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Revista Mantiqueira

O documento apresenta o Projeto Construção Participativa do Corredor Ecológico da Mantiqueira, que visa integrar esforços para a conservação ambiental e o desenvolvimento sustentável na região. Com o apoio do Subprograma Projetos Demonstrativos do Ministério do Meio Ambiente, o projeto envolve a participação de agricultores, técnicos e organizações para promover a gestão participativa e a proteção da biodiversidade. A publicação destaca os avanços e ações desenvolvidas ao longo do projeto, enfatizando a importância da Serra da Mantiqueira na conservação da Mata Atlântica.

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Revista Mantiqueira

O documento apresenta o Projeto Construção Participativa do Corredor Ecológico da Mantiqueira, que visa integrar esforços para a conservação ambiental e o desenvolvimento sustentável na região. Com o apoio do Subprograma Projetos Demonstrativos do Ministério do Meio Ambiente, o projeto envolve a participação de agricultores, técnicos e organizações para promover a gestão participativa e a proteção da biodiversidade. A publicação destaca os avanços e ações desenvolvidas ao longo do projeto, enfatizando a importância da Serra da Mantiqueira na conservação da Mata Atlântica.

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realização

conservar construção participativa


vale a pena do Corredor Ecológico
Pagamento por serviços ambientais da Mantiqueira
financiamento beneficiam produtores rurais Integrando esforços em prol
da conservação ambiental

entrevista Unidades de
José Carlos Carvalho &
Lino Matheus Pereira
Conservação
Exemplos de avanços na
apoio
gestão participativa

artigo proprietários de
Os desafios da reservas privadas
gestão participativa
Conservadores da Mantiqueira

porque você é louco


pela Mantiqueira?
APR E S E N TAÇÃO

apresentação
O Ministério do Meio Ambiente – MMA, por buscando gerar subsídios para a construção participativo de planejamento que visa
meio do Programa Piloto para a Proteção e o aperfeiçoamento de políticas públicas. A aliar conservação dos recursos naturais
das Florestas Tropicais do Brasil, implementa parceria entre agricultores, técnicos, pesqui- com a melhoria da qualidade de vida das
desde 1995 o Subprograma Projetos Demons- sadores e órgãos governamentais e não-go- pessoas, o projeto contribui fortemente
trativos – PDA, atualmente na Secretaria de vernamentais tem se mostrado um caminho para superar barreiras já anacrônicas.
Extrativismo e Desenvolvimento Rural Susten- fundamental para se alcançar estes objetivos. Com a atual publicação a Valor Natural
tável. São objetivos do programa promover O Projeto Construção Participativa do e parceiros atingem o objetivo de dissemi-
aprendizagens, incentivar a experimentação Corredor Ecológico da Mantiqueira, execu- nar os conhecimentos gerados ao longo
de tecnologias sustentáveis e o fortalecimento tado com apoio financeiro do PDA pela da execução do projeto apoiado pelo PDA
da organização social por meio de ações que equipe da Valor Natural, em parceria com expondo os resultados para um público mais
conciliem a conservação dos recursos naturais prefeituras, órgãos ambientais e organi- amplo. Tais resultados são concretos e com
com o desenvolvimento econômico e social. zações não-governamentais, cumpre um grande potencial de extrapolar os limites
Até hoje já foram apoiadas aproximadamente importante papel ao promover a articulação regionais colocando o projeto e o Corredor
400 iniciativas na Amazônia e na Mata Atlân- regional, o planejamento e a implementa- Ecológico da Mantiqueira na vanguarda
tica, as quais resultaram em vasto acúmulo ção de um corredor ecológico em região de iniciativas semelhantes no Brasil.
de conhecimentos sobre diversas estratégias de grande importância na Mata Atlântica.
de manejo e planejamento territorial, sempre Envolvendo 42 municípios em um processo Equipe Técnica PDA

Broto de araucária, símbolo da Mantiqueira, Viveiro da Oscip Amanhágua. Foto: Gisela Herrmann

MANTI Q U E IR A E M R E VIS TA 1
A P R E S E N TAÇ ÃO

mensagem da Valor Natural

Fotos: Gisela Herrmann

Ao completar cinco anos de vida a Valor continuadas com o apoio do Subprograma A avaliação final do projeto Constru-
Natural quer comemorar com vocês, amigos Projetos Demonstrativos - PDA, parte do ção Participativa do Corredor Ecológico da
da Mantiqueira, publicando a Mantiqueira em Programa Piloto para a Proteção das Florestas Mantiqueira identificou mais de 148 propostas
Revista. Com essa publicação pretendemos Tropicais do Brasil, do Ministério do Meio expressas no Plano de Ação que estão sendo
mostrar os avanços alcançados através de Ambiente, através do projeto Construção Par- desenvolvidas pelas diversas instituições
projetos desenvolvidos por nós e por muitas ticipativa do Corredor Ecológico da Mantiqueira, governamentais e não governamentais
outras instituições que trabalham nessa rica iniciado em 2006 e encerrado em 2009. que atuam na região. Apresentamos aqui
região. A importância da Serra da Mantiqueira Com o apoio desses dois fundos, pude- algumas dessas iniciativas. Longe de esgotar
foi reconhecida há muito tempo, quando em mos construir, com a participação de mais o universo de ações para a conservação da
1998 foram definidas as áreas prioritárias para de 120 pessoas da região, o Plano de Ação Serra da Mantiqueira, as experiências aqui
a conservação da biodiversidade de Minas do Corredor Ecológico da Mantiqueira, que apresentadas pretendem aguçar o interesse
Gerais. Desde então, as biólogas fundado- é uma agenda com as prioridades para a de novos atores para participar desse esforço
ras da Valor Natural se preocuparam em conservação da região. As palavras-chave conjunto. Esperamos que você se emocione
desenvolver ações para proteger essa região, deste processo foram o planejamento e com as trajetórias de conservacionistas Loucos
que concentra 20% dos remanescentes da a mobilização social. A partir de cinco pela Mantiqueira como Lino Mateus, proprie-
Mata Atlântica mineira. Foi nesse contexto grandes diretrizes foram sugeridas ações tários de reservas privadas, produtores rurais,
que em 2002 surgiu a proposta de forma- a serem desenvolvidas por todos interes- ambientalistas e funcionários de unidades de
ção do Corredor Ecológico da Mantiqueira. sados na proteção da Mantiqueira. Soma- conservação da “Serra que Chora”. Essas tra-
Com 42 municípios, distribuídos pelos das, foram 207 ações para as diretrizes: jetórias, assim como os resultados do projeto
altos da serra, a proposta do Corredor Ecoló- 1) incentivo ao uso sustentado da terra; Construção Participativa do Corredor Ecológico
gico da Mantiqueira era criar uma identidade 2) políticas públicas e icentivos à conservação; da Mantiqueira que aproveitamos para divul-
regional para conectar áreas, instituições e 3) fortalecimento e ampliação das unidades de gar aqui, mostram que a conservação da Man-
pessoas de forma a garantir a proteção e o conservação; tiqueira está em muitos rostos e corações. Leia
uso sustentável da região. Com o apoio do 4) comunicação, informação, mobilização e edu- e reflita sobre suas razões para amar e prote-
CEPF (Fundo de Parceria para Ecossistemas cação ambiental; ger essa linda região. No final, somos todos,
Críticos) começamos a colocar a idéia em prá- 5) incentivo à pesquisa e conhecimento da mesmo, Loucos pela Mantiqueira. Boa leitura.
tica em 2004. As ações então iniciadas foram biodiversidade.

A Valor Natural é uma ONG ambientalista criada em 2004 por um grupo de Expediente:
biólogas. Nosso compromisso de conservar a biodiversidade brasileira come- Mantiqueira em Revista - Julho de 2009
çou a sair do papel na região da Mantiqueira onde estamos concentrando os Publicação da Valor Natural sobre o Construção Participativa do Corredor
esforços de nossa equipe para promover a integração regional em prol da Ecológico da Mantiqueira
conservação. Para saber mais visite o nosso site: www.valornatural.org.br Coordenação: Gisela Herrmann
Supervisão: Cláudia Costa
Esta publicação apresenta os resultados do projeto Construção Participa- Comunicação: Paula Costa
tiva do Corredor Ecológico da Mantiqueira, apoiado pelo Subprograma Apuração, textos e edição: Paula Costa
Projetos Demonstrativos (PDA) – parte do Programa Piloto para Proteção Projeto gráfico: Adaequatio Estúdio de Criação
das Florestas Tropicais do Brasil, (PPG7) do Ministério do Meio Ambiente. Foto capa: Nemo Simas
Valor Natural - Rua Acaraú, 205 / 03 - 30.380-020 - Belo Horizonte - Brasil Tiragem: 800 exemplares

2 MAN T I Q U E I R A E M R E V I STA
CORREDOR ECOLÓGICO DA MAN TIQ U E IR A

Corredor Ecológico da Mantiqueira


Uma nova forma de trabalhar a
conservação em grande escala
Foto: Gisela Herrmann

Um dos grandes consensos no universo diferentes formas de conciliar a produção


da conservação é que a fragmentação dos econômica com a conservação da natureza o que é um
ambientes naturais e a perda de habitats são Segundo o Ministério do Meio Ambien- corredor ecológico ?
as maiores ameaças à biodiversidade. Com te (MMA) existem mais de 25 experiências De uma maneira geral, um corredor
a crescente modificação do uso do solo, de corredores ecológicos sendo desen- ecológico pode ser definido como um
os ambientes naturais disponíveis para as volvidas no Brasil. O Corredor Ecológico da espaço em que a conectividade entre
espécies nativas estão se tornado cada dia Mantiqueira é uma delas, idealizada pela espécies, ecossistemas e processos
mais isolados e sujeitos a maiores impactos Valor Natural e implantada com o apoio ecológicos é mantida ou restaurada.
negativos. Criar um corredor ecológico de instituições públicas e privadas regio- Os corredores ecológicos, também
significa criar condições para restaurar ou nais e locais. “Cada corredor está hoje em conhecidos como corredores de biodi-
versidade são áreas extensas, de grande
ampliar a conectividade entre esses tre- um estágio de implantação, mas os mais
importância biológica, composta por
chos isolados de vegetação remanescente. avançados são o Corredor do Amapá, o
um conjunto de áreas protegidas, en-
Estas ligações, ou corredores, podem ser Central da Mata Atlântica e o Corredor
tremeadas por áreas com diferentes
florestas ou áreas exploradas de maneira Ecológico da Mantiqueira”, garante Luiz Paulo
tipos de uso da terra, manejadas de
compatível com a conservação da fauna e de Souza Pinto, diretor Sênior para a Mata forma adequada para garantir a sobre-
flora. Intervir numa grande área para ampliar Atlântica da Conservação Internacional (CI). vivência de todas as espécies, a ma-
a conectividade é um grande desafio que Para Souza Pinto as instâncias de nutenção dos processos ecológicos e
exige articulação e planejamento, conci- participação propiciadas pelos corredores o desenvolvimento de uma economia
liando os vários interesses, muitas vezes permitem que os conflitos sejam discu- regional forte, baseada no uso susten-
conflitantes. Em um corredor ecológico são tidos de forma técnica, transparente e tável dos recursos naturais
discutidas e planejadas com a sociedade visando um objetivo comum. “O modelo

Iniciativas de gestão <Double-click here to enter title>


territorial na Mantiqueira
MG
1) Corredor Ecológico da Mantiqueira
Limite do corredor

2) Mosaico Mantiqueira
Unidades de conservação
APA Fernão Dias

APA Sapucaí Mirim

APA Serra da Mantiqueira

APA Serrinha do Alambari

APA São Francisco Xavier

APA de Campos do Jordão


RJ
FLONA Passa Quatro

FLONA de Lorena

PE Mananciais de Campos do Jordão

PE da Serra do Papagaio

PE de Campos do Jordão
SP
PM da Cachoeira da Fumaça
MG
PM da Serrinha do Alambari

Parque Nacional do Itatiaia


RJ
RPPN Alto Gamarra SP

RPPN Ave Lavrinha

RPPN Mitra do Bispo 0 20 40 80 Km


PR Limite do Corredor Ecológico da Serra do Mar

Localização do Corredor Ecológico da Mantiqueira

MANTI Q U E IR A E M R E VIS TA 3
CO R R E D O R E CO LÓ G I CO DA MA NT I Q U EI R A

de planejamento regional ‘corredor eco- mais amigáveis para a conservação”, afirma. região baseada na realidade local”, conta
lógico’ propicia um fórum integrado para Esse planejamento regional em larga Gisela Herrmann, diretora da Valor Natural.
discutirmos as melhorias no uso da terra e escala proposto pelos corredores é um Maria Cecília Wey de Brito acredita que o
a conservação da biodiversidade”, conclui. grande desafio. Experiências como a do corredor ecológico é um dos caminhos para a
Para Maria Cecília Wey de Brito, Secreta- Corredor Ecológico da Mantiqueira permitem conservação e o desenvolvimento sustentável
ria de Biodiversidade e Floresta do MMA “os a construção de metodologias que poderão e que as experiências em curso devem ser
arranjos territoriais existentes hoje – sítios, ser amplamente utilizadas. Os trabalhos na cada vez mais difundidas. “Qualquer arranjo
reservas da biosfera, corredores ecológicos, região começaram com um diagnóstico dos existente que garanta que o nível local se
mosaicos – propõem uma nova forma de ges- municípios, identificando os atores estraté- organize e participe das decisões será bem
tão. Cada instrumento tem sua forma de atu- gicos e a capacidade instalada para gestão vindo. Precisamos também de comunicar
ação e benefício. “O que é mais interessante é ambiental. Paralelamente foram mapeados os resultados obtidos, construir estudos
que estes arranjos propõem também a gestão os remanescentes florestais e as unidades que mostrem os benefícios desta forma de
de áreas que estão fora das unidades de con- de conservação. “As informações obtidas desenvolvimento com mais clareza”, conclui.
servação e de suas zonas de amortecimento, foram importantes para subsidiar as discus-
com tentativas de atividades de uso do solo sões e propor uma agenda comum para a

A paisagem da Mantiqueira emociona pela beleza cênica. Foto: Gisela Herrmann

Uma região que Pesquisas científicas mostram a


merece ser protegida importância da Mantiqueira

Diferente de outras regiões do estado, o Gerais, com 20% dos remanescentes da Concentra um grande número de espécies
processo de ocupação da Mantiqueira foi Mata Atlântica do estado e é nela que estão raras, ameaçadas e endêmicas – que só ocor-
lento: o relevo muito acidentado, a mata nascentes e afluentes de parte dos rios que rem lá – especialmente de plantas e anfíbios.
atlântica exuberante, a fauna que lá vivia e os alimentam o Sistema Cantareira, responsável No entanto, na maior parte do Corredor
temidos índios botocudos eram desafios para pelo abastecimento de água de grande parte Ecológico da Mantiqueira não há pesquisas
poucos. Até mesmo hoje as serras da região, da população da Região Metropolitana de suficientes para conhecer a biodiversidade da
com altitudes médias entre 1200 e 2800 São Paulo. Essa riqueza hídrica deu à região região. Os locais mais estudados até hoje são
metros são um convite à superação física. o bucólico apelido de ‘serra que chora’. o Parque Nacional de Itatiaia (em sua porção
Estes fatores fizeram da Mantiqueira Em termos de biodiversidade a Mata carioca) e o Parque Estadual do Ibitipoca. “Ha-
uma das regiões mais preservadas de Minas Atlântica da Mantiqueira impressiona. via a necessidade de avaliar a biodiversidade e

4 MAN T I Q U E I R A E M R E V I STA
CORREDOR ECOLÓGICO DA MAN TIQ U E IR A

Quinto bioma mais ameaçado do mundo,


a Mata Atlântica cobria 100 milhões de
hectares ao longo da costa brasileira com
algumas penetrações para o interior. Hoje está
reduzida a 8% da sua cobertura original.

as unidades de paisagem da Mantiqueira para


priorizar as ações de conservação na região”,
conta Gisela Herrmann, diretora da Valor Na-
tural e autora da tese de doutorado “Manejo
de paisagem em grande escala: estudo de
caso no Corredor Ecológico da Mantiqueira”
pela Universidade Federal de Minas Gerais.
O estudo de Herrmann mostra como apli-
car o conhecimento científico na conservação
da biodiversidade de uma região. O primeiro
passo foi mapear os remanescentes florestais
do Corredor e analisar os dados obtidos em
relação a outros exercícios de mapeamento
que já haviam sido feitos. A partir da defini-
ção da base de mapeamento, os fragmen- Pesquisadoras durante trabalho de campo no Parque Estadual da Serra do Papagaio. Foto: Paula Costa

tos foram analisados em forma, tamanho, O resultado da tese de Herrmann é um representando o maior complexo protegido
proximidade de outros fragmentos, dentre documento prático que mostra onde, como e de todo o Corredor”, conta Gisela Herrmann.
outras variáveis, para identificar porções mais quando concentrar os esforços de conserva- Luiz Paulo de Souza Pinto, diretor Sênior para
conservadas ou isoladas. O Corredor Ecológico ção na área do Corredor Ecológico da Man- a Mata Atlântica da Conservação Internacional
da Mantiqueira foi então dividido em microba- tiqueira. “Este exercício de seleção de áreas completa que a Serra Negra é uma região
cias para planejamento das ações de manejo. e ações prioritárias para conservação pode muito heterogênea, que apresenta diferentes
“Selecionei no conjunto de microbacias quais influir nos processos de tomada de decisão tipologias da mata atlântica. “Vale lembrar que
deveriam ser destinadas à proteção da biodi- sobre investimentos ambientais. E sabemos o nível de proteção oficial na mata atlân-
versidade, ou à formação de micro-corredores que a área ambiental não pode desperdiçar tica ainda é extremamente baixo e muitas
ou ainda à recuperação dos remanescentes”, os poucos recursos disponíveis”, argumenta. áreas nunca foram estudadas. Então preci-
conta Herrmann. Dentro de cada grupo de samos conhecer áreas relevantes”, declara.
manejo as áreas foram então priorizadas,
através de critérios de importância biológica, Inventários biológicos Os dados conseguidos até o momento
por todos estes esforços e por iniciativas
complementaridade e vulnerabilidade.
na região do Corredor de instituições parceiras reforçam a impor-
tância da conservação da biodiversidade
Os estudos biológicos da Valor Natural na na Mantiqueira. Na região da Serra Negra
A redução e a fragmentação de hábi- Mantiqueira foram intensificados em 2007 pesquisadores da Universidade Federal de Juiz
com a elaboração do Plano de Manejo do de Fora (UFJF) identificaram recentemente
tat disponível para as espécies são as
Parque Estadual do Ibitipoca. Em 2008 foram quatro espécies novas de plantas sendo uma
principais ameaças à biodiversidade.
realizados estudos para o Plano de Manejo do orquídea, uma bromélia e duas espécies da
Com a modificação do uso do solo, os
Parque Estadual da Serra do Papagaio e a exe- família Myrtaceae. Além disso, duas espécies
ambientes naturais disponíveis para as cução do projeto “Geração de Conhecimento anteriormente consideradas endêmicas do
espécies ficam menores a cada dia e a sobre a Biodiversidade em Áreas Estratégicas Parque Estadual do Ibitipoca foram regis-
maior parte delas encontra-se isolada. do Corredor Ecológico da Mantiqueira”. Neste tradas na Serra Negra, o bambu Chusquea
Além de estarem sujeitos a um maior segundo projeto, realizado em parceria com riosaltensis (Poaceae) e a Bromeliaceae Vriesea
número de impactos (ventos, fogo, a Conservação Internacional, foram inven- cacuminis. A equipe de botânica também
tariadas as regiões do Parque Estadual da encontrou na região seis espécies que nunca
invasão por espécies exóticas, etc), os
Serra do Papagaio e a região do município haviam sido registradas em Minas Gerais.
ambientes fragmentados também limi-
de Rio Preto, conhecida como Serra Negra. Em 2006, pesquisadores da Valor Natural
tam o deslocamento de indivíduos de
Essas áreas foram escolhidas pela exis- registraram pela primeira vez na Serra Negra
muitas espécies e as interações entre as tência de grandes fragmentos de floresta a vocalização do mono-carvoeiro, conhecido
diferentes populações. O resultado é a e pela presença de importantes formações também como muriqui, primata ameaçado
extinção de espécies. vegetais. “Além disso, o Parque Estadual de extinção nas listas nacional e estadual.
da Serra do Papagaio forma uma conexão E em 2008 outros primatas foram registra-
importante com o Parque Nacional de Itatiaia, dos, como três grupos de bugios (Alouatta

MANTI Q U E IR A E M R E VIS TA 5
CO R R E D O R E CO LÓ G I CO DA MA NT I Q U EI R A

Equipe de Botânica nos trabalhos do Plano de Manejo do Parque Estadual da Serra do Papagaio. Foto: Pedro Vianna

guariba clamitans), vários grupos de guigós popularmente como “flamenguinho” (Mela- (Leopardus colocolo), antes conhecido apenas
(Callicebus nigrifrons), macacos-prego (Cebus nophryniscus moreirae) que por muitos anos na região oeste do Estado de Minas Gerais.
nigritus) e micos-estrela (Callithrix penicilla- foi considerado um dos endemismos mais “Estes estudos mostram a importância
ta) demonstrando a importância da Serra notáveis do Parque Nacional do Itatiaia. A de regularizar as terras e implantar de fato o
Negra para a fauna de primatas da região. equipe de pesquisadores ainda registrou uma Parque Estadual da Serra do Papagaio e apre-
No entanto, em 2008, os pesquisadores da espécie de rã conhecida apenas na região sentam uma nova área com potencial para a
Valor Natural não detectaram a presença de de Campos do Jordão e Poços de Caldas e a criação de uma nova unidade de conservação:
mono-carvoeiros na Serra Negra. Isso pode perereca Hypsiboas stenocephalus, considera- a Serra Negra”, afirma Herrmann. “É necessário
significar que o processo de fragmentação da endêmica da região de Poços de Caldas e consolidar as unidades de conservação exis-
somado à intensa pressão de caça, pode ter ameaçada de extinção. A equipe de Botânica tentes e ampliar a rede de áreas protegidas da
depreciado estas populações, obrigadas a encontrou no Serra do Papagaio a Lepechinia Mantiqueira, principalmente com formações
sobreviver em densidades extremamente speciosa que havia sido vista no estado de vegetacionais ainda pouco representa-
baixas e de difícil localização no campo. Minas Gerais apenas pelo naturalista Saint das dentro dos parques atuais”, conclui.
Na região do Parque Estadual da Serra do Hilaire no início do século XIX. E a equipe
Papagaio foi encontrado o sapo conhecido de mamíferos registrou o gato-palheiro

Hypsiboas stenocephalus. Foto: Júlia Santos Lepechinia speciosa fotografada no Parque Estadual Onça parda registrada por armadilha fotográfica
da Serra do Papagaio. Foto: Pedro Vianna no Parque Estadual de Ibitipoca.

6 MAN T I Q U E I R A E M R E V I STA
CORREDOR ECOLÓGICO DA MAN TIQ U E IR A

Planejamento participativo do entorno. Para que essa matriz1 contribua


com a proteção da biodiversidade, é necessário
que aí vivem. “A informação e educação ambien-
tal são ferramentas importantes para ampliar a
e organização do território que ela seja manejada de forma sustentável, participação de todos e, por isso, essas foram
entremeando áreas de uso sustentável com áreas estratégias fundamentais do projeto Construção
de preservação. Manter a reserva legal ou áreas Participativa”, garante Gisela Herrmann, diretora
Entenda como foi sombreadas para o gado nas pastagens, por da Valor Natural e coordenadora do projeto.
implantado o Corredor
exemplo, pode ajudar a restaurar a conectividade
Ecológico da Mantiqueira
entre os fragmentos de florestas e as áreas
protegidas.
Para a formação dos corredores ecológicos as Além de fortalecer as áreas protegidas e ma- 1 Chamamos de matriz o principal tipo

áreas protegidas, ou Unidades de conservação nejar adequadamente as áreas de uso, para que a de uso do solo em uma região, que pode
(UCs), são estratégicas, atuando como núcleos região se transforme em um corredor ecológico ser composta por pastagem, agricultura,
de onde partem as ações de conservação e é preciso o envolvimento e cooperação entre as floresta, etc.
mobilização, influindo na matriz da paisagem instituições que atuam na região e as pessoas

Estratégias da Construção Participativa do


Corredor Ecológico da Mantiqueira
Criação e fortalecimento de
Comunicação
unidades de conservação
e educação ambiental
públicas e privadas

LINHAS ESTRATÉGIAS PARA


Planejamento de IMPLANTAÇÃO DO Capacitação
ações prioritárias
CORREDOR ECOLÓGICO

Apoio a negócios econô- Identificação de mecanismos


mico e ambientalmente fiscais e financeiros
sustentáveis para conservação

O desenho definido para o Corredor Ecológi- planejamento regional. As reuniões para pla- região, mostrando de forma bem objetiva
co da Mantiqueira tem mais de 11 mil quilômetros nejamento participativo contaram com mais quais esforços deveriam ser priorizados para
quadrados. São serras, rios, mata atlântica, cam- de 120 pessoas. Foram levantados os princi- melhoria da qualidade de vida e da conser-
pos e biodiversidade exuberantes que convivem pais problemas ambientais da região da Man- vação ambiental na Mantiqueira”.. “Uma longa
com a rica cultura de pessoas simples e acolhe- tiqueira. A partir deles foram propostas linhas caminhada só se inicia quando queremos e
doras, e cidades muito charmosas. de ação e atividades para solucioná-los. O re- damos o primeiro passo e este nos fizemos.
Os pontos chave da implantação do Cor- sultado deste processo virou o Plano de Ação O resultado virá com a persistência e com o
redor foram o planejamento participativo e a do Corredor Ecológico da Mantiqueira, uma tempo” afirmou José Alexandre Ribeiro da
criação de uma identidade regional. A partir agenda comum de ações articuladas em prol Secretaria de Meio Ambiente de Piranguçu
dos diagnósticos e da articulação interinsti- do desenvolvimento sustentável. Segundo durante o planejamento participativo.
tucional na primeira etapa de implantação Gisela Herrmann “o Plano de Ação, construído As diretrizes do Plano de Ação têm dire-
do Corredor, os atores sociais da região foram com as lideranças e instituições locais, reflete cionado programas de conservação na região
convidados a construir uma proposta de as principais demandas socioambientais da assim como as ações da Valor Natural. A partir

MANTI Q U E IR A E M R E VIS TA 7
CO R R E D O R E CO LÓ G I CO DA MA NT I Q U EI R A

Participantes do encontro final para o planejamento participativo do Corredor Ecológico da Mantiqueira. Foto: Nemo Simas

destas diretrizes foi idealizado o projeto elaboração de cartilha de educação am- Mantiqueira. Um ponto ressaltado pelos
Construção Participativa do Corredor Ecológico biental para as escolas do Corredor e muitos participantes foi a coerência do Plano de
da Mantiqueira. Capacitação dos gestores outros produtos vieram deste projeto. Ação com a realidade regional. “Cada vez que
municipais de meio ambiente e de conselhei- consulto o Plano de Ação me impressiono
ros das unidades de conservação; discussões com o trabalho feito pelos participantes do
sobre instrumentos de conservação como
reserva legal e planejamento da pecuária
Onde chegamos planejamento: é um documento que de fato
reflete a realidade da região”, conta Cláudia
de forma a minimizar impactos ambientais; No final de 2008 parceiros estratégicos do Costa, diretora da Valor Natural. Não é a toa
treinamento de instituições do terceiro setor Corredor estiveram em Passa Quatro para que das 207 ações consideradas prioritárias
para elaboração de projetos; mobilização e avaliar os resultados do projeto Constru- para desenvolver a região da Mantiqueira em
sensibilização através de linguagem teatral; ção Participativa do Corredor Ecológico da bases sustentáveis, 148 estão sendo executa-
das pela Valor Natural ou por outras institui-
Distribuição de calendário-pesquisa para conhecer a realidade local – base da cartilha de Educação Ambiental do Corredor
Ecológico da Mantiqueira. Foto: Isabel Pinto ções públicas e privadas da região, segundo
dados do sistema de monitoria do projeto.
O gestor do Circuito Turístico Terras
Altas da Mantiqueira, Kleber Rocha, concor-
da e acrescenta que o Plano de Ação é um
instrumento importante para aqueles que
trabalham com a questão ambiental na Manti-
queira. “O melhor de tudo é que apenas dois
meses após o planejamento já tínhamos este
documento em mãos”, ressalta. Um dos desa-
fios, no entanto, tem sido ampliar o alcance
desse planejamento, fazendo com que mais
instituições e pessoas se apropriem do docu-
mento. “É importante que as ações ambientais
e de desenvolvimento social na Mantiqueira
sejam articuladas buscando uma maior
sinergia nas ações”, ressalta Cláudia Costa.
Ela ressalta ainda a importância das pessoas
entenderem que a Valor Natural foi um cata-
lisador desse planejamento, mas o resultado

8 MAN T I Q U E I R A E M R E V I STA
CORREDOR ECOLÓGICO DA MAN TIQ U E IR A

bastante para conhecer uma forma de aliar a


pecuária à conservação ambiental. A Fazenda
Santana, sua propriedade em Bocaina de
Minas, é um piloto do projeto Construção
Participativa do Corredor Ecológico da Man-
tiqueira , que está aplicando a metodologia
divulgada na Cartilha Rural nos 42 municípios
através de instituições parcerias como a
Emater/MG. Técnicas como rodízio e diversifi-
cação de pastagens, manutenção de árvores
para fornecimento de sombra e formação
de pequenos corredores, e implantação de
sistema de cochos para água e sal para os
animais estão sendo implantadas na Fazenda
Santana para diminuir os impactos da pecuá-
ria extensiva e ampliar a produtividade leiteira.
A pecuária para produção de leite e
derivados é uma das principais atividades
econômicas na Mantiqueira. No entanto, os
sistemas de produção tradicionais até hoje
empregados trazem baixa produtividade
Reunião preparatória para o planejamento participativo. Foto: Paula Costa
e rendimentos aos produtores. “A pecuária
construído é de todos, bem como a responsa- parcerias foram fundamentais para que o extensiva, realizada em áreas de relevo e
bilidade de tirar as ações propostas do papel. Corredor saísse do papel”, avalia Herrmann. “As solos inadequados, além de pouco produtiva,
O secretário técnico do PDA Luiz Rodri- iniciativas de planejamento da propriedade atua como indutora do desmatamento e de
gues de Oliveira considera que o projeto rural e o pagamento por serviços ambientais, incêndios florestais”, afirma Gisela Herrmann
Construção Participativa do Corredor Ecoló- articuladas através da Valor Natural, mostram diretora da Valor Natural. “É essencial desen-
gico da Mantiqueira foi bem sucedido e que que é possível encontrar formas de utilizar os volver um trabalho com os produtores rurais
um dos principais frutos foi a articulação recursos naturais de forma responsável e pro- para buscar alternativas tecnológicas para
conseguida com um grande número de teger a mata atlântica na Mantiqueira”, conclui. melhorar a pecuária na região”, completa. A
prefeituras e órgãos públicos. “Iniciativas Além dessas experiências, calendários parceria com a Aprosa – Associação de Produ-
como esta demonstram a importância das ambientais, desenvolvimento de pesqui- tores Rurais de Santo Antônio do Rio Grande
parcerias entre instituições governamen- sas científicas, capacitações, incentivo ao e Paiol – Prefeitura de Bocaina de Minas e
tais, não governamentais e da iniciativa planejamento regional e desenho de novas
Emater, iniciou esse trabalho e rendeu uma
privada, ampliando as responsabilidades, políticas públicas foram realizações importan-
cartilha e duas oportunidades de capacita-
mas também a capacidade institucional das tes que renovam o cenário da conservação
ção dos produtores de Bocaina de Minas.
organizações da sociedade civil”, avalia. na Mantiqueira e coloca a região no mapa
Participante deste processo seu José Dias
O projeto encerra com a participação de nacional como um local de produção de
acredita que até o final de 2009 terá todo o
512 pessoas durante sua execução. Segundo conhecimento sobre formas de garantir a
sistema de planejamento da produção em
os dados do sistema de monitoramento sustentabilidade das futuras gerações.
sua fazenda implantado. O sistema é bem
do Construção Participativa, as instituições
simples, mas depende de alguns recursos
municipais mantiveram um alto grau de
participação durante todo o processo,
seguidas pelas unidades de conservação e
Planejamento financeiros. “Uma boa estratégia para ajudar
a viabilizar financeiramente a melhoria da

escolas. “Esses resultados refletem a filosofia


de implantação do Corredor da Mantiqueira
conservacionista da produção e ao mesmo tempo incentivar
os pequenos proprietários a recuperar as

que é exatamente a formação de redes com


forte participação dos atores locais para
propriedade rural áreas desmatadas é associar o planejamen-
to conservacionista da propriedade rural
ao programa de pagamentos por serviços
que as comunidades sejam diretamente
ambientais” avalia Gisela Herrmann.
beneficiadas”, conta Gisela Herrmann.
Os produtores de leite da Na Fazenda Santana estão sendo insta-
O Corredor Ecológico da Mantiqueira se
Mantiqueira começam lados bebedouros, para que o gado ande
diferencia de outras propostas de implanta-
a tornar o Corredor menos para beber água, além de proteger
ção de corredores ecológicos no Brasil por
uma realidade os cursos d’água do pisoteio. Isso poderá
ter o seu foco na construção de uma rede
contribuir de forma imediata para o aumento
de atores locais aptos a implantar as ações
da produção de leite. “Na criação extensiva o
prioritárias. “Acredito que o desenvolvimento Um dedinho de prosa com seu José Dias,
gado anda muito para beber água e, às vezes,
de iniciativas piloto e a articulação de novas acompanhado de café e biscoitos, é o

MANTI Q U E IR A E M R E VIS TA 9
ww

CORREDOR ECOLÓGICO
E N T R E V I S TA DAMAT
CO M LI NO MANTIQUEIRA
HEU S DE SÁ PER EI R A

com áreas de mata de propriedades vizinhas.


Para Nilo Jardim o processo de capacita-
ção dos produtores em planejamento conser-
vacionista trouxe bons frutos. “Percebo que as
pessoas têm utilizado a cerca elétrica como
instrumento de manejo”, avalia. “Mas falar em
planejamento da propriedade envolve muitos
assuntos e procuramos abordar um pouqui-
nho de cada coisa, mas claro que algumas
informações ficam de fora” reconhece. “Para
preencher estas lacunas seria interessante
que os produtores rurais se organizassem
mais para buscar informações sobre o assunto
e o apoio técnico necessário”, conclui.
Seu José Dias também espera que os
produtores rurais de Bocaina consigam
melhores condições de venda do leite da
região e acha que a Aprosa é o caminho para
que isso aconteça. Criada em 2002, a Aprosa
vem fazendo a sua parte e acaba de criar
uma loja para vender os insumos para os
produtores a preços mais baixos. O processo
de capacitação dos produtores no plane-
José Dias durante a oficina de planejamento da propriedade rural. Foto: Nilo Jardim jamento conservacionista da propriedade
uniu novamente os produtores que estavam
nem volta para o pasto para continuar se ali- aumenta a disponibilidade de alimento para
desanimados com o associativismo. Como
mentando”, conta José Dias. Com a implanta- os animais, evitando o desmatamento para
resultado do processo, as reuniões da Aprosa
ção dos bebedouros é possível que o gado se a abertura de novas pastagens”, conta o zoo-
também ficaram mais objetivas. “Antes nos
alimente melhor e beba mais água, dois fato- tecnista Nilo Jardim, consultor do projeto e
reuníamos, mas não tínhamos muito que
res que contribuem muito para o aumento da também produtor rural de Bocaina de Minas.
conversar. A oficina de capacitação promovida
produção do leite. Pelo lado da conservação, O sistema coordenado por Jardim também
pela Valor Natural reativou a associação por-
o cercamento e os bebedouros impedem que prevê que o gado se alimente em pastos que
que estabeleceu os objetivos comuns”, conta
o gado solto entre nas matas de galeria cau- estavam subutilizados, o cercamento elétrico
Nilo Jardim, também membro da Aprosa.
sando degradação. “Na Mantiqueira é muito em áreas de mata e nascentes, e a revege-
comum encontrar bovinos dentro das flores- tação em curva de nível, trazendo sombras 
tas, causando a morte das plantas do sub bos- para os animais e estabelecendo conexão
que, além de afetar as aves que
fazem seus ninhos no chão. Além
disso, as sementes de espécies A Fazenda Santana planejada. Foto: Nilo Jardim.

de capim exóticas presentes nas


fezes contaminam a floresta com
dispersão de espécies invasoras”
argumenta Gisela Herrmann.
Na Fazenda Santana as
áreas de pastagem estão sendo
cercadas formando pequenos
pastos que serão manejados em
sistema de rodízio. Enquanto o
gado consome o alimento de
um local, os outros pastos vão
regenerando naturalmente. Ao
mesmo tempo, enquanto está
em um pasto, os animais deposi-
tam urina e esterco adubando a
terra. “Essa forma de adubação é
um processo mais lento, mas cria
vida no solo e, ao longo dos anos,

10 MAN T I Q U E I R A E M R E V I STA
ww

ENTRE VISTA COM LINO MATH E U S D E S Á PE R E IR A

um ambientalista
por natureza
Lino Matheus de Sá Pereira: pioneirismo
na defesa pela Mantiqueira.
Foto: Gisela Herrmann

Uma manhã de conversa com Lino Matheus A Fazenda Boa Vista está entre os ma- que recebeu o nome de Dossiê Mantiqueira.
de Sá Pereira é uma aula de história do ciços montanhosos do Parque Nacional do Quando representantes de ONGs inter-
movimento ambientalista na Mantiqueira. Per- Itatiaia e da Pedra Selada, com caminhos nacionais chegaram ao Rio de Janeiro para a
sonalidade conhecida na região, chegou na e trilhas incrustadas na exuberante mata Eco 92, Matheus os convidou a visitar Santo
Mantiqueira nos an os 70, época do surgimen- atlântica e belas cachoeiras do rio Prata. Antônio do Rio Grande e plantar o Bosque das
to dos movimentos comunitários alternativos Hoje, nesta terra, Lino Matheus mantém Nações, com mudas de árvores nativas da mata
em todo o mundo. Eram grupos de jovens um Centro de Vivências Rurais, uma char- atlântica. Hoje esta vegetação está exuberante.
que buscavam viver de forma fraterna em mosa pousada e um acervo de mais de 10 “A Mantiqueira foi aparecendo nacionalmente
comunhão com a natureza. Lino Matheus co- mil documentos, 5 mil livros e história que pelo embate ecológico” relata. Muito desta
mungava destas idéias, mas seu temperamen- enche os olhos de qualquer visitante. projeção deve-se às batalhas travadas por
to político o levaria um pouco mais adiante. Ainda nos anos 70 fundou a Aprobo (As- Lino Matheus nesta terra. Impossível relatar
Nascido no Rio de Janeiro em 31 de sociação dos Protetores da Natureza dos Vales toda uma vida dedicada à conservação.
dezembro de 1943, Lino Matheus afirma da Bocaina) e começou a denunciar o des- A paixão pela terra que escolheu para
que nunca foi muito ligado ao “espetáculo matamento da Mantiqueira por serrarias clan- viver fica evidente em cada fala, cada gesto
urbano”. Desde a década de 60 frequentava destinas. “Tinha acabado de chegar e bati de e cada revelação da postura ideológica deste
a parte paulista da Bocaina. “Desde então frente com aqueles que dominavam econo- autodidata carioca. “Acredito que se você
nenhum lugar foi suficientemente empol- micamente e politicamente os municípios. A quer transformar, ou melhorar a vida de uma
gante”, conta. Começou então a procurar reação foi ameaçadora”, lembra. As denúncias comunidade, você se coloca, se posiciona”.
uma terra e foi conhecer a região de Itatiaia ganharam repercussão na imprensa nacional Lino Matheus é uma daquelas pessoas
e Maringá. Acabou por comprar sua pro- e Lino chegou a pedir a sua mulher e filho que acredita em suas convicções, defende
priedade no distrito de Mirantão quando que saíssem da região temendo represália. com fervor a Mantiqueira e conquistou o
passeava pelas cachoeiras do Vale do Prata e Matheus também idealizou uma respeito de todos na região. Sua trajetória
conheceu Seu João Mendes, um dos grandes iniciativa inovadora para sensibilizar veícu- de vida foi homenageada durante os 20
amigos e parceiros na luta em defesa da anos da APA Serra da Mantiqueira. “Você
los de imprensa, formadores de opinião e
tem que ser uma referência detestada às
natureza da Mantiqueira, falecido em 1989. pesquisadores voluntários sobre a riqueza
vezes porque os confrontos são naturais. Mas
Foi nesta terra que, no início dos anos da região da Mantiqueira: a Jegue Trophy.
uma hora a comunidade passa a te identi-
80, Matheus abrigou o IV Enca (Encontro de Os participantes percorriam em jegues 200
ficar como uma pessoa da terra” acredita.
Comunidades Rurais Alternativas). Eram cerca quilômetros em 14 dias. Neste percurso
O envolvimento com a Serra que Chora é
de 500 pessoas se expressando com as mais podiam observar de perto a biodiversida-
tão grande que ele pretende doar a sua terra
diversas visões, uma batalha da juventude. “A de, conversar com as comunidades sobre
para implantar seu maior sonho: a Fundação
região ficou ligada aos malucões por causa preservação ambiental e observar os locais
Mantiqueira. É um centro de pesquisas e
deste movimento”, afirma. O movimento mais alterados por caça, queimadas e extração
difusão de conhecimentos multidisciplinares
ambientalista na Mantiqueira começou assim, clandestina de madeira. Em 1988 o grupo
com o objetivo de promover práticas conserva-
fundindo o movimento comunitário com o documentou a abertura de 6 estradas irregu-
cionistas. “Estou buscando pessoas, entidades
movimento ecológico dentro de uma lógica lares para escoar a produção das serrarias.
e organismos internacionais dispostos a aceitar
muito própria da juventude da época, que Ainda em 1988 foi um dos articuladores e
este desafio de transformar a Fazenda Boa
se revoltava com o sistema capitalista e com o primeiro dirigente da Fedapam – Frente de
Vista em uma referência no desenvolvimento
a ditadura militar. “O planejamento ideo- Defesa da APA da Mantiqueira – formada por
rural sustentável da Mantiqueira”. Deixamos
lógico de tudo isso foi muito solitário, mas 15 ONGs atuantes na região. “A luta principal
Lino Matheus depois de uma gostosa torta
compensador” garante Matheus. “Quando as da Fedapam foi para implantar de fato a APA
preparada por Nívea, sua esposa, certos de que
pessoas sonham com a coletividade e têm Serra da Mantiqueira que, até então, só existia este sonho vai ser realizado. E de que conhe-
oportunidade de se reunir, e os sonhos con- no papel”, conta. Para isso a Fedapam elabo- cemos um dos personagens mais ilustres na
vergem, gera uma grande energia positiva”. rou um importante diagnóstico da região história da conservação da Mantiqueira. 

MANTI Q U E IR A E M R E VIS TA 11
U N I DAD E S D E CO N SER VAÇ ÃO

Muita coisa mudou desde então, graças


ao esforço coletivo dos órgãos gestores das
UCs, do poder público municipal, estadual e
federal, e da sociedade civil organizada. A APA
Fernão Dias, criada em 1998, como compen-
sação ambiental do processo de duplicação
da rodovia de mesmo nome, que liga Belo
Horizonte a cidade de São Paulo, começou a
sair do papel em 2006. Após a contratação de
uma gerente, o Instituto Estadual de Florestas
(IEF) começou a reativar o funcionamento
da APA. Em dois anos foi elaborado o Plano
de Gestão e o Zoneamento e no dia 27 de
abril de 2009 o Conselho Consultivo tomou
posse. “O Conselho vai permitir que o poder
público e a sociedade civil busquem alter-
nativas conjuntas para desenvolver a região
economicamente e socialmente” comemora
Raquel Costa, gerente da APA Fernão Dias.
A Flona Passa Quatro também elaborou
seu Plano de Gestão em 2008, que definiu
sua vocação: turismo, manejo florestal e
Parque Estadual do Ibitipoca. Foto: Gisela Herrmann
pesquisa. “O Plano coroa a união de esforços

Unidades de Conservação do Corredor da comunidade em prol da Flona” assegu-


ra seu gerente, Edgard Andrade Júnior.

avançam na gestão participativa


A APA Serra da Mantiqueira concentrou
seus esforços na gestão participativa e na
melhoria da infra-estrutura de sua equipe. O
O processo de formação de corredores eco- Sustentável estão a APA Serra da Mantiquei- chefe da APA, Clarismundo Benfica acredita
lógicos se apóia nas unidades de conserva- ra, a APA Fernão Dias e a Floresta Nacional que o conselho consultivo, criado em 2003
ção, que são núcleos que estimulam ações (Flona) de Passa Quatro, além de 27 RPPNs – com o apoio da Fundação Matutu, trouxe a
que promovem a integração ecossistêmica Reservas Particulares do Patrimônio Natural. democratização das discussões e o envolvi-
e a mobilização das comunidades em suas Junto com as prefeituras dos 42 muni- mento da sociedade. “A sociedade organizada
zonas de amortecimento. Desde o início cípios, os gestores das unidades de conser- precisa saber do seu papel, da sua responsa-
do processo de implantação do Corredor vação têm sido os principais parceiros desta bilidade em contribuir com a gestão da UC”.
Ecológico da Mantiqueira as unidades nova forma de planejamento. “O diagnóstico A conselheira Paula Guatimosim acredita que
o conselho da APA está amadurecido. “As
de conservação (UCs) vêm funcionando inicial das UCs da Mantiqueira mostrou de
discussões estão sendo organizadas dentro
com centros irradiadores de informações forma clara que existem grandes desafios de
das câmaras técnicas e os conselheiros têm
e iniciativas piloto. Não é a toa que os três gestão. Estes parques e reservas foram priori-
contribuído com as suas habilidades”, conta.
municípios campeões em participação das dades do Corredor Ecológico da Mantiqueira
Em 2006, com o apoio da Reserva da
atividades do projeto Construção Participa- desde o princípio” conta Gisela Herrmann,
Biosfera da Mata Atlântica, foi criado o
tiva do Corredor Ecológico da Mantiqueira diretora da Valor Natural. Até 2005, apenas
Mosaico de Unidades de Conservação da
– Bocaina de Minas, Itamonte e Aiuruoca – uma UC do Corredor tinha Plano de Manejo
Mantiqueira. Reconhecido pelo Ministério
estão situados no entorno dessas reservas. aprovado, mas com necessidade de revisão,
do Meio Ambiente, através da Portaria 351
São cerca de 0,49% dos 11 mil quilôme- só duas tinham Conselho Consultivo e uma
de 11 de dezembro de 2006, 19 unidades de
tros quadrados do Corredor Ecológico da delas nem mesmo tinha saído do papel.
conservação da região decidiram trabalhar
Mantiqueira protegidos por UCs de Proteção “Apenas o Parque do Ibitipoca tinha sua
de forma integrada, reforçando ações que
Integral: Parque Estadual da Serra do Papa- área totalmente regularizada, mas sofrendo
poderiam ser desenvolvidas em conjunto.
gaio, Parque Estadual de Ibitipoca e Parque grandes pressões do turismo devido ao seu
Nacional de Itatiaia. Na categoria de Uso tamanho reduzido”, completa Herrmann.
Um Conselho Consultivo é uma espécie
de “parlamento”, representativo de todos
os setores da sociedade que influenciam na
Nas Unidades de Conservação de Proteção Integral como o nome diz, o objetivo é preservar
conservação do meio ambiente. Seu objetivo
a a natureza, que significa o ambiente sem alterações feitas pelo homem. As atividades permitidas é socializar as decisões e ser um espaço
são o turismo em contato com a natureza, a educação ambiental e a pesquisa científica. Nas UCs de formal de parceria entre a sociedade e o
Uso Sustentável o objetivo é aliar a conservação da natureza com o desenvolvimento econômico, poder público para a gestão do meio ambi-
ou seja, parte dos recursos naturais podem ser utilizados de maneira sustentável, podendo existir ente nas unidades de conservação. ambiental
atividades agropecuárias e industriais, entre outras. e a pesquisa científica.

12 MAN T I Q U E I R A E M R E V I STA
A contribuição da Valor Natural UNIDADES D E CO N S E R VAÇÃO

necessário estabelecer o objetivo comum, o


Focada em apoiar o fortalecimento das As Oficinas envolveram a discussão de
projeto coletivo de trabalho, e formar laços
unidades de conservação da Mantiqueira a temas relevantes para a gestão das UCs como
de cooperação para atingir este objetivo.
Valor Natural desenvolveu o plano de manejo o Sistema Nacional de Unidades de Conserva-
Para a conselheira do Parque Estadual da
do Parque Estadual de Ibitipoca aprovado em ção (SNUC), plano de manejo, biodiversidade
Serra do Papagaio, Marilze Pereira, a oficina
2007; e do Parque Estadual da Serra do Papa- da Mantiqueira, gestão participativa, trabalho
para os conselheiros contribuiu muito para
gaio elaborado em 2008 e aguardando apro- em equipe e manejo de conflitos. Através de
o seu crescimento pessoal. “Agora me sinto
vação pelo Conselho de Administração do dinâmicas e discussões orientadas os conse-
mais segura do papel de conselheira de uma
IEF. Com esse instrumento de planejamento e lheiros puderam refletir e avaliar a sua atuação
unidade de conservação e acho que posso
gestão espera-se fortalecer essas unidades de dentro dos conselhos. Durante o treinamento
me posicionar melhor”, conclui. Um dos focos
conservação e suas zonas de amortecimento. os participantes elaboram o plano de trabalho
da capacitação foi mostrar a necessidade de
Como meta do projeto Construção Partici- do conselho consultivo. Para a assessora
organização e sistematização do trabalho e
pativa do Corredor Ecológico da Mantiqueira técnica em Planos de Manejo do Projeto de
dos resultados. O trabalho de conselheiro é
e com o objetivo de fortalecer as UCs, a Valor Proteção da Mata Atlântica (Promata) do
voluntário, mas é preciso ter em mente que o
Natural realizou três ‘Oficinas de Capacitação Instituto Estadual de Florestas (IEF), Sônia Car-
conselho é uma instância que precisa ser ge-
para Conselheiros e Gestores de Unidades valho, a oficina “contribui de maneira decisiva
renciada. E a equipe, ou seja, os conselheiros,
de Conservação do Corredor Ecológico da na medida em que aproxima os conselheiros
têm que assumir responsabilidades através
Mantiqueira’. “O Conselho Consultivo deve das suas reais atribuições, qualificando-os
do plano de trabalho que orienta as ações do
ser o braço direito do gestor da UC”, afirma como atores ativos do processo de gestão
conselho nos próximos dois anos “Os Planos
Gisela Herrmann. “Um conselho ciente do das unidades de conservação e da admi-
de Trabalho idealizados por cada conselho
seu papel e com um plano de trabalho bem nistração ambiental de um modo geral”.
serão fundamentais para dar um salto de
dimensionado, poderá apoiar a unidade Segundo conselheiros, gestores e técnicos
qualidade na gestão dessas unidades que pro-
em diferentes aspectos” complementa. entrevistados, o maior desafio na gestão
tegem importantes remanescentes da mata
participativa é mudar os paradigmas e formas
atlântica da Mantiqueira”, garante Herrmann.
de trabalho. As formas tradicionais de trabalho
Indo um pouco além de cada unidade
baseiam-se em relações de hierarquia. Na
Estrutura das oficinas de capacitação individualmente, a Valor Natural, em conjunto
dos conselhos consultivos de gestão dos conselhos a hierarquia não funcio-
com instituições parceiras, está desenvolven-
unidades conservação: na: é preciso trabalhar em uma rede onde as
do o projeto “Fortalecimento dos Mosaicos
decisões são frutos de consensos. Para isso é
Parte conceitual: de Unidades de Conservação do Corredor
• Conceitos básicos sobre conservação da
biodiversidade e planejamento ambiental
• Por que criar espaços protegidos
• Áreas protegidas no Brasil
• Legislação – SNUC
• Competências dos conselhos
• Plano de Manejo e Zoneamento de UCs.
• Trabalho voluntário

Parte comportamental:
• Habilidades essenciais ao perfil de um
conselheiro
• Comportamentos que efetivamente con-
duzem a solução do problema
• Vivências de solução de problema em
grupo
• Situações vivenciadas nos exercícios X as
vivenciadas nos conselhos consultivos.
• Modelo de organização do trabalho: ciclo
de gestão

Parte prática – elaboração do plano de


trabalho do conselho:
• Levantamento de temas prioritários a
serem trabalhados como eixo do plano de
trabalho
• Definição de objetivos a alcançar
• Detalhamento das atividades:
- O quê será feito?
- Como será feito?
- Quem é o responsável?
- Quando?

Participantes da oficina para gestores e conselheiros de UCs do Corredor Ecológico da Mantiqueira. Foto: Paula Costa

MANTI Q U E IR A E M R E VIS TA 13
U N I DAD E S D E CO N SER VAÇ ÃO

da Serra do Mar” que apóia o planejamen- Em 2006 a Valor Natural coordenou as ações para criação do conselho consultivo
to e implementação da gestão integrada do Parque Estadual Serra do Papagaio. Durante este processo foram realizadas
de unidades de conservação em quatro
duas reuniões preparatórias e de esclarecimento; cinco reuniões com comunidades ru-
mosaicos, incluindo o Mosaico Mantiqueira.
Com esse projeto serão desenvolvidas ações rais; parcerias com veículos de comunicação locais e outras estratégias de divulgação,
de capacitação em temas priorizados pelos tais como emissão de correspondência, comunicação “corpo-a-corpo”, telefonemas, in-
conselheiros de cada Mosaico; apoio à gestão
ternet e uma reunião final com mais de 130 participantes. O conselho criado formalizou
integrada e à secretaria executiva do Mosaico;
e apoio a dois projetos que favoreçam a um canal de comunicação entre órgão gestor e comunidade e pode ajudar a resolver os
conectividade na região. Essa iniciativa problemas enfrentados pelo parque, que não tem suas terras totalmente regularizadas.
pretende fortalecer o processo da gestão
integrada de unidades de conservação e
fornecer subsídios para uma política nacional
de mosaicos de unidades de conservação.  Parque Estadual da Serra do
Papagaio. Foto Nemo Simas

Reunião Preparatória de Criação de Conselho Reunião Final de Criação de Conselho


Foto: Paula Costa Foto: Gisela Herrmann

14 MAN T I Q U E I R A E M R E V I STA
LOUCOS PE L A MAN TIQ U E IR A

loucos pela Mantiqueira


“Meus antepassados em 1540 chegaram Foto: Arquivo Pessoal
Paulo Maciel Júnior é especialista em
ao Brasil através de São Vicente, no li- Gestão Ambiental e vem de uma famí-
toral paulista. Em 1746 meu quinto avô lia de “mantiqueirenses”. Foi secretário
recebeu uma sesmaria na Mantiqueira, de Meio Ambiente da Prefeitura de
especificamente no Morro do Lopo, em Belo Horizonte, diretor da Fundação
Conceição de Jaguari, hoje Bragança Estadual de Meio Ambiente (FEAM) e
Paulista. Daí um de seus descendentes um dos responsáveis pela criação da
mudou-se e casou-se em Baependi, em Estação Ecológica do Papagaio, hoje
1777. São muitas histórias e estórias. O Parque Estadual da Serra do Papagaio.
fascínio pelas montanhas, aliado ao espí- É autor de “A Última Floresta”, “Zonea-
rito de aventura e curiosidade de sempre cachoeiras e com a alegria orquestrada pelas mento das Águas – um instrumento da
querer saber o que existe do outro lado da matas com seus animais silvestres. A Mantiquei- gestão de recursos hídricos” e “Ouro
serra é algo incontrolável. Nós mineiros ra é uma benção divina para os que ali habi-
Azul. A água como bem econômico”.
que não fomos agraciados com o mar nos tam ou visitam. O projeto Corredor Ecológico
desfrutamos com a soberba harmonia da Mantiqueira renova a nossa esperança na
das montanhas, a pulsante energia das preservação de nossa “serra que chora”.

Foto: Arquivo Pessoal


Porque foi aqui que descobri o ouro da minha vida! Patrícia Steiner é capixaba de Castelo,
A simplicidade de atender ao próximo e tomar mas também mineira (alagoense)
conta da região para o próximo, pois é o legado do fundo do coração. Farmacêutica
mais sublime que podemos deixar para as futuras homeopata conheceu a Mantiqueira
gerações. ‘Vamos pra montanha, vamos para o ar, através de seu marido Oscar. Há 18 anos
dizem que há ouro, mas eu procuro emoções!!!!!’ Eu cria os filhos em sua pousada aos pés do
AMO o Garrafão, as araucárias, os esquilos, tudo e Garrafão e não trocaria a Mantiqueira
principalmente os moradores!!!” por nada neste mundo.

MANTI Q U E IR A E M R E VIS TA 15
LO U CO S P E L A MA N T I Q U EI R A

“A Mantiqueira é a coisa mais linda e “Foi pela Mantiqueira que me apaixonei. “Sou louca pela Mantiqueira porque ela
importante que existe no mundo. É o Cheguei por lá no final dos anos 80, com me faz mais sã a cada dia. Porque ado-
mais imponente testemunho geológico minha irmã Sara e amigos, em busca ro olhar em volta e me sentir protegida
da cisão entre a África e a América do Sul. de luz e paz. E que a terra tivesse plano, pelo verde que recobre as montanhas. E
Tem uma beleza estupenda: detém as morro, mata, nascente que sobrevivesse porque adoro estar no alto e olhar o mar
mais belas paisagens naturais do Brasil. ao tempo da seca e sol de leste para oeste. ondulado, de todas as cores, que se põe
É uma caixa d’água fundamental para E a Fragalha tem tudo isso. E muito mais. E
cor de rosa amarelado ao pôr do sol. Já
os estados de São Paulo, Rio de Janeiro como minha terra natal, fica junto de uma
nos dias de chuva, é como estar dentro
e Minas Gerais. A Mantiqueira e o Vale área protegida, o Parque Estadual Serra
de uma caixinha de algodão. Gosto da
do Papagaio, aos pés do Pico de mesmo
do Paraíba são o berço de uma cultura Mantiqueira porque a água é gelada e
nome. Virou RPPN. É para ser protegida.
deliciosa, uma das essências do Brasil, faz a gente sentir cada gota de sangue
Sara se foi. No ano passado. Mas repou-
que é a cultura caipira. O primeiro Parque circulando pelo nosso corpo. Gosto da
sa lá, em um nicho na nossa ‘pedra de
Nacional e a primeira APA Federal estão Mantiqueira porque minha filha nasceu
meditação’ cercada de ipês amarelos e
na Mantiqueira, o que mostra que esta re- aqui, porque o povo é simples, porque
cerejeiras. Outro irmão a acompanhou.
gião é o primeiro laboratório de proteção
Ficamos nós. Seu filho Pedro e o compa- aqui me conhecem pelo nome e me dão
da natureza brasileira. A Mantiqueira com
nheiro Chicão na lida da RPPN Fragalha e ‘Bom dia!’ quando me cruzam pela rua.
suas araucárias é o repositório de uma
eu ainda no Rio, na lida da cidade grande. Gosto da Mantiqueira porque ela é boni-
biodiversidade importantíssima e única
E nossa terrinha querida. Louca? Sou sim. ta, é bonita e é bonita!”
e de toda uma civilização. É por tudo isso
Mas por viver longe da Mantiqueira. Um
que a gente é louco pela Mantiqueira! dia, fico de vez por lá.”
Foto: Arquivo Pessoal Foto: Arquivo Pessoal Foto: Paula Costa

José Pedro de Oliveira Costa é arqui- A jornalista Paula Guatimosim nas- Isabel de Andrade Pinto atualmen-
teto e ecologista, natural de Taubaté, ceu em Ipatinga, próximo ao Parque te é secretária de Agricultura e Meio
situada no sopé da Mantiqueira. É au- Estadual do Rio Doce. A paixão pela Ambiente de Itamonte. Nasceu em
conservação começou na infância, nas
tor de Aiuruoca um estudo de conser- Brasília, onde se formou como bióloga.
idas à fazenda da família, com casa
vação do ambiente natural e cultural. No ano 2000 se mudou para a Manti-
grande, curral de gado Guzerá, “mu-
Coordenou a proposta de criação da nho” d’água e nascente que fornecia a queira, se apaixonando pela Serra e
APA da Mantiqueira e integra a força água de beber em casa. É conselheira pelas pessoas. Hoje está erradicada
tarefa pela criação do Parque Nacional do Parque Estadual Serra do Papagaio em Itamonte onde cria sua linda filha
Altos da Mantiqueira. e da APA Serra da Mantiqueira. Manuela.

Foto: Arquivo Pessoal


“É sabido que o ser humano é o mesmo Preto, nas Minas Gerais, na Mantiqueira.
em todo o mundo, mudando e moldan- E pensar que Rio Preto é somente um pe-
do fortemente personalidades e com- dacinho deste imenso paraíso chamado
portamentos, as circunstâncias, o meio Mantiqueira...!”
físico-social em que vive. Os que vivem
A carioca Marilda Cruz Lima da Silva
na pequenina Rio Preto têm a oportu-
é uma das pessoas que contribui para
nidade-privilégio de poder exercer a
conservar a Mantiqueira todos os dias.
sua humanidade. Perdoem-me os que
É proprietária da RPPN São Lourenço
vivem em outras regiões, mas o paraíso
do Funil, em Rio Preto, e presidente da
é aqui! Por isso, nunca mais me afastei
ARPEMG (Associação de Proprietários
por muito tempo, desde a primeira vez
de RPPNs e Outras Reservas Privadas
em que, ainda adolescente, estive em Rio
de Minas Gerais).

16 MAN T I Q U E I R A E M R E V I STA
LOUCOS PE L A MAN TIQ U E IR A

“Aqui vivo na Harmonia. A paisagem da serra, Foto: Gisela Herrmann O zootecnista Nilo Salgado Jardim nasceu
com seus vales e montanhas traz uma paz inte- em Resende (RJ), no pé da serra. A Manti-
rior. São cachoeiras lindas de águas cristalinas. queira sempre foi a paisagem da sua jane-
Matas, que apesar da ação do homem, ainda la. Sua família está na região desde 1801 e
guardam os segredos da vida. Outro dia vi um ele garante que os melhores momentos
caititu; é comum ouvir bugios e sauás; os jacus já da sua infância também foram vividos
são mais que xuxu na cerca. Aqui não se esquece em Penedo e Capelinha, sempre com a
que somos parte da Mãe Terra. Por isso e mais Mantiqueira como pano de fundo.
um pouco, sou louco pela Mantiqueira.”

“Porque nasci aos seus pés, porque é linda, Kleber Rocha é gestor do Circuito Turístico
Foto: Paula Costa
com seu verde-jeans, se vista de longe; pelo Terras Altas da Mantiqueira. Nascido em
que ela representa na história do Bandei- Passa Quatro, desde criança anda pelas
rantismo; porque já assisti um nascer e um montanhas e nada nos rios da Mantiquei-
pôr do sol na Pedra da Mina; porque é a mãe ra. É um dos fundadores da Associação Pró
das águas onde aprendi a nadar e das águas Serrafina, participante entusiasmado das
minerais que saciaram e continuam saciando reuniões dos conselhos de meio ambien-
a minha sede... de vida inclusive”. te e de Unidades de Conservação e um
grande parceiro do Corredor Ecológico
da Mantiqueira.

“Serra do Canjica, Serra do Sto Agostinho, Pico


do Papagaio...
A bióloga Solange Boechat nasceu no Rio
Eu sei que vou te amar
Por toda a minha vida eu vou te amar de Janeiro, já andou muito pelo interiorzão
Em cada comunidade, a cada despedida eu do Brasil e pelos parques e reservas do Sul
vou te amar de Minas. Atualmente é gerente do Parque
Desesperadamente, eu sei que vou te amar Estadual da Serra do Papagaio e, sempre
Chapadão
que pode, aproveita para andar a cavalo
E cada verso meu Mantiqueira será
Prá te dizer que eu sei que vou te amar pelas serras e prosear.
Foto: Paula Costa
Por toda minha vida”

A Mantiqueira é um refúgio de tudo que é bom. Gustavo Tomzhinski é analista ambiental do “Aqui é a nossa menina dos olhos. É o paraíso,
Águas puras, florestas, alturas, gente da terra e Parque Nacional de Itatiaia, representante da temos lugares fantásticos, coisas que você nem
amantes da natureza, vindos de todas as partes. Unidade no Mosaico Mantiqueira e coorde- acredita. Muito bonito mesmo. Eu já tive chance
Tem um encanto, uma atmosfera indescritível. nador do Núcleo de Prevenção e Combate a de morar em outro lugar, mas preferi ficar aqui,
Majestosa e singela ao mesmo tempo. Mas o Incêndios do Parque. acho o lugar mais bonito do mundo.”
que mais me toca na Mantiqueira é sua natureza Antônio Marcos de Oliveira nasceu na região
acolhedora. Ela é única nas condições naturais “Sou louca pela Mantiqueira, por tudo que a da Serra da Paula, em Baependi, e é produtor
que oferece para viver e no futuro que reserva.” Mantiqueira é e pela beleza que ela ainda tem. rural. Conserva a Mantiqueira todos os dias
Luiz Midéa desenvolve o Patrimônio do Ma- Pela possibilidade de trabalhar pela preserva- ao participar das ações de fomento florestal
tutu, um santuário natural aonde pratica agri- ção e poder contribuir de alguma forma para no entorno do Parque Estadual da Serra do
cultura, paisagismo e hospitalidade. Trabalha conservar o que restou da Mata Atlântica. Esta Papagaio desenvolvidas pela Amanhágua e
em projetos socioambientais da Fundação é uma região realmente muito especial” pelo Promata - IEF/MG.
Matutu. Aprofundou sua relação com a Serra A goiana Brasília Mascarenhas e seu ma-
da Mantiqueira em 19 anos de convívio e rido Celso são cineastas e passaram mais “Sou louco pela Serra da Mantiqueira, pelo clima,
trabalho na comunidade do Matutu. de 10 anos produzindo o premiado longa- por este visual, este cenário que a Mantiqueira
metragem “Mamazônia - a Última Floresta”. nos proporciona todo santo dia. É o céu azul
Freqüentadora da Mantiqueira, descobriu há com um frio gostoso, uma culinária típica de
“Porque a conjunção dos fatores naturais e hu-
dez anos uma terra na região do Gamarra, montanha, bem quentinha. É um clima bem
manos da região é única, contagiando a todos
que transformou na RPPN Alto Gamarra, um agradável para tudo.”
que por aqui passam com seus deslumbrantes
pedacinho preservado da Mantiqueira. Clarismundo Benfica do Nascimento é chefe
atributos ecológicos e o caráter acolhedor de
seus habitantes”.
da APA Serra da Mantiqueira. 

MANTI Q U E IR A E M R E VIS TA 17
CO N S E R VA R A F LO RES TA VA LE A PENA

Conservar Iniciativas de

a floresta
pagamento por
serviços ambientais

vale a pena
geram receita para
o produtor rural

Antônio Marcos de Oliveira tem 38 anos


e mora até hoje na casa em que nasceu,
na Serra da Paula, em Baependi, lugar que
chama de sua “menina dos olhos”. Vem de
uma família de produtores rurais, criadores
de gado, que tiravam do leite o sustento da
família. Hoje integra o grupo de 45 produto-
res rurais que recebe incentivos financeiros
para preservar e recuperar suas nascentes
e florestas dentro das ações de fomento
florestal coordenadas pela OSCIP Amanha-
gua, em parceria com o Promata (Projeto
de Proteção da Mata Atlântica) do Instituto
Estadual de Florestas, e apoio da Valor Natural.
Seu Antônio garante que está mais feliz
assim, preservando a Mantiqueira. “Hoje vale
mais a pena para a gente preservar a mata
do que criar o gado. Na época do meu pai
não era assim”, conta. Ele foi um dos pri-
A produção dos viveiros familiares no entorno do Parque Estadual da Serra do Papagaio. Foto: José Carlos Ibraim
meiros produtores a participar do “projeto”,
como os produtores chamam as ações de que estava sendo feito estava alinhado com
proprietários que manifestassem interesse
fomento na região. “Na primeira reunião, o que pretendíamos dentro do Promata”,
em revegetar suas propriedades. A partir de
realizada no Gamarra em 2007, já consegui- conta Ricardo Galeno, gerente do Promata.
2007 essas ações começaram a ser desenvol-
mos 500 dos 600 hectares da meta anual As iniciativas de fomento na Mantiqueira
vidas dentro do Projeto de Proteção da Mata
acordada no convênio com o Estado”, conta foram ganhando novos adeptos e hoje é
Atlântica (Promata-MG) do Instituto Estadual
Mônica Buono, presidente da Amanhágua. consenso entre as instituições envolvidas
de Florestas, de forma coordenada, incen-
O projeto conta com três modalidades de que o trabalho de convencer os produtores
tivando principalmente o fomento florestal
fomento florestal: a participar das ações ficou no passado.
no entorno das unidades de conservação.
1) regeneração natural, que prevê o cerca- Atualmente atendendo os municípios de
Na Mantiqueira essas ações ganharam um
mento das áreas para recuperação e proteção Aiuruoca, Baependi, Alagoa, Pouso Alto,
componente inovador: o pagamento pelos
da vegetação já existente; Itamonte, Bocaina de Minas e São Tomé das
serviços ambientais prestados por estes
2) recuperação total, quando há necessidade proprietários que preservam suas áreas. O Letras, Mônica Buono afirma que tem 50
de revegetação das áreas, feito prioritariamente ‘Conservador das Águas’, projeto da Prefeitura produtores na lista de espera para participar
com espécies nativas; Municipal de Extrema, executado em parceria do projeto. “Mas nossa filosofia é conectar
3) plantio de candeia, com a previsão de com o IEF/Promata-MG e a TNC e apoio da fragmentos. Não queremos pontos isola-
utilização dos bosques produzidos de forma Valor Natural, foi o primeiro projeto a ser dos” conclui. “Os altos custos envolvidos na
sustentada. implantado neste sentido no Brasil. “Quando recuperação da floresta e no pagamento dos
Há muitos anos o Estado de Minas Gerais a Valor Natural nos convidou para conhecer serviços ambientais justificam uma abor-
vinha investindo em doação de mudas para o projeto em Extrema, percebemos que o dagem regional integrada, priorizando os

18 MAN T I Q U E I R A E M R E V I STA
CONSER VAR A FLO R E S TA VAL E A PE N A

investimentos em áreas mais significativas que tinha muita água na nossa terra, mas 15 mil mudas já plantadas em propriedades
para proteção da biodiversidade e dos eu estava sofrendo porque tinha que pegar vizinhas. Ele conta que seus dois filhos hoje
recursos hídricos” afirma Gisela Herrmann água com bomba para usar na minha casa. estão orgulhosos do pai, um defensor da
Os esforços começam a dar resultados. Agora chega bastante água e bem limpinha”. natureza. “Isso é o que posso deixar para
Em apenas dois anos seu Antônio já vê resul- Também dentro do projeto com a Amanhá- os meus filhos, um patrimônio natural”.
tados em sua propriedade e garante que a gua, Seu Antônio fez o curso de viveirista e
vazão de água aumentou. “Meus avós falavam implantou um viveiro familiar que produziu

Itamonte inova criando o Fundo Municipal de Meio Ambiente

Até o final de 2009 o IEF/Promata-MG


pretende recuperar 10.000 hectares de
mata atlântica na região da Mantiqueira
e agregar novos ganhos para os pro-
prietários engajados nas iniciativas. Para
o Coordenador do Grupo Executivo do
Promata, Eduardo Grossi, a Mantiqueira é
uma região prioritária para os investimen-
tos de fomento florestal. Primeiro porque
os resultados dos projetos já desen-
volvidos na região impressionam: em
duas parcerias firmadas desde 2007 (no
município de Extrema e no entorno do
Parque Serra do Papagaio) estão sendo
recompostos/regenerados 7.700 hectares.
Segundo pelo potencial de formação de
corredores recompondo a paisagem.
Uma nova parceria entre a Prefei-
tura Municipal de Itamonte, o Promata, Gisela Herrmann, Marcos Tridon de Carvalho e Eduardo Grossi assinam convênio. Foto: Paula Costa

e a Valor Natural gerou o projeto Atitude das propriedades rurais”, afirma. pela terra e pela natureza fez com que se
Verde, que incentiva os proprietários rurais A secretária de Desenvolvimento interessasse pelo Atitude Verde apresenta-
a recompor sua propriedade. Os incentivos Agropecuário e Meio Ambiente de Itamon- do por sua filha, Patrícia. “Natureza é vida,
no município podem chegar a R$ 300,00 te, Isabel de Andrade Pinto conta que as e vida não se destrói”, ensina Zé da Mata.
por hectare inserido nas ações de fomento. ações de fomento florestal são parte de uma “E com esse projeto estamos construindo
Para conferir sustentabilidade financeira a política municipal de pagamento de serviços mais vida”, completa. Você confere a poesia
longo prazo para o Atitude Verde, a Prefei- ambientais. “O Fundo Municipal de Meio do Zé da Mata no final desta reportagem.
tura de Itamonte está criando um Fundo Ambiente, que receberá os recursos do ICMS A parceria em Itamonte pode garan-
Municipal de Meio Ambiente que aplicará Ecológico, será administrado em parceria tir grandes frutos para a conservação da
os recursos do ICMS Ecológico recebidos com o Conselho Municipal de Meio Ambien- biodiversidade no longo prazo. Isso porque
pelo município em ações de conservação. te - Codema”. Para Pinto o principal é continu- todas as ações serão amparadas em ba-
Para o Prefeito de Itamonte, Marcos ar estudando formas de incentivar ainda mais ses técnicas: as propriedades estão sendo
Tridon de Carvalho este convênio é o pri- o proprietário rural parceiro da conservação. mapeadas e as ações de fomento levam em
meiro passo para incentivar o proprietário Um dos proprietários que se interessaram consideração a formação de micro corredores
rural a proteger suas nascentes, localizadas pelo Atitude Verde é uma personalidade de biodiversidade no município. “Nos locais
nas porções de maior altitude do estado de conhecida em Itamonte. Ele se apresenta identificados como prioritários para conser-
Minas Gerais. Segundo Carvalho os investi- como “Zé da Mata, poeta do sertão”, apesar vação, como no entorno dos parques, onde
mentos financeiros nas propriedades rurais de ser nascido na Mantiqueira, região em a fragmentação não é muito intensa, deverá
do município irão aumentar ainda mais em que a água é abundante. Pode ser visto ser estimulada a recuperação natural, visando
2009. “Com a implantação de novas indús- sempre arrumado, com chapéu branco, minimizar os custos e manter a diversidade
trias, a arrecadação de ICMS no município vai botas de bico fino e uma fivela bem gran- genética regional, sem influência de mudas
aumentar bastante e pretendemos investir de no cinto. Produtor de leite, Zé da Mata oriundas de outras regiões” esclarece Gisela
50% deste recurso no desenvolvimento também é pintor, escultor e poeta. O amor Herrmann, diretora da Valor Natural.

MANTI Q U E IR A E M R E VIS TA 19
CO N S E R VA R A F LO RES TA VA LE A PENA

O Programa Conservador de Águas foi


a primeira iniciativa de pagamento por
serviços ambientais no Brasil. A iniciativa
pioneira da Prefeitura de Extrema tem
hoje diversos parceiros e já promoveu a
recuperação de 1.300 hectares na sub-
bacia do Ribeirão das Posses.

Segundo Paulo Henrique Pereira, diretor


de Meio Ambiente da Prefeitura de Ex-
Zé da Mata assinando o convênio
com a Prefeitura de Itamonte trema, o problema da falta de cobertura
Foto: Arquivo Prefeitura Municipal de Itamonte
vegetal no município ficou evidente no
processo de diagnóstico ambiental de
Extrema. “Percebemos que a vegetação
estava fragmentada e que as nascentes
dos cursos d’água estavam desprotegi-
das”, relata.
A REVOLTA DO RIOZINHO Eu prometo na verdade
José Ribeiro – “Zé da Mata” Que a tal felicidade A sub-bacia do Ribeirão das Posses foi
Ainda mora por aqui. escolhida para início dos trabalhos em
Eu sou aquele riozinho Mas depois segui meu rumo 2005 porque apresentava maior grau de
Que nasce lá nas campinas Em direção à cidade degradação. Para participar do Programa,
A pura água da mina Acabou a tranqüilidade criado por Lei Municipal é preciso:
Tão limpa e tão cristalina. Que existia aqui. ◆ Propriedade inserida na sub-bacia
hidrográfica trabalhada no projeto.

Descendo sobre a colina Pois o povo em vaidade ◆ Área igual ou superior a dois hectares.

Em tamanha crueldade ◆ Desenvolvimento de atividade agrícola


Passando pelas raízes dos pinos
com finalidade econômica na proprie-
Dei água a tantos meninos Jogou lixo em mim.
dade rural.
Que passavam sobre mim.
◆ Ter o uso da água na propriedade rural
Hoje tenho as águas escuras
regularizada.
Lá na mata os passarinhos Tão sujas e tão poluídas
Levavam para os filhotinhos Que dá tristeza na vida
Para receber o incentivo de 100 Unidades
Água que apanhavam aqui. Vocês olharem pra mim.
Fiscais de Extrema (UFEX) por hectare
por ano, divididos em 12 (doze) parcelas,
Mais pra baixo em minhas margens Qualquer dia eu me revolto o proprietário deve:
Nasceram lindos capins De ver tantas coisas tortas ◆ Adotar práticas conservacionistas de
Tão verdes e tão coloridos Arrebento todas as voltas solo.
Que só Deus faria assim. Casinhas, pontes e portas ◆ Implantar Sistema de Saneamento
E tiro o lixo de mim.  Ambiental.
◆ Implantar e manter a cobertura vegetal
das Áreas de Preservação Permanente e
da Reserva Legal, através da averbação
em cartório.

20 MAN T I Q U E I R A E M R E V I STA
QUANDO O CONSER VADOR TEM N O M E E S O BR E N O M E

RPPN São Lourenço do Funil - Foto: João Emídio

Quando o conservador tem nome e sobrenome


Proprietários particulares dão então o projeto Ação do Olhar que busca apontados pelos proprietários de RPPNs na
ampliar o conhecimento científico e a consci- Mantiqueira. O Programa de Incentivo às
exemplo e preservam a Mata
ência ambiental através de trilhas contempla- RPPNs da Mata Atlântica é uma das prin-
Atlântica na Mantiqueira tivas e interpretativas e captação de imagens. cipais fontes de financiamento procurada.
Dentro do projeto, executado em parceria Criado pela Aliança para Conservação da
Nos anos 80, quando adquiriu sua proprieda-
com a Aliança para Conservação da Mata Mata Atlântica, uma parceria entre as ONGs
de de 65 hectares em Santo Antônio do Rio
Atlântica, os Simas já implantaram trilhas e Conservação Internacional e SOS Mata
Grande, o fotógrafo e designer Carlos Simas
desenvolveram um sistema de arborismo no Atlântica, o Programa lança editais anuais
já sabia o que funcionaria no local. Como
local, uma plataforma modular octagonal, para apoiar a criação de reservas privadas e
nesta época ainda não existia o termo RPPN
que abriga até quatro pesquisadores com a elaboração de Planos de Manejo. Em seu
(Reserva Particular do Patrimônio Natural) o
equipamentos para observação e registro sétimo edital, o Programa já apoiou 21 RPPNs
nome dado pela família foi “santuário familiar”.
de imagens das espécies da reserva. Além na Mantiqueira, entre projetos de criação e
Quem conta é Nemo Simas, filho de Carlos,
de compor um extenso banco de ima- manejo. Para a diretora de Gestão do Conhe-
também fotógrafo e gestor ambiental. De fato
gens, as fotos se transformam em produtos cimento da SOS Mata Atlântica, Márcia Hirota,
“local sagrado” define bem a região. Situada
ecologicamente corretos que mostram a é preciso continuar contribuindo com os
em Bocaina de Minas a propriedade da família
beleza da biodiversidade local e a impor- proprietários de reservas privadas. “80% dos
Simas é caracterizada pela imponente rocha
tância de sua preservação. Grandes lojas remanescentes da Mata Atlântica não estão
Mitra do Bispo (2.100 metros de altitude),
de roupas e moda praia têm hoje as fotos protegidos em Unidades de Conservação.
pelos bosques de araucária, campos rupestres
da Mitra do Bispo em suas estampas. Então cada proprietário que cria uma RPPN
e nascentes que formam o Córrego da Mitra,
A Mitra do Bispo está elaborando o seu dá uma grande contribuição para proteger
um dos formadores do Rio Grande. Uma
Plano de Manejo, também em parceria com a a biodiversidade deste bioma”, afirma.
beleza que não pode ser facilmente explicada.
Aliança para Conservação da Mata Atlântica, Os dados do IEF e do Instituto Chico Men-
Em 1999 a família Simas tornou seu
um dos principais parceiros dos proprietários des mostram que o número de reservas priva-
santuário familiar uma RPPN, a terceira reserva
de RPPN no Brasil. Nemo Simas conta que das está crescendo na região da Mantiqueira.
particular criada no Corredor Ecológico da
garantir a sustentabilidade da área ainda é Nos últimos três anos foram criadas 16 novas
Mantiqueira, e garantiram que sua proprie-
um desafio. “Estamos estudando formas de RPPNs na região. Estas reservas preservam
dade será preservada para sempre. São 35
repasse do ICMS Ecológico e vamos iniciar 1085 hectares (o equivalente a 1085 campos
hectares oficialmente protegidos como reser-
um diálogo com o poder público local”. de futebol) na Mantiqueira, ou seja, pouco
va. A partir das fotografias de Carlos e Nemo
A falta de recursos para manutenção mais de 1% da área ocupada por RPPNs no
a família começou a desenvolver produtos
das reservas é um dos maiores entraves Estado. O município de Aiuruoca, no entorno
baseados no conceito de eco design. Nasceu

MANTI Q U E IR A E M R E VIS TA 21
QUAN D O O CO N S E R VA DO R T EM NO M E E S O BR ENO M E

pesquisadores ou prestando serviços”, conta. reservas privadas: “projetos de crédito de


Formas de integração com a comunidade carbono seriam muito bem vindos, pois nossa
sempre foi um foco de Brasília Mascarenhas. região era pasto e as matas são relativamente
Um dos produtos desta parceria é um rico recentes” avalia. A reserva de Silveira garante
relato produzido pelas crianças do Juju con- a proteção de importantes afluentes e forma-
tando a história da comunidade e da criação dores do rio Grande e rendeu uma homena-
do Parque Estadual da Serra do Papagaio. gem ao engenheiro durante a comemoração
A Alto Gamarra é uma reserva familiar e dos 75 anos da Emater em Juiz de Fora.
nela todos trabalham. Brasília e Celso Lucas Apesar das dificuldades enfrentadas,
RPPN Ave Lavrinha - Foto: Nilo Jardim
são cineastas e a filha Tainá, jornalista. Juntos Marilda Silva acredita que as perspectivas
do Parque Estadual da Serra do Papagaio, é o já produziram diversos documentários para as RPPNs em Minas Gerais são muito
campeão, com 9 reservas averbadas e muitas sobre a região da Mantiqueira, dois deles positivas. “Há interesse do Estado, evolução
outras em processo de criação, conferindo-lhe selecionados para festivais internacionais de da legislação ambiental e, principalmen-
o status do segundo município com maior cinema. Um terceiro, chamado “Sob o Céu te, iniciativas de remuneração de serviços
número de RPPNs, atrás apenas do município da Mantiqueira”, está em fase de negociação ambientais em curso”, cita. Márcia Hirota, da
de Silva Jardim, no estado do Rio de Janeiro. com empresas da região para ampla exibição SOS Mata Atlântica espera o mesmo no nível
A jornalista Paula Guatimosim é uma das em uma mostra chamada Cinema Ambu- nacional. Neste ano o Programa de Incentivo
pessoas que contribui para a “boa fama” de lante, reproduzindo o formato utilizado por às RPPNs contou com novos parceiros: o
Aiuruoca. A RPPN da Fragalha, criada junto Mascarenhas na Amazônia, para exibição de Funbio e o banco alemão KFW. “Estes novos
com a sua irmã Sara, embora pequena (3 seu premiado documentário Mamazônia. parceiros contribuem não apenas com re-
hectares), forma um mosaico com RPPNs A RPPN Ave Lavrinha, localizada em cursos, mas também com uma expertise que
vizinhas no Vale dos Garcias, e foi criada junto Bocaina de Minas, é a primeira do Corredor pode aprimorar o nosso trabalho e garantir
com mais 4 reservas graças às informações Ecológico da Mantiqueira a ter seu Plano de um resultado ainda melhor”, afirma. “Então
disponibilizadas pela Aspasg – Associação Manejo aprovado. Para o técnico respon- esperamos ter sucesso em captar ainda
de Proteção Ambiental da Serra dos Garcias sável pelo Plano, Nilo Jardim, o plano é um mais recursos para promover novos editais e
(Aspasg). “Eu e Sara queríamos que a nossa instrumento importante porque descreve contribuir com mais proprietários”, conclui.
vontade de preservar se tornasse um compro- com clareza as regras para uso da reserva. “A A diretora da Valor Natural, Claudia
misso real”, conta. Para Guatimosim a criação proprietária, os funcionários, consultores, fami- Costa chama a atenção para os avanços no
de uma RPPN é um ato de amor. “A burocracia liares e amigos participarão do planejamento movimento das RPPNs nos últimos anos, entre
e a falta de recursos desanimam, mas tenho e desenvolvimento das ações na reserva. A eles a criação em 2008 do Comitê Consultivo
certeza que estou deixando um tesouro gestão participativa foi vista como uma ação de RPPN. Criado pelo Ministério do Meio Am-
maravilhoso. Nossa água brota da terra”, conta. prioritária pelo Plano de Manejo”, conta. biente, o Comitê é composto por representan-
Responsável pelo Programa Estadual de Marilda Cruz Lima da Silva, presidente tes das associações de proprietários de RPPN,
RPPN o analista ambiental do Instituto Estadu- da Arpemg – Associação de Proprietários de representantes do ICMBio e por pessoas de
al de Florestas, Elcio Mello, ressalta o serviço RPPNs e Outras Reservas Privadas de Minas notório saber, com o objetivo de estabelecer
prestado pelos proprietários de reservas. “Ser Gerais – e proprietária da reserva São Louren- um fórum de discussões técnicas para o forta-
proprietário de uma RPPN é ter respeito pela ço do Funil, em Rio Preto, acredita que um dos lecimento do sistema de criação, implemen-
vida, protegendo a biodiversidade, contribuin- grandes desafios na gestão de uma RPPN é tação e gestão das RPPN. Como membro do
do com a pesquisa e com as futuras gerações”. fazer justamente isso que Jardim coloca como Comitê e autora do livro “RPPN Mata Atlântica:
Ele tem razão. Conversar com os proprie- prioridade. “Uma RPPN pode e é ideal que Potencial para a implantação de políticas de
tários de RPPN na Mantiqueira é descobrir se constitua em um centro de geração e de incentivo às RPPNs”, Costa acredita que, em-
histórias de amor e respeito à Serra e às difusão de conhecimentos: um fórum perma- bora os desafios ainda sejam grandes, existem
comunidades que nela vivem. Com o Plano nente de discussão das questões ambientais”, muitas iniciativas em curso que seguramente
de Manejo em fase de elaboração, a goiana afirma. Atualmente a Arpemg busca a parceria irão fortalecer as reservas. “A figura da RPPN se
Brasília Mascarenhas, proprietária da RPPN do Estado através do IEF para implantação fortaleceu desde a sua criação, em 1990. Hoje
Alto Gamarra, em Baependi, tem interesse de um programa de criação de RPPNs e de existem mais de 900 reservas particulares
especial em ajudar a comunidade do Juju, apoio ao desenvolvimento de ações de- criadas e que têm o seu papel estratégico na
vizinha da reserva, a descobrir alternativas senvolvidas dentro das reservas privadas. proteção de pequenos fragmentos florestais,
econômicas para a produção de gado. O engenheiro Hamilton Silveira, proprie- fundamentais para a manutenção da conec-
“Temos interesse em abrir a nossa reserva tário da RPPN Alto do Rio Grande, em Bocaina tividade e a formação de corredores”, conclui.
para pesquisas e achamos que a comuni- de Minas, ainda dá outra idéia para garantir
dade do Juju pode contribuir hospedando mais apoio ao trabalho de preservação das

RPPN Mitra do Bispo - Foto: Nemo Simas

22 MAN T I Q U E I R A E M R E V I STA
ENTRE VISTA COM JOSÉ CAR LO S CAR VAL H O

De 1975, quando entrou no quadro de funcionários do Instituto Estadual de


Florestas de Minas Gerais, para cá muita coisa mudou e pode-se dizer que a
trajetória profissional do atual Secretário de Meio Ambiente e Desenvolvi-
mento Sustentável de Minas Gerais, José Carlos Carvalho, se funde com
a trajetória do setor ambiental no Estado. Natural de Jerônimo Monteiro,
no Espírito Santo, o engenheiro florestal dedicou os últimos 35 anos à causa
ambiental. Foi ministro do Meio Ambiente, presidente do antigo IBDF (Ins-
tituto Brasileiro de Desenvolvimento Florestal), Diretor do IBAMA e Diretor
Geral do Instituto Estadual de Florestas. Responsável pela reorganização do
Sistema Estadual de Meio Ambiente de Minas Gerais nos anos 90 ele faz
um balanço dos avanços ambientais que observa e garante que podemos
sim ser menos predatórios na utilização dos recursos naturais.

Foto: Arquivo SENAD

Entrevista com José Carlos Carvalho


O senhor tem mais de 30 anos dedica- perfeição de tudo, reciclar e reaproveitar, Como o senhor avalia as iniciativas de plane-
dos à questão ambiental. Como foi esse por exemplo, ou de nem sempre conse- jamento regional conservacionista, a exemplo
envolvimento? guirmos otimizar o aproveitamento de do Corredor Ecológico da Mantiqueira e dos
JCC: Meio Ambiente é responsabilidade matérias primas ou os modos de produção demais corredores ecológicos brasileiros?
e compromisso inspirados numa tradição limpa. Mas sempre poderemos reduzir os JCC: Como evidência, cada vez maior, de
familiar de convívio amigável com a ter- danos, melhorar performances e criar um engajamento da sociedade civil nas ações
ra. Meu avô e meu pai me passaram este mundo menos predatório e menos voltado conservacionistas e da disposição de todas
modo de pensar, essa visão de necessidade ao desperdício de recursos. É com o pensa- as instâncias de governo de dar as mãos aos
de trabalhar a terra com o devido cuidado mento voltado para isto que trabalhamos cidadãos para ampliar resultados positivos
e atenção. Depois, o curso de engenha- sempre. As grandes transformações da nessa área. O Corredor Ecológico da Man-
ria florestal e toda uma carreira ligada ao humanidade ocorreram com a participação tiqueira vai-se tornando um exemplo de
setor foram, disso, conseqüência. Hoje, de românticos e radicais, levados pela utopia. trabalho sério e competente, resultante de
sou mais que apaixonado pela questão uma parceria bem dimensionada de todos
ambiental: sou um ativista desta causa. E como Minas Gerais se insere neste contex- os que podem contribuir para o seu sucesso,
to? Quais são os avanços do Estado na busca incluindo a participação do terceiro setor.
Qual momento ou realização o senhor con- do desenvolvimento sustentável?
sidera especial? JCC: Estamos cada vez mais próximos de uma E as iniciativas de fomento florestal em curso
JCC: Dois momentos, na verdade: o da ela- situação satisfatória no que se refere ao meio no Estado? O pagamento por serviços am-
boração e aprovação do Programa Nacional ambiente. É claro que ainda há muita coisa a bientais é um caminho para a conservação
de Meio Ambiente, junto ao Banco Mundial, fazer, mas o governador Aécio Neves tem-nos ambiental?
quando trabalhava no IBAMA/DF e a partici- permitido avançar de modo substantivo em JCC: É um dos instrumentos mais modernos
pação na Cúpula Mundial de Meio Ambiente, termos de equipar o Estado para o tratamento e efetivos no combate ao desmatamento e
na África do Sul, na qual atuamos como chefe competente de seus problemas ambientais. de criação de compromisso do produtor rural
da delegação brasileira, e na ECO-92. Foram com a conservação da natureza.O fomen-
Descentralizamos nossa atuação, estamos
momentos memoráveis. Mas vivi outro ainda to florestal, agora voltado para as florestas
cada vez mais perto do cidadão e dos empre-
mais importante, em Minas Gerais: o da nativas, é a razão de ser do Instituto Estadual
endedores, atuando preferencialmente em
criação da Secretaria de Estado de Meio Am- de Florestas, sua iniciativa mais nobre e, na
termos preventivos e temos certeza de estar
biente e Desenvolvimento Sustentável, para Mantiqueira estamos fazendo o possível para
plantando uma estrutura e uma mentalida-
o que nossa equipe fez um grande trabalho. que não só nos seja possível proteger rema-
de operacional nova e moderna, que vão
nescentes florestais nativos como também
resultar em bons frutos para o nosso Estado.
É possível desenvolver de forma sustentável? recompor áreas desnudas e desgastadas.
JCC: Claro que é. Podemos não chegar à 

MANTI Q U E IR A E M R E VIS TA 23
OS D E S A F I O S DA GES TÃO PA R T I C I PAT I VA

Os desafios da gestão participativa


trabalho de um conselheiro, bem como o materializar os trabalhos e interpretações
Por Clarismundo Benfica conhecimento de questões básicas sobre existentes no seio da Unidade de Conser-
técnica e legislação pertinentes com vistas vação, efetivando a participação social e
do Nascimento à busca coletiva de soluções. Entendo que garantindo ainda mais transparência na
a sociedade está em processo de aprendi- sua gestão. Em 2008 foi elaborado o termo
Há 5 (cinco) anos na gestão da APA da Serra zagem no que diz respeito à mobilização de referência do Plano de Manejo e sua
da Mantiqueira, constituída por terras públicas e representação nos espaços criados para implantação é nossa meta para 2009.
e privadas, percebo a grande importância tal. Portanto, nestes cinco anos de gestão a Em face da importância deste mo-
da participação dos diversos segmentos equipe da APA juntamente com o Conselho mento para a vida de todos que residem e
da sociedade civil, dos poderes público promoveu uma série de capacitações. ou relacionam com a APA aproveito para
estadual e municipal, e demais usuários Nesses cinco anos surgiu uma série de solicitar a todos que participem, dêem sua
dos recursos ambientais que compõem a iniciativas de discussão e gestão do espaço. contribuição. Assegurar os recursos naturais
região, na gestão conjunta da UC, para a A APA e o Conselho estão envolvidos em em quantidade e qualidade para as gera-
busca de soluções na utilização, conser- uma série de projetos, programas, parcerias e ções atuais e futuras depende do plane-
vação e melhoria da qualidade de vida de articulações para o uso sustentável da Serra jamento de utilização e conservação dos
todos que estão inseridos neste ambiente. da Mantiqueira. Entre esses ressalto o Progra- mesmos e da contribuição de todos. 
O espaço para tal participação e para ma de Proteção da Mata Atlântica (Promata/
o exercício da gestão participativa é o IEF-MG), o Mosaico Mantiqueira e o Corredor Foto: Arquivo Pessoal

Conselho Consultivo. Cabe ressaltar, que Ecológico da Mantiqueira. A regionalização da


o Conselho Consultivo da APA foi cria- Mantiqueira proposta por estes dois últimos
do apenas em 2003 e empossado em instrumentos, assim como os trabalhos com
2004, ou seja, muito recentemente. o Conselho da APA, têm um significado
Fazer gestão participativa, em um local especial: estamos de fato aprendendo a
aonde a população durante séculos utiliza atuar de forma participativa, conversando
os recursos naturais para o uso próprio sem sobre os problemas e conflitos e buscando
ter consciência que os mesmos pertencem soluções comuns. Nada mais lógico em uma
e são vitais à coletividade, é um grande região de Mata Atlântica tão conservada, um
desafio. Portanto é fundamental que haja ecossistema de montanha importantíssimo,
informação de qualidade e de linguagem com tanta riqueza hídrica e tantas pessoas
adaptada aos diversos segmentos. Nesta interessadas no desenvolvimento sustentável.
região identificamos como principais atores Para ampliar o alcance dessas iniciativas
a comunidade rural, urbana, turistas, vera- percebemos a importância de elaborar o
nistas e instituições públicas e privadas. Plano de Manejo da APA, que nasce, portanto, Clarismundo Benfica do Nascimento é chefe da
Para que a participação seja de fato deste nosso exercício de participação e vai APA Serra da Mantiqueira, a primeira APA fede-
representativa e efetiva, se faz importante a além das exigências legais. Este instrumento ral, e um dos grandes parceiros do processo de
capacitação continuada dos Conselheiros, é uma ferramenta indispensável para o co- construção participativa do Corredor Ecológico
uma vez que é necessário difundir informa- nhecimento mais aprofundado da realidade da Mantiqueira.
ções sobre o escopo e a abrangência do da APA e também uma oportunidade de

A Área de Proteção Ambiental da Serra da Mantiqueira,


criada em 1985, tem como objetivo conservar a biodiversi-
dade, ordenar a ocupação e assegurar a sustentabilidade
do uso dos recursos naturais. Inserida no bioma Mata
Atlântica, têm uma área aproximada de 435.000 hectares,
englobando cerca de 100.000 habitantes, em 27 municípios
de três estados da federação, Minas Gerais, São Paulo e
Rio de Janeiro, com legislações distintas no que tange a
conservação, proteção e o desenvolvimento das populações
rurais e urbanas.

24 MAN T I Q U E I R A E M R E V I STA
RESULTAD O S CO N CR E TO S

Resultados concretos da Construção Participativa


do Corredor Ecológico da Mantiqueira:
Meta 1: Realizar planejamento participati- da Mantiqueira visando a mobilização para im- • Elaboração de materiais de divulgação do
vo do Corredor Ecológico da Mantiqueira, plantação de Planos Diretores Municipais Plano de Manejo do Parque Estadual Serra do
envolvendo e capacitando gerentes e mem- • Desenvolvimento do projeto “Estreitamento Papagaio
bros dos conselhos consultivos das UCs entre poder público municipal e órgão gestor
da APA Serra da Mantiqueira” Meta 4: Capacitar 20 produtores rurais
• Realização de 3 Reuniões de Pré-Planejamento
• Realização do workshop “Diretrizes para implan- e 60 jovens de curso técnico em planeja-
do Corredor Ecológico da Mantiqueira
tação das reservas legais no Estado de Minas mento conservacionista da propriedade
• Realização de Seminário de Planejamento do
Gerais” e elaborar dois planejamentos conser-
Corredor Ecológico da Mantiqueira
• Reuniões institucionais para articular o forta- vacionistas de propriedade rural como
• Publicação e divulgação do Plano de Ação do
lecimento do fomento florestal e pagamento atividade complementar da capacitação
Corredor Ecológico da Mantiqueira
de serviços ambientais no Corredor Ecológico dos produtores.
• Visitas Técnicas aos Municípios do Corredor
da Mantiqueira
Ecológico da Mantiqueira • Realização do Workshop “Unindo Produção e
• Ações para articular o planejamento da pro-
• Realização de Workshop “Uso Sustentado do Conservação: uso sustentado da terra na porção
priedade rural com o pagamento de serviços
Solo no Corredor Ecológico da Mantiqueira” mineira da Serra da Mantiqueira.
ambientais em Bocaina de Minas
• Coordenação da equipe de Ciências Naturais • Produção participativa da cartilha sobre pla-
no Plano de Manejo do Parque Estadual do nejamento da propriedade rural.
Meta 3: Desenvolver, envolvendo atores
Ibitipoca • Realização de 2 oficinas de capacitação para pro-
sociais locais, 6 ações de comunicação
• Elaboração do Plano de Manejo do Parque dutores rurais em técnicas de manejo de pasta-
para ampla divulgação e mobilização nos
Estadual da Serra do Papagaio gem e planejamento do uso da propriedade.
42 municípios do Corredor Ecológico da
• Apoio à Câmara Técnica de Zoneamento da • Apoio ao desenvolvimento de projeto piloto
Mantiqueira
APA Serra da Mantiqueira de plano de uso com base conservacionista na
• Capacitação dos Conselhos Consultivos das • Envolvimento da mídia local através de prospec- Fazenda Santana.
6 Unidades de Conservação do Corredor (3 ção e envio permanente de informações sobre • Realização de oficina de capacitação em pla-
oficinas) o desenvolvimento do projeto, que significaram nejamento da propriedade rural para 60 jovens
• Divulgação e apoio à criação de RPPNs 36 matérias publicadas. do ensino técnico.
• Apoio à criação do Conselho do Mosaico da • Mobilização em linguagem teatral em parceria • Realização de campanha de reflorestamento
Mantiqueira com a Movimento Companhia de Teatro, do de áreas prioritárias identificadas de maneira
• Apoio à formação do Conselho Consultivo do município de Extrema, que produziu uma peça participativa durante o treinamento.
Parque Estadual da Serra do Papagaio sobre o Corredor e realizou 10 apresentações do • Visita à Fazenda Experimental de Coronel Pache-
• Visita de prospecção biológica ao Parque Esta- espetáculo na região. co, da EMBRAPA Gado de Leite, em Juiz de Fora.
dual da Serra do Papagaio • Produção de 4 peças para ampla divulgação:
• Elaboração de campanha de rádio com ên- dois folders, um calendário ambiental e um Meta 5: Produzir de forma participativa
fase no combate a incêndio para o Mosaico adesivo “Mantiqueira que te quero Viva”. material didático para 106 escolas de
Mantiqueira • Publicação de três volumes da Série: Corredor 5a a 8a séries do Corredor Ecológico da
Ecológico da Mantiqueira – Temas de Interesse Mantiqueira.
Meta 2: Divulgar e mobilizar o poder públi- para a Gestão disponibilizada durante as capa-
• Realização de duas oficinas “Agenda 21: Educa-
co municipal e a sociedade civil organiza- citações do projeto.
ção Ambiental na minha escola”.
da dos 41 municípios para a construção e • Disponibilização de informações técnicas no
• Realização de oficina de Elaboração do Plano de
adoção de políticas públicas ambientais site (www.valornatural.org.br)
Trabalho Regional do Coletivo Mantiqueira
• Publicação de matérias jornalísticas com o
• Realização do Io Seminário para Gestores Mu- • Produção de 1500 calendários-pesquisa
jornal Correio do Papagaio
nicipais do Corredor Ecológico da Mantiqueira • Publicação e divulgação do Caderno de Edu-
• Veiculação de duas campanhas nas rádios locais
– Tema Resíduos Sólidos e Financiamento de cação Ambiental do Corredor Ecológico da
com os spots Corredor em Ação.
projetos ambientais. Mantiqueira com os resultados do calendário-
• Divulgação do projeto em eventos técnicos
• Realização do IIº Seminário para Gestores Mu- pesquisa para o uso dos professores das 106
nacionais e regionais.
nicipais do Corredor Ecológico da Mantiqueira escolas do Corredor
• Criação e produção de boletim eletrônico
– Tema Planos Diretores Municipais 
mensal
• Realização de quatro oficinas para gestores
• Criação de grupo eletrônico de discussão do
ambientais das prefeituras do Corredor Ecológico
projeto

MANTI Q U E IR A E M R E VIS TA 25
OS D EDO
MAPA S ACORREDOR
F I O S DA GES TÃO PA RDA
ECOLÓGICO T I CMANTIQUEIRA
I PAT I VA

Municípios do Corredor Ecológico da Mantiqueira

39
MINAS GERAIS
36

14 37

23 41
30 35
27
17
10 24
6
13
11 29
26 42

12
16
40 20 SÃO PAULO
7 38
15

1 Aiuruoca 8 Carvalhos 15 Extrema 22 L


2 Alagoa 9 Caxambu 16 Gonçalves 23 M
3 Baependi 10 Conceição dos Ouros 17 Itajubá 24 M
4 Bocaina de Minas 11 Consolação 18 Itamonte 25 O
5 Bom Jardim de Minas 12 Córrego do Bom Jesus 19 Itanhandu 26 P
6 Brasópolis 13 Delfim Moreira 20 Itapeva 27 P
7 Camanducaia 14 Dom Viçoso 21 Liberdade 28 P

26 MAN T I Q U E I R A E M R E V I STA
ENTRE VISTA
MAPA DO COM LINOECOLÓGICO
CORREDOR MATH E U S DA
D EMANTIQUEIRA
S Á PE R E IR A

22

25
9 1 5 33
8 21
3 32
39
34
36

31 4 28
2
37
18
19
1
27 RIO DE JANEIRO

PAULO

22 Lima Duarte 29 Piranguçu 36 São Lourenço


23 Maria da Fé 30 Piranguinho 37 São Sebastião do Rio Verde
24 Marmelópolis 31 Pouso Alto 38 Sapucaí-Mirim
25 Olaria 32 Rio Preto 39 Soledade de Minas
26 Paraisópolis 33 Santa Bárbara do Monte Verde 40 Toledo
27 Passa-Quatro 34 Santa Rita do Jacutinga 41 Virginia
28 Passa-Vinte 35 São José do Alegre 42 Wenceslau Brás

MANTI Q U E IR A E M R E VIS TA 27
EPARCEIROS
N T R E V I S TA CO M LI NO MAT HEU S DE SÁ PER EI R A

Parceiros da implantação do
Corredor Ecológico da Mantiqueira:
7ª Superintendência Regional Dutra ◆ Escola Municipal Nª Sª Lima Duarte, Maria da Fé, Mar-
de Ensino ◆ Aliança para a Con- do Sagrado Coração ◆ Flona de melópolis, Olaria, Paraisópolis,
servação da Mata Atlântica ◆ Passa Quatro ◆ Funbec (Funda- Passa-Quatro, Passa-Vinte, Pi-
AMAI – Associação dos Moni- ção Baependiana de Educação, ranguçu, Piranguinho, Pouso
tores Ambientais de Itamonte ◆ Ecologia e Cultura) ◆ Funda- Alto, Rio Preto, Santa Bárbara
Amanhágua ◆ APA Fernão Dias ção Matutu ◆ Fundação Roge ◆ do Monte Verde, Santa Rita do
◆ APA Serra da Mantiqueira ◆ Fundação SOS Mata Atlântica ◆ Jacutinga, São José do Alegre,
APROSA (Associação dos Pro- Furnas Centrais Elétricas ◆ Gru- São Lourenço, São Sebastião
dutores Rurais de Santo An- po Dispersores ◆ IBAMA/MG ◆ do Rio Verde, Sapucaí-Mirim,
tônio e Vales do Rio Grande e ICMBio ◆ IEF (Instituto Estadual Soledade de Minas e Wences-
Paiol) ◆ ASPASG (Associação de Florestas de Minas Gerais) lau Brás ◆ Promata (Projeto de
de Proteção e Educação Am- ◆ Instituto BioAtlântica ◆ Ins- Proteção da Mata Atlântica de
biental do Vale e da Serra dos tituto Candeia de Cidadania Minas Gerais) ◆ Rádio Circuito
Garcias) ◆ Associação de RPPN ◆ Jornal Correio do Papagaio das Águas FM ◆ Rádio Mineira
de Minas Gerais (ARPEMG) ◆ Movimento Cia de Teatro ◆ do Sul ◆ Rádio Monte Verde FM
◆ CEPF (Fundo de Parcerias Núcleo Mobilizador para Pla- ◆ Rádio Paraisópolis AM - Rádio
para Ecossistemas Críticos) ◆ nos Diretores Municipais do Rio Verde FM ◆ Rádio Universi-
Conservação Internacional ◆ CREA-MG ◆ Núcleo Terras Al- tária de Itajubá AM ◆ Reserva
Emater – Escritório Regional tas da Emater-MG ◆ Orgânica da Biosfera da Mata Atlântica ◆
de Pouso Alegre e Escritório Dedo Verde ◆ Parque Estadual RPPN Alto da Boa Vista ◆ RPPN
Regional de Lavras ◆ Escola do Ibitipoca ◆ Parque Estadual Ave Lavrinha ◆ RPPN Alto Rio
Estadual Cônego João Severo da Serra do Papagaio ◆ Parque Grande ◆ RPPN Fazenda Bela
◆ Escola Estadual Conselheiro Nacional de Itatiaia ◆ PDA Mata Aurora ◆ RPPN Mata do Bugio
Fidelis ◆ Escola Estadual Feli- Atlântica do Ministério do Meio ◆ RPPN Mitra do Bispo/Proje-
zarda Russano ◆ Escola Estadual Ambiente ◆ Prefeituras de Aiu- to Ação no Olhar ◆ RPPN São
Maria do Carmo Lima Pinto ◆ ruoca, Alagoa, Baependi, Bo- Lourenço do Funil ◆ RPPN Ser-
Escola Estadual Nª Sª Apare- caina de Minas, Bom Jardim de ra Negra ◆ RPPN Sitio Pedra
cida ◆ Escola Estadual Nª Sª de Minas, Brasópolis, Camandu- Negra-Sauá ◆ RPPN Terras da
Montserrat ◆ Escola Estadual caia, Carvalhos, Caxambu, Con- Madrugada ◆ Sociedade Ami-
Nilo Peçanha ◆ Escola Estadual ceição dos Ouros, Consolação, gos de Monte Verde ◆ Unidade
Souza Nilo ◆ Escola Municipal Córrego do Bom Jesus, Delfim Regional Colegiada Copam Sul
Álvaro Benfica ◆ Escola Munici- Moreira, Dom Viçoso, Extrema, de Minas ◆ Valor Natural.
pal Bruno Fonseca Pinto ◆ Esco- Gonçalves, Itajubá, Itamonte,
la Municipal Ministro Dr. Tarso Itanhandu, Itapeva, Liberdade,

28 MAN T I Q U E I R A E M R E V I STA
realização

conservar construção participativa


vale a pena do Corredor Ecológico
Pagamento por serviços ambientais da Mantiqueira
financiamento beneficiam produtores rurais Integrando esforços em prol
da conservação ambiental

entrevista Unidades de
José Carlos Carvalho &
Lino Matheus Pereira
Conservação
Exemplos de avanços na
apoio
gestão participativa

artigo proprietários de
Os desafios da reservas privadas
gestão participativa
Conservadores da Mantiqueira

porque você é louco


pela Mantiqueira?

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