Unid 3
Unid 3
Unidade III
7 MECANISMOS DA HEMOSTASIA E COAGULAÇÃO DO SANGUE
Imagine que um indivíduo está manuseando uma faca e faz um corte superficial em um dos dedos
da mão. A sequência de eventos posterior ao corte vai terminar quando o tecido for restabelecido, o que
levará alguns dias.
Para efeitos didáticos, a hemostasia é dividida em três fases: a hemostasia primária, que ocorre logo
após a lesão do vaso e leva à formação de um tampão instável que pode ser destruído com o fluxo
sanguíneo; a hemostasia secundária, que compreende a formação da rede de fibrina, ou seja, o coágulo
é mais consistente; e a fibrinólise, que permite a destruição do coágulo para que este não permaneça
mais tempo do que o necessário.
Hemostasia primária
↓
Hemostasia secundária
↓
Fibrinólise
Quando o endotélio vascular está íntegro, as plaquetas não aderem ao vaso, por isso o sangue
mantém a fluidez e não há formação de trombos. Entretanto, quando há uma lesão, ocorre vasocontrição
e exposição do colágeno, o que favorece uma série de reações na plaqueta que culminam com a adesão,
ativação, agregação e formação da rede de fibrina.
A plaqueta apresenta vários receptores de adesão, entre estes, o complexo glicoproteico Ib que se
liga ao fator de Von Willebrand (FvW). A ligação entre o complexo Ib e o FvW favorece a adesão das
plaquetas circulantes na superfície vascular. O FvW funciona como um adaptador entre a plaqueta e
o colágeno exposto do subendotélio. A falta desse fator, como ocorre na doença de Von Willebrand,
acarreta hemorragias recorrentes, como veremos mais adiante.
Esse ácido é substrato para as enzimas cicloxigenases (COX1 e COX2), que produzem prostaglandinas.
A enzima tromboxano sintetase age sobre a prostaglandina e produz tromboxano A2, que é um potente
agregador plaquetário e vasoconstritor. Durante a ativação, as plaquetas secretam o conteúdo dos
grânulos densos (ATP, GTP, ADP, cálcio, tromboxano e serotonina) e a ligação ocorre pela ligação entre o
fibrinogênio à glicoproteína IIb-IIIa.
O fibrinogênio está solúvel no plasma e a GPIIb-IIIa se liga ao fibrinogênio. Essa reação é autocatalítica
e resulta na formação de um tampão denominado tampão homeostático primário.
Tromboxano
Fosfolipase Cicloxigenase sintetase
Endoperóxidos Vasoconstrição
Plaqueta Fosfolípideos Ácido cíclicos Tromboxano
ativada de membrana aracdônico A2 favorece a agregação
(PGG2/PGH2) plaquetária
De modo oposto, o endotélio vascular produz prostaciclina PGI2, que atua como potente vasodilatador
e inibidor da agregação plaquetária. A produção de PGI2, em condições fisiológicas, é pequena, mas
agentes como a trombina favorecem a liberação de maiores quantidades de PGI2.
Prostaciclina
Fosfolipase Cicloxigenase sintetase
Endoperóxidos Vasodilatação
Célula Fosfolípideos Ácido cíclicos Prostaciclina
endotelial de membrana aracdônico (PGI2) inibe a agregação
(PGH2) plaquetária
A hemostasia secundária foi descrita em 1964, por Macfarlane, Davie e Ratnoff, como um modelo
de cascata de coagulação, pois os fatores que estão na forma inativa são ativados e catalisam a ativação
do fator seguinte. A cascata foi classicamente descrita pelas vias extrínseca, intrínseca e comum, mas
sabe-se que não ocorre de forma independente e paralela, e o produto final é a rede de fibrina, que
forma o tampão homeostático secundário. Observe que a cascata é composta por fatores solúveis
que são proteínas numeradas em algarismo romano de I a XIII, em ordem de descobrimento e não por
ordem de ativação.
Todos os componentes da via intrínseca estão presentes no sangue e, para que ocorra a via extrínseca,
é necessária a participação do fator tecidual (FT). A via intrínseca é desencadeada quando o fator XII é
ativado pelo contato com uma superfície de carga negativa, por exemplo, o colágeno subendotelial
exposto na lesão. Esse processo requer também pré-calicreína (serinoprotease) e cininogênio de alto
peso molecular (HMWK ou high molecular weight kinogen), que é um cofator não enzimático.
O fator XII ativado ativa o fator XI que, na sequência, ativa o fator IX. O fator IX ativado, na presença
de fator VIII ativado por traços de trombina e na presença de íons cálcio, ativa o fator X da cascata.
Já a via extrínseca, é ativada de modo mais simples, a partir do fator tecidual (tromboplastina tecidual)
liberado dos tecidos lesados, que forma um complexo com o fator VII, mediado por íons cálcio. Este
104
HEMATOLOGIA CLÍNICA
FP3
VIII VIIa
X Xa Via comum
Complexo
FP3 do fator VI
Ca+2 XII
Va Va
II IIa XIIa
Protrombina Trombina
I Ia Ia
Fibrinogênio Rede de fibrina Rede de fibrina
estável
Apesar de o modelo de cascata de coagulação ter sido amplamente empregado para o estudo da
coagulação, ele não é suficiente para o entendimento de algumas situações in vivo. Acreditava-se
que a via intrínseca era mais importante que a extrínseca em virtude da gravidade das manifestações
hemorrágicas nos pacientes que não produzem fatores VIII ou IX. Entretanto, indivíduos que não
produzem fator XI têm hemorragia leve e a falta de fatores XII, pré-calicreína e cininogênio de alto
peso molecular não ocasionam quadro hemorrágico. Entretanto, a falta de fator VII provoca quadro
hemorrágico grave.
Atualmente, são considerados relevantes os fatores dependentes de vitamina K (II, VII, IX e X),
associados aos cofatores (V e VIII), presentes em uma membrana que tem fosfolipídeos. Dessa forma, a
coagulação pode ser explicada em três fases: iniciação, amplificação e propagação.
Na fase de iniciação, após a lesão, as células do endotélio vascular expressam o fator tecidual.
O fator tecidual ativa o fator VII. O complexo FT/VIIa ativa do fator X e fator IX. O fator Xa ativa o fator V
e, assim, se forma o complexo protombinase (Xa/Va). Caso o fator Xa permaneça na superfície celular,
105
Unidade III
juntamente com o fator Va, eles convertem uma pequena quantidade de protrombina em trombina, que
é essencial para a próxima fase, de amplificação.
Durante a amplificação, que ocorre na superfície das plaquetas, a trombina formada na fase anterior
realiza quatro funções: ativa as plaquetas, ativa o fator V na superfície das plaquetas e forma o fator Va,
dissocia o complexo VIII:FvW e ativa o fator XI na superfície das plaquetas formando o fator IX ativado.
O FvW livre participa da adesão e agregação plaquetária. A seguir ocorre a fase de propagação, que
requer os fatores ativados Va, VIIIa e IXa.
Fase de Fase de
iniciação amplificação
X II IIa
IIa XI V
Xa
VIIa V
TF Va Va
XIa
Va FcW VIIIa Plaqueta
TF ativada
VIIa IX
VIIIa
FcW
IXa
Fase de
propagação
X
TF VIIa IX
IXa Complexo
Xa
IXa VIIIa Plaqueta protrombinase
ativada Va
II
Complexo
tenase
IIa
I Ia
Fibrinogênio Fibrina
106
HEMATOLOGIA CLÍNICA
O fator tecidual (TFPI) é um inibidor de protease plasmático sintetizado pelo endotélio vascular.
Esse fator inibe o fator Xa e o complexo formado entre TFPI/Xa se torna um potente inibidor do fator
tecidual (FT)/ fator VIIa.
Inibição
TFPI/Xa Fator tecidual/VIIIa
O endotélio vascular também expressa a proteína trombomodulina, a qual se liga à trombina. Essa
ligação resulta em mudanças na trombina, que adquire nova função, a de ativar a proteína C no plasma.
A proteína C ativada degrada os fatores VIIIa e Va, que formam os complexos tenase e protrombinase,
respectivamente. E a proteína S participa como cofator da proteína C ativada.
Va VIIIa
Inibição Inibição
Trombina
Trombomodulina
Célula endotelial
Já a ação da antitrombina III (AT III) é essencial na fibrinólise provocando a inativação da trombina
e dos fatores IXa, Xa, XIa e XIIa. A AT III é um inibidor de protease plasmático e, quando a heparina
está presente, a AT III sofre uma modificação conformacional que inibe a trombina de forma rápida
e irreversível.
107
Unidade III
HMWK
cininogênio
XII XIIa -
- Antitrombina III
XI XIa
-
IX IXa
-
-
X Xa
II IIa
Protrombina Trombina
I Ia
Fibrinogênio Rede de fibrina
Saiba mais
Quando a plasmina age sobre a fibrina, são formados os produtos de degradação da fibrina (PDFs),
que são removidos da circulação pelo sistema retículo endotelial do baço e pelo fígado, mas, se a
108
HEMATOLOGIA CLÍNICA
produção for maior que a remoção, o acúmulo de PDFs pode alterar a ação das plaquetas e inibir a
coagulação. Por outro lado, o sistema fibrinolítico pode ser inibido por ativadores do plasminogênio,
a partir da ação dos inibidores específicos (PAIs, de plasminogen activator inhibitors), sendo o PAI-1 o
principal inibidor que age diretamente sobre a plasmina.
Células endoteliais
vasculares lesadas
Ativadores do plasminogênio
(t-PA, u-PA)
Plasminogênio Plasmina
Figura 74 – Fibrinólise
Os testes para avaliação da hemostasia e coagulação são solicitados em diversas situações, por
exemplo, na avaliação pré-cirúrgica, na investigação de hemorragias, no monitoramento do uso de
anticoagulantes ou, ainda, na investigação de distúrbios da coagulação.
Abordaremos, a seguir, os principais testes utilizados para o diagnóstico das patologias que envolvem
a hemostasia. É importante que o paciente informe, no momento de realização dos exames, todos
os medicamentos de que faz uso, sobretudo antiagregantes plaquetários como o ácido acetilsalicílico
(Aspirina®, AAS®, Melhoral® etc). O ideal seria que o paciente não faça uso desses medicamentos antes
da realização dos exames, mas, muitas vezes, não é possível a suspensão do medicamento e, por esse
motivo, é importante reportar o uso ao laboratório (LORENZI, 2006).
• Tempo de sangramento: esse exame deixou de ser feito em muitos laboratórios por apresentar
muitas variações na execução. Atualmente, o conjunto de exames solicitados, por exemplo,
no pré‑operatório, consiste em contagem de plaquetas, tempo de protrombina e tempo de
tromboplastina parcial ativada. Por ter sido muito tempo utilizado, vamos descrever o teste
que mede o tempo necessário para a hemostasia de uma pequena incisão realizada na superfície do
antebraço (até 3 mm de profundidade). Com o auxílio de um esfigmomanômetro, no braço do paciente
(mesmo braço da punção), aplicar uma pressão de 40 mmHg, que é mantida durante todo o teste.
Fazer uma incisão no antebraço do paciente com o auxílio de um molde (denominado template) e
cronometrar o tempo de sangramento. O sangue do ferimento deve ser absorvido com um papel
de filtro a cada 30 segundos. O valor de referência é de 2 a 8 minutos. O tempo de sangramento
pode estar aumentado em pacientes que fazem uso de medicamentos como o ácido acetilsalicílico
ou, ainda, em pacientes com trombocitopenia, fragilidade capilar, portadores de doença de Von
Willebrand, entre outros.
110
HEMATOLOGIA CLÍNICA
• Prova do laço: também conhecida como prova do torniquete ou teste de fragilidade capilar.
Esse teste permite avaliar a fragilidade capilar, como ocorre, por exemplo, em pacientes com
suspeita de arboviroses (dengue, Zika, chikungunya). Deve-se aferir a pressão arterial do paciente
e determinar a pressão média entre a pressão máxima e mínima. Na sequência, desenha-se um
quadrado (2,5 x 2,5 cm) no antebraço do paciente. Aplica-se a pressão média obtida e os pontinhos
vermelhos (caso presentes) devem ser contados. Em adultos, o teste é positivo quando houver, no
mínimo, 20 petéquias (pontinhos vermelhos) em adultos ou, no mínimo, 10 em crianças.
• Tempo de coagulação (TC): teste em desuso também, deixou de ser realizado pelos grandes
laboratórios. Consiste na leitura visual da coagulação do sangue, que é coletado em seringa
sem anticoagulante, e transferido para um tubo de ensaio, mantido a 37 °C. Após 4 minutos
de incubação, inicia-se a inspeção visual, que é repetida a cada 30 segundos. O tubo é colocado
na horizontal, se o sangue escorrer, a coagulação não está completa. Quando o coágulo não se
desprende do fundo do tubo, o tempo de coagulação é anotado. Avalia-se, desse modo, alterações
dependentes dos fatores XII, XI, IX, VIII, X, V, II e I. Os valores de referência variam de 5 a 15 minutos.
• Tempo de tromboplastina parcial ativado (TTPA): é o tempo gasto para que ocorra a coagulação
do plasma após a adição de um ativador (por exemplo, o caolim) e do reagente cefalina. Esse
teste avalia a via intrínseca da coagulação pela adição da cefalina, que age como o substituto
plaquetário e de cálcio ao plasma do paciente. A cefalina substitui o fosfolipídio da membrana
plaquetária. A mistura é incubada a 37 °C para ativação, em seguida, adiciona-se cloreto de cálcio
para que ocorra a recalcificação (substitui o citrato) e formação do coágulo. A reação é feita em
coagulômetro que usa sistema fotométrico para detecção. O TTPa está aumentado quando o
paciente apresentar deficiência dos fatores da via intrínseca (XII, XI, IX e VII) e de fatores da via
comum (X, V, II e I). Pacientes com hemofilias A e B, deficiência de vitamina K, hepatopatias e
em uso de anticoagulantes apresentam TTPa aumentado. O valor de referência de TTPa em um
indivíduo saudável varia entre 24 e 40 segundos.
• Tempo de protrombina (TP ou TAP): avalia o tempo de coagulação do sangue após a recalcificação
(adição de cloreto de cálcio) do plasma coletado em citrato. É avaliada a via extrínseca e a via
comum, portanto, são considerados os fatores: VII, X, V, II e o fibrinogênio. O TP está prolongado
nos casos de deficiência isolada ou conjunta dos fatores citados. Como os fatores VII, X e II são
dependentes de vitamina K, o TP é utilizado no monitoramento terapêutico de pacientes que
fazem uso de anticoagulantes com dicumarínicos e quando há suspeita de carência de vitamina K.
111
Unidade III
Exemplo de aplicação
Um paciente faz uso de varfarina. Ele realizou o exame de TP e o resultado do RNI foi de 4,3. Nesse
caso, o clínico vai solicitar que a dose de varfarina seja diminuída ou aumentada?
• Detecção de produtos de degradação da fibrina (PDF) e D dímeros (DD): a fibrina formada pela
coagulação é degradada pelo sistema fibrinolítico em produtos de degradação de fibrina (PDF) precoces
e tardios. Os fragmentos precoces são inicialmente grandes (350 a 2.000kDa), mas, posteriormente,
são reduzidos em fragmentos pequenos (240kDa), que são denominados dímeros D (DD).
Os testes de quantificação de DD são mais sensíveis que os métodos de detecção de PDF. Os DD são
marcadores de ativação da coagulação e da fibrinólise. Está precocemente aumentado sempre
que ocorre formação de coágulo de fibrina intravascular. Vejamos na figura a seguir o mecanismo
de formação dos DD.
112
HEMATOLOGIA CLÍNICA
PDF
Fibrinogênio
↓ Trombina
• Dosagem da antitrombina III: a antitrombina III inibe a ação dos fatores ativados XIIa, XIa,
IXa e Xa, evitando assim a coagulação excessiva. Pacientes podem apresentar deficiência de
antitrombina na forma hereditária, que é rara ou adquirida. A forma adquirida está associada
às condições, tais como: coagulação intravascular disseminada (CID), doença hepática, câncer e
síndrome nefrótica, entre outras. Valores diminuídos estão associados à hipercoagulabilidade do
sangue e risco aumentado de trombose venosa.
113
Unidade III
Observação
A partir dos sinais e sintomas reportados na anamnese, é possível classificar o distúrbio em primário
(vasos sanguíneos e plaquetas) ou secundário (cascata da coagulação) e, consequentemente, direcionar
os exames para o diagnóstico. O aparecimento de petéquias ou equimoses (placas) e sangramento
das mucosas são característicos dos distúrbios primários, e os sangramentos musculares e articulares,
geralmente, indicam alterações na cascata da coagulação.
Dessa maneira, vamos reunir os distúrbios da hemostasia e coagulação em três grupos: coagulopatias,
púrpuras e tromboses.
114
HEMATOLOGIA CLÍNICA
7.2.1 Coagulopatias
As hemofilias dos tipos A e B ocorrem por deficiência dos fatores VIII e IX, respectivamente, sendo
a forma A (70 a 85% dos casos) mais comum que a B (15 a 30% dos casos). Existe ainda a hemofilia
tipo C, denominada síndrome de Rosenthal, decorrente da falta do fator XI. Nesse último caso, a forma
da doença é mais branda em comparação com as outras formas, epistaxes e hematomas ocorrem, mas
são menos frequentes, assim como a hemartrose e o sangramento espontâneo.
Figura 77 – Herança da hemofilia. Pai hemofílico e mãe portadora do gene para hemofilia
Já no caso da prole de uma mãe portadora com um pai normal, 50% das filhas têm chance de serem
portadoras e 50% de chance de os filhos serem hemofílicos. Observa-se que a doença pode não se
manifestar na geração imediatamente seguinte à de parentes hemofílicos.
115
Unidade III
Figura 78 – Herança da hemofilia. Pai hemofílico e mãe portadora do gene para hemofilia
A quantidade de fator VIII nas mulheres portadoras pode variar, isso ocorre pela inativação de um
dos cromossomos X no início da via embrionária. A inativação é aleatória e pode ocorrer de afetar
o cromossomo X, que tem um gene normal. Portanto, o cromossomo ativo é o que expressa o gene
hemofílico (Xh).
Nessas situações, a mulher portadora tem 50% do fator VIII no plasma. As portadoras podem
ser normais ou hemofílicas. Nas mulheres portadoras, os níveis de fator VIII, geralmente, estão
entre 30 a 50U/dL (o valor de referência é de 50 a 180U/dL). E nos homens hemofílicos, os níveis
variam de acordo com a gravidade da doença, que pode se manifestar na forma grave (FVIII < 1%),
moderada (FVIII entre 1 e 5%) ou leve (FVIII entre 5 a 40%). Pode ocorrer também de o paciente apresentar
níveis elevados (próximos de 30U/dL), mas a doença ser grave, pois o fator não é funcional.
A hemofilia pode se manifestar nas mulheres quando o pai é hemofílico e a mãe é portadora. Os filhos
têm 50% de chance de serem normais e as filhas serão heterozigóticas (XhX) ou homozigóticas (XhXh).
Geralmente, na forma homozigótica, ocorre morte intrauterina.
Os pacientes hemofílicos apresentam sangramento prolongado após uma extração dentária, cirurgia ou
corte. O sangramento nos músculos, articulações ou órgãos internos pode agravar o quadro. O sintoma mais
comum é a hemartrose (sangramento na articulação), que pode causar lesão osteoarticular irreversível
e levar à invalidez. Nos casos em que a atividade do fator VIII:C é menor que 1%, a preocupação maior é a
possibilidade de sangramento no sistema nervoso central, levando a óbito.
116
HEMATOLOGIA CLÍNICA
O tratamento pode ser preventivo, por exemplo, antes de uma extração dentária, broncoscopia,
punção lombar, cirurgia, endoscopia ou para corrigir uma hemorragia.
• Concentrado de FVIII.
• Concentrado de FIX.
• Concentrado de complexo protrombínico (CCP): contém os fatores II, VII, IX e X. É utilizado quando
os concentrados de fatores isolados não estão disponíveis ou em pacientes com anticorpos
contra o FVIII.
Vale ressaltar que o ácido acetilsalicílico é contraindicado para pacientes hemofílicos por inibição
da formação de tromboxano A2 (agregante plaquetário). Os analgésicos indicados nesses casos são
o paracetamol, que pode ser associado à codeína (se necessário) ou, ainda, o dextropropoxifeno para
adultos. Os anti-inflamatórios, como ibuprofeno e naproxeno, podem ser utilizados, com recomendação
médica e por tempo limitado, assim como os inibidores de COX-2.
117
Unidade III
Uma complicação que pode surgir é a formação de anticorpos (inibidores) contra os fatores
que estão sendo administrados para o tratamento. Estima-se que 2% a 5% dos pacientes com
hemofilia B e 15% a 20% dos pacientes com hemofilia A desenvolvem inibidores. Na maioria dos
casos, os inibidores são gerados nos primeiros 50 dias de tratamento com o fator de coagulação e cerca
de 74% dos inibidores se desenvolvem na primeira década de vida.
Os pacientes que apresentam título de alta resposta representam metade dos casos e necessitam da
medicação denominada by-pass, que tem a propriedade de estimular a coagulação do sangue mesmo
na presença de inibidores. As medicações utilizadas atualmente com essa finalidade são comercialmente
conhecidas como FEIBA® e NovoSeven®.
Já a doença de Von Willebrad (DvW) é a doença hemorrágica mais prevalente e afeta 1% da população
mundial, resultado de um defeito quantitativo e/ou qualitativo do FvW. A DvW pode ser adquirida,
sendo secundária às neoplasias e doenças autoimunes, porém é a forma mais rara. A forma mais comum
da DvW tem caráter hereditário autossômico. Verifica-se comprometimento da hemostasia primária,
pois o FvW participa da adesão plaquetária e há prejuízo da hemostasia secundária, uma vez que o FvW
regula a liberação do FVIII:C.
Lembrete
• Tipo 2A: defeito qualitativo pela ausência de multímeros de alto peso molecular do FvW.
• Tipo 2B: afinidade aumentada para a GPI. A adesão das plaquetas está alterada e há diminuição
da quantidade de FvW livre.
118
HEMATOLOGIA CLÍNICA
• Tipo 2M: a função plaquetária é deficiente, mas não é causado pela ausência de multímeros de
alto peso molecular do FvW.
O diagnóstico da DvW pode ser dividido em três etapas: testes de triagem, confirmatórios e
complementares.
• Testes confirmatórios: atividade do fator VIII (FVIII:C), antígeno do fator de Von Willebrand
(FvW:Ag), atividade de co-fator de ristocetina (FvW:RCo) e capacidade de ligação do FvW ao
colágeno (FvW:CB).
O quadro a seguir resume alguns resultados que podem ser evidenciados nos testes solicitados.
O tratamento do tipo I da doença de DvW é feito com DDAVP, que aumenta a concentração dos
fatores VIII:C e FvW do plasma. Os casos graves de sangramento do tipo 2 e 3 se beneficiam do uso
de crioprecipitado de fator VIII/FvW, o que eleva imediatamente o o fator VIII:vW e corrige o tempo de
sangramento pelo período de 2 a 6 horas, a elevação máxima para o fator VIII:C é obtida após 48 horas.
Os pacientes do tipo 3 podem desenvolver anticorpos contra o FvW e, nesse caso, outras opções
terapêuticas devem ser iniciadas.
119
Unidade III
7.2.2 Púrpuras
Outro grupo de distúrbios que se caracterizam por hemorragias na pele ou nas mucosas são as
púrpuras, que recebem esse nome devido ao aparecimento de manchas e placas de cor roxa. As manchas
ocorrem devido ao extravasamento de sangue e são indolores. Outras vezes, dependendo da gravidade
dos sintomas, pode haver sangramentos (nasal, trato urinário, intestinal ou gengiva). Pode ocorrer
também de o paciente não apresentar sintomas e não haver necessidade de tratamento. Entretanto,
quando o paciente precisar de tratamento, são utilizados medicamentos que induzem o aumento das
plaquetas no sangue e outros para controle dos sintomas.
A Classificação Internacional de Doenças (CID-10) (MEDICINA NET, [s.d.]) considera os seguintes tipos
de púrpura: trombocitopênica imune, trombocitopênica trombótica, fulminante, reumatoide, outras
púrpuras não trombocitopênicas.
Quanto à existência de alteração ou não do número de plaquetas, as púrpuras podem ser não
trombocitopênicas (não há alteração da contagem de plaquetas no sangue) ou trombocitopênicas
(número de plaquetas abaixo de 150.000/mm3 no hemograma).
• Púrpura de Henoch-Schönlen.
• Púrpura fulminante.
• Púrpura simples.
• Púrpura senil.
120
HEMATOLOGIA CLÍNICA
• Hepatopatias.
• Púrpura trombocitopênica idiopática (PTI): doença autoimune, sem causa conhecida e ocorre
em indivíduos que não têm doença que afeta as plaquetas. O paciente apresenta número de
plaquetas menor que 100.000/mm3, sem alterações das demais linhagens celulares. Não há exame
para confirmação da PTI e outras doenças devem ser descartadas. Em crianças, geralmente,
ocorre após infecção viral e a resolução é espontânea. Já em adultos, o tratamento é feito com
corticoides e imunoglobulina intravenosa. A remoção do baço pode ser indicada nos casos graves
que persistem por mais de 6 semanas.
FvW clivado
Agregação
plaquetária
FvW não clivado
pela ADAMTS-13
ADAMTS-13
ADAMTS-13
Sítio de
ligação Sítio de
ligação
Célula
endotelial Célula
endotelial
Secreção do FvW pelos
corpos de Weibel Secreção do FvW pelos
corpos de Weibel
difusa, comprometimento renal (hematúria e/ou proteinúria), biópsia com vasculite e depósito de
IgA ou glomerulonefrite com depósito de IgA. A causa é desconhecida, entretanto, vacinação,
medicamentos e infecções (especialmente o estreptococo beta-hemolítico) costumam anteceder
o aparecimento dos sinais. Acomete principalmente crianças menores dos 10 anos, que apresentam
manchas vermelhas pelo corpo (principalmente, nas pernas), febre, dor abdominal e nas pernas.
Os sintomas duram entre 1 e 2 semanas e, normalmente, requer repouso e acompanhamento
do quadro, sem necessidade de tratamento, exceto uso de medicação para as dores. Em caso de
evolução da doença, a principal preocupação é o comprometimento da função renal.
• Púrpura simples: são manchas vermelhas na pele de causa desconhecida. Os hematomas podem
estar presentes nos braços, glúteos e coxas. Não há sangramento anormal, apenas os hematomas
frequentes. O uso de corticoides ou exposição solar pode aumentar o risco de púrpura simples.
Não há necessidade de tratamento.
• Púrpura senil: geralmente, acomete idosos e caracteriza-se pelo aparecimento de manchas roxas
devido ao aumento da fragilidade vascular, que ocorre pela lesão do tecido conjuntivo. Essa lesão
pode ocorrer em razão do envelhecimento e uso de fármacos (corticoides, clopidrogel, varfarina e
aspirina), que podem exacerbar as manchas. Não há necessidade de tratamento.
122
HEMATOLOGIA CLÍNICA
7.2.3 Tromboses
As tromboses arteriais são mais comuns na população mundial e são a principal causa de morte
também, pois ocorrem principalmente pela formação de placas de ateroma, resultantes do acúmulo de
colesterol na camada íntima das artérias. A lesão que ocorre na parede arterial é acompanhada de depósito
de LDL-colesterol e migração de plaquetas que liberam o fator de crescimento derivado de plaqueta
(PDGF) (platelet-derived growth factor). Esse fator é mitogênico, ou seja, favorece a proliferação de células
musculares lisas na camada íntima dos vasos, o que diminui a luz do vaso. As consequências dependem
da localização do trombo e podem ser o infarto do miocárdio, os acidentes vasculares (popularmente
conhecidos como derrames) e a doença arterial obstrutiva crônica, que provoca a diminuição do fluxo
sanguíneo nas extremidades dos membros inferiores. E quais são os fatores de risco para a trombose
arterial? Diabetes, obesidade, fumo, estresse, hipertensão arterial e dislipidemias.
Já nas tromboses venosas, os fatores predisponentes são fluxo sanguíneo lento, ativação local dos
fatores de coagulação e lesão do endotélio. Fragmentos podem se desprender do trombo e provocar a
embolia. Quando a liberação desses fragmentos ocorre em veia periférica ou nas cavidades direitas do
coração, a consequência é a embolia pulmonar. E quando o desprendimento ocorre nas cavidades
atrial ou ventricular esquerdas, o trombo pode se alojar na circulação cerebral ou renal. As tromboses
venosas ocorrem com menor frequência em relação às arteriais e afetam sobretudo os membros
inferiores. Os fatores de risco para o desenvolvimento das tromboses venosas são: longos períodos
de imobilização (viagens ou internações), obesidade, fumo, mutações genéticas (fator V Leiden, gene da
protrombina, genes das proteínas C, S e da antitrombina) e presença de anticorpos antifosfolípides.
Vale a pena abordarmos a questão do risco aumentado de trombose venosa e arterial provocado
pelo uso de contraceptivos hormonais (sobretudo os que apresentam maior quantidade de estrogênio
na composição em relação à progesterona), uma vez que essas drogas são usadas por um grande
número de mulheres. O etinilestradiol pode interagir com os receptores estrogênicos das células
endoteliais dos vasos sanguíneos e ativar a coagulação. Ocorre também aumento dos fatores de
coagulação (XIII, XII, X, IX, VIII, VII e fibrinogênio) e diminuição dos inibidores (proteína C e S).
Dosagens acima de 50 mcg estão associadas ao aumento em duas vezes o risco de trombose
venosa, quando comparadas às concentrações menores.
O diagnóstico diferencial entre trombose arterial ou venosa é importante, pois a conduta terapêutica
difere. O tratamento das tromboses arteriais é realizado com antiagregantes plaquetários e, no caso de
tromboses venosas, utilizam-se os anticoagulantes.
Para o tratamento das tromboses venosas, são utilizados a heparina e os anticoagulantes orais.
A heparina potencializa o efeito da antitrombina III e pode ser utilizada na forma não fracionada
(HNF) por via endovenosa (doses terapêuticas) ou a heparina de baixo peso molecular (HBPM), por
via subcutânea (dose profilática). Verifica-se coagulação sanguínea 4 a 5 horas após a injeção. E pode
ser utilizada em gestantes uma vez que não atravessa a placenta e também não é secretada no leite
materno (ÁVILA, 2010).
Lembrete
Outra classe de medicamentos utilizados no tratamento das tromboses são os agentes trombolíticos,
cuja função é converter o plasminogênio em plasmina, que realiza a fibrinólise. O mecanismo fisiológico
que desfaz o trombo é autolimitado por mecanismos contrarreguladores: inibidor do ativador de
plasminogênio (PAI-1) e α2-antiplasmina. O próprio endotélio vascular produz continuamente dois
fibrinolíticos: ativador do plasminogênio tecidual (tPA ou alteplase) e uroquinase.
A utilização dos agentes fibrinolíticos possibilitou a diminuição da mortalidade por infarto agudo
do miocárdio, embolia pulmonar e acidente cerebral isquêmico, pois possibilita a lise do trombo
em um período de 2 a 3 horas. As três gerações de fibrinolíticos disponíveis são, respectivamente,
estreptoquinase, alteplase e tenecteplase.
Agentes trombolíticos
(estreptoquinase, alteplase e tenecteplase)
PAI-1
Inibidor do ativador do plasminogênio
Plasminogênio Plasmina
a2-antiplasmina
124
HEMATOLOGIA CLÍNICA
Saiba mais
8 IMUNO-HEMATOLOGIA
Neste tópico, vamos estudar os princípios da imuno-hematologia, o ciclo do sangue, desde a doação
até a transfusão dos hemocomponentes no receptor. Veremos os critérios de elegibilidade de doação
de sangue, os testes que são realizados na amostra de sangue do doador (identificação dos antígenos e
anticorpos nas hemácias e sorologia para várias patologias). Também serão estudadas as etapas de
processamento do sangue, que permitem a obtenção de diferentes produtos (concentrado de hemácias,
plasma, plaquetas, entre outros), o armazenamento, as indicações para transfusão, os exames realizados
no paciente que vai receber o sangue. E, também, serão apresentados setores da hemoterapia nos quais
o farmacêutico pode atuar como parte da equipe profissional do banco de sangue, como é o caso do
setor de criopreservação de células-tronco para o transplante de medula óssea.
Desde a transfusão feita braço a braço até as primeiras bem-sucedidas, muitas descobertas marcaram
a história da hemoterapia, por exemplo, os estudos sobre os grupos sanguíneos, o desenvolvimento dos
sistemas de coleta e das soluções anticoagulantes. A partir de então, surgiram os bancos de sangue e
a preocupação com a proteção do doador e do receptor de sangue. Em 1980, foi criado o Programa
Nacional de Sangue e Hemocomponentes (Pró-Sangue), que teve como um de seus objetivos regularizar
a hemoterapia no Brasil (JUNQUEIRA; ROSENBLIT; HAMERSCHLAK, 2005).
Várias atividades são desempenhadas pelo banco de sangue, desde a coleta do sangue até a
liberação do hemocomponente, e foram denominadas como ciclo do sangue. O sangue total e os
hemocomponentes obtidos são produtos biológicos que podem ser utilizados e estão dispensados de
registro da Anvisa. Diferentemente dos hemoderivados que são produzidos na indústria, a partir de plasma
proveniente das doações de sangue. Tanto o serviço de hemoterapia como a indústria de hemoderivados
são locais de atuação de profissionais da saúde, incluindo médicos, enfermeiros, técnicos em enfermagem,
farmacêuticos, biomédicos e biólogos.
125
Unidade III
De acordo com o Ministério da Saúde, no Brasil existem cerca de 32 hemocentros e mais de 2 mil serviços
de hemoterapia (BRASIL, 2020). O profissional da área de hemoterapia está em constante atualização
técnica e científica diante dos diversos desafios epidemiológicos, entre eles os agentes infeciosos
emergentes e reemergentes.
Observação
Então, vamos conhecer o ciclo do sangue e todos os setores por onde o sangue passa até ser utilizado
para a transfusão. Essas são as etapas que vamos estudar a seguir:
• Identificação do doador.
• Doação de sangue.
• Processamento.
• Armazenamento.
• Transfusão.
Inicialmente, o doador é cadastrado na recepção e deve atender aos requisitos básicos, tais como,
estar em boas condições de saúde, ter idade entre 16 e 69 anos, pesar no mínimo 50 Kg, ter realizado
uma refeição leve e apresentar um documento com foto. Em seguida, ocorre a triagem hematológica,
pois o doador não pode ter anemia e também apresentar sinais vitais normais, entre estes, a pressão
arterial e a temperatura. Feito isso, o entrevistador habilitado (geralmente, médico ou enfermeiro) realiza
uma entrevista com o doador, na qual uma série de perguntas são realizadas, no intuito de preservar
a saúde do doador e do receptor. Pode ocorrer de o possível candidato apresentar um impedimento
temporário ou definitivo, que será criteriosamente avaliado. Veja alguns exemplos de impedimentos no
quadro a seguir.
126
HEMATOLOGIA CLÍNICA
Impedimentos temporários
Tatuagem e maquiagem definitiva nos últimos 12 meses
Ingestão de bebida alcóolica nas últimas 12 horas que antecedem a doação
Extração dentária
Vacina contra a gripe
Situações de exposição ao risco aumentado de doenças sexualmente transmissíveis
Infecção pela covid-19
Impedimentos definitivos
Uso de drogas ilícitas
Portadores de hepatite B e C, AIDS (vírus HIV), HTLV-I e II e doença de Chagas
Exemplo de aplicação
Caso o candidato à doação tenha omitido alguma informação durante a entrevista, ele ainda tem a
oportunidade de realizar de forma confidencial o voto de autoexclusão. Dessa forma, mesmo que seus exames
sorológicos resultem negativos, sua doação será descartada. Uma vez considerado apto, o doador é
posicionado em uma cadeira confortável e segura. São coletados tubos de sangue e uma bolsa com
cerca de 500 ml de sangue, que contém anticoagulante e permanece em constante agitação. Os tubos de
sangue são utilizados para triagem sorológica e para pesquisa do grupo sanguíneo. Finalmente, o doador é
orientado a alimentar-se e hidratar-se. Após 15 minutos no local, caso se sinta bem, o doador é liberado.
Candidato à doação
Identificação na recepção
Inapto
Triagem clínica e hematológica Saída
Apto
Coleta de tubos e
bolsa de sangue
Doador recebe
alimentação e hidratação
Saída
127
Unidade III
Além da doação convencional de sangue, existe a modalidade denominada aférese, que permite a
coleta de um ou mais componentes específicos do sangue. Nesse caso, o sangue do doador percorre
uma máquina, é centrifugado e o componente de interesse é coletado. Os demais componentes são
devolvidos ao doador. O doador por aférese deve atender a alguns critérios, por exemplo, calibre venoso
adequado, disponibilidade de tempo maior (o procedimento tem duração de cerca de uma hora),
geralmente, é um doador de repetição (tem sorologia conhecida).
Esse tipo de procedimento é utilizado para doação de células-tronco para transplante de medula
óssea. A doação por aférese apresenta custo elevado, mas oferece vantagens aos doadores e receptores.
Em caso de doação de plaquetas, a perda de hemácias é mínima para o doador e, após três dias, pode
realizar nova doação. Para a produção de uma bolsa de plaquetas a partir de doação convencional, são
necessárias entre sete a dez doações, o que expõe o paciente a diferentes sorologias e possibilidade
aumentada de reação transfusional.
Tubos de Bolsa de
sangue sangue
Processamento
Exames de
imuno-hematologia Armazenamento
e sorologia temporário
(quarentena)
Não Descarte
Bolsa liberada
da bolsa
Sim
Preparao para
transfusão
Transfusão
128
HEMATOLOGIA CLÍNICA
A classificação dos grupos ABO passou a ser amplamente utilizada a partir da Primeira Guerra Mundial
(1914-1918). A classificação ABO é realizada por provas direta e reversa. Na prova direta, é realizada a
pesquisa de antígenos presentes nas hemácias do doador e na prova reversa é feita a pesquisa de
anticorpo no soro do doador, que se aglutina ou não com hemácias tipadas A e B, o que é considerado
uma contraprova. Deve haver concordância entre as provas para a determinação do resultado.
A situação foi associada aos achados de Landesteiner e Wiener, que observaram a ocorrência de
aglutinação entre soro de coelho imunizado com hemácias de macacos Rhesus e cerca de 85% das
hemácias humanas. Então, denominaram o antígeno presente nos dois casos como antígeno Rh, pois
pensaram se tratar do mesmo antígeno. Mais tarde verificaram que não se tratava do mesmo antígeno,
o anticorpo do coelho (heteroanticorpo) recebeu a denominação anti-LW e o anticorpo humano
(aloanticorpo), anti-D; mas a nomenclatura do sistema (Rh) permaneceu. Vejamos porque o sistema Rh
é complexo.
129
Unidade III
A partir dos estudos de biologia molecular, foram identificados que os indivíduos RhD positivos
apresentam os genes RHD e RHCE, enquanto indivíduos RhD negativos possuem apenas o gene RHCE.
O sistema apresenta um grande número de polimorfismos e codifica mais de 50 antígenos, entretanto,
somente a presença ou ausência do antígeno D é obrigatória em doadores de sangue.
Além disso, os indivíduos classificados como Rh parcial também podem produzir anti-RhD se
expostos ao antígeno RhD. Os antígenos RhD fraco não são identificados por técnicas de aglutinação
direta, e sim com o uso de potencializadores ou com reagentes monoclonais. As hemácias contendo D
fraco são consideradas Rh positivas e podem provocar aloimunização transfusional ou feto-materna.
Os antígenos D parciais são identificados pela falta de um ou mais epítopos da proteína D (GIRELLO;
KÜHN, 2016).
Vale a pena ressaltar que em virtude da grande miscigenação no nosso país, a diferenciação entre
D fraco e D parcial, utilizando-se testes sorológicos, é complexa, pois é possível a presença de mais de um
tipo de D fraco em um mesmo indivíduo. Indivíduos que apresentam D parcial e alguns D fracos estão
sujeitos às imunizações de anti-D. Desse modo, os testes de biologia molecular pemitem a pesquisa do
gene, mas nem sempre resultam na expressão da proteína. Ou seja, há pessoas que expressam o gene
RhD, mas não produzem a proteína, são os denominados pseudogenes. Assim, os testes moleculares não
devem substituir os sorológicos, mas, sim, serem feitos em conjunto.
Apesar de os grupos ABO e Rh serem os mais importantes, devido à alta taxa de imunogenicidade,
existem outros sistemas sanguíneos importantes: MNS, P, H, Kid, Kell, Lewis, Duffy, Lutheran e Diego.
A classificação e nomenclatura segue um padrão internacional, estabelecido pelos membros da
International Society of Blood Transfusion (ISBT) e está em constante atualização (ISBT, [s.d.]).
No caso dos irregulares imunes, são gerados a partir da interação do indivíduo com antígenos
desconhecidos, por exemplo, através de transfusões e/ou gestação. Quando presentes no soro do
doador, os anticorpos irregulares podem originar reações hemolíticas se transfundidos em receptores
que apresentam antígenos correlacionados. Esse tipo de sensibilização antígeno-anticorpo ocorre,
principalmente, em pacientes politransfundidos, com anemia falciforme e anemia talassêmica, em
que se tem aumento do risco de aloimunização pelas bolsas de sangue por isogrupos diferentes
(CARVALHO, 2008).
130
HEMATOLOGIA CLÍNICA
E como a PAI e a IAI são realizadas? A PAI é realizada utilizando-se o teste da antiglobulina humana
indireta (Coombs). E na IAI, hemácias com perfis antigênicos conhecidos contendo os principais antígenos
de grupo sanguíneo; entre estes: D, C, E, c, e, M, N, S, s, P1, Lea, Leb, K, k, Fya, Fyb, Jka, Jkb e Dia, são testadas
contra o soro do doador (CARVALHO, 2008).
Enquanto são realizados exames com as amostras de sangue do doador, a bolsa é processada e
armazenada (quarentena) até que os resultados obtidos permitam que seja liberada para a transfusão.
Vamos acompanhar o que ocorre com a bolsa de sangue no setor denominado processamento.
Nesse setor, a bolsa é submetida a várias centrifugações refrigeradas para evitar contaminações
e extrações dos componentes de interesse, que são concentrado de hemácias, concentrado de
plaquetas, crioprecipitado e plasma fresco.
131
Unidade III
Após a centrifugação inicial da bolsa de sangue, as hemácias ficam depositadas no fundo, na parte
de cima, se forma a camada leucoplaquetária (conhecida por buffy-coat) e, finalmente, a camada
líquida de plasma com plaquetas dispersas (plasma rico de plaquetas ou PRP). Tudo é feito em sistema
fechado, ou seja, sem contato com o meio externo.
Sangue total
Hemocomponentes
A bolsa de concentrado de hemácias fica com volume entre 220 e 280 ml e o hematócrito pode
variar entre 65 e 80% (na ausência de aditivo) e entre 50 a 70% (na presença de aditivo). Pode ser que
alguns procedimentos especiais sejam necessários antes da transfusão, por exemplo, a desleucocitação
(utilização de filtro para remoção de leucócitos) ou desplamatização (lavagem com salina fisiológica).
A obtenção do concentrado de plaquetas a partir da doação de sangue total pode ser feita por dois
métodos distintos (depende do tipo de bolsa). A primeira possibilidade é a centrifugação do sangue
em duas etapas. Na primeira centrifugação, obtém-se o PRP e na segunda centrifugação (feita em
velocidade mais alta) é obtido o concentrado de plaquetas.
Outro modo de obtenção é a partir do uso de bolsas do tipo top and bottom, ou seja, o sangue
é centrifugado, o plasma sobrenadante é transferido para outra bolsa pela parte de cima (top) e o
concentrado de hemácias é removido pela parte de baixo (bottom) da bolsa. Assim, o que permanece
132
HEMATOLOGIA CLÍNICA
na bolsa é a camada leucoplaquetária que pode ser agrupado com outras bolsas, que é novamente
centrifugado, formando um pool plaquetário. Esse método diminui em 90% a quantidade de leucócitos
na bolsa (COLSAN, 2019).
Lembrete
O plasma fresco congelado (PFC) é a parte líquida (sem células) do sangue obtida por centrifugação
da bolsa de sangue. O plasma também pode ser obtido por aférese. O plasma contém água, proteínas,
globulinas e fatores de coagulação, entre outros. Ele deve ser congelado em até 8 horas após a coleta e
mantido em temperatura inferior a -20 °C por até 1 ano (COLSAN, 2019).
A partir do PFC, pode ser gerado o plasma isento de crioprecipitado (PIC). Ainda pode ser produzido
o plasma comum (não fresco, normal ou simples) (PC), que é o plasma congelado, mas que não atendeu
aos critérios técnicos necessários para ser considerado um PFC, ou ainda, é aquele obtido a partir da
transformação de um PFC, ou de um plasma fresco de 24 horas (obtido de uma bolsa de sangue por
centrifugação e congelado entre 8 e 24 horas após a coleta) ou de um PIC, cujo período de validade
expirou. O PC é armazenado em temperatura igual ou inferior a -20 °C e tem validade de 5 anos a partir
da coleta da bolsa de sangue.
O crioprecipitado (CRIO) é obtido a partir do plasma e contém fator VIII, fator de Von Willebrand,
fibrinogênio, fator XIII e fibronectina. Essas proteínas são insolúveis entre 1 a 6 °C, assim, para a obtenção
do crioprecipitado, a unidade de plasma fresco é descongelada à temperatura de 1 a 6 °C, o plasma
sobrenadante é removido e a proteína precipitada permanece no volume de 10 a 15 ml do plasma.
A bolsa contendo esse volume é congelada, no prazo de 1 hora, e a validade é de 1 ano (COLSAN, 2019).
Temperatura de
Hemocomponente armazenamento
Concentrado de hemácias 2 a 6 °C
Concentrado de plaquetas 22 °C e sob agitação
Plasma e crioprecipitado -20 °C
133
Unidade III
Uma vez entendido o que ocorre com a bolsa de sangue até que esteja pronta para transfusão,
vamos conhecer o processo de transfusão: os testes necessários para liberação do hemocomponente, as
reações transfusionais e as indicações para transfusão de hemocomponentes.
É importante ressaltar que o procedimento envolve riscos imediatos e tardios. Os efeitos indesejáveis
não imunológicos incluem transmissão de doenças, sobrecarga volêmica, infecção bacteriana, reações
metabólicas e hipotermia. E as reações imunológicas envolvem reações alérgicas, reação febril não
hemolítica, a lesão pulmonar associada à transfusão (de transfusion-related acute lung injury – TRALI),
a doença do enxerto contra o hospedeiro (DECH), a aloimunização e a reação hemolítica imune.
Assim, para que a transfusão ocorra em segurança, os serviços de hemoterapia devem atender às
normas técnicas da Portaria n. 158, de 2016. Mas imagine uma situação de emergência, em que não há
tempo para a classificação ABO e Rh do paciente. Qual concentrado de hemácias deve ser liberado? Deve
ser liberada uma bolsa de concentrado de hemácias do grupo O negativo. Em caso de falta de unidade
negativas, unidades O positivas podem ser utilizadas, salvo o atendimento de mulheres em idade fértil
e crianças, para as quais as unidades RhD positivas devem sempre ser utilizadas (BORDIN; LANGHI
JÚNIOR; COVAS, 2018).
As etapas listadas a seguir são necessárias para a liberação do hemocomponente para transfusão.
• Seleção do hemocomponente.
• Transfusão.
Em caso de transfusão de hemácias, é necessária a prova de compatibilidade, que tem como finalidade
garantir que as hemácias transfundidas não sejam destruídas pelo receptor. A prova de compatibilidade
deve ser realizada para cada bolsa de concentrado de hemácias que o paciente recebe.
134
HEMATOLOGIA CLÍNICA
Na ausência de aglutinação, o teste indica que o paciente não apresenta anticorpos irregulares
contra os antígenos das hemácias presentes na bolsa. Em caso de reação positiva, quando o teste
é realizado à temperatura ambiente, verifica-se a presença de anticorpos IgM. E reação positiva a
37 °C indica a presença de anticorpos IgM e/ou IgG. Os anticorpos IgM e IgG são de importância
transfusional e quando positivos, indicam a necessidade de seleção de hemácias negativas para o
antígeno determinado (GIRELLO; KÜHN, 2016).
135
Unidade III
E quais são as reações transfusionais que podem ocorrer? As reações transfusionais podem ser de
natureza imediata ou tardia. As reações imediatas são aquelas verificadas até 24 horas após a transfusão
e incluem reação hemolítica, febre, alergia, contaminação bacteriana, edema pulmonar não cardiogênico
(TRALI), hemólise não imune e reação hipotensiva. E as reações tardias são aquelas que ocorrem
após 24 horas de transfusão: reação hemolítica tardia, hepatite B e C, infecção por HIV, doença
de Chagas, sífilis, malária, infecção por HTLV-I e HTLV-II e aparecimento de anticorpos (FABRON
JÚNIOR; LOPES; BORDIN, 2007).
A febre pode indicar a presença de anticorpos contra os antígenos HLA do leucócitos e plaquetas
do doador e, ainda, sinalizar contaminação bacteriana ou hemólise. A hemólise pode ser do tipo
intravascular ou extravascular.
A condição de TRALI está associada à lesão pulmonar aguda que ocorre entre 2 a 6 horas após a
infusão do hemocomponente e está ligada à presença de anticorpos anti-HLA (antígeno leucocitário
humano) e anti-HNA (antígeno neutrofílico humano), sobretudo no plasma, que concentra os anticorpos.
Os anticorpos se ligam aos antígenos dos leucócitos do paciente e desencadeiam reação pulmonar grave
com extravasamento de líquidos para os alvéolos, que pode ser fatal.
Os anticorpos anti-HLA e anti-HNA são mais encontados em doadoras multíparas, que são
frequentemente imunizadas durante gestação. Por esse motivo, alguns bancos de sangue, no Brasil,
descartam o plasma de doadoras do sexo feminino, mas estes podem ser utilizados para a fabricação
de hemoderivados (produtos farmacêuticos industrializados) (FABRON JÚNIOR; LOPES; BORDIN, 2007).
No Brasil, medidas da Anvisa, a partir de 2010, definiram que doadores do sexo masculino e mulheres
com histórico de até duas doações podem ser considerados de baixo risco para o desenvolvimento de TRALI.
Diante do exposto, verifica-se que o ato transfusional, apesar de bem estabelecido como modalidade
terapêutica, é um procedimento que oferece riscos ao paciente e, por isso, deve ser indicado em situações
136
HEMATOLOGIA CLÍNICA
cujo benefício supera tais riscos. Vejamos algumas indicações para transfusão, lembrando que cada
serviço de hemoterapia tem seus protocolos transfusionais.
O objetivo, de maneira geral, é atingir valores de hemoglobina entre 7 e 9 g/dl. Em caso de anemia
crônica (talassemias, anemia falciforme e demais hemoglobinopatias), a causa deve ser identificada e a
transfusão é indicada quando há risco de vida. Nesses casos, a transfusão não está associada ao nível de
hemoglobina, mas aos sinais e sintomas do paciente (CHAMONE; NOVARETTI; DORLHIAC-LLACER, 2001).
O transporte de oxigênio também pode estar afetado pela hipovolemia. As manifestações clínicas
decorrentes dessa condição foram classificadas por Baskett, em 1990. Das categorias listadas no quadro
a seguir, a transfusão está indicada nas classes III e IV.
O concentrado de hemácias lavadas, que é obtido após lavagem com solução isotônica para
remoção de plasma, é indicado nas reações transfusionais alérgicas graves e para pacientes com
deficiência de IgA.
O concentrado de hemácias irradiadas é submetido à irradiação gama, que inativa dos linfócitos e
previne a doença do enxerto versus hospedeiro transfusional (GVHD). É indicado nas seguintes situações:
exsanguíneo transfusão neonatal, pacientes com imunodeficiência congênita, após o transplante de
medula óssea e de órgãos sólidos, pacientes HIV positivos, entre outros.
137
Unidade III
Há indicações, também, para pacientes com leucemia e em transplante de medula óssea e, ainda,
pacientes plaquetopênicos, que serão submetidos a procedimentos cirúrgicos invasivos. Quando a
unidade de plaquetas transfundida não provocar o incremento previsto, a investigação de aloimunização
plaquetária deve ser realizada.
Lembrete
Quanto ao uso do plasma fresco congelado (PFC), devem ser considerados os pacientes com distúrbios
da coagulação, que apresentam deficiência de fatores. A liberação de plasma não exige a realização de
prova de compatibilidade, mas devem ser, preferencialmente, ABO compatíveis. Algumas situações para
indicação de PFC estão listadas a seguir:
• Reposição do FXIII em pacientes com hemorragia por deficiência desse fator, na ausência do
produto industrializado.
A etapa de congelamento propriamente dita pode ser realizada de forma manual ou automatizada,
sendo esta última a que permite a padronização da velocidade de decaimento de temperatura conforme
os agentes crioprotetores são adicionados à bolsa. Quando o congelamento ocorre rapidamente, há
formação de cristais de gelo dentro e fora da célula, resultando em lise. Em contrapartida, quando
ocorre lentamente, há formação de cristais de gelo extracelular, o que resulta em diminuição do volume
celular e, consequentemente, lise celular.
E como a morte celular pode ser evitada? Através do uso de crioprotetores intracelulares, tais
como glicerol e dimetilsulfóxido (DMSO), que apresentam rápida difusão intracelular, aumentam a
osmolaridade interna e diminuem a desidratação celular. E com o uso concomitante de crioprotetores
extracelulares, por exemplo, o hidroximetilamido (HES), que se liga às moléculas de água extracelular
139
Unidade III
Assim, a formação de gelo é primariamente extracelular, provocando menos morte celular. As células
são congeladas em bolsas de menor volume e o número depende da quantidade de células coletadas.
Pelo menos três segmentos das bolsas de congelamento (conhecidos como espaguetes) são congelados
à parte, em tubos de congelamento. As bolsas de congelamento são colocadas em estojos de alumínio
e armazenadas em baixa temperatura. Há protocolos de congelamento que utilizam freezer a -80 °C e
outros que utilizam nitrogênio líquido com temperaturas que chegam a -196 °C.
De forma geral, células congeladas em freezer podem ser utilizadas até 2 anos da data de
congelamento, enquanto que as armazenadas em nitrogênio líquido duram por até 10 anos.
Entretanto, uma vez que o médico solicite as células, o estudo da viabilidade celular é realizado.
As células utilizadas para o estudo da viabilidade são aquelas, presentes nos segmentos (congelados
em tubos à parte). Em caso de viabilidade aceitável, as células podem ser utilizadas mesmo após o
prazo estabelecido. Outro fator a ser considerado é o descarte das células congeladas, que ocorre
apenas com o consentimento do médico e do paciente após o prazo de validade estabelecido em
documento previamente enviado aos médicos (ANVISA, 2004).
No dia da infusão, o estudo da viabilidade é realizado e informado ao clínico. A bolsa (ou mais de
uma unidade, dependendo do número de células congeladas) é transportada em caixa transportadora
contendo gelo seco até o quarto do paciente. A bolsa é colocada dentro de um saco plástico com
fechamento hermético (zip lock) e descongelada à beira do leito em banho a 37 °C. Nesse momento,
uma amostra de material infundido é inoculada para controle microbiológico. Culturas positivas, nessa
etapa, podem indicar problemas de contaminação durante o descongelamento (ANVISA, 2004).
No setor de terapia celular, também é possível o congelamento de glóbulos raros. Essas unidades
podem ser obtidas do paciente antes de uma cirurgia, pois ele pode, eventualmente, precisar de
sangue. Isso evita que o paciente seja exposto a possíveis reações transfusionais. Também podem ficar
disponíveis para uma eventual solicitação. A solução crioprotetora utilizada é o glicerol e a bolsa pode
ficar congelada por dez anos. Após o descongelamento, as hemácias são reconstituídas em solução
salina e devem ser utilizadas em até 24 horas.
Quais são as características de um sangue raro? São hemácias que não têm antígenos que a maioria
das pessoas apresenta. Eles representam 1:1000 doadores, ou menos, por exemplo, doadores fenótipos
Vel- e U-. E ainda pessoas que apresentam combinação de vários antígenos comuns negativos, por
exemplo, grupo “O” e C-, e-, K-, Fy(a-), Jk(a-), S-. Vale ressaltar que o sangue raro pode variar entre
as populações.
140
HEMATOLOGIA CLÍNICA
Em países asiáticos, o tipo Rh(D) negativo é muito raro. Na França, o fenótipo Fy(a-b-) também é
raro, mas são doadores frequentemente encontrados nos doadores afro-americanos nos Estados Unidos.
Exemplos de fenótipos raros estão descritos na tabela a seguir (MORELATI et al., 2007).
Tabela 6 – Fenótipos raros de doadores negativos para
antígenos de alta frequência na população
Sistema Fenótipo
RH CCDEE, CCdee, ccdEE, CCdEE, deleções
KEL Ko, K var, Kp(a−b−), Kp(b−), Js(b−), k−
JK Jk(a−b−)
FY Fy(a−b−)
LW LW−
DO Do(a−), Hy−, Gy(a−)
IN In(b−)
MNS U−, En(a−), S−s−
CO Co(a−b−), Co(a−)
LU Lu(a−b−), Lu(b−)
SC Sc:−1,−2, Sc:−1
GE Ge:−2,−3, Ge:−2, 3
CROM Cr(a−), Es(a−), Tc(a−)
YT Yt(a−)
DI Di(b−), Wr(b−)
901 Series Vel−, Lan−, At(a−), Jr(a−), Ok(a−), Lan−
Collections I−, i−, PP1Pk−, Pk, LKE−, Er(a−)
H Oh
JMH JMH−
Em 1965, a ISBT criou o IRDP (International Blood Group Reference Laboratory), que tem o registro
de doadores de sangues raros ao redor do globo, garantindo a rápida localização.
Saiba mais
141
Unidade III
Resumo
142
HEMATOLOGIA CLÍNICA
Exercícios
I
1
II
1 2 3 4
III
1 2 3 4 5 6 7 8
IV
Homem hemofílico Homem com alelos normais
Mulher com alelos normais Mulher portadora Mulher hemofílica
Figura 86
Fonte: VILLAÇA, P. R. et al. Hemofilias. In: ZAGO, M. A. et al. Tratado de hematologia. São Paulo: Atheneu, 2013.
I – O homem hemofílico transmite o gene anormal para 100% das suas filhas.
II – A mulher portadora pode transmitir o gene alterado para metade de seus descendentes (das
filhas, 50% podem ser portadoras, e, dos filhos, 50% podem ser hemofílicos).
A) I, apenas.
B) II, apenas.
C) III, apenas.
D) I e II, apenas.
E) II e III, apenas.
143
Unidade III
I – Afirmativa correta.
Justificativa: isso é confirmado pelo pai 1, que transmite o gene anormal para duas filhas (1 e 4).
II – Afirmativa correta.
Justificativa: isso é confirmado pela mãe 4, que transmite o gene alterado para um dos dois filhos
(filho 5) e para uma das duas filhas (filha 8).
Considerando o que está previsto nessa RDC para doação de sangue, avalie as afirmativas.
II – Entre as doenças para as quais é exigido resultado negativo nos testes do sangue doado, constam
a doença de Chagas, a sífilis e o HIV.
III – É recomendado o exame sorológico para malária nas regiões endêmicas sem transmissão ativa.
A) I, apenas.
B) II, apenas.
C) III, apenas.
D) II e III, apenas.
E) I, II e III.
I – Afirmativa correta.
Justificativa: essa exigência está prevista no item “E – Exames de qualificação no sangue do doador”,
do Anexo I da RDC.
II – Afirmativa correta.
Justificativa: o item “E.2 – Testes para Doenças Transmissíveis”, do Anexo I dessa RDC, esclarece
o que segue.
Hepatite B
Hepatite C
HIV-1 e HIV-2
Doença de Chagas
Sífilis
HTLV-I e HTLV-II.
Justificativa: no item “E.2.2 – Malária”, do Anexo I dessa RDC, lê-se: “Nas regiões endêmicas
com transmissão ativa (alto risco, pelo Índice Parasitológico Anual – IPA), deve ser realizado o
exame parasitológico/hematoscópico. Em regiões endêmicas sem transmissão ativa, recomenda-se
o exame sorológico”.
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Informações:
www.sepi.unip.br ou 0800 010 9000