MINHA HISTÓRIA
Marcelino Ferreira de Paula, conhecido como
Marcelino Teixeira, filho de José Ferreira de Paula e
Ana Maria de Jesus. Seu pai morava em Paula Cândido
e sua mãe em Senhora dos Remédios.
Seus pais se casaram e adquiriram sua família na roça
chamada Erão, perto de Viçosa. Marcelino nasceu em
Erão no dia 10 de janeiro de 1934, ele foi batizado em
Viçosa.
Mudaram–se para Brás Pires, Marcelino com apenas 9
meses de idade (no mesmo ano em que nasceu).
Marcelino está contando o que seus pais contavam a
ele.
Sua família veio morar na fazenda Borges (distância de
6 km de Brás Pires), em uma casa feita de capim
barreado com 6 cômodos. Sua mãe lavava roupa na
bica e sua família tomava banho na bacia.
Quando ele estava com mais ou menos 5 anos de idade
pegou sarampo e febre, foi curado com um chá
chamado sabugueiro. A farmácia que naquela época
tinha era de chás.
Quando cresci mais um pouco, com mais ou menos 6
anos, eu e minha irmã mais velha fomos ao pasto, ela
tocou os bezerros e eu peguei pirraça porque queria
tocar também. Fiquei lá no pasto e ela veio tocando,
meu pai foi me buscar debaixo de curião, chegando em
casa a velha vizinha, que se chamava Leorinda, tomou-
me do pai e me enrolou na saia comprida que estava
vestida, ela usava outra saia por baixo de flanela, meu
pai continuou me batendo, mas não doía. Ela disse
para ele parar de me bater e me levou para casa dela.
A tarde ela me trouxe de volta para casa e a raiva de
meu pai já tinha acabado, ele me deu um abraço e um
beijo. Depois que cresci mais um pouco vi o favor que
me fez de ter me educado.
Um dia, eu e meu pai, fomos em uma virada chamada
sertão, eu fui em uma égua que estava criando um
burrinho e meu pai foi andando. Na descida do morro
a égua desceu disparada com o burrinho correndo na
frente e meu pai gritou dizendo para eu me segurar.
Depois de uns 200 metros a égua parou e eu não tinha
caído, então prosseguimos a viagem.
Passado um tempo eu montei na mesma égua, com 20
metros de distância, eu caí e machuquei bastante
minha testa. Minha mãe veio me pegou e levou-me
para dentro de casa e fez curativo de emplasto de chá-
peixe.
Quando eu estava com 7 anos, fomos fazer uma casa, o
dia que começamos e colocamos a primeira pedra
minha mãe adoeceu. Meu pai precisou arrumar uma
cozinheira pra cozinhar para os pedreiros. Eu naquela
época era candieiro de boi, puxava areia para fazer
tijolo. Fui tocar a mula no maçarico e ela começou a
pular e quebrou a manjara, caiu em cima de um balde
e só não caiu em cima de mim porque eu saí fora. Daí
para frente eu não quis tocar mula mais.
Continuei a candiar boi para puxar pedra e areia para o
Zé Alorinda. Depois fui candiar boi para puxar madeira
para o Juviano, que era o carreiro e carapina (tirava
madeira e lavrava).
Alguns dias eu ia puxar areia no caixote de querosene.
O burro se chamava Pachola e a mula Cascata, como
eu não aguentava o caixote, colocava a areia de um
lado e do outro e ia sozinho com Deus à uma distância
de 3 à 4 km. Depois de um tempo terminamos a casa.
Eu candiava boi para os outros ararem a terra, que era
para o José Alorinda, José Patucinim, José Genuíno e
para a fazenda do Fugenso. Nessa época eu tinha 9
anos e o arador era o Antônio Vitor. Teve um dia que o
Fugenso queria que eu fosse até Senador Firmino
buscar um bico de arado, era uma distância de 3 léguas
e eu não quis ir, e no outro dia eu não voltei para
trabalhar.
Algum dia de folga eu ia brincar com boi de sabuco e
minha irmã ainda ia ajudar. Na mesma época minha
mãe voltou a adoecer e deu derrame cerebral, o
médico, Doutor Gastão, andava 1 légua e meia de
carro e cavalo até chegar na nossa casa. Quando ele
chegou minha mãe já estava sem fala, então ele pegou
uma seringa e quando foi puxar o sangue não veio
nada, logo após isso ele cortou a veia dela com
canivete e o sangue saiu talhado.
A minha mãe ainda viveu mais 20 anos, nesse intervalo
que lá ficou doente nós fomos ficar 3 meses em
Senador Firmino (Conceição). Eu estava com uns 10
anos de idade e arrumei 3 namoradas, duas tinham a
mesma idade que eu e a terceira tinha 16, era bonita e
se chama Zumira. No dia em que eu voltei pra casa ela
ficou chorando.
Chegando em casa comecei a trabalhar de novo e
cuidar da minha mãe. Pensava em casar para arrumar
uma companheira que me ajudasse a cuidar de minha
mãe.
Namorei muitas, mas nunca acertava. Quando tinha
20 anos namorei uma moça rica que tinha até 70
alqueires de terra, ela era filha única.
Namorei também uma que era simples, trabalhadeira e
era filha de um homem pobre, seu pai se chamava
João Mateus da Silva e sua mãe Luiza Felipe de Jesus.
Minha Namorada Cassinha morava com o padrinho Zé
Patucinim, mas o chamavam de Juquinha. Na casa dele
eu trabalhava como carreiro e retireiro.
O Zé Patucinim tinha uma tropa de burros. Quando
iam pendurar lata de creme na tropa que ia para
Senador Firmino a Cassinha pegava lata de 50 litros
igual homem, e isso me deixava com vergonha, pois eu
não aguentava o peso da lata. Eu não gostava nem de
ficar perto, saia para carrear com os bois do Juquinha
(Zé Patucinim), e lá tinha engenho para moer cana e
fazer rapadura.
A Cassinha era tão trabalhadeira que lavava roupa para
o Juquinha com um menino pendurado nas costas. A
mulher do Juquinha era costureira e se chamava Ana,
seu apelido era Tiana.
Quando eu comecei a namorar com a Cassinha, minha
mãe não gostou pois os pais dela brigavam muito, Mas
um tio e padrinho meu conversou com ela e disse que
a gente não podia escolher, a sorte era Deus quem
dava e disse também que ela era sobrinha de um
homem bom, o Tenente Leopoldino. Com toda essa
conversa eu ficava contrariado, pois eles não tinham o
direito de falar, então eu saía de casa para passar o
tempo.
Para ajudar a cuidar da minha mãe eu vendi 2 novilhas
para comprar remédios. Trabalhei bastante e comprei
5 bezerros, vendi 3 para comprar as roupas do
casamento. Dos dois bezerros que eu fiquei um morreu
antes do meu casamento.
Namorei por dois anos com a Cassinha antes de nos
casarmos, o nome completo dela era Rita de Cássia da
Silva, ela tinha 20 anos na época.
O nosso casamento foi no dia 20 de maio de 1957, e
nós fomos pra casa no dia 22 de maio, que era
aniversário dela, e ela já chegou com o trabalho de
olhar minha mãe no mesmo dia.
Minha mãe aguentou 3 anos e 3 meses com minha
esposa cuidando dela. Eu e Cassinha começamos a
trabalhar juntos, ela cuidava da casa, da minha mãe e
das obrigações do terreiro. O trabalho era tanto que
nem víamos o tempo passar.
A primeira filha foi Irene, a segunda Celina e o terceiro
foi José. Depois do nascimento dos meus três filhos
minha mãe veio a falecer.
Dobramos o trabalho para comprar terras, eu
trabalhava para os outros e quando chagava ia moer
cana no engenho junto com minha família. Cassinha e
eu tocando a máquina, Irene colocando a cana e Celina
cuidando de José. Os trabalhos só aumentavam, mas
nós não desanimávamos.
Herdei cinco alqueires de terra e comprei vinte e cinco,
trabalhava durante o dia e a noite saia para tomar
dinheiro emprestado para comprar terra ou remédio.
Sempre pegava emprestado com Deusdetti.
Comprei dez alqueires de terra dos herdeiros e quinze
do meu pai.
Antes disso fui passear com minha esposa em Nossa
Senhora dos Remédios. Ela foi em um cavalo que se
chamava Consolo, ele era o rei de Brás Pires. Teve uma
época em que eu pensei em vende-lo para compra
toicinho, mas não cheguei a esse ponto.
Chegando em Nossa Senhora dos Remédios, na casa de
um fazendeiro, ele me ofereceu oito bezerros em troca
do meu cavalo só que eu perguntei se ele me dava dez,
então ele me abafou. Depois eu fiquei pensando se
pegava um cavalo emprestado ou voltava a pé para
casa, o fazendeiro disse que eu poderia voltar no meu
cavalo e no dia que eu fosse pegar os bezerros eu
trazia o cavalo para ele, pois ainda tinha uns bezerros
que estavam mamando.
Quando eu casei queria vender o cavalo para comprar
toicinho, mas graças a Deus e a Nossa Senhora do
Rosário não vendi e tempos depois pude trocar ele em
dez bezerros.
Fui amansar os bezerros da troca e tinham seis
apariados que pareciam gêmeos, troquei o que eu
tinha antes para inteirar os oito apariados, desses oito
eu troquei uma junta no outro e recebi uma volta que
serviu para eu comprar um carro de boi velho, esse
carro me serviu para colocar os seis apariados. Fui
trabalhando depois dos seis apariados vendi dois deles
e comprei mais dez bezerros, depois de um tempo,
quando vendi os dez bezerros mais dois que não eram
apariados, sai para comprar mais logo depois.
Comprei nove bezerros, desses nove vieram seis
fêmeas e três machos. Três dos meus filhos já estavam
me ajudando bastante então dei uma bezerra para
Irene, uma para Celina, uma para o Zezé e outra para
minha esposa Cassinha. Infelizmente a que eu dei para
o Zezé morreu, então dei a ele uma das duas que havia
sobrado para mim.
As vacas que dei para minhas filhas e esposa criaram, a
minha não, então troquei uma junta que era muito
bonita e mansa. Eu e meus candieiros, que eram o
Vicente do Bastião Patucino e Neco meu cunhado,
amansamos dos dois novilhos e usávamos outros
quatro para arar a terra.
Os meninos eram tão bons candieiros que eu não
precisava falar nada para eles. Eles me propuseram de
juntar os novilhos quando estivessem encangados, e
eu disse que poderiam juntar se os novilhos não
fizessem nada. Os novilhos eram tão mansos que eles
tinham até um horário que gostavam de ser pegos,
depois das 12hrs, uma hora eu e um dos meninos
íamos busca-los outra era os dois meninos.
Quando eu era novo tinha coragem pra tudo, menos
pra briga, na época eu e Antônio Vitor amansamos um
touro para o Fugenso, o touro tinha de doze a quinze
arrobas. Pegamos um boi com um outro manso e dois
na frente que eram mansos também, eles pesavam 20
arrobas, o touro pulava e pegava muito, mas como nós
tínhamos coragem, a gente conseguiu amansar ele.
Depois disso fiquei mais corajoso.
Eu era carreiro do Zé Patucinim, pegamos um carro de
boi para buscarmos milho no Itajuru, Zé Patucinim
eram Candieiro e já ia buscar milho para ele mesmo.
Quando estava na subida do morro do sertão tinha um
tourinho na frente que se soltou da guia e bateu no boi
do meu carro e ainda bem que o carro estava vazio e
que Deus ajudou, pois a corrente bambeou e o carro
começou a descer na ribanceira, então eu soltei a
corrente e tive que arrebentar as brochas para o carro
descer sozinho. Ele foi parar lá no brejo, uns 20m
ribanceira a baixo. O carro só quebrou o cocão então
eu fiz outro e emendei as brochas e consegui buscar o
milho em Itajuru, que estava a 2 léguas de distância.
Continuei a carrear puxando madeira para João Luís. O
candieiro sempre era o José da Mélia Coelha e o outro
era o José Joaquim Beijo. Depois de alguns carretos eu
devolvi o carro, pois já tinha o meu.
A nossa família continuou a crescer, eu e Cassinha
tivemos mais 7 filhos, Marta, Josias, Rita, José Theli,
Maria Aparecida (Cida), Adailton e a Sônia.
Teve um dia que eu fiquei com raiva de mim mesmo,
não tinha direito de falar, então saí de casa para passar
o tempo. Fui deitar debaixo de uma coberta para
pensar um pouco, depois de um tempo a Cassinha foi
lá me buscar aí minha raiva passou e voltamos para
casa e eu continuei meus trabalhos.
Continuei a aração de terra e outros carretos. Bastião
Beijo era meu candieiro juntamente com Pedro, João e
Manuel que eram filhos do Bastião Patucino. Sem
parar com os novilhos, sempre eram 4 novilhos por
vez, gastava candieiros e tocadores e eu no rabo do
arado.
Eu amansava novilho para os outros, dava pasto e
aproveitava os novilhos. Uma vez fui arar para o José
Soarino, lá o candieiro era o Vicente Neca e tinha outro
arador que se chamava José Barruzim. Passado alguns
anos eu ia arar terra para o Ermindo, genro do Batião
Patucino, levávamos 16 bois e eram dois aradores.
Vicente e Pedro candiavam para mim e João e Luiz da
Siana candiavam para o Bastião sem ganhar nada.
Nós fomos arar para um vizinho do Ermindo, o rapaz
foi criado com Joaquim Pereira e esse rapaz não quis
nos pagar, no fim quem pagou a gente foi o Joaquim
Pereira.
Na mesma terra do rapaz, em um dia de chuva, eu o
Vicente e o arrancamos um cupim, o senhor José
Marques estava com o carro de boi e quase passou por
cima do cupimzeiro, antes que ele passasse em cima
eu o gritei e ele saiu do local.
No outro dia viemos embora, fomos arar terra durante
dois dias para Mozar Cardoso, na terra chamada
Vargem, morava com ele um rapaz que se chamava
Gar. Mozar tinha um óculos de alcance, com uma
distância de 2 ou 3km ele enxergava a gente de perto.
Viemos de lá, fomos arar terra para Deusdetti de
véspera e sem janta. Eram os mesmos aradores, eu,
Bastião Patucino e os candieiros eram o Vicente,
Pedro, João e Luiz. Dormimos sem janta, colocaram a
gente para dormir na casa da mãe do Deusdetti.
Levantamos cedo e fomos para roça que era de outro
dono, chegando lá ele e a esposa estavam dormindo,
eu e os meninos chegamos brincando de pular congo e
cantamos gritando “O dendê ô dendá nós dormimos
sem janta estamos com vontade de almoçar, mas
queremos beber café em primeiro lugar”.
Nós começamos dormir em outro lugar, na casa do
Vicente Totte. Um dia amanheceu chovendo e o
Sebastião Patucino foi chamado para ajudar o José
Totte matar um capado. Eu e os outros meninos fomos
ajudar as filhas do Vicente Totte plantar milho, aramos
mais um dia para o rapaz, nós chegamos lá com
vontade de almoçar e viemos embora à tarde.
No outro dia nós fomos capinar milho para mim
mesmo.
Antes de muitos acontecimentos esqueci de dizer que
o Bastião Patucino no dia do meu casamento me
emprestou 5 reais para eu levar pois eu não tinha.
O trabalho era tanto que eu não pude estudar, fui na
escola uma vez quando tinha 13 anos, a professora era
irmã do Fugenso e eu comecei a namorar com ela. Ela
me colocava de castigo na hora do recreio e trazia
queijo e café. Quem me incentivou a namorar com ela
foi o próprio Fugenso.
O Fugenso era bravo, encarava homem em qualquer
lugar, aconteceu um desastre com ele de caminhão no
qual ele cortou as pernas. Qualquer homem que o
encarasse ele apontava o revólver no peito. Ele tinha
uma venda e as vezes as pessoas não queriam pagar,
quando isso acontecia elas até mudavam o caminho
para não encontrar com ele.
Os meninos do Fugenso faziam muita arte e ele
mandava os alunos da sua irmã pegarem os seus filhos.
Nós mandávamos os meninos dele correr na frente
para a gente fingir que não conseguíamos pega-los.
Quando dava tempo de a raiva passar eles voltavam
para casa e não apanhavam.
O Fugenso tinha uma filha que gostava de me namorar,
só não casei com ela por falta de sorte. Um dia ela se
queimou com fogo de palha, quanto mais ela corria
mais o fogo pegava, depois de uns dias ela faleceu. Eu
passei a noite com a família dela no velório.
Fui crescendo trabalhando e namorando até chegar o
ponto de casar.
Para dar leite para meus filhos, Deusdetti me deu uma
vaca e viramos compadres, ele foi padrinho de batismo
do Zezé, criamos confiança um no outro. Quando eu ia
pedir dinheiro emprestado, e as vezes ele não estava, a
esposa dele Dorica que era minha comadre, me dizia
para voltar depois de dois dias e o dinheiro estaria lá.
Eu fui melhorando a sorte, mas mesmo assim o
Euvécio que morava no Bicudo filho do Tumé da Silva
alugou um pasto e levou para lá gado e uma vaga de
leite, ele me mandou aproveitar o leite para os meus
filhos.
Eu e a Cassinha continuamos a trabalhar e a sorte
continuou nos acompanhando, eu fui vendendo os
gados dos meus filhos para comprar outros para os
meninos colocarem no lugar. Peguei outros novilhos,
mas eram ladras eu então fui pegando outras até
chegar no ponto que eu queria.
A sorte continuou acompanhar, peguei uma vaca do
Tôe Alipoldino, depois comprei mais três, uma vaca e
duas novilhas, comecei a tirar leite.
Meus filhos não precisavam apanhar, a Cassinha
sempre resolvia os problemas no meu lugar. Teve um
dia que eu estava tirando leite e meus filhos
começaram a brigar, a Cassinha me chamou pois não
estava conseguindo parar a briga, fui com tanta raiva
que cheguei dando uma correiada na Marta, foi tão
forte que tem marca no lugar até hoje, o Josia que
estava brigando com ela correu então ela apanhou
sozinha. Depois fiquei arrependido, mas não pude falar
nada.
Passado alguns tempos, quando a Marta tinha 10 anos
ela parou de andar. Eu cuidei de tudo, remédio,
farmacêutico e nada dava certo, foi então que falaram
pra eu levar ela no médico. No dia que eu a levei no
médico quem nos deu carona foi o fazendeiro de
Itajuru, que se chamava Antero, eu levei para ajudar
olhar a Marta a comadre Sadê e a Tarcísia, que deu
aula para os meus quatro filhos mais velhos. A
Cassinha fez uma promessa de que se a Marta
melhorasse ia levá-la no Pe. Arlindo que estava
fazendo milagres em São Domingos. Mas antes da
gente levar ela chegou um raizeiro dizendo que ia curá-
la igual fez com a filha de Bastião Patucino a Lourdes,
mas eu não acreditava.
Marta ficou doente igual a Lourdes.
Eu cheguei o Bastião Patucino e o raizeiro estava lá, ele
me deu uma cachaça e eu não fiquei bêbado, vim para
casa e deixei ele pra lá, eu só não sabia que ele tinha
dado remédio para Marta. Logo depois disso ela
melhorou.
Um dia Silvano, o raizeiro, apareceu de novo lá em casa
e me pediu um filhote de papagaio, um garrafão de
cachaça e 5kg de queijo, eu falei com ele que tinha o
queijo, porém não tinha o papagaio e nem a cachaça.
Eu tinha um compadre que se chamava Maurílio, ele
disse que buscava a cachaça para Silvano era só ele dar
o dinheiro e a Vasilha para colocar. No outro dia eu ia
levar a mercadoria e ia buscar remédio para a família
toda, mas choveu e o Maurílio não buscou a cachaça,
então eu não consegui ir levar a mercadoria para ele.
A Marta melhorou e levamos ela para cumprir a
promessa, alguém fofocou com o Silvano que quem
curou a Marta foi o Padre Arlindo, e ele acreditou. Eu
cheguei lá para buscar a cachaça, o queijo e o remédio
e disse com o Silvano que o Maurílio estava atrasado,
mas iria levar a cachaça.
Quando eu cheguei lá, tinha uma pessoa procurando-o.
Chegando na encruzilhada da minha sogra eu falei com
Silvano que iria chegar lá, se ele topasse com Maurílio
era para ele falar com ele para que guardasse a
cachaça no mato ou trouxesse para a casa da sogra
dele, a Dona Tialia. Quando Maurílio encontrou com
Silvano ele mandou um recado para eu passar na casa
do compadre Dé junto com o próprio Maurílio.
Chegando na casa do compadre Dé o Silvano estava lá
e deu uma cachaça para mim e outra para o Maurílio.
Lá tinha um menino que se chamava José, filho de Zé
Tiotone, na sala da casa do compadre Dé tinha um
“balaio” de arroz e o Silvano mandou o menino tirar
um pouco de arroz, nas duas primeiras vezes veio arroz
na terceira veio semente de capim, depois disso eu não
vi mais nada que estava acontecendo. Era umas seis
horas da tarde e o compadre Maurílio disse para não
fazer comigo assim, Silvano disse com Maurílio que ele
iria ficar igual a mim. O Silvano me pegou e mandou o
compadre Dé pegar o Maurílio e carregar ele para a
casa de um vizinho, ficava a uns 500 metros de
distância, colocou a gente na sala do homem e disse
para não colocar nem coberta e nem travesseiro para
nós.
Ficamos de seis da tarde até as seis da manhã fora de
si, sem ver nada. Nesse dia meu pai foi atrás de mim a
pedido da Cassinha, pois ela ficou preocupada comigo,
quando eu contei a ela o que tinha acontecido ela se
assustou e até chorou pois eu não tinha o costume de
beber, depois desse dia eu nunca mais coloquei
cachaça na boca.
Voltando um pouco atrás, lembro de quando eu ainda
era bem menino e peguei cem reais com o Modesto
emprestado, e era costume perguntar aos pais se
podia emprestar o dinheiro pois eu era de menor, só
que ele não perguntou ao meu pai se podia, por conta
disso eu virei muito amigo dele pela confiança que ele
depositou em mim e por esse motivo também depois
de muito tempo viramos compadres.
Paguei a Modesto o que eu devia fazendo uma
candiação de boi, ele tinha dez novilhos de 11 à 12
arrobas. Eu tenho muita saudade daquela época, a
gente tinha que trabalhar muito pra ter alguma coisa
na vida, mas éramos felizes também.
Eu e Jesus do Bim, na época eu tinha 12 e ele 25 anos,
fomos namorar na casa do Fugenso, ele namorava a
irmã e eu a filha do Fugenso. Eu fiquei conhecendo o
Jesus e a família dele e viramos amigos.
Agora eu já estou com 74 anos e fui n casa do irmão do
Jesus que se chama Neuso, ele não estava lá, eu
chegando lá e dando a esposa dele conhecimento fui
convidado a entrar pela porta da cozinha, quando ele
chegou eu falei com ele que eu estava invadindo a
cozinha dele e ele me disse que eu estava em casa e
nós ficamos recordando os tempos passados de
quando nós éramos novos.
Tem muitas coisas atrasadas na história, mas Jajá vou
lembrando.
Eu sou analfabeto, mas não foi por falta do meu pai me
colocar na escola, eu fui ficar com minha avó para
estudar, porém só fiquei por lá 3 meses. Fui para umas
escolas particulares perto de casa, mas só pensava em
namorar e trabalhar.
Quando eu estava com 18 anos fui assistir o exército
de Juiz de Fora, eu tinha muita vontade de assistir, mas
chegando lá me arrependi pois dormia mal e comia só
carne de boi mal cozida com pão. Por isso eu vi que a
vida fora de casa era muito difícil, mas Deus ajudou e
minha classe foi dispensada e eu voltei pra casa. Nesse
tempo nós viajávamos de trem de ferro, nem
condução tinha direito. Chegando em Senador Firmino
eu saí para casa a pé, eram 3 léguas de distância, junto
comigo vinha o senhor José Pereira, que morava no
Córrego do Inferno, ele estava de cavalo. Quando
chegamos na encruzilhada do Palmeira ele disse que se
achasse uma condução me emprestaria o cavalo para
eu ir para minha casa, depois desse episódio viramos
amigos e quando ele se mudou para Perto de Brás
Pires viramos vizinhos. Fui comprar um carro de milho
dele, ou seja, 10 sacos de milho, no dia que eu fui
buscar o milho ele me pediu para puxar esterco, puxei
o esterco e então ele não quis cobrar o milho de mim.
A família foi crescendo e eu e a Cassinha continuamos
trabalhando juntos, quando alguém ficava doente a
gente sofria, mas se estávamos com saúde as coisas
moviam.
Naquele tempo, lá em casa tínhamos cinco ou seis
companheiros, sempre eram João Begim, Chico Batista,
Vicente Batista e outros. O almoço sempre era as 9hrs,
o café 12hrs e o jantar as 16hrs, e nós trabalhávamos
enquanto tinha sol.
Quem levava comida na roça era a Cassinha, sempre ia
uma irmã com ela, primeiro foi a comadre Ceção,
depois comadre Geni e a comadre Gracinha que
tínhamos como filha.
Um dia eu fui levar creme em Senador Firmino, lá em
casa tinha uns companheiros e os meus filhos, Zezé e
Josias, que eram carregadores de água. Meus filhos
ainda eram pequenos e nesse dia armou uma chuva
forte, a Cassinha tinha ido levar janta na roça, era um
quilômetro de distância, ela sofreu bastante nesse dia
teve que juntar uma gamela e ir embora na chuva e no
vento. O vento foi tão forte que tiveram que trazer
Josias no colo.
Os meus filhos foram crescendo e os companheiros
diminuindo, mas João Siana sempre estava lá. Josias e
João Siana foram tomando conta do serviço depois
José Theli e Adailton foram crescendo e ajudando
também. O João parecia ser um filho mais velho meu,
ele sempre estava a frente dos serviços, eu passava as
obrigações e eles faziam.
A Cassinha foi ficando doente e eu fui ajudando a
cuidar da saúde dela. Quando ela teve que fazer uma
cirurgia, meu filho José já era arador de terra e minha
filha Silvana era candieira, na época meu pai ajudou a
cuidar deles.
Eu e Cassinha trabalhávamos muito para ter alguma
coisa na vida, só não demos tantas coisas aos nossos
filhos porque a Irene, Silvana, Marta e Rita tiraram até
a quarta série e o José, Josias e José Theli até a oitava
série, e o Adailton não tirou pois não quis. O trabalho
era muito, mas eu dava prazo para eles estudarem.
Aparecida e Soninha foram para Ubá estudar, mas a
Soninha voltou depois de dois dias, com certeza não
quis estudar lá.
A família cresceu e nós continuamos na engenhoca de
pau, moendo de dois lados, depois compramos uma
engenhoca de ferro. A Cassinha e a comadre Sadê
cortavam a cana e junto com os meninos moíam na
engenhoca de ferro.
Cassinha e a comadre Sadê faziam até serviços de
homem, plantavam rama de batata, faziam lavoura de
mandioca e faziam também polvilho para fazer biscoito
para a agente comer e para vender, as duas eram
como irmãs.
Eu pegava o animal, e a Cassinha e os meninos se
viravam com ele. Eles moíam cana com animal na
engenhoca, eles começaram a fazer melado e rapadura
para despesa. O que mais fazia rapadura era o
Adailton, o que mais carreava era o José Theli e ele
também era o que mais cuidava do retiro.
Meus filhos foram virando rapazes e eu fui passando as
obrigações a eles. Eles amansavam boi, resolviam
bastante coisa sem eu ter que mandar.
Meus filhos gostavam de jogar bola, quando o José e o
Josias saíam para jogar o Adailton e o José Theli
cuidavam das obrigações.
Depois os meus dois filhos foram para São Paulo,
primeiro foi o Zezé, eu sempre chorava quando eles
iam, eles faziam muita falta em casa. O José era o
carreiro e o Josias era candieiri. Depois o Josias foi
embora também, o que me deixou mais triste.
Depois que os meninos foram para São Paulo o João
Theli virou o carreiro e o Adailton o candieiro, mas eles
trocavam as vezes. Eu precisava de três, eu o candieiro
e o tocador, e meus dois filhos se viravam sozinhos.
Tinha dia que eu era candieiro de qualquer um dos
quatro.
Quando os meus dois filhos mais velhos foram embora,
José Theli e Adailton ficaram e as vezes nós saíamos
para jogar bola. Deixei uma vaca parida no terreiro, ela
se chamava Papita, eu falei com a Cassinha para
prender os bezerros. Quando a Cassinha foi separá-la
dos filhotes ela avançou em Cassinha que deu uma
cacetada na vaca e quebrou o chifre dela. Assim que eu
cheguei em casa ela veio me contar a história e eu
disse que ela deveria ter quebrado os dois chifres,
porque antes a vaca sem chifres do que ela
machucada. Depois desse acontecimento eu tive mais
confiança de sair de casa, pois Cassinha resolvia as
coisas.
A Cassinha só não gostava de tratar dos porcos, mas
quando a gente atrasava no jogo ou em qualquer outro
lugar, ela resolvia as obrigações do terreiro. Quando
chegávamos em casa as obrigações estavam feitas, a
janta pronta e a Cassinha alegre.
A Cassinha foi ficando doente e as coisas foram se
complicando. Quando ela começou a ficar doente o
nosso médico era o Nonô Abrantino de Presidente
Bernardes, a doença foi se complicando, o Nonô a
mandou para outro médico e meu deu o
encaminhamento para o Dr. José Augusto e o Dr. Jorge,
que eram de Senador Firmino. Aí eu estava com seis
filhos morando em São Paulo, então eles levaram a
Cassinha para São Paulo para fazer o tratamento. Eu e
José Theli ficamos em casa cuidando das obrigações.
Sem a Cassinha em casa eu comecei a perder o rumo e
falei em vender Sítio e ir para São Paulo. Na época pedi
100 mil reais, mas ninguém comprou. Depois José Theli
foi para SP também, complicou mais ainda. Fiquei
tirando leite sozinho e as coisas só se complicavam.
Eu ia visitar a Cassinha em São Paulo de mês em mês, e
durante a minha ausência eu arrumava um retireiro,
quando não era o Thélio do Silvino Condé era o
Mangelo do Toê Leopoldino. O Thélio não me cobrava,
eu ficava devendo obrigação, o Mangelo também não
me cobrava, mas eu dava algumas obrigações e
gorjetas para ele.
Eu precisava de outros para me ajudar aplicar remédio
no gado, era o Mangelo ou o José do Totó Bazílio.
Minha vida ficava cada vez mais complicada, eu
pensava em me mudar para São Paulo, estava longe da
Cassinha e não sabia o que eu ia fazer. Os meninos
estavam cuidando dela e não tinha quem cuidasse de
mim.
O Júlio, que era meu terceiro genro, cuidou muito da
Cassinha, ele a levava no médico e ajudava em outras
coisas também. Ele que arrumou os papéis para ela
aposentarem São Paulo, fiquei devendo muita
obrigação para ele e a Marta que só Deus pode pagar.
Os outros filhos também ajudaram a Cassinha, as
minhas filhas Soninha e Rita me olhavam em Brás
Pires.
Eu ameacei vender o terreno algumas vezes, mas não
achava ninguém para comprar pelo preço que valia. A
Cassinha voltou de São Paulo depois do tratamento,
ficamos mais dois anos juntos com a Rita e a Soninha
ajudando a cuidar, e os médicos eram os mesmos Dr.
Jorge, Dr. Jason e Dr. José Augusto.
As coisas continuavam se complicando, meu filho José
foi fazer uma cirurgia no coração em São Paulo, já
estávamos em 2001. Eu e a Cassinha fomos em junho
para SP acompanhar ele, só que em agosto eu tive que
voltar pois ele fez outra operação no coração. Ele ficou
14 dias na UTI no mês de agosto, eu o visitei 15 vezes
quando eles estavam na UTI, eu pedi a morte dele pois
era sofrimento demais, eu só consegui ver ele porque
Deus me ajudou. O José Theli foi comigo na UTI e
passou mal quando viu o irmão sofrendo daquele jeito.
Em outubro de 2001 o José me ligou e disse que ia
passar o natal comigo e eu fiquei muito feliz com a
melhora dele, mas no dia 19 recebi uma ligação me e
me falaram que ele tinha falecido e o sepultamento iria
ser em Brás Pires.
Eu estava na roça e foi um portador, o Tatá, a me
contar a má notícia. Quando eu cheguei em casa
encontrei o Dr. Jason cuidando da Cassinha pois ela
estava triste também. Meu filho que me ajudou na
roça, estudava e trabalhava, morreu.
No dia 6 de outubro de 2002, mais uma complicação
na minha vida, a Cassinha Morreu.
Fiquei no sítio e fui cuidando de lá, batia pasto, o gado
eu tinha passado para os meninos. Ficou comigo 4
cabeças de gado do Jose Theli, troquei esses quatro em
nove bezerros vieram sete machos e duas fêmeas. As
fêmeas rendiam leite e eu dava o leite para os outro,
os machos eu e Mangelo amansamos, ficamos com 14
cabeças de gado. Depois eu comprei mais, esse gado
eu recolhi para o José Theli e criei, tirei uma para
minha neta Carolina e as outras quatro que eu comprei
eu dividi entro os outros netos. Uns me agradeceram
outros não.
Quando eu falei em vender a terra de novo aumentei
um pouco o valor que eu queria, fiz um inventário e
doação junto e fiquei sem nada.
Estava José Theli, Adailton, Aparecida, Rita e Soninha.
Aparecida e Soninha ficaram na casa da comadre Zinha
para estudar.
A casa da comadre Zinha parecia minha casa, chegava
lá eu era recebido igual filho. Ela me apresentou um
lote, de uma filha de criação dela, que queria vender
para mim.
Era uma velha que tinha muitos filhos de criação, ela
tinha apelido de Zinha e ficou viúva, depois se casou
com um homem chamado Antônio de Paiva que
considerava a gente como filho também.
O meu filho Adailton eu dei para comadre Zinha e o
sobrinho dela Euvécio batizar, e eu e Euvécio viramos
amigos.
Ela fez eu comprar um lote com 10m de frente, 100m
lateral e 5m de fundo, paguei R$ 60,00 e ainda tive
prazo de 30 dias para pagar. Eu recebi a escritura no
nome da comadre Zinha, ela só assinou para mim.
Eu fui construir a casa sem poder, compadre Euvécio
fez a casa para mim e eu fui pagando ele do jeito que
podia. Quem fez os tijolos foi o José Theli, Adailton e o
João Siana, a Rita era cozinheira e fazia comida na casa
da comadre Zinha para os pedreiros, que era o Euvécio
e os 3 que faziam os tijolos.
Antes de fazer a casa eu e minha família ficamos na
casa da comadre Zinha e usávamos a cozinha juntos na
época de festa. Nesse tempo a Cassinha ainda cuidava
bem das coisas.
Sempre matávamos capado, eu, João Siana e a
Cassinha vendíamos muito capado para Totó Inácio, o
primeiro açougueiro que teve em Brás Pires. Minha
esposa era tão animada que levantava de madrugada,
João Siana sempre estava lá com a gente.
Um dia eu dei uma madrugada de casa para outros
açougueiros, o Bento e o Milagre. Fui e voltei em Brás
Pires antes do dia amanhecer.
Graças a Deus os primeiros conhecidos que eu tive em
Brás Pires foram os Cardoso e os Pivellis, eram os mais
falados na cidade.
O primeiro escrivão que conheci foi o Joaquim Nunes
Cardoso, que tinha o apelido de Grigório, aí vieram
filhos, netos e todos amigos.
Quando eu estava com 17 anos minha mãe foi fazer
um tratamento em Barbacena e ficou na casa do irmão
dela. O jipe do padre Zizinho que foi levar ela em Dores
do Turvo, lá ela ia pegar o ônibus até Barbacena. O
motorista foi o Neuso Nogueira que era o prefeito de
Brás Pires na época.
Minha mãe e meu pai ficaram na casa do meu tio e
padrinho em Senhora dos Remédios, ele fazia de tudo
pra gente. Minha mãe e meu pai ficaram lá por três
meses e eu fiquei sozinho em Brás Pires cuidando das
coisas.
Eu sempre ia visitá-los e eram 10 léguas de distância.
Um dia eu saí de casa 10hrs da noite, quando fiquei
com sono eram 1 hora da madrugada, apeei do animal
desarreei ele, fiz uma cama com umas mantas e cobri
com a capa, dormi por 2hrs e acordei com uns bêbados
gritando, aí arriei o animal de novo e segui viagem.
Quando cheguei na casa do meu tio já era 8hrs da
manhã. Por causa do amor que eu tinha pela minha
mãe não tive medo de andar a noite. Quando eu
cheguei na casa do meu tio o pessoal admiravam a
minha coragem, pois andar essas horas era difícil até
para duas pessoas quem dirá para uma só.
Eu ainda estava solteiro nessa ocasião e minha mãe
estava fazendo tratamento, fui em Brás Pires e cheguei
em casa as 11 horas da noite, os ladrões me roubaram
2 animais e roubaram de outros vizinhos também.
Antes deles chegarem na minha casa já tinham
roubado 5. Eu e dois amigos, Sebastião Moreira e
Geraldo Gomes, fomos atrás dos animais.
Achamos os animais em uma capoeira e cabeceira, lá
se chamava Jacarandá e ficava perto de São Manuel, o
ladrão já tinha viajado 3 léguas, nesse dia eu tive muita
coragem.
Os animais estavam amarrados com os queixos para
cima, lá tinha sete animais roubados, os meus e de
outros amigos, isso foi uma barbaridade.
Mandamos buscar a polícia em Senador Firmino, o
delegado disse que a polícia não viria e que era pra
fazermos o que pudéssemos. Teríamos que passar em
Senador para rever os animais, então eles nos
intimaram para a gente dormir com os animais.
Nós bancamos autoridade, intimamos um empreiteiro
que tinha lá em Jacarandá para ele mostrar o caminho
até a Senador Firmino pra gente. Quando ele queria
voltar do caminho nós não deixamos, chegando em
Senador ele dormiu na cadeia e no outro dia soltaram
ele. Mas ele era cumplice dos ladrões, pois ele levava
alimento para eles e não deixou a gente entrar na casa
dele para pegar os ladrões.
Conheci Brás Pires quando as ruas nãos eram calçadas,
atrás da igreja tinha buraco de enxurrada, lá não tinha
muro, ao redor da igreja não tinha passeio e ela era
velha de soalho, mas era bonita. Tinha o córrego pato
no meio da rua, um moinho onde é o açougue do Sr.
Cícero e tinha uma torneira na rua para tomar água ou
lavar os pés. A escola era na casa do João Bosco,
amarrávamos os animais em qualquer lugar e as coisas
vinham de Senador no carro de boi para serem
vendidas.
O nosso padre era o José Maria Quintão Rivelli, tinha o
apelido de Padre Zizinho. Ele melhorou a educação de
Brás Pires, construiu um grupo no antigo ginásio, fez o
salão paroquial, demoliu a antiga igreja e fez uma nova
isso tudo com a ajuda do povo de Brás Pires. Eu
mesmo ajudei bastante, dei um carro de milho, mas
parece que não ajudei em nada. Quando eu, Benedito
Jaba e o Dé do Bastião Patucino entramos na igreja
com os carros eu pensei em tirar um retrato dos
carros, porém não tinha nenhum retratista.
Depois vendi uma junta de boi por mil reais, era uma
junta de guia. Era a junta de boi mais bonita da região,
mas não me fez falta. Doei o dinheiro dessa venda para
igreja.
No ano seguinte Pe. Zizinho foi passear lá em casa,
nessa época eu tinha dez vacas paridas e dez bezerros.
Falei com o Pe. Zizinho que a junta de bois que eu
vendi não tinham me feito falta pois agora tinha dez
bezerros. Pedi ao padre que escolhesse um bezerro
para São Sebastião e eles escolheu, a benção de Deus e
do Pe. Zizinho aumentou o meu gado e nada me faltou.
Lembro do Pe. Zizinho, compadre Márcio e outros
amigos, eles iam chupar jaboticaba lá em casa com
uma turma de sobrinhos, eram todos amigos do meu
pai também. Lá em casa tinha um pé de jaboticaba que
era exclusivo do Pe. Zizinho, papai não deixava
ninguém pegar fruta nele. Ele pescava também e nós
conversávamos bastante, ele só nos dava conselhos
bons. Cassinha sempre deixava um café e as vezes
biscoitos e broas de fubá para ele pois era um padre
bom e simples.
Agradecemos ao José Ferreira de Paula, Marcelino
Ferreira de Paula e pela Rita de Cássia da Silva por
terem educado nossa família.
Em primeiro lugar gostaria de pedir desculpas ao padre
Zizinho e ao povo de Brás Pires.
Repetindo sobre meu namoro com a Cassinha, ela era
da irmandade, filha de Maria, o povo hoje não sabe o
que é isso, mas elas usavam vestido branco com fita
azul e medalha no pescoço.
No dia do nosso casamento, 20 de maio de 1957,
trocaram a fita azul por uma vermelha para ela
continuar sendo da irmandade, só que essa se
chamava Sagrado Coração de Jesus e ela permaneceu
nela até seu último momento de vida.
Hoje em dia nos lembramos que não tiramos retrato,
pois naquele tempo não se usava retratista, mas
mesmo assim sinto saudades daquele tempo em que
trabalhávamos muito e não tínhamos o conforto que
temos hoje.
Recordação do meu passeio para São Paulo
Viajamos para São Paulo no dia 23 de junho e fizemos
uma ótima viagem. Dia 23 às 11hrs saímos de Brás
Pires, fomos de caminhão até Ubá, chegamos lá as
2hrs, descansamos e fomos para casa da tia Chiquita.
Depois fomos para rodoviária, saímos de Ubá era 8hrs.
Paramos quatro vezes e chegamos em São Paulo as
7hrs da manhã, eu, Cassinha e a madrinha Tiana. O
Carlos estava nos esperando na rodoviária.
Na rodoviária nós nos separamos, a madrinha Tiana foi
para casa do filho e eu e Cassinha fomos para casa do
compadre José do Carmo, ninguém estava esperando a
gente e o papo foi muito bom.
No mesmo dia que chegamos e eu o compadre José do
Carmo demos uma volta e fomos até a casa do Dico.
Depois eu e Cassinha fomos na casa da comadre Ceção,
voltamos a noite para casa do José do Carmo.
Dia 25, o Dico foi conosco na casa da tia Alice Tamiro,
voltamos a tarde e passamos em um bar, o Dico disse
que ia tomar um mé (pinga), depois chegamos na casa
dele e foi aquela alegria, estava lá a madrinha Amélia e
a tia Julieta. Dormimos lá.
No dia 26, saímos de novo com Dico, fomos no tio
Antônio Simão, depois fomos para a casa da comadre
Geny e ficamos por um tempo lá.
A noite fomos na casa do José Vaz, voltamos com o
Dico, lembramos dos tempos passados e foi um grande
prazer. Nós voltamos depois para a casa do compadre
José e dormimos lá.
Dia 27, o compadre José nos levou para o casamento
da Margarida, madrinha da Tiana. Fizemos um passeio
fomos na casa da comadre Mariquinha, na casa do José
Tiana e na casa do Antônio Dondim, e foi um prazer.
Dia 28, saímos com o compadre José do Carmo, fomos
na casa da comadre Noeme, na casa do Júlio. Depois
fomos onde o José Gomes estava e eles nos levou na
casa do Silvério e depois fomos na casa do Compadre
Sodico e ficamos por lá.
Dia 29, fomos para a casa do João Ricardo e lá tivemos
no Corgésio, José Rosa, comadre Sônia, José Quilim,
compadre Amado e na casa da mãe do José Rosa. A
noite o José Ricardo nos levou na casa da irmã dele e
foi um prazer revê-la.
Dia 30, eu, José e Corgésio fomos na casa do José
Coelho. A tarde José Rosa nos levou para Campinas na
casa do compadre Joaquim e o papo foi muito bom.
No dia 01 de julho, voltamos para a casa do José Rosa e
o Júlio estava esperando a gente e lá nós almoçamos.
Depois fomos no zoológico e ficamos até tarde lá.
Quando voltamos fomos até a casa do Zim, saímos de
lá e fomos na casa do Juça e depois voltamos e
dormimos na casa do João Ricardo.
Dia 02, fomos na igreja e com o Júlio e depois fomos
andar de metrô, no aeroporto e jantamos na casa da
comadre Geny e depois fomos para casa da comadre
Mariquinha.
Dia 03, eu e o Júlio fomos na casa do Zico e voltamos
molhados. A noite eu, José Rufino e o Vicente Paula
fomos na casa do João Gripino e na casa do João
Eudes. Nessa noite dormimos na casa do José Rufino.
Dia 04, saímos com o Júlio e o João Bosco e fomos na
casa do compadre Geraldo, da Divina, da Naninha e do
José Rufino onde almoçamos. Depois de lá fomos na
Aparecida do Maurílio, no Geraldo da Felismina, no
Osmaro, Tunico, Neto, Remualdo Nestriano e Sogê.
Jantamos na casa da Marilda e voltamos para a casa do
José Rufino.
Dia 05, saímos com José e fomos para a casa do José
do Carmo, depois estivemos na casa do Dico e
encontramos com o Monteiro, genro do tio Antônio
Simão. Nesse dia ainda fomos na casa do tio Antônio,
da Neca, do tio Joaquim e na comadre Cição.
Dia 06, nós fomos na casa da comadre Geny e eu fui
com o Dico buscar umas ferragens, saímos as 11hrs da
manhã e só retornamos as 22hrs da noite. Dormimos
na casa do José do Carmo.
Dia 07, fomos na casa do José Maria do Benedito e do
Luís Siana. O José Maria nos levou na casa do
compadre Jovem e do Pedro Mané, quando saímos de
lá fomos na casa da comadre Gracinha.
Dia 08, eu e o Júlio saímos de lá e fomos na casa do
Geraldo da Felismina, de lá fomos na casa do Joaquim
Rosa e voltamos de lá já era noite. Fomos também na
casa do Júlio e do José Gomes.
Dia 09, estivemos na casa da Rosária, do Tônio, e do Sr.
Juca. O compadre Élio nos acompanhou quando fomos
na casa da comadre Ceção, nesse dia dormimos na
casa do compadre Élio.
Dia 10, saímos com o Dico, tia Julieta e a comadre
Gracinha e fomos na casa da comadre Amélia em São
Miguel. Depois passamos na casa do Tatão Levino, no
Juca e no José Rocha.
Dia 11, Luiz e José Maria foram com a gente na casa do
Dico e de lá nós fomos para um bar. Júlio chegou
depois e nós bebemos cerveja, comemos um “tira-
gosto” e jogamos sinuca. Nesse dia eu tratei de
almoçar na casa do compadre Élio, mas cheguei lá já
era 21hrs da noite. A Cassina passou o dia com a as
comadres Ceção e Geny.
Dia 12, saímos com a Ceção, José e Marta e fomos até
a casa da Maria e passamos o dia lá. Era pra termos ido
até Aparecida do Norte, porém tiveram imprevistos e
não conseguimos ir.
Dia 13, almoçamos na casa do Corgésio e passeamos
com o José Rosa e depois fomos para a casa da
comadre Gracinha.
Dia 14, fomos com a comadre Gracinha até a casa da
tia Alice. Lá encontramos com o tio José pequeno e a
tia Terezinha. Nesse dia dormimos na casa da comadre
Ceção.
Dia 15, nós nos despedimos de todos e o Dico nos
levou para a casa do Monteiro, do José Rufino e por
fim na casa do compadre Zico para passar a noite e nos
despedir. No outro dia o José Rufino nos levou na
Rodoviária.
Partimos para Minas as 6hrs da manhã, chegamos em
Ubá as 5hrs da manhã do dia 17. Quando foi meio dia
chegamos em Brás Pires.
Voltando a falar de quando estava fazendo minha casa
na cidade de Brás Pires.
O Euvécio e Enrique eram os pedreiros e o João Siana,
José Theli, Adailton, Vicente, meu primeiro genro, um
amigo que ele trouxe, o compadre Sonego e Antônio
Genuíno ajudaram a bater a laje.
Eu fui buscar a areia que estava faltando no caminhão
da prefeitura. O motorista era o Zé Miranda Rivelli, que
tinha o apelido de Zé Capeta. Ele tinha esse porque uns
missionários aqui em Brás Pires falaram que não podia
morar na casa de capim porque tinha chupão (bicho
que chupa sangue). O Zé Miranda Rivelli é sobrinho do
padre Zizinho, e era muito arteiro. Brás Pires tinha
muitas casas de capim, ainda era um arraial, mesmo
com os missionários falando que não podia morar na
casa de capim, Zé Miranda colou fogo em uma casa de
capim e por isso teve esse apelido de Zé Capeta.
Hoje eu e Zé Capeta somos muito amigos. Quando eu
comprei o primeiro terreno, na hora de passar a
escritura me faltava 300,00 reais, Zé Miranda me
emprestou, por isso que nós viramos amigos de
verdade.
Lembrando dos assuntos passados, vendi o sítio, dei
tudo para meus filhos e propus de cada um me dar mil
reais. Com esse dinheiro comprei dois lotes de 10x25
em Brás Pires e já comecei a construir um muro e um
barraco, pois estava pensando em morar lá.
Hoje eu tenho 3 moradas, uma é a casa da minha filha
Rita, que Deus ajudou que a Rita e o Camilo
compraram as partes dos irmãos dela, o Camilo é
esposo da Rita, ele me recebe aqui como se eu fosse
pai dele.
Infelizmente estou morando com uma mulher
amigada, eu até pensava em me casar, mas achava que
não ia dar certo, e certo não tá dando porque morar
amigado é muito feio, não é falta dos meus filhos me
chamarem para morar com eles, eu já estou velho e
não tenho paciência para menino mais. E não tenho
direito de corrigi-los igual eu corrigia os meus filhos,
um ou outro pode não se importar, mas outros se
importam.
No dia 28 de julho de 2010 estou recordando, estou
fazendo 76 anos e meio de idade, e 7 anos e 9 meses
de viúvo.
Sinto que sou analfabeto, eu estou ditando, quem
escreve é minha neta Carolina, me desculpe se estiver
alguma coisa errada.
Penso em viver mais, porque mesmo com as
dificuldades da vida é melhor viver é melhor do que
morrer.
27 de outubro de 2011.