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Memorial Do Convento

Memorial do Convento narra a construção do convento de Mafra, simbolizando a opressão e exploração do povo pelos poderes absolutistas e religiosos, enquanto destaca a resistência e dignidade dos trabalhadores. A história entre Baltasar e Blimunda representa um amor livre e profundo, contrastando com a frieza da corte, e a figura de Bartolomeu de Gusmão simboliza a busca pela liberdade e conhecimento. A obra critica a hipocrisia do poder e celebra a força do povo como verdadeiro herói coletivo, revelando a luta entre o sonho e a realidade.

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Mara Coelho
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Memorial Do Convento

Memorial do Convento narra a construção do convento de Mafra, simbolizando a opressão e exploração do povo pelos poderes absolutistas e religiosos, enquanto destaca a resistência e dignidade dos trabalhadores. A história entre Baltasar e Blimunda representa um amor livre e profundo, contrastando com a frieza da corte, e a figura de Bartolomeu de Gusmão simboliza a busca pela liberdade e conhecimento. A obra critica a hipocrisia do poder e celebra a força do povo como verdadeiro herói coletivo, revelando a luta entre o sonho e a realidade.

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Memorial do Convento

1. «Era uma vez um rei que fez a promessa de levantar um convento em Mafra. Era uma vez a gente que
construiu esse convento.»
D. João V, rei de Portugal, promete, aos frades franciscanos, construir um convento em Mafra se a rainha D.
Maria Ana lhe der um filho dentro de 1 ano. A promessa cumpre-se com a gravidez da rainha, e o convento
começa a ser erguido. O alargamento do convento para albergar 300 frades, contrariamente aos 80 iniciais, é
fruto da megalomania do rei. Esta narrativa revela o contraste entre a opulência régia e o sofrimento do povo que
trabalha nas obras. São milhares de homens, muitos forçados ou iludidos, que enfrentam fome, cansaço e
violência. O convento torna-se símbolo do poder absolutista disfarçado de devoção, sendo construído à custa do
suor e sangue dos mais pobres.

Repercussões económicas, compra e venda de terras em Mafra, o esbanjamento e a falta de controlo financeiro.
Repercussões sociais, aproveitamento da desgraça humana de uns para o lucro de alguns, a “epopeia da pedra”
como representação do esforço sobre-humano dos trabalhadores, as péssimas condições de trabalho (ex:
pragas, acidentes e mortes) e o recrutamento brutal e desumano que conduz à separação de famílias.

Rei e Rainha:
●​ Relação contratual, politicamente conveniente, sendo o único objetivo procriar, no sentido de assegurar um
sucessor ao trono.
●​ Casamento pautado pela distância física (cordialidade e cortesia na intimidade: artificialismo), a ausência de
afetividade e a frieza.
●​ Consequências- as infidelidades do rei; os sonhos da rainha com o seu cunhado, o infante [Link].

2. «Era uma vez um soldado maneta e uma mulher que tinha poderes.»

Baltasar Mateus, conhecido por Sete-Sóis, é um ex-soldado que perdeu a mão esquerda na guerra. De regresso
a Portugal, conhece Blimunda Sete-Luas, uma mulher com o dom de ver por dentro das pessoas quando está em
jejum. Juntos vivem um amor profundo e cúmplice, afastado das normas sociais. A relação deles é uma força
silenciosa de resistência contra o mundo que os exclui. Unidos, vão participar na construção da passarola, a
máquina voadora, partilhando sonhos e vontades, e vivendo à margem da religião e do poder.

Blimunda e Baltasar:
●​ Casal transgressor dos códigos estabelecidos, não são casados (apesar da sua união ter sido abençoada
pelo padre Bartolomeu Lourenço, numa cerimónia matrimonial simbólica), não procriam e entregam-se às
carícias e aos jogos eróticos, sem olharem a limites, lugares ou datas – vivem um amor sem regras e sem
limites, instintivo e natural.
●​ O seu amor é físico e espiritual: «dão-se um ao outro» com frequência e o «olhar é a sua casa»;
complementam-se, sendo rebatizados por Bartolomeu Lourenço, como «Sete-Sóis» e «Sete-Luas».
●​ Pertencem um ao outro, daí a «vontade» de Baltasar de entrar em Blimunda, resgatando-o simbolicamente
da morte, numa espécie de fecundação e perpetuação do amor que os une.

3. «Era uma vez um padre que queria voar e morreu doido.»


Padre Bartolomeu Lourenço de Gusmão, honrado pregador da corte de D. João V, faz sermões talentosos e
virtuosos, mas tem grandes dúvidas sobre o que é a religião, dado que presencia os comportamentos devassos
dos seus colegas e considera a Inquisição uma instituição ilógica e injusta, o que o conduzirá à loucura e morte
em Toledo, é um padre-cientista que sonha com a possibilidade de voar.
Com a ajuda de Baltasar e Blimunda, constroi a passarola, uma máquina movida pela energia das vontades
humanas (2000), que Blimunda é capaz de recolher. A máquina chega a voar, simbolizando o ideal de liberdade e
superação humana. No entanto, a Inquisição persegue Bartolomeu, e ele acaba por enlouquecer, após fugir para
Toledo (Espanha).
Representa a subversão à ordem instituída, o valor do conhecimento, o desejo de ultrapassar limites e o poder do
sonho. Associa o ato de sonhar à força da vontade humana, que supera todas as outras energias ou matérias.
Análise de personagens:

●​ D. João V - Figura do absolutismo, símbolo do poder que se mascara de fé. A construção do convento é
menos um gesto religioso do que um acto de orgulho e de vaidade. É retratado com ironia, como alguém mais
preocupado com a sucessão e a glória do que com o bem do povo.
●​ Blimunda Sete-Luas - Personagem enigmática, representa o feminino intuitivo, o sobrenatural e a resistência
silenciosa. O seu dom de ver a essência das coisas torna-a uma espécie de vidente do humano. É forte, leal e
profundamente ligada ao amor e à liberdade.
●​ Baltasar Sete-Sóis - Homem simples, trabalhador e ferido pela guerra. A perda da mão simboliza a perda de
poder e autonomia, mas a sua relação com Blimunda e o envolvimento com a passarola mostram a sua
transformação em alguém que acredita no sonho e no impossível.
●​ Padre Bartolomeu de Gusmão - Intelectual e inventor, é o elo entre ciência, sonho e fé. A sua queda revela a
intolerância do sistema contra a inovação. É um mártir do conhecimento e da imaginação.
●​ Domenico Scarlatti - Representa a sensibilidade criadora, o poder da redenção através da música, a
capacidade de harmonizar o ser inteligível e o ser sensível; a música desempenha um papel mediador entre o
homem e o divino, é a arte de atingir a perfeição. Por isso, a música surge no romance para que se torne
possível a ascensão do sonho.
●​ D. Maria Ana Josefa - mulher submissa à vontade do rei, respeitando-o e obedecendo-lhe, e rejeitando o seu
cunhado,a quem ama, o infante D. Francisco.
●​ Herói coletivo (povo) - foram os populares incógnitos,sobre quem nunca rezou a História de Portugal,que
realmente construíram o Convento de Mafra,e não propriamente el-rei D. João V

Simbologia:
●​ Número 3 - Três são os elementos (em jeito de triângulo perfeito, como o da Santíssima Trindade) que
compõem o centro da construção da passarola – o Padre Bartolomeu Lourenço de Gusmão, Baltasar Mateus
e Blimunda de Jesus;
●​ Número 7 - Sete é o número incluído nas alcunhas de Sete-Sóis (vê às claras) e Sete-Luas (vê às escuras),
como que a pressagiar um futuro trágico, que vai acontecer, de facto, com a morte de Baltasar e a viuvez de
Blimunda.
●​ Passarola - a concretização dos sonhos; a capacidade libertadora alicerçada na vontade dos homens.
●​ Música - simboliza a associação à plenitude da vida cósmica, a harmonia das faculdades da alma e dos
elementos do corpo, o poder que propicia o regresso da vontade: a cura da «doença» de Blimunda.y
●​ Trindade terrestre - Padre Bartolomeu/Baltasar/Blimunda: «o pai, o filho e o espírito santo»; a conjugação dos
saberes, a união do homem e o seu poder infinito de construir.
●​ Vontades humanas - simbolizam todos aqueles que contribuem para o progresso do mundo, a força do
desejo e do sonho humano e a potencialidade criadora.
●​ Amputação da mão esquerda - «maneta é Deus, e fez o universo», pois a bíblia só fala na mão direita de
Deus.
●​ Convento - Simboliza a opressão e a submissão dos mais fracos (por sujeição a uma vontade megalómana)

Memorial do Convento - Parte C

1. O povo como heroi em Memorial do Convento

Em Memorial do Convento, José Saramago coloca o povo no centro da narrativa como o verdadeiro heroi
colectivo. São os trabalhadores, os artesãos, os camponeses e os marginalizados que constroem, com as suas
mãos calejadas, o imponente convento de Mafra. Embora não tenham nome individual, são representados como
uma força viva, resistente, anónima mas essencial. Saramago denuncia a exploração dessas massas pelo poder
real e religioso, dando voz a quem a história oficial frequentemente ignora. Este povo é vitimado pela fome, pela
injustiça e pelo trabalho forçado, mas também detém a força silenciosa da persistência. A sua existência é
marcada por sofrimento, mas também por uma dignidade silenciosa, que desafia os abusos do poder. Ao
contrário do rei ou dos padres, o povo não precisa de ser lembrado pelo nome: o seu legado está nas pedras do
convento que ergueram com sangue e suor.
2. O narrador de Memorial do Convento

O narrador de Memorial do Convento é uma das marcas mais distintivas do estilo de José Saramago. Trata-se de
um narrador omnisciente, que tudo sabe sobre as personagens e acontecimentos, mas que intervém de forma
crítica e irónica. A voz narrativa é marcadamente subjectiva, frequentemente a comentar os factos, a interpelar o
leitor ou a fazer digressões filosóficas e políticas. Não se limita a contar a história; julga, critica e ironiza,
desconstruindo as verdades históricas oficiais e dando destaque aos esquecidos, o “memorial de A a Z” . Usa
uma linguagem rica, cheia de ritmo e cadência, com longos parágrafos e pontuação pouco convencional. Esta
opção estilística obriga o leitor a um papel ativo, a interpretar e questionar. Assim, o narrador não é apenas um
mediador da narrativa: é uma personagem quase própria, que encarna a visão crítica e humanista do autor.

3. O amor em Memorial do Convento

O amor, em Memorial do Convento, é representado de forma sublime através da relação entre Baltasar Sete-Sóis
e Blimunda Sete-Luas. Este é um amor construído na cumplicidade, na partilha do quotidiano, na resistência ao
mundo opressor que os rodeia. É um amor silencioso, profundo e espiritual, que transcende o corpo e as
palavras. Blimunda, com o seu dom de ver as vontades, e Baltasar, com a sua mão amputada, encontram um no
outro aquilo que o mundo lhes recusa: aceitação, compreensão e liberdade. O amor deles não é idealizado, mas
vivido com intensidade e realismo. Saramago mostra que é no meio da adversidade que o amor verdadeiro se
manifesta. Esta relação contrasta com os afetos frios da corte e da Igreja, revelando o amor como último reduto
de humanidade num mundo marcado pela opressão.

4. A construção do convento e as suas repercussões

A construção do Convento de Mafra, em Memorial do Convento, é o eixo em torno do qual giram as três linhas
narrativas principais. Representa um ato de ostentação e vaidade do rei D. João V, que cumpre uma promessa
religiosa para garantir a continuidade da dinastia. Contudo, este monumento sagrado é edificado com o sacrifício
de milhares de trabalhadores, muitos dos quais forçados ou coagidos com promessas enganadoras. As
repercussões são profundas: além das mortes e sofrimento, expõe-se a hipocrisia da fé usada como instrumento
de poder. A construção do convento é também um espelho da desigualdade social, onde os pobres trabalham
para a glória dos ricos. Saramago critica duramente esta realidade, fazendo do convento um monumento à
exploração e ao sofrimento humano.

5. As descrições sensacionistas em Memorial do Convento

José Saramago recorre frequentemente a descrições sensoriais e sensacionistas em Memorial do Convento,


aproximando o leitor do mundo retratado com intensidade e realismo. As imagens de fome, suor, sangue, dor e
prazeres são evocadas com força, através de uma linguagem rica e concreta. Esta sensorialidade está presente
tanto nas descrições dos trabalhadores do convento como nas cenas de amor, nos autos de fé ou nas paisagens
naturais. O objetivo não é meramente estético, mas provocador: fazer sentir ao leitor a crueldade e a beleza do
mundo, mostrando o corpo como lugar de experiência do poder e da resistência. Saramago transforma o texto
num organismo vivo, onde o leitor quase pode cheirar, ver e tocar o que é descrito. Este efeito reforça o tom
crítico e humano da obra.

6. O contraste entre o significado da passarola e do convento de Mafra

A passarola e o Convento de Mafra, embora ambos grandes construções, têm significados opostos. O convento
simboliza o poder, a ostentação, a obediência à Igreja e a exploração do povo. É construído à custa da dor e
serve a vaidade do rei. Já a passarola, inventada por Bartolomeu de Gusmão com a ajuda de Blimunda e
Baltasar, representa o sonho, a liberdade e a criatividade humana. Enquanto o convento aprisiona e eterniza a
memória do sofrimento, a passarola liberta e simboliza a esperança de um futuro diferente. O contraste entre
ambas mostra dois modos de viver e ver o mundo: um fundado no poder e na tradição, outro na imaginação e no
inconformismo. Saramago valoriza este último como expressão autêntica do humano.

7. O sonho de Bartolomeu de Gusmão


Bartolomeu de Gusmão é a figura do sonhador em Memorial do Convento. O seu desejo de fazer voar a
passarola é uma tentativa de ultrapassar os limites impostos pela religião, pela ciência oficial e pelo poder.
Representa o conhecimento livre, a curiosidade e a ousadia intelectual. A sua invenção não se destina ao lucro
nem à fama, mas à realização do impossível. Contudo, o sonho tem um preço: a perseguição pela Inquisição, o
isolamento, a loucura. Bartolomeu é a imagem trágica do criador incompreendido, num mundo onde sonhar é
perigoso. A sua história contrapõe-se às grandezas vãs do rei, mostrando que a verdadeira grandeza está na
capacidade de imaginar outro mundo. O sonho de voar torna-se assim uma metáfora da liberdade e da
transcendência.

8. Sete-Sóis e Sete-Luas

Baltasar Sete-Sóis e Blimunda Sete-Luas são as figuras centrais de Memorial do Convento, representando duas
forças complementares. Baltasar é o homem ferido, marcado pela guerra, ligado à terra e à ação. Blimunda é a
mulher do olhar interior, dotada de um dom que lhe permite ver as coisas por dentro, quando em jejum. Juntos
simbolizam a união entre o real e o místico, o concreto e o invisível. Não são heróis tradicionais: vivem à margem
da sociedade, fora da religião e da corte, mas criam um amor livre e um projeto comum. Ao ajudarem na
construção da passarola, participam num acto de resistência e crédito no sonho. A sua história de amor e
coragem dá rosto humano à luta contra a opressão e celebra a dignidade dos esquecidos.

9. Os três Bês: a trindade terrestre (Blimunda, Baltasar e Bartolomeu)

A trindade formada por Blimunda, Baltasar e Bartolomeu é uma espécie de contraponto à Trindade divina. Em
vez de Pai, Filho e Espírito Santo, temos três figuras humanas que desafiam as leis da Igreja e do mundo.
Blimunda traz o dom do olhar profundo; Baltasar representa a força do trabalho e da fidelidade; Bartolomeu
encarna o saber e o sonho. Juntos constroem a passarola, projeto de libertação e imaginação. Esta trindade é
terrestre e revolucionária: não procura a salvação eterna, mas a transformação do mundo presente. Contrastam
com a hierarquia do convento, com a pomposidade da corte, e com a repressão da Inquisição. Saramago
oferece, assim, uma nova santidade feita de amor, sonho e humanidade.

10. Visão crítica em Memorial do Convento

Memorial do Convento é, acima de tudo, uma obra de forte visão crítica. Saramago questiona a história oficial,
denuncia os abusos do poder político e religioso, e dá voz aos marginalizados. A ironia do narrador, as
descrições do sofrimento do povo, a vaidade do rei, a crueldade da Inquisição e a hipocrisia da fé institucional
são instrumentos dessa crítica. A obra mostra como os grandes feitos históricos escondem opressões e silêncios.
Ao mesmo tempo, propõe uma alternativa baseada no amor, na imaginação e na resistência. Não se trata apenas
de reconstituir um período histórico, mas de o repensar com um olhar humano. A crítica de Saramago é um
convite a ver o mundo com consciência, empatia e coragem.

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