Exegese Zacarias 3:8-10
Esta seção do artigo seguirá a estrutura de análise do texto proposta por Stuart. Neste
material, ele explica que para se fazer uma boa exegese é preciso analisar algumas
especificidades do texto em questão. Para este trabalho, serão adotadas apenas algumas delas:
1) Definição dos limites do texto
2) Análise sintática e morfológica das palavras
3) Identificação o gênero literário da passagem
4) Estudo do contexto histórico/teológico
1 DEFINIÇÃO DOS LIMITES DO TEXTO
A perícope em análise, Zacarias 3:1-10 faz referência a quarta de um grupo de oito
visões que o profeta recebeu logo no início de seu ministério profético. Esse grupo de visões
está inserido entre os capítulos 1 versículo 7 ao capítulo 6 versículo 15, delimitando desta
maneira a seção da perícope analisada. O livro é dividido em três partes: sendo a primeira
parte que trata das Promessas de Restauração (Zc 1:1 - 6:15), segunda parte apresenta a
Reprovação ao pecado e apelo para a justiça, 7:1-8:23, terceira parte que irá tratar da
destruição do inimigo e a libertação do povo judaico, 9:1-14:21.
Destaca – se que dentro da primeira parte pode- se dividir em três partes. 1° tratando
da Introdução e apelo para seguir o Senhor, 1:1-6; 2° as oito visões, 1:7 - 6:8; e 3° a vinda e a
obra do Messias, o Renovo, 6:9-15.
2 ANÁLISE SINTATICA E MORFOLÓGICA DAS PALAVRAS
Homens de presságios ( ) ַאְנ ֵֵׁׁ֥ש י מֹוֵֵ֖פ תé muito importante para a compreensão da
mensagem profética, pois a palavra ( מֹוֵֵ֖פ תmofeth) traduzida nessa passagem como
“presságio”. O termo tem 36 ocorrências no Antigo Testamento, e sempre está relacionado a
maravilhas, sinais, prodígios (Holladay, 2010). Nesse sentido Brannan (2020) define a
palavra (mofeth) com conotação simbólica, de maneira semelhante a Isaías 20:3, onde
(mofeth) significa prodígio. Assim sendo, tanto Josué, quanto os outros judeus que retornaram
do exílio eram símbolos representação daquilo que Deus estava disposto a fazer pela nação
israelita caso eles atendessem as condições estabelecidas por Deus, ou seja, as condições da
aliança que haviam sido estabelecidas. Existe também o sentido do sacerdócio de Josué e seus
companheiros (v. 8), servirem de representação, da obra que seria realizada pelo Renovo
(Jesus), o maior sumo sacerdote (Hb 4:14), cujo profeta Jeremias havia profetizado a sua
vinda (Jr 23:5). Nesse sentido o sumo sacerdote Josué é um tipo de Cristo, Nichols (2015, p.
1209) apoia essa ideia ao afirmar que em Zacarias 6:11 “o sumo sacerdote representa o
Messias”, outro fator que contribui para essa interpretação é o fato do nome “Josué” ser
equivalente ao nome “Jesus”, em hebraico (Holladay, 2010).
Renovo do hebraico ( ֶֽצ ַמ חṣěʹ·mǎḥ), é um substantivo, comum, singular, absoluto, o
termo tem 12 ocorrências no antigo testamento, Gn 19:25; Sl 65:10; Is 4:2; 61:11; Jr 23:5;
33:15; Ez 16:7; 17:9; 17:10; Zc 3:8; 6:12; Os 8:7. Em Is 4:2 61:11; Jr 23:5; 33:15; Zc 3:8;
6:12 o renovo prefigura Cristo Jesus. A palavra renovo, no original, é o equivalente a broto,
que é traduzido como renovo. O sentido deste substantivo é de um título de um futuro rei da
árvore genealógica de Davi (Holladay, 2010, p. 437).
O termo Senhor dos Exércitos () ְי הַָ֣ו ה ְצ ָב ֔א ֹות. Nessa passagem Deus não é apresentado
apenas como Senhor “Yahweh”, mas sim como “Yahweh Tseba’ot”, ou o Senhor dos
Exércitos, a bíblia aplica esse nome a Deus pela primeira vez em I Samuel 1:3, sendo que o
senhorio de Deus é aplicado tanto ao exército celestial, quanto ao exército israelita (Andrews,
2015). Brand (2022) afirma que a expressão “SENHOR dos Exércitos” é “um apelativo bélico
que concebe Deus como comandante em chefe das forças armadas de Israel, que luta as
batalhas de seu povo como um guerreiro.”. De acordo com o autor, “Yahweh Tseba’ot” é
mencionado 52 vezes apenas no livro de Zacarias, esse fato reforça a importância deste do
significado deste nome para aquele contexto específico. Tendo em vista que eles estavam
enfrentando dificuldades para reconstruir o Templo (contexto histórico), pode ser levado em
consideração que Deus se revela por esse nome a fim de garantir ao povo de que Ele não
havia se esquecido do seu povo, e que iria lutar as suas batalhas.
3 IDENTIFICAÇÃO O GÊNERO LITERÁRIO DA PASSAGEM
O livro de Zacarias é composto por diversos gêneros literários que vão mudando de
acordo com a maneira que o livro vai se desenvolvendo (Baldwin, 1982). O simples fato desse
livro fazer parte dos profetas menores, já indica que é um livro profético. O gênero profético
se divide em dois tipos: profético clássico e profético apocalíptico (Davidson, 2018). É
possível, considerar a existência de ambos os gêneros proféticos em todo o livro de Zacarias.
4 ESTUDO DO CONTEXTO HISTÓRICO/TEOLÓGICO
Na cena profética registrada em Zacarias 3:1-10, o profeta vê o sumo sacerdote Josué (v.
1), vestido com vestes sujas (v. 3) diante do Anjo do Senhor (v. 1). Frequentemente a Bíblia
apresenta uma relação da “veste” com a “justiça” (ver Dt 10:18; Is 61;10), nesse sentido o fato
do sumo sacerdote ser apresentado portando “vestes sujas diante do Anjo do Senhor”
simboliza não apenas o pecado dele e do povo (Is 64;6) a qual ele representava como sumo
sacerdote (Lv 9:7), mas também a incapacidade de ambos permanecerem na presença de Deus
(Ed 9:15). O profeta vê que “Satanás” do hebraico “Hassatan”, se coloca na cena para se opor
ou “acusar” Josué e seu povo de não poderem ser purificados por Cristo. Acusar é a obra de
Satanás, em Jó 1:9 ele acusa Jó de não obedecer a Deus por amor, mais por interesse; já em
Ap 12:10 ele é apresentado como “o acusador de nossos irmãos.
Nesse ponto o Anjo do Senhor, identificado por Zacarias como o próprio “Yahweh”
(v. 2) entra em ação e refuta as acusações de Satanás baseado não em sua própria autoridade
mas no nome de Yahweh, assim como é feito pelo arcanjo Miguel em (Jd 9). A Bíblia
apresenta a informação que logo após da declaração do Anjo do Senhor, de que Josué e seu
povo estavam como purificados de seus pecados (v. 5). Anjo, se dirige a Josué para chamar
sua atenção para o que dele se esperava (v. 7). O uso da palavra “protestou” (v.6) deve ser
entendido nesse contexto, como uma admoestação ou advertência sobre um comportamento
que se espera daquele que é advertido, tal afirmativa pode ser verificada no emprego que Judá
faz desta mesma palavra em Gênesis 43:3, ao declarar à seu pai a conduta que o então
governador do Egito (José) esperava deles como única condição disponível para que eles
pudessem voltar ao Egito e comprar mais alimentos. Nesse sentido o Anjo do Senhor advertiu
o sumo sacerdote, para que ele manifestasse em sua vida os frutos da salvação/purificação que
tinha acabado de receber. Caso Josué cumprisse as prerrogativas estabelecidas de obedecer a
Deus em todos os seus caminhos (v. 7), ele teria o privilégio não apenas de julgar o povo de
Deus (Dt 17:9), guardar os átrios de Deus, mais também teria acesso aos anjos de Deus que
estavam naquele ambiente (v. 4 e 7).
O Anjo do Senhor, continua se dirigindo a Josué, mas, agora Ele utiliza de outra
expressão para chamar a atenção do sumo sacerdote, sendo está a expressão “ouve, pois” (v.
8). O uso desta expressão, enaltece e o conteúdo da mensagem que será dita pelo Anjo, pois,
na maioria das vezes que essas duas palavras são empregadas juntas e, traz o sentido de ser
um pronunciamento solene a ser feito (ver exemplos: I Rs 22:19; I Reis 8:30; Dt 6:3). Nesse
sentido, Josué recebe a informação de que ele e os seus companheiros, compatriotas, eram
homens de presságio, ou prodígio conforme abordado aqui anteriormente. Logo, eles serviam
de representação para a nação daquilo que Deus estava disposto a fazer no meio deles. É nesse
ponto que a visão introduz a expressão “o meu servo” e o termo “Renovo”. A expressão “o
meu servo” já havia sido utilizada por profetas anteriormente para se referir ao Messias
vindouro e a sua obra (ex. Is 42:1; Is 53:11; Ez 34:23, 24; 37:24) tanto para se referir a obra
ou a pessoa do Messias. Adiante, o termo “renovo” também é um termo messiânico,
empregado por profetas anteriores a Zacarias no sentido de apresentar aquele daria
continuidade ao reinado Davídico por meio de sua descendência genealógica (Is 4:2; Jr 23:5;
33:15; Zc 3:8;). Assim sendo, o texto bíblico através da própria fala do Anjo do Senhor,
apresenta fortes indícios de que o sacerdócio na época de Josué fosse tipológico, protótipo do
descendente de Davi, Cristo (Mt 1:1) que viria ao mundo trazer libertação definitiva ao seu
povo.
Os indícios ficam ainda mais claros em Zacarias 6:12, quando o Senhor dos Exércitos
declara sobre Josué: “Eis aqui o homem cujo nome é Renovo …”. Portanto, pode haver uma
relação tipológica representativa, entre o sumo sacerdote Josué e o “Renovo” do Senhor,
conforme aponta Nichols (2013) e Andrews (2015). White, por sua vez, declara que o Senhor
fortaleceu o Seu povo com “palavras boas, palavras consoladoras”, e que através de uma
ilustração impressiva da obra de Satanás e da obra de Cristo, o povo pode perceber o poder do
seu mediador [Cristo, sumo sacerdote] “para derrotar o acusador” (White, 2007, p. 297).
É importante destacar que essa visão tem implicações não apenas para aquele tempo,
mas também para o presente e para o futuro. Isso porque ela é uma profecia clássica que
contém desdobramentos escatológicos, e profecia apocalíptica. Nesse contexto White (2007,
p. 300 e 301) diz que: [1] a visão de Josué diante do anjo se aplica ao remanescente do tempo
do fim, [2] a igreja só encontrará perdão e livramento no seu Advogado, Cristo Jesus, [3]
Deus acompanhará seu povo na provação e [4] através da provação o caráter do povo de Deus
será forjado, a fim de representar e apresentar Jesus ao mundo.
5 RELAÇÕES ENTRE ZACARIAS 3:8-10 COM ZACARIAS 6:12-13
ZACARIAS 3 ZACARIAS 6
SUMO SACERDOTE SUMO SACERDOTE
JOSUÉ JOSUÉ
SENHOR DOS EXÉRCITOS SENHOR DOS EXÉRCITOS
RENOVO RENOVO
O sumo Sacerdote no cap 6 representa o Messias, assim como em Zacarias 3: 1-4 ele
estava representando o povo. Ao ser coroado e chamado de renovo o Sumo Sacerdote Josué
estava tipificando Cristo Jesus. Esta declaração é esclarecedora, pois, Jesus cumpre a profecia
de Zc 6:13 “ E reinará Perfeita União entre ambos ofícios”, ao atuar como como sacerdote e
rei supremo como mencionado em Hb 4:14. Dessa forma, percebe- se as ligações entre ambos
os capítulos apontando para Cristo e suas funções no Santuário Celestial.
6 APLICAÇÕES
● Vestes sujas: O ser humano por si só, e sua própria justiça não pode prevalecer
diante do tribunal divino. Quanto antes o cristão tiver essa compreensão, mais rápido ele
entenderá a necessidade de buscar a Cristo como seu intercessor. (v. 1, 3).
● Anjo do Senhor: Enquanto você tiver Cristo como seu intercessor, Satanás
permanecerá derrotado, pois a intercessão de Cristo, garante a atuação do Senhor dos
Exércitos a favor do crente (v. 2).
● Vestes limpas: Após a intercessão de Cristo, a veste limpa, tem como significado o
perdão dos pecados, e restauração do favor do Senhor, bem como de sua justiça sendo
imputada no cristão (v. 4, 5 e 6).
● Após o perdão e purificação, é necessário que o crente viva de maneira a representar
Cristo e o seu senhorio aqui nesta terra, e para isso ele recebe auxílio especial dos anjos
ministradores (v 7, 8).