Histologia Do Tecido Cartilaginoso, Ósseo e Muscular
Histologia Do Tecido Cartilaginoso, Ósseo e Muscular
ósseo e muscular
Principais funções e morfologia básica dos tecidos cartilaginoso, ósseo e muscular.
Profa. Gabriela Cardoso Caldas
1. Itens iniciais
Propósito
Compreender as características morfológicas e funções do tecido muscular e de duas outras especializações
do tecido conjuntivo, os tecidos cartilaginoso e ósseo, é importante para iniciar os estudos correlacionados à
histologia aplicada, aos mecanismos fisiológicos dos órgãos do corpo e para entender as bases patológicas
das doenças.
Objetivos
• Descrever as características morfológicas, a função e a localização do tecido cartilaginoso, bem como
os principais tipos de cartilagem e as suas particularidades.
• Descrever as características morfológicas do tecido ósseo, os componentes fundamentais, a estrutura
geral e a formação dos diferentes tipos de ossos.
• Reconhecer os três tipos de tecido muscular, as suas características morfológicas e as diferentes
formas de contração muscular.
Introdução
No corpo humano, existem cerca de 100 trilhões de células, que apresentam as mais variadas morfologias e
funções. Essas células se aglomeram em vários grupos específicos e constituem os quatro principais tecidos
do corpo (epitelial, conjuntivo, muscular e nervoso), que formam os órgãos e garantem a manutenção do
organismo.
Neste conteúdo, estudaremos o tecido cartilaginoso, que é uma das especializações do tecido conjuntivo.
Veremos os tipos de cartilagem, suas características e localização, além dos tipos de crescimento
cartilaginoso e reparo tecidual. Em seguida, ainda sobre as especializações do tecido conjuntivo, estudaremos
o também importante tecido ósseo e os seus componentes. Aprenderemos os tipos de ossos, a sua estrutura
básica, o processo de ossificação e, por último, as cartilagens. Por fim, conheceremos o tecido muscular, um
dos quatro tecidos básicos do corpo. Veremos com detalhes o músculo estriado esquelético, o estriado
cardíaco e o músculo liso, bem como os mecanismos moleculares envolvidos no processo de contração
celular.
Proteoglicanos
Proteínas + glicosaminoglicanos
Em contraste com o tecido conjuntivo propriamente dito, o tecido cartilaginoso não contém vasos sanguíneos,
e sua nutrição ocorre a partir dos capilares presentes no pericôndrio. As cartilagens que revestem as
superfícies dos ossos nas articulações móveis não possuem pericôndrio, e o aporte de nutrientes é dado pelo
líquido sinovial das cavidades articulares. Além disso, é importante comentarmos que o tecido cartilaginoso
também não apresenta vasos linfáticos e nervos.
Tipos de cartilagem
A cartilagem hialina é o tipo de cartilagem mais frequentemente encontrado no corpo humano. Ela forma o
primeiro esqueleto do feto, que é gradativamente substituído por um esqueleto ósseo a partir de um processo
conhecido como ossificação endocondral, que veremos mais adiante.
Então, ao longo do processo de desenvolvimento, a maior parte do modelo cartilaginoso é substituída por
osso.
Apesar disso, o tecido cartilaginoso ainda persiste nas extremidades proximais e distais do osso, atuando
como locais de crescimento dele. Essas regiões, chamadas de discos epifisários, apresentam cartilagem
funcional enquanto o osso estiver crescendo. Cessado o crescimento em um indivíduo adulto, a cartilagem
fica restrita à superfície das articulações móveis (cartilagem articular) e ao esqueleto da caixa torácica
(cartilagens intercostais). A cartilagem hialina também é encontrada na parede das fossas nasais, na traqueia,
na laringe e nos brônquios.
A cartilagem hialina é formada majoritariamente por delicadas fibrilas de colágeno do tipo II, associadas a
moléculas de ácido hialurônico, proteoglicanos hidratados e glicoproteínas. Dentre as glicoproteínas
estruturais, a condroitina é muito importante, pois apresenta sítios de ligação para condrócitos, fibras
colágenas e glicosaminoglicanos, auxiliando na formação do arcabouço de matriz com os condrócitos. Na
figura a seguir, observamos como essas estruturas estão organizadas.
Ao redor dos condrócitos existem regiões estreitas, ricas em proteoglicanos e pobres em colágeno, chamadas
indevidamente de cápsulas. A matriz da cartilagem hialina é basofílica, ou seja, cora-se em azul com a
hematoxilina durante as preparações histológicas, devido aos glicosaminoglicanos sulfatados (apresentam
carga negativa).
Com exceção das articulares, todas as cartilagens hialinas são envolvidas pelo pericôndrio, que é uma
camada de tecido conjuntivo. Como você deve lembrar, o tecido cartilaginoso é desprovido de capilares
sanguíneos e, por isso, o pericôndrio é responsável pela nutrição, oxigenação e eliminação dos resíduos do
metabolismo da cartilagem. Os nutrientes presentes no sangue atravessam o pericôndrio, penetram na matriz
cartilaginosa e alcançam os condrócitos mais profundos. Por conta da característica avascular, a espessura
máxima das cartilagens é limitada.
O pericôndrio é rico em fibras de colágeno do tipo I na parte mais superficial, apresentando mais células à
medida que se aproxima da cartilagem. As células do pericôndrio mais próximas da cartilagem são capazes de
se multiplicar e dar origem aos condroblastos e, posteriormente, aos condrócitos. Observe na figura a seguir
como os condrócitos (às vezes dois) ocupam as pequenas cavidades da abundante matriz extracelular.
Corte histológico da cartilagem hialina.
Saiba mais
Tanto as células quanto a matriz cartilaginosa sofrem retração durante as técnicas de processamento
histológico e, por isso, os condrócitos aparecem com uma forma estrelada e afastados da cápsula ao
microscópio. Já em tecidos vivos e cortes bem preparados, essas células ocupam totalmente as lacunas
da matriz.
Cartilagem elástica
A cartilagem elástica, observada na figura a seguir, é semelhante à hialina, porém, além das fibras de colágeno
(especialmente do tipo II) interagindo com proteoglicanos, apresenta elastina em sua matriz, formando uma
abundante rede de fibras elásticas ramificadas contínuas com as do pericôndrio. Essa característica oferece
elasticidade, resiliência e maleabilidade à cartilagem.
Resiliência
Propriedade que alguns corpos apresentam de retornar à forma original após terem sido submetidos a
uma deformação elástica.
Podemos encontrar a cartilagem elástica na tuba auditiva, na epiglote, no pavilhão auditivo, na orelha externa
e na cartilagem cuneiforme da laringe. Diferentemente da cartilagem hialina, a matriz da cartilagem elástica
não se calcifica durante o envelhecimento.
Fibrocartilagem
Também chamada de cartilagem fibrosa, a fibrocartilagem é considerada um tecido intermediário entre a
cartilagem hialina e o tecido conjuntivo denso, estando sempre associada a esse último.
Possui grande força tensora, formando grande parte dos discos intervertebrais, sínfise pubiana, discos
articulares do joelho, mandíbula e locais de inserção de tendões e ligamentos a ossos. Observando
detalhadamente esses locais, notamos que a fibrocartilagem atua como um amortecedor de choques,
conferindo aos tecidos resistência à compressão e às forças de cisalhamento.
As células da cartilagem fibrosa sintetizam várias moléculas da matriz, tanto em seu estado de
desenvolvimento quanto em seu estado maduro totalmente diferenciado, como observado na figura a seguir.
Dessa forma, a fibrocartilagem está preparada para as mudanças no ambiente externo, como forças
mecânicas, alterações nutricionais, de hormônios e fatores de crescimento.
Corte histológico da fibrocartilagem.
Saiba mais
A razão entre os tipos de colágeno na fibrocartilagem se modifica com a idade. Em indivíduos idosos, há
uma maior quantidade de colágeno do tipo II por conta da atividade metabólica dos condrócitos, que
produzem e liberam constantemente essas fibrilas colágenas na matriz circundante.
A substância fundamental é bem reduzida, estando limitada às proximidades das lacunas que contêm os
condrócitos. Apresenta quantidades maiores de versicano (proteoglicano secretado por fibroblastos) que
agrecano (secretado por condrócitos). O versicano liga-se ao ácido hialurônico, formando agregados
altamente hidratados. A degeneração dos discos intervertebrais está associada à degradação proteolítica
desses agregados, que ficam na matriz da cartilagem.
Agora que já comentamos as características gerais da fibrocartilagem, aprofundaremos um pouco mais nosso
estudo abordando os discos intervertebrais.
substância fundamental
Complexo de ácido hialurônico, proteoglicanos e glicoproteínas.
Discos intervertebrais
Estão localizados entre os corpos das vértebras, unidos a elas por ligamentos. São formados por dois
componentes:
É constituído por tecido conjuntivo denso e É formado por células arredondadas, dispersas
fibrocartilagem em maior quantidade, cujos em um líquido viscoso rico em ácido hialurônico
feixes de colágeno formam camadas e com pouca quantidade de colágeno tipo II.
concêntricas.
Na figura a seguir, conseguimos observar um esquema dos discos intervertebrais. Note que o núcleo pulposo
está na parte central circundado pelo anel fibroso.
Por ser altamente hidratado e lubrificado, os discos intervertebrais funcionam como uma espécie de almofada,
protegendo as vértebras contra impactos e prevenindo o desgaste vertebral durante os movimentos da
coluna espinal.
Atenção
Em indivíduos jovens, o núcleo pulposo é mais abundante, sendo parcialmente substituído por
fibrocartilagem com a idade.
Com a expressão do fator de crescimento do tipo SOX-9, inicia-se o processo de diferenciação dessas células
em condroblastos, que começam a secretar matriz cartilaginosa. À medida que a matriz vai sendo secretada e
depositada, os condroblastos vão se afastando uns dos outros. A diferenciação das cartilagens ocorre do
centro para a periferia: enquanto as células periféricas ainda são condroblastos típicos, as células mais
centrais já apresentam as características de condrócitos. O mesênquima que circunda o nódulo condrogênico
dá origem ao pericôndrio.
fator de crescimento
Substância normalmente de origem proteica que funciona como importante molécula e comunicação
entre as células, importante para a diferenciação celular.
Como vista na figura anterior, a partir do mesênquima (A) a multiplicação das células mesenquimais constitui
um tecido formado por muitas células (B). Em seguida, com a secreção da matriz, os condroblastos se
afastam (C). Por fim, a multiplicação mitótica dessas células dá origem aos grupos isógenos (D).
A regulação da condrogênese se dá pela ação de muitas moléculas, como receptores nucleares, fatores de
transcrição, moléculas de adesão e proteínas da matriz. Forças biomecânicas também atuam no
desenvolvimento do esqueleto cartilaginoso, não apenas regulando o formato, a regeneração e o
envelhecimento da cartilagem, como também modificando as interações das células com a matriz
cartilaginosa.
Com o início da secreção da matriz, o crescimento da cartilagem continua a partir de dois processos:
Crescimento aposicional
É um processo no qual a nova cartilagem é formada na superfície de uma cartilagem existente, como
observado na figura a seguir. As células mais internas do pericôndrio, semelhantes a fibroblastos, produzem o
colágeno do pericôndrio (do tipo I) e, uma vez que o crescimento cartilaginoso é iniciado, sofrem um processo
de diferenciação para condroblastos, orientado pelo fator de transcrição SOX-9, que já comentamos. A nova
matriz vai aumentando a massa cartilaginosa ao mesmo tempo que novos fibroblastos vão sendo produzidos
para manter a população do pericôndrio.
Corte histológico mostrando as diferentes regiões do tecido cartilaginoso.
Crescimento intersticial
Denomina o processo de formação da nova cartilagem dentro de uma massa de cartilagem existente. As
novas células originam-se das mitoses de condrócitos dentro das lacunas da matriz, que são distensíveis e
permitem a atividade secretora adicional. Inicialmente, as células filhas ocupam a mesma lacuna, mas com a
secreção da nova matriz, cada uma passa a ocupar sua própria lacuna, afastando-se ainda mais com a
contínua secreção da matriz.
O crescimento intersticial apresenta ocorrência quase exclusiva nas primeiras fases da vida da cartilagem,
pois à medida que a matriz vai ganhando rigidez, a única forma de crescimento viável passa a ser por
aposição.
A cartilagem apresenta capacidade de tolerar níveis consideráveis e repetitivos de estresse. Porém, uma vez
danificada, sua capacidade de cicatrizar é quase nula, mesmo em casos de lesões leves. Isso se deve a três
motivos principais:
Algum nível de reparo até pode ocorrer, mas apenas quando o pericôndrio é o único atingido. Nesses casos,
os agentes de reparo são as células progenitoras pluripotentes do pericôndrio, mas mesmo assim há baixa
produção de células cartilaginosas. O reparo culmina principalmente na produção e deposição de tecido
conjuntivo denso.
Verificando o aprendizado
Questão 1
O tecido cartilaginoso é um tipo de tecido conjuntivo que fornece suporte aos tecidos moles,
reveste as superfícies articulares, absorvendo o choque, e facilita o deslizamento dos ossos
nas articulações. Sobre as características desse tecido, analise as afirmações abaixo e
marque a alternativa que mostra de forma correta uma característica desse tecido:
A rede de fibrilas de colágeno apresenta resistência a tensões, enquanto os agregados de proteoglicanos são
altamente sensíveis às forças de cisalhamento.
As cartilagens que envolvem as articulações móveis são revestidas por uma espessa camada de pericôndrio,
com uma abundante rede de vasos sanguíneos.
A diferenciação das cartilagens ocorre da periferia para o centro: enquanto as células centrais ainda são
condroblastos, as células mais periféricas já apresentam características de condrócitos.
O crescimento aposicional apresenta ocorrência quase exclusiva nas primeiras fases da vida da cartilagem,
sendo substituído pelo crescimento intersticial.
Questão 2
Vimos que existem três tipos de cartilagem – hialina, elástica e fibrocartilagem – que
apresentam características próprias e localizações específicas no corpo. A seguir são listadas
algumas características desses tipos de cartilagem. Assinale a alternativa que faz a correta
correlação entre o tipo de cartilagem e sua característica:
A cartilagem hialina é formada principalmente por fibrilas de colágeno do tipo I, associadas a moléculas de
ácido hialurônico, glicoproteínas e proteoglicanos.
Assim como qualquer especialização do tecido conjuntivo, a cartilagem hialina apresenta uma rede abundante
de capilares sanguíneos, nervos e vasos linfáticos.
A cartilagem elástica apresenta numerosas fibrilas elásticas associadas aos proteoglicanos, ao contrário da
hialina que apresenta apenas colágeno.
As células da fibrocartilagem sintetizam várias moléculas da matriz somente até cessar o crescimento do osso
associado.
hidroxiapatita. A
associação desses cristais a fibras colágenas é responsável
pela rigidez e resistência característica do tecido ósseo,
que proporciona suporte aos tecidos moles e proteção aos
órgãos vitais, como aqueles contidos na caixa torácica.
Funções do tecido ósseo
São funções do tecido ósseo:
Por conta do seu conteúdo mineral, o osso também atua como um local de armazenamento para o
cálcio, fosfato e outros íons, que podem ser liberados de maneira controlada, mantendo seus níveis
adequados no organismo.
O osso abriga e protege órgãos vitais ao organismo, como, por exemplo, a medula óssea, local de
produção das células sanguíneas.
Promover a movimentação
O tecido ósseo é o principal componente do esqueleto. Fornece apoio aos músculos esqueléticos e
forma um sistema de alavancas, que amplia as forças geradas na contração muscular.
Armazenar substâncias
Outra propriedade funcional dos ossos é a capacidade de absorver toxinas e metais pesados,
minimizando as consequências maléficas em outros tecidos.
Em geral, um osso é constituído por outros tecidos conjuntivos além do tecido ósseo, como o tecido adiposo e
tecido hematopoiético, além de vasos sanguíneos e nervos. A cartilagem hialina também é encontrada em
situações nas quais o osso forma uma articulação livremente móvel com outro, a articulação sinovial.
Estrutura do osso
Agora que você já entendeu as muitas funções desempenhadas pelo tecido ósseo, é necessário compreender
a estrutura do osso. Para isso, observe a figura a seguir.
1. O primeiro é visualizado na parte externa como uma camada densa e compacta, que é denominada
osso compacto.
2. O segundo, na parte mais interna, consiste em uma rede semelhante a uma esponja, formada por
trabéculas, denominada osso esponjoso.
Os espaços que você vê dentro da rede são contínuos e é onde encontramos a medula óssea (no canal
medular) e os vasos sanguíneos. A localização do osso esponjoso e do osso compacto varia de acordo com o
formato do osso. Dessa forma, podemos dividir os ossos em quatro grupos:
Já nas epífises, observa-se o inverso: a região de osso esponjoso é extensa enquanto o osso compacto
consiste apenas em uma casca externa fina.
A tíbia e os ossos metacarpais (são os ossos que formam a primeira parte dos dedos das mãos) são exemplos
de ossos longo
Tíbia
O periósteo consiste em uma camada fibrosa externa, que possui fibroblastos e fibras colágenas que se
dispõem paralelamente à superfície do osso, formando uma cápsula e uma camada interna, que contém
algumas poucas células osteoprogenitoras. Com estímulo apropriado, essas células são capazes de sofrer
divisão e originar os osteoblastos.
Células secretoras de matriz óssea.
Saiba mais
Chamamos de fibras de Sharpey os feixes de fibras colágenas do periósteo que penetram o tecido
ósseo e prendem firmemente o periósteo ao osso.
A superfície interna do osso compacto, próxima à cavidade medular, e as trabéculas do osso esponjoso, como
mostrado na figura a seguir, são revestidas pelo endósteo, que é composto frequentemente por apenas uma
camada celular, com células osteoprogenitoras e células de revestimento ósseo. Essas células são similares,
apresentando morfologia achatada e núcleo alongado. Por se localizarem no interior das cavidades ósseas,
são também chamadas de células endosteais.
Estrutura óssea.
Como comentamos anteriormente, as trabéculas contínuas dos ossos esponjosos são ocupadas por vasos
sanguíneos e pela medula óssea. A medula óssea vermelha consiste em células sanguíneas em diferentes
estágios e uma rede estrutural de células articulares e fibras. Curiosamente, durante o crescimento do
indivíduo, a quantidade de medula óssea não aumenta proporcionalmente ao crescimento do osso. Ela é
geralmente limitada a espaços de osso esponjoso específicos, como o esterno e a crista ilíaca.
Em adultos, a velocidade de formação das células sanguíneas diminui e o tecido presente na cavidade
medular consiste principalmente em adipócitos, sendo denominado medula amarela.
medula amarela
Pode reverter-se em medula vermelha com estímulos apropriados, como uma extensa perda de sangue.
Osteoblastos
Os osteoblastos são as células que apresentam grande capacidade de síntese e secretam os componentes
orgânicos da matriz óssea, como colágeno tipo I, proteoglicanos e glicoproteínas. Sintetizam também a
osteonectina, que facilita a deposição de cálcio na matriz, e a osteocalcina, que estimula a atividade dos
osteoblastos. Além disso, participam da mineralização da matriz, pois são capazes de concentrar o fosfato de
cálcio, como observado a seguir.
São encontrados nas superfícies ósseas, dispostos lado a lado, semelhante a um epitélio simples. Quando
estão em atividade de síntese, apresentam morfologia cuboide e citoplasma basofílico. Porém, tornam-se
achatados e reduzem a basofilia em estado pouco ativo. Durante a síntese e deposição da matriz ao redor da
célula e de seus prolongamentos, ocorre a formação de lacunas e canalículos. Uma vez aprisionados por essa
matriz óssea recém-sintetizada, os osteoblastos passam a ser chamados de osteócitos.
Osteócitos
Como vimos, os osteócitos são as células que ocupam as lacunas da matriz óssea, das quais partem os
canalículos que possibilitam as trocas de nutrientes e substâncias entre essas células e os capilares
sanguíneos. Cada lacuna é ocupada por apenas um osteócito, que é capaz de trocar pequenas moléculas e
íons com outro osteócito por meio da existência de junções comunicantes em seus prolongamentos.
Apresentam morfologia achatada, retículo endoplasmático rugoso pouco abundante, cromatina nuclear
condensada e complexo de Golgi pouco desenvolvido. Apesar de essas características indicarem baixa
atividade de síntese, os osteócitos são células fundamentais para a manutenção da matriz óssea e sua morte
é seguida pela reabsorção da matriz. Note os prolongamentos celulares (seta vermelha) dos osteócitos na
figura a seguir.
Micrografia mostrando osteócitos corados de azul.
Osteoclastos
Os osteoclastos são células de reabsorção óssea encontradas nas superfícies ósseas onde há
remodelamento, remoção ou dano ósseo. São células gigantes e móveis, apresentando ramificações extensas
e irregulares. Apresentam citoplasma granuloso, algumas vezes vacuolizado, basófilo nas células jovens e
acidófilo nas maduras. A partir de mecanismos de regulação coordenados, os osteoclastos secretam
colagenase (enzimas que quebram as ligações peptídicas presentes na molécula de colágeno), hidrolases e
ácido (H+) nos ambientes de reabsorção óssea, digerindo localmente a matriz orgânica e dissolvendo o
fosfato de cálcio. A origem dos osteoclastos se dá a partir de precursores mononucleados da medula óssea,
que quando entram em contato com o tecido ósseo, unem-se e formam os osteoclastos, multinucleados,
como mostrado na figura a seguir.
Hidrolases
Enzimas que promovem a quebra de substâncias orgânicas a partir da utilização de moléculas de água.
Na figura a seguir, vemos um resumo de todas as células associadas aos ossos. Note a origem dos
osteoblastos a partir de células-troncos mesenquimais e osteoclastos a partir do progenitor de granulócitos/
monócitos.
Saiba mais
A matriz óssea recém-sintetizada, ainda não calcificada, próxima aos osteoblastos ativos recebe o nome
de osteoide.
Note, na figura a seguir, a quantidade de osteócitos (núcleos celulares são os pontos roxos) e fibras colágenas
dispostas sem orientação definida.
Cada sistema de Havers é formado por 4 a 20 lamelas ósseas concêntricas, constituindo um cilindro longo, às
vezes bifurcado, paralelo à diáfise. No centro desse cilindro existe o canal de Havers, revestido pelo endósteo,
contendo nervos e vasos sanguíneos. A seguir conseguimos observar um esquema ilustrando a estrutura de
um ósteon.
Estrutura do ósteon.
Se fizermos cortes transversais à diáfise, enxergaremos facilmente uma organização típica das lamelas ósseas
constituindo os sistemas de Havers: circunferenciais interno, externo e os intermediários. Os sistemas de
Havers são característicos da diáfise dos ossos longos, mas sistemas pequenos também podem ser
encontrados no osso compacto de outros locais. A comunicação dos canais de Havers, entre si, com a
cavidade medular e com a superfície externa se dá por canais oblíquos ou transversais que atravessam as
lamelas ósseas: os canais de Volkmann.
canais de Volkmann
Ao contrário dos canais de Havers, não apresentam lamelas ósseas concêntricas.
Todos os canais vasculares do tecido ósseo aparecem quando a matriz se forma ao redor dos vasos
preexistentes.
Formação e mineralização óssea
O tecido ósseo pode ser formado por dois processos:
Ossificação endocondral
Ossificação intramembranosa
No qual um molde de cartilagem hialina
serve de precursor do osso. São exemplos de Processo mais simples que ocorre no
ossos que se desenvolvem a partir desse interior de uma membrana conjuntiva.
processo os ossos dos membros inferiores e Desenvolvem-se por esse processo os
superiores, assim como as partes do ossos chatos do crânio, da face, a
esqueleto que sustentam peso (vértebras, por mandíbula e a clavícula.
exemplo).
Atenção
Em ambos os processos, forma-se primeiro o osso primário, que é gradualmente substituído pelo
secundário. Apesar de existirem esses dois tipos de ossificação, isso não significa que determinado osso
seja classificado como membranoso ou endocondral. Esses termos referem-se apenas ao processo
inicial de formação óssea.
Por conta da remodelação que ocorre em seguida, o tecido ósseo inicialmente depositado por algum desses
dois mecanismos é posteriormente substituído. O osso de reposição é formado sobre o osso que já existe por
crescimento aposicional.
Portanto, durante o crescimento dos ossos, podemos encontrar áreas de tecido primário, áreas de absorção e
áreas de tecido secundário. A combinação de formação e remodelamento ósseo persiste durante o
crescimento do osso, mesmo que em um ritmo bem mais lento em adultos.
Ossificação intramembranosa
Como você já sabe, a ossificação intramembranosa ocorre no interior de membranas de tecido conjuntivo,
local chamado de centro de ossificação primária. Inicialmente, há a diferenciação das células mesenquimais
em osteoblastos, que sintetizam a matriz ainda não mineralizada. Logo em seguida, há a mineralização da
matriz, que engloba os osteoblastos e esses, por sua vez, se transformam em osteócitos.
Durante esse processo, há a confluência de várias traves de matriz, dando ao osso um aspecto esponjoso. As
cavidades formadas são penetradas por vasos sanguíneos e pelas células mesenquimatosas que darão
origem à medula óssea. A seguir, apresentamos as etapas da ossificação intramembranosa:
Primeira etapa
Surge um centro de ossificação no tecido conjuntivo mesenquimatoso.
Ocorre diferenciação das células osteoprogenitoras derivadas do
mesênquima em osteoblastos. Os osteoblastos começam a secretar a
matriz não mineralizada, o osteoide.
Segunda etapa
Os osteoblastos acumulam-se na periferia do centro de ossificação e
continuam secretando osteoide em direção ao centro de ossificação. À
medida que o processo continua, a matriz se mineraliza e engloba os
osteoblastos, que se diferenciam em osteócitos.
Terceira etapa
O tecido recém-formado tem uma estrutura microscópica de osso
imaturo com trabéculas espessas revestidas por osteoblastos e células
endosteais.
Quarta etapa
O crescimento adicional e a remodelação do osso resultam na
substituição do osso imaturo por um osso maduro, compacto e lamelar.
Entre as lamelas de osso compacto há trabéculas de osso esponjoso. Os
espaços entre as trabéculas são ocupados por células da medula óssea,
conduzidas por vasos sanguíneos.
Saiba mais
Durante a palpação do crânio de recém-nascidos, podemos sentir as fontanelas, áreas moles onde as
membranas conjuntivas ainda não foram substituídas por tecido ósseo.
Ossificação endocondral
A ossificação endocondral, como já comentamos, usa um molde de cartilagem hialina como precursor para o
desenvolvimento ósseo. Primeiramente, ocorrem modificações na cartilagem que envolvem hipertrofia de
condrócitos, redução da matriz cartilaginosa a finos tabiques, mineralização e apoptose dos condrócitos.
Posteriormente, as cavidades que eram ocupadas pelos condrócitos são invadidas por capilares sanguíneos e
células osteogênicas do tecido conjuntivo vizinho, que se diferenciam em osteoblastos e começam a secretar
matriz sobre os tabiques de cartilagem calcificada. Como você pode perceber, não há transformação do
tecido cartilaginoso em tecido ósseo, mas o aparecimento do tecido ósseo onde antes havia cartilagem. Os
tabiques da matriz cartilaginosa servem como pontos de suporte para que a ossificação ocorra.
A ossificação endocondral é a principal responsável pela formação dos ossos curtos e longos. A formação dos
ossos longos é um processo complexo, que estudaremos com mais detalhes a seguir.
O molde cartilaginoso dos ossos longos apresenta uma parte média estreita e extremidades dilatadas, que
correspondem à diáfise a às epífises futuras. O primeiro tecido ósseo que aparece nos ossos longos é
formado por ossificação intramembranosa do pericôndrio, que recobre parte da diáfise e forma uma espécie
de cilindro chamado de colar ósseo.
Durante o desenvolvimento do colar ósseo, as células cartilaginosas envolvidas por ele sofrem hipertrofia,
morrendo por apoptose, e a matriz da cartilagem se mineraliza. A partir daí, vasos sanguíneos vindos do
periósteo atravessam o colar ósseo e penetram na cartilagem recém-calcificada, levando células
osteoprogenitoras. Com a proliferação dessas células e diferenciação em osteoblastos, há a formação de
camadas celulares na superfície dos tabiques cartilaginosos e secreção da matriz óssea que rapidamente se
mineraliza. Observe os detalhes dessa formação a seguir.
tabiques
Membrana que divide uma cavidade
Formação de um osso longo a partir de um modelo cartilaginoso.
Saiba mais
Na análise histológica, a cartilagem calcificada é basófila, diferentemente do tecido ósseo, que é
acidófilo.
O centro de ossificação é chamado de centro primário, que cresce rapidamente e ocupa toda a diáfise. Esse
alastramento é acompanhado pelo cilindro ósseo, que cresce também em direção às epífises. Desde o início
da formação do centro primário, há o aparecimento de osteoclastos e absorção do tecido ósseo, formando o
canal medular.
E as epífises?
Um pouco mais tarde, formam-se os centros secundários de ossificação, um em cada epífise. Eles não
aparecem simultaneamente e são semelhantes aos centros primários, mas possuem crescimento radial.
Também encontramos medula óssea na porção central das epífises.
Cartilagem articular
Persistirá por toda a vida e não contribui para a formação de tecido ósseo.
Encontrada entre as epífises e a diáfise e que, a partir desse momento, torna-se responsável pelo
crescimento longitudinal do osso até os 20 anos de idade do indivíduo, quando desaparece por
ossificação.
Cartilagem articular.
Sobre o mecanismo de calcificação da matriz, ainda não existe uma hipótese que seja universalmente aceita.
O que sabemos é que a calcificação começa com a deposição de sais de cálcio sobre as fibras de colágeno,
processo que parece ser induzido pelos proteoglicanos e pelas proteínas de matriz. Além disso, a deposição
sofre influência da enzima fosfatase alcalina, sintetizada pelos osteoblastos, e da concentração de sais de
cálcio em vesículas dessas células, que são expelidas para a matriz.
Articulações
Você já parou para pensar como os ossos se ligam uns aos outros para constituir o nosso
esqueleto?
Quem promove essa união são estruturas formadas por tecidos conjuntivos, as articulações. Elas podem ser
classificadas em: sinartroses e diartroses.
As sinartroses não possibilitam movimentos, ou quando ocorrem, são muito limitados. Podem ser divididas em
três tipos, dependendo do tecido que une os ossos:
Sinostoses
Os ossos são unidos por tecido ósseo, e as articulações são totalmente ausentes de movimentos. São
encontradas unindo os ossos chatos do crânio em idosos. Em adultos jovens e crianças, a união é
dada por tecido conjuntivo denso.
Sincondroses
Os ossos são unidos por cartilagem hialina e as articulações apresentam movimentos limitados. São
encontradas na articulação da primeira costela com o esterno.
Sindesmoses
Os ossos são unidos por tecido conjuntivo denso e, assim como as sincondroses, são dotadas de
algum movimento. A sínfise pubiana e a articulação tibiofibular inferior são exemplos de sindesmoses.
Já as diartroses são articulações que possuem grande mobilidade e geralmente unem os ossos longos.
Observando a figura a seguir, podemos notar uma cápsula que liga as extremidades ósseas e delimita uma
cavidade fechada, a cavidade articular. A cápsula é formada por duas partes: a camada fibrosa externa e a
camada sinovial (membrana sinovial) que reveste a cavidade articular, exceto as áreas de cartilagem.
Desenho esquemático de uma diartrose.
As diartroses possuem cápsulas com estruturas diferentes, conforme a articulação. De maneira geral, as
cápsulas são constituídas por uma camada externa, a camada fibrosa, e uma camada interna, a membrana ou
camada sinovial.
Revestindo a camada sinovial, encontramos dois tipos celulares: um semelhante ao fibroblasto e o outro com
morfologia e atividade funcional semelhantes ao macrófago. A camada fibrosa da cápsula articular é formada
por tecido conjuntivo denso.
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Verificando o aprendizado
Questão 1
As lacunas da matriz óssea são ocupadas por uma ou duas células de morfologia achatada,
que são fundamentais para a manutenção da matriz. Sua morte é seguida pela absorção
óssea. Estamos falando de qual tipo celular?
Osteócito
Osteoblasto
Condroblastos
Osteoclasto
Condrócitos
Questão 2
Vimos que as diartroses são articulações que possuem grande mobilidade e geralmente unem
os ossos longos. Em relação à estrutura das diartroses, analise as afirmativas a seguir:
A
I, II e III
I, II e IV
II, III e IV
I e II
II e III
Saiba mais
A adenosina trifosfato (ATP) é um nucleotídeo formado por uma ribose (açúcar) ligada à adenina (base
nitrogenada) e três grupos fosfato em série. É uma molécula que armazena energia, liberando-a, quando
necessário, por uma reação de hidrólise (em que ocorre a quebra de uma molécula em moléculas
menores com a participação da água). Nessa reação, são formados adenosina difosfato (ADP), fosfato
inorgânico (Pi) e energia.
As células musculares se originam no mesoderma, e sua diferenciação ocorre pela síntese das proteínas
filamentosas, concomitante ao alongamento celular. Elas são células alongadas e, por isso, são também
chamadas fibras musculares. Sua matriz extracelular consiste na lâmina basal (ou externa) e nas fibras
reticulares.
De acordo com as características morfológicas e funcionais, o tecido muscular pode ser dividido em três tipos:
Músculo liso
É encontrado nas vísceras, no sistema circulatório, nos músculos intrínsecos
do olho e nos músculos que fazem os pelos da pele se levantarem. É formado
por aglomerados de células fusiformes, que não apresentam estrias
transversais. Sua contração é lenta e está sob controle involuntário.
Saiba mais
Nas células musculares, a membrana celular é chamada de sarcolema, o citosol, de sarcoplasma, e o
retículo endoplasmático liso, de retículo sarcoplasmático.
Saiba mais
As células musculares esqueléticas do adulto não sofrem mitoses, mas é possível a formação de novas
células no processo de reparo após lesão ou de hipertrofia decorrente do exercício intenso, pela divisão
e fusão de mioblastos quiescentes, as células satélites.
Organização muscular
Em um músculo, as fibras se organizam em grupos de feixes, sendo o conjunto envolvido por uma camada de
tecido conjuntivo, o epimísio, que recobre o músculo inteiro. Do epimísio partem finos septos do conjuntivo, o
perimísio, que entram no músculo e separam os feixes. Dessa forma, o perimísio envolve os feixes de fibras
(fascículo muscular). Por fim, cada fibra muscular é envolvida individualmente pelo endomísio, formado pela
lâmina basal da fibra muscular associada a fibras reticulares.
As fibras musculares são mantidas unidas pelo tecido conjuntivo, possibilitando que a força de contração
gerada individualmente por cada fibra atue no músculo inteiro. Esse papel é de extrema importância funcional,
uma vez que a maioria das fibras não alcança as duas extremidades musculares. Além disso, por meio do
tecido conjuntivo, a força da contração do músculo é transmitida para outras estruturas, como os tendões e
ossos. A força da contração pode ser regulada a partir do número de fibras musculares estimuladas pelos
nervos.
Dos septos do conjuntivo partem os vasos sanguíneos que penetram os músculos e formam uma extensa rede
de capilares entre as fibras, além de vasos linfáticos e nervos.
Cada fibra muscular contém diversos feixes cilíndricos de filamentos, as miofibrilas. A estriação da miofibrila
deve-se à repetição dos sarcômeros, que são unidades iguais formadas pela parte da miofibrila que fica entre
duas linhas Z sucessivas e contém duas semibandas I separadas por uma banda A, conforme observamos na
figura a seguir.
Organização do sarcômero.
Dispostos longitudinalmente nas miofibrilas, encontramos filamentos finos, de actina e outras proteínas, e
grossos, de miosina. Esses filamentos miofibrilares, observados ao microscópio eletrônico de transmissão,
distribuem-se de maneira simétrica e paralela, disposição que é mantida por várias proteínas. Uma dessas
proteínas é a desmina, cujos filamentos ligam as miofibrilas umas às outras. O conjunto de miofibrilas é preso
à membrana plasmática da célula muscular por meio de outras várias proteínas, como a distrofina.
Os filamentos finos partem da linha Z e vão até a borda externa da banda H. Já os filamentos de miosina
ocupam a região central do sarcômero. Dessa forma:
Quadro Resumo
Saiba mais
Na banda A, os filamentos de miosina são rodeados por seis filamentos finos, formando um hexágono.
A miosina e a actina representam mais da metade das proteínas do músculo estriado. No entanto, além da
actina e da miosina, as miofibrilas do músculo estriado contêm outras duas proteínas principais, a
tropomiosina e a troponina.
1
Actina
Apresenta-se sob a forma de polímeros longos (actina F) formados por duas cadeias de monômeros
globulares (actina G) torcidas uma sobre a outra. Quando esses monômeros se polimerizam para
formar a actina F, a parte posterior de um combina-se com a frente do outro, produzindo um
filamento. Cada monômero globular de actina G tem uma região que interage com a miosina.
2
Tropomiosina
É uma molécula longa e fina, formada por duas cadeias polipeptídicas enroladas uma na outra. As
moléculas ligam-se umas às outras pelas extremidades, formando filamentos que se localizam ao
longo do sulco existente entre os dois filamentos de actina F. Cada molécula de tropomiosina tem um
local específico no qual se prende o complexo da troponina.
3
Troponina
É uma molécula longa e fina, formada por duas cadeias polipeptídicas enroladas uma na outra. As
moléculas ligam-se umas às outras pelas extremidades, formando filamentos que se localizam ao
longo do sulco existente entre os dois filamentos de actina F. Cada molécula de tropomiosina tem um
local específico no qual se prende o complexo da troponina.
4Miosina
É uma molécula grande, em forma de bastão, formada por dois peptídeos enrolados em hélice. Em
uma das duas extremidades, há uma “cabeça” que contém locais específicos de ligação com a
adenosina trifosfato (ATP). É justamente nessa região que ocorre a hidrólise do ATP, onde a energia
química é convertida em energia mecânica durante a contração muscular. Nessa parte também
ocorre a interação com a actina.
Observe, na figura a seguir, que cada molécula de tropomiosina (feixe em amarelo) ocupa o sulco que
corresponde a sete moléculas de actina (representada pelas bolas rosas) e, para cada molécula de
tropomiosina, existe um complexo de troponina. Quando há o estímulo muscular, a molécula de troponina
altera seu formato, afunda a tropomiosina no sulco e libera os sítios da actina de interação com a miosina.
Por quê?
Uma vez que os filamentos de actina penetram na banda A, a banda I diminui de tamanho. Ao mesmo tempo, a
banda H também se reduz, à medida que os filamentos finos se sobrepõem completamente aos grossos.
Como resultado, cada sarcômero e, em consequência, a fibra muscular inteira sofrem encurtamento.
Achou confuso?
A contração muscular é um evento que depende da disponibilidade de íons cálcio (Ca 2+), armazenados no
retículo sarcoplasmático, e é responsável pelo controle de nervos motores, que se ramificam no tecido
conjuntivo do perimísio. O local de contato com a fibra muscular é denominado de placa motora ou junção
mioneural. Quando a fibra do nervo motor recebe um impulso nervoso (potencial de ação), seu terminal
axônico libera acetilcolina (conhecidas como terminaçöes colinérgicas), um neurotransmissor que se difunde
pela fenda sináptica e se associa a receptores do sarcolema. A ligação da acetilcolina resulta em uma maior
permeabilidade da membrana ao sódio, despolarizando o sarcolema e, em seguida, o retículo sarcoplasmático.
Quando a membrana do retículo é despolarizada por estímulos nervosos, os canais de cálcio se abrem, e
esses íons, que antes estavam armazenados em cisternas, difundem-se passivamente (sem gasto de energia)
e atuam sobre a troponina. Uma vez cessada a despolarização, a membrana do retículo transfere os íons de
cálcio para o interior das suas cisternas, em um processo ativo (com consumo de energia) que interrompe a
contração.
Impulso nervoso
É uma rápida alteração de potencial elétrico das membranas, que possibilita a condução de sinais
elétricos. As células que geram e conduzem os potenciais de ação possuem uma membrana excitável.
Quando em repouso, o meio intracelular apresenta carga global negativa e o extracelular, positiva. No
início do impulso nervoso, há uma despolarização da membrana, ou seja, uma inversão das cargas que
permite a transmissão do sinal.
Ilustração básica do estímulo nervoso na fibra muscular esquelética.
O processo de contração no músculo estriado envolve uma série de eventos bioquímicos e mecânicos. A
miosina, cuja cabeça tem atividade ATPase, converte a energia química em força mecânica a partir dos
estados de associação e dissociação com a actina.
Durante o repouso, uma molécula de ATP está ligada à cabeça da miosina. Para que ocorra a hidrólise do ATP
e a liberação de energia, a miosina precisa da actina como cofator. Quando o músculo está em repouso, a
interação miosina-actina não ocorre devido à presença do complexo troponina-tropomiosina sobre os
filamentos de actina, como observamos na figura a seguir.
Interação miosina-actina — músculo em repouso.
Porém, quando há disponibilidade de íons de cálcio, estes se ligam a uma das três subunidades da troponina,
mudando a configuração do complexo das três subunidades. Com a mudança estrutural da troponina, a
molécula de tropomiosina é empurrada mais para dentro do sulco de actina. O resultado é que os sítios de
ligação da actina com a miosina são expostos, propiciando a interação entre as cabeças de miosina com a
actina. Dessa forma, o ATP libera adenosina difosfato (ADP), fosfato inorgânico e energia.
Com a hidrólise do ATP, ocorre uma ligeira deformação na miosina, aumentando a curvatura de sua cabeça.
Como a actina está interagindo com a miosina, o movimento da cabeça da miosina empurra o filamento de
actina, promovendo seu deslizamento sobre o filamento de miosina. Observe essa interação na figura a seguir.
Embora o filamento grosso tenha várias cabeças de miosina, em cada momento da contração
apenas um pequeno número alinha-se com os sítios de actina.
Saiba mais
Sem ATP, o complexo actina-miosina fica estável, o que explica a rigidez muscular que ocorre logo após
a morte, o rigor mortis.
Como você deve ter notado, uma única contração muscular é resultado de milhares de ciclos de formação e
destruição de interações actina-miosina. A atividade contrátil continua acontecendo até que os íons de cálcio
sejam removidos e o complexo troponina-tropomiosina cubra novamente o sítio de interação da actina com a
miosina.
Iniciada no sarcolema, a despolarização teria que se difundir por toda a espessura da fibra para alcançar as
cisternas de cálcio do retículo mais profundas. Sabendo disso, você deve estar imaginando que, em fibras
musculares de maior calibre, as miofibrilas periféricas se contrairiam antes das mais profundas, certo?
A garantia de que a contração de cada fibra muscular esquelética se dê de maneira uniforme é dada pelo
sistema de túbulos transversais, ou sistema T. Esse sistema é constituído por uma rede de invaginações do
sarcolema, cujos ramos envolvem as junções das bandas A e I de cada sarcômero. O sinal despolarizador
passa para o retículo sarcoplasmático e resulta na liberação de cálcio, que inicia o ciclo de contração. Veja, na
figura a seguir, um esquema desse processo.
Os discos intercalares dispõem-se de maneira irregular ao longo das fibras e representam regiões de fixação
altamente especializadas entre células vizinhas, conforme observamos na figura a seguir:
Esquema ilustrativo da organização das fibras cardíacas e especializações
juncionais dos discos intercalares.
Zônulas de adesão
Desmossomos
Unem as células cardíacas, impossibilitando que elas se separem durante a atividade contrátil.
Junções comunicantes
Encontradas nas partes laterais dos discos, são responsáveis pela comunicação iônica entre as
células vizinhas. Com isso, o sinal iônico passa como uma onda de uma célula para outra.
Na imagem a seguir, conseguimos observar a disposição do disco intercalar e suas especializações juncionais.
As proteínas contráteis das células musculares cardíacas apresentam estrutura e função praticamente iguais
às das células esqueléticas. Porém, no músculo cardíaco, o sistema T e o retículo sarcoplasmático não são tão
bem organizados como no músculo esquelético. Os ventrículos apresentam sistemas T maiores que os dos
músculos esqueléticos e que se localizam na altura da banda Z. Já o retículo sarcoplasmático apresenta
distribuição irregular entre os miofilamentos e não é tão desenvolvido.
Saiba mais
Enquanto nas fibras musculares esqueléticas o túbulo T apresenta conexão com duas cisternas do
retículo sarcoplasmático (estrutura conhecida como tríade), nas fibras cardíacas, os túbulos T
geralmente se associam a apenas uma cisterna, estrutura chamada de díade.
Outra característica das células musculares cardíacas é a presença de numerosas mitocôndrias. Elas ocupam
aproximadamente 40% do volume celular, contra apenas 2% ocupado pelas mitocôndrias das células
esqueléticas.
Essa quantidade abundante reflete o intenso metabolismo aeróbio realizado pelo tecido. As células
musculares cardíacas armazenam ácidos graxos na forma de triglicerídeos, encontrados em gotículas lipídicas
citoplasmáticas. Também há glicogênio, mas em pequena quantidade, fornecendo glicose quando há
necessidade. Por fim, também encontramos no músculo cardíaco uma rede de células musculares
modificadas, acopladas a outras células musculares, que apresentam função importante na geração e
condução do estímulo cardíaco, de tal modo a cadenciar as contrações atriais e ventriculares.
Músculo liso
O músculo liso é composto por células longas, espessas no centro e mais delgadas nas extremidades. As
células musculares lisas, também denominadas fibras, não apresentam o padrão estriado encontrado no
músculo esquelético e no músculo cardíaco. O tamanho celular pode variar, desde 20μm na parede dos
pequenos vasos sanguíneos até 500μm no útero de uma mulher grávida. Inclusive, durante a gravidez, as
fibras musculares do útero aumentam de número (hiperplasia) e de tamanho (hipertrofia). Essas células são
revestidas por lâmina basal e se mantêm unidas por uma rede de fibras reticulares, de modo que a contração
simultânea de apenas algumas células reverbere pelo músculo inteiro. Observe, na figura a seguir, a ausência
das estrias transversais no músculo liso.
Um aspecto particular das células musculares lisas é a existência de abundantes invaginações da membrana
celular, semelhantes a cavéolas. Acredita-se que elas funcionem de forma análoga ao sistema de túbulos T
que comentamos anteriormente, para liberação de Ca2+ no citoplasma. Os níveis intracelulares de Ca2+
também são muito importantes na regulação da contração do músculo liso.
Veja, na figura a seguir, o aspecto de uma célula muscular lisa relaxada e contraída.
Cavéolas
A membrana celular forma pequenas invaginações em forma de bolsa para o interior do citoplasma.
Esquema ilustrativo da célula muscular lisa relaxada e contraída.
No músculo liso, a contração também depende do deslizamento dos filamentos de actina e miosina, mas o
mecanismo molecular envolvido é diferente do que aprendemos para os músculos estriados.
Encontramos no sarcoplasma das células musculares lisas filamentos de actina estabilizados pela combinação
com a tropomiosina. Porém, aqui não existem sarcômeros nem troponina, e os filamentos de miosina só se
formam no momento da contração.
Vimos que, no tecido muscular estriado, a miosina (que é do tipo I) existe permanentemente estirada,
constituindo os filamentos grossos. Já nas células musculares lisas, encontramos a miosina II, cujas moléculas
ficam enroladas. Uma vez combinadas com um radical fosfato, elas se distendem e formam um filamento.
1. A partir do estímulo do sistema nervoso autônomo, os íons de cálcio migram do meio extracelular para
o sarcoplasma pelos canais de transporte especializados localizados na membrana plasmática.
2. Os íons de cálcio se combinam com uma proteína, a calmodulina, formando um complexo que ativa a
enzima quinase da cadeia leve da miosina II.
3. A enzima ativa fosforila as moléculas de miosina II, que se distendem e assumem a forma filamentosa.
Com essa mudança conformacional, os sítios que possuem atividade ATPase e que se combinarão com
a actina ficam descobertos.
4. A combinação da miosina com a actina libera energia do ATP, que promove a deformação da cabeça da
miosina II e, com isso, ocorre o deslizamento dos filamentos de actina e de miosina uns sobre os
outros.
A actina e miosina ligam-se a filamentos intermediários de desmina e de vimentina, que por sua vez prendem-
se aos corpos densos da membrana celular. Essa configuração provoca a contração da célula como um todo.
Além do cálcio, outros fatores ativam a miosina II e estimulam a contração celular. Um exemplo é o aumento
nos níveis citosólicos de AMP-cíclico, que pode ser induzido por hormônios sexuais, como os estrogênios.
AMP cíclico
É formada a partir do ATP, uma importante molécula na transdução de sinal, sendo responsável pela
modulação de processos fisiológicos.
A inervação do músculo liso é realizada por fibras do sistema nervoso simpático e parassimpático, porém não
há placas motoras como no músculo esquelético. Frequentemente, os axônios formam dilatações entre as
células musculares lisas, que contêm vesículas sinápticas com os neurotransmissores acetilcolina ou
norepinefrina, também conhecidas como terminações adrenérgicas.
Algumas dessas dilatações axônicas estão bem próximas da célula muscular, porém há outras mais distantes.
As terminações nervosas adrenérgicas e colinérgicas atuam de modo antagônico, estimulando ou inibindo a
contração do músculo.
Acetilcolina
Conhecidas como terminações colinérgicas.
Verificando o aprendizado
Questão 1
Vimos que o tecido muscular é divido em esquelético, cardíaco e liso. O músculo cardíaco
apresenta uma característica exclusiva, que é a presença dos discos intercalares. A respeito
dessa estrutura, é correto afirmar que:
Cruzam as fibras musculares somente de forma transversal, sem regiões paralelas às fibras.
Estão presentes somente nas fibras cardíacas atriais, não estando presentes nos ventrículos, o que diferencia
esse tipo de contração.
Questão 2
As células musculares lisas, também denominadas fibras, não apresentam o padrão estriado
encontrado no músculo esquelético e no músculo cardíaco. Sobre as características
morfológicas do músculo liso, analise as afirmativas a seguir:
II
III
I e II
II e III
Considerações finais
Chegamos ao fim do estudo sobre os tecidos cartilaginoso, ósseo e muscular. Inicialmente aprendemos as
características histológicas básicas dos tipos de cartilagem e onde podemos encontrá-los. Além disso,
discutimos a formação do tecido cartilaginoso e os dois tipos de crescimento da cartilagem. Em seguida,
iniciamos um interessante estudo sobre o tecido ósseo: vimos seus componentes principais, a estrutura
básica dos ossos imaturos e maduros e os processos de ossificação. Ainda nesse conteúdo, também
debatemos a importância e os tipos de articulações.
Por fim, estudamos o terceiro tipo dos tecidos básicos do corpo: o tecido muscular. Debatemos as
características gerais e as funções dos músculos, bem como nos aprofundamos nos aspectos celulares e
histológicos dos músculos estriados (esquelético e cardíaco) e lisos. Os mecanismos moleculares do processo
de contração muscular também foram abordados com detalhes.
Foi uma longa jornada, repleta de aprendizados e conceitos novos que serão extremamente úteis para a sua
carreira. Tais conceitos se aplicam a diversos campos, como Anatomia, Fisiologia, Patologia e Biologia celular.
Podcast
Agora, a especialista Gabriela Cardoso Caldas encerra com uma entrevista com a conteudista abordando
os principais assuntos do tema.
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• Leia o artigo Efeitos do exercício físico sobre a cartilagem articular, escrito por Lisiane Piazza e
colaboradores para a revista digital EFDesportes.
• Navegue por dezenas de micrografias e aprenda mais sobre a morfologia dos tecidos cartilaginoso,
ósseo e muscular no Atlas digital de histologia básica, organizado por Fábio Goulart de Andrade e Osny
Ferrari, da Universidade Estadual de Londrina, disponível para download na internet.
Referências
JUNQUEIRA, L.C.; CARNEIRO, J. Histologia básica. 12. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2013.
KIERSZENBAUM, A. L. Histologia e biologia celular: uma introdução à patologia. 2. ed. Rio de Janeiro: Elsevier,
2008.
OVALLE, W. K.; NAHIRNEY, P. C. Netter: bases da histologia. Rio de Janeiro: Elsevier, 2008.
ROSS, M. H.; PAWLINA, W.; BARNASH, T. A. Histologia – texto e atlas. 7. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan,
2016.