Revista Mantiqueira
Revista Mantiqueira
entrevista Unidades de
José Carlos Carvalho &
Lino Matheus Pereira
Conservação
Exemplos de avanços na
apoio
gestão participativa
artigo proprietários de
Os desafios da reservas privadas
gestão participativa
Conservadores da Mantiqueira
apresentação
O Ministério do Meio Ambiente – MMA, por buscando gerar subsídios para a construção participativo de planejamento que visa
meio do Programa Piloto para a Proteção e o aperfeiçoamento de políticas públicas. A aliar conservação dos recursos naturais
das Florestas Tropicais do Brasil, implementa parceria entre agricultores, técnicos, pesqui- com a melhoria da qualidade de vida das
desde 1995 o Subprograma Projetos Demons- sadores e órgãos governamentais e não-go- pessoas, o projeto contribui fortemente
trativos – PDA, atualmente na Secretaria de vernamentais tem se mostrado um caminho para superar barreiras já anacrônicas.
Extrativismo e Desenvolvimento Rural Susten- fundamental para se alcançar estes objetivos. Com a atual publicação a Valor Natural
tável. São objetivos do programa promover O Projeto Construção Participativa do e parceiros atingem o objetivo de dissemi-
aprendizagens, incentivar a experimentação Corredor Ecológico da Mantiqueira, execu- nar os conhecimentos gerados ao longo
de tecnologias sustentáveis e o fortalecimento tado com apoio financeiro do PDA pela da execução do projeto apoiado pelo PDA
da organização social por meio de ações que equipe da Valor Natural, em parceria com expondo os resultados para um público mais
conciliem a conservação dos recursos naturais prefeituras, órgãos ambientais e organi- amplo. Tais resultados são concretos e com
com o desenvolvimento econômico e social. zações não-governamentais, cumpre um grande potencial de extrapolar os limites
Até hoje já foram apoiadas aproximadamente importante papel ao promover a articulação regionais colocando o projeto e o Corredor
400 iniciativas na Amazônia e na Mata Atlân- regional, o planejamento e a implementa- Ecológico da Mantiqueira na vanguarda
tica, as quais resultaram em vasto acúmulo ção de um corredor ecológico em região de iniciativas semelhantes no Brasil.
de conhecimentos sobre diversas estratégias de grande importância na Mata Atlântica.
de manejo e planejamento territorial, sempre Envolvendo 42 municípios em um processo Equipe Técnica PDA
Broto de araucária, símbolo da Mantiqueira, Viveiro da Oscip Amanhágua. Foto: Gisela Herrmann
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A P R E S E N TAÇ ÃO
Ao completar cinco anos de vida a Valor continuadas com o apoio do Subprograma A avaliação final do projeto Constru-
Natural quer comemorar com vocês, amigos Projetos Demonstrativos - PDA, parte do ção Participativa do Corredor Ecológico da
da Mantiqueira, publicando a Mantiqueira em Programa Piloto para a Proteção das Florestas Mantiqueira identificou mais de 148 propostas
Revista. Com essa publicação pretendemos Tropicais do Brasil, do Ministério do Meio expressas no Plano de Ação que estão sendo
mostrar os avanços alcançados através de Ambiente, através do projeto Construção Par- desenvolvidas pelas diversas instituições
projetos desenvolvidos por nós e por muitas ticipativa do Corredor Ecológico da Mantiqueira, governamentais e não governamentais
outras instituições que trabalham nessa rica iniciado em 2006 e encerrado em 2009. que atuam na região. Apresentamos aqui
região. A importância da Serra da Mantiqueira Com o apoio desses dois fundos, pude- algumas dessas iniciativas. Longe de esgotar
foi reconhecida há muito tempo, quando em mos construir, com a participação de mais o universo de ações para a conservação da
1998 foram definidas as áreas prioritárias para de 120 pessoas da região, o Plano de Ação Serra da Mantiqueira, as experiências aqui
a conservação da biodiversidade de Minas do Corredor Ecológico da Mantiqueira, que apresentadas pretendem aguçar o interesse
Gerais. Desde então, as biólogas fundado- é uma agenda com as prioridades para a de novos atores para participar desse esforço
ras da Valor Natural se preocuparam em conservação da região. As palavras-chave conjunto. Esperamos que você se emocione
desenvolver ações para proteger essa região, deste processo foram o planejamento e com as trajetórias de conservacionistas Loucos
que concentra 20% dos remanescentes da a mobilização social. A partir de cinco pela Mantiqueira como Lino Mateus, proprie-
Mata Atlântica mineira. Foi nesse contexto grandes diretrizes foram sugeridas ações tários de reservas privadas, produtores rurais,
que em 2002 surgiu a proposta de forma- a serem desenvolvidas por todos interes- ambientalistas e funcionários de unidades de
ção do Corredor Ecológico da Mantiqueira. sados na proteção da Mantiqueira. Soma- conservação da “Serra que Chora”. Essas tra-
Com 42 municípios, distribuídos pelos das, foram 207 ações para as diretrizes: jetórias, assim como os resultados do projeto
altos da serra, a proposta do Corredor Ecoló- 1) incentivo ao uso sustentado da terra; Construção Participativa do Corredor Ecológico
gico da Mantiqueira era criar uma identidade 2) políticas públicas e icentivos à conservação; da Mantiqueira que aproveitamos para divul-
regional para conectar áreas, instituições e 3) fortalecimento e ampliação das unidades de gar aqui, mostram que a conservação da Man-
pessoas de forma a garantir a proteção e o conservação; tiqueira está em muitos rostos e corações. Leia
uso sustentável da região. Com o apoio do 4) comunicação, informação, mobilização e edu- e reflita sobre suas razões para amar e prote-
CEPF (Fundo de Parceria para Ecossistemas cação ambiental; ger essa linda região. No final, somos todos,
Críticos) começamos a colocar a idéia em prá- 5) incentivo à pesquisa e conhecimento da mesmo, Loucos pela Mantiqueira. Boa leitura.
tica em 2004. As ações então iniciadas foram biodiversidade.
A Valor Natural é uma ONG ambientalista criada em 2004 por um grupo de Expediente:
biólogas. Nosso compromisso de conservar a biodiversidade brasileira come- Mantiqueira em Revista - Julho de 2009
çou a sair do papel na região da Mantiqueira onde estamos concentrando os Publicação da Valor Natural sobre o Construção Participativa do Corredor
esforços de nossa equipe para promover a integração regional em prol da Ecológico da Mantiqueira
conservação. Para saber mais visite o nosso site: www.valornatural.org.br Coordenação: Gisela Herrmann
Supervisão: Cláudia Costa
Esta publicação apresenta os resultados do projeto Construção Participa- Comunicação: Paula Costa
tiva do Corredor Ecológico da Mantiqueira, apoiado pelo Subprograma Apuração, textos e edição: Paula Costa
Projetos Demonstrativos (PDA) – parte do Programa Piloto para Proteção Projeto gráfico: Adaequatio Estúdio de Criação
das Florestas Tropicais do Brasil, (PPG7) do Ministério do Meio Ambiente. Foto capa: Nemo Simas
Valor Natural - Rua Acaraú, 205 / 03 - 30.380-020 - Belo Horizonte - Brasil Tiragem: 800 exemplares
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CORREDOR ECOLÓGICO DA MAN TIQ U E IR A
2) Mosaico Mantiqueira
Unidades de conservação
APA Fernão Dias
FLONA de Lorena
PE da Serra do Papagaio
PE de Campos do Jordão
SP
PM da Cachoeira da Fumaça
MG
PM da Serrinha do Alambari
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de planejamento regional ‘corredor eco- mais amigáveis para a conservação”, afirma. região baseada na realidade local”, conta
lógico’ propicia um fórum integrado para Esse planejamento regional em larga Gisela Herrmann, diretora da Valor Natural.
discutirmos as melhorias no uso da terra e escala proposto pelos corredores é um Maria Cecília Wey de Brito acredita que o
a conservação da biodiversidade”, conclui. grande desafio. Experiências como a do corredor ecológico é um dos caminhos para a
Para Maria Cecília Wey de Brito, Secreta- Corredor Ecológico da Mantiqueira permitem conservação e o desenvolvimento sustentável
ria de Biodiversidade e Floresta do MMA “os a construção de metodologias que poderão e que as experiências em curso devem ser
arranjos territoriais existentes hoje – sítios, ser amplamente utilizadas. Os trabalhos na cada vez mais difundidas. “Qualquer arranjo
reservas da biosfera, corredores ecológicos, região começaram com um diagnóstico dos existente que garanta que o nível local se
mosaicos – propõem uma nova forma de ges- municípios, identificando os atores estraté- organize e participe das decisões será bem
tão. Cada instrumento tem sua forma de atu- gicos e a capacidade instalada para gestão vindo. Precisamos também de comunicar
ação e benefício. “O que é mais interessante é ambiental. Paralelamente foram mapeados os resultados obtidos, construir estudos
que estes arranjos propõem também a gestão os remanescentes florestais e as unidades que mostrem os benefícios desta forma de
de áreas que estão fora das unidades de con- de conservação. “As informações obtidas desenvolvimento com mais clareza”, conclui.
servação e de suas zonas de amortecimento, foram importantes para subsidiar as discus-
com tentativas de atividades de uso do solo sões e propor uma agenda comum para a
Diferente de outras regiões do estado, o Gerais, com 20% dos remanescentes da Concentra um grande número de espécies
processo de ocupação da Mantiqueira foi Mata Atlântica do estado e é nela que estão raras, ameaçadas e endêmicas – que só ocor-
lento: o relevo muito acidentado, a mata nascentes e afluentes de parte dos rios que rem lá – especialmente de plantas e anfíbios.
atlântica exuberante, a fauna que lá vivia e os alimentam o Sistema Cantareira, responsável No entanto, na maior parte do Corredor
temidos índios botocudos eram desafios para pelo abastecimento de água de grande parte Ecológico da Mantiqueira não há pesquisas
poucos. Até mesmo hoje as serras da região, da população da Região Metropolitana de suficientes para conhecer a biodiversidade da
com altitudes médias entre 1200 e 2800 São Paulo. Essa riqueza hídrica deu à região região. Os locais mais estudados até hoje são
metros são um convite à superação física. o bucólico apelido de ‘serra que chora’. o Parque Nacional de Itatiaia (em sua porção
Estes fatores fizeram da Mantiqueira Em termos de biodiversidade a Mata carioca) e o Parque Estadual do Ibitipoca. “Ha-
uma das regiões mais preservadas de Minas Atlântica da Mantiqueira impressiona. via a necessidade de avaliar a biodiversidade e
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tos foram analisados em forma, tamanho, O resultado da tese de Herrmann é um representando o maior complexo protegido
proximidade de outros fragmentos, dentre documento prático que mostra onde, como e de todo o Corredor”, conta Gisela Herrmann.
outras variáveis, para identificar porções mais quando concentrar os esforços de conserva- Luiz Paulo de Souza Pinto, diretor Sênior para
conservadas ou isoladas. O Corredor Ecológico ção na área do Corredor Ecológico da Man- a Mata Atlântica da Conservação Internacional
da Mantiqueira foi então dividido em microba- tiqueira. “Este exercício de seleção de áreas completa que a Serra Negra é uma região
cias para planejamento das ações de manejo. e ações prioritárias para conservação pode muito heterogênea, que apresenta diferentes
“Selecionei no conjunto de microbacias quais influir nos processos de tomada de decisão tipologias da mata atlântica. “Vale lembrar que
deveriam ser destinadas à proteção da biodi- sobre investimentos ambientais. E sabemos o nível de proteção oficial na mata atlân-
versidade, ou à formação de micro-corredores que a área ambiental não pode desperdiçar tica ainda é extremamente baixo e muitas
ou ainda à recuperação dos remanescentes”, os poucos recursos disponíveis”, argumenta. áreas nunca foram estudadas. Então preci-
conta Herrmann. Dentro de cada grupo de samos conhecer áreas relevantes”, declara.
manejo as áreas foram então priorizadas,
através de critérios de importância biológica, Inventários biológicos Os dados conseguidos até o momento
por todos estes esforços e por iniciativas
complementaridade e vulnerabilidade.
na região do Corredor de instituições parceiras reforçam a impor-
tância da conservação da biodiversidade
Os estudos biológicos da Valor Natural na na Mantiqueira. Na região da Serra Negra
A redução e a fragmentação de hábi- Mantiqueira foram intensificados em 2007 pesquisadores da Universidade Federal de Juiz
com a elaboração do Plano de Manejo do de Fora (UFJF) identificaram recentemente
tat disponível para as espécies são as
Parque Estadual do Ibitipoca. Em 2008 foram quatro espécies novas de plantas sendo uma
principais ameaças à biodiversidade.
realizados estudos para o Plano de Manejo do orquídea, uma bromélia e duas espécies da
Com a modificação do uso do solo, os
Parque Estadual da Serra do Papagaio e a exe- família Myrtaceae. Além disso, duas espécies
ambientes naturais disponíveis para as cução do projeto “Geração de Conhecimento anteriormente consideradas endêmicas do
espécies ficam menores a cada dia e a sobre a Biodiversidade em Áreas Estratégicas Parque Estadual do Ibitipoca foram regis-
maior parte delas encontra-se isolada. do Corredor Ecológico da Mantiqueira”. Neste tradas na Serra Negra, o bambu Chusquea
Além de estarem sujeitos a um maior segundo projeto, realizado em parceria com riosaltensis (Poaceae) e a Bromeliaceae Vriesea
número de impactos (ventos, fogo, a Conservação Internacional, foram inven- cacuminis. A equipe de botânica também
tariadas as regiões do Parque Estadual da encontrou na região seis espécies que nunca
invasão por espécies exóticas, etc), os
Serra do Papagaio e a região do município haviam sido registradas em Minas Gerais.
ambientes fragmentados também limi-
de Rio Preto, conhecida como Serra Negra. Em 2006, pesquisadores da Valor Natural
tam o deslocamento de indivíduos de
Essas áreas foram escolhidas pela exis- registraram pela primeira vez na Serra Negra
muitas espécies e as interações entre as tência de grandes fragmentos de floresta a vocalização do mono-carvoeiro, conhecido
diferentes populações. O resultado é a e pela presença de importantes formações também como muriqui, primata ameaçado
extinção de espécies. vegetais. “Além disso, o Parque Estadual de extinção nas listas nacional e estadual.
da Serra do Papagaio forma uma conexão E em 2008 outros primatas foram registra-
importante com o Parque Nacional de Itatiaia, dos, como três grupos de bugios (Alouatta
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Equipe de Botânica nos trabalhos do Plano de Manejo do Parque Estadual da Serra do Papagaio. Foto: Pedro Vianna
guariba clamitans), vários grupos de guigós popularmente como “flamenguinho” (Mela- (Leopardus colocolo), antes conhecido apenas
(Callicebus nigrifrons), macacos-prego (Cebus nophryniscus moreirae) que por muitos anos na região oeste do Estado de Minas Gerais.
nigritus) e micos-estrela (Callithrix penicilla- foi considerado um dos endemismos mais “Estes estudos mostram a importância
ta) demonstrando a importância da Serra notáveis do Parque Nacional do Itatiaia. A de regularizar as terras e implantar de fato o
Negra para a fauna de primatas da região. equipe de pesquisadores ainda registrou uma Parque Estadual da Serra do Papagaio e apre-
No entanto, em 2008, os pesquisadores da espécie de rã conhecida apenas na região sentam uma nova área com potencial para a
Valor Natural não detectaram a presença de de Campos do Jordão e Poços de Caldas e a criação de uma nova unidade de conservação:
mono-carvoeiros na Serra Negra. Isso pode perereca Hypsiboas stenocephalus, considera- a Serra Negra”, afirma Herrmann. “É necessário
significar que o processo de fragmentação da endêmica da região de Poços de Caldas e consolidar as unidades de conservação exis-
somado à intensa pressão de caça, pode ter ameaçada de extinção. A equipe de Botânica tentes e ampliar a rede de áreas protegidas da
depreciado estas populações, obrigadas a encontrou no Serra do Papagaio a Lepechinia Mantiqueira, principalmente com formações
sobreviver em densidades extremamente speciosa que havia sido vista no estado de vegetacionais ainda pouco representa-
baixas e de difícil localização no campo. Minas Gerais apenas pelo naturalista Saint das dentro dos parques atuais”, conclui.
Na região do Parque Estadual da Serra do Hilaire no início do século XIX. E a equipe
Papagaio foi encontrado o sapo conhecido de mamíferos registrou o gato-palheiro
Hypsiboas stenocephalus. Foto: Júlia Santos Lepechinia speciosa fotografada no Parque Estadual Onça parda registrada por armadilha fotográfica
da Serra do Papagaio. Foto: Pedro Vianna no Parque Estadual de Ibitipoca.
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CORREDOR ECOLÓGICO DA MAN TIQ U E IR A
áreas protegidas, ou Unidades de conservação nejar adequadamente as áreas de uso, para que a de uso do solo em uma região, que pode
(UCs), são estratégicas, atuando como núcleos região se transforme em um corredor ecológico ser composta por pastagem, agricultura,
de onde partem as ações de conservação e é preciso o envolvimento e cooperação entre as floresta, etc.
mobilização, influindo na matriz da paisagem instituições que atuam na região e as pessoas
O desenho definido para o Corredor Ecológi- planejamento regional. As reuniões para pla- região, mostrando de forma bem objetiva
co da Mantiqueira tem mais de 11 mil quilômetros nejamento participativo contaram com mais quais esforços deveriam ser priorizados para
quadrados. São serras, rios, mata atlântica, cam- de 120 pessoas. Foram levantados os princi- melhoria da qualidade de vida e da conser-
pos e biodiversidade exuberantes que convivem pais problemas ambientais da região da Man- vação ambiental na Mantiqueira”.. “Uma longa
com a rica cultura de pessoas simples e acolhe- tiqueira. A partir deles foram propostas linhas caminhada só se inicia quando queremos e
doras, e cidades muito charmosas. de ação e atividades para solucioná-los. O re- damos o primeiro passo e este nos fizemos.
Os pontos chave da implantação do Cor- sultado deste processo virou o Plano de Ação O resultado virá com a persistência e com o
redor foram o planejamento participativo e a do Corredor Ecológico da Mantiqueira, uma tempo” afirmou José Alexandre Ribeiro da
criação de uma identidade regional. A partir agenda comum de ações articuladas em prol Secretaria de Meio Ambiente de Piranguçu
dos diagnósticos e da articulação interinsti- do desenvolvimento sustentável. Segundo durante o planejamento participativo.
tucional na primeira etapa de implantação Gisela Herrmann “o Plano de Ação, construído As diretrizes do Plano de Ação têm dire-
do Corredor, os atores sociais da região foram com as lideranças e instituições locais, reflete cionado programas de conservação na região
convidados a construir uma proposta de as principais demandas socioambientais da assim como as ações da Valor Natural. A partir
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Participantes do encontro final para o planejamento participativo do Corredor Ecológico da Mantiqueira. Foto: Nemo Simas
destas diretrizes foi idealizado o projeto elaboração de cartilha de educação am- Mantiqueira. Um ponto ressaltado pelos
Construção Participativa do Corredor Ecológico biental para as escolas do Corredor e muitos participantes foi a coerência do Plano de
da Mantiqueira. Capacitação dos gestores outros produtos vieram deste projeto. Ação com a realidade regional. “Cada vez que
municipais de meio ambiente e de conselhei- consulto o Plano de Ação me impressiono
ros das unidades de conservação; discussões com o trabalho feito pelos participantes do
sobre instrumentos de conservação como
reserva legal e planejamento da pecuária
Onde chegamos planejamento: é um documento que de fato
reflete a realidade da região”, conta Cláudia
de forma a minimizar impactos ambientais; No final de 2008 parceiros estratégicos do Costa, diretora da Valor Natural. Não é a toa
treinamento de instituições do terceiro setor Corredor estiveram em Passa Quatro para que das 207 ações consideradas prioritárias
para elaboração de projetos; mobilização e avaliar os resultados do projeto Constru- para desenvolver a região da Mantiqueira em
sensibilização através de linguagem teatral; ção Participativa do Corredor Ecológico da bases sustentáveis, 148 estão sendo executa-
das pela Valor Natural ou por outras institui-
Distribuição de calendário-pesquisa para conhecer a realidade local – base da cartilha de Educação Ambiental do Corredor
Ecológico da Mantiqueira. Foto: Isabel Pinto ções públicas e privadas da região, segundo
dados do sistema de monitoria do projeto.
O gestor do Circuito Turístico Terras
Altas da Mantiqueira, Kleber Rocha, concor-
da e acrescenta que o Plano de Ação é um
instrumento importante para aqueles que
trabalham com a questão ambiental na Manti-
queira. “O melhor de tudo é que apenas dois
meses após o planejamento já tínhamos este
documento em mãos”, ressalta. Um dos desa-
fios, no entanto, tem sido ampliar o alcance
desse planejamento, fazendo com que mais
instituições e pessoas se apropriem do docu-
mento. “É importante que as ações ambientais
e de desenvolvimento social na Mantiqueira
sejam articuladas buscando uma maior
sinergia nas ações”, ressalta Cláudia Costa.
Ela ressalta ainda a importância das pessoas
entenderem que a Valor Natural foi um cata-
lisador desse planejamento, mas o resultado
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CORREDOR ECOLÓGICO DA MAN TIQ U E IR A
MANTI Q U E IR A E M R E VIS TA 9
ww
CORREDOR ECOLÓGICO
E N T R E V I S TA DAMAT
CO M LI NO MANTIQUEIRA
HEU S DE SÁ PER EI R A
10 MAN T I Q U E I R A E M R E V I STA
ww
um ambientalista
por natureza
Lino Matheus de Sá Pereira: pioneirismo
na defesa pela Mantiqueira.
Foto: Gisela Herrmann
Uma manhã de conversa com Lino Matheus A Fazenda Boa Vista está entre os ma- que recebeu o nome de Dossiê Mantiqueira.
de Sá Pereira é uma aula de história do ciços montanhosos do Parque Nacional do Quando representantes de ONGs inter-
movimento ambientalista na Mantiqueira. Per- Itatiaia e da Pedra Selada, com caminhos nacionais chegaram ao Rio de Janeiro para a
sonalidade conhecida na região, chegou na e trilhas incrustadas na exuberante mata Eco 92, Matheus os convidou a visitar Santo
Mantiqueira nos an os 70, época do surgimen- atlântica e belas cachoeiras do rio Prata. Antônio do Rio Grande e plantar o Bosque das
to dos movimentos comunitários alternativos Hoje, nesta terra, Lino Matheus mantém Nações, com mudas de árvores nativas da mata
em todo o mundo. Eram grupos de jovens um Centro de Vivências Rurais, uma char- atlântica. Hoje esta vegetação está exuberante.
que buscavam viver de forma fraterna em mosa pousada e um acervo de mais de 10 “A Mantiqueira foi aparecendo nacionalmente
comunhão com a natureza. Lino Matheus co- mil documentos, 5 mil livros e história que pelo embate ecológico” relata. Muito desta
mungava destas idéias, mas seu temperamen- enche os olhos de qualquer visitante. projeção deve-se às batalhas travadas por
to político o levaria um pouco mais adiante. Ainda nos anos 70 fundou a Aprobo (As- Lino Matheus nesta terra. Impossível relatar
Nascido no Rio de Janeiro em 31 de sociação dos Protetores da Natureza dos Vales toda uma vida dedicada à conservação.
dezembro de 1943, Lino Matheus afirma da Bocaina) e começou a denunciar o des- A paixão pela terra que escolheu para
que nunca foi muito ligado ao “espetáculo matamento da Mantiqueira por serrarias clan- viver fica evidente em cada fala, cada gesto
urbano”. Desde a década de 60 frequentava destinas. “Tinha acabado de chegar e bati de e cada revelação da postura ideológica deste
a parte paulista da Bocaina. “Desde então frente com aqueles que dominavam econo- autodidata carioca. “Acredito que se você
nenhum lugar foi suficientemente empol- micamente e politicamente os municípios. A quer transformar, ou melhorar a vida de uma
gante”, conta. Começou então a procurar reação foi ameaçadora”, lembra. As denúncias comunidade, você se coloca, se posiciona”.
uma terra e foi conhecer a região de Itatiaia ganharam repercussão na imprensa nacional Lino Matheus é uma daquelas pessoas
e Maringá. Acabou por comprar sua pro- e Lino chegou a pedir a sua mulher e filho que acredita em suas convicções, defende
priedade no distrito de Mirantão quando que saíssem da região temendo represália. com fervor a Mantiqueira e conquistou o
passeava pelas cachoeiras do Vale do Prata e Matheus também idealizou uma respeito de todos na região. Sua trajetória
conheceu Seu João Mendes, um dos grandes iniciativa inovadora para sensibilizar veícu- de vida foi homenageada durante os 20
amigos e parceiros na luta em defesa da anos da APA Serra da Mantiqueira. “Você
los de imprensa, formadores de opinião e
tem que ser uma referência detestada às
natureza da Mantiqueira, falecido em 1989. pesquisadores voluntários sobre a riqueza
vezes porque os confrontos são naturais. Mas
Foi nesta terra que, no início dos anos da região da Mantiqueira: a Jegue Trophy.
uma hora a comunidade passa a te identi-
80, Matheus abrigou o IV Enca (Encontro de Os participantes percorriam em jegues 200
ficar como uma pessoa da terra” acredita.
Comunidades Rurais Alternativas). Eram cerca quilômetros em 14 dias. Neste percurso
O envolvimento com a Serra que Chora é
de 500 pessoas se expressando com as mais podiam observar de perto a biodiversida-
tão grande que ele pretende doar a sua terra
diversas visões, uma batalha da juventude. “A de, conversar com as comunidades sobre
para implantar seu maior sonho: a Fundação
região ficou ligada aos malucões por causa preservação ambiental e observar os locais
Mantiqueira. É um centro de pesquisas e
deste movimento”, afirma. O movimento mais alterados por caça, queimadas e extração
difusão de conhecimentos multidisciplinares
ambientalista na Mantiqueira começou assim, clandestina de madeira. Em 1988 o grupo
com o objetivo de promover práticas conserva-
fundindo o movimento comunitário com o documentou a abertura de 6 estradas irregu-
cionistas. “Estou buscando pessoas, entidades
movimento ecológico dentro de uma lógica lares para escoar a produção das serrarias.
e organismos internacionais dispostos a aceitar
muito própria da juventude da época, que Ainda em 1988 foi um dos articuladores e
este desafio de transformar a Fazenda Boa
se revoltava com o sistema capitalista e com o primeiro dirigente da Fedapam – Frente de
Vista em uma referência no desenvolvimento
a ditadura militar. “O planejamento ideo- Defesa da APA da Mantiqueira – formada por
rural sustentável da Mantiqueira”. Deixamos
lógico de tudo isso foi muito solitário, mas 15 ONGs atuantes na região. “A luta principal
Lino Matheus depois de uma gostosa torta
compensador” garante Matheus. “Quando as da Fedapam foi para implantar de fato a APA
preparada por Nívea, sua esposa, certos de que
pessoas sonham com a coletividade e têm Serra da Mantiqueira que, até então, só existia este sonho vai ser realizado. E de que conhe-
oportunidade de se reunir, e os sonhos con- no papel”, conta. Para isso a Fedapam elabo- cemos um dos personagens mais ilustres na
vergem, gera uma grande energia positiva”. rou um importante diagnóstico da região história da conservação da Mantiqueira.
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U N I DAD E S D E CO N SER VAÇ ÃO
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A contribuição da Valor Natural UNIDADES D E CO N S E R VAÇÃO
Parte comportamental:
• Habilidades essenciais ao perfil de um
conselheiro
• Comportamentos que efetivamente con-
duzem a solução do problema
• Vivências de solução de problema em
grupo
• Situações vivenciadas nos exercícios X as
vivenciadas nos conselhos consultivos.
• Modelo de organização do trabalho: ciclo
de gestão
Participantes da oficina para gestores e conselheiros de UCs do Corredor Ecológico da Mantiqueira. Foto: Paula Costa
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U N I DAD E S D E CO N SER VAÇ ÃO
da Serra do Mar” que apóia o planejamen- Em 2006 a Valor Natural coordenou as ações para criação do conselho consultivo
to e implementação da gestão integrada do Parque Estadual Serra do Papagaio. Durante este processo foram realizadas
de unidades de conservação em quatro
duas reuniões preparatórias e de esclarecimento; cinco reuniões com comunidades ru-
mosaicos, incluindo o Mosaico Mantiqueira.
Com esse projeto serão desenvolvidas ações rais; parcerias com veículos de comunicação locais e outras estratégias de divulgação,
de capacitação em temas priorizados pelos tais como emissão de correspondência, comunicação “corpo-a-corpo”, telefonemas, in-
conselheiros de cada Mosaico; apoio à gestão
ternet e uma reunião final com mais de 130 participantes. O conselho criado formalizou
integrada e à secretaria executiva do Mosaico;
e apoio a dois projetos que favoreçam a um canal de comunicação entre órgão gestor e comunidade e pode ajudar a resolver os
conectividade na região. Essa iniciativa problemas enfrentados pelo parque, que não tem suas terras totalmente regularizadas.
pretende fortalecer o processo da gestão
integrada de unidades de conservação e
fornecer subsídios para uma política nacional
de mosaicos de unidades de conservação. Parque Estadual da Serra do
Papagaio. Foto Nemo Simas
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LOUCOS PE L A MAN TIQ U E IR A
MANTI Q U E IR A E M R E VIS TA 15
LO U CO S P E L A MA N T I Q U EI R A
“A Mantiqueira é a coisa mais linda e “Foi pela Mantiqueira que me apaixonei. “Sou louca pela Mantiqueira porque ela
importante que existe no mundo. É o Cheguei por lá no final dos anos 80, com me faz mais sã a cada dia. Porque ado-
mais imponente testemunho geológico minha irmã Sara e amigos, em busca ro olhar em volta e me sentir protegida
da cisão entre a África e a América do Sul. de luz e paz. E que a terra tivesse plano, pelo verde que recobre as montanhas. E
Tem uma beleza estupenda: detém as morro, mata, nascente que sobrevivesse porque adoro estar no alto e olhar o mar
mais belas paisagens naturais do Brasil. ao tempo da seca e sol de leste para oeste. ondulado, de todas as cores, que se põe
É uma caixa d’água fundamental para E a Fragalha tem tudo isso. E muito mais. E
cor de rosa amarelado ao pôr do sol. Já
os estados de São Paulo, Rio de Janeiro como minha terra natal, fica junto de uma
nos dias de chuva, é como estar dentro
e Minas Gerais. A Mantiqueira e o Vale área protegida, o Parque Estadual Serra
de uma caixinha de algodão. Gosto da
do Papagaio, aos pés do Pico de mesmo
do Paraíba são o berço de uma cultura Mantiqueira porque a água é gelada e
nome. Virou RPPN. É para ser protegida.
deliciosa, uma das essências do Brasil, faz a gente sentir cada gota de sangue
Sara se foi. No ano passado. Mas repou-
que é a cultura caipira. O primeiro Parque circulando pelo nosso corpo. Gosto da
sa lá, em um nicho na nossa ‘pedra de
Nacional e a primeira APA Federal estão Mantiqueira porque minha filha nasceu
meditação’ cercada de ipês amarelos e
na Mantiqueira, o que mostra que esta re- aqui, porque o povo é simples, porque
cerejeiras. Outro irmão a acompanhou.
gião é o primeiro laboratório de proteção
Ficamos nós. Seu filho Pedro e o compa- aqui me conhecem pelo nome e me dão
da natureza brasileira. A Mantiqueira com
nheiro Chicão na lida da RPPN Fragalha e ‘Bom dia!’ quando me cruzam pela rua.
suas araucárias é o repositório de uma
eu ainda no Rio, na lida da cidade grande. Gosto da Mantiqueira porque ela é boni-
biodiversidade importantíssima e única
E nossa terrinha querida. Louca? Sou sim. ta, é bonita e é bonita!”
e de toda uma civilização. É por tudo isso
Mas por viver longe da Mantiqueira. Um
que a gente é louco pela Mantiqueira! dia, fico de vez por lá.”
Foto: Arquivo Pessoal Foto: Arquivo Pessoal Foto: Paula Costa
José Pedro de Oliveira Costa é arqui- A jornalista Paula Guatimosim nas- Isabel de Andrade Pinto atualmen-
teto e ecologista, natural de Taubaté, ceu em Ipatinga, próximo ao Parque te é secretária de Agricultura e Meio
situada no sopé da Mantiqueira. É au- Estadual do Rio Doce. A paixão pela Ambiente de Itamonte. Nasceu em
conservação começou na infância, nas
tor de Aiuruoca um estudo de conser- Brasília, onde se formou como bióloga.
idas à fazenda da família, com casa
vação do ambiente natural e cultural. No ano 2000 se mudou para a Manti-
grande, curral de gado Guzerá, “mu-
Coordenou a proposta de criação da nho” d’água e nascente que fornecia a queira, se apaixonando pela Serra e
APA da Mantiqueira e integra a força água de beber em casa. É conselheira pelas pessoas. Hoje está erradicada
tarefa pela criação do Parque Nacional do Parque Estadual Serra do Papagaio em Itamonte onde cria sua linda filha
Altos da Mantiqueira. e da APA Serra da Mantiqueira. Manuela.
16 MAN T I Q U E I R A E M R E V I STA
LOUCOS PE L A MAN TIQ U E IR A
“Aqui vivo na Harmonia. A paisagem da serra, Foto: Gisela Herrmann O zootecnista Nilo Salgado Jardim nasceu
com seus vales e montanhas traz uma paz inte- em Resende (RJ), no pé da serra. A Manti-
rior. São cachoeiras lindas de águas cristalinas. queira sempre foi a paisagem da sua jane-
Matas, que apesar da ação do homem, ainda la. Sua família está na região desde 1801 e
guardam os segredos da vida. Outro dia vi um ele garante que os melhores momentos
caititu; é comum ouvir bugios e sauás; os jacus já da sua infância também foram vividos
são mais que xuxu na cerca. Aqui não se esquece em Penedo e Capelinha, sempre com a
que somos parte da Mãe Terra. Por isso e mais Mantiqueira como pano de fundo.
um pouco, sou louco pela Mantiqueira.”
“Porque nasci aos seus pés, porque é linda, Kleber Rocha é gestor do Circuito Turístico
Foto: Paula Costa
com seu verde-jeans, se vista de longe; pelo Terras Altas da Mantiqueira. Nascido em
que ela representa na história do Bandei- Passa Quatro, desde criança anda pelas
rantismo; porque já assisti um nascer e um montanhas e nada nos rios da Mantiquei-
pôr do sol na Pedra da Mina; porque é a mãe ra. É um dos fundadores da Associação Pró
das águas onde aprendi a nadar e das águas Serrafina, participante entusiasmado das
minerais que saciaram e continuam saciando reuniões dos conselhos de meio ambien-
a minha sede... de vida inclusive”. te e de Unidades de Conservação e um
grande parceiro do Corredor Ecológico
da Mantiqueira.
A Mantiqueira é um refúgio de tudo que é bom. Gustavo Tomzhinski é analista ambiental do “Aqui é a nossa menina dos olhos. É o paraíso,
Águas puras, florestas, alturas, gente da terra e Parque Nacional de Itatiaia, representante da temos lugares fantásticos, coisas que você nem
amantes da natureza, vindos de todas as partes. Unidade no Mosaico Mantiqueira e coorde- acredita. Muito bonito mesmo. Eu já tive chance
Tem um encanto, uma atmosfera indescritível. nador do Núcleo de Prevenção e Combate a de morar em outro lugar, mas preferi ficar aqui,
Majestosa e singela ao mesmo tempo. Mas o Incêndios do Parque. acho o lugar mais bonito do mundo.”
que mais me toca na Mantiqueira é sua natureza Antônio Marcos de Oliveira nasceu na região
acolhedora. Ela é única nas condições naturais “Sou louca pela Mantiqueira, por tudo que a da Serra da Paula, em Baependi, e é produtor
que oferece para viver e no futuro que reserva.” Mantiqueira é e pela beleza que ela ainda tem. rural. Conserva a Mantiqueira todos os dias
Luiz Midéa desenvolve o Patrimônio do Ma- Pela possibilidade de trabalhar pela preserva- ao participar das ações de fomento florestal
tutu, um santuário natural aonde pratica agri- ção e poder contribuir de alguma forma para no entorno do Parque Estadual da Serra do
cultura, paisagismo e hospitalidade. Trabalha conservar o que restou da Mata Atlântica. Esta Papagaio desenvolvidas pela Amanhágua e
em projetos socioambientais da Fundação é uma região realmente muito especial” pelo Promata - IEF/MG.
Matutu. Aprofundou sua relação com a Serra A goiana Brasília Mascarenhas e seu ma-
da Mantiqueira em 19 anos de convívio e rido Celso são cineastas e passaram mais “Sou louco pela Serra da Mantiqueira, pelo clima,
trabalho na comunidade do Matutu. de 10 anos produzindo o premiado longa- por este visual, este cenário que a Mantiqueira
metragem “Mamazônia - a Última Floresta”. nos proporciona todo santo dia. É o céu azul
Freqüentadora da Mantiqueira, descobriu há com um frio gostoso, uma culinária típica de
“Porque a conjunção dos fatores naturais e hu-
dez anos uma terra na região do Gamarra, montanha, bem quentinha. É um clima bem
manos da região é única, contagiando a todos
que transformou na RPPN Alto Gamarra, um agradável para tudo.”
que por aqui passam com seus deslumbrantes
pedacinho preservado da Mantiqueira. Clarismundo Benfica do Nascimento é chefe
atributos ecológicos e o caráter acolhedor de
seus habitantes”.
da APA Serra da Mantiqueira.
MANTI Q U E IR A E M R E VIS TA 17
CO N S E R VA R A F LO RES TA VA LE A PENA
Conservar Iniciativas de
a floresta
pagamento por
serviços ambientais
vale a pena
geram receita para
o produtor rural
18 MAN T I Q U E I R A E M R E V I STA
CONSER VAR A FLO R E S TA VAL E A PE N A
investimentos em áreas mais significativas que tinha muita água na nossa terra, mas 15 mil mudas já plantadas em propriedades
para proteção da biodiversidade e dos eu estava sofrendo porque tinha que pegar vizinhas. Ele conta que seus dois filhos hoje
recursos hídricos” afirma Gisela Herrmann água com bomba para usar na minha casa. estão orgulhosos do pai, um defensor da
Os esforços começam a dar resultados. Agora chega bastante água e bem limpinha”. natureza. “Isso é o que posso deixar para
Em apenas dois anos seu Antônio já vê resul- Também dentro do projeto com a Amanhá- os meus filhos, um patrimônio natural”.
tados em sua propriedade e garante que a gua, Seu Antônio fez o curso de viveirista e
vazão de água aumentou. “Meus avós falavam implantou um viveiro familiar que produziu
e a Valor Natural gerou o projeto Atitude das propriedades rurais”, afirma. pela terra e pela natureza fez com que se
Verde, que incentiva os proprietários rurais A secretária de Desenvolvimento interessasse pelo Atitude Verde apresenta-
a recompor sua propriedade. Os incentivos Agropecuário e Meio Ambiente de Itamon- do por sua filha, Patrícia. “Natureza é vida,
no município podem chegar a R$ 300,00 te, Isabel de Andrade Pinto conta que as e vida não se destrói”, ensina Zé da Mata.
por hectare inserido nas ações de fomento. ações de fomento florestal são parte de uma “E com esse projeto estamos construindo
Para conferir sustentabilidade financeira a política municipal de pagamento de serviços mais vida”, completa. Você confere a poesia
longo prazo para o Atitude Verde, a Prefei- ambientais. “O Fundo Municipal de Meio do Zé da Mata no final desta reportagem.
tura de Itamonte está criando um Fundo Ambiente, que receberá os recursos do ICMS A parceria em Itamonte pode garan-
Municipal de Meio Ambiente que aplicará Ecológico, será administrado em parceria tir grandes frutos para a conservação da
os recursos do ICMS Ecológico recebidos com o Conselho Municipal de Meio Ambien- biodiversidade no longo prazo. Isso porque
pelo município em ações de conservação. te - Codema”. Para Pinto o principal é continu- todas as ações serão amparadas em ba-
Para o Prefeito de Itamonte, Marcos ar estudando formas de incentivar ainda mais ses técnicas: as propriedades estão sendo
Tridon de Carvalho este convênio é o pri- o proprietário rural parceiro da conservação. mapeadas e as ações de fomento levam em
meiro passo para incentivar o proprietário Um dos proprietários que se interessaram consideração a formação de micro corredores
rural a proteger suas nascentes, localizadas pelo Atitude Verde é uma personalidade de biodiversidade no município. “Nos locais
nas porções de maior altitude do estado de conhecida em Itamonte. Ele se apresenta identificados como prioritários para conser-
Minas Gerais. Segundo Carvalho os investi- como “Zé da Mata, poeta do sertão”, apesar vação, como no entorno dos parques, onde
mentos financeiros nas propriedades rurais de ser nascido na Mantiqueira, região em a fragmentação não é muito intensa, deverá
do município irão aumentar ainda mais em que a água é abundante. Pode ser visto ser estimulada a recuperação natural, visando
2009. “Com a implantação de novas indús- sempre arrumado, com chapéu branco, minimizar os custos e manter a diversidade
trias, a arrecadação de ICMS no município vai botas de bico fino e uma fivela bem gran- genética regional, sem influência de mudas
aumentar bastante e pretendemos investir de no cinto. Produtor de leite, Zé da Mata oriundas de outras regiões” esclarece Gisela
50% deste recurso no desenvolvimento também é pintor, escultor e poeta. O amor Herrmann, diretora da Valor Natural.
MANTI Q U E IR A E M R E VIS TA 19
CO N S E R VA R A F LO RES TA VA LE A PENA
Descendo sobre a colina Pois o povo em vaidade ◆ Área igual ou superior a dois hectares.
20 MAN T I Q U E I R A E M R E V I STA
QUANDO O CONSER VADOR TEM N O M E E S O BR E N O M E
MANTI Q U E IR A E M R E VIS TA 21
QUAN D O O CO N S E R VA DO R T EM NO M E E S O BR ENO M E
22 MAN T I Q U E I R A E M R E V I STA
ENTRE VISTA COM JOSÉ CAR LO S CAR VAL H O
MANTI Q U E IR A E M R E VIS TA 23
OS D E S A F I O S DA GES TÃO PA R T I C I PAT I VA
24 MAN T I Q U E I R A E M R E V I STA
RESULTAD O S CO N CR E TO S
MANTI Q U E IR A E M R E VIS TA 25
OS D EDO
MAPA S ACORREDOR
F I O S DA GES TÃO PA RDA
ECOLÓGICO T I CMANTIQUEIRA
I PAT I VA
39
MINAS GERAIS
36
14 37
23 41
30 35
27
17
10 24
6
13
11 29
26 42
12
16
40 20 SÃO PAULO
7 38
15
26 MAN T I Q U E I R A E M R E V I STA
ENTRE VISTA
MAPA DO COM LINOECOLÓGICO
CORREDOR MATH E U S DA
D EMANTIQUEIRA
S Á PE R E IR A
22
25
9 1 5 33
8 21
3 32
39
34
36
31 4 28
2
37
18
19
1
27 RIO DE JANEIRO
PAULO
MANTI Q U E IR A E M R E VIS TA 27
EPARCEIROS
N T R E V I S TA CO M LI NO MAT HEU S DE SÁ PER EI R A
Parceiros da implantação do
Corredor Ecológico da Mantiqueira:
7ª Superintendência Regional Dutra ◆ Escola Municipal Nª Sª Lima Duarte, Maria da Fé, Mar-
de Ensino ◆ Aliança para a Con- do Sagrado Coração ◆ Flona de melópolis, Olaria, Paraisópolis,
servação da Mata Atlântica ◆ Passa Quatro ◆ Funbec (Funda- Passa-Quatro, Passa-Vinte, Pi-
AMAI – Associação dos Moni- ção Baependiana de Educação, ranguçu, Piranguinho, Pouso
tores Ambientais de Itamonte ◆ Ecologia e Cultura) ◆ Funda- Alto, Rio Preto, Santa Bárbara
Amanhágua ◆ APA Fernão Dias ção Matutu ◆ Fundação Roge ◆ do Monte Verde, Santa Rita do
◆ APA Serra da Mantiqueira ◆ Fundação SOS Mata Atlântica ◆ Jacutinga, São José do Alegre,
APROSA (Associação dos Pro- Furnas Centrais Elétricas ◆ Gru- São Lourenço, São Sebastião
dutores Rurais de Santo An- po Dispersores ◆ IBAMA/MG ◆ do Rio Verde, Sapucaí-Mirim,
tônio e Vales do Rio Grande e ICMBio ◆ IEF (Instituto Estadual Soledade de Minas e Wences-
Paiol) ◆ ASPASG (Associação de Florestas de Minas Gerais) lau Brás ◆ Promata (Projeto de
de Proteção e Educação Am- ◆ Instituto BioAtlântica ◆ Ins- Proteção da Mata Atlântica de
biental do Vale e da Serra dos tituto Candeia de Cidadania Minas Gerais) ◆ Rádio Circuito
Garcias) ◆ Associação de RPPN ◆ Jornal Correio do Papagaio das Águas FM ◆ Rádio Mineira
de Minas Gerais (ARPEMG) ◆ Movimento Cia de Teatro ◆ do Sul ◆ Rádio Monte Verde FM
◆ CEPF (Fundo de Parcerias Núcleo Mobilizador para Pla- ◆ Rádio Paraisópolis AM - Rádio
para Ecossistemas Críticos) ◆ nos Diretores Municipais do Rio Verde FM ◆ Rádio Universi-
Conservação Internacional ◆ CREA-MG ◆ Núcleo Terras Al- tária de Itajubá AM ◆ Reserva
Emater – Escritório Regional tas da Emater-MG ◆ Orgânica da Biosfera da Mata Atlântica ◆
de Pouso Alegre e Escritório Dedo Verde ◆ Parque Estadual RPPN Alto da Boa Vista ◆ RPPN
Regional de Lavras ◆ Escola do Ibitipoca ◆ Parque Estadual Ave Lavrinha ◆ RPPN Alto Rio
Estadual Cônego João Severo da Serra do Papagaio ◆ Parque Grande ◆ RPPN Fazenda Bela
◆ Escola Estadual Conselheiro Nacional de Itatiaia ◆ PDA Mata Aurora ◆ RPPN Mata do Bugio
Fidelis ◆ Escola Estadual Feli- Atlântica do Ministério do Meio ◆ RPPN Mitra do Bispo/Proje-
zarda Russano ◆ Escola Estadual Ambiente ◆ Prefeituras de Aiu- to Ação no Olhar ◆ RPPN São
Maria do Carmo Lima Pinto ◆ ruoca, Alagoa, Baependi, Bo- Lourenço do Funil ◆ RPPN Ser-
Escola Estadual Nª Sª Apare- caina de Minas, Bom Jardim de ra Negra ◆ RPPN Sitio Pedra
cida ◆ Escola Estadual Nª Sª de Minas, Brasópolis, Camandu- Negra-Sauá ◆ RPPN Terras da
Montserrat ◆ Escola Estadual caia, Carvalhos, Caxambu, Con- Madrugada ◆ Sociedade Ami-
Nilo Peçanha ◆ Escola Estadual ceição dos Ouros, Consolação, gos de Monte Verde ◆ Unidade
Souza Nilo ◆ Escola Municipal Córrego do Bom Jesus, Delfim Regional Colegiada Copam Sul
Álvaro Benfica ◆ Escola Munici- Moreira, Dom Viçoso, Extrema, de Minas ◆ Valor Natural.
pal Bruno Fonseca Pinto ◆ Esco- Gonçalves, Itajubá, Itamonte,
la Municipal Ministro Dr. Tarso Itanhandu, Itapeva, Liberdade,
28 MAN T I Q U E I R A E M R E V I STA
realização
entrevista Unidades de
José Carlos Carvalho &
Lino Matheus Pereira
Conservação
Exemplos de avanços na
apoio
gestão participativa
artigo proprietários de
Os desafios da reservas privadas
gestão participativa
Conservadores da Mantiqueira