Apostila Módulo IV Aula 1
Apostila Módulo IV Aula 1
Proponente e Cooperadas
Executoras
1
CURSO BÁSICO SOBRE APROVEITAMENTO ENERGÉTICO DE BIOGÁS DE ATERRO SANITÁRIO
Módulo IV - Tecnologias de Conversão Energética do Biogás
Aula 1 – Máquinas Térmicas
Sumário
1. INTRODUÇÃO......................................................................................................................... 3
2
CURSO BÁSICO SOBRE APROVEITAMENTO ENERGÉTICO DE BIOGÁS DE ATERRO SANITÁRIO
Módulo IV - Tecnologias de Conversão Energética do Biogás
Aula 1 – Máquinas Térmicas
1. INTRODUÇÃO
O assunto principal dessa aula serão as máquinas térmicas. Será feito um breve relato
como e quando essas máquinas surgiram e como foi a sua evolução histórica ao longo do tempo.
Após isso serão mostrados quais são os principais equipamentos utilizados na conversão
energética do biogás de aterros.
Também serão vistos alguns princípios básicos de Termodinâmica que serão essenciais
para a compreensão do funcionamento dessas máquinas que operam com o calor. Tendo em
mente esses princípios depois disso serão apresentados e analisados diversos tipos de ciclos
termodinâmicos que são muito usados para o aquecimento, geração de energia e em sistemas de
refrigeração.
É bom que se faça a definição do que são máquinas térmicas procurando distingui-las dos
aparelhos térmicos. As máquinas térmicas são concebidas para transformar a energia térmica em
energia mecânica. Elas fazem isso aproveitando a energia térmica que é proveniente de uma
fonte de calor em uma temperatura mais elevada, transformando uma parte dessa energia em
trabalho mecânico e rejeitando a parcela restante da energia térmica para uma outra fonte que se
encontra em uma temperatura mais baixa. Os motores de combustão interna nos automóveis e
caminhões são exemplos comuns de máquinas térmicas. Os aparelhos térmicos, por sua vez, não
têm como objetivo a produção de energia mecânica, esses equipamentos operam apenas com
transformações ou transporte de energia térmica de um ponto para outro não se envolvendo com
a energia mecânica. O chuveiro elétrico e o trocador de calor são dois exemplos de aparelhos
térmicos.
3
CURSO BÁSICO SOBRE APROVEITAMENTO ENERGÉTICO DE BIOGÁS DE ATERRO SANITÁRIO
Módulo IV - Tecnologias de Conversão Energética do Biogás
Aula 1 – Máquinas Térmicas
As máquinas térmicas demoraram ainda muito tempo para surgir. A primeira referência
histórica de uma dessas máquinas remonta somente à Grécia Antiga. Era um pequeno pombo de
madeira que voava por algumas centenas de metros. Para o acionamento era usado o vapor
d‟água pressurizado. Credita-se esse invento a Archytas de Tarentum, 428 – 347 AC, matemático
contemporâneo dos filósofos Platão e Pitágoras.
Passaram-se quase quatro séculos para que esse assunto fosse novamente abordado por
Heron de Alexandria, 10 – 80 DC. Ele destacou-se na Grécia da sua época como sábio
engenheiro e grande matemático. Em geometria desenvolveu a fórmula da área do triângulo a
partir das medidas dos seus lados. Também foi um renomado inventor da antiguidade, foi ele que
concebeu a dioptra, um instrumento de medidas precursor do teodolito, projetou o primeiro
dispositivo acionado pelo vento, uma espécie de órgão musical. Inventou seringas, bombas contra
incêndios e autômatos mecânicos e criou mecanismos para automatizar a abertura e fechamento
de portas nos templos de Alexandria. Um dos seus inventos mais peculiares é de um equipamento
4
CURSO BÁSICO SOBRE APROVEITAMENTO ENERGÉTICO DE BIOGÁS DE ATERRO SANITÁRIO
Módulo IV - Tecnologias de Conversão Energética do Biogás
Aula 1 – Máquinas Térmicas
automático para venda com moedas. Foi Heron que construiu o protótipo da primeira máquina
térmica rotativa. Tratava-se do aeolipile uma pequena turbina de ação em forma de esfera que era
colocada em movimento pelo escape do vapor produzido por uma pequena caldeira. Notem que
isso aconteceu cerca de mil e setecentos anos antes da Revolução Industrial do século XVIII.
5
CURSO BÁSICO SOBRE APROVEITAMENTO ENERGÉTICO DE BIOGÁS DE ATERRO SANITÁRIO
Módulo IV - Tecnologias de Conversão Energética do Biogás
Aula 1 – Máquinas Térmicas
Na sequência da evolução das máquinas térmicas deve ser citado o francês Denis Papin
(1647 – 1712) que criou a marmita de Papin em 1679, na realidade uma autoclave, ou mais
simplesmente, uma panela de pressão em tamanho maior. Para possibilitar uma operação mais
segura do seu equipamento ele desenvolveu e construiu a válvula de segurança com contrapeso,
que é extensamente empregada até os dias de hoje. Ele também inventou uma espécie de
guincho elevador utilizando um conjunto de cilindro e pistão acionados a vapor. Esse seu
mecanismo foi depois melhorado e adaptado e muito utilizado pelos inventores que vieram
posteriormente.
Naquela época, no final do século XVII e início do século XVIII a mineração subterrânea de
carvão e dos metais estava se desenvolvendo com muita rapidez, impulsionada pela demanda da
Revolução Comercial. Um dos maiores problemas encontrados pelos mineiros daquela época
eram as infiltrações e inundações de água. Os trabalhadores utilizavam vários métodos diferentes
para resolver o problema de drenagem, desde bombas acionadas por rodas d‟água e moinhos de
vento até equipes de homens carregando baldes ou animais puxando carroças com tonéis. Mas
nenhum desses arranjos era conveniente, pois não havia espaço interno suficiente para a
construção de rampas mais suaves para a subida de animais e as bombas existentes tinham
pouca capacidade de sucção e de elevação.
Em 1698, Thomas Savery (1650 – 1715) era um engenheiro militar e inventor inglês. Foi
ele que desenvolveu um novo sistema movido a vapor para máquina para bombear água para fora
das minas e resolver o problema de drenagem que tanto atrapalhava a atividade dos mineiros.
Esse equipamento não possuía cilindros ou pistões e as únicas partes móveis eram as válvulas. A
máquina consistia de dois reservatórios que podiam ser cheios com vapor proveniente de uma
caldeira. Esses reservatórios se enchiam de água por meio do vácuo produzido pela condensação
do vapor. Depois disso essa água era expulsa para fora pela pressão exercida pelo vapor. No
entanto, ele não podia elevar a água de minas muito profundas pelas limitações da pressão do
vapor e das conexões existentes na época. Para isso tinham que ser instaladas várias máquinas
em série. Como a sucção da bomba era realizada pela atmosférica, a altura de sucção era da
ordem de dez metros no máximo, exigindo que o equipamento fosse instalado no interior das
minas. Isso implicava em levar o combustível até níveis inferiores e depois retirar os gases de
combustão para fora. Outras grandes desvantagens dessa máquina eram a baixa eficiência e a
sua tendência em causar explosões. Mesmo assim, devido ao sucesso que ela teve, a bomba de
Savery foi batizada de Miner‟s Friend.
6
CURSO BÁSICO SOBRE APROVEITAMENTO ENERGÉTICO DE BIOGÁS DE ATERRO SANITÁRIO
Módulo IV - Tecnologias de Conversão Energética do Biogás
Aula 1 – Máquinas Térmicas
Thomas Newcomen (1664 – 1729) nasceu também na Inglaterra, Desde a sua infância ele
se interessou por desmontar e montar as coisas. Depois de adulto se tornou um excelente
mecânico de manutenção e, segundo consta, tinha muita habilidade na construção de peças
forjadas. Quando Newcomen soube da bomba de Savery ficou muitíssimo e curioso e, usando a
influência de seus parentes e dos conhecidos da igreja que frequentava, acabou conseguindo ser
contratado como serralheiro na oficina de Thomas Savery. Usando de todos os seus
conhecimentos em pouco tempo Newcomen já estava trabalhando em melhorias no projeto de
Savery. Depois de dez anos, em 1712, obteve a patente da máquina atmosférica. Essa invenção
era composta por uma caldeira e um conjunto de cilindro e um pistão que era acionado pelo
vapor. Uma haste conectava o pistão a uma alavanca que movimentava a única parte do
equipamento que ficava no interior da mina, uma bomba d‟água do tipo aspirante premente. Assim
era possível retirar a água a mais de cinquenta metros de profundidade de forma contínua. Além
disso, usando corrediças, alavancas e gatilhos, Newcomen conseguiu automatizar o
funcionamento da sua bomba.
7
CURSO BÁSICO SOBRE APROVEITAMENTO ENERGÉTICO DE BIOGÁS DE ATERRO SANITÁRIO
Módulo IV - Tecnologias de Conversão Energética do Biogás
Aula 1 – Máquinas Térmicas
melhoramentos. Depois disso junto com Matthew Boulton, dono de uma firma de engenharia,
comprou a parte de Roebuck e deu início à construção das máquinas do seu projeto.
8
CURSO BÁSICO SOBRE APROVEITAMENTO ENERGÉTICO DE BIOGÁS DE ATERRO SANITÁRIO
Módulo IV - Tecnologias de Conversão Energética do Biogás
Aula 1 – Máquinas Térmicas
Daí em diante a evolução se deu de forma exponencial, pois foram introduzidas melhorias
nas técnicas de fabricação e de usinagem, foram introduzidas ligas metálicas mais resistentes e
as máquinas a vapor tiveram o seu auge. No entanto, paralelamente a esses acontecimentos
estava surgindo uma outra revolução, alguns sujeitos começaram a extrair do solo um tipo de óleo
chamado petróleo.
Esse óleo depois de refinado fornecia uma grande variedade de produtos como
lubrificantes, combustível para lampiões, parafina, remédios entre outros. Por volta de 1850
alguns inventores começaram a adaptar máquinas a vapor para usar esses derivados do petróleo
como combustível. E assim, em 1876 com Nikolaus August Otto, surgiram os primeiros motores a
centelha. Alguns anos depois, em 1893, Rudolf Diesel apresenta o motor por ignição por
compressão.
Figura 2.5 – a) Motor criado por Ott em 1876 b) Motor patenteado por Diesel em 1983
9
CURSO BÁSICO SOBRE APROVEITAMENTO ENERGÉTICO DE BIOGÁS DE ATERRO SANITÁRIO
Módulo IV - Tecnologias de Conversão Energética do Biogás
Aula 1 – Máquinas Térmicas
Saiba mais...
Procurem mais informações na Internet. Existem disponíveis
muitos filmes e animações contando sobre o funcionamento e a
evolução das máquinas térmicas.
Muito bom proveito e boa diversão...
10
CURSO BÁSICO SOBRE APROVEITAMENTO ENERGÉTICO DE BIOGÁS DE ATERRO SANITÁRIO
Módulo IV - Tecnologias de Conversão Energética do Biogás
Aula 1 – Máquinas Térmicas
3. PRINCÍPIOS DE TERMODINÂMICA
A Termodinâmica (do grego therme, que significa calor e dynamis que significa potência) é
um dos vários ramos da Física. O conceito fundamental dessa ciência é a noção de energia, e que
pode ser associada a todo e qualquer evento observável. Em função disso, a Termodinâmica é
utilizada para a análise dos processos em todos os campos da Ciência e estende suas fronteiras
de forma muito ampla. É ela que estuda as causas e os efeitos de mudanças na temperatura,
pressão e volume das substâncias e fluidos presentes em todos sistemas físicos.
Para facilitar, pode-se entender o calor como sendo a “energia térmica” em trânsito e que a
dinâmica é algo que se relaciona com o "movimento". Resumindo, podemos dizer que essa
ciência estuda como a energia térmica se transforma e cria o movimento. A Termodinâmica como
uma ciência aplicada surgiu nos meados do século XVII com a necessidade de se melhorar o
rendimento das primeiras máquinas a vapor.
Ela é uma ferramenta essencial para a compreensão do funcionamento das máquinas
térmicas. É a Termodinâmica que permite a análise dos efeitos sofridos pelos fluidos de trabalho
durante as várias transformações ou processos e também a identificação das necessidades
energéticas desses processos.
Neste texto tão resumido e no pouco tempo disponível não há pretensão de se aprofundar
nesse estudo, mas de apenas mostrar os princípios teóricos básicos suficientes para entender os
processos termodinâmicos que acontecem nas máquinas térmicas.
Por isso, em um primeiro momento, durante o estudo das máquinas térmicas, será usada
uma abordagem do tipo “caixa preta”, ou seja, os equipamentos serão analisados como sistemas
simples com apenas três fluxos energéticos: uma entrada de energia, neste caso proveniente do
combustível, uma saída da energia útil e outra saída de energia que engloba todas as perdas e
ineficiências.
11
CURSO BÁSICO SOBRE APROVEITAMENTO ENERGÉTICO DE BIOGÁS DE ATERRO SANITÁRIO
Módulo IV - Tecnologias de Conversão Energética do Biogás
Aula 1 – Máquinas Térmicas
Fonte Qh Máquina W
quente térmica
.
Qc
Fonte
fria
Os aparelhos térmicos, por sua vez, não têm como objetivo a produção de energia
mecânica, esses equipamentos operam apenas com transformações ou transporte de energia
térmica de um ponto para outro não se envolvendo com a energia mecânica. Os aquecedores
elétricos, as caldeiras e os trocadores de calor são alguns exemplos comuns de aparelhos
térmicos.
∑ ∑
A Segunda Lei da Termodinâmica também tem que ser atendida. Essa lei afirma que, nas
máquinas térmicas, é impossível transformar integralmente todo calor em trabalho útil. Então
pode-se assegurar que sempre as expressões abaixo serão verdadeiras.
̇
̇ ̇
E com base nessas duas Leis pode-se definir um rendimento térmico para essas
máquinas. Este rendimento é determinado pela relação entre o que desejamos obter, o trabalho
mecânico, como o que se gasta para isso, isto é, com a energia térmica consumida que é
proveniente da fonte quente. Esse cálculo pode ser feito usando as duas equações mostradas a
seguir:
̇
̇
12
CURSO BÁSICO SOBRE APROVEITAMENTO ENERGÉTICO DE BIOGÁS DE ATERRO SANITÁRIO
Módulo IV - Tecnologias de Conversão Energética do Biogás
Aula 1 – Máquinas Térmicas
̇
̇
Exemplo 1)
Determinado fabricante afirma que um equipamento da sua linha é capaz de aquecer 7,2 m3 de
água elevando a sua temperatura de 25 para 50 °C, em um intervalor de 2,0 horas, consumindo
40 kg de um combustível com um poder calorífico de 25 MJ/kg. Isso é possível? Qual o
rendimento desse equipamento? Quais são as perdas?
Primeiramente determina-se a potência que é necessária para o aquecimento da água:
( )
̇
̇
Depois calcula-se a potência consumida na forma do combustível
̇
O rendimento é calculado pela relação entre essas duas potências
Exemplo 2)
Qual o rendimento térmico de um motor a combustão interna que consome 600 kg/h de biogás
que tem um poder calorífico igual a 20 MJ/kg sabendo-se que ele gera uma potência de eixo igual
a 1,40 MW. Qual é a potência perdida?
A potência consumida é igual a:
̇
Então o rendimento é de
13
CURSO BÁSICO SOBRE APROVEITAMENTO ENERGÉTICO DE BIOGÁS DE ATERRO SANITÁRIO
Módulo IV - Tecnologias de Conversão Energética do Biogás
Aula 1 – Máquinas Térmicas
14
CURSO BÁSICO SOBRE APROVEITAMENTO ENERGÉTICO DE BIOGÁS DE ATERRO SANITÁRIO
Módulo IV - Tecnologias de Conversão Energética do Biogás
Aula 1 – Máquinas Térmicas
Volume
V
= constante
T
Temperatura
Figura 3.2 - Processo isobárico de compressão em um diagrama V x T.
p
= constante
T
Temperatura
15
CURSO BÁSICO SOBRE APROVEITAMENTO ENERGÉTICO DE BIOGÁS DE ATERRO SANITÁRIO
Módulo IV - Tecnologias de Conversão Energética do Biogás
Aula 1 – Máquinas Térmicas
p V = constante
T2 T2 > T1
T1
Volume
Figura 3.4 - Processo isotérmico de compressão em um diagrama P x V.
Um gás que obedece rigorosamente às três leis citadas acima, sob quaisquer condições
de pressão e temperatura, é denominado de gás perfeito ou gás ideal. Em caso contrário o gás é
chamado de gás real ou de gás comum.
16
CURSO BÁSICO SOBRE APROVEITAMENTO ENERGÉTICO DE BIOGÁS DE ATERRO SANITÁRIO
Módulo IV - Tecnologias de Conversão Energética do Biogás
Aula 1 – Máquinas Térmicas
perfeito que sofra as transformações do estado A para B e do estado B para C, como mostrado na
figura a seguir. De A para B o gás passa por uma transformação isotérmica e a Lei de Boyle é
válida. De B para C a transformação é isométrica e vale a Lei de Charles.
C
p2
p1 A
T2
p0 B
T1
V1 V2 V
Figura 3.5 - Processo isotérmico (A B) e isométrico (B C) em um diagrama P x V.
p0 p2 p 2 T1
ou p0 (b)
T1 T2 T2
Levando ( b ) em ( a ) resulta:
p 2 T1
p1 V1 V2
T2
p1 V1 p 2 V2
T1 T2
Essa expressão foi proposta por inicialmente por Émile Clapeyron (1799 – 1864) e deu
origem a Equação dos Gases Perfeitos.
A partir de observações experimentais foi estabelecido que o comportamento p V T
de uma certa massa m de um gás poderia ser dado pela seguinte equação de estado:
pV
mR
T
Onde R é uma constante que depende da natureza molecular do gás. Verifica-se que
muitos gases apresentam, na prática, um comportamento similar, especialmente quando
submetidos a baixas pressões e temperaturas próximas do ambiente ou mais elevadas. Pode-se
dizer também que, de um modo geral, os gases de menor número de átomos por molécula ou
menor complexidade estrutural molecular costumam apresentar menores desvios com relação aos
resultados previstos por essa equação.
17
CURSO BÁSICO SOBRE APROVEITAMENTO ENERGÉTICO DE BIOGÁS DE ATERRO SANITÁRIO
Módulo IV - Tecnologias de Conversão Energética do Biogás
Aula 1 – Máquinas Térmicas
A expressão anterior pode ser modificada, dividindo o volume pela massa, ou seja,
transformando o volume correspondente a massa m do gás em volume específico.
pv
R
T
R
R
MW
Exemplo 3)
Usando as expressões acima determinar a massa específica do ar a uma de temperatura de 300
K quando ele está submetido a uma pressão igual a 1,0 bar. Sabe-se que massa molecular do ar
é 28,967 kg/kmol.
Solução:
v RT / p
v 0,287 . 103 . 300 / ( 1,0 . 105 )
v 0,8611 m3 / kg
1/ v
1,1613 kg / m3
A massa específica do ar a 300 K e 1,0 bar é de 1,1613 kg / m3.
18
CURSO BÁSICO SOBRE APROVEITAMENTO ENERGÉTICO DE BIOGÁS DE ATERRO SANITÁRIO
Módulo IV - Tecnologias de Conversão Energética do Biogás
Aula 1 – Máquinas Térmicas
Cp
k constante
Cv
Então é possível demonstrar que tal processo obedece a uma equação da forma
pv k constante
Com base nessa expressão e na equação dos gases perfeitos, podem ser estabelecidas
relações entre as propriedades p, v e T do gás em dois pontos quaisquer 1 e 2 ao longo de um
processo ideal adiabático:
k
p 2 v1
p1 v 2
k 1
T2 p 2 k
T1 p1
k 1
T2 v1
T1 v 2
Para os gases diatômicos o valor de k é igual a 1,4 e esse valor também pode ser usado
para o ar na maior parte dos casos onde não se exige muita precisão.
19
CURSO BÁSICO SOBRE APROVEITAMENTO ENERGÉTICO DE BIOGÁS DE ATERRO SANITÁRIO
Módulo IV - Tecnologias de Conversão Energética do Biogás
Aula 1 – Máquinas Térmicas
p n<k n>k
n=1 n=k
Nessa figura ainda é apresentada uma curva para a qual n=1, e nesse caso a equação
resultante é caracterizando um processo isotérmico desenvolvido por um gás
perfeito.
Usando-se as equações dos gases perfeitos e a expressões que governam essas
transformações é possível determinar as propriedades dos gases ao longo de todos processos
que ocorrem durante o funcionamento dos motores e das turbinas a gás.
Logicamente, os valores encontrados não serão exatos em virtude das aproximações que
são feitas. Caso seja necessária maior precisão, podem ser usados métodos e equações mais
apuradas que consideram a variação das propriedades dos gases com as mudanças das
condições funcionamento.
No entanto, isso não pode ser feito para o caso dos ciclos em os fluidos de trabalho
passam por mudanças de estado, como é o caso dos ciclos a vapor. Para esses ciclos devem ser
usadas tabelas com as propriedades termodinâmicas ou então equações mais complexas, que
conseguem representar com exatidão o comportamento desses fluidos.
20
CURSO BÁSICO SOBRE APROVEITAMENTO ENERGÉTICO DE BIOGÁS DE ATERRO SANITÁRIO
Módulo IV - Tecnologias de Conversão Energética do Biogás
Aula 1 – Máquinas Térmicas
A entropia será compreendida como uma grandeza física que serve como indicador da
eficiência de um determinado processo ou transformação termodinâmica de uma substância onde
estão envolvidos calor e trabalho. Quando um processo se realiza perfeitamente e completamente
sem perdas, a entropia da substância permanece inalterada e constante. Esse processo recebe a
denominação de transformação isentrópica. Esse tipo de transformação só é possível em teoria,
pois em todas transformações práticas reais existem perdas e ineficiências que tem como
consequência um aumento da entropia.
Saiba mais...
Procure conhecer mais e se aprofundar nessa matéria. Vocês vão
achar muita informação e novidades sobre a Termodinâmica. Essa
parte da Física é muito interessante.
O saber não ocupa espaço...
21
CURSO BÁSICO SOBRE APROVEITAMENTO ENERGÉTICO DE BIOGÁS DE ATERRO SANITÁRIO
Módulo IV - Tecnologias de Conversão Energética do Biogás
Aula 1 – Máquinas Térmicas
CÂMARA DE
COMBUSTÃO
COMPRESSOR TURBINA
ar do gases de
ambiente escape
Essas máquinas térmicas foram inicialmente desenvolvidas para serem usadas como meio
de propulsão na aviação militar e depois passaram a ser usadas em aviões comerciais. As
turbinas a gás se destacam pela alta densidade de potência, isto é, concentram muita potência em
um equipamento de pouco peso. Como equipamentos empregados para geração de energia
elétrica as turbinas a gás estão concorrendo com os motores alternativos, na faixa das potências
mais elevadas, acima de 1,0 MW.
O princípio de funcionamento das turbinas a gás é conhecido a bastante tempo, pois em
1791 John Barber já havia patenteado um modelo e no ano de 1870 George Brayton descreveu o
ciclo termodinâmico para a operação dessa máquina. No entanto, devido a limitações tecnológicas
e de materiais as turbinas só se tornaram viáveis por volta de 1940, quando o rendimento dos
compressores melhorou e foram desenvolvidas ligas metálicas mais resistentes ao calor.
O engenheiros e especialistas fazem as análises termodinâmicas desse tipo de ciclo
considerando, para simplificação, que o fluido de trabalho seja o ar e usando o equacionamento
padrão, ou seja, tratando o fluido como um gás perfeito. Isso é aproximadamente verdadeiro para
22
CURSO BÁSICO SOBRE APROVEITAMENTO ENERGÉTICO DE BIOGÁS DE ATERRO SANITÁRIO
Módulo IV - Tecnologias de Conversão Energética do Biogás
Aula 1 – Máquinas Térmicas
o compressor, mas para a turbina esse fluido é na realidade uma mistura de ar com os gases de
combustão resultantes da queima do combustível. Como a proporção do ar em relação aos gases
é muito grande, considerar o fluido como sendo somente ar acarreta em um erro tolerável.
Quando é exigida mais precisão existem equações que consideram a presença desses gases e
seus desvios de comportamento em relação aos gases perfeitos.
O ciclo Brayton simples utilizado nas turbinas a gás é composto por quatro processos
termodinâmicos. Incialmente o ar captado do ambiente tem sua pressão elevada por meio de uma
compressão adiabática isentrópica. Depois disso esse ar comprimido é injetado nas câmaras de
combustão onde ele é misturado com o combustível onde, em um processo a pressão constante,
se dá a queima. Em seguida esse ar em alta pressão e temperatura é direcionado para a turbina
onde ele se expande e cede parte da sua energia, que é transformada em energia mecânica.
Finalmente o ar é devolvido ao ambiente, completando o ciclo e rejeitando o restante de calor que
não foi convertido em trabalho. Como pode ser visto nos gráficos da Figura 4.2 e da Figura 4.3.
23
CURSO BÁSICO SOBRE APROVEITAMENTO ENERGÉTICO DE BIOGÁS DE ATERRO SANITÁRIO
Módulo IV - Tecnologias de Conversão Energética do Biogás
Aula 1 – Máquinas Térmicas
Uma característica relevante neste ciclo é que o compressor necessita cerca de 40 a 80%
da potência produzida pela turbina.
Normalmente elas são entregues pelos fabricantes já pré-montadas sobre uma carreta
rodoviária ou dentro de conteiner, com ou sem isolamento acústico, bastando fazer as conexões
de alimentação do combustível e da energia elétrica produzida, conforme pode ser visto na Figura
4.5.
24
CURSO BÁSICO SOBRE APROVEITAMENTO ENERGÉTICO DE BIOGÁS DE ATERRO SANITÁRIO
Módulo IV - Tecnologias de Conversão Energética do Biogás
Aula 1 – Máquinas Térmicas
25
CURSO BÁSICO SOBRE APROVEITAMENTO ENERGÉTICO DE BIOGÁS DE ATERRO SANITÁRIO
Módulo IV - Tecnologias de Conversão Energética do Biogás
Aula 1 – Máquinas Térmicas
A Figura 4.8 mostra uma central térmica onde são estão instaladas oito microturbinas com
uma potência elétrica de 30 kW cada uma. A unidade opera usando como combustível o biogás
produzido por um aterro sanitário localizado em Thieulloy, na França.
26
CURSO BÁSICO SOBRE APROVEITAMENTO ENERGÉTICO DE BIOGÁS DE ATERRO SANITÁRIO
Módulo IV - Tecnologias de Conversão Energética do Biogás
Aula 1 – Máquinas Térmicas
27
CURSO BÁSICO SOBRE APROVEITAMENTO ENERGÉTICO DE BIOGÁS DE ATERRO SANITÁRIO
Módulo IV - Tecnologias de Conversão Energética do Biogás
Aula 1 – Máquinas Térmicas
Tabela 4.1 – Algumas configurações utilizadas para as turbinas a gás (Lora e Nascimento – 2004)
C T
Sem turbina livre
C T
C T
C T
C T
C T
a) b) c)
C T
Com turbina livre
C T
C T
C T TP
C T TP
Gerador de gás
C T TP
Gerador de gás
Gerador de gás
d) e)
f)
28
CURSO BÁSICO SOBRE APROVEITAMENTO ENERGÉTICO DE BIOGÁS DE ATERRO SANITÁRIO
Módulo IV - Tecnologias de Conversão Energética do Biogás
Aula 1 – Máquinas Térmicas
Caldeira Turbina
4
5
3
Condensador
2
Bomba
Como o próprio nome indica as transformações que ocorrem nesse ciclo são consideradas
teóricas, pois existem desvios e perdas que, por enquanto, não serão considerados. Na primeira
delas o fluido de trabalho, a água, é pressurizado por meio de uma bomba d‟água, passando por
uma transformação isentrópica, ou seja, com entropia constante, sem perdas.
Depois dessa compressão esse fluido é introduzido na caldeira e, a uma pressão
constante e com a adição de calor do combustível, ele é aquecido e vaporizado. Em seguida esse
fluido na forma de vapor é enviado para uma turbina onde passa por uma expansão, também
29
CURSO BÁSICO SOBRE APROVEITAMENTO ENERGÉTICO DE BIOGÁS DE ATERRO SANITÁRIO
Módulo IV - Tecnologias de Conversão Energética do Biogás
Aula 1 – Máquinas Térmicas
isentrópica, e onde uma parcela de sua energia é convertida em trabalho mecânico. Finalmente
esse fluido é inteiramente transformado para a forma líquida, quando ele rejeita no condensador,
também a pressão constante, mais uma parcela de energia para a meio ambiente.
Isso também pode ser visualizado na Figura 4.10 que apresenta um gráfico que tem no
eixo vertical as temperaturas e no eixo horizontal as entropias
3 4
1 5
S
Figura 4.10 - Gráfico T x S para um ciclo de Rankine simples teórico.
Os valores das diversas grandezas em cada um dos pontos desses ciclos podem ser
obtidos usando-se as tabelas de vapor d‟água, que estão disponíveis na literatura especializada
em Termodinâmica ou então usando equações especiais que simulam o comportamento do vapor
d‟água com bastante precisão
Atualmente essas equações podem ser implementadas utilizando suplementos que são
adicionados às planilhas eletrônicas comuns. Esse recurso foi adotado nesse texto para
determinar os valores numéricos dos exemplos que seguem.
Exemplo 4)
Ciclo de Rankine simples teórico
Pressão da caldeira 32 bar
Pressão no condensador 0,08 bar
Temperatura do vapor 237,46 °C
Temperatura de condensação 41,51 °C
Rendimento térmico do ciclo 32,30 %
Título do vapor na saída da turbina 73,82 %
Nesse tipo de ciclo observa-se que o título do vapor na saída da turbina tem valores abaixo
de 85 %. Isso é proibitivo para a operação pelos problemas técnicos causados pela erosão das
gotículas de água nas pás das turbinas.
30
CURSO BÁSICO SOBRE APROVEITAMENTO ENERGÉTICO DE BIOGÁS DE ATERRO SANITÁRIO
Módulo IV - Tecnologias de Conversão Energética do Biogás
Aula 1 – Máquinas Térmicas
Caldeira Turbina
5
4
6
3
Condensador
2
Bomba
5
3
4
1 6
S
Figura 4.12 - Ciclo de Rankine teórico com superaquecimento.
Exemplo 5)
Ciclo de Rankine teórico com superaquecimento
Pressão da caldeira 32 bar
Temperatura do vapor 400 °C
Pressão no condensador 0,08 bar
Rendimento térmico do ciclo 35,06 %
Título do vapor na saída da turbina 82,48 %
31
CURSO BÁSICO SOBRE APROVEITAMENTO ENERGÉTICO DE BIOGÁS DE ATERRO SANITÁRIO
Módulo IV - Tecnologias de Conversão Energética do Biogás
Aula 1 – Máquinas Térmicas
Caldeira Turbina
5
4
8
3
7
Condensador
2
Bomba
5 7
3
4 6
1 8
S
Figura 4.14 - Ciclo de Rankine teórico com reaquecimento.
Exemplo 6)
Ciclo de Rankine teórico com reaquecimento
Pressão da caldeira 32 bar
Temperatura do vapor 400 °C
Pressão reaquecimento 9,0 bar
Pressão no condensador 0,08 bar
Rendimento térmico do ciclo 36,23 %
Título do vapor na saída da turbina 90,70 %
32
CURSO BÁSICO SOBRE APROVEITAMENTO ENERGÉTICO DE BIOGÁS DE ATERRO SANITÁRIO
Módulo IV - Tecnologias de Conversão Energética do Biogás
Aula 1 – Máquinas Térmicas
Caldeira Turbina
5
4
6
7
3
Aquecedor Condensador
2'
2
1 1'
Bomba 2 Bomba 1
Figura 4.15 – Esquema de um ciclo de Rankine teórico regenerativo com aquecedor aberto.
5
3
2 4
1 6
2'
1' 7
S
Figura 4.16 – Ciclo de Rankine teórico com regeneração.
Exemplo 7)
Ciclo de Rankine teórico regenerativo
Pressão da caldeira 32 bar
Temperatura do vapor 400 °C
Pressão sangria de vapor 4,0 bar
Pressão no condensador 0,08 bar
Rendimento térmico do ciclo 37,02 %
Título do vapor na saída da turbina 82,48 %
33
CURSO BÁSICO SOBRE APROVEITAMENTO ENERGÉTICO DE BIOGÁS DE ATERRO SANITÁRIO
Módulo IV - Tecnologias de Conversão Energética do Biogás
Aula 1 – Máquinas Térmicas
Câmara de combustão
6
a b c d 3
Condensador
2
Compressor Turbina a gás
1
Bomba
A Figura 4.18 mostra um diagrama com esses dois ciclos acoplados. Notem que as
transformações foram representadas como sendo reais, não isentrópicas, e que as perdas de
carga também foram consideradas. O calor rejeitado no ciclo da turbina a gás, trecho „d a‟, é
usado por uma caldeira de recuperação para geração de vapor, trecho „1 2 3 4 5‟.
c
T
d
5
b 3
4
2
6
a 1
S
Figura 4.18 – Ciclos da turbina a gás e da turbina a vapor em uma central de ciclo combinado.
34
CURSO BÁSICO SOBRE APROVEITAMENTO ENERGÉTICO DE BIOGÁS DE ATERRO SANITÁRIO
Módulo IV - Tecnologias de Conversão Energética do Biogás
Aula 1 – Máquinas Térmicas
Calor rejeitado
3 2
Condensador
Válvula de
expansão
Alta pressão
Baixa pressão Compressor
Energia mecânica
Líquido Vapor ou gás
Evaporador
4 1
Carga de frio
35
CURSO BÁSICO SOBRE APROVEITAMENTO ENERGÉTICO DE BIOGÁS DE ATERRO SANITÁRIO
Módulo IV - Tecnologias de Conversão Energética do Biogás
Aula 1 – Máquinas Térmicas
Para facilitar a compreensão, esse esquema pode ser dividido por duas linhas. Acima da
linha horizontal está a parte que opera em alta pressão e abaixo dessa linha está a parte de
pressão baixa pressão. No lado esquerdo da linha vertical o fluido está no estado líquido e ao lado
direito dessa linha vertical o fluido está na forma de vapor ou de gás.
Ao percorrer esse ciclo o fluído frigorífico passa pelos seguintes processos:
P
condensação
3 2
expansão
o
ssã
pre
com
4 1
evaporação
36
CURSO BÁSICO SOBRE APROVEITAMENTO ENERGÉTICO DE BIOGÁS DE ATERRO SANITÁRIO
Módulo IV - Tecnologias de Conversão Energética do Biogás
Aula 1 – Máquinas Térmicas
Calor rejeitado
3 2 Energia térmica
Condensador
Válvula de
Gerador de vapor
expansão
Alta pressão Válvula de
Bomba
Baixa pressão expansão
Tanque de absorção
Líquido Vapor ou gás
Evaporador
4 1
Carga de frio
37
CURSO BÁSICO SOBRE APROVEITAMENTO ENERGÉTICO DE BIOGÁS DE ATERRO SANITÁRIO
Módulo IV - Tecnologias de Conversão Energética do Biogás
Aula 1 – Máquinas Térmicas
Saiba mais...
Entenda melhor como os ciclos termodinâmicos funcionam
acessando as apresentações dessa aula.
38
CURSO BÁSICO SOBRE APROVEITAMENTO ENERGÉTICO DE BIOGÁS DE ATERRO SANITÁRIO
Módulo IV - Tecnologias de Conversão Energética do Biogás
Aula 1 – Máquinas Térmicas
Questões de Fixação
3- Seria correto dizer que as primeiras máquinas térmicas foram as turbinas a vapor ?
6- Qual é a problema que é causado pela umidade nos estágios finais das turbinas ?
7- Qual a(s) soluções que podem ser empregada(s) para melhorar o ciclo de Rankine ?
10- Como é feito o acoplamento térmico entre um ciclo a gás e um ciclo a vapor ?
39
CURSO BÁSICO SOBRE APROVEITAMENTO ENERGÉTICO DE BIOGÁS DE ATERRO SANITÁRIO
Módulo IV - Tecnologias de Conversão Energética do Biogás
Aula 1 – Máquinas Térmicas
REFERÊNCIAS
VAN WYLEN, G.J., SONNTAG, R.E. Fundamentos da Termodinâmica Clássica, São Paulo,
Editora Edgard Blucher Ltda., 1976, 2ª Edição, um volume, 565 páginas.
40