julho-agosto de 2021 – ano 62 – número 340
A IGREJA E A COMUNICAÇÃO:
DESAFIOS DO AMBIENTE DIGITAL
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série de artigos redigidos por especialistas membros da Associação ou parceiros dela.
O primeiro livro propõe uma reflexão mais madura sobre o sentido e a
identidade da liturgia assumida pelos padres conciliares. O segundo reúne
e analisa as interpelações do Papa Francisco para a liturgia de hoje. O terceiro
se ocupa do ministério e da celebração da Palavra.
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Prezadas irmãs,
prezados irmãos, graça e paz!
No dia 20 de agosto de 1931, aportaram em comunicação social. A luz que lhe veio da hós-
Santos, com destino à cidade de São Paulo, os tia naquela vigília e que lhe causou inquietação
dois primeiros padres paulinos: Xavier Boano e compromisso agora clareia ainda mais com a
e Sebastião Trosso. Esta edição de Vida Pastoral, palavra oficial da Igreja: “A Igreja católica, fun-
portanto, marca o aniversário de 90 anos da pre- dada por nosso Senhor Jesus Cristo para levar a
sença dos Paulinos no Brasil. Por isso escolhemos salvação a todos os homens, e por isso mesmo
o tema “A Igreja e a comunicação: desafios obrigada a evangelizar, considera seu dever pregar
do ambiente digital”. O assunto, sem dúvida, a mensagem de salvação, servindo-se dos meios
é um dos grandes desafios da pastoral na Igreja de comunicação social, e ensina aos homens a
hoje. O ambiente digital constitui, por assim usar retamente estes meios” (IM 3).
dizer,“novo areópago” ou “ágora”, se quisermos Tiago Alberione foi pioneiro em pensar e
evocar duas imagens do mundo grego antigo. propor um carisma que levasse adiante um pro-
Antes, porém, de continuar a exposição, vamos jeto de “verdadeira evangelização” por meio da
brevemente à fonte da intuição de um jovem que imprensa, seu desafio inicial; e mais tarde, com o
ousou pensar uma nova forma de evangelização. amadurecimento de sua intuição, por meio de
Pe. Tiago Alberione (1884-1971), fundador todos os meios de comunicação, os mais velozes
dos Paulinos e da Família Paulina, legou para a e eficazes.
Igreja um carisma específico: o anúncio de Cris- Se, no tempo de Alberione, o grande desafio
to Mestre, Caminho,Verdade e Vida, ao mundo era conceber a imprensa como veículo de evan-
mediante os instrumentos da comunicação social. gelização, para nós, hoje, o ambiente digital e suas
Inspirado em São Paulo apóstolo, ele intuiu que redes constituem campo fértil e não são menos
era necessário evangelizar com a cultura da co- desafiadores para a comunicação da Boa Notícia.
municação “para que a Palavra corra” (2Ts 3,1). Contudo, assim como no tempo de Tiago Albe-
Em Alba (Itália), na noite do dia 31 de dezembro rione, é fundamental a educação para o bom uso
de 1900, com 16 anos, Alberione viveu o que desses meios. Nossa reflexão aqui objetiva justa-
se pode chamar de revelação. Ele rezou durante mente pensar nas potencialidades e também em
quatro horas diante do Santíssimo Sacramento e certos riscos que se apresentam nas redes digitais.
uma “luz especial” a partir da hóstia o iluminou. Através deste tema também apresentamos a nova
A luz divina despertou no jovem um forte senso coleção da Paulus, Ecclesia Digitalis, que certamente
de responsabilidade, fazendo-o sentir-se “profun- fará muito bem ao apostolado da comunicação.
damente comprometido a se preparar para fazer Ao comemorar 90 anos de nossa presença e
alguma coisa para o Senhor e para as pessoas do atuação em terras brasileiras, a equipe de Vida
novo século”. Estimulado pelos acontecimentos Pastoral agradece o dom da vocação de Tiago
de seu tempo e tendo meditado a encíclica do Alberione, dos paulinos da primeira hora – que
papa Leão XIII Tametsi Futura (“Ainda que se trate começaram a missão aqui, sem recursos, com a
de coisas futuras”),Tiago se projeta para servir a simplicidade do presépio e o entusiasmo apos-
Igreja, valendo-se dos novos meios colocados à tólico do apóstolo Paulo – e dos paulinos de
disposição pelo engenho humano. ontem e de hoje. Gratidão a todos os colabora-
De fato, em 1914 nasce a Pia Sociedade de São dores e interlocutores da missão. Maria Rainha
Paulo (Paulinos), com o encargo de evangelizar dos Apóstolos seja nossa inspiração na missão de
na cultura da comunicação. Alberione, de certo comunicar o Verbo.
modo, antecipa o que mais tarde fará o Concílio Boa leitura!
Vaticano II (1962-1965), especificamente com Pe. Antonio Iraildo Alves de Brito, ssp
o decreto Inter Mirifica, que trata dos meios de Editor
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Sumário
IGREJA E COMUNICAÇÃO:
UMA APROXIMAÇÃO HISTÓRICA ............................................. 6
Darlei Zanon, ssp
Revista bimestral para sacerdotes
e agentes de pastoral
Ano 62 - No 340 CATEQUESE DIGITAL: POR ONDE COMEÇAR?
Julho-Agosto de 2021
INSIGHTS PARA PENSAR A CATEQUESE EM TEMPOS
DIGITAIS E DE PANDEMIA ................................................................ 16
Aline Amaro da Silva
© PAULUS – 2021
Pia Sociedade de São Paulo “VEJAM COMO NÃO SE AMAM!”: INTOLERÂNCIA
Rua Francisco Cruz, 199 INTRACATÓLICA E ANTIEVANGELIZAÇÃO EM REDE.... 24
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paulus.com.br Moisés Sbardelotto
ISSN – 0507-7184
Jornalista responsável A ESPERANÇA COMO PERSPECTIVA PASTORAL
Pe. Valdir José de Castro, ssp
PARA A COMUNICAÇÃO ................................................................. 32
Direção editorial Marcus Tullius
Pe. Sílvio Ribas, ssp
Editor ROTEIROS HOMILÉTICOS ................................................................. 39
Pe. Antonio Iraildo Alves de Brito, ssp
Marcus Mareano
Redação
[email protected] Assinaturas
Conselho editorial
Pe. Antonio Iraildo Alves de Brito, ssp
A revista Vida Pastoral é distribuída gratuitamente pela Paulus.
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Paulinos no Brasil:
90 anos de serviço à Igreja
O s Paulinos completam, no dia 20 de
agosto de 2021, 90 anos de presença
em terras brasileiras. Nosso Bem-
-aventurado Fundador, Pe.Tiago Alberione
(1884-1971), em 1931, enviou ao Brasil dois
Fazemos nosso o objetivo geral de evan-
gelização que guia a CNBB: “Evangelizar
no Brasil cada vez mais urbano... à luz da
evangélica opção preferencial pelos pobres,
cuidando da Casa Comum e testemunhan-
missionários, motivados pelo forte desejo de do o Reino de Deus rumo à plenitude”.
anunciar Jesus Mestre, Caminho,Verdade e De fato, nosso trabalho de chegar a todas
Vida, às pessoas de seu tempo, valendo-se dos as pessoas, mesmo àquelas que não creem
meios que a tecnologia humana dispusesse. ou não professam nossa fé, só faz sentido
Atualmente somos um grupo de apro- “por Cristo, com Cristo e em Cristo”, ou
ximadamente 40 religiosos, contando com seja, em comunhão com a Igreja.
a ajuda de muita gente que reza e trabalha Expressamos a todos os que se servem
para responder aos desafios da evangelização deste periódico nosso agradecimento.Tam-
em nossa terra. Sendo um grupo pequeno, os bém pedimos orações em favor do nosso
religiosos paulinos não conseguem estar pre- apostolado. Um pedido especial que fazemos
sencialmente em todos os estados de nosso é para que o Senhor continue a despertar no
país continental. Entretanto, com a graça de coração dos jovens o desejo de evangelizar
Deus, o trabalho realizado atinge um público de maneira criativa e atraente, a fim de que
incontável. Muitos sacerdotes, catequistas e a vida em abundância do Evangelho chegue
agentes de pastoral testemunham que são a todos. Que Maria Rainha dos Apóstolos
beneficiados pela Paulus. Esse é um sinal de e São Paulo Apóstolo sejam sempre nossos
que o sonho do Bem-aventurado Pe. Tiago intercessores junto a Deus para bem viven-
Alberione permanece atual. ciarmos nossa missão!
Ao longo destes anos, os Paulinos têm
se esforçado por realizar seu apostolado Pe. Claudiano Avelino dos Santos, ssp
em consonância com a Igreja no Brasil. Superior Provincial dos Paulinos do Brasil
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Darlei Zanon, ssp*
Igreja e comunicação:
uma aproximação histórica
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*Frei Darlei Zanon é religioso paulino, natural de Carlos Barbosa-RS. Após a formação em Filosofia (PUC-Camp) e Teologia (Faje), especializou-se
em Comunicação (Cásper Líbero/SP), com mestrado em Comunicação, Cultura e Tecnologias da Informação pela Universidade de Lisboa (ISCTE).
Autor de diversos livros e artigos, atualmente é conselheiro-geral da Pia Sociedade de São Paulo e vive em Roma. E-mail:
[email protected] Saiba mais
sobre o livro:
Nas últimas décadas, imersos em
um ambiente altamente midiatizado,
habituamo-nos à presença da Igreja
nos mais diversos meios de comuni-
cação. A imagem, a voz, as mensa-
gens do papa e de tantos membros
que formam a Igreja católica se
difundem cotidianamente, de modo
sempre mais potente e abrangente.
Mas foi sempre assim? A proposta
do presente artigo é apresentar um
panorama histórico da relação da
Igreja com a comunicação, pondo em
foco não apenas a história recente,
marcada pelos meios digitais e eletrô-
nicos, mas também todos os seus dois
milênios de existência, entre acertos
e erros, luzes e sombras. Parece-nos
fundamental conhecer essa rica e
longa trajetória para compreender
melhor a própria missão da Igreja
e como os batizados são chamados
a realizar a missão de serem comuni-
cadores do Evangelho, especialmente
na cultura da comunicação e na
sociedade em rede.
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“O SER HUMANO
SEMPRE UTILIZOU
DIVERSOS MÉTODOS
E INSTRUMENTOS
PARA COMUNICAR”
INTRODUÇÃO as posturas, atividades e processos na rela-
A comunicação nasce da necessidade ção entre Igreja e comunicação. Esses três
humana de romper o isolamento, de entrar momentos ou paradigmas serão definidos e
em comunhão, criar relações, dialogar, narrar apresentados como a passagem “das praças ao
eventos, transmitir informações, ideias, senti- púlpito”, “do púlpito ao estúdio” e “do estúdio
mentos, necessidades, desejos... É importante novamente às praças (ágora)”. No livro recen-
ter claro, no entanto, que existem inúme- temente publicado pela PAULUS Editora,
ras formas de ver e analisar a comunicação: Comunicar o Evangelho: panorama histórico do
verbal, não verbal, intrapessoal, interpessoal, magistério da Igreja sobre a comunicação, apresen-
grupal, organizacional, social, de massa, ins- to de modo muito mais pormenorizado esse
trumental, digital e assim por diante. O ser itinerário. Ali se podem encontrar diversos
humano sempre utilizou diversos métodos e elementos da práxis pastoral e missionária,
instrumentos para se comunicar. Do mesmo além da descrição de todos os documentos
modo, a Igreja utiliza e vive todos os aspectos mais significativos.
da comunicação. Em cada período da sua
história, esteve mais evidente determinada 1. DAS PRAÇAS AO PÚLPITO
dimensãoem algumas épocas, teve destaque a No prólogo do Evangelho de João, lemos:
comunicação interpessoal; em outras, a verbal “No princípio existia a Palavra, e a Palavra
e a social; por vezes, a relacional; atualmente, estava junto de Deus, e a Palavra era Deus”
a digital. (Jo 1,1). Deus é a Palavra, o Verbo, que existe
Diferentes estudiosos estabelecem diver- desde sempre. Deus é, desde o princípio,
sos momentos nesse processo, de acordo com comunicação.A comunhão da Trindade (Pai,
uma perspectiva específica que querem res- Filho e Espírito Santo) é a comunicação
saltar, mas concordam quase sempre no fato perfeita. É essa comunicação que está em
de que a Igreja deu passos significativos ao Deus (que é Deus) e gera vida. Se recor-
longo da história, passando de uma postura darmos a narração da criação do mundo
de rejeição e prudência à aceitação e valori- no livro do Gênesis (1,1-2,4), veremos que
zação; de uma visão negativa e neutra àquela tudo nasce da Palavra: “Deus disse... e assim
positiva e integral. Aceitando os limites de foi”. A palavra é criadora, na medida em que
cada período e mentalidade (a “consciência separa, distingue e põe ordem. Deus cria
possível”), podemos dizer que a Igreja teve todas as coisas comunicando, dando nome,
sempre o objetivo de “inculturar” o Evange- narrando. A comunicação cria, gera vida. A
lho na linguagem e sociedade de cada tempo comunicação é vida.
e lugar, utilizando para tal aquela que julgou A Trindade, portanto, é perfeita comuni-
ser a melhor “comunicação” possível. Nossa cação, assim como Jesus Cristo é o comu-
proposta é analisar sucintamente três trans- nicador perfeito, pois estabeleceu a “comu-
formações fundamentais que determinaram nhão” (= comunicação) entre a divindade e
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a humanidade. A instrução pastoral Commu-
nio et Progressio desenvolve essa ideia no seu
número 11. Ao longo de todos os relatos A catequese do Vaticano II
do Antigo Testamento, podemos perceber o aos nossos dias
esforço de Deus em se comunicar com seu
povo por meio dos patriarcas, dos profetas e Luiz Alves de Lima
assim por diante. Esse processo de revelação
de Deus e do seu projeto para a humanidade
foi se dando aos poucos, numa comunicação
contínua e progressiva. Na encarnação do
Verbo (Jesus Cristo), temos o ápice da reve-
lação e a comunicação perfeita entre Deus
e o ser humano. E essa comunicação se dá
num encontro: Deus se fez próximo. Ele pôs
sua tenda no meio da humanidade. Cristo é
eicon (ícone, imagem) de Deus invisível, nele
a Palavra se torna imagem (corpo), a escuta
se torna visão.
O modelo de comunicação como encon-
Imagens meramente ilustrativas.
tro e comunhão – ao qual o papa Francisco
recorre frequentemente – caracteriza a ação
280 págs.
de Jesus, e é esse modelo de comunicação CONFIRA
VERSÃO
que marca profundamente a Igreja nascente, E-BOOK
já a partir do Pentecostes. De fato, a relação
da Igreja com a comunicação existe desde o
O livro aborda a renovação
momento em que Jesus envia seus discípu- catequética a partir do Vaticano II.
los – “Vão pelo mundo todo, proclamem o Para compreender a concepção
Evangelho a toda criatura” (Mc 16,15) – e conciliar de catequese, o tema
desde quando “comunica” seu Espírito e os é avaliado antes e depois do
discípulos “começam a falar outras línguas” Concílio. Assim, o primeiro
(cf. At 2,1-11). O Pentecostes é o símbo- capítulo é dedicado à história da
lo maior da comunicação universal que a catequese. O segundo considera
Igreja é chamada a concretizar. É enviada a a catequese nas discussões do
Concílio. Os capítulos seguintes
“todos”, por isso deve falar todas as línguas
mensuram o impacto do Concílio
e linguagens, hoje especialmente a digital. sobre a educação da fé. Na
Podemos considerar o Pentecostes como conclusão, temas do discipulado
o ponto de partida para o primeiro período e da iniciação à vida cristã, com
da comunicação na Igreja, pois é a contra- seu novo paradigma catecumenal,
posição da torre de Babel – esta, simboli- também são considerados.
camente, o momento inicial da divisão da
humanidade e a origem da “não comunica-
Vendas: (11) 3789-4000
ção”. No Pentecostes, Cristo convoca todos à 0800-0164011
comunhão, ao restabelecimento daquela uni-
dade essencial existente antes de Babel.Após paulus.com.br
o “envio” (cf. Mc 16,15-18; Mt 28,18-20;
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“O LIVRO DOS ATOS DOS
APÓSTOLOS DESCREVE COM
PRECISÃO OS PRIMEIROS
PASSOS NA RELAÇÃO ENTRE
COMUNICAÇÃO E IGREJA”
At 1,8), os apóstolos iniciam o processo de Com o passar do tempo, algumas dificul-
anúncio da Palavra, a difusão do Evange- dades surgiram. Os apóstolos e os primeiros
lho, palavra de origem grega (ευαγγέλιον/ discípulos, testemunhas oculares de Jesus, que
euangelion) que significa literalmente “boa com ele viveram e aprenderam, começaram
mensagem”,“boa notícia” ou “boas-novas”. a desaparecer, muitos dos quais martirizados.
Os apóstolos (também do grego, significando Outro problema era como chegar com a
“enviados”) são os comunicadores dessa “boa mensagem aonde os apóstolos não podiam
notícia”: “Vocês serão minhas testemunhas ir pessoalmente, visto que as comunidades
em Jerusalém, em toda a Judeia e Samaria, cristãs começavam a se multiplicar por todo
e até os extremos da terra” (At 1,8). o mundo conhecido na época, do Ocidente
Com uma comunicação sobretudo oral, ao Oriente. Tudo isso levou os cristãos a
seguindo a tradição da época, os discípulos fixar os testemunhos orais em forma es-
foram de cidade em cidade, de sinagoga em crita, nascendo assim as primeiras cartas (a
sinagoga, de praça em praça, anunciando a primeira carta de Paulo aos Tessalonicenses
mensagem da salvação e transmitindo os é o primeiro escrito do Novo Testamento)
ensinamentos de Cristo, a boa notícia que e os textos dos Evangelhos, com a narração
salva e dá vida. Por isso afirmamos que a da vida e do ensinamento de Jesus, além, é
comunicação da Igreja é itinerante e parte claro, de uma série de outros textos (cartas,
das “praças”, que são basicamente o “fórum”, recolha de ditos e Evangelhos apócrifos, por
nas cidades romanas, e o areópago e a ágora, exemplo). É importante notar que esses es-
nas cidades gregas. critos eram tidos como “palavra viva”. A
O livro dos Atos dos Apóstolos descreve prioridade era dada ao conteúdo do texto, e
com precisão os primeiros passos na relação não ao seu suporte. Nesse sentido, não eram
entre comunicação e Igreja. Lucas narra com “livros” como os concebemos hoje.
detalhes o processo de anúncio do Evangelho Alguns séculos depois da sua origem, a
e como este era verdadeira comunicação, Igreja começou a se confrontar com uma série
pois, além da transmissão, compreendia a de mudanças.A mais impactante foi passar de
prática, isto é, a vivência de um novo estilo Igreja perseguida a Igreja oficial e, pouco a
de vida: “em comum”. De fato, o primeiro pouco, da espontaneidade à normatização, da
sentido do termo “comunicação” (communi- rede horizontal à pirâmide hierárquica. Houve
catio, em latim) é “comunhão”. Durante os também, no entanto, a mudança cultural, com
primeiros anos da sua história, a comunica- a passagem da tradição oral à escrita, do texto
ção da Igreja foi marcada por uma relação à imagem, do ambiente judaico à abertura a
pessoal, de proximidade, pela dimensão re- todos os povos, de uma mensagem apoca-
lacional e dialógica, com grande ênfase na líptica ao anúncio escatológico e assim por
tradição oral e não verbal (corpo, símbolos diante. Mudanças que deram coesão à Igreja,
etc.) da comunicação. maior organização, segurança, autonomia e
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sistematização dos seus conteúdos. A Igreja
oficial era livre para construir seus templos
e para neles pregar. Tornando-se a religião A Igreja e seus ministros
oficial do Império, podia testemunhar (comu- Uma teologia do ministério ordenado
nicar) o Evangelho sem medo ou perseguição. Francisco Taborda, sj
Deu-se assim a passagem da comunicação das
ruas, praças e casas familiares para o interior
dos templos sagrados.
Consolidaram-se desse modo, como sím-
bolo maior do local de pregação (ou comu-
nicação) da Palavra, a sede-cátedra e o “púl-
pito”. Aqui, porém, começamos a perceber
uma diferença fundamental em relação ao
período anterior: a interação com o público.
No púlpito, o comunicador apenas “fala”
(ensina magistralmente), raramente interage,
não recebe uma resposta imediata, como
Imagens meramente ilustrativas.
acontecia nas praças. Não há “diálogo” (ou
feedback), mas sim um “monólogo”. O en-
contro e as relações são fragilizados, pois a
328 págs.
“escuta” por parte do emissor diminui. O
pregador é o detentor da “verdade” – nisso
não há dúvidas, pois anuncia o Evangelho – e
a transmite à assembleia reunida. Entretanto,
isso dá início a nova lógica comunicativa, Elaborada em três partes,
que passa a ser hegemônica na Igreja: além a obra tem linguagem clara e
do Evangelho, intuitivamente tudo o que os objetiva, sendo um excelente
clérigos começaram a comunicar passou a ser instrumento de estudo e reflexão
interpretado como verdade, como conteú- para aqueles que desejam
do indiscutível, como “certezas”.Trata-se de compreender a delicada
relação entre a Igreja e seus
lógica que perdurou por séculos e, ainda em
ministros. Assim, a obra trata
nossos dias, interfere no modo de comunicar de estabelecer a maneira
da Igreja; por isso, muitas vezes, as novas ge- como a Escritura e a Tradição
rações sentem dificuldade em interagir com nos apresentam o ministério
a instituição. Infelizmente, alguns clérigos ordenado, para posteriormente
ainda se mantêm no “púlpito”, distantes dos analisar a celebração do
interlocutores, especialmente dos chamados sacramento da ordem e o valor
“nativos digitais”. nele expresso.
2. DO PÚLPITO AO ESTÚDIO
Com Gutenberg e a criação dos tipos
Vendas: (11) 3789-4000
móveis, a impressão de livros começa a ser 0800-0164011
feita em série e possibilita a grande divulga-
ção. O livro é, portanto, o primeiro meio de paulus.com.br
comunicação social, de “massa”. Começa-se
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“INTER MIRIFICA É O PRIMEIRO
DOCUMENTO QUE TRATA DOS
MEIOS DE COMUNICAÇÃO DE
MODO INTEGRAL E COMPLETO”
a mudar do púlpito (comunicação perso- “estúdios”. Já com o papa Leão XIII (1810-
nalizada, para um grupo limitado) para o 1903) se passam a notar pequenos sinais
“estúdio”, inicialmente com a tipografia e, de nova direção, com maior flexibilidade
posteriormente, adotando todos os meios em relação à imprensa e às novas inven-
de massa. A prioridade passa a ser dada ao ções técnicas da época, especialmente o
livro, ao suporte, com uma reflexão a partir rádio e o cinema. Esse papa considera os
de dentro, e não de fora; uma lógica uni- meios de comunicação de massa impor-
direcional, e não relacional; de massa e já tante instrumento de opinião e afirma que
não interpessoal, como era nas praças e, em a Igreja poderia utilizá-los para a evange-
menor grau, também no púlpito. Inicia-se lização. “Poderia”, note-se bem. Há ainda
uma forma de comunicar não presencial muita prudência e cautela. Diríamos ser
(fisicamente) e não contextualizada, que um período de transição, neutro. Um olhar
transcende os limites do tempo e do espaço. curioso, mas, ao mesmo tempo, desconfi a-
Com a progressiva difusão de livros, opús- do. Na encíclica Imortale Dei (1885), por
culos, periódicos e materiais similares, os exemplo, Leão XIII convoca as dioceses
papas começam a adotar medidas de controle, para terem seus próprios semanários e os
emitindo pronunciamentos que condenam padres católicos para serem protagonistas
os instrumentos de “corrupção” da fé, da na imprensa, como escritores de conteúdos
moral e da vida social. O primeiro docu- fi áveis. Afirma que “é preciso opor escrito
mento oficial é o breve Accepimus Litteras a escrito, publicação a publicação”. A im-
Vestra, do papa Sisto IV (1414-1484), enviado prensa pode ser um meio potente para a
à Universidade de Colônia (Alemanha) no educação da sociedade, mas é preciso ter
dia 17 de março de 1479. Assim afirmava o uma postura crítica e limitar seu uso. O
pontífice: “A arte da imprensa, ao mesmo papa exorta a que se criem periódicos cris-
tempo tida como utilíssima porque facilita a tãos para combater sobretudo as ideologias
multiplicação de livros úteis e notáveis, pode anticlericais da época.
se tornar danosíssima se quem a possui utili- Multiplicavam-se, nesse período (fim
zar mal, imprimindo aquilo que é nocivo”. do século XIX e início do século XX), os
Essa frase resume a visão da Igreja, a qual jornais diocesanos, as editoras católicas, as
perdurou por décadas e levou à criação da revistas de inspiração cristã, as salas paroquiais
censura e do imprimatur, com o fim de evitar de cinema. A Igreja começa a se estabilizar
a difusão de doutrinas heréticas, conteúdos no “estúdio”, seja ele tipográfico, periódico,
impróprios às pessoas incultas e versões não radiofônico, cinematográfico ou televisivo.
autorizadas dos textos bíblicos. Já estamos nos encaminhando para o Con-
Com o passar do tempo, felizmente, a cílio Vaticano II, e documentos pontifícios
Igreja foi mudando sua postura, entran- exibem nova mentalidade em relação aos
do também ela, de modo assertivo, nos meios de comunicação. Há, sobretudo, um
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incentivo à formação para a comunicação,
para a leitura crítica dos conteúdos apresen-
tados na imprensa, assim como para que os A oração
cristãos se empenhem em uma comunicação contemplativa
de valor e de conteúdo fidedigno.Veem-se
Hans Urs von Balthasar
os primeiros sinais da aurora, que surgirá
exatamente com o Concílio. Leão XIII, Pio
X, Bento XV, Pio XI e Pio XII fazem parte
desse período de neutralidade, mas com sinais
de abertura aos novos meios.
O Concílio Vaticano II consagrará essa
abertura por meio do decreto Inter Mirifica,
aprovado no dia 4 de dezembro de 1963. É o
primeiro documento que trata dos meios de
comunicação de modo integral e completo.
Trata-se verdadeiramente de um divisor de
águas, de uma mudança de paradigma em
relação ao modo como o magistério viu e
definiu os meios de comunicação até en-
Imagens meramente ilustrativas.
tão, pois “consagra” a comunicação como
apostolado eclesial, ou seja, como verdadeira
pregação, ao lado da pregação oral tradicio- CONFIRA
240 págs.
nal. A Igreja assume plenamente o “estúdio” VERSÃO
E-BOOK
como espaço de missão e evangelização.
O mérito do decreto Inter Mirifica é en-
fatizar que a Igreja deve usar os meios de
comunicação para a evangelização, deve A obra trata da profundidade e do
esplendor da oração contemplativa
adaptar-se às novas tecnologias, assumi-las, o
a partir de uma visão global da
que causou certa perplexidade e espanto em revelação cristã, para que a noção
muitos padres capitulares. Por meio do Inter de sua necessidade indispensável
Mirifica, o Concílio Vaticano II solicitou a seja fortalecida na vida cristã como
instituição do Dia Mundial das Comuni- um todo, e em especial nos dias de
cações (celebrado anualmente e marcado hoje. Ela não oferece meditações
por especial mensagem do papa) e também já realizadas, mas pontos a serem
do Pontifício Conselho para a Comunica- meditados, especialmente sobre
ção Social, hoje englobado no Dicastério trechos do Novo Testamento. Esses
pontos são simples estímulos, que
para a Comunicação. É esse conselho que
visam fomentar a autonomia e a
irá elaborar os documentos Communio et intuição contemplativa do leitor.
Progressio (1971) e Aetatis Novae (1992),
fundamentais no estudo da comunicação
eclesial. No mesmo período, os documentos
Vendas: (11) 3789-4000
de Paulo VI e João Paulo II consolidaram 0800-0164011
a ideia de comunicação como cultura e
a necessidade de inculturar o Evangelho paulus.com.br
nesse ambiente.
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“NÃO HÁ DÚVIDA DE QUE A IGREJA TEM UM
CONTEÚDO SÓLIDO A SER TRANSMITIDO,
MAS PRECISA SE ADAPTAR ÀS NOVAS FORMAS,
À NOVA LINGUAGEM E À NOVA GRAMÁTICA
DA COMUNICAÇÃO”"
3. DO ESTÚDIO À ÁGORA DIGITAL si, em contínua comunicação: a praça física
Do livro à web, incluindo televisão, rádio, (off-line), que poderíamos dizer “de carne
cinema, arte etc., a Igreja passou da convic- e osso”, e a praça digital (on-line), formada
ção de que os meios de comunicação eram de bytes, mas não por isso menos real e
“diabólicos” a uma visão mais moderada, plena de vida. Ao abraçar a cultura digital, a
aceitando-os como instrumentos que po- Igreja não está renunciando aos seus valores
dem ser utilizados tanto para o mal quanto básicos. Pelo contrário, tem a possibilida-
para o bem; e, posteriormente, dessa visão de de apresentá-los a uma nova cultura, a
neutra a uma avaliação positiva, assumindo um novo ambiente, realizando assim sua
os meios de comunicação como geradores missão de evangelizar. Assumindo a ideia
de nova cultura e instrumentos fundamen- de que comunicar na rede é partilhar, os
tais para a evangelização e a catequese, ver- três últimos papas pedem aos cristãos que
dadeiras “maravilhas de Deus”. Em todos manifestem sua integralidade na rede, e
esses momentos, porém, percebe-se ainda a não partes, fragmentos, que conduziriam à
influência da “lógica do púlpito”, daquela construção de uma autoimagem narcisista
comunicação unidirecional, linear, hierár- e esquizofrênica. O digital deve auxiliar
quica, vertical, quase impositiva, onde há na concretização da missão cristã, que é ir
pouco diálogo e proximidade. A Igreja se ao encontro do outro, do próximo, teste-
preocupou sobretudo com “o que” dizer e munhando o Evangelho com sinceridade
pouco com o “como” comunicar. e compromisso. Com as potencialidades
Não há dúvida de que a Igreja tem um que a rede proporciona, o cristão não pode
conteúdo sólido a ser transmitido, mas precisa ficar indiferente ou usar a tecnologia como
se adaptar às novas formas, à nova linguagem e qualquer outra pessoa. Tem de dar teste-
à nova gramática da comunicação para melhor munho. E o testemunho do Evangelho no
responder aos anseios do ser humano con- mundo digital deve conduzir ao encontro
temporâneo. A comunicação eclesial precisa – o eixo central que conduz toda a visão
“descer do púlpito” não só fisicamente, como comunicativa do papa Francisco.
na fase anterior, mas também simbolicamente. A linguagem digital provocou, sem som-
Descer do público para encontrar, nas “pra- bra de dúvidas, uma revolução na socie-
ças”, as pessoas concretas, as realidades coti- dade e, consequentemente, na Igreja. Em
dianas, as histórias reais e as diferentes formas pouco mais de 30 anos de popularização
de ver, viver e interpretar a fé e a doutrina. da internet e das redes sociais, vimos nas-
E, com essas pessoas e realidades, estabelecer cer nova cultura, nova era, capaz de mudar
verdadeira “comunicação”, relação. conceitos como tempo, espaço, presença,
Estamos nos referindo a uma nova “pra- relações. Estamos imersos em uma “mu-
ça”, que se manifesta sob duas formas ou dança de época”, como repetem diversos
dimensões intimamente interligadas entre especialistas e, de modo particular, o papa
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Francisco. Além do ambiente digital, contu- Uma comunicação humana que supera o
do, o papa Francisco tem insistido no resgate tecnicismo e é inspirada sempre em Deus, o
da comunicação interpessoal e presencial, qual “se abaixa” para se comunicar ao e com
do contato pessoal, da escuta, do diálogo, o ser humano. Uma comunicação humana
das relações humanas. que expressa a abertura ao outro, à transcen-
Francisco é protagonista regular em meios dência, à esperança, ao diálogo, à interação
de comunicação social como a televisão, a etc.; que expressa acolhida e encontro.
rádio e também o cinema; é um best-seller A comunicação imaginada e proposta por
no mundo editorial, seja de livros, seja de Francisco está a serviço dessa cultura do en-
revistas; é um incentivador das redes sociais, contro. Comunicação como reciprocidade,
com atualizações constantes em suas contas partilha, alteridade, profundamente huma-
no Twitter e no Instagram, além de estar se na. Ele convida a dar passos em direção ao
tornando um youtuber famoso por meio dos outro, ao próximo e ao distante, dando-lhes
“vídeos do papa” (www.thepopevideo.org) espaço. Convida-nos a nos mover, especial-
e marcar presença constante na internet me- mente, em direção às periferias, que para o
diante videoconferências, videomensagens, papa são geográficas, existenciais e humanas.
celebrações ou catequeses e bênçãos on-line. Convida-nos a “sair”, a doar para receber,
Entretanto, Francisco tem uma sensibilidade insistindo na partilha e na reciprocidade, seja
particular para a comunicação interpessoal, no ambiente digital, seja naquele físico.
manifesta tanto nos seus diversos encon- É tudo isso que caracteriza, portan-
tros presenciais e nos telefonemas que faz to, o atual momento histórico da relação
regularmente como em suas mensagens e entre Igreja e comunicação. O que virá
documentos. Podemos assim dizer que, ao a seguir?
mesmo tempo que incentiva a cultura do
encontro na ágora digital (on-line), o magis- REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
tério de Francisco também insiste na ágora
analógica, física, off-line, exatamente porque BARAGLI, Enrico. Comunicazione, comunione e
elas são complementares e inseparáveis. Chiesa. Roma: Studio Romano della Comu-
A ideia de comunicação do papa Fran- nicazione Sociale, 1973.
cisco é, em muitos sentidos, revolucionária, CEBOLLADA, Pascual (Ed.). Del génesis @ in-
pois centra seu discurso sempre no “sujei- ternet: documentos del magisterio sobre las
to” que comunica, posiciona sua reflexão comunicaciones sociales. Madrid: BAC, 2005.
nos aspectos humanos da comunicação,
CNBB. Diretório de Comunicação da Igreja no Brasil.
insistindo em vícios e virtudes do uso da
Brasília: CNBB, 2014.
tecnologia e dos instrumentos. Essa visão
é muito clara quando fala em “passar da LORUSSO, Anna Maria; PEVERINI, Paulo
cultura do adjetivo para a teologia do subs- (Org.). Il racconto di Francesco: la comunica-
tantivo”. Em vez de enfatizar o “social”, o zione del papa nell’era della connessione
“de massa” ou mesmo o “digital” na co- globale. Roma: LUISS, 2017.
municação, enfatiza o “comunicador”, o ZANON, Darlei. Igreja e sociedade em rede: im-
sujeito que comunica, a relação. pactos para uma cibereclesiologia. São Paulo:
Francisco propõe ainda uma leitura origi- Paulus, 2019.
nal da comunicação, centrada no termo “pro- ______. Comunicar o Evangelho: panorama histó-
ximidade”. Esta é a chave de leitura, segundo rico do magistério da Igreja sobre a comu-
o papa, para ver e interpretar a comunicação. nicação. São Paulo: Paulus, 2021.
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Aline Amaro da Silva*
Saiba mais
sobre o livro:
*Aline Amaro da Silva é jornalista, radialista, escritora, mestra e doutoranda em Teologia pela PUC-RS. Fez parte de sua pesquisa doutoral
na Ruhr Universität Bochum, Alemanha, sobre ciberteologia, teologia digital, teologia comunicativa e teologia da comunicação.
Atua na formação teológica e comunicacional de catequistas e evangelizadores, ministrando cursos, workshops e palestras por todo o Brasil.
E-mail: [email protected]
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Catequese digital:
por onde começar?
Insights para pensar
a catequese
em tempos digitais
e de pandemia
Este artigo trata de temas indispensáveis para repensar
o agir catequético, a fim de superar os desafios que
enfrentamos hoje: uma sociedade em digitalização
e uma pandemia que dificulta o encontro físico.
Propomos um itinerário de conscientização sobre essas
mudanças, para formar uma catequese 4.0, integral
e integradora, física e digital.
INTRODUÇÃO
“Catequese digital: por onde começar?” Esta não apenas uma conscientização sobre o que
é uma questão que todo catequista deve estar é a rede, mas também um processo aberto
se propondo neste momento de pandemia. de amadurecimento da compreensão do que
Também é o título de um livro que será publi- estamos vivendo como cristãos e cidadãos
cado pela Editora Paulus neste ano de 2021. O desta sociedade em rede global. Assim como
presente trabalho sintetiza os principais temas a Igreja deve estar em estado permanente de
abordados naquela obra, fruto de formações missão, é convidada a lançar novo olhar sobre
sobre a catequese na era digital ministradas, a a realidade permeada pelo digital.
partir de 2015, em diversas regiões do Brasil. Essa reflexão é aprofundada ao longo dos
Com as medidas de distanciamento, a catequese capítulos do livro. Neste artigo, vamos apenas
deve encontrar meios para prosseguir de for- pontuar os assuntos centrais para realizar o
ma remota. Dessa forma, surgiu a urgência de processo em questão. São eles: cultura di-
desenvolver um modelo de catequese digital. gital, ciberteologia, geração net, cibergraça,
Pode-se chamar de metanoia digital o evangelização e catequese digital. Seguimos
processo de construção de nova mentalidade para o primeiro passo – entender melhor a
sobre si, sobre o mundo e sobre a fé impacta- rede e a cultura contemporânea, pois nossa
dos pela cultura digital. A metanoia digital é metanoia digital começou.
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um espaço qualificado pelas nossas ações. As-
sim, podemos definir o ambiente digital como
um lugar antropológico, ético, social. Devemos
considerá-lo ainda um lugar sagrado, sobretudo
no contexto atual de pandemia, ambiente de
“A CULTURA DA REDE TRANSFORMOU
prática e cultivo da fé. Dessa experiência cris-
NOSSA RELAÇÃO COM O ESPAÇO tã na web, emergem questões teológicas que
E O TEMPO, TORNANDO O TEMPO requerem nova abordagem: a ciberteologia.
MAIS IMPORTANTE QUE O ESPAÇO”
2. Ciberteologia: a fé que busca
compreender o mundo de hoje
1. “Lançai-vos nas redes”: Baseada na teologia dos sinais dos tempos
um mergulho na cultura digital do Concílio Vaticano II, a ciberteologia foi
A catequese deve estar atenta às mudanças criada em 2012 pelo jesuíta italiano Antonio
que a cultura digital e a pandemia trouxeram Spadaro como novo campo teológico que
e acolher as oportunidades que surgem para a busca compreender a cultura digital à luz
educação da fé. Como o Diretório para a Ca- da fé e seus impactos para o entendimento
tequese (n. 359) observa:“O digital, portanto, e a vivência da fé cristã. A ciberteologia en-
não apenas faz parte das culturas existentes, tende a internet como um lugar teológico
mas está se estabelecendo como uma nova onde o teólogo pode se posicionar para ler
cultura, modificando primeiramente a lingua- a realidade e refletir sobre a fé hoje.
gem, moldando a mentalidade e reformulan- Essa nova abordagem tem como funda-
do as hierarquias dos valores”. Esse primeiro mento o seguinte raciocínio: se as tecnologias
tópico nos convida a ingressar no processo digitais, especialmente a internet, mudaram
de conscientização e descoberta desse novo a maneira de comunicar, pois modificaram a
mundo interconectado pelas redes digitais. linguagem, consequentemente alteram nossa
A era da (des)informação nos deu nova forma de pensar. Se entendemos a teologia
experiência de espaço desterritorializado e de como intellectus fidei, pensar a fé, então, a cultu-
comunicação instantânea e ubíqua.A cultura da ra digital está transformando também o jeito
rede transformou nossa relação com o espaço como se faz atualmente teologia. Nesse sen-
e o tempo, tornando o tempo mais importante tido, a ciberteologia é definida como “pensar
que o espaço. Quando falamos em rede, não a fé cristã nos tempos da rede” (SPADARO,
nos referimos ao sistema de dispositivos digitais, 2012). Outras abordagens teológicas relacio-
mas às pessoas conectadas por essas tecnologias, nadas ao fenômeno digital estão surgindo,
formando uma rede de comunicação humana. como a teologia digital, que nasceu em 2014,
O papa Francisco (2014) compreende que o na teologia protestante. A catequese sofreu
ambiente digital é um lugar rico em huma- mudanças drásticas neste período de pande-
nidade, pois não é tecido por cabos, e sim por mia, que acelerou ainda mais o processo de
relações humanas. Por isso, a internet não é digitalização. Entender as mudanças na comu-
apenas uma estrutura técnica, mas sobretudo nicação da fé é tão importante, que o novo
experiência de relações, às vezes entre pessoas Diretório para a Catequese (2020) contempla
(relação “eu e tu”), outras vezes com máquinas essa temática entre os números 359 e 372.
e inteligências artificiais (relação “eu e isto”). A cultura digital, que trouxe a necessidade
Em vista disso, podemos constatar que o de novos fazeres teológicos, formou também
ciberespaço não é um ambiente neutro, mas novos sujeitos eclesiais que devemos conhecer.
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3. Nativos digitais: os novos
protagonistas da catequese
O sucesso de uma comunicação depende A Verdade é sinfônica
principalmente do conhecimento e da pro- Aspectos do pluralismo cristão
ximidade entre os interlocutores. Por isso, os Hans Urs von Balthasar
catequistas devem conhecer as características
de comunicação, visão de mundo, compor-
tamento e aprendizagem dos catequizandos.
Com a globalização, esses aspectos foram sendo
compartilhados pelos jovens de uma mesma
época. Assim surgiu o estudo das gerações.
Atualmente, seis gerações convivem juntas
(OLIVEIRA, 2010, p. 41-57). São elas: Belle
Époque (nascidos aproximadamente entre 1920
e 1940), Baby Boomers (1940-1960), X (1960-
1980),Y (1980-1999), Z (1999-2010) e Alfa
(2011 até agora). Essas diferenças de mentali-
dade podem causar conflitos entre gerações, se
não buscarem o conhecimento mútuo.
Imagens meramente ilustrativas.
Podemos classificar essas gerações em dois
160 págs.
grupos: as três primeiras gerações formam o CONFIRA
grupo dos imigrantes digitais, e as três últimas VERSÃO
constituem aqueles que cresceram em meio à E-BOOK
revolução digital, chamados de nativos digitais.
É necessário frisar que ser um nativo digital
não significa que a pessoa nasceu sabendo
Através da metáfora “sinfônica”,
como e para que utilizar os meios digitais; o o autor nos ajuda a perceber que a
termo quer designar o período, contexto e pluralidade de carismas e ministérios
aspectos compartilhados por esses indivíduos. eclesiais não é incompatível com
Todas as gerações, em algum nível, precisam a unidade da Igreja. Ao contrário,
ser educadas para o digital. não é necessário se afastar um
A geração Y é a primeira geração digital e milímetro sequer do centro do
global. É nela que percebemos grande ruptura mistério de Cristo. É através dele que
de padrão de comportamento em relação às se descortina um imenso espaço de
liberdade e pluralidade na unidade
gerações anteriores. Novas características co-
da Igreja Católica, garantido pelo
municacionais aparecem na geração Y e são Espírito Santo.
intensificadas nas gerações digitais posteriores.
Com certeza, um diferencial da geração Alfa
em relação às demais será a experiência da
pandemia. Para exemplificar tais mudanças,
selecionamos algumas características das ge-
Vendas: (11) 3789-4000
rações digitais (TAPSCOTT, 2010, p. 41-51): 0800-0164011
• As relações de autoridade na família, escola
e trabalho estão mudando, pois o poder e o paulus.com.br
conhecimento já não estão apenas com os
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pais, chefes e mestres; as crianças e jovens,
“A IGREJA, EM VÁRIOS DOCUMENTOS,
por sua habilidade com os dispositivos digi-
tais, agora possuem autoridade tecnológica. ORIENTA NOSSA CONDUTA
Isso está deixando as relações sociais mais MORAL NAS MÍDIAS, POIS SABE
horizontais, colaborativas e compartilhadas. QUE A CULPA DOS MALES NÃO
• O ambiente multicultural e pluralista em É DOS MEIOS UTILIZADOS,
que cresceram tornou a juventude digital MAS DE QUEM OS UTILIZA”
mais aberta e tolerante, ativista no combate às
injustiças sociais, embora sua ação se dê mais
por manifestações nas redes do que nas ruas. de ficarmos dependentes dela e nos isolarmos
• São analíticos, observadores e íntegros – numa bolha.Todo desvio de comportamento
buscam a liberdade de estudar, trabalhar e na internet que cause danos à pessoa que o
viver de acordo com seus gostos e crenças. comete ou a outros, chamamos de ciberpe-
• O tempo real, a velocidade e a exposição cado. Assim como boas iniciativas migraram
às mídias os tornaram ansiosos, impacientes, para o modo on-line, as más ações também
dispersivos e necessitados de reconhecimento. ganharam sua versão digital. Podemos citar
• Suas capacidades cognitivas mudaram. De- algumas: cyberbulling, fake news, ciberterrorismo,
vido ao excesso de informação e notícias guerra e espionagem cibernética, pedofilia e
falsas, desenvolveram melhores habilidades pornografia digital, mercado negro, dark web.
de processamento, seleção, categorização Um problema atual é o uso dos dados pes-
e aproveitamento dos dados. soais dos usuários para gerar lucro. Quando
Sobre sua cognição, Michel Serres (2013, p. utilizamos um serviço “gratuito” na internet, na
37-38) acrescentaria que o intelecto dos nati- verdade ele não sai de graça: nós nos tornamos
vos digitais se tornou mais criativo e inventivo. o produto que a plataforma está vendendo a
É importante deixar claro que, embora o estu- seus anunciantes. Esse é um dos dilemas de
do das gerações tenha se tornado indispensável caráter moral que formam o que chamamos de
na formação dos catequistas, isso não quer pecado estrutural da rede. É importante termos
dizer que todos os catequizandos desenvol- consciência de que a internet tem problemas
verão os mesmos traços de comportamento estruturais, para não cairmos na rede como
e aprendizagem. Existem outros fatores que numa armadilha, mas buscarmos aperfeiçoá-la.
influenciam sua mentalidade. Como passar da A Igreja, em vários documentos, orienta
experiência de conexão para a comunhão? É nossa conduta moral nas mídias, pois sabe que
o que refletiremos na cibergraça. a culpa dos males não é dos meios utilizados,
mas de quem os utiliza. Se os recursos da in-
4. Onde há ciberpecado, ternet potencializam a propagação do pecado
há ainda mais cibergraça que cometemos, podem expandir ainda mais
A cultura digital não é realidade passagei- a graça que vivemos e os bens que praticamos.
ra, por isso devemos descobrir como viver A graça é benevolência e ação divina,
na graça nessa nova realidade, que requer de mas precisa da correspondência humana.
nós maior maturidade e disciplina. Com as Por isso, a cibergraça busca refletir sobre
medidas de distanciamento, passamos a ver a como viver de forma equilibrada em tem-
comunicação digital como única forma de pos digitais. Para auxiliar a ação de Deus na
nos relacionarmos com as pessoas de fora. nossa vida, precisamos cultivar bons hábitos
Embora sejam indiscutíveis os benefícios por intermédio da ascese digital: criar uma
que a rede proporciona, corremos o risco rotina de atividades on-line e off-line, fazer
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bons propósitos e respeitar horários.Às vezes
precisamos de um detox digital, isto é, de um
período de renúncia da conexão para nos As ciências das
reconectarmos com as pessoas e com Deus. religiões
Deus está presente no ciberespaço e
transforma a conexão em rede de comu- Carlo Prandi e Giovanni Filoramo
nhão quando dois ou mais estão reunidos
em nome de Jesus (Mt 18,20).Toda vez que
estamos em estado de graça, trazemos o Rei-
no de Deus para nossa rede de contatos. A
internet é dom de Deus e não foi inspirada
para nos separar, mas para nos religar. Ao ser
utilizada para o mal, está sendo desvirtuada
do seu papel original de facilitar a comunhão.
Portanto, definimos cibergraça como pessoas
em comunhão na era da cultura digital.
Assim como fizemos uma releitura da graça
nos tempos da rede, também precisamos repen-
Imagens meramente ilustrativas.
sar a ação evangelizadora na conjuntura atual.
5. Evangelização na era digital:
304 págs.
um novo olhar
A cultura digital nos ajuda a entender que
a verdadeira comunicação é uma ação recí-
proca entre os interlocutores. Se evangelizar é
comunicar (DP 1979, n. 1063), então evange- A obra expõe o duplo movimento
lização é partilha da alegre notícia da salvação. executado pelo estudo das
religiões no pós-guerra: o de
Evangelizar não é só propagar um conteúdo;
crescente especialização, por um
é um comprometimento de vida com Jesus lado, e, por outro, o de busca por
Cristo e com os irmãos. Compromisso que dá sentido e globalidade em seus
à nossa vida propósito, alegria e beleza.“Anun- processos de pesquisa. Comenta
ciar Cristo significa mostrar que crer nele e ainda a multiplicação, também no
segui-lo não é algo apenas verdadeiro e justo, plano acadêmico, das histórias
mas também belo, capaz de cumular a vida religiosas particulares, que tendem
dum novo esplendor e duma alegria profunda, a especializar-se internamente e,
mesmo no meio das provações” (EG 167). Um ao mesmo tempo, a dilatar-
-se para o exterior, a ponto de
dos principais desafios de nosso tempo é passar
idealmente cobrir todo o planeta
da lógica da transmissão ao compartilhamento. e sua história.
Evangelização é um conjunto de ações
que abrange as dimensões do ser, dizer e
fazer: encontro autêntico, diálogo fecundo,
Vendas: (11) 3789-4000
escuta ativa, olhar atento, gestos de ternura. 0800-0164011
Evangelizar é comungar da vida do outro
e compartilhar a vida com o outro: olhou, paulus.com.br
sentiu compaixão, aproximou-se e cuidou
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6. Catequese digital:
em busca de nova pedagogia
Em 2015 iniciamos formações para refle-
tir sobre os desafios e possibilidades da cate-
“A CATEQUESE DEVE SER UM
quese na era digital, abordando os assuntos
PROCESSO QUE ENRIQUECE tratados nos tópicos deste artigo, a fim de
E IMPULSIONA A CAMINHADA entendermos a cultura, o sujeito e o contexto
DE TODA A VIDA, VERDADEIRA contemporâneo, e assim aprimorarmos a pas-
INICIAÇÃO À VIDA CRISTÔ toral catequética. Agora com a quarentena,
essa base de reflexão se tornou ainda mais
fundamental e surgiu a necessidade de dar
dele (Lc 10,33). Só evangeliza quem ama e é um passo adiante no processo de renovação
amado. A experiência do amor de Deus nos do trabalho catequético: a catequese digital.
move a testemunhar esse amor aos outros. Entendemos catequese digital como a prá-
Para a catequese, que constitui uma das tica de encontros catequéticos por meio da
etapas do processo evangelizador, é impor- internet. Dividimos em dois níveis as ações
tante renovar o sentido da evangelização catequéticas na rede: o cultivo da relação ca-
como comunhão entre pessoas. Para pensar tequizando-catequista, mediante o comparti-
o anúncio do Evangelho na era digital, “a lhamento de conteúdo nas mídias digitais, e o
verdadeira questão não é como utilizar as encontro catequético on-line propriamente dito.
novas tecnologias para evangelizar, mas sim A catequese para a era digital precisa res-
como se tornar uma presença evangelizadora ponder a quatro questões:
no continente digital” (DC 371). Participar • Como integrar as novas tecnologias na
e colaborar são aspectos indispensáveis no pedagogia catequética?
processo evangelizador dos nativos digitais, • Quais os conteúdos mais relevantes para
principalmente na catequese, que deve cul- trabalhar na catequese hoje?
tivar a fé por meio da experiência com o • Como desenvolver a competência midiá-
mistério divino que toca nossa realidade. tica dos catequistas e catequizandos para
Com o movimento de secularização da terem olhar crítico e discernimento sobre
sociedade e da cultura, boa parte das crianças o impacto da cultura digital na vida hu-
e jovens está crescendo sem o ensino da fé mana e na fé?
nas famílias.A preparação para os sacramentos, • Como atualizar a pedagogia catequética em
que passou a ser vista mais como rito social consideração às propriedades comunicati-
do que prática da fé, tornou-se oportunidade vas e de aprendizagem que a comunicação
de evangelizar os batizados.Assim, no tempo digital nos trouxe?
atual já não se podem separar as etapas de Esses pontos elucidam que renovar a
evangelização e catequese, como explica o pedagogia catequética à luz da experiência
novo Diretório:“O anúncio não pode mais ser da rede vai além do uso das mídias digitais
considerado simplesmente a primeira etapa na catequese; é preciso avaliar quais ações,
da fé, prévia à catequese, mas sim a dimensão vivências e técnicas proporcionariam uma
constitutiva de cada momento da catequese” abertura maior ao mistério divino de acordo
(DC 57).A catequese hoje não deve ser con- com as particularidades das gerações digitais.
siderada um estudo sistemático da fé, mas um Devemos priorizar pedagogias catequéti-
encontro gerador da própria fé mediante o cas que correspondam às características dos
diálogo, a participação e boas relações. nativos digitais, que promovam interação,
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diálogo, participação e engajamento. A ca- REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
tequese deve aprofundar o estudo de pe-
dagogias humanizadas e humanizadoras, CELAM. Documento de Puebla (DP), 1979. Dis-
interativas, dinâmicas e abertas, que visem ponível em: <http://portal.pucminas.br/
ao crescimento e à emancipação do sujeito, imagedb/documento/DOC_DSC_NOME_
ARQUI20130906182452.pdf>. Acesso em:
a fim de formar cristãos preparados para
29 jun. 2020.
enfrentar os desafios que a sociedade em
rede trouxe e ainda trará para a vida cristã. OLIVEIRA, Sidney. Geração Y: o nascimento
de uma nova geração de líderes. São Paulo:
Conclusão Integrare, 2010.
Apesar de vivermos numa era líquida, PAPA FRANCISCO. Evangelii Gaudium: Exorta-
permeada pela cultura do descartável, temos ção Apostólica sobre o anúncio do Evangelho
o desafio de mostrar na catequese que o no mundo atual (EG), 2013. Disponível em:
amor de Deus não é provisório, mas eterno; <http://www.vatican.va/content/francesco/
que nossa fé não é uma adesão momentânea pt/apost_exhortations/documents/papa-
e sazonal a Cristo, mas define nossa vida -francesco_esortazione-ap_20131124_evan-
inteira. A catequese deve ser um processo gelii-gaudium.html>.Acesso em: 10 jul. 2020.
que enriquece e impulsiona a caminhada de ______. Mensagem para o 48º Dia Mundial das
toda a vida, verdadeira iniciação à vida cristã. Comunicações Sociais: comunicação a servi-
Existem níveis de presença, atenção, comu- ço de uma autêntica cultura do encontro.
nicação e encontro, seja no ambiente físico, Roma, 2014. Disponível em: <http://w2.
seja no digital. Neste momento, o mais impor- vatican.va/content/francesco/pt/messages/
communications/documents/papa-frances-
tante é mostrarmos ao catequizando que ele
co_20140124_messaggio-comunicazioni-so-
não está só; que faz parte de uma comunidade
ciali.html>. Acesso em: 3 fev. 2020.
que se importa com ele; que estamos unidos
em comunhão, embora distantes territorial- PONTIFÍCIO CONSELHO PARA A PRO-
mente; e, sobretudo, que ele é amado por MOÇÃO DA NOVA EVANGELIZAÇÃO.
Deus. Portanto, precisamos buscar a qualidade Diretório para a Catequese (DC). Brasília:
CNBB, 2020. Edição do Kindle. (Docu-
e autenticidade de nossas relações para uma
mentos da Igreja, 61.)
vida, evangelização e catequese mais plenas.
Aprendendo com nossa experiência de pan- SERRES, Michel. Polegarzinha. Rio de Janeiro:
demia, já não podemos ver a comunicação e Bertrand Brasil, 2013.
a catequese digital como atividades de caráter SILVA, Aline Amaro da. Cibergraça: fé, evangeli-
complementar. A catequese digital não subs- zação e comunhão nos tempos da rede. Dis-
tituirá toda catequese no ambiente físico, mas sertação (Mestrado em Teologia)–Faculdade
deve ser pensada como ótima alternativa em de Teologia, PUC, Rio Grande do Sul, 2015.
circunstâncias em que o encontro geográfico Disponível em: <http://tede2.pucrs.br/
não é possível. Para o pós-pandemia, precisamos tede2/bitstream/tede/5993/2/468444%20
começar a construir uma catequese híbrida, 4.0, -%20Texto%20Completo.pdf >. Acesso em:
11 fev. 2021.
que contenha em seu plano geral os modelos
tradicionais e digitais. Assim, conseguiremos SPADARO, Antonio. Ciberteologia: pensar o
atualizar o método e ainda fazer que nossa cristianismo nos tempos da rede. São Paulo:
evangelização e educação da fé alcancem mais Paulinas, 2012.
pessoas, as quais, muitas vezes, não são contem- TAPSCOTT, Don. A hora da geração digital. Rio
pladas pelo modo convencional. de Janeiro: Agir, 2010.
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Moisés Sbardelotto*
“Vejam como
não se amam!”:
intolerância
intracatólica e
antievangelização
em rede
O fenômeno da intolerância em rede
vem desafiando a reflexão e a ação
social em vários âmbitos. A Igreja
não fica isenta disso. Neste artigo,
aborda-se primeiramente
o fenômeno do ódio digital em geral,
com base na ação dos chamados
“haters”. Em seguida, são enfocados
especificamente o ódio digital intraca-
tólico e a prática da “excomunicação”.
Por fim, à luz do magistério do papa
Francisco, sustenta-se que a
comunicação contemporânea convo-
ca os cristãos e cristãs para uma
demonstração concreta e encarnada
de amizade e diálogo sociais, bem
como de santidade em rede,
reconhecendo que, por trás das telas
mediante as quais nos comunicamos
hoje, está nosso “próximo”, cuja
dignidade deve ser respeitada
e defendida.
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*Moisés Sbardelotto é jornalista e doutor
em Ciências da Comunicação. Membro
do Grupo de Reflexão sobre Comunicação
da Conferência Nacional dos Bispos do
Brasil (CNBB) e colaborador do Instituto
Humanitas Unisinos (IHU). Seu livro mais
recente é Comunicar a fé: Por quê? Para
quê? Com quem? (Ed. Vozes, 2020). E-mail:
[email protected] INTRODUÇÃO
“Diga-me com quem andas e te direi se
vou te odiar.” Hoje, nos contatos por meio
da internet, toda opinião é passível de outra
opinião, em sentido frontal e agressivamente
contrário. Não basta gostar ou desgostar de
algo: é preciso também desgostar daqueles
que gostam daquilo de que não gosto.A raiva
e o rancor se digitalizam e permeiam sites
e redes sociais digitais mediante expressões
de intolerância, indiferença, desinformação,
negacionismo, difamação, discriminação, pre-
conceito, xenofobia. O ódio, assim, ganha
forma de bits e pixels, principalmente pela
ação dos chamados haters, os odiadores, aque-
les que amam odiar.
Tal situação faz parte de um fenômeno
mais amplo e recente, caracterizado pela di-
fusão de desinformação e má informação,
como as chamadas fake news. Essa “poluição
de informações em escala global” gera verda-
deira “desordem informacional” (WARDLE;
DERAKHSHAN, 2018). Nesse contexto,
atos de violência simbólica e discursos de
ódio abundam nas plataformas digitais. O
fenômeno da intolerância em rede desafia
a reflexão e a ação social em vários âmbitos.
A Igreja não fica isenta disso.
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“DE MODO GERAL, O ÓDIO É EXPRESSÃO HUMANA
QUE REMONTA AOS SÉCULOS E NÃO ESTÁ RESTRITO
A UMA CULTURA OU LUGAR ESPECÍFICOS”
As interações em rede entre pessoas que papa Francisco se propôs refletir sobre o fe-
se identificam publicamente como católi- nômeno em importantes documentos do seu
cas evidenciam um panorama semelhante. A magistério pontifício. Na sua carta encíclica
intolerância intracatólica se manifesta na co- Fratelli Tutti, ao falar das “redes de violência
municação de opiniões agressivas, repressivas verbal através da internet”, alimentada tam-
ou violentas contra o diferente e a diferença bém por pessoas cristãs e católicas, o papa
no interior do próprio catolicismo. Desse modo, questiona:“Agindo assim, qual contribuição
a pessoa que está do outro lado da tela já se dá para a fraternidade que o Pai comum
não é um “irmão ou irmã na fé”, mas apenas nos propõe?” (FT 46).
alguém sobre o qual se descarrega todo o Neste artigo, abordaremos primeiramen-
próprio ódio pessoal, camuflado de defesa te o fenômeno do ódio digital em geral,
da tradição, da doutrina e da liturgia, com com base na ação dos chamados haters. Em
citações artificiosamente pinçadas da Bíblia seguida, focaremos especificamente o ódio
e do Catecismo. digital intracatólico e a prática da “excomu-
Nada nem ninguém estaria acima desse nicação”. Por fim, à luz do magistério do
“tribunal da Santa Inquisição digital”. Nem papa Francisco, sustentaremos que a comu-
mesmo o papa ou a hierarquia eclesiástica – nicação contemporânea convoca os cristãos
por exemplo, bispos individuais ou a própria e cristãs para uma demonstração concreta
Conferência Nacional dos Bispos do Brasil e encarnada de amizade e diálogo sociais e,
(CNBB). Basta circular pelas redes para ve- principalmente, de santidade em rede, reco-
rificar a frequência com que tais autoridades nhecendo que, por trás das telas, estão pessoas
são censuradas publicamente como “hereges” humanas, estão nossos “irmãos e irmãs”, está
(ou coisas piores) em comentários públicos nosso “próximo”, cuja dignidade deve ser
e também em vídeos dos chamados “youtu- respeitada e defendida.
bers católicos”, que se erigem em “grandes
guardiões da verdade […], novos mestres do 1. Ódio digital: a ação dos haters
saber da fé, criando novas sumas e tratados Por que uma pessoa odeia? A psicologia
[…], criando para si e em torno a si novos nos oferece inúmeras explicações, sob as mais
oráculos da revelação” (KUZMA, 2019). variadas lentes de leitura. Em geral, trata-se
Em uma era pré-digital, o papa São João da canalização, para outra pessoa, de raivas,
Paulo II (1980) já falava dos riscos das “várias rancores, remorsos, desprazeres, frustrações
formas de antievangelização”.Atualizando sua pessoais (alienação). “O eu odeia, abomina
reflexão para estes tempos de redes sociais e persegue, com intenção de destruir, todos
digitais, fica ainda mais evidente que, ao ob- os objetos que constituem uma fonte de
servarmos o modo como católicos e católicas sensação desagradável para ele, sem levar em
às vezes se relacionam em rede, “passados conta que significam uma frustração […] da
dois mil anos de cristianismo, o Evangelho satisfação das necessidades de autopreserva-
do Senhor está bem longe de ser conhecido” ção” (FREUD, 1980[1915], p. 160).
(PAPA JOÃO PAULO II, 1980). Trata-se De modo geral, o ódio é expressão hu-
de algo tão contrário ao testemunho, que o mana que remonta aos séculos e não está
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restrito a uma cultura ou lugar específicos.
Todos podem odiar, com meios e em graus
diferentes. Entretanto, “as razões atribuídas Fé e razão no mundo
ao ódio nada mais são do que circunstân- da tecnociência
cias favoráveis, simples ocasiões, raramente
Urbano Zilles
ausentes, de liberar a vontade de simplesmen-
te destruir” (GLUCKSMANN, 2007, p. 11,
grifo nosso). Isso também vale na internet:
“A busca pela disseminação do ódio pode
estar associada a certo gozo usufruído pelo
hater pelo excesso de prazer que é possível
de lhe causar […], visando unicamente o
prazer do ‘odiador’ pela destruição psico-
lógica causada ao outro” (REBS; ERNST,
2017, p. 29-30).
O hater, contudo, difere da pessoa co-
mum que manifesta seu ódio fora das redes.
Podemos dizer, em síntese, que o diferencial
Imagens meramente ilustrativas.
do “odiador digital” é o alcance do seu ódio
e a velocidade em que este se dissemina – e,
com isso, o dano, o estrago, a infelicidade
120 págs.
que ele causa. “A agressividade social en-
contra um espaço de ampliação incomparável
nos dispositivos móveis e nos computadores”
(FT 44, grifo nosso). Hoje, em um período A obra aborda as relações
de “revolução digital”, o ódio digitalizado existentes entre a teologia, a
se torna ubíquo, presente em toda parte e filosofia e as ciências, buscando
disponível a qualquer momento. reconhecer os limites da razão
Se antes o ódio se restringia ao contato na vida humana. O livro parte
da Grécia Antiga; trata das
pessoal e aos pequenos círculos, um “odia-
características das ciências
dor digital” pode expressar seu ódio com o particulares e das condições
auxílio de poderoso aparato de comunica- de seu surgimento; reflete sobre
ção – que é também muito acessível e de a crítica moderna da religião
fácil utilização, além de caber no bolso –, e suas consequências para
conferindo-lhe uma dimensão social muito o cristianismo; tudo isso para
maior. É o próprio hater quem controla a mostrar como a fé não só pode,
transformação do seu ódio privado em ódio mas deve encontrar meios para
público, com um clicar de botões. Ademais, sua existência em nosso mundo
marcado pela tecnociência.
atualmente é possível não apenas odiar, mas
também conectar os vários ódios, mediante a
conexão digital sem fronteiras entre vários
Vendas: (11) 3789-4000
odiadores, que “comungam” de um mes- 0800-0164011
mo ressentimento e atacam seus alvos por
meio de verdadeiro “efeito-enxame” em paulus.com.br
rede (HAN, 2018).
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No fundo, o ódio é uma forma de desprezo a definição de “catolibãs”, ou seja, católicos-
e descarte: o “outro” a quem odeio não me -talibãs, que atuam com base na violência
importa, me é indiferente, ou só me importa simbólica (mas nem por isso menos preo-
como “bode expiatório” dos meus próprios cupante e hedionda). Pregam a exclusão de
ressentimentos. A internet, assim, torna-se tudo o que seja “catolicamente diferente” e
campo fértil para o crescimento de uma “cul- de todos os “catolicamente outros”. Para tais
tura do descarte” digital, para usar a expressão extremistas, existiria apenas um único catoli-
do papa Francisco (EG 53). Na Fratelli Tutti, o cismo, puro, cristalino, são e verdadeiro, sem
papa afirma que tais ações visam a “destroçar a nuances, bem delimitado e definido – pelos
figura do outro, num desregramento tal, que, se seus próprios esquemas e padrões mentais ou
existisse no contato pessoal, acabaríamos todos por documentos da Igreja de séculos passados.
por nos destruir entre nós” (FT 44, grifo nosso). A “autoridade digital” desses católicos
Essa comunicação mata! fundamentalistas não vem do saber teoló-
A circulação do ódio ocorre de forma gico (academia) nem do poder eclesiástico
imprevisível e – o mais preocupante – ir- (hierarquia), mas de um saber-fazer e de um
reversível. Com isso, o ódio adquire maior poder-fazer midiáticos. Trata-se de pessoas
força simbólica na cultura, afetando também muitas vezes sem qualquer relevância ou
o campo religioso, mais especificamente o reconhecimento acadêmicos ou eclesiás-
intracatólico. ticos que, porém, captaram muito bem as
lógicas das mídias digitais, dominando suas
2. Ódio digital intracatólico: linguagens (saber-fazer) e ocupando espa-
excomunicação entre “irmãos ços comunicacionais não raro negligenciados
e irmãs na fé” pela própria Igreja (poder-fazer). Assim, vão
Como aponta Massimo Faggioli (2017), conquistando visibilidade e autoridade so-
nesta “era da raiva”, vem emergindo, particu- ciais e até mesmo eclesiais, atuando em rede
larmente no ambiente digital,“um novo tipo como “inquisidores digitais”.
de censura que usa a violência verbal para in- Diante da crescente explicitação de tais
timidar os católicos individuais, assim como as problemáticas comunicacionais antes menos
instituições dentro da Igreja”. Os sujeitos de evidentes, a Igreja precisou atentar para os
tais práticas formam aquilo que o autor chama limites da comunicação em rede. Em ge-
de “cibermilícias católicas [...], propagandis- ral, a abordagem eclesiástica voltava-se a
tas verbalmente violentos das mídias sociais um fenômeno considerado como externo
católicas”, dada sua militância venenosa em à Igreja, operado apenas por agentes não
prejuízo da comunhão eclesial. O principal eclesiais (como os profissionais das mídias)
risco disso é o surgimento de uma eclesiologia e que investia contra ela, de fora para dentro.
que “humilha a Igreja, incluindo suas lideranças Foi o papa Francisco quem inovou ao
institucionais, que parecem impotentes perante acompanhar os desdobramentos desse pro-
a pressão social midiática” (FAGGIOLI, 2017). cesso. Segundo ele, não se trata de um fe-
No Brasil, as pessoas que dinamizam esse nômeno apenas “extrarreligioso” em rela-
fenômeno intracatólico ganharam também ção à Igreja católica, mas principalmente
“A CIRCULAÇÃO DO ÓDIO OCORRE DE FORMA IMPREVISÍVEL
E O MAIS PREOCUPANTE IRREVERSÍVEL”
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“intrarreligioso”, isto é, de ódio instigado e qualquer tentativa de inculturação da fé em
disseminado entre os próprios católicos, dentro expressões não europeias, populares ou peri-
do próprio catolicismo: féricas é inconcebível) nem com as pessoas
(do ponto de vista desses autodenominados
Pode acontecer também que os cristãos “católicos”, Francisco é um “antipapa” e os bis-
façam parte de redes de violência verbal pos brasileiros, simplesmente,“300 picaretas”).
através da internet e de vários fóruns ou Desse modo, esses católicos se manifestam
espaços de intercâmbio digital. Mesmo nas como verdadeiros e-reges, hereges da era di-
mídias católicas, é possível ultrapassar os li- gital. Fazem uma “livre escolha” (em grego:
mites, tolerando-se a difamação e a calúnia hairesis) de aspectos do catolicismo que mais
e parecendo excluir qualquer ética e res- lhes agradam (mesmo que ultrapassados ou
peito pela fama alheia. Gera-se, assim, um até fictícios) e das pessoas mais aptas, segundo
dualismo perigoso, porque, nestas redes, eles, para comungar desse pseudocatolicismo.
dizem-se coisas que não seriam toleráveis Tudo e todos que não estão de acordo com
na vida pública e procura-se compensar sua visão de Igreja-seita devem ser excluídos.
as próprias insatisfações descarregando Tal exclusão, geralmente agressiva e violen-
furiosamente os desejos de vingança. É ta, é comunicada em rede como uma exco-
impressionante como, às vezes, preten- munhão (do latim excomunicatio) dos supostos
dendo defender outros mandamentos, “hereges”, ou seja, de todos aqueles que se
se ignora completamente o oitavo: “Não desviam desse imaginário eclesial distorcido.
levantar falsos testemunhos” e destrói-se Para isso, opera-se uma excomunicação, uma
sem piedade a imagem alheia. Nisto se comunicação de que a comunicação alheia
manifesta como a língua descontrolada “é (do papa, dos bispos, dos demais católicos)
um mundo de iniquidade; (…) e, inflamada deve cessar ou não deveria nem existir.Trata-
pelo Inferno, incendeia o curso da nossa -se de comunicação voltada ao silenciamento
existência” (Tg 3,6) (GE 115, grifo nosso). ou ao aniquilamento de outra comunicação,
para que o discurso próprio se torne único e
Trata-se de um reconhecimento crítico dominante (SBARDELOTTO, 2020).
de grande relevância e, ao mesmo tempo, Excomunicando seus próprios irmãos na
sem precedentes, ao explicitar o contrates- fé, tais católicos vão corroendo a comunhão
temunho e a antievangelização gerados pela eclesial. Na verdade, ao agirem comunica-
intolerância intracatólica. De acordo com o cionalmente como não cristãos, de forma
papa, com a difusão de tais atitudes, as redes antievangélica, são essas pessoas que se au-
sociais digitais frequentemente se tornam to-excluem da comunhão eclesial. Excomu-
“um lugar de inimizade, onde se litiga por nicando, excomungam-se.
todo lado, onde há ódio em toda parte, onde
constantemente classificamos os outros [...], 3. Concluindo para começar:
o reino do orgulho e da vaidade, onde cada a busca da “amizade social”
um se julga no direito de elevar-se acima e da “santidade digital”
dos outros” (GE 71). Tertuliano, escritor eclesiástico do pri-
Esse “inferno em rede” leva à propagação meiro século da Igreja, testemunhava que
de uma Igreja paralela digital, que não condiz os primeiros cristãos e cristãs viviam tão
nem com os tempos (para tais católicos, só vale concretamente o “novo mandamento” de
aquilo que veio antes do Concílio Vaticano Jesus em seu modo de vida e de relação, que
II) nem com os lugares (segundo tais grupos, os pagãos exclamavam, admirados: “Vejam
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“A PESSOA SANTA É AQUELA QUE AGE,
REAGE E INTERAGE EM REDE MOVIDA PELO AMOR”
como se amam!” Dois milênios depois, o que outro” (FT 277). “Isso implica o hábito de
é preciso fazer para que essa frase possa voltar reconhecer, ao outro, o direito de ser ele pró-
a ser dita também em relação ao modo como prio e de ser diferente” (FT 218, grifo nosso).
católicos e católicas se relacionam em rede? Comunicar, portanto, é harmonizar diferenças.
Como dar um testemunho semelhante na Uma comunicação harmoniosamente
cultura digital, em sentido contrário à into- amigável e dialogante consegue “criar aquela
lerância intracatólica e à antievangelização? convivência sadia que vence as incompreen-
O papa Francisco propõe algumas possíveis sões e evita os conflitos” e “abre caminhos
respostas, especialmente em dois de seus docu- onde a exasperação destrói todas as pontes”
mentos: na Fratelli Tutti, a proposta da amizade (FT 224). Para tanto, não são necessários “re-
e do diálogo sociais; já na Gaudete et Exsultate, cursos profissionais e midiáticos” (FT 216).
o chamado à santidade, também em rede. Trata-se de trabalho artesanal, praticado pelos
Para Francisco, a amizade social “não “artesãos de paz” (FT 225), cujo fruto é a
exclui ninguém” (FT 94) e está diretamen- “paz social” (FT 217).
te ligada àquilo que ele chama de “diálogo Tudo isso está ligado ao chamado à santi-
social”. “Para nos encontrar e ajudar mu- dade que o papa Francisco aprofunda em sua
tuamente, precisamos dialogar” (FT 198). O exortação apostólica Gaudete et Exsultate. Em
diálogo, contudo, não é sinônimo de “troca suas palavras,“a santidade nada mais não é do
febril de opiniões nas redes sociais”, geral- que a caridade plenamente vivida” (GE 21),
mente marcada por “tom alto e agressivo” também em rede. “Todos somos chamados a
(FT 200). Pelo contrário, o diálogo é uma ser santos, vivendo com amor e oferecendo o
opção comunicacional “entre a indiferen- próprio testemunho nas ocupações de cada dia,
ça egoísta e o protesto violento” e age “de onde cada um se encontra” (GE 14, grifo nosso).
forma discreta” (FT 198-199).Tem em vista Esse “onde” certamente envolve também o
o bem comum e o reconhecimento das “di- ambiente digital e as diversas presenças em rede.
versas riquezas culturais”, e não os “próprios Diante da intolerância intracatólica, a
interesses ideológicos” nem as próprias “con- “santidade digital” se expressa principalmente
veniências pessoais” (FT 199-202). como mansidão. Como resposta às contrarie-
Dialogar, portanto, pressupõe “a capacidade dades e agressões dos outros, o papa Francisco
de respeitar o ponto de vista do outro” e ainda convida a “permanecer centrado, firme em
de “entender o sentido daquilo que o outro Deus que ama e sustenta. [...] ‘Se Deus está
diz e faz, embora não se possa assumi-lo como por nós, quem pode estar contra nós?” (GE
uma convicção própria” (FT 203). Para isso, é 112). Essa firmeza interior “impede de nos dei-
preciso “cultivar a busca da verdade”, acima de xarmos arrastar pela violência que invade a vida
tudo a “verdade da dignidade humana” (FT social, porque a graça aplaca a vaidade e torna
207). Segundo Francisco, podemos aprender possível a mansidão do coração” (GE 116,
alguma coisa com todos e todas:“Ninguém é grifo nosso).Também em rede, “o santo não
inútil, ninguém é supérfluo” (FT 215). gasta suas energias a lamentar-se dos erros
A construção da “comunhão universal” alheios” e “evita a violência verbal que destrói
envolve uma comunicação universal, que bus- e maltrata” (GE 116).“Reagir com humilde
ca o “encontro com o mistério sagrado do mansidão: isto é santidade” (GE 74).
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Em suma, a pessoa santa é aquela que age, fortalecem, estimulam, em vez de palavras
reage e interage em rede movida pelo amor. que humilham, angustiam, irritam, despre-
Já disse Jesus: “Nisto todos conhecerão que zam” (FT 223).
sois meus discípulos: se vos amardes uns aos A amizade e o diálogo sociais, inspirados
outros” (Jo 13,35). Diante do aumento da na mansidão e no amor cristãos, favorecem
agressividade, Francisco também convida reconhecer, do outro lado da tela, “um ser
ao “cultivo da amabilidade”, que é “um humano com a mesma dignidade que eu, uma
estado de ânimo não áspero, rude, duro, criatura infinitamente amada pelo Pai, uma
mas benigno, suave, que sustenta e confor- imagem de Deus, um irmão redimido por Jesus
ta” (FT 223). Isso significa “dizer palavras Cristo. Isto é ser cristão!” (GE 98) – também
de incentivo, que reconfortam, consolam, e principalmente nas relações em rede.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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Strasbourg: Council of Europe, 2018. Disponível em: <https://bit.ly/2GMRrUE>. Acesso
em: 15 jan. 2021.
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Viver e testemunhar
Cristo e o seu Evangelho
no ambiente digital!
Coleção Ecclesia digitalis
Ecclesia é o termo grego que está na origem da palavra “Igreja” e significa “assembleia reunida”,
evocando a (re)união do povo chamado ou escolhido. Digitalis é o adjetivo relativo aos dedos e à
sequência numérica (dez dedos), adotado posteriormente para exprimir o código binário que originou
uma verdadeira revolução técnica e social, transformando a mentalidade, o estilo de vida e o modo
de fazer e pensar todas as coisas, inclusive o ser Igreja. Imersos nesse ambiente híbrido gerado pela
linguagem digital, é essencial delinear uma pastoral on-line que responda às exigências da nova
humanidade. A presente coleção nasce exatamente com esse intuito, procurando oferecer sugestões e
subsídios pastorais (especialmente no âmbito da Pastoral da Comunicação) que favoreçam a vivência
da fé e a adaptação da vida eclesial na cultura da comunicação e no ambiente digital. Ecclesia digitalis
surge para indicar percursos e para auxiliar a “assembleia reunida no ambiente digital” – em contínua
interação com a realidade material e analógica, e com a realidade virtual e interativa – a viver e
testemunhar Cristo e o seu Evangelho de forma sempre mais intensa e significativa.
ESPERANÇAR
A missão do agente
da Pastoral da Comunicação
O ano de 2020 foi um divisor de águas para a
humanidade, e mais ainda para a comunicação
eclesial e pastoral. De forma inesperada, foi
necessário reinventar as práticas comunicacionais
em todas as instâncias da Igreja para responder
aos desafios impostos pela pandemia do novo
coronavírus. Isso resultou em quarentena,
isolamento social, celebrações com participação
remota do povo, cancelamento de eventos.
Este livro é fruto de uma reflexão sobre a situação
dramática vivenciada por todos durante a pandemia.
Ele apresenta meios para discernir que “esperançar”,
isto é, ter e fomentar esperança, é missão de todo
cristão, mas é também, por excelência, a missão
do agente da Pastoral da Comunicação. O itinerário
da esperança que se propõe é descrito a partir da
dinâmica da “sede” e da “fonte”. Como ponto de
partida, a afirmação “Tenho sede” quer expressar a
necessidade humana de comunicar. E a declaração
“Tu és a Fonte” é a resposta para a sede de Deus.
O objetivo deste livro é dar impulso aos agentes
da Pastoral da Comunicação em sua vivência da
espiritualidade como base para sua atuação na Igreja.
COMUNICAR O EVANGELHO
Panorama histórico do magistério
da Igreja sobre a comunicação
Desde sua origem, a Igreja usou todos os meios
disponíveis para cumprir sua missão de comunicar
o Evangelho, de dar Jesus ao mundo. Os discípulos
aceitaram a missão e saíram mundo afora para
pregar, formando comunidades e comunicando-se
pelos diversos meios disponíveis naquela época.
Este livro trabalha com as grandes linhas temáticas
que orientaram o magistério da Igreja em relação
à comunicação, expondo comportamentos e
mentalidades que caracterizaram a ação pastoral
da Igreja no mundo da comunicação ao longo
de seus quase dois milênios de história. Para tal,
além de diversos elementos da práxis pastoral e
missionária, procura percorrer os documentos
mais significativos em diversos âmbitos e períodos,
sobretudo os documentos pontifícios. Por fim, você
encontrará ainda uma extensa lista de sugestões
de sites, livros e documentos com os quais
poderá aprofundar os assuntos que julgar mais
importantes e necessários para sua ação pastoral.
CATEQUESE DIGITAL
Por onde começar?
Este estudo é voltado aos catequistas e a todos
aqueles que fazem um trabalho heroico, tentando
educar na fé crianças, jovens e adultos neste tempo
tão singular. Para se relacionar com uma pessoa ou
mesmo evangelizá-la, é preciso antes conhecê-la.
Em nossa evangelização, queremos muito falar e
pouco escutar. Achamos que estamos prestando
um grande serviço a Deus quando despejamos
doutrinas e mandamentos em cima de um jovem.
Este livro é um convite a adentrar na cultura digital,
conhecê-la e experimentá-la, à luz dos sinais dos
tempos. Apresenta uma nova forma de refletir
sobre a fé nesta época marcada pelas redes,
chamada ciberteologia, demonstrando a evolução
do pensamento da Igreja sobre a comunicação
digital. Apresenta ainda as qualidades e os
defeitos que marcam a geração digital, além do
contexto multicultural em que está inserida, para
que ela seja mais bem compreendida, acolhida
e amada. Aborda também as novas dinâmicas
de pecado e graça na internet e como isso afeta
nossa espiritualidade, relações e vivência da fé.
Demonstra, por fim, a diferença entre “catequese
na era digital” e “catequese digital”.
paulus.com.br/loja
11 3789-4000 | 0800-0164011
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@editorapaulus
Marcus Tullius*
A ESPERANÇA COMO
PERSPECTIVA PASTORAL
PARA A COMUNICAÇÃO
Saiba mais
sobre o livro:
A pandemia deu visibilidade ao trabalho desenvolvido pela pastoral
da comunicação e à necessidade de tê-la articulada às realidades eclesiais.
O comunicador cristão, pela sua ação, torna-se um mantenedor
da esperança, especialmente diante de cenários de instabilidade.
*Marcus Tullius é licenciado em Filosofia, bacharel em Comunicação Social com habilitação em Publicidade e Propaganda, pós-graduando
em Influência Digital: Conteúdo e Estratégia. Coordenador geral da Pascom Brasil, membro do Grupo de Reflexão em Comunicação
da CNBB e coordenador de conteúdos da TV Pai Eterno. E-mail: [email protected]
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INTRODUÇÃO 1. Sobre nossa existência: diante do con-
A pandemia da Covid-19 escancarou as sumismo desenfreado, “a experiência do
mazelas de sociedades marcadas por chagas isolamento precisa abrir nossos olhos
as mais diversas e, em contrapartida, abriu para a existência daqueles que o supor-
oportunidades para a comunicação possi- tam na penúria e na pobreza” (idem,
bilitar a sobrevivência da humanidade em p. 23);
meio ao caos. A pastoral da comunicação 2. Sobre nossa condição humana: fomos
foi – e está sendo – heroica na missão de dominando a criação e, com isso, “nossa
promover a cultura do encontro e manter fragilidade estava esquecida; nossa preca-
acesa a chama da esperança, especialmente riedade, ocultada” (idem, p. 23);
nas estradas digitais. 3. Sobre nossa civilização: muitos já con-
O chamado e esperado “novo normal” vivem com essa realidade diariamente,
só será novo, de fato, se soubermos ressig- mas, para uma parcela, “as injunções do
nificar a prática pastoral à luz da Palavra isolamento reduziram nossas compras ao
de Deus, do magistério da Igreja e do olhar indispensável, mostrando-nos que muita
atento às realidades que nos cercam – off-line coisa supérflua nos parecia necessária”
e on-line. (idem, p. 28);
4. Sobre o despertar da solidariedade: mesmo
1. A PARTIR DE UMA PANDEMIA diante de catástrofes,“vimos a lição, ainda
Aprendemos, desde crianças, que de tudo que simbólica, da solidariedade nacional”
devemos tirar uma lição. Mesmo quando o (idem, p. 28);
caminho percorrido não é o que escolhe- 5. Sobre a desigualdade:“o isolamento serviu
mos, dali devemos extrair ensinamentos e sair de lente de aumento para as desigualdades
melhor como humanidade. A pandemia está sociais” (idem, p. 29).
durando mais tempo do que o esperado e, Com base nesse recorte da realidade, po-
talvez, ainda será insuficiente para nos fazer demos recolher alguns elementos que nos
mudar de vida. Não é possível que tantas ajudarão a refletir sobre a importância da
vidas perdidas, tantos erros cometidos, não comunicação e sua perspectiva pastoral.
nos façam olhar o mundo de uma maneira
diferente. Em face disso, perguntamos: que 2. SEDE DE ESPERANÇA
lições podemos tirar da pandemia para a Sempre fomos acostumados a contem-
vida e para a comunicação? plar a sede como privação, como algo ne-
O centenário filósofo francês Edgar Mo- gativo e, por vezes, até como um castigo.
rin recorda que houve muitas pandemias na Em situações de elevada temperatura, em
história, mas a novidade radical da Covid-19 regiões de duras secas, não há nada mais
está no fato de dar origem a uma “megacrise reconfortador do que receber um copo
feita da combinação de crises políticas, eco- de água fresca; não há nada mais salvador
nômicas, sociais, ecológicas, nacionais, pla- do que saciar a necessidade fisiológica do
netárias, que se sustentam mutuamente com organismo. Não é dessa sede, porém, que
componentes, interações e indeterminações quero tratar no início deste texto. Chamo a
múltiplas e interligadas, ou seja, complexas” atenção para a sede de esperança, aquela que
(MORIN, 2020, p. 21). Das 15 lições elen- deve habitar o mais profundo do coração
cadas por Morin nessa obra, pelo menos humano e nunca pode faltar ao comunica-
cinco dizem muito da nossa forma de olhar dor. A sede que a pandemia também veio
o mundo enquanto sujeitos eclesiais: intensificar no coração humano.
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“PARA VIVER A ESPIRITUALIDADE,
É PRECISO TER SEDE. O AGENTE DA PASTORAL
DA COMUNICAÇÃO DEVE TER A CONSCIÊNCIA
DA NECESSIDADE DE INTIMIDADE COM DEUS”
O comunicador deve viver com sede, nossa busca (TOLENTINO, 2018). A sede
para sempre ter o desejo de se saciar. Ele é plena de esperança. Já que “a esperança
deve dizer com o salmista, no Salmo 62,2: não decepciona” (Rm 5,5), ela pode dar
“Ó Deus, tu és o meu Deus, ansiosamente sentido à sede. Só a esperança pode dar
te procuro. Minha alma tem sede de ti. Por sentido à sede e nos inserir na dinâmica
ti desfalece a minha carne, como terra seca própria do Espírito!
e exausta, sem água”. A imagem da secura
do deserto estimula a pensar que sem Deus 3. NÃO HÁ COMUNICAÇÃO REAL
não existe a verdadeira vida; que sem Deus SEM A PRESENÇA DO ESPÍRITO
não se comunica a verdadeira vida. Assim Muitas pessoas e grupos começam suas
como Davi, que deseja uma experiência mais atividades eclesiais no fazer. Na cultura
profunda com Deus, quem se propõe comu- popular, encontramos o ditado que diz
nicar deve ter esse mesmo ideal. Avançando que a necessidade faz o sapo pular. De
no referido salmo, no versículo 5, temos a fato, a pandemia fez diversas comunidades
seguinte proclamação:“Sim, vou te bendizer eclesiais sentir a necessidade da pastoral da
enquanto eu viver e, em teu nome, levantarei comunicação. Grande número de pessoas,
as mãos”. É a alegria daquele que conhece até de maneira improvisada, começou a
a Deus e o louva pela vida toda. É o louvor fazer transmissões de missas, criar posts
do sedento! para as mídias sociais e se envolver nas
Comunicar é uma necessidade humana. circunstâncias impostas pela pandemia.
Por meio de diversos sinais – sons, imagens, Que proveito, porém, podemos extrair
textos, gestos, silêncio e outros mais –, o ser dessa situação? Não podemos ficar eter-
humano delimita seu ser-estar no mundo. namente no improviso e no amadorismo
Qual sede deve ter o comunicador? Antes e absortos na lógica do fazer. É aqui que
da sede de comunicar, da ânsia de produzir surge um alerta!
e transmitir, ele deve ter sede de Deus, sede Na pressa do fazer e na ânsia de pro-
de rezar, sede de se formar, sede de servir, duzir, há o risco de negligenciar a dimen-
sede de saciar, sede da sede. são espiritual, ainda mais necessária aos
Sobre a sede e a fonte que a sacia, re- nossos dias. As atuais Diretrizes Gerais da
flito um pouco mais no livro Esperançar: a Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil sus-
missão do agente da pastoral da comunicação, tentam que é preciso superar a ideia de
publicado pela Editora Paulus na coleção que o fazer já é uma forma de oração.
Ecclesia Digitalis. Ali, discorro sobre minha Esse é um desafio a ser vencido por to-
experiência pessoal com a leitura e as pre- das as pastorais e movimentos, mas mais
gações do cardeal José Tolentino Mendonça, particularmente pela pastoral da comuni-
arquivista e bibliotecário da Santa Sé, em O cação, ante os perigos do encantamento
elogio da sede. O cardeal madeirense afirma com a técnica, com as plataformas e com
que a fé não resolve nossa sede, mas dila- as múltiplas possibilidades oferecidas pela
ta nosso desejo de Deus, para intensificar comunicação digital. Esse fascínio pode
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levar facilmente à tentação do ativismo.
O problema, apontam as Diretrizes, é que Idolatria do dinheiro
“os agentes de pastoral correm o risco de
se esquecer da dignidade batismal, como e Direitos Humanos
verdadeiros sujeitos eclesiais, reduzindo-se Uma crítica teológica do novo mito
a meros voluntários” (CNBB, 2019, p. 55). do capitalismo
É sempre necessário recordar que so- Jung Mo Sung
mos discípulos-missionários, não apenas
operadores de máquinas. Para operar um
equipamento, tirar uma foto, fazer uma live,
escrever um texto... enfim, para realizar
qualquer atividade comunicativa, é preciso
estar imbuído do Espírito, a fim de que a
ação leve a um testemunho. O Diretório de
Comunicação da Igreja no Brasil afirma que
“o anúncio sempre deve ser acompanhado
pelo testemunho” (CNBB, 2014, p. 161).
Ora, o testemunho que o comunicador
deve oferecer à sua comunidade parte de
Imagens meramente ilustrativas.
um encontro pessoal com a Pessoa de Jesus
Cristo, encontro renovado diariamente no
exercício de seu ministério.
Não é à toa que a espiritualidade é um
256 págs.
dos eixos da pastoral da comunicação. Ela
dá sentido aos demais (formação, produção
e articulação), constitui o alicerce (CNBB,
O livro traz uma análise do presente
2014, p. 164). Para viver a espiritualidade, sob o aspecto da economia
é preciso ter sede. O agente da pastoral da neoliberal, mas, ao mesmo tempo,
comunicação deve ter a consciência da ne- sendo o autor teólogo, toda a
cessidade de intimidade com Deus, de um análise é norteada pelo pensamento
encontro pessoal com o Criador, para criar teológico, sob o prisma da chamada
raízes “na verdadeira e inesgotável fonte teologia da libertação. O autor
mostra que, com a idolatria do
de onde emana o sentido profundo dessa dinheiro, milhões de pessoas são
mensagem comunicativa”. A comunicação, deixadas à margem da cidadania,
portanto, torna-se experiência de graça, por- levadas à exclusão social dos que
que “o ser humano tem a possibilidade de não têm emprego. Diante desse
fazer certa experiência do Absoluto que o cenário, a obra aponta a importância
transcende” (CNBB, 2014, p. 45) de que a Igreja seja “pobre e
para os pobres”.
4. “QUEM COMUNICA SE FAZ PRÓXIMO”
Um dos grandes desafios impostos pela
Vendas: (11) 3789-4000
pandemia foi o isolamento social. Espe- 0800-0164011
cialmente aqui no Brasil, com uma cultura
marcada por abraços e apertos de mão, por paulus.com.br
aglomerações tão naturais nos encontros
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familiares, nas festas, nas igrejas. O isolamen- por trás de máquinas. Cabe compreender
to, à primeira vista, é o calcanhar de aquiles que a proximidade deve ter lugar mesmo
da proximidade. Será que, depois desse tempo quando a distância geográfica é evidente. Na
de privação, olharemos para o conceito de Palavra de Deus, fonte da comunicação e do
proximidade da mesma forma? Nossas co- comunicador, constatamos que as comuni-
munidades físicas, com a presença corpórea dades cristãs conseguiam viver a proximida-
das pessoas, terão a mesma dinâmica pastoral? de. Não obstante a distância geográfica, elas
Nossa comunidade presencial terá a mesma não estavam isoladas. Darlei Zanon aponta
intensidade que a overdose de eventos e ce- alguns laços que contribuem para manter
lebrações realizados de forma digital? as comunidades ligadas: “evangelização, so-
Na mensagem para o 48º Dia Mundial lidariedade, formação, trabalho, ajuda etc.”
das Comunicações Sociais, em 2014 – a (ZANON, 2018, p. 83).
primeira escrita por Francisco no seu pon- A fim de compreender melhor o hoje
tificado, visto que a anterior fora elaborada e o amanhã, precisamos ter a ousadia de
pelo papa emérito Bento XVI –, já lançava olhar para o ontem, para as primeiras co-
luzes para encarar essa realidade: “como se munidades, e encontrar nelas o impulso e o
manifesta a ‘proximidade’ no uso dos meios ardor missionário para viver a proximidade.
de comunicação e no novo ambiente criado Além disso, cabe-nos perceber algo muito
pelas tecnologias digitais?” (PAPA FRAN- simples: elas não contavam com o aparato
CISCO, 2014). que possuímos atualmente, mas deixavam-se
Sempre que releio tal mensagem, essa per- possuir pela Palavra.
gunta me provoca e me desloca. Primeira-
mente, pela perspectiva que Francisco lança, 5. COMUNHÃO E PARTICIPAÇÃO PARA
com base na parábola do samaritano, para MANTER A ESPERANÇA
uma comunicação eficaz ao nosso tempo: Talvez alguns cheguem a este ponto da
“Quem comunica se faz próximo”. Ainda leitura cansados de ouvir/ler sobre esperança.
gastaremos muitos caracteres e muitas lives Ela deve ter sido uma das palavras positivas
para compreender a profundidade dessa sim- mais ditas e escritas durante a pandemia.
ples frase. Em segundo lugar, pela inversão Crentes e não crentes usaram-na sem mo-
da lógica, proposta por Jesus e evocada por deração. Ela foi, e continuará a ser, conforto
Francisco: “Não se trata de reconhecer o para os desanimados. No livro de minha
outro como um meu semelhante, mas da autoria indicado neste artigo, dedico um
minha capacidade para me fazer semelhante capítulo aos mantenedores da esperança. Tal-
ao outro”. vez tenha sido uma forma de homenagear
Chamo a atenção para o desafio da pro- os homens e mulheres dispostos a viver de
ximidade em tempos digitais, quando cor- esperança. Basta olharmos para uma vela e
remos o risco de nos tornarmos máquinas encontraremos o sentido. Quem vive sem
“NA PALAVRA DE DEUS, FONTE DA
COMUNICAÇÃO E DO COMUNICADOR,
CONSTATAMOS QUE AS COMUNIDADES CRISTÃS
CONSEGUIAM VIVER A PROXIMIDADE”
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esperança vai cruzar os braços e deixar que
ela se apague. Já o mantenedor é alguém
que está encantado com a vida, que não vai Missão para todos
medir esforços, que fará todo o possível (e Introdução à missiologia
o impossível também) na luta por mantê-la Pe. João Panazzolo
acesa.Vejo os agentes da pastoral da comu-
nicação como mantenedores da esperança,
pois, mesmo quando a chama parece se esvair,
eles estão ali.
Sobre isso, é oportuno lembrar que a pas-
toral da comunicação não pode ser reduzida
aos meios de comunicação. Novamente, à luz
do Diretório de Comunicação, compreendemos
que “ela é um elemento articulador da vida
e das relações comunitárias. Ela favorece o
cultivo do ser humano enquanto pessoa que
comunica valores, vivenciados a partir da
Imagens meramente ilustrativas.
Palavra de Deus e da Eucaristia” (CNBB,
2014, p. 161).
O dístico “comunhão e participação”, eco
312 págs.
da 3ª Conferência Geral do Episcopado La- CONFIRA
VERSÃO
tino-Americano e Caribenho, realizada em E-BOOK
Puebla no ano de 1979, apresenta as duas
âncoras presentes no exercício de comuni- A missiologia, elaboração
car. Comunhão, por uma razão não somente sistemática da missão, é ainda
etimológica, mas de natureza, e participação, jovem. O livro apresenta uma
não apenas por retórica, mas por necessidade. introdução a esses dois aspectos
Embora tenham se passado 40 anos da essenciais na vida da Igreja:
Conferência de Puebla, ainda seguimos bus- missão e missiologia. Apresenta
cando comunhão e participação – em outros também uma breve visão dos
principais documentos pontifícios
meios, mas rumo ao mesmo fim. Neste tem-
missionários. O livro pretende
po hiperconectado, é preciso tomar cons- ajudar os leitores a conhecer
ciência dos riscos de fazer uma comunicação a caminhada da organização
para privilegiados, apenas para os que têm missionária da Igreja. Nessa nova
acesso às tecnologias, e considerar que se edição revista e ampliada, o autor
esteja comunicando de maneira democrática. acrescenta a novidade missionária
Ledo engano! O papa Francisco continua- revelada a partir do Documento de
mente nos chama a atenção para a reali- Aparecida e do pontificado
dade das periferias, não apenas geográficas, de Francisco.
mas também existenciais. Pode ser que haja
muitas delas (quase invisíveis como o vírus)
Vendas: (11) 3789-4000
no território de sua comunidade eclesial. A 0800-0164011
comunicação é poderoso instrumento para
gerar comunhão e garantir a participação paulus.com.br
de todos nos meios e processos.
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“O AGENTE DA PASTORAL DA COMUNICAÇÃO, NO ATO DE ESPERANÇAR,
DEVE SER UM ALIMENTADOR DE GESTOS DE SOLIDARIEDADE
E PARTILHA EXISTENTES EM SUA REALIDADE ECLESIAL”
6. PISTAS PARA UMA PASTORAL da transversalidade. Essa característica deve
DA PROXIMIDADE E DA ESPERANÇA ser muito bem assimilada pelos agentes,
Diante da reflexão apresentada, proponho pois a pastoral da comunicação não encerra
algumas pistas para a vivência da pastoral da em si suas atividades; ela é a pastoral do
comunicação. serviço, existe para as demais atividades
• Buscar intimidade com a Palavra de Deus. evangelizadoras.
Com base na consciência do discipulado • Valorizar gestos de solidariedade e partilha.
e da missão, o comunicador cristão deve- O agente da pastoral da comunicação, no ato
rá ser um mistagogo, deixando-se renovar de esperançar, deve ser um alimentador de
continuamente pelo Espírito em busca da gestos de solidariedade e partilha existentes
verdadeira intimidade com Deus. Há que em sua realidade eclesial. Para tanto, deve
ter cuidado para não ser algo puramente apoiar ações caritativas promovidas pelas pas-
intimista, fugindo da dimensão comunitária, torais sociais, conferindo ampla visibilidade
ou algo superficial.A intimidade alimenta-se ao exercício do Evangelho.
no encontro contínuo com a Palavra e com
a Eucaristia.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
• Reencantar-se pela escuta e pelo outro.
Atualmente, a dimensão mais perdida (e, ao CONFERÊNCIA NACIONAL DOS BISPOS
mesmo tempo, mais essencial) da comuni- DO BRASIL (CNBB). Diretório de Comuni-
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Com isso, o outro vai sendo apequenado e
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reduzido a mais um. Na pastoral vivida no
2019.
ambiente digital, também é preciso abrir-se
à realidade da escuta. Mais do que oferecer MENDONÇA, José Tolentino. Elogio da sede.
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oferecer ouvidos atentos, capazes de discernir MORIN, Edgar. É hora de mudarmos de via: li-
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versal. À medida que os eixos da pastoral PAPA FRANCISCO. Mensagem para o 48º
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produção e espiritualidade) são vividos 2014. Disponível em: <http://www.vati-
de maneira harmônica, dão sustentação can.va/content/francesco/pt/messages/
às demais ações da comunidade, paró- communications/documents/papa-fran-
quia ou diocese. Perceber a integração e cesco_20140124_messaggio-comunicazio-
interligação dos eixos ajuda a promover ni-sociali.html>. Acesso em: 17 jan. 2021.
uma pastoral mais fortalecida e também ZANON, Darlei. Igreja e sociedade em rede: im-
colabora, de maneira mais efetiva, para a pactos para uma cibereclesiologia. São Paulo:
pastoral orgânica, mediante a característica Paulus, 2018.
38 vidapastoral.com.br • ano 62 • n o 340
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ROTEIROS HOMILÉTICOS
Marcus Mareano*
SOLENIDADE DE SÃO PEDRO Boa-nova (Mc 1,16-20). Ele acompanha Je-
E SÃO PAULO sus, conhece-o mais profundamente, apren-
4 de julho de seus ensinamentos e é constituído como
uma “pedra”, isto é, como uma rocha, para
A Igreja se constitui confirmar os irmãos na fé (Mt 16,18). No
a partir das pessoas entanto, não esconde sua fragilidade, ao ne-
gar Jesus diante das ameaças (Mc 14,66-72).
I. INTRODUÇÃO GERAL Cada qual, por seu próprio caminho e
Celebrar a memória dos discípulos é com sua história particular, é chamado igual-
recordar sua caminhada de fé e pensar no mente ao seguimento de Jesus. As diferenças
nosso processo de seguimento de Jesus. Os não nos fazem divergentes ou excluden-
dois principais apóstolos da comunidade tes, mas colaboram para nos completarmos
primitiva são recordados em uma soleni- mutuamente e nos enriquecermos com os
dade que nos convida ao compromisso de dons uns dos outros. Celebrar a solenidade
fé e à missão. deste domingo nos insere na dinâmica do
Paulo se dedicou à missão entre os pa- discipulado, tal como vivida por esses dois
gãos. Não conviveu com Jesus terreno nem corifeus da nossa fé.
fez parte dos primeiros seguidores da Ga-
lileia. Sua experiência de encontro com II. COMENTÁRIO DOS TEXTOS BÍBLICOS
Cristo aconteceu no caminho de Damasco, 1. I leitura (At 12,1-11)
conforme lemos em At 9,1-22. Paulo deixa A primeira leitura destaca o personagem
de ser um perseguidor dos cristãos para Pedro. A narrativa apresenta uma descrição
se tornar um proclamador do Evangelho, de como viviam os primeiros cristãos logo
provado nas tribulações decorrentes dessa após a ressurreição de Jesus. Os chefes do
causa e martirizado por testemunhar a fé poder religioso e político daquele tempo
em Jesus até o fim da vida. se incomodavam com o grupo que estava
Simão foi convidado para compor o gru- surgindo. A fim de paralisar o movimento
po dos primeiros discípulos. Acostumado criado por Jesus, dever-se-ia eliminar seus
com o ofício de pescador no mar da Gali- seguidores. Não se sabia do que eram ca-
leia, encanta-se com a pregação do andarilho pazes e que ameaças causariam, por isso a
galileu que por ali passava, anunciando uma perseguição.
*Pe. Marcus Mareano é bacharel em Filosofia pela Universidade Estadual do Ceará (Uece). Bacharel e mestre em Teologia pela Faculdade Jesuíta
de Filosofia e Teologia (Faje). Doutor em Teologia Bíblica, com dupla diplomação, pela Faje e pela Universidade Católica de Lovaina, na Bélgica
(KU Leuven). Professor adjunto de Teologia na PUC-MG, também colabora com disciplinas isoladas em diferentes seminários. Desde 2018, é
administrador paroquial da Paróquia São João Bosco, em Belo Horizonte-MG. E-mail: [email protected]
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O trecho se inicia com a menção ao (2Tm 4,7; 1Tm 6,12), devido ao desfecho de
martírio de Tiago, irmão de João (At 12,2), uma vida oferecida em prol da evangeliza-
morto pela espada. Em seguida, Herodes, ção. Por conseguinte, espera-se um “prêmio”,
vendo que a atitude agradava aos judeus, uma coroa, como a que os competidores
mandou prender Pedro para apresentá-lo ganhavam (2Tm 4,8). No entanto, o galardão
na Páscoa judaica, semelhantemente ao que não é material nem passageiro, mas espiritual
aconteceu com Jesus (Mc 15,1-15). e eterno, que se recebe de Cristo.
Lucas, o autor dos Atos dos Apóstolos, A segunda parte da passagem demonstra o
enfatiza a oração (At 12,5), por cuja força reconhecimento do auxílio divino em meio
Pedro se livra da prisão. A oração da comu- às intempéries da vida cristã. O Senhor veio
nidade é respondida com a intervenção de em auxílio de Paulo e lhe deu força para que
um anjo, mensageiro de Deus, que anuncia: a proclamação da salvação fosse ouvida por
“Levanta-te depressa” (At 12,7). A oração todas as nações. Da mesma forma, livrará o
encontra resposta prática na libertação de apóstolo dos que lhe queriam mal. A Deus, a
Pedro, como muitas vezes experimentamos glória eternamente, pois continua a nos livrar
quando pedimos e ou agradecemos a Deus. dos males e a nos salvar em sua misericórdia.
Ao final do evento, Pedro reconhece O texto nos faz imaginar o fim de vida
que aquele era um enviado de Deus e que de um discípulo de Jesus. Não se olha tanto
este agiu para livrá-lo de Herodes. Deus é para as provas passadas, mas para a presença
o libertador de Israel (Ex 18,10; Dn 3,95). do Senhor em meio a todas elas. E, ainda,
Quando olhamos um evento passado, per- sente-se a reverência a essa ação divina.Assim,
cebemos, mais e melhor, a ação misteriosa observamos o quanto vale a pena seguir Jesus.
e silenciosa de Deus. No afã de resolver Não somente por um “prêmio” prometi-
uma situação ou de nos livrar de um pro- do, mas sobretudo por um amor constante,
blema, muitas vezes não sentimos de pronto que se experimenta na realidade vivida. Que
a presença amorosa de Deus, que sempre tenhamos esses sentimentos de gratidão e
permanece conosco. reconhecimento da ação de Deus.
As cadeias podem ser superadas quando
a oração em comum ganha força e se torna 3. Evangelho (Mt 16,13-19)
vida. Não é um ato mágico que se faz para O episódio do Evangelho do dia tem
obter resultados imediatos. A oração nos como centro a fé dos discípulos em Jesus.
transforma e nos compromete a atuar de Contudo, Simão se torna o porta-voz do
uma maneira melhor. Deus age por meio de grupo na confissão de fé. Por conseguinte,
cada um que abre o interior para a realização Jesus designa-lhe uma missão, confere-lhe
de suas maravilhas. nova identidade.
A questão proposta por Jesus em Mt
2. II leitura (2Tm 4,6-8.17-18) 16,13-19 é fundamental para a compreensão
A segunda leitura enfatiza a figura de da sua identidade. Os discípulos caminhavam
Paulo. A passagem se assemelha a um testa- com ele e, apesar do entusiasmo, ainda não
mento espiritual. Embora a autoria não seja sabiam tão bem quem ele era nem tinham
do próprio apóstolo, o texto carrega suas certeza da sua missão como Messias.
características e seu ambiente de formação. O destino final da viagem é Jerusalém
Primeiramente, lemos a imagem do sa- (onde será crucificado e ressuscitará), mas
crifício (2Tm 4,6; Hb 10,10) e, em seguida, no caminho, passando pela região de Ce-
os temas da luta e da competição esportiva sareia de Filipe, Jesus os interpela: “Quem
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dizem os homens ser o Filho do Homem?”
(Mt 16,13). A questão era a percepção que
os outros tinham de Jesus, qual ideia so- O amor de Deus
bre ele circulava entre as pessoas, o que Teologia da Redenção
achavam de tudo que era feito e dito. Os Valeriano Santos da Costa
discípulos respondem: “Alguns dizem que
é João Batista; outros, que é Jeremias ou
um dos profetas” (Mt 16,14). A multi-
dão percebia que Jesus falava em nome
de Deus, como um profeta, como alguém
da parte de Deus, mas não reconhecia sua
identidade mais profunda.
A seguir, o questionamento se transfere
diretamente aos discípulos:“E vós, quem di-
zeis que eu sou?” (Mt 16,15). Aquele grupo
já tinha uma caminhada com Jesus, conhecia-
-o mais do que a multidão e podia afirmar
algo mais do que aquelas pessoas empolgadas,
por isso Simão Pedro, como porta-voz dos
Imagens meramente ilustrativas.
outros, diz: “Tu és o Messias, o Filho do
Deus vivo” (Mt 16,16). Eles reconhecem
96 págs.
em Jesus o esperado pelo povo de Israel, um
revolucionário, alguém que fosse libertar os
judeus da dominação romana.
A resposta acertada causa admiração em
Jesus. Pedro é bem-aventurado por reconhe- Esse livro faz teologia pelo viés
cer algo tão valioso para o novo seguimento da redenção, por meio de um
em que o grupo se empenhava. No entanto, ensaio sobre o amor de Deus em
esse entendimento tem origem em Deus, sua estrutura trinitária criadora e
não é esforço da inteligência humana, não em sua relação com as criaturas,
foram a carne e o sangue que revelaram isso que representam a vida que
a Pedro (Mt 16,17). pulsa no mundo. Para isso, usa o
método antropológico, partindo
Por conseguinte, Jesus confere nova iden-
do sentimento – realidade
tidade àquele companheiro. Pedro é desig- estritamente humana –, para
nado como pedra, rocha, representando o chegar a Deus, em sua realidade
compromisso de manter-se firme e con- trinitária de amor absoluto, que
firmar os outros do grupo na fé professada. transborda criando todas as
Para isso, Pedro recebe as chaves (Is 22,22) realidades cósmicas existentes.
do Reino dos céus e o poder de ligar e
desligar as coisas dos céus e da terra (Mt
16,19). A referência quer explicitar a missão
Vendas: (11) 3789-4000
da Igreja de refletir o mistério do Reino 0800-0164011
anunciado por Cristo. O que for de acordo
com o que está no céu deve ser também na paulus.com.br
terra e vice-versa.
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III. PISTAS PARA REFLEXÃO No entanto, a missão não consiste apenas
A Igreja se constituiu a partir daqueles pri- em uma ação ou na dedicação momentâ-
meiros discípulos e foi se ampliando pelos sé- nea a uma atividade. Ela é o estado comum
culos até nossos tempos.Atualmente, formamos do ser cristão. Por nossa fé, tornamo-nos
a comunidade que segue o caminho de/com missionários de Cristo. Recusar-nos a viver
Jesus e ouve a Palavra de Deus com a mesma essa dimensão da fé é desconsiderar o efeito
indagação: “O que você diz que eu sou?” batismal na pessoa humana.
Unidos aos apóstolos Pedro e Paulo e à O profeta Amós experimenta quanto a
Tradição eclesial, renovamos nossa profissão força para profetizar é mais potente do que
de fé em Jesus. Ao reconhecermos quem ele a recusa, a expulsão do templo ou qualquer
é, ouvimos também quem somos para ele, adversidade. A carta aos Efésios fala dessa
nossa importância para a edificação da Igreja, palavra como selada pelo Espírito Santo em
sacramento do Reino de Deus no mundo. nosso coração. No Evangelho, Jesus envia os
Por causa desta solenidade, recordamos discípulos dois a dois, com recomendações
hoje o “dia do papa”. Quando iniciou seu para seguirem adiante e levarem a Boa-nova
pontificado, em um gesto memorável, o papa a muitas pessoas. Comprometamo-nos com
Francisco pediu que todos rezassem por ele. o que celebramos, tornemos nossa vida uma
A oração nos une em um mistério de co- missão!
munhão de amor com Deus e uns com os
outros. Assim, formamos a Igreja que segue II. COMENTÁRIO DOS TEXTOS BÍBLICOS
a Jesus, professa a fé e se mantém em oração 1. I leitura (Am 7,12-15)
e comunhão até a plenitude do Reino. O profeta Amós se apresenta como um
cuidador de gado (Am 1,1; 7,14) que atua
15° DOMINGO DO TEMPO COMUM no Reino do Norte, no período anterior à
11 de julho dominação dos assírios (722 a.C.). Então,
Israel vivia um tempo de sossego, mas já
Chamados e enviados sentia as ameaças da dominação estrangeira.
para a missão O texto da leitura narra a expulsão de
Amós por Amasias, sacerdote de Betel, por-
I. INTRODUÇÃO GERAL que as palavras do profeta incomodam o rei
O Tempo Comum é caracterizado como Jeroboão (Am 7,10). Amós não falava para
um tempo para o amadurecimento da graça agradar aos reis e sacerdotes, classes privile-
batismal. Celebram-se os ensinamentos de giadas daquela sociedade, mas, fiel à palavra
Jesus, sua existência entre as pessoas e sua do Senhor, denunciava os desmandos da elite.
missão realizada no mundo por amor a Deus A verdadeira profecia consiste em falar em
e à humanidade. nome de Deus, e dessa maneira Amós agia.
Este domingo constitui um chamado e Por esse motivo, Amasias quer Amós em
um envio para participar efetivamente da Judá, distante dele e do seu templo. Betel
vida de Cristo. Pelo batismo, somos inseridos era um santuário edificado para o rei, e o
no mistério da vida, paixão, morte e ressur- sacerdote estava a seu serviço. Jeroboão o
reição de Jesus. Esse mistério não pode ser construíra para se opor aos privilégios de
guardado, como um tesouro a esconder. Ao Jerusalém, o templo do Reino do Sul (1Rs
contrário, deve ser compartilhado, proclama- 12,26-33). Portanto,Amós era rejeitado pelo
do, acreditado e celebrado.Todos os batizados rei e pelo sacerdote por sua fidelidade ao
são chamados e enviados em missão. Senhor.
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Entretanto, ele reage à expulsão de Ama- Essa leitura apresenta o efeito da pre-
sias, lembrando sua vocação para profeti- gação da Palavra de Deus na vida de uma
zar. Recorda que não era profeta nem filho pessoa. Olhando nossa história de fé em
de profeta, não pertencia a um grupo que Cristo, como ouvintes de sua Palavra, pode-
exercia essa atividade em Israel. O Senhor mos perceber a realização do que lemos. Da
o elegeu para profetizar no meio do povo, mesma maneira, contemplamos esses efeitos
e a isso ele obedeceu. em outras pessoas e situações transformadas
A missão de todos nós assume semelhan- pela força do Evangelho.
ças com a de Amós. Somos escolhidos em
meio às nossas tarefas ordinárias, enfrentamos 3. Evangelho (Mc 6,7-13)
adversidades em relação a pessoas e situações O Evangelho desta liturgia traz o envio
e somos fortalecidos pelo Senhor para con- dos discípulos para irem dois a dois, con-
tinuarmos nossa vocação específica. Deus, forme o costume judaico repetido pelos pa-
que nos chama, capacita-nos para seguir gãos (Lc 7,88; Jo 1,37). Um apoia o outro,
adiante. A palavra do Senhor nos é dirigida e todos se comprometem com o anúncio e
constantemente para transmiti-la com alegria a prática da mensagem de Jesus: “O Reino
aos demais. Somos profetas do Senhor no de Deus está próximo, convertei-vos e crede
mundo contemporâneo. no Evangelho” (Mc 1,15).
Para a missão, não bastam discursos, ser-
2. II leitura (Ef 1,13-14) mões e pregações. Atos comunicam mais
A carta aos Efésios, que acompanharemos do que palavras. Por isso, Jesus dá aos seus
nos próximos domingos na liturgia domini- enviados poder sobre os espíritos imundos (v.
cal, foi dirigida aos cristãos da Ásia Menor 7), pois portam consigo a presença divina, o
(hoje Turquia), província romana cuja capital Espírito Santo, que repele o mal e torna pos-
era Éfeso, cidade de forte cultura helenista. sível a comunhão do ser humano com Deus.
O trecho da segunda leitura é a parte O missionário não transmite nada de si, mas
final de um hino de louvor a Deus (Ef 1,3- de Deus, que o inspira para aquela ação.
14). Ele possui características das orações Jesus faz algumas recomendações práticas,
de bênção usadas na liturgia judaica (2Cor próprias para aquele tempo. Não permite
1,3; 1Pd 1,3). Deus é o sujeito dos verbos que eles levem algo pelo caminho, a não ser
e age em Cristo. O autor recorda a eleição um bastão para apoio na caminhada e para
(v. 4-5), a libertação (v. 6-7), a recapitulação espantar animais nas estradas. Não podem
(v. 8-10), a herança prometida (v. 11-12) ter comida, nem bolsa, nem dinheiro, pois o
e, finalmente, os dons do Espírito Santo objetivo é caminhar e percorrer os lugares
(v. 13-14). recônditos das redondezas da Galileia. Para
Os efésios são exortados a recordar a isso, ajuda um par de sandálias e uma túnica
Palavra de Deus ouvida (palavra da verdade, (duas atrapalham o missionário). O interesse
o Evangelho da vossa salvação – v. 13). Essa da narrativa é demonstrar a dinâmica itine-
mensagem acolhida e acreditada é selada, rante do missionário, que deve estar inquieto
como com um sinete (2Cor 1,22), pelo para transmitir o Evangelho.
Espírito Santo. Ela é a garantia de uma Quando chegar a uma casa e for acolhi-
herança incomensurável, eterna e prome- do, ali deve permanecer. Se não encontrar
tida, já experimentada por meio da fé. A acolhida nem quiserem ouvir sua mensagem,
passagem se conclui com uma doxologia, deve seguir adiante, sacudindo a poeira dos
completando o hino. pés contra aquela rejeição (v. 10-11).
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Por fim, o conteúdo do anúncio dos na saída de uma existência em torno de si
discípulos deve ser o mesmo do de Jesus: a mesmo para uma vida oferecida, doada e
conversão por causa do Reino de Deus (v. significada na alteridade.
15). Ademais, os que continuam a missão de Sejamos corajosos em responder ao Se-
Jesus assumem seu jeito de ser. Desse modo, nhor. Ele conta conosco! Recebemos seu
tornam Deus presente por meio das suas Espírito Santo para agir conforme Jesus
ações (expulsando os demônios e curando Cristo e torná-lo presente no mundo. Saia-
os enfermos – v. 13). mos para evangelizar e, quando necessário,
O envio e as instruções do Evangelho usemos as palavras.
proclamado continuam a valer para nossos
tempos. As condições para a missão e o con- 16° DOMINGO DO TEMPO COMUM
texto sociocultural são diferentes, porém a 18 de julho
recomendação da primazia da Palavra de
Deus e as atitudes que acompanham a pre- A compaixão
gação servem de princípios para todas as pelas ovelhas sem pastor
atividades missionárias.
I. INTRODUÇÃO GERAL
III. PISTAS PARA REFLEXÃO Contemplamos, nas Escrituras, a vida
Qual apelo de Deus você sente em seu humana de Jesus, que teve um corpo, criou
interior? Essa questão permanece em cada relações, agiu como humano e manifes-
Eucaristia, especialmente, com base nas lei- tou a presença de Deus em sua existência.
turas deste dia. Cada pessoa experimenta de Aprendemos a viver conforme sua vida,
maneira particular o chamado de Deus e o seguindo seus passos e praticando seus
envio em missão. ensinamentos.
No imaginário de muitas pessoas, a mis- A liturgia deste domingo nos põe frente
são é concebida como ida a um lugar para a frente com a compaixão que Jesus expe-
visitas e partilha da Palavra de Deus. Ela, na rimentava pela multidão que o seguia. As
verdade, constitui o ser cristão no mundo. necessidades eram numerosas e de diferentes
Por isso, a monja enclausurada em oração tipos (físicas, psíquicas, espirituais, materiais
é tão missionária quanto o padre que parte etc.), tal como vemos no nosso mundo pre-
para outro país para ajudar em alguma nova sente. O que já era difícil se agravou com o
realidade.Todos somos convidados a assumir período da pandemia, cujas sequelas ainda
nossa realidade presente como missão, na tanto nos impactam.
qual devemos servir a Deus em cada pessoa Celebrar a Palavra de Deus e a Eucaristia
necessitada de nós. Não só fazemos missão, significa comprometer-se com a proposta
mas “somos missão”. que nos é comunicada. Deus promete no-
Dom Helder Câmara possui um poe- vos pastores para seu povo (1 leitura), pois
ma que se inicia assim: “Missão é partir, os reis estavam descompromissados com a
caminhar, deixar tudo, sair de si, quebrar a missão. Jesus se recolhe com seus discípulos
crosta do egoísmo que nos fecha no nos- e percebe uma multidão numerosa que dele
so Eu. É parar de dar voltas ao redor de precisa (Evangelho). Ele reúne todos os dis-
nós mesmos, como se fôssemos o centro persos, formando um só povo e derrubando
do mundo e da vida...”. A partida para a os muros que nos separam (II leitura). Há um
missão não consiste em um deslocamento apelo para a compaixão, pois muitos vivem
de território, mas na conversão interior, como “ovelhas sem pastor”.
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II. COMENTÁRIO DOS TEXTOS BÍBLICOS
1. I leitura (Jr 23,1-6)
Essa passagem pertence à coleção de vá- O futuro da fé
rios oráculos relativos aos últimos reis de Judá
(Reino do Sul). O trecho selecionado para a Harvey Cox
liturgia é a conclusão, na qual Deus anuncia
pastores (líderes) conforme seu coração, isto
é, que tenham seus mesmos pensamentos,
dispostos a realizar sua vontade e serem fiéis
à Aliança. Uma profecia semelhante encon-
tra-se em Ez 34.
A perícope se inicia em forma de im-
precação: “ai dos pastores...” (v. 1). Há uma
oposição aos reis, que deveriam cuidar
do povo e zelar pelo cumprimento dos
mandamentos, no entanto abandonam o
rebanho por causa de interesses particu-
lares. O Senhor Deus é comparado a um
Imagens meramente ilustrativas.
pastor (Sl 23,1-4; 78,25-26; 95,7), e os reis
e outras lideranças deveriam ser reflexo
dessa presença divina.
296 págs.
A profecia se dirige contra esses maus
pastores do povo. Eles o abandonaram, ocu-
param-se em dispersar as ovelhas, ao invés de
unir, e comportaram-se de maneira perversa
e irresponsável (v. 2). Então, Deus vai reunir o Que configuração a fé cristã
que foi disperso, procurar o que está perdido deverá assumir no século XXI?
e conduzir a lugares seguros. Em seguida, vai Em meio ao ritmo acelerado das
mudanças globais e diante de
suscitar novos pastores para apascentar seu
um aparente ressurgimento do
rebanho e agir conforme os tempos mes- fundamentalismo, o cristianismo
siânicos (Jr 3,15; 29,10-14; 30,10). ainda poderá sobreviver como
Enfim, o oráculo identifica uma pessoa uma fé viva e fecunda? Com
que assumirá essa função. Deus estabele- seu estilo rico e sua acuidade
cerá um rei, descendente de Davi, que acadêmica, Cox explora essas e
será competente, defenderá o direito e a outras questões, num livro que é,
justiça (binômio importante para os pro- ao mesmo tempo, autobiografia,
fetas bíblicos) e terá por nome “Senhor, comentário teológico e história
da Igreja.
nossa justiça” (v. 6). Em hebraico, essa ex-
pressão evoca, ironicamente, o nome do
rei Sedecias.
O texto cria a expectativa de um en-
Vendas: (11) 3789-4000
viado de Deus para o cuidado do povo. 0800-0164011
Ainda hoje sofremos da mesma mazela
de lideranças, principalmente políticas, paulus.com.br
descompromissadas com a maior parte
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da população. Triste situação a que assis- Ao contrário do que algumas mentali-
timos em nosso país e em outras partes do dades conservadoras defendem, Cristo não
mundo: os maus pastores prejudicando o veio somente para alguns nem para segregar
rebanho de Deus. classes de pessoas. Ele veio unir, congregar,
O Senhor, nossa justiça, age para reunir derrubar os muros e, como diria o papa
o que se dispersa e curar o que se fere. En- Francisco, “construir pontes”. As atitudes
quanto alguns agem mal, outros ouvem a que vemos de exclusão social, discriminação,
Palavra de Deus e buscam ser seu reflexo injustiça e preconceito não são inspiradas
como pastores do povo que desejam a vida, na fé autenticamente cristã, mesmo quando
e não a morte. usam o nome de Deus.
2. II leitura (Ef 2,13-18) 3. Evangelho (Mc 6,30-34)
A segunda leitura comunica a unidade de Na sequência da leitura contínua do
todos em Cristo. As segregações devem ser Evangelho de Marcos, lemos neste domin-
superadas, e, as diferenças, diminuídas, pois go o retorno dos discípulos da missão dois
o Senhor aboliu os motivos que separavam a dois (cf. domingo anterior: Mc 6,7-13), o
as pessoas. recolhimento de Jesus para um lugar à parte
Para o judaísmo antes de Jesus e contem- (v. 31) e a compaixão pela multidão (v. 34).
porâneo a ele, os pagãos estavam longe de Os apóstolos (enviados) regressam da
Deus devido ao desconhecimento da Lei e missão e comunicam a Jesus os aconte-
às suas práticas idolátricas. Entretanto, Cristo cimentos e ensinamentos (v. 30). Estavam
trouxe os pagãos para junto de Deus (v. 13). entusiasmados com a experiência missio-
A comunidade dos efésios experimentava o nária e com os fatos que acompanharam
que lemos no texto. Eles se converteram à a pregação deles. Então, Jesus lhes propõe
fé cristã sem passar pela circuncisão. ir a um lugar deserto, descansar, distante
A situação de perturbação pela separação da multidão (v. 31-32). Era uma maneira
de Deus é revertida pelo sangue de Cristo, de não apenas repousar, mas de avaliar e
ou seja, por sua vida. Por isso, ele é a “paz” planejar para seguir adiante. A pausa é fun-
de todos, porque uniu o que estava dividi- damental para melhor prosseguir. O deserto,
do pelo muro dos preconceitos e do apego nas Escrituras, é imagem do lugar da aliança
às normas e costumes. A existência carnal de Deus com seu povo.
de Jesus faz que o amor supere o ódio e o Contudo, a multidão não desiste de Jesus
perdão prevaleça sobre a punição. e dos discípulos. Muitas pessoas das cidades
A separação principal existente na comu- vizinhas, das aldeias por onde o grupo passava
nidade dos efésios e em outras comunidades e outras que ouviam falar de Jesus iam até
do Império Romano era a distinção entre ele para encontrá-lo e ouvi-lo. A multidão
judeus e pagãos. Então, a partir do judeu e chega antes de Jesus sair da barca (v. 33).
do pagão, Cristo estabelece uma unidade Ao ver aquela gente, Jesus se compadece
de paz (v. 13.17), formando das duas etnias dela pelos seus sofrimentos e necessidades.
uma nova humanidade em comunhão com Ele “se move de compaixão”, como Deus
Deus e com pessoas unidas umas às outras. (Ex 34,5-6; Is 40,11). Marcos a compara a
A ação de Jesus veio unir e aproximar os “ovelhas sem pastor” (v. 34), imagem presente
que estavam distantes. Portanto, todos têm desde o Antigo Testamento, que descreve a
acesso ao Pai e podem viver na paz da sua demanda de uma voz para nortear o rumo a
comunhão (v. 18). seguir (Nm 27,17; Ez 34,5.8; Jr 50,6). Jesus
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é a Palavra de Deus encarnada que revela o Assim como agiu com seus discípulos,
mistério do amor do Pai. As pessoas precisa- Jesus também nos indica o silêncio e o reco-
vam desse “novo” ensinamento que consola lhimento, para ouvirmos melhor o próprio
e dá sentido à existência. Havia uma busca interior, onde Deus habita. A unidade e a
por parte de muitos, e eles encontravam res- reunião das “ovelhas dispersas” se iniciam
posta em Jesus. desde dentro, quando acolhemos nossos frag-
O conteúdo do ensino de Jesus era o mentos e nos integramos na fé, no Senhor.A
Reinado de Deus. Seu método não consistia partir daí, ajudamos essa unidade em Cristo
em explicações descritivas a respeito do mis- a realizar-se em outras pessoas, nas nossas
tério do Reino, mas na vivência dele entre comunidades e na nossa sociedade.
as pessoas. Isso atraía a multidão, cansada de A compaixão sentida por Jesus deve
tantos discursos vazios. Por isso, trata-se de preencher nosso coração e nos deslocar
ensinamento “novo”, como de alguém que para o encontro com o outro necessitado.
tem “autoridade” (Mc 1,27). Não apenas como mero sentimento, mas
A existência humana de Jesus era a ex- como jeito de ser e de agir. Há tantas
plicação do Reinado de Deus. Diante das pessoas por aí necessitando da compaixão
misérias daquele tempo, Jesus aliviava a dor de Deus!
com a presença de Deus. Sobretudo diante
das doenças, não existiam muitos recursos. A 17º DOMINGO DO TEMPO COMUM
medicina era pouco evoluída e para poucos; 25 de julho
por isso, as curas possuíam tremenda impli-
cação social, o que levava muitos a querer Alimentar os famintos
estar com Jesus.
I. INTRODUÇÃO GERAL
III. PISTAS PARA REFLEXÃO “Você tem fome de quê? Você tem sede
Nossas realidades eclesiais e o mundo de quê?”, pergunta uma canção brasileira
em que vivemos estão repletos de pessoas cuja letra exprime que o ser humano pre-
que caminham como “ovelhas sem pastor”, cisa de algo mais do que comida e bebida.
sem maiores sentidos de vida, sem propósitos Contudo, a liturgia deste domingo situa
nem objetivos. A Palavra de Deus propõe o nossos pés na dura realidade de que há
recolhimento e o encontro. ainda muitas pessoas sem ter o que comer
Não somos apenas uma carne para ser e o que beber, sem condições adequadas
cuidada, mas somos seres humanos vivos, para a sobrevivência (saneamento, mora-
livres, conscientes e desejosos de transcen- dia, emprego etc.). A partilha dos pães nos
dência. Jesus nos convida a ir a um lugar lembra que nossos dons se multiplicam
tranquilo, sereno, para conversar, encontrar quando não os retemos para nós.
as belezas de Deus presentes na vida de todos A dinâmica do pouco oferecido e par-
nós, na luta dos operários, no trabalho de tilhado com muitos se repete na primei-
um médico, de um construtor, no esforço ra leitura e no Evangelho. O resultado é
de um jovem que busca emprego, de um a formação de um povo abundantemente
recém-formado, de alguém que estuda para saciado por Deus, a ponto de sobrar mais
entrar na universidade... Quantas histórias do que havia na situação inicial. As pessoas
lindas temos para perceber em nós e no alimentadas por Deus se unem, formando
nosso meio! Somos, todavia, demasiadamente um corpo, o de Cristo, para viver a unidade
ocupados com uma vida vazia. na caridade do pão partilhado.
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II. COMENTÁRIO DOS TEXTOS BÍBLICOS heresias e, por conseguinte, conduzindo-se
1. I leitura (2Rs 4,42-44) segundo uma moral dissoluta e distante dos
No segundo livro dos Reis, há algumas ideais cristãos. As separações ocorriam por
narrativas de milagres realizados pelo profeta conta desses ensinamentos contrários à fé
Eliseu, sucessor de Elias. O episódio que lemos comum. Então, deve-se praticar a humilda-
na liturgia apresenta a distribuição de pães de, a mansidão, a paciência e suportar uns
semelhante ao que teremos no Evangelho. aos outros em prol dessa unidade ameaçada
Um homem trouxe para o profeta um pelas discórdias.
saco de pão das primícias, feito de trigo novo, Em seguida, o texto recorda a unidade
de acordo com a descrição de Lv 23,17. do corpo que constitui a Igreja, comunidade
Eliseu, chamado de “homem de Deus” (v. de fé. Há uma só esperança, um só Senhor,
42), recebe daquele homem anônimo o que uma só fé, um só batismo, pois Deus é único
se destinava aos sacerdotes do templo (Lv e Pai de todos (Ef 4,6; Cl 3,12-15). Não
23,20). O profeta não retém a oferta para si, se trata de uma unidade de aparências por
pede que seja repartida com todos. falta de diversidade, mas de uma unidade em
O ajudante replica ao profeta, pois eram construção com base na fé em Deus uno.
poucos pães para muitas pessoas. Eliseu in- No contexto da primeira leitura e do
siste na distribuição dos pães, esperando, Evangelho, podemos relacionar a unidade
conforme a palavra do Senhor, que todos indicada pelo autor com os pães distribuídos.
comeriam e se fartariam. Assim aconteceu, A Eucaristia celebrada unifica os fiéis em
como cumprimento da Palavra de Deus dita um só coração e uma só alma para viver o
pelo profeta. mistério do amor no mundo.
O relato se assemelha ao que já conhe-
cemos das narrativas de multiplicação dos 3. Evangelho (Jo 6,1-15)
pães realizada por Jesus nos Evangelhos. Na liturgia do Ano B, ano do Evangelho
Um bocado de pão oferecido, acolhido e de Marcos, acompanhamos por alguns do-
distribuído a uma multidão. No fim, as so- mingos o discurso do “pão da vida” em João
bras superam o que se tinha e percebe-se a 6.Trata-se de catequese eucarística ampliada
superabundância da ação divina. O pouco da narrativa dos pães em Marcos.
ofertado, abençoado e partilhado se torna Na sequência do Evangelho de João, Jesus
muito para satisfazer a todos profusamente. conclui abruptamente o ensino a respeito
do testemunho que ele dá do Pai (Jo 5,47).
2. I leitura (Ef 4,1-6) A partir de Jo 6,1, a cena se desloca de Je-
Continuando a leitura da carta aos Efésios, rusalém para o interior, a Galileia. Jesus se
acompanharemos, nos próximos domingos, encontra à beira do lago de Tiberíades (ou
a segunda parte da carta (Ef 4,1-6,20), que de Genesaré) e atravessa-o.Tal como em Mc
oferece orientações mais práticas para a co- 6,33-34, muita gente vai atrás dele, por ter
munidade. No trecho desta liturgia, temos visto os sinais que ele realizava.
um convite à unidade por meio da boa vi- Entretanto, Jesus sobe com seus discípulos
vência dos vínculos fraternos. aos montes que ladeiam o lago. O evangelista
O início exorta os destinatários a viver situa o evento na época da Páscoa judaica, a
uma vida conforme o chamado recebido comemoração do êxodo dos israelitas, quan-
desde o princípio da fé em Cristo. A comu- do Deus livrou seu povo da escravidão do
nidade sofria com alguns dos seus membros Egito, alimentou-o no deserto e guiou-o à
rompendo a unidade, entusiasmando-se com Terra Prometida. O leitor já se prepara para
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uma ação de Jesus semelhante à de Moisés
junto ao povo no deserto.
Então, Jesus vê a multidão do alto da Onde está Deus?
montanha e questiona Filipe, para experi-
mentá-lo: “Onde vamos comprar pães para A fé cristã na época da grande
incerteza
que estes possam comer?” (v. 5). Jesus sabe
o que quer e como vai agir. Ele toma a Julián Carrón
inciativa. Em João, a pergunta “de onde?”
sempre evoca uma origem misteriosa, algo
que possui origem divina (Jo 1,48; 2,9; 3,8;
4,11; 6,5; 7,27-28; 8,14; 9,29-30; 19,39).
Portanto, Jesus possui um conhecimento
superior ao dos discípulos, entre os quais
Filipe, que pensa em termos deste mundo
e conclui que 200 denários não bastam para
que cada um receba um pouco de pão (cf.
Mc 6,38 e paralelos; um denário parece ser
a diária de um lavrador: Mt 20,2). Outro
discípulo observa diferente. Há um menino
Imagens meramente ilustrativas.
com cinco pães de cevada e dois peixinhos (v.
9). João apresenta esse personagem com pães
e peixes para recordar Eliseu (2Rs 4,21-44).
200 págs.
Eles estão diante do impasse de alimentar CONFIRA
VERSÃO
numerosa multidão com tão pouco. Então, E-BOOK
Jesus entra em ação e ordena que os discí-
pulos acomodem as 5 mil pessoas na gra- A obra traz uma entrevista entre
ma daquele lugar ermo (v. 10). Em seguida, o vaticanista Andrea Tornielli,
Jesus tomou os pães e, tendo dito a ação jornalista do periódico La Stampa,
de graças (eucharistia), distribuiu-os aos que e o sacerdote Julián Carrón,
estavam sentados. Fez do mesmo modo com presidente da Fraternidade de
os peixinhos. Os gestos e as palavras usados Comunhão e Libertação (CL).
no Evangelho são os mesmos da celebração A obra gira em torno de um
tema principal: ainda é possível
dos primeiros cristãos.
encontrar Deus na “sociedade
Os pães e os peixes se tornaram abun- líquida” em que estamos
dantes, a ponto de alimentarem a multidão mergulhados? Além disso,
que seguia Jesus. Quando terminaram de reflete sobre a secularização e a
comer, Jesus mandou recolher o que havia descristianização, o relativismo, o
sobrado. Foram 12 cestos cheios das sobras possível fim da civilização cristã e
dos cinco pães e dos dois peixinhos (v. 12- a figura dos papas.
13). O número 12 representa as tribos do
antigo povo de Israel e também os apóstolos,
Vendas: (11) 3789-4000
o novo povo de Deus, a Igreja; logo, o novo 0800-0164011
povo de Deus alimentado no deserto, sinal
do dom messiânico de Deus em Jesus, que paulus.com.br
age como novo Moisés.
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O Evangelho de João fala de “sinais” Seria grande tristeza ter nossos estoques
realizados por Jesus. Prefere esse termo a interiores vazios. Depois de alguns anos de
milagres, pois os acontecimentos apontam vida, olhar para o passado e perceber que
para uma realidade além daquela apresen- acumulamos quinquilharias, que nada temos
tada imediatamente. Por isso, o povo re- para distribuir, para partilhar com quem está
conhece Jesus como um profeta que deve ao nosso lado.
vir ao mundo, a exemplo de Moisés, Elias Neste domingo celebramos o dia mun-
e Eliseu (Dt 18,15; Ml 3,1.23), mas quer dial do idoso, instituído pelo papa Francis-
segurá-lo para proclamá-lo rei, um mes- co para recordar as pessoas mais maduras
sias (rei) apenas político. Aquelas pessoas só que muito nos ensinam com a experiência
pensavam na saciedade da fome material. acumulada. Trata-se de oportunidade para
Havia um sentido mais profundo naquele pensarmos no cuidado mútuo e no sentido
acontecimento. As pessoas comeram pão e que damos à vida. Pode ser terrível per-
peixe e não observaram que aquilo indicava cebermos que uma vida inteira se passou,
a partilha do pão e do vinho na última ceia, tendo-nos encontrado muito ocupados
a qual, por sua vez, prenunciava a entrega de com coisas e na mais completa vacuidade.
Jesus na cruz, sua morte e ressurreição. Logo, Trágica verdade quando deparamos com o
o sinal dos pães convidava a pensar em um silêncio da inutilidade, de quem não viveu,
alimento superior, que era a vida de Cristo. de quem nada experimentou.
Por fim, Jesus se retira sozinho para o Olhando nossa vida e o que podemos
monte (v. 15). Uma atitude de quem precisa oferecer, cabe-nos perguntar: “A quem da-
de orientação divina para seguir adiante e de remos os pães? Que pães daremos? Como
quem se inspira para agir de melhor maneira daremos esses pães?”.
com seus discípulos.
18º DOMINGO DO TEMPO COMUM
III. PISTAS PARA REFLEXÃO 1º de agosto
A liturgia da Palavra nos convida à parti-
lha. Há tantas pessoas famintas, sem vestuário, O pão da vida é Jesus
sem emprego digno, sem moradia adequada
etc. Muitas realidades instigam nossa sensi- I. INTRODUÇÃO GERAL
bilidade cristã para agirmos em favor dos Iniciamos o mês de agosto, que, para a
mais vulneráveis da sociedade. Igreja no Brasil, é dedicado às vocações.Toda
Ainda que não nos insiramos em algum vocação é um chamado de Deus para algo.
projeto social perene, podemos agir de ma- Fomos chamados à vida, à fé em Cristo, à
neira mais solidária e fraterna nas relações santidade, e ainda somos chamados conti-
mútuas.A Escritura nos convida a distribuir o nuamente para novas missões. Que apelos
pão que temos e somos.Apesar de podermos do Senhor temos sentido?
partilhar um pouco dos bens que possuímos, As leituras evocam a imagem do pão,
cabe-nos oferecer também nossas qualidades, alimento humano básico para muitas cul-
nosso tempo para ouvir, a sabedoria acu- turas. Deus deu um pão no deserto para
mulada nos anos, as experiências de vida, o povo saciar a fome e seguir adiante até
histórias marcantes, testemunhos de fé etc. a Terra Prometida (primeira leitura). Jesus
Olhando nossos cestos, podemos encontrar dá um pão superior, sua própria vida, que
outros pães e peixes para outras necessidades. sacia para sempre e conduz para a eterni-
Sempre temos o que oferecer! dade (Evangelho). A pessoa nova em Cristo,
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alimentada por esse pão, deve viver distante um tempo breve. Outro alimento superior
da velha vida e renovar-se continuamente será apresentado e alimentará eternamen-
(segunda leitura). te, como verdadeiro alimento. O maná é
Qualquer vocação nasce da escuta e é apenas sombra de uma realidade maior,
alimentada na Palavra e na Eucaristia. É apresentada por Jesus.
tempo de reservar-nos para um exercício
de silêncio e acolhida da vontade de Deus 2. II leitura (Ef 4,17.20-24)
em nós. A chama do seu amor não pode As orientações práticas da segunda parte
se apagar, pois é dela que nasce o ardor do da carta aos Efésios (Ef 4,1-6,20) continuam.
servir e do cuidar. Os costumes e as práticas pagãs anteriores
à fé em Cristo parecem influenciar ainda o
II. COMENTÁRIO DOS TEXTOS BÍBLICOS comportamento dos efésios. A experiência
1. I leitura (Ex 16,2-4.12-15) de fé deve levar a viver de novo modo.
O livro do Êxodo narra a libertação do O texto possui a terminologia de uma
povo de Israel da escravidão do Egito. Nessa catequese batismal semelhante a Cl 3,1-17.A
travessia, aquelas pessoas se constituem como comunidade se distanciava dos ensinamentos
povo de Deus com base em sua experiência principais do início da conversão. Por isso, o
de fé. O episódio do maná, neste domingo, autor afirma que a verdade está em Jesus (v.
demonstra a ternura e o cuidado de Deus 21). Os outros ensinamentos que se infiltram
com o povo eleito. na comunidade são, pois, mentirosos e geram
A leitura se inicia com a ambientação da confusão e divisão.
narrativa (v. 2-3). O povo se encontrava no Na sequência, lemos a orientação para a
deserto, percorrendo-o com confiança na renúncia das coisas velhas (v. 22), a necessi-
promessa de Deus. No entanto, as pessoas se dade de renovação interior (v. 23) e a ordem
cansaram e começaram a murmurar contra para revestir-se da novidade evangélica (v.
Moisés e Aarão. Diziam ser melhor terem 24). Esses versículos demonstram um progra-
morrido escravos no Egito, onde tinham ma de vida cristã que não se aplica apenas aos
alimentos, do que perecer no deserto. A re- neófitos, mas destina-se, sobretudo, aos que
clamação por comida comportava também caminham há mais tempo no seguimento
uma ingratidão à ação divina e uma nostalgia de Jesus e esfriaram o compromisso de fé.
pela vida velha. Com efeito, os primeiros destinatários se
Deus responde ao clamor do povo. comporiam dos mais experientes que vol-
Promete um “pão do céu” para o povo tavam às práticas pagãs.
recolher e se alimentar. Seguem-se, então, Nessa leitura se contrapõem o antigo
orientações sobre como aconteceria essa e o novo, a vida velha no paganismo e a
“prova” do Senhor para seu povo (v. 12- novidade da experiência com Cristo. Essas
15). Os israelitas se fartariam diariamente realidades se fazem também presentes em
do alimento oferecido por Deus por meio nós e precisam ser percebidas e integradas.
das codornizes. Não se sabia muito bem o A liturgia constitui um momento oportuno
que era. Consistia em algo misterioso, qua- para uma autoavaliação.
se instantâneo, que satisfazia os famintos.
Interessava compreender que aquilo era “o 3. Evangelho (Jo 6,24-35)
pão que o Senhor deu para comer” (v. 15). O discurso do “pão da vida” se inicia
Esse alimento dado por Deus no deserto após o episódio da caminhada sobre as águas
ainda é provisório e sustenta apenas por (Jo 6,16-21). Jesus desenvolve e explica o
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significado do “sinal do pão” (Jo 6,1-15), Aarão) como enviado por Deus. Agora,
ensinando sobre sua identidade de Filho eles pediam uma prova da autoridade de
enviado do Pai. Jesus, apesar de terem presenciado, no dia
A multidão segue Jesus e acorre a ele em anterior, um sinal que deveria comunicar
Cafarnaum. As pessoas perguntavam espan- por si. Logo, não compreenderam bem o
tadas quando ele havia chegado (v. 24-25). gesto do pão.
O mistério em torno da identidade de Je- A resposta de Jesus apela para uma auto-
sus permanecia e se complementava com a ridade superior à de Moisés. O Pai foi quem
resposta dele, que denunciava a procura de deu aquele alimento no deserto e continua
muitos não por terem visto sinais, mas por a dar um “pão verdadeiro” vindo do céu.
terem enchido a barriga de pão. Haviam O novo “maná” que Jesus tenta explicar dá
percebido o milagre apenas como meio para vida ao mundo. Chegou o tempo de um
saciar a fome, e não como sinal de algo além. pão que gera vida eterna sem a mediação
Não entenderam que era uma manifestação de Moisés.
da presença de Deus por meio da distribui- Novamente, há o desentendimento en-
ção realizada por Jesus. tre Jesus e seus interlocutores. Ele falava de
Em seguida, o Mestre lhes ensinou o sig- um pão metafórico e os ouvintes entendiam
nificado do seu sinal (v. 27). Deviam empe- outro pão, o material. Por isso, Jesus fala ex-
nhar-se pelo alimento que, ao contrário do plicitamente:“Eu sou o pão da vida” (v. 35).
maná, não se acaba e é oferecido pelo “Fi- Quem se aproxima de Jesus sacia uma fome
lho do Homem”. Esse título é uma maneira e uma sede que nada nem ninguém pode
comum na Bíblia para se referir a um ser saciar.Trata-se da eternidade que nenhuma
humano qualquer (Ez 2,1), mas, na boca de matéria pode satisfazer.
Jesus e dos evangelistas, quase sempre lembra Há uma pedagogia de Jesus no ensi-
a visão de Dn 7,13-14, em que aparecem namento deste domingo. Ele parte de um
primeiro os reinos deste mundo, represen- evento vistoso e abundante para explicar
tados por quatro feras, e, depois, o Reino uma realidade silenciosa, misteriosa e oculta.
de Deus, representado por um ser humano. Enxergar a fartura dos pães não é o suficien-
No tempo de Jesus, acentuava-se muito que te, cabe reconhecer que Jesus constitui o
esse Filho do Homem tinha autoridade para verdadeiro “pão do céu” enviado por Deus
proferir o juízo em nome de Deus. para a salvação da humanidade. É necessário
Aquelas pessoas que seguiam Jesus per- passar do evento à fé em Deus, que atua na
guntaram-lhe sobre as “obras de Deus” (v. história humana.
28). A resposta dele esclarece que a “obra”
que agrada a Deus é que acreditem naquele III. PISTAS PARA REFLEXÃO
que Ele enviou. Há um jogo de palavras e Que alimento temos buscado em nossa
de compreensão, pois os interlocutores per- vida? Quais são nossas fomes e sedes? A li-
guntavam no plural e Jesus respondia no turgia deste domingo propõe um alimento
singular. Eles pensavam nas ações, e Jesus para a vida eterna.
pedia uma atitude de fé (v. 29). Apegamo-nos a tantas coisas materiais e
Então, Jesus é questionado sobre suas passageiras e nos esquecemos da presença
obras e sobre qual sinal daria (1Cor 1,22). de Deus. Ele está por trás de tudo, sempre
Os antepassados haviam comido o maná junto de nós, sustentando-nos nas alegrias
no deserto (Sl 78,24; Ex 16,15), alimen- e nas tristezas, nos sofrimentos e no gozo,
to que legitimava a atuação de Moisés (e nos problemas e nas soluções, nas conquistas
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e nas comemorações. Se ele está nos bons
momentos da vida, mais ainda permanece
conosco nos desafios cotidianos. Panorama das
Deus está nas mãos dos médicos, no cari- filosofias do século XX
nho dos familiares, nas preocupações dos pais
Urbano Zilles
pelos filhos e na solidariedade que damos e
recebemos. Mesmo quando a morte acon-
tece, ele também está conosco. Ele escolheu
permanecer entre nós em espécie de pão.
Quando Deus deu o pão para que aquele
povo se alimentasse, queria alimentar muito
mais que o estômago. Queria dar o conforto
por meio da presença, do carinho, do amor,
da entrega, da revelação de quem ele era.
Jesus deu àquele povo um pão comum, mas
afirmando que era Ele o pão da vida!
Os ministros ordenados, recordados neste
domingo, exercem o serviço de comunicar
Imagens meramente ilustrativas.
a presença de Deus por meio de seus gestos,
entre os quais a distribuição do pão da vida.
Eles oferecem uma matéria que representa CONFIRA
288 págs.
algo eterno.Todas as realidades passam, mas VERSÃO
E-BOOK
Deus é amor sem limites e é por meio dele
que somos amparados, valorizados e amados.
Urbano Zilles apresenta as
principais abordagens filosóficas
19° DOMINGO DO TEMPO COMUM contemporâneas, colocando
8 de agosto cada autor e suas ideias num
amplo contexto histórico-cultural e
O pão da vida buscando o diálogo da filosofia
com as ciências e a cultura em
I. INTRODUÇÃO GERAL sentido amplo. No complexo
A imagem do deserto, recorrente nas Es- panorama do século XX, não
crituras, recorda uma experiência importante ocorreu uma ruptura abrupta
com o passado, mas referenciais
para o povo da Bíblia: a libertação do Egito.
tradicionais foram relativizados e
Muitos de nós não conhecem esse bioma surgiram problemas novos, aos
fisicamente, mas podem imaginá-lo pelas quais é preciso atender. O livro
descrições e se apropriar dessas informações serve de manual e guia seguro
para pensar na existência humana e na fé. para uma introdução à filosofia
Metaforicamente, o deserto pode repre- contemporânea.
sentar um tempo árido na vida, um recolhi-
mento reflexivo e um apelo à contempla-
Vendas: (11) 3789-4000
ção. É momento oportuno, tempo de graça, 0800-0164011
que favorece o amadurecimento humano,
fecunda as ideias e projeta novas perspectivas. paulus.com.br
Assim, as leituras nos ajudam nessa jornada
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vital que todos empreendem.A liturgia pode O anjo novamente o toca e manda que
ser um instante de refúgio para seguirmos se levante e coma, por haver ainda longo
melhor adiante. caminho a percorrer. Então, o profeta se
O elenco dos textos apresenta Elias can- ergueu, comeu e bebeu. Sustentado pelo
sado, que se recolhe para nova experiência alimento celestial, caminhou 40 dias até o
com Deus. Ele volta à fonte da fé de Israel Horeb, o monte da manifestação de Deus
para refazer o próprio caminho de vida. O (Ex 33,18-23; 34,10-28). O número 40 re-
alimento para seguir com ânimo seu percur- presenta o tempo do povo no deserto (Nm
so prefigura o “pão da vida” explicado por 14,33) e de Moisés na montanha (Ex 24,18;
Jesus no Evangelho. Quem dele come possui 34,28; Dt 9,9).
a vida eterna. Saciamo-nos dessas iguarias Elias percorre o caminho do povo a
dadas por Deus para vivermos o amor como quem ele serve como profeta e recorda a
ele viveu, oferecendo a própria vida. Aliança de Deus com seu povo. As imagens
do deserto, do monte, do alimento e do anjo
II. COMENTÁRIO DOS TEXTOS BÍBLICOS remetem à experiência do êxodo. Assim
1. I leitura (1Rs 19,4-8) como Deus guiou seu povo no passado,
Os dois livros dos Reis relatam episódios guiará igualmente Elias para a continuidade
relacionados com o período da monarquia da missão.
de Israel. Não se preocupam em fazer descri-
ções jornalísticas dos fatos, mas em apontar 2. II leitura (Ef 4,30-5,2)
a ação de Deus na história e em gerar fé Continuamos a ler a carta aos Efésios
nas pessoas que leem o texto. Entre tantos nestes próximos domingos do Tempo Co-
eventos ligados aos reis, há um espaço para mum. As recomendações práticas para os
o profeta Elias. membros da comunidade iluminam nosso
A leitura se situa em um momento em momento presente.
que o profeta se encontrava desolado por O trecho segue com as indicações para
conta da sua proclamação contra Acab e Je- uma vida renovada. Primeiramente, não con-
zabel e os falsos profetas de Baal (1Rs 18,1- tristar o Espírito Santo, com o qual Deus
19,2). Queriam tirar-lhe a vida, por isso ele selou os efésios para a salvação definitiva (v.
partiu para o deserto, a fim de se proteger 30). Por conseguinte, devem desaparecer das
e continuar a missão (1Rs 19,3). relações entre os irmãos e irmãs as amarguras,
Elias se refugiava nesse lugar que recor- irritações, cóleras e toda espécie de maldade,
dava a Aliança de Deus com seu povo. Por pois a ação do Espírito de Cristo deve levar
um instante, para sob um arbusto e pede a a novos comportamentos.
Deus a morte, pois se afligia com as ameaças A seguir, o autor apresenta as proposições
e com a responsabilidade da missão, como afirmativas (Ef 4,32-5,2). Os fiéis devem ser
Jonas (Jn 4,3.8) e Jó (Jó 7,15). Ali, ele deitou bons uns com os outros, compassivos, per-
e adormeceu (v. 5). doar a quem precisa, imitar a Deus, enfim,
Deus responde à oração do profeta e envia amar como Cristo, ofertando a própria vida
seu mensageiro (anjo) para comunicar-lhe a como oblação. Ocorre nesse último versículo
continuidade do seu ofício. A ordem é para a linguagem cultual para apresentar a maneira
que ele se levante e coma (v. 5). Assim fez de Cristo amar, como uma “oferenda de
Elias, encontrou o pão e a água, mas voltou agradável odor” (v. 2; cf. Ex 29,18; Lv 1,17).
ao sono de antes. Ele tentava escapar do O pão que nos sustenta e alimenta pode
desafio de profetizar. nos inspirar posturas diferentes para a ação
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cotidiana. A palavra ouvida, saciada e cele- (Jo 3,15.16.36). Jesus é o pão da vida! Os
brada deve nos ajudar a ter, uns para com antepassados dos interlocutores dele come-
os outros, atitudes e gestos mais condizentes ram o maná no deserto e morreram por lá.
com a escolha da fé. O maná saciava apenas a matéria, que se
deteriora com o tempo. Jesus é um alimento
3. Evangelho (Jo 6,41-51) que vem de Deus (desce do céu) para gerar
Acompanhamos nestes domingos o dis- vida eterna em quem dele se aproxima. Ele
curso sobre “o pão da vida” (Jo 6), uma não apenas dá a vida, mas possui a vida em
catequese eucarística que se desenrola em si mesmo (Jo 1,4; 5,26).
Cafarnaum (Jo 6,24-25), por consequência Por fim, Jesus especifica e sintetiza seu
da multiplicação dos pães (Jo 6,1-14). ensinamento, explicitando qual alimento ofe-
O trecho do Evangelho deste dia se ini- rece. O pão vivo que desceu do céu é sua
cia com a “murmuração” dos judeus (v. 41), carne para a vida do mundo (v. 51).A palavra
porque Jesus se proclama um pão descido “carne”, preciosa para João (1,14), designa
do céu. O agir deles lembra as reclamações a realidade humana com suas possibilidades
por alimento na saída do Egito (Ex 16,2). e fraquezas (Jo 3,6; 8,15). A humanidade de
Tal atitude é considerada, na tradição judai- Jesus, sua existência terrena e o mistério de
ca, como falta de fé. Portanto, temos uma sua vida são oferecidos para que quem nele
oposição desses interlocutores contra Jesus, crê possua a vida eterna.
por causa da identidade dele. Eles pensam A Eucaristia dada por Jesus e celebrada
apenas na origem humana:“Este não é Jesus, por nós é o memorial dessa entrega que cul-
o filho de José? Não conhecemos seu pai e minou na cruz. Cada vez que comungamos
sua mãe?” (v. 42). do pão “eucaristizado”, estamos acolhendo o
Jesus, então, adverte-os para que tenham dom de sua vida, entregue por amor a cada
outra postura, diferente da dos antepassados um de nós. Esse alimento gera a vida eterna
no deserto (Nm 14). Ensina que as pessoas em nós e nos conduz à eternidade definitiva
que vão até ele são atraídas pelo Pai, a quem para a qual fomos criados.
os judeus chamam de Deus. Jesus ressuscitará
esses fiéis no último dia (v. 44). Portanto, III. PISTAS PARA REFLEXÃO
quem não acolhe sua mensagem, como os Nossa existência é marcada por momen-
judeus nesse trecho do Evangelho, não está tos bons e outros ruins. A dinâmica de viver
em sintonia com o Pai, não conhece os de- exige de nós sabedoria para lidar com as
sígnios divinos. variações e as surpresas que nos vêm. Ape-
Quando acontece a alguém acreditar, nas na virtualidade das mídias sociais a vida
revela-se o sentido pleno da palavra da parece sem problemas.
Escritura: “Todos serão discípulos de Deus” O deserto é uma metáfora para represen-
(v. 45; cf. Is 54,13; Jr 31,33-34). Quem tar a travessia deste tempo para a eternidade.
ouve a voz de Deus e dele aprende vai Algumas vezes é preciso um refúgio, como
a Jesus, pois ele foi enviado pelo Pai. A Elias, para refazer o ânimo, experimentar a
propósito, os judeus queriam muito ver Deus, alimentar-se e conseguir forças para
a Deus. Ninguém viu. Só Jesus, que vem levantar-se e seguir. Esse refúgio pode ser um
junto do Pai, é quem o viu e o revelou lugar ou um tempo dedicado a tal finalidade.
aos que creem (Jo 1,18). A gruta do Horeb deve ser nosso interior,
A passagem conclui com a afirmação de onde Deus se manifesta e nos encoraja para
Jesus de que quem nele crê tem a vida eterna a missão.
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Nossa fome e sede podem ser saciadas Então, foi ressuscitada por Deus, ou seja,
pelo “pão da vida”, a carne de Jesus a nós foi assumida de corpo e alma, em sua to-
oferecida em cada Eucaristia. Encontramos talidade, por Ele.
no Senhor a força para não desistir diante A destinação de Maria diz respeito tam-
dos desafios, sejam pessoais, profissionais, fa- bém à nossa destinação final. Esperamos par-
miliares etc. A comunhão com o corpo de ticipar da ressurreição de Jesus como ela já
Cristo nos faz viver seu amor e encontrar participa. Professamos essa fé e aguardamos
sentido para a existência. a realização, em nosso corpo, dessa glorifi-
Neste domingo ainda recordamos o dia cação definitiva.
dos pais e o início da Semana da Família.
Que vivamos em nossos lares o que escu- II. COMENTÁRIO DOS TEXTOS BÍBLICOS
tamos na Palavra de Deus. Celebrar bem a 1. I leitura (Ap 11,19a;12,1.3-6a.10ab)
liturgia significa vivenciar o que aprendemos A primeira leitura narra a abertura do
e praticar o que oramos. santuário de Deus no céu, a qual foi seguida
de uma série de manifestações consequen-
SOLENIDADE DA ASSUNÇÃO tes da visão da esfera celestial: relâmpagos,
DE NOSSA SENHORA vozes, trovões, terremotos e tempestade de
15 de agosto granizo (Ap 11,19b). Esses fenômenos na-
turais acompanhavam as teofanias no Antigo
A vida plena em Deus Testamento. O texto quer mostrar que algo
divino está se manifestando.
I. INTRODUÇÃO GERAL Então, aparece nessa dimensão transcen-
O mistério da assunção nos faz voltar o dente, o céu, um grande “sinal”. O Apocalip-
olhar para o alto, para o mistério de Deus, se usa esse termo para evocar os feitos divinos
para a destinação final de todos nós. Ao maravilhosos ou estupendos, assim como o
mesmo tempo, olhamos para nossa rea- livro do Êxodo fala dos “sinais” que Deus
lidade terrena, material e carnal, na qual fez para o povo na saída do Egito. Surge uma
Deus se manifesta. Maria foi “assunta” aos mulher gloriosa, com características celestiais
céus “a partir de” e “com” nossa realidade e divinas, pois era revestida de astros; vestida
humana. com o sol, possuía a lua debaixo dos pés e,
A solenidade celebra a proclamação do sobre a cabeça, uma coroa de doze estrelas
dogma por Pio XII em 1º de novembro (v. 1). Estava grávida e gritava por causa das
de 1950. Conforme lemos no documento dores de parto, como a descrição em Gn
Munificentissimus Deus: “A imaculada Mãe 3,15-16, pois estava sofrendo com o trabalho
de Deus, a sempre virgem Maria, termina- de dar à luz o Messias (v. 5).
do o curso da vida terrestre, foi assunta em Em contrapartida, aparece outro sinal no
corpo e alma à glória celestial”. O enun- céu, contrastando com o anterior: uma hos-
ciado do magistério não explica “como” tilidade, uma adversidade, um grande Dragão,
aconteceu esse evento, apenas comunica avermelhado como fogo (v. 3). Ele tinha sete
o final da vida de Maria, a mãe de Jesus. cabeças (plenitude de poder político – Ap
Maria compartilha o destino do Filho, 17,3.7.9) e dez chifres (grande número de
o qual um dia também compartilharemos. vassalos – Ap 17,12.16) e, sobre as cabeças,
Ela participou da vida de Jesus, foi discípula sete diademas (insígnias de realeza). Seu po-
fiel, parte da comunidade perseverante na der e fúria são descritos por meio dessas
oração e apóstola do mistério de Cristo. cabeças, chifres e diademas.
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A Mulher, representação da comunidade
de fé, a Igreja, fugiu para o deserto, lugar
valioso de refúgio dos perseguidos, oposto Viver em Deus
à cidade e evocador da ação de Deus (Ex sem Deus?
2,15; 1Rs 19,3-4; 1Mc 2,29-30). No tempo
em que o livro foi escrito, a comunidade Roger Lenaers
cristã de Jerusalém, expulsa pelo Império
Romano por causa da Guerra Judaica, teve
de se refugiar no deserto, do outro lado
do rio Jordão (em Pela). O autor lembra
o tempo do êxodo, no qual Deus tinha
alimentado o povo de Israel no deserto
do Sinai (Ex 16; Sl 78), e assim Ele prepara
novamente um lugar onde seu povo seja
alimentado durante 1.260 dias (Ap 11,2),
como outrora o povo de Israel.
O trecho selecionado para a liturgia
conclui com a proclamação da vitória de
Deus: “agora chegou a salvação” (v. 10a). O
Imagens meramente ilustrativas.
acusador e perseguidor da comunidade de
fé é derrotado pela chegada do Reino de
280 págs.
Deus, do poder e da autoridade de Cristo. CONFIRA
VERSÃO
Assim, Maria assunta ao céu, celebrada E-BOOK
nesta solenidade, representa essa vitória,
da qual nós participamos prolepticamente
por meio da fé. O livro pergunta pelas
consequências da tentativa
de inculturar a fé cristã na
2. II leitura (1Cor 15,20-27a)
Modernidade. Esta, por certo,
Na comunidade de Corinto, Paulo en- parece essencialmente ateia. Por
frentava um problema de cunho doutrinal, a qual razão, então, uma pessoa
saber, a negação da ressurreição. Alguns fiéis, sensata deveria afirmar a existência
em virtude de uma compreensão antropo- de Deus? A solução que se impõe
lógica diferente, segundo a qual o corpo só pode consistir em abrir mão da
não participaria da salvação escatológica, representação antropomorfa de
negavam a ressurreição dos mortos e a de Deus apresentada pela Tradição
para procurar o Deus verdadeiro,
Cristo (1Cor 15,12). cuja imagem tradicional é apenas
Essa negação vinha de uma perspec- um esboço provisório, insatisfatório
tiva espiritualista platônica, dualista, na e ultrapassado pela evolução.
qual não se aceitava uma vida “corpó-
rea” no além-morte. O corpo ressuscitar,
nesse entendimento errôneo, significava
Vendas: (11) 3789-4000
um rebaixamento e uma contradição à 0800-0164011
vida espiritual, pois os espirituais já teriam
atingido a perfeição da sabedoria e do paulus.com.br
uso dos carismas. Por isso já se sentiam
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ressuscitados, alienando-se do momento Nazaré da Galileia até as montanhas da
presente e considerando a morte sem o Judeia, para chegar à casa de sua prima
acréscimo de realidades novas. Isabel. A novidade anunciada pelo anjo
O ponto de partida da argumentação (Lc 1,26-38) não a acomoda, mas põe a
de Paulo é o credo cristão primitivo (1Cor “serva do Senhor” em movimento para
15,3-5), segundo o qual Cristo morreu pelos servir a quem precisa. Ela visita porque foi
nossos pecados (1Cor 15,3), foi sepultado visitada por Deus! Isabel, representante da
(1Cor 15,4a), foi ressuscitado ao terceiro esperança do povo de Israel, estava grávida
dia (1Cor 15,4b), apareceu a Cefas e a um do precursor do Messias. O encontro entre
grupo de discípulos (1Cor 15,5). as duas mulheres e entre as duas crianças
Então, a passagem da liturgia deste repercute fisicamente em seus ventres e
domingo afirma a ressurreição de Cristo nas emoções de ambas as mães (v. 39-45).
como primícias dos que morreram (v. 20). A esperança se encontra com a realização
Portanto, em Cristo, todos ressuscitarão da promessa.
conforme seu tempo, sua ordem e momen- Na sequência, Maria canta, enaltecendo
to (v. 22-23). A celebração da Assunção de o Senhor, que fez maravilhas por ela e por
Maria afirma a participação de Maria no seu povo (v. 46-55). O Magnificat é procla-
mistério da ressurreição, do qual um dia mação forte, aguerrida e revolucionária da
também participaremos. Os dois eventos ação divina na história humana. Demons-
(ressurreição de Jesus e assunção de Maria) tra a predileção de Deus pelos humildes e
proclamam a vitória do amor de Deus pobres, e o desejo de estabelecimento de
sobre o pecado humano, a superação da um mundo de relações mais igualitárias e
morte pela vida e o triunfo da comunhão justas. Cantando, Maria resume os feitos
sobre a separação. do Senhor na história do povo de Israel e
Para Paulo, a corporeidade humana é prolonga seu “sim” comprometido com o
atingida pela ação salvífica de Deus. O projeto salvífico de Deus.
Cristo crucificado e ressuscitado possui um Por fim, a imagem da mulher grávida,
corpo (1Cor 10,16; 11,27). A ressurreição capaz de dar à luz a novidade de Deus para o
puramente espiritual não corresponde ao mundo, une-se à imagem da mulher assunta
sentido do batismo, pois por ele o cristão e acolhida por Deus. A espera inicial do
é inserido no corpo de Cristo, para que a “novo” se liga ao destino dado pelo Senhor
morte seja superada e vencida pela força como dom aos que creem. Maria, mulher
ressuscitadora do Espírito Santo. de fé, precedeu-nos!
3. Evangelho (Lc 1,39-56) III. PISTAS PARA REFLEXÃO
A mirada para o além, para a desti- Relendo o dogma da Assunção de Ma-
nação final e para a assunção não pode ria e pensando em suas repercussões, po-
nos distrair da realidade pragmática na demos compreender que não somos uma
qual vivemos. O Evangelho apresenta alma aprisionada em um corpo. Este não
indicações de como Maria praticava sua constitui um empecilho para nossa plena
fé: escuta de Deus, disponibilidade para realização como seres humanos destinados
servir e reconhecimento das maravilhas à comunhão com Deus. Ao contrário, na
do Senhor na própria vida. ressurreição, nossa corporeidade é resga-
A passagem se inicia com Maria “levan- tada e transfigurada no absoluto mistério
tando-se e indo apressadamente”, desde de Deus.
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Assim, Maria, glorificada no céu em A carta aos Efésios apresenta o amor de
corpo e alma, é a imagem e o começo da Cristo como opção para as relações hu-
Igreja e da humanidade do futuro, um sinal manas. Assim, os textos desta liturgia nos
escatológico de esperança e consolo para propõem uma reflexão a respeito das opções
o povo de Deus que caminha para a pátria que fazemos na vida.
definitiva. As pessoas que vivem uma consa- Todos nós, servidores da comunidade,
gração específica em um carisma explicitam tema vocacional deste domingo, podemos
esse sinal escatológico.Vivem no aquém as ouvir o apelo de Deus em nosso interior.
realidades do além, como ensina o dogma Quais escolhas devemos fazer para melhor
da Assunção de Maria. servir o Senhor?
O papa Francisco, pensando na Assun-
ção de Maria, reza desta maneira: “Maria, II. COMENTÁRIO DOS TEXTOS BÍBLICOS
a mãe que cuidou de Jesus, agora cui- 1. I leitura (Js 24,1-2a.15-17.18b)
da com carinho e preocupação materna O livro de Josué é pouco lido e conheci-
deste mundo ferido. Assim como chorou, do por muitos de nós. Ele narra um momen-
com o coração trespassado, a morte de to importante da história do povo de Israel:
Jesus, assim também agora se compadece a chegada à Terra Prometida por Deus e a
do sofrimento dos pobres crucificados e conquista desse espaço. Josué é o sucessor de
das criaturas deste mundo exterminadas Moisés e o personagem de destaque do livro.
pelo poder humano. Ela vive, com Jesus, O trecho da primeira leitura se situa na
completamente transfigurada, e todas as parte final do enredo, quando o autor da
criaturas cantam sua beleza” (Laudato Si’, obra elabora uma “despedida” de Josué em
n. 241). Que seja assim nossa oração e forma de discurso.A cena se apresenta como
que ela se torne ação e compromisso de uma assembleia entre os israelitas em Siquém,
fé e vida. cidade-santuário das 12 tribos, antes de ce-
lebrarem a renovação da aliança com Deus.
21º DOMINGO DO TEMPO COMUM Os primeiros versículos (v. 1-2) locali-
22 de agosto zam o leitor no evento. Era uma reunião de
todas as tribos, juntamente com os anciãos,
A opção pelo amor de Cristo chefes, juízes e demais líderes. A liderança de
Josué parecia soberana como a de Moisés,
I. INTRODUÇÃO GERAL seu antecessor, porque ele falava em nome
O Tempo Comum vai avançando, e a de Deus a todas essas pessoas reunidas. A
Palavra de Deus instiga-nos interiormente Palavra de Deus era proclamada a fim de
para escolhas na vida. Aos poucos, vamos que o povo continuasse no propósito da
percebendo algo que não condiz com o aliança com o Senhor.
que ouvimos ou algum caminho que per- Um dos pecados mais graves do povo
corremos e não deve ser retomado. Somos era a idolatria, a troca da fé no Deus único
seres de escolhas, e Deus nos ilumina para de Israel pelos deuses fabricados dos povos
fazermos o melhor. vizinhos. Então, Josué propõe uma escolha,
O texto de Josué conclama o povo de perguntando a quem querem servir: aos deu-
Israel para servir o Senhor. Jesus questiona ses a quem os antepassados serviram ou ao
seus seguidores sobre se querem continuar Senhor Deus. Ele demonstra nitidamente
ou desistir do caminho, pois alguns acha- sua opção fundamental: “eu e minha casa
vam aqueles ensinamentos duros e difíceis. serviremos o Senhor” (v. 15).
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Movido pelo exemplo de Josué, o povo O amor de Cristo se demonstra em doa-
reage consentaneamente, aderindo à fé em ção de vida, realizada em seu ato salvífico. A
Deus. A resposta do povo recorda os feitos terminologia é influenciada pelo ambiente
divinos na sua história. Deus livrou os pais litúrgico e cultual, reminiscências das práticas
da escravidão do Egito, realizou sinais mara- rituais para o batismo: a purificação com a
vilhosos diante das pessoas e guardou o povo água, a escuta da Palavra e a apresentação
com carinho e proteção.A memória de Israel sem mancha e santa (v. 26-27).
confirma a fidelidade divina. Por conseguinte, Da mesma forma, os maridos devem
o povo adere a Deus e se dispõe a servi-lo. amar as esposas como a si próprios. Na An-
A todo tempo, somos colocados diante de tiguidade, as mulheres eram produtos que
escolhas na vida. Josué não teme optar pelo os homens adquiriam para constituir uma
serviço a Deus. O povo segue seu exemplo família. As Escrituras propõem nova pers-
e adere à mesma escolha. Nós, que lemos e pectiva, mais humanizada: a mulher possui
ouvimos, somos questionados sobre nossas a mesma dignidade e deve ser vista como
escolhas e a quem servimos em nossa vida. parte do marido, como seu corpo e sua carne
Renovemos nossa escolha pelo Senhor Deus. (v. 28-29). Percebemos uma interpretação
do episódio da criação da mulher em Gn
2. II leitura (Ef 5,21-32) 2,21-24, por isso a citação direta de Gn 2,24
Acompanhamos, nesta liturgia domini- em Ef 5,31.
cal, o último trecho da leitura contínua que Eis o grande mistério! O amor de Cristo
fazemos da carta aos Efésios. O tema da pela sua Igreja se reflete no amor dos espo-
perícope são as novas relações em Cristo, sos. Com isso, caracteriza-se uma relação de
principalmente as relações familiares. doação e acolhida de um pelo outro. Ambos
O autor se dirige, primeiramente, aos que são chamados ao serviço, mais do que ao
temem a Cristo (v. 21). Eles devem se sub- domínio. Devem preferir a entrega de vida
meter uns aos outros. Essa “submissão” pode ao fechamento egoísta.
ser entendida como disposição para servir, e A opção por amar realiza e gera felicidade.
o serviço deve ser a identidade cristã, confor- Se, na primeira leitura, era uma escolha por
me ensinou Jesus (Mc 8,35). O pressuposto Deus em detrimento dos ídolos, aqui é uma
conhecido é a família antiga patriarcal, da escolha de amor e doação como Cristo fez.
qual o homem era o provedor responsável. Nossas escolhas de vida podem refletir esse
Segue-se uma comparação do amor de mistério de amor.
Cristo pela Igreja com o amor dos esposos.
Assim, podemos entender em que sentido as 3. Evangelho (Jo 6,60-69)
mulheres devem ser submissas aos maridos Neste domingo também acompanhamos
(v. 22). Não é legitimação do machismo, mas a última parte do discurso do “pão da vida”
uma comparação com a Igreja, comunidade no Evangelho de João. Os efeitos do que
de fé, que se empenha em servir a Cristo Jesus ensinou refletem em seus ouvintes,
por amor. De igual modo, os maridos de- principalmente nos discípulos.
vem amar as esposas e se entregar por elas, Algumas pessoas do público de Jesus
a exemplo da entrega de amor de Cristo acharam suas palavras difíceis demais para
(v. 25). O paralelo que o autor faz é entre serem aceitas. Era uma novidade exigen-
Cristo-marido e Igreja-esposa. A relação te! Então, Jesus percebe interiormente que
conjugal se assemelha à ligação de Cristo eles estão resmungando, como em Jo 6,41,
com a Igreja, uma esclarece a outra. por ter-lhes ensinado a respeito do pão
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que desce do céu. Mais assustados ficarão
JOVEM,
quando virem o Filho do Homem subir
para onde estava antes, para sua origem em
Deus. Como em outros momentos no dis-
curso, os interlocutores não compreendem
o que Jesus fala.
O Espírito é quem vivifica e conduz à
compreensão das palavras de Jesus (v. 63). No
Seja um padre
entanto, eles ainda eram carnais, fechados em ou irmão paulino e
si mesmos (Jo 3,6-8), precisavam de conver-
são para assimilar o mistério apresentado por anuncie o Evangelho
Jesus. As “duras” palavras de Jesus são inspi-
radas pelo Espírito (sopro divino) e geram
abraçando o carisma
vida, porém a carne (os critérios humanos) da comunicação!
não serve para interpretar o sinal dos pães e
o apelo à conversão embutido nele.
Jesus pensava além da realidade e sabia que
nem todos aqueles que se diziam discípulos
realmente acreditavam, o caso extremo foi
o de Judas. Então, seus discípulos eram con-
duzidos a fazer uma escolha fundamental:
aderir e converter-se ou recusar e continuar
da mesma maneira. Por consequência, entre
os que se diziam discípulos, muitos viraram as
costas a Jesus e seguiram outro rumo (v. 66).
Jesus não se frustra com a desistência de
alguns. Ele não precisa de multidão nem
de fã-clube. Por conseguinte, corajosamente,
dirige-se aos discípulos mais próximos:“Vós
também quereis ir embora?” (v. 67). Pedro,
porta-voz do grupo como em Mc 8,29,
responde, renovando a fé: “A quem iremos Serviço de Animação
Senhor? Tu tens palavras de vida eterna. Nós Vocacional dos Padres e Irmãos Paulinos
cremos e reconhecemos que tu és o Santo Caixa Postal 700 | CEP: 01031-970
de Deus” (v. 69). A fé é demonstrada e re- São Paulo – SP | Tel.: (11) 3789-4009
novada. A escolha de Pedro e dos discípulos [email protected]
é continuar no seguimento de Jesus. paulinos.org.br
As palavras de Jesus, que instigavam e
incomodavam quem as ouvia, agem de igual (11) 99270-1678 @padres_paulinos
modo, no nosso tempo. O Evangelho de-
@padrespaulinos
monstra essa força que interpela e à qual
nem todos correspondem. O incômodo é
para que escolhamos e descubramos a vida
eterna, renovando a cada dia a fé naquele
que é o “Santo de Deus”.
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III. PISTAS PARA REFLEXÃO Somos rodeados de tarefas exigentes e
Encontramo-nos sempre diante de esco- de normas para cumprir. As leituras deste
lhas na vida. Seja em coisas simples, como domingo contribuem para percebermos
escolher uma roupa, uma refeição ou um os costumes de nova maneira. A Lei, para
lugar para ir, seja em questões mais com- o povo de Israel, era Palavra de Deus para
plexas, como escolher um estado de vida, ser cumprida, e não acrescida de arranjos
uma profissão ou tomar uma decisão que secundários. Realidade que, infelizmente,
compromete a vida de muitos. Qualquer Jesus encontrou na vivência religiosa do
que seja a circunstância, cabe-nos ponderar, seu tempo.
refletir e optar pelo melhor. Diante das discrepâncias entre o apego às
Josué propõe a fé em Deus em oposição tradições e a originalidade do mandamento,
à busca dos deuses dos outros povos. Efé- Jesus ensina que aquilo que sai do interior
sios apresenta o amor de Cristo pela Igreja da pessoa é mais grave e mais capaz de tor-
como modelo de amor entre os esposos e ná-la impura do que os alimentos e atos
para outras relações humanas. O Evange- de higiene próprios dos diferentes tempos.
lho convida os seguidores de Jesus a um Tiago completa que a fé tem de ser vivida
discernimento: seguir as palavras duras do na prática do amor, não apenas como teoria
Mestre ou abandonar sua proposta. Hoje intimista e individualista.
somos confrontados. Que escolhas precisa- Fixemos no essencial e saibamos lidar
mos fazer na vida? com o que é acessório. A fé cristã consiste
Às vezes, precisamos deixar algumas coi- no amor uns pelos outros, da mesma forma
sas, alguns costumes, algumas atitudes. Outras, que viveu Jesus. As normas existem para fa-
precisamos buscar algo, agir em determi- vorecer esse objetivo.
nada direção ou mudar o rumo da vida.
A liturgia aponta como critério a vontade II. COMENTÁRIO DOS TEXTOS BÍBLICOS
do Senhor, seu amor, suas palavras de vida 1. I leitura (Dt 4,1-2.6-8)
eterna. Quando encontramos essa beleza, O livro do Deuteronômio retoma, em
podemos ir adiante. nova perspectiva, muitos temas e narrativas
já abordados em Êxodo, Levítico e Números.
22° DOMINGO DO TEMPO COMUM O autor recorda ao povo a aliança com Deus,
29 de agosto que permanece fiel e espera o comprome-
timento dos israelitas.
Viver a lei do amor A leitura apresenta o dom da Lei em
forma de pregação, que se desenvolverá no
I. INTRODUÇÃO GERAL decorrer dessa seção (Dt 1,1-4,43). Ela con-
Encerrando o mês de agosto, dedicado clama os destinatários para a escuta atenta
às vocações, recordamos a missão dos ca- (Dt 6,4) e para a prática (Lv 18,5) dos man-
tequistas, entendidos não só como quem damentos e normas que Deus ensina, por
assume mais diretamente o ministério de meio de Moisés, como condição para o dom
transmitir, na comunidade, a fé cristã a da terra. Não se deve colocar ou retirar nada
crianças, jovens e adultos. Todas as pessoas em relação aos ensinamentos divinos (v. 2).
devem viver a fé de modo a transmiti-la Seria uma traição à Palavra de Deus.
ao próximo. Assim, a comunidade de fé O povo de Israel se distinguia dos outros
é catequizadora e comprometida com o povos vizinhos daquele tempo por causa
Evangelho. da sua fé em um único Deus. E ainda um
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Deus invisível, audível, presente na história obediência às regras, mas como expres-
e que fez aliança com o povo. Portanto, são da própria identidade de amar como
cumprir as orientações do Senhor torna Cristo amou.
Israel sábio e entendido, capaz de provocar Por fim,Tiago insiste em uma religião da
a admiração dos outros povos pelo valor práxis. Ele associa o culto à vida, a exemplo
da Lei. Esta significa liberdade e vida para dos escritos proféticos. Portanto, a verda-
o povo de Deus. deira religião consiste em visitar os órfãos e
Enquanto os povos vizinhos tinham as viúvas em suas tribulações, mais do que
seus filósofos e seus grandes monumen- em queimar incenso e oferecer sacrifícios.
tos, Israel possuía a riqueza da prática da Naquele tempo, os órfãos e as viúvas,
Lei como uma sabedoria exuberante.Viver juntamente com os estrangeiros, viviam em
os mandamentos significava testemunhar uma situação econômica precária. Depen-
Deus aos demais povos, e a idolatria cons- diam da ajuda de outras pessoas. Os judeus
tituía uma infidelidade do povo a Deus. tinham leis para protegê-los e promoviam
Assim, podemos ver a Lei de Deus não a tarefa religiosa de acolher e ajudar (Ex
apenas como “letra” morta, mas como “pa- 22,20-22; Dt 10,18-19; Is 1,17). Então, a
lavra” dinâmica, capaz de gerar vida em religião verdadeira consiste na vivência da
quem a põe em prática. Substituir a es- fé pela prática do amor e da justiça, mais
sência da Lei por costumes agregados trai do que no mero cumprimento de deveres
o sentido do dom de Deus para seu povo. institucionais (Mt 5,17-19).
Em nossos templos, muitas pessoas parti-
2. II leitura (Tg 1,17-18.21b-22.27) cipam das celebrações. No entanto, devemos
Doravante, na liturgia dominical, acom- nos alegrar mais quando a vivência religiosa
panharemos a leitura da carta de Tiago. Ela continua após o culto, no cotidiano da vida,
se dirige a cristãos de origem judaica e nas relações interpessoais e no jeito de ser e
mantém o estilo de exortação profética e estar na sociedade. A fé celebrada tem de se
de um ensinamento sapiencial preocupado tornar atitude em prol de um mundo me-
com aspectos práticos da vida. lhor. O ouvinte tem de se tornar praticante
A passagem deste dia orienta como se da Palavra.
deve viver a religião. O autor inicia expli-
cando que as dádivas para o ser humano 3. Evangelho (Mc 7,1-8.14-15.21-23)
possuem origem divina, vêm do alto, do Retomamos o Evangelho de Marcos, após
“Pai das luzes”, criador de todas as coisas (v. alguns domingos acompanhando o discurso
17). Foi Ele quem gerou novas pessoas pela do pão da vida no Evangelho de João.
Palavra da verdade para serem as primícias O texto se inicia com as discussões entre
de sua criação, isto é, sua obra mais im- Jesus e os escribas a respeito do tema da
portante. O ser humano deve reconhecer pureza. Os judeus tinham a Lei de Moisés
que toda bondade vem de Deus. como ensinamento principal para a organi-
Outro aspecto da prática da religião, zação da vida.Também cumpriam, no tem-
conforme o texto, é a acolhida da Palavra. po de Jesus, diferentes costumes, oriundos
O primordial mandamento de um judeu das tradições dos antigos (Dt 4,2). Alguns,
naquele tempo era a audição da Palavra apegados às normas, seguiam a observância
de Deus: “Escuta, Israel...” (Dt 6,4; Mc das tradições de forma radical. Jesus, então,
12,29). Contudo, não basta só ouvir; im- vem esclarecer a interpretação da Lei, para
porta também praticar, não apenas como ser melhor praticada.
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Os escribas e fariseus observavam os Importa atentar para que a maldade não surja
discípulos de Jesus comendo pão sem lavar no interior humano, se materialize e se torne
as mãos. Marcos explica à sua comunidade, ato. Portanto, é necessário o cuidado com a
formada por cristãos oriundos do paganismo, interioridade, antes da externalidade.
como alguns judeus costumavam lidar com O texto deste dia nos ensina um pouco
os alimentos e os objetos, a fim de não se sobre os costumes judaicos e sobre como os
contaminarem (v. 3-4). Eles não comiam cristãos deveriam se portar em relação a essas
sem lavar as mãos até o pulso e não comiam práticas. Para Jesus, importava mais a maneira
sem se lavar quando chegavam da praça. Ha- de viver do que os cumprimentos de pre-
via muitas outras coisas observadas, como a ceitos e costumes. De igual modo, podemos
maneira de lavar taças, jarras, recipientes de pensar a vida cristã como um compromisso
cerâmica e de metal. de amor a Deus e ao próximo mais do que
Então, esses fariseus e escribas pergun- como mera observância de normas.
tam a Jesus por que os discípulos dele não
procedem conforme a tradição dos antigos. III. PISTAS PARA REFLEXÃO
Jesus responde com uma referência a Is A fé cristã é, antes de tudo, um encontro
29,13, segundo o qual o povo honra a Deus com a pessoa de Jesus. Uma experiência que
com os lábios, porém tem o coração (sede dá novo sentido à vida e traz novas manei-
da inteligência humana) distante dele. E ras de compreender a realidade, na qual se
conclui acusando os fariseus e escribas de inserem os preceitos e costumes.
abandonarem o mandamento de Deus em A Lei era um distintivo do povo de Is-
troca de costumes humanos secundários rael, e seu cumprimento representava a fé
(Dt 4,1-2). em Deus e a fidelidade a ele. Contudo, um
Na sequência, Jesus ensina sobre o “puro” grande número de interpretações e tradições
e “impuro” e mostra que, sobre isso, a rea- secundárias foi acrescentado aos mandamen-
lidade não era aquilo que comumente se tos essenciais, de forma que, no tempo de
pensava. Não é o que entra no ser humano Jesus, muitos se apegavam mais às práticas
de fora (por exemplo, alimentos, utensílios rotineiras do que ao sentido original da Lei.
etc.) que pode torná-lo impuro. O que sai A oposição de Jesus, no Evangelho desta
de dentro do ser humano é o que o torna liturgia, designa a fidelidade à Lei, em seu
impuro.A distinção judaica de alimentos pu- sentido profundo, como mais importante
ros e impuros já não tem sentido (At 15,28- do que a execução de ações desnecessárias.
29; Tt 1,15). Jesus inverte a perspectiva do Tiago ratifica o ensinamento de Jesus no
ensinamento dos antigos. A interioridade da Evangelho. A religião cristã não é apenas
vivência da Lei, com o coração, torna-se mais culto no espaço sagrado (igreja ou capela),
importante do que as observâncias externas mas sobretudo saída ao encontro de quem
sem nexo. precisa, como fez Jesus em sua vida terre-
Em continuação, Jesus lista uma série de na. Catequese se faz com práticas, além de
sentimentos que fazem o ser humano im- conteúdo.
puro diante de Deus e das pessoas (v. 21). Atualmente, existem muitos grupos de
Do interior humano podem surgir maus pessoas que se sentem “fiéis” por cumprir
pensamentos, más intenções, prostituições, preceitos eclesiásticos. A fidelidade querida
roubos, homicídios, adultérios, maus desejos, por Jesus leva ao amor autêntico a Deus e
perversidades etc. O elenco pode se am- ao próximo, o qual consiste mais em ações
pliar, de acordo com o tempo e cada pessoa. do que em palavras (1Jo 3,18).
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