CAPÍTULO 1
Cybele Maria Rabelo Ramalho
É psicóloga (CRP 19/300) e psicoterapeuta
desde 1981, com especializações em
psicologia clínica, em psicodrama e
psicoterapia analítica. Professora-
supervisora de psicodrama e, durante 25
anos, professora do curso de Psicologia
da Universidades Federal de Sergipe.
Atualmente é diretora da clínica-escola
de Psicologia PROFINT – Profissionais
Integrados Ltda., onde leciona e coordena
diversas formações. Livros publicados:
“Aproximações entre Jung e Moreno”(2002),
“Descobrindo Enigmas de Heróis e Contos
de Fadas” (2008, em co-autoria com Rosa
Corumba), “Psicodrama e Dinâmica de
Grupo”(2012) e “A Jornada do Feminino
Selvagem: pelos caminhos das deusas,
mitos, contos, sonhos e artes” (2021). Auto-
ra e organizadora dos livros “Psicodrama
e Psicologia Analítica, construindo pontes”
(2010) e “Recortes Psicodramáticos” (2012).
Email: [email protected]
Instagram @cybeleramalhoprofint
VANESSA RAMALHO FERREIRA STRAUCH
Figura 13 (desenho a bico de pena, C. Ramalho, 2021):
Eros e Psiquê
274
QUANDO O AMOR E A ALMA
SE ENCONTRAM - OS
RELACIONAMENTOS AMOROSOS E O
MITO DE EROS E PSIQUÊ
“Porque tão forte quanto a morte é o amor,
a paixão é tenaz como o inferno.”
(Apuleio)
P ara compreendermos a jornada feminina em direção ao
aprendizado do amor, neste capítulo, temos como inspiração
um antigo mito descrito pelo escritor e filósofo romano Lucius
Apuleio, uma história originalmente extraída do seu livro Me-
tamorfosis, que foi publicado no século 2 d.C. Tentarei aqui não
só descrever brevemente o mito, como também fazer referência
às suas implicações psicológicas, inspirada na abordagem da
psicologia analítica, que afetam, inclusive na vida real, as mu-
lheres que passaram por uma experiência de amor ferido. Na
verdade, essa história é um conto popular com características
de um mito e com a estrutura semelhante a um conto de fadas
(Barcellos, 2019).
Para introduzir o tema, é bom lembrar que Psiquê, Psyché
em grego, significa tanto borboleta como alma. A borboleta é
uma alegoria perfeita para a imortalidade da alma, pois ela,
depois de sair do casulo, tem uma vida mesquinha e rastejante
como lagarta, mas, posteriormente, pode flutuar e se tornar um
belo inseto que embeleza a primavera. Uma crença popular da
antiguidade greco-romana afirmava que a alma deixava o corpo
275
CYBELE MARIA RABELO RAMALHO
na forma de borboleta, tornando-se esse inseto um belo símbolo
de renascimento (Ronecker, 1997, p.192). Psiquê, portanto, signi-
fica a alma humana, purificada pelos sofrimentos e, finalmente,
preparada para gozar da verdadeira felicidade (Bulfinch, 2001).
Eros, por sua vez, significa “amor”, “desejo”. Esse nome
masculino surgiu na mitologia grega com o filho de Afrodite
e Ares, uma criança com asas que andava armado com flechas
que causavam paixão a quem fosse, enfim, acertado por elas.
O mito em questão revela os vários aspectos do relaciona-
mento afetivo, é um mito essencial que trata da criatividade
psicológica e da transformação da personalidade, principal-
mente útil para compreendermos a relação amorosa. Segundo
Caetano (2016), Eros (deus do amor) e Psiquê (personificação da
alma) podem ser vistos também como um modelo mítico para
uma psicologia criativa das relações amorosas, pois, muitas das
dificuldades contemporâneas que afligem o ser humano nestas
relações estão direta ou indiretamente relacionados à busca
compulsiva e desesperada da maior afinidade erótica, harmonia
e criatividade psíquica entre os parceiros.
Podemos considerar também esse mito como um exemplo
do processo de individuação feminino, o processo de desen-
volvimento psicológico pelo qual precisaremos passar para
nos tornarmos seres únicos, integrados, mais conscientes de
aspectos inconscientes da nossa psique. Individuar-se, signifi-
cando tornar-se inteiro, indiviso, o que é bem diferente do que
conhecemos por individualismo.
Vamos ao resumo do mito (Neumann, 2017): Começamos
por Eros, o filho de Afrodite, deusa da beleza, muito cultuada
por todos. Num dado momento da história, a atenção, que antes
era dada aos templos dessa deusa, começou a ser desviada para
a beleza fora do comum de uma princesa mortal, chamada Psi-
quê. Tomada de cólera, a deusa Afrodite ficou profundamente
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Quando o Amor e a Alma se encontram
ofendida e enciumada por ver seus templos cada vez mais aban-
donados. Daí ordenou a seu filho Eros que usasse uma de suas
flechas, fazendo com que Psiquê se apaixonasse pelo homem
mais feio e vil de toda a terra. Porém, ao ver sua beleza, Eros
apaixonou-se profundamente pela jovem.
Psiquê era a mais nova de três filhas de um rei de Mileto,
e era extremamente bela. Sua beleza era tanta, que pessoas de
várias regiões iam admirá-la, assombrados, rendendo-lhe home-
nagens que só eram devidas à própria Afrodite. O pai de Psiquê,
suspeitando que havia ofendido aos deuses, resolveu consultar o
oráculo de Apolo, pois suas outras filhas encontraram maridos
e, no entanto, Psiquê permanecia sozinha. A resposta do oráculo
foi surpreendente e terrível: a jovem deveria ser levada ao topo
de um rochedo e entregue em união a um monstro horroroso.
Psiquê, aterrorizada, foi levada ao topo de um monte e lá
foi abandonada. Assim conformada com seu destino, foi tomada
por um profundo sono, sendo, então, conduzida pela brisa gentil
de Zéfiro (o vento), a um lindo vale. Quando acordou, caminhou
por entre as flores, até chegar a um castelo magnífico. Admira-
da, notou que lá deveria ser a morada de um deus. Tomando
coragem, entrou no deslumbrante palácio, onde todos os seus
desejos foram satisfeitos por ajudantes invisíveis.
Chegando na escuridão, ela foi conduzida pelos criados a
um quarto de dormir. Certa de que ali encontraria finalmente
um terrível esposo. Tremeu quando sentiu que alguém entrara
no quarto, mas uma voz maravilhosa a acalmou e, logo em se-
guida, sentiu mãos humanas acariciarem seu corpo.
Entregou-se a esse amante misterioso, e, quando acordou, já
havia chegado o dia e seu amante havia desaparecido. Porém essa
mesma cena se repetiu, por diversas noites. Enquanto isso, suas
irmãs continuavam à sua procura, mas seu esposo misterioso a aler-
tou para não responder aos seus chamados, não indo encontrá-las.
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CYBELE MARIA RABELO RAMALHO
Psiquê, sentindo-se solitária em seu castelo, que parecia
uma prisão, implorava a Eros para deixá-la ver suas irmãs. Fi-
nalmente, ele cedeu e aceitou, mas impôs a condição que, não
importando o que suas irmãs dissessem, ela nunca tentaria
contemplar o seu rosto. Quando suas irmãs entraram no cas-
telo e viram aquela abundância de beleza e maravilhas, foram
tomadas de forte inveja.
Notando que o esposo de Psiquê nunca aparecia, pergunta-
ram, maliciosamente, sobre sua identidade. Embora advertida
por seu esposo, Psiquê viu a dúvida e a curiosidade tomarem
conta de seu ser, aguçadas pelos comentários de suas irmãs.
À noite, novamente seu esposo alertou-a sobre suas irmãs
que estavam tentando fazer com que ela olhasse o seu rosto; mas,
se assim ela fizesse, ela nunca mais o veria novamente. Além
disso, contou-lhe que ela estava grávida e, se ela conseguisse
manter o segredo, este filho seria divino, porém se ela falhasse,
ele seria mortal.
Ao receber novamente suas irmãs, Psiquê não se conteve:
contou-lhes que estava grávida e que sua criança seria de origem
divina. Suas irmãs ficaram ainda mais enciumadas. Assim, tra-
taram de convencer a jovem a olhar a identidade do esposo, pois
se ele estava escondendo seu rosto, era provável que havia algo
de errado com ele. Alegavam: deveria ser uma horrível serpente,
e não um deus maravilhoso.
Assustada com o que suas irmãs disseram, Psiquê escon-
deu uma faca e uma lâmpada próximo à sua cama, decidida a
conhecer a identidade de seu marido. E se ele fosse realmente
um monstro terrível, matá-lo. Havia esquecido dos avisos de seu
amante, de não dar ouvidos às suas irmãs.
À noite, quando Eros dormia ao seu lado, Psiquê tomou cora-
gem e aproximou a lâmpada do rosto de seu marido, esperando
ver uma horrenda criatura. Para sua surpresa, o que viu, porém,
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Quando o Amor e a Alma se encontram
deixou-a maravilhada. Ele era um jovem de extrema beleza, que
estava repousando com tamanha quietude e doçura, que ela pen-
sou em tirar a própria vida por haver dele duvidado. Enfeitiçada
por sua beleza, demorou-se, admirando Eros, o deus alado.
Neste momento, Psiquê não percebeu que havia inclinado
de tal maneira a lâmpada, que uma gota de óleo quente caiu
sobre o ombro de Eros, acordando-o. Eros olhou-a, assustado, e
voou pela janela do quarto, dizendo: -"É assim que retribuis meu
amor? Depois de haver desobedecido às ordens de minha mãe e te
tornado minha esposa, me julgavas um monstro e estavas disposta
a cortar minha cabeça? Vai! Volta para junto de tuas irmãs, cujos
conselhos pareces preferir aos meus. Não lhe imponho outro castigo,
além de deixar-te para sempre. O amor não pode conviver com a
suspeita."
Assim, Eros foge voltando para perto de Afrodite, aban-
donando Psiquê. Quando esta se recompôs, notou que o lindo
castelo à sua volta desaparecera e que se encontrava bem próxi-
ma da casa de seus pais. Ficou inconsolável. Tentou suicidar-se
atirando-se em um rio próximo, mas suas águas a trouxeram
para sua margem. Neste momento foi ajudada pelo deus Pan,
aconselhando-a a esquecer o que se passou e procurar novamen-
te ganhar o amor de Eros.
Psiquê, resolvida a reconquistar a confiança de Eros, saiu
a sua procura por todos os lugares da terra, dia e noite...Tudo
em vão. Decidiu finalmente enfrentar Afrodite (a sogra) indo
ao seu templo. Como condição para o seu perdão, a deusa, após
humilhá-la, impôs uma série de tarefas que deveria realizar, ta-
refas tão difíceis que poderiam até causar a sua morte. Veremos
cada tarefa e suas implicações psicológicas.
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CYBELE MARIA RABELO RAMALHO
Primeira tarefa:
Primeiramente, deveria, antes do anoitecer, separar uma
grande quantidade de grãos misturados de trigo, aveia, cevada,
feijões e lentilhas. Psiquê ficou assustada diante de tanto traba-
lho, porém algumas formiguinhas que estavam próximas fica-
ram comovidas com a sua tristeza e convocaram o seu exército
para a imensa tarefa de isolar cada grão da montanha de grãos
misturados. Daí a tarefa foi concluída a tempo.
Paramos aqui para tentar compreender as implicações
psicológicas dessa primeira tarefa. Segundo Neumann (2017),
as tarefas ordenadas por Afrodite representam todo um ritual
que Psiquê precisa passar para evoluir do estágio de “menina”
para mulher, progredindo no seu processo de Individuação.
Para Byngton (1987), nessa primeira tarefa ela ainda está
vivenciando o Dinamismo do Matriarcado, ou seja, está do-
minada pelo arquétipo1 da Grande Mãe, tentando sair da sua
indiferenciação, regida pelo prazer, pelo sonho e pelo invisível
(diríamos que regida também pelo inconsciente). Ela vivia num
castelo onde todos os seus desejos eram realizados, como num
sonho. Isso acontece em geral quando se está apaixonado, não
podendo enxergar a realidade do seu parceiro. Psiquê vivia uma
espécie de alienação ou vida provisória, movida pelos desejos
do ego, inclusive desejando provocar a inveja das irmãs e se
autoafirmar diante delas. Nessa primeira tarefa, ela é ajudada
pelos seres filhos da terra, as formigas, símbolos da paciência
e da persistência.
As formigas trazem a possibilidade de organização e
disciplina. Representam também os instintos ctônicos mais
1 Arquétipo é um conceito junguiano que designa formas psíquicas primordiais
presentes do inconsciente coletivo.
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Quando o Amor e a Alma se encontram
primitivos, que estão presentes, simbolizando um princípio
inconsciente selecionador instintivo. As criaturas da terra é
que vão ajudar Psiquê a aprender a discriminar, no meio de
todo o caos e da confusão em que se encontra perdida. Por ou-
tro lado, esses grãos que devem ser selecionados representam
os potenciais ocultos da vida, os quais ela precisa descobrir
e saber selecionar, ou seja, aprender a identificar e separar o
que é bom do que é mal para ela. No campo do amor, esse é
um importante aprendizado para a mulher, o que a orienta
na escolha entre “o mocinho ou o bandido”, o construtivo e o
destrutivo. No início das nossas experiências amorosas, muitas
vezes nos deixamos levar por relações abusivas, por termos
dificuldades de discernimento.
Segunda tarefa:
Afrodite ordenou que fosse até às margens de um rio onde
estavam pastando ovelhas de lã dourada, e trouxesse de lá um
pouco da lã de cada carneiro feroz. Psiquê ficou desesperada
ao receber essa tarefa e pensou, mais uma vez, em se suicidar.
Já estava disposta a isso quando ouviu um junco dizer que não
atravessasse as águas do rio, até que os carneiros furiosos se
pusessem a descansar sob o sol quente, quando então ela poderia
aproveitar e cortar a lã. De outro modo, seria atacada e morta
por eles. Assim feito, Psiquê esperou até o sol ficar bem alto no
horizonte, atravessou o rio e conseguiu a lã, levando para Afro-
dite uma grande quantidade.
Quais as implicações psicológicas dessa segunda tarefa?
Ela é auxiliada pelo caniço ou junco encontrado nas águas, um
símbolo da flexibilidade e da maleabilidade. As ovelhas ferozes
representam o Masculino feroz, o rude, o primitivo que Psiquê
precisa enfrentar com atitudes flexíveis. Este Masculino proje-
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CYBELE MARIA RABELO RAMALHO
tado pode ser o outro pelo qual nos apaixonamos, mas pode ser,
interiormente, o Masculino inconsciente que há em todas as
mulheres, o qual não podemos permitir que nos invada em sua
ferocidade selvagem. Ou seja, essa tarefa destaca que precisamos
aprender a extrair o mais precioso desse encontro com o que
pode ser masculino e feroz em nós mesmas.
O ouro e o sol representam o poder valioso do Masculino.
Psiquê aprende que não deve se encontrar com o Masculino em
seu extremo de ferocidade, mas quando este se ameniza. Em
outras palavras, aprende a “não cutucar o cão com vara curta”,
mas na hora e da forma adequada. Essa tarefa nos indica que é
só quando o sol se põe, que surge a situação mais propícia para
o amor e para a reflexão.
O aprendizado principal desta tarefa para a mulher é não
deixar furioso o Masculino (na frente dela e o masculino dentro
dela, ao qual Jung denominou de Animus2), se ela quer resolver
uma questão, mas usar a sabedoria da flexibilidade, para “tirar
o ouro deste Masculino”, sem feri-lo nem se ferir. Ensina a
aprender a lidar com a autoridade, com os limites dela e do seu
parceiro, sem ser ditadora ou castradora. Por isso, essa tarefa
representa a entrada de Psiquê no Dinamismo do Patriarcado
(Byington, 1987), quando ela vai aprender a lidar com as leis do
arquétipo do Pai.
2 Animus é um conceito junguiano, o arquétipo que se refere ao masculino
inconsciente em mulheres, ou em quem se identifica com um ego do gênero
feminino. A mulher em geral desenvolverá conscientemente mais os elementos
femininos, relegando para o inconsciente os elementos masculinos menos
desenvolvidos, formando seu Animus. Quando se apaixona ela projeta
elementos do seu Animus na parceira.
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Quando o Amor e a Alma se encontram
Terceira tarefa:
Sua terceira tarefa seria subir ao topo de uma alta monta-
nha e trazer para Afrodite uma jarra cheia da água que jorrava
de cume dessa montanha: a água dos rios infernais. Dentre os
perigos que Psiquê enfrentaria, estava um dragão que guardava
essa fonte. Ela foi ajudada nessa tarefa por uma grande águia que
Zeus lhe enviou, e que, no momento exato, voou baixo e encheu
a jarra com a água dos rios infernais. Irada com o sucesso da
jovem nesta tarefa, Afrodite começou a planejar uma última, a
mais fatal.
Quais as implicações psicológicas dessa terceira tarefa? A
urna de cristal simboliza a feminilidade de Psiquê, seu Feminino
Selvagem, que deverá conter o Masculino fecundante, o líquido
da vida. Ela tem de mobilizar seu recurso interno aéreo, espiri-
tual, representado aqui pela águia, que vai unir o Masculino e
o Feminino, finalizando assim uma união sagrada de opostos,
uma espécie de união superior. Esta águia é de Zeus, o repre-
sentante maior dos deuses gregos, que a ajuda a transcender
nesse momento. O rio que sobe ao alto e desce às profundezas,
que representa uma fonte que une o céu e a terra, o espiritual ao
instintivo, indica que a mulher precisa aproximar seu instinto
da sua espiritualidade.
Esta tarefa ensina que ela precisa integrar o seu aspecto
Masculino inconsciente para poder se desenvolver, pois este
acesso facilitará o encontro com o seu Self Feminino. Precisa
aprender a ter vitalidade interna, determinação, amplitude,
independência, força e coragem nos seus atos, o que é ativado
nesta tarefa pela águia. Assim, ela se prepara para a integra-
ção interna de opostos e, consequentemente, para um real
Encontro Eu-Tu, como uma espécie de ritual de iniciação para
o verdadeiro amor.
283
CYBELE MARIA RABELO RAMALHO
Segundo Byington (1987) este estágio de desenvolvimento
da personalidade é o do Dinamismo da Alteridade, regido pelos
arquétipos da Anima3, do Animus e da União. É o dinamismo
que rege as relações de troca e de reversibilidade, de inversão
de papeis e mutualidade na relação, em nível mais criativo e
dialético. O princípio essencial desse dinamismo é o chamado
para o Encontro, através do engajamento pelo conhecimento,
pelo amor e pela entrega.
Quarta tarefa:
Nessa última e fatal tarefa, Psiquê deveria descer ao mundo
inferior e pedir à deusa Perséfone que lhe desse um pouco de
sua própria beleza, que deveria guardar em uma pequena caixa
fechada. Desesperada, pensou mais uma vez em suicidar-se,
subiu ao topo de uma elevada torre e quis atirar-se, para assim
poder alcançar o mundo subterrâneo. A torre, porém, ouviu seu
desespero e lhe murmurou instruções de como entrar em uma
particular caverna, para alcançar o reino de Hades (o deus do
mundo inferior, marido de Perséfone). Ensinou-lhe ainda como
driblar diversos perigos da jornada, como passar pelo cão feroz
Cérbero. Ao passar pelo rio Estige, ela também não poderia acolher
os que nele se afogavam e lhe pediam ajuda, socorro. E deu-lhe
até uma moeda para pagar a Caronte, o barqueiro, na travessia do
rio, advertindo-a: “Quando Perséfone lhe der a caixa com sua beleza,
toma mais cuidado, maior que todas as outras coisas, de não olhar
3 Anima é um conceito junguiano, o arquétipo que se refere ao feminino
inconsciente em homens, ou em quem se identifica com um ego masculino. O
homem em geral desenvolverá conscientemente mais os elementos masculino,
relegando para o inconsciente os elementos femininos menos desenvolvidos,
formando seu Anima. Quando se apaixona ele projeta elementos da sua Anima
na parceira.
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Quando o Amor e a Alma se encontram
dentro da caixa, pois a beleza dos deuses não cabe a olhos mortais.”
Seguindo essas palavras, ela conseguiu chegar até a deusa
Perséfone, que estava sentada imponente em seu trono, e rece-
beu dela a caixa com o precioso tesouro. Tomada, porém, pela
curiosidade e pela vaidade, já em seu retorno, Psiquê abriu a
pequena caixa para espiar. Todavia, ao invés de beleza divina,
havia ali apenas um sono terrível que dela se apossou.
Enquanto isto, Eros, já curado de sua ferida, apaixonado,
voou ao seu socorro novamente. Percebeu que sua curiosidade
havia, mais uma vez, sido a sua grande falta, mas agora podia
ela estar muito próxima de apresentar-se à Afrodite e cumprir
a tarefa. Teve compaixão dela e resolveu ajudá-la. Conseguiu
colocar o sono novamente na caixa, despertando-a e salvando-a.
Eros foi ao encontro de Zeus e implorou a ele que apaziguas-
se a ira de Afrodite e ratificasse o seu casamento com Psiquê.
Atendendo ao seu pedido, o maior deus do Olimpo ordenou que o
deus Hermes conduzisse a jovem à assembleia dos deuses. Assim,
ela foi julgada e perdoada pelos deuses presentes. Então, com
toda a cerimônia, Eros finalmente casou-se com Psiquê. Deste
enlace nasceu uma menina, chamada Volúpia.
Quais as implicações psicológicas para essa última tarefa?
Nessa, finalmente, Psiquê é inserida no Dinamismo Cósmico,
da Totalidade ou da Sabedoria (Byington, 1987), na dimensão do
seu Self.4 A Torre que aparece nesta tarefa é um símbolo cultural
que emerge do inconsciente coletivo, símbolo da deusa Hera, do
elemento fogo (espiritual), que a orienta a não se deixar levar
pela piedade, para não carregar o peso de “pessoas mortas”, ou
4 O Self ou Si-Mesmo é definido na Psicologia Analítica como o arquétipo central
da totalidade da personalidade, o centro ordenador e criativo da psique, que
nele inclui inconsciente e consciente. O Self Feminino, por sua vez, é a última
dimensão a ser alcançada no processo de individuação das mulheres, advindo
após o avanço na integração do Animus.
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CYBELE MARIA RABELO RAMALHO
tóxicas, para saber dizer não a quem tente sugá-la e fazê-la se
desviar do seu destino. Pois, em momentos decisivos da vida
de uma mulher, ela vai precisar aprender a dizer não a quem
tentar desviá-la do suas metas primordiais. No final dessa tarefa
ela é duramente testada quanto à vaidade do seu Ego, uma das
características mais sombrias do universo feminino.
Em todo o mito percebemos que, a fim de completar as
quatro tarefas perigosas para encontrar o amor, Psiquê se au-
xilia sempre de uma divindade ou de um elemento da natureza.
Revisando, foram eles: 1) as formigas, representando a deusa da
terra, Deméter e o elemento terra; 2) o caniço, representando o
deus Pã e o elemento água; 3) a águia, representando Zeus e o
elemento ar; 4) a torre, representando Hera e o elemento fogo.
Assim, compreendemos que a integração dos quatro elementos
forma finalmente um quatérnio, que é símbolo da unidade e
do Self. Daí poderemos inferir com estes sinais, que o amor é
o princípio cósmico de unificação dos elementos que consti-
tuem a natureza. Nesse mito, vemos como e quão belamente se
reconstitui o ciclo cósmico, com a ajuda dos quatro elementos
vitais (Neumann, 2017).
Finalmente, Psiquê derrota o “monstro” que poderia antes
devorá-la, assimilando-o e transformando-o. Voltando à origem
etimológica dos termos Eros e Psiquê, a sua união representa a
integração do corpo (desejo ardente) com a alma. A nossa hero-
ína, Psiquê, que estava inicialmente indiferenciada e dividida,
como toda moça jovem, aprende ao final do seu processo de
Individuação, a integrar o mundo da natureza ao mundo espiri-
tual, através da vivência do amor, o que a conduz à experiência
de realização do Self Feminino (Neumann, 1971).
Ela pensa várias vezes em desistir de viver, porém se depara
com Pã (o deus pastor) e, por intermédio dele, recebe o motivo
para continuar vivendo. Pã é sábio e cordial aconselhando Psiquê
286
Quando o Amor e a Alma se encontram
a prosseguir. Sua colaboração inicial intervém de forma consi-
derável para que prossiga na sua jornada. Ele funciona como
um mentor, alguém (como um psicoterapeuta) que colabora,
oferecendo sentidos ao que aparece como absurdo e estranho,
impossível de suportar, na nossa vida.
Psiquê enfrenta a descida ao submundo à custa de muito
esforço, sofrimento e humilhação, realiza as quatro tarefas ár-
duas que culminam no contato com o submundo, o mundo das
trevas, ou o da inconsciência. Sua jornada pelas profundezas
pode simbolizar uma fase de depressão, de luto, dor e lamenta-
ção, que muitas vezes poderemos passar na nossa jornada em
busca do amor; o que nos faz reconhecer nossas limitações e, na
paciência, fé e perseverança, conquistar maturidade, um novo
modo de se comportar.
A grande importância da descida de Psiquê ao submundo
da deusa Perséfone, é que ela finalmente alcançou a experiência
do encontro consigo mesma, que simboliza sua individuação.
Ela reencontrou uma parte negada de si mesma, a sua sombra
vaidosa, tal como a deusa da antiga Suméria Inanna5 (6000 anos
a.C.), que precisou se despir do seu orgulho diante da sua irmã,
a deusa do submundo (Ramalho, 2021).
Com esse encontro, ela evolui de um estado infantil para
uma maior diferenciação, o que implica uma ampliação da sua
consciência e o desinflar do seu Ego. Para além da sua persona
de menina bonita, ela incluiu o reconhecimento de suas som-
bras, do que estava oculto na sua consciência. E onde estavam
as sombras de Psiquê? Na sua vaidade e desejo competitivo de
autoafirmação diante das irmãs. O seu Ego estava inflado por
5 Inanna, orgulhosa deusa do céu e da terra, também desceu aos infernos, morreu,
ressuscitou e subiu aos céus no terceiro dia, após encarnar a sua sombra,
representada pela sua terrível irmã, Ereshkigal, a rainha do submundo e da
escuridão (Ramalho, 2021).
287
CYBELE MARIA RABELO RAMALHO
ter sido adorada no seu reino, por ser tão bela, o que de algum
modo fez com que ela se sentisse muito especial ou superior às
demais mulheres.
O desfecho favorável na última tarefa de Psiquê conta
com o retorno e a intervenção de Eros. Dessa forma, Boechat
(2009) menciona o conto de Eros e Psiquê como uma metáfora
da conjunção do Eu e do Outro. Este diálogo real com o outro
precisa incluir luz e sombra. Por outro lado, nosso processo de
Individuação só pode ser completo com o diálogo com o outro
(ou ajuda externa). A interação com o outro, que vê o processo
de fora, favorece e ajuda a descobertas que o indivíduo, sozinho,
não consegue, pois cai frequentemente em sono letárgico; isto
é, fica adormecido nas projeções dos conteúdos inconscientes
e não consegue o confronto discriminativo eficaz. No entanto,
precisará lutar consigo mesmo, tomar consciência de suas limi-
tações, sombras e dificuldades.
Segundo Barcellos (2019), o mito de Eros (Amor) e Psiquê
(Alma), para além desses conteúdos simbólicos acima descritos,
revela que o importante é que essa história começa por causa
da beleza e termina também por causa da beleza. Ela só se de-
senvolve por causa do ciúme de Afrodite e da inveja das irmãs
de Psiquê, destacando a importância destes três pontos, beleza,
ciúme e inveja, para o desenvolvimento da nossa psique. O conto
também nos revela que não há desenvolvimento psicológico se
não nos aprofundarmos no mergulho da alma, pois a beleza
está no profundo, é a beleza que pode despertar a nossa alma.
O autor nos lembra de que Eros, para os gregos, é consi-
derado num nível mais primitivo como um princípio cósmico
de união, uma energia que tudo rege e está presente em todos
nós, na nossa vida física, psíquica e emocional; e segundo Ju-
nito Brandão, Eros significa “o desejo incoercível dos sentidos”
(Brandão, 1998, p. 209), ou seja, um princípio irrefreável, a força
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Quando o Amor e a Alma se encontram
fundamental do mundo, que mantém a coesão interna do cosmo.
Assim, percebemos que o amor é o que une, não o que separa.
Ele é a busca de contatos e a superação de antagonismos, e “tudo
que une traz a marca de Eros” (Barcellos, 2019, p. 295).
Por outro lado, na sua versão personificada do desejo, Eros
vai aparecer como uma criança alada, um Cupido, um daimon
(uma força que tutela e guia, constrói e destrói, que envenena
e salva, que é anjo e demônio ao mesmo tempo). Segundo o au-
tor, Cupido (Eros) é uma energia perpetuamente insatisfeita e
inquieta, uma força psíquica cosmogônica que torna alguém um
amante. Que tem um caráter masculino penetrante e flecheiro.
Como é personificado como uma criança, indica-nos que o amor
do encanto e da paixão é sempre jovem e não envelhece nun-
ca, ele nos renova. Como um daimon, uma espécie de pequeno
deus, no seu modo de agir ele é um “não”, ou seja, provoca em
nós uma mudança abrupta de padrão de comportamento. Ele
está a serviço da alma, pois onde há Eros, há alma e vice-versa.
Essa criança que temos internamente e nos faz apaixonar,
nos guia muitas vezes por vias “negativas” dificultando, ou nos
“desguiando”, levando-nos a transgressões. Nem sempre nos
apaixonamos pelas pessoas consideradas “certas” segundo os
padrões culturais vigentes, e nos momentos apropriados. Ser
flechado por Cupido, contudo, sempre nos levará a grandes
aprendizados da nossa alma. Não podemos esquecer que o desejo
apaixonado tem dois lados: é a força que tudo exalta e é também
a que tudo destrói. Aprisiona e liberta. Um desejo ardente já vem,
em si, acompanhado de medo. O medo do destino imprevisível
e ilimitado, que encerra perigos desconhecidos, como vimos na
história de Psiquê que foi flechada pelo Cupido.
Enfim, no conto, o Eros personificado precisa se desvincular
da sua mãe possessiva e incestuosa, para finalmente se tornar
um bom amante. Por sua vez, Psiquê, a Alma, é também um
289
CYBELE MARIA RABELO RAMALHO
princípio cósmico primitivo, que perpassa todas as coisas, como
uma Anima Mundi, mas, na sua forma personificada, ela é uma
donzela linda, insegura, frágil e problemática. Por sua beleza,
desperta o ciúme de Afrodite (o motor inicial da história). E, ao
contrário de Afrodite, que tem uma beleza de aparência extro-
vertida, Psiquê ganha na história a beleza profunda da alma, na
sua quarta tarefa.
Já Eros, nessa história, vai aprender a migrar de uma beleza
mais superficial (a partir de Afrodite) para uma beleza profunda
e mais introvertida, representada por Psiquê. Segundo Barcellos
(2019), este conto fala sobre iniciações, uma iniciação no amor
e uma iniciação no psíquico. Assim como é uma iniciação do
psíquico pelo amor e vice-versa. Neste caminho, destaca a inve-
ja e o ciúme como sentimentos humanos que tem uma função
importante na alma, são os gatilhos principais para desencadear
transformações e movimentos importantes, pois Psiquê recebe a
inveja fraterna, nas suas relações horizontais, como algo que fi-
nalmente desencadeia as mudanças necessárias na sua jornada.
Todos os desafios enfrentados por Psique são difíceis, pois
nosso crescimento interior sempre envolverá uma experiência
que nem sempre poderemos engolir ou expelir, mas amargar
ou experimentar. Eros vai ajudar finalmente Psique ao final da
última tarefa, ao ver que ela adormece e não consegue finalizá-la.
O elemento masculino precisa contribuir neste processo, porque
o verdadeiro amor envolverá sempre a paciência, o perdão, a
bondade e o reconhecimento do valor do outro.
O que a mulher contemporânea pode aprender a respeito do
amor, com esse mito? Vejamos um breve exemplo com um caso
fictício que poderia se encaixar na vida de inúmeras mulheres:
Maria6 era uma moça linda, de 32 anos, casada, filha única,
6 Caso fictício, que reúne vários detalhes de clientes reais.
290
Quando o Amor e a Alma se encontram
que havia sido muito mimada pelos seus pais, especialmente
por sua mãe, embora não reconhecesse muito este fato. Maria
chegou ao meu consultório pela primeira vez apavorada por-
que seu marido havia saído de casa, porém ela ainda o amava
e não via sentido que sua vida continuasse sem ele. Haviam
se casado há sete anos, construído uma bela história de amor,
tiveram um filho, evoluíram financeiramente juntos. Como ele
ganhava muito bem, Maria pouco depois de se casar abando-
nou sua faculdade e seu emprego, onde ganhava muito pouco.
Ela afirmava que viviam num paraíso nos primeiros anos de
casados. Porém, após o nascimento do filho e da vinda da
mãe dele para morar perto do casal, as brigas passaram a ser
constantes. Reclamava das intervenções da sogra e dos irmãos
dele, dentro da casa do casal. Reconhecia na sogra uma certa
hostilidade. E no marido, um comportamento de “filhinho
querido da mamãe”.
A partir daí, ela começou a cair na realidade quanto a deter-
minados comportamentos estranhos e até então desconhecidos,
do seu marido: ele passou a ter um mau humor terrível e lhe
parecia egoísta, hostil, autoritário, sem ter mais paciência nem
desejo por ela. Por outro lado, reclamava dela constantemente,
de não saber cuidar do filho o suficiente, não conseguir cuidar
bem da casa, de ser infantil, dependente dele e da mãe, além de
muito desorganizada. Ele não tolerava suas crises explosivas,
nas quais ela ficava furiosa, gritava e o agredia.
Finalmente ele decidiu pela separação, apesar de sentir
que ainda a amava. Maria entrou em depressão, pensou até em
suicídio e dizia, claramente, nas primeiras sessões, que ainda
não sabia mesmo quem era ela, sentia que precisava “se encon-
trar”. Aos poucos ela recomeçou os estudos e voltou a estudar
e trabalhar, indo morar sozinha com seu filho. Começou a não
permitir que sua mãe interferisse tanto na sua vida.
291
CYBELE MARIA RABELO RAMALHO
Nesse período pós separação, sendo acompanhada na psi-
coterapia, Maria cresceu muito como pessoa. Se tornou mais
assertiva, independente, aprendeu a organizar melhor seu
tempo, seu espaço e seu humor impulsivo, a ter seus próprios
amigos e a caminhar com as próprias pernas. Namorou outros
rapazes, se realizou sexualmente com eles. Seu marido, por sua
vez, passou dois anos morando com a mãe, mas quando resol-
veu procurar um lugar para morar, passou a crescer em suas
decisões. Namorou com várias mulheres, mas de vez em quando
procurava Maria. Um dia, mais amadurecidos, resolveram tentar
recomeçar a relação.
Maria relatou na sua psicoterapia que, finalmente, se
sentia uma nova mulher, namorando um novo homem. Não
o idealizava mais e, mesmo assim, o amava, sentindo-se mais
aceita por ele. Ele, por sua vez, passou a não aceitar mais as
intromissões da própria mãe na vida do casal; Maria deixou de
ser dependente dele e de seus próprios pais. Aprenderam am-
bos a ser mais flexíveis um com o outro e com a vida. Quando
discutiam, aguardavam passar o mal humor colérico de ambos,
para conversarem pacificamente num momento apropriado, em
que até sorriam de si mesmos.
Assim como Maria, muitos precisam aprender muito, para
finalmente estarem mais preparadas para usufruir do verda-
deiro amor. Como já dizia o poeta brasileiro Mario Quintana,
“o amor é privilégio de maduros”. Precisamos antes identificar
quem somos, assumir inteiramente nossa personalidade, co-
nhecer boa parte de sombras e complexos que nos aprisionam,
para finalmente compreendermos o outro que amamos mais
profundamente, em suas sombras e complexos.
Cada parceiro precisa desejar ver no outro um ser inaca-
bado, em constante processo de crescimento, livre e indepen-
dente para ser ele mesmo, no seu processo de Individuação;
292
Quando o Amor e a Alma se encontram
deseja e busca uma relação ampliada entre seu consciente e
inconsciente. Para essse processo evoluir, é preciso também
para a mulher integrar o masculino inconsciente que há em si
(seu Animus), assim como para o homem, integrar o feminino
inconsciente que há interiormente (sua Anima), o que pode vir
a ocorrer pela experiência simbólica do casamento. Ou seja, por
meio do amor, da conjugalidade, o ser humano pode integrar
suas forças instintivas (sensuais) com as espirituais. E para Carl
Gustav Jung (1879-1961), a experiência do casamento tem uma
função transcendente, por permitir estabelecer a conexões entre
o mundo consciente e o inconsciente, possibilitando o proces-
so de Individuação de ambos. Isto se dá porque cada parceiro
espelha para o outro aquilo que ele próprio deve integrar à sua
consciência (Sanford, 1997).
A fase inicial de nossos relacionamentos se caracteriza
por uma espécie de fusão, cegueira e encantamento. É a fase da
busca, em que há a expectativa de completude, de reunificação e
da totalidade (reeditando aqui o mito do Andrógino: masculino
e feminino unidos, fundidos). A fase seguinte é a do encontro, a
fase absolutista da projeção Anima/Animus, da inflação do Ego
e da paixão cega. Nós nos sentimos neste momento poderosos e
onipotentes, num verdadeiro paraíso, porém ainda não conhe-
cemos quem é realmente nosso parceiro, ou até mesmo quem
somos. Tal como Psiquê, estamos cegos, de nós e do outro.
Todavia, tal como no conto, o amor às vezes pode ser visto
a princípio como um monstro terrível, ao qual somos levados
cegamente na fase inicial de apaixonamento. E esse paraíso
inicial não resiste ao fato de um desejar conhecer as limitações,
sombras e complexos reais do outro, ou sua verdadeira face.
Entramos na terceira fase do relacionamento, a da convivência,
quando cedo ou tarde acaba a paixão. Perdemos a idealização
fusional e ocorre a vivência infernal com o contato com as som-
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CYBELE MARIA RABELO RAMALHO
bras7 e os complexos8 de ambos. Isto nos fere profundamente e
pode instaurar uma grande desconfiança no relacionamento.
Ou o risco de separação.
Como terapeuta de casais, já ouvi muito a frase: “ele não é
mais o homem com quem me casei” e vice-versa. A idealização,
quando desmorona, carrega no seu leito um tanto do encan-
tamento passional. Nesse momento, o casal entra na fase da
desilusão, abandonando as idealizações iniciais. Nessa fase de
separação (que pode ser uma separação concreta ou somente
psicológica), é que surge o doloroso resgate da nossa alma. É o
momento de olhar para um parceiro interno que projetamos
nas pessoas pelas quais nos apaixonamos, nossa Anima, se nos
identificamos com o gênero masculino; ou nosso Animus, se nos
identificamos com o gênero feminino (Sanford, 1997).
Por incrível que pareça, e esse mito nos demonstra isto, é
necessária a "separação" psicológica para o processo de Indivi-
duação de cada um acontecer. Inclusive, é preciso que o casal
dialogue muito a respeito disto durante este processo, para não
correr o risco de chegar a se separar de fato. Finalmente poderá
ocorrer um reencontro, um momento da “união superior”, do
encontro interno com o verdadeiro amor criativo que habita
dentro de nós mesmos, correspondendo a um “casamento in-
terno”; ou seja, é necessário conectar-se antes com nós mesmos,
profundamente (com nosso Self), nosso “deus interior”, ou cen-
telha divina, para finalmente estarmos realmente preparados
para o amor.
7 Sombra é um conceito junguiano que concentra os aspectos ocultos da
personalidade, positivos e negativos, mas que foram reprimidos pelo ego, ou
mesmo nunca reconhecidos por ele.
8 Complexos são grupos de ideias inconscientes com forte carga emocional,
associadas a sensações e a eventos ou a experiências particulares
emocionalmente traumáticos.
294
Quando o Amor e a Alma se encontram
A Psicologia Analítica e a vida cotidiana nos ensinam que o
amor não combina com o poder, e que quando a possessividade
e o controle se constelam e predominam num relacionamento, o
amor desmorona. Pois o sentimento amoroso envolve o desejo de
igualdade e de não submissão, envolve o olhar para o parceiro(a)
como um igual, um companheiro de jornada. Já aprendemos
com Jung que o amor e o poder não caminham juntos, que um
é a sombra do outro, compreendendo que a individualidade e a
capacidade de se relacionar não são excludentes.
Entretanto, esse conto nos ensina que alguns sacrifícios e
medos podem ser necessários nesta caminhada em busca do
amor profundo. Renunciamos a novas ilusões e possibilidades,
renunciamos a muitos desejos narcísicos, despertamos para a
experimentação mútua e às vezes dolorosa de nossos complexos
e sombras. Enfrentamos isto muitas vezes com doses variáveis
de medo: o medo da entrega, do processo de transformação, do
mergulho intenso diante do nosso inconsciente. Estes sacrifícios
são coroados com uma experiência existencial ímpar e rica de
encontro conosco mesmos, não apenas com o ser amado. Uma
experiência de coragem, acima de tudo.
Segundo Johmson (1987), o amor é uma espécie de deus interior
que abre nossos olhos cegos para a beleza, o valor e as qualidades
da outra pessoa. Faz-nos respeitar essa pessoa que amamos como
um todo, em seus aspectos positivos e negativos, aceitando-a na sua
totalidade, preocupando-nos com suas necessidades e bem-estar.
Segundo este autor, “o amor é uma grande força psicológica que tem
o poder de transformar o Ego, despertá-lo para a existência de algo
fora dele mesmo (...) e é o oposto do egocentrismo (Johnson, 1989, p.
256). De modo que o que mais necessitamos realmente não é tanto
sermos amados, mas amar (Idem, p.268).
Finalizamos este capítulo destacando que o amor em pro-
fundidade, ou aquele amor de alma, que nos aproxima de um
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CYBELE MARIA RABELO RAMALHO
sentimento de eternidade, é um desejo de todo ser humano.
Amar e ser amado, desfrutar na alma do melhor amor, aquele
amor que nos desperta e nos traz a sensação de algo divino ou
sagrado, é o que todos intimamente ansiamos.
Podemos inferir através da leitura e análise desse conto
mitológico, que aprender a amar é uma caminhada cheia de
desafios e aprendizados, angústias, medos, libertações e exige
superações, como vimos neste capítulo. A caminhada poderá
ser longa, mas nunca será tarde para um coração sedento de
experiências amorosas.
Encerro com um breve e antigo poema meu (1989):
Deliramos no compasso de um só coração.
Recompomos a carne
No toque do amor
Feito de medo e êxtase.
Daí o mundo adormece
O coração aquieta
A alma desperta
E somos deuses!
Referências
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Quando o Amor e a Alma se encontram
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Caetano, Eneide (2016). O Feminino na reconquista do amor ferido: Re-
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Sanford, Jonh (1977). Parceiros Invisíveis: o masculino e o feminino
dentro de cada um de nós. São Paulo: Paulus.
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