
foi descrito por Levine e colaboradores em 1949 e denominado k (cellano), sendo um antígeno de alta
frequência. É um sistema bastante complexo e polimórfico, constituído por 35 antígenos (GIRELLO;
KUHN, 2016).
São codificados pelo gene KEL, que está localizado no braço longo do cromossoma 7q33. A expressão
desses antígenos também é controlada por um gene regulador XK, localizado no braço curto do
cromossoma X. A glicoproteína Kell pertence à subfamília das endopeptidases zinco‑dependentes, cuja
principal função é ativação de peptídeos bioativos por clivagem enzimática. Os antígenos do sistema Kell
não estão presentes em plaquetas, linfócitos, granulócitos ou monócitos. Podem ser detectados nas
células fetais a partir da décima semana de gestação, estando bem desenvolvidas ao nascimento.
São antígenos extremamente imunogênicos, sendo o antígeno K o segundo mais imunogênico de todos
os antígenos de grupos sanguíneos (o antígeno D é o mais imunogênico deles). Um paciente com
fenótipo K(-) que receba uma única transfusão com a presença do antígeno tem uma probabilidade de
até 10% para a formação do anticorpo correspondente (HARMENING, 2019).
Já foram identificados 35 antígenos para o sistema Kell, sendo os mais importantes o K (K1),
K (K2), Kpa (K3), Kpb (K4), Kpc (K21), Jsa (K6) e Jsb (K7). O antígeno K é de baixa frequência, ao passo
que o antígeno k (celano) é de alta frequência e pode ser encontrado em aproximadamente 99,8% da
população. Os antígenos Kell não são desnaturados por enzimas como bromelina, ficina e papaína;
entretanto, são inativados por tripsina, quimiotripsina, soluções de ditiotreitol (DTT), 2-mercaptoetanol
(2-ME), 2-aminoetilisotiourônio (AET) e ZZAP (que contém DTTe enzima proteolítica papaína ativada
com cisteína).
Entre os anticorpos irregulares mais detectados pelos serviços de hemoterapia, com exceção do
anti-D, o anti-K é o anticorpo mais comumente encontrado. De forma geral, apresenta-se como um
anticorpo de classe IgG reativo na fase de antiglobulina (AGH) e pode ser potente e ocasionar reações
hemolíticas graves imediatas e tardias, assim como DHPN grave (CASTILHO; PELLEGRINO-JUNIOR;
REID, 2015).
77
Unidade II
O sistema Kidd foi descoberto em 1951, após a implantação da técnica de Coombs em uma
paciente que gerou um feto com DHRN, em decorrência de um anticorpo então denominado anti-Jka.
Posteriormente foi revelado o anti-Jkb. O gene JK ou SCL14A1 está localizado nos lócus 18q12-q21,
sendo esse gene pertencente à família de transportadores de ureia, preservando a estabilidade osmótica
e a deformabilidade do eritrócito. A glicoproteína Kidd atravessa a membrana eritrocitária dez vezes,
carrega um n-glycan na terceira alça extracelular e expressa os antígenos do sistema de grupo sanguíneo
Kidd (GIRELLO; KUHN, 2016).
O sistema de grupo sanguíneo Kidd possui dois alelos codominantes: JKA e JKB, e existem apenas três
antígenos: Jka, Jkb e Jk3. Os antígenos Jka (JK1) e Jkb (JK2) são polimórficos em todas as populações testadas.
Eritrócitos com fenótipo null Jk(a-b-) são raros e originados de um gene silencioso JK em homozigose,
são relativamente resistentes à lise por ureia 2 mol/L e incapazes de concentrar maximamente a urina.
Esses antígenos não são exclusivamente eritrocitários, podem ser encontrados em células endoteliais
renais e em outros tecidos de órgãos como cérebro, bexiga, cólon, próstata, fígado e pâncreas.
Os antígenos são detectados em eritrócitos fetais a partir da 11ª semana de idade gestacional e estão bem
desenvolvidos ao nascimento e não são alterados por enzimas proteolíticas, ZZAP, DTT, AET e difosfato
de cloroquina. Os antígenos Jka têm maior expressão na membrana eritrocitária quando presentes em
indivíduos homozigóticos (JkaJka) quando comparados com indivíduos que apresentam os antígenos
em heterozigose (JkaJkb).
Os anticorpos anti-Jkª e anti-Jkb são perigosos anticorpos encontrados no soro humano que podem
determinar severa reação hemolítica transfusional imediata ou tardia. É uma IgG e reage melhor com
AGH poliespecífica; em geral, fixa complemento e, em alguns casos, determina ligeira hemólise ou
aglutinação direta com hemácias tratadas com enzimas. Apresentam a propriedade de demonstrar
efeito de dose, o que dificulta a identificação desses anticorpos. Observa-se, ainda, a necessidade de
utilizar uma amostra recente para identificação desses anticorpos. Os títulos de anti-Jka e anti-Jkb
declinam rapidamente in vivo. Isso significa que um anticorpo identificado num primeiro momento
pode não ser perceptível posteriormente, o que torna a verificação dos registros dos pacientes com
esses anticorpos previamente formados uma necessidade que não deve ser negligenciada. Anti-Jk3 é
78
HEMOTERAPIA E BANCO DE SANGUE
um anticorpo pertencente à classe IgG que reage com a antiglobulina. Indivíduos portadores desse
anticorpo apresentam o fenótipo null (Jka-Jkb-). O anti-Jk3 está associado a DHRN leve e a reações
hemolíticas transfusionais tardias (HARMENING, 2019).
O sistema de grupo sanguíneo Duffy foi identificado em 1950 em um paciente hemofílico chamado
Duffy, que fora submetido a múltiplas transfusões com anticorpo anti-Fya. No ano posterior, foi descrito
o anticorpo que definiu o seu par antitético, denominado anti-Fyb, no soro de uma mulher multípara.
O gene FY está localizado no braço longo do cromossomo 1q22-23, é responsável pela glicoproteína
Duffy, também chamada Duffy antigen receptor for chemokines (Darc), expressa em células eritroides e
não eritroides (GIRELLO; KUHN, 2016).
orientada para a superfície exofacial. Os antígenos Duffy têm função de receptor de merozoítas de
Plasmodium knowlesi em macacos e de Plasmodium vivax em humanos. A glicoproteína Duffy é
receptora de citoquinas nos eritrócitos, liga várias quimiocinas pró-inflamatórias agudas e crônicas,
incluindo interleucina 8, MGSA, MIP-1 e Rantes. Os receptores DARC estão potencialmente envolvidos
na angiogênese do câncer, na pré-eclâmpsia e na hipertensão maligna (REID; LOMAS-FRANCIS;
OLSSON, 2012).
Os principais antígenos do sistema Duffy na rotina imuno-hematológica são Fya e Fyb, que são
produtos de alelos codominantes que residem em uma glicoproteína ácida (gp-Fy), que transpassa
a membrana sete vezes e têm um N-terminal no domínio extracelular e um C-terminal no domínio
intracelular. Estão expressos em eritrócitos fetais a partir da sexta semana de idade gestacional,
estando bem desenvolvidos ao nascimento. São destruídos por enzimas proteolíticas, como
papaína, bromelina, ficina e quimiotripsina, além do ZZAP, que tem a capacidade de clivar a IgG.
Antígenos Duffy se degradam com a estocagem, mesmo quando congelados. Há associação entre
os antígenos Duffy e a infecção pelo parasito causador da malária, estando resistentes à infecção por
P. vivax os indivíduos negros americanos e africanos com fenótipo Fy(a-b-), o que representa uma
vantagem evolutiva.
79
Unidade II
Anticorpos anti-Fya e anti-Fyb geralmente pertencem à classe IgG e reagem melhor à fase da
antiglobulina humana, podendo fixar complemento. Os anticorpos podem apresentar efeito de dose
e não reagem com hemácias tratadas por enzimas, sendo essa uma característica útil na análise da
identificação de múltiplos anticorpos no soro que contenha anti-Fya ou anti-Fyb. Estão associados a
reações transfusionais hemolíticas tardias com grau moderado de hemólise, principalmente em
pacientes com anemia falciforme e múltiplos anticorpos. Anticorpo anti-Fy3 é produzido por indivíduos
com fenótipo null Fy(a-b-) que não expressam nenhuma glicoproteína Duffy. Reagem com fenótipos
Fy(a+b-) e Fy(a-b+) e, como os antígenos Fy3 não são destruídos por tratamento enzimático, esses
anticorpos mantêm a sua reatividade mesmo quando as células são tratadas por enzimas proteolíticas
(CASTILHO; PELLEGRINO-JUNIOR; REID, 2015).
O sistema sanguíneo MNS é considerado o segundo sistema de grupo sanguíneo mais antigo depois
do ABO. Os antígenos M e N foram descobertos por Landesteiner em 1927, já o S foi descrito vinte
anos depois. Possui três genes como base, GYPA, GYPB e GYPE, localizados no cromossomo 4q28-q31.
Foram descritos 46 antígenos do sistema MNS e eles estão associados às sialoglicoproteínas (SPG) da
membrana eritrocitária, denominadas glicoforina A (GPA) e glicoforina B (GPB), transmembranárias.
São as maiores proteínas da hemácia e contêm aproximadamente 50% de carboidratos. A GPE não é
expressa em condições normais, entretanto o gene GYE participa de rearranjos gênicos. Em 1953, Wiener
comunicou a descoberta de um anticorpo para um antígeno de alta frequência, que foi denominado U
(GIRELLO; KUHN, 2016).
A GPA expressa os antígenos M e N e tem número elevado de cópias (~106 cópias por eritrócito)
e é tão abundante quanto a banda 3 na superfície eritrocitária. O alto conteúdo de ácido siálico na
GPA serve como ligante para vírus, bactérias e parasitas. Células que não expressam GPA são mais
resistentes à invasão pelo Plasmodium falciparum do que células normais. Os antígenos MN podem ser
detectados na nona semana de gestação e estão bem desenvolvidos ao nascimento. Uma vez que os
antígenos MN estão na extremidade externa da GPA, podem ser facilmente destruídos ou removidos por
enzimas proteolíticas.
Os antígenos podem estar em dose simples ou dupla: MM, NN, MN, SS, ss, Ss. Em negros, podemos
encontrar o fenótipo S-s- e, também, não apresentarão antígeno de alta frequência U, ou sua expressão
80
HEMOTERAPIA E BANCO DE SANGUE
diminuída. Fenótipos raros En(a) são GPA negativos (M-N-), são raros também os indivíduos null (Mk),
que não possuem GPA ou GPB .
Os anticorpos anti-M e anti-N são, em sua maioria, crioaglutininas reativas em salina, de ocorrência
natural e sem importância transfusional. Mas existem relatos de IgMs potentes e reativos a 37 °C,
capazes de promover reação transfusional hemolítica aguda e tardia. Devido ao efeito de dose, anticorpos
podem reagir melhor com dose dupla do antígeno M+N- (genótipo MM) ou M-N+ (genótipo NN).
Anti-M e anti-N raramente causam DHPN. Os anticorpos de anti-S, anti-s e anti-U são clinicamente
significantes. Eles são geralmente imunes a IgG, reativos a 37 °C e na fase de AGH. Podem ativar o
sistema complemento, sendo implicados em reação transfusional hemolítica grave e DHPN. Tendo em
vista que apenas 11% dos brancos e 3% dos negros são “s-”, pode ser difícil obter sangue para um
paciente com anti-s. O anti-U é um anticorpo raro, encontrado na raça negra. Cerca de 1% dos negros
americanos (e de 1% a 35% dos negros africanos) não apresenta o antígeno U, o que torna muito difícil
encontrar sangue compatível, pois os pacientes apresentam fenótipo S-s-U- (REID; LOMAS-FRANCIS;
OLSSON, 2012).
O sistema de grupo sanguíneo Lewis apresenta a característica de não ser produzido pelos eritrócitos
e não estar integrado na estrutura membranar, o que o torna um sistema diferente dos demais.
Os antígenos desse sistema são produzidos por células teciduais e secretados nos fluidos corporais,
principalmente nas secreções e no plasma. O gene Lewis (FUT3) produz uma L-glicosiltransferase
que acrescenta uma L-fucose a uma substância precursora básica para a produção dos antígenos do
sistema Lewis. O gene Le encontra-se localizado no braço curto do cromossomo 19p13.3, estando
ligado ao locus do complemento C3. Uma vez que os antígenos do sistema Lewis são produzidos
por células teciduais, a produção dos antígenos é dependente tanto da herança dos genes Lewis
quanto da herança do gene secretor (Sese) de substâncias ABH. Há uma interação gênica entre os
genes Lewis e os genes ABO, uma vez que a quantidade de antígeno Lewis detectada no eritrócito é
influenciada pelos genes ABO herdados. O sistema Lewis é composto de seis antígenos: Lea, Leb, Leab,
LebH, Aleb, e BLeb.
81
Unidade II
O fenótipo Le(a-b-) não é decorrente da ausência do gene i (FUT 3), mas de mutações pontuais
específicas no gene Le, que vão originar uma transferase Lewis não funcional ou parcialmente ativa,
determinando, assim, a expressão negativa nos eritrócitos. A diminuição dos antígenos Lewis tem sido
demonstrada em mulheres grávidas, resultando no fenótipo Le(a-b-) no decorrer da gestação. Pacientes
com câncer, cirrose alcoólica, infecções virais e parasitárias podem não expressar os antígenos Lewis nos
eritrócitos. Essa modificação do fenótipo positivo para fenótipo negativo é decorrente de metabolismo
lipídico anormal, por alterações de triglicerídeos e de proteínas de alta densidade e/ou outras alterações
neoplásicas que ocorrem em pacientes com câncer. Não são encontrados nos eritrócitos do sangue do
cordão ou em recém-nascidos, de forma que, se forem testadas, essas células apresentarão o fenótipo
Le(a-b-). Não demonstram efeito de dose nas reações sorológicas.
Os anticorpos Lewis são produzidos, geralmente, por indivíduos Le(a-b-) sem qualquer exposição
prévia ao antígeno; frequentemente são de natureza IgM e não atravessam a placenta, não sendo, assim,
responsáveis por DHPN. São capazes de ativar o complemento, podendo provocar hemólise in vitro e
in vivo com reações transfusionais hemolíticas graves. Apresentam reatividade exacerbada quando as
células são tratadas por enzimas proteolíticas (HARMENING, 2019).
O grupo sanguíneo Diego foi descrito em 1955, na Venezuela, em uma DHPN. Os antígenos desse
sistema derivam de um gene (SLC4A1), cromossomo 17q21-q22, que codifica para a proteína banda 3 da
membrana eritrocitária. Essa proteína é uma glicoproteína multipasso que apresenta domínios N-terminal
intracitoplasmáticos, domínios transmembrana e domínios C-terminal também intracitoplasmáticos.
Os antígenos mais conhecidos são o Dia/Dib. Mutação em ponto no gene que origina o fenótipo Dib faz
com que ocorra alteração para o fenótipo Dia. A função dos antígenos Diego corresponde ao transporte
82
HEMOTERAPIA E BANCO DE SANGUE
de ânions (HCO3– e Cl–) através da membrana e à manutenção da integridade das hemácias através
da ligação do seu domínio N-terminal citoplasmático ao citoesqueleto celular. Também parece estar
implicado na formação de antígenos senescentes, que são marcadores na membrana dos eritrócitos
que devem ser retirados da circulação pelos histiócitos do sistema fagocítico mononuclear (BONIFÁCIO;
NOVARETTI, 2009).
A frequência do antígeno Dia é alta em indígenas sul-americanos (36%), sendo que, no Brasil,
estudos comprovam a incidência desse fenótipo em até 76% dos membros de alguns povos indígenas.
Também é prevalente em 20,4% nos indígenas mexicanos e em 10,2% de mexicanos residentes nos
Estados Unidos. Sua frequência em povos de origem asiática varia de 5% a 15% (japoneses e chineses,
respectivamente). Está presente em 1:4462 nos europeus (raro) e 1:827 em negros norte-americanos
(muito raro). É considerado por esse motivo um marcador genético para a raça mongoloide, sendo
significativo em estudos antropológicos (GIRELLO; KUHN, 2016).
Esse sistema de grupo sanguíneo é constituído principalmente por dois pares independentes
de antígenos Dia/Dib, Wra/Wrb e Wu/DISK, cada par contendo um antígeno de baixa incidência e um
determinante antitético de alta incidência respectivamente, e por outros 16 antígenos menos expressivos.
Para o par de antígenos Diego, existe a possibilidade de três genótipos: Di (a- b+), Di (a+ b+) e Di (a+ b-).
Os anticorpos anti-Dia e anti-Dib apresentam-se como um anticorpo de classe IgG, geralmente imunes,
reativos na fase de antiglobulina (AGH) e fixam complemento. O tratamento enzimático não altera
sua reação. Os anticorpos são implicados em casos de DHPN e envolvidos em reações transfusionais
hemolíticas imediatas e tardias (THORNTON; GRIMSLEY, 2019).
Pelo fato de os antígenos de grupos sanguíneos existirem na parte externa da membrana eritrocitária,
eles demonstram importância na medicina transfusional, uma vez que a ausência de um antígeno pode
levar à aloimunização de um indivíduo após transfusão de hemácias com o respectivo antígeno, além de
aumentar o risco transfusional nas transfusões subsequentes (REID; LOMAS‑FRANCIS; OLSSON, 2012).
Pacientes que recebem transfusão de sangue podem desenvolver anticorpos contra diversos antígenos
83
Unidade II
Na prática transfusional de hoje, em razão do risco associado a transfusões e gestações futuras, têm‑se
tentado minimizar a probabilidade, de um indivíduo formar aloanticorpos antieritrocitários, realizando
transfusões fenotipicamente compatíveis com os antígenos eritrocitários mais imunogênicos, como: D, K, E,
c, Fya, Jka, S e s. A fenotipagem eritrocitária é essencial para a confirmação de aloanticorpos e pode facilitar a
identificação de anticorpos que podem ser formados no futuro (CASTILHO; PELLEGRINO-JUNIOR; REID, 2015).
84
HEMOTERAPIA E BANCO DE SANGUE
Os testes realizados nas amostras de sangue têm o objetivo principal de classificar e verificar a
compatibilidade sanguínea entre doador e receptor, prevenindo as reações hemolíticas. Esses testes
são realizados através das técnicas imuno-hematológicas e obrigatórios pela legislação, os principais
testes exigidos são: tipagem sanguínea ABO e RhD, pesquisa de anticorpos irregulares (PAI) e prova de
compatibilidade ou prova cruzada (PC) (GALDINO; PETRONI, 2018).
• São reversíveis e possuem afinidades diferentes com substâncias variadas. Como um anticorpo
pode se relacionar com antígenos com afinidades diversas, ele pode ligar-se com um que
não seja o seu antígeno de melhor complementariedade através de ligações mais fracas
com regiões semelhantes, mas não idênticas, àquele que o induziu. Essa ligação é chamada
de reação cruzada.
• A interação entre um anticorpo e seu antígeno pode ser dissociada/rompida. O processo de eluição
pode ocorrer principalmente se fornecemos calor ao sistema ou modificamos o pH e/ou força
iônica ou utilizamos solventes orgânicos. A ligação é, portanto, uma interação não covalente
reversível. Esse é o princípio dos métodos de eluição, utilizados especialmente em casos de testes
da antiglobulina humana positivos, que veremos no teste da antiglobulina humana direto.
85
Unidade II
• Afinidade: força de ligação resultante do total de forças não covalentes entre um único sítio de
ligação do Ac e um único epítopo do antígeno. Depende do grau de complementariedade entre as
duas moléculas. Ac de baixa afinidade se liga de modo fraco e tende a se dissociar com facilidade.
Ac de alta afinidade estabelece ligações fortes e mais duradouras.
• Avidez: força resultante de interações múltiplas entre uma molécula de anticorpo e os epítopos de
um antígeno complexo. Quanto maior a avidez, melhor seu efeito biológico final (ex.: reconhecimento
de antígenos complexos sobre a superfície de patógenos). A baixa afinidade de um Ac pode ser
compensada por sua elevada avidez.
O modelo físico-químico descrito a seguir considera que o fato mais importante é a distância média
que separa as hemácias em suspensão. Essa distância pode ser diminuída pela adição de anticorpos
ou outras substâncias ao meio, o potencial zeta está num ponto crítico em que a aglutinação ocorre.
Observe o exemplo na figura seguinte.
86
HEMOTERAPIA E BANCO DE SANGUE
Força de
repulsão
Aglutinação
A superfície da célula possui carga elétrica, que é principalmente conferida por sítios terminais das
glicoproteínas e dos glicolipídios. Essa carga é geralmente negativa, e seu grau de negatividade pode
variar de acordo com o número e a carga de íons expressos na superfície. As hemácias comportam-se
como partículas eletronegativas, e os grupos carboxílicos (COOH-) das sialoglicoproteínas integrantes
da membrana eritrocitária são os maiores responsáveis pela eletronegatividade. Como cargas iguais
se repelem, os eritrócitos em suspensão permanecem separados uns dos outros em meio salino.
Os eletrólitos contidos no meio envolvem cada hemácia como uma nuvem de íons positivos que se
torna menos densa à medida que se distancia do glóbulo.
A diferença de potencial entre a nuvem de cátions atraída pelas cargas elétricas negativas da
membrana eritrocitária e o meio é chamada de potencial zeta. O potencial zeta é a medida da interação
das forças de atração de Van der Waals e as forças eletrostáticas, ou seja, é a medida do potencial
elétrico que circunda as partículas em suspensão de um coloide. Quanto maior é o potencial zeta,
mais estável é um coloide, pois as partículas carregadas se repelem umas às outras, e essa força supera
a tendência natural à agregação, o que significa menor agregação e menor coagulação. Na figura
seguinte, observamos a representação esquemática do eritrócito em solução fisiológica.
87
Unidade II
Potencial Zeta
Cl-
µ
COOH
γ
Na +
D
γ Z = potencial zeta
Z= γ = eletronegatividade da hemácia
D µ
D = constante dielétrica do meio
µ = força iônica do meio
Figura 23 – Representação esquemática de hemácias em meio salino (solução fisiológica NaCl 0,85%)
O sangue é um exemplo de coloide biológico sujeito ao potencial zeta. Se o potencial zeta estiver
baixo, pode haver agregação eritrocitária, alteração no fluxo nos vasos sanguíneos e até trombose. Os
sistemas coloidais (como o sangue) são mantidos estáveis por meio de uma pequena carga elétrica que
conserva as partículas afastadas umas das outras. Essa carga elétrica gera uma diferença de potencial na
superfície das partículas coloidais. Por terem grande quantidade de ácido N-acetilneuramínico e outros
grupos carregados negativamente ancorados na superfície de outras glicoproteínas de membrana, os
eritrócitos possuem carga negativa elevada, ou seja, um potencial zeta elevado.
O potencial zeta de um sistema pode ser modificado por redução da carga elétrica das hemácias (γ), que
pode ser obtida por: fixação de anticorpos – como os epítopos dos anticorpos são carregados positivamente,
quando se fixam à membrana eritrocitária neutralizam as cargas dos antígenos específicos, reduzindo
o potencial zeta –; ou por tratamento enzimático – a adição de enzimas proteolíticas, como a tripsina,
remove fragmentos de proteínas da membrana, clivando glicoproteínas da superfície celular e diminuindo
a carga negativa da membrana plasmática dos eritrócitos. Variação da composição do meio: pela adição
de substâncias macromoleculares – como albumina bovina, polietilenoglicol (PEG), polibreno – que alteram
a constante dielétrica do meio (D) (quanto maior a constante dielétrica do meio, menor será o potencial
zeta e, consequentemente, maior será a sensibilização/aglutinação das hemácias) –; outros fatores podem
modificar o valor do potencial zeta: pH – modifica a constante de equilíbrio; temperatura; exposição aguda
ao frio – alterações no potencial zeta na membrana dos eritrócitos são observadas durante a exposição ao
frio, podendo ocorrer a prevenção da agregação eritrocitária; concentração de sais; concentração de íons;
efeito do palmitato, modificando o potencial de membrana do eritrócito, entre outros. Medicamentos, como
a vancomicina, um antibiótico policatiônico que pode causar agregação espontânea nos eritrócitos por causa
da diminuição do potencial zeta, também podem influenciar na agregação das hemácias (ANVISA, 2014b).
A padronização da leitura das intensidades das reações é extremamente importante, pois a aglutinação
é quantificada em intensidade de cruzes que vai de 1+ até 4+ e hemólise também considerada reação
positiva, conforme a seguir. Pode ser realizada por diferentes técnicas: tubo, microplaca, coluna de
aglutinação/gel centrifugação, fase sólida e hemácias magnetizadas. Na figura seguinte, podemos
visualizar a reação para a técnica em tubo e gel centrifugação, as mais utilizadas no Brasil e que
88
HEMOTERAPIA E BANCO DE SANGUE
B) 4+ 3+ 2+ 1+ 0 DP hemólise
89
Unidade II
Coombs produziu soro AGH injetando soro humano em coelhos. Como resposta imunológica, ocorreu
a produção de anticorpo contra a globulina humana. O uso da antiglobulina humana para detectar a
sensibilização de hemácias in vitro é uma técnica de duas fases chamada teste de antiglobulina indireta
(TAI), também conhecida como teste de Coombs indireto, que pode realizar a pesquisa de anticorpos
irregulares (PAI), fenotipagem D fraco, prova de compatibilidade (PC), entre outras aplicações.
A sensibilização in vivo é detectada por procedimento de uma fase chamada de teste de antiglobulina
direta (TAD), também conhecida como teste de Coombs direto.
90
HEMOTERAPIA E BANCO DE SANGUE
grupo sanguíneo ABO. A facilidade de execução do teste antiglobulina e a informação diagnóstica que
fornece contribuíram para sua utilização em larga escala até os dias de hoje. AGH poliespecífica contém
anticorpo IgG e C3d do complemento humano. Outros anticorpos anticomplemento, tais como anti-C3b,
anti-C4b ou anti-C4d, também podem estar presentes. A AGH poliespecífica comercialmente preparada
contém pouca ou nenhuma atividade contra cadeias pesadas de IgA e IgM, porém a mistura de soros
poliespecíficos pode conter atividade de anticorpos contra cadeias leves kappa e lambda comuns a
todas as classes de imunoglobulinas com moléculas IgA ou IgM. AGH monoespecífico contém apenas
uma especificidade de anticorpo. A antiglobulina humana anti-IgG, que é a mais usada, ou anticorpos
específicos para componentes do complemento, como exemplo o C3b ou C3d (ANVISA, 2014b).
Observação
A tipagem ABO deve ser realizada obrigatoriamente por meio de duas provas:
• Prova direta ou globular: consiste em pôr em contato soros‑teste conhecidos – anti‑A, anti‑B e
anti‑AB – com hemácias a serem testados para identificar a presença ou não dos antígenos A e B.
Assim, serão definidos os grupos sanguíneos: A, B, AB, O.
• Prova reversa ou sérica: consiste em colocar em contato o soro a testar com hemácias conhecidas
A1 e B, permitindo reconhecer a presença ou não de anticorpos regulares dirigidos contra
esses antígenos.
91
Unidade II
A prova reversa é uma contraprova fundamental para a conclusão do exame. O grupo ABO só pode
ser definido se existir concordância entre os resultados dessas duas provas, que devem ser interpretados e
realizados como ilustrado na figura seguinte, com a adição dos reagentes seguida por uma centrifugação.
Na interpretação observada na figura 26, a tipagem direta (colunas soro anti-A, soro anti-B e soro
anti‑A+B) pesquisam os antígenos presentes na membrana eritrocitária; ao passo que a tipagem reversa
(colunas hemácia A1 e hemácia B) pesquisam os anticorpos naturais presentes no plasma; e por não
apresentarmos anticorpo natural para antígeno presente nas hemácias é que o resultado da reversa é o
oposto da tipagem direta. A realização da tipagem reversa é uma das formas da garantia da qualidade
do resultado do sistema ABO liberado.
A B AB A B AB
Anti-soros comerciais + hemácia teste
Centrifugação
anti-A anti-B anti-AB
A B A B
Hemácias A1 e B comerciais + soro teste
Hemácias Hemácias
A1 B
92
HEMOTERAPIA E BANCO DE SANGUE
É necessário ficar atento a qualquer discrepância observada entre as tipagens direta e reversa, não
liberando os resultados até que a discrepância tenha sido resolvida. Dependendo da tipagem sanguínea
de um indivíduo, o anticorpo IgM anti-A ou anti-B presente no soro pode construir uma barreira para
transfusões sanguíneas e para os transplantes de órgãos ABO incompatíveis.
Discrepância na classificação ABO ocorre quando o resultado na prova direta e na prova reversa são
divergentes, ou seja, definem fenotipagens ABO diferentes entre si.
93
Unidade II
• Controle Rh: é um reativo controle com ausência de anticorpo anti-D e com o mesmo meio
diluente do antissoro anti-D.
Pela legislação, é obrigatório que o uso desses dois reagentes (anti-D e controle Rh) para tipagem
RhD sejam do mesmo fabricante. Esse reativo controle tem por finalidade detectar erros em aglutinações
inespecíficas em decorrência de patogenias existentes no paciente ou doador que resulte em uma reação
falso positiva para o soro anti-D. Exemplo: casos de hiperproteinemia ou hemácias sensibilizadas com
autoanticorpos podem aglutinar as hemácias e dar falso positivo, porém ao usar o controle Rh, esse teste
também será positivo e assim invalidará a tipagem RhD. No caso dos antissoros anti-D produzidos em meio
salino ou sem interferentes proteicos, o uso do soro controle na reação é dispensável.
O desenvolvimento dos reagentes monoclonais para tipagem sanguínea trouxe grande contribuição
ao arsenal imuno‑hematológico. Hoje, esses reagentes vêm substituindo os reagentes policlonais com
total eficácia. Os anticorpos monoclonais são projetados em laboratório para reconhecer especificamente
marcadores proteicos especiais na superfície das hemácias. Os reagentes monoclonais anti‑D são de
origem humana e, dependendo do clone, podem ser IgG ou IgM. Eles são comercializados separadamente
(reagente IgG ou IgM) ou em misturas de clones (IgG + IgM). Esses reagentes com mais de um clone
apresentam grande probabilidade de detectar a maioria dos antígenos D variantes. Uma boa escolha do
reagente a ser utilizado na prática laboratorial é essencial para resultados adequados.
94
HEMOTERAPIA E BANCO DE SANGUE
A pesquisa D fraco juntamente com o controle Rh devem ser realizados quando na classificação do
Rh(D) existir ausência de aglutinação (Rh negativo). Sua finalidade é detectar o antígeno D fraco ou D
variante, pois alguns tipos dessas variantes, e até de D fracos, são susceptíveis à formação de anti‑D
quando expostos ao antígeno RhD normal, pois esses antígenos possuem alterações em seus epítopos.
Nessa prova, é necessário usar técnicas mais sensíveis, como a técnica do Coombs indireto (TCI) para
confirmar sua positividade ou negatividade.
Controle
anti-D Rh
D Ctl D Ctl
1. Incubação
Controle
anti-D Rh 15’ a 37 °C
D Ctl D Ctl
2. Lavagem 3X das hemácias com NaCl
anti-D Controle
lgG Rh
D Ctl D Ctl
3. Adição do soro AGH
95
Unidade II
indivíduo é de grande importância, pois o antígeno RhD é o mais imunógeno em relação aos demais
antígenos eritrocitários conhecidos.
Para interpretação da tipagem RhD em tubo, ilustrada nas figuras seguintes, observa-se que a
aglutinação do tubo contendo anti-D e a ausência de aglutinação do tubo controle Rh (Ctl) classifica
a amostra como RhD positivo. Em caso de não haver aglutinação em nenhum dos tubos (anti-D e
Ctl), deve ser realizada a pesquisa de D fraco. Os antígenos D fracos são variações quantitativas do
antígeno RhD, e todos os epítopos (regiões reconhecidas por anticorpos) estão íntegros na membrana
eritrocitária, porém expressos fracamente.
D Ctl
D Ctl D Ctl
Aglutinação com anti-D Ausência de aglutinação
e ausência de aglutinação nos 2 tubos anti-D e Ctl;
no reagente Ct realizar pesquisa de D fraco D Ctl
Aglutinação com anti-D e
RhD positivo ausência de aglutinação no
Aglutinação com o reagente reagente Ctl.
controle invalida a interpretação RhD positivo fraco
dos resultados (D fraco)
D Ctl
Figura 28 – Interpretação da tipagem RhD
96
HEMOTERAPIA E BANCO DE SANGUE
De acordo com a legislação vigente, a pesquisa de anticorpos antieritrocitários irregulares deve ser
realizada no sangue dos doadores e receptores, empregando-se métodos que evidenciem a presença de
anticorpos clinicamente significativos. O objetivo da pesquisa de anticorpos irregulares (PAI) é detectar
no soro/plasma a presença de anticorpos irregulares (não anti-A e anti-B) dirigidos contra antígenos
clinicamente significantes na medicina transfusional e gestacional. Ela determina a sensibilização de
hemácias in vitro para a detecção e identificação de anticorpos incompletos (não aglutinantes). Na
PAI são utilizados kits com suspensão de hemácias de doadores do grupo sanguíneo O que podem
ser compostas de duas a três células, essas hemácias devem possuir os principais antígenos que são
importantes para detecção dos anticorpos com potencial significado clínico, formando, assim, um
painel de triagem.
O método para a detecção de anticorpos antieritrocitários irregulares deve incluir uma fase de
incubação a 37 °C, para facilitar a ligação do anticorpo ao antígeno eritrocitário e a utilização do soro
de antiglobulina humana (AGH). As técnicas de rotina normalmente utilizadas podem ser realizadas
em tubo, gel centrifugação e fase sólida em diferentes meios como Liss, PEG (polietilenoglicol) e
enzimas (papaína, bromelina), os quais têm por finalidade aumentar a sensibilidade do teste com a
diminuição do potencial zeta. Para evitar resultados falso negativos no teste de antiglobulina indireto
em tubo, deve‑se utilizar o reagente de controle de antiglobulina humana (controle de Coombs), que
é composto de hemácias sensibilizadas por anticorpos de classe IgG. Essas hemácias reagirão com o
reagente antiglobulina humana do sobrenadante na fase final em um teste negativo. Após a adição
do reagente controle e centrifugação, o teste deverá se tornar positivo, significando que o resultado
é verdadeiramente negativo. Se após a adição do controle, o teste continuar negativo, ele deverá ser
97
Unidade II
repetido, pois se trata de um falso negativo que pode ter sido causado por lavagem inadequada das
hemácias, problemas com AGH, condições inadequadas de incubação e ou centrifugação, contaminação
bacteriana dos reagentes, entre outras.
1. Incubação
15’ a 37 °C
AGH
Centrifugação
Triagem I Triagem II PEG
Controle
4. Reações negativas: adicionar as de Coombs
hemácias controle de Coombs
Figura 30 – Pesquisa de anticorpos irregulares. PAI técnica em tubo com PEG (polietilenoglicol). Enumerar dois tubos de hemólise
como I e II de acordo com a quantidade de hemácias disponíveis no reagente de triagem. Adicionar duas gotas do soro do paciente
e uma gota das hemácias de triagem I e II nos respectivos tubos. Centrifugar e fazer a leitura na fase imediata ou salina e anotar
os resultados. Adicionar duas gotas do potencializador PEG nos tubos e incubar 15 minutos a 37 °C, após realizar a lavagem das
hemácias em NaCl por três vezes e adicionar duas gotas da AGH monoespecífica (IgG), centrifugar e realizar a leitura. Se a reação
for negativa, deve-se adicionar ao tubo da reação uma gota do reagente controle de Coombs (hemácias sensibilizadas) e, após
centrifugação, realizar nova leitura. Essa reação agora deverá ser positiva para validar o resultado negativo encontrado anteriormente
A PAI negativa indica que o paciente ou doador não possui anticorpo irregular contra os antígenos
presentes nas células de triagem testadas, pois existem alguns antígenos que são mais raros e difíceis
de aparecer nas configurações antigênicas da triagem e, como estudamos anteriormente, existem mais
de 300 antígenos. O teste positivo baseia-se na reação de aglutinação ou hemólise de hemácias de
triagem em presença do soro ou plasma do doador ou receptor de sangue com aglutinação, indicando
a presença de um anticorpo irregular, e uma vez detectado, este deve ser identificado e seu significado
clínico precisa ser conhecido. Vale ressaltar aqui que a PAI é válida por 72 horas, segundo a legislação
vigente para receptores, e deve ser repetida após esse tempo. Dessa forma, não é necessário repetir esse
exame toda vez que o paciente transfunde, ele pode ser repetido após expirar esse tempo se o paciente
98
HEMOTERAPIA E BANCO DE SANGUE
ainda necessitar de transfusão. A figura seguinte ilustra resultados da PAI positiva e negativa na técnica
de AGH/LISS em gel centrifugação e tubo.
Figura 31 – Resultados da pesquisa de anticorpos irregulares (PAI). A) Cartela de gel centrifugação Liss/AGH
(BioRad) com amostras 1 e 2 negativas e amostra 3 positiva para as hemácias I e II da triagem de anticorpos. B)
resultado da PAI negativa na hemácia I e positiva (4+) na hemácia II da triagem de anticorpos na técnica em tubo
Lembrete
99
Unidade II
Se o anticorpo contido na amostra avaliada reage com algumas hemácias do painel, é porque essas
hemácias possuem os antígenos específicos para o anticorpo. Por isso, o próximo passo é verificar
qual o antígeno comum a essas hemácias que aglutinaram, ou seja, apresentaram reação positiva. As
outras hemácias, que não aglutinaram, provavelmente não apresentam esse antígeno. É importante
a observação/anotação correta da intensidade de aglutinação (em “cruzes”), tanto na detecção como
na identificação de anticorpos, pois direciona e fornece dados importantes, como, por exemplo, se
existe apenas um anticorpo ou vários na amostra, o que geralmente é apontado pela diferença nas
intensidades de aglutinação. Seguir sempre a padronização de leitura para testes realizados pelo método
convencional (em tubo) ou aglutinação em coluna (gel), como já vimos no capítulo anterior.
É sempre importante realizar o autocontrole (AC) juntamente com o painel de hemácias, para que
possamos saber se o anticorpo que está sendo identificado é auto ou aloanticorpo. Se você identificar a
especificidade do anticorpo, proceder às análises subsequentes, como determinar seu significado clínico:
range térmico, classe da Ig, subclasse da IgG, especificidade, afinidade, capacidade de ativar complemento;
fenotipar a hemácia teste (contraprova). Em caso de anticorpos clinicamente significantes: fenotipar
bolsa que será transfundida para o antígeno correspondente e administrar somente fenótipo compatível
(ex.: o paciente apresenta anti-K, selecionar bolsa K negativo). Em alguns casos, será necessário avaliar
outros dados: idade, etnia, dados clínicos, histórico transfusional, registros anteriores. Isso é muito
útil em casos de identificações de múltiplos anticorpos, anticorpos contra antígenos de alta ou baixa
frequência populacional etc.
em teste. Nas colunas, estão listados os antígenos de grupos sanguíneos mais importantes na prática
transfusional e as linhas registram o perfil antigênico de cada hemácia utilizada como reagente. Deve‑se,
então, verificar qual(is) o(s) antígeno(s) comum(ns) entre essas hemácias. No final do processo, todos
os resultados positivos e negativos devem ser justificados nas diferentes fases para a conclusão final:
relação de anticorpos identificados, excluídos e “mascarados”.
Figura 32 – Resultados da pesquisa de anticorpos irregulares positiva para as hemácias I e II da triagem e negativa para
a hemácia III. Observando o diagrama com essas reatividades, pode-se pensar nos prováveis anticorpos presentes, pois seus
antígenos estão presentes nas hemácias I e II da triagem, são eles: anti-D, anti-K, anti-Fya, anti-Jka e anti-S. Porém há
possibilidade de o paciente apresentar mais de um anticorpo e os seguintes anticorpos não podem ser descartados, pois
apresentam seus antígenos ou na hemácia I ou na hemácia II da triagem: anti-C, anti-E, anti-Cw, anti-Lea e anti-N.
Os anticorpos anti-Kpa e anti-Lua ficam mascarados, pois nas células que compõem a triagem não apresentam seus
antígenos presentes. Na IAI, verifica-se a presença de aglutinação com as hemácias 1, 2, 3 e 8 do painel que remete à
especificidade do anticorpo anti-D que apresenta o antígeno presente nessas mesmas células em que a IAI foi positiva.
Na confirmação da especificidade do anticorpo, deve ser verificado se o paciente não apresenta esse antígeno
Os resultados do IAI devem ser interpretados pela análise do diagrama de antígenos específicos do
painel. A caracterização do anticorpo deverá estar de acordo com a coluna vertical do diagrama
referente a cada antígeno dos sistemas eritrocitários (coluna horizontal). Os resultados do soro
pesquisado deverão ser similares à coluna referente ao anticorpo identificado. Essa igualdade dará o
resultado do anticorpo presente no respectivo soro. Não esquecer de desconsiderar as informações
físico-químicas específicas do anticorpo a ser identificado quando levar para a identificação no diagrama.
101
Unidade II
Figura 33 - Resultados da pesquisa de anticorpos irregulares positiva para a hemácia II da triagem e negativa para a
hemácia I. Observando o diagrama com essas reatividades, pode-se pensar nos prováveis anticorpos presentes, pois
seus antígenos estão presentes na hemácia II da triagem, são eles: anti-E, anti-c, anti-K, anti-Fyb, anti-Jka e anti-Leb.
Os anticorpos anti-Kpa e anti-Lua ficam mascarados, pois as células que compõem a triagem não apresentam seus antígenos
presentes. Na IAI, verifica-se a presença de aglutinação com as hemácias 2 e 6 do painel, que remete à especificidade do
anticorpo anti-K que apresenta o antígeno presente nessas mesmas células em que a IAI foi positiva. Na confirmação
da especificidade do anticorpo deve ser verificado se o paciente não apresenta esse antígeno
O TAD, também conhecido como Coombs direto, é considerado um método simples, que permite
detectar hemácias revestidas in vivo por imunoglobulinas e/ou frações do complemento. A realização
do teste depende do soro antiglobulina humana (AGH), que pode ser obtido a partir da sensibilização
de animais com globulinas humanas e/ou anticorpos monoclonais. Soros monoespecíficos (anti‑IgG,
anti‑IgM, antiIg‑A, anti‑C3c, anti‑C3d) e poliespecíficos (antiIg‑G associado a anti‑C3d) são disponíveis
comercialmente (VIZZONI; SILVA, 2015).
O TAD, caracteriza‑se pela reação de hemácias diretamente com o soro AGH. Na técnica em tubo,
a lavagem de hemácias é importante para remover todo o resíduo de plasma, anticorpos livres e
outras proteínas do meio, evitando um resultado falso negativo com a neutralização do soro AGH. As
antiglobulinas combinam‑se preferencialmente com a porção Fc das moléculas de anticorpos ligadas
às hemácias, e os sítios Fab formam pontes entre os anticorpos produzindo uma aglutinação visível. As
células que não apresentam anticorpos ligados não são aglutinadas.
102
HEMOTERAPIA E BANCO DE SANGUE
AGH
Controle
de Coombs
Centrifugação
2. Adição do soro AGH
Figura 34 – Teste de antiglobulina direto (TAD), técnica em tubo. Amostra deve ser colhida em tubo com EDTA e uma alíquota de
hemácias, deve ser lavada três vezes com NaCl e após fazer a diluição: a 5% dessa hemácia lavada, adicionar uma gota em um
tubo de hemólise com duas gotas do soro AGH, centrifugar e realizar a leitura. Se a reação for negativa, deve-se adicionar ao tubo
da reação uma gota do reagente controle de Coombs (hemácias sensibilizadas) e realizar após centrifugação nova leitura. Essa
reação agora deverá ser positiva para validar o resultado negativo encontrado anteriormente
Para evitar resultados falso negativos no TAD em tubo, deve‑se utilizar o reagente de controle de
antiglobulina humana (controle de Coombs), que é composto de hemácias sensibilizadas por anticorpos
de classe IgG. Essas hemácias reagirão com o reagente antiglobulina humana do sobrenadante na fase
final em um teste negativo. Após a adição do reagente controle e centrifugação, o teste deverá se tornar
positivo, significando que o resultado é verdadeiramente negativo.
103
Unidade II
O TAD é uma ferramenta importante no diagnóstico das anemias hemolíticas imunes, incluindo as
anemias: hemolíticas autoimunes, hemolíticas induzidas por drogas e hemolíticas aloimunes (doença
hemolítica perinatal e reação hemolítica transfusional). Portanto o TAD deve ser realizado em: pacientes
com suspeita de hemólise imune, com o objetivo de diagnóstico ou de monitorização terapêutica;
nessas situações, o teste possui um alto valor preditivo; recém‑nascidos, na presença de aloanticorpos
clinicamente significativos no soro materno; icterícia neonatal e anemia nos primeiros dias de vida. O
TAD positivo não significa que o paciente apresenta anemia hemolítica imune e o teste negativo não
exclui hemólise imune. Todo paciente com TAD positivo deve ser submetido à criteriosa avaliação clínica
(GIRELO; KUHN, 2016).
As principais causas de PC com resultados positivos são: determinações do grupo sanguíneo ABO
incorretas do receptor ou do doador; presença de aloanticorpo no soro do paciente reagindo
com antígeno correspondente nas hemácias do doador; presença de autoanticorpo no soro do
paciente que reage com antígeno correspondente nos eritrócitos doadores; anticorpos aderidos
aos eritrócitos do doador; anormalidades no soro do paciente e contaminação de reagentes,
amostras, vidrarias. Um resultado positivo na prova cruzada requer maiores estudos, sendo
que o paciente não deverá ser transfundido até que a causa da incompatibilidade tenha sido
completamente esclarecida.
104
HEMOTERAPIA E BANCO DE SANGUE
CH
Centrifugação
6. Reações negativas:
3. Adição do potencializador (PEG) adicionar as hemácias
e incubação 15’ a 37 °C controle de Coombs
PC PC
PEC
AGH
Figura 35 – Prova de compatibilidade ou prova cruzada (PC) na técnica em tubo. Deve ser separada uma alíquota da bolsa
de hemácia a ser transfundida e lavada três vezes em NaCl. Realizar uma diluição 5% dessa alíquota lavada e adicionar uma
gota em um tubo de hemólise com duas gotas do soro do receptor, centrifugar e realizar leitura imediata ou fase salina,
anotar os resultados. Após, adicionar duas gotas do potencializador polietilenoglicol (PEG) e incubar por 15 minutos a 37 °C,
ao término da incubação, lavar a reação por três vezes com NaCl e adicionar duas gotas do soro da AGH monoespecífico
(IgG), centrifugar e realizar a leitura. Se a reação for negativa, deve-se adicionar ao tubo da reação uma gota do reagente
controle de Coombs (hemácias sensibilizadas) e realizar, após centrifugação, nova leitura. Essa reação agora deverá ser
positiva para validar o resultado negativo encontrado anteriormente
Saiba mais
105
Unidade II
As transfusões sanguíneas são terapêuticas eficazes quando bem indicadas, entretanto podem estar
associadas a certos riscos e, somente quando os benefícios esperados sobrepõem os riscos potenciais,
a transfusão deve ser indicada. Esses riscos são chamados de reações adversas associadas à transfusão
sanguínea ou reações transfusionais (RT) e podem ocorrer apesar de correta indicação e administração.
As RT são resultados de algum incidente do ciclo do sangue ou da interação entre o receptor e o
hemocomponente (produto biológico ativo/doador), esse que na maioria das vezes não podemos prevenir.
Desse modo, torna-se importante a pronta identificação das possíveis RT, assim como o tratamento e
prevenção de novos episódios (GARCIA; BONEQUINI-JÚNIOR, 2015).
As RT podem ser classificadas quanto: ao tempo de aparecimento do quadro clínico e/ou laboratorial,
à gravidade, à correlação com a transfusão e ao diagnóstico da reação. Estima-se que 1% a 3% das
transfusões sanguíneas resulte em RT, podendo ter variações quanto ao tipo de hemocomponente e/ou
receptor. Na prática diária, as RT são classificadas em imediatas ou tardias, mediadas por vários fatores,
divididas em imunes e não imunes. As RT imediatas são aquelas que ocorrem durante ou até 24 horas
após a transfusão, e as reações tardias são aquelas que ocorrem após 24 horas do início da transfusão,
ilustradas no quadro seguinte.
106
HEMOTERAPIA E BANCO DE SANGUE
As RTs podem variar em gravidade de leve a fatal, o que justifica a criação de sistemas de
vigilância, avaliação e acompanhamento da utilização do sangue, configurando boa parte das
atividades de núcleo de segurança do paciente em hospitais. Apesar de algumas RTs não poderem
ser evitadas, a monitorização e intervenção precoces podem determinar o prognóstico do paciente.
Atualmente, infere-se a existência, no Brasil, de subnotificação das RTs, pois registramos uma
incidência menor que 1%, exigindo medidas que visem à notificação para a prevenção de futuras
reações (BRASIL, 2007).
Os sinais e sintomas mais comuns são de calafrios, tremores e febre durante ou após a transfusão.
Outros sintomas como cefaleia, náuseas, vômitos, hipertensão, hipotensão e dor abdominal junto com
o aparecimento de febre devem ser considerados. O diagnóstico é de exclusão, devendo-se eliminar
outras causas de febre, como reação hemolítica aguda imune, contaminação bacteriana, Trali e outras
causas de febre relacionadas à doença de base ou infecção. Assim, deve-se descontinuar a transfusão e
colher amostras da bolsa e do paciente para a realização das respectivas hemoculturas e repetição dos
testes pré-transfusionais de compatibilidade. A febre costuma ser autolimitada. Medidas profiláticas
podem ser tomadas após o segundo episódio leve ou após o primeiro grave, utilizando-se antitérmico
uma hora antes da transfusão e/ou desleucocitação/filtragem prévia dos hemocomponentes (RESENDE;
GARCIA, 2018).
A RHAI ocorre por hemólise intravascular de hemácias incompatíveis transfundidas devido à presença
de anticorpos pré-formados no plasma do receptor. Geralmente, ocorre a infusão de concentrado de
hemácias ABO incompatíveis devido a erros de identificação de amostras e de pacientes. A fisiopatologia
deve-se à presença de anticorpos ativadores de complemento presentes no plasma do receptor contra
determinado antígeno eritrocitário presente nas hemácias do doador, desencadeando hemólise
intravascular (RESENDE; GARCIA, 2018).
Caracteriza-se por dor no local da infusão, no tórax, abdômen e/ou flancos, hipotensão grave, febre,
calafrios, hemoglobinúria, ansiedade, inquietação e sensação de morte iminente. Pode evoluir com
insuficiência renal por necrose tubular aguda e coagulação intravascular disseminada (CID). Esta pode
consistir no único indício de reação hemolítica aguda em pacientes anestesiados. O diagnóstico, além de
clínico, baseia-se nos achados laboratoriais, como teste de antiglobulina direto (TAD ou Coombs direto)
positivo, queda de hemoglobina/hematócrito, hemoglobinúria e elevação dos níveis de bilirrubina
107
Unidade II
Sempre que houver suspeita de reação hemolítica aguda, a transfusão deverá ser imediatamente
suspensa, realizada a checagem da identificação da bolsa e do paciente (nome, registro, tipagem ABO
do paciente e da bolsa e identificação da bolsa) para evidenciar provável troca de amostra/paciente. Essa
RT é considerada uma reação extremamente grave, podendo evoluir para óbito, estando sua gravidade
diretamente relacionada ao volume de hemácias infundidas e à prontidão ou não das medidas clínicas.
A prevenção da reação hemolítica aguda consiste na checagem de todas as etapas relacionadas à
transfusão, desde a identificação correta da amostra pré-transfusional, até a conferência da identificação
da bolsa e do paciente no momento da instalação do hemocomponente (BRASIL, 2015b).
O diagnóstico diferencial deve incluir outras reações alérgicas (a medicamentos), asma brônquica,
embolia pulmonar, lesão pulmonar aguda relacionada à transfusão (Trali) e sobrecarga circulatória
associada à transfusão (SC/Taco). A prevenção pode ser feita após o segundo episódio leve ou após o
primeiro grave, utilizando anti-histamínico uma hora antes da transfusão. Nesses casos, é imperativo
o acompanhamento rigoroso do ato transfusional. Caso a medicação não evite a ocorrência de reações
semelhantes, deve-se optar pela lavagem do concentrado de hemácias (BRASIL, 2015b).
Trali é caracterizada como dispneia aguda com hipóxia e infiltrado pulmonar bilateral, que ocorre após
a transfusão, não decorrente de sobrecarga circulatória ou de outras prováveis causas de insuficiência
respiratória. Dois mecanismos são relacionados à fisiopatologia: a primeira é de origem imunológica
e se deve à infusão de anticorpos anti-HLA (antígenos leucoplaquetários) ou anti-HNA (antígenos
neutrofílicos) presentes no plasma do doador, que ativam neutrófilos do receptor, liberando citocinas
e levando a uma lesão endotelial e extravasamento capilar; a segunda, de origem não imunológica,
propõe que mediadores biológicos ativariam neutrófilos já estimulados devido a fatores predisponentes
no receptor (BONEQUINI-JUNIOR; GARCIA, 2017).
108
HEMOTERAPIA E BANCO DE SANGUE
Entre as medidas adotadas, está a aferição dos sinais vitais do paciente antes do início da transfusão,
após 15 minutos e ao término da transfusão. Se ocorrer uma reação hipotensiva durante a transfusão, ela
109
Unidade II
deve ser interrompida imediatamente e o paciente tratado com expansores volêmicos e outras medidas de
suporte necessárias. Há melhora do quadro após os primeiros cuidados.
A SC/Taco caracteriza-se por edema pulmonar dentro de seis horas da transfusão, caracterizado por
evidências clínicas, ecocardiográficas e laboratoriais de hipertensão de câmaras cardíacas esquerdas.
A infusão rápida de hemocomponentes ou transfusões maciças, costumam ser os fatores desencadeantes
da sobrecarga. Ela ocorre do aumento da pressão venosa central (PVC), aumento no volume sanguíneo
pulmonar e diminuição da capacidade pulmonar – insuficiência cardíaca congestiva e edema pulmonar
(RESENDE; GARCIA, 2018).
Os sintomas são de insuficiência cardíaca congestiva clássica, incluindo: dispneia, tosse, ortopneia,
cianose, estase jugular, taquicardia, hipertensão, edema periférico. A ausculta usualmente revela
estertoração. No diagnóstico clínico, deve-se lembrar de SC/Taco sempre que um paciente recebendo
hemocomponente apresentar sintomas respiratórios e estertoração à ausculta pulmonar. O tratamento
é similar ao de outras sobrecargas hídricas. Recomenda-se suspender a infusão da transfusão e de outros
fluidos. Deve-se disponibilizar O2 e reduzir o volume intravascular com diuréticos intravenosos (furosemida).
Alguns casos podem necessitar suporte ventilatório mecânico. Como prevenção, em pacientes susceptíveis,
a transfusão deve ser realizada lentamente (três ou quatro horas de infusão) (BRASIL, 2015b).
Na Rhani, ocorre hemólise por causas não imunológicas, incluindo: hemácias congeladas ou
superaquecidas; infusão concomitante de medicações e/ou hidratação (soro glicosado) no mesmo acesso
da transfusão; sangue administrado sob pressão (circulação extracorpórea), manipulação inadequada da
bolsa de sangue etc. O diagnóstico é baseado na exclusão de hemólise por causas imunológicas. Deve-se
repetir exames pré-transfusionais e realizar testes de hemólise (BRASIL, 2015b).
Embolia aérea
Embolia aérea é rara, mas pode ocorrer se o sangue for infundido em sistema aberto, sob pressão,
ou durante a troca de hemocomponentes/manuseio das conexões. Os sintomas incluem: tosse, dispneia,
cianose súbita, hipotensão, arritmia cardíaca, dor torácica e choque. Se há suspeita de embolia aérea,
o paciente deve ser colocado em decúbito lateral esquerdo, com a cabeça baixa, para deslocar a bolha
de ar da valva pulmonar. O uso adequado de bombas de infusão e equipamento de recuperação
intraoperatório (extracorpóreo) são essenciais para prevenir essa complicação (BRASIL, 2015b).
Hipotermia
DM são alterações bioquímicas relacionadas à transfusão, que podem provocar diminuição da função
ventricular esquerda no receptor. Ocorrem principalmente em transfusões maciças, em sangue estocado
há mais de dez dias, em pacientes com insuficiência hepática e em recém-nascidos. A toxicidade pelo
citrato (anticoagulante da bolsa de coleta) ocorre quando o ácido cítrico se liga a cátions divalentes,
como o cálcio e o magnésio. Habitualmente, o fígado metaboliza rapidamente esse citrato. Entretanto,
em situações de transfusão maciça, onde o volume de citrato infundido excede a capacidade hepática
de metabolização, pode ocorrer hipocalcemia e/ou hipomagnesemia (BRASIL, 2007).
O diagnóstico dessa RT se dá por exclusão das outras reações que manifestem dispneia, como a reação
por embolia aérea, a sobrecarga circulatória (SC/Taco), a reação alérgica moderada ou grave (Ralg) e
a contaminação bacteriana (CB). Se não se estabelecer o diagnóstico de nenhuma das reações citadas,
sendo a dispneia o único achado, classifica-se a reação como dispneia associada à transfusão (DAT).
O mecanismo fisiológico que leva ao quadro respiratório ainda é desconhecido (BRASIL, 2015b).
A dor de instalação aguda, inespecífica e intensa, em várias regiões do corpo, pode ocorrer durante
ou após a instalação da transfusão. A etiologia é desconhecida até o momento, mas parece relacionar‑se
com a utilização de filtros para remoção de leucócitos à beira do leito ou com a transfusão de
anticorpos anti-HLA da classe II. Ocorre mais comumente ao término da infusão de concentrado
de hemácias, concentrado de plaquetas por aférese e pool de plaquetas randômicas. A sintomatologia
inclui: inquietação, vermelhidão na pele, calafrios, taquipneia, dispneia, taquicardia e hipertensão
(BRASIL, 2015b).
111
Unidade II
Aloimunização eritrocitária
O quadro clínico pode apresentar febre, queda de hemoglobina, icterícia leve. Algumas reações
hemolíticas tardias podem ser suspeitadas a partir da não elevação nos níveis de hemoglobina
pós‑transfusional ou como febre de origem indeterminada. Outros problemas clínicos menos
frequentes incluem: icterícia inexplicável, hemoglobinúria esporádica. A falência renal ocorre em
raros casos. O diagnóstico laboratorial é determinado pela presença de anticorpos previamente
indetectáveis. A pesquisa de anticorpos irregulares (PAI) apresenta-se positiva. Raramente é
necessário tratamento específico, embora possa ser prudente monitorizar a urina do paciente e a
função renal, além de observar alteração da coagulação. Concentrados de hemácias compatíveis
(que não contenham antígenos específicos) devem ser administrados nas transfusões subsequentes,
ou seja, em transfusões futuras, as hemácias não devem conter o antígeno ao qual o receptor está
sensibilizado (BONEQUINI-JÚNIOR; GARCIA, 2017).
Ocorre em 0,05-0,07% das transfusões. A reação hemolítica tardia é extravascular e ocorre devido
à produção de anticorpos antieritrocitários (outros antígenos de grupo sanguíneo que não ABO)
após transfusão ou gestação prévia, em que haja exposição do paciente a antígenos que ele não
possuía, por exemplo, paciente Kell negativo recebe uma transfusão de concentrado de hemácias Kell
positivo. A reação pode ocorrer em horas a semanas (até três semanas) após a segunda exposição
ao antígeno em questão. O quadro clínico é composto por febre, icterícia e queda da hemoglobina
ou aproveitamento transfusional inadequado. Tal reação deverá ser suspeitada sempre que ocorrer
aproveitamento inadequado da transfusão ou febre sem causa aparente, mesmo na ausência de
icterícia (BRASIL, 2007).
de TA-GVHD incluem: grau de imunodeficiência, grau de similaridade HLA entre doador e receptor e
número de linfócitos T transfundidos com capacidade de proliferação (BRASIL, 2007).
O quadro é caracterizado por pancitopenia refratária, febre, dermatite, eritrodermia que começa
nas palmas das mãos, planta dos pés, lobos das orelhas e face (variando de edema a formação de
bolhas), hepatite com elevação de enzimas hepáticas e bilirrubinas, enterocolites com perda de 3 a
4 litros de diarreia aquosa e imunodeficiências que têm início 4 a 30 dias após a transfusão. Como
não existe tratamento eficaz, a profilaxia é obrigatória. A irradiação gama de componentes celulares
é o método aceito para prevenção de TA-GVHD. A dose obrigatória é de 2500 cGy. Isso torna os
linfócitos incapazes de replicação sem alterar a função de hemácias, plaquetas e granulócitos.
A prescrição de hemocomponentes irradiados deverá ser indicada para: recém-nascidos prematuros;
exsanguineotransfusão e transfusão intrauterina; gestantes; pacientes onco-hematológicos em
quimioterapia; portadores de imunodeficiências congênitas; doadores relacionados (pai/mãe/irmão);
portadores de anemia aplástica e transplantados (BONEQUINI-JÚNIOR; GARCIA, 2017).
A PPT é rara (pouco mais de 200 casos relatados) e caracteriza-se pela ocorrência súbita de
plaquetopenia grave (<10.000/mm³), cerca de cinco a dez dias após transfusão em mulheres com
história de gestações e/ou transfusões prévias. O quadro geralmente autolimitado com resolução
em cerca de três semanas. Geralmente, a contagem de plaquetas ficará maior que 100.000/mm³ em
aproximadamente 21 dias. O uso terapêutico de corticoide ainda é controverso. Os tratamentos de
escolha são imunoglobulina intravenosa (Ig IV) em altas doses ou plasmaférese, sendo o último menos
efetivo (a plasmaférese permite atingir contagem de plaquetas de 20.000/mm³ em um a dois dias,
já a IgIV tem atingido contagens de 100.00 mm³ em quatro a cinco dias). A transfusão de plaquetas
pode ser realizada, se o concentrado for HPA-1a negativo, utilizando-se IgIV concomitantemente. Como
concentrados HPA-1a negativos não estão normalmente disponíveis, a transfusão de plaquetas fica
contraindicada (BRASIL, 2007).
Imunomodulação
Na literatura, há relatos desde a década de 1970 que houve melhor evolução dos transplantes renais
em pacientes transfundidos, sabe-se que as transfusões têm efeito imunomodulatório. Esse efeito
benéfico na indução da tolerância trouxe questionamento sobre se a transfusão teria outros efeitos em
diferentes situações clínicas, inclusive na recorrência de tumores sólidos e no aumento da incidência
de infecção bacteriana no pós-operatório. Apesar dos vários estudos retrospectivos e prospectivos
realizados, o significado clínico da imunomodulação mediada pela transfusão e a utilidade de se tentar
prevenir seu efeito com medidas como a desleucocitação permanecem ainda questionáveis. Deve-se
evitar transfusões desnecessárias (BRASIL, 2007).
Hemossiderose (Hemos)
Cada unidade de concentrado de hemácias contém cerca de 200 mg de ferro. Pacientes cronicamente
transfundidos, especialmente aqueles portadores de hemoglobinopatias, têm progressivo e contínuo
113
Unidade II
O limite para que ocorra lesão com significado clínico é a exposição, durante a vida, a 50-100 unidades
em uma pessoa sem sangramento. A falência hepática e a toxicidade cardíaca são as complicações
mais graves. Para essas complicações, o tratamento é direcionado de forma a remover o ferro
sem espoliar hemoglobina. A infusão subcutânea ou endovenosa de deferoxamina, um agente
quelante do ferro, é importante para reduzir o ferro em tais pacientes, mas é um método caro e
desconfortável. Recentemente, a deferiprona, que é de administração oral, também vem sendo indicada
(BONEQUINI‑JÚNIOR; GARCIA, 2017).
Durante as últimas décadas, as taxas desse tipo de complicação diminuíram drasticamente, devido
à extensa pesquisa para caracterizar os patógenos transmitidos por transfusão, caracterização da
dinâmica das infecções, implementação de critérios mais rígidos na seleção de doadores e aumento
da sensibilidade dos métodos laboratoriais para screening (BRASIL, 2015b).
Os principais patógenos envolvidos são os vírus das hepatites B e C, HIV 1 e 2, HTLV I e II,
citomegalovírus, parvovírus, os parasitas relacionados a doença de Chagas, malária, babesiose e sífilis.
No Brasil, estima‑se como risco residual do HIV, HBV e HCV seja de 1:60.000, 1:300.000, 1:50.000,
respectivamente, e a prevalência de HIV, 0,36%, HBV, 0,20%, e HCV, 0,52% nos doadores de sangue.
Essas taxas variam com a população estudada e com os exames realizados para detecção dos agentes
infecciosos (RESENDE; GARCIA, 2018).
O Ministério da Saúde determina que, para cada doação efetivada, sejam realizados testes sorológicos
para os seguintes patógenos: HIV1 e HIV2, HTLV I e HTLV II, HCV, HBV, T. cruzi, Treponema pallidum,
Plasmodium em áreas endêmicas de malária e CMV para pacientes imunossuprimidos. Essa triagem
laboratorial não garante 100% de segurança quanto à possibilidade de transmissão dos patógenos,
permanecendo um risco residual infeccioso que se deve a alguns fatores, entre eles, a existência de um
período de tempo entre o momento em que o indivíduo se torna infectado e aquele em que o teste
detecta a infecção, conhecido como janela imunológica do teste (BRASIL, 2017).
Ainda existem doenças que, embora conhecidas e com potencial de transmissão, não são testadas
nos doadores, seja porque são pouco frequentes ou porque não há testes disponíveis e adequados para
serem usados na triagem dos doadores, como exemplo: Zika vírus, dengue, Chikungunya, parvovirose,
herpes, babesiose, v-CJD e muitas outras. Para alguns desses agentes, foi incluído no questionário de
triagem clínica perguntas para excluir doadores potencialmente expostos, mas sem sintomas aparentes.
Nos quadros a seguir, estão listadas as reações transfusionais imediatas e as reações tardias, com os
achados clínicos frequentes, causas, tratamentos e prevenções.
114
HEMOTERAPIA E BANCO DE SANGUE
Lembrete
115
Unidade II
116
HEMOTERAPIA E BANCO DE SANGUE
117
Unidade II
Atividade
pró-coagulante
Protrombina
Plaqueta estimulada
Trombina, ADP, Va/Xa
colágeno
Trombina
Plaqueta
Receptores Plaquetas Fibrinogênio
Grânulos estimuladas
Ativação
Agregação
GP IIb-IIIa GP Ib-V-IX
GP Ia/IIa Secreção
Legenda: ADP = difosfato de adenosina; GP = glicoproteína; PDGF = fator de crescimento derivado de plaqueta;
TSP = trombospondina; vWF = fator de Von Willebrand
Figura 36
As plaquetas no sistema hemostático são responsáveis por aglomerar-se em sítios no local de injúria
vascular, formando um tampão sobre uma superfície danificada do endotélio vascular, evitando a perda
sanguínea e promovendo a restauração vascular normal. O sistema hemostático é constituído por plaquetas,
fatores de coagulação, agentes fibrinolíticos, inibidores proteicos e células endoteliais (CASTRO et al.,2006).
• antígenos de natureza glicoproteica, como os do sistema HLA classe I, antígenos presentes nas
glicoproteínas IIb-IIIa, Ia-IIa, Ib-IX, CD109, entre outros;
118
HEMOTERAPIA E BANCO DE SANGUE
De acordo com a nomenclatura HPA, o alelo de maior frequência é representado pela letra “a”, e o
de menor frequência, pela letra “b”.
Os HPAs principais são os dos sistemas HPA -1, -2, -3, -4 e -5. Seus antígenos são formados por
segmentos de proteínas polimórficas no interior de glicoproteínas (GP) da membrana plaquetária. Esses
antígenos são mutações pontuais (SNP), que ocorrem devido à substituição de um aminoácido em
sua proteína. Tais mutações podem ser reconhecidas por células B e T (KAPLAN, 2007; XU et al., 2009).
Existem mais de trinta tipos de glicoproteínas plaquetárias, sendo os complexos GPIa/IIa, GPIIb/IIIa e
GPIb/IX/V, os mais importantes clinicamente.
De acordo com Ghevaert et al., 95% dos anticorpos antiplaquetários têm especificidade contra
HPA‑1a ou 5b, e em 5% dos casos, envolvem aloanticorpos contra o HPA-2, -3 e -15. A probabilidade
de se encontrarem doadores HPA idênticos varia de 10% a 60%, dependendo do grau de
compatibilidade aplicado.
Lembrete
A PTAN acontece quando a mãe produz anticorpos contra antígenos plaquetários expressos na
membrana plaquetária do feto, sendo esse antígeno ausente na mãe, herdado ao feto do pai biológico.
O diagnóstico é realizado por meio do quadro clínico, realização de genotipagem materna, paterna e
do feto, e com realização da identificação de anticorpos anti-HPA. O tratamento baseia-se na transfusão
de plaquetas (KAPLAN, 2002).
A PPT é uma síndrome que ocorre 5 a 10 dias após a transfusão de hemocomponentes (qualquer um
deles), causando plaquetopenia grave, a qual dura aproximadamente duas semanas, podendo ocorrer
sangramento grave. Doença rara que predomina em mulheres. Os principais HPAs envolvidos são os
HPA-1 (80%), HPA-5 (7,2%) e HPA-3 (5%).
A técnica de Maipa, utilizada como padrão ouro para detecção de anticorpos plaquetários, se mostra
muito sensível e mais específica, devido à utilização de anticorpos monoclonais específicos para HPA e
HLA pelo uso de anticorpos monoclonais contra anticorpos plaquetários específicos, como por exemplo
glicoproteína IIbIIIa para pesquisa de anticorpos HPA-1 e HPA-3 ou anticorpos contra glicoproteína HLA
classe I para detectar anticorpos HLA classe I (KIEFEL et al., 1987).
120
HEMOTERAPIA E BANCO DE SANGUE
Entre as vantagens da citometria, podemos relatar ativação insignificante de plaquetas in vitro devido
à manipulação mínima da amostra, necessidade de quantidade muito pequena de sangue, detecção da
expressão de epítopos de superfície das plaquetas e análise precisa das plaquetas dos pacientes com
trombocitopenia grave.
O teste Maipa é realizado incubando-se o soro do paciente com plaquetas (HPA conhecido) de um
painel. Logo após, é realizada uma segunda incubação com anticorpo monoclonal contra a glicoproteína
plaquetária específica (Ac-Gp), a qual se quer pesquisar. As plaquetas são lisadas e esse lisado é incubado
com anticorpo monoclonal dirigido contra Ac-Gp em uma microplaca, retendo apenas fragmentos
da membrana contendo a Gp com genótipo HPA específico conhecido (painel). Numa última etapa,
incuba‑se a reação com imunoglobulina anti-humana marcada com peroxidase. Se houver anticorpo
do soro do paciente ligado ao complexo, a reação mudará de cor. A leitura é realizada por absorbância
em leitor de microplaca (METCALF, 2004).
Plaquetas genotipadas para os antígenos HPA de interesse são incubadas com o soro do paciente,
que pode conter anticorpos anti-HPA (em azul). Essa suspensão é incubada, em seguida, com anticorpo
monoclonal produzido por camundongos “mouse”, dirigido contra a glicoproteína específica (em
vermelho), em que o antígeno HPA de interesse é expresso. As plaquetas são lisadas, e o produto da
lise é incubado em uma microplaca previamente sensibilizada com anticorpo monoclonal “anti-mouse”
(em verde), que vai imobilizar o complexo Ac(mouse)-Gp-Ac humano – esse Ac humano (azul) só estará
presente se o paciente tiver sido aloimunizado.
121
Unidade II
Nas últimas décadas, pôde-se observar em mulheres com histórico gestacional e pacientes
politransfundidos anticorpos contra granulócitos de outros indivíduos, estando relacionados com reação
transfusional febril não hemolítica e neutropenia.
Foram encontrados sete antígenos incluídos em cinco sistemas. Os antígenos HNA-1a, HNA-1b e
HNA-1c são formas polimórficas do receptor de neutrófilos FcyRIIIB (CD16b), codificado por três alelos.
O antígeno HNA-2a (NB1) possui uma glicoproteína carreadora, o CD177. O antígeno HNA-3a está
localizado em uma proteína de base molecular desconhecida. Os antígenos HNA-4a (MART) e HNA-5a
(OND) são mutações de um único nucleotídeo em moléculas de adesão de leucócitos (ORY et al. 1989).
As glicoproteínas que compõem o sistema HNA são específicas de neutrófilos, mas podemos
também encontrá-los em outras células. Os antígenos são determinados geneticamente, podendo
resultar em anticorpos nos indivíduos que não os possuem. Podem ser detectados através de técnicas
de genotipagem e imunoensaios para identificação de anticorpos.
O sistema de neutrófilos humanos mais bem caracterizado é o HNA-1, possuindo quatro alelos:
HNA-1a, -1b, -1c e, mais recentemente, foi descoberto o HNA-d. Os anticorpos desse sistema estão
relacionados à neutropenia aloimune neonatal (NAN), neutropenia autoimune neonatal (Nain) e
podem causar reações transfusionais, como a lesão pulmonar aguda relacionada à transfusão (Trali)
(BUX et al., 2013).
As técnicas de genotipagem com DNA são as melhores para detecção de genes que codificam
antígenos granulocitários, principalmente HNA-1.
A identificação dos anticorpos neutrofílicos pode ser realizada pelas seguintes técnicas: teste de
aglutinação de granulócitos (GAT) e teste de imunofluorescência de células brancas (flow-WIFT) –
ambos os testes devem ser realizados usando um painel de neutrófilos obtidos a partir de três doadores
com genótipos conhecidos de HNA –; ensaio com bead-based – LABScreen Multi (LSM) (One Lambda),
capaz de detectar anticorpos contra antígenos HNA-1a, -1b, -1c, -2, -3a, -3b, -4a, -5a, -5b –; e ensaio
de imobilização de antígenos de granulócitos por anticorpos monoclonais (Maiga). Os anticorpos
anti‑HNA identificados devem ser confirmados por genotipagem do antígeno correspondente (BORDIN;
LANGHI‑JUNIOR; COVAS, 2007).
122
HEMOTERAPIA E BANCO DE SANGUE
Lembrete
O sistema de neutrófilos humanos (HNA) está envolvido em
reações transfusionais e pode levar à aloimunização através de
transfusões e gestações.
A RTFNH imune ocorre após transfusão, quando o receptor possui em seu plasma anticorpos
antineutrófilos contra antígenos de leucócitos, promovendo liberação de citocinas (IL-1B, IL-6, TNF)
pelos leucócitos transfundidos do doador (BUX, 2008).
A RTFNH imune que ocorre por meio da destruição de leucócitos é a forma mais comum,
sendo resultante de anticorpos do receptor contra antígenos leucocitários do doador, relacionada
principalmente com o sistema HLA, podendo também ocorrer devido ao sistema de neutrófilos
humanos.
Observação
A maioria das reações febris é tratada, com sucesso, com paracetamol
e, se necessário, difenidramina. Os pacientes também devem ser tratados
(ex.: com paracetamol) antes das transfusões futuras. Se o receptor sofreu
mais de uma reação febril, filtros de leucorredução são usados para
transfusões futuras.
A NAN ocorre devido a aloanticorpos neutrofílicos maternos contra neutrófilos fetais. Os anticorpos
anti-HNA-1a, anti-HNA-1b e anti-HNA-1c, anti-HNA-2a, anti-HNA-3a e anti-HNA-4a são os mais
envolvidos, ocorrendo em 1% das mães com incompatibilidade antigênica (BUX et al., 1997).
Causada por autoanticorpos contra HNA, a neutropenia primária ocorre geralmente aos 3 a 8 meses
de vida, causando neutropenia profunda, infecções leves e melhora até os três anos. A neutropenia
secundária pode ocorrer em qualquer idade após doença autoimune. A NAI primária está relacionada a
anticorpos anti-HNA-1a ou 1b, e a secundária, a anti-FcyIIIb (HARTMAN; WRIGHT, 1991).
123
Unidade II
A lesão pulmonar associada à transfusão, conhecida como Trali, é um evento transfusional sério que
ocorre na transfusão de hemocomponentes plasmáticos.
A Trali foi reconhecida pela Food and Drug Administration, caracterizada por insuficiência
respiratória aguda, edema pulmonar bilateral, hipóxia, hipotensão, febre sem comprometimento
cardíaco. A Trali é uma complicação que ocorre em um a cada 5 mil unidades transfundidas e em um
a cada 625 pacientes transfundidos. Está associada a anticorpos contra antígenos leucocitários HLA
(classe I ou II ou aloantígenos específicos de neutrófilos) e a mediadores biológicos ativos presentes em
hemocomponentes estocados (BUX, 2005).
Embora sua fisiopatologia não seja completamente conhecida, há evidências de que seja
desencadeada por dois mecanismos distintos: o primeiro relacionado à condição clínica do paciente,
como sepse ou trama, ocorrendo ativação do endotélio pulmonar; o segundo relacionado à infusão de
lipídios biológicos ativos, citocinas ou anticorpos antileucócitos presentes na unidade transfundida
(GAJIIC; MOORE, 2005).
Ao contrário da maioria das reações transfusionais imunes, na Trali, na maioria das vezes, os
anticorpos são do doador contra leucócitos do receptor, sendo que, em casos raros, os anticorpos são
do receptor.
124
HEMOTERAPIA E BANCO DE SANGUE
Lembrete
8 CÉLULAS‑TRONCO HEMATOPOIÉTICAS
A hematopoese ocorre inicialmente por meio de uma célula-tronco multipotente que dará origem a
linhagens mieloide e linfoide. Após o nascimento, essa produção ocorre exclusivamente na medula óssea,
sendo regulada por citocinas, fatores de crescimento, hormônios, interações celulares e matriz estromal.
Linfócito-B
CFC-B
Eosinófilos
CFC-Eosin
Basófilos
Célula-tronco
hematopoiética CFC-Baso
Neutrófilos
Macrófagos
CFC-GM Monócitos
Célula‑tronco CFC
micloide CFC-Mega
Megacariócitos Plaquetas
Eritrócitos
CFC-E CFC-E
125
Unidade II
São utilizadas para tratamento de mais de oitenta doenças no sangue, entre elas anemias, leucemias,
mieloma múltiplo, doenças mielo proliferativas, linfomas, entre outras. Produzem 3 milhões de células
sanguíneas por segundo. As principais fontes de células progenitoras hematopoiéticas (CPH) são:
medula óssea (CPHMO), sangue periférico (CPHSP) e sangue de cordão umbilical e placentário (SCUP)
(DZIERZAK; BIGAS, 2018).
De acordo com Pereira (2008), os transplantes de células-tronco adultas são realizados desde a
década de 1950 na forma de transplantes de medula óssea para o tratamento de diferentes doenças
que afetam o sistema hematopoiético. A partir do final da década de 1980, o sangue do cordão
umbilical e placentário de recém-nascidos tornou-se uma fonte alternativa de CPHs hematopoiéticas.
No recém‑nascido, essas células ainda não migraram para o interior dos grandes ossos e se encontram
no sangue circulante com algumas vantagens sobre a medula óssea: não necessitam de uma
compatibilidade completa entre doador e receptor; apresentam menor risco de desenvolvimento da
doença do enxerto versus hospedeiro e está disponível imediatamente quando necessário, ao contrário
dos bancos de medula óssea, que armazenam somente dados sobre o doador. Mais recentemente, o
transplante de sangue de cordão umbilical e placentário (SCUP) também vem sendo utilizado.
Observação
Importância de ser um doador: o doador ideal (irmão compatível)
só está disponível em cerca de 25% das famílias brasileiras – para 75%
dos pacientes, é necessário identificar um doador alternativo a partir dos
registros de doadores voluntários, bancos públicos de sangue de cordão
umbilical ou familiares parcialmente compatíveis (haploidênticos).
• Portadores de hepatite B e C.
• Pessoas que tenham doenças autoimunes (artrite reumatoide, lúpus, fibromialgia, esclerose
múltipla, psoríase, vitiligo, síndrome de Guillain-Barré, púrpura, síndrome antifosfolipídica,
síndrome de Sjögren, doença de Crohn, espondilite anquilosante).
• Portadores de diabetes, com exceção de diabetes bem controlada, seja por dieta ou medicamento,
estes serão permitidos para o cadastro.
• Realizada em centro cirúrgico, sob anestesia peridural ou geral, e requer internação de 24 horas.
127
Unidade II
Glóbulos vermelhos
Células-tronco
Plaquetas
Podemos realizar também outro método de doação, chamado coleta por aférese, no qual o doador
faz uso de uma medicação por cinco dias com o objetivo de aumentar o número de células-tronco
circulantes no seu sangue.
A doação é realizada por meio de uma máquina de aférese, que colhe o sangue da veia do doador,
separa as células-tronco e devolve os elementos do sangue que não são necessários para o paciente. Os
riscos para o doador são praticamente inexistentes. Até hoje não há nenhum relato de nenhum acidente
grave devido a esse procedimento. No caso da punção diretamente sobre os ossos da bacia, os doadores
de medula óssea costumam relatar um pouco de dor no local.
128
HEMOTERAPIA E BANCO DE SANGUE
Lembrete
129
Unidade II
A decisão sobre o método de doação mais adequado é exclusiva dos médicos assistentes, tanto
do paciente quanto do doador, e será avaliada em cada caso. Tanto a coleta de células-tronco
progenitoras hematopoiéticas de medula óssea ou sangue periférico podem ser obtidas de forma
autóloga ou alogênica.
Para uso alogênico com doador aparentado e não aparentado, a histocompatibilidade deve seguir as
regras da legislação vigente. Para uso autólogo de CPH, deve-se seguir critérios previamente definidos
e documentados.
A CPH alogênica deve seguir os seguintes critérios: nome, registro, peso, resultado das provas
pré-transfusionais de acordo com a regra vigente, data da realização dos testes para doenças
transmissíveis, teste de gravidez no doador e esquema de mobilização das CPH, quando aplicável. As
provas de compatibilidade pré-transfusionais devem ser repetidas até 48 horas antes, se o receptor
recebeu transfusão sanguínea desde a última prova de compatibilidade pré-transfusional realizada
(BRASIL, 2004a).
A CPH autóloga deve seguir critérios como: nome, registro, diagnóstico, peso, tipagem ABO/Rh
do doador/paciente, resultado e data da realização dos testes de doenças transmissíveis, teste de
gravidez no doador/paciente e esquema de mobilização das CPH. Entende-se por mobilização a técnica
de recrutamento das CPH da medula óssea para o sangue periférico por meio da administração de
quimioterápico, fatores de crescimento ou ambos (BRASIL, 2004a).
A coleta pode ser realizada tanto em parto normal quanto cesárea. O sangue é extraído da porção
do cordão ainda conectada à placenta e colocado em uma bolsa de sangue estéril. O volume coletado
deve ser calculado a partir do peso líquido da coleta, assumindo 1 mL = 1 g. O material somente pode
ser criopreservado se o volume coletado for igual ou superior a 70 mL, excluído o anticoagulante ou
se o número total de células nucleadas for superior a 5 x 108 (BARKER; WAGNER, 2003; TROUNSON
et al., 2011).
O Banco de Sangue de Cordão Umbilical e Placentário para uso alogênico não aparentado (BSCUP),
é um serviço que coleta, testa, processa, armazena e libera células progenitoras hematopoiéticas
obtidas de sangue de cordão umbilical e placentário para uso alogênico não aparentado. Há também
o Banco de Sangue de Cordão Umbilical e Placentário para uso autólogo (BSCUPA).
Os BSCUPs devem efetuar a seleção de gestantes candidatas à doação de sangue de cordão umbilical
e placentário, obter consentimento livre e esclarecido, conforme modelo no RDC n. 153 de 2004 e realizar
a coleta de células progenitoras hematopoiéticas de sangue de cordão umbilical e placentário (BRASIL,
2004a). As células‑tronco do bebê, quando coletadas de maneira autóloga, são 100% compatíveis com
ele próprio e possuem 25% de chance de serem compatíveis com um irmão direto.
130
HEMOTERAPIA E BANCO DE SANGUE
As candidatas à doação de SCUP deverão ser gestantes que satisfaçam pelo menos as seguintes
condições: idade entre 18 e 36 anos 11 meses e 29 dias, inclusive, que tenham se submetido, no mínimo,
a duas consultas pré-natais documentadas; idade gestacional igual ou superior a 35 semanas, peso
fetal igual ou superior a 2 kg, bolsa rota há menos de 18 horas, trabalho de parto sem anormalidade,
ausência de processos infecciosos durante a gestação ou doenças que possam interferir com a vitalidade
placentária (BRASIL, 2004a).
Lembrete
131
Unidade II
De acordo com a RDC n. 153 (BRASIL, 2004a), o CPHMO deve ser filtrado para remoção de
macropartículas e microagregados usando filtros de 170 a 200 micra. Os filtros devem ser estéreis,
podendo ser descartáveis ou permanentes e reesterelizáveis. Deve ser acondicionado em bolsa plástica
própria para hemocomponentes, identificado com rótulo adesivo, resistente a resfriamento e com as
seguintes informações: para uso alogênico: natureza do componente (CPH de medula óssea), registro do
doador, nome e registro do receptor, data e hora do término da coleta, tipagem ABO/Rh do componente,
resultados dos testes para doenças transmissíveis e volume do componente. Para uso autólogo: natureza
do componente (CPH de medula óssea), nome e registro do doador/paciente, data e hora do término da
coleta, volume total do componente.
De acordo com a RDC n. 153, o CPHSP deve ser acondicionado em bolsa plástica própria para
hemocomponentes, identificado com código de barra, com rótulo adesivo, resistente a resfriamento,
com pelo menos as seguintes informações: para uso alogênico: natureza do componente (CPH de
sangue periférico), registro do doador, nome e registro do receptor, data e hora do término da coleta,
tipagem ABO/Rh do componente, resultados dos testes para doenças transmissíveis e volume total do
componente. Para uso autólogo: natureza do componente (CPH de sangue periférico), nome e registro
do doador/receptor, data e hora do término da coleta, volume total do componente.
O transporte de CPHSP ou CPHMO criopreservadas deve ser realizado da forma mais rápida e eficiente
possível. O transporte de CPHSP ou CPHMO não criopreservados: intra-hospitalar – os componentes
devem ser acondicionados e transportados no interior de uma embalagem resistente e com tampa;
132
HEMOTERAPIA E BANCO DE SANGUE
inter-hospitalar – os componentes devem ser acondicionados em uma caixa térmica que mantenha a
temperatura interior entre 4 °C e 24 °C.
Os períodos entre o término da coleta e o início da infusão (para componentes não criopreservados)
e entre o término da coleta e o início da criopreservação não devem exceder 48 horas. Os componentes
devem permanecer à temperatura de 4 °C (mais ou menos 2 °C), em repouso, até o seu processamento
ou sua infusão.
O transporte do SCUP para o laboratório de processamento deve ser feito em caixa térmica que
mantenha a temperatura interior entre 4 °C e 24 °C. A caixa térmica deve dispor de um sistema de
monitoramento e registro da temperatura interna, que acuse valores fora desses limites.
8.3 Processamento
O processamento das CPH deve seguir um manual de normas técnicas detalhando todos os
procedimentos realizados, a data da última revisão e a assinatura do seu responsável. O manual técnico
deve ser validado pela gestão da qualidade da instituição.
De acordo com a RDC n. 153 (BRASIL, 2004a), as unidades de CPHSP e CPHMO, para uso autólogo e
alogênico, devem ser encaminhadas para o laboratório de processamento antes da infusão, para registro,
controles e processamento, quando aplicável, e poderá ser submetida à criopreservação em até 48 horas
após a coleta. No caso de ser infundida sem ser submetida à criopreservação, a infusão deve ocorrer em
até 48 horas após a coleta. Em ambos os casos, a unidade deve ser mantida em repouso, à temperatura
de 4 °C (mais ou menos 2 °C).
As unidades de CPHSP e CPHMO, para uso alogênico ou autólogo, devem obrigatoriamente ser
submetidas aos seguintes exames para controle de qualidade:
CPHSP CPHMO
Contagem total de células nucleadas Contagem total de células nucleadas
Análise microbiológica para fungos e
Contagem de células CD34 positivas bactérias aeróbias e anaeróbias
Análise microbiológica para fungos e
bactérias aeróbias e anaeróbias
Em casos de infusão imediata, sem necessidade de ser submetida à criopreservação, as bolsas podem
ser liberadas para infusão antes do resultado da análise microbiológica.
A bolsa de CPHSP ou CPHMO que for submetida à criopreservação deve ter uma alíquota de células
mononucleares criopreservada e armazenada nas mesmas condições que a bolsa. A remoção de
133
Unidade II
eritrócitos e de plasma das bolsas de CPHSP e CPHMO, quando indicada, deve ser realizada em câmara
de segurança biológica tipo II, classe A. A bolsa plástica deve ser específica para criopreservação e, no
armazenamento, deve ser protegida por um estojo adequado.
As bolsas de CPHSP e CPHMO processadas devem ser identificadas com etiqueta que contenha, no
mínimo, natureza do componente, nome e registro do receptor e data da criopreservação. No caso de
uso alogênico, também deve conter a tipagem ABO e Rh e o resultado da prova de compatibilidade
(prova cruzada) realizada antes da coleta.
Na unidade de SCUP/SCUPA deverão ser realizados testes para quantificação de células progenitoras
hematopoiéticas: contagem de células CD34 positivas, por citrometria de fluxo; número de unidades
formadoras de colônias granulocíticas monocíticas (CFU-GM); teste de viabilidade celular; testes para
detecção de contaminação bacteriana, aeróbica e anaeróbica e fúngica devem ser realizados pelo menos
no produto final, após processamento e antes da criopreservação, em cada unidade de sangue de cordão
umbilical e placentário.
As unidades com alguns destes testes positivos devem ser descartadas (BRASIL, 2004).
Lembrete
As bolsas de CPHSP ou CPHMO que, após o descongelamento, forem submetidas à lavagem para
remoção do DMSO, devem ser infundidas imediatamente após o término da lavagem.
A bolsa de CPH deve ser armazenada à temperatura igual ou inferior a 80 °C negativos, sendo
aceitável uma variação de até 4 °C acima dessa temperatura.
As unidades e as alíquotas de células viáveis devem ser mantidas em temperatura igual ou inferior
a 135 °C negativos.
No mínimo, uma alíquota de cada unidade de SCUP/SCUPA, contendo células viáveis, deve ser
criopreservada e armazenada sob as mesmas condições da unidade de correspondente, devendo estar
disponível para os testes que antecedem seu uso.
Deve‑se receber uma amostra do sangue do candidato a receptor e encaminhar uma alíquota do
SCUP/SCUPA para o serviço de transplante, para realização de testes de HLA (BRASIL, 2004a).
Saiba mais
Você quer saber mais sobre doação e transplante de medula óssea? Leia
a RDC n. 34, de 11 de junho de 2014, que dispõe sobre as boas práticas no
ciclo do sangue.
135
Unidade II
Resumo
136
HEMOTERAPIA E BANCO DE SANGUE
Exercícios
Questão 1. (Enade 2019) Uma mulher de 32 anos de idade foi a um banco de sangue realizar
doação pela primeira vez. Ao chegar ao hemocentro, realizou seu cadastro e as triagens clínica e
hematológica para checar a pressão arterial, os batimentos cardíacos, o peso, a temperatura corporal
e o hematócrito. Para analisar antecedentes patológicos e fatores de risco que poderiam impedir a
doação de sangue, foi submetida a uma entrevista. Considerando que o perfil imuno‑hematológico da
doadora tem o tipo sanguíneo “B positivo”, é correto afirmar que ela apresenta:
Análise da questão
137
Unidade II
Nos indivíduos de sangue O, não ocorre alteração da estrutura do antígeno H, pois as enzimas não
são expressas.
Todos os indivíduos apresentam anticorpos contra os antígenos que não são produzidos por suas
glicosiltransferases. Assim:
Isso ocorre porque existem, em nossa microbiota intestinal, bactérias que expressam ambos
os antígenos A e B em sua superfície, o que leva o organismo a reconhecer como “não próprios” os
carboidratos que não estão presentes na superfície das suas células.
Portanto os indivíduos com sangue tipo B apresentam anticorpos anti-A em seu sangue.
O antígeno D, por sua vez, faz parte do sistema Rh do sangue. Indivíduos com Rh positivo expressam
o antígeno D na superfície das hemácias, enquanto aqueles com Rh negativo não expressam.
“O teste de Coombs direto, ou antiglobulina direta (TAD), constitui um método simples para a
demonstração da presença de imunoglobulinas e/ou do complemento na superfície dos eritrócitos.
O TAD é utilizado no estudo das anemias hemolíticas e no diagnóstico da eritroblastose fetal, uma
doença causada pela incompatibilidade entre o fator Rh da mãe e do feto. Durante o pré-natal, é
importante a gestante saber seu tipo sanguíneo e o fator Rh, para que seja avaliada a necessidade de se
fazer uso da vacina anti-Rh, também conhecida como vacina RhoGam.”
I – O TAD visa a detectar os anticorpos materno da classe IgG aderidos à superfície das hemácias fetais.
138
HEMOTERAPIA E BANCO DE SANGUE
III – As plaquetas, assim como as hemácias, apresentam antígenos D, característicos do sistema Rh,
o que explica a alteração da hemostasia observada no curso da eritoblastose fetal.
IV – A vacina RhoGam impede a sensibilização da mãe pelo fator Rh positivo do feto e impede o
desenvolvimento de eritoblastose fetal, principalmente durante a primeira gestação.
A) I e II.
B) II e III.
C) III e IV.
D) I e III.
E) II e IV.
I – Afirmativa correta.
Justificativa: os anticorpos maternos que aderem às hemácias fetais são da classe dos IgG, visto que
esses anticorpos são os únicos que atravessam a barreira placentária.
II – Afirmativa correta.
Justificativa: quando a mãe apresenta Rh negativo (não expressa o antígeno D) e o feto apresenta
Rh positivo (expressa o antígeno D), o sistema imunológico da mãe produz anticorpos contra o
antígeno D das células fetais.
Justificativa: as plaquetas apresentam antígenos do sistema ABO, mas não o antígeno D, característico
do sistema Rh.
IV – Afirmativa incorreta.
Justificativa: a finalidade da vacina RhoGam é impedir que a mãe de Rh negativo seja sensibilizada
pelos antígenos D presentes nas hemácias do feto de Rh positivo. Assim, em uma segunda gestação,
caso o feto seja novamente Rh positivo, não há risco de desenvolvimento de eritoblastose fetal.
139
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