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O documento analisa a relação entre o método cartesiano e a busca pela verdade em René Descartes, destacando a importância de um método sistemático para fundamentar o conhecimento. A obra compara criticamente o 'Discurso do Método' e as 'Meditações Metafísicas', enfatizando as diferenças na aplicação do método e suas implicações filosóficas. O texto também contextualiza a filosofia de Descartes dentro das revoluções científicas e mudanças paradigmáticas do século XVII.

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O documento analisa a relação entre o método cartesiano e a busca pela verdade em René Descartes, destacando a importância de um método sistemático para fundamentar o conhecimento. A obra compara criticamente o 'Discurso do Método' e as 'Meditações Metafísicas', enfatizando as diferenças na aplicação do método e suas implicações filosóficas. O texto também contextualiza a filosofia de Descartes dentro das revoluções científicas e mudanças paradigmáticas do século XVII.

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Verdade e Método em

RENE DESCARTES
Angela Gonçalves

Verdade e Método em
RENE DESCARTES

Porto Alegre
2015
Direção editorial, diagramação e capa: Lucas Fontella Margoni
Revisão do autor
Imagem de capa: Detalhe de Portrait of René Descartes (1596-1650),
de Frans Franchoisz Hals
Copyright © Autores

Todos os livros publicados pela


Editora Fi estão sob os diretos da
Creative Commons 3.0
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Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)


GONÇALVES, Angela.
Verdade e método em René Descartes [recurso eletrônico] /
Angela Gonçalves -- Porto Alegre, RS: Editora Fi, 2015.

148 p.

ISBN - 978-85-66923-60-5

Disponível em: http://www.editorafi.org

1. Método. 2. René Descartes. 3. Verdade. 4. Evidência Clara e


Distinta. 5. Intuições. 6. Deduções. 7. Analítico. 8. Deus. I. Título.

CDD-190

Índices para catálogo sistemático:


1. Filosofia Moderna 190
AGRADECIMENTOS
Primeiramente a Deus.
Aos meus pais pela compreensão e pelo apoio constante.
Ao meu orientador, professor Dr. Thadeu Weber, pelo incentivo no
desenvolvimento desta obra.
À PUCRS pela estrutura fornecida.
Ao CNPQ pelo financiamento desse período de estudo e pesquisa.
SUMÁRIO
1. INTRODUÇÃO ....................................................... 9
2. O MÉTODO ........................................................... 13
2.1 POR QUE UM MÉTODO? ...................................... 13
2.2 COMO SE CHEGA AO MÉTODO....................... 19
2.3 PRECEITOS DO MÉTODO ................................... 26
2.4 A MORAL POR PROVISÃO ................................... 51
2.5 A DÚVIDA METÓDICA ......................................... 62
3. ESTUDO CRÍTICO-COMPARATIVO ENTRE O
“DISCURSO DO MÉTODO” E AS “MEDITAÇÕES
METAFÍSICAS” .........................................................74
3.1 AS DIFERENÇAS DO ARGUMENTO DO
ERRO DOS SENTIDOS ................................................. 84
3.2 A DEMONSTRAÇÃO OU O PROBLEMA DOS
RACIOCÍNIOS MATEMÁTICOS ................................ 99
3.3 A DIFERENÇA ENTRE GÊNIO MALIGNO E
DEUS ENGANADOR................................................... 101
3.4 A COMPARAÇÃO DO TRATAMENTO DADO
À DÚVIDA METÓDICA.............................................. 110
3.5 A DIFERENÇA ENTRE O COGITO DO
DISCURSO DO MÉTODO E O COGITO DAS
MEDITAÇÕES METAFÍSICAS .................................. 112
3.6 AS DIFERENÇAS ENTRE AS PROVAS DA
EXISTÊNCIA DE DEUS .............................................. 124
3.7 MORAL POR PROVISÃO ..................................... 134
4. CONSIDERAÇÕES FINAIS ............................... 136
REFERÊNCIAS ....................................................... 141
1
INTRODUÇÃO
A filosofia é um elo de conhecimentos no qual, a
cada época ou a cada tempo, surge um expoente inovador.
Essa inovação da filosofia moderna surge com René
Descartes. Não inova somente por inovar, mas porque urge
uma mudança rigorosa através de uma crítica radical, pois se
torna indispensável a imperiosa necessidade de romper
paradigmas antigos. É no cartesianismo que se fundamenta
a gênese da consciência. O novo ponto de partida da filosofia
é expresso pela subjetividade - o eu pensante. Encontra-se
em Descartes uma nova maneira de fundamentar o
conhecimento. É a partir dele que a estrutura da
subjetividade apresenta-se por meio da estrutura do cogito (eu
penso). Isso provocou uma mudança radical na filosofia e
em todas as áreas do saber humano. O fio condutor e o cerne
da questão que nortearam o seu pensamento é a busca de
fundamentos para um conhecimento verdadeiro.
O objetivo deste trabalho é mostrar a relação entre o
método cartesiano e sua vinculação à verdade, fazendo uma
10 Verdade e método em René Descartes
comparação crítica entre o Discurso do Método e as Meditações
Metafísicas.
O novo paradigma não acontece bruscamente. Por
quê? Pelo fato de existir um processo que engloba o velho
(o antigo paradigma) para, então, se chegar ao novo. A
ruptura não se dá de forma isolada. Posto isso, é preciso
verificar o que existe na filosofia anterior para ser possível
compreender a filosofia de Descartes. O objetivo do
primeiro capítulo é mostrar essencialmente o método.
Como? Num primeiro momento, explica-se por que a
necessidade de um método, relatando-se momentos
significativos que corroboraram para o rompimento dos
antigos paradigmas como as revoluções científicas,
movimentos históricos importantes (Iluminismo e
Renascimento, além de outros), dissensões religiosas, a
insatisfação de Descartes com o saber escolástico e a
influência cética no pensamento moderno.
A época em que Descartes viveu é de extrema
importância, pois é a partir de fatos importantes ocorridos,
como as revoluções científicas, a quebra de paradigmas
medievais que se constrói a nova filosofia do autor. O
modelo aristotélico-tomista já não sustentava os seus
próprios fundamentos. A ciência da época, como de Galileu,
estava comprovando ideias contrárias às de Aristóteles. A
realidade dos acontecimentos estava a sugerir mudanças para
defender um novo modelo. O filósofo da modernidade
defende que “todos os homens têm razão e bom senso”. Mas
isso não é o suficiente. O importante é aplicá-lo bem. A
razão tem de ser guiada, visto que necessita ter uma direção
para que sejam construídos os novos fundamentos da
ciência. Sem sistematizar o modo pelo qual se pode
conhecer, não iremos chegar a lugar algum. Se o espírito
humano cultivar a sua autonomia e conduzir-se por um
“método”, alcançará a verdade. Descartes se pergunta:
“Qual é o procedimento para a busca da verdade?” A
variação e a pluralidade na construção do saber são
Angela Gonçalves 11

incompatíveis com o caráter do conhecimento. A falta de um


critério de verdade na filosofia impulsiona Descartes a
apresentar um método, o qual é a sistematização racional
para se chegar à verdade. É preciso a unidade do saber, tendo
como ponto de partida a unidade do intelecto. O
procedimento para a busca da verdade, para superar a
relatividade das conjunturas e a pluralidade de opiniões é um
método adequado.
Como matemático, Descartes sentiu-se atraído pelo
método seguro dessa ciência. A palavra método do grego
significa “caminho certo, correto, seguro”. Ele é o
procedimento, a justificação da verdade oriunda do homem
(substância finita). O projeto do autor, no Discurso do Método,
é encontrar um método eficaz com o rigor da ciência para as
descobertas científicas. Descartes quer encontrar um
fundamento seguro a fim de poder, com o apoio dele (o
método) fundamentar os demais saberes.
Num segundo momento, após a constatação da
necessidade do método, é preciso demonstrar como se chega
a este, isto é, mostrar a ascendência metodológica do autor,
a procedência de seu método e o que influenciou Descartes
para a compilação desse modo de proceder. Após a
explicação de como se chegou ao método, apresentam-se os
seus preceitos. Nas Regras para a Direção do Espírito, o
fundador da filosofia moderna delineou vinte e um. No
Discurso, foram reduzidas a quatro preceitos que irão orientar
a razão para se chegar à verdade. Logo após a apresentação
destes, explana-se a Moral por Provisão, o que significa esta,
qual a sua função no método e demonstram-se as máximas
dessa moral. Por fim, como último componente do método,
explica-se a dúvida metódica, artifício reflexivo fundamental
para o fundamento das ciências, pois é através dela que se
chega à primeira verdade: o cogito. A conquista do cogito é o
cerne da questão, a marca crucial da filosofia cartesiana. É o
primeiro princípio da metafísica do autor tendo a
autoevidência presente em seu interior.
12 Verdade e método em René Descartes
O objetivo do segundo capítulo é fazer um estudo
crítico-comparativo entre o Discurso do Método e as Meditações
Metafísicas. Trata da diferença da aplicação do método nas
Meditações e no Discurso, no que se refere às fontes das
opiniões: aos sentidos, aos sonhos e às verdades
matemáticas. Tem por meta igualmente expor a diferença
entre Gênio Maligno e Deus Enganador, mostrando a
função de cada um. Também discorre acerca das diferenças
metafísicas entre as duas obras (dúvida – cogito e Deus) e o
objetivo de cada uma. Mostra-se também que elas têm uma
relação intrínseca: Meditações é uma continuação do Discurso,
obviamente com uma metafísica mais elaborada, mais
aprofundada e ademais, uma obra filosófica. Discute-se o
problema da circularidade entre o cogito e Deus: o cogito
fundamenta Deus ou Deus fundamenta o cogito.
Demonstram-se as provas da existência de Deus nas
Meditações e no Discurso, mostrando as respectivas diferenças.
Por último, mostra-se que a Moral por Provisão só é
apresentada no Discurso.
O estudo tem a pretensão de permitir uma maior
compreensão do significado do projeto cartesiano. O que
torna relevante a filosofia cartesiana é que ele toma como
ponto de partida a consciência para a compreensão do
homem e saber que esse ponto de partida só aconteceu em
consequência de um procedimento: o método.
Observa-se que, nessas obras, o projeto cartesiano é
o mesmo: a busca da fundamentação de uma nova ciência
através de um método. Nas Regras para a Direção do Espirito,
apresenta as regras da clareza e evidência já fazendo alusão
“à orientação do espírito para permitir juízos sólidos e
verdadeiros”. No Discurso, o autor escreve em primeira
pessoa e toma a forma de uma espécie de autobiografia
intelectual. Nas Meditações, sua argumentação torna-se mais
sistemática e filosófica, apresentando o seu projeto de
reconstrução do saber. É a condição sine qua non para a
verdade.
2
O MÉTODO
2.1 POR QUE UM MÉTODO?

O ceticismo como concepção filosófica teve sua


origem na Grécia antiga. Uma das concepções chamada de
ceticismo pirrônico, que é a que interessa ao presente
trabalho, preconiza que devemos suspender o juízo a
respeito de todas as questões no que concerne ao
conhecimento, pois não há certeza suficiente para precisar
se existe alguma forma de conhecimento, se este é possível
ou não.
“Com a redescoberta no século XVI dos escritos do
pirrônico grego Sexto Empírico, os argumentos e pontos de
vista dos céticos gregos tornaram-se parte do núcleo
filosófico das lutas religiosas que ocorriam nessa época”1. A

1 POPKIN, Richard. História do ceticismo de Erasmo a Spinoza.


Tradução Danilo Marcondes de Souza Filho. Rio de Janeiro: Francisco
Alves, 2000. p. 25.
14 Verdade e método em René Descartes
influência cética na formação do pensamento moderno é
notória; é um momento “que não somente indica o conflito
acerca do critério do conhecimento religioso entre a Igreja e
os líderes da Reforma, mas também o tipo de dificuldades
filosóficas geradas por este conflito”2.
Na Idade Média, o paradigma do conhecimento era
a filosofia “aristotélico-tomista.” Este tinha como critério de
verdade o mundo sensível. Mas será este um paradigma para
o verdadeiro conhecimento?
O Renascimento foi um “período de transição para
a modernidade ou a ruptura inicial face ao saber medieval
que preparou o advento da filosofia moderna”3. Os
elementos delimitadores da vida intelectual do que
denominamos Renascimento são os seguintes:

1) Surgimento de academias laicas e livres, paralelas às universidades


confessionais, onde por um lado, imperavam as versões
cristianizadas do pensamento de Platão, Aristóteles, Plotino e dos
Estoicos e discussões sobre as relações entre fé e razão, inclusive
aquelas que se interessavam pela elaboração de conhecimento
sem vínculos diretos com a teologia e a religião.
2) Preferência pelas discussões pela separação clara entre fé e razão,
natureza e religião, política e igreja. Considera-se que os
fenômenos naturais podem e devem ser explicados por eles
mesmos, sem recorrer à intervenção divina e sem submetê-los
aos dogmas cristãos; defende-se a ideia de que a observação, a
experimentação, as hipóteses lógico-racionais, os cálculos
matemáticos e os princípios geométricos são instrumentos
fundamentais para a compreensão dos fenômenos naturais.
(Bruno, Copérnico, Leonardo da Vinci, sendo os expoentes dessa
posição). Desenvolvem-se, assim, tendências em oposição à
Idade Média; isto é, o naturalismo (coisas e homens, enquanto
seres naturais operam segundo princípios naturais e não divinos
providenciais).

2 POPKIN, 2000, p. 25.


3 CHAUÍ, Marilena. Primeira filosofia: lições introdutórias: sugestões
para o ensino básico da filosofia. São Paulo: Brasilliense, 1984. p. 62.
Angela Gonçalves 15
3) Interesse da ciência ativa ou prática em lugar do saber
contemplativo, ou seja, crença na capacidade da razão humana.
4) Alteração da perspectiva da fundamentação do saber, isto é,
passagem da visão teocêntrica (Deus como centro, princípio,
meio e fim do real) para a naturalista e para Humanista4.

Ademais, o século XVII se afirma como uma época


de revoluções científicas, a saber:

Descobertas como a do universo infinito por


Giordano Bruno e a do inglês Gilbert que publica a
obra “Do Magnetismo” na qual afirma que a terra
gira sobre si mesma devido à sua própria força
magnética. Em 1605, Kepler enuncia a lei do
movimento elíptico dos planetas em torno do sol,
aperfeiçoando a teoria de Copérnico, ou seja, a
concepção da terra como centro imóvel de um
sistema finito não se sustentava. A contestação do
geocentrismo inaugura uma crise na concepção da
posição do homem no universo. Retira-o de sua
posição central (o homem) e o torna um ser relativo
entre muitos outros5.

Em consequência desses fatos, esse período foi de


crises, porque foi uma época de indefinições, de transição,
de conflitos e de mudanças. As dúvidas religiosas
desencadearam uma infinidade de tendências,
oportunizando o surgimento de seitas e de igrejas com a
constatação de que a referência à ideia de cristandade se
perdera. É mister também o registro de tensão política com
a perda de centro político (Sacro Império Romano). Todas
as descobertas dessa época obrigaram os sábios a abandonar
o sistema aristotélico, tendo em vista o abismo entre a

4 CHAUÍ, 1984, p. 65-66.


5 SILVA, Franklin Leopoldo e. Descartes: a metafísica da
modernidade. 3. ed. São Paulo: Moderna, 1994. p. 22-23.
16 Verdade e método em René Descartes
cosmologia do filósofo grego e as novas descobertas que
eram trazidas à tona. Vê-se uma separação entre ciência e
filosofia em consequência de uma “insuficiência sistemática
da filosofia aristotélica e dos fundamentos que ela
propunha”6.
“A Reforma, o Humanismo Renascentista, as
revoluções científicas e o ataque do ceticismo tinham feito
ruir os velhos fundamentos que costumavam sustentar toda
a estrutura das realizações intelectuais humanas”7. O que se
quer dizer com o “ataque do ceticismo” é que desde a Grécia
antiga (com o movimento pirrônico), que se traduziu nos
textos de Sexto Empírico, o ceticismo vem acompanhando
os diversos sistemas filosóficos de cada época. Sendo assim,
o ceticismo pirrônico contesta todas as doutrinas filosóficas
por não terem certeza de nada, somente probabilidades,
instabilidades ou consensos. Não se tem um critério de
verdade e tudo é instável. Os questionamentos dos céticos
inicialmente são voltados contra a concepção aristotélica da
ciência (período medieval). Logo após, com as descobertas
científicas (século XVI e XVII), instaura-se um conflito
entre a ciência antiga e a de Copérnico. Duas perguntas são
necessárias: Qual é a verdadeira ciência então?... Quais são
os critérios da verdade?...
O resultado dessas crises e indefinições, conforme
muitos historiadores, foi o ceticismo filosófico, cujos
maiores expoentes teriam sido Montaigne e Erasmo8.
Montaigne chegou a dizer que o conhecimento filosófico
não trouxe nenhuma vantagem para os filósofos,
acrescentando que o "mal do homem está em pensar que
sabe". Por outro lado, ele reconhece que a ignorância é o

6 SILVA, 1994, p. 23.


7 POPKIN, 2000, p. 277.
8 CHAUÍ, 1984, p. 63.
Angela Gonçalves 17

meio pelo qual alcançamos a tranquilidade da alma9.


Montaigne propõe a suspensão do juízo, porquanto não é
possível encontrar um critério para determinar
racionalmente o conhecimento.
A discussão cética sobre a questão da ciência, e
consequentemente da filosofia, no período que vai do
Humanismo Renascentista (século XV aproximadamente)
até o final do século XVII, requer, urgentemente, a defesa de
uma ciência com fundamentos sólidos.
Surge então um oponente ao ceticismo: René
Descartes. Ele apresenta a defesa de uma ciência com
fundamentos sólidos calcados sob o racionalismo. Segundo
Danilo Marcondes de Souza Filho, “os racionalistas
pretendem assim explicar a possibilidade do conhecimento
de verdades universais através do recurso a uma faculdade
da razão, de caráter intuitivo e de origem inata"10. Esse autor
diz que o pensamento intuitivo é uma “experiência de
pensamento de caráter não demonstrativo ou não
argumentativo e trata-se de um ato interior, uma experiência
estritamente subjetiva” 11.
Charlie Huenemann, a respeito do racionalismo,
afirma:

Descartes defende a ideia de que nós conhecemos,


independentemente da experiência, os limites
matemáticos e físicos básicos da natureza, e isso
oferece a base de nosso conhecimento da natureza

9 SMITH, Plínio Junqueira. Ceticismo filosófico. São Paulo: E.P.U,


2000. p. 55.
10 SOUZA FILHO, Danilo Marcondes de. O argumento do
conhecimento do criador e o ceticismo moderno. In: CHAUI,
Marilena; ÉVORA, Fátima (Eds.). Figuras do Racionalismo. São
Paulo: Associação Nacional de Pós-Graduação em Filosofia, 1999. p.
11.
11 SOUZA FILHO, 1999, p. 10-11.
18 Verdade e método em René Descartes
[...] o intelecto tem uma autoridade maior do que os
sentidos, e o que nós sabemos através do intelecto
supera qualquer coisa que os sentidos possam nos
sugerir. Esta é uma revolução racionalista, a que
coloca o intelecto – e não os sentidos – na base do
nosso conhecimento12.

Os racionalistas acreditam na razão, e não na


experiência como critério de verdade; o que é válido é a razão
e não nossa experiência sensória.
"Num mundo fragmentado sem um centro de
referência, o pensamento ocidental agarra-se na razão como
o último refúgio"13. Neste mundo racional, nascem a ciência
e a filosofia modernas. A razão é quem irá reordenar o
mundo. É no século XVII que começam a se estruturar os
sistemas filosóficos modernos14. O grande desafio agora é
encontrar no próprio homem o fundamento para a nova
ordem.
O grande modelo do racionalismo será a matemática.
A tarefa de Descartes será a de “refazer o caráter sistemático
do saber”15. Ele vai unir novamente ciência e filosofia, física
e metafísica. Para isso, ele conta com uma concepção da
nova física de Galileu: “A natureza está inscrita em
linguagem matemática”16. Ela será o ponto central do
método de Descartes, ou seja, o cerne será a extensão do
modelo de conhecimento matemático a todos os objetos.
Descartes adota uma nova postura filosófica em meio ao
12 HUENEMANN, Charlie. Racionalismo. Rio de Janeiro: Vozes,
2012. p. 45.
13 ZILLES, Urbano. Teoria do conhecimento. 4. ed. Porto Alegre:
Champagnat, 2003. p. 126. (Coleção filosofia, v. 21).
14 LARA, Tiago Adão. Curso de história da filosofia: a filosofia
ocidental do renascimento aos nossos dias. Rio de Janeiro: Petrópolis,
1999. p. 30-31.
15 SILVA, 1994, p. 23.
16 SILVA, 1994, p. 23.
Angela Gonçalves 19

ceticismo: buscar os alicerces das ciências com base na


substância finita (o homem), criando um instrumento para
se chegar às verdades claras e distintas: um método. Esse será
a possibilidade e o instrumento para se chegar a elas. Por que
a urgência de um método? Por que ele se faz necessário? O
que justifica o surgimento de um método é em primeiro lugar
a instabilidade nas ciências e, em segundo lugar, a falta de um
critério de verdade na Filosofia. Um método se faz
necessário porque traz rigor e sistematização para o
conhecimento e conduzirá à verdade.
No medievo, Deus era o centro do filosofar
(teocentrismo). Na Idade Moderna, a abordagem filosófica
passa a ser antropocêntrica. Com amparo na teoria de René
Descartes, a subjetividade torna-se o ponto de partida de
toda a filosofia. Um novo paradigma do filosofar se
apresenta.

2.2 COMO SE CHEGA AO MÉTODO

Em oposição ao conhecimento filosófico da


escolástica, baseado no conhecimento aristotélico-tomista, e
ao ceticismo é que surge o projeto cartesiano. A verdade
precisa ser mostrada com indubitabilidade, certeza e rigor.
Precisa-se de um caminho seguro para atingi-la.
As questões são: Como é possível a verdade? Quais
são os meios para alcançá-la? Qual é o critério de verdade?
Em meio à instabilidade pós-escolástica, qual é o
fundamento para se alcançar a verdade? A verdade, tendo
como critério a evidência, será alcançada através de um
método?
Na época de Descartes (séc. XVII), já muito se havia
pensado em método, pois caracterizou a origem da ciência
moderna. Francis Bacon, por exemplo, já havia dito que nada
se demonstrava sem método. Descartes como matemático
sentiu-se atraído pelo método seguro dessa ciência. Se a
20 Verdade e método em René Descartes
filosofia quiser ser científica, ou seja, universal, imutável e
necessária, deverá procurar um fundamento sólido.
Nas Regras para a Direção do Espírito, na Regra IV diz:

No entanto, é preferível nunca procurar a verdade


de alguma coisa a fazê-lo sem método: porque é
certíssimo que esses estudos desordenados e essas
meditações confusas obscurecem a luz natural e
cegam o espírito. E todos aqueles que têm costume
de andar nas trevas, diminuem de tal modo a
acuidade do olhar que, depois, não podem suportar
a luz do pleno dia17.

Descartes, sem dúvida, quer fundamentar a sua


busca pela verdade através de um método. Ele será o
instrumento imprescindível e necessário, norteador para que
isso aconteça. Esse instrumento é basilar e tem a imperiosa
necessidade de ordenar o conhecimento com rigor, pois, sem
ele, a busca da verdade fica obscura ao espírito e se esvai sem
direção. Ora, sem direção, sem método, sem ordem, caímos
na incerteza, no dubitável.
O termo método, segundo Emanoel Angelo da
Rocha Fragoso é:

(do latim methodus) significa, etimologicamente,


“necessidade” ou “demanda”. Num sentido mais
específico, tem o sentido de modo de proceder, uma
maneira de agir, um meio ou um caminho para se

17 “Il est pourtant bien préférable de ne jamais chercher la vérité sur


aucune chose, plutôt que de le faire sans méthode: car il est très certain
que ces études désordonnées et ces méditations obscures troublent la
lumière naturelle et aveuglent l’esprit; et tous ceux qui ont ainsi coutume
de marcher dans les ténèbres diminuent tellement l`acuité de leur regard
qu`ensuite ils ne peuvent plus supporter la pleine lumière: [...]”
(DESCARTES, René. Règles pour la direction de l’esprit: règle IV. In:
DESCARTES, René. Œuvres et lettres. Paris: Bibliothèque de La
Pléiade, 1953. p. 46.).
Angela Gonçalves 21
atingir um fim. Num sentido mais restrito, ele é
definido como um programa, um roteiro ou um
conjunto de ações em vista de um determinado
fim18.

Segundo Descartes, método é:

Ora, por método entendo regras certas e fáceis que


permitem a todos aqueles que exatamente as
observar nunca tomar por verdadeiro algo de falso
e, sem desperdiçar inutilmente nenhum esforço da
mente, mas aumentando progressivamente o saber,
atingir o conhecimento verdadeiro de tudo que será
capaz de saber19.

Quer dizer, fora do método não há como chegar à


verdade, observar exatamente e rigorosamente suas regras
para sempre apreender o verdadeiro. Ainda no Discurso do
Método, Descartes faz alusão ao método que formou:

Mas não recearei dizer que penso ter tido muita


felicidade de me haver encontrado, desde a minha
juventude, em certos caminhos, que me conduziam
a considerações e máximas, de que formei um
método, pelo qual me parece que eu tinha meio de
aumentar gradualmente meu conhecimento, e de
elevá-lo, pouco a pouco, ao mais alto posto a que a

18 FRAGOSO, Emanuel Angelo da Rocha. O método geométrico em


Descartes e Spinoza. Fortaleza: UECE, 2011. p. 17.
19 “Or, par méthode j`entends des règles certaines et faciles, grâce
auxquelles tous ceux qui les observent exactement ne supposeront
jamais vrai ce qui est faux, et parviendront, sans se fatiguer en efforts
inutiles mais en accroissant progessivement leur science, à la
connaissance vraie de tout ce qu`ils peuvent atteindre.”
(DESCARTES, René. Règles pour la direction de l’esprit: règle IV. In:
DESCARTES, 1953, p. 46.).
22 Verdade e método em René Descartes
mediocridade de meu espírito e a curta duração de
minha vida permitem atingir20.

Mas falta ainda indagar qual é a gênese do seu


método e qual é a sua origem.
Descartes, em suas obras, faz referências abundantes
e explícitas sobre a origem de seu método. Nas Regras para a
Direção do Espírito, ele diz que “somente a Aritmética e a
Geometria estão isentas de falsidade ou de incerteza”21, e
ainda:

[...] os antigos Geômetras se serviram de uma espécie


de análise que eles prolongavam à resolução de todos
os problemas, ainda que não a tenham transmitido à
posteridade. [...] E agora existe uma espécie de
Aritmética que se chama Álgebra, [...]. Estas duas
ciências são frutos espontâneos dos princípios
naturais deste método22.

20 “Mais je ne craindrai pas de dire que je pense avoir eu beaucoup


d`heur de m`être rencontré dès ma jeunesse en certains chemins, qui
m’ont conduit à des considérations et des maximes, dont j`ai formé
une méthode, par laquelle il me semble que j`ai moyen d`augmenter
par degrés ma connaissance, et de l`élever peu à peu au plus haut point
auquel la médiocrité de mon esprit et la courte durée de ma vie lui
pourront permettre d`atteindre. (DESCARTES, René. Discours de la
méthode: première partie. In: DESCARTES, 1953, p. 126-127.).
21 “[...] seules l’arithmétique et la géométrie sont exemptes de fausseté et
d’incertitude, [...]” (DESCARTES, René. Règles pour la direction de
l’esprit: règle II. In: DESCARTES, 1953, p. 41.).
22 “[...] les anciens géomètres se sont servis d’une analyse, qu’ils
étendaient à la résolution de tous les problèmes, mais dont ils on
jalousement privé la postérité. [...] Et maintenant il existe une espèce
d’arithmétique, qu’on nomme algèbre, [...] Ces deux sciences ne sont
rien d’autre que les fruits naturels produits par les principes innés de
cette méthode:[...]” (DESCARTES, René. Règles pour la direction de
l’esprit: règle IV. In: DESCARTES, 1953, p. 47.).
Angela Gonçalves 23

Nessa mesma obra, na Regra IV, ele se refere a


Pappus e Diofanto assim: "Os traços desta verdadeira
Matemática surgem ainda com Pappus e Diofanto"23. Além
da obra supracitada, Descartes, no Discurso, se reporta à
Análise dos Antigos e da Álgebra dos Modernos, a saber:

Depois, no que concerne à Análise dos Antigos e à


Álgebra dos Modernos, além de se estenderem a
matérias muito abstratas e de não parecerem de
nenhum uso [...]. Por esta causa, pensei que seria
necessário procurar algum outro método que,
compreendendo as vantagens desses três, fosse
isento de seus defeitos. [...] assim, em vez desse
grande número de preceitos de que a Lógica é
composta, eu julguei que me bastariam os quatro
seguintes, [...]24.

Com isso, o autor demonstra o seu propósito de se


vincular a essas disciplinas para compor o seu método,
fazendo um aperfeiçoamento de cada uma delas, que
“[...]compreendendo as vantagens dessas três (lógica, análise
e álgebra) ficasse isento de seus defeitos"25. Descartes tem
uma atitude crítica em relação aos geômetras e aos

23 “[...] des traces de cette vraie mathématique se voient encore chez Pappus
e Diophante, [...]”(DESCARTES, René. Règles pour la direction de
l’esprit: règle IV. In: DESCARTES, 1953, p. 50.).
24 “Puis, pour l’analyse des anciens et l’algèbre des modernes, outre
qu’elles ne s’étendent qu’à des matières fort abstraites, et qui ne
semblent d’aucun usage, [...]. Ce qui fut cause que je pensai qu’il fallait
chercher quelque autre méthode qui, comprenant les avantages de ces
trois, fût exempte de leurs défauts.[...] ainsi, au lieu de ce grand
nombre de préceptes dont la logique est composée, je crus que j’aurais
assez des quatre suivants, [...]” (DESCARTES, René. Discours de la
méthode: deuxième partie. In: DESCARTES, 1953, p. 137.).
25 “[...]comprenant les avantages de ces trois, fût exempte de leurs
défauts. [...]”(DESCARTES, René. Discours de la méthode: deuxième
partie. In: DESCARTES, 1953, p. 137.).
24 Verdade e método em René Descartes
algebristas. Na segunda parte do Discurso, ele diz que
pretende tomar somente o melhor da Análise Geométrica e
da Álgebra e corrigir os seus defeitos. A imperfeição dessas
duas disciplinas reside no fato "de se estenderem apenas a
matérias muito abstratas, e de não parecerem de nenhum
uso"26, porque não são aplicáveis às artes mecânicas e nem
aos problemas concretos da física. Quanto aos
procedimentos metodológicos, a Análise dos Antigos:

[...] permanece sempre tão adstrita à consideração


das figuras que não pode exercitar o entendimento
sem fatigar muito a imaginação. Quanto à Álgebra
dos modernos:[...] esteve sujeita a certas regras e
cifras, que fez dela uma arte confusa e obscura27.

Segundo Battisti, a geometria por se apoiar


excessivamente sobre as figuras e sobre a imaginação, acaba
fatigando-a e peca por faltar generalidade, quer dizer, a
geometria procede sempre sobre uma figura concreta, faz
cálculos novos para cada caso particular. Se fossem
consideradas as figuras em sua generalidade, seria comum
para todos os casos. A álgebra, ao se apoiar sobre uma
simbologia "confusa e obscura", obscurece a luz da razão em
função de uma aplicação cega e automática das regras28.

26 "[...] ne s'étendent qu'à des matières fort abstraites, et qui ne semblent


d'aucun usage [...]" (DESCARTES, René. Discours de la méthode:
deuxième partie. In: DESCARTES, 1953, p. 137.).
27 "[...] est toujours, si astreinte à la consideration des figures qu'elle ne
peut exercer l'entendement sans fatiguer beaucoup l'imagination; [...]
en la dernière à certaines règles et certains chiffres, qu'on en a fait un
art confus et obscur [...]" (DESCARTES, René. Discours de la
méthode: deuxième partie. In: DESCARTES, 1953, p. 137.).
28 BATTISTI, César Augusto. O método de análise em Descartes: da
resolução de problemas à constituição do sistema do conhecimento.
Cascavel: Edunioeste, 2002. p. 76-77.
Angela Gonçalves 25

Descartes criou o seu método com fundamento na


matemática, em especial na aritmética e na geometria, dando
origem a uma "Mathesis Universalis". Ela é aplicável a todas
as ciências, aos objetos de conhecimento segundo o mesmo
método, as mesmas regras. Isso significa que ela vai ser um
conhecimento unificado, visto que:

Pois sendo dado que todas as ciências nada mais são


do que a sabedoria humana, que permanece sempre
una e a mesma, por muito diferentes que sejam os
objetos a que se aplique, e não recebe deles mais
diferenças do que a luz do sol da variedade das coisas
que ilumina, [...]29.

Descartes diz que: "Toda a ciência é um


conhecimento certo e evidente"30. Ele procurará a verdade
através do seu método que, pode-se dizer, é um processo
inferencial, dedutivo, demonstrativo. Seu método será
aplicado a todas as opiniões ou crenças.
Por fim, as Segundas Respostas trazem também uma
série de indicações sobre a tradição da metodologia
cartesiana e o seu propósito claro de segui-las, a saber:

No que concerne ao conselho que me dais, de dispor


minhas razões segundo o método dos geômetras, a
fim de que uma só vez os leitores possam
compreendê-las, eu vos direi aqui de que maneira já

29 “Car, étant donné que toutes les sciences ne sont rien d`autre que la
sagesse humaine, qui demeure toujours une et toujours la même, si
différents que soient les objets auxquels elle s`applique, et qui ne
reçoit pas plus de changement de ces objets que la lumière du soleil
de la variété des choses qu`elle éclaire, [...]” (DESCARTES, René.
Règles pour la direction de l’esprit: règle I. In: DESCARTES, 1953,
p. 37.).
30 “Toute science est une connaissance certaine et évidente”,[...]
(DESCARTES, René. Règles pour la direction de l’esprit: règle II. In:
DESCARTES, 1953, p. 39.).
26 Verdade e método em René Descartes
experimentei precedentemente segui-los e como
procurarei fazê-lo ainda posteriormente. No modo
de escrever dos geômetras, eu distingo duas coisas, a
saber, a ordem, e a maneira de demonstrar31.

Constata-se assim, a certeza da filiação de Descartes


ao método dos geômetras.

2.3 PRECEITOS DO MÉTODO

Descartes, nas Regras para a Direção do Espírito, diz


que: “No entanto, é preferível nunca pensar em procurar a
verdade de alguma coisa em vez de fazê-lo sem método”32.
É mister para o autor a utilização de um método para “obter
o conhecimento verdadeiro de tudo que será capaz de
saber”33. Descartes é explícito ao defender que “se se usar o
método adequadamente”, não tomar absolutamente nada de
falso por verdadeiro, chegar-se-á ao conhecimento de tudo.
Logo, sem método, não há conhecimento verdadeiro. A
gênese do método cartesiano se apresenta inicialmente no
texto inacabado das Regras para a Direção do Espírito (escrita

31 “Pour ce qui regarde le conseil que vous me donnez, de disposer mes


raisons selon la méthode des géomètres, afin que tout d’un coup les
lecteurs les puissent comprendre, je vous dirai ici en quelle façon j’ai
déjà tâché ci-devant de la suivre, et comment j’y tâcherai encore ci-
après. Dans la façon d’écrire des géomètres, je distingue deux choses,
à savoir l’ordre, et la manière de démontrer”. (DESCARTES, René.
Réponses de L’auteur aux secondes objections: secondes réponses.
In: DESCARTES, 1953, p. 387.).
32 “Il est pourtant bien préférable de ne jamais chercher la vérité sur
aucune chose, plutôt que de le faire sans méthode: [...] (DESCARTES,
René. Règles pour la direction de l’esprit: règle IV. In: DESCARTES,
1953, p. 46.).
33 “[...] à la connaissance vraie de tout ce qu’il peuvent atteindre.”
(DESCARTES, René. Règles pour la direction de l’esprit: règle IV. In:
DESCARTES, 1953, p. 46.).
Angela Gonçalves 27

em 1628) e depois apresenta os quatro preceitos do método


na segunda parte do Discurso do Método (1637).
Nas Regras, o autor expõe detalhadamente o
conteúdo de um método e também tenta resolver problemas
algébricos e geométricos. É a primeira tentativa de Descartes
de mostrar uma filosofia nova, ou seja, mostrar uma ciência
com evidência e certeza. O autor tenta mostrar um método
com a finalidade de chegar à verdade, e ele define método
conforme foi dito no capítulo dois. O método é um meio de
guiar a razão para um conhecimento verdadeiro.
Na segunda parte do Discurso, o autor, após ter
refletido sobre o grande número de preceitos de que
compunha a Lógica e analisado a Álgebra dos modernos,
resolveu procurar um método com regras de proceder mais
simples, pois as normas da Lógica e da Álgebra se estendiam
apenas a matérias muito abstratas, como já foi dito
anteriormente. A respeito do novo método dele, Justin
Skirry diz: "assim evitando no novo método os defeitos da
dialética e da álgebra"34. O defeito da dialética é que ela
obscurece a luz da razão devido ao seu mau uso como
procedimento de descoberta. A álgebra, como já foi dito
também, é uma matemática pura, não é aplicável
concretamente aos problemas das artes mecânicas e da física.
Mas Descartes quer preservar os benefícios do raciocínio
matemático e em especial da geometria, como explica no
parágrafo seguinte:

Essas longas cadeias de raciocínio, todas simples e


fáceis que os geômetras têm costume de usar nas
suas demonstrações mais difíceis, deram-me a
ocasião de supor que todas as coisas que podem cair
sob o conhecimento humano são interconectadas da
mesma maneira. E pensei que, contanto evitemos

34 SKIRRY, Justin. Compreender Descartes. São Paulo: Vozes, 2010.


p. 22.
28 Verdade e método em René Descartes
aceitar como verdadeira qualquer coisa que não o
seja e sempre mantenhamos a ordem exigida para
deduzir uma coisa de outra, nada pode ser tão
remoto que não se alcance afinal nem tão escondido
que se descubra35.

Em vez do grande número de preceitos da lógica, ele


julgou que bastariam apenas quatro:
O primeiro era:

De jamais receber alguma coisa como verdadeira que


eu não conhecesse evidentemente como tal; quer
dizer, de evitar cuidadosamente a precipitação e a
prevenção, e de não compreender nada além em
meus juízos que não se apresentasse tão claramente
e tão distintamente a meu espírito, que eu não tivesse
nenhuma ocasião de pô-lo em dúvida36.

A evidência é uma percepção do entendimento, ou


seja, está no âmbito de faculdades intelectuais. O que é
evidente é um conhecimento indubitável. Ela é um critério

35 “Ces longues chaînes de raisons, toutes simples et faciles, don’t les


géomètres ont coutume de se servir pour parvenir à leurs plus
difficiles démonstrations, m`avaient donné occasion de m`imaginer
que toutes les choses qui peuvent tomber sous la connaissance des
hommes s`entresuivent en même façon, et que, pourvu seulement
qu`on s`abstienne d`en recevoir aucune pour vraie qui ne le soit, et
qu`on garde toujours l`ordre qu`il faut pour les déduire les unes des
autres, il n`y en peut avoir de si éloignées auxquelles enfin on ne
parvienne, ni de si cachées qu`on ne découvre”. (DESCARTES,
René. Discours de la méthode: deuxième partie. In: DESCARTES,
1953, p. 138.)
36 “Le premier était de ne recevoir jamais aucune chose pour vraie que
je ne la connusse évidemment être telle; c'est-à-dire d'éviter
soigneusement la précipitation et la prévention; et de ne comprendre
rien de plus en mes jugements que ce qui se présenterait si clairement
et si distinctement à mon esprit que je n'eusse aucune occasion de le
mettre en doute”. (DESCARTES, op. cit., p. 137).
Angela Gonçalves 29

legítimo de verdade, porque se traduz num juízo verdadeiro,


pois a razão é a faculdade que distingue o verdadeiro do
falso. Ela inclui clareza e distinção; advém de uma percepção
intelectual cujo discernimento é imediato ao entendimento,
através “da luz natural da razão”. A distinção é aquele juízo
que depura a ideia de um objeto do outro ou uma ideia de
outra. Clareza e distinção, poderia se dizer, são duas
qualidades que concorrem para uma evidência. Para se
chegar à clareza de uma ideia, o autor diz que utilizamos a
intuição, a saber:

Por intuição entendo não o testemunho variante dos


sentidos ou o juízo enganador de uma imaginação
que compõe inadequadamente seu objeto, mas a
concepção de um espírito puro e atento, tão fácil e
distinto, que nenhuma dúvida nos fica acerca do que
compreendemos; ou então, o que é a mesma coisa, a
concepção firme da mente pura e atenta, que nasce
apenas da luz da razão [...]37.

A intuição é inata, isto é, o sujeito já possui essa


compreensão imediata naturalmente, uma luz natural que é
imediatamente percebida pelo espírito. É o acesso imediato
e indubitável aos atos da consciência. Então, pode-se deduzir
que o pensamento intuitivo é uma ideia puramente
intelectual, tendo como características a certeza, a evidência,
a imediaticidade, e não é suscetível de erro. Segundo Danilo

37 “Par intuition j’entends, non pas le témoignage changeant des sens


ou le jugement trompeur d’une imagination qui compose mal son
objet, mais la conception d’un esprit pur et attentif, conception si
facile et si distincte qu’aucun doute ne reste sur ce que nous
comprenons; ou, ce qui est la même chose, la conception ferme d’un
esprit pur et attentif, qui naît de la seule lumière de la raison, [...]”.
(DESCARTES, René. Règles pour la direction de l’esprit: règle III.
In: DESCARTES, 1953, p. 43-44.).
30 Verdade e método em René Descartes
Marcondes de Souza, o pensamento intuitivo tem as
seguintes características:

a) É capaz de um acesso imediato ou direto ao real, àquilo a


que dirige sua apreensão;
b) Produz certeza, evidência, não é passível de erro;
c) É independente da experiência sensível ou externa, é,
portanto, inato, a priori;
d) Consiste em uma faculdade da alma e constitui uma
experiência estritamente subjetiva38.

De acordo com essa passagem, pode-se inferir que a


intuição não é enganosa a partir do momento em que temos
uma mente clara e atenta. Intuição é o ato mental direto que
percebe uma verdade indubitável, não requer nenhum
conhecimento prévio, apenas "a luz da razão". Desse modo,
a "luz clara da razão" é indubitável no sentido de que ela é
evidente por força da razão. Não é possível negar qualquer
intuição em favor de uma posição contrária. Dar primazia à
razão para distinguir o verdadeiro do falso é a tese
fundamental cartesiana.
A respeito ainda da intuição, Descartes ilustra
também com a seguinte passagem:

Pois, aquele que quiser observar com um só olhar


muitos objetos ao mesmo tempo, não vê
distintamente nenhum deles, e, igualmente, aquele
que tiver o costume de prestar atenção a muitas
coisas, ao mesmo tempo, por um só ato do
pensamento, tem o espírito confuso [...]39.

38 SOUZA FILHO, 1999, p. 11-12.


39 “Car celui qui veut regarder d’un seul coup d’oeil beaucoup d’objets à
la fois, n’en voit aucun distinctement; et pareillement, celui qui a
coutume de s’appliquer par un seul acte de pensée à beaucoup de
choses en même temps, a l’esprit confus”. (DESCARTES, René.
Règles pour la direction de l’esprit: règle IX. In: DESCARTES, 1953,
p. 67-68.).
Angela Gonçalves 31

A intuição intelectual é compreendida de uma só vez


e não parte por parte. Essa assertiva significa que uma
intuição não acontece aos poucos, mas sim de relance, ou
seja, de uma só vez. Isso a torna um ato simples.
Mas o que Descartes quer dizer com esse modo
simples, imediato e espontâneo de intuição?
Ele esclarece com o seguinte exemplo:

Assim cada um pode, mentalmente, intuir que existe


e que pensa que o triângulo é definido por apenas
três linhas, a esfera por uma simples superfície e
coisas do gênero. Percepções como essas são mais
numerosas do que a maioria das pessoas imagina,
porque eles desdenham voltar sua atenção para
questões tão simples40.

Aqui, Descartes diz que obtemos conhecimento de


nosso pensamento e de nossa existência por intuição.
Segundo o autor, "intuit" significa cognição intelectual do
gênero mais simples e direto. Toda Scientia é um
"conhecimento certo e evidente; [...]”41. Mais adiante,
Descartes explica: "[...] assim, através desta regra, rejeitamos
todos os conhecimentos prováveis, e declaramos que se deve
confiar nas nossas coisas perfeitamente conhecidas e das

40 “Ainsi chacun peut voir par intuition qu’il existe, qu’il pense, que le
triangle est défini par trois lignes seulement, la sphère par une seule
surface, et des choses de ce genre, qui sont bien plus nombreuses que
ne le pourraient croire la plupart des hommes, parce qu’ils dédaignent
de tourner leur esprit vers des choses si faciles.” (DESCARTES,
René. Règles pour la direction de l’esprit: règle III. In: DESCARTES,
1953, p. 44.).
41 “Toute science est une connaissance certaine et évidente; [...]”
(DESCARTES, René. Règles pour la direction de l’esprit: règle II. In:
DESCARTES, 1953, p. 39.).
32 Verdade e método em René Descartes
quais não se pode duvidar"42. A intuição é a apreensão
intelectual simples e direta (sem inferência) de um objeto ou
uma ideia de que não temos dúvida nem podemos duvidar
em consequência da sua clareza para a mente. Descartes quer
dizer que já temos essa operação mental inata, quer dizer,
que conseguimos distinguir o que é verdadeiro do que é falso
e só ela é capaz de estabelecer os primeiros princípios. A
possibilidade da fundamentação de uma ciência não é
possível sem o auxílio da intuição.
Segundo Octave Hamelin intuição é “o caráter
puramente intelectual do ato intuitivo”43. Já John
Cottingham diz que: “[...] a intuição é uma autoevidência
imediata [...], é a faculdade por meio da qual obtemos as
certezas iniciais que tornam possível a dedução”. Ainda esse
autor diz:

Quando inferimos de modo imediato uma conclusão


a partir de uma premissa auto-evidente que é intuída,
não temos consciência de qualquer movimento do
pensamento. Nenhuma série extensa de intuições
nos leva à conclusão, há somente um ato mental no
qual a premissa auto-evidente é intuída44.

Para outro autor, Enéias Forlim, a intuição é “[...]


aquilo que é intuído clara e distintamente é de uma evidência
tal que torna supérflua qualquer definição, é uma percepção

42 “Ainsi, par cette règle, nous rejetons toutes les connaissances qui ne
sont que probables, et nous décidons qu’il ne faut donner son
assentiment qu’à celles qui sont parfaitement connues et dont on ne
peut douter.” (DESCARTES, René. Règles pour la direction de
l’esprit: règle II. In: DESCARTES, 1953, p. 39.).
43 [...] "el caráter puramente intelectual del acto intuitivo,"[...]
(HAMELIN, Octave. El sistema de descartes. Buenos aires:
Losada, 1949. p. 95.)
44 COTTINGHAM, John. (Org.) Descartes. Tradução André Oídes.
Sao Paulo: Ideias & Letras, 2009. p. 176-177.
Angela Gonçalves 33

do entendimento"45. E complementa o autor : “[...] é aquela


que apresenta ao pensamento algo como necessário, algo
que é e não pode não ser, ou então, algo que, sendo de tal
modo, não pode não ser assim"46.
Esses autores dizem que a intuição é um ato
imediato, instantâneo, e que o entendimento apreende
imediatamente de modo tão claro e evidente, que é um ato
simples.
Conclui-se que a evidência é uma percepção clara e
distinta de uma mente atenta e perspicaz, oriunda de uma
percepção do entendimento cujo ato é tão simples que o
indivíduo não pode enganar-se; simples no sentido que o
entendimento apreende a ideia claramente e distintamente.
E agora, pode-se perguntar: Intuir o quê? Para
Descartes, são as naturezas simples ou noções primitivas. O
mais simples ou primitivo significa o que não se decompõe,
indivisível. A respeito disso, Descartes diz: "[...] chamamos
simples só àquelas cujo conhecimento é tão claro e distinto
que o entendimento não as pode dividir em várias outras
conhecidas mais distintamente [...]"47. Segundo Octave
Hamelin “que uma natureza simples é um átomo de
evidência”48. As naturezas simples são aquelas absolutas, que
não dependem de nada. Descartes dá como exemplos a
causa, o uno, universal, simples (o mais simples e o mais

45 FORLIN, Enéias. A teoria cartesiana da verdade. Ijuí: UNIJUÍ,


2005. p. 226-227.
46 FORLIM, 2005, p. 237.
47 “[…]; nous n’appelons simples que celles dont la connaissance est si
claire et si distincte que l’esprit ne les puisse diviser en un plus grand
nombre dont la connaissance soit plus distincte: [...]. (DESCARTES,
René. Règles pour la direction de l’esprit: règle XII. In: DESCARTES,
1953, p. 81.).
48 "Podría decírse que una naturaleza simples es un átomo de evidencia"
(HAMELIN, 1949, p. 96.).
34 Verdade e método em René Descartes
fácil). Jean-Luc Marion dá uma definição de natureza
simples:

A natureza simples permanece sendo o termo mais


simples, mas esta é uma simplicidade epistemológica
e não ontológica: ela não diz respeito à essência ou
“ousia”. Portanto, só estamos preocupados com as
coisas na medida em que são percebidas pelo
intelecto, e assim denominamos “simples” somente
aquelas coisas que conhecemos tão clara e
distintamente que não podem ser divididas pela
mente em outras mais distintamente. O resultado é
um conceito de “ideia” que é distinta e originalmente
cartesiana: “ideia” definida como objeto que é
primário em relação a nosso conhecimento, e não
em relação a sua “ousia” ou essência – primário na
medida em que é “fácil” de conhecer, e não em
relação a alguma forma ou “eidos” indivisível49.

Aqui, “fácil de conhecer” é a capacidade inata da


intuição, um dom natural e a priori que se tem para
apreender as verdades de uma maneira clara e distinta. É um
ato simples, através da luz natural da razão que é capaz de
discernir o verdadeiro do falso de uma só vez, isto é,
imediatamente o entendimento compreende com evidência
e clareza.
Quanto à dedução, Descartes diz que:

As ciências, além de só poderem ser adquiridas pela


intuição intelectual, também são adquiridas pela
dedução. Dedução é a operação pela qual
entendemos tudo o que se conclui necessariamente
de outras coisas conhecidas com certeza. '[...] nesta
se concebe uma espécie de movimento ou sucessão,

49 MARION, Jean-Luc. A metafísica cartesiana e o papel das naturezas


simples. In: COTTINGHAM, John. (Org.). Descartes. São Paulo:
Ideias&Letras, 2009. p. 144.
Angela Gonçalves 35
[...]; além disso, para a dedução não é necessário,
como para a intuição, uma evidência atual, mas é
antes a memória que, de certo modo vai buscar a sua
certeza. [...] ao contrário, as conclusões distantes só
o podem ser por dedução50.

A dedução não é instantânea como a intuição, pois é


preciso relacionar termos, nexos (inferência). Mas mesmo
que o entendimento tenha que prestar atenção a essa
operação, é um ato intuitivo. O autor diz que são essas duas
operações do entendimento que são as mais simples e
primeiras de todas, isto é, todas são as demais operações (a
enumeração, a análise e a síntese). Essas não são "as mais
simples e primeiras", porque, por si só, não conseguem ter
uma evidência clara e distinta. Elas fazem parte do método,
porque são impedidas de ocorrerem imediatamente (são
insuficientes para uma apreensão clara e distinta). As mais
simples e primeiras de todas, significa dizer, segundo César
Augusto Battisti:

Entretanto, o método não pode pretender ensinar


como estas operações são feitas, porque lhe são
anteriores, lógica e temporalmente. Ele “não pode se
estender até ensinar como fazer essas operações”,
uma vez que, sendo “as mais simples e primeiras de
todas”, o entendimento sabe utilizá-las anterior e
independentemente à elaboração do método e,
assim, pode operar sem este. Elas são, na verdade,

50 "[...] opération par laquelle nous entendons tout ce qui se conclut


nécessairement d'autres choses connues avec certitude. [...] qu'on
conçoit en celle-ci um mouvement ou une certaine sucession, […] et
qu'en outre pour la déduction une évidence actuelle n'est pas
nécessaire comme pour l'intuition, mais plutôt qu'elle reçoit en un
sens sa certitude de la mémoire. [...] et au contraire les conséquences
éloignées ne peuvent l'être que par déduction." (DESCARTES, René.
Règles pour la direction de l’esprit: règle III. In: DESCARTES, 1953,
p. 45.)
36 Verdade e método em René Descartes
inatas de forma que naturalmente são feitas – e o
espírito sabe como efetuá-las – diante das condições
mínimas exigidas51.

Esse autor diz o que Descartes sempre defende “a


luz natural da razão”, isto é, o conhecimento intuitivo da
razão. Ela consegue perceber naturalmente uma evidência,
com atenção e perspicácia, quer dizer, “a luz natural da
razão” é um entendimento inato, a priori. Não é necessário
um método para a intuição intelectual ou para a dedução.
São verdades que o espírito intui e apreende naturalmente.
Ainda no que diz respeito à evidência, tem-se um
posicionamento de Raul Landim Filho, no seu livro Evidência
e Verdade no Sistema Cartesiano. Ele apresenta três teses básicas
sobre evidência: A primeira tese é: o entendimento humano,
na presença de uma ideia clara e distinta, a considera
naturalmente verdadeira52: “[...] todavia, a natureza do meu
espírito é tal que eu não poderia impedir de julgá-las
verdadeiras, enquanto as concebo clara e distintamente”53.
Essa tese remete à intuição, ou seja, se meu espírito concebe
algo com clareza e distinção, a luz natural da razão a
apreende como verdadeira.
A segunda tese é a da regra geral de verdade (ou o
critério de verdade)54. “E, portanto, parece-me que já posso
estabelecer como regra que todas as coisas que concebemos

51 BATTISTI, 2002, p. 36-37.


52 LANDIM FILHO, Raul. Evidência e verdade no sistema
cartesiano. São Paulo: Loyola, 1992. p. 103.
53 “[...] toutefois la nature de mon esprit est telle, que je ne me saurais
empêcher de les estimer vraies, pendant que je les conçois clairement
est distinctement”. (DESCARTES, René. Méditations (Méditation
cinquième). In: DESCARTES, 1953, p. 311.).
54 LANDIM FILHO, 1992, p. 103.
Angela Gonçalves 37

muito claramente e muito distintamente são todas


verdadeiras”55.
Segundo Raul Landim Filho:

Esta regra, embora tenha uma formulação


semelhante nos diversos textos cartesianos, é
descoberta, e de certa maneira justificada, por razões
diferentes; ora é o saber matemático que permite a
sua descoberta, ora é o primeiro princípio da
filosofia que possibilita a sua enunciação. Mas
sempre é uma verdade previamente estabelecida que
torna possível a sua formulação; [...]56.

Essa segunda tese é correta, e é o critério de verdade


para Descartes, quer dizer, tudo que se concebe com clareza
e distinção é verdadeiro.
A terceira tese é sobre a evidência passada57 (a
percepção que foi evidente) que continua sendo uma
evidência:
[...] tudo o que concebo clara e distintamente é
necessariamente verdadeiro, mesmo se eu não
presto mais atenção às razões pelas quais eu julguei
que isto era verdadeiro, à condição de que eu me
recorde de tê-lo elucidado [...] clara e distintamente
[...]58.

Qual é o significado dessas teses para Landim?

55 “Et partant il me semble que déjà je puis établir pour règle générale, que
toutes les choses que nous concevons fort clairement est fort
distinctement, sont toutes vraies”. (DESCARTES, René. Méditations
(Méditation troisième). In: DESCARTES, 1953. p. 284.).
56 LANDIM FILHO, 1992, p. 103.
57 LANDIM FILHO, 1992, p. 103.
58 LANDIM FILHO, 1992, p. 103.
38 Verdade e método em René Descartes
A tese [2] afirma que a evidência é uma regra geral
da verdade; ela generaliza e universaliza o que a tese
[1] constatara. A sua pretensão à universalidade é
expressa pelo quantificador "todas": qualquer
percepção, se clara e distinta, é verdadeira. Mas as
percepções claras são aquelas que tornam manifesta
a presença do objeto a um espírito atento. Não há
clareza sem presença, embora a presença do objeto
não seja suficiente para caracterizar a clareza da
percepção. Assim, se a tese [2] diz que a evidência é
uma regra geral de verdade, que uma percepção só é
evidente se é clara, e que só é clara se é presente ou
atual. Em princípio, uma evidência não atual não é
uma evidência. A pretensão de universalidade da tese
[2] não torna as evidências atemporais, isto é, não as
torna desvinculadas da atualidade, ou da clareza da
percepção. A tese [3], no entanto, afirma a
estabilidade da evidência e a torna atemporal,
mesmo se ela não for considerada como um critério
geral de verdade, isto é, mesmo se a tese [2] não for
válida. 'Em resumo, cada uma destas teses tem o
seguinte significado: [1] Uma evidência particular e
atual, durante o tempo em que é atual, constrange o
sujeito cognoscente a aceitá-la como verdadeira. [2]
A evidência é uma regra, ou um critério, geral de
verdade. [3] A evidência é estável59.

O problema é quando Descartes diz: "[...] enquanto


as concebo claramente e distintamente"60 Por que o autor
utiliza "enquanto"? Isto é, por quanto tempo? A validade da
clareza e distinção é temporal, a evidência não é estável?
Segundo Landim, a tese [1], o “poder” persuasivo da
evidência depende da sua atualidade, coloca em xeque a tese

59 LANDIM FILHO, 1992, p. 103-104.


60 "[…] pendant que je les conçois clairement est distinctement"
(DESCARTES, René. Méditations (Méditation cinquième). In:
DESCARTES, 1953, p. 311.).
Angela Gonçalves 39

[2] justamente porque na tese [1] que o entendimento


humano, na presença de uma ideia clara e distinta, a
considera naturalmente verdadeira.
Para ele,

é possível duvidar efetiva e retroativamente da


própria evidência em geral, pois a sua vinculação à
atualidade de uma percepção clara e distinta acarreta
que as evidências não atuais não possuem mais um
“poder” persuasivo, o que torna, então, possível que
surjam razões retroativas de duvidar61.

É possível, de acordo com Landim, que uma


evidência atual perca a sua força persuasiva, justamente
porque Descartes ao dizer "enquanto as concebo claramente
e distintamente"62 deixa uma brecha temporal, isto é,
"enquanto" significa que somente no momento em que, ou
durante o momento em que tenho a concepção clara e
distinta.
O segundo preceito é assim descrito no Discurso: "o
de dividir cada uma das dificuldades que eu examinasse em
tantas parcelas quanto possíveis e quantas necessárias
fossem para melhor resolvê-lo"63. Trata-se aqui da "análise",
ou do método analítico. Já nas Regras para a Direção do Espírito,

61 LANDIM FILHO, 1992, p. 107.


62 "[…] pendant que je les conçois clairement est distinctement"
(DESCARTES, René. Méditations (Méditation cinquième). In:
DESCARTES, 1953. p. 311.).
63 “Le second, de diviser chacune des difficultés que j’examinerais en
autant de parcelles qu’il se pourrait et qu’il serait requis pour les mieux
résoudre”. (DESCARTES, René. Discours de la méthode: deuxième
partie. In: DESCARTES, 1953, p. 138.).
40 Verdade e método em René Descartes
Descartes cita Pappus para dizer que “com ele, aparecem
vestígios da verdadeira matemática"64.
Conforme o texto de Pappus, o método de análise é
explicitado e caracterizado de uma maneira geral assim:

O assim chamado Tesouro da análise, meu filho


Hermodoro, é, em resumo, um corpo especial de
doutrinas preparado para o uso daqueles que, depois
de terem examinado os elementos comuns, desejam
adquirir a capacidade de resolver problemas
teoréticos que lhes são propostos; e ele é útil
somente para esse propósito. É resultado de três
homens: Euclides, o autor de Os Elementos,
Apolônio de Perga e Aristeu, o Antigo, e procede
pelo método de análise e síntese. A análise é o
caminho que parte daquilo que é procurado –
considerado como se fosse admitido – e segue, em
ordem, através de seus concomitantes [ akólouthon,
cuja tradução usual é “consequências”], até algo
admitido na síntese. Pois, na análise, supomos o que
é procurado como já tendo sido feito e investigamos
aquilo do qual ele resulta, e de novo qual é o
antecedente deste último, até que, no nosso
caminhar para trás, alcancemos algo que já é
conhecido e primeiro na ordem. A um tal
procedimento chamamos de análise, por ser uma
solução de trás para frente [...]65.

“O método de análise é um procedimento de


construção de uma solução: é um procedimento de
descoberta [...]”66. É no livro intitulado A Geometria que

64 “En verité il me semble que des traces de cette vraie mathématique se


voient encore chez Pappus [...]” (DESCARTES, René. Règles pour la
direction de l’esprit: règle IV. In: DESCARTES, 1953, p. 49-50.).
65 PAPPUS DE ALEXANDRIA. La collection mathématique. Paris:
Blanchard, 1982. Livro VII. p. 477-478.
66 PAPPUS DE ALEXANDRIA, 1982, p. 477-478.
Angela Gonçalves 41

Descartes ilustra a metodologia cartesiana e, em especial, o


“problema de Pappus”, (o método de análise) de uma
maneira extensiva. A respeito do método que irá utilizar,
Descartes diz o seguinte: “[...] eu somente me propus pela
Dióptrica e pelos Meteoros a persuadir que meu método é
melhor que o ordinário, mas eu pretendo tê-lo demonstrado
por minha geometria”67. Isso significa que, essencialmente, o
método que está nessa obra é que o autor irá utilizar: a
geometria analítica. Descartes, no livro primeiro de A
Geometria, cujo título é – Como é preciso chegar às questões
que servem para resolver os problemas – diz: “Assim,
querendo resolver algum problema, deve-se primeiro
considerá-lo como já resolvido e dar nomes a todas as linhas
que parecem necessárias para construí-las, tanto aquelas que
são desconhecidas quanto as outras”68. Segundo Battisti, a
descrição que Descartes fornece na Geometria é a seguinte:

a) A análise pode ser dividida em vários passos. O primeiro, se o


geômetra deseja resolver um problema, deve supô-lo como já
resolvido, antes de começar efetivamente a resolvê-lo69. É o
procedimento característico da análise praticado pelos
geômetras gregos. O desconhecido ou procurado é considerado
como se fosse conhecido ou dado. O objetivo final é resolver
o problema através da determinação do que se procura;

67 “[...] j’ai seulement tâché par la Dioptrique et par les Météores de


persuader que ma méthode est meilleure que l’ordinaire, mais je
prétends l’avoir démontré par ma géométrie”. (DESCARTES, René.
Lettres: a Mersenne [Fin décembre 1637] In: DESCARTES, 1953, p.
983.).
68 “If, then, we wish to solve any problem, we first suppose the solution
already effected, and give names to all the lines that seem needful for
its construction, -to those that are unknown as well as to those that
are know.” (DESCARTES, René. Geometry: first book. In:
DESCARTES, René; SPINOZA, Benedict. Great books of the
western world. EUA: EnciclopÆdia Britanica, 1955. p. 296.).
69 “If, then, we wish to solve any problem, we first suppose the solution
already effected [...]“(DESCARTES, 1955, p. 296.).
42 Verdade e método em René Descartes
b) Consiste em atribuir nomes às linhas, necessárias para resolver
o problema, tanto conhecidas quanto desconhecidas. Descartes
introduz símbolos para as operações aritméticas (letras do
alfabeto) para as operações conhecidas e as desconhecidas;
dessa forma pode estabelecer relações entre as equações de uma
maneira mais clara e distinta; este recurso (das letras) é uma
maneira de auxíliar a memória;
c) Examinar o problema (a dificuldade) seguindo a ordem que
mostra da maneira mais “natural”, a dependência mútua entre
elas, até chegar a expressar uma mesma grandeza em forma de
equação70;
d) Consiste em reconduzir ou reduzir todas as equações, oriundas
em função de cada uma das linhas desconhecidas, a uma única
[...]71.

Também nas Regras (Regra VI), Descartes faz alusão


ao método de análise que está na sua obra “A Geometria”. Ele
faz notar que é crucial a procura e a conquista do elemento
mais simples e mais absoluto, dentro de uma problemática
dada. Os elementos simples e absolutos não são
imediatamente percebidos, porquanto estão implícitos na
complexidade dada e, portanto, devem ser identificados e
descobertos. O sucesso do método é justamente captar e
conquistar o que há de mais absoluto e mais simples.
Decompõe-se um tópico complexo a fim de se obter uma
melhor compreensão. É preciso desarticular o complexo no

70 Diz Descartes: “Then, making no distinction between known and


unknown lines, we must unravel the difficulty in any way that shows
most naturally the relations between these lines, until we find it
possible to express a single quantity in two ways. This will constitute
an equation, since the terms of one of these two expressions are
together equal to the terms of the other.” (DESCARTES, 1955, p.
296.).
71 “I shall therefore content myself with the statement that if the
student, in solving these equations, does not fail to make use of
division wherever possible, he will surely reach the simplest terms to
wich the problem can be reduced” (DESCARTES, 1955, p. 297.).
Angela Gonçalves 43

simples. Esse preceito não serve para as naturezas simples,


que são claras, distintas e evidentes. A análise ocorre quando
se evidenciam obscuridades, complexidades. Para esses
casos, em que não é possível reduzir um conhecimento à
intuição clara e evidente, Descartes vai prescrever a Regra
VII:

Para concluir a ciência, é preciso analisar todas as


coisas que se relacionam com o nosso objetivo, cada
uma delas, por um movimento contínuo e
ininterrupto do pensamento, abarcando-as numa
enumeração suficiente e ordenada72.

É preciso supor uma ordem para analisar. Esse é o


primeiro preceito da ordem, prescrevendo a decomposição
de uma ideia complexa em seus elementos mais simples. A
análise é o procedimento que reduz o desconhecido ao
conhecido, do relativo ao absoluto, das naturezas compostas
(efeito, múltiplo) às naturezas simples (causa, universal, uno).
Essa compreensão da análise está expressa também nas
Regras, Regra V: "se nós reduzirmos gradualmente as
proposições complicadas e obscuras a proposições mais
simples, [...]"73. Descartes também utiliza a metáfora da casa
na segunda parte do Discurso do Método para explicar a análise.
Ele diz que: "assim como muitos que moram nas suas casas
com risco de desabamento devido a alicerces frágeis ou
instáveis, têm que demolir a moradia e reconstruí-la sobre

72 “Pour achever la science, il faut parcourir par un mouvement continu


et ininterrompu de la pensée toutes les choses qui se rapportent à
notre but et chacune d’elles en particulier, ainsi que les embrasser dans
une énumération suffisante et ordonnée”. (DESCARTES, René.
Règles pour la direction de l’esprit: règle VII. In: DESCARTES, 1953,
p. 57.).
73 "[…], si nous ramenons graduellement les propositions compliquées
et obscure aux plus simples,[…]" (DESCARTES, René. Règles pour
la direction de l’esprit: règle V. In: DESCARTES, 1953, p. 52.).
44 Verdade e método em René Descartes
fundações mais seguras”, todo o seu sistema de crenças
sustentado num fundamento epistemológico incerto deve
ser posto abaixo e reconstruído sobre bases absolutamente
certas. Isso corresponde a "dividir cada uma das dificuldades
que examinei em tantas partes quanto possível"74. O estágio
inicial da demolição da própria casa corresponde à divisão
da dificuldade em suas partes constituintes, enquanto a
reconstrução sobre alicerces mais firmes corresponde à
ascensão das coisas mais simples às mais complexas. Ele
emprega a análise para descobrir novas verdades. A análise é
um procedimento para remover dificuldades, fazer relações
do desconhecido para o conhecido e construir o
desconhecido. Relacionar termos é intrínseco à análise, a
qual por sua natureza dissolve as complexidades entre as
noções.
Indo ao encontro de Raul Landim Filho mais uma
vez, é possível meditar sobre o pormenor de que

A via analítica mostra a maneira pela qual “uma coisa


foi metodicamente e como que a priori foi
inventada”. Em uma prova analítica não só é
justificada cada etapa da demonstração, o que
também ocorre nas provas sintéticas, como é
indicada a maneira de se produzir cada etapa da
prova75.

Sabe-se o porquê dos seus enunciados (por que são


verdadeiros) e sabe-se como eles foram descobertos, sempre
numa ordem. Para Giovanni Reale, “o método analítico é o
único capaz de levar à evidência”76.

74 "[...] diviser chacune des difficultés que j'examinerais en autant de


parcelles qu'il se pourrait [...]" (DESCARTES, René. Discours de la
méthode: deuxième partie. In: DESCARTES, 1953, p. 138.).
75 LANDIM FILHO, 1992, p. 28.
76 REALE, Giovanni; ANTISERI, Dario. História da filosofia. São
Paulo: Paupus, 1990. v. II. p. 362.
Angela Gonçalves 45

Mas a decomposição do conjunto em seus elementos


simples não basta, porque não demonstra o nexo de coesão
entre eles.
Por isso, Descartes apresenta, no Discurso, o terceiro
preceito, a saber:

O de conduzir por uma ordem meus pensamentos,


começando pelos objetos mais simples e mais fáceis
de conhecer, para subir, pouco a pouco, como por
degraus, até o conhecimento dos mais compostos e
supondo mesmo uma ordem entre os que não se
precedem naturalmente uns aos outros77.

Com alicerce no segundo preceito, no qual foi


decomposta uma realidade complexa (a análise), do efeito à
causa, então, agora, é necessário recompor esses elementos
de sua causa para seu efeito; a síntese é o terceiro preceito.
O texto de Pappus explicita e caracteriza a síntese
assim:

[...] Na síntese, por outro lado, tomamos como já


feito aquilo que na análise foi por último alcançado
e, arranjando em sua ordem natural como
consequente o que antes era antecedente e
conectando-os uns aos outros, chegamos por fim à
construção da coisa procurada. E a isso chamamos
síntese78.

77 “[…] de conduire par ordre mes pensées, en commençant par les


objets le plus simples et le plus aisés à connaître, pour monter peu à
peu, comme par degrés, jusques à la connaissance de plus composés;
et supposant même de l’ordre entre ceux qui ne se précèdent point
naturellement les uns les autres”. (DESCARTES, René. Discours de
la méthode: deuxième partie. In: DESCARTES, 1953, p. 138.).
78 PAPPUS DE ALEXANDRIA, 1982, p. 477-478.
46 Verdade e método em René Descartes
É correto afirmar que Descartes tenha elaborado o
seu preceito da síntese com base em Pappus. Trata-se de uma
síntese ou composição, ou seja, parte-se dos elementos
absolutos, ou não dependentes dos outros, e vai-se em
direção aos elementos relativos ou dependentes, clarificando
assim os nexos do conjunto. A ordem é o fator
imprescindível para que se garanta a homogeneidade de um
domínio de conhecimento, e a possibilidade de determinar
com certeza o que nele está incluído ou não. Assim, teremos
um conhecimento exato. Quanto à suposição de uma ordem,
Descartes nos fala assim:

Com efeito, ouso dizer que a exata observação


desses poucos preceitos que eu tinha escolhido, me
deu tal facilidade de apurar todas as questões às quais
se estendem essas duas ciências que, nos dois ou três
meses que empreguei em examiná-las, tendo
começado pelas mais simples e mais gerais, e cada
verdade que eu achava sendo uma regra que me
servia para achar outras, depois não somente
consegui resolver muitas que julgava antes muito
difíceis, como me pareceu também, perto do fim,
que eu poderia determinar, mesmo naquelas que
ignorava, por quais meios e até onde seria possível
resolvê-las79.

79 “Comme, en effet, j’ose dire que l’exacte observation de ce peu de


préceptes que j’avais choisis me donna telle facilité à démêler toutes
les questions auxquelles ces deux sciences s’étendent, qu’en deux ou
trois mois que j’employai à les examiner, ayant commencé par les plus
simples et les plus générales, et chaque vérité que je trouvais étant une
règle qui me servait après à en trouver d’autres, non seulement je vins
à bout de plusieurs que j’avais jugées autrefois très difficiles, mais il
me sembla aussi vers la fin, que je pouvais déterminer, en celles
mêmes que j’ignorais, par quels moyens et jusqu’où il était possible de
les résoudre.” (DESCARTES, René. Discours de la méthode:
deuxième partie. In: DESCARTES, 1953, p. 139.).
Angela Gonçalves 47

Sempre se deve começar pelos elementos mais


simples para depois prosseguir aos mais complexos, pois esta
ordem facilita a resolução de problemas.
A etapa sintética, além de demonstrar o que é
concluído (apresentado e descoberto pela análise), prova a
verdade da solução do problema. É pertinente para a
reflexão lembrar Sofia V. Rovighi, quando ela diz que a
síntese "consiste na ordem com que reconstruímos o
processo após termos descoberto uma verdade, mas não é,
porém, a ordem em que se descobre efetivamente a
verdade"80.
Trata-se, portanto, de uma síntese que:

[...] deve partir de elementos absolutos (ab-solutus) ou


não dependentes de outros e direcionar-se para os
elementos relativos ou dependentes, dando lugar
assim a um encadeamento que ilumina os nexos do
conjunto. Trata-se de recompor a ordem ou criar
uma cadeia de raciocínio que se desenvolva do
simples ao composto81.

O que permeia este preceito são duas ideias básicas:


a) ordem como o modo de condução do pensamento; e b)
deve-se partir dos elementos simples para o mais complexo,
visto que a ordem é imprescindível no método, tanto na
análise como na síntese.
Para Descartes, o ordenamento ou a ordem dos
passos que se deve seguir, independentemente do modo
como se conhece e se demonstra algo, é sempre presente e
crucial. Ele a caracteriza assim: “A ordem consiste apenas
em que as coisas, que são propostas primeiro devem ser
conhecidas sem a ajuda das seguintes, e que as seguintes

80 ROVIGHI, Sofia Vanni. História da filosofia moderna. São Paulo:


Loyola, 1999. p. 71.
81 REALE; ANTISERI, 1990, p. 363.
48 Verdade e método em René Descartes
devem depois ser dispostas de tal modo que elas sejam
demonstradas só pelas que as precedem"82. Só há uma
exigência nessa enunciação: o que vem depois depende
exclusivamente do que vem antes e o que vem antes não
depende do que lhe segue.
O quarto preceito do método, segundo Descartes, é
"o de fazer em toda a parte enumerações tão completas e
revisões tão gerais, que eu tivesse a certeza de nada omitir"83.
Já nas Regras (Regra VII), o autor diz o que falta para
completar a ciência, na perspectiva de que “é preciso
analisar, uma por uma, todas as coisas que se relacionam com
o nosso objetivo, por um movimento contínuo do
pensamento, abarcando-as em uma enumeração suficiente e
ordenada"84. É a regra da enumeração. Pode-se dizer que ela
tem uma função de apoio (heurístico), e não pertence
propriamente ao método. Ela intervém, dependendo da
necessidade ou da complexidade do problema, recapitula,
refaz, percorre o que a análise e a síntese executam. Através
da enumeração verifica-se se a análise é completa, e através
da revisão se a síntese está correta. Para se evitar erros, é
preciso impedir qualquer precipitação. O prejulgamento é
um aliado do erro, consequentemente não se chega à

82 “L’ordre consiste en cela seulement, que les choses qui sont proposées
les premières doivent être connues sans l’aide des suivantes, et que les
suivantes doivent après être disposées de telle façon, qu’elles soient
démontrées par les seules choses qui les précèdent.” (DESCARTES,
René. Réponses de L’auteur aux secondes objections: secondes
réponses. In: DESCARTES, 1953, p. 387.).
83 “Et le dernier, de faire partout des dénombrements si entiers, et des
revues si générales, que je fusse assuré de ne rien omettre.”
(DESCARTES, René. Discours de la méthode: deuxième partie. In:
DESCARTES, 1953, p. 138.).
84 “[...]il faut parcourir par un mouvement continu et ininterrompu de la
pensée toutes les choses qui se rapportent à notre but et chacune d’elle
en particulier, ainsi que les embrasser dans une énumération suffisante
et ordonnée.” (DESCARTES, René. Règles pour la direction de
l’esprit: règle VII. In: DESCARTES, 1953, p. 57.).
Angela Gonçalves 49

evidência. Descartes diz "e que se respeite sempre a ordem


necessária para as deduzir uma das outras, não podendo
haver nenhuma tão afastada às quais não se pudesse chegar
[...]"85 (Discurso do Método, segunda parte). O afastamento
torna difícil o controle da continuidade, por isso é necessário
fazer enumerações e revisões. Fazer enumerações e revisões
tão gerais, tendo certeza de nada omitir, restabelece o papel
heurístico da enumeração, tanto na investigação dos
intermediários como no processo das dificuldades. Esse
preceito está ligado também à divisão em partes tão
pequenas quanto possível (R, XIII, título): ela determina se
o número dos termos é suficiente para exprimir todos os
elementos do problema e reduzir uma questão imperfeita a
uma questão inteiramente determinada (R, XIII).
Segundo Geneviève Rodis-Lewis, “a verificação
supre as deficiências da memória (R., VII e XI) e quando os
intermediários são numerosos, a sua "revisão" completa
assegura que a cadeia seja ininterrupta”86. A finalidade desse
preceito é assim facilitar a percepção mental de todos e cada
um dos elementos e suas conexões, quer no início, durante
ou no fim do processo dedutivo ou da solução do problema.
Também a enumeração é necessária à conclusão do
conhecimento, porque é um processo pelo qual é possível
lidar com problemas complexos, extensos, intrincados ou
deduções complicadas.
Battisti também tece considerações sobre a “regra da
enumeração”, como geralmente é chamada; é responsável
por trazer à tona a necessidade de se fazer enumerações

85 "[…] et qu'on garde toujours l'ordre qu'il faut pour les déduire les unes
des autres, il n'y en peut avoir de si éloignées auxquelles enfin on ne
parvienne, [...]" (DESCARTES, René. Discours de la méthode:
deuxième partie. In: DESCARTES, 1953, p. 138.).
86 RODIS-LEWIS, Geneviève. Descartes e o racionalismo. Portugal:
Rés, [19--]. p. 20-21.
50 Verdade e método em René Descartes
“recapitulativas” e enumerações “resolutivas”. Esse autor
diz que:
A enumeração recapitulativa refaz o caminho
percorrido pelo método, cujo primeiro objetivo é
revisar todos os seus passos e evitar possíveis
lacunas ou omissões. O segundo objetivo é diminuir
ao máximo o papel da memória, ao transitar de um
degrau para outro com a maior rapidez possível,
abarcando-os em um todo, na tentativa de reduzir a
dedução à intuição. O segundo tipo tem um papel,
não de rever [...], mas de elencar ou examinar os
objetos que fazem parte de uma “classe” ou da
complexidade dada. E isso, por vezes, de uma forma
somente suficiente, por outra, de uma forma
completa. Aqui, a enumeração tem uma função
efetiva de completar a ciência e ajudar as outras
regras na resolução das questões. Por isso, ela pode
ser chamada de enumeração resolutiva87.

Parece pertinente a explicação desse autor em dividir


a enumeração em duas partes, ou seja, a recapitulativa e a
resolutiva. A recapitulativa supre as omissões, certifica-se
para não se omitir dados, e a resolutiva, investiga uma
complexidade dada que a análise ou a síntese não
conseguiram resolver naturalmente, por isso enumeração
resolutiva.
Numa visão mais completa dos preceitos, o que
Descartes quer para se chegar à verdade é clareza, distinção,
evidência das coisas, proposições absolutas. A análise é um
processo para se chegar à clareza, à distinção, às evidências,
pois nem sempre o conhecimento está claro, evidente. A
síntese é um complemento da análise. Demonstra o que foi
construído e encontrado pela análise.

87 BATTISTI, 2002, p. 206-207.


Angela Gonçalves 51

2.4 A MORAL POR PROVISÃO

Descartes sempre deixou traços, resquícios ou


manifestações sobre a sua moral em geral. Por exemplo, nas
Regras para a Direção do Espírito, não há uma preocupação de
o entendimento buscar somente um método; a ciência se
identifica com a sabedoria, como esta passagem:

Pois, sendo dado que todas as ciências são a


sabedoria humana, que permanece sempre uma e a
mesma, tão diferentes que sejam os assuntos aos
quais ela se aplique, e que não lhes tira nada, da
mesma maneira que a luz do sol não o faz, em
relação à variedade das coisas que ele ilumina; não é
necessário impor aos espíritos nenhum limite. O
conhecimento de uma única verdade, como o
exercício de uma única arte, não nos impede de
descobrir uma outra, mas nos ajuda sobretudo a
fazê-lo88.

Segundo Benes Alencar Sales, as ciências estão


ligadas entre si, e é melhor apreendê-las na sua totalidade e
não separar umas das outras. As pessoas devem aumentar a
luz da razão para usá-la adequadamente nas diversas
situações. A sabedoria não engloba somente a ciência, mas

88 “Car, étant donné que toutes les sciences ne sont rien d’autre que la
sagesse humaine, qui demeure toujours une et toujours la même, si
différents que soient les objets auxquels elle s’applique, et qui ne reçoit
pas plus de changement de ces objets que la lumière du soleil de la
variété des choses qu’elle éclaire, il n’est pas besoin d’imposer de bornes
à l’esprit: la connaissanse d’une vérité ne nous empêche pas en effet d’en
découvrir une autre, comme l’exercise d’un art nous empêche d’en
apprendre un autre, mais bien plutôt elle nous y aide”. (DESCARTES,
René. Règles pour la direction de l’esprit: règle I. In: DESCARTES,
1953, p. 37-38.).
52 Verdade e método em René Descartes
identifica-se com ela89. Existe uma preocupação do autor em
relacionar a moral à ciência.
Na terceira parte do Discurso do Método, o leitor
encontra a “moral por provisão”. Utiliza-se “moral por
provisão”, em primeiro lugar, porque no texto escrito pelo
próprio Descartes está "eu constitui para mim uma moral
por provisão"90; "por provisão"91 significa tempo, duração,
e não provisória (provisoire). Em segundo lugar, provision92
significa provisão, isto é, abastecimento; tem também a
acepção de prover-se de algo; munir-se. Isso significa que,
antes de reconstruir a casa onde se mora, é importante
prover-se de outra com um teto seguro para reconstruir os
fundamentos da ciência. É uma necessidade ter-se um teto
seguro para a constituição dessa moral. É no sentido de se
ter um lugar seguro, prover-se nele que a moral se insere e
não no sentido de provisoriedade. Descartes, em momento
algum, deu a entender que a moral seria provisória. O que
importa para um alojamento é que ele esteja em condições
de se habitar, e que já tenha um teto. Se ele é provisório ou
não, não importa. Alguns autores utilizam moral provisória
em oposição a uma moral dita definitiva. Parece que o
provisório será substituído pelo definitivo para eles.
O termo provisão é mais adequado para o sentido
que o autor utiliza na obra a saber:

89 SALES, Benes Alencar. Descartes: das paixões à moral. São Paulo:


Loyola, 2013. p. 48-49.
90 "[...] je me formai une morale par provision [...]" (DESCARTES,
René. Discours de la méthode: troisième partie. In: DESCARTES,
1953, p. 140-141.).
91 "Par provision: pendant, durant" (ROBERT, Micro. Dictionnaire du
français primordial. Paris: Brodart et Taupin, 1980. Tome II. p.
753.).
92 "Reunion de choses utiles ou nécessaires, réserve, achat de choses
nécessaires". (ROBERT, 1980, p. 867.).
Angela Gonçalves 53
E enfim, como não basta, antes de começar a
reconstruir a casa onde se mora, que derrubá-la e
prover-se de materiais e arquitetos, ou exercer a si
mesmo a arquitetura, nem, além disso, ter delineado
cuidadosamente seu projeto, é necessário também
ter-se provido de outra qualquer onde se possa
morar comodamente durante o tempo em que nela
se trabalhar; [...]93.

“Ter-se provido de outra qualquer onde se possa


morar comodamente durante o tempo em que nela se
trabalhar”, ou seja, enquanto se constroem os fundamentos
das ciências, tem-se a necessidade de se prover de um teto
ou abrigo durante esse tempo de reconstrução, durante a
espera da construção dos fundamentos das ciências. Embora
se possa fazer uma suspensão de juízos (no que concerne aos
fundamentos das ciências), não se pode fazer uma
interrupção nas ações. A moral objetiva a exoneração da
irresolução no que tange às ações humanas. A moral por
provisão faz-se necessária enquanto Descartes está
envolvido no projeto da construção da ciência verdadeira. A
provisoriedade que alguns autores denominam, não está
relacionada à moral, mas à construção das ciências. Essa
moral é consequência da não irresolução, isto é, não se pode
ficar indeciso enquanto se está envolvido nesse projeto.
É relevante se questionar por que o autor apresenta
esse capítulo após ter apresentado os preceitos de seu
método. Será que a moral por provisão faz parte do método

93 “Et enfin, comme ce n’est pas assez, avant de commencer à rebâtir le


logis où on demeure, que de l’abattre et de faire provision de
matériaux et d’architectes, ou s’exercer soi-même à l’architecture, et
outre cela d’en avoir soigneusement tracé le dessin, mais qu’il faut
aussi s’être pourvu de quelque autre où l’on puisse être logé
commodément pendant le temps qu’on y travaillera; [...]”.
(DESCARTES, René. Discours de la méthode: troisième partie. In:
DESCARTES, 1953, p. 140.).
54 Verdade e método em René Descartes
cartesiano?... Qual é o motivo pelo qual Descartes apresenta
nessa ordem, isto é, após os preceitos? Acredita-se que ela é
tirada do método como consequência do tempo que é
necessário para a construção dos fundamentos das ciências
vislumbrado por Descartes. E ainda é preciso ter-se um teto
para morar. A moral por provisão tem uma função de
extrema importância na etapa da construção das ciências,
porque é condição necessária, intrínseca à aplicação do
método. Ela está nesta ordem, porque é condição para a
realização do caminho que foi sugerido pelo filósofo. É
mister crer em alguma coisa, nas tradições, nas religiões, na
cultura na qual se está inserida. Deve-se estar em contato
com a sociedade, com outros homens sob determinadas leis
e costumes, num certo país. Neste período, existe uma
contradição radical entre não permanecer indeciso no que
concerne às ações práticas, ao mesmo tempo em que a razão
se obriga a ser irresoluta em seus juízos. Segundo Merkaert94,
num primeiro momento, a irresolução impede a ação, mas é
uma etapa necessária ligada à dúvida. Saliente-se que há uma
perfeita independência entre o plano de ação e o plano do
pensamento, pelo menos nesta etapa da construção do
sistema.
Pode-se questionar qual é o lugar da moral por
provisão no sistema cartesiano. Acredita-se que ela se insere
sistematicamente no conjunto da obra do autor. A moral foi
tirada do método. Só que a constituição dessa moral tem um
espírito diferente do espírito do método. O fundamento do
método é a dúvida, tem que se suspender o juízo até chegar
a uma ideia clara e distinta. Na moral, ao contrário, cumpre
confiar nas autoridades, seguir as tradições. Na moral, não
existe um rigor, mas sim o bom-senso.
São estabelecidas regras ou máximas com o objetivo
de não ficar paralisado pela incerteza nos assuntos práticos,

94 MERKAERT, Norma. Les trois moments moraux du Discours de la


méthode. Revue philosophique de Louvain, n. 73, 1975. p. 613.
Angela Gonçalves 55

não filosóficos da vida95. Apesar disso, tem de se viver o mais


felizmente possível.
Por isso, Descartes apresenta quatro máximas às
quais chama de moral por provisão.
A primeira é:

Obedecer às leis e aos costumes de meu país,


retendo constantemente a religião em que Deus me
concedeu a graça de ser instruído desde minha
infância, e governando-me, em todas as outras
coisas, seguindo as opiniões mais moderadas e as
mais distanciadas do excesso, que fossem
comumente acolhidas em prática pelos mais
sensatos daqueles com os quais teria de viver96.

Apesar das incertezas das crenças anteriores, é


melhor levar uma vida sensata e moderada. Para que isso
aconteça, é melhor seguir diretrizes, ou seja, obedecer às leis,
aos costumes de seu país e à religião. Seguir também as ações
das pessoas mais sensatas e moderadas, faz juz a essa
máxima. Isso significa que é mais provável que o agir das
pessoas de bem seja mais correto do que ações extremas?...
A pergunta tem de ser feita pela constatação de que existem
ações insensatas. Geralmente, as pessoas falam coisas e agem
do modo diferente na prática. Essas são ações imoderadas e
insensatas. Portanto, uma pessoa moderada e sensata age e
vive de acordo com elas. Isso quer dizer que a conduta revela
a qualidade, a sinceridade, a eficácia das convicções. A

95 SKIRRY, 2010, p. 203.


96 “La première était d`obéir aux lois et aux coutumes de mon pays,
retenant constamment la religion en laquelle Dieu m`a fait la grâce
d`être instruit dès mon enfance, et me gouvernant en tout autre chose
suivant les opinions les plus modérées et le plus éloignées de l`excès,
qui fussent communément reçue en pratique par les mieux sensés de
ceux avec lesquels j`aurais à vivre”. (DESCARTES, René. Discours
de la méthode: troisième partie. In: DESCARTES, 1953, p. 141.).
56 Verdade e método em René Descartes
moderação e a sensatez, no caso, podem ser consideradas
maneiras para não se desviar do reto caminho, pois é mister
para Descartes não se desviar do aperfeiçoamento cada vez
mais dos seus juízos. O excesso é a radicalização do "meio
caminho", ou seja, da moderação. É mais fácil não errar pela
moderação e sensatez, a fim de não se desviar do verdadeiro
caminho. A crença religiosa também, nesse período de
dúvida, é um meio pelo qual pode-se apoiar, pode servir de
guia para a conduta moral.
A segunda máxima diz respeito ao indivíduo ser
firme em suas ações e não dar crédito a opiniões duvidosas:

Minha segunda máxima consiste em ser o mais firme


e o mais resoluto possível em minhas ações, e em
não seguir menos constantemente do que se fossem
muito seguras as opiniões mais duvidosas; sempre
que eu me tivesse decidido a tanto97.

Ser irresoluto é um mal. A vida e em especial as ações


excluem hesitações. Mesmo que não se tenha certeza de tal
verdade, deve-se tomar a atitude mais provável. A segurança
moral livra a consciência de arrependimento e de remorsos,
fruto de irresoluções. Descartes diz que: "as consciências
desses espíritos fracos e vacilantes que se deixam levar a
praticar ações como boas, as coisas que depois julgam
más"98. Ficar parado ou perambular de um lado para o outro

97 “Ma seconde maxime était d`être les plus ferme et le plus résolu en
mes actions que je pourrais, et de ne suivre pas moins constamment
les opinions le plus douteuses, lorsque je m`y serais une fois
déterminé, que si elles eussent été très assurées”. (DESCARTES,
René. Discours de la méthode: troisième partie. In: DESCARTES,
1953, p. 142.).
98 “[…] les consciences de ces esprits faibles et chancelants, qui se
laissent aller inconstamment à pratiquer comme bonnes les choses
qu`ils jugent après être mauvaises”. (DESCARTES, René. Discours
de la méthode: troisième partie. In: DESCARTES, 1953, p. 142.).
Angela Gonçalves 57

(como o exemplo do viajante) faz com que não se tenha, pelo


menos, algum rumo ou orientação. É imperiosa a
necessidade de, pelo menos, encontrar uma situação melhor
ou um caminho mais provável. A firmeza nas ações é
importante para se fazer algum progresso.
Dito isso, a terceira máxima refere-se ao controle de
desejos: vencer a si próprio e controlar os próprios
pensamentos.

Minha terceira máxima era a de procurar sempre


antes vencer a mim próprio do que à fortuna, e de
tentar mudar antes os meus desejos do que a ordem
do mundo; e, em geral, a de acostumar-me a crer que
nada há que esteja inteiramente em nosso poder, a
não ser nossos pensamentos, de sorte que, depois de
termos feito o melhor possível no que concerne às
coisas que nos são exteriores, tudo em que deixamos
de nos sair bem é, em relação a nós, absolutamente
impossível99.

O homem e, propriamente dito, seus pensamentos é


que têm autonomia. Ele dirige-se a si mesmo, ele é que tem
seu autocontrole. Aqui, Descartes enaltece o autocontrole
racional, ou seja, eu é que comando os meus desejos, que é
o segredo da felicidade. A força é interior, o que está em
nosso poder são nossos pensamentos. Deve-se desejar
apenas as coisas que estão em nosso poder alcançar e não
aquilo que está além dele, porque existem coisas que não

99 “Ma troisième maxime était de tâcher toujours plutôt à me vaincre


que la fortune, et à changer mes désirs que l`ordre du monde; et
généralement de m`accoutumer à croire qu`il n`y a rien qui soit
entièrement en notre pouvoir que nos pensées, en sorte qu`après que
nous avons fait notre mieux touchant les choses qui nous sont
extérieures, tout ce qui manque de nous réussir est au regard de nous
absolument impossible”. (DESCARTES, René. Discours de la
méthode: troisième partie. In: DESCARTES, 1953, p. 142-143.).
58 Verdade e método em René Descartes
estão ao nosso alcance. Deve-se também abstrair à fortuna.
Essa regra pressupõe uma disciplina de nossos poderes,
porque nossos apetites e nossas paixões nos ditam
justamente o contrário e atrapalham nossa paz interior nos
fazendo desejar o impossível.
Para a conclusão dessa moral, Descartes cita como
última máxima:

Enfim, para a conclusão dessa moral, eu resolvi


passar em revista as diversas ocupações que os
homens têm nesta vida, para empenhar-me em
escolher a melhor; e, sem que eu deseje dizer nada
sobre as dos outros, eu pensei que o melhor a fazer
seria continuar naquela mesma em que me achava,
isto é, empregar toda a minha vida em cultivar minha
razão, e adiantar-me, o mais que pudesse, no
conhecimento da verdade, seguindo o método que
me prescrevera100.

Nesta última máxima o autor, depois de refletir sobre


as ocupações, todos os trabalhos da vida, chega à conclusão
de que a melhor ocupação é a dele, ou seja, ocupar-se em
cultivar a razão e principalmente na busca da verdade.
Ocupar-se com o método que prescrevera é a melhor
ocupação. Descartes encontra-se satisfeito, honroso e feliz
de seguir a sua vocação: a procura da verdade segundo a
razão, isto é, a construção dos fundamentos da ciência. O
bom-senso é que julgará se algo é bom ou ruim e temos de

100 “Enfin, pour conclusion de cette morale, je m’avisai de faire une


revue sur les diverses occupations qu`ont les hommes en cette vie,
pour tâcher à faire choix de la meilleure; et, sans que je veuille rien
dire de celles des autres, je pensai que je ne pouvais mieux que de
continuer en celle-là même ou je me trouvais, c'est-à-dire que
d’employer toute ma vie à cultiver ma raison, et m’avancer autant que
je pourrais en la connaissance de la vérité, suivant la méthode que je
m’étais prescrite”. (DESCARTES, René. Discours de la méthode:
troisième partie. In: DESCARTES, 1953, p. 143-144.).
Angela Gonçalves 59

julgar o melhor possível para proceder também da melhor


maneira.
Diante destas máximas, pode-se dizer que a moral
por provisão seria uma etapa (não irresoluta), enquanto
Descartes duvida de tudo (busca a verdade) dentro da ordem
das ações (conduta) para tratar de descobrir o melhor
possível ou mais razoável nas ações, procurando a felicidade
ou viver o melhor possível, segundo a razão. Ela depende de
nós mesmos, da melhor utilização do nosso livre arbítrio.
Essa etapa é de suma importância para uma direção da moral
também antes da reconstrução da ciência. Não é por acaso
que Descartes escreve a moral por provisão, após ter escrito
os preceitos do método. Ela tem uma função no método, e
é condição necessária enquanto se elabora o modo de
proceder. Pode-se também questionar o que tem a ver essa
moral com o conhecimento. Exemplo disso é quando o
autor apresenta a árvore do conhecimento. Na Carta-prefácio
dos Princípios da Filosofia ao tradutor desse livro, diz que vai
explicar a ordem que se deve seguir para obter instrução
assim:

[...] deve-se começar bem a aplicar-se a verdadeira


filosofia, cuja primeira parte é a metafísica, que
contém os princípios do conhecimento, entre os
quais a explicação dos principais atributos de Deus,
da imaterialidade das nossas almas, e de todas as
noções claras e simples que estão em nós. A segunda
é a física em que, depois de se ter encontrado os
verdadeiros princípios das coisas materiais, examina-
se, na generalidade, como todo o universo é
composto; depois, em particular, qual é a natureza
desta terra e de todos os corpos que se encontram o
mais comumente à sua volta, como o ar, a água, o
fogo, o ímam e outros minerais. Em seguida, é então
necessário também examinar,em particular, a
natureza das plantas, aquela dos animais e,
sobretudo, a do homem, a fim de que seja capaz de
60 Verdade e método em René Descartes
descobrir as outras ciências que lhe são úteis. Assim,
toda a filosofia é como uma árvore, cujas raízes são
a metafísica; o tronco é a física, e os ramos que saem
deste tronco são todas as outras ciências que se
reduzem a três principais: a medicina, a mecânica e a
moral, eu entendo por moral a mais elevada e mais
perfeita a que, pressupondo inteiro conhecimento
das outras ciências, é o último grau de sabedoria101.

Por isso, presume-se que a moral seria uma


ramificação das ciências, quando Descartes apresenta essa
árvore. Isso traduz que “uma moral é deduzida de uma
metafísica e de uma física completa"102. Descartes diz que a
moral “pressupõe um conhecimento integral das outras
ciências, justamente porque ‘a mais elevada e mais perfeita

101 "[...] il doit commencer tout de bon à s'appliquer à la vraie


philosophie, dont la première partie est la métaphysique, qui contient
les principes de la connaissance, entre lesquels est l'explication des
principaux attributs de Dieu, de l'immatérialité de nos âmes, et de
toutes les notions claires et simples qui sont en nous. La seconde est
la physique, en laquelle, après avoir trouvé les vrais principes des
choses matérielles, on examine en général comment tout l'univers est
composé; puis en particulier quelle est la nature de cette terre et de
tous les corps qui se trouvent le plus communément autour d'elle,
comme de l'air, de l'eau, du feu, de l'aimant et des autres minéraux.
Ensuite de quoi il est besoin aussi d'examiner en particulier la nature
des plantes, celle des animaux, et surtout celle de l'homme, afin qu'on
soit capable par après de trouver les autres sciences qui lui sont utiles.
Ainsi toute la philosophie est comme un arbre, dont les racines sont
la métaphysique, le tronc est la physique, et les branches qui sortent
de ce tronc sont toutes les autres sciences, qui se réduisent à trois
principales, à savoir la médecine, la mécanique et la morale; j'entends
la plus haute et la plus parfaite morale, qui présupposant une entière
connaissance des autres sciences, est le dernier degré de la sagesse."
(DESCARTES, René. Les principes de la philosophie. In:
DESCARTES, 1953, p. 565-566.).
102 SILVA, 1994, p. 88.
Angela Gonçalves 61

[moral] é o último grau da sabedoria”103. A moral está


relacionada ao conhecimento, quer dizer, às ciências. Por
quê? Porque a moral traduz-se em sabedoria para Descartes,
ela pressupõe um total conhecimento das outras ciências.
Por isso vem, por último, na árvore do saber. A união das
ciências com a virtude (moral) forma a sabedoria e essa é a
perfeição da vida. Não se pode dissociar metafísica e moral,
pois é eficaz para a maior perfeição do homem. Existe uma
relação intríseca entre ciência e sabedoria.
Segundo Gueroult: "É ainda a ela que Descartes faz
alusão quando ele concebe que a moral a mais perfeita
'pressupõe o conhecimento total das outras ciências [...]"104.
No que concerne às interpretações sobre essa moral,
existem diversas. Dentre os autores que interpretam a moral
como moral provisória, Étienne Gilson105 diz que a “moral
definitiva” é possível e só não foi escrita por questões
contingenciais à vida de Descartes. Segundo ele, algumas
máximas como é o caso da terceira regra, a da firmeza das
ações, Descartes “passará tal qual à moral definitiva”. Já
Lívio Teixeira106 alega que Descartes jamais escreveu tal
moral, dita definitiva, nem se quer pode-la-ia escrever, isso
porque - entende aquele comentador - a lógica interna da
metafísica cartesiana não o permitiria. Ainda segundo esse

103 "[...] la plus haute et la plus parfaite morale, [...] et le dernier degré de
la sagesse." (DESCARTES, René. Les principes de la philosophie. In:
DESCARTES, 1953, p. 566.).
104 “C`est encore elle que sousentend Descartes lorsqui`Il conçoit que la
morale la plus parfaite “présuppose l`entière connaissance des autres
sciences [...]” (GUEROULT, Martial. Descartes selon l'ordre des
raisons: II L’Ame et Dieu. Paris: Aubier-Montaigne, 1968. p. 243.).
105 GILSON, 1967, p. 65.
106 TEIXEIRA, Lívio. Ensaio sobre a moral de Descartes. São Paulo:
Secretaria de Estado da Cultura e Editora Brasiliense, 1990. p. 111-
112.
62 Verdade e método em René Descartes
autor107, a moral de Descartes é racional, pois deve ser
orientada pela razão ou inteligência.
Dentre os autores que concordam com a
interpretação da moral como “moral por provisão”, Rodis-
Lewis explica que ela é “tirada do método” não como
resultado das quatro regras da segunda parte, mas como uma
necessidade para aplicá-las com rigor108. Ainda, Robert
Spaemann diz que “a ênfase recai não sobre o caráter
provisório, mas sobre o sentido do termo ‘provision’
(provisão) como ‘approvisionnement’ (conjunto de
provisões) [...]”109. Continua Spaemann: “O importante para
um alojamento, seja ele provisório ou não em oposição ao
grande edifício que está ainda em construção, é que ele esteja
completo e que já tenha um teto”110.
Concorda-se com esse autor, porquanto o
importante é ter um teto, mas se ela é provisória ou não, isso
não está importando no momento. O que é relevante é a
constituição dessa moral enquanto se constroem os
fundamentos da ciência.
Então, antes de habitar comodamente o edifício da
ciência, faça-se uma provisão de regras para não permanecer
indeciso no que diz respeito às ações.

2.5 A DÚVIDA METÓDICA

O advento da dúvida em Descartes, precisamente na


Primeira Meditação, não é um "mero" recurso metodológico.
Ela é necessariamente uma imposição devido à urgência que
se faz necessária para destruir as antigas opiniões e crenças,

107 TEIXEIRA, 1990, p. 111-112.


108 RODI-LEWIS, Geneviève La Morale de Descartes: Paris, Presses
Universitaires de France, 1988. p. 18.
109 SPAEMANN, Robert. La Morale Provisoire de Descartes. Archives
de Philosophie, Paris, n. 35, p. 357, 1972.
110 SPAEMANN, 1972, p. 357.
Angela Gonçalves 63

baseadas em princípios malfundamentados, e, ademais,


opor-se ao ceticismo como concepção filosófica
predominante na época. Descartes emergiu do “abismo das
dúvidas de seus contemporâneos céticos e fez com que o
ceticismo desse a luz à certeza filosófica”111.
O que o ceticismo preconizava era uma “atitude
mental, que permitia opor evidências a favor e contra
qualquer questão relativa ao não evidente, de modo a levar à
suspensão do juízo acerca dessa questão"112. Descartes
demonstra grande preocupação com essa posição filosófica,
além de não aceitá-la. Parece que o autor teve bastante
conhecimento dos clássicos pirrônicos e das correntes
céticas de sua época, ademais, tinha consciência do perigo
que causavam à ciência e à religião. Descartes escreve ao
padre Bourdin a respeito, a saber:

Nem tampouco devemos pensar que a seita dos


céticos está há muito tempo extinta. Ela floresce
hoje em dia tanto quanto antes, e quase todos os que
julgam ter alguma habilidade além da do resto da
humanidade, não encontrando nada que os satisfaça
na filosofia comum e não percebendo nenhuma
outra verdade buscam refúgio no ceticismo113.

Segundo Richard Popkin, tem-se notícia que, em


Paris, quando se encontravam com o padre Mersenne nos
círculos que incluia os “pirrônicos”, os melhores cérebros de
sua época passavam o seu tempo defendendo pontos de
vista prováveis e incertos, em vez de buscar a verdade
absoluta. Parece que apenas a probabilidade servia de

111 POPKIN, 2000, p. 271.


112 POPKIN, 2000, p. 16.
113 POPKIN, 2000, p. 272.
64 Verdade e método em René Descartes
fundamento para as várias teorias apresentadas, ou seja,
“probabilidade” como critério de verdade114.
Probabilidades e meras opiniões não resolvem o
problema no qual o autor está incumbido: projeto de buscar
a verdade para as ciências e fundamentos seguros. A dúvida
metódica cartesiana emerge de um contexto paradigmático
cético, de probabilidades, de crenças e de opiniões. De certa
forma, pode-se dizer que o ceticismo foi a mola propulsora
para o dogmatismo, quer dizer, para que o autor buscasse os
fundamentos da ciência ao aplicar o método da dúvida
sistemática a todo conhecimento humano para descobrir
fundamentos certos e seguros.
A dúvida cartesiana tem como objetivo buscar os
primeiros princípios. Como a questão é radical, no sentido
de que se busca uma ciência verdadeira e apenas o que é claro
e evidente, não existe alternativa senão uma dúvida radical.
Radical porque coloca em dúvida não apenas o duvidoso,
mas o que é indubitável também. Não será colocado em
dúvida apenas o conhecimento sensível, mas o
conhecimento indubitável (as matemáticas). Por isso, dúvida
hiperbólica, uma vez que atinge toda a área do conhecimento
e a existência do mundo. É uma dúvida intelectual porque
exige da razão fundamentos. Ela é o fundamento do método
cartesiano, pois é com apoio nela que se chegará à verdade,
um conhecimento certo e indubitável. É um meio para se
chegar a um fim, portanto é provisória. Descartes não duvida
somente por duvidar, logo não é uma dúvida cética. Precisa
ele:

Não que eu imitasse para tanto, os céticos, que


duvidam apenas por duvidar e afetam ser sempre
irresolutos: pois, do contrário, toda a minha intenção
tendia tão somente a me certificar e remover a terra

114 POPKIN, 2000, p. 276.


Angela Gonçalves 65
movediça e a areia para encontrar a rocha ou a
argíla115.

Segundo Pascal, "a dúvida nos situa diante da


evidência"116 porque ela trará a primeira certeza, a primeira
evidência clara e distinta. E ainda segundo Franklin
Leopoldo e Silva, “a reflexão só encontrará a evidência
absoluta se partir da negação absoluta de todas as
certezas”117.
Aparece, com isso, uma ligação necessária entre a
dúvida e a evidência que Descartes apresenta no primeiro
preceito do método: "[...] o evidente é o que resiste à dúvida.
A clareza e a distinção, que caracterizam a evidência,
revelam-se apenas na e pela dúvida"118. Luciano Marques de
Jesus também diz que "o escopo da dúvida é alcançar a
certeza"119.
Nas duas obras, no Discurso do Método e nas Meditações
Metafísicas, Descartes quer desfazer-se das antigas opiniões e
edificá-las sobre fundamentos seguros, como ele diz no
Discurso:

[...] mas que, no que concerne a todas as opiniões


que até então tivera recebido em meu crédito, o
melhor a fazer seria dispor-me, de uma vez para

115 "Non que j`imitasse pour cela les sceptiques, qui ne doutent que pour
douter et affectent d`être toujours irrésolus, car, au contraire, tout
mon dessein ne tendait qu`à massurer et à rejeter la terre mouvante
et le sable pour trouver le roc ou l`argile”. (DESCARTES, René.
Discours de la méthode: troisième partie. In: DESCARTES, 1953, p.
145.).
116 GEORGE PASCAL. Descartes. São Paulo: Martins Fontes, 1990.
p. 33.
117 SILVA, 1994, p. 36.
118 GEORGE PASCAL, 1990, p. 33.
119 MARQUES DE JESUS, Luciano. A questão de Deus na filosofia
de Descartes. Porto Alegre: EDIPUCRS, 1997. p. 35.
66 Verdade e método em René Descartes
sempre, a retirar-lhes essa confiança, a fim de
substituí-las em seguida por outras melhores
ajustando-as ao nível da razão. E acreditei
firmemente que, por este meio, lograria conduzir
minha vida muito melhor do que se edificasse apenas
sobre velhos fundamentos, e que eu me apoiasse tão
somente sobre princípios de que me deixara
persuadir em minha juventude, sem ter jamais
examinado se eles eram verdadeiros120.

Na Primeira Meditação, Descartes havia percebido há


algum tempo que tinha recebido muitas falsas opiniões
como verdadeiras e na quarta parte do Discurso de "Eu tinha
desde muito tempo observado que, quanto aos costumes, é
necessário, às vezes, seguir opiniões, que se sabe serem
muito incertas [...]”121. Tendo presente isso, Descartes estava
em condições de se desfazer de todas as opiniões e começar
com base nos fundamentos. O primeiro critério a ser
estabelecido para provar que todas as opiniões são falsas, é
impedir a credibilidade às coisas que não são totalmente
certas e indubitáveis, pois "o menor motivo de dúvida que
nelas encontrar bastará para me levar a rejeitar todas." E
ainda visto que a "ruína dos alicerces carrega

120 “[...] mais que, pour toutes les opinions que j’avais reçues jusques
alors en ma créance, je ne pouvais mieux faire que d’entreprendre
une bonne fois de les en ôter, afin d’y en remettre par après, ou
d’autres meilleures, ou bien les mêmes, lorsque je les aurais ajustées
au niveau de la raison. Et je crus fermement que, par ce moyen, je
réussirais à conduire ma vie beaucoup mieux que si je ne bâtissais que
sur de vieux fondements, et que je ne m’appuyasse que sur les
principes que je m’étais laissé persuader en ma jeunesse, sans avoir
jamais examiné s’ils étaient vrais”. (DESCARTES, René. Discours de
la méthode: deuxième partie. In: DESCARTES, 1953, p. 134.).
121 “J`avais dès longtemps remarqué que, pour les moeurs, il est besoin
quelquefois de suivre des opinions qu’on sait être fort incertaines,
[...]”.(DESCARTES, René. Discours de la méthode: quatrième
partie. In: DESCARTES, 1953, p. 147.).
Angela Gonçalves 67

necessariamente consigo todo o resto do edifício, não será


necessário que eu examine cada uma em particular”122.
Depreende-se, ao analisar essas duas passagens, que
o pressuposto necessário para o empreendimento da busca
da verdade é a dúvida. Ela é o ponto de partida nas duas
obras. É o início da metafísica cartesiana.
Descartes vai rejeitar sistematicamente todas as
crenças, e as que tiverem a menor dúvida serão rejeitadas. Essa
é a razão por que ele procura um ponto de partida seguro, daí
então a aplicação da dúvida metódica. Nas palavras do
filósofo, o esclarecimento sobre a descoberta dele amparado
na racionalidade das observações:

O que me saí muito bem, parece-me tanto mais que


procurando descobri a falsidade ou a incerteza das
proposições que examinava, não por fracas
conjeturas, mas por raciocínios claros e seguros, eu
não encontrava quaisquer tão duvidosas que delas
não tirasse sempre alguma conclusão bastante certa,
quando mais não fosse a de que não continha nada
de certo123.

122 “[...], le moindre sujet de douter que j’y trouverai, suffira pour me les
faire toutes rejeter. [...] mais parce que la ruine des fondements
entraîne nécessairement avec soi tout le reste de l’édifice; [...] Et pour
cela il n'est pas besoin que je les examine chacune en particulier, [...]"
(DESCARTES, René. Méditations (Première méditation). In:
DESCARTES, 1953, p. 268.).
123 "Ce qui me réussisait, ce me semble, assez bien, d`autant que, tâchant
à découvrir la fausseté ou l'incertitude des propositions que
j`examinais, non par de faibles conjectures, mais par des
raisonnements clairs et assurés, je n`en rencontrais point de si
douteuse que je n`en tirasse toujours quelque conclusion assez
certaine, quand ce n`eût été que cela même qu`elle ne contenait rien
de certain”. (DESCARTES, René. Discours de la méthode: troisième
partie. In: DESCARTES, 1953, p. 145.).
68 Verdade e método em René Descartes
Outra reflexão relevante a respeito do assunto é a de
Alquié:

A dúvida cartesiana retoma dois projetos


metodológicos que se faziam presentes em 1628, vai
buscar das Regras para a Direção do Espírito dois planos:
o da certeza e o da unidade do saber através da
ciência. Ao tratar da dúvida, Descartes recorda
sempre a multiplicidade das opiniões que se opõem
no espírito de qualquer homem124.

Daí vem a ideia de libertar o espírito do erro e da


multiplicidade de opiniões. Na opinião de Alquié, torna-se
necessário romper com toda a ciência do provável, diz o
autor:
É preciso romper com toda a ciência do provável:
ciência do tipo medieval, que tudo permanece em
discussão. É preciso fundar uma ciência do certo a
partir do modelo da matemática e para isso, rejeitar
tudo o que não é certo, até que seja descoberta uma
primeira e fundamental evidência. E, desse modo,
tornar-se-á possível um pensamento unificado125.

Aparece aqui uma condição de possibilidade para a


pesquisa da verdade: princípios isentos de qualquer dúvida.
A dúvida metódica não abarca somente os
conhecimentos adquiridos do passado e do presente, mas
invalida a esfera do sensível, o conhecimento matemático, a
existência em geral e a própria razão. A dúvida é um meio
para alcançar um conhecimento claro, verdadeiro, por isso
que a dúvida de Descartes desemboca sempre numa certeza,
mesmo que seja uma certeza negativa, como é o caso da
constatação de que nada há de certo, suspendendo o juízo.

124 ALQUIÉ, Ferdinand. A filosofia de Descartes. 2. ed. Lisboa:


Presença, 1969. p. 64.
125 ALQUIÉ, 1969, p. 64.
Angela Gonçalves 69

Pode-se questionar se a dúvida metódica é um


artifício metodológico e também se é efetiva ou passageira.
A dúvida metódica é um processo, e mesmo sendo um
artifício metodológico intelectual é reflexiva, pois o tempo
todo ela exige reflexão, porque exige da razão o porquê, ou
seja, a busca dos porquês. É uma dúvida efetiva, prolongada;
é um estado de espírito constante nesta busca para chegar à
verdade. Ela exige crítica permanente, é um processo para se
chegar à afirmação. Tem um caráter de interrupção, pois
interrompe algo estabelecido, algo definido e já pronto. A
dúvida tem um movimento dialético no sentido de que não
é algo estático, mas a busca constante de fundamentos
sólidos, verdadeiros e tem as suas próprias razões para
duvidar. A razão só duvida se existem “razões plausíveis de
duvidar”126.
A respeito da ligação necessária entre dúvida e
evidência, Gueroult diz que é preciso começar pela aplicação
de seu primeiro preceito, isto é:

Nada admitir que não seja absolutamente certo.Em


outras palavras: duvidar de tudo que não é dotado de
uma certeza absoluta. Por outro lado, é necessário
excluir absolutamente tudo que estiver corrompido
pela dúvida. Por isso, tem-se uma tripla necessidade:

1) Necessidade prévia de duvidar;


2) Necessidade de nada excluir da dúvida;
3) Necessidade de tratar provisoriamente como falsas as
coisas impregnadas do menor motivo de dúvida.

E ainda da necessidade prévia de duvidar surge a


primeira característica da dúvida. Ela é metódica,
pois é um instrumento cuja meta é atingir a verdade.
Da necessidade de nada excluir da dúvida surge a sua
segunda característica, que é a universalidade (nada

126 LANDIM FILHO, 1992, p. 107.


70 Verdade e método em René Descartes
deve ser imune à aplicação do critério da dúvida) e
da terceira necessidade surge outra característica que
é a provisoriedade na medida em que ela desaparece
sempre que a verdade for atingida127.

Isso prova que é uma dúvida dogmática, porque


acredita na possibilidade do conhecimento. Pode-se dizer
ainda que a dúvida tem outras características, como, por
exemplo, ela tem uma função catártica porque liberta a razão
de princípios falsos, e também tem um movimento de
negação (ao dizer que tudo é falso) para o positivo, a
evidência.
Quais são os pressupostos dessa dúvida? Qual é o
objetivo de Descartes com a dúvida? Em primeiro lugar,
Descartes pretende refutar os céticos com o objetivo de
mostrar que o conhecimento é possível. Em segundo lugar,
ele critica o conhecimento epistêmico-aristotélico cujo
conhecimento depende dos sentidos.
Outro pressuposto da dúvida seria preparar o
espírito dos leitores de Descartes para o estudo de coisas

127 "[...] il ne faut rien admettre en nous qui ne soit absolument certain,
en d'autres termes, il faut frapper de toute tout c'est qui n'est pas
certain d'une certitude absolue; et, d'autre part, il faut absolument
exclure de nous tout ce qui est frappé de ce doute. Par là apparaît une
triple nécessité:
1) Nécessité du doute préalable;
2) Nécessité de ne rien excepter du doute;
3) Nécessité de traiter provisoirement comme fausses les choses ainsi
frappées de doute.
A cette triple nécessité correspondent trois caractères du doute: il est
méthodique, car c'est um instrument en vue de fonder la certitude du
savoir, de la nécessité de ne rien exepter du doute, par conséquence
elle est universel, et enfin elle est provisoire. (GUEROULT, Martial.
Descartes selon l'ordre des raisons: I L’Ame et Dieu. Paris:
Aubier-Montaigne, 1953. p. 33.)
Angela Gonçalves 71

racionais ao intelecto. O autor deixa claro que os sentidos


são o alvo de seu ataque.
O método para solucionar o problema crítico é o
método da dúvida. É com o amparo dela e nela que se
chegará à verdade. O que se quer com a dúvida é chegar às
ideias claras e distintas. Conhecer é mais perfeito do que
duvidar e se se duvida, é para se conhecer com o mais
elevado grau de certeza. Ela é a aplicação da razão no
dubitável.
Segundo alguns autores, como Alquié, a razão da
dúvida é outra, ou seja, “a razão profunda da dúvida é que
Descartes ainda não está na posse do fundamento metafísico
da própria intuição intelectual, fundamento que só pode
encontrar-se em Deus”128.
No que concerne ao supracitado, a razão da dúvida
não é somente porque ele ainda não está de posse do
fundamento metafísico da própria intuição intelectual. A
origem dela é, supostamente, pelas insatisfações dos
conhecimentos tradicionais, da crise cética que não
apresentava fundamentos plausíveis para a razão. Ela tem
um escopo estratégico e radical de invalidar a existência em
geral, os juízos, a esfera do sensível justamente para reforçar
a falta de um critério de verdade. Por outro lado, segundo
Enéias Forlin: "A própria dúvida é um critério de verdade
para se chegar à verdade"129. Para a demanda da verdade é
preciso “uma vez”, duvidar de “todas as coisas em que se
enxergue a mínima suspeita de incerteza”. A dúvida também
quer validar as ideias em relação à noção de correspondência
entre sujeito e objeto, quer dizer, se as minhas ideias
representam tal objeto.
Ainda, segundo Jean Luc Marion:

128 ALQUIÉ, Ferdinard et al. Galileu, Descartes e o mecanismo.


Lisboa: Grandiva, 1987. p. 35.
129 FORLIN, 2005, p. 33.
72 Verdade e método em René Descartes

O projeto de estabelecer a ciência por meio da


dúvida hiperbólica é a ciência operando sobre as
naturezas simples, tanto materiais quanto comuns.
‘Além disso, essas naturezas materiais entram no
jogo apenas para serem desqualificadas por meio da
dúvida hiperbólica.’ Tudo o que o sistema da dúvida
desenvolvido em 1641 faz é dar uma interpretação
negativa à incomensurabilidade das ciências, baseada
na ideia do “incompreensível"130.

Jean-Luc Marrion diz que as ciências não tinham um


critério de verdade que as fundamentasse, porque o
discernimento para distinguir o falso do verdadeiro era
dominado pela incerteza e pela probabilidade. Em face dessa
constatação, a dúvida hiperbólica é usada para denegrir as
naturezas materiais de uma maneira radical. As coisas
materiais, Descartes diz existirem somente nos corpos: na
figura, na extensão, no movimento. Chamam-se comuns
àquelas que são atribuidas tanto aos objetos corpóreos,
quanto aos espíritos como a existência, a unidade, a duração.
As puramente intelectuais são as conhecidas pelo
entendimento, sem ajuda de qualquer imagem corpórea.
Esse autor faz referência às Regras para a Direção do
Espírito (Regra XII). Descartes diz que as coisas que são
percebidas pelo entedimento, as chamadas simples, são
aquelas,

130 MARION, 2009, p. 154-155.


Angela Gonçalves 73
cujo entendimento é tão claro e tão distinto que ele
não as pode dividir em um grande número [...]. Nós
dizemos, em segundo lugar, que as coisas chamadas
simples em relação ao nosso entendimento são
puramente intelectuais, ou puramente materiais, ou
comuns131.

Descartes, nas Meditações, vai tomar como ponto de


partida a dúvida. Aqui ela pode ser analisada enquanto
método, mas mais adiante, na Meditação Segunda, ela adquire
outra característica: ato de pensamento de um sujeito.
Num primeiro momento, é necessário colocar tudo
em dúvida. Ela aplica-se ao conhecimento mais imediato e
tradicional, ou seja, à experiência sensível (os sentidos).

131 “[...] dont la connaissance est si claire et si distincte que l’esprit ne les
puisse diviser en un plus grande nombre [...]. Nous disons
deuxièmement que les choses, qui par rapport à notre entendement
sont dites simples, sont ou purement spirituelles, ou purement
matérielles, ou mixtes.” (DESCARTES, René. Règles pour la
direction de l’esprit: règle XII. In: DESCARTES,1953, p. 81.).
3
ESTUDO CRÍTICO-
COMPARATIVO ENTRE
O “DISCURSO DO
MÉTODO” E AS
“MEDITAÇÕES
METAFÍSICAS”

A diferença primordial do Discurso do Método para as


Meditações Metafísicas é que nas Meditações, Descartes aplica o
método de uma forma mais profunda. Essa é uma obra de
caráter ontológico, pois logo de início procura um ser e
coloca em causa a existência do mundo exterior e as ideias.
Essa obra tem um caráter procedimental reflexivo, profundo
e metódico, pois aborda os temas metafísicos seguindo uma
Angela Gonçalves 75

ordem, e (segundo os preceitos do método) indo da


descoberta, a partir da dúvida, do eu pensante (cogito) a Deus.
Já o Discurso foi escrito para servir de prefácio para a
publicação de três obras científicas, a saber: A Geometria, A
Dióptrica e Os Meteoros, sendo uma autobiografia intelectual
do autor apresentada como uma narrativa que resume o que
Descartes havia pensado até 1637. O Discurso é uma obra
científica porque está preocupado em mostrar o seu método.
Ademais, a obra não tem um caráter ontológico (reflexões
acerca da existência), mas sim um cunho científico. No
Discurso, Descartes expõe suas reflexões de uma forma
sucinta, assim: "E, todavia, afim de que se possa julgar se os
fundamentos que escolhi são bastante firmes, [...]"132. A
pedra basilar nesta obra é distinguir o verdadeiro do falso.
Um exemplo disso, pode-se constatar, na primeira parte,
quando Descartes diz:

O bom senso é a coisa do mundo mais bem


partilhada, [...] e não é verossímil que todos se
enganem a tal respeito; mas isso antes testemunha
que o poder de bem julgar e distinguir o verdadeiro
do falso, que é propriamente o que se denomina o
bom senso ou a razão, [...]133.

Nessa obra, ele aplica o método de uma maneira


superficial.

132 "Et, toutefois, afin qu'on puisse juger si les fondements que j'ai pris
sont assez fermes, [...] (DESCARTES, René. Discours de la méthode:
quatrième partie. In: DESCARTES, 1953, p. 147.).
133 “Le bon sens est la chose du monde la mieux partagée: [...] il n’est
pas vraisemblable que tous se trompent; mais plutôt cela témoigne
que la puissance de bien juger et distinguer le vrai d’avec le faux, qui
est proprement ce qu’on nomme le bon sens ou la raison, [...]”.
(DESCARTES, René. Discours de la méthode: première partie. In:
DESCARTES, 1953, p. 126.).
76 Verdade e método em René Descartes
Com releitura e reflexão sobre o supracitado, pode-
se concluir que não são obras separáveis e distintas, mas sim
que elas têm objetivos diferentes, porquanto a partir de uma
explanação de cunho científico, Discurso, Descartes aprimora
filosoficamente com maior radicalidade e profundidade as
Meditações, aplicando os preceitos de seu método, buscando
a essência das coisas.
No Discurso, em especial na quarta parte, ele aplica o
método de uma maneira mais superficial, de modo narrativo,
menos reflexivo assim:

De há muito tempo observara que, quanto aos


costumes, é necessário algumas vezes seguir
opiniões, que se sabe serem muito incertas, [...] mas,
por desejar ocupar-me somente com a pesquisa da
verdade, [...], e rejeitar como absolutamente falso
tudo aquilo em que pudesse imaginar a menor
dúvida, [...]. Assim, porque os nossos sentidos nos
enganam algumas vezes eu quis supor que não havia
coisa alguma que fosse tal como eles nos fazem
imaginar. [...] E enfim, considerando que todos os
mesmos pensamentos que temos quando acordados,
podem também nos ocorrer quando dormimos, sem
que haja nenhum, que seja verdadeiro, resolvi fazer
de conta [...]. Mas, [...] cumpria necessariamente que
eu, que pensava, fosse alguma coisa. E, notando que
esta verdade: “eu penso, logo existo”, era tão firme
e tão certa... [...]134.

134 “J’avais dès longtemps remarqué que, pour les moeurs, il est besoin
quelquefois de suivre des opinions qu’on sait être fort incertaines, [...]
mais pour ce qu’alors je désirais vaquer seulement à la recherche de
la vérité, [...] et que je rejetasse comme absolument faux tout ce en
quoi je pourrais imaginer le moindre doute, [...] Ainsi, à cause que nos
sens nous trompent quelquefois, je voulus supposer qu’il n’y avait
aucune chose qui fût telle qu’ils nous la font imaginer. Et enfin,
considérant que toutes les mêmes pensées que nous avons étant
éveillés, nous peuvent aussi venir quand nous dormons, sans qu’il y
en ait aucune pour lors qui soit vraie, je me résolus de feindre [...]
Angela Gonçalves 77

É a aplicação do método de forma mais sucinta,


instantânea.
Quanto aos raciocínios matemáticos, aplica o
método da mesma forma. E é ele mesmo quem diz:

E, porque há homens que se equivocam


raciocinando, mesmo no que concerne às mais
simples matérias da geometria, e cometem aí
paralogismos, […] eu rejeitei como falsas todas as
razões que eu tomara por demonstração135.

Descartes fala do erro dos raciocínios matemáticos


de uma forma mais sucinta, não indo às essências das
mesmas.
O mesmo acontece com as provas da existência de
Deus. Elas são narradas de uma maneira mais simplificada, a
saber: “De maneira que restava que ela tivesse sido posta em
mim por uma natureza que fosse verdadeiramente mais
perfeita do que a minha, [...]; isto é, para explicar-me numa
palavra, que fosse Deus (primeira prova).136” A segunda
prova também é narrada, menos aprofundada, a aplicação do

Mais, [...]il fallait nécessairement que moi, qui le pensais, fusse


quelque chose. Et remarquant que cette vérité: Je pense, donc je suis,
était si ferme et si assurée [...]” (DESCARTES, René. Discours de la
méthode: quatrième partie. In: DESCARTES, 1953, p. 147.).
135 “Et, parce qu’il y a des hommes qui se méprennent en raisonnant,
même touchant les plus simples matières de géométrie, et y font des
paralogismes, jugeant que j’étais sujet à faillir autant qu’aucun autre,
je rejetai comme fausses toutes les raisons que j’avais prises
auparavant pour démonstrations.” (DESCARTES, René. Discours
de la méthode: quatrième partie. In: DESCARTES, 1953, p. 147.).
136 “De façon qu’il restait qu’elle eût été mise en moi par une nature qui
fût véritablement plus parfaite que je n’étais, [...] c’est-à-dire, pour
m’expliquer en un mot, qui fût Dieu.” (DESCARTES, René.
Discours de la méthode: quatrième partie. In: DESCARTES, 1953,
p. 149.).
78 Verdade e método em René Descartes
método é instantânea: “[...], dado que eu conhecia algumas
perfeições que não possuía, eu não era o único ser que
existia, [...], do qual eu dependesse e de quem eu tivesse
recebido tudo o que tinha”137. E na terceira prova ocorre o
mesmo:

Ao passo que voltando a examinar a ideia que eu


tinha de um Ser perfeito, eu verificava que a
existência estava aí inclusa da mesma maneira como
na de um triângulo está incluso que seus três ângulos
são iguais a dois retos, [...], é pelo menos tão certo
que Deus, que é esse Ser perfeito, é ou existe, como
seria qualquer demonstração da geometria138.

Alquié diz que, no Discurso, a dúvida não dura, dá


imediatamente lugar ao cogito, como já foi dito. Dá-se a
mesma coisa com a aplicação do método, pois o objetivo da
dúvida é procurar um critério científico, mostrar o método e
distinguir o verdadeiro do falso. Por isso, a afirmação de que
a obra de Descartes tem um cunho científico como já foi
dito.
Nas Meditações, o intuito não é fazer uma releitura de
todas nem explicitar os seus conteúdos e temas expostos,
mas sim, mostrar o funcionamento do método, a forma

137 “[...] puisque je connaissais quelques perfections que je n’avais point,


je n’étais pas le seul être qui existât [...], duquel je dépendisse, et
duquel j’eusse acquis tout ce que j’avais.” (DESCARTES, René.
Discours de la méthode: quatrième partie. In: DESCARTES, 1953,
p. 149.).
138 “ Au lieu que, revenant à examiner l’idée que j’avais d’un Être parfait,
je trouvais que l’existence y était comprise en même façon qu’il est
compris en celle d’un triangle que ses trois angles sont égaux à deux
droits, [...]; et que, par conséquent il est pour le moins aussi certain
que Dieu, qui est cet Être parfait, est ou existe, qu’aucune
démonstration de géométrie le saurait être.” (DESCARTES, René.
Discours de la méthode: quatrième partie. In: DESCARTES, 1953,
p. 150.).
Angela Gonçalves 79

como o autor procedeu, de maneira sistemática, reflexiva e


aprofundada.
Observa Battisti que Descartes procede segundo o
método em todas as Meditações, utilizando-se do Livro I da
Geometria de Descartes assim: "Assim, querendo resolver
algum problema, deve-se primeiro considerá-lo como já
resolvido e dar nomes a todas as linhas que parecem
necessárias para construí-las, tanto aquelas que são
desconhecidas quanto as outras"139. Pode-se adotar a
seguinte frase que tem o mesmo sentido: devemos pressupor
o problema dado como resolvido140.
Parece não haver dúvidas de que o autor empregou
o método analítico em suas Meditações, a saber: “Quanto a
mim, eu segui somente a via analítica nas minhas Meditações,
porque me parece ser a mais verdadeira e a mais própria para
ensinar; [...]"141. E ainda, como já foi visto na carta a
Mersenne de fim de dezembro de 1637, conforme capítulo
dois, Descartes diz que pretende demonstrar seu método
pela sua obra Geometria que mostra essencialmente o preceito
da análise (método analítico).
Na Primeira Meditação, o problema diz respeito às
opiniões e crenças recebidas como verdadeiras, isto é, como
princípios verdadeiros. O problema está em tais princípios,
porque se encontram “mal assegurados” e, por isso,
duvidosos. É preciso começar tudo de novo para que sejam

139 “If, then, we wish to solve any problem, we first suppose the solution
already effected, and give names to all the lines that seem needful for
its construction, -to those that are unknown as well as to those that
are know.” (DESCARTES, 1955. p. 296.).
140 BATTISTI, 2002, p. 367.
141 “Pour moi, j’ai suivi seulement la voie analytique dans mes
Méditations, parce qu’elle me semble être la plus vraie, et la plus
propre pour enseigner; [...] (DESCARTES, René. Réponses de
L’auteur aux secondes objections: secondes réponses. In:
DESCARTES, 1953, p. 388.).
80 Verdade e método em René Descartes
adquiridos novos princípios; princípios seguros e não
duvidosos. Segundo o método da análise acima descrito, é
preciso pressupor o problema como resolvido, portanto
deve-se assumir que esses critérios duvidosos são
verdadeiros, mas falta uma prova para verificar se eles são
verdadeiros. A dúvida será o procedimento que irá fornecer
essa prova. Princípios incertos, mas que foram
provisoriamente aceitos serão testados através da dúvida
para se verificar a sua legitimidade.
A Primeira Meditação começa, segundo o método
analítico, como se os princípios malfundamentados fossem
ou estivessem resolvidos (o que é dado como verdadeiro) é
o primeiro efeito, e após verificá-los e relacioná-los através
da dúvida, chega-se a uma conclusão negativa: a suspensão
dos juízos.
Na Meditação Segunda, o autor faz uma reavaliação da
primeira e conclui que continuará na sua peregrinação até
encontrar algo de certo ou não. Essa recapitulação ou
reavaliação faz parte do método de Descartes, é a
enumeração através da recapitulação do que foi feito quando
diz: “A Meditação que eu fiz ontem, [...]. Esforçar-me-ei, não
obstante, e seguirei novamente a mesma via que trilhei
ontem, afastando-me de tudo que poderia imaginar [...]; e eu
continuarei sempre nesse caminho [...]”142.
Após ter aplicado o método nessa Meditação,
Descartes chega à primeira verdade: o cogito143. O autor chega
a esta primeira verdade, porque ao exercer o ato de pensar
na dúvida, já está pressuposto que “eu existo na medida em
que penso”, portanto o cogito. O cogito foi obtido por meio da

142 “La Méditation que je fis hier [...]. Je m’efforcerai néanmoins, et


suivrai derechef la même voie où j’étais entré hier, en m’éloignant de
tout ce en quoi je pourrai imaginer [...]; et je continuerai toujours dans
ce chemin, [...].” (DESCARTES, René. Méditations (Méditation
Seconde). In: DESCARTES, 1953, p. 274.)
143 O cogito será abordado em maior profundidade no capítulo três.
Angela Gonçalves 81

aplicação do método analítico, e Descartes ao dizer "eu sou,


eu existo", isto corresponde ao primeiro preceito do método:
a evidência, ou a regra da evidência; é a primeira verdade
clara e distinta: “[...] jamais receber alguma coisa por
verdadeira que eu não a conhecesse evidentemente como tal;
[...]"144.
Mas no interior dessa primeira causa, já existe
imbricado outro problema: qual é a sua natureza? Descobre-
se que, ao determinar a natureza do cogito, se está diante de
um novo problema, uma nova complexidade que precisa ser
resolvida. É o segundo efeito. O cogito é “uma coisa que
pensa”, portanto, o atributo essencial do cogito é o
pensamento e essa essência é uma ideia clara e distinta.
Chega-se à segunda causa: o cogito é pensamento. Mas agora,
o problema é saber o que garante a veracidade das minhas
ideias claras e distintas: quem garante as ideias claras e
distintas? Só uma coisa que pode pôr em dúvida as ideias
claras e distintas: o Deus Enganador. Portanto, para resolver
o problema do cogito é preciso saber se existe um Deus e se
ele é enganador. O terceiro efeito e novo problema é a
verificação disso. Ele realiza isso na Meditação Terceira na qual
ocorrem as provas da existência de Deus. A causa da ideia
de Deus no ser pensante é Deus. Com as duas provas da
existência de Deus, chega-se à terceira causa.
Seguindo então o método, o segundo efeito (a
natureza do cogito) tem como causa a existência de Deus e sua
natureza veraz. Agora Descartes precisa provar que Deus
não é enganador. Uma vez provado que Deus existe e que
não é enganador, segue-se que as ideias claras e distintas são
verdadeiras. Conforme Battisti, "a partir desse momento, a
oscilação entre a certeza do cogito e a atuação da dúvida

144 “[...] recevoir jamais aucune chose pour vraie que je ne la conusse
évidemment être telle; [...]”. (DESCARTES, René. Discours de la
méthode: deuxième partie. In: DESCARTES, 1953, p. 137.)
82 Verdade e método em René Descartes
universal cessa de existir, uma vez que essa última deixa de
atingir as ideias claras e distintas"145.
Resolvido o problema anterior, emerge outro na
Meditação Quarta: o problema da existência do erro humano,
sendo o quarto efeito. O autor afirma que o erro ocorre
quando a vontade, sendo mais ampla que o entendimento,
emite um juízo sobre as coisas que não conhece clara e
distintamente. Uma maneira de se evitar o erro, portanto, é
abster-se de formular um juízo quando não o concebo com
suficiente clareza e distinção. É nesse mau uso que se
encontra a privação que constitui a forma do erro. Desse
modo, chega-se à quarta causa.
Na Meditação Quinta, o problema é a essência das
coisas materiais. Tem-se novamente outra complexidade. É
o quinto efeito. Com relação a essas, ou seja, aos objetos
extensos, a sua essência é as propriedades quantitativas, isto
é, matemáticas. As ideias matemáticas são claras e distintas,
portanto a essência das coisas materiais é constituída por
ideias claras e distintas. Logo, ideias claras e distintas são
verdadeiras. É preciso investigar suas essências, e constata-
se que as propriedades quantitativas ou matemáticas que
pertencem aos corpos são reais, no que concerne aos objetos
extensos. Paralelamente a isso, Descartes apresenta mais
uma prova da existência de Deus. Nessa terceira prova,
conclui a existência de Deus da própria reflexão da sua ideia,
por um processo análogo ao da matemática.
Na Meditação Sexta, Descartes vai examinar se
existem coisas materiais e, se sim, qual a relação entre corpo
e alma. Primeiro, o filósofo levanta a possibilidade da
existência delas, depois a sua probabilidade e conclui que elas
existem depois de mostrar a distinção entre corpo e alma,
mesmo que estejam juntos formando um todo. Descartes
finaliza sua trilha metafísica com os problemas solucionados
e com a dissolução de todas as razões de duvidar.

145 BATTISTI, 2002, p. 378.


Angela Gonçalves 83

Ainda segundo Battisti:

Deduzir verdades umas das outras não é o que faz


Descartes. Resolver problemas e estabelecer relações
entre seus elementos componentes é a maneira de a
razão produzir conhecimento, segundo ele. Nesse
caso, sim, há relações dedutivas que são
estabelecidas, mas que não podem ser desvinculadas
de seu processo de produção, sob pena de serem
acusadas de esterilidade ou de artificialidade146.

Segue esquema do método de análise nas Meditações


Metafísicas.

Figura 1 – Problema crucial (obtenção de novos fundamentos para as


ciências)

146 BATTISTI, 2002, p. 384.


84 Verdade e método em René Descartes
3.1 AS DIFERENÇAS DO ARGUMENTO DO
ERRO DOS SENTIDOS

Antes de tratar das diferenças do argumento do erro


dos sentidos no Discurso do Método e nas Meditações Metafísicas,
mostra-se nas Regras para a Direção do Espírito e em O Mundo
ou Tratado da Luz o que Descartes diz sobre os sentidos.
Descartes quer desfazer-se das antigas opiniões e
crenças. Por quê? O próprio autor diz: “[...] aquilo que
depois eu fundei sob princípios tão mal assegurados não
podia ser senão muito incerto e duvidoso”147. As opiniões e
crenças que são provenientes dos sentidos, são incertas e
duvidosas.
Como os sentidos são a fonte mais natural e imediata
do conhecimento, eles serão primeiramente analisados por
Descartes.
Nas Regras, Descartes já faz alusão à insegurança dos
sentidos, à pluralidade de opiniões que eles fazem emergir e
às suas instabilidades: "Por intuição, entendo não o
testemunho flutuante fornecido pelos sentidos[...]"148. Ainda
nessa mesma obra, na Regra XII, Descartes diz que existe
um sujeito conhecedor e os objetos a serem conhecidos.
Para conhecê-los, é preciso utilizar o entendimento, a
imaginação, os sentidos e a memória, mas só o entendimento
é capaz de ver a verdade. Os sentidos nos colocam em
contato com o mundo exterior. Eles são os recursos que
colocam o sujeito para se relacionar neste mundo. Os
sentidos são afetados pelos objetos. Eles (os sentidos)
apenas recebem a imagem deles.

147 “[...] et que ce que j’ai depuis fondé sur des principes si mal assurés,
ne pouvait être que fort douteux et incertain; [...]”. (DESCARTES,
René. Méditations (Première méditation). In: DESCARTES, 1953, p.
267.).
148 “Par intuition j’entends, non pas le témoignage changeant des sens
[…]”. (DESCARTES, René. Règles pour la direction de l’esprit: règle
III. In: DESCARTES, 1953, p. 43.).
Angela Gonçalves 85

Para explicar bem esse aspecto, Descartes utiliza-se


da metáfora do selo que marca a cera:

[...] todos os sentidos externos enquanto são partes


do corpo, podem ser aplicados aos objetos por uma
ação, ou seja, por um movimento local, são, todavia,
somente passivos na sensação, pela mesma razão por
que a cera recebe a figura impressa por um selo. E
não é necessário crer que estas expressões são
analógicas; importa antes conceber que o objeto
modifica realmente a figura do corpo senciente,
exatamente da mesma maneira que o selo modifica a
que se encontra na superfície da cera. É necessário
admitir não só quando tocamos ou sentimos um
corpo como figurado, ou duro ou rugoso, etc., mas
também quando mediante o tacto percepcionamos o
calor, o frio e as outras qualidades semelhantes149.

Mesmo que se tenha uma percepção sensível, ela não


é conhecimento, o qual é sempre uma percepção do
intelecto.
Mais adiante, ainda nessa regra, Descartes nos diz a
respeito do supracitado: "[...] nem que os sentidos revestem
as verdadeiras figuras das coisas, nem, enfim, que a realidade
exterior é sempre tal qual nos aparece. É em todos esses

149 “[…] tous les sens externes, en tant qu’ils sont des parties du corps,
peuvent êtres appliqués aux objets par une action, c’est-à-dire par un
mouvement local, mais néanmoins ne sentent proprement que par
une passion, comme la cire reçoit la figure d’un cachet. Et il ne faut
pas croire que cela soit dit par analogie; mais il faut se représenter,
tout à fait de la même manière, que la figure extérieure du corps
sentant est réellement modifiée par l’objet, comme la surface de la
cire est modifiée par le cachet. Il faut l'admettre non seulement
lorsque nous touchons quelque corps qui a une forme, ou qui est dur
ou rugueux, etc..., mais aussi lorsque nous percevons par le toucher
la chaleur ou le froid, et d’autres choses semblables”. (DESCARTES,
René. Règles pour la direction de l’esprit: règle XII. In:
DESCARTES, 1953, p. 76).
86 Verdade e método em René Descartes
pontos que, efetivamente, nós estamos sujeitos ao erro,
[...]"150. Quer dizer, o que os sentidos nos mostram, a mera
aparência pode ser um erro.
A propósito dessa reflexão, John Cottingham chama
atenção para o fato de que o argumento da rejeição dos
sentidos tem sido alvo de várias críticas exaustivas pelos
comentadores, como se vê no exemplo a seguir:

Tem-se perguntado frequentemente se estará


completamente certo rejeitar o testemunho dos
sentidos só porque certos dados sensoriais não
oferecem confiança; com efeito, não será a nossa
própria capacidade de considerar que os sentidos
por vezes nos enganam aproveitadora do fato de que
eles por vezes não nos enganam? (por exemplo,
descubro que o pau dentro de água não está de facto
curvado ao retirá-lo, ao inspecioná-lo ou ao tocá-lo
os dados sensoriais ulteriores corrigem os dados
iniciais)151.

Ainda acompanhando Cottingham, é oportuno


lembrar mais um comentário:

Este tipo de objeção mal toca Descartes, porque


nesta fase do debate, Descartes não está preocupado,
portanto, em refutar todas as percepções sensoriais,
mas pretende tão só levantar a preocupação
preliminar de que estes nem sempre são fiáveis152.

150 “[…] ni que les sens prennent les vraies figures des choses, ni enfin
que la realité extérieure est toujours telle qu’elle apparaît; en tout cela,
en effet, nous sommes sujets à l’erreur; […]”. (DESCARTES, René.
Règles pour la direction de l’esprit: règle XII. In: DESCARTES,
1953, p. 84.).
151 COTTINGHAM, 1986, p. 51.
152 COTTINGHAM, 1986, p. 51-52.
Angela Gonçalves 87

Em outra obra de Descartes, intitulada "O Mundo ou


Tratado da Luz", no primeiro capítulo chamado "Da
diferença que há entre nossos sentimentos e as coisas que os
produzem", ele nos adverte que: "A sensação deve ser
preterida face à explicação mecânica do comportamento da
luz"153. Ele duvida da semelhança que existe entre o
sentimento que se tem da luz, mediante os nossos olhos e
aquilo que realmente está no objeto154.
Vê-se em todas as obras já mencionadas de
Descartes que os sentidos são suscetíveis de erro porque não
fornecem um conhecimento verdadeiro, somente o
entendimento. Ora, para se ter um conhecimento
indubitável, não se pode ter um "conhecimento flutuante".
No Discurso, na quarta parte, Descartes afirma: "Assim,
porque os nossos sentidos nos enganam algumas vezes, eu
quis supor que não havia coisa alguma que fosse tal como
eles nos fazem imaginar"155. Esse texto estabelece o primeiro
grau da dúvida (argumento do erro dos sentidos), que será
retomado nas Meditações. No Discurso, o filósofo diz que os
sentidos nos enganam algumas vezes. Por isso, não existe
coisa alguma que seja como as que imaginamos, mas
Descartes não põe em causa a existência do mundo exterior,
não se questiona se existem objetos exteriores, se existe uma
correspondência entre as ideias e o mundo sensível.
Já nas Meditações, ele submete os sentidos ao ataque
da dúvida metódica, colocando em causa, logo de início, a
existência do mundo exterior, isto é, será que ele nos revela
uma existência? Existe uma grande diferença entre se

153 DESCARTES, René. O mundo ou tratado da luz. Organização e


tradução Érico Andrade. São Paulo: Hedra, 2008. p. 21.
154 DESCARTES, 2008, p. 21.
155 “Ainsi, à cause que nos sens nous trompent quelquefois, je voulus
supposer qu’il n’y avait aucune chose qui fût telle qu’ils nous la font
imaginer”. (DESCARTES, René. Discours de la méthode: quatrième
partie. In: DESCARTES, 1953, p. 147.).
88 Verdade e método em René Descartes
questionar sobre se os sentidos nos informam exatamente
acerca da natureza de alguma coisa, como no Discurso, e
sobre se existe realmente alguma coisa, como nas Meditações.
Essa é uma diferença ontológica, metafísica e não científica
como no Discurso.
Na Primeira Meditação, Descartes quer se desfazer das
antigas opiniões e começar tudo novamente desde os
fundamentos, ou seja, novos princípios, pois parece que os
critérios de verdades antigos não estavam bem
fundamentados, ou seja, fundamentados nos sentidos
(escolástica). Descartes irá dedicar-se às antigas opiniões
porque essas tinham como bases os sentidos. A dúvida não
irá combater as opiniões somente porque são opiniões, e,
sim, pelo seu sustentáculo: os sentidos. Colocar em dúvida
as opiniões significa duvidar dessas em sua relação com os
sentidos. Todo saber antigo (verdadeiro e seguro) estava
alicerçado neles, e Descartes percebe que a faculdade de
sentir era algumas vezes enganosa:

Tudo o que recebi, até presentemente como o mais


verdadeiro e seguro, eu os aprendi dos sentidos ou
pelos sentidos: ora, experimentei algumas vezes que
esses sentidos eram enganosos, e é prudente nunca
se fiar inteiramente em quem já nos enganou uma
vez156.

Descartes faz alusão aos seus próprios sentidos, ao


conhecimento adquirido através deles. No entanto, não é
necessário que eles enganem sempre, pois basta uma única
vez para acreditar que esse conhecimento seja enganoso.

156 “Tout ce que j’ai reçu jusqu’à présent pour le plus vrai et assuré, je
l’ai appris des sens, ou par les sens: or j’ai quelquefois éprouvé que
ces sens étaient trompeurs, et il est de la prudence de ne se fier jamais
entièrement à ceux qui nous ont une fois trompés”. (DESCARTES,
René. Méditations (Première méditation). In: DESCARTES, 1953, p.
268.).
Angela Gonçalves 89

A dúvida dos sentidos tem certo limite, eles nos


enganam no que se refere às coisas pouco sensíveis e
distantes, mas existem, contudo, muitos outros juízos que
seria uma insanidade duvidar. Ele diz que não dá para
duvidar "que eu esteja aqui sentado junto ao fogo, vestido
com um chambre, tendo este papel entre as mãos e outras
coisas desta natureza"157. Diz ainda, "E como eu poderia eu
negar que estas mãos e este corpo aqui sejam meus?"158.
Segundo Octave Hamelin, existe uma inclinação
natural para crer nas coisas que nossos sentidos nos
representam, a saber: “Nós nos inclinamos a crer que
existem coisas que nossos sentidos nos representam, porém,
por que nos inclinamos a eles? Principalmente por uma
inclinação natural“159. E ainda diz que as representações dos
sentidos nos impõem forçosamente contra a nossa vontade
“então, porque as representações dos sentidos impõem-se à
nossa vontade”160. Significa que, num primeiro momento, no
conhecimento sensível, os objetos, necessariamente, e, é
natural, são apreendidos pelos sentidos.
Quando Descartes, nas Regras para a Direção do
Espírito diz: "primeiro, percebemos que em nós só o
entendimento é capaz de ciência: mas também que três
outras faculdades podem ajudá-lo ou criar-lhe

157 “[...], que je sois ici, assis auprès du feu, vêtu d’une robe de chambre,
ayant ce papier entre les mains, et autres choses de cette nature”.
(DESCARTES, René. Méditations (Première méditation). In:
DESCARTES, 1953, p. 268.).
158 “Et comment est-ce que je pourrais nier que ces mains et ce corps-ci
soient à moi? [...]”. (DESCARTES, René. Méditations (Première
méditation). In: DESCARTES, 1953, p. 268.).
159 "Nosotros nos inclinamos a creer que existen las cosas que nuestros
sentidos nos representan. Pero ¿por qué propendemos a ello? Ante todo,
por una inclinación natural; […]" (HAMELIN, 1949, p. 123-124).
160 [...] "luego, porque las representaciones de los sentidos se nos imponen
a pesar nuestro" (HAMELIN,1949, p. 124.).
90 Verdade e método em René Descartes
impedimentos: são a imaginação, os sentidos e a
memória"161; ele quer dizer que os sentidos ou ajudam ou
atrapalham. Como? De que maneira? Os sentidos não
atrapalham o entendimento na medida em que o juízo os
atinge e os corrige. Por ser assim, é possível dar razão a John
Cottingham: "Assim, é apenas a razão que corrige os erros
dos sentidos"162.
O objetivo de Descartes é duvidar, sistematicamente,
de todas as nossas percepções sensíveis, porque são
mediadas pelos sentidos, portanto duvidosas. E não aplica a
dúvida somente aos sentidos, mas também à intuição.
É através dos sentidos que se percebe a realidade.
Significa que eles nos apresentam uma realidade na qual
formamos nossas opiniões, a saber:

Todavia, eu recebi e admiti acima várias coisas como


muito certas e muito manifestas, às quais, entretanto,
reconheci depois serem duvidosas e incertas. Quais
eram então essas coisas? Eram a terra, o céu, os
astros, e todas as outras coisas que eu percebia por
intermédio dos meus sentidos163.

161 “D’abord nous remarquons qu’en nous l’entendement seul peut


atteindre à la science, mais qu’il peut être aidé ou gêné par trois autres
facultés: l’imagination, les sens et la mémoire.” (DESCARTES, René.
Règles pour la direction de l’esprit: règle VIII. In: DESCARTES,
1953, p. 66.).
162 COTTINGHAM, John. A filosofia de Descartes. Lisboa: Edições
70, 1986. p. 52.
163 “Toutefois j’ai reçu et admis ci-devant plusieurs choses comme très
certaines et très manifestes, lesquelles néanmoins j’ai reconnu par
après être douteuses et incertaines. Quelles étaient donc ces choses-
là? C’était la terre, le ciel, les astres, et toutes les autres choses que
j’apercevais par l’entremise de mes sens.” (DESCARTES, René.
Méditations (Méditation troisième). In: DESCARTES, 1953, p. 284-
285.).
Angela Gonçalves 91

Pode-se inferir que Descartes está preocupado se


essas opiniões fundamentadas pelos sentidos fornecem uma
correspondência com as coisas das quais elas são opiniões.
Entra aqui a noção de verdade como correspondência que
segundo Enéias Forlin é: “[...] introduzindo-se na estratégia
cartesiana para demonstrar a existência de conhecimentos
verdadeiros”164.
Descartes, ao combater os sentidos, ou fazer uma
crítica nesse momento (Primeira Meditação) a eles, está
inspecionando se as crenças do senso comum são passíveis
de verdade (noção de correspondência). As crenças e
opiniões são formuladas ou fundamentadas tendo como
base uma realidade exterior, na medida em que essa realidade
é apreendida por nós através dos sentidos. Portanto, as
opiniões são resultado de uma realidade mediada por eles.
Basta saber se a impressão dos objetos que este
sujeito recebe é verdadeira ou não, se é exatamente como ele
percebe ou não. Será que os dados sensoriais oferecem
confiança? O que Descartes quer mostrar com a primeira
razão de duvidar, ou seja, o erro dos sentidos:

a) A realidade que aparece pode não ser esta


realidade;
b) Os sentidos podem fornecer representações
sensíveis que podem não corresponder à
realidade exterior.

Além disso, existem os objetos sensíveis, e tem de


haver um juízo para validar essa apreensão do objeto
sensível, ou seja, o sujeito. Surge uma questão: como é a
nossa percepção da realidade. O argumento do erro dos
sentidos é a primeira razão de duvidar do nosso
conhecimento, isto é, a dúvida do conhecimento sensível.

164 FORLIN, 2005, p. 51.


92 Verdade e método em René Descartes
Ao refletir sobre o erro dos sentidos, no Discurso,
Descartes interroga apenas se existe entre as nossas
sensações e os objetos uma conformidade, isto é, se aquilo
que estou vendo corresponde ao tal objeto. Observa que
talvez, fora de nós, não exista qualquer realidade que os
nossos sentidos apresentam porque, talvez os sentidos me
apresentem os objetos de modo diferente daquilo que eles
realmente são. Agora, nas Meditações, o autor duvida de estar
sentado junto ao fogo, que aquelas mãos e corpo sejam dele.
A questão é diferente, é uma dúvida existencial, será que o
sensível revela alguma existência? A questão aqui é mais
radical. Já que a existência está sendo mediada pelos
sentidos, pode-se duvidar da existência mesmo, será que
existe uma existência? Com este argumento, o autor coloca
em xeque a realidade da percepção sensível, melhor, coloca
em dúvida que o próprio sujeito esteja tendo uma percepção
sensível.
No Discurso, Descartes apresenta o argumento dos
sonhos (o segundo grau da dúvida) o qual se estende a todo
o conhecimento sensível. Não há marcas claras que
diferenciem a vigília do sonho. Em consequência disso,
qualquer formulação de juízos sobre a vigília (objetos) é
suspeita. Ele diz:

E enfim, considerando que todos os mesmos


pensamentos que nós temos quando despertos nos
podem ocorrer também quando nós dormimos, sem
que haja nenhum, nesse caso, que seja verdadeiro,
resolvi fazer de conta que todas as coisas que até
então haviam entrado no meu espírito não eram
mais verdadeiras que as ilusões dos meus
sonhos[...]165.

165 “Et enfin, considérant que toutes les mêmes pensées que nous avons
étant éveillés, nous peuventaussi venir quand nous dormons, sans
qu’il y en ait aucune pour lors qui soit vraie, je me résolus de feindre
que toutes les choses qui m’étaient jamais entrées en l’esprit n’étaient
nos plus vraies que les illusions de mes songes. [...]”. (DESCARTES,
Angela Gonçalves 93

Essas considerações sobre os sentidos, no Discurso,


são breves. Ele irá aprofundá-las nas Meditações.
Nas Meditações, Descartes submete os sentidos a um
novo ataque da dúvida metódica; estabelece o segundo grau
da dúvida, que é o argumento dos sonhos. Aqui, Descartes
vai radicalizar a dúvida dos sentidos estendendo-a a qualquer
representação da percepção de coisas exteriores, ou seja, à
impossibilidade de distinguir o sono da vigília:

Todavia, devo aqui considerar que sou homem e,


por conseguinte, que eu tenho o costume de dormir
e de representar, em meus sonhos, as mesmas coisas,
ou algumas vezes menos verossímeis, que esses
insensatos em vigília. Quantas vezes me ocorreu
sonhar, à noite, que estava neste lugar, que eu estava
vestido, que estava junto ao fogo, embora estivesse
inteiramente nu dentro de meu leito?
Parece-me agora que não é com olhos adormecidos
que vejo este papel; que esta cabeça que eu mexo não
está dormente; que é com desígnio e propósito
deliberado que estendo esta mão e que a sinto: o que
ocorre no sono não parece ser tão claro nem tão
distinto quanto tudo isso.
Mas, pensando cuidadosamente nisso, lembro-me
de ter sido muitas vezes enganado, enquanto dormia,
por semelhantes ilusões166.

René. Discours de la méthode: quatrième partie. In: DESCARTES,


1953, p. 147.).
166 “Toutefois j’ai ici à considerer que je suis homme, et par conséquent
que j’ai coutume de dormir et de me représenter en mes songes les
même choses, ou quelquefois de moins vraisemblables, que ces
insensés, lorsqu’ils veillent. Combien de fois m’est-il arrivé de songer,
la nuit, que j’étais en ce lieu, que j’étais habillé, que j’étais auprès du
feu, quoique je fusse tout nu dedans mon lit? Il me semble bien à
présent que ce n’est point avec des yeux endormis que je regarde ce
papier; que cette tête que je remue n’est point assoupie; que c’est avec
94 Verdade e método em René Descartes

Nos sonhos, os sentidos mostram as coisas como


elas não são. Logo nos enganam. Segundo Descartes:

E, detendo-me neste pensamento, vejo tão


manifestamente que não há quaisquer indícios
concludentes, nem marcas assaz certas por onde se
possa distinguir nitidamente a vigília do sono, que
me sinto inteiramente pasmado: e meu pasmo é tal
que é quase capaz de me persuadir de que estou
dormindo167.

Mas mesmo que os sonhos apresentem situações


impossíveis, os elementos que compõem essas situações são
verossímeis, existentes. Essas coisas verossímeis são
manipuladas pela imaginação, a saber:

Todavia, é necessário ao menos confessar que as


coisas que nos são representadas durante o sono são
como quadros e pinturas, que não podem ser
formados senão à semelhança de alguma coisa de
real e verdadeiro; e que assim, pelo menos, essas
coisas gerais, a saber, olhos, cabeça, mãos e todo o

dessein et de propos délibéré que j’étends cette main, et que je la sens:


ce qui arrive dans le sommeil ne semble point si clair ni si distinct que
tout ceci. Mais, en y pensant soigneusement, je me ressouviens
d’avoir été souvent trompé, lorsque je dormais, par de semblables
illusions.” (DESCARTES, René. Méditations (Première méditation).
In: DESCARTES, 1953, p. 268-269.).
167 "Et m`arrêtant sur cette pensée, je vois si manifestement qu`il n`y a
point d`indices concluants, ni de marques assez certaines par où l`on
puisse distinguer nettement la veille d`avec le sommeil, que j`en suis
tout étonné; et mon étonnement est tel, qu`il est presque capable de
me persuader que je dors." (DESCARTES, René. Méditations
(Première méditation). In: DESCARTES, 1953, p. 269.).
Angela Gonçalves 95
resto do corpo não são imaginárias, mas verdadeiras
e existentes168.

Descartes também compara os sonhos com os


pintores, porque eles podem pegar coisas da realidade e com
a ajuda da imaginação criar coisas, mas não totalmente
novas; assim, os sonhos serão compostos por elementos
simples que pertencem à realidade.

Pois na verdade, os pintores, mesmo quando se


dedicam com o maior artifício em representar sereias
e sátiros por formas bizarras e extraordinárias, não
lhes podem, todavia, atribuir formas e naturezas
inteiramente novas, mas fazem apenas certa mistura
e composição dos membros de diversos animais; ou
então, se por ventura sua imaginação for assaz
extravagante para inventar alguma coisa tão nova,
que jamais nós tenhamos visto coisa semelhante, e
que assim sua obra nos represente uma coisa
puramente fictícia e absolutamente falsa, certamente
ao menos as cores com que eles compõem devem
ser verdadeiras169.

168 “Toutefois il faut au moins avouer que les choses qui nous sont
représentées dans le sommeil, sont comme des tableaux et des
peintures, qui ne peuvent être formées qu’à la ressemblance de quelque
chose de réel et de véritable; et qu’ainsi, pour le moins, ces choses
générales, à savoir, des yeux, une tête, des mains, et tout le reste du
corps, ne sont pas imaginaires, mais vraies et existantes”.
(DESCARTES, René. Méditations (Première méditation). In:
DESCARTES, 1953, p. 269.).
169 “Car de vrai les peintres, lors même qu’ils s’étudient avec le plus
d’artifice à représenter des sirènes et des satyres par des formes
bizarres et extraordinaires, ne leur peuvent pas toutefois attribuer des
formes et des natures entièrement nouvelles, mais font seulement un
certain mélange et composition des membres de divers animaux; ou
bien, si peut-être leur imagination est assez extravagante pour
inventer quelque chose de si nouveau, que jamais nous n’ayons rien
vu de semblable et qu’ainsi leur ouvrage nous représente une chose
96 Verdade e método em René Descartes

Então, parece que os sentidos escapam do


argumento do sonho e, portanto, da dúvida que os sonhos
criam com relação aos sentidos. Mas essa aparência é
enganadora.
A respeito dos graus da dúvida, Martial Gueroult diz
que a dúvida metódica tem o papel de destruir os princípios
fundamentados nos sentidos, fazendo uma crítica a eles,
observando que

começa um processo exaustivo que estende a dúvida


além da esfera dos objetos sensíveis. Esse processo
que vai do complexo ao simples, se efetua segundo
a ordem. Os sentidos nos enganam. As percepções
sensíveis são sonhos. Mas os sonhos são imaginários
porque eles combinam arbitrariamente elementos
mais simples e mais gerais: olhos, mãos, cabeças,
corpos, etc. Esses elementos parecem ser reais, já
que, estando fora do composto, eles escapam à
possível arbitrariedade da composição. Todavia,
esses elementos compostos são eles mesmos
compostos: eles podem então o ser arbitrariamente;
e, em consequência, seres imaginários, então
duvidosos. De onde a necessidade de se elevar até
aos elementos desses elementos: figura, número,
quantidade, grandeza, espaço, tempo, etc. [...] Chega-
se então às naturezas <<simples e gerais>>, que não
sendo compostas, escapam, por definição, a todo
arbitrário possível de combinações e, em
consequência, à dúvida. Acrescenta-se aqui o plano
das Regulae, segundo as quais, as matemáticas são

purement feinte et absolument fausse, certes à tout les moins les


couleurs dont ils le composent doivent-elles être véritables”.
(DESCARTES, René. Méditations (Première méditation). In:
DESCARTES, 1953, p. 269.).
Angela Gonçalves 97
ciências absolutamente certas, porque elas tratam de
objetos simples e gerais170.

Logo as percepções que temos das "naturezas simples",


indecomponíveis como figura, extensão, quantidade, não põem
em dúvida a minha percepção, pois são objetos da matemática.
Esses elementos "escapam contrariamente aos objetos
sensíveis, a todas as razões naturais de duvidar"171, sublinha
Gueroult, apoiando-se no texto da Meditação Quinta: "[...] a
natureza de meu espírito é tal que eu não poderia impedir de
julgá-las verdadeiras enquanto as concebo claramente e
distintamente"172. Também a Aritmética, a Geometria e as
outras ciências desta natureza,

170 "A partir de lá, commence un processus exhaustif qui étend le doute
bien au delá de la sphère des objets sensibles. Ce processus, qui va
du complexe au simple, s'effectue selon l`ordre. Les sens nous
trompent. Les perceptions sensibles ne sont peut-être que des rêves.
Mais les rêves ne sont imaginaires que parce qu`ils combinent
arbitrairement des éléments plus simples et plus géneraux: des yeux,
des mains, des têtes, des corps, etc. Ces éléments paraissent ne
pouvoir être que rééls, puisque, étant hors du composé, ils échappent
à l`arbitraire possible de la composítion. Toutefois, ces éléments
composants sont eux mêmes aussi composés: ils peuvent donc l`être
arbitrairement; et, par conséquent, être imaginaires, donc douteux.
D`où la nécessité de s`élever jusqu`aux éléments de ces éléments:
figura, nombre, quantité, grandeur, espace, temps, etc. On aboutit
alors a des natures absolument <<simples et générales>>, qui,
n`étant pas composées, échappent, par définition, à tout l`arbritaire
possible des combinaisons et, par conséquent, au doute. On rejoint
ici le plan des Regulae, selon lesquelles les mathématiques sont des
sciences absolument certaines parce qu’elles portent sur des objets
simples et généraux." (GUEROULT, 1953, p. 34.)
171 […] échappent, contrairement aux objets sensibles, à toutes les
raisons naturelles de douter (GUEROULT, 1953, p. 36.).
172 “[...] la nature de mon esprit est telle, que je ne me saurais empêcher
de les estimer vraies, pendant que je les conçois clairement et
distinctement”. (DESCARTES, René. Méditations (Méditation
cinquième). In: DESCARTES, 1953, p. 311.).
98 Verdade e método em René Descartes

que tratam de coisas muito simples e gerais, sem


cuidarem muito se elas existem ou não na natureza,
contêm alguma coisa de certa e indubitável. ‘a Física,
a Astronomia, a Medicina e todas as outras ciências
que dependem da consideração de coisas compostas;
são muito duvidosas e incertas173.

Há de se perceber que apesar da dúvida do


conhecimento sensível, noções simples e universais como
espaço e tempo, e mais especificamente, o conhecimento
matemático, não se fundamentam no conhecimento
sensível, ele permanece indubitável. É um connhecimento
simples e universal que não precisa de verificação na
experiência, é feito pelo pensamento. Isso significa que as
coisas simples e universais não precisam de uma
correspondência com a realidade exterior para garantir a sua
veracidade. Aqui, Descartes valida as ideias.
No Discurso, não existe a veracidade das matemáticas
pelas ideias. Essa é uma diferença fundamental. Nessa obra,
o autor não apresenta uma “validação das ideias”. Só diz que
os pensamentos podem ser ilusões. As ciências da
matemática, Descartes afirma que são certas e indubitáveis,
pois na vigília ou no sonho dois mais três formarão sempre
o número cinco. Isso quer dizer que a matemática escapa ao
argumento dos sonhos e parece que temos então uma
verdade indubitável.
Nas Meditações, apesar da dúvida do conhecimento
sensível, existe ainda um conhecimento simples e universal

173 “[...] qui ne traitent que de choses fort simples et fort générales, sans
se mettre beaucoup en peine si elles sont dans la nature, ou si elles
n’y sont pas, contiennent quelque chose de certain et d’indubitable.
[...] la physique, l’astronomie, la médicine, et toutes les autres sciences
qui dépendent de la considération des choses composées, sont fort
douteuses et incertaines; [....]” (DESCARTES, René. Méditations
(Première méditation). In: DESCARTES, 1953, p. 270.).
Angela Gonçalves 99

realizado pelo próprio pensamento que independe de um


mundo exterior. Esse conhecimento simples e universal é a
intuição. Aquele ato simples e primeiro, operação do
entendimento que não pode ser reduzido, dividido, é
compreensível por si só. O argumento do sonho (o segundo
grau da dúvida) propõe que toda a realidade exterior possa
ser uma imaginação da mente, quer dizer, uma razão de
duvidar que abrange todo o conhecimento sensível.
Imaginação da mente implica suspeita da própria percepção
sensível; será que o sujeito está tendo alguma percepção?
Segundo Enéias Forlin:

Com esta manobra, o juízo mostra-se novamente


transcendendo o objeto, à medida que pressupõe a
realidade da percepção sensível; contudo, ocorre
aqui, outra vez, uma redução do objeto, que passa de
objeto da percepção sensível para objeto de
pensamento, ou ideia (ideia essa que pode ou não
corresponder a um objeto fora dela)174.

Parece que uma das estratégias de Descartes no


processo da dúvida metódica, é mostrar já a noção de “ideia”
quando o conhecimento sensível passa da realidade objetiva
(o objeto) para a realidade subjetiva (pensamento ou ideia no
sujeito).

3.2 A DEMONSTRAÇÃO OU O PROBLEMA DOS


RACIOCÍNIOS MATEMÁTICOS

No Discurso do Método, quarta parte, Descartes põe em


dúvida as certezas matemáticas, no tocante à Geometria, ou
mais precisamente, no que se refere ao erro nos raciocínios
matemáticos.
Descartes escreve no Discurso:

174 FORLIN, 2005, p. 62.


100 Verdade e método em René Descartes

E porque há homens que se enganam ao raciocinar,


mesmo no tocante às mais simples matérias de
geometria, e cometem aí paralogismos, julgando que
estava sujeito a falhar como qualquer outro, rejeitei
como falsas todas as razões que eu tomara até então
por demonstrações175.

Essa referência que Descartes faz não põe em dúvida


a matemática. Somente que os homens se equivocam, se
enganam ao raciocinar. O problema está no sujeito. Ele
rejeitou como falsas todas as demonstrações matemáticas
também, porque outrora homens já se equivocaram
raciocinando sobre essa matéria:

Nós duvidaremos, também, de todas as outras coisas


que outrora já nos pareceram muito certas, mesmo
as demonstrações de matemática e seus princípios,
embora sejam bastante manifestos, porque há
homens que se equivocaram raciocinando sobre tais
matérias, [...]176.

Seguindo o raciocínio "Por que há homens que se


equivocaram raciocinando", esse "equívoco" do qual nos fala
Descartes faz alusão ao que ele diz na Meditação Quarta: "[...]

175 “Et, parce qu’il ya des hommes qui se méprennent en raisonnant,


même touchant les plus simples matières de géométrie, et y font des
paralogismes, jugeant que j’étais sujet à faillir autant qu’aucun autre,
je rejetai comme fausses toutes les raisons que j’avais prises
auparavant pour démonstrations”. (DESCARTES, René. Discours
de la méthode: quatrième partie. In: DESCARTES, 1953, p. 147.).
176 “Nous douterons aussi de toutes les autres choses qui nous ont
semblé autrefois très certaines, même des démonstrations de
mathématique et de ses principes, encore que d’eux-mêmes ils soient
assez manifestes, parce qu’il y a des hommes qui se sont mépris en
raisonant sur de telles matières; [...]”. (DESCARTES, René. Les
principes de la philosophie. In: DESCARTES, 1953, p. 572.).
Angela Gonçalves 101

na medida em que não sou eu próprio o soberano ser, eu me


acho exposto a uma infinidade de faltas, de maneira que não
deve espantar-me se me engano"177.
Na medida em que sou um ser finito em tudo e não
sou um ser perfeito, pois somente Deus o é, estou vulnerável
ao erro. O poder que Deus lhe deu para distinguir o
verdadeiro do falso não é infinito. Alquié complementa ao
dizer que, no Discurso, Descartes "observa apenas que há
homens que se iludem ao raciocinar"178. Qual é, então, a via
de raciocínio correta? A via de raciocínio correta é pensar
claro e distintamente.
Constata-se que, no Discurso, existe apenas alusão ao
erro nos raciocínios matemáticos, ao passo que nas
Meditações, coloca-se em causa as essências matemáticas, quer
dizer, a intuição que é um juízo claro e distinto, uma
operação do entendimento que não pode ser justificada nem
dividida, pois, por si só, é a sua própria justificação, é posta
em dúvida.

3.3 A DIFERENÇA ENTRE GÊNIO MALIGNO


E DEUS ENGANADOR

Pode-se começar com uma primeira explicação, no


que concerne à diferença desses dois tópicos nas duas obras:
Gênio Maligno e Deus Enganador. No Discurso do Método,
essas duas hipóteses não existem, porque a dúvida dessa obra
não é hiperbólica, não atinge tudo, não coloca em causa toda
a existência e também, porque ainda não surgiu um
argumento para colocar a matemática em dúvida. Somente
nas Meditações Metafísicas é que surgirão essas duas hipóteses.

177 “[...] en tant que je ne suis pas moi même le souverain être, je me
trouve exposé à une infinité de manquements, de façon que je ne me
dois pas étonner si je me trompe”. (DESCARTES, René. Méditation
quatrième. In: DESCARTES, 1953, p. 302.).
178 ALQUIÉ, 1969, p. 67.
102 Verdade e método em René Descartes
Mas Popkin admite que o erro dos raciocínios matemáticos
estaria no lugar do Gênio Maligno, pois este não aparece no
Discurso179. Acredita-se que é uma probabilidade, não uma
certeza.
Nas Meditações, para atacar a intuição intelectual, quer
dizer, as coisas simples e universais (mesmo que não
podemos recusar a autenticidade desse juízo), para
desestabilizá-lo, e até para colocar em dúvida as certezas
matemáticas, Descartes apresenta o argumento do Deus
Enganador ou o Gênio Maligno. Segundo Frankfurt: “de um
lado, tal argumento coloca em dúvida a existência do mundo
material e, com ela, a realidade das coisas simples e universais
que são características desse mundo material; de outro, ele
questiona a confiança depositada nas matemáticas”180.
Mesmo assim, como faz parte da dúvida metódica
(hiperbólica) e sistemática rejeitar tudo, inclusive a bondade
de Deus, o autor apresenta dessa forma o primeiro
argumento da dúvida das matemáticas. A do Deus
Enganador que é o terceiro grau da dúvida. Acredita-se que
como Descartes está colocando tudo em dúvida, ele
pretende se referir não só à existência e inclusive aos seus
juízos, mas também às certezas matemáticas, as quais são
evidenciadas no juízo ou no entendimento e também se
tornam dubitáveis obviamente. É uma questão de
necessidade admitir uma dúvida hiperbólica, metafísica
contra uma certeza evidente.
O segundo argumento e o quarto grau da dúvida é a
hipótese do Gênio Maligno decidido a enganá-lo

179 POPKIN, 2000, p. 281.


180 “[...] d’un côté, tel argument met en doute l’existence du monde
matériel et, avec elle, la réalité de choses simples et universelles qui
sont caracteristiques de ce monde matériel; de l’autre, il questionne
la confiance dans les mathématiques.” (FRANKFURT, Harry G.
Démons. Rêveurs et fous: la défense de la raison dans les
méditations de Descartes. Paris: Puf, 1989. p. 99.)
Angela Gonçalves 103

sistematicamente como uma nova estratégia da dúvida


hiperbólica.
Na Primeira Meditação, inicialmente Descartes quer
descobrir se há tal ser, o ser que tudo pode e pelo qual ele
foi criado (Deus). "Ou há ou não há tal ser"181 e se há, “[...]
pode ocorrer que [...] tenha desejado que eu me engane todas
as vezes que faço a adição de dois mais três”182. Ainda nessa
obra, Descartes diz: "Eu suporei, então, que não há um
verdadeiro Deus, que é a soberana fonte da verdade, mas
certo Gênio Maligno não menos ardiloso e enganador do
que poderoso, que empregou toda a sua indústria em
enganar-me"183.
Num primeiro momento, quando o autor diz “não
há um verdadeiro Deus, que é a soberana fonte da verdade,
mas certo Gênio Maligno [...]”184, parece que separa Deus,
fonte da verdade, do Gênio Maligno (ardiloso e enganador),
portanto duas entidades diferentes e, provavelmente, com
funções distintas.
O Gênio Maligno é uma entidade que, à semelhança
de Deus, é onipotente, mas diferentemente de Deus, ele é
maligno, pois faz com que eu me engane mesmo quando
faço operações matemáticas. É a única opção de Descartes
para pôr em dúvida a matemática.
181 COTTINGHAM, John. Dicionário Descartes, verbete Dilema
do Deus Enganador. Rio de Janeiro: Zahar, 1995. p. 52.
182 “[...], il se peut faire qu’il ait voulu que je me trompe toutes les fois
que je fais l’addition de deux et trois, [...]. (DESCARTES, René.
Méditations (Première méditation). In: DESCARTES, 1953, p. 270.).
183 “Je supposerai donc qu’ily a, non point un vrai Dieu, qui est la
souveraine source de vérité, mais un certain mauvais génie, non
moins rusé et trompeur que puissant, qui a employé toute son
industrie à me trompeur” (DESCARTES, René. Méditations
(Première méditation). In: DESCARTES, 1953, p. 272.).
184 “[...] non point un vrai Dieu, qui est la souveraine source de vérité,
mais un certain mauvais génie [...]”(DESCARTES, René.
Méditations (Première méditation). In: DESCARTES, 1953, p. 272.).
104 Verdade e método em René Descartes
Dessa forma, ele põe em dúvida tanto o
conhecimento a posteriori (conhecimento sensível) quanto
o a priori (verdades matemáticas) para que o seu processo da
dúvida convença até o cético mais arraigado:

Eu pensarei que o céu, o ar, a terra, as cores, as


figuras, os sons e todas as coisas exteriores que nós
vemos são ilusões e enganos de que ele se serve para
surpreender minha credulidade. Considerar-me-ei a
mim mesmo como privado de mãos, de olhos, de
carne, de sangue, com não tendo quaisquer sentidos,
mas crendo falsamente de ter todas essas coisas185.

Na sequência da reflexão, faz-se necessário lembrar


Pascal. Para ele, as duas hipóteses (Deus Enganador e Gênio
Maligno) têm a mesma função: “cada uma destas duas
suposições nos permite duvidar das próprias verdades
matemáticas”186. Não se concorda com esse autor, porque o
Gênio Maligno tem uma força metodológica crucial na
dúvida metódica, pois é uma estratégia de peso para colocar
tudo em dúvida, não somente o duvidoso, mas aquilo que é
certo e indubitável, isto é, as verdades matemáticas. Como
essas são ideias claras e distintas, é essa radicalização através
dessa entidade que as torna não só duvidosas, mas ideias não
claras e distintas. A hipótese do Deus Enganador, já é um
prenúncio das provas da existência de Deus, que o
provando, valida as ideias claras e distintas da matemática e

185 Je penserai que le ciel, l’air, la terre, les couleurs, les figures, les sons
et toutes les choses extérieures que nous voyons, ne sont que des
illusions et tromperies, dont il se sert pour surprendre ma crédulité.
Je me considérerai moi même comme n’ayant point de mains, point
d’yeux, point de chair, point de sang, comme n’ayant aucuns sens,
mais croyant faussement avoir toutes ces choses. (DESCARTES,
René. Méditations (Première Méditation). In: DESCARTES, 1953,
p. 272.).
186 GEORGE PASCAL, 1990, p. 36.
Angela Gonçalves 105

a causa da existência de Descartes. Portanto, Gênio Maligno


é um artifício metodológico, e Deus Enganador é metafísico.
Contrariamente a Pascal, para Henri Gouhier, essas
duas hipóteses “Gênio Maligno e Deus Enganador“ têm
funções diferentes e distintas. Esse intérprete de Descartes
observa:

Uma leitura atenta da Primeira Meditação faz, no


entanto, aparecer sucessivamente e separadamente o
primeiro como uma hipótese metafísica e o segundo
sob a forma de um artifício metodológico. A
hipótese do Deus Enganador aparece no primeiro
tempo de operação crítica e, não se saberia repeti-lo
excessivamente; ela é uma extensão da alternativa
inquietante sobre a origem de meu ser: que o
princípio do qual eu tenho este ser, possui a
perfeição do poder, quer dizer, o todo-poderoso, ou
que ele não a possui, eu tenho alguma razão de
suspeitar das minhas faculdades de conhecer. O
artifício do Gênio Maligno intervém no segundo
tempo da prova crítica, para assegurar a persistência
da negação que tinha sido metodicamente emergida
do segundo tempo187.

Na opinião desse autor, "a questão da origem do meu


ser é de ordem metafísica; as hipóteses que ela desencadeia

187 “Une lecture attentive de la Première Méditation fait pourtant


apparaître sucessivement et séparément le premier dans une
hypothèse métaphysique et le second sous forme d’artifíce
méthodologique. L’hypothèse du Dieu trompeur apparaît au premier
temps de l’oppération critique et, on ne saurait trop le répéter, elle
n’est qu’une branche [...] L’artifice du malin génie [...], pour assurer la
persistance de la négation qui avait été méthodiquement déclenchée
au second tempis.” (GOUHIER, Henri. La pensée métaphysique
de Descartes. Paris: Vrim, 2000. p. 119.).
106 Verdade e método em René Descartes
são de ordem metafísica"188. O autor crê que Descartes, a
exemplo dos estoicos e epicuristas, absorveu a ideia de uma
implacável predestinação. Esse Deus criador suscita no
meditador uma suposição e um receio de ordem metafísica,
ao passo que o Gênio Maligno é um mito metodológico,
sendo obra de uma imaginação e de um mecanismo
experimental.
Henri Gouhier diz que o Deus Enganador é provado
por Descartes desse modo:

E por certo, já que eu não tenho nenhuma razão de


crer que tenha algum Deus que seja enganador, e
mesmo que eu não tenha ainda considerado aquelas
que provam que existe um Deus, a razão de duvidar
que depende somente desta opinião é bem frágil, por
assim dizer metafísica. Mas a fim de poder removê-
la inteiramente, eu devo examinar se existe um Deus
[...]189.

Descartes tem pressa em provar a existência de Deus


e ter uma ideia clara e distinta Dele para descobrir se Deus é
sua causa. A essência e a existência de Deus são
demonstradas para constatar que a ideia de Deus está ligada
a Descartes. Por outro lado, Gouhier diz que o autor do
Gênio Maligno é o meditador, por isso não tem nenhuma
pretensão para demonstrar a existência dessa entidade e cuja
essência não tem nenhum segredo para o filósofo. Além
disso, é uma criação superficial. Gouhier diz que: “em

188 “La question de l’origine de mon être est d’ordre métaphysique; les
[...] sont d’ordre metaphysique.” (GOUHIER, 2000, p. 119.).
189 “Et certes, puisque je n’ai aucune raison de croire qu’il y ait quelque
Dieu qui soit trompeur, et même que je n’aie pas encore considéré
celles qui prouvent qu’il y a un Dieu, la raison de douter qui dépend
seulement de cette opinion, est bien légère, et pour ainsi dire
métaphysique. Mais afin de pouvoir tout à fait ôter, je dois examiner
s’il y a un Dieu”. (DESCARTES, René.Méditations, Méditation
troisième. In: DESCARTES, 1953, p. 286.).
Angela Gonçalves 107

nenhum momento, o filósofo pensa em se perguntar se


algum ser real corresponde a esta ficção"190. Esse autor
entende que a hipótese do Gênio Maligno é apresentada por
Descartes para se desfazer das dificuldades, das persistências
dos hábitos mentais, das opiniões cômodas, das estruturas
infantis e escolares. A hipótese metafísica do Deus
Enganador é uma etapa do itinerário metafísico de provar a
existência de Deus.
Cottingham compartilha da mesma opinião de
Gouhier; a hipótese do Gênio Maligno é somente
metodológica, como diz: “[...] é um elemento artificial
introduzido para auxiliar o meditador a persistir na
suspensão de suas confortáveis crenças habituais”191.
Descartes apela radicalmente à dúvida metafísica,
utilizando-se da hipótese do Gênio Maligno, que é o oposto
do bom Deus, para se certificar, em última instância, de um
fundamento seguro para a busca da verdade, de tudo, ou seja,
das coisas sensíveis, a priori, e dele mesmo como sujeito
pensante. Põe em questão a faculdade de conhecimentos
verdadeiros da razão humana, colocando em cheque tudo
que for claro e evidente. Essa hipótese é a maior estratégia,
a mais absoluta e universal que ele possui ou se utiliza para
levar a dúvida ao seu limite. A hipótese do Gênio Maligno é
o fundamento primeiro e último para se chegar à verdade,
(nessa Primeira Meditação), pois engloba o conhecimento
universal, ou seja, o conhecimento de verdades já
estabelecidas (indubitáveis) como a matemática, as
dubitáveis como o conhecimento sensível e a falta de
conhecimento do próprio sujeito, a qual não é conhecida
ainda.

190 “[...] pas un instant le philosophe ne songe à se demander si quelque


être réel respond à cette fiction” (GOUHIER, 2000, p. 120-121.).
191 COTTINGHAM, 1995, p. 72.
108 Verdade e método em René Descartes
Ainda também, voltando mais uma vez ao encontro
de Gueroult, a importância da dúvida é:

O caráter voluntário e metódico desta ficção é


colocado sob evidência por sua dupla qualidade de
artifício resoluto e de um instrumento psicológico:
tornando possível uma operação da vontade que
deve se exercer em consequência do hábito e das
tentações do provável, ela é um instrumento
psicológico; figuração do princípio que ordena tratar
o duvidoso como falso, [...]192.

Mediante o hábito das crenças adquiridas e à


probabilidade das verdades, esse artifício trata da passagem
do duvidoso para o absolutamente falso. É uma hipótese
extrema com o objetivo de “contrabalançar a nossa
tendência de crer que nossas opiniões são verdadeiras”193.
Ainda Franklin Leopoldo Silva diz que o meditador tem que
“necessariamente se iludir quanto às representações
matemáticas, uma vez que ele não pode recusar como
verdadeiro o que aparece como claro e distinto”194. Já para
John Cottingham:

A introdução do demônio constitui um modo


irônico de realçar que, de um ponto de vista
subjetivo, não tenho garantias, aqui e agora, de que a
minha experiência presente seja mais do que uma
série de quimeras efêmeras e imateriais sem

192 Le caractère volontaire et méthodique de cette fiction est mis en relief


por sa double qualité d’artifice résolutoire et d’instrument
psychologique: rendant possible une óperation de la volonté qui doit
s’exercer à l’encontre des habitudes et des tentations du probable, elle
est instrument psycologique; figuration du príncipe qui ordonne de
traiter le douteux comme du faux, [...]. (GUEROULT, 1953, p. 39.).
193 GEORGE PASCAL, 1990, p. 36.
194 SILVA, 1994, p. 38.
Angela Gonçalves 109
fundamento algum em qualquer realidade estável e
duradoura195.

Cottingham observa muito bem, ao dizer que de um


ponto de vista subjetivo não tenho garantias, isto é, ainda
não se tem garantias se as minhas ideias têm validade
objetiva, se elas correspondem à realidade ou não.
A função do Deus Enganador também está ligada à
da prova da existência de Deus que será apresentada na
Meditação Terceira.
Segundo Enéias Forlin:

Se a hipótese do Deus Enganador é de fato uma


razão de duvidar da capacidade racional, então, para
derrubá-la, é preciso uma razão inversa: não uma
mera razão de acreditar, mas uma razão que impeça
de duvidar da capacidade racional. É claro, só há dois
momentos de eliminar a hipótese do Deus
Enganador: provando que Deus não existe ou, ao
contrário, que existe, mas que, como tal, não pode
ser enganador196.

Para esse autor, a hipótese do Deus Enganador tem


uma função metafísica, isto é, é preciso provar a existência
de Deus para eliminar a dúvida metódica. Em oposição ao
Deus enganador, é preciso provar um Deus veraz.
Visto isso, para Descartes, ao elevar a dúvida ao seu
limite último (o artifício do Gênio Maligno), não existe via
alguma do conhecimento que se mantenha. Nada resiste à
força imbatível da dúvida. A respeito, escreve Descartes nas
Meditações:

195 COTTINGHAM, 1986, p. 55-56.


196 FORLIN, 2005, p. 254-255.
110 Verdade e método em René Descartes
Eu suponho, portanto, que todas as coisas que eu
vejo são falsas; persuado-me de que nada jamais
existiu de tudo quanto minha memória repleta de
mentiras me representa; eu penso não possuir
nenhum sentido; creio que o corpo, a figura, a
extensão, o movimento e o lugar são apenas ficções
de meu espírito. O que poderá, pois, ser considerado
verdadeiro? Talvez nenhuma outra coisa senão que
nada há no mundo de certo197.

3.4 A COMPARAÇÃO DO TRATAMENTO DADO À


DÚVIDA METÓDICA

Até o presente momento, foram vistas as fontes de


opiniões como os sentidos, o argumento dos sonhos,
demonstração como fonte de erro dos raciocínios
matemáticos, e as estratégias de engano como o Gênio
Maligno e o Deus Enganador. Depreende-se que não se
pode confiar nos sentidos, nem nos raciocínios matemáticos
(no sujeito pensante) e em verdade alguma, pois o Gênio
Maligno impôs que não se acredite absolutamente em nada,
sendo assim, duvida-se de tudo e se suspende o juízo. O
autor apresenta um ceticismo radical, mas provisório e
necessário para se chegar à verdade: a suspensão do juízo.
A dúvida se apresenta da mesma forma no Discurso
do Método e nas Meditações Metafísicas?
No Discurso, ela “guarda um caráter científico
seletivo”198. Essa afirmação é sinal de que a obra cartesiana

197 “Je suppose donc que toutes les choses que je vois sont fausses; je
me persuade que rien n’a jamais été de toute ce que ma mémoire
remplie de mensonges me répresente; je pense n’avoir aucun sens; je
crois que le corps, la figure, l’étendue, le mouvement et le lieu ne sont
que des fictions de mon esprit. Qu’est-ce donc qui pourra être estimé
véritable? Peut-être rien autre chose, sinon qu’il n’y a rien au monde
de certain”. (DESCARTES, René. Méditations (Méditation
Seconde). In: DESCARTES, 1953, p. 274.).
198 ALQUIÉ, 1987, p. 67.
Angela Gonçalves 111

apresenta primordialmente preocupações científicas e expõe


o seu método. O que Descartes está procurando é um
critério de verdade com cunho científico.
E consoante Franklin Leopoldo Silva comenta:

Ao examinar o papel da dúvida no Discurso do Método,


não devemos esquecer que esse texto foi escrito para
ser um prefácio a ensaios científicos. [...] Nesse
sentido, o problema geral da realidade das coisas e
das ideias não ocupa o primeiro plano199.

Em contrapartida, nas Meditações, a dúvida tem um


caráter ontológico, pois segundo Luciano Marques de Jesus,
“A dúvida das Meditações, entretanto, coloca em xeque até a
própria existência das coisas, do mundo exterior”200. Na
mesma linha de pensamento, Franklin Leopoldo exterioriza
seu parecer:

Nas Meditações Metafísicas, é precisamente o problema


ontológico que está em jogo. Nelas não está sendo
visado nenhum problema particular de física ou
matemática, mas sim a existência da coisa em geral.
O problema ontológico assume assim o primeiro
plano201.

A dúvida dessa obra procura um ser, por isso


ontológica, e coloca em causa a existência de tudo, do
mundo (da coisa em geral).
No Discurso, especificamente na quarta parte,
Descartes apresenta a sua dúvida em relação aos sentidos,
aos raciocínios matemáticos, a ilusão dos sonhos e da vigília
de uma maneira superficial, sem demonstrar as suas causas.

199 SILVA, 1994, p. 34.


200 MARQUES DE JESUS, 1997, p. 35.
201 SILVA, 1994, p. 34.
112 Verdade e método em René Descartes
Segundo Alquié, "a dúvida no Discurso do Método é
colocada de uma maneira instantânea"202. Lê-se no Discurso:
“Mas, logo em seguida, adverte que, enquanto eu queria
assim pensar que tudo era falso eu cumpria
necessariamente[...]”203. O Discurso é uma narrativa e um
prefácio a ensaios científicos. Depreende-se, portanto, que a
preocupação é distinguir o verdadeiro do falso e não atingir
a causa, o fundamento das coisas. Pelas próprias
características da obra e o objetivo de Descartes, apresentar
seu método e procurar um critério científico, a dúvida não
dura, ela é rápida, não é aplicada metodicamente e
profundamente. A inferência, então, é a de que a dúvida não
quer atingir a causa da existência das coisas. O processo de
duvidar não dura por ser uma dúvida mais rápida, menos
reflexiva, imediatamente dá lugar à primeira certeza: o cogito.

3.5 A DIFERENÇA ENTRE O COGITO DO


DISCURSO DO MÉTODO E O COGITO DAS
MEDITAÇÕES METAFÍSICAS

O cogito aparece pela primeira vez no Discurso do


Método (1637) desta forma: "eu penso, logo eu existo",
primeiramente em francês, "je pense, donc je suis" conhecido
sob a forma latina Cogito, ergo sum. Constituindo o segundo
momento da metafísica (porque o primeiro é a dúvida), “eu
penso, logo eu existo” é a primeira evidência, a mais clara das
verdades como Descartes diz: “[...] julguei que eu poderia
tomar por regra geral que as coisas que concebemos muito

202 ALQUIÉ, 1969, p. 68.


203 “Mais, aussitôt après, je pris garde que, pendant que je voulais ainsi
penser que tout était faux, il fallait nécessairement
[...]”.(DESCARTES, René. Discours de la méthode: quatrième
partie. In: DESCARTES, 1953, p. 147).
Angela Gonçalves 113

claramente e muito distintamente são todas verdadeiras,


[...]”204.
Essa verdade corresponde à primeira regra do
método de Descartes como já foi dito no capítulo dois. É a
regra da evidência, somente admitir como verdadeiro aquilo
que for claro e distinto.
Ainda, no Discurso, o autor diz assim:

Mas, logo em seguida, adverti que enquanto eu


queria assim pensar que tudo era falso, era
necessariamente que eu, que pensava, fosse alguma
coisa. E, notando que esta verdade: eu penso, logo eu
existo, era tão firme e tão certa que todas as mais
extravagantes suposições dos céticos não seriam
capazes de comprometê-la, [...]205.

Merece destaque o fato de que essa primeira


evidência no Discurso aparece como uma intuição. O cogito
não demonstra de uma maneira profunda as causas da sua
existência nem da sua essência. Não se pergunta o que ele é
e porque existe. Simplesmente há uma constatação evidente
e verdadeira, pois é preciso pensar para existir. Está
intrinsecamente relacionado às características da obra -
prefácio para publicação de três obras científicas - obra
científica, método matemático.

204 “[...], je jugeai que je pouvais prendre pour règle générale, que les
choses que nous concevons fort clairement et fort distinctement sont
toutes vraies, [...]”. (DESCARTES, René. Discours de la méthode:
quatrième partie. In: DESCARTES, 1953, p. 148.).
205 “Mais aussitôt après, je pris garde que, pendant que je voulais ainsi
penser que tout était faux, il fallait nécessairement que moi, qui le
pensais, fusse quelque chose. Et remarquant que cette vérité: Je pense,
donc je suis, était si ferme et si assurée que toutes les plus extravagantes
suppositions des sceptiques n`étaient pas capables de l`ébranler [...]”.
(DESCARTES, René. Discours de la méthode: quatrième partie. In:
DESCARTES, 1953, p. 147-148.).
114 Verdade e método em René Descartes
Segundo Alquié, com a fórmula “eu penso, logo eu
existo”206, Descartes pretende simplesmente enunciar uma
realidade e fazer uma ligação necessária.
No Discurso, o cogito “eu penso, logo eu existo”207, “tem
uma evidência maior”208, ao passo que nas Meditações “eu sou,
eu existo” que ficou conhecido sob a forma latina ego cogito, ego
sum, o protagonista da história é o ser - o sujeito das ideias.
O ser das ideias sou eu próprio. No Discurso, o “eu penso, logo
eu existo", não tem uma conotação ontológica, porque ele não
se pergunta o que é uma coisa que pensa. Nas Meditações, ao
dizer que é uma coisa que duvida, existe aqui uma diferença
fundamental entre os dois cogitos: nas Meditações é a partir da
dúvida, uma das características da coisa que pensa (uma coisa
que duvida), é que nasce o cogito. Da própria dúvida nasce o
ser pensante. A dúvida é o próprio ato de pensar que dá
origem ao ser pensante do cogito. Ela é o pressuposto da
condição do ser pensante.
Afirma Lacroix:

[...] na dúvida mesma há uma afirmação inclusão,


afirmação sem a qual a dúvida não poderia existir e
que não se pode pôr em questão e da qual não é
possível tentar libertar-se sem com este mesmo ato
recolocá-la: a afirmação do pensamento [...] quanto
mais extremada se torna a dúvida, mais profunda se
torna a afirmação deste pensamento209.

No cogito do Discurso, a dúvida não aparece como


pressuposto do ser pensante. “Eu penso, logo eu existo”, de

206 ALQUIÉ, 1969, p. 74-75. A filosofia de


Descartes.2.ed.Lisboa:Presença,1969
207 “Je pense, donc je suis”. (DESCARTES, René. Discours de la méthode:
quatrième partie. In: DESCARTES, 1953, p. 147.).
208 ALQUIÉ, 1969, p. 82.
209 LACROIX, Jean. Marxismo, existencialismo, personalismo. Rio
de Janeiro: Paz e Terra, 1967. p. 102.
Angela Gonçalves 115

acordo com o próprio Descartes significa que é preciso


pensar para existir, já que ainda não tem consciência de si
próprio. Ferdinand Alquié merece ser chamado ao cenário
da reflexão pelo fato de contribuir com interessante
comentário: “O verdadeiro cogito do Discurso do Método é ainda
inconsciente de si próprio e, que por isso, se apresenta como
histórico. As suas diversas atitudes são sucessivamente
descritas numa espécie de revista temporal”210. Para Alquié,
o histórico significa que a unidade do Discurso é de uma
história, “a história do espírito de Descartes e até, em certo
sentido, a história do próprio Descartes [...]”211. Por isso, o
cogito se apresenta como histórico. Será nas Meditações que
Descartes irá fundamentar o cogito, ao apresentar a causa do
existir, que é o processo de pensar, como sugere a expressão:
“todas as vezes que eu a concebo em meu espírito”212. O
cogito então é a primeira verdade e evidência a que Descartes
chega. Ele chegou a essa verdade, começando pelo processo
da dúvida, refletindo e descobrindo o ato de pensar. O
processo de pensar começa através da dúvida de tudo, que
pelo próprio fato de duvidar, de persuadir-se de que nada
existia no mundo, que ele próprio existia, a saber:

Mas eu me persuadi de que nada existia no mundo,


que não havia nenhum céu, nenhuma terra, espíritos
alguns, nem corpos alguns; não me persuadi
também, portanto, de que eu não existia?
Certamente não, eu existia sem dúvida, se é que me
persuadi, ou, somente pensei alguma coisa213.

210 ALQUIÉ, 1969, p. 56.


211 ALQUIÉ, 1969, p. 56.
212 “[...], ou toutes les fois que je la conçois en mon esprit”.
(DESCARTES, René. Méditations (Méditation seconde). In:
DESCARTES, 1953, p. 275.).
213 “Mais je me suis persuadé qu’il n’y avait rien du tout dans le monde,
qu’il n’y avait aucun ciel, aucune terre, aucuns esprits, ni aucuns
116 Verdade e método em René Descartes

Aqui, “se eu me persuadi,” ou, apenas, “pensei


alguma coisa”, demonstra uma autonomia do meditador em
relação ao “eu pensante”, e mesmo a hipótese do Deus
Enganador não sobrepuja essa autonomia, como mostra
Descartes:

Mas há algum, não sei qual, enganador muito


poderoso e muito ardiloso que emprega toda a sua
indústria em enganar-me sempre. Não há, pois,
dúvida alguma de que sou, se ele me engana; e, que
ele me engane o quanto quiser, não poderá fazer
jamais com que eu nada seja, enquanto eu pensar ser
alguma coisa214.

Se eu admito que sou, enquanto eu pensar ser alguma


coisa, o Deus Enganador não fará com que Descartes nada
seja. Existe aqui a prioridade da aceitação e da percepção da
consciência do meu pensamento, ou seja, se existe alguém
que está me enganando, e eu estou tendo percepção e
consciência disso, eu sou alguma coisa.
Então, Descartes, após ter feito uma análise
minuciosa de todas as coisas supracitadas, chega a uma
conclusão:

De sorte que, após ter pensado bastante nisto e de


ter examinado cuidadosamente todas as coisas,

corps; ne me suis-je donc pas aussi persuadé que je n’étais point? Non
certes, j’étais sans doute, si je me suis persuadé, ou seulement si j’ai
pensé quelque chose”. (DESCARTES, René. Méditations
(Méditation seconde). In: DESCARTES, 1953, p. 275.).
214 “Mais il y a un je ne sais quel trompeur très puissant et très rusé, qui
emploie toute son industrie à me tromper toujours. Il n`y a donc
point de doute que je suis, s`il me trompe; et qu`il me trompe tant
qu`il voudra, il ne saurait jamais faire que je ne sois rien, tant que je
penserai être quelque chose”. (DESCARTES, René. Méditations
(Méditation seconde). In: DESCARTES, 1953, p. 275.).
Angela Gonçalves 117
enfim é necessário concluir e ter por constante que
esta proposição, eu sou, eu existo, é necessariamente
verdadeira, todas as vezes que a pronuncio ou que a
concebo em meu espírito215.

Ou seja, todas as vezes que a minha razão aceita algo


como verdadeiro ou que alguma coisa é e que tenho esta
consciência em mim, então é necessariamente verdadeira.
Pode-se inferir que a autonomia em Descartes está na
vontade, no livre arbítrio. O cogito é uma percepção
puramente intelectual e consciente. Eu existo porque penso
é tão evidente que o espírito humano não pode duvidar desse
fato. O cogito resiste à dúvida, por isso evidencia-se como a
primeira verdade universal. Ser e existir implicam-se
necessariamente, pois estou certo de existir porque tenho
certeza de pensar. A certeza que o pensamento tem de si
(consciência) não pode ser abalada. Essa certeza traz a
legitimação e ponto de partida para a indubitabilidade: a
razão. Ela é o pressuposto do conhecimento; a possibilidade
da verdade. Mesmo a hipótese do Gênio Maligno não pode
abalar esta certeza “eu existo, se ele me engana”. O cogito é a
primeira certeza segura para o conhecimento das demais
coisas. A percepção do meu “eu” é o pensamento em ato,
esta transparência é a regra fundamental do conhecimento,
porque a evidência e a clareza é o ato fundamental através da
intuição. O cogito é a aplicação do primeiro preceito do
método: só posso conhecer alguma coisa como verdadeira
se for clara e distinta a meu espírito e é uma intuição pura; é
o primeiro princípio da filosofia.

215 “De sorte qu`aprés y avoir bien pensé, et avoir soigneusement


examiné toutes choses, enfin il faut conclure, et tenir pour constant
que cette proposition: Je suis, j`existe, est nécessairement vraie, toutes
les fois que je la prononce, ou que je la conçois en mon esprit”.
(DESCARTES, René. Méditations (Méditation seconde). In:
DESCARTES, 1953, p. 275.).
118 Verdade e método em René Descartes
“Eu sou, eu existo”; ser aqui é o ser do nosso
pensamento, quer dizer que alcanço meu ser na medida em
que penso, porque quando o cogito aparece é através da
dúvida, do fato de pensar. Assim, o cogito parte do
pensamento e somente dele. A causa de esse ser é o
pensamento, o ser é o seu efeito.
O pensamento ou o fato de pensar é o que dá certeza
à existência. Ele fundamenta essa verdade clara e distinta em
seu espírito, em sua alma ou sua razão. Tendo como alicerce
a primeira verdade, que é o cogito, Descartes ainda não está
certo da existência do mundo exterior, mas está certo da sua
própria existência. Isso significa que a sua realidade não está
ligada à exterioridade. Ele é uma coisa consigo próprio. É
um res cogitans, res significa ser, substância. Então, Descartes
se descobre como eu-substância e o pensamento é o seu
atributo principal. Novamente convém ouvir Alquié: “É ao
ser desse eu, e não ao entendimento, que em Descartes
pertence o verdadeiro primado”216.
Mas o que é uma coisa que pensa? “Quer dizer uma
coisa que duvida, que concebe, que afirma, que nega, que
quer, que não quer, que imagina também e que sente"217. O
ser do pensamento é o próprio pensamento. Esses
questionamentos sobre a própria existência não existem no
Discurso, daí o caráter ontológico das Meditações.
Segundo Gueroult, o cogito é: "uma verdade certa para
a minha ciência", e ainda “o cogito toma de si mesmo a
certeza”218. O sujeito é o objeto posto em questão. Ou seja,
o cogito (através da razão) é o ponto de partida de que vão sair
os fundamentos para a sua ciência.

216 ALQUIÉ, 1969, p. 81.


217 "Qu'est-ce qu'une chose qui pense? C'est-à-dire une chose qui doute,
qui conçoit, qui affirme, qui nie, qui veut, qui ne veut pas, qui imagine
aussi, et qui sent. DESCARTES, René. Méditations (Méditation
seconde). In: DESCARTES, 1953, p. 278.).
218 “une verité certaine pour ma science” (GUEROULT, 1953, p. 57.).
Angela Gonçalves 119

Pode-se concluir que o cogito das Meditações tem uma


base metafísica, pois todo o conhecimento vai ter sua origem
e será fundamentado no sujeito, enquanto que o cogito do
Discurso tem um cunho científico, ou seja, como esta obra
explana o método e procura de um critério científico, o cogito
tem características científicas; não metafísicas.
Essa conclusão levanta o seguinte problema crucial
nas Meditações: Como se dão as representações sensíveis no
sujeito pensante de acordo com o método e que tenham
validade universal? Ou segundo Franklin Leopoldo e Silva:
“O que se trata de resolver não é apenas a questão do acordo
de certas representações de coisas sensíveis com as próprias
coisas, mas a da adequação das exigências internas da razão,
expressas no método, à realidade externa”219. A isso,
Descartes chama valor objetivo da representação, ou seja, o
conteúdo da ideia tem que ser universal e não ter validade
apenas para o sujeito e no sujeito.
Descartes está convicto de que ele pensa e, portanto,
existe. Percebe isso claramente e distintamente. Nas Regras,
a percepção clara e distinta basta para se ter uma certeza. Mas
fazendo uma análise mais aprofundada no início da Meditação
Terceira, escreve:

Mas, quando eu considerava alguma coisa de muito


simples e muito fácil no que concerne à Aritmética e
à Geometria, por exemplo, que dois e três juntos
produzem o número cinco e outras coisas
semelhantes, não as concebia eu pelo menos
bastante claramente para assegurar que eram
verdadeiras? Certamente se eu julguei depois que se
podia duvidar destas coisas, não foi por outra razão
senão porque me veio ao espírito que talvez algum
Deus tivesse podido me dar uma tal natureza que eu
me enganasse mesmo no concernente às coisas que

219 SILVA, 1994, p. 35.


120 Verdade e método em René Descartes
me parecem mais manifestas. Mas todas as vezes que
esta opinião acima concebida do soberano poder de
um Deus se apresenta a meu pensamento, eu sou
constrangido a confessar que lhe é fácil, se ele o
quiser, proceder de tal modo que eu me engane
mesmo nas coisas que acredito conhecer com uma
evidência muito grande220.

Aqui se defronta com um problema: o Deus


Enganador lhe dá razão para duvidar das verdades mais
simples e até mesmo quando ele as percebe com clareza e
distinção. Então a clareza e a distinção aqui não são
condições suficientes para a certeza. Outro problema a ser
levantado no “Eu sou, eu existo”, no que concerne à percepção
clara e distinta, é quando Descartes afirma a sua existência
assim:

Mas eu me persuadi de que nada existia no mundo,


que não havia nenhum céu, nenhuma terra, espíritos
alguns, nem corpos alguns; não me persuadi
também, portanto, de que eu não existia?
Certamente não, eu existia sem dúvida, se é que me
persuadi; ou, somente pensei alguma coisa. Mas há

220 “Mais lorsque je considérais quelque chose de fort simple et de fort


facile touchant l`arithmétique et la géométrie, par exemple que deux
et trois joints ensemble produisent le nombre de cinq, et autres
choses semblables, ne les concevais-je pas au moins assez clairement
pour assurer qu`elles étaient vraies? Certes si j`ai jugé depuis qu`on
pouvait douter de ces choses, ce n`a point été pour autre raison que
parce qu`il me venait en l’esprit, que peut-être quelque Dieu avait pu
me donner une telle nature, que je me trompasse même touchant les
choses qui me semblent les plus manifestes. Mais toutes les fois que
cette opinion ci-devant conçue de la souveraine puissance d`un Dieu
se présente à ma pensée, je suis contraint d`avouer qu`il lui est facile,
s`il le veut, de faire en sorte que je m`abuse, même dans les choses
que je crois connaître avec une évidence très grande”.
(DESCARTES, René. Méditations (Méditation troisième). In:
DESCARTES, 1953, p. 285.).
Angela Gonçalves 121
algum, não sei qual, enganador muito poderoso e
muito ardiloso que emprega toda a sua indústria em
enganar-me sempre.
Não há pois, dúvida alguma de que sou, se ele me
engana, não poderá jamais fazer com que eu nada
seja, enquanto eu pensar ser alguma coisa.
De sorte que, após ter pensado bastante nisto e de
ter examinado cuidadosamente todas as coisas,
enfim é necessário concluir e ter por constante que
esta proposição, eu sou, eu existo, é necessariamente
verdadeira, todas as vezes que a anuncio ou que a
concebo em meu espírito221.

Aqui, Descartes tem certeza da sua essência que é


pensar, mas não faz alusão alguma à percepção clara e
distinta. Ele está certo de que é pensamento e não tem razão
alguma para duvidar disso. A única razão seria a de um Deus
Enganador.
Na quarta parte do Discurso, ele diz que o cogito
constitui o primeiro princípio da filosofia. E ainda, na quarta
parte e na Meditação Terceira, defende que a prova última é
dada por Deus. Depois, em seguida, na quarta parte do
Discurso, diz:

221 “Mais je me suis persuadé qu`il n`y avait rien du tout dans le monde,
qu'il n'y avait aucun ciel, aucune terre, aucuns esprits, ni aucun corps;
ne me suis-je [...] ne me suis-je donc pas aussi persuadé que je n`étais
point? Non certes, j`étais sans doute, si je me suis persuadé, ou
seulement si j`ai pensé quelque chose. Mais il y a un je ne sais quel
trompeur très puissant et très rusé, qui emploie toute son industrie à
me tromper toujours. Il n`y a donc point de doute que je suis, s`il me
trompe; et qu`il me trompe tant qu`il voudra, il ne saurait jamais faire
que je ne sois rien, tant que je penserai être quelque chose. De sorte
qu`après y avoir bien pensé, et avoir soigneusement examiné toutes
choses, enfin il faut conclure, et tenir pour constant que cette
proposition: Je suis, j`existe,(isto é em itálico) est nécessairement
vraie, toutes les fois que je la prononce, ou que je la conçois en mon
esprit”. (DESCARTES, René. Méditations (Méditation seconde). In:
DESCARTES, 1953, p. 275.).
122 Verdade e método em René Descartes

Pois, primeiramente, aquilo mesmo que há pouco


tomei por uma regra, a saber, que as coisas que
concebemos muito claramente e muito
distintamente são todas verdadeiras, não é certo
senão porque Deus é ou existe, e é um ser perfeito,
e que tudo o que existe em nós nos vem dele222.

Agora a clareza e a distinção são dependentes de


Deus.
Seguindo os passos das Meditações, o preceito da
evidência tem como resultado o cogito.
Levanta-se aqui um problema no que concerne à
ordem metafísica do autor. Se a ordem é imprescindível para
Descartes, como se pode começar pelo cogito como primeira
evidência e certeza, se o Deus veraz aparece nas Meditações
depois do cogito, fundamentando o mesmo. Reside aí um
problema de ordem. Segundo Gueroult, ocorre uma:

Violação característica do princípio cardinal da


ordem << que consiste que somente as coisas que
são propostas primeiro, devem ser conhecidas sem a
ajuda das seguintes e que as seguintes devem depois
ser dispostas de tal maneira que elas sejam
demonstradas só pelas coisas que as precedem223.

222 “Car, premièrement, cela même que j`ai tantôt pris pour une règle, à
savoir, que les choses que nous concevons très clairement et très
distinctement sont toutes vraies, n`est assuré qu’à cause que Dieu est
ou existe, et qu`il est un être parfait, et que tout ce qui est en nous
vient de lui”. (DESCARTES, René. Discours de la méthode:
quatrième partie. In: DESCARTES, 1953, p. 151-152.).
223 “Violation caractéristique du principe cardinal de l’ordre <<qui
consiste en cela seulement que les choses qui sont proposées les
premières doivent être connues sans l`aide des suivantes et que les
suivantes doivent après être disposées de telle façon qu`elles soient
démontrées par les seules choses qui les précèdent” (GUEROULT,
1953, p. 238.).
Angela Gonçalves 123

Ainda segundo este autor, o cogito é uma verdade


subjetiva e que ele precisa de uma validade universal, ou seja,
Deus. O cogito está na ordem do conhecimento ou da ciência
e Deus está na ordem do ser; é a verdade absoluta. Deus é o
criador de todos os seres, portanto da coisa pensante.
Gueroult diz que o verdadeiro cogito224, "é o cogito ligado a
Deus". Mas porque então, o cogito é a primeira evidência para
Descartes? Gueroult diz:

Mas como ele precisava, para satisfazer a uma


exigência científica, se situar ao nível do senso
comum, cuja aparência das ideias sensíveis
escondiam a verdade racional da existência de Deus;
como ele precisava demonstrar contra ele esta
verdade em si evidente, deveria partir de uma
evidência capaz de se impor imediatamente a esta
consciência ateia, acordando provisoriamente com
esta aqui sobre o ateísmo, graças à hipótese do
Gênio Maligno. Porém o cogito, como consciência de
mim mesmo separado da consciência de Deus,
poderia sozinho a este nível se impor como
evidência primeira, já que ele é o único a poder ser
revelado como necessariamente envolvido dentro de
todos os julgamentos verdadeiros ou falsos da
consciência comum225.

224 “c`est le Cogito attaché à Dieu.” (GUEROULT, 1953, p. 244.).


225 "Mais comme il fallait, pour satisfaire à une exigence scientifique, se
situer au niveau du sens commun, auquel le voile des idées sensibles
cache la vérité rationnelle de l'existence de Dieu, comme il fallait
démontrer contre lui cette vérité en soi évidente, on devait partir
d'une évidence capable de s'imposer immédiatement à cette
conscience athée, en s'accordant provisoirement avec celle-ci sur
l'athéisme, grâce à l'hypothèse du Malin Génie. Or le Cogito,(cogito
é em itálico) comme conscience de moi même séparée de la
conscience de Dieu, pouvait seul à ce niveau s'imposer comme
évidence première, puisqu'il est le seul à pouvoir être révélé comme
124 Verdade e método em René Descartes

É conveniente continuar com a opinião de Gueroult


pela afirmação oportuna de que a imposição do cogito como
primeira verdade tem interesses fundamentados, isto é,
atingir o senso comum e os ateus utilizando-se da hipótese
do Gênio Maligno para atingir uma exigência científica
ocultando a verdade racional da existência de Deus.

3.6 AS DIFERENÇAS ENTRE AS PROVAS DA


EXISTÊNCIA DE DEUS

Como são apresentadas as provas da existência de


Deus no Discurso do Método e nas Meditações Metafísicas?
No Discurso, Descartes apresenta três provas: a
primeira é que Deus é o autor de sua ideia que está presente
no seu eu.

Em seguida, fazendo uma reflexão sobre aquilo que


eu duvidava, e que, por consequência, meu ser não
era totalmente perfeito, pois via claramente que o
conhecer é perfeição maior do que o duvidar,
deliberei procurar de onde aprendera a pensar em
algo mais perfeito do que eu era; e conheci,
evidentemente, que deveria ser de alguma natureza
que fosse de fato mais perfeita226.

nécessairement enveloppé dans tous les jugements vrais ou faux de


la conscience commune."(GUEROULT, 1953, p. 244.)
226 “En suite de quoi, faisant réflexion sur ce que je doutais, et que, par
conséquent, mon être n’était pas tout parfait, car je voyais clairement
que c’était une plus grande perfection de connaître que de douter, je
m’avisai de chercher d’où j’avais appris à penser à quelque chose de
plus parfait que je n’étais; et je connus évidemment que ce devait être
de quelque nature qui fût en effet plus parfaite”. (DESCARTES,
René. Discours de la méthode: quatrième partie. In: DESCARTES,
1953, p. 148.).
Angela Gonçalves 125

A segunda é que Deus é o criador do próprio eu. No


Discurso escreve:

[...] dado que conhecia algumas perfeições que não


possuía, eu não era o único ser que existia [...]; mas
que era necessário haver algum outro mais perfeito,
do qual eu dependesse, e de quem eu tivesse
recebido tudo o que possuía227.

E a terceira, o argumento a priori de que Deus é ou


existe comparando à demonstração da geometria:

[...] voltando a examinar a ideia que eu tinha de um


ser perfeito, eu achei certo que a existência estava aí
inclusa, da mesma maneira como na de um triângulo
está incluso serem seus três ângulos iguais a dois
retos [...]; e que por conseguinte, é pelo menos tão
certo que Deus, que é esse ser perfeito, é ou existe,
quanto se-lo-ia a qualquer demonstração de
geometria228.

Nas Meditações Metafísicas, Descartes apresenta três


argumentos para provar a existência de Deus também. Na

227 “[...], puisque je connaissais quelques perfections que je n’avais point,


je n’étais pas le seul être qui existât, [...]; mais qu’il fallait de nécessité
qu’ily en êut quelque autre plus parfait, duquel je dépendisse, et
duquel j’eusse acquis tout ce que j’avais”. (DESCARTES, René.
Discours de la méthode: quatrième partie. In: DESCARTES, 1953,
p. 149.).
228 “[...], revenant à examiner l’idée que j’avais d’un Être parfait, je
trouvais que l’existence y était comprise en même façon qu’il est
compris en celle d’un triangle que ses trois angles sont égaux à deux
droits, [...]; et que, par conséquent il est pour le moins aussi certain
que Dieu, qui est cet Être parfait, est ou existe, qu’aucune
démonstration de géométrie le saurait être”. (DESCARTES, René.
Discours de la méthode: quatrième partie. In: DESCARTES, 1953,
p. 150.).
126 Verdade e método em René Descartes
Meditação Terceira apresenta dois argumentos e na quinta, o
terceiro e último argumento.
Na primeira prova, Descartes é levado a se
questionar se existe algo além dele. Primeiro descobre que
ele é a causa de suas ideias e que é uma substância finita. Mas
e a ideia de Deus, que é uma substância infinita, da qual
provém e que está presente no seu eu? Escreve Descartes:

Pelo nome de Deus entendo uma substância infinita,


eterna, imutável, independente, onisciente,
onipotente, e pela qual eu mesmo e todas as outras
coisas que são (se é verdade que há coisas que
existem) foram criadas e produzidas229.

Deve ter sido causada por algo que seja formalmente


ou em ato uma substância infinita, isto é, Deus. Logo, Deus
deve existir para que Descartes tenha essa ideia de uma
substância infinita.
Na segunda prova cartesiana, Deus não é somente o
autor de sua ideia que está presente no eu, mas é o criador
do próprio eu. Descartes se pergunta se ele poderia existir
sem Deus. O autor afirma:

Ora, se eu fosse independente de todo outro ser, e


fosse eu mesmo o autor de meu ser, certamente não
duvidaria de coisa alguma, não facultaria desejos, e
enfim, não me faltaria nenhuma perfeição; pois eu
me teria dado todas aquelas de que tenho alguma
ideia, e assim seria Deus230.

229 “Par le nom de Dieu j’enteds une substance infinie, éternelle,


immuable, indépendante, toute connaissante, toute-puissante, et par
laquelle moi-même, et toutes les autres choses qui sont (s’il est vrai
qu’il y en ait qui existent) ont été créées et produites.”
(DESCARTES, René. Méditations (Méditation troisième). In:
DESCARTES, 1953, p. 294.).
230 “Or, si j’étais indépendant de toute autre, et que je fusse moi-même
l’auteur de mon être, certes je ne douterais d’aucune chose, je ne
Angela Gonçalves 127

Pergunta-se também de onde o eu tiraria a existência.


Dele mesmo, dos pais, ou de qualquer outra causa menos
perfeita que Deus. A possibilidade de ser ele mesmo a causa
de sua própria existência está descartada, pelo fato de ser
uma substância imperfeita e uma substância finita. A
segunda opção (seus pais) não poderia ser a causa de sua
existência, porque o princípio causal deixa evidente que uma
substância finita pode ser a causa de outras substâncias
finitas. Seus pais também são substâncias finitas pensantes
com uma ideia de Deus, portanto está descartada. Faz-se
necessário um ser que possa explicar tanto sua própria
existência quanto a das substâncias finitas pensantes que têm
a ideia de Deus. Esse ser, de acordo com o princípio causal,
deve ter formal ou eminentemente toda a realidade contida
numa substância finita pensante com uma ideia contendo a
realidade objetiva de Deus. Como Deus é uma substância
infinita, é também uma substância finita. Ele é tanto fonte
de sua própria existência quanto causa de uma substância
finita pensante com a ideia de uma substância infinita.
Na terceira prova, o eu tem a ideia de Deus (de um
ser perfeito) do mesmo modo que tem em si a ideia de
qualquer figura geométrica. Tudo o que se concebe clara e
distintamente é verdadeiro nessas ideias. Desse modo,
encontra-se na ideia que possui de Deus alguma
particularidade que concebe clara e distintamente, e essa
particularidade pertence à essência de Deus verdadeiramente
da mesma forma da essência de um triângulo.
Quais são as diferenças das provas da existência de
Deus no Discurso e nas Meditações? No Discurso, tem-se uma
reflexão consequente da “dúvida”, da qual tudo parte: Como

concevrais plus de désirs, et enfin il ne me manquerait aucune


perfection; car je me serais donné à moi-même toutes celles dont j’ai
en moi quelque idée, et ainsi je serais Dieu.” (DESCARTES, René.
Méditations (Méditation troisième). In: DESCARTES, 1953, p. 296.).
128 Verdade e método em René Descartes
duvidar é uma imperfeição, pois conhecer é perfeição maior,
não pode estar em seu ser essa perfeição. Tem que procurá-
la em outro ser. Imperfeição significa problemas: Como
posso chegar ao verdadeiro conhecimento se sou
imperfeito? E a verdade das minhas ideias (como ser
imperfeito)? Tenho que ligá-las a outro ser, além do meu?
Ele percebe que esta ideia de pensar em algo mais
perfeito não provém das coisas exteriores (céu, terra, luz, ou
qualquer outra), nem de si mesmo. Então, aplica o princípio
da causalidade:

De forma que restava apenas que tivesse sido posta


em mim por uma natureza que fosse
verdadeiramente mais perfeita do que a minha, e
mesmo que tivesse em si todas as perfeições de que
poderia ter alguma ideia, quer dizer, para explicar-me
numa palavra, que fosse Deus231.

Ainda nessa obra, Descartes demonstra a existência


inclusa na essência de Deus a priori, como as verdades
matemáticas de um modo esquemático. Então, no Discurso,
a existência de Deus parte de uma perfeição maior, que nele
(no meditador) não existe. A primeira prova da existência de
Deus inicia com base na dúvida, porque duvidar é uma
imperfeição.
Já nas Meditações, o ponto de partida é o cogito. Na
primeira prova das Meditações, Descartes começa fazendo
uma análise das suas ideias (um inventário das ideias),
fictícias, adventícias e inatas, ao passo que no Discurso (quarta
parte), não há uma análise das ideias. Na segunda prova das

231 “De façon qu’il restait qu’elle eût été mise en moi par une nature qui
fût véritablement plus parfaite que je n’étais, et même qui eût en soi
toutes les perfections dont je pouvais avoir quelque idée, c’est-à-dire,
pour m’expliquer en un mot, qui fût Dieu”. (DESCARTES, René.
Discours de la méthode: quatrième partie. In: DESCARTES, 1953,
p. 149.).
Angela Gonçalves 129

Meditações, existe uma pergunta existencial, isto é, no caso de


Deus não existir, de onde o eu tiraria a sua existência? É uma
pergunta metafísica, quer saber a causa do seu ser. Querer
saber a causa é diferente do que dizer que duvidar é uma
imperfeição. Na segunda prova do Discurso, diz que como era
imperfeito, deveria haver algum outro ser mais perfeito do
qual ele dependesse. Dessa forma, Descartes diz que Deus é
o criador do próprio eu. Aqui o autor não se pergunta sobre
a causa do seu ser. Na terceira prova do Discurso, somente
apresenta, em linhas gerais, o argumento a priori da
existência de Deus de uma maneira superficial, mais
instantânea, ao passo que nas Meditações, segundo Luciano
Marques de Jesus: “Esta prova não conclui a existência de
Deus a partir da existência do eu e da existência de uma ideia
no eu, mas a partir da própria essência de Deus”232. Pode-se
considerar verdadeiro tudo o que se concebe clara e
distintamente na ideia que se possui de Deus, portanto a
verdadeira essência. Da mesma forma, diz Descartes:

[...] da essência de um triângulo retilíneo não pode


ser desviculada a grandeza de seus três ângulos iguais
a dois retos ou, da ideia de uma montanha ‘a ideia de
um vale’ de sorte que não sinto menos repugnância
em conceber um Deus (quer dizer, um ser
soberanamente perfeito) ao qual falte existência (isto
é, ao qual falte alguma perfeição), do que em
conceber uma montanha que não tenha vale233.

232 MARQUES DE JESUS, 1997, p. 80.


233 “[...] de l’essence d’un triangle rectiligne la grandeur de ses trois angles
égaux à deux droits, ou bien de l’idée d’une montagne l’idée d’une
vallée; en sorte qu’il n’ya pas moins de répugnance de concevoir un
Dieu (c’est-à-dire un être souverainement parfait) auquel manque
l’existence (c’est-à-dire auquel manque quelque perfection), que de
concevoir une montagne qui n’ait point de vallée”. (DESCARTES,
René. Méditations (Méditation cinquième). In: DESCARTES, 1953,
p. 312.).
130 Verdade e método em René Descartes

Aqui, não se tem apenas um esboço dessa prova,


como no Discurso, mas uma prova mais profunda, extensa e
mais detalhada.
Ainda, os conceitos de finitude e infinitude não são
mencionados no Discurso, mas aparecem nas Meditações:

E, assim, é preciso necessariamente concluir, de tudo


o que foi dito antes, que Deus existe; pois, ainda que
a ideia da substância esteja em mim, pelo próprio
fato de ser eu uma substância, eu não teria, todavia,
a ideia de uma substância infinita, eu que sou um ser
finito, se ela não tivesse sido colocada em mim por
alguma substância que fosse verdadeiramente
infinita234.

O eu possui a noção do infinito antes da noção do


finito como afirma Descartes: “de Deus antes de mim
mesmo”235.
No Discurso, somente diz que seu ser não é
totalmente perfeito. O finito entra nas Meditações para
mostrar que o ser humano tem limites e imperfeições, que é
o efeito de uma causa maior, perfeita e infinita, que é Deus.

234 “Et par conséquent il faut nécessairement conclure de tout ce que j’ai
dit auparavant, que Dieu existe; car, encore que l’idée de la substance
soit en moi, de cela même que je suis une substance, je n’aurais pas
néanmoins l’idée d’une substance infinie, moi qui suis un être fini, si
elle n’avait été mise en moi par quelque substance qui fût
véritablement infinie”. (DESCARTES, René. Méditations
(Méditation troisième). In: DESCARTES, 1953, p. 294.).
235 “[...] de Dieu, que de moi-même”. (DESCARTES, René. Méditations
(Méditation troisième). In: DESCARTES, 1953, p. 294.).
Angela Gonçalves 131

A respeito afirma Gueroult:

A intuição atual, que permitiu de saber que eu sou,


me faz saber brevemente com não menos
necessidade o que eu sou, quer dizer, não somente
um eu pensante em geral, mas um eu pensante finito
em geral, não somente um pensamento tendo
consciência de sua existência, mas um pensamento
tendo também consciência da imperfeição do seu
ser, [...]236.

A verdade vai do conhecimento subjetivo (as ideias)


ao conhecimento objetivo, Deus, segundo Descartes.
Conclui-se, pelas próprias características das obras,
que o Discurso é uma obra científica, mostra o método e
procura um critério de verdade científico. As provas da
existência de Deus são abordadas de maneira mais rápida,
sucinta, instantânea. Já nas Meditações, pelo próprio escopo
do autor, a leitura permite constatar que é uma obra
metafísica, ontológica, pois procura a causa da existência,
procura os porquês das coisas, procura um ser,
demonstrando que as provas da existência de Deus não
poderiam ser de outra forma, senão profundas, extensas e
sistemáticas.
Após as provas da existência de Deus e as diferenças
vistas nas duas obras, pode-se questionar: se a primeira
verdade clara e distinta é o cogito, como Descartes afirma mais
adiante na Meditação Terceira:

236 "L’intuition actuelle, qui a permis de savoir que je suis, me fait savoir
bientôt avec non moins de nécessité quel je suis, c’est-à-dire non pas
seulement un moi pensant en général, mais un moi pensant fini en
général, non pas seulement une pensée ayant conscience de son
existence, mais une pensée ayant aussi conscience de l’imperfection
de son être, [...]" (GUEROULT, 1953, p. 228.).
132 Verdade e método em René Descartes
Mas, a fim de poder afastá-la inteiramente, eu devo
examinar se há um Deus, tão logo a ocasião se
apresente; e se eu achar que existe um, eu devo
também examinar se ele pode ser enganador pois,
sem o conhecimento dessas duas verdades, eu não
vejo como possa jamais estar certo de coisa
alguma237.

Como pode Descartes estar certo que o cogito é a


primeira verdade clara e distinta, se não descobriu ainda na
Meditação Terceira se existe um Deus e se é enganador? Sem
essa prova, ele não está certo de coisa alguma?
Então, o cogito é verdadeiro ou não como princípio?
É a primeira verdade? Será que Deus fundamenta o cogito?
Ou o cogito é que fundamenta Deus?
Começa-se pela Meditação Terceira, na qual se constata
que o autor deve examinar se há um Deus, e se ele achar que
existe um, deve também examinar se esse Deus pode ser
enganador, e diz: "pois, sem o conhecimento destas duas
verdades, não vejo como possa jamais estar certo de coisa
alguma"238. Isso ele diz na Meditação Terceira depois de já ter
afirmado, na Meditação Segunda, a primeira verdade, ou seja, o
cogito: "eu sou, eu existo". Então eu sou, eu existo antes de não
estar certo de coisa alguma está fora de ordem, e mais, não
confere ao cogito a primeira verdade clara e distinta. Por quê?
Na quarta parte do Discurso, diz que o cogito constitui
o primeiro princípio da filosofia; a segunda afirmação,

237 “Mais afin de la pouvoir tout à fait ôter, je dois examiner s’il y a un
Dieu, sitôt que l’occasion s’en présentera; et si je trouve qu’il y en ait
un, je dois aussi examiner s’il peut être trompeur: car sans la
connaissance des ces deux vérités, je ne vois pas que je puisse jamais
être certain d’aucune chose”. (DESCARTES, René. Méditations
(Méditation troisième). In: DESCARTES, 1953, p. 286.).
238 “[...] car sans la connaissanse de ces deux vérités, je ne vois pas que
je puisse jamais être certain d’aucune chose.” (DESCARTES, René.
Méditations (Méditation troisième). In: DESCARTES, 1953, p. 286.).
Angela Gonçalves 133

também na quarta parte do Discurso e na Meditação Terceira,


defende que a prova última é dada por Deus. Mas, mais
adiante, ainda na quarta parte do Discurso, ele parece tomar
uma atitude mais radical:

Pois, primeiramente, aquilo mesmo que há pouco eu


tomei como regra, a saber, que as coisas que nós
concebemos muito claramente e muito
distintamente são todas verdadeiras, não é certo
senão porque Deus é ou existe, e que ele é um ser
perfeito, e porque tudo o que existe em nós nos vem
dele239.

Então a clareza e distinção que antes eram atribuídas


ao cogito, são agora dependentes de Deus. Pode-se questionar
se o conhecimento vai do cogito a Deus ou de Deus ao cogito?
Ainda, o critério da ordem diz que: “As coisas que
são propostas primeiro devem ser conhecidas sem a ajuda
das seguintes, e que as seguintes devem ser dispostas de tal
maneira que sejam demonstradas só pelas que as
precedem”240. Mas, a primeira verdade clara e distinta é o
cogito (Meditação Segunda) conforme explica Descartes. Na
Meditação Terceira, o autor vai examinar se existe ou há um
Deus, e se ele é enganador, pois sem a constatação disso, ele
diz que não está certo de coisa alguma, inclusive, pressupõe-

239 “Car, premièrement, cela même que j’ai tantôt pris pour une règle, à
savoir, que les choses que nous concevons très clairement et très
distinctement sont toutes vraies, n’est assuré qu’à cause que Dieu est
ou existe, et qu’il est un être parfait, et que tout ce qui est en nous
vient de lui”. (DESCARTES, René. Discours de la méthode:
cinquième partie. In: DESCARTES, 1953, p. 151-152.).
240 “L’ordre [...], que les choses qui sont proposées les premières doivent
être connues sans l’aide des suivantes, et que les suivantes doivent
après être disposées de telle façon, qu’elles soient démontrées par les
seules choses qui les précèdent.”. (DESCARTES, René. Réponses de
L’auteur aux secondes objections: secondes réponses. In:
DESCARTES, 1953, p. 387.)
134 Verdade e método em René Descartes
se, do cogito. Todavia, com fundamento nessa verificação,
Deus existe e não é enganador (segundo o autor). Então, se
antes desse conhecimento, ele não pode estar certo de nada,
o cogito não é a primeira verdade clara e distinta. O cogito fica
desestabilizado sem a fundamentação de Deus. Deus é a
causa do cogito. Depois sim, das provas da existência de Deus
é que fica reestabelecida a certeza do cogito. Outro problema
também é que Descartes afirma a existência de Deus como
uma ideia clara e distinta e que Deus é que fundamenta essas
ideias. Então, quem fundamenta o quê? O cogito fundamenta
as ideias claras e distintas ou Deus? Segundo Gueroult, para
fazer jus a essa instabilidade do cogito, ele diz:

Produz-se, em consequência, uma oscilação entre o


fato e o direito, entre a certeza do fato que eu sou
quando eu penso e a dúvida absoluta que mantém de
direito a hipótese do Deus Enganador. Essa
oscilação deixa fraca e precária a certeza do cogito, que
cessa de aparecer como absoluta [...]241.

Concorda-se com esse autor, pois a certeza do cogito


só virá com as provas da existência de Deus, portanto o cogito
fica desestabilizado. Deus é quem fundamenta o cogito e as
idéias claras e distintas.

3.7 MORAL POR PROVISÃO

Ainda no Discurso, na terceira parte, ele apresenta a


Moral por Provisão. O pensador defende o seguinte ponto
de vista: para que o método possa ser posto em prática, é

241 “Il se produit, en conséquence, une oscillation entre le fait e le droit,


entre la certitude du fait que je suis quand je pense et le doute absolu
que maintient en droit l’hypothèse du Dieu trompeur. Cette
oscillation rend précaire et chancelante la certitude du Cogito, qui
cesse d’apparaître comme absolue” (GUEROULT, 1953, p. 155-
156.).
Angela Gonçalves 135

necessário outra casa temporária durante a construção da


ciência universal. É necessário “ter-se provido de outra
(casa) qualquer onde a gente possa alojar-se comodamente
durante o tempo em que nela se trabalhará”242.
Já nas Meditações, não existe uma “moral por
provisão”, porque Descartes já havia terminado a prescrição
de suas máximas morais, enquanto esperava a construção
dos fundamentos das ciências.

242 “[...] s’être pourvu de quelque autre où l’on puisse être logé
commodément pendant le temps qu’on y travaillera; [...]”.
(DESCARTES, René. Discours de la méthode: troisième partie. In:
DESCARTES, 1953, p. 140.).
4
CONSIDERAÇÕES
FINAIS

O impulso que levou Descartes a fundamentar as


ciências, em meio a transformações científicas,
instabilidades, crises religiosas foi a falta de um critério de
verdade. O autor vai buscar o que é primordial para se ter
esse critério. A importância e a urgência em apresentar um
método foi primacial.
O método é o primeiro fundamento para a busca da
verdade. Ele guiará a razão quando forem encontradas não
apenas complexidades e, dificuldades, mas também quando
se deparar com obscuridades e com o que não for claro e
distinto. O método há de ser, enfim, a luz que mostrará o
caminho certo para a razão chegar às verdades claras e
distintas.
Quanto aos preceitos do método, todos são
importantes, mas segundo o autor, o preceito da análise é o
Angela Gonçalves 137

que constrói o saber verdadeiro. Ele é chamado “a arte de


resolver problemas”. É o método por excelência da
reconstrução do saber verdadeiro (do efeito para a causa).
Conclui-se que a epistemologia cartesiana tem por objetivo
chegar à causa, ao simples e o método analítico é o que
possibilita atingir esse objetivo.
A clareza e a distinção compõem a evidência, isto é,
tudo que for claro e distinto é evidente. É a regra de verdade.
Só se tem evidência através da intuição e dedução, as duas
vias para se chegar à ciência verdadeira.
Apresentou-se a Moral por Provisão, etapa
necessária enquanto se dá estrutura aos fundamentos da
ciência. Essa moral faz parte do método do autor, pois não
se pode permanecer indeciso, irresoluto durante a
construção dos fundamentos das ciências. É necessário
prescrever máximas para conduzir a vida moral.
Conforme o autor, no processo de criar novos
fundamentos para as ciências, utiliza a dúvida metódica,
processo reflexivo fundamental e catártico para se chegar à
verdade. Catártico no sentido de libertar o espírito de
crenças e opiniões incrustadas do passado, prepara a alma
para desligar-se dos sentidos e, ao mesmo tempo, abre o
caminho para se chegar à primeira verdade: o cogito.
Portanto a dúvida metódica é o fundamento do cogito, a
primeira verdade clara e distinta. Com o argumento do
Gênio Maligno e Deus Enganador, coloca em dúvida as
verdades matemáticas, estas baseadas na intuição intelectual,
conhecimento este que não pode ser contestado, pois é um
conhecimento claro e distinto. Através desses argumentos,
Descartes põe em dúvida a intuição intelectual. A dúvida
vem para contestar, criticar o julgamento que abarcava a
conformidade entre as ideias e as coisas que elas
representam. Esse modo de pensar é um ato de crença, e não
uma verdade incontestável, clara e distinta.
O estudo crítico-comparativo é o cerne do trabalho.
Ficou claro que o Discurso do Método é uma obra científica,
138 Verdade e método em René Descartes
uma narrativa autobiográfica em que Descartes mostra seu
método e procura um critério científico, enquanto que as
Meditações Metafísicas têm um caráter ontológico, onde se
coloca em xeque toda a existência e as ideias. Colocar em
xeque o mundo sensível significa duvidar da existência dos
objetos, ao passo que duvidar das ideias expressa a sua
dubitalidade quanto à correspondência delas em relação aos
objetos, isto é, se realmente correspondem àquilo que é
percebido pelos sentidos.
Na comparação entre as obras, foram analisadas
primeiro as fontes das opiniões. No exame minucioso destas,
Descartes começa pelo conhecimento mais imediato e
natural, os sentidos. Usando a dúvida metódica, o autor
descobre que estes não são confiáveis como princípios ou
fundamentos. Conclui-se que eles estão subordinados ao
entendimento, único juízo capaz de saber a verdade.
Quanto ao cogito do Discurso, percebe-se que ele é uma
evidência lógica e não se pergunta pela sua natureza ou causa,
ao passo que, nas Meditações, o cogito tem uma natureza
metafísica, se pergunta pela sua causa.
Constata-se que o autor deixa em aberto algumas
questões como a fundamentação do cogito, que é uma ideia
clara e distinta. Descartes não deixa claro quem fundamenta
o cogito. É o chamado círculo vicioso. Consequentemente,
deixa obscura a sua ordem metafísica: dúvida –cogito – Deus.
Descartes, na Meditação Segunda, apresenta o cogito como a
primeira verdade e a primeira ideia clara e distinta. Todavia,
é na Meditação Terceira que Descartes vai provar que existe um
Deus e não é enganador. Sem o conhecimento dessas duas
verdades, não há nada que garanta as verdades claras e
distintas. Portanto, o cogito como a primeira ideia clara e
distinta, a primeira verdade indubitável a que Descartes
chega, é inconsciente de si mesmo, isto é, não sabe ainda que
é uma coisa pensante porque depende do conhecimento de
Deus.
Angela Gonçalves 139

Ao longo das Meditações, na terceira acima supracitada


e na quinta, o autor diz que toda a ciência depende do
conhecimento do verdadeiro Deus e que sem o
conhecimento do soberano Ser, não saberia perfeitamente
de nenhuma outra coisa. Constata-se que Descartes sempre
precisa da garantia do Deus Veraz para objetivar o
conhecimento. Qual é então o estatuto do cogito? O cogito
enquanto não for fundamentado por Deus, não tem
estabilidade como a primeira verdade clara e distinta, até
porque, seguindo o pensamento do autor, para fundamentar
as ciências é preciso ter por falso o que é apenas duvidoso,
portanto o cogito enquanto não for fundamentado por Deus
é falso. Só adquire a indubitabilidade, a clareza, a distinção e
a verdade após as provas da existência de Deus.
Um outro ponto dessa contradição do autor ocorre
no preceito da ordem.De acordo com esse preceito, o cogito
é o primeiro elemento proposto da ordem e deve ser
conhecido sem a ajuda do termo subsequente que é Deus.
Logo, existe um paradoxo nessa ordem.
Conclui-se, também, em relação ao cogito, que, na
verdade, o que Descartes quer é mostrar a independência da
razão, quer tirá-la da tutela teológica medieval. O homem,
através de um método guiado pela razão, é capaz de chegar
à verdade sim. Mesmo assim, diretamente o cogito está ligado
a Deus.
O Gênio Maligno e o Deus Enganador aparecem
somente nas Meditações, mas com funções diferentes, sendo
o Gênio Maligno um artifício metodológico e o Deus
Enganador um artifício metafísico, pois Descartes quer
provar a existência de Deus. Conclui-se que o Gênio
Maligno exerce uma função crítica também às ciências e um
reforço para garantir a expurgação das crenças e opiniões
arraigadas fundamentadas nos sentidos.
Nas provas da existência de Deus, concluiu-se que,
no Discurso, essas provas partem da imperfeição do homem,
porque duvidar é imperfeição maior que conhecer. Elas
140 Verdade e método em René Descartes
emergem da dúvida. Já nas Meditações, partem da análise das
ideias.
No Discurso, as ideias não possuem um papel
relevante. O que é essencial é a conformidade entre a
percepção sensível e os objetos, se são verdadeiros ou falsos,
preocupação tipicamente científica. Nas Meditações, a
preocupação é: será que as ideias correspondem à realidade?
Ou, as ideias representam realmente os objetos?
Descartes teve mérito ao enaltecer a razão,
mostrando que é possível se chegar à verdade sendo guiada
por um método. Colaborou com a modernidade através de
sua sistematização do saber.
Ao acreditar que se poderia chegar a um verdadeiro
conhecimento, Descartes elaborou um critério de verdade: a
evidência. E mais, a verdade só poderia estar ligada ao
método: instrumento imprescindível para a
operacionalização da razão.
Acredita-se que, ainda hoje, Descartes é um
paradigma para os filósofos contemporâneos, ao mostrar
como é possível conhecer as realidades exteriores, indicando
um critério de verdade: a evidência.
Descartes tem por objetivo refutar o Ceticismo de
Montaigne e Erasmo, cuja inspiração é de Sexto Empírico.
Mas a fórmula como ele realiza isso implica uma separação
entre o subjetivo e o objetivo, o que cria o problema de saber
como as minhas ideias se relacionam com aquilo que elas
representam, ou seja, com as coisas em si. Isso é um possível
tema para uma pesquisa futura.
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