Os Impactos Do Conceito Da Dita Musica S
Os Impactos Do Conceito Da Dita Musica S
Felipe Siles
Universidade de São Paulo
[email protected]
Resumo
Abstract
This article aims to analyze the impact of the called “serious music”
— a concept that emerged in Europe at the end of the 18th century,
as opposed to entertainment music — in the context of Brazilian Choro,
focusing on three case studies: the short story O homem célebre of
Machado de Assis; the anecdote of Henrique Cazes (2010), where he
reports Jacob do Bandolim barring Pixinguinha from his choro event
guest list; and the Radamés Gnattali Suite Retratos, as a way of bringing
choro and concert music closer together.
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REV. TULHA, RIBEIRÃO PRETO, v. 5, n. 2, pp. 9-33, jul.–dez. 2019
1- Introdução
Devidoàsuaproximidadecomascamadaspopulares,erainevitável
que o choro, pelo menos num primeiro momento, fosse visto de forma
estigmatizada, pejorativa e como uma música menor, de entretenimento.
Contudo, o choro vai aos poucos adquirindo “aura” da dita “música
séria”,paraseinserirnasociedadeeganharaceitaçãoepenetração
nas camadas elitizadas e na indústria cultural da época. Essa demanda
pode ser encarada como estratégia de sobrevivência empregada pelos
músicos, já que o gênero foi marginalizado, principalmente na chamada
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Era do Rádio, onde os cantores eram os grandes protagonistas. Esse
processo é complexo, e se passa em diversas etapas: o emprego de
tais grupos de choro para entreter o público nas salas de espera de
cinemas; passando pela viagem de Pixinguinha e os Oito Batutas para
Paris em 1922; a participação dos grupos de choro acompanhando
cantores na chamada Era do Rádio, a partir da década de 1930; e
a retomada do choro nos anos 1970, que culmina na apresentação
noTeatroMunicipaldoRiodeJaneiro,daCamerataCariocajuntoà
Orquestra Sinfônica do Municipal, que segundo Cazes (2010, p. 179):
“Foi portanto a primeira vez que o Choro foi posto em pé de igualdade
com a chamada música erudita, ou como preferia Radamés, música de
concerto.”
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choro, trazer tal episódio para a sua narrativa heróica de ascensão do
gênerodizmuitosobreoprocessodeadaptaçõesenegociaçõesque
o choro precisou passar para atingir a simbólica chegada ao Teatro
Municipal. Se Machado de Assis possui autoridade literária, por relatar
costumesdeumaépoca,mesmosevalendodeumcontofictício,Cazes
possui autoridade artística e musical pela sua própria imersão no mundo
do choro. Talvez o que possa tirar credibilidade, para alguns, é o fato
de, ao contrário de Machado de Assis, o fato é narrado como verídico,
mesmo sem a comprovação necessária, para alguns configurando
como uma espécie de “fofoca”. Portanto a escolha desse episódio na
narrativa não é gratuita e diz muito sobre uma visão de dentro, que
algunsdospróprioschorõestêmsobreessastransformaçõesdogênero
eosvaloresquepassamavaler,paraainserçãonasociedadeena
indústria cultural. Com o objetivo de termos uma abordagem bastante
ampla, é necessário refletir sobre todos os discursos: mais importante
queaveracidade,sãoasintençõesesubtextosportrásdeles.
Por último, vamos nos debruçar sobre os impactos da Suíte
RetratosdeRadamésGnattalinochoro,consideradapelahistoriografia
do gênero como marco de aproximação com a música de concerto.
Desde a carta que Jacob do Bandolim enviou a Radamés, narrando
aprópriaexperiêncianapreparaçãodasuíte,àformaçãodogrupo
Camerata Carioca, criado para executar a peça, o choro chega
enfim ao Teatro Municipal2, templo sagrado da música de concerto,
cumprindo a narrativa heróica de Cazes.
Durante boa parte do século XVIII, na Europa, a música era
feita para entretenimento. Antes da reforma de etiqueta do concerto,
empreendida por Beethoven, o público costumava comer, beber,
conversar,andarpelosalão,jogarcartasououtrosjogos,encontrar-se
com amantes e cortesãs, enquanto acontecia a performance musical.
Algumas transformações sociais, ocorridas no final do século XVIII,
iriam alterar profundamente a relação de músicos e público com a
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performance musical. Ao passo que a fortuna, o prestígio e status dos
aristocratassereduziam,aumentavaaparticipação,inclusivefinanceira,
daburguesianamúsicadeconcerto.Fazia-senecessáriocriaralguma
barreira, mesmo que simbólica, para distinguir os nobres dos burgueses:
Mesmocoma“democratização”dosconcertosprivados,os
salõespermaneciamcomoespelhosocialeinstrumentode
estabilidade,edemodoalgumhaviafraternizaçãoentre
nobreza e burguesia cortesã. Se o patrocínio agora não
eraexclusividadenobre,algumadistinçãoteriaquehaver,
e é aí que entra a ênfase no “bom gosto” e na “grandeza”
comoformasdeconstruçãodeumanovaaristocracia:a
aristocracia do gosto. (CASTRO, 2012, p. 80)
OBarãoGottfriedvanSwieten,figuraimportanteemViena,foium
dos grandes patrocinadores e idealizadores de tal ideologia. O Barão,
que já tinha patrocinado Mozart, veio a fomentar e proteger Beethoven,
queajudouapromoveraideologiadocânonenaVienadofinaldo
séculoXVIII.Beethoven,ograndeprotagonistadessanovaconcepção
se torna uma referência e uma sombra para os futuros compositores. O
compositor,comatuaçãomaisautônoma,adquireuma“aura”especial
também, quase mística, de gênio criador individual. A obra de arte já
não tem mais seu valor agregado ao fato de estar vinculada a uma
escola ou tradição, e passa a ser mensurada pela subjetividade do
gênio compositor. Este, por sua vez, ganha status de estrela e Beethoven
é um dos primeiros a usufruir desse cenário, ganhando grande relevância
no continente europeu. Como estratégia para dar aparente respaldo
racional e científico à nova música, cria-se toda uma teoria musical
que a legitima. O público também vai mudar o seu comportamento
diantedaperformancemusical,graçasaosesforçosdeBeethoven,ea
apreciaçãopassaasersolene,ritualística,quasereligiosa.
MuitastransformaçõesocorremnaEuropaenomundonoséculo
posterior,oXIX.ARevoluçãoIndustrialeaRevoluçãoFrancesaprovocam
profundas mudanças na sociedade. As ideias iluministas percorrem o
mundoeinspiramrevoluçõesportodooplaneta.NoBrasil,comoImpério
emdecadência,asideiasdocontinenteeuropeuvãoganhandoforçae
ditandotendências.Porém,nopaíscommaiorparticipaçãonotráficode
escravizadosafricanosnasAméricas,essaestratégiadedistinçãoentre
música“séria”etrivialseráutilizadaparadiscriminarasmanifestações
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de origem negra. A desigualdade social no Brasil tem cor, infelizmente
até os dias atuais, e o projeto nacional de hegemonização cultural,
incapaz de dizimar a cultura das pessoas pretas, passa a adotar
outraestratégia,ade“higienizá-la”eapagarostraçosculturaisdeseu
passado africano, tanto na própria música, como no comportamento
de público e músicos. O conceito de música dita “séria” passa a ser
uma importante ferramenta desse projeto. Nos grandes centros urbanos,
como São Paulo e Rio de Janeiro, que aspiram esse ideal civilizatório
burguês, as contradições geradas entre a ideologia da música dita
“séria”easconcepçõesdaspessoasmaispobres,fortementecentradas
naculturaafricana,ajudamacomporessatrilhasonoradoImpériojá
decadente e de algo novo que vai surgir.
3 O lundu é tratado como africano por muitos autores, principalmente pela proximidade
com a palavra calundu, que denomina um rito de origem afro-diaspórica, embora
aparentementenãoháligaçãodiretaentreasduascoisas.Castagna(2008)dizque
provavelmente o lundu tenha nascido no Brasil, como mescla de elementos musicais e
coreográficosdiversos.
4 O ritmo Aguerê de Oyá também pode ser conhecido como Adaró, Ilu de Yansã
ou Daró. Agradeço ao músico e ogã, Alysson Bruno pela informação. A aproximação
dalinguagemdoAguerêcomomaxixeocorredemaneirainteressantenacomposição
Quebrando Pratos, de Dino Barioni, gravada no disco Agô! Cantos Sagrados de Brasil e
Cuba (Selo Sambatá, 2007).
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poucodoaguerê.Aancestralidadeafricanadessesprimeiroschorões
éfatorchaveparacompreendermosadiferençaentreessamúsicafeita
no Brasil e a música feita na Europa. Apesar de longo o parêntese, é
de fundamental importância essa compreensão, já que, principalmente
por esse motivo, os gêneros populares eram estigmatizados pelas elites
brasileiras, supremacistas e racistas. Um fato que ilustra bem esse estigma
é o emprego de rótulos como tango brasileiro, ou ainda rótulos híbridos
para gêneros que já eram híbridos: polca lundu, polca maxixe,afimde
comercializarsuasobras,pormeiodaediçãodepartiturasparapiano.
O piano, ícone cultural das elites, não podia tocar os maxixes da gente
preta, mas tango brasileiro não teria problemas.
Essaconsideradaprimeirafasedochoro,ocorridanofinaldoséculo
XIX e começo do século XX, foi protagonizada majoritariamente por
músicos de classe média: funcionários públicos, barbeiros, trabalhadores
livres, etc. Por exigir elevado nível de técnica instrumental, esse gênero,
queiaflorescendo,demandavadeseusmúsicosumtrabalhorentável
osuficienteparacompraruminstrumentomusical,masaomesmotempo
com expediente curto, já que era necessário tempo livre para estudar
a técnica do instrumento. Como estavam mais ou menos no meio do
caminho—nãopertenciamàscamadasmaispobreseestavammuito
longe de constituir a elite — os primeiros chorões eram pessoas que
circulavam entre as classes sociais: tocavam em festas familiares e bailes
das camadas mais populares (que não tinham dinheiro para contratar
uma orquestra), mas também em festas e eventos das classes mais altas.
Nosso protagonista, Pestana, do conto de Machado de Assis, O homem
célebre, vivianesseuniverso,talqualilustraocomeçodotexto:
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No decorrer do conto, Pestana precisa lidar com a seguinte
contradição,queéodilemacentraldahistória:possuiimensafacilidade
para compor polcas, que caem depressa no gosto popular, mas carrega
a frustração de não conseguir dar a luz à uma obra“séria”, que irá
imortalizá-lo. O trecho a seguir demonstra esse caráter sério e até
religioso com que Pestana tratava seus heróis da música de concerto,
aspirandoumdiafigurarnestepanteão(ASSIS,2013,p.28):
Pestanaseesforçaparacomporessaobraqueirádefinitivamente
canonizá-lo,masacaboudormindosemcumpriratarefa,eaoacordar
compõe uma nova polca. Resolve então casar-se com Maria, viúva,
cantora e tísica. Agora tendo uma musa, nítida referência ao Romantismo,
acreditaqueagrandeobrairásair.Compõeumnoturno,masaesposa
o ajuda a perceber que, na verdade, era um plágio de Chopin. Alguns
anos depois, com a morte da esposa, Pestana se incumbe da missão
de compor um Réquiem para ser tocado no primeiro aniversário do
falecimento de Maria, mas não consegue terminar a peça a tempo.
Porcontadafrustração,ficouumtempoemsilêncio,semcompor,mas
em 1878 assinou contrato com um editor para compor vinte polcas
durante doze meses. Ao longo dos anos, Pestana retoma o prestígio
e, em 1885, se torna o melhor compositor de polcas do país. Poucos
antesdemorrer,doenteeantevendooprópriofim,Pestanaentregaao
editor duas polcas, dizendo que a segunda é para quando subirem
os liberais. Machado de Assis termina o conto de forma brilhante: “Foi a
única pilhéria que disse em toda a vida, e era tempo, porque expirou
namadrugadaseguinte,àsquatrohorasecincominutos,bem com os
homens e mal consigo mesmo”(ASSIS,2013,p.35,grifosmeus).
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Mesmo se tratando de uma obra de ficção, Machado deAssis
captou muito bem o espírito da vida musical na época. O “Complexo de
Pestana”, termo utilizado por Cacá Machado (2007), atingiu diversos
músicosdoperíodo,eocontoémuitoassociadoàvidadopianistae
compositorErnestoNazareth,nascidoem1863.Sobreessaassociação,
Cacá Machado escreve:
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época se encontrava em franco processo de se estabelecer como o
novo universal da música popular.” (BASTOS, 2005, p. 179)
VinteeumanosdepoisdonascimentodePixinguinha,em1918,
nascia Jacob Pick Bittencourt, o Jacob do Bandolim, filho de mãe
polonesa. Assim como Pixinguinha, já demonstrava desde muito cedo
o talento como instrumentista, tendo começado sua vida musical no
violino, até passar para o bandolim, instrumento que emprestou a ele a
famosa alcunha e que, em troca, foi imortalizado por Jacob como um
dossímbolosdochoro.Apesardeumcomeçopromissor,atuandocomo
músicoprofissionalnouniversodorádioedodisco,Jacobopta,em1943,
por prestar um concurso público e se tornar escrevente juramentado da
justiça,profissãonaqualseaposentou.Dessaforma,podia“proteger”
suaproduçãomusicaldasinfluênciasetendênciasdaindústriacultural,
e conduzir sua obra com maior autonomia. Jacob do Bandolim, assim
como Pixinguinha, é um dos pilares do choro e inovou o gênero pelo
nível de sua performance de instrumentista, além da sua vasta obra
comocompositor.Jacobficouconhecidopelasuaobsessãotécnicana
execuçãodochoro,principalmenteemgravações.Oregional5 gravava
primeiro em estúdio, sem o solista, e Jacob levava a fita para casa
para estudar e gravar sua parte depois, prática normal nos dias de
hoje, porém incomum na época, o que demonstra seu caráter visionário,
dispondo de grande capacidade de utilizar a tecnologia disponível a
seu favor. Cazes (2010) traz em seu livro Choro do quintal ao municipal
o capítulo onde aborda a importância de Jacob do Bandolim para o
gênero, sob o título de Jacob, o choro levado a sério (p. 99). O título já
deixa bem evidente que o grande legado de Jacob para o choro foi
tê-loaproximadodamúsicadita“séria”,fatorquetevegrandepesona
garantia de seu lugar no cânone.
5Regionalécomoficouconhecidoogrupoqueacompanhaumcantorouumsolista,
normalmenteeracompostopordoisviolões,cavaquinhoepandeiro.
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Antes de adentrar à anedota envolvendo esses dois sujeitos
canônicos, faz-se necessário compreender um pouco o contexto do
choro naquela época. Da década de 1930 até a década 1970,
aproximadamente, o choro viveu um certo ostracismo e marginalidade
pelas mídias da época. A Era do Rádio, que acaba de surgir, dava
destaque à canção, à música cantada e os cantores e cantoras se
tornaram protagonistas. Muitos músicos de choro deixaram de tocar,
alguns permaneceram tocando de forma amadora e outros buscaram
aprofissionalização,passandoaintegrarosregionaisdasrádios,que
eram conjuntos formados para acompanhar os cantores, principalmente
calouros, já que as grandes estrelas eram acompanhadas pelas
orquestras. Nesse contexto é até compreensível os chorões adotarem
estratégiasdemanutençãodochoro,agorarelegado,emuitasdessas
estratégias passam pelo conceito de música “séria”. Já que o choro não
estavamaisnogostodagrandemassa,transformá-lonumprodutode
grife, direcionado para público “iniciado” e especializado, no contexto
não parece uma ideia ruim.
Comojáfoiditonaintrodução,ficamuitodifícilsabercomprecisão
como se deu o fato e até mesmo se não é um exagero de Cazes. Mas o
fato de autor colocar o episódio em seu livro, que narra a saga heróica
do choro saído do quintal até adentrar o Teatro Municipal, não é
aleatório. O episódio cumpre importante papel nessa narrativa, já que
aquelaconcepçãodechorodePixinguinhaestavaultrapassada,fora
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de moda, e teria que dar lugar a uma nova concepção, mais“séria”,
mais parecida com a música de concerto. Esse episódio é bastante
simbólico,jáqueanarrativarevelaoconflitoentredois“projetos”de
choro6, independente do entrave entre os dois personagens ter de fato
acontecido. Para compreendermos qual era o “projeto” de Pixinguinha
para o choro, vamos voltar um pouco no tempo, no período de 1928 a
1932,quandoeleteveatuaçãodestacadacomoarranjador:
6 O primeiro músico que ouvi utilizar o termo “projetos de choro” para designar as
concepçõesdistintasdeJacobdoBandolimePixinguinhafoiobandolinistaetenorista
Maurício Pazz, com quem toquei no Coletivo Roda Gigante.
7 Cabe aqui uma crítica ao autor, que sempre utiliza o choro com letra maiúscula e
outros gêneros, como o samba, com letra minúscula. Esse recurso pode entregar uma visão
tendenciosa do autor sobre a superioridade do choro sobre outros gêneros musicais. Em
nomedafidelidade,prefiromanteracitaçãooriginal,porémcomessaressalva.
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samba nas salas do fundo e a batucada no terreiro. Era
lá que se formavam e se ensaiavam os ranchos. A maioria
dossambistasedoschorõeseradecor.Brancoquasenão
havia.(PIXINGUINHAapudPEREIRA,1967,p.226)
Valedestacarqueadistinçãoentreosagradoeoprofano
não é algo que diga respeito às culturas oriundas das
áfricas que aqui chegaram. O que se percebe o tempo
inteiroéainteraçãoentreessasduasdimensões.ATiaCiata
sacerdotisa do candomblé é, ao mesmo tempo, a festeira
que transformou a sua casa em um ponto de encontro para
que, em torno de quitutes variados, músicos (profissionais
e amadores) e compositores anônimos se reunisse para
trocar informações e configurar, a partir dessas trocas, a
gênese do que seria a base do modo carioca de se fazer
o samba. João da Baiana, Pixinguinha, Sinhô, Donga, Heitor
dos Prazeres e tantos outros, conviveram intensamente no
endereço mais famoso da história da música do Rio de
Janeiro.(SIMAS,2016,blog)
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“experiência civilizatória”, contrariando o senso comum construído em
cima de uma ideologia branca supremacista.
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nas rodas de Jacob, conforme podemos notar no depoimento do
jornalistaOswaldoLuizVitta,oColibri,referindo-seàsrodasdechoro
na casa do D’Áuria8, ocorridas nas décadas de 1960 e 1970:
As interações do choro com a música de concerto não eram
completa novidade, quando Radamés Gnattali compôs a Suíte Retratos,
em1956.HeitorVilla-Lobosjáhaviacompostoentre1920e1929asérie
de Choros,ondeexisteumacitaçãodaschottischYara,deAnacleto
de Medeiros, na versão com letra de Catulo da Paixão Cearense de
título Rasga Coração. Porém, o choro até então era uma importante
fontedeinspiraçãoparaamúsicadeconcertodecaráternacionalista,
masaindalhefaltavaprotagonismo.Aaproximaçãodefinitivaveiocom
Radamés Gnattali, compositor e maestro, gaúcho, nascido em 1908.
8 Antonio D’Auria tocava violão de sete cordas, liderava o Conjunto Atlântico e sediava
uma roda de choro na própria residência (no quartinho dos fundos) na Avenida Rudge,
bairrodoBomRetiro,todasexta-feiradas19horasatémeia-noite.D’Auriaerafilhode
imigrante italiano, atraído para o Brasil pela produção cafeeira. Iniciou-se no violão
aindacriançatocandonasfestinhasdeaniversáriodobairro,mastrabalhouanospara
a companhia cinematográfica Pathé, assim como os outros integrantes do Conjunto
Atlânticoquetinhamsuasrespectivasprofissõesenãosesustentavamcomamúsica.
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tipicamente utilizados na música popular, como por exemplo, o Concerto
para Harmônica de Boca e Orquestra (1958), escrito para Edu da
Gaita; Concerto para Acordeão e Orquestra (1958), para Chiquinho
do Acordeão; e Suíte Popular Brasileira para Violão e Piano (1956),
com Laurindo de Almeida. Mas foi em 1956, que Radamés escreveu a
famosa Suíte Retratos, uma peça para bandolim solista, conjunto de
choro e quarteto de cordas, na qual cada movimento homenageia um
compositor canônico do gênero: Pixinguinha, Ernesto Nazareth, Anacleto
deMedeiroseChiquinhaGonzaga.Asuíteécompostadevariações
de temas dos compositores homenageados. No primeiro movimento, a
música escolhida é Carinhoso de Pixinguinha; no segundo movimento,
a valsa Expansiva de Ernesto Nazareth; no terceiro temos a schottisch
Três Estrelinhas de Anacleto de Medeiros; e para fechar a suíte o maxixe
Corta-jaca de Chiquinha Gonzaga.
RadamésdedicaasuiteàJacobdoBandolim,poisadmiravasua
seriedade e capricho pela música. Providenciou, então, uma primeira
gravação da obra na Rádio Nacional, executada por Chiquinho
do Acordeon, com o objetivo de ajudar Jacob na preparação da
execuçãodapeça.EntreaprimeiraaudiçãoeagravaçãodeJacob,
em1964,passaram-seseteanos,comosolistasepreparando.Jacob
então,escreveumacarta,datadadeoutubrode1964,endereçadaa
Radaméstecendoelogiosaocompositoreàpeça.Essacartaexpressa
bem a ideologia da música dita “séria” incorporada ao choro em seu
supostoauge(JACOBDOBANDOLIMapud CAZES, 2010, p. 128):
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praticamente missão sacerdotal, em um retiro religioso onde zela pela
divina obra de arte.
Lançadoem1964,oLPgravadoporJacobdoBandolimcontendo
a suíte não teve grande repercussão, nem entre o público comum,
tampoucoentreoschorões.Masaospoucosalgunsmúsicosforamse
interessando pela peça e pedindo a Radamés adaptações da suíte
paraoutrasformações.Nessecontexto,obandolinistaJoelNascimento
pedeaomaestroumaadaptaçãoparaconjuntodechoro:violãode
sete cordas, dois violões de seis cordas, cavaquinho, pandeiro, além
dobandolimsolista.Joelentãoreúnejovensmúsicos,jáqueoschorões
maistradicionaisteriamgrandesdificuldadesparalerpartitura.Otime
escolhido: Raphael Rabello (violão de sete cordas), Maurício Carrilho
(violão), Luiz Otávio Braga (violão), Luciana Rabello (cavaquinho) e
Celsinho Silva (pandeiro). No dia 27 de janeiro de 1979, aniversário de
73 anos de Radamés, estava pronta a versão camerística de Retratos.
AempolgaçãodeHermínionãoéàtoa,oprojetodeaproximar
ochorodamúsicadeconcertoetransformá-lonamúsicadita“séria”
ia muito bem, diga-se de passagem. Faltava apenas, para coroar a
jornada heróica, protagonizar um espetáculo no templo da música de
concerto, o Teatro Municipal. O tão desejado concerto aconteceu em
1983, com a Camerata Carioca se apresentando, acompanhada da
Orquestra do Theatro Municipal, na entrega do Prêmio Shell a Radamés
Gnattali.
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Ora,dessadesignaçãoquedátítuloaolivrodecorredo
fato de ter sido a primeira vez que um conjunto de Choro,
comumainstrumentaçãotípica,atuoucomosolistaàfrente
de uma orquestra sinfônica, dentro de um programa que
não era de Choro. Foi portanto a primeira vez que o Choro
foi posto em pé de igualdade com a chamada música
erudita, ou como preferia Radamés, música de concerto.
(CAZES, 2010, p. 179)
9Paratambémnãocometerinjustiçacomoautor,seguearessalvadopróprioHenrique
Cazes quanto ao título de sua obra: “Quanto ao título do livro, não se trata de uma
trajetória que começa no quintal e acaba no Municipal. O Choro é visto em vários
ambientes que vão da roda informal até a sala de concerto. A capacidade dessa música
deseadaptaraobjetivosquevãodosimpleslazeràrigorosaapreciaçãoartísticaépor
si só a chave da vitalidade do Choro” (CAZES, 2010, p. 180).
10 Termo utilizado por Luiz Antonio Simas (2016), ver mais em https://hisbrasileiras.blogspot.
com/2016/05/a-peleja-de-clementina-de-jesus-contra.html.
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6 - Conclusão
DasaspiraçõesdePestana,deMachadodeAssis,àapresentação
da Camerata Carioca no Teatro Municipal, temos mais de um século de
diferença,ochoronegocioucomostatus quo das elites brasileiras, ora
porinserçãoeascensão,oraporpurasobrevivência.Seráquevaleu
a pena? Em certo sentido sim, o choro continua relevante, tendo clubes
e rodas em diversas partes do Brasil, como a Casa do Choro do Rio
deJaneiro,comfilialemFlorianópolis;osClubesdoChorodeBrasíliae
SãoPaulo;alémdefestivais,comooFestivalPixinguinhanoVale(São
José dos Campos), Chorando Sem Parar (São Carlos), Festival Choro da
11 Expressão popular que deriva do jogo da sinuca. Uma sinuca de bico representa
um impasse, uma situação complexa, onde é muito difícil encontrar uma saída. É muito
importanteparaaconstruçãodeconhecimentoaincorporaçãodeexpressõeseformas
estabelecidas canonicamente por parte do meio acadêmico como não cultas ou não
régias. A expressão em questão foi cunhada devido ao fato de que choro e boteco,
ondesejogaasinuca,podempossuir,emalgunscontextos,ligaçãointestina,deixando
o discurso bastante palatável para os músicos e apreciadores do gênero. A escolha
doqueéumalinguagemadequadaounãoàacademiadeveserquestionada,e,num
momentopolíticodeataqueaoconhecimentoeàuniversidadepúblicadevemosrefletir
para quem estamos falando, de que forma e com quais objetivos.
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Casa (Ribeirão Preto) e Festival Circuito do Choro BH (Belo Horizonte).
Cabe destacar também, a atuação de muitas dessas instituições
no ensino do gênero, como acontece na Escola Portátil de Música,
vinculadaàCasadoChoro,enopróprioClubedoChorodeBrasília.
Com a globalização, o choro se torna fenômeno mundial, rodas de
choro acontecem na Europa, em Paris, Moscou e outros países, e existe
um grande número de praticantes e entusiastas do gênero ao redor do
planeta. O choro não chegou apenas ao Municipal, chegou aos discos,
àscasasdeshow,aorádio,àtelevisão,àinternet,àsplataformasde
streaming, ao mundo. Não dá pra dizer que o gênero fracassou, mas
é curioso o fato de que, quanto mais o choro se aproximou da música
deconcerto,maistrouxeparasiosmesmosdilemas.Qualafunçãodo
choronosdiasdehojeequalafunçãodaorquestranosdiasdehoje
chegam a parecer a mesma pergunta.
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feitas nesse sentido, com a retomada de bailes de choro (que ainda
sãorestritos,namaioriadasvezes,àclassemédia)ecomarealização
derodasdechoroempraças,parqueseespaçospúblicos,essassim
mais populares e inclusivas.
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praticamente um microcosmo da etiqueta da sala de concerto, pelo
menos por parte do público, já que os músicos ainda conservam algum
nível de informalidade, mesmo nas rodas atuais. Certo dia, estava na
RodadoIzaías,emPerdizes,SãoPaulo,eumamulherdopúblico,logo
apósaexecuçãodeumamúsicasemanifestou:“Desculpeaintromissão,
masseráquevocêspoderiamdepoisdecadaexecuçãodizeronome
damúsicaeocompositor?Amídianãodáespaçoparaessetipode
música e a gente só queria ter um pouco mais de conhecimento”. Diante
de tal atitude, de uma pessoa não iniciada naquele contexto, um dos
músicos se indignou e respondeu: “Aqui é uma roda espontânea e não
temos esse tipo de formalidade! As pessoas ouvem por aí funk e música
sertaneja e nem sabem o nome nem compositor dessas músicas, isso
nãofazdiferençanenhuma”.Izaías,olíderdaroda,serenoeadotando
uma postura de gentleman parabenizou a mulher pela sua atitude e
curiosidade:“Vocêestámuitocorretaemquererseinformar”epassou,a
partir daí, a dizer o título e compositor de cada música tocada.
Referências Bibliográficas
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CAZES, Henrique. Choro - Do Quintal ao Municipal. São Paulo:
Editora 34, 2010.
SIMAS,LuizAntonio.“ACasadaTiaCiata-espaçodecultura”.
In: Histórias Brasileiras contadas por Luiz Antonio Simas. Blog, 2016,
disponível em: https://hisbrasileiras.blogspot.com/2016/03/a-casa-da-
tia-ciata-espaco-de-cultura.html (acessado em julho de 2019).
SIMAS, Luiz Antonio. “A peleja de Clementina de Jesus contra
o samba desmacumbado”. In: Histórias Brasileiras contadas por Luiz
Antonio Simas. Blog, 2016, disponível em: https://hisbrasileiras.blogspot.
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em julho de 2019).
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Sobre o autor
Recebido em 31/07/2019
Aprovado em 18/12/2019
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